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Hipona, argumentamos que podemos estar seguros

de sua base bíblica. Sendo assim, veremos como


essa doutrina está presente na Bíblia e depois como
ela foi reafirmada pela Reforma protestante, além de
definir com maior precisão o que vem a ser pecado
original e depravação total.

A pintura na capa deste e-book é de DEFINIÇÕES E BASE BÍBLICA


Benjamin West e retrata a expulsão de Adão e Eva
O Dr. R. C. Sproul (1939-2017) define
do Paraíso conforme a revelação registrada por
Moisés em Gênesis. Alguns detalhes na pintura vão
não indica primariamente o primeiro ou original
além do relato escriturístico, mas ainda assim ela
pecado cometido por Adão e Eva. O pecado original
preserva a questão crucial: o pecado causou a
refere-se ao resultado do primeiro pecado a
ruptura no relacionamento entre Deus e o ser
corrupção da raça humana. Pecado original refere-se
humano. A doutrina do pecado original relata que os
.1 O teólogo da
efeitos do pecado não ficaram restritos ao casal no
velha Princeton, A. A. Hodge, por sua vez escreve:
Éden, mas atingiu a toda humanidade. Herdamos
desde o nascimento a natureza corrupta do primeiro A expressão pecado original é
empregada às vezes no sentido de
Adão e, por conseguinte, também somos incluir tanto a imputação judicial da
considerados culpados diante do tribunal divino. E 1
SPROUL, R. C. O Pecado Original. Monergismo. Disponivel
antes que alguém replique que isso é injustiça e que em:
<http://www.monergismo.com/textos/pecado_original/o-
tal doutrina é uma invenção de Agostinho de pecado-original_sproul.pdf>. Acesso em: 7 janeiro 2018.
culpa do pecado de Adão, como as pessoas levam consigo desde o momento de sua
também a corrupção moral
hereditária, que é uma das concepção e nascimento, proveniente de seus pais
consequências dessa imputação. Mais .4
restritamente, porém, a expressão
pecado original designa somente a
corrupção moral hereditária comum a Podemos perceber nas citações acima que o
todos os homens desde o seu pecado original é ensinado com base na revelação
nascimento.2
divina que narra em Gênesis 3 a Queda da
humanidade e a propagação hereditária da corrupção
Charles Hodge, também um teólogo
moral a partir de Adão e Eva. Apesar de Gênesis 3
princetoniano e pai de A. A.
não falar do pecado no Éden em termos de herança
efeitos do pecado de Adão sobre sua posteridade são
das gerações futuras, Romanos 5 estabelece os
declarados em nossos padrões como: (1.) A culpa de
contornos dessa doutrina.
seu primeiro pecado. (2.) A perda da retidão
original. (3.) A corrupção de toda a nossa natureza, a No capítulo 5 da epístola de Paulo aos
qual (isto é, a corrupção) recebe comumente o nome Romanos encontramos dois representantes federais
de pecado original .3 O teólogo holandês Herman de uma raça: Adão é o cabeça federal da raça
original humana e Cristo é o cabeça federal da raça eleita.
ou hereditário, só se entende a depravação moral que Como cabeça federal da humanidade, Adão foi
criado orig Eis aqui, o que tão-
2 somente achei: que Deus fez ao homem reto, porém
HODGE, A. A. Esboços de Teologia. São Paulo: PES, 2001. 445
p.
3 4
HODGE, C. Teologia Sistemática. São Paulo: Hagnos, 2001. BAVINCK, H. Dogmática Reformada. São Paulo: Cultura
652 p. Cristã, v. III, 2012. 104 p.
eles buscaram muitas astúcias . Tendo
sido criado justo, Adão tinha a liberdade volitiva . Essa expressão
para escolher o bem ou mal. A escolha que ele indica que a operaçã
fizesse como cabeça federal afetaria todos os seus algo já mencionado pelo apóstolo. E o que ele
descendentes. Adão foi colocado nessa posição de menciona anteriormente é o pecado que entrou no
representante da humanidade pelo próprio Deus. mundo. Para deixar mais evidente o ensino paulino
Como nosso representante Adão caiu do seu estado aqui podemos destacar que: a) por meio de Adão o
de justiça original e nós caímos juntamente com ele. pecado foi legado a todos os homens; b) assim
Ou seja, nós herdamos a corrupção moral de Adão, também a morte foi legada a todos os homens, isto é,
não fisicamente, mas por imputação. Deus, o pela representatividade de Adão.
soberano Juiz, imputa o pecado de nosso
Ainda falando da solidariedade da raça
representante a nós. Imputar é creditar algo na conta
humana com seu representante federal, Paulo
de uma pessoa Concluindo, da mesma forma como
Pois assim como por uma só ofensa veio o
o pecado ingressou no mundo por meio de um
juízo sobre todos os homens para condenação...
homem, e pelo pecado a morte, assim também a
(Rm 5:18). Dessa maneira, Deus estabeleceu Adão
morte foi legada a todos os seres humanos,
como cabeça da humanidade e quando ele caiu a
porquanto todos pecaram . O paralelismo
humanidade caiu. Essa representação é federal, o
nessa passagem indica que: 1) por um homem
que significa dizer que as consequências da Queda
(Adão) o pecado entrou no mundo; 2) a
de Adão nos atingem não em virtude de nossa
consequência do pecado (a morte) foi imputada a
todos os homens. É importante ressaltar que quando relação física com ele, mas em virtude de nossa
relação pactual. Herdamos sua corrupção moral não
por geração física, mas por imputação legal. O Caminho certo todos aqueles que
pecado original é desde a concepção, porém não por vivem mentindo
causa da concepção. Isso significa que a imputação
A doutrina da Depravação Total é uma
do pecado de Adão ocorre num ato judicial perante o
implicação direta da doutrina do Pecado Original.
tribunal divino e não em um ato sexual, como se o
Tendo explicado a definição de pecado original
sexo em si fosse algo pecaminoso.
como a herança proveniente de Adão, por
Além de Romanos 5:12-19, podemos citar imputação, de uma natureza moralmente corrompida
outros textos que fundamentam essa doutrina: e tendo demonstrado sua fundamentação
escriturística, vejamos a definição de Depravação
Total e sua base bíblica.
por um homem, também a
ressurreição dos mortos veio por um A ex
homem. Porque, assim como todos total depravity) pode ser enganosa e, por isso,
morrem em Adão, assim também precisamos entender corretamente aquilo que é
todos serão vivificad ensinado por ela. Por essa expressão alguns podem
(1 Co 15:21,22). entender que se ensina que o ser humano, por causa
Reconheço que sou pecador desde do pecado, é tão mal e corrupto quanto poderia ser,
o meu nascimento. Sim, desde que sendo incapaz de praticar qualquer ato cuja
me concebeu minha mãe . aparência externa é de bondade ou de justiça.
Desde o nascimento se rebelaram Todavia, não é esse o conteúdo exato da doutrina.
os ímpios e se desviaram do Antes, para esboçar corretamente o que se quer dizer
breve esboço da o foco de nosso estudo, embora se relacione com a
antropologia bíblica. questão.

