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PRÍNCIPE DA HONRA

Copyright © 2021 Victoria Gomes

Essa é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e


acontecimentos descritos aqui são produtos da imaginação do autor.
Qualquer semelhança com nomes, datas e acontecimentos reais é
mera coincidência.

Capa: DTTENORIO
Revisão: Natália Dias e Victoria Gomes
Diagramação: Natália Dias

Todos os direitos reservados. É proibido o armazenamento


e/ou reprodução de qualquer parte dessa obra, através de quaisquer
meios, sem a autorização da autora. Ressalva para trechos curtos
usados como citações em divulgações e resenhas, com autoria
devidamente identificada. A violação dos direitos autorais é crime
estabelecido pela lei no. 9.610/98 e punido pelo artigo 184 do código
penal.
ÍNDICE
ÍNDICE
Nota da autora
capítulo um
capítulo dois
capítulo três
capítulo quatro
capítulo cinco
capítulo seis
capítulo sete
capítulo oito
capítulo nove
capítulo dez
capítulo onze
capítulo doze
capítulo treze
capítulo quatorze
capítulo quinze
capítulo dezesseis
capítulo dezessete
capítulo dezoito
capítulo dezenove
capítulo vinte
capítulo vinte e um
capítulo vinte e dois
capítulo vinte e três
capítulo vinte e quatro
capítulo vinte e cinco
capítulo vinte e seis
capítulo vinte e sete
capítulo vinte e oito
capítulo vinte e nove
epílogo
LEIA TAMBÉM: PRÍNCIPE DA MENTIRA
LEIA TAMBÉM: PRÍNCIPE DO GELO
Sobre a autora
Nota da autora

Gostaria de te dar as boas-vindas à realeza! Nas próximas


páginas, você vai encerrar o ciclo dos Thompson e se envolver mais
ainda nas polêmicas que rodeiam a vida dos Herdeiros de Delway,
dessa vez na companhia de Theodore Thompson, nosso general
tatuado.

Algumas informações importantes antes de você começar a


leitura: Príncipeda honra é o terceiro livro da série Herdeiros de
Delway, escrita em parceria com a autora Natália Dias, que vai
trazer um livro para cada um dos príncipes de Delway: Stephen,
Richard e Theodore Thompson. O primeiro livro da série — Príncipe
da mentira, protagonizando Stephen — já está no ar e pode ser
encontrado clicando aqui. O segundo livro da série — Príncipe do
gelo, protagonizando Richard — também está na Amazon e pode
ser encontrado clicando aqui. Não se preocupe: cada livro pode ser
lido individualmente e na ordem que preferir. Os três irmãos têm
uma relação muito próxima de amizade e lealdade, então vão
aparecer com frequência na história um do outro — e tomamos
cuidado para evitar spoilers dos outros livros.

Delway, assim como todas as outras monarquias que


aparecem ao longo da série, é um país fictício,criado para essa
série. As tradições, costumes e arranjos também foramcriados para
as histórias e são explicados ao longo dos capítulos.
Muito obrigada pela leitura! Se possível, lembre de avaliar o
livro quando terminar; ajuda muito na divulgação e a alcançar mais
corações prontos para se apaixonarem por homens literários que
infelizmente não existem no mundo real. Entre em contato pelas
redes sociais e nos conte o que estão achando da história! A minha
principal é o Instagram, mas podem me encontrar no Facebook e
Tiktok também.

Prepare a sua coroa e vestido de baile, e venha mergulhar nos


segredos e intrigas da família real de Delway!
capítulo um

É cansativo não poder confiar em ninguém.

É cansativo tratar cada aliado político como um inimigo em


potencial, porque lealdade é um conceito há muito esquecido e a palavra
de alguém não vale mais nada. Acordos assinados não valem mais nada,
muito menos a suposta honra de um governante.

Meus irmãos sempre me chamaram de paranoico quanto a isso. A


atividade preferida de Stephen é pegar no meu pé com meu excesso de
zelo e desconfiança constantes. Richard, o mais velho e rei de Delway,
entende minha preocupação, já que, de nós três, é o que mais lida com
politicagem, mas até mesmo ele teve certeza de que eu estava
exagerando algumas vezes.

Adivinha só? Eu não estava.

Os filhos da puta que apareceram quando estávamos mais


vulneráveis, jurando aliança e apoio, agora estão prontos para fazer
demandas. É claro que estão. Nada vem de graça quando o assunto é
poder.

— De novo! — grito, mãos atrás das costas, olhos ferozes e


atentos sobre os soldados que repetem a sequência de golpes na aula
de artes marciais.

Ninguém se atreve a reclamar de cansaço, mesmo que eu saiba


que estou exigindo muito mais deles hoje do que o normal. É o que
acontece quando estou puto. Não demoro a perceber que apenas assistir
ao treinamento não vai ajudar a acalmar minha agitação. Mantenho os
olhos atentos sobre eles enquanto enrosco ataduras nos nós dos dedos,
sabendo que estão nervosos com a minha presença nem tão rotineira
assim.

Nervosismo esse que aumenta quando percebem que estou


entrando no tatame também.

— Não precisam parar — aviso, transitando entre as pessoas que


depositam aqui cada gota de energia que têm para oferecer.

Conserto algumas posturas, corrijo golpes feitos errados, dou mais


meia dúzia de instruções. Quando a minha proximidade deixa de ser um
problema e todo mundo está concentrado de novo no que deve fazer,
começo a treinar também. Não demora para alguns soldados se
animarem com a perspectiva rara de treinar comigo, e é um ótimo
lembrete de que é aqui que me sinto em casa.

Muito do meu trabalho é burocrático agora, cuido de estratégias


militares, coordeno equipes. Gosto da possibilidade de manter olhos
atentos sobre a minha família e garantir que estão bem, mas sinto falta
de estar aqui com mais frequência. Suado, com a pele quente, a
ansiedade e preocupações diminuindo conforme meus batimentos
cardíacos aumentam.

Desvio de alguns socos, esquivo de chutes precisos, mas,


eventualmente, um me acerta. A dor irradia pela minha mandíbula onde
Brian me acertou, e estou sorrindo quando volto a olhar para ele. Meu
segundo em comando sorri também, uma expressão provocativa no rosto
ao indicar com as mãos para que eu pare de enrolar.

A luta se torna entretenimento para os outros soldados, que deixam


seus próprios treinamentos de lado e passam a nos assistir com
entusiasmo. Brian desvia da maior parte dos golpes que desfiro, quase
me acerta alguns outros, mas, no fim, no resultado é o previsto e ele
termina com as costas no tatame, o peito subindo e descendo em uma
respiração ofegante depois que o derrubo com um gemido doloroso.

— Estão liberados — instruo para os demais enquanto estico a


mão para ajudar Brian a se levantar.

Ele aperta meu ombro e solta uma risada baixa quando está de pé.

— Eles vão falar disso a semana toda, você sabe — diz divertido,
afastando-se de mim em busca de água.

Arranco a camiseta suada pela cabeça e livro-me das ataduras das


mãos.

— Da próxima vez, não cai com tanta facilidade e isso não vai ser
um problema.

Brian me mostra o dedo do meio, balançando a cabeça. Sem se


virar para mim, mexendo em alguma coisa dentro da sua mochila, ele
pergunta:

— Você vai me dizer qual o problema agora?

Encaro suas costas, considerando o que dizer. Sua postura é firme,


rígida como a minha. A pele escura está coberta de suor, os ombros
estão tensos. Brian trabalha comigo há tempo o suficiente para saber que
alguma coisa não está certa. Não consigo explicar uma situação que
ainda não compreendo. Estou em um campo minado, tomando cuidado
com meus passos.

— Ainda não sei — ofereço por fim. — Richard e eu vamos nos


encontrar com o rei de Devondale em algumas horas.

Isso chama a sua atenção. Brian me olha por cima do ombro,


erguendo uma sobrancelha.
— O rei em pessoa? — pergunta devagar. Limito-me a erguer as
sobrancelhas em uma concordância contrariada. — O que esse filho da
puta quer?

Rio pelo nariz, jogando os olhos ao teto.

— É exatamente isso que quero descobrir.

Brian estreita os olhos e não precisa dizer nada. Estamos na


mesma página quanto a Elijah Denver: ele não confia no homem, eu
confio menos ainda.

Meus irmãos fizeram um ótimo trabalho em transgredir todas as


regras e tradições nos últimos anos. Stephen cumpriu o acordo político
feito por nossos pais e se casou com Louise, é verdade, mas nos colocou
em uma situação delicada com suas transgressões depois disso. E
Richard… O maior defensor das tradições seculares da nossa família
chocou a todos nós quando recusou o seu próprio casamento político e
fez de uma plebeia a rainha de Delway. Heather arrebatou seu coração
de tal forma que o rígido rei foi contra tudo o que acreditava até então,
por ela.

Louise e Heather trouxeram luz para a vida dos meus irmãos, e eu


mataria pela felicidadedeles. Do mesmo jeito que eu fariaqualquer coisa
para proteger minhas cunhadas e sobrinhos. Mas não vou negar que
ambos os casamentos trouxeram tensão política para o país. Stephen
ultrapassou alguns limites que os mais conservadores acharam
inaceitáveis, e Richard cementou o rebuliço ao trazer Heather para o
trono.

Foi quando sua competência como regente começou a ser


questionada. Muitos antigos aliados questionaram como poderiam confiar
em um governante que não seguia as regras do próprio país. O mais frio
e prático dos homens foi chamado de fraco e passional em mídia
internacional. E um governante fraco representa um país fraco. Um país
fraco se torna vulnerável.

É o meu trabalho impedir que isso aconteça.

Não demorou para que outros líderes mundiais emitissem suas


opiniões sobre o assunto — a favorou contra, todos tiveram algo a dizer.
A balança pendeu para o nosso lado, no fim, quando a maioria dos
nossos parceiros comerciais decidiu que não podiam se importar menos
com o relacionamento de Richard desde que pudessem continuar tendo
todas as vantagens que alianças conosco proporcionam.

É aí que Elijah Denver entra.

O rei de Devondale nunca foiminha pessoa preferida,mas Richard


não quis quebrar mais essa tradição. São poucas as monarquias
restantes, e meu irmão segue à risca o código moral de apoio mútuo.
Então, aceitou a aliança oferecida. Aceitou o anúncio público de apoio
militar, de vantagens comerciais; aceitou os aliados que vieram a tiracolo.

E agora Denver quer alguma coisa em retorno.

O que, eu ainda não sei. Mas vou descobrir em breve.

Richard está nervoso. Meu irmão tenta disfarçar, mas as rugas que
se formam em sua testa não abrem espaço para dúvida. De pé ao seu
lado com os braços cruzados, assisto enquanto tamborila os dedos na
mesa, confere a hora no relógio de pulso, se remexe na cadeira. Elijah
está atrasado, e duvido que seja acidental.
Quando o homem finalmente chega, acompanhado dos seus
próprios guardas, tem um sorriso grande no rosto, como se estivesse se
encontrando com um grande amigo.

— Richard! — diz, abrindo os braços para um abraço que não vai


receber. Não acho que estivesse esperando um, de qualquer forma,
porque logo se senta na cadeira no lado oposto à mesa, cruzando os
dedos sobre o colo. — Theodore — estende o cumprimento a mim com
um aceno de cabeça.

Percorro o olhar pelo seu rosto, tentando desvendar o que ele quer
na expressão despreocupada. As rugas da idade começam a aparecer
pela pele escura, os olhos experientes podem até estar recobertos de
tranquilidade, mas não escondem o brilho malicioso.

— Fez boa viagem? — Richard pergunta assim que o homem


parece confortável no lugar.

— Ótima, Majestade — responde, levando a mão ao peito em uma


reverência que parece irônica demais e me faz estreitar os olhos. — Sei
que você é um homem muito ocupado, então irei direto ao assunto.

Richard assente, cruzando os dedos sobre a mesa, e espera.

— Como sabe, Devondale prestou apoio em um momento difícil,e


é de meu interesse que esse continue sendo o caso. Seria uma pena
terminarmos em lados opostos — começa, e arrumo a postura, jogando
os ombros para trás, tenso. Não gosto de onde isso está indo, da
ameaça velada na frase simples.

— E o que faria com que a situação mudasse, Denver? — meu


irmão pergunta, a voz seca indicando que também pescou o que ele quis
insinuar nas entrelinhas.
— Tudo o que peço é reciprocidade — responde. — Apesar de
estarem com a reputação balançada pelos últimos eventos, sua família
tem um histórico impecável, seu paísé próspero. É de meu interesse que
essa aliança se amplie.

Seus olhos vêm até mim, e um arrepio me corta a coluna. Sei para
onde essa conversa está se encaminhando.

— Se o que você está pedindo são mais vantagens comerciais, nós


podemos…

— Estou pensando em uma aliança permanente — Elijah


interrompe meu irmão, o olhar ainda sobre mim.

Trinco os dentes, respiro fundo.

— Casamento — ofereço, cuspindo a palavra como uma praga.

O sorriso do velho aumenta, e ele anui.

— Se não estou enganado, Theodore está prestes a fazer trinta


anos e sei que não vai demorar muito para que seja a vez dele de
encontrar uma esposa. Gostaria que fosse Madelaine a ocupar esse
cargo — diz de uma vez, encerrando os rodeios.

Solto uma risada seca, a atenção presa a Elijah. Não preciso olhar
para Richard para que sinta o olhar dele sobre mim. Meu irmão não diz
nada pelo que parece uma eternidade, mas sei que não é. É possível que
apenas alguns segundos tenham se passado, mas é tempo o suficiente
para que eu construa todos os cenários possíveis em minha mente. Não
gosto de nenhum deles.

Quando finalmente fala alguma coisa, seu tom é profissional e


político.

— Madelaine Denver é a sua filha mais velha, a primeira na linha


do trono — Richard diz, a pergunta embutida no tom. Vasculho a
memória em busca de imagens da mulher em questão. Não encontro.
Tenho os nomes decorados, os títulos, o histórico, mas raramente perco
tempo decorando rostos. — Você está pedindo que eu entregue meu
general para se tornar príncipe consorte de outro país.

Elijah estala a língua, movendo a mão em um gesto impaciente e


irritadiço.

— Por favor, não. Madelaine não vai assumir o trono, nunca foi uma
possibilidade. — Elijah ameniza suas feições, deixando crescer no rosto
uma expressão amorosa ao falar da filha, que não tenho certeza de que
é verdadeira. — Tudo o que quero é uma vida segura e confortável para
ela. O que sei que ela terá aqui.

Outro momento de silêncio tenso cresce pela sala. Denver alterna o


olhar entre meu irmão e eu e, seja lá o que vê nos nossos rostos
impassíveis, é o suficiente para que dê o assunto por encerrado.

— Vou deixar que pensem no assunto. Não é realmente um grande


feito, se formos honestos. Theodore está fadado a um casamento por
conveniência de qualquer forma, não estou sugerindo nada que não
fosse ser feito em algum momento — declara, levantando-se da cadeira.
Coloca de novo aquele sorriso falso nos lábios, a mão indo ao peito. —
As portas da minha casa estão abertas quando tomarem uma decisão.

Richard apenas acena em despedida e espera que o homem saia


do escritório, acompanhado dos seus guardas, para que respire de novo.
Um palavrão escapa da boca do meu irmão assim que a porta se fecha,
deixando-nos sozinhos aqui.

— Não era isso que eu estava esperando — diz baixo, esfregando


o rosto. — Por que eu tive a impressão de que não é uma sugestão que
pode ser negada?
— Porque não pode — respondo, recostando na parede. — Não
pacificamente.

— Filho da puta — Richard murmura, largando o peso do corpo nas


costas da cadeira. — Não confio nele. Não confio de colocar alguém da
sua família dentro da nossa casa.

Assinto em concordância, os lábios pressionados em uma linha


reta.

A porta se abre em súbito de novo, e dessa vez é Stephen que


entra. Com o sorriso arteiro de sempre, os cabelos castanho-claros
caindo pela testa, ele traz uma lufada de leveza ao cômodo apenas por
se aproximar.

— O que ele queria? — pergunta, jogando-se na cadeira em que


Elijah estava.

— Theodore — Richard responde.

— Como assim o Theo? — Stephen pergunta, olhando de mim


para Richard.

— Você não precisa aceitar — Richard diz para mim ao invés de


responder Stephen, e isso é o suficiente para chamar minha atenção.
Olho para ele, as sobrancelhas franzidas.

Na minha frente, não é o meu rei falando, é o meu irmão.


Reconheço a mudança sutil no seu rosto, a preocupação no olhar. É um
cuidado fraternal, um que não é lógico nem racional. O rei sabe que
preciso, sim, aceitar. Meu irmão me oferece a chance de fuga.

Por mais que eu adore poder encher a boca para dizer que avisei,
essa não é uma situação em que estou feliz por estar certo. Meus
homens estão prontos, se for preciso. Meu exército é bem treinado, e eu
nunca fugi de uma boa briga, mas o que está em risco agora é muito
mais do que apenas uma aliança política.

— Eu preciso.

É da felicidade dos meus irmãos que estamos falando. A


tranquilidade dos seus casamentos. Posso oferecer paz de espírito a
eles. Tirar dos seus ombros o peso e a culpa pelas consequências que
vieram por seguirem seus corações, por buscarem sua felicidadepessoal
acima da obrigação. E por eles, eu faço qualquer coisa.

Até ir para a cama com o inimigo.


capítulo dois

Faz dois dias que cheguei em Devondale, depois de uma longa


discussão com Richard sobre o que faríamosagora. Como se houvesse
escolha. Não anunciei minha presença, não aceitei o convite do rei de me
juntar a eles. Vim conhecer o país, apenas, mas não me iludo achando
que Elijah não sabe da minha presença. Não duvido que esteja
mantendo o olho em mim. É o que eu faria em seu lugar.

Não precisei de mais do que algumas horas após sair do aeroporto


para reconhecer o estado deplorável que Elijah deixou seu país chegar.

Devondale está caindo aos pedaços. Há um círculo de riqueza ao


redor do castelo e nada mais. O restante do paísestá pagando um preço
alto pelos luxos da famíliareal. Não é falta de dinheiro, eles não estão à
beira da falência. Só fica claro para quem quiser ver onde suas
prioridades estão — e elas residem da porta do castelo para dentro.

Como se eu precisasse de mais motivos para detestar o homem.

Estou ainda menos surpreso agora com a oferta de casamento. Se


a forma como governa o país reflete a forma como criou seus filhos,
Elijah colocou no mundo pessoas mimadas, egoístas e desonestas. É
claro que Madelaine está ansiosa para renunciar ao trono; para que se
dar ao trabalho de ao menos fingir que está disposta a governar um país
quando pode apenas continuar se banhando em ouro enquanto o resto
da população sofre?

Minha irritação aumenta por saber que seus confortos agora virão
do dinheiro de Delway.
Não vou ser hipócrita e fingir que não aproveito dos meus
privilégios e regalias, mas Delway tem um bom governo. Tem um rei
dedicado, um príncipe que se preocupa com o bem-estar dos mais
vulneráveis e um general dedicado. Richard, Stephen e eu, cada um ao
seu modo, cuidamos do nosso país.

Ao contrário da família que agora será unida a mim por casamento.

Esfrego o rosto, soltando um palavrão. Arranco a jaqueta e a jogo


sobre a cama do hotel, estalo o pescoço e respiro fundo a caminho do
banheiro. Apoio as mãos na pia, encarando-me no espelho. Meu cabelo
está um pouco maior nos últimos meses em que não tenho mantido o
corte militar perfeitamente alinhado e começa a cair pela minha testa.
Uma barba curta cobre meu rosto, e sei que minha aparência um pouco
desordenada é reflexo de como estou me sentindo por dentro agora. Ao
invés de resolver isso, decido me aproveitar da mudança de aparência
por um tempo.

Arranco a camiseta e jogo-a no chão, preparando-me para o banho.


Meu olhar cai para uma das muitas tatuagens que carrego pelo tronco, e
trinco os dentes ao ver as inscrições em persa que significam honra. Não
desvio meus olhos ao puxar o celular do bolso e discar o número de
Richard, mas o faço quando ele atende, encarando o teto ao invés.

— E então? — meu irmão pergunta do outro lado da linha,


apressado. Ouço uma conversa ao fundo, que diminui após alguns
instantes quando se afasta dos demais.

Digo para ele o que aprendi nos últimos dias, nada que fosse
inédito para nós dois, mas que é pior do que antecipei.

— Vou me encontrar com Elijah amanhã — digo quando termino o


relato conciso.

— Tem certeza disso?


— questiona, a insatisfaçãopalpável na voz.
— Tenho — garanto. — Vou aproveitar a noite hoje para repassar
algumas informações. Recebi o dossiê que pedi ao nosso detetive que
preparasse sobre Madelaine, ainda não tive tempo de abrir a pasta e…

— Você vaitirara noitede folga— Richard interrompe. Solto uma


risada seca com a sugestão absurda em um momento crítico. — Seu rei
está te dando uma ordem, general— completa, prevendo meu protesto.

— Meu rei é um pau no cu — respondo, esfregando o rosto. A


resposta malcriada arranca uma risada dele, a primeira que ouço desde
que o problema começou, e é fácil me lembrar que é isso que estou
tentando garantir.

— Vou contatarElijahe programara reunião de vocês dois.


Confirmamos os detalhesde tudo quando acordar
, mas, por hoje,você e
seus homens vão se divertir um pouco.

— Sim, senhor — respondo com ironia e posso visualizar Richard


revirando os olhos.

Despeço-me, mas, antes que desligue, ouço sua voz de novo.

— Você vai ficar bem?

— Já sobrevivi a guerras, irmão. Acho que consigo sobreviver a um


casamento indesejado.

Nego o copo de bebida que é estendido na minha direção. Estou


de folga, é verdade, mas a última coisa que preciso é estar de ressaca
pela manhã quando me encontrar com o rei. O bar do hotel não está
cheio — a combinação de ser dia de semana com o fato de o
estabelecimento ser conhecido por ser um lugar discreto ideal para
figuras públicas permite isso. Não tenho qualquer interesse em ficar aqui
por muito tempo, mas vim porque sei que meus homens precisam disso.
Deus sabe que eles precisam de um descanso depois dos últimos
meses.

— O senhor tem certeza de que não quer vir com a gente? — um


deles pergunta. Por cima do seu ombro, vejo os outros quatro
conversando animados como garotinhos sobre a boate para onde
querem ir, pela primeira vez em muito tempo.

— Não a menos que eu tenha uma arma apontada para a minha


cabeça — respondo. — Divirtam-se. Estejam prontos para sair às oito
amanhã.

Ele assente e se despede, depois de conferir muitas vezes que é


uma boa ideia me deixar sozinho.

— O que você tem contra diversão?

Sentado em uma cadeira alta do bar, os antebraços apoiados sobre


o balcão, viro o rosto em direção à voz femininaque vem de algum ponto
à minha esquerda. Encontro uma mulher sentada ao meu lado, a
algumas banquetas de distância, uma taça de vinho pela metade e olhos
travessos na minha direção.

— Nada. Só tenho um conceito diferente de diversão — respondo,


tomando alguns segundos para analisá-la com atenção quando ri.

O vestido curto deixa à mostra sua perna quase inteira, em um rosa


delicado contra a pele preta. Um colar cai pelo seu colo, indicando o
caminho pelo decote. O cabelo cai em ondas pelos ombros, um sorriso
malicioso contorna os lábios quando minha inspeção finalmente alcança
seu rosto.
— E você é…? — pergunto. Um brilho de diversão cruza as íris
escuras diante da pergunta. Suas feições são familiares, mas não
consigo associar um nome ao rosto. Não é de se estranhar; é provável
que todas as pessoas hospedadas nesse hotel sejam conhecidas por
alguma coisa. Talvez seja alguma atriz ou modelo de quem
definitivamente não vou me lembrar.

Sem pressa, ela apanha a taça sobre o balcão e a leva à boca.


Demora alguns segundos antes de dar um gole minúsculo. Acompanho
com interesse o movimento da língua pescando uma gota no lábio
inferior.

— Isso importa? — responde por fim, apoiando a taça no balcão


antes de se voltar a mim de novo.

— Nem um pouco.

Ela sorri, levantando-se da banqueta. Alisa o vestido devagar,


concedendo-me a visão do seu corpo por completo. Tomba a cabeça
para o lado, piscando devagar. Enrosca os dedos ao redor da alça da
bolsa pendurada nas costas da cadeira. Tira os olhos de mim apenas
para mexer no celular. Ela franzeo nariz, insatisfeitacom o que quer que
veja na tela.

— Sentiram minha falta — diz com um suspiro, guardando o


aparelho de novo na bolsa. — Tenho alguns minutos.

— E o que você quer fazer nesses minutos? — pergunto,


desligando a voz que pergunta quem sentiu sua falta e o que vai
acontecer depois desses minutos. Estou de folga. A última para sempre,
já que amanhã serei um homem prometido a alguém.

Ela abre um sorriso de puro deleite e tomba a cabeça para o lado.

— Por que você não me mostra o seu conceito de diversão?


Solto uma risada, balançando a cabeça.

Quem é essa mulher? Sei que não vou ter a resposta para essa
pergunta quando ela vira as costas para mim, andando em direção à
saída do bar. Repreendendo-me pelo comportamento errático que não é
do meu feito, eu a sigo. Espero encontrá-la perto dos elevadores e me
surpreendo ao vê-la seguir em direção às escadas da saída de
emergência. Com a mão na porta, ela me olha por cima do ombro. Ergo
as sobrancelhas em uma pergunta silenciosa, e a mulher revira os olhos.

— Está louco se acha que vou me trancar em um quarto com um


homem desconhecido — diz, condescendente.

— Certo — concordo, estreitando os olhos para o tom que diz que


me acha um idiota por precisar de explicação para isso. — E como aí é
mais seguro?

Ela dá de ombros.

— Posso sempre te empurrar escada abaixo — explica,


empurrando a porta e entrando no lugar escondido.

Sorrio, surpreso e entretido. Sigo-a sem mais perguntas, sem dizer


que ameaças aos príncipes de Delway não costumam ser lidadas com
essa leveza toda. Abraço a anonimidade oferecida e fecho a porta atrás
de nós dois. Longe do luxo ostensivo do hotel, estamos cercados de
degraus de cimento e luzes fracas. Ela solta a bolsa no chão e apoia as
costas na parede. No rosto, um convite. Um que aceito com prazer.

Cubro seu corpo com o meu, apoiando uma mão na sua cintura e a
outra na parede ao seu lado. Minha boca paira sobre a sua, sua
respiração quente contra o meu rosto, os lábios entreabertos roçando na
minha pele. Escorrego a mão pela lateral do seu corpo, sinto seu sorriso
quando enfio a mão por baixo do tecido do vestido.
Hesito, confuso pela situação tão fora do meu normal. Tão fora do
meu controle. Então ela suga meu lábio inferior, eu aperto sua coxa
quente e meu juízo tira folga por alguns minutos.

Engulo o gemido de surpresa quando tomo sua boca. Sinto as


unhas na minha pele, dolorosas em meu pescoço quando puxa meu
rosto para mais perto do seu. Não sei o que ela está buscando de um
desconhecido, mas procura com afinco na minha boca. Agradeço por não
ter raspado o cabelo de novo quando os dedos afoitosbuscam pelos fios.
Imito seus gestos, entregando a ela o que tenta tomar de mim, minha
mão puxando seu cabelo, conduzindo o beijo no ritmo que ela dita.

Prenso-a contra o cimento, puxo sua coxa para cima e encaixo-me


entre suas pernas. Sorrio satisfeitona sua boca quando ofegano mesmo
instante em que me esfregocontra ela. Repito o movimento, recebendo a
mesma reação.

Solto sua boca para descer ao seu pescoço, sugando a pele macia.
Subo os dedos pela parte de dentro da sua coxa e estou a centímetros
da sua calcinha quando o toque estridente do seu celular me para.

Ela solta um palavrão e escorrega as mãos pelos meus ombros.


Solto-a devagar, apoiando seu pé de novo no chão, mas volto a boca à
sua garganta depois que pega o celular de dentro da bolsa jogada ao
chão.

— Pois não? — diz para quem quer que esteja do outro lado da
linha em uma voz doce que não parece pertencer a ela. Ela suspira e me
aperta por cima da camiseta, eu subo a mão pela frente do vestido em
direção aos seus seios. Aperto um, subo a boca pelo seu queixo. Encaro
os olhos escuros nublados e desejosos. — Tudo bem, me dê um
instante, chego em alguns minutos.
Com um suspiro frustrado, encerra a ligação. Morde o lábio, as íris
dançando pelo meu rosto.

— Preciso ir — diz contrariada.

— Uma pena — sussurro em resposta, roubando um último beijo


antes de soltá-la.

Descolo meu corpo do seu, sentindo a frente da calça apertada e


dolorida. Recosto-me na parede onde ela estava, braços cruzados na
frente do peito enquanto a assisto arrumar o cabelo e limpar o batom
borrado. Pendura a bolsa no ombro e vai até a porta. Para com a mão no
puxador e me olha por cima do ombro.

— Você não me disse seu nome — diz. Distraio-me da pergunta,


encarando os lábios inchados que sei que vão atormentar meus sonhos
essa noite por todas as promessas não cumpridas.

— Isso importa? — devolvo a provocação, arrancando um sorriso


dela.

É um sorriso lindo.

Ela meneia a cabeça, usa a mão livre para brincar com o colar.
Atrai meus olhos para os seios, deslizando os dedos pela borda do
decote. Respiro fundo, sentindo meu corpo esquentar ainda mais.

— Faz com que seja mais fácil te achar — responde por fim,e volto
minha atenção para o seu rosto.

Nego com a cabeça devagar, sabendo que essa não é uma


possibilidade.

Ela franze os lábios.

— Uma pena — diz também, e concordo em silêncio. — Boa noite,


estranho.
Ela não olha para trás de novo; abre a porta e sai, deixando-me
sozinho aqui.

Percorro os dedos pela minha boca, ainda sentindo seu gosto aqui.
Arrependo-me imediatamente por não ter insistido em descobrir quem ela
é.
capítulo três

Ajusto os óculos de proteção no rosto e aperto o botão


vermelho ao meu lado, que faz com que um novo alvo de papel seja
colocado na minha frente, a muitos metros de distância. Recarrego
a arma e tomo meu tempo mirando à frente antes de disparar.

Erro. De novo. Hoje o dia não está bom para mim.

O estande de tiro que existe em algum lugar dos muitos


hectares que formam o jardim do castelo não está cheio hoje,
porque escolho vir em horários em que sei que os soldados não
estão treinando. Não importa que eu venha aqui há anos, eles
nunca se acostumam com a minha presença. Há apenas meia dúzia
de pessoas aqui que sei que estão usando seu dia de folga para
fazer o mesmo que eu: descontar a raiva em um objeto inanimado.
Disparo mais alguns tiros, o suficiente para esvaziar a arma,
sentindo o impacto de cada um nos pequenos solavancos que meu
corpo dá. Com um suspiro frustrado, aceito que não vou conseguir
fazer progresso hoje.

Retiro todo o equipamento de proteção e sigo todos os


procedimentos de segurança ao travar a arma e devolvê-la ao lugar
certo. Mesmo contrariada, aceito a ajuda de um dos guardas que
sempre me seguem por todos os lugares e deixo que abra a porta
para que eu saia da área de treinamento, passe pela segurança e
siga para fora do centro de treinamento.
Sou recepcionada por um sol brilhante demais. Parece
deboche do universo, considerando o quão sombrio é o dia que me
aguarda.

Caminho sem pressa pelo jardim, em direção ao castelo.


Imponente ao longe. Opressor. Apenas para postergar ainda mais a
chegada ao meu destino, desvio o caminho pelo labirinto criado com
arbustos pelo time de paisagistas que cuida de tudo por aqui. Não
me perco por entre os corredores, já sabendo de cor onde preciso
virar a cada curva, conhecendo em detalhes esse lugar desde que
eu era criança.

— Já se perdeu? — pergunto alto, sorrindo ao não ver Liam


atrás de mim. Tenho certeza de que ele não está longe. Posso não o
ver, mas seus olhos sempre estão sobre mim. Fiz do meu guarda-
costas um dos meus melhores amigos e confidente, mas isso não o
impede de levar seu trabalho muito a sério. Então sei que a minha
implicância não vai obter resposta porque ele ainda está furioso pela
minha escapada na noite passada. — Vamos lá, Liam. Quanto
tempo você vai ficar sem falar comigo?

Assim que termino de atravessar o labirinto e estou de volta


ao jardim, ele aparece atrás de mim. O semblante ainda está
fechado, a postura estoica dentro do uniforme oficial.
Imito sua pose, que aprendi há muitos anos, quando ele se
rendeu aos meus apelos e concordou em me treinar. Minha postura
é tão boa quanto a de qualquer um dos nossos soldados, e isso o
fazdeixar escapar um sorriso pequeno. Liam suspira e passa a mão
pelo rosto.

— Você podia ter me avisado, Maddy — diz contrariado.


Ergo as sobrancelhas.

— Você teria tentado me impedir — aponto. Ele revira os


olhos e bufa. Ofereço o meu braço, e ele balança a cabeça em
repreensão antes de aceitá-lo e prendê-lo ao seu, conduzindo-me
pelo caminho que estou evitando cortar.

— É claro que eu teria tentado te impedir — diz, lançando um


olhar julgador sobre mim. — É meu trabalho garantir que você
continue viva.

— Eu estou viva.
— Por sorte! Francamente, Madelaine.

A repreensão está de volta à sua voz, o vinco profundo entre


suas sobrancelhas pouco tem a ver com as rugas trazidas pelos
seus quarenta anos que se aproximam. É apenas preocupação
genuína. Solto-me do seu braço e me coloco de frente para ele.
— Eu prometo que não vai mais acontecer — garanto com
uma voz doce que não me pertence.

Ele finalmente ri.

— Você está prometendo se comportar desde que completou


dezoito anos, Alteza — responde no mesmo tom. Indica com os
olhos para que eu volte a me encaixar no seu braço e retoma a
caminhada. Liam me solta apenas quando alcançamos a porta, para
abri-la e indicar o caminho para mim. — Pronta para conhecer seu
noivo?

Solto uma risada seca e aponto para mim mesma.


— Acha que o principezinho enfadonho que meu pai
encontrou para mim vai gostar de me ver vestida assim?

Liam escaneia meu corpo com os olhos e faz uma careta. Sei
o que ele está vendo: a princesa mais descomposta da história
desse país. Calça jeans, camiseta, cachos cheios e armados.
— Não — ele responde por fim.

— Ótimo — decido. Afasto-me de Liam, seguindo em direção


ao escritório onde sei que meu pai está me esperando.
— Você deveria dar uma chance a ele, ao menos — Liam diz
atrás de mim, seguindo-me pelos corredores. — Nunca se sabe,
talvez seja alguém do seu agrado.

— Vindo de Elijah Denver? — pergunto, olhando-o por sobre o


ombro. — Posso apostar que ele fez questão de escolher o homem
mais entediante do planeta para mim.
Paro em frente à porta do escritório, lábios pressionados.
Envolvo a mão na maçaneta e estou pronta para girá-la quando
ouço vozes masculinas vindo de dentro do cômodo.

Travo no lugar.

Considero me trocar, por um instante. Esse casamento é do


meu interesse, afinal. Preciso que um desconhecido qualquer
coloque um anel no meu dedo antes que eu possa assumir o trono
que um dia vai ser meu. É um preço pequeno a se pagar para
conseguir o que mais quero, para que eu pare de ter que assistir
meu pai arrastar esse país às ruínas. Para que eu possa finalmente
governar.
Seja lá quem foi o homem que Elijah decidiu ser digno da
posição de príncipe consorte de Devondale, posso tolerá-lo. Alguns
herdeiros e sorrisos forçados, é tudo que preciso oferecer a ele.

É apenas o primeiro acordo político de muitos que farei no


decorrer da minha vida. Então por que estou tão nervosa? Por que
me sinto como se estivesse indo para o abate, e não como se
estivesse dando o primeiro passo para o futuro que almejo?
Alguma coisa está errada.

Foi esse mesmo sentimento que me fez fugir desse castelo


ontem, que me fez me vestir com o vestido mais escandaloso que
encontrei no meu armário, na esperança de que qualquer paparazzi
estivesse à espreita e me estampasse em todos os jornais hoje. Na
esperança de que uma noite errática com um completo
desconhecido nas escadas de emergência de um hotel fosse o
suficiente para sabotar esse casamento por conveniência com um
homem que sequer sei quem é.
— Você está tremendo. — A voz de Liam me tira do meu
estupor. Derrubo os olhos à minha mão e vejo o que ele enxergou
primeiro: dedos trêmulos.

— Eu sei — respondo, abrindo e fechando a mão na tentativa


de parar. Não funciona, então trabalho com o que tenho. Sem
permitir outro momento de hesitação, abro a porta.

Quando entro no cômodo, encontro meu pai sentado à mesa,


no lugar em que pouco o vejo e onde deveria estar na maior parte
do seu tempo. Seu olhar se estreita sobre mim, a repreensão
escorrendo pelas íris escuras quando vê como estou vestida. Àsua
frente, de costas para mim, há um homem sentado. Consigo ver
apenas o cabelo castanho daqui e fico onde estou.

— Madelaine — meu pai diz, meu nome saindo da sua boca


como uma maldição. Ele forçaum sorriso torto; quase posso sentir a
irritação emanando da sua pele. — Finalmente se juntou a nós.
Ele cruza os dedos sobre a mesa e volta sua atenção para o
homem que não se deu ao trabalho de olhar na minha direção.

— Theodore, permita-me apresentar sua noiva.

O homem se levanta, ainda de costas para mim. Toma seu


tempo, como se fosse uma decisão deliberada me evitar. Analiso
suas costas, as tatuagens coloridas pintando a pele clara,
escapando pela gola do uniforme muito parecido com o de Liam,
apenas em outras cores. Um príncipe militar? Isso vai ser um pouco
mais interessante. Um sorriso se forma nos meus lábios com a
perspectiva. Talvez Elijah não tenha me jogado no colo da pior
opção disponível.

O sorriso morre rápido. Dura poucos segundos, somente até


que ele se vire para mim. Empertigo-me, jogando os ombros para
trás, erguendo o queixo ao reconhecer o rosto que vi ontem à noite.

Sobrancelhas grossas emolduram um rosto muito bem


desenhado. Os olhos são azuis, do mesmo tom que vi antes, mas
agora não carregam a cor de um oceano tranquilo em um dia de
verão. O azul é gélido como uma noite fria e mortal de inverno, me
arrepia a espinha, promete caos em silêncio.

Seus olhos expandem-se no que parece surpresa, mas dura


tão pouco tempo que duvido ser o caso. Estreitam-se no instante
seguinte, dando espaço para um sorriso frio.Sua postura, até então
neutra, mostra uma rigidez austera, como se estivesse pronto para
uma batalha. E o alvo sou eu.

— Posso garantir que Madelaine tem mais modos do que isso


normalmente — meu pai diz, quebrando o silêncio sufocante que se
estende do meu noivopara mim. — Ela sabe se apresentar como a
princesa que é.

O homem — Theodore— ri, seco.

— Não tenho quaisquer dúvidas de que ela sabe se


apresentar muito bem.
A frase é ácida, insinuativa. Transborda acusação. A mesma
voz que, há poucas horas, estava quente e desejosa ao pé do meu
ouvido, agora não passa de um corte afiado. Não o ofereço uma
resposta. Desesperado para preencher meu silêncio, meu pai
oferece as apresentações.

— Madelaine é minha filha mais velha, como expliquei antes,


só dois anos mais nova do que você — diz, apontando para mim.
Estende a mão na direção dele e continua: — Theodore Thompson
é o filho mais novo da família real de Delway, general do exército.
Ele vai passar alguns dias conosco. Aproveitem para se conhecer
melhor. Podemos decidir a data do jantar de noivado mais tarde —
sugere no que parece mais uma ordem.

Theodore ergue uma sobrancelha e, tomando seu tempo,


deixa os olhos percorrerem meu corpo de cima a baixo. Sinto-me
exposta sob sua avaliação cirúrgica, mas é o olhar que me destina
ao encarar outra vez meu rosto que me faz estremecer.
Não há nada além de raiva ali.

— Eu não me preocuparia com isso — ele fala, desdenhoso.


— Já sei tudo o que precisava saber sobre ela.

Meus olhos queimam com lágrimas que me recuso a


derramar. É humilhação. O sentimento que corta meu corpo, que
embrulha meu estômago e machuca minha pele, é humilhação.

Como eu sou idiota.


Acreditei mesmo que ele não sabia quem eu era noite
passada? Que estava no lugar certo e na hora certa por acaso? Que
foi por interesse desapegado que me seguiu, que foi apenas
coincidência que fosse o tipo exato que chamaria minha atenção?

Theodore sabia quem eu era naquele bar. Não foi acidente,


nem um acaso infeliz que estivesse.

Mas por quê? O que ele poderia querer com isso?

Uma batida na porta me impede de perguntar. Olho por cima


do ombro a tempo de ver Liam abrindo-a, revelando outro guarda.
— Majestade, desculpe interromper. Temos um problema na
ala sul.

— Agora? — meu pai pergunta irritado. — Estou no meio de


algo importante.

Algo no rosto do homem mostra a urgência necessária para


que meu pai pragueje, mas se levante da cadeira.

— Perdoe-me pela interferência, volto logo — diz, dirigindo-se


a Theodore, porque sei que a mim não se daria ao trabalho de
justificar.

Não olho na sua direção, minha atenção ainda presa a


Theodore.

— Liam, pode nos dar um minuto, por favor? — peço assim


que meu pai sai. Ele hesita antes de obedecer, mas não demora
muito para que a porta se feche atrás de nós dois e estejamos
sozinhos aqui.

Umedeço os lábios, avaliando sua postura com atenção. Dou


poucos passos para trás, o suficiente para que eu recoste na porta,
usando-a como apoio. Cruzo os braços e espero. Não sei pelo que
estou esperando: se por uma explicação, por um ataque, por um
deboche. Mas espero. Quase um minuto inteiro se passa antes que
eu receba alguma coisa.

— Achei que falta de caráter dessa famíliase restringisse a


Elijah — diz, a voz rouca acusatória enquanto dá um passo firmena
minha direção. Não preciso conhecê-lo bem para saber que cada
traço seu externa uma irritação mal contida. — Qual é a verdade
aqui, Madelaine? Você é traiçoeira como ele ou apenas segue as
ordens do papai?

— Alteza — corrijo.

É a primeira vez que digo algo desde que cheguei aqui. Não
sei se o simples fato de eu ter respondido é o que o trava no lugar
ou se é a firmeza na minha voz que o pega desprevenido.

— A menos que não ensinem como respeitar hierarquia de


seja lá onde você vem, eu não deveria precisar lembrá-lo de se
referir a mim pelo meu título — completo.
— Madelaine… — ele quase rosna.

— Alteza— repito entredentes. — Se dê por satisfeito por eu


não exigir uma reverência, soldado.

Seus olhos pegam fogo. É com fogo que sei que estou
brincando aqui. Não conheço esse homem. Não sei nada dele.
Nada, além do fato de ter se colocado no meu caminho sabendo
quem eu era. Se esse casamento forpara frente,é com ele que vou
precisar lidar ao meu lado no trono, e enquanto eu não descobrir
quais as suas intenções com aquele encontro de ontem, preciso
mantê-lo em rédea curta.

— Soldado? — pergunta e estala a língua.

Não respondo. Se sei alguma coisa sobre todos os generais


com quem tive contato, é que rebaixar sua patente é uma ótima
forma de atingir o ego frágil que o sexo masculino carrega.

Ou deveria ser assim, porque tudo o que ele faz é sorrir. Não
com o mesmo escárnio de antes, mas com uma incredulidade que
parece o divertir.

