Você está na página 1de 8

Publicação - online

Março de 2011 AUTORA: CRISTINA BRUNO BARROS

Conteúdo As Relações Comerciais Brasileiras


 Página 1 como uma Estratégia Internacional e
A Política Externa Brasileira na
Era Lula
de Desenvolvimento
 Página 2
Atores internacionais
 Página 3
As empresas e a projeção bra-
sileira
A Política Externa Brasileira na Era Lula receber, atenção especial. As relações com
 Página 4
países desenvolvidos deveriam tomar as
- Transição e panorama em
2011 Desde a virada do milênio e, mais especifi- devidas proporções, semelhantes às atribuí-
- Multilateralismo brasileiro e camente, após a posse do então presidente das à relação sul-sul, assim como as rela-
parcerias estratégicas Lula, em 2003, a política externa brasileira ções econômicas, comerciais e políticas com
 Página 6 tem passado por grandes transformações China e EUA deveriam ser repensadas.
Cenário atual e balança co- na busca de uma liderança regional e de
mercial
projeção global, promovendo uma maior É notório que as relações comerciais estão
 Página 7
aproximação em relação aos países desen- interligadas com outros assuntos de ordem
Agenda brasileira
volvidos. Não se pode negar que o Brasil interna e externa, seja direta ou indireta-
tem feito avanços importantes e, com isso, mente, pois estas são estratégicas não só
tem conquistado um espaço cada vez maior para a projeção internacional do Brasil, mas
no cenário internacional, desempenhando também para a promoção do desenvolvi-
um papel relevante em temas globais como mento do país. Segundo o ex- presidente,
mudança climática, democracia, direitos alguns dos principais fatores para o desen-
humanos e comércio exterior. volvimento nacional seriam a promoção do
comércio exterior, a integração regional e
As prioridades do governo Lula foram cla- as negociações comerciais com outros blo-
ramente delimitadas: a busca pela conquis- cos e países.
ta de um assento permanente no Conselho
de Segurança das Nações Unidas, a formu- Durante o governo Lula, a institucionaliza-
lação de um acordo comercial na Rodada ção de blocos e grupos de coalizão com paí-
Doha e o aprofundamento da integração ses em desenvolvimento na busca pela di-
regional, permitindo o exercício da liderança versificação de parcerias foi um marco na
na América do sul e no MERCOSUL, além de política externa. Já em 2003, o Brasil se
retomar o multilateralismo por meio de par- tornou membro do IBAS (Brasil, Índia e Á-
cerias estratégicas. Nesse contexto, a políti- frica do Sul) e do G-20 e em 2009, foi a vez
ca externa tem exercido grande influência dos BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China),
na escolha dos nossos parceiros, em que potencializando as relações bilaterais com
algumas relações recebem, ou deveriam países estratégicos e, consequentemente,
Konrad-Adenauer-Stiftung e. V. 2