. Segundo João Calvino as faculdades do


homem são: 1) inteligência; 2) vontade. Ainda de
, , estudo
dentre outras coisas, à investigação sobre a natureza é para discernir entre todas as coisas que nos são
do ser humano. De acordo com as Escrituras, o ser propostas, e julgar o que devemos aprovar ou
humano é uma unidade psicossomática, ou seja, o condenar. A função da vontade é escolher e seguir o
ser humano é formado por uma parte imaterial que o entendimento tiver julgado bom, e, ao
(denominada alma, espírito, coração, mente, etc.) e .5
por uma parte material formada a partir do barro Enquanto a razão é o guia da volição, ambas (razão e
(denominada corpo, carne, etc.). Existe na parte volição) devem, por sua vez, governar o corpo.
imaterial do homem, isto é, em sua alma o que é
Tendo feito esse breve resumo sobre a
frequentemente chamado de faculdades. Apesar de
antropologia bíblica, agora podemos definir mais
haver grande disputa filosófica sobre a quantidade
claramente o que queremos dizer por depravação
de faculdades que há na alma, iremos endossar aqui
total. Com essa doutrina afirmamos que o pecado
a divisão do reformador João Calvino, pois cremos
original, herdado de nossos pais por imputação, afeta
que ela está de acordo com as Escrituras, não
tanto nossa razão como nossa volição. Por
obstante contrariar a visão de muitos filósofos. Não
iremos aprofundar essa questão aqui, pois ela não é
5
CALVINO, J. As Institutas. São Paulo: Cultura Cristã, v. I, 2006.
93 p. Edição Especial.
depravação queremos significar a corrupção moral e acerca de Deus, de Cristo e de si
próprio. Seu coração está
contaminado, e não deseja Deus, mas,
corrupção no ser humano. O pecado corrompeu não em vez disso, ama o seu pecado. Sua
vontade está morta e é incapaz de
somente a razão, deixando a vontade intacta, como escolher o que é certo. Praguejados
por essa incapacidade total, os
se o homem ainda tivesse livre-arbítrio, isto é, a pecadores se acham sujeitos ao
capacidade de se inclinar em sua volição tanto para o pecado como seus escravos, incapazes
de mudarem e se tornarem realmente
bem como para o mal. Também a corrupção não bons. Estando espiritualmente morto
em seu pecado, o homem nem sequer
afetou apenas o livre-arbítrio, deixando incólume a consegue buscar o que é certo e justo.6
razão, como se o homem pudesse discernir sozinho o
A doutrina da depravação total, portanto,
conselho e o plano de Deus, independente da
diz respeito à corrupção moral que afeta todas as
revelação divina, sendo apenas incapaz de escolher
faculdades do ser humano. Essa doutrina não diz que
seguir por esse caminho. Antes, a corrupção afetou
o ser humano é tão mal quanto poderia ser, mas que
todas as faculdades do ser humano, deixando em
o pecado afetou sua natureza por inteiro. Tendo
mau funcionamento tanto sua razão como sua
definido a doutrina, vejamos sua base bíblica.
volição. Steven J. Lawson declarou:
A passagem de Gênesis 3 narra a Queda da
Toda humanidade nasce
espiritualmente morta em humanidade de seu estado de justiça original e de
transgressões e pecados. O homem seu relacionamento correto com o Criador. O
caído é totalmente depravado. O
pecado afetou radicalmente o homem mandamento de Deus era para que Adão e Eva não
total. Quer dizer, cada parte do
homem sua mente, suas emoções, e
sua vontade está contaminada pelo 6
LAWSON, S. J. Fundamentos da Graça: longa linha de vultos
pecado. Sua mente está obscurecida, o
piedosos. São José dos Campos: Fiel, 2012. 48 p.
que o torna incapaz de ver a verdade
comessem do fruto da árvore do conhecimento do Adão e Eva duvidaram da Palavra de Deus e isso foi
bem e do mal. A sanção para a desobediência a esse a ruína da humanidade. O teólogo reformado
mandamento era a morte. Ainda assim, quando François Turretini acompanha Lutero, mostrando
tentados pela Serpente, Adão e Eva comeram do que a incredulidade antecede o orgulho, mas
fruto que lhes fora proibido comer. A morte física insistindo que ambos caminham juntos:
não foi uma consequência imediata dessa
Mas a incredulidade não podia ter
desobediência, porém a morte espiritual ocorreu no lugar no homem, a menos que antes,
por irreflexão, ele cessasse de levar
dia em que eles comeram. Por morte espiritual em conta a proibição de Deus, sua
queremos dizer a separação do Criador, bem como a verdade e bondade. Se ele tivesse
continuamente direcionado seriamente
corrupção das faculdades discutidas acima. Isso não sua mente para ela (especialmente no
momento da tentação), nunca poderia
significa que Adão e Eva e seus descendentes
ter sido demovido de sua fé nem dado
perderam a alma, assim como suas faculdades. Eles ouvidos ao tentador. Por isso, pois,
surgiu primeiro a incredulidade ou
ainda eram constituídos de corpo e alma, sendo as desconfiança. Por isso o homem não
faculdades da alma o intelecto e a volição. No exerceu fé na palavra de Deus, à qual
ele estava obrigado, mas a princípio
entanto, o relacionamento correto que eles tinham livrou-se dela, pondo-a em dúvida, e
em seguida a negou, deixando de crer
com o Criador foi rompido e as faculdades da alma que o fruto lhe era proibido ou que
foram manchadas. morreria.7