— Eu poderia me recusar a me dirigir a você a menos que


estivesse de joelhos — tento de novo, e dessa vez atinjo um nervo.

Ele respira fundo, joga os olhos para o teto e estampa um


sorriso impaciente no rosto.
— De joelhos? Para você? Nunca.

Theodore se aproxima um pouco mais, dando os passos que


precisa até me alcançar. Estamos de novo na mesma posição de
ontem, seu corpo pairando sobre o meu sem me tocar, a mão
apoiada na parede ao lado da minha cabeça. Travo os dentes
quando ele pousa a boca na minha orelha.

— Deixe-me ser claro, Alteza— diz, usando o pronome de


tratamento correto, e desejo que não o tivesse feito. O título sai
como um xingamento da sua boca, cuspido com desdém, diminuído
a uma pirraça. — Eu não sei o que você e seu pai estão planejando,
mas vou descobrir. E se você acha que tentar me seduzir…

— Te seduzir? — interrompo com uma risada involuntária pelo


ridículo que é sugerir isso.

Sua voz cai algumas oitavas, ainda mais grave quando volta a
falar.

— Preciso admitir que fizeram o dever de casa com afinco —


fala, o hálito quente correndo a minha pele.

Pressiono os lábios quando sinto um único dedo tocar a minha


barriga. A memória da noite de ontem volta, indesejada. O mesmo
calor que percorreu pelo meu corpo sob seu toque firme ameaça
voltar quando corre a ponta do dedo pelo meu abdome.
— O que acharam que ia acontecer? — questiona,
espalmando a mão na minha cintura. Os dedos envolvem a minha
lateral e se firmamali. Meus olhos pesam, e luto contra eles. — Que
já que fui preso nesse inferno, ficaria grato pelo meu demônio
particular ser moldado para me agradar?

— Torturado pela eternidade por uma mulher gostosa —


sussurro, erguendo a boca à sua orelha. Meus lábios resvalam no
seu lóbulo, e eu sorrio quando ele enrijece. — Pobrezinho.
Estendo uma mão em direção à maçaneta e a giro.
Desencosto da porta, colando meu corpo ao seu por poucos
segundos antes que ele reaja, afastando-se como se eu carregasse
a peste na minha pele.

Abro a porta, deixando a passagem livre para ele.


— Está esperando um convite para sair? — pergunto,
erguendo uma sobrancelha para ele.

Theodore estreita os olhos, uma confusão descarada se


formando ali. Eu não estou agindo como ele esperava, tenho
certeza. Seja lá qual o plano estúpido que traçou, não está seguindo
o roteiro que criou em sua mente. Ele não sabe o que fazer comigo,
fica claro, e é dessa dúvida que vou me aproveitar.

Ele sorri. Gélido. Contrariado.

— Com prazer — responde por fim. A postura militar está de


volta, rígida e impenetrável. Sobre seu rosto, uma máscara. Ele vem
até mim e para ao meu lado. Pousa a mão sobre a maçaneta, sobre
a minha mão, e seus olhos cintilam em satisfação quando em
apresso em encerrar o toque. — Alteza — rosna em um
cumprimento insolente.
Afasto-me da porta quando passa por ela. Praguejo quando
me vejo sozinha no cômodo, procurando uma explicação. Aperto a
nuca, dolorida pelo estresse. Estou com as duas mãos apoiadas na
cintura, cortando o escritório de ponta a ponta em passadas
erráticas, quando vejo a cabeça de Liam aparecer pela fresta.

— Maddy? Está tudo bem? — pergunta preocupado.


Paro de andar de um lado para o outro e me viro na sua
direção.

— Eu preciso saber tudo que há para saber sobre Theodore


Thompson — peço a ele. — O que ele come, o que ele bebe. Tudo.
— Por quê? — Liam pergunta, entrando e fechando a porta
atrás de si.

Respondo-o com a única coisa que tenho para ofereceragora:

— Eu não confio nele. Nem um pouco.


capítulo quatro

Estou de pé ao lado da mesa do escritório de Richard, papéis


espalhados para todos os lados. Folhas e mais folhas contendo
informações irrelevantes e que nada me dizem.

Aprendi com meus erros. Quando Stephen se casou, falhei em


procurar segredos sujos escondidos, falhei em descobrir mais cedo
que os pais de sua esposa não prestam. Falhei em prestar mais
atenção nas suas ex-namoradas. Tratei com leviandade cada capa
de revista de fofocaque meu irmão protagonizava. Prometi a mim
mesmo que não cometeria os mesmos erros de novo, e não o fiz.
Quando foi a vez de Richard se casar, eu estava pronto.

Então sei o que fazer agora. Sei o que preciso procurar. O


problema é que não estou encontrando.
A vida de Elijah Denver foi revirada do avesso muitos meses
atrás, antes de firmarmos alianças com ele. Seus conselheiros,
aliados políticos, ministros, soldados; tenho o nome e a história de
cada um. Ele perdeu a esposa há uma década, pouco depois de seu
filho mais novo nascer. São três no total. Dois garotos, de onze e
dezoito anos, e ela.

Miro em uma das folhas, a que carrega a sua foto. Sorridente,


tirada sem que percebesse. O cabelo está como da última vez que a
vi, cachos revoltos emoldurando o rosto expressivo. Um sorriso
doce que me iludiria em outro momento. Os olhos escuros da foto
não fazem jus ao que vi em pessoa. Aqui, nesse pedaço de papel,
parecem comuns demais. Não. Aquela mulher carrega o inferno
inteiro no olhar, caótico como cada maldita palavra que sai da sua
boca.

Percorro os olhos pelas páginas, relendo mais uma vez as


informações.

Madelaine Nia Denver. Vinte e oito anos, nascida dia vinte e


um de agosto. Entre faculdade e especializações, há uma coleção
de diplomas. Ciências políticas, administração pública, relações
internacionais.

Franzo o cenho, tentando colocar sentido nisso.

Se o plano sempre foirenunciarao trono,para o que você


está se preparando tanto, Madelaine?

A porta se abre sem aviso. Por cima do ombro, vejo um


Richard confuso.

— O que aconteceu? — meu irmão pergunta. — Elijah está


bombardeando meu celular com ligações e mensagens querendo
saber por que você foi embora sem falar nada.

Ele passa a mão pelo cabelo, nervoso. Dentro da roupa social


que sempre usa, caminha até mim, os olhos castanhos atentos logo
focandona bagunça espalhada pela sua mesa. Não preciso explicar
o que é, leva poucos instantes para que ele entenda para o que
estamos olhando.

— Onde está Stephen? — pergunto. Richard demora alguns


segundos para reagir, concentrado em ler alguma coisa.
— Com as crianças, tocando piano — responde, os olhos
ainda atentos em uma das folhas. Quando não digo mais nada, ele
me olha. — Você quer o Stephen aqui? — oferece, e eu assinto.

Richard puxa o celular do bolso do paletó e digita uma


mensagem. Volta a ler em silêncio até que, dez minutos depois,
nosso irmão entra.
— Para o que estou concedendo a honra da minha presença?
— pergunta, o sorriso escancarado.

— Senta — peço, recostando na mesa. Espero por alguma


resposta engraçadinha, mas ela não vem. Considerando o olhar
cauteloso de Richard sobre mim, posso só assumir que alguma
coisa no meu rosto e voz deixam claro a minha irritação.

— O que aconteceu? — Richard pergunta de novo, puxando


outra cadeira para se sentar ao lado de onde Stephen está agora.

Esfrego o rosto, respirando fundo. Nós somos um ótimo


equilíbrio. Richard é um governante assertivo; justo, mas firme. Eu
não costumo ter paciência para politicagem, trabalho com o certo ou
errado enquanto meu irmão mais velho se encarrega de lidar com
as nuances. E Stephen é necessário para nos lembrar que nem tudo
é um problema e às vezes as coisas são mais simples do que
parecem. Por isso, preciso dos dois aqui.

Cruzo os braços e começo a contar o que aconteceu, desde


meu encontro com Madelaine no hotel quando eu não sabia quem
ela era, até a troca de farpas no escritório do seu pai. Não deixo
detalhe nenhum de fora, entregando a eles qualquer coisa que
possa ser útil.
— Você acha que ela sabia. — Richard entende quando
acabo de contar. — Que você era você, que o encontro no hotel não
foi acidental, que ela se comportou daquele jeito porque sabia que ia
te agradar.

— Não existe a menor chance de ter sido acidental —


respondo.
Stephen levanta a mão, pedindo a palavra como um garoto na
escola. Indico com a cabeça para que fale.

— Me explica como se eu tivesse cinco anos: o que vocês se


pegarem no cantinho escuro do hotel tem a ver com isso?

Coço a barba e jogo os olhos para cima.

— Steph, ela é… — Respiro fundo, tentando colocar os


pensamentos em ordem. — Você lembra como foi quando você viu
a Louise pela primeira vez, ou quando você viu a Heather pela
primeira vez — digo, apontando de um para o outro.
Em uma sincronia de dar náuseas, os olhos dos dois brilham.

— Heather estava perfeita — Richard diz, conciso como


sempre, cada palavra carregando o mundo de significado.

— Eu só consegui pensar em como eu era sortudo de ter


acabado em um casamento por conveniência logo com uma mulher
que era tudo o que eu podia sonhar — Stephen divaga. Então, ele
entende. — Ah… — diz, e eu assinto, sem precisar explicar em voz
alta.

Nós fomos criados juntos, mas de formas muito diferentes. Eu


cresci levando porrada em cima de um tatame, aprendendo a atirar,
estudando para comandar um exército, porque eu sabia que não
seria entregue de bandeja para mim. Eu precisava merecer aquilo, e
fiz por onde. Quando sangue, suor e pólvora viram o seu cotidiano,
pensar em bailes se torna tedioso.

Eu sempre soube que precisaria me casar com alguém que


mal conhecia. Ainda assim, me permiti sonhar algumas vezes que
encontraria alguém que se encaixasse a mim. Meu desespero
sempre foi ter certeza de que não teria a menor ideia do que fazer
com uma princesa doce, tímida, criada para ser casta como é o
caso da maioria das famílias reais.
Madelaine… Teve um segundo, um mísero segundo assim
que me virei e a vi parada ali na minha frente, no escritório do seu
pai, em que eu quis sorrir. Se preciso me casar, que seja com a
diaba tentadora que me deixou de bolas roxas. É o potencial de uma
vida muito mais divertida pela frente.

— O que eles querem com isso? — Richard pergunta a si


mesmo.
Stephen ergue a mão mais uma vez.

— O quê?

— Eu não entendi o que estou fazendoaqui — diz, apontando


de Richard para mim.

Bufo, apertando o osso do nariz.


— Seu esporte preferido é dizer que eu sou paranoico,
Stephen. A sua hora é agora. — Vejo o movimento da sua mão e
aponto o dedo em riste para ele. — Se você levantar essa mão mais
uma vez…
Ele ri, jogando as costas na cadeira, erguendo as duas mãos
para cima em rendição enquanto faz uma careta debochada.
Arremesso um papel amassado nele e acerto sua testa.

— Crianças… — Richard repreende. — O que é, Stephen?


— Quero aproveitar para saborear o momento de ser eu a ter
as respostas para o problema político de vocês — diz, cruzando os
dedos sobre o colo. Prendo um sorriso pela palhaçada forade hora,
mas que serve seu propósito e alivia um pouco a tensão. — Muito
bem. — Ele pigarreia. — A ideia é seduzir você.

Espero que continue, mas ele para aí.

— Parabéns pela descoberta do século, gênio — respondo, e


Richard me lança um olhar cheio de repreensão.

— Vê só como vocês me maltratam? Depois pedem minha


ajuda. — Ele solta uma risada, levantando-se da cadeira. — Eu não
acho que você está paranoico dessa vez, Theo. Sua guarda vai ficar
mais baixa se você estiver apaixonado por ela, se não for só um
casamento por conveniência. Ninguém desconfia da mulher que
ama.
Stephen faz uma reverência zombeteira para nós dois e vai
em direção à porta.

— De nada! — grita ao sair, deixando Richard e eu aqui,


trocando olhares cheios de entendimento.

— Não achei que esse dia chegaria, mas ele está certo —
Richard diz.

Concordo em silêncio, prensando os lábios em uma linha fina.


— Elijah garantiu que só queria um bom casamento para a
filha, mas se a ideia é realmente te fazer se apaixonar por ela para
você baixar a guarda, significa que ele tem algum outro interesse
por trás.

— Tem. Mas qual? Eu não sou o rei, Richard. Isso faria


sentido se fosse você.

— Você comanda o exército — ele responde. — Eu posso


controlar o país, mas você é o dono das armas.

Solto um palavrão, sem querer acreditar no buraco em que


acabamos enfiados.
— Preciso descobrir o que eles querem — aponto o óbvio.
Mais que isso, preciso descobrir quem quer. Existem segundas
intenções por trás desse casamento e já passamos por isso uma
vez nessa família; não vou permitir que o cenário se repita. A
pergunta é: é Elijah que está usando a filha para arrancar alguma
coisa de mim ou é Madelaine que tem seus próprios interesses
aqui?

— Como? — Richard questiona.

Estalo a língua, abrindo um sorriso.

— Se eles querem um príncipe apaixonado, vão ter um


príncipe apaixonado.
capítulo cinco

— Como estou?

A risada que escapa de Liam tem uma nota de afliçãoao abrir


a porta do carro e me oferecer a mão para que eu saia do veículo.

— Magnífica como sempre, Alteza — responde, a voz


acompanhando o sentimento de desespero que seu rosto não
esconde. — Vermelho?

Agradeço quando me ofereceo braço e derrubo os olhos para


meu vestido, motivo da sua consternação. Comportado o suficiente
para que não acabe na primeira página de um jornal caso alguém
me fotografe: decote discreto, saia esvoaçante como se eu fosse
uma mocinha do século 18. E vermelho, como o meu batom.

— O quê? Estou apenas tentando combinar com a bandeira


da farda do meu noivo — respondo, piscando os olhos devagar.
Liam não precisa me chamar de sonsa em voz alta para que eu
saiba que é exatamente o que está pensando.

Uma pesquisa rápida na internet foio suficientepara descobrir


qual o uniforme oficial do general mais adorado da nação e planejar
meus trajes de acordo.

Foi fácil encontrar fotos dele, vestido a caráter no casamento


dos irmãos, na coroação de Richard Thompson. O maldito ficamuito
bem de farda. É claro que seus irmãos dominam o imaginário
feminino, com a pose de príncipes perfeitos. As capas de revista
amam Stephen e seu sorriso fácil,as fãsda famíliareal se derretem
por Richard e o semblante sério de homem controlador. Mas
Theodore… Deveria ser ilegal alguém ter aquele rosto. É uma
beleza bruta, incomum. Uma cicatriz cortando a testa, as tatuagens
por todos os lados visíveis.

Detesto que eu queira saber o quanto da sua pele é coberta


por elas.

— Ele já chegou? — pergunto, movendo do rosto um ou outro


cacho que escapou dos grampos do penteado ao ser guiada pelo
lobby do hotel.

— É claro que sim, Madelaine. — Suspira. — Você está


atrasada.

Prendo um sorriso, porque sei que ele está a ponto de me


repreender. Estou atrasada, Liam tem razão. Vinte e cinco minutos,
se cronometrei o tempo certo. É proposital. Se teve uma coisa que
aprendi assistindo de perto como papai lida com negociações nos
últimos anos é que se atrasar para uma reunião é rude, mas eficaz.
Quanto mais tempo passar sentado à mesa sozinho, perguntando-
se o que quero, onde estou, o que estou fazendode tão urgente que
fez com que eu me atrasasse, mais cenários absurdos sua mente
vai criar para responder a esses questionamentos. Mais inquieto ele
vai ficar com a incerteza. E é exatamente assim que preciso de
Theodore hoje: inquieto.

— Alteza… Se me permite?
Paro de andar quando chegamos à entrada do restaurante e
apoio a mão no seu braço.
— Você sabe que é a pessoa em quem mais confio —
respondo com um sorriso brando. — Vai ser meu conselheiro um
dia, não precisa pedir permissão para dizer o que acha.

— Tome cuidado — ele pede, o semblante preocupado sobre


mim. — As coisas sempre costumam ser mais complicadas do que
parecem. E quer você case com Theodore ou não, Delway é um dos
aliados políticos do seu país agora. Você não quer minar essa
relação.
Assinto, sabendo que ele tem razão. Passei as últimas duas
semanas tentando entender quem é Theodore. Consegui, em
partes. Falhei em outras. Tenho lacunas demais que precisam ser
preenchidas, e é por isso que estamos aqui hoje.

— O que me sugere? — pergunto, prendendo os olhos nos


seus.

Liam meneia a cabeça e estende a mão para abrir a porta.

— Você sabe o que faz, Maddy, mas às vezes fica presa


demais em uma ideia fixa.Você só o viu duas vezes e acha que é o
suficiente para determinar seu caráter. Precisa conhecê-lo melhor
antes de tomar uma decisão.
Franzo as sobrancelhas, ouvindo os passos da recepcionista
se aproximar.

— Não vou baixar a guarda para ele — aviso.


Liam move a cabeça rapidamente.

— Nunca — concorda. — Mas você precisa arrumar um jeito


de conversarem honestamente.
Assinto em silêncio, buscando na mente uma forma de fazer
isso acontecer. Sinto-me jogando uma partida complicada de
xadrez, contra um oponente que não sei se respeita as regras do
jogo. Confiar na honestidade de um homem que não conheço é
perigoso.

Não demoro a encontrá-lo por entre as mesas do restaurante


vazio, fechado para nós dois. Ele parece irritado ao se levantar da
cadeira, o rosto severo ao prender as mãos atrás do corpo. Liam
sussurra que vai estar na porta, e eu agradeço, seguindo a passos
lentos em direção a Theodore, dentro de uma farda que não parece
com a cerimonial, e sim um uniforme, mas ainda sem o corte de
cabelo militar que o vi usando nas fotos. Gosto mais assim, percebo.
Ele não disfarça o olhar analítico pela minha roupa, e o sorriso
pequenino que surge em seu rosto é retorcido em contrariedade.

Mais uma vez, a única reverência que me ofereceé um aceno


breve de cabeça. Ofereço minha mão para ele, que estreita os
olhos, mas a aceita. Leva os dedos aos lábios e deposita um beijo
demorado na minha pele, sem desviar o olhar atento do meu rosto.

— Alteza — diz, e meu sorriso vacila com a placidez com que


diz a palavra. Está longe de ter o mesmo desdém da última vez. É
educado e inofensivo.
Parece errado, vindo dele.

— Espero não ter interrompido seu dia — digo, sentando-me


na cadeira ao meu lado quando percebo rapidamente que sua
cortesia tem limite e ele sequer faz qualquer menção de puxá-la
para mim. Muito bem.
Ele repuxa os lábios e cruza os dedos sobre a mesa.

— Interrompeu — responde. — Alguns de nós trabalham para


viver.

Estreito os olhos, porque o sorriso ainda está ali, fingindouma


cordialidade que seu tom ácido não concorda. Um garçom se
aproxima, e agradeço quando serve água e entrega os cardápios.
Theodore não o abre.

— Por que eu estou aqui e não no castelo? — questiona.

Cruzo as pernas sob a mesa, folheando o cardápio


despreocupadamente.

— Privacidade. Não queria papai por perto quando


conversasse com você.
Ele solta uma risada seca e tomba as costas contra o encosto
da cadeira. Cruza os braços na frente do peito, os olhos dançando
pelo meu rosto.

— Um hotel no meio da cidade não parece o lugar mais


privado — rebate.

Suspiro e fecho o cardápio, impaciente com seus


questionamentos. Cruzo os dedos sobre a mesa, abrindo um sorriso
doce para ele.

— Você sabe que o propósito de esse lugar existir é


exatamente encontros como esse — aponto. Ele bufa. — Não teria
se hospedado aqui da última vez se não soubesse bem o quão a
sério sigilo e discrição são parte do modelo de negócio.
— Preciso dizer que foia primeira vez que precisei assinar um
termo de confidencialidade ao me hospedar em algum lugar —
concorda, sem relaxar a postura defensiva.

— O que posso dizer? É o hotel preferidode políticosde todos


os lugares do mundo exatamente por isso.
— Ainda assim — insiste, e reconheço a desconfiança na sua
voz. Ele está procurando por segundas intenções em cada ação
minha. — Um quarto seria mais reservado.

— Já disse que não me tranco em quartos com homens que


não conheço. — Tombo a cabeça para o lado. — E não posso
prometer que não te empurraria escada abaixo de verdade se
voltássemos para o mesmo lugar.

Acompanho seu peito subir em uma respiração pesada e,


quando os olhos caem ao meu decote por um breve segundo, sei
que a menção àquele dia despertou memórias. Ele parece afetado,
inquieto quando se move na cadeira e pigarreia.

— Agora, se já terminou com a conversa fiada, podemos ir


direto ao ponto, Theodore?
Ele estreita os olhos e demora alguns instantes para
responder. Avalia meu rosto, como se buscasse explicações nas
palavras não ditas.

— Theo — diz por fim, pressionando os lábios. Pisco


surpresa, e ele esclarece: — Theodore apenas quando estiver
irritada comigo.

— Certo — concordo. — Theodore.


Seu sorriso se amplia, genuínodessa vez. A diferençaé nítida
demais, a diversão chega nos olhos claros, que cintilam em uma
excitação inesperada. O que quer que tenha feito durante a vida,
fica claro que não foi treinado para negociações, porque tudo o que
pensa fica explícito no seu rosto.

— Muito bem, Madelaine — devolve, meu nome escorrendo


como açúcar pela sua língua. — O que é que você tem de tão
urgente para me falar que me arrancou de uma reunião e me fez
atravessar o mundo para te ver no meio do dia?

— Por favor, me corrija se eu estiver errada, sim? — peço.


Reviro a minha bolsa em busca do celular e abro o arquivo que
compilei há algumas horas. Apoio o aparelho sobre a mesa e rolo a
tela, buscando com os olhos as informações que não memorizei
antes de voltar a encará-lo. — Theodore Oliver Thompson, vinte e
nove anos, irmão de Stephen e Richard, filho mais novo de Beatrice
e Arthuro.

Ele solta uma risada seca.

— Mesmo? Você levantou minha ficha? — pergunta divertido,


olhando para mim como se tentasse decifrar um quebra-cabeças.

— Não me ofenda tentando me fazer acreditar que você não


fez o mesmo — devolvo. Ele não se defende, então continuo: —
Entrou no exército aos dezoito, passou por diversos cargos até que
o nepotismo falasse mais forte e ganhasse o título de general aos
vinte e quatro anos. Parece irresponsável entregar a segurança de
um país inteiro nas mãos de um menino.
Quase posso ouvir o ranger de dentes pelo maxilar travado,
mas ele não questiona a acusação.

— Mas preciso ser justa. Desde então, comandou dezenas de


missões de paz e de ajuda humanitária, reforçou relações militares e
fez de Delway um dos países mais pacíficose bem protegidos
contra ameaças externas. Tudo isso em pouco mais de cinco anos,
estou impressionada. Talvez você tenha alguma coisa para oferecer
além do seu sobrenome.

— O que você quer? — pergunta, e sei que atingi um nervo.


Sua voz é rude e grave, impaciente.

Desligo a tela do celular, prendo os olhos nos seus. Estudo


seu semblante com cuidado, medindo as palavras seguintes. Tenho
mais meia dúzia de acusações a oferecer, mas tento me lembrar
das recomendações de Liam.

— Quero saber o que você vai ganhar com isso — pergunto


por fim. — Com esse casamento. De todos os pretendentes
possíveis, eu sou a pior escolha. Nepotismo ou não, você parece
dedicado ao que faz. Não faz sentido abandonar o comando do seu
exército para virar enfeite como príncipe consorte.

A rigidez escorre do seu rosto, dando lugar a uma confusão


inesperada.

— Espera, o quê? — pergunta, piscando repetidas vezes,


como se saindo de um transe. — Príncipe consorte?

— Das duas uma, Theodore — interrompo. — Ou você espera


que eu entregue o exército de Devondale nas suas mãos após o
casamento, o que não vai acontecer, aviso desde já, ou você tem
algum plano para fazer uso do trono que, posso apostar, envolve a
minha ausência nele.

Theodore me encara boquiaberto.

— Primeiro de tudo, Stephen adoraria te conhecer — diz,


erguendo as sobrancelhas. — Ele adora me chamar de paranoico,
mas não acho que eu tenha achado que alguém estava tentando me
matar em nenhum momento, então você ganha.

Ele desfaz o nó dos braços em frente ao peito e apoia os


antebraços sobre a mesa. Escrutina meu rosto, as sobrancelhas
franzindo.
— Segundo… Você bateu a cabeça hoje de manhã?
Esqueceu como os títulos funcionam? — pergunta, pegando-me de
surpresa. — Eu não vou virar príncipe consorte de ninguém, é você
quem vai receber o meu título. Você precisaria ser rainha para que
eu…

Ele para a frase no meio do caminho, os olhos se acendendo


em um entendimento que me falta.
— Você quer assumir o trono — comenta. Não é uma
pergunta, é a constatação do óbvio.

— É o único motivo para eu precisar me casar, Theodore —


respondo devagar. Suas sobrancelhas formam um vinco profundo
na sua testa. — E eu posso recusar esse acordo, não se esqueça
disso, então me responda o que perguntei.

— Madelaine…
Meu nome sai da sua boca como uma prece. Arrumo a
postura, surpresa pela forma como o suspiro perturbado atinge a
minha pele.

— Você não vai assumir o trono — ele diz, e eu rio. Qualquer


que seja a piada que está tentando contar me faz acreditar que tem
sorte em ser militar, porque a comédia não é seu forte. Sua
expressão não muda, contanto, e percebo que acredita mesmo
nisso. — Seu pai… Depois que nos casarmos, você vai para Delway
comigo.
Estalo a língua, perguntando-me como ele pode estar tão
desinformado.

— Eu sou a primeira na linha de sucessão, Thompson. Para ir


para Delway com você, eu…

Precisaria renunciar, completo em pensamento, a frase


entalando na garganta quando entendo. Não foi porque está pronto
para se aposentar que Elijah decidiu tão abruptamente que preciso
me casar. Assumi que estivesse pronto para cumprir as tradições,
encontrar algum desavisado para enfiar um anel no dedo e me
passar a coroa, mas… Não. Isso faz mais sentido. Papai desvia do
assunto todas as vezes que o abordo, desconversa dizendo que
lidaremos com isso quando chegar a hora. Há poucos meses,
comecei a insistir mais nisso. Queria respostas, prazos, previsões. E
então, um casamento por conveniência caiu no meu colo. Não para
que eu possa assumir o trono, mas para que ele possa se livrar de
mim.

Deus, como sou idiota. Como ele é baixo!


A confusão que percorre seu rosto finalmente me atinge. Um
bolo se forma na minha garganta, e sinto meu coração disparar fora
de ritmo. Abro e fecho a boca, mas nada sai, minha mente ocupada
demais buscando explicações para se concentrar o suficiente para
formar palavras.

— Você está tremendo. — Ouço-o dizer. Ele se levanta,


arrastando a cadeira para trás. O barulho que o móvel faz contra o
piso é alto, tenho certeza, mas se transforma em um eco distante.
— Ei. — Sua voz soa perto de mim, mas não sei ao certo de onde
vem.
Tento acalmar minha respiração, mas sinto-me começar a
perder controle dela. Theodore chama meu nome, uma, três vezes.
Meu estômago revira e, enjoada, sinto-me a ponto de vomitar.
Fecho os olhos, ouço-o gritar alguma coisa, ouço passos.
Reconheço a voz de Liam, mas não o que ele diz.

Sinto dedos sobre os meus, uma palma no meu rosto.


Murmúrios baixos perto do meu rosto repetem uma sequência de
“inspire, expire”. Não abro os olhos quando reconheço a voz,
apenas sigo ao comando firme, mas suave, alternado com
sussurros de “vamos, Maddy, respire”.

Respiro, eventualmente. Leva o que parece uma eternidade,


mas que sei levaram apenas alguns segundos para o meu corpo
obedecer. Mantenho os olhos fechados por mais algum tempo
depois de minha respiração voltar ao normal, porque sei que
demora um pouco mais para que minha pele pare de pinicar.
Quando os abro, encontro íris azuladas perto demais de mim,
preocupadas sobre mim. Ele está perto o suficiente para que eu
sinta a respiração quente tocar meu rosto, para que eu veja o pomo
de Adão se mover quando engole em seco.

— Achei que tinha dito que jamais se ajoelharia para mim —


digo, vendo a posição em que está: com um joelho apoiado no chão
ao lado da cadeira em que estou.
Theo fecha os olhos e abre um sorriso largo, soltando uma
risada pelo nariz.

— Não me tente a acreditar que fingiuum ataque de pânico só


para me ver ajoelhado, Alteza — diz baixo, a voz rouca e falha, o
título recoberto pelo mesmo deboche de antes.

Ele se levanta, retomando a postura etérea sem qualquer


dificuldade.Oferece a mão, e ficotentada a negá-la, mas não confio
na firmeza das minhas pernas agora. Dedos quentes envolvem os
meus, mas logo os soltam para segurar meu cotovelo.

Encontro os olhos preocupados de Liam, parado a poucos


metros de distância. O questionamento está estampado no seu
rosto, e ofereço um sorriso tranquilizador para que saiba que estou
bem, mas sei que não vou escapar das suas perguntas mais tarde.

— Para casa? — ele pergunta.

— Por favor, Liam — peço com voz rasa.


Espero pelo braço que ele sempre me oferece, mas, depois de
uma breve troca de olhares com o homem ao meu lado, Liam decide
apenas avisar que vai buscar o carro. A mão de Theo pousa na
minha lombar, e olho-o de soslaio conforme me guia para fora do
restaurante.
Alguns minutos se passam antes que Liam chegue onde o
esperamos, em uma área privativa. Vejo o carro preto se aproximar
e dou um passo em direção ao meio-fio, afastando-me do toque
insistente nas minhas costas. Ele me acompanha, pescando a curva
da minha cintura com os dedos.

— Você está bem? — pergunta ao meu ouvido, baixo o


suficiente para que envie um arrepio indesejado pela minha coluna.
— Você não me parece o tipo melodramático, Theo —
respondo ao invés.

O carro estaciona e estico a mão para abrir a porta depois de


indicar para Liam que não saia do banco do passageiro. Theo é
mais rápido e alcança a maçaneta antes de mim. Colando o corpo
às minhas costas, traz a boca de novo à minha orelha.
— Theo? — pergunta zombeteiro, e só então percebo que
usei o apelido.

— Você pode voltar para Delway agora — instruo, ignorando a


provocação. — Desculpe ter interrompido seu dia.

Ele estala a língua, abrindo a porta por fim.

— Acho que não, Alteza — diz quando começo a entrar no


carro. — Vou com você.
Sentada no banco, encaro-o de pé.

— Eu não te convidei.
Ele apoia a mão no teto e inclina-se para frente para ficar na
altura do meu rosto.
— Eu tenho cara de quem espera convites? — pergunta, uma
sobrancelha erguida.

Ergo o indicador, fazendo um círculo na sua direção.


— Isso é uma reverência? — pergunto, apontando o seu
corpo inclinado para frente.

Ele estreita os olhos, e preciso prender um sorriso.

— Chega para o lado, Madelaine — instrui, firme. Penso em


contestar a ordem, mas não há forma alguma de fazer isso sem
soar como uma garotinha mimada, então faço o que pede.

Encontro o olhar de Liam pelo retrovisor e tenho a impressão


de ver um sorriso divertido no seu rosto.
— Coloque o cinto de segurança — Theo instrui, prendendo o
seu próprio no lugar. — Uma noiva morta não me serve de nada.

— Você é sempre tão charmoso assim? — questiono.

Com um suspiro pesado, ele se inclina sobre mim.

— Charme não é o meu forte — diz impaciente perto do meu


rosto, puxando o cinto e atravessando meu corpo com ele,
prendendo-o no encaixe certo com um clique alto. Ao invés de se
afastar, derruba os olhos à minha boca. — Mas você já sabe disso,
não é? — sussurra para que só eu possa ouvir, resvalando os lábios
nos meus antes de voltar ao seu assento, por um instante tão ínfimo
que me deixa me questionando se aconteceu de verdade.
capítulo seis

A sala do trono é decorativa. Se não por eventos oficiais e


cerimônias, nunca é usada. Por saber disso, era para cá que eu
fugia quando pequena; depois de um tempo, passou a ser o
primeiro lugar onde me procuravam e deixou de ser meu
esconderijo secreto, mas não perdi o hábito de me sentar aqui
quando preciso sentar.
No trono que aparentemente nunca vai ser meu.

Arrumo a postura e cruzo as pernas, apoiando o cotovelo no


descanso de braço quando ouço as portas pesadas se abrirem. Mal
pisco enquanto assisto os passos pesados de papai contra o piso de
mármore, acompanhado por um caminhar mais diligente dos seus
guardas. Meus olhos se estendem a Liam, que o segue alguns
passos atrás. Franzo o cenho ao ver Theodore encerrar a comitiva
— mas ele não se aproxima; para com os braços cruzados e a
postura rígida a bons metros de distância, mantendo os olhos
atentos sobre mim.

Meu pai para ao pé da pequena escada de apenas três


degraus que separa os dois tronos do restante da sala.

— Ao que devo a honra de uma comitiva real vindo ao meu


encontro?

Ele abre um sorriso irritado, e não preciso que me chame de


“garotinha insolente” em voz alta para saber que é isso que está
pensando.
— Imagine a minha surpresa ao ver seu noivo na nossa
biblioteca quando eu sequer sabia que ele estava no país — diz
com a voz plácida que não combina com a expressão severa no seu
rosto.

— Meu noivo — repito com um riso fraco, apoiando o queixo


na mão. Estendo os olhos para Theodore, calado e imóvel. — Você
escolheu um ótimo partido, não posso negar. Altamente qualificado,
uma adição valiosa para Devondale — digo, ampliando meu sorriso
ao ver a expressão neutra de Theo ser quebrada por um franzir de
testa confuso pelo elogio inesperado. Volto os olhos ao meu pai. —
Você precisa concordar comigo que é um desperdício enorme usar
Theodore apenas para se livrar de mim.
Elijah abre a boca, pronto para rebater, mas para na metade
do caminho conforme absorve minhas palavras. Toma alguns
segundos avaliando minha postura, tentando decidir o que fazer. Eu
espero. É um jogo de xadrez, um que ele me ensinou a jogar. Não
estou surpresa por ele ter suas próprias intenções por trás do
casamento que arrumou para mim, só estou furiosa comigo mesma
por não ter descoberto antes.

No fundo, a verdade é uma só, uma que não gosto de admitir:


tem uma parte muito grande minha que ainda se comporta como a
garotinha que eu era aos dezoito anos quando o assunto é papai.
Ainda que toda a parte racional do meu cérebro entenda que ele
não é a mesma pessoa que costumava ser quando eu era criança,
há essa outra parte que resiste em aceitar que seu herói se
transformou em um oponente. Há dez anos, um casamento por
conveniência para a sua filha mais velha teria interesses políticos, é
claro, mas interesses que trabalhariam ao meu favor.

Eu deveria saber que não seria o caso agora.


Qualquer que seja a esperança remanescente que ainda
carrego em mim, sei que preciso matá-la. Mas não consigo.

Arrumo o queixo sobre os dedos, afundo as unhas na palma


da mão quando sinto minha respiração ameaçar falhar outra vez e
trinco os dentes para matar qualquer lágrima que se atreva a se
formar. Ainda assim, minha voz sai quebrada quando pergunto:
— Por quê?

— Madelaine… — Suspira, passando a mão pela barba longa


e cheia que começa a ter fios brancos entremeados pelos pretos.
Ele olha ao redor, como se lembrasse que não estamos sozinhos. —
Conversamos depois — determina.
Ignoro.

— Por quê? — insisto. — Não acha que estou pronta para


isso? Que não me preparei o suficiente?

Ofereço respostas, explicações, saídas. Aceito qualquer uma


dessas opções. Enfiei o dedo em uma ferida quando disse a Theo
que ele era apenas um garoto comandando um exército, mas eu só
sabia que acertaria um nervo porque ele existe em mim também. A
maioria dos líderes mundiais assume o controle de um país depois
dos cinquenta anos; eu tenho muito menos que isso, muito mais o
que aprender ainda.

— Brennon vai ser meu sucessor.


— Bre… O quê? — Sinto minha boca cair aberta. Vasculho
seu rosto em busca de qualquer indício de que está brincando ao
sugerir que é uma ideia remotamente aceitável que meu irmão tome
meu lugar, mas não. Meu pai perdeu completamente o juízo. —
Cada segundo da minha vida desde os meus dez anos foi gasto me
preparando para o meu futuro inevitável. Você quis assim —
relembro-o, acusatória.

Criança nenhuma aspira governar um país. Eu queria rolar na


grama e brincar com meu então recém-nascido irmão, mas gastei
manhãs, tardes e noites estudando. Lendo. Treinando. Praticando.
Resolvendo problemas hipotéticos que adultos falhariam, mas que
eu não podia falhar, porque seria a futura rainha de Devondale. Em
algum momento, deixou de ser obrigação. Em algum momento na
minha adolescência, passou a ser meu único sonho. Meu único
objetivo. E ele não vai ser arrancado de mim assim.

— E agora você decide que um adolescente que passou os


últimos anos em um colégio interno e não tem qualquer ideia do que
está acontecendo no nosso país é um candidato melhor? —
pergunto, franzindo o cenho. —Eu sou a melhor opção. Sempre fui.

— As coisas mudaram. — É tudo que papai diz. — Estou


fazendo o que é melhor para você. Você vai ter uma boa vida, um
bom marido…
— Eu não vou me casar — falo com uma risada nervosa por
todo o absurdo dessa conversa, negando com a cabeça.

— Você vai — ele insiste. Antes que eu possa protestar outra


vez, ergue o queixo. — É uma ordem.
Ergo as sobrancelhas, respiro fundo.

— Uma ordem? — repito devagar. Não desvio os olhos dos


dele, mas percebo a movimentação pela minha visão periférica. A
pose estoica de Theodore não está mais no lugar, e tenho vontade
de gritar para que pare de andar de um lado para o outro, porque
não é só um buraco no chão que ele vai fazer;só está servindo para
me deixar nervosa. — Ou o que, Vossa Majestade?
— Eu quero você fora desse castelo em seis meses — avisa.
Não há hesitação na sua voz, não há margem para discussão. É um
comunicado, não uma negociação. — A escolha é sua. Você pode
sair daqui casada com um príncipe herdeiro ou para morar debaixo
de uma ponte.

— Pai… — sussurro, incrédula, o peito apertado por uma


traição maior do que estava preparada para sofrer.
— Seis meses — repete, categórico.

Elijah dá a conversa por encerrada. Alisa a roupa que usa, me


lança um último olhar e vira de costas, caminhando em direção às
portas. Ele está a poucos metros da saída quando encontro minha
voz de novo.

— Mamãe estaria desapontada — digo, baixo. Alto o


suficiente para que ele escute e pare de andar.

— Deixe sua mãe fora disso! — ele grita, virando de frente


para mim de novo, o dedo em riste, raiva na voz.
Seus guardas saem do caminho, abrindo espaço para que ele
se aproxime de mim. Liam e Theodore fazem o caminho contrário.
Em passos decididos, como se combinando em silêncio que papel
cada um desempenharia, se dividem: Liam vem na minha direção,
parando ao pé da escada, olhos atentos e pronto para intervir;
Theodore toma o outro lado, aproximando-se do meu pai, a postura
rígida deixando claro que está esquecendo as implicações de
encostar em um rei.

Seu peito sobe e desce em uma respiração pesada, e eu me


levanto do trono. Seguro a barra do vestido para não tropeçar e
aceito a mão de Liam para me ajudar a descer os degraus até estar
de frente para papai.
— Você pode me expulsar daqui, o castelo te pertence
enquanto carregar a coroa. Talvez isso me forcea me casar — digo,
desviando os olhos dos seus apenas para lançá-los a Theo
brevemente. — Mas você não pode me obrigar a renunciar. É meu
direito de nascimento, de sangue. Brennon não vai ocupar o meu
trono.

— Então eu vou ocupá-lo até o dia da minha morte — papai


devolve. — Você quer o seu trono? Sua coroação vai ser no meu
funeral.

— E você vai continuar levando nosso país para o buraco


pelas próximas décadas — digo, mantendo a pergunta embutida,
mesmo que eu já saiba a resposta.

— Meu país — corrige.


Assinto, sentindo o nariz arder pelas lágrimas que me recuso
a derramar. Desço o último degrau, desviando dele.

— Ela teria vergonha de quem você se tornou — sussurro


quando passo ao seu lado, mas não fico para ver sua reação.
Agradeço Liam com um murmúrio e solto minha mão da sua,
apressando os passos para longe da sala, para longe de todos,
usando cada gota de força que tenho para manter o choro preso.
Um soluço me escapa enquanto atravesso o corredor, meus olhos
marejados me impedem de ver para onde estou indo de tal forma
que me assusto e me sobressalto ao sentir braços apertando a
minha cintura, porque não vi ninguém se aproximar.

— Maddy! — a voz infantil grita, e seco o rosto com rapidez,


piscando para limpar minha visão.

Crispo o cenho ao ver Orson, meu irmão mais novo, agarrado


às minhas pernas, ainda vestindo o uniformeda escola, mochila nas
costas.

— O que você está fazendo aqui? — pergunto, abraçando-o


de volta, apertando-o contra mim, porque faz mais de quatro meses
que não nos vemos.

— Papai mandou virmos para casa.

Não é meu irmãozinho quem responde, e ergo os olhos para


ver Brennon parado a alguns passos de distância. Dentro do mesmo
uniforme do colégio interno que os dois frequentam, a mochila
displicentemente caída em um ombro, ele tem os olhos pretos fixos
em mim, impacientes. O rosto juvenil não mudou desde a última vez
que o vi, mas sua postura está diferente. Mais séria, mais seca.

— Por quê? — pergunto aos dois, acariciando a cabeça


raspada de Orson. — Vocês ainda têm dois meses de aula.

— Papai disse que era para fazer uma surpresa para você e
que a gente precisava tirar medida para o terno do noivado na
semana que vem.

— Semana que… — Paro a frase no meio do caminho, sem


energia para mais desse assunto hoje. Suspiro alto, umedecendo os
lábios. — Certo.

Beijo o topo da cabeça do meu irmãozinho e sussurro uma


promessa de passar algumas horas com ele mais tarde. Ele
concorda e sai correndo pela casa, chamando o nome de meia
dúzia de guardas que são seus favoritos para avisar que chegou.
Cruzo os braços na frentedo peito e espero, mantendo os olhos em
Brennon, que digita alguma coisa na tela do celular com o cenho
vincado.

— E de você, não ganho um abraço? — pergunto. Ele dá de


ombros, sem me olhar, e eu suspiro. — O que está tão importante
no celular que não pode esperar?

Ele para de mover os polegares na tela e ergue os olhos para


mim: temerosos.

— O que aconteceu? — pergunto, preocupada e já cansada


do dia de hoje. Só uma vez hoje gostaria que alguém dissesse
“problema? Nenhum! Tudo está acontecendo dentro do planejado”,
mas sei que não vai ser agora. — Ei. Você sabe que pode me contar
qualquer coisa.

Brennon me encara por entre os cílios, os olhos marejados.


Abro os braços, oferecendo-o o conforto que precisa, ainda que eu
não sabia o motivo. O conforto que eu queria ter de alguém agora.
Só um maldito abraço e alguém me dizendo que vai ficar tudo bem.
Ele aceita, e entra nos meus braços como fazia quando era
pequeno. Brennon está maior que eu, mais alto, e é um encaixe
desajeitado tentar encaixá-lo aqui, mas o faço como posso.