PUBLICAÇÃO-ONLINE
gerando uma maior autonomia em relação Contudo, o Brasil vai muito além, desenvol-
MARÇO DE 2011
às grandes potências, além de uma maior veu uma política externa abrangente e pró-
visibilidade na esfera internacional e maior ativa, segundo Amorim, buscando uma am-
www.kas.de/brasil
poder de barganha em foros multilaterais, pla agenda multilateral, na qual os EUA são
como OMC, FMI e ONU. No G-20, por e- parceiros fundamentais e estratégicos, ape-
xemplo, o Brasil tem atuado de maneira ati- sar de não serem os únicos. Ele defende
va defendendo a reforma do FMI. Blocos que o acordo de comércio e investimentos
como o G-20 são fundamentais para pro- entre Brasil e EUA também deva ser priori-
mover a cooperação entre os mais diversos dade na agenda do país. Este acordo facili-
países, com níveis de desenvolvimento dis- taria a discussão acerca da redução de bar-
tintos, estimulando uma economia global reiras não tarifárias no comércio bilateral e
mais equilibrada e mais propícia ao cresci- projetos de investimentos.
mento e desenvolvimento.
A diplomacia brasileira também estreitou os
Atores internacionais laços com o Oriente Médio, países árabes e
África, buscando incrementar parcerias es-
As transformações das realidades econômi- tratégicas comerciais e políticas. Entre o
ca, social e política do Brasil também foram Brasil e os países árabes, o comércio qua-
fatores preponderantes para alçar o país druplicou em sete anos. Com a África foi
nos principais debates da agenda interna- cinco vezes maior, ultrapassando até mes-
cional. No que tange ao MERCOSUL e a in- mo parceiros tradicionais como Alemanha e
tegração regional, o Brasil tem procurado Japão.
integrar o continente sul-americano por
meio do comércio, infraestrutura e do diálo- A União Europeia (UE) permanece como
go político. A reconstrução do bloco não só parceiro fundamental do Brasil nos campos
gerou um espaço para a liderança brasileira político e econômico, mas no campo comer-
e para a retomada do crescimento da eco- cial, as questões relativas à liberalização
nomia dos países vizinhos como abriu as comercial ainda não tem demonstrado mo-
portas para a cooperação com países de ou- vimentos relevantes. Entretanto, a União
tras regiões. Entretanto, as prioridades es- Europeia estuda eliminar a tarifa de impor-
tabelecidas pelo Brasil tem tido um custo tação para o etanol brasileiro, por exemplo.
mais alto do que de fato resultados concre- Segundo entrevista do embaixador João Pa-
tos e quando o assunto é o processo de in- checo, a UE terá que comprar o etanol bra-
tegração regional – em especial o MERCO- sileiro, pois os europeus não conseguem
SUL - e as relações bilaterais com países competir com o mesmo. A relação bilateral
sul-americanos, isso fica ainda mais eviden- Brasil-UE está refletida na Parceria Estraté-
te. Para o Embaixador Rubens Barbosa, o gica, que engloba temas variados e vai des-
MERCOSUL deveria ser flexibilizado para de a cooperação em política e em foros e-
facilitar as negociações comerciais e, do conômicos mundiais até mudança climática
ponto de vista interno, o comando efetivo e desenvolvimento sustentável, passando
da política de comércio exterior e das nego- pelas relações comerciais e de investimen-
ciações externas, deveria passar a ser exer- tos. Segundo dados divulgados pela Confe-
cido pela Camex (Câmara de Comércio Ex- deração Nacional da Indústria (CNI), o co-
terior). mércio bilateral entre Brasil e UE decaiu em
24%, assim como os investimentos euro-
peus no Brasil, que sofreram uma queda de
Konrad-Adenauer-Stiftung e. V. 3