Aqui Turretini demonstra com clareza que a


Alguns dos pais da igreja falaram do
origem do pecado reside na interioridade e os atos
orgulho como a raiz de todos os pecados. O monge
agostiniano Martinho Lutero identificou o motivo
7
TURRETINI, F. Compêndio de Teologia Apologética. São
básico desse ato pecaminoso como a incredulidade. Paulo: Cultura Cristã, v. I, 2011. 752 p.
pecaminosos físicos são precedidos por atos Em que noutro tempo andastes
segundo o curso deste mundo,
pecaminosos no pensamento. Esse ensino está de segundo o príncipe das potestades do
acordo com as palavras de Jesus: Porque do ar, do espírito que agora opera nos
filhos da desobediência; Entre os
coração procedem os maus pensamentos, mortes, quais todos nós também antes
andávamos nos desejos da nossa
adultérios, fornicação, furtos, falsos testemunhos e carne, fazendo a vontade da carne e
blasfêmias Mt 15:19). O coração (gr. ) nas dos pensamentos; e éramos por
natureza filhos da ira, como os outros
Escrituras é o centro interior da vida do ser humano: também (Ef 2:2-3).
Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu
coração, porque dele procedem as fontes da vida
O termo grego (sarx = carne) pode
(Pv 4:23). Ele é a sede da vida espiritual e a fonte
descrever a parte material do homem, mas também
dos pensamentos, das afeições, dos propósitos, etc.
pode ser usado como um termo que expressa a
Ainda na terminologia bíblica o coração pode ser
disposição moral que permanece ativa na escravidão
chamado de alma, mente, espírito. Esse coração é,
ao pecado. Quando usado da primeira maneira, a
segundo as Escrituras, tremendamente corrupto:
carne ou o corpo não carrega nenhuma conotação
Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas,
má. O cristianismo não pode ser confundido com
e desesperadamente corrupto; quem o conhecerá?
maniqueísmo ou com gnosticismo. Essas duas
(Jr 17:9). Estando o ser humano contaminado em sua
filosofias pagãs identificam o mal com a
raiz ele não pode dar bons frutos.
materialidade. Na visão gnóstica a matéria é
Paulo descreve esse estado de inerentemente má. Não é essa a cosmovisão cristã.
pecaminosidade da seguinte forma: Se a matéria fosse inerentemente má, a Bíblia não
ensinaria a ressurreição do corpo. No entanto, o
aproximar de Deus de alcançá-lo. Na realidade, esse
segundo sentido mencionado acima. Se essa for a expressa a inabilidade moral que flui do
conotação, então geralmente estará associada ao interior do ser humano. Essa corrupção faz com que
pecado. Paulo diz que, atuando sob a depravação o homem se incline para as coisas da carne e o
total, nós andávamos nos desejos da carne, fazendo a impede de se sujeitar à lei de Deus. Por isso
vontade da carne e dos pensamentos. Descrevendo ninguém será justificado por obras da lei.
em outro lugar nossa inabilidade moral, Paulo
Cogitar das coisas da carne é fazer do
afirma:
pecado objeto do pensamento. Pudemos ver que o
Porque os que se inclinam para a intelecto dirige a volição. Tendo feito do pecado
carne cogitam das coisas da carne;
mas os que se inclinam para o objeto do pensamento, o intelecto pode dirigir a
Espírito, das coisas do Espírito. vontade na direção da carne. Essa direção, contudo,
Porque o pendor da carne dá para a
morte, mas o do Espírito, para a vida e é diametralmente oposta àquela do caminho de
paz. Por isso, o pendor da carne é
inimizade contra Deus, pois não está Deus. Se inclinar em direção à carne é se separar
sujeito à lei de Deus, nem mesmo cada vez mais de Deus. E a separação de Deus já é
pode estar. Portanto, os que estão na
carne não podem agradar a Deus (Rm no dia em que dela comeres,
8:5-8).
certamente morrerás Gn 2:17). Por causa disso,
Paulo diz que o pendor da carne, ou seja, a
Quando o apóstolo diz que os que andam inclinação em direção ao pecado dá para a morte.
segundo a carne não podem estar sujeito à lei de
Esse não é o único lugar em que Paulo fala
Deus ele não está falando de uma barreira exterior
da inclinação para o pecado e da consequente
ao homem que impede aqueles que tentam se
separação do Criador como morte. Quando escreveu
E vos vivificou, estando vós di ...
mortos em delitos e pecados Ef 2:1). E uma vez 14:23).
(2Tm
Dentre as consequências dessa ruptura de
3:16) não há antítese entre o ensino de Paulo e o
relacionamento entre a criatura e o Criador está a
ensino de Jesus como alguns querem propor. Jesus
inimizade. A criatura começa a reger sua vida de
também fala dos pecadores como estando mortos:
uma maneira que o Criador desaprova. Essa maneira
-lhe: Segue-me, e deixa os
de conduzir a vida pode ser descrita como
mortos sepultar os seus mortos .
transgressão da lei. A lei é o padrão para a
Uma das formas em que essa morte se conformidade da mente, da vontade e do
expressa, conforme vimos, é a incredulidade. A comportamento corporal. O pecado, portanto, é a
incredulidade é primariamente concebida no transgressão voluntária ou qualquer falta de
intelecto. Turretini demonstrou isso quando disse conformidade à lei. Embora muitos possam estar
que a incredulidade é precedida por irreflexão. A familiarizados com a primeira definição, a segunda é
irreflexão, assim como a reflexão, tem seu lugar na tão importante quanto à primeira. Se restringirmos a
mente. Quando a mente deixa de considerar a definição de pecado à transgressão voluntária da lei
Palavra de Deus e em seguida passa a negá-la, a então a doutrina bíblica do pecado original será