— O que aconteceu? — pergunto baixo, sussurrando em seu


ouvido, sendo transportada para aqueles primeiros dias depois que
mamãe morreu, em que ele entrava no meu quarto à noite e
chorava no meu ombro até dormir. E, como naqueles dias, meu
coração se aperta, meu próprio sofrimento é soterrado para que eu
possa cuidar do dele. Deixo para lidar com meus problemas depois,
porque ele precisa de mim agora.

— Papai vai me matar — ele sussurra com um soluço


dolorido.

Solto um riso seco sem querer, apertando-o um pouco mais.

— Ele está ocupado demais furioso comigo, não se preocupe


com isso — garanto, arrastando os dedos pelas tranças grossas que
ele sempre gostou de usar. — Por que eu não faço um chocolate
quente para nós dois e você me conta qual o problema?

Ele me solta, esfregando o rosto com brutalidade. Os olhos


estão vermelhos, os lábios pressionados em uma linha fina.

— Acho que preciso de alguma coisa mais forte que isso —


murmura, e bato no seu ombro.

— Você acabou de fazerdezoito anos, moleque — repreendo,


prendendo o meu braço no dele. Ele ergue as sobrancelhas, um
sorriso travesso nos lábios. — Não — decido, incisiva.

Ele solta uma risada baixa e me abraça pelo ombro.


— Senti sua falta — diz. Beijo seu rosto e deixo que me guie
pelo corredor. — Está tudo bem?

Nego com a cabeça por um mísero segundo, mas não dou


mais informações que isso. Nós precisamos conversar. Preciso
explicar para o meu irmão mais novo toda a confusãoem que nosso
pai nos colocou. Eu me recuso a fazer dele um oponente em uma
guerra. Não ele. Não meu menino. Não tenho ideia de como vamos
resolver isso, mas preciso arrumar um jeito.

Eu sempre arrumo um jeito.


capítulo sete

Enquanto ando atrás de Elijah e seus guardas em direção ao


seu escritório, digito uma mensagem para Richard. Alterno meu
olhar entre o corredor para que não esbarre em ninguém e a tela do
celular, implorando mentalmente para que ele responda logo.
Respiro aliviado quando a mensagem chega pouco menos de dois
minutos depois.

Eu vou te ligar
. Não fala nada, só escuta
.

Ele visualiza a mensagem e responde com uma confirmação,


então faço o que disse que ia fazer. Espero para ter certeza de que
ele atendeu antes de enfiar o celular na manga da jaqueta da farda,
deixando o microfonevirado para fora,braços cruzados na frentedo
peito após entrar no escritório e fechar a porta atrás de mim.

— Perdoe a cena que você presenciou. Madelaine deve estar


naqueles dias — Elijah diz, acenando a mão em uma displicência
irritada enquanto caminha até a sua mesa. Trinco os dentes para me
impedir de responder. — Bebe alguma coisa?

— Achei que Madelaine estivesse ciente — respondo ao


invés, sentindo o vinco profundo entre minhas sobrancelhas. Elijah
para a meio passo de se sentar na cadeira, a mão apoiada no
recosto, e me lança um olhar contrariado. — Dos termos do
casamento. Achei que ela estivesse de acordo. Madelaine não sabia
que o combinado era que iria para Delway comigo. Sua filha está se
preparando para assumir o trono há anos.

— E isso importa? — pergunta, terminando o caminho até


repousar a bunda na cadeira e olhar para mim de novo.

“É claro que importa, seu filho da puta de merda”, é o que


quero dizer. Infelizmente, não posso. Posso visualizar Richard
lançando-me uma repreensão silenciosa para que eu cale a boca e
deixe que ele resolva. Mas ele não está aqui agora.

— Um casamento por conveniência é diferente de um


casamento forçado, Majestade — rebato, a língua queimando por
gastar o tratamento adequado com alguém que não merece o título.

— É um casamento por conveniência — insiste. — É muito


conveniente para mim.

— Eu não estou confortável com isso — aviso, erguendo o


queixo quando ele estreita o olhar. Elijah mostra os dentes em um
sorriso odioso e cruza os dedos em cima da mesa.

— Você não está confortável com isso — repete, balançando


a cabeça em uma afirmativa. — Muito bem. Espero que esteja
confortável em preparar seus homens para uma guerra tão sem
propósito.

E aqui está, a ameaça explícita com todas as letras. Respiro


fundo, mordendo a língua para não o mandar para a casa do
caralho.

— É isso que quer fazer, Theodore? Desperdiçar recursos,


tempo, prestígio e vidas em uma guerra que pode ser evitada?
— Não, senhor — respondo entredentes. Seu sorriso se
amplia, deleitado por estar dando todas as cartas aqui.

— Ótimo. Não imaginei que fosse. — Ele bate uma palma na


outra e recosta na cadeira. — Confio em você para convencer
minha filha a cooperar. Tanto com o casamento, quanto em
renunciar ao trono. Quero Brennon como meu sucessor, e é
Brennon que vou ter.
Seguro uma risada, mas sei que não consigo disfarçar minha
expressão quando a sua se fecha.

— Tem algo a dizer, Alteza? — pergunta ácido.

Muita coisa. Apenas um idiota acharia ser possível fazer


aquela mulher ser convencida de um absurdo desses. Ela pode se
render ao ridículo que é esse casamento, mas jamais vai abrir mão
do trono. Eu, que a conheço há poucas semanas, sei disso, imagino
que o babaca que a colocou no mundo saiba também.

Balanço a cabeça em uma negativa silenciosa como resposta


à sua pergunta, e ele me olha em silêncio por mais alguns instantes
antes de decidir que não tem mais nada a discutir comigo.
Dispensa-me com um aceno de mão displicente, e ranjo os dentes
com o desrespeito descarado que é tudo o que tem a me oferecer.

Eu sou um peão no seu jogo, nada mais. Qualquer respeito ou


placidez que ele mostrou quando foi até Delway com essa proposta
— chantagem — absurda, era destinada a Richard. Não a mim.

Bato a porta atrás de mim quando saio do escritório e puxo o


celular da manga da jaqueta, trazendo-o ao ouvido enquanto aperto
os olhos com o polegar e o indicador.
— Está aí? — pergunto.

— Que merda foiessa? — Richard pergunta incrédulo do


outro lado da linha. Rio seco, querendo uma explicação também. —
O que aconteceu?

Resumo os acontecimentos do dia, garantindo que detalharei


tudo assim que voltar a Delway. Richard escuta em silêncio sobre
minha conversa com Madelaine, sobre a conversa dela com o pai na
sala do trono. Jogo os olhos para o teto quando ele solta um
xingamento longo e nada principesco.

Richard nunca se desespera, nunca perde a pose. Ele sempre


tem uma solução diplomática para tudo, sou eu a querer tacar uma
bomba nos nossos problemas a todo momento. Mas ele não tem
nada além de um lamento para me oferecer agora, e é assim que
sei que estamos completamente fodidos.

— Tenho uma reunião agora — avisa com um suspiro


cansado. — Voltepara casa. Nós vamos decidir
o que fazer
, juntos.
Não gostoda ideiade cedera chantagensassim.Não abre um bom
precedente.

— Não posso ir ainda — digo e paro de andar, olhando ao


redor sem ter ideia de onde estou. O silêncio de Richard do outro
lado da linha é uma pergunta que ele não precisa fazer. Eu deveria
sair correndo daqui o mais rápido possível, ele sabe. Eu sei.
Quando não adiciono nenhuma explicação, ele apenas suspira e
não pergunta nada.

— Você levou algumsegurançacom você? — pergunta, e eu


finalmente rio, sentindo a tensão escapar um pouco dos meus
ombros.

— É meu trabalho te perguntar isso, Majestade —


desconverso, voltando a andar pelo corredor. — Não pense em
aproveitar minha ausência para ser irresponsável, Richard. Continuo
de olho em vocês, mesmo à distância.
Meu irmão resmunga alguma coisa do outro lado da linha e se
despede, instruindo que eu tome cuidado. Enfio o celular no bolso
depois de enviar uma mensagem para meu segundo em comando
com instruções para o resto do dia e uma ordem para me atualizar a
cada hora sobre o que está acontecendo em Delway.

Atravesso mais meia dúzia de cômodos até encontrar o que


parece ser a sala de estar, onde vejo o guarda que acompanha
Madelaine para cima e para baixo como se fosse a sombra dela,
mas sem que ela esteja à vista. Quando me vê, oferece uma
reverência curta.
— Vossa Alteza — diz, voltando à posição anterior logo a
seguir. — Precisa de alguma coisa?

— Liam, não é? — pergunto; ele assente. — Onde ela está?

Percorro os olhos pelo cômodo outra vez. Se ele está aqui, sei
que ela não saiu do castelo.

— Não tenho autorização para compartilhar essa informação,


senhor — responde.
Estreito os olhos para ele, sem saber se aprecio a lealdade
para com ela ou se me irrito por ser dispensado assim. Liam
mantém a expressão neutra, e eu me aproximo alguns passos para
que não precise gritar de onde estou.
— Se ela estiver nesse castelo, vou encontrá-la — aviso,
dando de ombros. — Quanto mais tempo demorar, mais preocupado
vou ficar, e eu sou insuportável quando estou preocupado sem
saber o paradeiro de alguém.

Ele pisca algumas vezes, parecendo confuso com o que digo.


— Posso garantir que a princesa está bem, senhor — diz, e
reconheço o brilho de interesse mal contido nos seus olhos.

— Você sabe que ela não está — rebato. — Segura, talvez,


mas bem, não.
Ele parece pensar no que dizer. Cruzo os braços na frente do
peito e espero. Liam me encara por mais alguns instantes antes de
suspirar e me oferecer algumas instruções sobre onde encontrá-la.
Agradeço com um aceno e me viro para seguir o caminho que me
indicou, mas não vou longe antes de voltar até ele.

— Seu celular — peço, estendendo a mão. Ele me olha


confuso, mas pega o aparelho no bolso da calça e me entrega,
debloqueado. Não sei se ele colabora apenas por não querer
desrespeitar a hierarquia ou se está curioso com meu
comportamento. Não me importo. Digito meu número e ligo,
esperando que meu próprio celular vibre no meu bolso para que eu
tenha seu número também. Salvo o contato e devolvo o aparelho
para ele. — Meu número pessoal. Se alguma coisa acontecer, se
ela estiver em algum perigo, se o filho da pu… Se o seu rei se
comportar de alguma forma que a ameace, quero que me ligue.
Ele não responde, apenas olha para o celular como se não
entendesse.
— É uma ordem, soldado. Estamos entendidos? — pergunto,
e Liam assente com um “sim, senhor”, mesmo que não precise. Ele
não responde a mim, não precisa me obedecer. Mas o faz, e
agradeço. — Certo. Obrigado.

Afasto-me de vez, seguindo pelo caminho que ele me indicou.


Quase me perco algumas vezes pelo labirinto de corredores que
não conheço bem ainda, mas pouco menos de dez minutos depois,
dois lances de escada e algumas portas erradas abertas, encontro o
lugar em que Liam me disse que ela estaria.

Não bato na porta antes de abri-la, mas ela percebe minha


presença, olhando-me por cima do ombro quando a fecho atrás de
mim. É como um pequeno museu que abriga as relíquiasda família,
um túnel do tempo da linhagem. Temos um desses em Delway,
embora sequer me lembre a última vez em que estive naquela ala
do castelo.

Na parede, pinturas e fotografias que datam de séculos atrás


mostram os rostos dos reis e rainhas passados, com nomes e datas
identificando cada. Aprecio em silêncio enquanto caminho até ela,
parada no meio do cômodo, passando por um longo gabinete de
vidro que expõe páginas amareladas de documentos antigos, livros
grossos e bem conservados e algumas joias. Paro a alguns passos
atrás de Madelaine, que encara com atenção um busto que carrega
um colar, vermelho como o vestido que ela usa.
Rubis.

— O que você ainda está fazendoaqui? — pergunta, sem tirar


os olhos da joia.
— Vou passar a noite — aviso ao invés, mantendo a voz baixa
como a sua.

Odeio a forma como soa. Sem aquele fogo, sem o


atrevimento. Sua voz não está triste, não está quebrada como
imaginei que a encontraria. Apenas soa como… nada. Apática,
desinteressada.

Aproximo-me devagar, parando bem atrás dela, permitindo


poucos centímetros entre meu peito e suas costas.

— Qual a história desse cordão?


— O que você ainda está fazendo aqui, Theodore? — repete,
abraçando o próprio corpo com os braços.

Pressiono os lábios e respiro fundo.Estendo a mão para tocar


seu antebraço e espero para ver se vai me estapear e me afastar,
mas Madelaine não o faz, então dedilho a pele para cima e para
baixo, do cotovelo ao pulso.

— Há quanto tempo tem crises de pânico? — pergunto e,


provando que minha previsão estava correta, ela tenta se afastar.
Não deixo; derrubo a mão do seu pulso à sua cintura e a prendo no
lugar, grudando meu tronco às suas costas. — Só quero ter certeza
de que você está bem. Se precisa que eu ligue para alguém.

— O quê? Meu histórico médico não estava detalhado o


suficiente nas investigações que mandou fazer? — pergunta com
acidez. Desço a boca à sua orelha.

— O meu estava nas suas? — pergunto ao invés. Ela não


responde, e sei que a resposta para as duas perguntas é a mesma:
não foi uma linha que cruzamos.
Não sei quais os motivos dela para respeitar esse limite
arbitrário, mas sei os meus. Sei que estaria muito fodido se meu
próprio histórico médico caísse nas mãos erradas. Não é algo a ser
usado como arma.

— Os rubis foram extraídos daqui — muda de assunto, e levo


alguns segundos para entender que está falando do cordão. — Foi
como o país foi fundado: em cima de uma jazida encontrada por
acidente por duas mulheres que fugiram da cidadezinha onde
moraram para viverem isoladas juntas no meio da floresta. Ou,
como os livros de história gostam de chamá-las, “melhores amigas”.
Ela sussurra a última parte com travessura, olhando-me por
cima do ombro. Sorrio, assentindo em entendimento. Madelaine
volta a encarar o cordão com pesar.

— Devondale virou a casa de todas as pessoas que


precisavam de um lugar para recomeçar. Prosperou por anos, por
séculos. Esse cordão é minha coroa. — Ela solta uma risada seca.
— Uma que nunca vou receber.

Estendo os olhos à joia, visualizo-a no pescoço da mulher à


minha frente. Ficaria perfeito.

— Vai ser seu um dia — digo sem pensar, porque não aceito
uma realidade em que isso não seja verdade.

— Vai — ela concorda. — Daqui a trinta ou quarenta anos. É


um ótimo consolo.

Ela se afasta do meu toque, deixando a ponta dos meus


dedos pinicando onde antes estava sua cintura. Acompanho seus
passos com os olhos, os movimentos inquietos das suas mãos que
passam pelo seu pescoço. Ela para de andar de súbito e se vira na
minha direção, recostando na parede.

Agora, depois do caos que foi o dia inteiro, tiro um segundo


para apreciar a imagem da mulher à minha frente.Ela não está mais
impecável como estava quando foi me encontrar. O vestido
vermelho continua abraçando seu corpo como se fosse feito sob
medida para ressaltar cada curva tentadora. Os seios sobem e
descem conforme respira, esmagados no decote. Os cachos estão
revoltos, o batom não cobre mais os lábios grossos. Ela está uma
bagunça deliciosa por fora, mas sei que a bagunça é dolorosa por
dentro, e é o que me faz dar um passo na sua direção.
Não foisó curiosidade mórbida que me fezperguntar sobre os
ataques de pânico. Foi reconhecimento. Que ela tenha apagado no
carro mesmo a caminho do castelo não foiuma surpresa. Que tenha
tido energia de ter aquela conversa com o pai e que esteja aqui
agora é surreal. Ela precisa descansar.

Madelaine pode estar tentando fingir que está bem por


qualquer que seja o motivo — considerando a cena que acabei de
presenciar, fica claro que mostrar fragilidade nessa casa não é uma
boa ideia. Mas ela não está. Os sintomas agudos podem ter
passado depois de alguns minutos, mas ela precisa descansar
agora. Posso apostar que sua cabeça dói, que está enjoada,
ansiosa, exausta.

Posso apostar que é teimosa demais para admitir isso


também.

— Você não sabia — diz, mas há uma pergunta embutida. Os


olhos escuros escrutinam meu rosto em busca de uma resposta que
não venha de palavras. — No hotel, não sabia que era eu.

Nego com a cabeça, aproximando-me um pouco mais.

— Foi uma coincidência infeliz. Eu também não sabia que


você não estava ciente dos termos desse casamento — explico,
alcançando-a.

Madelaine está presa na parede agora, e a cena é familiar


demais para que eu me impeça de repetir os mesmos gestos. Apoio
uma mão na parede ao lado da sua cabeça e desço a boca ao seu
ouvido.

— O que você estava fazendo naquele hotel, Alteza? —


pergunto, descendo a mão pela sua cintura para firmá-la no lugar.

— Tentando aproveitar o último sopro de liberdade antes de


ficar presa para sempre em um casamento com um príncipe
medíocre que me entediaria por toda a eternidade — responde, e
sorrio contra a sua pele pelo veneno em sua voz. — Foi um azar
enorme que tenha sido logo você a aparecer na minha frente.

— Talvez tenha sido sorte — ofereço a alternativa. Ela estala a


língua. — Para começo de conversa, não tenho nada de medíocre,
nem de entediante.

— Um narcisista irritante não é muito melhor — rebate,


arrancando-me uma risada.

— Não sei fazer acordos políticos, mas entendo o poder de


alianças. Nós podemos ter uma. — Aliso seu pescoço com a ponta
dos dedos. — Você ouviu seu pai, sabe que esse casamento vai sair
de qualquer jeito. Nós podemos fazer isso funcionar
.
— Não vou abrir mão do meu trono, Theodore — ela
responde, cansada.

— Não vou arriscar minha família, Madelaine — devolvo,


suspirando. — É isso que está em jogo, a segurança do meu país,
da minha família.
Ela solta uma risada seca.

— Não estou surpresa por você estar tão disposto a me jogar


aos leões para salvar a própria pele.

Nego com a cabeça.

— Eu te protegeria se pudesse. — Corrijo-me: — Vou te


proteger se eu puder. Mas minha lealdade é aos Thompson e a
Delway, não a uma desconhecida. Se eu precisar te jogar aos leões,
aos leões você irá.

— Filho da puta — rosna, tentando empurrar meu peito. É


inútil, mal me move.

— Minha mãe felizmente não tem nada a ver com isso —


devolvo. — E você sabe que faria o mesmo. Pode me odiar o
quanto quiser, Madelaine, mas posso apostar que você me
empurraria de uma ponte ou enfiariauma facaem mim se isso fosse
resolver os seus problemas. Não minta para si mesma.
Ela fica em silêncio por alguns segundos. Não responde, não
se move.

— Eu encontraria uma forma mais elegante de acabar com


você. — É o que diz ao invés de me repreender por questionar sua
índole. Não deveria, mas isso me arranca um sorriso.
— É mesmo? — murmuro, pousando a boca no seu pescoço.
Sinto sua pele arrepiar com o contato e arrasto os lábios pela
extensão quente. — Deixa eu adivinhar: veneno?

— Semente de cereja moída em grandes quantidades vira


cianeto no corpo.
Balanço a cabeça para mim mesmo, sorrindo na sua pele.
Ótimo. Estou me divertindo com uma ameaça de assassinato
claramente muito bem pensada. Stephen me atormentaria pelo resto
da eternidade se visse isso.

— Me lembre de não aceitar cerejas de você.


— Sementes de pêssego funcionam também. E de maçã…

— Certo, me lembre de não aceitar comida nenhuma de você


— determino. Não vejo, mas tenho a impressão de que ela sorri
também. — Vamos. O narcisista irritante vai te levar para o seu
quarto agora. Tente não me matar no caminho — digo, envolvendo
sua cintura, descolando-a da parede.
Ela vem comigo, aceita meu braço quando o ofereço, mas me
olha desconfiada pelo caminho inteiro. Sua postura é receosa
quando abro a porta e, nos poucos segundos que tenho, percorro os
olhos pela decoração do quarto — a estante com livros, quadros nas
paredes, porta-retratos e maquiagem na penteadeira. Madelaine se
senta na beirada do colchão e cruza as pernas, mantendo olhos
ariscos sobre mim.

— Entregue.
— O que você ainda está fazendo aqui? — pergunta de novo.
Dessa vez, sua voz não está recheada da acidez que parece morar
nela. É uma dúvida genuína e confusa; uma dúvida justa.

— Já disse, vou passar a noite. Queria ter certeza de que


você está bem — respondo, dando de ombros.
— E você espera que eu acredite nisso?

Assinto.
— Te dou minha palavra.

Ela ri.
— E você espera que eu acredite na sua palavra?

— Minha honra é a única coisa que tenho a oferecer,


Madelaine — respondo. — Eu a levo muito a sério.

Ela estreita os olhos. Se ela acredita em mim ou não, não


descubro.

— Você pode ir agora, soldado.


Franzo os lábios para prender o sorriso.

Odiando cada vez menos a perspectiva de ter que lidar com


ela pelos próximos anos.
capítulo oito

Rolo de um lado para o outro na cama, inquieto.

O relógio marca duas e meia da madrugada quando desisto e


me levanto. Atravesso o quarto, em busca do que vestir. Em um
serviço de hospitalidade de dar inveja a hotéis caros, vou até onde
minha farda está dobrada — já lavada e passada. Visto a calça do
uniforme, a camiseta e botas, mas deixo a jaqueta onde está. A
noite está quente lá fora.Sigo em direção à área externa do castelo,
em busca do centro de treinamento.

É o que sempre faço quando não consigo dormir.


Torço para que o lugar esteja aberto e meia hora em um saco
de boxe resolva minha insônia, mas, quando encontro o prédio
certo, vejo que a academia está fechada. Suspiro, considerando
correr pelo jardim, até que vejo uma área acesa. Caminho até lá,
lendo a identificação do estande de tiro, e abro a porta. Pela parede
de vidro à prova de som, vejo Madelaine. Sozinha, descarregando a
arma em um alvo à distância.

Tranco a porta atrás de mim e procuro pelo armário de


equipamentos. Encontro-o e pego óculos de segurança e protetores
auriculares antes de entrar na área de tiro. Caminho até onde ela
está, sabendo que não vai notar minha presença por estar com os
ouvidos cobertos também. Recosto na parede oposta, atrás da baia
onde está, e assisto aos movimentos enquanto descarrega a arma
mais uma vez antes de notar a minha presença.
A essa altura, o alvo está destruído.

Ela aperta o botão vermelho ao lado da sua cabeça, que troca


o alvo por um novo.

Madelaine me olha de lado e tira os protetores dos ouvidos,


deixando-os pendurados no pescoço. Faço o mesmo. Não pergunta
o que estou fazendo aqui, mas subitamente estou superconsciente
de mim mesmo quando seus olhos escorrem pelo meu tronco. Sei
que todas as tatuagens dos meus braços e pescoço estão visíveise
me pego me perguntando se ela gosta. Decido que sim, porque não
disfarçaenquanto me devora. Faço o mesmo, sei que sim, porque a
calça justa que usa aperta seu traseiro e me dá ideias demais.

Ela começa a recarregar a arma, alternando o olhar entre o


que está fazendo e eu.

— Presta atenção no que está fazendo — instruo quando seus


olhos cruzam os meus. — E não aponta a arma para lugar nenhum
que não queria atirar.

— Está travada — diz impaciente.

— Acidentes acontecem — digo, desencostando da parede, e


me aproximo dela, virando seu corpo de frente para a área onde o
alvo está. — E arruma sua postura. Vai foderseu ombro desse jeito.
Você não está segurando direito, cada disparo está dando um
tranco no seu braço.

— Eu não pedi sua ajuda — protesta.

— Deveria, antes de acertar a própria cara por acidente.


Quem te ensinou a atirar? — pergunto, arrumando a posição do seu
ombro e estendendo seus braços à frente. — E desde quando
princesas sabem atirar? Meus irmãos nunca aprenderam.

— Ótimo. Dois terços da sua geração da realeza são


completamente inúteis. Um rei que não sabe se defender sozinho é
tudo o que seu país precisa — debocha.

Empurro seus pés para o lado usando os meus, separando


suas pernas para que tenham a mesma abertura dos seus ombros.

— Ele tem a mim — garanto e prendo meu corpo atrás do seu.


— Não dobra os cotovelos.
— Você encoxa seus soldados assim quando os treina,
general? — pergunta debochada. Eu não estava, mas agora faço
exatamente isso e me encaixo na sua bunda. Sorrio para o seu
suspiro, mas sorrio principalmente para a ausência de reclamação.

— Minha relação com meus subordinados é estritamente


profissional — respondo e arrumo a postura da sua coluna. Coloco
meus protetores de ouvido de volta no lugar e seguro os dela. —
Ombro esquerdo, abdome, perna direita — instruo e enfio os
protetores nos seus ouvidos.
Ela faz os disparos que instruí, mas erra o último quando
aperto a mão que está na sua cintura. Giro o dedo na frente do seu
rosto, indicando para que repita a sequência. Ela acerta os três tiros
dessa vez.

— Liam me ensinou. — Ouço-a dizer por fim.


— Seu pai não sabe, vou assumir — chuto; ela assente.
Arriscando acabar com o que parece uma trégua não falada,
pergunto: — Como você está?
Ela recarrega a arma mais uma vez, aperta o botão que troca
o alvo e volta à posição certa dessa vez.

— Fingindo que o alvo é você — canta antes de se proteger


contra o som alto outra vez e descarregar os tiros com uma precisão
que me surpreende.
Ela sabe o que está fazendo; é boa nisso. Seu ombro parou
de dar solavancos agora que travou os braços no lugar, e,
assistindo-a por mais alguns minutos, tenho a certeza de que
saberia se defender muito bem sozinha se precisasse — contra
mim, inclusive.

Não me afasto, e ela não tenta me afastar também. Continuo


cantando instruções, sequências, corrigindo detalhes da sua postura
pela meia hora seguinte, sem desencostar o tronco dela, sem tirar a
mão da sua cintura.

Em algum momento, os dedos não ficam mais repousados na


sua curva, mas começam uma carícia leve para cima e para baixo,
alcançando suas costelas, descendo ao seu quadril. Em algum
momento, percebo que estou em um terreno perigoso, porque
Madelaine me excita.

Ela me excitou no bar, quando eu não tinha ideia de quem era.


Teve o mesmo efeito quando gritou comigo no escritório do seu pai
quando descobriu quem sou. Não foi diferente ontem, quando a vi
entrar no restaurante, caminhando como se fosse a porra da dona
do mundo. E agora, aqui, no meio da noite em um estande de tiro
porque, posso apostar, também não consegue dormir, percebo que
essa atração é perigosa. Não só por causa da confusão em que o
pai dela me enfiou,não só porque é uma péssima ideia desejar logo
ela, entre todas as mulheres, mas porque são coisas estranhas as
que me atraem.

Eu estou tentando com todas as minhas forças não ficar duro


assistindo-a atirar. Estou falhando miseravelmente.
Que porra de princesa é essa?

Onde estão os bailes, castidade e sorrisos educados?


Em um mundo em que sempre soube que preciso me casar
com alguém que não conheço, Madelaine está perto demais de ser
o que eu escolheria para mim.

Algum tempo depois, ela parece cansar. Arranco os óculos e


os protetores de ouvido quando faz o mesmo e apoia a arma no
balcão. Ela joga os equipamentos de segurança de qualquer jeito no
chão, e os meus vão parar ali também.
— Confere se a arma está vazia — instruo, deslizando a mão
pela sua cintura, sentindo minha voz rouca. Ela o faz. — De novo.

Ela obedece mais três vezes antes que eu me dê por satisfeito


e deixe que trave a pistola e a deixe de lado. Solto um riso seco às
suas costas, odiando-a um pouco mais por ser quem é. Odiando
que tenha seguido as instruções sem reclamar, odiando-me por
querer distribuir tantas outras.
— Eu tive um dia infernal — ela fala, baixo.

— Eu sei — sussurro, apoiando a outra mão na sua cintura


também. Devagar, enfio os indicadores por baixo da camiseta,
sentindo sua pele quente e macia debaixo dos meus dedos ásperos.
— O mesmo tipo de dia infernal que te levou ao hotel naquela noite?
Ela assente em silêncio, e eu desço os dedos para a barra da
sua calça.

— Você foi embora antes que eu pudesse te desestressar,


naquela noite — sussurro ao seu ouvido. Aperto seu quadril quando
ela suspira e praguejo quando ela esfrega a bunda em mim. —
Posso corrigir isso hoje, Alteza — ofereço, beliscando seu lóbulo
entre os dentes.
— Para alguém que dedica a vida a cuidar da segurança
alheia, você não tem nenhum zelo pela sua própria — diz, fitando-
me por cima do ombro, olhos travessos brilhando na minha direção.
— Posso não ter cerejas aqui, mas tenho uma arma. E dentes —
sussurra a última parte, os olhos caindo à minha boca.

— Talvez eu goste de dentes — devolvo, e sua pose vacila por


um segundo. — Câmeras de segurança? — pergunto, colocando
uma mão devagar por dentro da sua calça.

— Desliguei todas quando entrei — garante, piscando


lânguida quando encaixo a palma em cima da sua calcinha.

Estalo a língua, escorregando dois dedos por debaixo da


renda.

— Irresponsável — repreendo e belisco o nervo inchado. Ela


ofega. — E se alguma coisa acontecesse com você aqui?

Deslizo os dedos pela sua umidade quente; enfioum, depois o


outro. Subo a mão livre por dentro da camiseta, enchendo-a com um
seio. Belisco o mamilo intumescido com força e movo os dedos
devagar dentro dela, sentindo minha ereção pulsar dentro da calça,
dolorida.
Ela geme, e eu quero bater a cabeça na parede para tentar
fazer meu cérebro voltar a funcionar, mas ele decidiu tirar férias
agora.

— O que eu faço com você? — rosno, aumentando a


velocidade dos dedos dentro dela, acelerando o estímulo no seu
clitóris, descontando em mordidas o descontrole que seus gemidos
causam.

Ela não dura muito. Sua respiração entrecortada anuncia o


orgasmo que se aproxima, as mãos agitadas tentam agarrar alguma
coisa à sua frente.

Seguro-a quando suas pernas fraquejam e beijo seu pescoço


enquanto seu corpo estremece, derretendo nos meus dedos. Tombo
seu tronco para frente, e ela não espera instruções para que se
apoie nos cotovelos e empine a bunda para mim. Desço sua calça
pelas pernas, trazendo a calcinha junto, abrindo espaço apenas o
suficiente para que a boceta fique à minha disposição. Não tiro os
olhos do meio das suas pernas enquanto abro a minha calça, mas
alcanço seu olhar quando envolvo meu pau com os dedos. Sorrio
afetado quando ela morde o lábio ao me ver subir e descer a mão
pela minha extensão.

Aproximo-me por trás, enroscando seu cabelo no punho,


arrancando um gemido gritado dela quando puxo para trás e arqueio
suas costas. Encaixo-me entre suas pernas, pincelando a cabeça do
meu pau na sua entrada. Inclino-me sobre ela, pousando a boca na
sua orelha.

— O que você quer, Alteza? — pergunto e mordo sua pele,


enfiando a cabeça e tirando, em um vai e vem torturante para mim
também. Ela rebola e empurra contra mim, impaciente. Seguro sua
cintura, mantendo-a no lugar. — Quer que eu te foda?

— Você é detestável.

— Hm… — murmuro, segurando meu pau e arrastando-o pelo


seu clitóris. Bato com a cabeça no nervo algumas vezes, esfrego, e
ela geme. Deslizo pela sua umidade, amaldiçoando seu suspiro
quando a penetro apenas alguns centímetros. — Detestável?

— Babaca.

— Gostosa. — Entro nela um pouco mais, começando a


perder a disposição para atormentá-la.

— Vai se foder, Theo — resmunga, mas meu nome vira um


gemido desejoso, uma súplica sussurrada, e leva minha sanidade
embora.

Penetro-a de uma vez só, arrancando um gemido alto de nós


dois quando me acomodo inteiro dentro dela. Puxo seu cabelo para
trás com mais força, encaixando a boca na sua orelha.

— Olha a boca — provoco, saindo por inteiro apenas para


entrar de novo em uma estocada bruta que impulsiona seu corpo
para frente e a faz deixar escapar um grito estrangulado.

Madelaine geme, trazendo uma mão para trás, encaixando-a


na minha nuca, puxando-me mais para perto. Mordo-a quando suas
unhas afundam na minha pele, prendo-a no lugar com uma mão,
exploro seu corpo inteiro com a outra. Aperto sua coxa, belisco seu
seio, encaixo a palma na sua garganta. Alimento-me dos seus
gemidos desamparados enquanto estoco rápido, indo tão fundo
quanto consigo.
Muito mais bruto do que planejei, cegamente motivado pelos
seus incentivos. Ainda assim, não parece ser o suficiente. Desconto
nela a irritação com o dia em estocadas violentas. Recebo das suas
unhas a frustração que sente em arranhões ardidos que vão me
marcar. Perco o que resta da minha sanidade a cada pedido por
mais que Madelaine solta em sussurros entrecortados, exigências
imploradas.

O esforço que faço para não gozar não é algo que eu tenha
experimentado antes. Toma tudo de mim, cada gota de autocontrole
que possuo. Minhas pernas tremem, meu corpo queima, meus
dedos afundam ainda mais na sua pele.

— Você vai gozar pra mim? — pergunto ao seu ouvido,


sentindo minha voz rouca, instável. Ela joga a cabeça para trás,
apoiando-a no meu ombro, e assisto de perto os olhos fechados e
lábios entreabertos. Deliciosa. Escorrego a mão ao seu clitóris, sem
alcançá-lo. Circundo a área, sorrindo para o seu suspiro frustrado
quando não a toco onde quer. — Pede para gozar, Alteza —
sussurro, entregando a reverência ao título que sei que ela quer.

Funciona.
— Me faz gozar.

Circulo seu clitóris com uma precisão militar, do jeito que


rapidamente aprendo que gosta, e ela explode. Continuo estocando
enquanto goza, enquanto me aperta, me esmaga, enquanto se
rende e derrete. Sussurro indecências ao seu ouvido, acertando-a
de novo e novo, prologando o prazer que não estou pronto para ver
acabar. Mas acaba, cedo demais, e paro dentro dela antes que eu
me perca também.
Saio de Madelaine, esfrego o pau melado pela sua bunda
antes de puxá-la para mim. Sou eu que estou preso à parede dessa
vez, encaixando o corpo dela ao meu ao atacar sua boca. Ela geme
nos meus lábios, afundaos dedos afoitosno meu cabelo. Trago sua
mão ao meu pau, envolvendo seus dedos na minha ereção dolorida.
Solto um palavrão contra a sua boca quando começa a me
masturbar. Madelaine sorri, deleitada.

Eu estou perto, muito perto de gozar na sua mão como um


garoto inexperiente.
Seguro seu pescoço por trás, prendo sua cabeça no lugar
enquanto exploro sua boca com a mesma brutalidade que meu pau
teve a oferecer minutos atrás. Sugo o lábio inchado, puxo-a para
mais perto.

— Eu quero sua boca — digo, prendendo o lábio inferior entre


os dentes, puxando-o com força para mim. Meu pau pulsa em
expectativa quando visualizo a cena. Levo o polegar à sua boca,
engulo em seco quando ela o suga.

Madelaine não conseguiria esconder o desejo estampado nos


olhos se tentasse; e ela não tenta. Aperta-me ainda mais, e bato a
cabeça de leve na parede, fechando os olhos, engolindo duro em
antecipação. Entreabro os olhos, inebriado com a visão quando a
pego no flagra encarando meu pau, a ponta do lábio preso entre os
dentes, a mão subindo e descendo pela extensão dolorida.

— Me chupa — peço, puxando o lábio com o dedo, soltando-o


de entre seus dentes. — Ajoelha e me chupa.
Percebo meu erro quando ela ergue os olhos para mim por
entre os cílios, uma sobrancelha arqueada, um sorriso malicioso
crescendo devagar. Madelaine dá um passo para mais perto,
acabando com a pouca distância entre nós dois. Ergue-se na ponta
dos pés para trazer a boca à minha orelha.

— Você quer minha boca? — pergunta em um sussurro,


acelerando o movimento da mão, punitiva. — Quer que eu te
chupe? Eu sou muito boa nisso.
— Maddy… — gemo, impulsionando o quadril no seu punho
apertado.

Sinto seu sorriso na minha pele.

— De joelhos? Para você? Nunca.

— Puta merda — rosno, sorrindo para a provocação


devolvida, sentindo o corpo inteiro queimar. Solto um gemido grave,
a segundos de gozar na sua mão.
Então, ela para.

É claro que ela para.

— Filha da…

— Olha a boca — interrompe, voltando a acariciar meu pau.


— Ninguém te ensinou que príncipes precisam ser educados? Já
basta que não tenha se guardado para o casamento — repreende,
escorregando a mão para as minhas bolas em um aperto quase
doloroso. — Francamente, Theodore, o que vão dizer de você por
aí?
— Você não presta — acuso, sem conseguir matar o sorriso
quando volta a me masturbar devagar. Eu não devia estar tão
deleitado com isso, mas estou. Puta merda, eu estou.

— Já fui acusada de coisas piores — diz, acelerando o


movimento da mão outra vez. Os olhos arteiros vasculham meu
rosto e, antes que diga qualquer coisa, sei exatamente quais as
próximas palavras que vão sair da sua boca. Acerto em cheio: —
Pede para gozar.

Amplio meu sorriso, entendendo a dinâmica. Madelaine vai


devolver cada coisa que eu fizer com ela. Estamos brigando por
poder aqui, e já aprendi que esse não é um jogo que ela gosta de
perder. O problema é que eu também não.

Puxo-a pela cintura e inverto nossas posições, prendendo-a


com a barriga contra a parede. Encaixo-me na bunda arrebitada
virada para mim. Esfregoo pau entre as bandas, colo a boca no seu
ouvido.
— Me faz gozar — peço, ordeno, esfregando-me nela.
Madelaine geme, empinando a bunda, concedendo-me mais
espaço. — Você é infernal — acuso, apertando sua cintura com uma
mão, envolvendo meu pau com a outra. — Me faz gozar, Maddy.

Ela cobre minha mão com a sua em um movimento precário


pela posição que está, mas é o último estímuloque faltava para que
eu ceda. Afundo o rosto no seu pescoço, deixando que assuma o
vai e vem desajeitado enquanto gozo na sua bunda, apertando-a
contra mim. Meu coração bate acelerado por cada centímetro do
meu corpo, minha respiração descompassada alinha com a sua.
Não me movo por alguns minutos e, quando o faço, é para tirar a
camiseta e usá-la para limpar a bagunça que fiz nas suas costas.

Madelaine não faz nenhuma menção a se mover também,


apenas apoia os cotovelos na parede e deixa que eu arrume suas
roupas. Beijo cada centímetro da sua pele que encontro enquanto
devolvo as peças para o lugar. Mordo cada curva, sugo gotas de
suor pelo caminho. Puxo seu cabelo para trás, viro seu rosto para
mim e devoro sua boca com brusquidão. Viro-a de frente para mim,
prendo suas mãos para cima e continuo a beijando, por minutos a
fio até que nossos corpos se acalmem e voltem a funcionar
propriamente.
— O estresse passou? — pergunto na sua boca, e ela solta
uma risada débil.

— O de hoje? Sim. O que vou sentir quando acordar e lembrar


da merda que acabei de fazer? Esse nem começou.

Mordo seu lábio, beijo-a uma última vez, sabendo que ela está
certa.

Isso não devia ter acontecido.


Isso não podiater acontecido.

As coisas acabaram de ficartãomais complicadas.


Madelaine tem razão: príncipes precisam ser educados e,
seguindo todas as tradições, eu deveria ter me guardado para o
casamento; ela também. Claramente, não foi o que aconteceu. O
problema é que essa pode não ter sido minha primeira vez, mas foi
a primeira vez que uma merda dessas aconteceu. Que eu deixei
uma trepada complicar as coisas, que minha racionalidade não me
parou. Nunca fodi ninguém assim antes. Nunca como foi com ela
agora. Essa vai ser uma noite difícilde esquecer. Impossível de
esquecer.

Mas isso não muda nada. Só piora tudo.


capítulo nove

Com Brian à minha frente,confirmoalgumas operações táticas que


estão acontecendo no momento: ajuda humanitária em um país, apoio
militar a outro, aumento de segurança em algumas áreas, realocação de
homens para outras. Ando de um lado ao outro no meu escritório
enquanto ele me atualiza do que perdi nos últimos dias, mesmo que
tenha me mantido informado.

Canto meia dúzia de ordens, rearranjo grupos de soldados. Instruo


que passe as decisões para os comandantes responsáveis por cada
batalhão, peço que marque outra rodada de treinamento para os
soldados que compõem a guarda real, porque a maldita provocação de
Madelaine não sai da minha cabeça e agora tudo o que consigo pensar é
que Richard é incapaz de se proteger sozinho se precisar.

Não é uma boa hora para isso, não com Elijah por perto.

— Reforce a segurança de Stephen, Louise e as crianças também


— instruo. Brian ergue uma sobrancelha, prevendo o problema, porque
meu irmão irresponsável odeia andar acompanhado por guardas por aí,
mas isso já não é problema meu.

— Okay… — ele diz, estendendo as vogais, digitando no


computador as minhas últimas recomendações, alternando o olhar
curioso entre o aparelho e o meu andar ritmado de um lado para o outro.

— Quero um relatório completo sobre as instalações militares de


Devondale — peço, parando de braços cruzados para ele. — Tipo de
armas que possuem, quantos tanques, quantos soldados, a marca da
caneta que usam. Tudo.
— Você sabe que isso é informação confidencial, não sabe? —
pergunta. Ergo as sobrancelhas. — Certo — ele murmura, digitando mais
alguma coisa antes de fechar o aparelho. — Está tudo bem?

É claro que não. É uma pergunta idiota de se fazer.

Não respondo, porque a porta atrás de mim se abre sem que


ninguém tenha batido e pedido autorização antes, e isso só pode
significar uma pessoa.

— Como está o CEO do exército? — Stephen pergunta no seu tom


brincalhão de sempre. Olho-o por cima do ombro, assistindo-o se jogar
deitado no sofá.

Aceno em silêncio com a cabeça para Brian, para que nos dê


privacidade, e ele sai com uma reverência ao meu irmão, fechando a
porta atrás de si.

— Você não tem nada para fazer? — pergunto, contornando a


mesa e abrindo uma pasta com documentos. Percorro os olhos pelos
papéis, ainda de pé. — Onde estão seus filhos?

— Heather está os ensinando a patinar no gelo — diz, referindo-se


à nossa rainha. — Já falou com Richard depois que voltou? Ele estava
enlouquecendo todo mundo atrás de você. Por que está se escondendo
aqui?

— Não estou me escondendo, Stephen, estou trabalhando. Você


devia tentar às vezes.

— Ninguém me respeita nessa família— reclama. Desvio quando


me arremessa uma almofada, e ela acerta o chão, inofensiva. — Você
está parecendo mais estressado que o normal hoje. Não me diga que a
gente teve aquele trabalho todo para ensinar o Richard a não trabalhar
até morrer só para você ir pelo mesmo caminho agora.
Fecho os olhos, apertando-os com os dedos. A descontração de
Stephen costuma ser bem-vinda; é exatamente o que preciso em um dia
estressante. Mas hoje tudo está me tirando do eixo. O silêncio me irrita.
O barulho me irrita.

— Quer treinar? — oferece.

Nego com a cabeça.

— Hoje não.