PUBLICAÇÃO-ONLINE
90% em 2009, em relação a 2008, - parte sentaram um aumento no primeiro semes-
MARÇO DE 2011
por causa da entrada de novos atores na tre de 2010, estimulando uma recuperação
agenda brasileira, parte por causa da crise do MERCOSUL na pauta brasileira. As ex-
www.kas.de/brasil
econômica -, mas a UE continua sendo um portações para Europa Oriental e América
grande parceiro estratégico e uma das prin- Latina também aumentaram, em contrapar-
cipais fontes de investimento direto no Bra- tida com a desaceleração de vendas para a
sil. E mais, cinco dos dez principais destinos China , apesar de manter o superávit bilate-
de investimentos brasileiros são europeus: ral.
França, Holanda, Portugal, Dinamarca e Es-
panha. Vale ressaltar também que a reto- As empresas e a projeção brasileira
mada das negociações comerciais entre
MERCOSUL e União Europeia – como blocos Um fato bastante relevante para o comércio
– também tem tido destaque, apesar da brasileiro e que tem ganhado destaque em
cautela brasileira e da dificuldade em con- 2010 é o processo de internacionalização de
cluir um acordo comercial. empresas, que geraram investimentos de
quase US$ 12 bilhões – segundo dados do
Segundo Celso Amorim, o Brasil tem adota- Boletim da Sociedade Brasileira de Estudos
do posições coerentes em todas as áreas, de Empresas Transnacionais e da Globaliza-
seja de segurança, mudança climática ou ção Econômica (SOBEET) – apesar de a ta-
comércio, o que o tornou um país forte nas xa de investimento brasileiro no exterior
grandes discussões mundiais. O protecio- ainda ser pequena, em relação ao PIB. Se,
nismo comercial realmente aumentou desde por um lado, a valorização do Real tem feito
2008, por causa da crise econômica mundi- o país perder competitividade, se pensar-
al, mas segundo Amorim, é por não temer mos nas exportações, por outro lado, esta
ações ousadas que o Brasil está colhendo valorização ajudou na recuperação dos in-
inúmeros resultados como a integração sul- vestimentos brasileiros, que haviam sido
americana e a consolidação do MERCOSUL. prejudicados pela crise financeira interna-
O Brasil tem se mostrado equilibrado e con- cional de 2008. Isso tem favorecido a inter-
tinua crescendo e atraindo investimentos nacionalização das empresas brasileiras,
mesmo em meio à crise, mas há controvér- que tem investido em obras de infraestrutu-
sias se de fato houve resultados concretos ra, bens de consumo e serviços, tendo um
relevantes. olhar privilegiado para a América do Sul.
Para o empresariado brasileiro, o MERCO-
Para Robson Braga de Andrade, novo presi- SUL é um problema a ser enfrentado, o blo-
dente da Confederação Nacional da Indús- co precisa deixar de ser somente político
tria (CNI), o Brasil está engessado dentro para se tornar econômico. Há um conside-
do MERCOSUL, sem conseguir progredir nos rável hiato entre os interesses das empre-
acordos comerciais, uma vez que as ques- sas brasileiras e os interesses ditos do país.
tões políticas tem dificultado as ações em-
presariais. Além disso, por causa da crise No entanto, é inegável que se abriu um no-
cambial, o país vem perdendo competitivi- vo cenário para o desenvolvimento multipo-
dade. Os superávits comerciais no Brasil em lar e, ao fortalecer o setor produtivo, sem
2010 sofreram grande redução por causa do desconsiderar a sustentabilidade ambiental
crescimento das importações e da desacele- e social, o Brasil passou a assumir uma po-
ração das exportações. Entretanto, as ex- sição estratégica ainda maior neste cenário,
portações brasileiras para a Argentina apre- além de promover um maior desenvolvi-
Konrad-Adenauer-Stiftung e. V. 4