incredulidade começa a tomar forma. Essa esmaecida. Agora a segunda definição é mais
incredulidade causa uma ruptura no relacionamento abrangente, podendo compreender a primeira. Por
correto com Deus, pois o homem afastado da isso usaremos a segunda definição doravante.
Palavra se inclinará para as coisas da carne. Paulo
A falta de conformidade à lei de Deus
Tu
és tão puro de olhos, que não podes ver o mal, e a falaciosas. A pessoa que é amiga do mundo perde o
opressão não podes contemplar Hc 1:13). Sendo prazer verdadeiro e duradouro:
Deus eternamente santo e justo, o desvio de Seu
Não ameis o mundo, nem as coisas
padrão moral não pode ser visto com indiferença. que há no mundo. Se alguém ama o
mundo, o amor do Pai não está nele;
Ele se ira perante cada injustiça cometida na terra. O porque tudo o que há no mundo, a
cálice do Seu furor se enche diante da maldade da cobiça da carne, a cobiça dos olhos e
a vaidade da vida, não vem do Pai,
E viu o Senhor que a maldade do mas sim do mundo. Ora o mundo
passa e a sua cobiça; mas aquele que
homem se multiplicara sobre a terra e que toda a
faz a vontade de Deus, permanece
imaginação dos pensamentos de seu coração era só para sempre. (1 João 2:15-17).
má continuamente Gn 6:5). Essa maldade contínua
do ser humano, fruto da incredulidade, coloca o ser O amor, sendo uma afeição que expressa
humano em oposição a Deus. É isso que a Bíblia apreço e valor por seu objeto, é um ato da volição. A
Adúlteros, não sabeis que a volição, contudo, é guiada pelo intelecto. Estando o
amizade do mundo é inimizade contra Deus? intelecto corrompido pelo pecado, ele fará do mundo
Aquele, pois, que quiser ser amigo do mundo, e não do Criador seu objeto de consideração,
constitui-se inimigo de Deus Tg 4:4). A amizade guiando a vontade a escolher o mundo e a rejeitar o
brota do amor e da confiança. Não é possível haver Criador. Esse é o pendor da carne, o estado de morte
amizade aonde a desconfiança predomina e o amor espiritual em que jaz o ser humano após a Queda.
está ausente. Ser amigo do mundo é confiar em suas Suas afeições estão desordenadas.
promessas e amar os seus prazeres. No entanto,
esses prazeres são fugazes e tais promessas são O estado caótico das afeições faz com que o
ser humano inverta seus valores e suas prioridades.
Paulo fala acerca disso em Romanos 1: Porquanto, Deus em mentira. Esse é um ato pecaminoso do
tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como intelecto. Quando esse ato pecaminoso foi cometido
Deus, nem lhe deram graças, antes em seus na mente, eles prosseguiram e honraram mais a
discursos se desvaneceram, e o seu coração criatura do que o Criador. Todo pecado físico é
insensato se obscureceu . 21). O estado de precedido por um pecado na mente e ainda que
pecaminosidade é descrito pelo apóstolo como muitos pecados não se expressem na dimensão física
disposição insensata e condição de loucura. isso não significa que a pessoa é sem pecado, pois o
Desprezar Jesus Cristo é insanidade mental. Essa que ela articula em seu coração também é
insensatez leva o homem E mudaram a Vocês ouviram o
glória do Deus incorruptível em semelhança da
imagem de homem corruptível, e de aves, e de Mas eu lhes digo: qualquer que olhar para uma
quadrúpedes, e de répteis Rm 1:23). É importante mulher para desejá-la, já cometeu adultério com ela
notar que a idolatria não é apenas adorar imagens ao no seu coração (Mt 5:27-28). Aqui Jesus diz que o
invés de dar glórias somente a Deus. Antes, idolatria adultério não ocorre somente na esfera física. O
Pois desejo impuro é um pecado cometido na mente, isto
mudaram a verdade de Deus em mentira, e honraram é, no coração.
e serviram mais a criatura do que o Criador, que é
Essa descrição bíblica não reflete a perdição
bendito eternamente. Amém Rm 1:25).
apenas de algumas pessoas. Na verdade, a Bíblia
Novamente, a Bíblia narra o movimento do descreve a situação de corrupção moral da
pecado do interior para o exterior. Os homens, sendo humanidade como um todo, com exceção de Jesus.
totalmente depravados, transformaram a verdade de A essa realidade chamamos universalidade do
pecado. Isso significa que toda humanidade está na nas ações: a língua enganadora, os lábios venenosos,
condição de perdição e de escravidão ao pecado. os pés que se dirigem para o mal.
Esse caráter universal da depravação total é relatado
Há muitas outras passagens nas Escrituras
em Romanos 3:10-18:
que estabelecem essa doutrina, mas cremos que
Não há nenhum essas são suficientes para esse estudo introdutório.
justo, nem um sequer; não há
ninguém que entenda, ninguém que Passemos agora a uma breve análise dessa doutrina
busque a Deus. Todos se desviaram, nos escritos dos reformadores e nas Confissões.
tornaram-se juntamente inúteis; não
há ninguém que faça o bem, não há
. Suas gargantas são A REFORMA PROTESTANTE E A
um túmulo aberto; com suas línguas DEPRAVAÇÃO TOTAL
. Veneno de serpentes está
. Suas bocas estão
cheias de maldição e ama . Um dos textos mais evidentes de Lutero foi
Seus pés são ágeis para derramar
escrito na sua controvérsia com o humanista Erasmo
sangue; ruína e desgraça marcam os
seus caminhos, e não conhecem o de Roterdã acerca do livre-arbítrio, a saber: De
. Aos seus olhos é
. Servo Arbitrio. Talvez seja anacronismo dar a
alcunha pós-moderno a Erasmo, mas seu espírito é
anti-dogmático. Isso se faz claro na abertura de seu
texto, quando diz que não se deleita com
sequer... não há quem entenda, ninguém que busque
.8 Além disso, Erasmo parece discutir