O silêncio que segue a minha negativa é estranho o suficiente para


chamar minha atenção. Olho para ele e encontro surpresa estampada
nos traços sempre tão tranquilos.

— Você não… — Stephen pisca, confuso. Puxa o celular do bolso,


digita alguma coisa e o leva à orelha. Alguns segundos depois, balbucia:
— Você está ocupado? É importante. Acho que o Theo está quebrado.
No escritório dele, no centro de treinamento.

Ele encerra a ligação alguns segundos depois e não diz mais nada,
só continua me olhando com preocupação. Não demora muito para que
Richard apareça, o cenho franzido, sobrancelhas vincadas.

— O que aconteceu? — pergunta preocupado, olhando de mim


para Stephen.

Dentro do terno que sempre usa, passando a mão pelo cabelo


castanho-claro, o peso da coroa começa a aparecer. Richard mal chegou
aos trinta e sete anos, mas está exausto. Sequer chegou a completar
dois anos de governo ainda, e as responsabilidades e problemas de
liderar esse país cobram seu peso.

Olhando para ele, eu me sinto um enorme filho da puta.

Sei que não é minha culpa que Elijah tenha resolvido deixar o
quarto círculo do inferno e aparecer nas nossas vidas, mas essa história
parece ter saído do controle. A ameaça velada virou uma real, e eu sei
que Richard está perdendo noites de sono procurando uma saída para
não ceder a chantagens porque sabe que não quero esse casamento,
mas proteger nossa família é meu trabalho, não dele.

É meu trabalho encontrar uma saída para essa merda e, ao invés,


gastei a noite enterrado na mulher que é a maior ameaça para Delway
agora.

— Steph bateu a cabeça — digo, voltando a atenção para o


documento à minha frente, lendo e relendo os parágrafos como se
fossem magicamente resolver todos os meus problemas.

— Ele não quer treinar — Stephen acusa, como uma criança


linguaruda que mal pode esperar para dedurar o irmão.

Suspiro e cruzo os braços, olhando impaciente para ele.

— Estou ocupado.

— Você nunca está ocupado demais para chutar a bunda do


Stephen. — Richard entra no assunto, ignorando o protesto ofendido do
nosso irmão, que solta um “ei!” quando tem suas habilidades
questionadas. — O que você não está me contando?

Olho de um para o outro e reviro os olhos, derrotado.

Derrotado.

Essa é a palavra certa.

— Não tem saída — digo por fim, esfregando a mão pelo cabelo,
começando a me acostumar com os fios mais longos. Lanço os olhos
para Richard e jogo a cabeça para trás. — Eu não sei o que fazer.

Sinto a mão do meu irmão no meu ombro, em um aperto firme.


— A coisa certa a fazer é recusar esse casamento. Se o resto do
mundo descobrir que o rei de Delway aceitou uma chantagem barata
como essa, que aceitou que seu general se case para evitar uma guerra,
nossa credibilidade vai para o saco e nosso poder militar vai ser
questionado. Não acho que nossa famíliaestá em posição de arcar com
mais nenhum escândalo.

Alterno o olhar entre os dois, sem adicionar a explicação em


palavras. Eles sabem que suas ações passadas trouxeram problemas
para a realeza.

— Mas? — Steph pergunta.

— Nós não estamos em posição de começar uma guerra também.


Podemos, mas… — Suspiro, frustrado. — Se eu colocar meus homens
na linha de fogo porque não quis me casar, vou perder o respeito e a
lealdade deles.

Quando digo isso em voz alta, sei que não é inteiramente verdade.
Cada um deles morreria para proteger a famíliareal, e eu sou parte dela.
A verdade completa é que não detesto a ideia desse casamento o
suficiente para pedir que provem sua lealdade assim.

O que faz de mim um filho da puta maior ainda, porque sei o que
está em jogo para ela. Mas a minha lealdade é para com a minha família,
não uma mulher desconhecida que caiu no meu colo. Não posso comprar
essa briga por ela. Não vou comprar essa briga por ela.

Merda, Madelaine…

— Nós vamos treinar — Richard determina, apertando meu ombro


mais uma vez antes de me soltar e começar a tirar o paletó. Encaro-o
com o cenho vincado. — É uma ordem, general.
Dá as costas e segue em direção à porta. Indica com a cabeça
para que Stephen o siga também, e meu irmão se levanta do sofá.

— O CEO do país mandou, está mandado.

— Você tem que parar com essa merda de CEO — repreendo,


acompanhando-o pelo corredor, contrariado.

— Culpa dos livros que suas cunhadas leem. Sempre tem um CEO
perdido em algum lugar. — Ele me olha por cima do ombro com uma
careta. — Nunca tem um mísero príncipe, acredita? Me senti ofendido.

Rio, finalmente, e Stephen me dá um sorriso tranquilo.

— É só você virar CEO de alguma coisa também. Eu voto em ser


CEO do tempo livre — implico, mesmo que isso não seja verdade há
muito tempo. Steph costumava fugir das obrigações com a realeza como
o diabo foge da cruz, mas nos últimos anos tem sido fundamental para
todos nós.

Ele sempre foi fundamental para a minha sanidade.

Não acho que Richard e eu teríamossobrevivido até aqui com todo


o estresse e problemas sem Stephen para nos lembrar de que existe vida
fora de crises políticas.

Ele para de andar, olha ao redor como se para garantir que Richard
não está mais por perto e se vira para mim.

— Vocês dormiram juntos, não foi? — pergunta, sem julgamento


nenhum na voz. Abro a boca para dizer que ele está louco, mas Steph ri.
— A menos que você tenha entrado em uma briga com um gato, isso no
seu pescoço são marcas das unhas da sua noiva — aponta, divertido.

Levo a mão à nuca, aos pontos ardidos queimando minha pele e


fazendo ser impossível esquecer que ela esteve aqui.
— Ótimo, vocês se entenderam então. Por que essa crise toda? —
pergunta, voltando a andar na frente. Ele não me dá tempo de desmenti-
lo, de novo. — Sem ofensas, Theo, mas você pode ser um enorme filho
da puta quando o assunto é a nossa proteção. Jogaria qualquer um aos
leões para nos manter a salvo. Por que está hesitando tanto? É só um
casamento. Um que claramente nem começou e já está indo muito bem.

Rio pelo nariz e estalo a língua, lembrando que ela me acusou da


mesma coisa. Eu posso ser um enorme filho da puta, quero ser um
enorme filho da puta com Elijah. Mas não quero machucar Madelaine no
processo. É essa a porra da crise.

— Vamos — murmuro para mim mesmo, sem ter ideia se ele me


ouviu.

Não espero para descobrir. Indico que me siga até o andar de


baixo, onde o som de soldados treinando invade o ambiente. Atravesso o
andar até uma área privada e encontro Richard preparando os
equipamentos de esgrima. Ele me entrega uma máscara.

— Precisamos marcar seu jantar de noivado — diz em um tom que


me diz que não queria ter essa conversa, mas que precisa me avisar.

Suspiro e pego a máscara.

— Preciso te ensinar a atirar.

Meus pais chegaram há poucos dias. Surpresos com a notícia do


noivado de última hora, mas sem estranhar que tudo tenha sido tão
abrupto. São como as coisas funcionam por aqui, afinal. Ainda não tive
tempo de falar com os dois. Passei a última semana reforçando a
segurança do castelo em preparação para o meu jantar de noivado, que
acontece hoje. Em alguns minutos.

Funcionários correm de um lado para o outro ajustando os últimos


detalhes, e estou terminando de repassar as instruções para os guardas
no salão principal que está arrumado e decorado à espera da adorável
família da minha noiva.

— Você está com uma cara péssima. — Viro o rosto na direção da


voz da minha cunhada, vendo Louise dentro de um vestido longo e
formal, roxo, com o cabelo ruivo solto sendo puxado pelas mãozinhas
agitadas do meu sobrinho enquanto ela tenta mexer no tablet com a mão
livre. Estendo os braços para que ela me entregue James e prendo o
garoto ao meu peito. — Qual foi a última vez que dormiu?

— Antes de você entrar para a família— provoco, lembrando-a de


toda a confusão causada pelo casamento dela e de Stephen, o primeiro
de nós três a subir no altar. — Depois disso, cada segundo da minha vida
é dedicado a fazer com que não se matem com as irresponsabilidades de
vocês.

Ela sorri, apertando algumas coisas na tela do tablet, e repassa os


últimos detalhes de como vai funcionara noite. Agradeço-a por organizar
tudo, e conversamos por mais alguns minutos sobre a logística de tudo
antes de eu me despedir.

— Theo — ela chama, e a olho por cima do ombro. — Devolve o


meu filho — diz, movendo as mãos para que eu entregue James.

— Você é muito egoísta com essas crianças — repreendo,


passando o bebê para o seu colo.

— Tenha seus próprios filhos e deixe os meus em paz — fala,


ajeitando-o no ombro.
Reviro os olhos carinhosamente. Nossa relação começou difícil,
mas nos tornamos bons amigos com o passar dos anos. Louise foi uma
adição valiosa para a felicidade dessa família, apesar de se unir a
Stephen na missão de enlouquecer todo mundo. Ela virou uma irmã.
Uma que ama me atormentar.

É um lembrete de que nós fazemos tudo dar certo, de um jeito ou


de outro.

Mantenho isso em mente quando ela toca no ponto de


comunicação em seu ouvido e me diz:

— Parece que sua noiva chegou.


capítulo dez

Toda a formalidade exigida pela ocasião foi entregue.

Toda formalidade que Richard adora, e que Stephen domina,


mesmo que odeie, foi entregue. O meu problema com isso é que nunca
precisei ser o centro das atenções de bailes, jantares, cerimônias; meu
trabalho sempre foi garantir que os dois terminassem a noite vivos.

Odeio cada segundo de todos os olhos sobre mim.

Quem adora toda a atenção é minha querida noiva.

Madelaine parece estar em seu habitat natural, sorrindo e


respondendo a todas as perguntas da minha famíliacom um tom político.
Ela comanda a conversa como se a pertencesse, direciona o assunto
para onde bem entende, desvia de qualquer pergunta que não queira
responder com tanta graça e competência que duvido que alguém note o
que está fazendo.

Eu noto.

Com ela ocupando os silêncios, posso voltar à minha posição de


interesse: calado, observando meu arredor. Ela mal olha na minha
direção. Tudo bem, porque mal olho na dela também. Meus olhos se
mantêm atentos ao homem sentado ao seu lado, bebendo e se divertindo
como se não fosse a pessoa mais odiada desse castelo. Pelo menos por
nós três; somos os únicos cientes do que está acontecendo.

Não sei como meus pais reagiriam a tudo isso. Eles finalmente se
aposentaram depois de uma vida inteira lidando de merdas como essa,
não quero arrastá-los para preocupações outra vez. Não quis arrastar
minhas cunhadas para isso também, não ainda. Até onde sabem, é
apenas um casamento por conveniência, como esperavam que
aconteceria comigo. Louise já lidou com merda demais na vida, e
Heather… Nossa rainha acabou de chegar na realeza e se sente culpada
demais por tudo o que a sua presença desencadeou. Ela não precisa de
mais esse peso nas costas. A patinadora gentil que encantou o coração
do rei é a única nessa famíliaa carregar toda a inocência e doçura de
uma vida longe de disputas por poder. Gostaria que preservasse esse
traço.

— Você é a cara da sua mãe, querida — minha mãe diz, e atrai a


minha atenção. A minha e a de Madelaine, que devolve o garfo ao prato
e a olha da outra ponta da mesa, confusa. — Sinto muito que ela não
esteja aqui hoje.

Madelaine não diz nada por alguns segundos. Acompanho com


atenção as mudanças sutis no seu rosto: a tranquilidade fingida escorre
por um instante e um lampejo de dor corta os olhos escuros. Fico
inquieto no lugar, incomodado com seu incômodo.

— Minha mãe? Vocês se conheciam? — ela pergunta, tentando


manter um tom confiante, mas sua voz sai entrecortada. Lanço os olhos
rapidamente para Elijah, que encara minha mãe pela borda da taça que
segura perto do rosto, cauteloso.

Beatrice Thompson sorri, com a doçura e acolhimento que tem para


oferecer a todos.

— Tamara e eu estudamos juntas por muitos anos. Perdemos


contato depois, você sabe como é a vida. Prometemos uma para outra
quando tínhamos nossos doze anos que nossos filhos se casariam um
dia, quem diria que aconteceria de verdade — diz, saudosa e divertida,
com um sorriso bonito no rosto. — Sempre a admirei muito. Tenho
certeza de que ela teria muito orgulho de você.
Maddy pisca rapidamente, como se tentasse matar lágrimas que
fazem seus olhos cintilarem. Eu vasculho a mente, procurando pela
explicação que logo percebo que não tenho. Se mamãe e Tamara foram
amigas em algum momento, seria motivo o suficiente para me empurrar
esse casamento como um acordo entre famílias.Por que merda Elijah
descambou para o caminho da ameaça?

— Minha esposa sempre falou de você com muito carinho — Elijah


falaapós alguns instantes, e me irrita o quão genuínasua voz parece. —
Ela ficaria muito satisfeita com esse casamento.

Refreio minha vontade de revirar os olhos, Madelaine não.

Estreito os olhos quando Elijah apoia a mão no antebraço da filha,


confuso com o olhar carinhoso que ele despende a ela.

— Eu não poderia ter escolhido ninguém melhor para cuidar da


minha menina — ele diz e estende a atenção para mim. Seu tom é cheio
de insinuações agora: — Theodore já provou estar disposto a fazero que
for necessário para proteger sua família.Estou esperançoso que essa
proteção se estenda à minha filha.

Sorrio, ácido. Umedeço os lábios, ignoro o silêncio que cresce


quanto mais eu demoro a responder. Elijah está esperando uma
confirmação, mas não jogo no ar promessas que não estou disposto a
cumprir. Nunca volto atrás na minha palavra, não será por ele que
comprometerei minha honra.

— Vou fazero que estiver ao meu alcance para proteger Madelaine


— garanto. — Contra quem for necessário — adiciono, embutindo a
mesma insinuação na minha voz.

O sorriso dele morre. O meu se amplia.


— A gente pode comer sobremesa agora? — A voz de Blair, filha
mais velha de Stephen, quebra a tensão do cômodo.

Olho para a pequena, sentada no canto da mesa que foi destinado


às crianças, que nos fita com olhos pidões ao lado do irmão mais novo
de Madelaine. Orson está alheio ao que acontece entre os adultos, mas
Brennon está atento a cada palavra. Sentado do outro lado de Maddy,
teve os olhos sobre mim a noite inteira. Não tenho ideia do que se passa
na sua cabeça.

— Sobremesa parece uma boa ideia — Madelaine fala, trazendo a


taça de vinho aos lábios para um gole longo e nervoso.

Não demora para que os pratos sejam trocados e a sobremesa seja


trazida para a mesa. Lanço um agradecimento ao funcionário que me
serve e escondo meu sorriso atrás da minha própria taça de vinho
quando o prato com a fatia de torta é colocado na frente da minha
querida noiva. Ela tem uma sobrancelha arqueada quando me olha.

— Espero que goste, querida — minha mãe diz da outra ponta da


mesa. — Theodore disse que torta de cereja é sua preferida.

Madelaine tenta. Cada músculo do seu rosto parece trabalhar para


manter a expressão neutra, mas ela falha, e o repuxar de lábios fica
visível. Ergo minha taça para ela e pisco, ciente de que estou brincando
com o perigo e adorando cada segundo.

— Deixa eu ver se entendi direito — ela diz assim que estamos


sozinhos.
Pelo jardim em um passeio que se tornou tradição nos jantares de
noivado dessa família,conduzo-a para longe do castelo, por entre as
floresde mamãe. O vestido longo que usa arrasta pela grama úmida pelo
orvalho, e chego à rápida conclusão de que ela sempre deveria vestir
vermelho. Madelaine para de andar e se vira para mim.

— Nossas mães eram amigas — diz, listando nos dedos. — E hoje


foi a primeira vez que eu ouvi sobre isso?

— Você está esperando uma explicação, mas o pai louco é o seu


— rebato, arrastando a mão pelo cabelo. Ela estreita os olhos em um
aviso, mas ignoro. — Eu não sei, Madelaine. Quando se tratar de
qualquer coisa que ele faça, a minha resposta sempre vai ser “eu não
sei” — admito frustrado, porque ele me coloca em uma posição que
odeio ficar: no escuro. — Você deveria ser a especialista em Elijah.

Ela respira fundo, lançando os olhos para o céu estrelado. A noite


está linda. Agradável. Eu preciso de muito mais álcool do que consumi
para chegar ao fim dela sem enlouquecer.

— Ele não é a mesma pessoa que costumava ser — murmura. Não


tenho certeza se para mim ou para si mesma.

— Escuta… — digo, dando alguns passos na sua direção. Ela


ainda está distraída quando pouso a mão no seu pescoço e demora a
trazer os olhos para mim quando não cesso o toque. Arrasto o polegar
pela sua mandíbula. — Eu só quero que essa merda toda acabe logo.
Nós podemos marcar esse casamento para daqui a algumas semanas,
encerrar esse assunto, tirar a atenção do seu pai de cima do meu país.
— Antes que ela proteste, adiciono: — Ele já deixou claro que você não
vai assumir o trono agora, Maddy. Só estou sendo racional.

— Você está sendo racional… — ela murmura e estala a língua.—


Eu prefiro ser comida viva a ceder, Theodore.
A firmeza com que diz isso me faz consertar a postura. Tem fogo e
determinação, não abre espaço para discussões. Aproximo-me um pouco
mais, descendo a boca ao seu ouvido.

— Posso ajudar com a parte de ser comida — sussurro, apoiando a


outra mão na sua cintura.

Ela ri.

— Você está confortáveldemais com isso tudo para alguém que diz
não querer esse casamento — acusa, desconfiança transbordando da
sua voz.

— O que posso dizer? Você me diverte — admito, pescando o


lóbulo da sua orelha com os dentes.

— Eu te divirto — ela repete devagar. Traz a boca à minha orelha


também e envolve meu lóbulo com a ponta da língua antes de deixar
uma mordida afiada. — Você quer diversão, Theodore? Vou te dar
diversão.

Richard nunca me procura durante o dia.

Quando precisa de mim para alguma coisa, ele me liga ou pede


para alguém vir me buscar. Sou eu a conferir várias vezes por dia se ele
está bem, se está vivo, se precisa de alguma coisa. Então, quando ele
entra no centro de treinamento, no meio de uma aula de defesa pessoal
que estou conduzindo com os soldados mais novos que chegaram há
pouco tempo, sei que alguma coisa está errada.
Dentro do seu terno muito bem alinhado, ele esmaga o celular em
uma mão e arrasta a outra pelo cabelo, agitado.

— Repitam o circuito! — grito, afastando-medo grupo. Peço para a


comandante da turma que conduza o restante da aula e não me perturbe
por alguns minutos antes de ir em direção ao meu irmão. Richard está
preocupado como há muito não vejo, e todos os meus alertas são
ativados ao mesmo tempo. — O que aconteceu? — pergunto quando o
alcanço.

Ele indica com a cabeça para que eu o siga e sobe as escadas em


direção ao meu escritório. Tranco a porta atrás de nós dois, sobrancelhas
franzidas enquanto assisto Richard se sentar à minha mesa e mexer no
meu computador. Ele joga as costas na cadeira depois de virar a tela
para mim. Aproximo-me e apoio as mãos na mesa, demorando alguns
segundos para entender o que estou vendo. Quando entendo, tudo o que
sai é:

— Que merda é essa?

Meu irmão esfrega o rosto e espera que eu leia a matéria inteira.


“Entrevista exclusiva com Madelaine Denver sobre seu recente noivado
com Theodore Thompson” estampa o topo da página de um jornal
renomado. Logo abaixo, uma foto nossa. Não uma das oficias que foram
tiradas para que o noivado fosse anunciado em alguns dias, mas uma em
que não estamos posando. Estamos no jardim após o jantar, minha mão
está na sua cintura, ela sorri. Eu sei bem que era um sorriso odioso e que
ela queria me socar depois de eu dizer que ela me divertia, mas um olhar
desatento vê um casal apaixonado.

Continuo lendo a matéria, perguntando-me o que foi que ela fez.


Descubro rapidamente. Depois de uma breve introdução falando sobre
meu trabalho no exército e a preparação dela para assumir o trono, a
matéria vira uma sessão de perguntas e respostas que começa
inofensiva. Madelaine floreia e inventa cenários românticos demais para
justificarnosso casamento repentino, pinta um cenário digno de filmesda
Disney sobre amor à primeira vista, mas não demora a entrar em um
terreno muito perigoso.

Aperto o ossinho do nariz, preparando-me para ler a resposta à


pergunta: como pretendem conciliar responsabilidades após o
casamento?

“Theodore é um príncipe, não somente pela coroa que carrega,


mas porque é a representação perfeita do que toda adolescente
esperaria de um. É curioso pensar nisso, porque ele comanda um
exército inteiro, e eu esperava que fosse um homem rude e
intransigente, mas meu noivo tem mostrado nada além de apoio e
cuidado. Ele tem sido meu maior apoiador, e não vejo isso mudando
no futuro. Sei que muitos sacrifícios serão necessários da parte dele
em relação ao seu trabalho com o exército de Delway , mas não
consigo imaginar ninguém mais perfeito para comandar Devondale
ao meu lado quando a hora chegar”

— Ela acabou de…? — Ergo os olhos para Richard,


silenciosamente pedindo para que me diga que entendi errado e essa
insana não acabou de insinuar para o mundo inteiro que vou largar o
comando do exército para ficar de enfeite ao seu lado.

Richard não me oferece nenhum consolo, e eu solto um riso


incrédulo.

— É o seu rei aqui agora, general — Richard diz. É fácil trabalhar


com meu irmão, é fácil permitir que nosso laço fraternal deixe de lado a
hierarquia que existe aqui, e são poucas as vezes em que Richard se
vale dela. Quando o faz, sei que preciso acatar. Ele quer a resposta
lógica para o que quer que vá me perguntar, não tenho o direito de tratá-
lo como meu irmão agora. Arrumo a postura, prendo as mãos atrás do
corpo e espero. Ele tem as mãos cruzadas no colo, os olhos castanhos
estão firmes sobre mim. — Esse noivado está trazendo mais problemas
do que soluções. Minha assistente está à beira de um colapso nervoso
com a quantidade de ligações e e-mails que já recebeu hoje de
governantes aliados questionando o que está acontecendo. Nossos
acordos militares são seus, porque confiam em você. Estão se sentindo
traídos por serem mantidos no escuro sobre sua possível saída da
posição de general.

— Você vai precisar me tirar daqui arrastado e morto — cuspo.


Richard ergue as sobrancelhas. — Majestade — adiciono.

Ele suspira e esfrega o rosto.

— Eu vou passar o resto do dia tentando convencer presidentes


mimados que sei como conduzir o meu país e está tudo bem. — Richard
se levanta, ajustando o botão do paletó. Aponta para a tela, dando uma
batidinha com o dedo. — Conserte isso. Não me importo se decidir
acabar com essa merda e declarar guerra, mas resolva isso. É uma
ordem, Theo.

Assinto, prendendo os olhos na tela do computador enquanto ele


passa por mim, aperta meu ombro e sai.

Que merda você fez, Madelaine?


capítulo onze

Sinto a tensão do homem à minha esquerda, mesmo que


mantenha a sua postura. Albert, o general de Devondale,
responsável por comandar todo o nosso exército, está nessa função
desde antes de meu pai assumir o trono. As rugas no seu rosto
mostram que a aposentadoria chegará em breve, mas é o
descontentamento fixo no seu semblante que mostra o cansaço
pelos longos anos servindo esse país. Descontentamento esse que
se agravou nos últimos tempos.
— Não foi nada grave — ele completa ao fim do pequeno
monólogo que fez para me explicar sobre uma área de um estado
ao sul do país que foi afetada pelas chuvas recentes. — Os
bombeiros locais estão fazendo o que precisam.
Paro de andar, fazendo com que tanto ele quanto Liam, que
me acompanha a alguns passos de distância à direita, quase
esbarrem em mim.
— Você não mandou nenhum dos seus homens? — pergunto,
porque sei que eles são mais bem treinados para isso. Ele nega
com a cabeça. — Por quê?
Albert olha de relance para Liam antes de pigarrear e me
responder.
— O rei… — Ele hesita, e eu suspiro, sem precisar de mais
informações do que isso.
— O rei está em uma visita diplomática em outro país e só
volta amanhã — respondo. — Por favor, organize uma operação de
emergência.
— Alteza, me perdoe, mas… — Encaro-o por cima do ombro.
— Não tenho autorização para receber ordens suas.
Bufo, jogando o rosto ao céu nublado que cobre o jardim hoje.
Respiro fundo, amaldiçoando nada em específico por ele estar
certo.
— E se as ordens vierem do rei em pessoa? — pergunto,
voltando a encará-lo.
Ele me fita desconfiado.
— Muito bem, o rei ordenou que você envie tropas para ajudar.
— Cruzo as mãos na frentedo corpo, sorrindo plácida. — Falei com
ele ao telefone, e Vossa Majestade me pediu para repassar a
ordem.
Albert escrutina meu rosto.
— Você serve ao rei, general, e essas são as ordens. —
Tombo a cabeça para o lado. — A menos que acredite que sua
princesa mentiria sobre algo tão sério assim.
Um sorriso pequenino cresce no rosto do homem que me viu
crescer.
— Tenho certeza de que minha princesa jamais faria nada
para prejudicar o país — diz sincero, assentindo com a cabeça. —
Vou cuidar disso imediatamente.
— Obrigada, Albert — digo, sincera. Pedir insubordinação de
um general não é leviano, sei bem disso.
Ele leva a mão ao peito e me oferece uma reverência.
— Sempre à sua disposição, Alteza — garante antes de se
afastar.
Respiro fundo, momentaneamente aliviada. Meu pai não leva
a sério o tamanho dos estragos feitos pelas chuvas todos os anos
— estragos que podem ser evitados com facilidade, mas que ano
após ano são negligenciados. A sensação de impotência faz meu
sangue correr quente nas veias, apressado e inquieto.
— Você está quieto demais — digo a Liam após voltarmos a
andar por alguns minutos, atravessando o jardim a caminho da
única atividade que vai me acalmar hoje.
Mudo de ideia no último minuto ao ver o estande de tiro, as
memórias ainda vívidas da última vez em que estive ali, e sigo para
uma das salas recobertas por tatame ao invés. Demoro alguns
minutos para encontrar uma vazia, acenando para reverências
assustadas de funcionários e soldados que me veem pelo caminho,
até chegar onde quero.
— Com todo respeito, Alteza… — ele começa, e paro com a
mão na maçaneta.
— Você nunca tem nada respeitoso para dizer depois dessa
frase, Liam — interrompo, sorrindo para ele com as sobrancelhas
arqueadas. — Normalmente, encontra um jeito muito longo e
educado para dizer que me acha uma completa idiota.
— Você nunca é uma completa idiota — corrige, erguendo um
dedo. Estreito os olhos para ele. — Só… inocente e teimosa, às
vezes — completa, arrancando-me uma risada.
Apoio-me na porta fechada e cruzo os braços, esperando que
continue.
— Estou apenas preocupado com a reação do rei — diz,
cauteloso. — Ele pode punir Albert de alguma forma pelo que você
o pediu para fazer.
— Esse exército não funciona sem ele, papai não vai fazer
nada. — Dispenso sua preocupação, mas Liam não parece
convencido.
— É nisso que você acredita, Maddy? — pergunta, dando um
passo para mais perto. Olha ao redor, garantindo mais uma vez que
estamos sozinhos. — Acredita que o rei não vai punir o general pela
sua intervenção, acredita que ele não vai reagir ao que você disse
naquela entrevista, que não vai começar uma guerra com Delway se
seu casamento não acontecer?
— Oh, por favor, ele está blefando— digo. — Papai não gosta
de ser contrariado e faz meia dúzia de ameaças vazias todas as
vezes que isso acontece, mas quando foi que ele foi adiante com
qualquer uma delas?
— Ele também está blefando quando diz que você não vai
assumir o trono? — pergunta com suavidade. Travo a mandíbula,
desviando o olhar.
— Preciso acreditar que ele está — falo baixo. Sinto Liam se
aproximando e só o encaro de novo quando ergue meu queixo para
si. Há compreensão nos seus olhos, mas há pena também. Inocente
e teimosa , ele disse. — Ele é meu pai, Liam — falobaixo e mordo a
bochecha por dentro. — Eu preciso acreditar.
— Eu sei.
Liam suspira e assente em silêncio. Não fala mais nada, mas
sei que ainda tem muito a dizer. Por algum motivo, escolhe que
agora não é o momento. Considero pedir para que diga o que pensa
de uma vez, mas não tenho a oportunidade. Ouço um pigarro vindo
de algum lugar atrás dele, mas minha visão está bloqueada. Ele se
move para o lado, permitindo que eu veja o corredor. Parado ali, um
Theodore furioso me encara de braços cruzados.
— Theodore — cumprimento, doce. — Que surpresa.
Meu sorriso se amplia quando sua carranca aumenta, quando
noto o peito subindo e descendo em uma respiração pesada, o rosto
convertido em uma expressão que colocaria marmanjos de joelhos,
tenho certeza.
Se tivesse apostado com alguém quanto tempo levaria para
ele atravessar as portas da frente do castelo completamente
transtornado, teria perdido a aposta. Foi mais lento do que previ.
Como da última vez, sei que seu dia foi interrompido. Ele está
vestido a trabalho, a farda do uniforme abraçando seu corpo,
deixando escapar apenas vislumbres das tatuagens. Não impeço
minha mente a me levar à última vez que o vi sem ela. Tenho
certeza de que posso refazer o contorno da tinta na sua pele se
precisar.
Ele estreita os olhos e toma uma respiração profunda.
— Madelaine — diz baixo.
— Você parece bravo — comento, fazendo o que posso para
não sorrir, mas falho.
— Você acha? — pergunta entredentes.
Tombo a cabeça para o lado, fingindo uma confusão que não
me cabe.
— O quê? Não está se divertindo mais? — pergunto com uma
inocência falsa. Assisto o entendimento cruzar os olhos claros, a
memória da nossa conversa no jardim da sua casa surgindo em sua
mente.
Theodore apoia as mãos no quadril, balança a cabeça em
reprovação. Ele respira fundo e, quando volta a lançar as íris azuis
sobre mim, sei que estou encrencada. Uma onda de excitação
intrusa corta meu corpo e pego-me ansiosa para saber o que vai
fazer. Não é a mim que ele se dirige a seguir, contudo.
— Liam — chama.
Encaro meu amigo traidor que sequer disfarça o sorriso
entretido, mas ao menos finge compostura ao voltar à postura de
guarda quando Theodore se vira para ele.
— Alteza — cumprimenta com uma reverência, e quero revirar
os olhos.
— Peça para alguém arrumar uma mala para Madelaine. O
suficientepara algumas semanas. O outono está prestes a começar
em Delway, vai esfriar em breve.
Ergo as sobrancelhas, fitando o homem que parece ter perdido
o juízo à minha frente.
— Acha que vou a algum lugar com você? — pergunto, e
Theodore lança os olhos exasperados a mim de novo.
— Eu tenho um exército para comandar, uma bagunça que
você causou para desfazer. Não posso me dar ao luxo de ter você
fora das minhas vistas agora. Você vai — determina, em um tom
que não abre margem à discussão.
Uma pena para ele.
— Hm… Acho que não — sussurro, fazendo um bico
manhoso. — Estou ocupada.
Eu não devia me divertir tanto com o tormento dele, mas é
inevitável. Theodore estreita os olhos e intercala sua atenção entre
Liam e eu. É rápido, apenas uma fração de segundo.
— Eu notei — adiciona entredentes. — Você vai ficar ocupada
em Delway agora. A mala, Liam, por favor — insiste, e assinto em
silêncio para que nos deixe sozinhos.
Liam faz uma reverência a Theo e outra a mim antes de sair e
nos deixar sozinhos aqui, no corredor pequeno e pouco iluminado,
isolado do restante do espaço. Theodore se aproxima de mim,
inclina-se na minha direção e apoia a mão ao lado da minha cabeça.
Essa cena está se tornando perturbadoramente recorrente. Ele está
mais perto do que o socialmente apropriado, encarando-me com
fogo e incerteza.
— Existe um motivo por que casamentos por conveniência
acontecem dentro da realeza — ele começa. — Nós falamos a
mesma língua e jogamos o mesmo jogo. Você parece desconhecer
as regras. Nós fugimos de escândalos, Madelaine. Você está indo
atrás deles.
— E eu vou continuar indo atrás deles — aviso, displicente.
— Não. Você vai consertar a bagunça que arrumou, Alteza —
avisa, segurando meu queixo para que eu o encare de perto.
— Você sabe que não sou um dos seus soldados, não sabe?
— pergunto. — Não obedeço às suas ordens.
— Hm… — Ele desce a mão e a encaixa na minha nuca. — O
que você não entende sobre meus soldados é que eles querem me
obedecer.
Estou confusa.Ele não está seguindo o roteiro que criei para a
situação. Não tinha certeza de como ele reagiria, mas sabia que
estaria furioso. Sei que minha entrevista causou problemas, sei que
relações políticas são tecidas com muito cuidado e qualquer coisa
forado lugar pode bagunçar tudo. Mas ele não está se comportando
como se fúria fosse o que está sentindo.
— Mais uma vez, eu tive que parar o que estava fazendo para
vir atrás de você — reclama, perto o suficiente para que eu sinta sua
respiração no meu rosto. — E quando chego aqui… O que eu faço
com você? — pergunta baixo, deslizando o polegar pela minha
garganta.
Os olhos azuis estão escuros, me queimam. Arrumo a postura,
jogando os ombros para trás em uma tentativa pífiade disfarçar o
que a voz rouca e furiosa faz comigo. Desperta memórias recentes
demais de quando a tive ao meu ouvido perguntando a mesma
coisa.
Theodore parece ouvir meus pensamentos, porque seu rosto
abre espaço para um sorriso malicioso.
— Eu não sei o que você faz, mas sei o que eu vou fazer —
respondo por fim. Escapo da sua restrição o suficiente para
estender a mão à maçaneta atrás de mim. — E eu estava prestes a
fingir que o saco de boxe era você.
Theodore ri.
— Preciso te lembrar do que aconteceu da última vez em que
você fingiu que algum objeto inanimado era eu? — pergunta e
continua descendo a mão pela lateral do meu corpo até chegar ao
meu quadril, que aperta com força. — Eu estou furioso com você,
mas não me oponho a ficar furiosodentrode você.
— Nos seus sonhos — respondo e giro a maçaneta, abrindo a
porta atrás de mim para colocar alguma distância entre nós dois.
Sei que ele me seguiu mesmo que não faça nenhum som
atrás de mim. Tiro os sapatos, brigo com o cabelo para que caiba na
presilha que trouxe e caminho para o banheiro anexo à sala, onde
sei que há roupas de ginástica me esperando. A única reação de
Theodore quando volto dentro de um short curto e apertado é
trancar a porta atrás de si. Ele não tira os olhos de mim, mas
também não se aproxima.
Não é fácil ignorar sua presença, mas é ele que quebra o
silêncio depois de poucos minutos.
— Coloca o dedo para dentro — diz exasperado. — Pelo amor
de Deus, ninguém te ensinou nada direito? Você vai quebrar o
polegar desse jeito. Coloca o dedo para dentro! — repete quando
ignoro e desfiro outro soco no saco de boxe.
Ouço um palavrão irritado e, pela visão periférica, noto
Theodore resmungar enquanto tira as botas e arranca a parte de
cima da farda. Dessa vez, sem camiseta nenhuma para cobrir o
tronco. As únicas coisas que envolvem sua pele são as tatuagens.
Theodore canta meia dúzia de instruções sobre minha postura
até estar satisfeito. Dessa vez, ele não me toca, e agradeço por
isso. Quando decide que estou socando o saco da maneira certa, se
posiciona atrás dele e o segura no lugar, dando mais estabilidade ao
meu alvo. Do mesmo jeito que fez no estande de tiro, canta uma
sequência de golpes, que obedeço, com menos maestria do que sei
dominar uma arma, porque tive bem menos treinamento aqui. É
mais fácil convencer soldados a me ensinarem a atirar do que a
rolarem no tatame com uma princesa, infelizmente.
— Eu nunca perguntei se você tem alguém — diz após alguns
minutos. Paro a meio caminho de um soco e olho para ele. O cabelo
castanho cai pela testa, crescendo rápido. Ele está sério, e eu estou
confusa.— Vou assumir que, se tiver, a pessoa sabe como sua vida
funciona, já que você anunciou ao mundo inteiro que vai se casar.
Não é uma pergunta absurda, e duvido que seja incomum para
casais da realeza terem relacionamentos paralelos enquanto
mantêm o casamento apenas por aparência e herdeiros. A
insatisfação dura no semblante dele me faz arquear uma
sobrancelha, entendendo o que causou a dúvida súbita.
— Quer que eu te dê uma chance de voltar atrás e não se
envergonhar desse jeito com ciúmes do Liam? — zombo.
Ele pisca algumas vezes.
— Ciúmes? — pergunta ácido. — Isso significaria que eu me
importo com você, Madelaine. E nós dois sabemos que isso não é
verdade. Mas meu nome está atrelado ao seu agora e preciso me
resguardar. Revirei sua vida do avesso e preciso fazer o mesmo
com quem quer que você tenha por perto. — Bufo,mas não discuto,
porque não sairia nada além de uma provocação infantil. Sua
resposta abrupta e seca causa um revirar estranho no meu
estômago. — Você não me respondeu — insiste.
— E nem vou — digo, voltando a acertar o saco. — Minha vida
privada não é da sua conta.
Seu suspiro insatisfeito é alto.
— Eu realmente preciso que você pare de me causar
problemas, Maddy — diz. O tom calmo e razoável da sua voz me
pega de surpresa. — Richard sugeriu cancelar o noivado e lidar com
qualquer merda que seu pai queira jogar sobre nós.
Paro o que estou fazendo, interessada no rumo dessa
conversa. Qualquer esperança momentânea de que ele vá aceitar a
sugestão morre de imediato, porque não há nada na sua postura
que indique que é esse o caminho que quer seguir.
— Sabe o que vai acontecer com você se eu fizer isso, não
sabe? — pergunta. — Elijah vai encontrar outra pessoa para se
casar com você, e dessa vez vai ser alguém que deite e role a cada
comando dele.
Rio seca, apoiando as mãos na cintura.
— E você não faz isso?
— Você acha que foi só com Delway que você fodeu com
aquela entrevista? Aquela merda vai ter consequências para o seu
pai também, e ele não vai ficar feliz com isso.
Não sou tão inocente assim. Sei o que fiz, calculei todos os
possíveis danos e decidi que valiam a pena.
— Se ele me tivesse em mãos, teria ido até ele ao invés de
estar aqui, e não estaria tentando te tirar daqui antes que ele
encontre um jeito de te punir pela sua brincadeirinha impensada.
— Me punir? Me tirar daqui? Eu não sou sua responsabilidade,
Theodore. Não pedi para ser — adiciono com um riso seco.
— Você não pediu, meus irmãos não pediram, Delway não
pediu, mas adivinhe só, Alteza? Vocês são. — Ele corta um pouco
da distância entre nós dois, os olhos firmes sobre mim. — Eu
prometi te proteger e vou garantir que meu trabalho seja feito, nem
que para isso eu tenha que te jogar em cima do ombro e te levar
comigo.
— Você não se atreveria — desafio, dando um passo
minúsculo e ameaçador para frente, parando a poucos centímetros
do seu rosto.
Theo ri e envolve minha cintura, puxando meu corpo com
facilidade ao seu.
— O seu erro é não me levar a sério — sussurra próximo à
minha boca.
— O seu erro é achar que tem algum poder sobre mim —
devolvo no mesmo tom. Apoio as mãos nos seus ombros quando
ele me puxa mais apertado, porque preciso do equilíbrio tirado dos
meus pés. O que eu não precisava ter feito era ter escorregado os
dedos pelo seu pescoço, e a reação de Theodore a isso é um
grunhido estrangulado antes de tomar minha boca.
Mal seus lábios tocam os meus e suas mãos se encaixam na
minha bunda. Descem às minhas coxas, puxam-nas para cima.
— Prende no meu quadril — rosna na minha boca, uma mão
esmagando na minha bunda, a outra enganchada no meu cabelo.
É inútil, no fim, porque leva apenas outra respiração para que
eu esteja presa ao chão, o corpo pesado de Theo prendendo-me ao
tatame, meus pulsos erguidos sobre a cabeça.
Ofegobaixinho quando ele se encaixa entre as minhas pernas
e se esfrega. Ofego mais alto quando morde meu lábio e repete o
movimento dos quadris.
— Você vai comigo para Delway — diz.
— Por favor, não me diga que você acha que seu pau real vai
ser capaz de me convencer de alguma coisa — zombo, forçando o
gemido a morrer na minha garganta quando sinto seu sorriso
convencido na minha pele.
— A única função do meu pau real é te fazer gozar — diz,
mordendo meu queixo enquanto continua se esfregando em mim.
Começa a fazerefeito,mais do que apenas estímulosisolados, mas
em uma sequência rítmica certeira que acumula pressão no ponto
em que sua ereção me atinge. — Depois que isso acontecer, você
vai para Delway comigo porque sabe que estou certo.
Sua mão direita continua segurando meus pulsos e a
esquerda firma minha cintura, prendendo meu corpo parado para
que o único movimento que faça é o balanço ritmado causado pelas
investidas que ele dá.
— Eu te ofereci uma aliança, mas você escolheu o caminho
mais difícil— acusa, soltando a minha boca apenas por tempo o
suficiente para falar, mergulhando em outro beijo bruto logo depois.
Mordo-o onde alcanço, lábio, língua, o que causa o aumento da
intensidade com que se esfrega em mim. — Você prefere me ter
como inimigo — murmura, dando-me tempo para respirar, e sua
própria voz sai sem fôlego. — Por quê? — pergunta entredentes.
— Não é como se você não me odiasse também, soldado —
respondo, fitando as íris nubladas. Theodore fecha os olhos e
grunhe, afundando o rosto na curva do meu pescoço. Estremeço
quando a barba por fazer arranha a minha pele.
— Você não está me dando nenhum motivo para não odiar —
rosna, soltando minha cintura para escorregar a mão por dentro do
meu short. Ele luta contra a roupa apertada, e arqueio o quadril,
abrindo mais espaço com as pernas para que chegue onde quer.
Respira pesado na minha pele quando os dedos me encontram
molhada. — Merda.
Ele me solta abruptamente, e me apoio nos cotovelos para ver
o que está fazendo. Theo prende os olhos nublados nos meus
enquanto puxa meu short para baixo. Assisto-o, sem protestar,
arrancar a calcinha do meu corpo também. Não tenho nenhum
deboche, nenhuma provocação para oferecer, quando vejo separar
minhas coxas e prendê-las esparramadas com os cotovelos,
inclinando-se para frente. Fecho os olhos quando sinto sua boca,
entreabro os lábios em um gemido mudo quando sinto sua língua.
— Olhos em mim, Alteza — ordena, sugando meu clitóris em
uma sucção audível. — Eu vou parar se não me olhar — ameaça.
Forço minhas pálpebras abertas e não preciso ver sua boca
para vislumbrar seu sorriso.
— Boa garota — sussurra, mergulhando na minha boceta
como um homem faminto.
— Vai se foder— xingo, empurrando o quadril na sua boca, os
fiosmacios do cabelo sendo puxados com violência por meus dedos
afoitos.
Ele me morde, punitivo, e eu peço por mais.
O mais dura pouco, eu duro pouco.
Encontro o olhar convencido e satisfeito demais quando gozo
na sua boca. São os olhos de um homem que sabe o que acabou
de fazer. Não, Theodore não estava tentando me convencer a ir a
lugar nenhum com ele. Ele só estava tentando me mostrar que eu
estava errada ao dizer que não tem poder nenhum sobre mim.
Lânguida, assisto-o erguer o tronco e sugar do lábio inferior o
resquício úmido que prova o seu ponto. Estremeço ao deslizar
dedos gentis pelo meu ponto sensível,respirando devagar enquanto
espero meu corpo se recuperar.
— Sabe que vou fazersua vida um infernose forpara Delway,
não sabe? — pergunto. Pisco devagar quando dois dos dedos me
penetram.
— Você já está fazendo a minha vida um inferno — responde,
entrando e saindo com os dedos, explorando com cuidado sem
desviar os olhos de mim. Ofego e impulsiono o quadril na sua
direção quando atinge o ponto certo, e ele sorri, deliciado, retirando
os dedos devagar.
Ele é rápido em devolver minha roupa ao lugar. Morde minha
coxa quando termina e se levanta em seguida. Sua ereção está
marcada na calça, protuberante e impossível de disfarçar. Ele
sequer tenta.
— Talvez devesse aproveitar o tempo livre para deixar de se
comportar feito uma garotinha mimada que está descontando em
mim a raiva pelos seus problemas e começar a pensar em como vai
resolvê-los — diz, os olhos escorregando pelo meu corpo com
desejo. — Não sou eu que estou te negando a coroa.
— Não. Mas é você que está tentando me dobrar às suas
vontades para me ter como a esposa que sorri e acena de enfeite
ao seu lado enquanto você continua comandando seu exército e
ganha todas as vantagens que o meu país tem para te dar. —
Umedeço os lábios, os olhos dele caem ali. — A única pessoa
ganhando nessa história é você, não tente me convencer que devo
ter pena.
Theodore repuxa os lábios, movendo a cabeça devagar em
uma negativa.
— Você acha que estou ganhando alguma coisa com isso
tudo? — pergunta sem humor.
— Eu não confio em você.
Theodore abre os braços.
— Isso já não é problema meu. — Passa a mão na barba e
suspira pesado. — Nós saímos em uma hora, Maddy. Por favor,
colabore.
Ele me olha por alguns segundos a mais e estende a mão
para me ajudar a levantar. Nego com a cabeça, e ele não insiste.
Sai do tatame, coleta as peças da fardaque tirou antes e as embola
no braço, saindo da sala sem olhar para trás de novo.
Largo o corpo no tatame, cobrindo os olhos com as mãos.
Não era para ser tão complicado assim.
capítulo doze

Crianças para todos os lados.