PUBLICAÇÃO-ONLINE
mento para o próprio país. E tudo indica ceiros africanos em paralelo com a priorida-
MARÇO DE 2011
que continuará assim. As prioridades serão de regional, sem perder o foco no MERCO-
mantidas no novo governo, pelo menos se- SUL. Patriota também disse que irá “traba-
www.kas.de/brasil
gundo declarações da presidente Dilma lhar por resultados ambiciosos e equilibra-
Rousseff, que diz pretender continuar com dos nas negociações da Rodada Doha”. A
os esforços de integração da América do intenção brasileira é fechar o pacote de libe-
Sul, fortalecimento do MERCOSUL e lideran- ralização agrícola, industrial e de serviços e
ça do Brasil no bloco, além de manter o diá- assinar o acordo ainda este ano. Até o mo-
logo estratégico com países da União Euro- mento, o que já está negociado irá abrir
peia e com outras potências emergentes mais o mercado brasileiro, inclusive para a
como Índia, África do Sul, Rússia e China. O China. Mas alguns impasses ainda perma-
comércio exterior será prioridade de Dilma. necem, os EUA exigem um maior acesso
dos seus produtos industrializados ao mer-
Transição e panorama em 2011 cado brasileiro, mas tantos os americanos
quanto outros países desenvolvidos se recu-
Em seu discurso de posse, Dilma falou de sam a permitir um maior acesso de produ-
ampliar a força exportadora e da importân- tos agrícolas brasileiros em seus países, in-
cia de continuar fortalecendo as reservas cluindo a UE.
para manter o equilíbrio das contas exter-
nas. Ela também defendeu a atuação do Multilateralismo brasileiro e parcerias
Brasil em fóruns multilaterais visando uma estratégicas
política econômica equilibrada e a não con-
cessão ao protecionismo de países ricos. De O Brasil enfrenta na OMC os EUA e suas
acordo com Luciano Coutinho, presidente do barreiras ao etanol, a UE em função da car-
BNDES em entrevista para o Jornal Estado ne e a China por medidas compensatórias
de São Paulo, Dilma assumiu o compromis- aos danos causados pelos seus importados.
so de elevar os investimentos nas exporta- O Brasil tenta negociar acordos, mas está
ções. Segundo previsões do Ministério do cada vez mais difícil. Entretanto, a alta dos
Desenvolvimento, Indústria e Comércio Ex- preços dos produtos agrícolas fez o Brasil
terior (MDIC), a meta para as exportações virar o jogo na Rodada Doha, propondo um
em 2011 é de mais de US$ 200 bi. As ex- acordo setorial na agricultura para compen-
portações de produtos básicos foram as que sar a abertura que deverá fazer nas áreas
mais cresceram, sendo os principais desti- industrial e de serviços, o que acabou pe-
nos de mercadorias brasileiras a China, EU- gando os países desenvolvidos de surpresa.
A, Argentina, Holanda e Alemanha. Pelos acordos setoriais, os países interessa-
dos eliminam ou reduzem significativamente
Seguindo a visão de Dilma, o novo ministro as alíquotas de importação de um segmento
das Relações Exteriores Antônio Patriota, específico. O setor de carnes, por exemplo,
declarou que não mudará a linha da era Lu- é um dos que poderiam receber cortes tari-
la. Segundo ele, a diplomacia do Itamaraty fários maiores e em ritmo mais acelerado.
está apoiada em três eixos: o reforço das Mas é verdade que, devido à situação em
relações tradicionais com os vizinhos sul- que o país se encontra, o governo de Dilma
americanos, EUA, Europa e Japão; a diversi- tem pouca capacidade para se comprometer
ficação de parcerias e o aperfeiçoamento do com liberalização adicional e, portanto, pa-
multilateralismo. Ademais, ele ressaltou em rece bem menos flexível em termos de a-
seu discurso uma agenda ativa com os par- bertura do mercado brasileiro
Konrad-Adenauer-Stiftung e. V. 5