humanidade em sua totalidade. Esse desvio no


entendimento não há quem entenda tem reflexo 8
ERASMO. Livre-Arbítrio e Salvação. São Paulo: Reflexão,
2014. 64 p.
esse assunto como se fosse algo trivial.9 Após breve universal, o homem não pode voltar por si mesmo a
introdução, na qual discute a presença do Espírito Deus e tampouco cooperar com a graça. O poder do
Santo e a autoridade dos concílios e dos pais da evangelho sozinho vence a ignorância do pecador e
- lhe convence da verdade (monergismo). Lutero
afirmou:
força da vontade humana que capacita o ser humano
A conversão de qualquer pessoa
a dedicar-se às coisas que levam à salvação eterna acontece quando Deus vem até ela e
vence-lhe a ignorância ao revelar-lhe
.10 Embora a definição de a verdade do evangelho. Sem isso,
Erasmo não deixe antever sua visão sobre a graça, o ninguém jamais poderia ser salvo.
Ninguém, durante toda a história
humanista católico romano acreditava que a graça e humana, concebeu por si mesmo a
realidade da ira de Deus, conforme ela
a voluntas trabalhavam juntas para produzir a
nos é ensinada nas Escrituras.
salvação (sinergismo). Ninguém jamais sonhou em
estabelecer a paz com Deus por
intermédio da vida e da obra de um
A resposta de Lutero foi um ataque Salvador singular, o Homem-Deus,
contundente a tal visão. Para Lutero a vontade não Jesus Cristo. De fato, o que ocorre é
que os judeus rejeitaram a Cristo,
poderia cooperar com a graça, pois seu estado era de apesar de todo ensino que lhes foi
ministrado por seus profetas. Parece
escravidão ao pecado. Lutero retoma o ensino
que a justiça própria alcançada por
bíblico do pecado original para argumentar acerca da alguns judeus ou gentios os levou a
deixarem de buscar a justiça divina
vontade cativa. Sendo o pecado uma realidade através da fé, para fazerem as coisas à
sua própria maneira. Portanto, quanto
9
Ibid, p. 77.
10
ERASMO. Livre-Arbítrio e Salvação. São Paulo: Reflexão,
2014. 79 p.
- bem. Esta escravidão universal ao
tanto piores tornam-se as coisas.11 pecado inclui até mesmo aqueles que
parecem ser os melhores e mais retos.
Não importa o grau de bondade que
um homem possa alcançar; isso não é
O argumento de Lutero é devastador! O ser a mesma coisa que possuir
humano mal consegue conceber seu estado de conhecimento de Deus. O que há de
mais admirável é sua razão e sua
perdição, quanto mais o caminho para restabelecer a vontade, contudo, é forçoso
reconhecer que esta mais nobre
paz com Deus sem a graça! Ele é dependente da porção dos homens está corrompida.12
graça até mesmo para saber que há um caminho de
reconciliação em Cristo. Ele continua seu ataque ao
A profundidade exegética e argumentativa
livre-arbítrio apelando para a culpabilidade universal
de Lutero no debate com Erasmo pode ser explicada,
da humanidade:
em parte, pelo seu entendimento acerca da
Não somente são todos os homens, importância desse tema. Para Lutero, a questão do
sem qualquer exceção, considerados
culpados à vista de Deus, como livre-arbítrio não é uma questão trivial, mas de
também são escravos desse mesmo magnitude vital, conforme expressa Jean-Marc
pecado que os torna culpados. Isso
inclui os judeus, os quais pensavam Berthoud:
que não eram escravos do pecado
porque tinham a lei de Deus. Mas, De fato, para Erasmo, a questão da
visto que nem judeus nem gentios têm capacidade ou incapacidade humana
se mostrado capazes de
desvencilharem-se dessa servidão,
torna-se evidente que no homem não as questões inúteis, secundárias que
há poder que o capacite a praticar o poderíamos ignorar ou deixar de lado.
11 12
LUTERO, M. Nascido Escravo. 2ª. ed. São José dos Campos: LUTERO, M. Nascido Escravo. 2ª. ed. São José dos Campos:
Fiel, 2007. 20 p. Fiel, 2007. 21 p.
Mas para Lutero tratava-se de uma Na mesma linha de Lutero, João Calvino, o
questão relacionada à vida ou morte
eterna; para ele era absolutamente reformador de Genebra, afirma a depravação de
capital saber se a presciência de Deus nossa natureza. Ele define assim o pecado original:
era contingente, isto é, dependente de
eventos futuros variáveis, ou se era
absoluta, necessária, imutável.13
corrupção e perversidade na nossa natureza, que nos
faz culpados, primeiramente, da ira de Deus, tendo a
Para Lutero a Queda não erradicou a seguir produzido em nós as obras que a Escritura
vontade, mas a tornou cativa ao pecado. A vontade .15 Vê-se aqui que para o