Faz alguns dias que cheguei a Delway e tudo o que vejo são
crianças para todos os lados e pessoas se comportando de uma
forma muito diferente do que deviam se comportar. Não pareço ter
sido colocada dentro de um castelo habitado por todos os membros
da famí lia real. Sinto-me em um… acampamento de férias? Eu, que
estou acostumada a passar meus dias na minha própria companhia,
pergunto-me como são capazes de sobreviver em meio à completa
ausência de silêncio a todo momento.
Não aconteceu muita coisa nos dias anteriores, além de
Theodore me mostrar meu quarto e explicar meia dúzia de coisas
sobre o lugar. Mas hoje, acordei com Louise Thompson-Alton na
minha porta assim que o sol raiou, comunicando-me que eu iria com
ela. Segui, desconfiada, a ruiva de olhos vigilantes pelos corredores
até chegarmos aqui.
Assim que Louise abre as portas duplas do que parece ser um
ginásio, uma lufada de ar gelado me atinge, sem que precisemos
entrar. Estremeço dentro do vestido inapropriado para o lugar, e ela
faz uma careta para mim.
— Esqueci disso. — Olha ao redor, ficando na ponta dos pés
como se assim fosse ser capaz de enxergar com mais facilidade, e
acena com a mão, frenética, atraindo a atenção de um funcionário.
O homem se aproxima e faz uma reverência a mim, mas não faz
uma para Louise.
— Pois não, Louise? — pergunta, e sinto o vinco entre as
minhas sobrancelhas aumentar pelo tratamento informal.
— Traga alguns casacos, por favor — pede e me mede com
os olhos. — Madelaine provavelmente usa o mesmo tamanho da
rainha.
O homem assente e fazoutra reverência a mim antes de voltar
de onde veio. Louise sorri ao olhar para mim.
— Eles demoraram quase dois anos, mas finalmente
aprenderam a me tratar pelo primeiro nome — diz com uma risada
baixa. — Você se acostuma também.
Ela atravessa as portas, e eu a sigo de perto, entendendo o
motivo do frio que vem daqui. Eles têm um rinque de patinação? No
meio do cômodo amplo, um círculo de gelo ocupa a maior parte do
chão. Sobre ele, a rainha desliza com a confiança de uma
patinadora profissional. Assisto impressionada enquanto faz piruetas
e coreografa a música pop que toca, alheia à nossa presença,
concentrada no que está fazendo.
— Ela é impressionante — Louise diz, e eu concordo em
silêncio, a atenção presa nos movimentos dela.
Heather nos nota e sorri no meio de uma pirueta, mas termina
a música antes se aproximar. Desliza pelo gelo e se apoia na grade,
arrumando alguns fios do cabelo loiro que cai pelo seu rosto, soltos
do coque apertado.
— Vocês vieram! — diz sorridente. — Bem-vinda a Delway,
Madelaine.
— Obrigada, Majestade — respondo, curvando-me de leve na
sua direção.
Os olhos claros se arregalam, e ela sacode as duas mãos,
movendo a cabeça em uma negativa.
— Não, não! Heather, por favor. Eu ainda não me acostumei
com essa coisa de ser rainha — diz, parecendo um pouco
perturbada com a ideia, o rosto claro sendo coberto por uma
camada avermelhada de vergonha. Então, vira-se para Louise: —
Vocês vão me fazer companhia até as crianças chegarem? —
pergunta com um biquinho no rosto que faz a ruiva ao meu lado
revirar os olhos carinhosamente.
— Tudo bem, mas depois eu preciso ir trabalhar também. O
baile de inverno não vai se organizar sozinho — diz, e a rainha
assopra um beijo para ela, patinando de costas de volta ao meio do
rinque.
Louise indica com a cabeça um banco confortávelque ocupa a
parede oposta, que deixa claro que é atividade rotineira que Heather
seja assistida enquanto patina. Daqui, temos a vista inteira do
rinque, e é fácil apenas apreciar a dança e se esquecer do resto.
Ainda assim, pergunto:
— Baile de inverno?
Louise demora mais alguns segundos para tirar os olhos da
rainha e, quando o faz, tem um sorriso animado no rosto.
— Daqui a três meses. Meu baile preferido do ano, e não é só
porque Heather sempre faz todo mundo suspirar com suas
apresentações, mas esse ano vai ser junto com a comemoração de
aniversário do rei, então eu tenho carta branca para fazer o que eu
quiser — explica, o rosto iluminado como uma garotinha em uma
manhã de Natal. — Talvez seja uma boa oportunidade para fazer o
anúncio oficial do seu noivado.
Franzo o nariz, negando com a cabeça.
— Tenho a impressão de que Vossa Majestade não vai
concordar com isso.
O sorriso de Louise suaviza, uma seriedade branda cobre seu
rosto.
— Está preocupada com a reação dele depois da entrevista
que você deu.
Não é uma pergunta, então não respondo nada. Ela não
parece preocupada com isso.
— Essa famíliaé feitade pequenas transgressões, Madelaine.
Acho que vai ficar tudo bem.
— Transgressões que colocam o país em risco? — pergunto,
descrente.
A risada que ela solta é tão natural que me pega
desprevenida.
— Você ficaria surpresa — diz em um tom confidente que
deixa claro que há muito por trás da sua história que não conheço.
Poucos segundos depois, seu riso morre e Louise derruba os olhos
ao próprio colo. — Stephen me explicou o que está acontecendo.
Sinto muito pelo que seu pai está causando — diz e abre um sorriso
triste, os olhos perdidos em algum ponto além de nós duas. — Eu
entendo de dinâmicas familiares ruins e sei que não é uma situação
fácil.
Empertigo a coluna, receosa com o rumo da conversa. Ela
nota a mudança na minha postura e sorri pequenino.
— E sei qual a sensação de achar que não pode confiar em
ninguém porque se seu pai te tratou assim, que esperança tem o
resto do mundo?
Analiso-a com atenção, surpresa por conseguir transmitir em
palavras o que não consegui explicar para a minha própria mente
ainda. Acompanho o movimento da sua mão, que se enrosca na
minha em um aperto quente e amistoso.
— Eu sei que parece que você precisa resolver todos os seus
problemas sozinha, mas eu aprendi que pedir ajuda a eles é sempre
uma boa ideia.
— Eu não sei qual a sua experiência com isso, Alteza, mas…
— Ela me lança um olhar quase ameaçador que não combina com o
rosto angelical, mas eu me corrijo mesmo assim. — Louise. Mas a
solução dos meus problemas colocaria Delway em risco.
Louise anui.
— Os meus e de Heather também. — Avalio-a, descrente. Ela
sorri e dá um tapinha na minha mão. Seus olhos saem de mim e
voam às portas que se abrem com um estrondo e fazem o lugar ser
invadido por gritinhos infantis. — Eles três são muito bons em fazer
toda a política funcionar sem precisar sacrificar ninguém no
caminho.
Louise solta a minha mão e volta sua atenção ao homem que
se aproxima. Oferece o rosto a ele, que toma sua boca em um beijo
breve e carinhoso antes de se sentar ao seu lado com um bebê
preso ao seu peito. Stephen Thompson tira o cabelo castanho da
testa e lança os olhos claros a mim com um sorriso amigável.
— Já conheceu as crianças? — pergunta para mim. Quando
nego com a cabeça, ele começa as apresentações. — Esse aqui é
nosso futuro reizinho, Richard II. — Aponta para a criança
adormecida em seus braços, empacotada dentro de um casaco
grosso, e entendo que é o filho de Richard e Heather. Virando-se
para o rinque de patinação, continua: — A coisinha que mal
consegue ficar de pé é o nosso caçula, James. As princesinhas são
Blair e Valerie — diz, apontando para a mais velha e a mais nova. O
príncipe olha para mim e ergue as sobrancelhas. — Nós vivemos
em uma creche, eu sei. Se tiver mais alguma criança que precisa de
babá, é só mandar para mim. Aliás!
Stephen estala os dedos, lembrando-se de alguma coisa, e
tudo o que consigo pensar é que talvez ele e Louise tenham
começado como um casamento por conveniência, mas
definitivamentedividem a mesma energia. Ele continua tagarelando:
— Blair não para de falardo seu irmão mais novo desde o seu
noivado. Orson para cá, Orson para lá. Você acha que consegue o
trazer para o baile?
— Eu… não sei — respondo, um pouco atordoada pelo
comportamento incomum desses dois. Despreocupados demais. É
difícil acreditar que alguém viva assim na realeza.
Eu não vivo.
Pergunto-me como é a rotina dessa casa. Sei que vou
descobrir, afinal, passarei as próximas semanas dentro dessas
paredes. Arrependo-me por um momento de ter pedido para Liam
ficar em Devondale pelas próximas semanas. Eu precisava de
alguém por lá que me trouxesse notícias da operação clandestina
que o general concordou em fazer em meu nome, e ele é o único
em que confiopara isso. Ele chega em Delway em breve, com sorte
mas preciso dele aqui agora para me explicar que realidade paralela
é essa em que caí.
— Aí estão vocês.
A voz conhecida me arranca dos meus devaneios. Theodore
escaneia o rinque de patinação antes de traçar uma linha reta até
onde nós estamos. Sua expressão é neutra, os passos são firmes
como sempre ao se aproximar, os olhos se alternam entre nós três
antes de pousarem sobre mim, e a nuvem de insatisfação já
conhecida cruza seus olhos.
— Cadê o Richard? — Stephen pergunta. Theodore demora a
desviar a atenção para o irmão. Continua o escrutíniosobre mim por
alguns instantes antes de responder.
— Atendendo a um telefona. Acabamos de sair da reunião.
Tenho que resolver algumas coisas, estou com o dia todo cheio,
mas preciso conversar com vocês dois depois sobre os seguranças
que continuam dispensando — fala firme.
Stephen revira os olhos.
— Você está ficando repetitivo, Theo.
— Você está me fazendo ficar repetitivo porque insiste em ser
irresponsável, Steph — devolve, e Stephen revira os olhos para ele.
O irmão abre a boca para protestar, mas Theodore ergue uma mão
para calá-lo. — Nós vamos conversar mais tarde, mas eu só estou
te comunicando que vai acontecer. — Theodore esfrega a barba no
gesto nervoso que já aprendi a ler e lança os olhos impaciente para
mim. — E por que você está sem casaco nesse frio? Está tentando
ficar doente?
Ergo as sobrancelhas, recriminando em silêncio o tom
irritadiço.
— Dormiu com jeans apertados ou prendeu as bolas no zíper
hoje de manhã? — pergunto, e ele pisca por um segundo mais
longo, um pequeno repuxar de lábios aparecendo no canto da sua
boca. — Está precisando de uma aula de etiqueta para se lembrar
de como se dirigir a uma princesa?
Quando volta a me encarar, o azul dos seus olhos está suave
e divertido.
— Onde está seu casaco, Alteza
? — pergunta, sarcástico.
— Em algum lugar desse castelo, provavelmente junto com
seus modos — respondo doce.
O sorriso escancarado do seu rosto é cheio de repreensão.
Passa a ponta da língua nos dentes, abrindo devagar o zíper da
jaqueta do uniforme militar que carrega o brasão da sua família.Os
músculos firmes dos braços ficam visíveis sob a camiseta que
carrega por baixo, preta, justa. Estende a mão para mim e me puxa
de pé quando entrego meus dedos. Resmunga enquanto passa a
jaqueta pelos meus braços.
— Precisa se lembrar que demônios sentem frio também —
ironiza, baixo o suficiente para que apenas eu escute.
— É claro que você seria o especialista nesse assunto —
devolvo, e Theo estreita os olhos ao subir o zíper com um puxão
sonoro e sorrir.
— Tenha um bom dia, Madelaine. Tente não piorar ainda mais
as coisas na minha ausência.
Sua mão resvala na minha cintura antes de se afastar. Ele se
pendura na grade do rinque a caminho da saída,atraindo a atenção
de Heather para falar alguma coisa com ela, que lança os olhos em
mim antes de assentir. Puxo o ar pela boca quando ele sai e lembro-
me do casal ao meu lado. Sinto seus olhares interessados quando
me sento e ignoro o sorriso malicioso que dividem.
capítulo treze

Pesquisas rápidas sobre eles na internet revelam mais


informações do que previ; sobre Richard e Stephen, ao menos.
Encontrei artigos interessantes sobre especulações quase absurdas
demais para serem verdade durante os primeiros meses de
casamento de Stephen e Louise, tantos outros mais sobre a
turbulência que foi o início de relacionamento de Richard e Heather,
mas tenho a impressão de que muito da história dos dois casais
jamais chegará ao conhecimento público.
Após essas breves pesquisas, uma coisa ficou clara. As
personalidades dos três irmãos são tão distintas quanto estações do
ano. Theodore… Theodore é alguma coisa completamente
diferente. Mas Stephen Thompson é leve; em todas as fotos e em
todos os vídeos, ele tem um sorriso preso ao rosto. Richard é seu
extremo oposto: fechado, sério, sisudo sempre que é visto — a
menos que esteja com a esposa ao seu lado.
Já que eu não sou a rainha, sei que é o tratamento de gelo
que vou receber quando bato na porta do seu escritório após ser
avisada de que o rei desejava me ver.
— Majestade? — indago ao adentrar o cômodo após ouvir sua
voz firme autorizar minha entrada.
Richard ergue os olhos da tela do computador e lança-os a
mim, suspirando como se se preparasse para a guerra quando vê
quem é.
— Por favor — diz e indica a cadeira à frente da sua mesa.
Sento-me onde ele indica, cruzando as mãos no meu colo. Ele
demora alguns instantes para falar, como se tentasse organizar os
pensamentos de forma coerente antes de se atrever a abrir a boca.
Quando o faz, o rumo que escolhe me pega desprevenida:
— Qual era o acordo original? — o rei questiona. Ao meu
silêncio atônito, oferece a explicação: — Com o seu pai, sobre a
sucessão ao trono. Qual era o acordo original?
— Eu assumiria quando me casasse — respondo, incerta
sobre o motivo da sua pergunta. — Ele escolheria o noivo.
Richard assente, apoiando os cotovelos sobre a mesa.
— E agora ele voltou atrás, decidiu que você vai se casar com
quem ele escolheu, mas não vai governar Devondale — confirma,
como se checasse suas informações. Confirmo com a cabeça. —
Duas coisas podem acontecer. Ou você vai se casar com Theodore
e se tornar minha cunhada, ou vai arrumar um jeito de assumir o
trono do seu país, casada ou não com meu irmão, e eu vou ter que
lidar com você como aliada ou adversária em algum momento. Por
isso, gostaria de ter uma conversa franca agora.
— É claro — concordo, arrumando-me desconfortável na
cadeira.
O tom dele é neutro. Não há julgamento nem raiva, não há
empatia nem complacência também. É o tom diplomático de um rei.
— Não consigo estar tão exasperado com você quanto
deveria, porque me reconheço em você, quase dez anos atrás. Faz
pouco tempo que fuicoroado, mas, na sua idade, já era responsável
por muito de Delway e cometi muitos erros nessa época — começa,
recostando-se na cadeira.
Sinto minha testa enrugar, um tanto perplexa por compreensão
ser o que ele escolhe me oferecer agora.
— Não significa que eu vá ignorar os seus — adiciona,
austero.
Ah, aí está. Sinto-me em terreno conhecido agora, na
iminência de um conflito.
— Você precisa ser mais inteligente que isso se tiver qualquer
intenção de estar à frente de um país um dia. Atacar um adversário
pelas costas talvez seja uma boa tática para Theo em um campo de
batalha, mas é uma péssima estratégia para um rei. Uma que não
vou tolerar.
Não digo nada, curiosa com o sermão. Richard está irritado,
isso fica claro, mas se mantém racional. Na minha frente, tenho um
homem ciente da sua posição e dedicado ao que faz, ocupando
uma posição que espero um dia poder partilhar, de forma justa e
serena. Isso é algo que admiro, e muito.
— Você não pode agir dessa forma se quiser ser levada a
sério. Certamente não se quiser ter alguma coisa a ver comigo no
futuro. Não tenho motivo nenhum para acreditar que você é
diferente do seu pai a menos que me prove isso.
Ele inclina o tronco para frente sobre a mesa, apoiando-se nos
antebraços, os olhos castanhos firmes no meu rosto.
— Devondale está caindo aos pedaços — fala devagar, e um
aperto desconfortável toma minha garganta. — Seu pai não me
ofereceu apoio quando precisei porque pode bancar isso; ofereceu
apoio porque sabia que isso significariaque eu teria uma dívidacom
ele. Por que ele escolheu cobrar essa dívida em casamento ao
invés de concessões econômicas, nunca vou saber, mas foi isso
que ele fez, é com isso que preciso lidar agora.
“É com você que preciso lidar agora”, é o que ele não diz.
— Eu entendo que você esteja com raiva. Fui criado para essa
posição desde que era um menino. Assumir o controle de Delway
era meu sonho desde que me lembro de ter um. Se alguém tentasse
tirar isso de mim, não sei como reagiria. Entendo como está se
sentindo. Mas você precisa ser mais inteligente que isso.
Ergo o queixo, insatisfeitacom o que ele subentende na última
frase.
— Você precisa decidir se vai adiante com esse casamento ou
não. Se não for, anuncie para o mundo e volte para casa. Lide com
seu pai, com seu trono, e eu lido com as ameaças dele. Se sim,
você precisa entender que vai fazer parte dessa famíliatambém, e
nós não jogamos um ao outro debaixo do ônibus aqui.
Sei qual a sensação de achar que não pode confiarem
ninguém porque se seu pai te tratouassim,que esperança tem o
restodo mundo? As palavras de Louise voltam à minha mente, e
percebo que elas são muito mais verdadeiras do que antecipei.
— Sinto muito — digo por fim, sentindo-me como uma
garotinha recebendo uma reprimenda. — Pela entrevista.
Richard assente.
— Acredito que Devondale tem um futuro melhor nas suas
mãos, Madelaine. Acredito que você se importe mais com o seu
país do que o seu pai o faz, e que está mais preparada do que um
adolescente para isso. Sinto muito que esteja nessa posição.
Assinto, sem ter o que responder agora. Tenho, ao invés, uma
pergunta.
— O que você faria no meu lugar? — questiono.
Richard sorri, e é um gesto carinhoso e involuntário. Tomba as
costas na cadeira de novo e passa a mão pelo cabelo.
— Não saberia te responder, Madelaine — diz, dando de
ombros. — A única vez em que meu reinado esteve em risco, foi
Theodore quem resolveu tudo.
— Ele é tão bom assim, hm — murmuro, refreando um sorriso
inconformado.
— O melhor. Mas ele também é meu irmãozinho e a felicidade
dele é a coisa mais importante do mundo para mim — adiciona,
firma outra vez, mas em um tom diferente; este é caloroso e
amoroso.
Entendo o aviso implícito. Richard não vai tolerar que eu
coloque Delway em risco, mas vai tolerar menos ainda que eu
dificulte a vida do seu irmão.
— Começamos limpos agora — avisa, movendo os ombros
como se tirasse deles um peso considerável. — Não faça besteira
de novo.
— Como sabe que pode confiar em mim? — pergunto, porque
é uma dúvida genuína. Eu não confiaria no lugar dele.
— Eu não sei. A única coisa que tenho é a sua promessa de
que não vai aprontar mais nada que nos prejudique — diz, o pedido
embutido na frase.
— Prometo — garanto.
— Grande parte de ser rei é decidir que batalhas travar. Não
posso lutar todas ao mesmo tempo. Tenho problemas concretos
demais para resolver para ocupar minha mente com problemas
hipotéticos que podem surgir um dia — completa. — Se eles
surgirem um dia, eu os resolverei então. Agora, se me dá licença,
gostaria de ver meu filho antes que ele vá dormir.
Richard encerra o assunto, levantando-se da cadeira e
indicando a porta. Levanto-me também, faço uma reverência curta
para me retirar e deixo-o para trás fechando pastas de documentos
e desligando o computador.
Quando estou no corredor, saco o celular do bolso da calça e
dispenso as inúmeras mensagens e chamadas perdidas do meu pai,
sabendo que vou encontrar apenas o mesmo dos últimos dias:
reclamações e gritos me chamando de garotinha inconsequente.
Confiro apenas as atualizações de Liam com pequenos relatórios
clandestinos de informações que eu não deveria ter sobre todas as
coisas que meu pai não está fazendo, junto com o aviso de que
chegará a Delway em alguns dias. Respiro aliviada, sabendo que
preciso muito dos seus conselhos.
A caminho da cozinha, com a conversa — monólogo — de
Richard tocando em loopna minha mente, não estou menos incerta
do que antes, mas existe uma pequena parte minha que se torna
mais disposta a assumir o risco de confiar em Theodore.
Não gosto da ideia de me resignar. De desistir. De aceitar um
destino injusto. Mas não vou chegar a lugar nenhum irritando papai.
Conheço Elijah e seu ego, sei que seus destemperos apenas se
tornam mais afiados quando contrariados.
Preciso ser mais inteligente que isso, afinal.
Demoro a encontrar tudo o que preciso em uma cozinha
desconhecida, mas, alguns minutos depois, saio do castelo e
atravesso alguns metros do jardim até encontrar o outro prédio
afastado onde Theodore passa a maior parte do seu tempo.
O lugar está praticamente deserto conforme o atravesso. Meus
passos ecoam pelas escadas, mas logo alcanço a sala que tem a
porta entreaberta. Não bato antes de entrar e observo em silêncio
por alguns minutos um Theodore concentrado, de pé, com as mãos
espalmadas sobre a mesa, cenho duro enquanto encara o que
parece ser um mapa aberto.
— Tentando descobrir onde fica o seu país? — pergunto e
atraio olhos surpresos para mim.
— O que você está fazendo aqui? — pergunta desconfiado.
— Venho em paz — garanto.
Mostro o prato para ele e entro no escritório, fechando a porta
atrás de mim. Theo ergue as sobrancelhas.
— Você não sabe o que paz significa, Maddy — responde,
travesso. O cansaço na sua voz não pode ser disfarçado pela sua
tentativa de implicância.
Apoio a fatia de torta em um espaço vazio da mesa que não
está coberto por papéis e estendo os olhos pelo que ele analisa com
tanto cuidado.
— Você não jantou — comento quando seu semblante
questionador espera uma explicação para a minha presença. —
Demônios também precisam se alimentar — completo, devolvendo
a provocação idiota de alguns dias atrás.
Mas eu também estou cansada, e a implicância sai fraca dos
meus lábios, apenas um comentário patético. Umedeço os lábios,
sentindo o peso da sua atenção ininterrupta sobre mim. Mordo a
ponta do lábio, absorvendo o azul exausto por trás de pálpebras
pesadas.
— Trégua? — ofereço.Um pequeno vinco se formaentre suas
sobrancelhas.
— Eu nunca estive em guerra com você — diz, o que não é
inteiramente verdade, mas deixo de lado por ora. Theodore não
desfaz a pose em que está, apenas abre um braço e me puxa para
dentro da sua restrição, no espaço apertado entre seu tronco e a
mesa. Desce a boca à minha orelha, e eu estremeço com o hálito
quente na minha pele. — Por que você veio para cá? — pergunta,
cuspindo o questionamento como se o estivesse guardando há dias.
Talvez estivesse.
— Você foi me buscar — respondo devagar. Ele suspira.
— A verdade, Maddy.
Mordo a parte de dentro da bochecha, considerando minhas
opções. Posso arrumar uma desculpa qualquer, jogar sobre ele uma
piada afrontosa. Posso fazer o que, no fundo, vim fazer aqui e
extrair dele a distração no fim de um dia difícil.Sei que Theo não
negaria. Posso fazer muita coisa, e a única que não quero fazer é
contar a verdade.
Cravo as unhas nas palmas das mãos, concentrando-me na
sensação afiada para não sucumbir à ansiedade que ameaça
crescer diante da vulnerabilidade. Dessa vez, uma vulnerabilidade
em que escolho me colocar.
— Não tenho cem por cento de certeza de que não deveria ter
medo do que meu pai ia fazer quando chegasse em casa depois de
ler aquela entrevista — admito em voz alta o que não quis admitir
para mim mesma desde então.
Não consigo pensar em punição nenhuma maior do que as
que ele já determinou, mas não subestimo a criatividade de um
homem desafiado.
Quando foi que ele se tornou essa pessoa?
Eu queria irritá-lo e sei que consegui. Consegui irritar Theo
também, o que foi um ótimo bônus, mas, ao contrário do que os
Thompson parecem acreditar, nunca foi para colocar Delway em
apuros. Anunciar para o mundo que Theo governaria ao meu lado
não foi uma ideia para encurralá-lo; foi feito para que meu pai
tivesse muito trabalho explicando a mudança de planos para o
mundo quando eu não aparecesse com a coroa na cabeça após o
meu casamento. Foi para pesar a mão de Elijah. Delway foi apenas
um dano colateral.
— E não entendo por que você não está tão puto quanto ele
— adiciono.
Theo encaixa um dedo na minha mão, desgrudando minhas
unhas da palma. Alisa a pele ali, fazendo círculos na minha palma
com o polegar.
— Porque você pode me oferecerquantas tréguas quiser, mas
não vai deixar de me desafiar. E faz tempo que eu não tinha o
prazer de ter embates com alguém que respondesse à altura.
Minhas últimas batalhas vinham sendo… entediantes.
— Masoquismo, então — aponto, e ele ri.
— Você é o caos encarnado em uma mulher que me distrai,
Madelaine — fala baixo, como em uma confissão que não deveria
ter ganhado espaço no mundo. — Não posso te odiar por lutar pelo
que quer, porque admiro sua determinação.
— Pelo que você me odeia, então? — pergunto, levando a
ponta dos dedos à mandíbula angulosa, dedilhando os fios curtos e
espessos da barba.
Theo traz o rosto para mais perto, o nariz roçando no meu
quando responde:
— Não acho que odeio. É isso que faz minha vida tão
fodidamente difícil.
Fecho os olhos quando escova os lábios nos meus, um arrepio
intrometido correndo meus braços pela suavidade do toque.
Suavidade foi tudo o que não houve entre nós dois até aqui, e não
gosto da mudança de padrão. Gritos transformados em tesão é um
padrão irracional pelo qual não me culpo. Beijos suaves entre
sussurros são algo do que quero manter distância.
— Não acho que isso é uma boa ideia — murmuro, apoiando a
mão no seu peito precariamente, sem fazer qualquer esforço para
afastá-lo.
— Nada disso é uma boa ideia desde o primeiro dia, Alteza —
responde, envolvendo meu lábio inferior com os seus. — Por algum
motivo, eu pareço estar viciado em arrancar decisões ruins de você.
É a última coisa que escuto antes de a sua boca tomar a
minha. Lenta demais.
capítulo quatorze

Considerando a agitação que ocupa este lugar durante os


dias, é estranho precisar andar na ponta dos pés no meio da
madrugada, porque tenho a impressão de que até mesmo as
batidas do meu coração soam altas demais pelos corredores do
castelo.
O relógio marca pouco mais de duas da manhã quando chego
ao lado de fora e aspiro o ar gelado da madrugada. Conforme
atravesso os muitos metros recobertos por flores e arbustos bem
cuidados, pequenas porções do jardim se iluminam, denunciando
minha presença. Atravesso-o rapidamente, fugindo do frio, e é só
quando chego ao amplo galpão que fica a bons quinze minutos de
distância do castelo é que me dou conta de que o lugar está
trancado. É claro que está.
Encaro o pequeno painel de segurança com um visor, que
pede por uma senha, cartão ou impressão digital, sabendo que não
possuo nenhuma das três coisas. Ligo a lanterna do celular, mirando
a luz ali. Estalo a língua quando reconheço a marca da empresa de
segurança que fabricao dispositivo, desapontada com Theodore por
não me oferecer sequer um desafio à altura. É uma fechadura
magnética, fácil demais de desarmar.
Ainda apontando a lanterna, tateio as laterais do painel,
procurando pelo parafusoque está aqui em algum lugar. Encontro-o
depois de alguns segundos e me abaixo para avaliá-lo, vendo que
está apertado demais para que eu consiga soltá-lo com a minha
unha. Com um gemido frustrado, porque demorei muito mais tempo
do que planejava prendendo meu cabelo no penteado em que está,
solto uma mecha dele, pegando o grampo que o prendia no lugar.
Adiciono essa inconveniência na lista de motivos pelos quais
Theodore me irrita.
Demoro alguns minutos, mas, depois de algumas tentativas,
consigo afrouxar o parafuso o suficiente para que termine de retirá-
lo com a minha unha. Simples assim, a frente do painel se solta.
Ilumino o interior do retângulo de metal: uma placa de circuito
simples e quatro fios coloridos.
— Vamos lá, Theo, mesmo? — murmuro comigo mesma antes
de prender o celular na boca para manter a lanterna onde preciso.
Você pode fazer melhor que isso, general.
Sem muita dificuldade, dobro o grampo de cabelo no formato
certo. Seguro o fio azul e o laranja juntos, encaixo o pequeno
pedaço de metal na posição certa e…
Click
.
Porta aberta.
Acendo as luzes, dando de cara com a academia vazia. Fecho
a porta atrás de mim, atravesso o andar amplo, checando cada uma
das salas no caminho até encontrar as grandes portas duplas que
estava procurando. Entro no estande de tiro, sabendo que vou
encontrar o que preciso sem dificuldade. Todos os que já frequentei
têm mais ou menos a mesma configuração.
Óculos de segurança, protetores auriculares e arma escolhida
depois, sigo até uma das baias. Enquanto espero que o alvo seja
posicionado à minha frente,confiromeu celular pela décima terceira
vez, sem qualquer pretensão, mas dessa vez a mensagem chegou.
Uma única palavra: feito. Respiro aliviada, sentindo a tensão sumir
dos meus ombros.
A falta de notícias de Liam estava me tirando o sono. aTnto por
preocupação que algo havia acontecido com ele, quanto por medo
de que o general tivesse mudado de ideia.
Faz alguns meses que cheguei a Delway agora, o que significa
que faz alguns meses que venho recebendo informações
clandestinas. Como consegui convencer Albert a trabalhar comigo,
indo contra as ordens do seu rei, é um mistério, mas o velho general
parece disposto a pequenas transgressões que poderia custar seu
emprego, mas ajudar muita gente.
Mas uma coisa que Albert disse sobre as ausências de papai
ativou meus alertas. Não sei o que é, mas minha intuição grita que
tem algo errado, mais do que apenas descaso de um governante
incompetente. A sensação de que meu pai está envolvido em algo
que não devia grita fortena minha mente, e preciso de provas. Aqui,
do outro lado do mundo, não tenho como consegui-las. Não
sozinha.
A minha sorte é que nunca estou sozinha.
Descarrego a arma uma, duas vezes. Quando estou prestes a
terminar a terceira rodada, sinto sua presença. Não a ouço — entre
os ouvidos tapados pelos protetores e os tiros, não seria capaz. Mas
eu o sinto. Atrás de mim, sem me tocar. Perto o suficiente para que
meu corpo reconheça sua presença, para que meu pescoço se
arrepie, para que minha mente me traia e me lembre do que
aconteceu da última vez em que dividimos um encontro de
madrugada.
Theodore não anuncia sua chegada. Apenas espera.
Quando a arma clica vazia, arranco os óculos do rosto,
penduro os protetores de ouvido no pescoço e sorrio para a parede
à minha frente.
— Boa noite, Theodore.
Mordo o sorriso quando ele me puxa, brusco e bruto, trazendo
minhas costas de encontro ao seu peito.
— Conferese está vazia — rosna no meu ouvido, e tomo meu
tempo acatando sua ordem. — De novo.
Repito o procedimento de segurança outras duas vezes antes
de pousar a arma no balcão e não tenho tempo de tomar outra
respiração inteira antes de sentir a parede às minhas costas.
Perco o ar com a visão dele sobre mim. O azul dos seus olhos
é caótico. Escuro. Abissal. Theodore está deliciosamente furioso e
sem camisa.
— Você arrombou o meu centro de treinamento? — pergunta
entredentes, a incredulidade sobrepujando indignação.
— Você parece impressionado — sussurro, e ele estreita os
olhos. Cuidado está escrito nas íris turbulentas. — Honestamente,
Theo, eu esperava uma sirene, alarmes, luzes piscando.
Ele respira fundo, escrutinando meu rosto.
— Eu instalei um alarme silencioso, Madelaine. Vai direto para
o meu celular. É por isso que estou aqui — grunhe. — Que porra
você fez para entrar aqui?
— É segredo — respondo, piscando devagar. Pisco
lentamente quando a mão firme vem à minha cintura e percebo
atrás do que eu vim.
Estava estressada. Estou estressada. Estou acostumada a
descontar no alvo na parede as frustrações do dia, é verdade, mas
não vou negar que uma parte minha estava esperançosa de tê-lo
aqui também.
— Achei que tivesse prometido trégua, Alteza — diz perto do
meu rosto, a outra mão subindo devagar pelo meu pescoço.
— E estou cumprindo. Só precisava gastar um pouco de
energia e a porta estava fechada.— Apoio as mãos no seu peito. —
Talvez seja culpa sua por ser um anfitrião ruim e não ter me dado a
chave.
— É mesmo? — cicia, um sorriso crescendo no seu rosto. —
Tenho uma ou duas sugestões de como pode gastar essa energia
caótica, Alteza — rosna antes de me puxar para si.
Solto um grito quando me joga sobre o ombro como um saco
de batatas. Protesto durante todo o caminho em que Theodore me
carrega para o que vejo ser a porção coberta de tatame. Coloca-me
de pé de volta no chão, segurando-me pela cintura.
— Tirando aquela tentativa patética de socar o saco de boxe
que quase resultou no seu polegar quebrado…
— Meu polegar nunca esteve em risco — asseguro.
— O quanto de treinamento em luta você tem?
— O suficiente para chutar a sua bunda — afirmo.
Sua boca se contorce em um sorriso desafiador.
— Muito bem.
Theodore puxa o celular do bolso da sua calça de moletom e
aperta algumas coisas na tela. Vira-a para mim, mostrando o
contador de cinco minutos.
— Você tem cinco minutos para tentar me acertar — propõe.
— Quando falhar…
— Quando? — objeto.
— … você vai me dizer o que está fazendo aqui e como
arrombou a porta.
Umedeço os lábios, sentindo uma onda de adrenalina correr
meu corpo.
— E quando eu conseguir? — questiono. A sugestão o diverte;
Theodore dá de ombros, despreocupado.
— Pode pedir o que quiser, Alteza. Tem a minha palavra de
que o que quiser, será seu — debocha.
— Tudo bem — concordo, pronta para me aproveitar desse
excesso de autoconfiança.
Jogo meu celular em um canto, longe de nós dois, e Theo faz
o mesmo depois de ativar o cronômetro.
Rapidamente, percebo que ele não está fazendo qualquer
menção a me acertar. Limita-se a desviar sem qualquer dificuldade
dos golpes, e, mais rápido ainda, fica claro o motivo de toda a sua
certeza de que o resultado seria a seu favor.
Estou ofegando após um par de minutos, e Theo ainda tem o
ar zombeteiro no rosto.
“O que eu te disse?” está esculpido pelo seu rosto quando
desvia mais uma vez, e sei que preciso mudar de tática.
Erro alguns golpes de propósito, fingindo estar mais cansada
do que estou. Outro minuto inteiro é o que leva para que a guarda
dele esteja baixa o suficiente para que eu consiga me aproximar
alguns centímetros a mais, acreditando na minha incompetência.
— Vamos lá, Maddy — encoraja, os olhos brilhando de
excitação. — Só precisa encostar em mim uma única vez.
Erro mais alguns golpes, dou um soco mal dado o suficiente
para que ele deslize para o meu lado e eu consiga ficar às suas
costas por um segundo. Apenas um segundo, mas é tudo o que
preciso. Quando se vira de novo para mim, dou um peteleco no seu
nariz.
Theo pisca atônico, travado no lugar. Cubro a boca, tentando
segurar a gargalhada que quer sair.
— Você acabou de…?
Meu riso explode. Encurvo-me para frente, mãos nos joelhos.
Minha barriga dói e meus olhos se enchem de lágrimas, mas não
consigo parar de rir.
O celular toca, acusando o fimdos cinco minutos e, não sei se
movido pela minha gargalhada solta ou se tomado pelo ridículo da
situação, Theodore começa a rir também.
E se esse filho da puta fica bonito bravo, sorrindo deveria ser
ilegal de existir.
Ainda incrédulo, ele vai até o celular, os ombros chacoalhando
pelo riso ao desativar o alarme.
— Muito bem, Madelaine — diz, jocoso. Ergue as mãos para o
alto, passa uma pelo cabelo. — Um trato é um trato.
Cruza os braços e vem até mim. Para a poucos centímetros, o
rosto inteiro iluminado.
— O que você quer, Alteza? — pergunta, e não sei se sua
intenção foi que sua voz soasse tão sugestiva assim, mas todas as
respostas que pinicam minha língua são indecentes demais.
— Você tem um chuveiro aqui? — pergunto, e sua
sobrancelha se ergue. — Estou suada.
Seu peito sobe e desce em uma respiração ruidosa.
— Terceira porta à direita — articula com dificuldade, os olhos
caindo à barra da minha camiseta que começo a levantar enquanto
dou passos curtos para trás.
Viro de costas para ele e estou quase na porta que ele indicou
quando pergunto:
— Está esperando uma ordem, soldado?
Ele solta um palavrão antes de vir atrás de mim. Atravesso o
vestiário amplo, tomando meu tempo para escolher em que chuveiro
vou entrar, arrancando peça por peça de roupa e soltando-as ao
chão. Quando só tenho a calcinha cobrindo a minha pele, olho-o por
cima do ombro. Theodore não é nada além de fogo vivo. Enfio os
dedos nas laterais da peça, mas ele me para.
— Me deixa fazer isso.
Sua voz está rouca, falhada e necessitada. Eu, estou
embriagada pela sensação de poder. Estalo o elástico na pele e
entro no chuveiro à esquerda. Alguns segundos depois, ouço seus
passos se aproximando e já estou com a peça minúscula molhada e
colada no corpo quando ele me alcança.
Sua ereção está marcada na calça, imponente. Entre os
dedos, um preservativo.
— Pretensioso — acuso, divertida. — Você estoca camisinha
em todos os cantos do castelo?
Ele larga a embalagem quadrada sobre a prateleira onde
estão os produtos de higiene.
— Não encorajo meus soldados a treparem onde trabalham,
mas não sou idiota a ponto de achar que não o fazem — responde,
os olhos fixos em mim quando arranca a calça já molhada dos
respingos do chuveiro.
Theo arremessa a peça por cima da porta e se aproxima de
mim como um predador. Desliza as mãos pelas laterais do meu
corpo, descendo-as devagar até alcançar a calcinha. Em uma
lentidão pecaminosa, escorrega a peça pelas minhas pernas,
arranhando minhas coxas no processo.
— O que é isso em você que me excita? — pergunta no meu
ouvido, separando meus lábios úmidos com os dedos. — Toda vez
que você faz merda, tudo o que eu quero é te foder
.
— Uma punição adequada, se me perguntar — provoco, e ele
estapeia minha boceta. Dou um pulinho no lugar pelo susto, ofego
quando massageia, gemo quando repete. — E ouso dizer que sua
definição de merda é bem diferente da minha.
— Não duvido disso — rosna, enfiando os dedos pelo meu
cabelo, enfiando os dedos em mim. — É esse seu pedido, Alteza?
Que eu te foda?
— Não — sussurro entrecortado quando belisca meu clitóris.
— Eu quero que você ajoelhe, general — ordeno e recebo uma
mordida forte no pescoço.
— É claro que quer — debocha, sugando minha nuca.
Seus dedos continuam entrando e saindo de mim devagar, em
não mais do que uma provocação debaixo da água fria, enquanto
Theodore começa uma jornada solene pelo meu corpo. Sua boca
deixa meu pescoço, escorrega pelo meu colo, se fecha em um seio.
Arqueio a coluna ao toque da sua língua,puxo seu cabelo com uma
força comedida quando passa para o próximo.
Sem pressa, alterna lambidas, chupadas, mas me nega seus
dentes.
— Coisinha ansiosa — provoca, assoprando meu mamilo
antes de prendê-lo de novo na boca, e é quando percebo que está
fazendo de propósito.
Theodore não gosta de receber ordens, é claro que não. Ele
vai cumprir a minha, mas nos próprios termos, tendo a certeza de
que está no controle da situação.
— Está demorando tanto assim para me chupar porque
precisa de um manual de instruções? — cutuco, mas tudo o que ele
faz é rir e recomeçar a sequência torturante de estímulos nos meus
seios, sem nunca deixar de mover os dedos.
— Você quer gozar, Alteza? — pergunta, e eu fecho os olhos,
amaldiçoando o desgraçado em pensamento, porque sei que ele vai
me fazer pedir.
Puxo seu cabelo com mais força, e é com a mesma força que
ele suga minha pele.
— Pede para gozar, Maddy — instrui, soltando meu seio para
continuar o percurso vagaroso pela minha barriga. Gemo baixinho
quando beija minha virilha, mordo o lábio quando morde minha
coxa. Ajoelhando, ele pousa a boca sobre a minha boceta, resvala
os lábios sobre os meus, mordisca e puxa os pelos.
— Sabe que posso terminar isso sozinha, não sabe? —
pergunto ofegante, e ele abocanha minha boceta inteira, uma única
vez, arrancando-me um grito surpreso.
— Pode. Mas você quer minha boca. — Circunda meu clitóris
com a língua e é ele quem geme dessa vez, afundando os dedos
nas minhas coxas. — Porra — xinga e desiste de esperar por mim.
Puxa uma coxa para cima, apoiando-a no seu ombro. Sinto
minhas pernas amolecerem quando ele me devora, dedos, língua,
boca, dentes trabalhando em harmonia para levar minha sanidade
embora. Faminto, ele toma tudo o que pode de mim. Ambiciosa,
exijo cada vez mais, esfregando-me no seu rosto até que seu nome
saia da minha boca em um gemido decadente.
Ele me segura firme em pé enquanto gozo, derretendo na sua
língua, alimentando a sua fome.
— Eu preciso te foder — avisa quando se levanta, e tudo o
que tenho forças para fazer é assentir
.
Assisto com olhos nublados de desejo enquanto desenrola a
camisinha, penduro-me nos seus ombros quando me instrui que o
faça, enrosco as pernas no seu quadril quando me levanta. Grito
seu nome quando me penetra de uma vez, deslizando com
facilidade. Um “puta que pariu” abafado no meu pescoço sai
rosnado da sua boca, e Theodore me enclausura na parede, meu
corpo subindo e descendo contra o azulejo a cada estocada sua.
Sua boca me alcança onde consegue, deixando rastros
quentes por onde passa.
É rápido, bruto, profano. Tudo o que eu não sabia que
precisava hoje, tudo o que eu queria poder pedir dele.
Não, eu não sei o que é isso que o excita, também não sei o
que é isso que me faz querer mais desse homem que eu poderia
jurar em um tribunal que odeio.
Não sei e não vou descobrir hoje, porque ele termina de
derreter o meu cérebro a cada estocada e, quando goza com um
gemido grave no meu pescoço, sei que é perda de tempo tentar
achar qualquer lógica aqui.
Desabo a cabeça no seu ombro, sem fôlego, mas Theo
continua entrando e saindo devagar, acariciando meu corpo
enquanto o seu se acalma. Ele me coloca no chão devagar,
conferindo que estou firme sobre meu pé antes de puxar a outra
coxa para cima, a mão livre indo ao meu clitóris.
— Me dá mais um — exige no meu ouvido, o polegar traçando
círculos perfeitos que me levam à beira pela segunda vez. — Goza
no meu pau, Maddy.
O desespero é substituídopor beijos doces, sua boca cobrindo
a minha com reverência. Não consigo, e nem quero, evitar de fazer
o que ordena, e logo tenho seu gemido rouco novamente no meu
ouvido quando gozo, o coração retumbando fora de ritmo no peito.
Ele sai de mim devagar, e estremeço pela falta. Dá um nó na
camisinha e larga sobre a prateleira, arrastando-me para debaixo do
chuveiro com ele. Não diz nada, eu também não, por muitos
minutos, até que a água fria se torna incômoda na pele e estendo a
mão para desligar o registro.
— Grampo de cabelo — respondo tardiamente. Ele me encara
com o cenho franzido em confusão. — A fechadura. Grampo de
cabelo.
Theodore revira os olhos, bufando.
— Você é inacreditável — reclama, arrastando a mão pelo
cabelo para se livrar da água. Tomba a cabeça para o lado,
avaliando-me com interesse. — Vai me dizer por que precisava tão
desesperadamente vir para cá no meio da noite que sua única
alternativa era arrombar a porta?
Hesito, sem saber ao certo o quanto é seguro responder essa
pergunta. O quanto de mim é seguro que Theo tenha acesso,
quando não tenho acesso há muito dele.
— Meu pai me roubou meu futuro, meu noivo me odeia e eu
precisava desesperadamente me distrair antes que tivesse outro
ataque de pânico? — ofereço a meia-verdade em um tom cheio de
humor, mas não estava preparada para que a reação dele fosse
esse olhar cheio de preocupação.
Theodore sai da cabine de banho sem dizer nada, volta
instantes depois já seco e com uma toalha ao redor da cintura, outra
estendida para mim. Move minha mão do lugar quando tento pegá-
la e me deixa travada no lugar, sem saber o que fazer quando
começa a me secar.
— O motivo de eu não ter incluído seu histórico médico no
dossiê muito detalhado que mandei fazer de você… Aliás, uma pena
você ter removido a tatuagem de borboleta do ombro — provoca,
alisando a área onde estava o tal surto de adolescente.
— Vai se ferrar.
— Foi porque eu não gostaria de ter o meu vasculhado —
completa, prendendo os olhos nos meus. — As pessoas costumam
confiarmenos em um general que tinha crises de ansiedade quando
adolescente. Eu entendo, tudo bem?
Assinto em silêncio, surpresa e curiosa com a informação.Não
devia me importar, não quero me importar, mas é inevitável.
— Você está bem agora?
Ele sorri pequenino e enrosca a toalha ao redor do meu corpo.
— Ansiedade não é uma doença, é uma sensação. Não vai
embora, fica sob controle. E é muito facilmente engatilhada em
situações de estresse. O que é muito conveniente na nossa linha de
trabalho — resmunga a última parte, e eu sorrio. Ele segura meu
queixo. — Conversa com alguém.
Concordo em silêncio.
— E para de arrombar fechaduras, sua criminosa — recrimina,
bufando. — Grampo de cabelo, sinceramente…
Prendo o sorriso com seus resmungos mal-humorados, que
não cessam quando abaixa para pegar o que sobrou da sua roupa
molhada e sai do chuveiro, sumindo do meu campo de visão.
Trégua não está parecendo tão ruim.
capítulo quinze