PUBLICAÇÃO-ONLINE
Segundo Patriota, o Brasil também está equipamentos, além do setor que a CNI
MARÇO DE 2011
empenhado no acordo de livre comércio classifica como "indústrias diversas". Esse
MERCOSUL-UE, mas a valorização do real fenômeno é devido ao baixo custo de pro-
www.kas.de/brasil
tem dificultado as concessões na área in- dução na China e a valorização do real.
dustrial. O câmbio mudou a posição do país.
A UE é o maior parceiro comercial brasileiro, Mas ao contrário dos EUA, a insatisfação do
superando os US$ 74 bilhões de trocas co- Brasil, na verdade, está voltada para “a
merciais em 2010. Outro dado importante é composição da pauta comercial sino-
que quase metade do estoque de investi- brasileira e não apenas nos números”, de
mento externo direto no Brasil é provenien- acordo com Rodrigo Maciel ex-economista-
te de países membros da UE, fortalecendo chefe do Conselho Empresarial Brasil-China
ainda mais esta parceria. Mas para que haja e, atualmente, sócio da Strategus Consulto-
um acordo birregional concessões deverão ria. Ainda segundo ele, nos últimos cinco
ser feitas: o MERCOSUL nas áreas industrial anos, de tudo o que o Brasil importa da
e de serviços, e a UE, na agricultura. Entre- China, 70% é pela indústria, mas dentro
tanto, Patriota admite que a situação é mais destas importações incluem maquinário pa-
difícil na Rodada Doha, na qual os EUA exi- ra renovação e expansão do parque indus-
gem abertura adicional profunda por parte trial e insumos mais baratos que garantem
do Brasil, China e Índia. a maior competitividade brasileira nos mer-
cados doméstico e internacional.
Os EUA perderam espaço no comércio brasi-
leiro. Apesar de um aumento de 24% nas Em contrapartida, as exportações do Brasil
exportações brasileiras para o mercado a- ao mundo árabe bateram recorde em 2010.
mericano, as importações aumentaram em Os embarques renderam US$ 12,57 bilhões,
mais de um terço e, assim, o déficit no co- um aumento de 34% em comparação com
mércio com os EUA subiu 75% no ano pas- 2009, enquanto as importações de produtos
sado - de aproximadamente US$ 4,5 bilhões árabes totalizaram US$ 6,96 bilhões, avan-
para quase US$ 8 bilhões. Brasil e EUA es- çando 33%. O resultou foi um superávit
tão empenhados na negociação do acordo comercial de US$ 5,61 bilhões, valor tam-
de troca de informações em matéria tributá- bém recorde. Segundo dados divulgados
ria, mas não há perspectiva de terminar tão pela Câmara de Comércio Árabe Brasileira,
cedo uma das negociações de maior inte- os principais destinos das mercadorias bra-
resse para o setor privado - contra a bitri- sileiras no mundo árabe foram a Arábia
butação das empresas que atuam nos dois Saudita, que importou o equivalente a US$
países. 3,09 bilhões, aumento de 59% em relação a
2009; Egito, com importações de US$ 1,97
Em relação à China, de acordo com a Son- bilhão, 36% a mais; Emirados Árabes Uni-
dagem Especial divulgada pela Confedera- dos, com US$ 1,85 bilhão, um crescimento
ção Nacional da Indústria (CNI), 52% das de 4,7%; e Argélia, com US$ 838,75 mi-
indústrias exportadoras brasileiras concor- lhões, um aumento de 17%. Os produtos
rem com fábricas chinesas em outros mer- brasileiros que mais foram exportados em
cados. De acordo com os dados publicados, 2010 foram açúcar, carne de boi e de fran-
a competição é mais intensa em seis seto- go e minério de ferro. E ainda há espaço
res industriais: de material eletrônico de para ampliar as vendas de alimentos em
comunicação, têxteis, equipamentos hospi- geral e de outros itens, como artigos de
talares e de precisão, calçados, máquinas e moda e bens de capital.
Konrad-Adenauer-Stiftung e. V. 6

PUBLICAÇÃO-ONLINE
O comércio entre o Brasil e a Alemanha em cia de Mubarak lança expectativas positivas
MARÇO DE 2011
2010 também bateu recorde. Com a crise para o comércio exterior brasileiro.
financeira global, as relações comerciais en-
www.kas.de/brasil
tre os dois países sofreram uma retração Cenário atual e balança comercial
em 2009, mas no ano seguinte apresentou
uma rápida recuperação e alcançou um Segundo Aldo Fornazier, diretor acadêmico
crescimento de 29%, com um saldo de US$ da Fundação Escola de Sociologia e Política
20,7 bilhões contra US$ 16,0 bilhões em de São Paulo, o que ocorre no Brasil é a au-
2009. O fator que mais contribuiu para o sência de uma estratégia de expansão co-
avanço das exportações brasileiras foi a ex- mercial no país que pode ser percebida di-
pansão nas saídas de minério de ferro, café, ante da precária infraestrutura e os custos
automóveis, soja, minério de cobre e avi- portuários e de logística. Para ele, “...não
ões. Do lado dos europeus, destaque para existem no país plataformas logísticas mo-
medicamentos humanos e veterinários, au- dernas de exportação. A própria legislação
tomóveis, tratores e compostos químicos. é, em vários casos, um entrave às exporta-
Segundo dados da Secretaria de Comércio ções. E apesar de o Brasil ter sido um dos
Exterior do Ministério do Desenvolvimento, mais ativos demandantes de investigações
as exportações brasileiras para a Alemanha na OMC, é possível dizer que não existe
chegaram a US$ 8,1 bilhões em 2010, um uma sólida política de defesa comercial”.
avanço de 31,8% se comparado com 2009.
As importações brasileiras aumentaram As exportações brasileiras tem dependido