ainda é uma faculdade da alma, mas sua inclinação é reformador genebrino os pecados que cometemos
para os ídolos. O luterano Robert Kolb resume bem são em virtude da corrupção da nossa natureza. Em
outras palavras, pecamos porque somos pecadores
ativa, mas é movida pela própria recusa de olhar ao invés de sermos pecadores porque pecamos.
para Deus a fim de encontrar a fonte de identidade
fundamental e, em vez disso, busca abrigo seguro
como a corrupção de nossa natureza, Calvino se
nas criaturas de Deus, recriadas como ídolos por
propõe a analisar a questão do livre-arbítrio. Ele nota
.14
com perspicácia que, embora essa expressão fosse
comumente utilizada, poucos definiam o que queria
dizer por livre-arbítrio. Dentre esses poucos que
13
BERTHOUD, J.-M. O Combate Central da Reforma. Brasília: apresentavam alguma definição, Calvino constatou
Monergismo, 2017. 40 p.
14 15
KOLB, R.; TRUEMAN, C. R. Entre Wittenberg e Genebra. CALVINO, J. As Institutas. São Paulo: Cultura Cristã, v. I,
Brasília: Monergismo, 2017. 121 p. 2006. 87 p. Edição Especial.
que a definição nem sempre era clara, encerrando comum de Deus. Por graça comum podemos
ambiguidades, e nem sempre correspondia à entender as dádivas imerecidas que são dispensadas
verdade. por Deus tanto a crentes como a incrédulos. A graça
comum não é salvífica. A graça especial, por outro
O que queremos destacar aqui, entretanto, é
lado, é dispensada apenas aos eleitos, mediante a
sua concordância com Lutero acerca da escravidão
regeneração, e é, consequentemente, salvífica.
da vontade. Em um trecho das Institutas Calvino diz:
que o homem não tem Contudo, a parte da graça de Deus, seja a
livre-arbítrio para praticar o bem, a não ser que seja graça comum ou especial, Calvino diz que o homem
ajudado pela graça de Deus, e pela graça espiritual é incapaz de qualquer bem em virtude de sua
ou especial, dada tão somente aos eleitos, mediante a natureza corrupta. Isso pode ser reforçado com essa
16
. Aqui Calvino fala de uma graça citação:
geral, que foi denominada posteriormente como
Se a carne é tão perversa que toda a
graça comum, e de uma graça especial. A graça sua inclinação a leva a exercer
comum explica porque os homens, mesmo que não pode consentir com a justiça divina;
tenham sido regenerados, são capazes de demonstrar em suma, se ela não pode produzir
coisa alguma senão morte, agora,
algumas atitudes moralmente boas, tais como sendo pressuposto que na natureza
humana não há outra coisa que não
honestidade, obediência civil, etc. Isso não significa
seja carne, como poderemos tirar dela
que essa bondade moral corrobore a bondade da sequer uma gota de bem?17

natureza humana. Antes, Calvino atribui isso à graça

16 17
CALVINO, J. As Institutas. São Paulo: Cultura Cristã, v. I, CALVINO, J. As Institutas. São Paulo: Cultura Cristã, v. I,
2006. 97 p. Edição Especial. 2006. 117 p. Edição Especial.
Quando fala de nossa natureza como a origem de toda boa dádiva no Pai das luzes (Tg
1:17). Ou seja, mesmo os pais que têm uma natureza
... a má só dão boas dádivas aos seus filhos por causa da
alma, submersa como está no abismo da iniquidade, graça comum de Deus.
não somente é defeituosa e má, mas também é vazia
Dissemos acima que a graça comum pode
.18 Embora já tenhamos alertado, faz-se
ser entendida como as dádivas imerecidas que são
mister ressaltar que a doutrina aqui exposta afirma
dispensadas por Deus tantos aos incrédulos quanto
que o pecado afeta todas as faculdades da alma e
aos crentes (veja Mt 5:45). Essa definição está
esse é o sentido de total .
incompleta, pois demonstra apenas os aspectos
Todavia, isso não significa que a natureza humana
positivos da graça comum. Há um aspecto negativo
dessa graça deveras relevante, isto é, a restrição do
bondades naturais. O próprio Jesus nos impede de
pecado. Isso explica porque o ser humano não
Se vós, pois, que sois maus, sabeis
demonstra nessa vida todo o potencial de sua
dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais vosso
maldade. -nos, porém,
Pai celeste dará boas coisas aos que lhe pedirem
considerar que, na corrupção universal de que
(Mt 7:11). O que Jesus diz é que, a despeito da
falamos, a graça de Deus tem seu lugar, não para
natureza do ser humano, ele ainda é capaz de dar
corrigir a perversidade da natureza, mas para
boas dádivas aos seus filhos. Se quisermos ir
reprimi-la e restringi- .19
adiante, lembremos que o apóstolo Tiago identificou