— Aqui está.
Liam me entrega um pen drive minúsculo, e eu o envolvo com
a mão, girando-o nos dedos antes de enfiá-lo em um bolso
protegido da calça, de onde sei que não vai cair.
— Obrigada — digo, aceitando o braço que me oferece,
encaixando-me ao seu lado e deixando que me conduza devagar
pelo corredor em direção ao quarto da rainha, onde ela e Louise
estão me esperando. — Foi muito difícil?
— Não se preocupe com isso, Alteza. — Dispensa a
preocupação com um aceno, o que sei que significa que sim, foi
difícil.É claro que foi. Não tenho ideia de como ele convenceu
alguém a entregá-lo informações confidenciais assim, ou se apenas
as roubou do computador de algum desavisado, mas duvido que
tenha sido um trabalho de cinco minutos. — O que eu gostaria de
saber é o que vai fazer com isso agora.
— Não tenho certeza — respondo sincera, lançando um olhar
breve a ele. — Não sei bem o que estou procurando, mas vou
descobrir quando encontrar. Só preciso sobreviver a essa prova final
de vestido antes de poder me trancar no meu quarto e passar o
restante do dia vasculhando esses documentos em busca de
alguma coisa.
Liam ri baixo ao meu lado, e eu paro de andar. Fito-o com o
questionamento no olhar pela zombaria que estampa seu rosto.
— Tem algo a dizer? — pergunto. É claro que tem. Liam
sempre tem algo a dizer. É por isso que eu precisava dele aqui. Faz
apenas algumas horas que chegou a Delway e já está a par dos
acontecimentos dos últimos meses.
— Com todo respeito, Maddy… — começa com a maldita
frase que me faz revirar os olhos. — Você não parece exatamente
perturbada com a ideia de passar a tarde experimentando vestidos.
Está tudo bem ter feito amigas aqui, ninguém vai te julgar por isso.
Bufo e volto a andar, ouvindo sua risada debochada me
acompanhar. Ele alcança meu braço outra vez e desacelera meus
passos.
— Você gosta delas — cutuca.
— Eu gosto delas — admito.
Como não gostar?
— Assumo que tenha aprendido a gostar dos príncipes
também — adiciona, insinuativo. — Em especial de um…
— Não vá por esse caminho — repreendo-o, mas Liam nunca
aceitou minhas repreensões; não parece disposto a começar agora.
— Deixar de querer jogar sal e limão nas feridasde Theodore é algo
muito diferente de “gostar”.
— Hm…
A aura convencida o circunda, mesmo que não diga mais
nada. Liam está se divertindo com uma piada que não me foi
contada, deleitado com alguma informação que ele tem, e eu não.
— Desembuche — peço, e ele toma mais alguns segundos de
deleite silencioso antes de esclarecer:
— Eu apaguei as imagens, caso esteja se perguntando. —
Paro de andar outra vez e me viro para ele, sobrancelhas enrugadas
em dúvida. — Das câmeras de segurança da academia. Você sabe,
de quando deixei você e Theodore sozinhos por quinze minutos?
Na academia. Logo antes de eu vir a Delway. Uma onda de
vergonha que não me é comum sobe pelo meu pescoço, e prendo
os lábios em uma linha fina para evitar o sorriso constrangido, mas é
mais forte do que eu.
— Obrigada — agradeço singela, e seu sorriso se amplia.
— Sempre à disposição, Alteza — devolve, indicando o
caminho à minha frente com a mão, a expressão vitoriosa
estampada no rosto.
— Não significa nada — defendo-me, jogando os olhos ao
teto, a mente sendo inundada por imagens inoportunas e
inapropriadas. Não somente daquele dia, mas de antes também, do
outro dia inoportuno e inapropriado.
Tudo o que aconteceu entre nós dois foi inoportuno e
inapropriado. Do hotel ao estande de tiro, nada daquilo deveria ter
acontecido. Não somente por tradições que recriminariam nós dois
pelo comportamento errático e ofensivo a muitos, mas porque
vieram de forma inesperada. Tudo o que diz respeito a Theodore
vem de forma inesperada — reajo às suas ações, rebato as suas
reações, e o resultado catastrófico disso são explosões de ódio e
desejo que andam perto demais umas das outras. Fora de hora,
sem aviso, zombando de uma racionalidade que jurei possuir.
— Você não me deve explicações, Alteza — Liam explica
quando chegamos à porta certa. — Mas meu conselho ainda vale:
deveria conhecê-lo melhor. Se como seu marido, aliado ou inimigo,
pouco importa. Pode decidir isso quando tiver informações o
suficiente.
— O que seria da minha vida sem você? — pergunto, ficando
na ponta dos pés para beijar sua bochecha.
— Jamais precisaremos descobrir, Alteza — garante, fazendo
uma reverência após bater na porta do quarto e se despedir.
Porta essa que se abre em súbito e revela uma Heather com
olhos arregalados e expressão de desespero.
— Louise está perdendo a cabeça — avisa antes de me puxar
para dentro e fechar a porta atrás de nós duas.
No meio do quarto espaçoso, araras exibem os três vestidos
feitos sob medida para o baile, circundadas por espelhos grandes
que dão uma visão completa de quem quer que esteja parado no
meio do círculo. Olho para a rainha, com o cabelo preso em um
coque malfeitoe usando pijamas coloridos, escondida atrás de mim.
— Está me usando como escudo humano, Majestade? —
pergunto sem esconder a diversão na minha voz.
— Pode apostar que estou sim — diz, ficando na ponta dos
pés para espiar por cima do meu ombro. — Ela é assustadora às
vezes.
— Eu posso te ouvir, Heather — Louise responde, lançando
um olhar críticoà loira, que se esconde atrás de mim de novo. — Eu
não tenho duas semanas, mal tenho dois dias — volta a falar ao
telefone, andando em círculos amplos pelo quarto, em uma pose
que não é tão aterrorizante assim quando noto que ela está usando
um conjunto de pijama combinando com o de Heather e tem
pantufas felpudas nos pés.
— O que aconteceu? — pergunto, tentando olhar por cima do
ombro para ver a rainha.
— Algum problema com o baile? Eu não sei, ela chegou aqui
assim! — diz desesperada.
Heather se despendura dos meus ombros e se joga no
colchão, cruzando as pernas em uma pose de balé, os olhos atentos
aos passos da amiga, como se estivesse esperando que Louise dê
o bote em alguém. Ela bate na otomana posicionada em frente à
cama, convidando-me. Sento-me no pequeno sofá e cruzo as
pernas, assistindo interessada a exasperação da princesa
resolvendo um problema que poderia ter delegado a qualquer outra
pessoa.
— Vocês não são a famíliareal mais convencional que já
conheci — deixo escapar antes que possa pensar melhor sobre
isso. Heather abre um sorriso orgulhoso, como se isso fosse um
elogio.
— Eu fiquei chocada quando os conheci também —
confidencia, arrumando-se no lugar como uma menina ansiosa por
finalmente poder fofocarcom alguém. — Não cresci no meio disso
tudo, sempre achei que os três fossem inacessíveis e meio
babacas, você sabe, por causa do dinheiro e status e tudo mais,
mas… Eu não poderia ter pedido por uma família melhor
.
Heather gasta alguns minutos me contando sobre sua vida,
em detalhes que eu jamais consideraria dividir com uma quase
estranha. Qualquer que seja o mecanismo de defesa que eu tenho,
faltanela, porque a rainha é aberta demais e falada mãe, da melhor
amiga e dos irmãos com um carinho descarado. Suspira ao me
contar como conheceu o rei, narrando detalhes da história digna de
um filme da Disney, e não demoro a entender por que Richard
Thompson derrete como gelo em um dia quente todas as vezes que
ela está por perto. Heather é encantadora.
Tornou-se uma atividade corriqueira observar a rainha praticar
patinação no gelo, e por vezes assisti aulas inteiras que deu a
crianças. Não somente às dessa família,mas, como logo descobri,
turmas intermináveis de crianças dos orfanatos locais, ou de
programas sociais espalhados pelos arredores. Programas esses
conduzidos por Stephen e Louise, pelo que aprendi.
Não, os Thompson não parecem formar a famíliareal mais
convencional que já conheci, porque nenhuma delas era unida
assim. Altruísta e carinhosa. Colocando um ao outro acima de
responsabilidades políticas.
A minha certamente não é assim.
— Resolvido — Louise anuncia, largando o celular em
qualquer lugar e sentando-se ao meu lado, uma expressão cheia de
censura dirigida à Heather. — Você é uma traidora.
— Você me dá medo às vezes! — a rainha defende-se.
Assistindo as duas, fica claro que não são apenas mulheres
que terminaram na mesma casa porque se casaram na mesma
família. De alguma forma, elas se tornaram irmãs.
— Agora você. — Louise se vira para mim. — Não sei o que
você tem planejado para hoje, mas tenho unha, cabelo e a prova
final do vestido, então limpe sua agenda.
— Eu acho que ela ia se sair bem no exército — sussurro para
Heather, mal reconhecendo a descontração que me escapa,
contaminada pelo clima criado pelas duas.
— De jeito nenhum — a rainha discorda, balançando a cabeça
com veemência. — Ela e Theo se matariam em menos de cinco
minutos.
— Deus, eu amo meu cunhado, mas ele é um paranoico
obcecado — Louise murmura, arrastando a mão pelos fios ruivos.
— Ele só está preocupado com a nossa segurança, e com
razão! — Heather o defende.
A conversa rapidamente se torna uma discussão acalorada
sobre os motivos do general ser “superprotetor e surtado” —
palavras da princesa. Cada uma lista incontáveis situações em que
julgam que ele teve razão ou que estava forado juízoperfeito,e fica
claro que jamais vão chegar a um consenso. Notando o empate
técnico, viram-se para mim em uma sincronia assustadora.
— O que você acha? — Heather pergunta. — É do seu futuro
marido que estamos falando, afinal.
Crispo o nariz, considerando a pergunta. Busco pela memória,
traço uma linha temporal das aparições e comportamentos de
Theodore e, por mais que gostaria de poder chamá-lo de babaca
insuportável, não tenho nada que justifique isso.
— Ele morreria por vocês. — É o que respondo. Heather abre
um sorriso vitorioso, e Louise me encara com curiosidade. —
Theodore sacrificaria a vida dele para manter vocês seguros.
— Ótimo. Mais uma defensora das insanidades daquele
homem — Louise bufa, e Heather só falta bater palmas de
animação pela aliada acidental que me tornei.
Não sei em que momento da tarde a primeira garrafa de vinho
chega, mas ela dá início às horas seguintes de risadas e conversas
bobas entre trocas de vestido e manicure. É um sentimento
estranho; inédito. Não é algo que eu tenha experimentado antes,
nem algo que almejei um dia, mas aqui estou eu. Adorando cada
segundo da leveza que a companhia das duas proporciona, incerta
sobre o que isso significa. Ou eu fico aqui e essa se torna a minha
vida, ou volto a Devondale e perco esse laço que apenas comecei a
formar. Percebo com rapidez que odeio as duas opções; ambas são
incompletas e arrancam de mim algo fundamental.
Richard Thompson encontrou uma forma de deter amor e
poder, casando-se com a mulher dos seus sonhos sem abrir mão do
seu país. Por que estou sendo negada ambos?
Uma batida leve na porta interrompe uma história de Heather
sobre sua infância, e nós três arrumamos as posturas ao ver
Beatrice Thompson entrar no quarto. A antiga rainha dispensa com
a mão nosso princípio de reverência e encara nós três com um
sorriso carinhoso.
— Não sabia que tinha voltado — Louise é a primeira a dizer,
recebendo um beijo curto no rosto. — Como foi a viagem?
— Adorável — Beatrice responde, seguindo para Heather. —
Chegamos há poucas horas, não perderíamos o baile por nada —
explica, ofertando outro beijo na bochecha da atual rainha, corada
pelo vinho. — Madelaine — cumprimenta, virando para mim. — Era
você que eu estava procurando. Tem um minuto?
— É claro — concordo e sigo-a até uma mesa longa de
madeira posicionada na lateral do cômodo, sentando-me na cadeira
que ela me indica depois que faz o mesmo. Só então noto que está
segurando o que parece um álbum de fotos. Descubro que é
exatamente o caso quando ela o pousa sobre a madeira e o abre.
Percorro os olhos pelas imagens desbotadas pelo tempo,
vendo poucos registros de algumas crianças, datadas de cinquenta
anos atrás.
— Estava me sentindo nostálgica e decidi procurar fotos
antigas. Foi quando encontrei essa aqui. Achei que gostaria de ver
— diz, pousando o dedo em uma fotografiapequena no canto da
página. Está quase embaçada demais para que eu distinga os
traços, mas consigo ver duas garotas sorridentes.
São os olhos. Eu reconheceria esses olhos em qualquer lugar.
— É minha mãe? — pergunto, aproximando o rosto para
analisar a foto mais de perto.
— Tamara e eu tínhamos dez anos nessa foto — explica com
um sorriso carinhoso. — Não consigo lembrar por que perdemos
contato, mas tenho muitas memórias bonitas com ela quando
éramos pequenas.
— Como ela era? Quando criança — pergunto, sentindo a voz
embargada ao delinear o contorno do rosto infantil na foto.
— Sua mãe sempre foi luz onde quer que estivesse —
Beatrice diz, e eu pisco rápido para tentar manter dentro de mim as
lágrimas que ameaçam cair. — Sinto muito que ela tenha sido tirada
de você tão cedo, querida — lamenta, tocando meu rosto com
suavidade. Encaro-a com olhos marejados. — Sinto mais ainda que
tenha perdido seu pai ainda em vida.
Engulo em seco e sugo o lábio enquanto penso no que
responder, mas não encontro nada.
— O luto faz coisas estranhas com as pessoas — divaga. —
Mas isso não justificao que ele está fazendo.Richard finalmenteme
contou — comenta com um suspiro exasperado. — Essa mania dos
meus filhos de me esconderem problemas ainda vai ser a causa da
minha morte. Só descobri hoje. Não teria recebido Elijah aqui de
braços abertos no seu jantar de noivado se soubesse o que ele está
fazendo.
— Está tudo bem — garanto, mal prestando atenção no que
diz, os olhos de volta à foto de mamãe.
— Não entendo por que Theodore decidiu acatar às demandas
do seu pai, mas estou felizpor você ter encontrado seu caminho até
a nossa família, mesmo que dessa forma.
A confusão no seu tom na primeira metade da frase chama a
minha atenção.
— Theo está tentando proteger vocês. E o país — adiciono,
porque não importa o quanto eu tente a essa altura, não consigo
mais fingir que não acredito nas ameaças de papai. Ele prometeu
guerra e sei que entregaria guerra.
— Oh, querida, Theo nunca fugiu de uma briga — diz com um
riso despreocupado. — Ouso dizer que ele gosta delas. Não. —
Dispensa com a mão. — O filho que eu criei e conheço não fugiria
de uma guerra assim somente por precaução. Ele tem seus motivos
e não sei quais são, mas confio que esteja fazendo o que acha
melhor.
Ela segura minha mão, pronta para mudar o rumo da
conversa, mas minha mente está presa no que acabou de dizer.
— De qualquer forma, quero dar as boas-vindas à família
. Sei
que o casamento ainda está a alguns meses de acontecer, mas
você já está aqui. Sinto muito que tenha tido seu direito de governar
roubado para que isso acontecesse, mas não sinto pela adição
valiosa que você vai ser nesse país — completa sincera, segurando
meu queixo. — Tamara criou uma mulher forte e esperta, e nossa
família é formada delas.
— Obrigada — murmuro, quase apática, ainda presa no
questionamento sobre os motivos de Theo por ter aceitado essa
chantagem em forma de casamento. Se não para proteger seus
irmãos, então por quê?
— Pode levar a foto com você, se quiser — diz, e só então
noto que ainda tenho os dedos pousados no contorno do rosto da
minha mãe.
Olho para a imagem uma última vez e sorrio.
— Gosto de saber que a memória dela está viva em outro
lugar além de em mim. Obrigada por me mostrar essa foto —
respondo. Beatrice assente e sorri. — Com licença — peço e me
levanto da cadeira após receber uma confirmação dela.
Minha garganta está arranhando quando saio do quarto.
Mordo a bochecha tentando controlar o choro, mas perco a batalha
muito rápido. Mal dou alguns passos pelo corredor quando um
soluço doloroso me escapa. Esfrego o rosto, tentando me livrar das
lágrimas, mas elas chegam em torrente e é uma batalha perdida.
— Ei. Ei! — Paro de andar quando ouço a voz de Theo atrás
de mim, mas não me viro na sua direção.
Ele me alcança sem dificuldade em poucos segundos e se
coloca na minha frente, escaneando meu rosto com preocupação.
Segura minha bochecha e espalha uma lágrima com o polegar.
— O que aconteceu? — pergunta. Soluço, e a firmeza do seu
toque no meu rosto aumenta. — Você está machucada? —
pergunta, mais urgente agora. — Maddy, eu preciso que fale
comigo, você está me preocupando.
Apenas nego com a cabeça, sem conseguir formar uma frase
coerente. Com um suspiro agoniado, ele me puxa pela cintura e me
prende ao seu corpo. Afundo o rosto no seu pescoço e recebo um
beijo no meu.
— Está tudo bem — sussurra ao meu ouvido. — Você está
comigo agora. Seja o que for, eu vou resolver.
Não tenho energia para dizer que não tem como ele trazer
minha mãe de volta e nem como me dar um pai melhor, então
apenas aceito o consolo vazio que vem dos braços fortes e corpo
quente que me envolvem.
capítulo dezesseis

Ele não me solta enquanto fecha a porta com dificuldadepor estar


carregando alguma coisa no outro braço. A cadência do afago nas
minhas costas em nada copia o ritmo acelerado do meu coração. Em
algum momento, paro de chorar, superconsciente da umidade causada
pelas lágrimas na sua roupa. Não faço menção a me soltar do seu
enlace, e Theo também não me solta.
— Quer me contar o que aconteceu? — pergunta.
Por mais que tente manter o tom firme, e sei que tenta, porque
Theodore nunca oferece nada além da voz certeira ditando comandos, a
pergunta sai trêmula. Nego com a cabeça, sem energia para tentar
explicar a bagunça que estou me sentindo.
— Toma um banho comigo — oferece, sussurrando ao meu
ouvido. Estremeço, pelo roçar da barba na minha pele, pela proposta,
pelo tom desesperado ao meu ouvido. Assinto em silêncio e sou
carregada para a suíte. — Chuveiro ou banheira?
— Você não tem cara de quem usa banheira com frequência —
implico, a voz quebrada. Sinto seu sorriso na minha pele, a carícia leve
na minha nuca. — Chuveiro.
Theo liga a água quente, deixando o vapor inundar o cômodo.
Mantém a atenção no meu rosto, atraindo-me ao oceano tumultuoso
que tenta me afogar nas suas águas profundas. Mergulho, um
pouquinho de cada vez, conforme ele me despe.
A camiseta sai fácil pela minha cabeça após um comando para
que levante os braços. Sapatos e calça têm o mesmo destino. Ele toma
seu tempo desfazendo o fecho do sutiã às minhas costas, arranca-me
um sorriso pequenino quando fica claro toda a energia que está
despendendo para não derrubar o olhar aos meus seios antes de se
abaixar para deslizar a última peça pelas minhas pernas.
Sua mão não sai da minha cintura, como se tivesse medo de que
eu desabasse no segundo em que me soltasse, e isso faz com que o
trabalho de tirar suas próprias roupas leve o dobro do tempo. Ele
consegue, eventualmente, e, trinta segundos depois, me tem enlaçada
pela cintura debaixo da água quente.
Estremeço no primeiro contato com a minha pele, mas relaxo
assim que me puxa ao seu peito.
— O que aconteceu? — pergunta outra vez ao meu ouvido,
acariciando a lateral do meu corpo.
O som da água caindo sobre nós dois é tudo o que preenche o
banheiro por alguns minutos, até que eu consiga formar uma frase
inteira.
— Ele não vai mudar de ideia, não é?
Sai como uma pergunta, mas é apenas constatação dolorida. Uma
que sei que todos já tinham, mas que só agora chegou a mim. Eu não
estava tentando resolver nada, percebo agora. Só estava tentando
ganhar tempo. Dar ao meu pai só um pouco mais de tempo, só mais
uma oportunidade de se redimir. Movida por uma esperança perigosa e
inocente, apegada à memória do homem que me amou
incondicionalmente por anos, até que parou de amar.
Soluço, e Theo me segura ainda mais apertado. Espero pela
repreensão, pelo “eu te avisei”, pela bufada impaciente motivada pela
minha descoberta tardia, mas nada disso acontece. Tudo o que recebo
é sua boca no meu pescoço, colecionando os arrepios discretos da
minha pele.
— Não, ele não vai, Maddy — responde por fim, finalizando a trilha
que traçou na minha nuca com um beijo plantado no ponto sensível
atrás da minha orelha. — Nunca foi uma possibilidade.
Relaxo o corpo em sua constrição, deixando que me sustente.
Muitos minutos de um silêncio partilhado se passam até que me dou
conta de verdade de onde estou. Não é só um par de braços me
envolvendo, são os braços dele. Firmes e confortáveis, prendendo-me
contra um tronco que já é familiar. As batidas ritmadas do seu coração
sob a minha palma, meus seios esmagados contra o seu peito.

Solto-me devagar, esfregandoo rosto, misturando lágrimas à água


do chuveiro. Recosto na parede oposta a ele, admirando a imagem que
é Theodore nu e molhado.
— Se contar para alguém, eu nego até a morte — caçoo, tentando
encontrar em mim um sorriso, que vem quando o dele aparece.
— Não se preocupe — garante, arrastando a mão pelo cabelo na
tentativa inútil de se livrar dos pingos de água que cobrem seu rosto. —
Vai ser meu segredo particular que você chorou no meu ombro.
Reviro os olhos, mas o sorriso já fez morada no meu rosto.

Meu coração desacelerou, minha respiração se acalmou. Estou


prestes a agradecê-lo e dizer que não precisa ficar, quando Theodore
me oferece um único comando.
— Trégua. Volta aqui.
Eu volto, direto para a segurança dos seus braços.
Quando abro os olhos, ainda está escuro.
As cortinas abertas me concedem a visão do céu estrelado, e
estremeço com a brisa fria que entra pelo vão das janelas.
Sento-me na cama, sentindo os olhos arderem pelo choro,
inchados e doloridos. Esfrego o rosto e tateio ao redor, à procura do
meu celular. Quando o encontro, vejo que marca duas e meia da manhã
e que tem uma única mensagem de texto me esperando.
Theodore.
Vasculho a memória em busca de explicações sobre como acabei
aqui. Elas vêm em uma onda confusae acolhedora. Abraços, sussurros,
consolos vazios e bem-intencionados. Braços quentes e confortáveis, o
cheiro quente e amadeirado dissipado pela pele. O cheiro dele. Cheiro
que continuo sentindo agora, quando claramente não está mais no
cômodo, e é só então que percebo que estou enroscada no suéter que
ele estava usando quando o encontrei.
Puxo a gola da peça ao meu nariz e demoro muito mais do que o
apropriado para me repreender pelo gesto bobo.
Desbloqueio a tela do celular e abro a mensagem; a primeira que
me envia.

Me avise quando acordar


.
Sem um “por favor”, sem uma explicação adicional. Apenas uma
ordem direta, com um ponto final ao fim da frase. Que espécie de
psicopata coloca pontos finais em mensagens de texto?
Considero ignorar, mas a vontade de responder é mais forte do
que eu.

Você realmente acredita que pode distribuir ordens por aí e vai


receber um “sim, senhor” em resposta? As pessoas precisam parar de
te bajular
.

Não espero pela resposta, porque duvido que esteja com o celular
em mãos a essa hora. Acendo o abajur na mesa de cabeceira para que
eu possa ver alguma coisa na escuridão do quarto. Desligo a tela do
aparelho e jogo-o no colchão, levantando-me para procurar as roupas
que estava usando mais cedo. Encontro minha calça dobrada no
encosto da cadeira, onde me lembro de tê-la deixado quando a tirei.
Reviro o bolso em busca do pen drive que Liam me entregou e pego
meu computador antes de voltar para a cama.
Demoro bem mais do que poucos minutos para tomar coragem
para abrir a pasta com os documentos. Pouso o cursor sobre o ícone
por mais tempo do que posso contar, como se antecipasse o que vou
encontrar. Quando finalmente clico, provo-me correta.

Na tela do computador, vejo e-mails, extratos bancários,


transações que parecem tudo, menos legais. Não preciso ser nenhuma
especialista para entender que tenho na minha frente se não provas, ao
menos fortes indícios de atividades duvidosas. Ilegais.
Com o lábio preso entre os dentes, solto um gemido frustrado. Por
que, papai? O que você está fazendo? O que está acontecendo? Não
sei quanto tempo passo encarando a tela, letárgica, incrédula,
machucada. É o som de uma batida na porta que me desperta, e
murmuro uma autorização para que entre sem prestar atenção no que
estou fazendo.
— Está vestida, filhote de demônio? — Theo pergunta pela fresta
que abre, e olho para mim mesma, dentro do seu suéter e calcinha.
— Com uma fantasia sexy de cereja e chifrinhos — respondo.
Ouço sua risada grave antes que termine de abrir a porta e revele sua
silhueta mal iluminada pela luz fraca da lâmpada.
Sem camisa, uma calça de moletom cai pelo seu quadril. Theo
fecha a porta com o pé descalço e se aproxima da cama, mostrando o
prato que carrega em uma das mãos, com a já corriqueira fatia de torta
de cereja. Nunca foi minha preferida, apesar da implicância dele, mas
se tornou… alguma coisa.
— Por favor, fique à vontade — resmungo quando ele sobe na
cama. Fecho o computador, deixando escondido ali as descobertas que
ainda processo.
— Estou à vontade — avisa, descendo os olhos às minhas pernas.
Não preciso de mais iluminação que isso para vislumbrar o desejo que
recobre seus olhos. — Melhor? — pergunta, voltando seu foco ao meu
rosto, analisando-o como se pudesse encontrar ali uma resposta que
não venha das minhas palavras.
Ameaço uma resposta engraçadinha, mas qualquer provocação
perde a força sob a preocupação sufocante que escorre do seu olhar.
Diante dela, tudo o que faço é assentir.
— Obrigada — digo, desviando o olhar do dele, inquieta sob seu
escrutínio.
Corto um pedaço da torta com o garfo, brinco com a massa, enfio
uma cereja na boca. Estremeço quando seus dedos envolvem meu
tornozelo em uma carícia lenta e leve, menos inocente a cada
centímetro que sobe pela minha perna. Sua palma está no meu joelho
quando ouço sua voz outra vez.
— Quer me contar o que aconteceu?
— Você já perdeu alguém? — pergunto e sei que o peguei de
surpresa porque os dedos na minha coxa param a carícia lenta. Theo
não responde, e forço-me a encará-lo outra vez. Seu semblante está
sombrio, fechado. Os lábios em uma linha reta, sobrancelhas vincadas.
— Por quê? — pergunta ao invés de responder.
— Uma coisa que sua mãe disse…
— Minha mãe?
— … sobre o luto fazer coisas estranhas com as pessoas.
Theodore assente em silêncio e volta o vai e vem com os dedos
na minha pele.
— Não, nunca perdi ninguém — responde, rouco e baixo.
— Mas?
O prato com a torta é retirado do meu colo e colocado na mesinha
de cabeceira. Congelo no lugar quando sinto, mais do que vejo, o
movimento na cama, seu corpo se aproximando do meu. Theo se senta
ao meu lado, virado para mim, e puxa minha mão para a sua. Começa a
traçar círculos com o polegar na minha palma, fazendo cócegas pelo
movimento suave.
— Tive esse amigo, na escola. Logo antes de eu começar meu
treinamento militar. Um dia estava tudo bem, no outro, seus irmãos
tinham morrido em um acidente de helicóptero; um garoto e uma
menininha. Eu estava com ele quando recebeu a notícia. — É
involuntário quando fechomeus dedos ao redor dos seus, confortando-o
por uma dor que sequer é sua. — Ainda posso sentir o grito que ele deu
congelando meus ossos.
Theo cobre nossos dedos enroscados com sua mão livre,
acariciando meu dorso.
— Eu só consegui pensar em como seria perder meus irmãos.
Acho que foi quando eu decidi que faria o impossível para manter
aqueles dois seguros. Então, sim, concordo com a minha mãe. O luto
muda as pessoas. Um que sequer me pertencia me mudou. — Theo
leva minha mão à boca, deixa um beijo nos meus dedos, depois na
minha palma. — Não consigo imaginar como foi perder sua mãe tão
cedo, Maddy.
Muita coisa mudou. Muita coisa continua mudando, todos os dias,
mas não foi até Beatrice Thompson dizer que percebi que não perdi
somente minha mãe naquele dia. Sem estar pronta para pensar nisso,
redireciono a conversa.
— Foi por isso que aceitou se casar comigo? Para proteger seus
irmãos? — pergunto, aproveitando-me de ele parecer disposto a
conversar abertamente.
Sem gritos, provocações ou enfrentamentos.
Escondidos no escuro de um quarto.

Há uma inquietação nele que não sei de onde vem, mas que
alimenta a minha, que sei ser pela ausência de toques. Sinto falta do
abraço de mais cedo, de estar enroscada no seu tronco. Não me atrevo
a pedir por mais do que sua mão na minha.
— A princípio, sim — responde, a voz não mais alta do que um
sussurro.
— Não é mais?
Theo para de encarar minha mão e volta ao meu rosto.
— As pessoas tendem a subestimar o poder destrutivo de uma
guerra. Eu ganharia, Maddy, com facilidade. Mas a que custo? Vidas de
soldados? Vidas de civis inocentes? — Ele passa uma mão pela barba,
arranhando os pelos curtos.
— Não é só isso — percebo.
— Não, não é. Tem você também.
Não tenho certeza se minha careta perplexa está visívelnessa luz,
mas ele me lê com precisão o suficiente para saber que precisa se
explicar. Solto um gritinho surpreso quando ele me agarra pela cintura e
me arrasta para si sem nenhuma dificuldade, prendendo-me nas suas
pernas. Estremeço quando uma mão quente e áspera embrenha por
dentro do suéter, pousando sobre minhas costelas.
— Você ia se machucar. Nunca quis que se machucasse.
Meu coração erra um salto. Perco uma batida, recupero em
excesso no ciclo seguinte. Descompassa.
— Da última vez que conferi, você não se importava comigo —
falo baixo, incerta, temerosa.
Theodore suspira, profundo, desamparado.
— O que posso dizer, Alteza? Talvez eu não te odeie tanto assim,
afinal.
capítulo dezessete

O baile de inverno é o evento mais movimentado do ano. Deveria


ser o aniversário do rei, mas Richard presa demais pelos momentos
familiares e o mantém restrito à famíliae amigos próximos. Mas é claro
que Louise deu um jeito de convencer meu irmão a celebrar seu
aniversário hoje também, então além de um castelo transbordando de
convidados, o rei também está em evidência. Sentado ao trono, ao lado
de Heather, no centro da atenção, com jornalistas demais querendo uma
casquinha da sua atenção.
Meu maldito pior pesadelo.
— Atualizações — peço, apertando o ponto de comunicação no
meu ouvido. Ouço a resposta de pronto, com a localização precisa de
cada membro da família.Reviro os olhos, porque é claro que Stephen e
Louise estão se pegando no jardim. — Dê privacidade aos dois. Se não
voltarem em dez minutos, me avise.
“Que vou jogar água fria naqueles dois coelhos”, completo
mentalmente.
— Madelaine?
— Conversando com a rainha,senhor — a voz notifica. — O
menino Orson está com as outrascrianças,mas não tenho visão do
outro irmão.
— Brennon? — pergunto, parando de andar antes de chegar ao
salão barulhento. Busco pela memória de onde foi o último lugar em que
vi o garoto.
Ele chegou ao castelo ontem pela manhã, e foi curioso ver a
relação de Madelaine com o irmão. Brennon veio para o baile, mas, sem
saber, chegou na exata hora em que a irmã precisava dele, depois de ter
passado a noite inteira derramando lágrimas esparsas no meu ombro.
Não acho que Maddy tenha planejado dormir nos meus braços, mas a
exaustão a dominou. Egoísta, aproveitei a oportunidade em silêncio para
tê-la ali pela primeira vez sem que estivesse a ponto de arranhar a minha
cara inteira. E quando, pouco antes de o sol nascer, ela se aconchegou
mais ao meu peito e chamou meu nome, sonolenta, eu soube que estava
irremediavelmente fodido.
“Theo” saído em um sussurro sôfrego contra a minha pele não
deveria ter atormentado tanto meu juízo quando o fez. Não deveria ter
me compelido a fazer a promessa que fiz a uma Madelaine sonolenta
que me perguntou se eu ia embora, mas o “nunca” escapou dos meus
lábios antes que eu pudesse me refrear.
Percebo que meu coração ainda não desacelerou, desde ontem;
volta ao ritmo descompassado todas as vezes que me lembro dos olhos
inchados.
Fodido. Completamente fodido porque não consegui dormir
enquanto ela não avisou que estava bem e, quando o fez, fui ao seu
quarto porque precisava ver com meus próprios olhos. E vi. Ela estava
bem, inteira. Não precisava de mim ali para garantir sua segurança. É
essa minha função, afinal. Garantir a segurança alheia, somente.
Mas Maddy pediu por mais do que isso. Ninguém nunca pede por
mais do que isso. Ninguém nunca pede. Meus cuidados são impostos,
disfarçados de obrigação. Sou eu quem os procuro, entregando o que
buscam de mim. Soluções rápidas e um tanto drásticas, ataques
certeiros ou estratégias complicadas. Eficiência. Ninguém nunca me
procura para chorar, para apoio emocional ou suporte silencioso.
Ninguém me busca com esses olhos incertos, com vulnerabilidade
palpável, necessitada de um abraço.
Não tenho ideia do que fazernessas horas, nunca fuitreinado para
delicadeza. Ainda assim, Madelaine decidiu que estava no meu escopo
de competência ser capaz de apenas segurá-la enquanto dormia.
Não é algo do que consiga voltar atrás agora.
— Chefe?
— Vou procurá-lo — aviso, arrancado das memórias doces,
arrastado de volta à realidade. — Me contate de novo em dez minutos.
Refaço o caminho que tenho a impressão de tê-lo visto fazendo
mais cedo, seguindo para a biblioteca, que deveria estar trancada por
causa do evento. A maçaneta cede com facilidade, mostrando que não
está. Abro a porta devagar, tomando cuidado para evitar fazer barulho.
Pisco algumas vezes, absorvendo a cena à minha frente. Pigarreio.
Dois pares de olhos assustados se viram na minha direção, e eles
se soltam tão rápido que é cômico. Aperto o ponto no meu ouvido.
— Achei — reporto, e o soldado do outro lado confirma que ouviu.
Fecho a porta atrás de mim após entrar, concedendo um pouco de
privacidade ao casal. Cruzo os braços e olho de um para o outro com
uma sobrancelha erguida. Foco minha atenção no que é de minha
responsabilidade.
— Você está de folga hoje, soldado? — pergunto, retórico, porque
ele veste o uniforme destinado a eventos como esse.
O rapaz, que não deve ter mais do que vinte e um anos e que
reconheço como sendo da última leva a começar o treinamento, olha
nervoso de mim para Brennon, arrumando o uniformedesgrenhado pelas
mãos do meu futuro cunhado.
— Não, senhor — responde trêmulo, passando a mão pelo cabelo.
— Agora está — aviso, e os olhos dele dobram de tamanho. —
Está dispensado, soldado. Te espero amanhã às duas da tarde para
conversarmos sobre você deixar seu posto.
Ele parece a ponto de desmaiar.
— Sim, senhor. Desculpa, senhor.
Aponto com a cabeça para que saia, e ele lança um último olhar a
Brennon antes de praticamente correr para fora da biblioteca. Volto
minha atenção ao meu cunhado, que também me encara com olhos
arregalados.
— Ele está encrencado? — pergunta.
— Não muito — admito, porque jamais contaria com um recém-
chegado para garantir a segurança de ninguém hoje à noite. Os
primeiros eventos que participam é apenas para ganharem experiência.
— Mas ele precisa acreditar que está, ou vai fazer de novo.
— Ah… — ele solta, entendendo minha lógica. — Ele está
encrencado por… você sabe.
— Não, não sei — falo devagar, um vinco se formando na minha
testa. — Se está perguntando se o problema se agrava por ser você
aqui, ouso dizer que quem precisa de uma bronca não é ele, Brennon.
Há responsabilidades que vêm com o título,e você precisa entender que
não pode colocar funcionários em situações desconfortáveis. Não estou
dizendo que é o caso, mas ele poderia ter se sentido coagido a aceitar
suas investidas por medo de dizer não a um membro da família real.
— O quê?! — Ele balança a cabeça freneticamenteem negativa. —
Eu não coagi ninguém a nada, eu prometo. A gente… já se conhecia. —
A voz dele morre ao fim da frase, parecendo constrangido.
— Certo. Mesmo assim, não importune meus homens enquanto
estão trabalhando. Entendido?
— Sim, senhor — murmura. Seu rosto deixa claro que ainda tem
perguntas. Indico com o queixo para que fale. — Anh…O senhor não se
importa? Você sabe, de ele ser gay?
Pisco várias vezes, confuso.
— Meu pai se importa — adiciona, apertando os braços ao redor do
corpo. — De eu ser.
Jogo os olhos para o teto, respirando fundo. É claro que o filho da
puta tem alguma coisa a ver com isso.
— Elijah fez alguma coisa? — pergunto, analisando seu rosto com
atenção. — Com você.
— Ele só me mandou para o colégio interno porque não queria ter
que lidar comigo. — Brennon meneia a cabeça, abrindo um sorriso
pequeno. — Não estou aqui para reclamar de ter sido trancado em uma
escola com outros garotos, então acho que ele não pensou direito no que
estava fazendo.
Ele ri, e o acompanho com um repuxar de lábios.
Percebo a primeira grande diferença entre os irmãos. Não existe
um mundo em que Madelaine ofereceria informações pessoais assim,
voluntariamente, e Brennon parece incapaz de parar de falar. Eu não
deveria tentar arrancar informações de um adolescente desse jeito, mas
a questão moral por trás do ato não me para.
— Ele quer que você seja rei — comento, passando uma
despretensão que não existe.
— Eu não quero ser rei — responde de pronto, balançando as
mãos na frente do corpo. — Maddy não vai renunciar, não é? Ela
prometeu que não ia.
— Ela não vai — garanto, porque sei que é verdade. Não preciso
perguntá-la. Ela nunca vai abrir mão do trono.
Brennon solta um suspiro aliviado, levando a mão ao peito.
— Meu pai fez todo esse discurso tentando me convencer que era
uma boa ideia, que os parceiros de negócio dele não iam gostar de ter
uma rainha mulher e toda essa coisa. Mas sabe o que eu acho? — Nego
com a cabeça, e ele me chama com a mão para que eu me aproxime. —
Eu acho que ele tem medo dela.
Solto uma risada alta demais com o comentário inesperado.