27,2% totalizando US$ 12,6 bilhões. A Ale- fortemente de um número reduzido de

manha ocupa a quinta posição entre os commodities – com destaque para o minério

principais mercados de destino de produtos de ferro, petróleo bruto, complexo soja,

brasileiros, atrás apenas da China, Estados complexo carne e açúcar - e bastante do

Unidos, Argentina e Países Baixos. Entre os mercado chinês, que comprou 43,3% do

países exportadores de produtos ao Brasil, a total exportado destes produtos, de acordo

Alemanha ocupa a quarta posição, ficando com dados fornecidos pelo Jornal Valor Eco-

atrás apenas de Estados Unidos, China e nômico. Ainda assim, o Ministério do De-

Argentina. É o primeiro país da Europa nas senvolvimento, Indústria e Comércio Exteri-

relações comerciais com o Brasil. or informou que a balança comercial brasi-


leira registrou superávit de 424 milhões de
A crise política no Egito também roubou a dólares em janeiro contra um déficit de 179
cena no cenário comercial. Havia entre os milhões dólares no mesmo período em
empresários brasileiros a preocupação de 2010. Em dezembro de 2010, o superávit
interrupção no fluxo comercial entre os dois foi de 5,367 bilhões dólares. Analistas con-
países. Dentre os principais produtos que o sultados pela Agência Reuters previam para
Egito compra do Brasil estão o minério, a- janeiro um superávit de 1 bilhão de dólares.
çúcar e carnes, sendo que só o mercado e- O saldo de janeiro foi resultado de exporta-
gípcio consome cerca de 4% das exporta- ções de 15,215 bilhões de dólares e impor-
ções de carnes brasileiras - cerca de tações de 14,791 bilhões de dólares. Já o
US$300 milhões por ano em vendas, se- saldo comercial de fevereiro apresentou su-
gundo reportagem do Jornal O Globo. Mas perávit de US$ 1,199 bilhão, valor superior
para o vice-presidente da Associação de ao registrado em fevereiro de 2010 (US$
Comércio Exterior do Brasil (AEB), a renún- 389 milhões). E na avaliação do diretor da
RC Consultores, Fabio Silveira, “a vulnerabi-
Konrad-Adenauer-Stiftung e. V. 7