18 19
CALVINO, J. As Institutas. São Paulo: Cultura Cristã, v. I, CALVINO, J. As Institutas. São Paulo: Cultura Cristã, v. I,
2006. 119 p. Edição Especial. 2006. 119 p. Edição Especial.
Sendo assim, é preciso ter em mente que .À
Calvino distingue entre dois modos de operação da
graça de Deus. Na graça comum, a qual Calvino às conhecimento de Deus e da sua vontade, e as normas
vezes chama de especial ou de natural, Deus atua pelas quais o homem pode conformar a sua vida à
sobre o ser humano corrupto, seja ele um eleito ou .20
um réprobo, dando dádivas naturais ou restringindo
Tendo feito essa distinção, Calvino
sua corrupção. Já na graça espiritual, que Calvino
reconhece que o pecado não afetou totalmente as
também chama de especial, podendo confundir o
capacidades naturais do intelecto para compreender
leitor desatento, Deus atua apenas sobre os eleitos
as coisas terrenas. Ele afirma que está presente no
dando-lhes vida, mediante a regeneração ou novo
homem uma lei natural, bem como noções gerais
nascimento, e expurgando-lhes a maldade e não
acerca da política. Além desses princípios éticos e
apenas restringindo-a.

Também na ordem do intelecto Calvino faz apercepção universal da razão impressa


duas distinções: há o entendimento das coisas . Essa apercepção
terrenas e há o entendimento das coisas celestiais. universal da razão tem sido chamada de
Essas duas espécies de entendimento, segundo conhecimento inato e Calvino afirma que tal
Calvino, estão dispostas em níveis, sendo o propensão que há na natureza caída do homem em
entendimento das coisas celestiais de nível superior. buscar a verdade é um ornamento da graça divina.
Na primeira espécie o entendimento das coisas Essa luz que ilumina o intelecto, dando certa
terrenas contam-
20
CALVINO, J. As Institutas. São Paulo: Cultura Cristã, v. I,
de governar bem a casa, as artes mecânicas, a 2006. 104 p. Edição Especial.
sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela
naturalmente a todos como um benefício gratuito da loucura da pregação 1 Co 1:21).
sua [de Deus] generosidade para com cada um dos
Calvino prossegue então e mostra que, se o
.21
pecado não teve tanto impacto no intelecto no que
Essa faculdade do entendimento, sendo um diz respeito ao entendimento das coisas terrenas, a
dom da graça comum a todos os homens, permite a corrupção da natureza humana arruinou de tal modo
compreensão das coisas terrenas. No entanto, essa o intelecto no que tange ao entendimento das coisas
faculdade do entendimento e da inteligência, tendo a celestiais que os melhores dos homens não passam
capacidade de entender certas coisas no mundo de cegos nesse assunto quando prosseguem sem o
auxílio da revelação divina. No máximo, eles têm
importância perante Deus, quando lhe falta o firme alguns lampejos da verdade por causa do
22
. Como diz o apóstolo: conhecimento inato de Deus e por causa da luz da
Porque está escrito: Destruirei a sabedoria dos natureza, que revela os atributos de Deus. Esses
sábios, E aniquilarei a inteligência dos inteligentes lampejos, todavia, não são suficientes para tirar o
(1 Co 1:19). Visto como na sabedoria homem de sua ignorância e cegueira espirituais.
de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua
Para não nos delongarmos nesse ponto, faz-
se mister dizer que Calvino, após considerar de que
21 modo o pecado afetou o intelecto, obscurecendo o
CALVINO, J. As Institutas. São Paulo: Cultura Cristã, v. I,
2006. 105 p. Edição Especial. entendimento das coisas celestiais, ele considera de
22 que modo o pecado afetou a vontade, aniquilando
CALVINO, J. As Institutas. São Paulo: Cultura Cristã, v. I,
2006. 107 p. Edição Especial.
sua liberdade. Ao comentar o texto de João 8:34, que
(1623-1687) expôs essa doutrina da depravação
total. Ao investigar se o pecado original, herdado de
somos pecadores por natureza, segue-se que estamos Adão, constitui mera privação ou uma certa
sob o jugo do pecado. E mais, se todos os homens qualidade positiva, Turretini evitou os papistas que
estão presos à servidão do pecado, é necessário que tratam dos efeitos do pecado como mera privação.
a vontade, que é a principal parte da constituição do Para o romanismo, a justiça original era um dom
seu ser, seja apertada e amarrada com laços sobrenatural acrescentado à natureza humana
23
. Em outras palavras, Calvino concorda (donum superadditum). Quando o homem pecou,
com Lutero: a vontade não é livre, mas está cativa ao esse dom da justiça original foi perdido, mas suas
pecado, a menos que Cristo nos liberte! E em seu faculdades naturais, como o intelecto e a vontade,
Como a permaneceram intactas. Nesse sentido, o pecado
morte espiritual não é outra coisa senão o estado de original era visto como privação da justiça original,
alienação em que a alma subsiste em relação a Deus, não afetando, contudo, as demais faculdades do
já nascemos todos mortos, bem como vivemos homem. Turretini, por outro lado, apela para as
mortos, até que nos tornamos participantes da vida Escrituras no intuito de demonstrar que o pecado