— Só um louco não teria.

É um trabalho árduo conseguir desviar das pessoas conforme


atravesso o salão. Leva mais tempo do que o antecipado, mas, quando a
alcanço, esqueço disso. Esqueço de tudo.
O vestido longo cai cheio pelas suas pernas, com uma fendapouco
comportada oferecendo a visão breve das suas pernas. Abraça sua
cintura, emoldura os seios, e perco mais tempo do que devia encarando
seu decote enquanto me aproximo os passos que faltam.
— Se você for tão discreto assim nas suas operações táticas,
talvez seja uma boa ideia se aposentar de uma vez — diz, e sei que fui
flagrado.
Termino de subir os olhos ao seu rosto e estendo a mão a ela.
— Dança comigo?
Não é apenas ela que estranha o convite inesperado, mas ignoro
Louise e Stephen, que estão ao seu lado, quando fazem um som
exagerado de surpresa. Enrosco seus dedos nos meus quando aceita e
a conduzo à pista de dança, prendendo-a na posição certa para a valsa
lenta que a banda toca.
— Tem alguma ideia do que está fazendo, general? — pergunta no
seu tom debochado de sempre, e minha única resposta é girá-la em um
círculo amplo antes de puxá-la novamente a mim e estabelecer as
passadas rítmicas.
Prendo-a ao meu tronco, conduzindo nossa dança.
— Estou impressionada — admite, a boca roçando meu lóbulo.

— Jamais subestime seus oponentes, Alteza — aconselho. —


Posso não me comportar como um príncipe na maior parte do tempo,
mas jamais envergonharia minha coroa.
Tombo-a para trás, prendendo a mão no seu pescoço quando a
trago outra vez para mim.
— Agora você está só se exibindo — repreende. — E atraindo
olhares. Está tentando aumentar o número de inscrições do seu fã-
clube?

— Eu tenho um fã-clube? — pergunto, aproveitando-me da


proximidade para acariciar sua cintura onde a seguro.
— Presidido pelo meu irmão, ouso dizer — brinca.
— Brennon?

— De todos os defeitos do meu irmão, talvez esse seja o pior —


desdenha. — Quando ele descobriu que nós nos casaríamos, só faltou
ter uma síncope. Eu não tinha a menor ideia de quem você era, general,
mas não duvido que meu irmão tenha um pôster seu colado na parede
do quarto dele.
Ela espera por uma resposta à provocação, e tenho meia dúzia
para oferecer. Ao invés disso, o que sai é um questionamento que vem
me atormentando há semanas.

— Já está pronta para ser chamada de minha noiva sem me


ameaçar de morte? — pergunto, deslizando o nariz pela sua bochecha.
Madelaine não responde por um tempo. Seu corpo enrijece nos
meus braços, mas continua me deixando conduzi-la.
— Louise sugeriu usar o baile de inverno para anunciar nosso
noivado oficialmente — diz por fim. — Como estão as repercussões da
entrevista que dei?
— Richard tem tudo sob controle — garanto, curioso com o rumo
da conversa. — O assunto foi praticamente esquecido. Por enquanto.
Um anúncio oficial de noivado talvez faça voltar a ser um problema.
Ela assente, apoiando o nariz no meu pescoço também, fazendo-
me arrepiar quando o desliza pela minha pele.
— Meu pai não está lidando com tudo tão bem assim — diz, e a
informaçãoatrai meu interesse. — E eu acho que tenho uma formade te
livrar desse noivado.

Paro de me mover, e ela belisca minha cintura.


— Continue dançando — instrui, e o faço, voltando a conduzi-la
devagar. — Não confio em ninguém, Theo — admite baixinho. Não passa
despercebido que não usa meu nome inteiro, e esse pequeno detalhe é
doce demais vindo dos seus lábios.
Madelaine desencosta o rosto de mim, tombando a cabeça para
trás para me encarar.
— Mas se eu preciso apostar minhas fichas em alguém e correr
esse risco, prefiro que seja você.
— Você pode confiar em mim — prometo, mas isso é tudo o que
tenho a oferecer: uma promessa. Uma que eu jamais quebraria, mas ela
não tem como saber disso.
Há expectativa nos olhos escuros. Há medo também. Eles cintilam
em sintonias diferentes, opostas. Ela tem uma decisão a tomar, uma que
cabe apenas a si mesma. Essa trégua pode acabar agora ou ser
permanente. É só dela que isso depende.
Madelaine sobe a mão pela minha nuca, e o toque suave me faz
fechar os olhos em deleite. Ainda estou com eles fechados quando um
sorriso cético se espalha pelo meu rosto, porque o destino dos seus
dedos foi o ponto de comunicação no meu ouvido, que ela arranca e
arremessa longe. Abro os olhos a tempo de ver o pequeno aparelho
preto cair ao chão e ser imediatamente pisoteado por alguém que estava
dançando.
— Vou assumir que você quer o meu celular também — pergunto, e
ela estende a mão para mim. Curioso e entretido, puxo o aparelho do
bolso de dentro do paletó e o pouso na sua palma. — Por favor, não o
arremesse longe também. Custa uma pequena fortuna — implico, mas
ela se dá por satisfeita em desligá-lo e devolvê-lo ao lugar que estava
antes.

— Onde estávamos? — pergunta, naquele tom doce que é sempre


o percursor do caos. — Ah, como vou te livrar de ter que passar o resto
dos seus dias ao meu lado.
A música acaba e recomeça. Sei que a essa altura já estamos
atraindo olhares demais; os flashesde câmeras explodindo no meu rosto
provam isso. Sei que é por esse motivo que ela traz a boca à minha
orelha, para sussurrar apenas para mim o que quer que tenha a dizer,
mas não me impeço de apertá-la com mais força, arrancando dela
qualquer toque a mais que eu possa.
— Liam me entregou um pen drive — começa baixinho. — Com
informações mais do que o suficiente para que você tenha meu país nas
mãos, se quiser. Richard conseguiria reverter a chantagem e guardar um
pouco para mais tarde, caso precise, e tenho certeza de que papai vai
concordar em deixar você, sua famíliae Delway em paz até o fim dos
tempos.

Processo por partes o que ela diz. Primeiro, sou incapaz de ignorar
o tremor insatisfeito da sua voz, deixando claro que ela pode estar
disposta a entregar o paísnas minhas mãos, mas não está felizem fazer
isso. É claro que não está. Depois, me atinge a constatação de que ela
não passou as últimas semanas aqui apenas existindo, como pensei ser
o caso. Madelaine estava investigando o pai?
É claro que estava. Como pude, por um minuto que fosse, achar
que ela tinha desistido de infernizá-lo?
— O que você ganha com isso? — pergunto, tentando me
concentrar em manter o passo da dança no ritmo certo, mas sei bem que
a essa altura estou apenas parado no meio da pista, abraçado a ela,
balançando-nos de um lado ao outro. — Ele ainda não vai te deixar
assumir o trono, ainda vai insistir em encontrar outro noivo para você ou
te colocar para fora.

— Eu sei — responde com um suspiro cansado. — E talvez meu


senso de autopreservação tenha decidido tirar férias, mas… Você me
disse que evitou começar essa guerra porque não quis me machucar,
Theo, e eu escolhi acreditar em você.
Outra vez, o meu nome derrete pelos seus lábios e me acerta
potente demais, junto com a saudade de ouvi-lo saindo da sua boca na
forma de gemidos incontrolados.
— Você acha que está em dívida comigo. — Entendo o que diz.

— É um pedido de desculpas por sua famíliater sido arrastada


para a confusão criada pela minha.
— Não foi culpa sua — aponto, subindo e descendo a mão pela
sua coluna.
— Não. Mas é menos culpa sua ainda — afirma, depositando um
beijo suave na minha nuca. Sinto seu sorriso na minha pele. — Eu
estava mais disposta a te carregar para o inferno comigo antes de
conhecer sua família. Eles não têm culpa por você ser detestável.
Mesmo que o tom implicante de sempre esteja na sua voz, não me
convence. Nem por um segundo.
— E se eu quiser me casar com você?
A pergunta escapa antes que eu possa fazer qualquer coisa para
prendê-la dentro de mim. Deveria ser um pensamento errático, uma
dúvida fora de lugar. Não deveria encontrar o mundo externo, menos
ainda seus ouvidos. Mas ela escuta. Escuta e congela no lugar, a boca
ainda pousada no meu pescoço.
— Eu vou precisar me casar um dia, com alguma princesa que não
conheço. Poderia arrumar uma noiva muito pior do que você, Alteza.
Você poderia fazer muito pior do que eu também — adiciono, sentindo
meu coração bater apressado no peito. — Se preciso apostar minhas
fichas em alguém e correr esse risco, prefiro que seja você.
Já comandei operações de guerra, liderei grupos de resgate, estive
na linha de frente de conflitos que poderiam ter custado a minha vida.
Situação nenhuma anterior me preparou para o nível de nervosismo que
se apossa do meu corpo agora.
— Você sabe que temos “complicado” escrito por todos os cantos
de nós dois, não sabe? — ela pergunta, soando incerta.

— Não finja que o simples não te entedia — sussurro de volta.


— Muito bem — concorda com um suspiro. Desliza a boca pela
minha barba, mordisca meu queixo. É mais difícil do que antecipei
impedir um gemido. — Me concede a próxima dança, noivo? — zomba,
deixando bem claro que percebeu que parei de dançar faz tempo.
Seguro sua mão e a rodopio no lugar, fazendo uma reverência
exagerada que arranca uma gargalhada dela.

E é aqui. Neste exato momento. Neste instante que jamais será


registrado em outro lugar que não no meu coração, que decido que farei
qualquer coisa para garantir que essas risadas continuem existindo.
Madelaine se encaixa outra vez nos meus braços, e eu volto a
conduzi-la no ritmo certo da música.
— Talvez eu não te odeie tanto assim, afinal — diz ao meu ouvido,
repetindo minhas exatas palavras.

Dessa vez, eu faço o que deveria ter feito naquela noite.


Cubro a sua boca com a minha, selando nos seus lábios o acordo
que acabamos de firmar.
Trégua.
capítulo dezoito

É fácil estar aqui esta noite, com todos eles reunidos.


Não é a primeira vez que todos os Thompson estão no mesmo
lugar. Mesmo com agendas que raramente conciliam, eles
encontram uma forma de fazerem refeições juntos com uma
frequência assustadora. Mesmo quando não são todos, ninguém
nunca está sozinho. Seja em aparições rápidas durante os treinos e
aulas de Heather, ofertas de ajuda à Louise quando está surtando
com a organização de algo, interrupções do dia de Richard e
Theodore apenas para garantir que ainda não explodiram de
estresse ou longas conversas com Stephen enquanto cuida das
oitenta e cinco crianças que sempre estão pelo castelo.
Ninguém nunca está sozinho.
Não sei quando entrei na equação, mas eu também nunca
estou sozinha.
Quando Liam não está por perto — o que tem acontecido com
muita frequência desde que começou o seu flertenada discreto com
a assistente do rei, embora ache que ninguém está percebendo —,
alguém passa para garantir que estou bem.
É o que Stephen faz agora. Aparecendo entre o mar de
convidados, chega até mim com um sorriso cândido.
— Boatos de que ninguém entra para essa famíliaoficialmente
antes de sair na capa de revista de fofoca— diz, abrindo os braços
em uma ameaça de abraço da qual não consigo fugir antes que ele
me esmague, arrancando todo o ar dos meus pulmões. — Você e
Theo vão aparecer em pelo menos meia dúzia pela manhã depois
daquele beijo nada comportado na pista de dança, então bem-vinda,
Maddy — debocha e belisca minha bochecha quando me solta.
Esfregoo local com uma careta quando ele me solta e começa
a caminhar ao meu lado pelo salão.
— Chamamos tanta atenção assim? — pergunto, e ele me
olha como se eu não soubesse que a Terra é redonda.
— Você tem aproximadamente doze horas de paz restantes na
sua vida — avisa, risonho. — A mídia tem alguma coisa com a
gente. Não sei de nenhuma outra famíliareal que não possa pisar
fora de casa sem um flash disparar na cara de alguém, mas eu
prometo que você se acostuma.
— E se eu não me acostumar? — pergunto. Stephen faz um
bico pensativo, encarando o teto.
— Então você é o sonho da vida do Theo, porque ele vai enfiar
seguranças na sua cara até a sua cara não ser mais visível —
brinca, vasculhando meu rosto em busca do protesto que não vai vir,
porque não é um cenário ao qual não esteja acostumada. — Deus,
vocês são mesmo perfeitos um para o outro — murmura.
Não tenho a chance de protestar, porque um furacãoem forma
de criança aparece correndo, agarrando as pernas no pai. Blair
arregala os olhos pidões, e até eu sei que vai receber o que quer
que peça a Stephen.
— A gente pode brincar de pique-esconde? — pergunta, e ele
franze o cenho.
— Agora? No meio da festa? — pergunta, e ela faz que sim
com a cabeça.
Ele não vai concordar, não é? Mas ele concorda. Segura a
mão da menina e se despede de mim. Antes de se afastar, adiciona:
— Sonho do Theo, pesadelo do Theo — sussurra, apontando
de mim para ele com o indicador.
Segurando na mão da filha, desaparece por entre a multidão
outra vez, e minha única reação a isso é levar a mão à orelha e
apertar o botãozinho do ponto de comunicação.
— O Stephen não tem nenhum juízo,tem? — pergunto e ouço
a sua voz quase de imediato.
— Nenhum. O que ele fez agora?
— Ei, é seu trabalho descobrir isso, não sou paga para ser
espiã — respondo, voltando a andar devagar pelo salão. Aceito uma
taça de espumante do garçom que passa por mim.
— Talvezdevesse. Você é bem boa em conseguirinformações
que não deve. Ainda estou esperando a explicaçãode onde
aprendeu a arrombar fechaduras, você sabe.
A diversão na sua voz está embebida em curiosidade genuína.
Passo a mão no pescoço antes de responder, tentando matar o
arrepio traiçoeiro, chegando fácil à conclusão de que essa foi uma
péssima ideia.
Após a valsa, Theodore foi buscar outro ponto de
comunicação, já que eu acidentalmente causei a destruição
permanente do que ele estava usando, e eu decidi que queria testar
como funciona. Com uma pressão profissional, ele demorou poucos
minutos para configurar uma linha de transmissão entre nós dois e
me explicar como funciona: apertar para falar, soltar quando eu não
quiser que ele me escute. Pareceu divertido na hora. Agora, estou
presa com a sua voz rouca ecoando no meu ouvido de tempos em
tempos, descobrindo que tem um efeito ainda pior porque não posso
vê-lo, mas minha mente recria suas expressões, e minha
imaginação é competente demais.
— Youtube — respondo por fim, tomando um gole da bebida.
— Você ficaria impressionado com o que a internet tem para te
ensinar.
A risada baixa ecoa por meus sentidos, e termino de virar a
taça inteira na boca, pronta para arrancar essa coisa da orelha.
Deveria, mas não o faço.
— O envenenamento por semente de cereja?
— questiona.
— Netflix. E dizem que entretenimento não te ensina nada.
— Você é insana — acusa, mas sinto o sorriso em cada
palavra.
— Você consegue me ver? — pergunto, escaneando o salão à
sua procura.
— Perfeitamente. Você está nervosa? Ei, vai com calma nisso
aí — repreende quando pego uma segunda taça.
Beberico o álcool, contornando a boca da taça com os dedos.
Agradeço por ele não estar por perto quando aperto o
botãozinho e digo:
— Aceitei sua sugestão. Sobre conversar com alguém. Liguei
para a psicóloga que eu vi na época da morte da minha mãe.
— Bom — responde, sucinto, mas cheio de uma aprovação
genuína. — Sua vidavaiser maisfácil
quando você entenderque
estou sempre certo.
— Vai se ferrar, Theo. — Escondo meu sorriso atrás da taça,
tomando um gole curto.
A música não está tão alta quanto o burburinho ao redor, mas
nenhum dos dois atrapalha a bolha em que lentamente me fecho.
Entendo, subitamente, o apelo de confessionários. Poder falar em
voz alta sobre o que te aflige, sem precisar encarar alguém. É mais
fácil assim; apenas meus pecados e uma voz sem rosto.
— Você nunca me falou sobre ela.
Hesito, voltando a traçar o contorno da taça com os dedos por
um instante.
— Eu não falo dela para ninguém — confidencio. — É como
se, se eu não falasse dela, ela fosse só minha. É como se ninguém
fosse digno o suficiente dela, como se…
— Essa memória fosse preciosademais para dividir
com
alguém que você não confie— completa por mim. Assinto em
silêncio, sabendo que ele pode ver.
Era um domingo como outro qualquer. Como era comum
naquela época, meu último ano do ensino médio, eu tendia a passar
meus fins de semana aproveitando os últimos dias de liberdade que
sabia que teria. Não entendia bem o que isso significava,mas sentia
nos meus ossos que alguma coisa mudaria assim que eu
terminasse a escola.
Eu estava sendo preparada para assumir a mais importante
posição que uma pessoa poderia ter, afinal. Um país inteiro sob a
responsabilidade das minhas mãos. Estava constantemente
aterrorizada com a perspectiva de não ter ideia do que fazer. De ser
uma governante ruim, de machucar a população. De ser inocente
demais e confiar nas pessoas erradas. De cometer erros
incorrigíveis.
Mesmo que eu já não estivesse à beira de quebrar, chegar em
casa para descobrir que mamãe estava no hospital teria feito bem
esse trabalho sozinho.
Durou pouco. Entre recebermos a notícia e planejarmos o
funeral, pouco mais de cinco meses se passaram. Eu estava
perdida, confusa, sem entender o que mudou da noite para o dia.
Não foi até muito tempo depois que descobri que mamãe estava
doente desde antes de Orson nascer e recusou tratamento porque
poderia prejudicar a gravidez. Depois, foi tarde demais. Ela viveu o
suficiente para vê-lo completar um ano, nem um dia a mais.
Olhando para trás agora, consigo ver como as coisas
desandaram depois disso. Na época, eu estava ocupada demais
tentando não sucumbir a tudo o que estava sentindo, tentando me
manter forte para que Brennon não desabasse.
— Eu achei que fosse passar, depois de alguns meses —
confesso depois de contá-lo um pouco da história. — O descaso, a
distância. Depois, fiquei ocupada demais me preparando para o
bendito trono para notar que nunca passou. Aceitei com facilidadea
nova posição; de filha a futura sucessora, porque foi assim que ele
passou a me tratar, convertendo toda e qualquer conversa em
política, alheio a qualquer outra coisa que me dissesse respeito.
Meu coração foi para os meus irmãos, porque eles precisavam de
mim. Entre ser futura rainha e mãe dos meus irmãos, não percebi
que ainda tinha um pai vivo que não fazia qualquer diferença na
equação.
— Ele faz— Theo corrige suavemente. — Elefodeu sua vida,
Maddy. Está tentando fazer a mesma coisa com a do seu irmão.
— Ele fodeu um país inteiro, Theo — retifico.
A linha fica muda por um instante. Quando ele volta a falar,
sua voz está mais firme do que antes.
— Eleé seu pai.A responsabilidade primária deleé com você
— insiste, enfatizando todas as palavras certas. — Nada do que ele
fez ou fizer contra o país vai ser pior do que ele fez com você.
— Isso não é verdade — protesto, parando de andar. —
Estamos falando de milhões de pessoas.
— Estamos falando de você
— insiste.
— A minha vida não é mais importante do que a de um país
inteiro, Theodore — exaspero.
— Para o seu pai, deveria ser
.
— Isso é egoísta — aponto. — Colocar vontades pessoais
acima das necessidades do povo é o que faz governantes ruins.
— Não sacrificar
sua vida pessoal em nome de interesses
políticos
é o que fazhomens bons. Escolherentreamor e poder é o
caminhofácil
de quem não quer lutarpelosdois— defende, e sei
que é do seu irmão que está falando. Aqui, não posso discordar.
Richard é o melhor do que faz e tem tudo que eu poderia sonhar um
dia.
— Bom, ele tomou as duas coisas de mim — respondo com
um suspiro. Assim que digo isso em voz alta, sei que é mentira.
Pode ter começado assim, como um sacrifício.Mas já faz
tempo que não é isso que Theodore é.
O clima no salão muda, anunciando o entretenimento da noite.
Somos todos conduzidos ao jardim, onde um rinque de patinação no
gelo foi montado, onde a rainha já nos espera.
Não demora muito para que todos estejamos organizados,
ansiosos esperando pela primeira nota de música, que logo vem.
Como sempre, Heather desliza pelo gelo como uma pluma.
Acompanhada de crianças de um dos orfanatos onde dá aula,
ocupa o rinque montado no jardim no que descubro ter virado uma
tradição familiar dos Thompson em eventos oficiais.
Assisto-a com um sorriso no rosto, emocionada pelos
movimentos tão leves. Assisto-a se apresentar para todos nós,
mesmo que seus olharem deixem claro que dança apenas para o
rei.
Se eu tivesse um único desejo na vida, desejaria o que eles
têm. Amor, poder, um país, um casamento feliz.
Aperto o ponto no meu ouvido, afastando-me alguns passos
para fugir da música, os olhos ainda na apresentação.
— Se você pudesse ter qualquer coisa no mundo, o que seria?
— pergunto.
O silêncio se estende por quase um minuto inteiro, e não
tenho certeza se ele vai responder quando sua voz soa outra vez.
— Um primeiro encontro.
Paro de andar, olhando ao redor de novo à procura dele,
surpreendida pela resposta.
— Um primeiro encontro?
— Nunca tiveum primeiroencontro — explica, e posso
visualizá-lo dando de ombros, tentando minimizar o que diz.
— Vou assumir que quase trepadas nas escadas de
emergência de um hotel poucos minutos depois de conhecer
alguém são corriqueiras na sua vida — implico.
— Ultimamente,minhas trepadas têm acontecido em
instalações militares, o que é bem confuso, se você me perguntar
.
— É mesmo? — Sorrio.
— Uh-hum. Toda maldita
vez que precisousar uma arma, a
primeiracoisa que aparece na minha mente é você gemendo,
Madelaine. Meu trabalho está muito mais difícil agora.
A confissão feita em uma voz dura e desejosa faz um arrepio
subir pela minha coluna.
— Espero que não tenha ninguém mais ouvindo essa
conversa, general, ou não vai ser só a nossa dança que vai
estampar as revistas amanhã.
— Somos só nós dois— garante. — Você é só minha aqui.
Fecho os olhos por um segundo longo demais. Afetada
demais. Theodore está me levando a um terreno perigoso. Selamos
novamente o acordo de casamento, por vontade própria dessa vez.
Continua sendo conveniência, contanto. Somente conveniência,
repito para mim mesma quando meu corpo e minha mente se aliam
na missão de me convencer do contrário.
— Você é uma distração perigosa, general — admito no
mesmo tom baixo.
— Ótimo.Agora você sabe como me sintodesde a primeira
vez que te vi.
Pressiono os lábios juntos, prendendo um sorriso.
— Foi o vestido, não foi?
— Foia porrado vestido,Maddy. O que eu precisofazerpara
te ver vestida nele de novo?
— Pedir por favor? De joelhos para pontos extras.
Seu riso invade meus ouvidos. Minha pele. Meu juízo.
— Onde você está? — pergunto, umedecendo os lábios.
— Me encontra, Alteza.
Apesar da tentação que é começar a andar em círculos para
encontrá-lo, faço o caminho oposto. Theodore não está aqui, no
meio do resto dos convidados. Olho para cima, escaneando com
atenção cada uma das varandas do segundo andar. Na sétima
janela, eu o vejo. Dessa distância, apenas uma silhueta no escuro,
mãos apoiadas no guarda-corpo. Não posso ver, mas sinto seu
olhar sobre mim.
— Achei — sussurro, e ele ri.
Entro no castelo e subo as escadas rapidamente. Não tenho a
menor ideia de qual quarto pertence aquela bancada, então testo
algumas portas antes de encontrá-lo em um que não parece ser
ocupado por ninguém.
— Precisoir
, alguém acabou de entrarno meu quarto— diz
pelo ponto.
Fecho a porta atrás de mim e aperto o meu.
— A invasora está encrencada?
— Muito
.
Combustão. São labaredas vivas que ocupam seus orbes
quando se vira para mim, caminhando em passos lentos. Theodore
me mede com os olhos, e os meus caem aos seus pulsos, de onde
está soltando abotoaduras.
— É estranho te ver de terno — admito quando está a poucos
metros de mim. Meu corpo ferve em antecipação, treme em
expectativa.
— Se quer me ver sem, é só pedir — responde, largando os
pedacinhos de metal ao chão sem qualquer cuidado antes de me
alcançar.
É um puxão firme e dominador. Theo me prende ao seu
tronco, afunda os dedos na minha cintura. A outra mão prende meu
pescoço no lugar.
— Porra nenhuma — rosna na minha boca, sugando o lábio
inferior. — Seu pai tomou amor e poder de você? Porra nenhuma.
— Theo — suspiro quando os lábios impetuosos descem ao
meu pescoço.
— Você quer poder? — pergunta na minha pele. — Então
toma dele à força. Precisa de um exército? Você tem o meu. Senta
na porra do seu trono e se recuse a levantar.
Sua mão escorrega pelas minhas costas, descendo com ela o
zíper do vestido. Espalma na minha lombar, aperta minha coluna.
— A outra metade você já tem — sussurra, trazendo a boca de
volta à minha. Fecho os olhos, balançada. — Diz que entendeu,
Madelaine — ordena nos meus lábios, escovando-os com uma
delicadeza que não condiz com o desespero que emana do seu
corpo.
Prendo os olhos nos seus, preguiçosos.
— Eu entendi, Alteza.
capítulo dezenove

Alteza.
Nunca fui apegado ao título, nunca fiz questão de usá-lo. Na maior
parte do tempo, é como general que respondo, e é dessa hierarquia que
vem o respeito dos soldados. São raras as ocasiões em que Vossa
Alteza Real faz sentido.

Vindo da boca dela, soa como uma prece e uma maldição.


Atordoado, não me movo enquanto tira meu paletó. Respiro fundo
pela boca enquanto desabotoa minha camisa, arrastando dedos e unhas
por cada centímetro de pele exposta. Fecho os olhos quando sua boca
alcança meu peito, contorna meus mamilos, mordisca as reentrâncias.
Não me movo, desconfiado. Nunca sei o que essa mulher está
planejando, mas o mundo faz muito menos sentido agora. Tenho
perguntas demais para fazer, mas a conexão entre meu cérebro e minha
boca parece ter sido cortada, porque nada sai. Seguro sua cintura,
prendendo-a com força a mim, e Madelaine desliza a mão pelo meu
abdome, traçando o contorno dos músculos até chegar ao botão da
calça, arrancando-me um grunhido quase tão doloroso quanto minha
ereção ao cobri-la com a palma.
Trinco os dentes conforme ela desliza a mão para cima e para
baixo na minha extensão, provocando um gemido prazeroso ao apertar
meu pau. Ela é rápida em fazer com que a calça deixe meu corpo, tão
rápida quanto é em fazer com que a cueca tenha o mesmo destino.
Madelaine me deixa aqui, nu e duro, à sua mercê.
Grunho quando me envolve com dedos delicados demais. Puxo-a
para mim, beijando-a com fervor, implorando com uma mordida no seu
lábio que me tome como sei que sabe fazer. Envolvo seus lábios nos
meus, exploro sua boca com a língua, afundo as unhas no seu pescoço.
Nada no mundo me prepararia para sua frase seguinte.

— Você quer minha boca? — pergunta safada ao meu ouvido,


levando-me de volta àquela primeira vez. De joelhos?Para você? Nunca.
— Maddy…
— Sim, Alteza? — repete, afável, os dedos se fechando nas
minhas bolas com delicadeza. De novo, a palavra entra nas minhas veias
e substitui meu sangue por necessidade. Dela. Do seu toque, da sua
boca, do seu domínio.
Seus olhos estão mais escuros do que o normal. Nublados.
Desejosos.
Entregue.
Com a boca partida, pupilas dilatadas, respiração rasa e voz
extasiada, Madelaine está entregue.
— Pede — sussurra, um som baixo sendo produzido. Leio a ordem
nos seus lábios e acato.
— Ajoelha para mim — peço, imploro. Entrego a ela o controle que
quer, que venho tomando desde a primeira vez.
Assisto-a se ajoelhar com as pálpebras pesadas. A visão é o
suficiente para fazer meu pau pulsar, mesmo que sequer tenha
encostado em mim ainda. Ao chão, ela ergue os olhos para mim. Com o
zíper do vestido aberto às costas, a peça cai um pouco do lugar,
liberando aos meus olhos mais dos seus seios. Uso as duas mãos para
segurar seu cabelo, prendendo os cachos grossos aos meus dedos. O
puxão é completamente involuntário quando a ponta da sua línguatoca a
ponta do meu pau.
Prende a cabeça entre os lábios, prende os olhos nos meus. Solto
um palavrão quando a língua circunda a área sensível, e tudo o que ela
faz é me provocar. Aumento a intensidade do aperto no seu cabelo,
trinco os dentes quando meu quadril se move sem que eu tenha
qualquer controle, e ela apenas me toma, me engole centímetro a
centímetro conforme estoco na sua boca, devagar
.

— Me chupa — peço finalmente,e o brilho vitorioso nos seus olhos


deixa claro que era exatamente o que queria. Se ela me quer
implorando, então é o que vai ter. — É seu. Toma o que você quer.
Um “puta merda” escapa sussurrado da minha boca quando ela faz
exatamente isso. O ardor das unhas nas minhas pernas se perde em
algum lugar quando ela me engole, deixando de lado qualquer
provocação com chupadas firmes, língua e lábios trabalhando em
sincronia para me enlouquecer. Perco a firmeza nas pernas, perco tudo
para ela.
Madelaine toma de volta um fragmento do poder que a pertence,
começando por mim. Não resisto.
É dela.
Escapo da sua boca a segundos de gozar, tentando controlar
minha respiração, falhando miseravelmente. Ela lambe o lábio inferior, e
eu pincelo o pau ali, imoral, estimulado pela sua própria devassidão.
Abaixo-me e a puxo para mim, erguendo seu corpo com facilidade,
jogando-a na cama sem muito cuidado. A essa altura, sei que é como
gosta. As costas estão no colchão, a expressão libidinosa percorre meu
corpo, o peito sobe e desce, atraindo meu olhar para o decote do vestido
que agora se acumula sob seus seios, deixando-os inteiros à mostra
para mim. Puxo-a pelos tornozelos para a beirada da cama, cubro o seu
corpo com o meu.
— Achei que não fosse se ajoelhar para mim — provoco, tomando
sua boca, brigando com o vestido na tentativa de arrancá-lo do seu
corpo. — Nunca, você disse?
Ela sorri, venenosa. Joga a cabeça para trás, oferece a garganta
para o meu ataque.
— Você realmente tem pouco apreço pela sua integridade física—
diz e termina de tirar a peça pesada pelas suas pernas, apenas a
calcinha separando-me do que quero.
— Já perdi as contas de quantas ameaças você me fez,Madelaine.
Uma hora eu precisaria parar de te levar a sério.
Agarro-a pela cintura e inverto nossas posições, prendendo-me na
cama, espalhando suas pernas sobre mim. Seguro seu quadril no lugar,
uso a outra mão para alcançá-la entre as pernas apenas para descobrir
que ela está pronta para mim.
— Chupar meu pau te deixa molhada assim, Alteza? — pergunto,
deslizando dois dedos com facilidade.
Sei que atingi o ponto preciso em que a queria quando os olhos
escuros se recobrem de um desejo provocador.
— Te ver implorando me deixa molhada assim — corrige, rebolando
nos meus dedos.
Afasto sua calcinha para o lado, tirando os dedos de dentro,
encaixando-a sobre o meu pau. Sinto a umidade se esfregandona minha
extensão em um vai e vem que é um martírio. Ela geme, posicionando o
meu pau no clitóris, usando-me de estímulo.
— Camisinha? — sussurra, subindo as mãos pelos seios,
apertando os mamilos entre os dedos, e a visão seria o suficiente para
eu gozasse bem aqui.
— Merda.
Fecho os olhos, considerando começar mesmo a estocar camisinha
em todos os cômodos dessa casa. Tento lembrar qual o cômodo mais
próximo em que vou achar uma. Seguro seu quadril, tentando fazer com
que pare de rebolar assim porque não consigo pensar.
— A gente não usou na primeira vez — lembra.
— Não é porque fizemos merda uma vez que temos que fazer em
todas.
— Tudo bem — diz, e abro os olhos para a firmeza da sua voz,
sincronizada com a do seu olhar. Assisto-a descer a mão à minha
ereção, envolvendo-a, guiando-a. — Confio em você.
E aí está, a epítome da noite de hoje. Cada passo, cada decisão,
cada detalhe de Madelaine hoje se resume a apenas essa frase. Um
gesto de confiança cega.
— Monta no teu homem, Alteza — respondo, e é o que ela faz.
Sento-me, agarrando-a onde posso. Coleto seus gemidos com a
boca, deixo que os extravase na minha pele, enquanto rebola no meu
colo, acelerando o sobe e desce cada vez mais. Madelaine me toma, e
eu entrego de bom grado tudo o que quer de mim.
Ela teve um dia estranho, e já foi estabelecido que eu sou ótimo
para torná-los melhores, bem aqui, em repetições das insanidades que
aconteceram no estante de tiro, puxões de cabelos e um quê de
violência. Porque é fácil descontar a frustração do dia nela quando sei
que está fazendo de propósito para me tirar do sério, quando eu sei que
está ansiosa para o estresse fodido para fora do seu corpo.
Só que ela não está estressada, e eu não estou frustrado.
O combustível para uma trepada bruta e inconsequente não está
aqui. Somos só nós dois.
— Theo… — geme no meu ouvido, agarrando-se mais a mim.
Envolvo sua cintura para desacelerar o seu ritmo.
— Devagar, amor — sussurro. — Deixa eu te foder devagar.
Ela joga a cabeça para trás, abrindo espaço para a minha boca nos
seus seios. Cavalga vagarosamente, sem nunca tirar os olhos dos meus.
Quando ela explode dessa vez, não é em raiva e tesão. É comigo, para
mim, e é inevitável.
Maddy volta ao meu pescoço em uma lamúria gananciosa e me
leva junto em beijos singelos, toques doces e promessas de amor.

Meu braço dói.


Depois de treinamentos extensivos e repetições exaustivas, meu
condicionamento físiconão é algo a ser ignorado. Mas meu braço dói,
como há muito não doía, porque está preso na mesma posição há horas
sem que eu possa mexê-lo. Não me atrevo a mexê-lo, não quando
Madelaine se agita no lugar apenas para chegar mais perto. Apenas para
se encaixar mais ao meu peito, enroscar uma perna na minha, passar um
braço ao redor da minha cintura.
O sol entra pelas janelas amplas que cobrem a parede desse
quarto, deixando claro que estou atrasado. As mensagens de Brian que
se acumulam no meu celular reforçam isso. Precariamente com a minha
mão não dominante, tudo o que faço é avisar que não sei que horas vou
aparecer hoje e que não conte com a minha presença antes da hora do
almoço. Delego a ele o que posso, reagendo o que preciso e continuo
deitado, acompanhando sua respiração compassada e tranquila depois
de uma noite que significou noites demais.
Não sei se Maddy planejou dormir nos meus braços quando entrou
aqui ontem à noite, mas foi aqui que terminou. De novo. É onde vou
mantê-la por quanto tempo puder.
Agora, esparramada da cama, a bunda mal coberta pela minha
camisa mal abotoada no seu corpo, eu me pergunto que crime foi esse
que eu cometi para que minha punição seja ela. É uma piada de mau
gosto que tenha sabor de recompensa. É torturante que tenha se tornado
meu inteiro, quando sei que sempre serei apenas uma lembrança do
trono que ela não pôde ter.
Ela resmunga alguma coisa no meu ombro, e derrubo os olhos para
encontrar os seus inchados e sonolentos, piscando devagar. Assisto a
mudança na sua expressão conformeos segundos se passam e absorve
seu arredor. Conforme entende onde está.
Quando o faz, ao invés de se levantar, sair correndo ou entregar
alguma provocação ácida, apoia o queixo no meu peito e deixa as íris
escuras presas em mim.

— Sinto falta dela — sussurra.


— Da sua mãe? — pergunto, tentando deixar a surpresa de forada
minha voz.
Maddy assente e apoia uma mão no meu peito. Prendo a
respiração quando ela começa a traçar o contorno de uma tatuagem com
a ponta dos dedos, a unha fazendo cócegas na minha pele. Imito-a, mas,
sem ter nenhuma tatuagem para desenhar na sua pele, escolho suas
costas como meu alvo e dedilho o caminho da sua coluna para cima e
para baixo.
— Ela teria gostado de você — diz, e tudo o que posso fazer é rir.
— Esse seria um feito inédito — respondo, divertido. — O príncipe
tatuado não costuma fazer sucesso com as mães.
— Elas não sabem o que estão perdendo — murmura, alisando o
contorno da tinta na minha barriga. — Tamara sempre foi muito boa em
enxergar o coração das pessoas. E você tem um enorme. — Beija minha
costela. — Às vezes eu me pergunto o que ela acharia do meu.
— Você é caótica, Madelaine. Não significa que não é uma boa
pessoa — digo, acariciando seu cabelo. — Algumas das coisas que você
fazpoderiam ser consideradas crime em outros países,mas tenho quase
certeza de que a constituição de Delway está a seu favor. Se não estiver,
conheço bons advogados e um rei que pode te conceder perdão.

Ela ri e esfregao nariz na minha pele. Sinto a umidade de lágrimas


escassas e puxo seu rosto para mim.
— Ela teria muito orgulho da mulher que você se tornou.
— Eu me sinto fraca — admite, como se fosse a confissão de um
crime.

— Isso você nunca vai ser — garanto, alisando sua bochecha. —


Você ainda está pensando naquele pen drive que me falou, não está? —
arrisco, e ela assente, o semblante duro.
— Eu preciso fazer alguma coisa — sussurra, repousando o rosto
na minha barriga em um gesto íntimodemais. — Que aquele trono nunca
seja meu, não importa, eu preciso fazer alguma coisa. Ele está
machucando gente demais.
— Me mostra o que é — peço, descendo os dedos pelo seu
pescoço. — Entre nós dois e Richard, nós vamos encontrar um jeito de
usar as informações que você tem de alguma forma.
Ela ergue o rosto, as sobrancelhas tensas.
— Richard? — pergunta, curiosa.
— Minha solução prática para os problemas não costuma envolver
muita conversa — admito com um estalar de língua.— Se você tem uma
situação diplomática para resolver, é dele que precisa.
— Tudo bem — concorda, sentando-se na cama.
Madelaine está uma bagunça. A maquiagem da noite passada está
borrada em alguns pontos depois de ter dormido sem tirá-la, minha
camisa está amassada no seu corpo, seu cabelo está cheio e
desarrumado. Uma bagunça absolutamente deliciosa.
— Daqui a pouco — sugiro, levantando-me também, mas apenas
para poder me jogar sobre ela e a prender entre o peso do meu corpo e
o colchão. Separo suas coxas com meu joelho, me encaixo entre suas
pernas e prendo seus pulsos acima da cabeça. — Primeiro, café da
manhã — determino, furtando seu sorriso com um beijo.
capítulo vinte

— Ela é talentosíssima — Liam diz, sentando-se ao meu lado na


área do rinque de patinação, assistindo Heather treinar.
Desligo a tela do tablet que estava usando para ler com atenção
alguns documentos e viro minha atenção a ele.
— Ela é — respondo, batendo palmas quando a apresentação
termina. Insinuativa, continuo: — Era sobre o talento da rainha que você
tem conversado tão animado com a assistente do rei nos últimos tempos,
presumo.
Conheço-o a tempo o suficiente para reconhecer o traço de
constrangimento que cobre seu rosto. Posso apostar que pensou que
estava sendo discreto. Ele pigarreia, e eu sorrio.
— Você precisa se divertir mais. Passa tempo demais tentando me
manter fora de confusão — digo, apoiando meu braço no seu.

— Alguém precisa fazer isso, Alteza — devolve, sorridente. — A


menos que minha função tenha sido entregue para o seu noivo.
Ele devolve o mesmo tom sugestivo, e reviro os olhos, empurrando-
o com os ombros.
— Fico feliz que tenha encontrado nele alguém que te faça sorrir,
Maddy — diz, acariciando minha mão. — Vou assumir, depois da cena
que vocês dois protagonizaram na pista de dança, que esse casamento
tem chances de ser real.
Muito mais do que antecipei. É assustador, se precisar ser honesta.
É inesperado. Parece… certo.
— “Com todo respeito…” — canto, e ele me encara confuso. —
Você está usando o tom que usa quando vai falar “com todo respeito,
Alteza” — explico. — O que é, Liam?
— Só estou me perguntando sobre…
— O trono.
— O trono — ele concorda quase ao mesmo tempo. — Sabe que
se casar com Theodore significa que não vai governar Devondale.
— Casando com Theodore ou não, não governar Devondale já é a
certeza do meu futuro, ao menos pelas próximas décadas.
— Você odeia desistir.
— Eu odeio desistir — repito com um grunhido doloroso. — Mas
não há nada que eu possa fazer agora, Liam. Ao menos… — Umedeço
os lábios. — Se eu me casar com Theo, existe a chance de papai achar
que desisti, o que significa que eu tenho mais chances de conseguir
manter meus dedos dentro do exército. O general gosta de mim e tem
um bom coração, posso conseguir convencê-lo a desobedecer a uma ou
outra ordem do rei para ajudar a população.
— Espiã do seu próprio país— graceja, e me arranca um riso fraco
também.
— Vou trabalhar com as armas que tenho.
Distraio-me do que quer que Liam estivesse prestes a dizer quando
sinto minha mão ser envolvida por outra, muito menor. Abaixo o rosto e
encontro Blair sentada ao meu lado, agarrada a mim como se fosse algo
que fizesse com frequência. A filha mais velha de Stephen e Louise está
dentro de calça e camiseta cobertas de tinta, os cachos grossos presos
em um penteado simples que deixa o rosto redondo e sorridente em
evidência.
— Está tudo bem? — pergunto, e ela faz que sim rápido com a
cabeça.
— Eu estava brincando de pique-esconde com o papai, mas cansei
de me esconder. Papai demora muito para me achar — fala, dando de
ombros. — Mas eu não posso ficar sozinha sem nenhum adulto, aí eu
vim ficar com você. Oi, Liam! — cumprimenta, movendo a mão agitada, e
ele acena de volta para ela.
— Como vai, princesinha?
— Cansada — reclama, passando a mão na testa em um gesto
dramático que faz parecer que não é uma criança de dez anos.
A espontaneidade da pequena me arranca uma risada, e arrumo
minha mão na sua para que se segure a mim direito.
— Você quer comer alguma coisa? Está na hora do almoço —
pergunto. Ela concorda com a cabeça e começa a saltitar em direção à
parte de dentro do castelo. Agradeço, porque, apesar de ter aprendido a
amar assistir Heather patinar, este lugar é gelado demais.
— Você vai morar aqui para sempre depois que se casar com o tio
Theo? — ela pergunta com a curiosidade inocente que só crianças têm.
Não me dá qualquer chance de responder, continua tagarelando: — O
papai me disse que não precisa de príncipe para ser princesa, mas eu
queria um príncipe também. Você acha que o Orson pode ser meu
príncipe?
Liam ri ao meu lado, e eu paro de andar para me abaixar à sua
altura.
— Eu acho que nós podemos ter essa conversa em… oito anos?
Você está muito nova para se preocupar com isso agora, tudo bem? —
Ela brinca com meu cabelo e fazque sim com a cabeça. Toco a ponta do
seu nariz. — Vamos achar seu pai, ele vai ficar preocupado.
Ponho-me de pé, tomando a mão dela de volta à minha. Quando
chegamos à sala de jantar, envio uma mensagem a Stephen avisando
que tenho a filha dele e agradeço a Liam quando se propõe a fazer um
sanduíche para a menina. Ela logo me esquece, entretida em uma
conversa com ele, e eu apenas assisto à cena com um sorriso suave nos
lábios.
— Ocupada? — a voz baixa me pergunta ao ouvido. Nego com a
cabeça, e Theo me abraça por trás. Relaxo meu corpo contra o seu.
— Você não devia estar trabalhando? — pergunto, olhando-o de
canto. — Ou finalmente perceberam que você é inútil e a segurança do
país se mantém sozinha?
Ele belisca minha cintura e me aperta mais.
— Vim te buscar para conversarmos com Richard — diz,
distribuindo uma trilha de beijos quentes pelo meu pescoço.
Desconcentro-me por um segundo, e o filho da mãe ri, zombando do
poder que tem sobre mim.
— Estou esperando seu irmão vir coletar a filha dele — aviso,
apontando para Blair. — Eles estão brincando de pique-esconde pelo
visto.
— Stephen é péssimo nisso, nunca encontra ninguém. — Ele ri,
mordiscando minha orelha. Aceito o carinho singelo por alguns minutos,
até que sua voz soa incerta: — Você quer ter filhos?
A mão vem à minha barriga no que tenho certeza ser um gesto
involuntário, mas eu estou bem consciente quando cubro a sua com a
minha.
— É uma das poucas regalias que um dia sonhei em ter — admito,
mantendo os olhos em Blair. — O direito de ter filhos com o homem que
eu amo ao invés de procriar pela obrigação de encher a famíliade
herdeiros. Nunca achei que fosse possível.
— E agora acha? — pergunta, incerto. Sorrio. Não é uma
característica comum a Theodore. É raro que ofereça qualquer coisa
além de firmeza, então me permito apreciar a doçura que é a sua
vulnerabilidade.