PUBLICAÇÃO-ONLINE
lidade estrutural de uma balança que tem bilateral de serviços aéreos e também dis-
MARÇO DE 2011
se pautado pelas exportações de produtos cutiram sobre o comércio bilateral, investi-
básicos deve continuar a dar o tom em mentos e impasses na OMC. Os ministros
www.kas.de/brasil
2011”. dos dois países não só debateram aspectos
das relações bilaterais, mas também sobre
Agenda brasileira assuntos multilaterais como a agenda do
Conselho de Segurança da ONU, IBAS,
Alguns fatos importantes tomaram conta da BRIC, o G-20 e a Rodada Doha, mostrando
agenda brasileira e terão grande influência convergência de posições. Em Declaração
sobre o comércio exterior brasileiro em Conjunta, eles expressaram satisfação com
2011. O primeiro episódio é a visita que a o significativo aumento do comércio – au-
presidente Dilma fará à China em abril e mento de 25% em relação ao ano passado -
sua participação na III Cúpula dos BRIC e investimento bilateral. Fernando Pimentel,
neste mesmo país, onde se encontrará com ministro do Desenvolvimento, Indústria e
líderes da China, Índia, Rússia e ainda Áfri- Comércio Exterior também esteve na China.
ca do Sul. Nesta visita, é esperada a nego-
ciação de uma parceria para ampliar as ex- Acontece ainda no mês de março o XX Co-
portações de minério de ferro e aço do Bra- mitê de Negociações Birregionais MERCO-
sil para a China, além de atender a apelos SUL-UE, em Bruxelas, e a esperada visita
do empresariado brasileiro para evitar a en- do presidente dos EUA, Barack Obama, ao
trada em massa de produtos chineses no Brasil. A visita de Obama está programada
país. Por ocasião dos preparativos, nos dias para os dias 19 e 20 de março. Apesar de
03 e 04 deste mês de março, o Ministro An- alguns rumores de que este encontro teria
tônio Patriota esteve na China. Durante a que ser adiado devido a compromissos pre-
sua visita, o ministro discutiu sobre os prin- sidenciais em seu país, a visita já foi con-
cipais temas da agenda bilateral, dentre e- firmada. Em entrevista ao Jornal Estado de
les comércio, investimentos e a cooperação São Paulo, o embaixador dos EUA no Brasil
em ciência e tecnologia. Em entrevista, Pa- Thomas Shannon disse que esta visita signi-
triota afirmou que os dois países “têm uma fica o grande interesse dos EUA no Brasil e
verdadeira parceria estratégica”. A China é o reconhecimento deste como uma potência
o maior parceiro comercial do Brasil, com emergente e que demonstrou que democra-
um intercâmbio de US$ 56 bilhões no ano cia e economia de mercado podem promo-
passado, além de ter sido o maior investidor ver a justiça social. Dentre questões de di-
estrangeiro no Brasil em 2010. reitos humanos e as divergências entre os
dois países quanto a Irã e Honduras, por
Patriota também esteve em Nova Delhi, na exemplo, Shannon destacou a venda de ca-
Índia, onde se encontrou com os ministros ças à Força Aérea Brasileira e disse estar
de Relações Exteriores da Índia, S.M. Krish- muito confiante numa parceria com o Brasil.
na e da África do Sul, Embaixador Maite E quando perguntado sobre o etanol, ele
Nkoana-Mashabane. De acordo com o Co- disse que esse ainda é um assunto que está
municado Ministerial da Sétima Reunião da tramitando no Congresso, mas que os EUA
Comissão Mista Trilateral do Fórum IBAS, pretendem melhorar as relações comerciais
eles reafirmaram o compromisso com a li- entre os dois países e aperfeiçoar as opor-
beralização do comércio, fazendo menção a tunidades de investimento. Obama terá
Rodada Doha, e uma cooperação sul-sul re- uma agenda oficial em Brasília no dia 19
forçada. Brasil e Índia assinaram um acordo onde se encontrará com a presidente Dilma
Konrad-Adenauer-Stiftung e. V. 8

PUBLICAÇÃO-ONLINE
e assinará alguns acordos bilaterais – como
MARÇO DE 2011
é esperado – e também participará da Cú-
pula de Negócios com empresários brasilei-
www.kas.de/brasil
ros. Já no dia 20, com uma agenda mais
popular, ele passará pelo Rio de Janeiro e
fará um discurso ao povo brasileiro. Possí-
veis acordos relacionados à previdência, sa-
télite, microcrédito, patentes, ajuda aos pa-
íses pobres, etanol e vistos são esperados.
Mas alguns outros temas também estarão
em debate: a questão do Irã e de Honduras,
a crise no mundo árabe, a candidatura do
Brasil a uma vaga permanente no Conselho
de Segurança, as negociações e impasses
da Rodada Doha, China, investimentos, pi-
rataria, imigrantes e meio ambiente.

O que esperar para 2011? A agenda multila-


teral brasileira está bastante intensa, o que
reforça as parcerias estratégicas e impulsio-
na o aumento do comércio exterior entre os
mais diversos países com os quais o Brasil
mantém laços diplomáticos, políticos e co-
merciais. As expectativas para 2011 são
bem positivas e até o momento os resulta-
dos tem se mostrado satisfatórios.