24
de Cristo... . não se constitui apenas de privação, mas de
qualidade má presente de modo inerente ao homem.
Antes de passar as Confissões, vejamos
Ao definir o pecado como qualidade, Turretini quer
ainda como o teólogo reformado François Turretini
mostrar que ele é distinto da substância a qual se
23
CALVINO, J. As Institutas. São Paulo: Cultura Cristã, v. I, liga, isto é, distinto da essência do ser humano. Ele
2006. 116 p. Edição Especial.
corrompe a essência, mas não é em si a essência do
24
CALVINO, J. Efésios. São José dos Campos: Fiel, 40 p.
ser humano. E como qualidade que corrompe a
natureza humana, o pecado não apenas priva o ser do bem externamente moral. Todavia, o homem
humano da retidão original, mas condiciona o pecador, espiritualmente morto, foi afetado por uma
homem em sua inclinação para a injustiça:
. A
Os homens não são somente
destituídos de retidão, mas também vontade do pecado não-regenerado não se inclina
são saturados de injustiça; não
somente apostatados de Deus, como o
para esse segundo bem, pois está escravizada ao
bem imutável e eterno, mas também pecado.
voltados para a criatura e inclinados a
todo vício... Ele [o pecado] introduz
uma desordem universal (ataxian) na CITAÇÕES DAS CONFISSÕES
natureza e em todas as suas
faculdades, e geralmente é descrito Confissão de Fé de Westminster, Capítulo
como loucura, cegueira e ignorância
na mente; perversidade e contumácia VI:
ou rebelião na vontade; e desordem ou
dureza ( ) nas afeições, pelas II. Por este pecado eles decaíram da sua retidão
quais o homem é não somente avesso
a todo bem, mas também propenso a original e da comunhão com Deus, e assim se
todo mal.25 tornaram mortos em pecado e inteiramente
corrompidos em todas as suas faculdades e partes do
Turretini, assim como Calvino, distingue corpo e da alma.
entre assuntos terrenos e assuntos celestiais nessa
Gen. 3:6-8; Rom. 3:23; Gen. 2:17; Ef. 2:1-3; Rom.
questão. Para ele, os pecadores ainda são capazes,
5:12; Gen. 6:5; Jer. 17:9; Tito 1:15; Rom.3:10-18.
com o auxílio da graça comum, de virtudes cívicas e
III. Sendo eles o tronco de toda a humanidade, o
25
TURRETINI, F. Compêndio de Teologia Apologética. São
Paulo: Cultura Cristã, v. I, 2011. 791 p.
delito dos seus pecados foi imputado a seus filhos; e
a mesma morte em pecado, bem como a sua nos ensina a Escritura: "A luz resplandece nas
natureza corrompida, foram transmitidas a toda a sua trevas, e as trevas não prevaleceram contra ela"
posteridade, que deles procede por geração (João 1:5). Aqui o apóstolo João chama os homens
ordinária. "trevas". Por isso, rejeitamos todo o ensino
contrário, sobre o livre arbítrio do homem, porque o
At. 17:26; Gen. 2:17; Rom. 5:17, 15-19; I Cor.
homem somente é escravo do pecado e "não pode
15:21-22,45, 49; Sal.51:5; Gen.5:3; João3:6.
receber coisa alguma se do céu não lhe for dada"
IV. Desta corrupção original pela qual ficamos (João 3:27).
totalmente indispostos, adversos a todo o bem e
Confissão Belga, Artigo 15:
inteiramente inclinados a todo o mal, é que
procedem todas as transgressões atuais. Cremos que, pela desobediência de Adão, o
pecado original se estendeu por todo o gênero
Rom. 5:6, 7:18 e 5:7; Col. 1:21; Gen. 6:5 e 8:21;
humano1. Este pecado é uma depravação de toda a
Rom. 3:10-12; Tiago 1:14-15; Ef. 2:2-3; Mat. 15-19.
natureza humana2 e um mal hereditário, com que até
Confissão Belga, Artigo 14 (trechos): as crianças no ventre de suas mães estão
contaminadas3. É a raiz que produz no homem todo
Tornando-se ímpio, perverso e corrupto em
tipo de pecado. por isso, é tão repugnante e
todas as suas práticas, ele perdeu todos os dons
abominável diante de Deus que é suficiente para
excelentes5, que tinha recebido de Deus. Nada lhe
condenar o gênero humano4. Nem pelo batismo o
sobrou destes dons, senão pequenos traços, que são
pecado original é totalmente anulado ou destruído,
suficientes para deixar o homem sem desculpa6.
porque o pecado sempre jorra desta depravação
Pois toda a luz em nós se tornou em trevas7 como
como água corrente de uma fonte contaminada5. O
pecado original, porém, não é atribuído aos filhos de
Deus para condená-los, mas é perdoado pela graça e
misericórdia de Deus6. Isto não quer dizer que eles
podem continuar descuidadamente numa vida
pecaminosa. Pelo contrário, os fiéis, conscientes
desta depravação, devem aspirar a livrar-se do corpo
dominado pela morte (Romanos 7:24). Neste ponto
rejeitamos o erro do pelagianismo, que diz que o
pecado é somente uma questão de imitação.

1 Rm 5:12-14,19. 2 Rm 3:10. 3 Jó 14:4; Sl


51:5; Jo 3:6. 4 Ef 2:3. 5 Rm 7:18,19. 6 Ef 2:4,5.

Cânones de Dort, Capítulos 3 e 4:

3. Portanto, todos os homens são


concebidos em pecado e nascem como filhos da ira,
incapazes de qualquer ação que o salve, inclinados
para o mal, mortos em pecados e escravos do
pecado. Sem a graça do Espírito Santo regenerador
nem desejam nem tampouco podem retornar a Deus,
corrigir suas naturezas corrompidas ou ao menos
estar dispostos para esta correção.

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