— Agora acho — respondo, e o aperto do seu braço sobre mim me


diz tudo o que preciso saber.

Richard estava… furioso?


Não sei se essa é a palavra correta para descrever seu estado de
espírito durante a nossa conversa, mas certamente estava tenso. É claro,
pelo teor da discussão, mas parecia haver algo a mais. Seu olhar
inflexívelestava sobre Theodore, e não sobre mim, o que foiuma quebra
inesperada do roteiro que criei na minha mente. Estava esperando uma
repetição da última vez em que estive no seu escritório, uma bronca
diplomática que doeria mais do que gritos. Mas isso não aconteceu. Na
verdade, o rei mal falou.
Pouco mais de meia hora, pediu para continuarmos em outro
momento porque precisava resolver outras questões, e eu me retirei.
Theodore ficou; se porque tinha algo a falar com o irmão ou porque
aqueles olhares enfezados trocados entre os dois eram algum tipo de
comunicação silenciosa da qual eu não fazia parte.
Estou quase no fim da escada quando percebo que esqueci meu
celular. Volto ao escritório, pronta para bater na porta quando travo, a
mão erguida em punho quase tocando a madeira.
— Você não acha que está indo longe demais com essa história
com a Madelaine, Theo?
A voz de Richard é incisiva, acusatória.
Eu deveria ir embora, é claro que sim.
Nada de bom nunca sai de escutar conversas alheias que não te
dizem respeito atrás da porta. Mas me diz respeito, então eu fico. Já
sentindo o gosto amargo do arrependimento na boca, eu fico.
O que quer que Theodore responda, não é inteligível. Ouço sua
voz, mas não consigo discernir suas palavras, baixa demais.
— Theo… — o rei fala, parecendo exasperado. — Eu sei que essa
situação toda é uma merda, que você não queria se casar e nem
começar uma guerra por causa disso, mas as coisas estão saindo do
controle. Madelaine não tem culpa de nada, não merece ser usada
assim.
Usada.
Empertigo a coluna, sentindo a garganta fechar.
— Não estou te reconhecendo, irmão — Richard continua, a voz
abafada. Não sei se pela distância, pela porta ou se pelo zumbido
incômodo nos meus ouvidos. — Eu sei que você é disposto a tudo para
nos proteger, mas precisa ter limites.
Dou um passo para trás. Um minúsculo. Uma tentativa pífiade
colocar distância físicaentre mim e o que me machuca, mas não vou
longe, porque quero ouvir o resto. Porque quero correr para longe e
nunca mais voltar, mas quero extrair cada gota possível de informação.

— Você chegou aqui transtornado depois da sua conversa com


Elijah, Theo. “Se querem um príncipe apaixonado, vão ter um príncipe
apaixonado”, foram suas exatas palavras. Não achei que você fosse
levar isso tão longe. Por Deus, o que você está fazendo?
Uma única lágrima vence a batalha. Escorre pela minha bochecha,
alcança o canto da minha boca. Eu a pesco com a língua, deixando que
se transforme em um sorriso dolorido ao dar um passo certeiro para
frente. Abro a porta sem bater, sem esconder minha presença. Fingindo
uma coragem que não sinto no momento.
Richard está de pé, recostado na mesa. Theodore está de pé no
meio do escritório, a poucos passos de distância do irmão. Ambos os
rostos se viram para mim ao mesmo tempo, exibindo expressões muito
diferentes. O rei imediatamente volta seus olhos ao irmão, preocupado.
Theo… Não há nada além de desespero nos olhos azuis que passaram
a embalar meus sonhos nas últimas noites.
Não digo nada. Entro no cômodo e sigo até a mesa.
— Esqueci meu celular — aviso, pegando o aparelho e mostrando-
o aos dois. Faço uma reverência a Richard. — Majestade.
Com o coração batendo desordenado na garganta e cada
centímetro do meu corpo tremendo, traço uma linha reta em direção à
porta. Pronta para sair daqui. Pronta para ir embora e não olhar para
trás.
Deus, como pude ser tão idiota?
Theodore me intercepta antes que eu chegue ao meu destino.
Seus olhos agitados percorrem meu rosto. Mais pálido do que o normal,
abre e fecha a boca, implorando em silêncio para que eu espere.

Eu espero.
— Maddy… — sussurra, a voz quebrada.
— Sim ou não? — pergunto somente, surpresa por conseguir
formar palavras inteiras quando a impressão que tenho é que estou a
ponto de implodir em pedaços pequenos demais para serem colados. —
“Se querem um príncipeapaixonado, vão ter um príncipeapaixonado” —
repito, as palavras queimando na minha língua. — Você disse isso?
— Maddy…

— Sim ou não — repito entredentes, sabendo que é um caminho


perigoso deixar a raiva me inundar.
Ela nunca dura muito. Quando for embora, as lágrimas vão vencer.
A dor da traição vai vencer.
Ele apenas assente, mal movendo a cabeça. Pisca devagar, os
olhos marejados.
Não. Ele não tem o direito de chorar agora.
— Não é tão simples assim — defende-se, estendendo as mãos
para tocar meus braços. — Me escuta — implora.
— Estou escutando — aponto, trincando os dentes juntos para
tentar impedir meus lábios de tremerem. Não funciona. — Nós não
vamos protagonizar uma daquelas cenas em que você diz que não é o
que eu estou pensando e eu saio correndo sem te escutar. Estou
escutando, Theodore. E o que estou ouvindo é que a sua intenção era
fingir que estava apaixonado por mim para me fazer confiar em você.
Ele não responde. Não precisa. As írisque sempre me encantaram,
me provocaram, me incitaram, se enchem de culpa.
Ainda assim, espero pela resposta.
Eu quero ouvir. Preciso ouvir. Caso contrário, vou me convencer de
que não passa de um mal-entendido. Que o homem que passou os
últimos meses se infiltrando na minha pele e coração não é um filho da
puta manipulador que achou que era uma boa ideia brincar com
sentimentos que eu sequer tinha.
— Sim ou não, Theodore? — peço em um fio de voz, usando a
última gota de energia que tenho antes de desabar.

— Eu não achei que…


— Sim ou não.
Ele pisca, demorado. O rosto perfeitamente imperfeito retorcido em
dor.

— Eu sinto muito.
Custo a conseguir tirar os olhos de cima dele. Toma tudo de mim
não deixar a decepção me consumir bem aqui. É por um fio.Um único fio
que está prestes a arrebentar.
Eu preciso sair daqui. Antes que me envergonhe mais. Antes que
me humilhe mais.
— Aconselho utilizar os documentos que te entreguei caso meu pai
vá em frente com as ameaças e queira começar uma guerra quando eu
anunciar o fim do noivado — falo baixo, e seus olhos voam ao meu
rosto.
— Madelaine, não, espera…
— Parabéns, general. Você venceu, sem precisar derramar uma
única gota de sangue.
Desvio dele, focada em sair daqui. Dessa sala, dessa casa, desse
hemisfério.
Sinto minha respiração ameaçar falhar, minhas mãos tremerem, e
sei que preciso colocar distância entre nós dois.
Não vou longe antes que me impeça. Seus dedos em volta do meu
pulso me prendem no lugar. Quentes na minha pele. Ásperos. Doces.
Familiares.
— Maddy, por favor.

— Por favor o quê? — sussurro. — Por favor te dê mais tempo para


arrancar mais coisas de mim? Não tem mais nada. Você levou tudo. Me
deixa ir. — Ele não faz qualquer menção de me soltar, e a primeira
lágrima quebra a barreira. — Qual é a verdade aqui, Theodore? Você é
traiçoeiro como ele ou apenas segue as ordens do meu pai?
Funciona. Ele solta meu pulso, escorrega os dedos para fora da
minha pele. Sinto sua falta de imediato.
Não olho para o seu rosto. Não conseguiria.
Apresso o passo pelo corredor, levando-me para longe.
Levam apenas dois segundos para que um soluço dolorido corte a
minha garganta e eu quebre.
capítulo vinte e um

Um raio não cai no mesmo lugar três vezes. Sequer deveria


cair duas; por si só, isso desafiaas improbabilidades. Que o mesmo
evento raro aconteça na mesma família três vezes é impossível.
Quando meus pais se casaram, mais de quarenta anos atrás,
haviam se visto um par de vezes. Um acordo assinado pelos meus
avós selou o destino dos dois e, pelas quatro décadas seguintes,
eles transformaram em amor e companheirismo o que deveria ser
apenas obrigação. Seguindo o legado da família,Stephen abriu a
temporada de casamentos da nossa geração repetindo o feito e
encontrando no seu próprio casamento por conveniência o seu
“felizes para sempre”.
Um raio não cai no mesmo lugar três vezes, então eu soube
desde o início que esse jamais poderia ser o meu destino.
Um raio não deveria cair no mesmo lugar três vezes, mas ver
Madelaine com olhos marejados se afastandode mim, sabendo que
é por minha causa que aquelas lágrimas existem, me faz acreditar
no impossível. Se eu tinha alguma dúvida antes que aquela filhote
de demônio, arrombadora de fechaduras, provocadora do inferno,
com um sorriso arrebatador e uma determinação brilhante havia
roubado meu coração, ela se esvai.
Não, eu não tinha qualquer dúvida. Só não estava preparado
para tê-lo levado embora com um rastro de dor dessa forma.
— General?
Custo a tirar a atenção do mapa que estou encarando sem
realmente ver há tempo demais. As linhas entre os países se
tornaram embaçadas depois de muito tempo sem piscar. Meus
olhos ardem quando os viro em direção a Brian, parado a alguns
metros de mim, encarando-me com preocupação.
Aperto o ossinho entre os olhos, sentindo a cabeça doer.
— Não dormi direito — explico, o que não é mentira, mas está
longe de ser a verdade inteira.
É claro que não dormi direito. Faz dias que não durmo direito.
Como posso, se toda vez que fecho os olhos são os olhos
marejados recobertos de decepção de Madelaine que vejo?
Demorei poucos segundos para reagir depois que a vi sair do
escritório de Richard. Apenas o suficiente para sua acusação
assentar sobre mim.
Estou escutando, Theodore. E o que estou ouvindo é que a
sua intençãoera fingirque estava apaixonado por mim para me
fazer confiar em você.
Eu deveria ter dito que não. Que não foi assim. Que jamais
seria assim. Mas não seria verdade. Eu prometi minha palavra à
Madelaine desde o primeiro instante, e a ideia de oferecer uma
meia-verdade porque era o caminho mais fácil me fez querer
vomitar. Eu deveria ter dito não, mas não disse.
O choro fraco que ouvi por detrás da porta do seu quarto
quando a alcancei me desesperou. A ausência de resposta quando
chamei seu nome me quebrou. Foi o seu “por favor” que me fez
entender a dimensão do que tinha acabado de acontecer.
Por favor
, não.
Sem gritos. Sem provocações, desafios, disputa por poder.
Sem discussões acaloradas. Nada. Apenas uma súplica fraca.
Eu poderia ter entrado no seu quarto. Ela não teria resistido,
sei disso. Seu “por favor” sussurrado era o indício de que não teria
forças para me mandar embora se eu insistisse. Madelaine
precisava que eu respeitasse o espaço que estava colocando entre
nós dois, porque ela não conseguiria.
Não me afastei, incapaz de colocar distância da única
pequena barreira que me impedia de alcançá-la. Mas não insisti.
Richard e Stephen se juntaram a mim, sentado no chão do
corredor, recostado na parede oposta à sua porta. Eventualmente,
me deixaram sozinho, quando perceberam que era disso que eu
precisava. Fiz do seu sofrimento a minha punição. Passar as horas
seguintes ouvindo seu choro, sabendo que estava sofrendo por
minha causa do outro lado da parede, rasgou cada centímetro do
meu coração de uma forma que jamais imaginei ser possível.
Não. Eu não posso perdê-la, não agora. Não depois de tê-la
encontrado. Não depois de termos transformado nosso caos em
harmonia.
Não antes de eu ter a chance de dizer o quanto eu a amo.
Com palavras dessa vez, mesmo que dizer que a amo seja tudo que
sou capaz de fazer há semanas.
— Theodore?
A voz de Brian me arranca do meu estupor. Com uma pasta
aberta nos braços e sobrancelhas franzidas, sei que não vou
escapar do seu interrogatório.
— Está tudo bem? Você não ouviu nada do que eu disse.
Passo as mãos pelo cabelo.
Não. Não está tudo bem. Como tudo poderia estar?
— Theo, acho que você precisa de uns dias de folga — Brian
sugere, aproximando-se de mim. — Você… não tem sido você
mesmo essa semana.
— Estou bem — minto, tentando me concentrar de novo no
mapa. Pisco rápido, tentando focar nas linhas bem delimitadas que
não me dizem nada agora. Aponto o indicador para uma área
marcada. — Podemos organizar o envio dos mantimentos por aqui,
é só cruzar a fronteira. Dois carros e duas dúzias de soldados
devem ser o suficiente.
— E é assim que você causa um incidente internacional
atravessando homens armados pela fronteira de um país que não
tem Delway na lista de favoritos. — Sinto sua mão no meu ombro.
— Theodore, por favor. Você está uma bagunça essa semana. Você
enviou tropas para o lugar errado. Calculou mal o número de
guardas necessários para escoltar o presidente que veio a uma
reunião com Richard, e foipura sorte que o resultado não tenha sido
pior do que foi. Quase causou um pequeno incidente internacional
ao confundir o nome daquele general com o do país em que estão
em guerra. Você vai acabar matando alguém. Não devia trabalhar
agora.
— Você não vai me dizer como fazer o meu trabalho,
comandante — respondo, apertando a beirada da mesa, tombando
a cabeça para frente.
— Theo…
— Fora — ordeno, sem olhar para ele de novo.
Brian não discute, sabe que não adiantaria. Com um suspiro
pesado, bate continência e sai. Ao som da porta se fechando, fecho
os olhos também.
Despertei com o som da fechadura sendo destrancada. Do
chão, de onde passei a noite, vi Madelaine de volta à sua postura
altiva e inabalada. Os olhos vermelhos e inchados eram a única
prova de que algo tinha acontecido, de que a máscara que me
oferecia era apenas sua forma de conseguir ficar de pé.
Ao seu lado, a mala.
Esperei por gritos ou silêncio. Raiva ou apatia. Não esperei
pela pergunta incerta vinda de olhos tão indiferentes. Algumacoisa
foi verdade?
Tudo foi verdade.
Cada segundo.
Cada batida de coração.
Ela veio até mim, os dedos macios escovando minha barba,
erguendo meu queixo.
Eu queria tanto poder acreditar em você.
Uma batida firme na porta me arrasta da memória do seu
toque suave, mas não reajo a ela, ainda preso naqueles últimos
segundos.
Ouço o som da porta do meu escritório se abrindo, mas a
única coisa que ecoa na minha mente são meus próprios apelos. Eu
sabia que ela estava questionando tudo. Cada segundo, cada gesto.
Sabia que estava se sentindo traída,que estava me medindo com a
mesma régua recém-adquirida para o seu pai. Madelaine demorou
muito tempo para admitir para si mesma que alguém que ela amava
era capaz de traí-la; eu não receberia um único segundo de
misericórdia. Sabia disso. Saber não me impediu de prendê-la em
um abraço e implorar que confiasse em mim.
Ela não confiou.
— Theodore.
Estou com os olhos marejados quando os lanço ao meu
irmão. Não. Não é meu irmão. É o rei que está diante de mim.
Imponente e frio, dentro de um terno alinhado e com a postura de
quem não admite questionamentos.
Atrás dele, Brian tem um pedido de desculpas no olhar.
— Majestade — respondo, a voz rouca pelo choro preso.
Afasto-me da mesa, prendo as mãos atrás do corpo e espero.
Richard suspira, cansado. Ele me avalia de cima a baixo,
medindo-me com cuidado, antes de fazer claro o motivo da sua
visita.
— Estou te afastando do seu posto — avisa, e tudo o que
consigo fazeré soltar um riso seco. — Por tempo indeterminado, até
segunda ordem. Começando agora — adiciona quando ameaço
insinuar qualquer coisa diferente disso.
— Sim, Majestade — respondo quase entredentes,
oferecendo-o uma reverência exageradamente longa. Serve para
irritá-lo, e aceito a pequena vitória mesquinha.
Uma ordem direta do rei para que eu me afastasse do meu
posto cumpriu sua função. Sequer consigo ficar bravo com meu
segundo em comando; ele fez o que foi treinado para fazer. O
problema é que seu treinamento terminou de foder com os poucos
segundos de paz que tenho agora.
Não consigo passar tempo algum desocupado no centro de
treinamento, minha primeira opção para gastar tempo livre e exaurir
minha energia mental. Cada canto daquele lugar me lembra dela.
Cada canto dessa casa me lembra dela.
Cada dia que passa, minha disposição por respeitar seu
espaço diminui.
Sei que não posso cruzar mais essa linha, sei que não posso
colocar abaixo as portas principais do castelo e obrigá-la a me
encarar. Todas as chamadas recusadas e mensagens ignoradas
dão o mesmo recado. Madelaine não quer me ver. Mas como posso
simplesmente desistir?
— Ei.
Ergo os olhos para Richard, parado na entrada da cozinha
para onde eu vim, atrás de água gelada.
— Como você está?
— Desempregado — respondo ácido, e ele ri.
Vai até a geladeira e tira uma vasilha de dentro. Assisto-o
gastar tempo demais procurando onde fica cada coisa,
desacostumado a preparar qualquer coisa aqui, mas, por fim,
consegue servir em um prato e pegar dois garfos.
Ergo as sobrancelhas quando vejo a fatia de torta de cereja
colocada na minha frente.
— Chutar cachorro morto é covardia — falo,arrastando a mão
pela barba.
— Alimentar cachorro faminto é obrigação moral — rebate,
sentando-se ao meu lado e me entregando um garfo. Pego-o com
um suspiro, cortando um pedaço pequeno. Não tenho coragem de
trazer à boca. — Já lambeu as feridas por tempo o suficiente? —
meu irmão pergunta, e eu o olho sem entender. — Faz uma
semana.
— Vai se foder, Richard. Vai demorar muito mais do que uma
semana para eu superar o fato que a minha mulher foi embora e fui
eu quem a escoltei até o aeroporto.
Claro que escoltei. Porque meu masoquismo não tem limites
quando o assunto é ela. Porque Madelaine recusou ser
acompanhada por guardas e insistiu em dirigir sozinha. Porque
confio na competência de Liam, mas jamais deixaria nas mãos de
qualquer outra pessoa a segurança dela. Então eu a escoltei. Direto
para a área privada de onde decolamos o jatinho, que precisei
insistir para que aceitasse ao invés de se enfiar em um voo
comercial sozinha. Eu a assisti embarcar. Assisti o jatinho decolar. E
continuei parado ali por Deus sabe quanto tempo até que Stephen
apareceu para me trazer de volta para casa.
Faz sete dias. Dói como se tivesse sido sete minutos atrás.
Confiro meu celular, vendo a hora e nenhuma mensagem.
Com pena de mim, Liam tem me mantido atualizado. Uma
única mensagem por dia, garantindo que ela está bem. Sem
maiores informações, sem qualquer invasão da sua privacidade.
Apenas a paz de espírito de que o filho da puta que a colocou no
mundo está se comportando. A de hoje ainda não chegou.
— Você se apaixonou mesmo por ela — constata, e eu rio
seco.
— Isso é tudo que você vê? Um general sem coração? Um
soldado em uma missão que não mede meios para os fins? —
Minha voz falha, dolorida. — Sou mesmo tão desumano assim que
a primeira coisa que você pensou é que eu estava fingindo?
Os olhos castanhos do meu irmão se arregalam, e ele segura
meu rosto com as duas mãos, com força, prendendo-me a ele.
— Não existe uma única célula no seu corpo que seja
desumana, Theodore. — Tento me soltar, mas ele me prende de
novo. — Eu nunca te vi cuidando de alguém tão abertamente que
não fosse da família.Eu nunca te vi tão devoto a outra pessoa. Não,
essa não foi a primeira coisa que eu pensei, mas eu precisava de
uma confirmação. Eu não sabia se você não estava se enganando
também.
Fecho os olhos, e Richard dá um tapinha no meu rosto.
— Não queria que você se machucasse, Theo.
Sorrio triste, porque é uma ironia gigantesca que tenha sido
exatamente esse o resultado do seu cuidado.
— Sinto muito, irmão.
Aceito seu abraço, deixando-me ser consolado em uma
inversão estranha de papéis. Sou eu nessa posição, normalmente.
— Aí estão vocês, O que estão fazendo? — Stephen
pergunta, aproximando-se de nós dois. — Sanduíche de Theo! —
grita e, antes que eu possa protestar ou fugir, ele me abraça
também, prendendo-me entre os dois.
— Pelo amor de Deus, Steph — resmungo, quase sem
conseguir respirar.
— Sem reclamar, senão eu aperto mais forte — ameaça, e eu
apenas balanço a cabeça em rendição, sabendo que é inútil lutar
contra as insanidades dele. — Você é meu irmãozinho, e vou te
abraçar o quanto eu quiser.
— Eu sou maior do que você, porra. — Debato-me, tentando
me soltar dos dois pares de braço.
— Você é grande, mas não é dois — pirraça e deixa um beijo
estalado na minha cabeça. — Fica quieto e aceita.
Resmungo alguma coisa, que é inútil porque nenhum dos dois
me solta.
— Já está pronto para parar de se sentir culpado por uma
coisa que você não fez e ir atrás dela? — Richard pergunta depois
de alguns minutos.
Nego com a cabeça, sentindo a garganta arranhar.
Culpa.
Quando Richard disse que precisava falar comigo, que
resgatasse alguma merda que eu disse meses atrás sequer estava
na lista de assuntos esperados.
Existiu mesmo um mundo em que eu considerei usá-la dessa
forma? Houve uma realidade em que me convenci que era uma
tática de guerra aceitável, mesmo que por um breve segundo? Não
durou muito. Foi somente o tempo até vê-la outra vez e descobrir
estava tão afogada nessa merda quanto eu. Foi somente o tempo
de Madelaine me encantar.
Mas se isso não tivesse acontecido, eu teria ido em frente com
o plano? Teria sido baixo a ponto de brincar com os sentimentos de
alguém assim?
Não. Quero acreditar que não. Que foi uma decisão tomada
na raiva, que seria deixado de lado depois de uma boa noite de
sono, independentemente de quem estivesse do outro lado do fogo
cruzado.
Eu posso não a ter traído. Posso não a ter usado. Mas tive
toda a intenção de fazer isso e, se não consigo me perdoar, como
ela poderia?
O som do meu celular apitando alto em cima da mesa,
indicando uma mensagem que chegou, me faz recomeçar os
esforços para me soltar dos meus irmãos. Com a motivação certa,
dessa vez consigo.
Afasto-me deles com passadas largas, agarrando o aparelho
como se carregasse a minha vida inteira. Desbloqueio a tela, pronto
para ler a mensagem de Liam.
Sinto um frio gelado cortar a minha espinha, porque ao invés
do seu habitual “está tudo bem”, o que leio na tela é:
Aconteceu uma coisa
capítulo vinte e dois

Eu me deixei ser distraída.


Quero culpar Theodore por sua lábia. Quero odiá-lo por ter sido
exatamente tudo o que gostaria de encontrar em alguém, por ter me
ludibriado a uma realidade desenhada para me agradar.
Mas eu me deixei ser distraída.
Esqueci minhas prioridades, alterei meus planos.

Abaixei minha guarda quando não devia, confiei fácil demais, me


deixei ser levada pelo que acreditei ser uma conexão não falada, um
encaixe perfeito, alguém que despertava o melhor em mim e sabia lidar
com maestria com o pior.
Eu me apaixonei por um homem que me prometeu guerra e tive o
coração quebrado quando sua promessa se concretizou.
A idiota fui eu.
Patética.
— Alteza? — Liam me chama, e demoro alguns instantes para
reagir.
Não o ouvi entrar, não notei sua aproximação, distraída com as
notícias que leio no tablet. Sentada à mesa, com o café da manhã
servido, tento não imaginar a voz de Beatrice Thompson me
repreendendo por estar trabalhando à mesa.
— Coma comigo — peço, indicando a cadeira ao meu lado.
Percorro o olhar uma última vez pela matéria antes de desligar a
tela para que Liam não veja. Ele não vai levar cinco segundos inteiros
para me chamar de hipócrita por estar lendo uma notícia sobre Delway
depois de tê-lo proibido de sequer mencionar a existência do país ou
qualquer um dos seus habitantes desde que voltamos para cá.
— Brennon e Orson chegam em dois dias — diz, acomodando-se
na cadeira ao meu lado e se servindo de ovos.

Exibo o primeiro sorriso sincero em dias; o primeiro desde que


ouvi faça boa viagem, Alteza.
— Finalmente. Esse lugar precisa de um pouco de luz. Parece um
mausoléu. Está quieto demais.
— O castelo sempre foi quieto, Alteza — aponta, fingindo adoçar
seu café. — Talvez você tenha ficado mal-acostumada à bagunça de
Delw… — Ele se interrompe na metade da palavra, e nós dois sabemos
muito bem o que está fazendo. Liam suspira, pousa as mãos sobre o
colo e prende os olhos inteligentes e sabichões em mim. — Tem certeza
de que não quer conversar sobre isso?
— Não há o que conversar — determino, voltando meu foco à
xícara de café que sequer está mais quente a essa altura. Faço uma
careta quando tomo um gole da bebida amarga e limpo a boca com um
guardanapo de papel. — Fale logo o que quer falar, Liam. Vai derreter
meu crânio se continuar me encarando tanto assim.
— Só quero que tenha certeza sobre o que está fazendo,
Madelaine — diz suave. — Se não está se apressando em conclusões
porque ficou com medo.
— Medo? — pergunto devagar, apoiando os cotovelos na mesa.
— De baixar a guarda e ser traída por alguém que ama de novo.
Solto um riso seco, franzindo o nariz quando ameaça arder.
— Eu baixei a guarda. Aliás, contra seu próprio conselho —
lembro-o, umedecendo o lábio. Parece uma vida atrás, mesmo que
tenham se passado apenas meses. — E eu fui traída de novo.
— Theodore errou, não estou tentando te convencer que não. Mas
você sabe muito bem que as coisas são muito mais complicadas do que
um simples certo e errado. Há nuances demais que você está
escolhendo ignorar.

— Eu estou escolhendo sobreviver, Liam. De novo — corrijo-o. —


Passei os últimos cinco dias tentando me levantar da cama sem que o
mundo inteiro parecesse ser feito de dor e traição, por favor, não acabe
com o pouco progresso que fiz — peço, engolindo o choro que ameaça
se formar, recusando-me a sucumbir a ele de novo.
— Tudo bem — Liam concorda. Estende a mão e pede a minha.
Entrego meus dedos, e ele os aperta. — Quando estiver pronta.
Moldo um “obrigada” com a boca, fingindo um desapego que não
me pertence. O tablet parece gritar ao meu lado, implorando por
atenção. Por só mais um minuto. Só mais uma linha do artigo do
caderno de economia do jornal, destacando alguma iniciativa de
sucesso. Só mais uma espiadinha nas fotose vídeosdo baile de inverno
que inundam as colunas sociais, com imagens demais de nós dois
juntos — dançando, trocando olhares, no beijo escandaloso que
continua sendo mencionado, tantos dias depois. Principalmente, só mais
uma conferida na coluna política que sugere algum problema,
comportando-se como canal de fofocamencionando “fontes internas” e
“erros graves do general”.
Não quero me preocupar, mas já está mais do que estabelecido
que, quando o assunto é Theodore Thompson, não detenho qualquer
poder.
— Vejo que decidiu sair do quarto.
Permito-me uma piscada mais longa antes de fabricar o sorriso
falso que entrego a ele.

— Bom dia, pai — respondo, erguendo a xícarapara ele. — Café?


Elijah sequer tenta disfarçara insatisfaçãonos seus traços quando
apoia as mãos no encosto de uma cadeira vazia.
— O que está fazendo aqui, Madelaine?
— Eu moro aqui, Elijah — devolvo, chamando-o pelo nome talvez
pela primeira vez. É estranho. É estranho também o quão certo parece.
— Não por muito tempo — responde, e tento não me deixar abalar
pelo prazer odioso que parece sentir com isso.
— Certo, sobre isso. — Limpo a boca com o guardanapo de pano
e cruzo as pernas debaixo da mesa. — Mudança de planos. Eu não vou
me casar.
O gosto amargo que sobe na minha boca ao dizer isso é
amenizado pelo horror da sua expressão.
A notícia o pega de surpresa. Os olhos escuros se estreitam,
cheios de repreensão e incredulidade, como se sequer pudesse
considerar um cenário em que isso aconteceria. Ele estava tão certo de
que eu iria adiante com isso. É claro que estava. Até alguns dias atrás
eu estava também.

— Se o seu calendário parou, não é problema meu. Eu te dei seis


meses. Você só tem um sobrando.
— Ou! — começo, erguendo um dedo para pedir um minuto de
paciência enquanto desbloqueio a tela do tablet. Fecho a notícia que
estava lendo, abro uma pasta de arquivos depois de digitar a senha para
liberar o acesso e tomo meu tempo procurando o documento que
preciso. Encontro, abro-o e deslizo o tablet pela mesa até ele. Elijah
pega o aparelho e beberico o café enquanto assisto os olhos se
arregalarem à medida que vai lendo cada frase. Quando olha para mim,
completo: — Alternativamente, eu continuo exatamente onde estou.
— Você está tentando me ameaçar, garota?

Solto um “ah!” suspirado, levando a mão ao peito, teatral.


— Com quem eu poderia ter aprendido algo tão vil? — pergunto
em um sussurro apressado.
— Madelaine… Não seja inocente assim. — cicia, deixando
aquele mesmo sorriso aborrecido permear sua face. Elijah solta o tablet
sobre a mesa com uma pancada seca. — Acha que vai conseguir
alguma coisa além de cinco minutos de atenção com isso?
— O que eu acho é que denúncias de corrupção não garantem
fins de governos, infelizmente, mas você parece estar envolvido com
instituições criminosas o suficiente para que cause um escândalo
grande o bastante para fazer sua vida um pouco mais difícil.Você sabe:
perder aliados, cobertura midiática internacional, o pacote completo. E, é
claro, todos os seus…. “negócios” vão precisar ser ao menos pausados,
se não encerrados em definitivo.

Bebo outro gole do café, alongando o silêncio por segundos o


suficiente para que sua inquietação fique visível.
— A menos que eu te dê o trono, presumo.
Umedeço os lábios e devolvo a xícaraà mesa. Começo o trabalho
minucioso de arrancar pedacinhos minúsculos do croissant que já
esfriou.
— Não — respondo, enfiando uma porção na boca. É por pouco,
mas consigo evitar sorrir para o seu suspiro exasperado. — Você não
vai me entregar o trono voluntariamente, não importa o quanto eu te
ameace. Sabe que não vai conseguir me manipular em continuar com
seus negócios escusos, que vai perder muito poder e dinheiro no
segundo em que eu colocar aquela coroa na cabeça. Só me espanta
que você ache que Brennon vai ser mais fácil de dobrar, quando tudo o
que você fez durante a vida inteira foi ensinar aquele menino a te odiar
.
— O que você quer? — pergunta entredentes.
— Você vai deixar Brennon fora das suas merdas, não vai nem
tentar atrair Orson para o que quer que esteja fazendo.Eu vou continuar
aqui pelo tempo que eu quiser, é claro. — Umedeço os lábios, respiro
fundo. — E você vai Delway em paz.
Elijah demora alguns segundos para processar o pedido. Ao meu
lado, consigo sentir o espanto de Liam também.
— Isso é entre nós dois, pai — insisto.
Ele sorri, afetado.
— Não me diga que se apaixonou pelo generalzinho de merda,
querida. Esperava mais de você.
— Vou precisar discordar. Acho que você não espera nada de
mim, e é esse o seu erro. Temos um acordo?
Ele respira fundo, considerando as opções. Pode apostar suas
fichas e talvez não dê em nada no fim. Elijah não parece disposto a
arriscar.
— Não vou me dar ao trabalho de te pedir para apagar nada do
tablet, imagino que não seja a única cópia — comenta, descontente.
— Certamente não é. — Ergo o queixo com um sorriso faceiro. —
Vai ter que confiar em mim, como eu confiei em você a vida inteira, e
torcer para eu ser um ser humano melhor do que você.
Ele passa a mão pelo cabelo, exasperado. Bate com a palma na
mesa, fazendo as louças tilintarem com o impacto.
— Merda, Madelaine!
— Eu sei. É uma sensação horrível ser passado para trás, por
quem menos se espera, não é? O que me leva a minha única dúvida,
papai: por quê?
Não explico mais que isso, não acho que precise. É a única
pergunta que ele nunca me respondeu. Não quero saber por que tentou
me quicar da linha de sucessão, ou por que fez todas as outras coisas
depois disso. Quero saber o que o trouxe aqui.
Como você virou essa pessoa? Era mesmo só a mamãe a única
coisa que o mantinha na linha? Ou ele sempre foi exatamente assim, e
eu era apenas nova e desatenta demais para notar?
Procuro por um traço de humanidade nas suas feições. Empatia.
Arrependimento. Amor.

Encontro vazio.
— Já disse mais vezes do que posso contar que só estou tentando
te proteger — responde, o lábio inferior formando um bico que diz “uma
pena para você”, as mãos erguidas em um pedido de desculpas leviano.
— Uma mulher não sobrevive muito tempo nessa carreira sem ter que
se corromper muito mais do que eu tive que fazer na minha vida. Você
vai entender quando tiver filhos. Vai me agradecer um dia.
Solto um riso seco, alguma coisa dentro de mim ainda esperando
que balões explodam, caia confete do chão e ele diga que é apenas
uma pegadinha. É claro que isso não acontece.
— Você precisa se tratar. — É tudo o que consigo responder.
Arrasto a cadeira para trás e me levanto. Pego o tablet, aliso o vestido e
lanço um último olhar a ele. — Temos um acordo ou não?
— Vou deixar seus irmãos fora disso — garante. Ergo uma
sobrancelha, e ele revira os olhos. — O seu namoradinho também.
Viro as costas e me afasto, passos firmes e rápidos, levando-me
para o mais longe possível dele. Não sei para onde pretendia ir antes,
mas desvio meu caminho para os jardins. A lufada de ar fresco não me
ajuda, porque está quente e úmido demais aqui, em comparação ao frio
seco que me acostumei a ter em Delway nos últimos meses. Não me
ajuda a conseguir respirar.
— Alteza?
Movo a cabeça em negativa, porque não consigo responder. Custo
a conseguir controlar minha respiração de novo, mas não tanto dessa
vez. Conto de trás para frente, me concentro nas sensações ao meu
redor. Uso cada uma das técnicas aprendidas na terapia nos últimos
meses e me trago de volta ao foco antes que saia completamente de
controle.
Do fundoda minha mente, não consigo matar a voz grave, rouca e
doce sussurrando que vai ficar tudo bem.

Orson está adormecido nas minhas pernas, vencido pelo sono


mesmo que tenha insistido que ficaria acordado porque queria participar
da conversa também. Sequer chegou a hora do jantar ainda, mas ele
teve um dia cheio, recém-chegado em Devondale, e mal durou alguns
minutos. Ficamos, então, Brennon e eu sentados em um dos sofás da
sala de televisão, alheios ao filme qualquer que passa na tela, matando
a saudade de conversas jogadas fora e chocolate quente no meio do
verão.
— Shhh. — Levo o indicador à boca, indicando com a cabeça o
menino adormecido que resmunga com a risada alta que Brennon dá.
Passo a mão livre pelas suas tranças, e ele vem até mim também,
apoiando o rosto no meu ombro.
— Senti sua falta — murmura, e beijo sua testa.
— Eu estou sempre aqui, meu amor. E você vai ter todo o tempo
do mundo para passar comigo nas suas férias, agora que suas aulas
acabaram. Você tem alguns meses antes de decidir o que quer fazer
agora.
Ele estende a mão sobre a minha que está acariciando o cabelo
de Orson.
— Eu quero me alistar — diz, parecendo nervoso.
— Imaginei que fosse querer — concordo, brincando com uma ou
outra trança do seu cabelo. — Preparado para cortar?
Brennon ri e assente. Quando me olha, parece reticente.
— Eu não quero ficar perto do papai. Definitivamente não quero
trabalhar no exército dele. Você acha… que tudo bem eu ir para
Delway?
Ele se apressa a tentar explicar e listar seus motivos para isso.
Tenta me convencer do ótimo programa de treinamento e
especialização, das faculdades, das histórias. Desembesta em um
monólogo agitado, que eu interrompo colocando a mão na sua
bochecha.
— Eu confiaria a minha vida a Theodore — digo, acariciando sua
pele. Foi meu coração que ele partiu, não o meu bom senso. Theo é o
melhor no que faz,e, se é para eu ver meu irmãozinho arriscando a vida
assim, que seja treinado pelo melhor. — Você vai ser bem cuidado.
Ele sorri, mas logo depois faz uma careta.
— Se eles me aceitarem — choraminga.
— Por que não aceitariam? — pergunto. Brennon arregala os
olhos.
— Ele não te contou? — Nego com a cabeça. — O general me
flagrou com um dos soldados dele… Você sabe.
Coça o pescoço, a vergonha preenchendo cada poro do seu rosto.
Se sua pele não fossetão escura, estaria recoberta em vermelho, posso
apostar.

— Você não fez isso.


Ele assente apressado, escondendo o rosto atrás das mãos.
— Tudo bem, a única esperança dessa famíliade ter um único
membro que respeite os valores e tradições da realeza é Orson —
brinco, fazendocócegas como posso em Brennon. Ele ri, e meu coração
se enche um pouco. O vazio está aqui. Não importa o quanto eu tente
não pensar nele, está aqui. Mas ver o sorriso nos lábios do meu irmão,
apesar de tudo, ameniza a dor.
Um tumulto chama a minha atenção, vindo de algum lugar em
outro cômodo. Troco um olhar interrogativo com Brennon, que dá de
ombros. Não preciso me levantar para ir descobrir o que está
acontecendo. Liam, acompanhado do general e mais meia dúzia de
soldados, invade a sala com uma expressão tão preocupada que quase
pulo de pé, todos os meus alertas ativados ao mesmo tempo.

— O que aconteceu? — pergunto, movendo Orson do meu colo


com cuidado para que eu possa me aproximar dele.
— Alteza. Altezas. — Liam cumprimenta, apressado e parecendo
nervoso. Foca em mim. — Precisamos tirar vocês daqui.
— Por quê?
— Provavelmente não é nada grave, apenas medidas de
segurança, Alteza — general responde.
Volto meus olhos a Liam, valendo-me dos anos de proximidade
para entender a sua urgência. Ele assente de leve, e eu me viro para
Brennon.
— Vá com eles, me mantenha informada e cuide do seu irmão —
instruo. Ele assente apressado e, com alguma dificuldade,acorda Orson
e segue alguns dos soldados.
— Você vai com eles — Liam avisa.
— Não sem antes saber o que está acontecendo — exijo,
voltando-me ao general.
— Alteza, por favor — implora.
— O que está acontecendo? — insisto, e ele sabe que é uma
batalha perdida.
Indica para que Albert me atualize do que quer que tenha tomado
conta da paz deste lugar, e vejo de canto de olho quando Liam puxa o
celular do bolso e começa a digitar alguma coisa apressado.

— O que está fazendo? — pergunto.


Ele não me olha quando responde.
— Garantindo que você não se machuque.
capítulo vinte e três

— Você precisa ir, Alteza. — A voz de Liam é firme e urgente,


como se pudesse ler minha mente e soubesse que não existe a menor
chance de isso acontecer. Talvez ele possa, depois de tantos anos.
Trinco os dentes, tentando controlar o bolo que se formana minha
garganta enquanto encaro a televisão.
— Maddy, por favor — diz em um apelo, porque não concordei
com o que disse, e ele sabe o que isso significa.
— Por favor, chame o general — peço, incapaz de tirar os olhos
da tela.
Albert desapareceu depois de levar meus irmãos, e eu preciso de
notícias. Explicações.Alguma coisa.
Ele concorda e me deixa sozinha.
Abraço meu próprio corpo e assisto em silêncio à cobertura ao
vivo do jornalista.
Multidões em um protesto violento perto demais do castelo. As
tropas tentam refrearo grupo, mas parece mais uma questão de quando
e não se se vão conseguir passar pelos portões.
Quero gritar com alguém. Perguntar de quem foi essa ideia
estúpida. Perguntar quem é o responsável pelo caos que estou
assistindo. Perguntar por que estou sabendo pela televisão que o meu
país acordou com esse caos. Mas sei a resposta para tudo isso.
Merda, Elijah.
Impotência.
Tudo o que consigo sentir é impotência.
— Vossa Alteza.

Olho por cima do ombro, indicando com a cabeça para que ele se
aproxime. O homem na casa dos seus cinquenta anos tem a expressão
dura ao vir na minha direção. Noto a insatisfaçãoem seus olhos quando
os lança brevemente à televisão antes de voltá-los a mim. Ele para ao
meu lado como instruo e assiste comigo à reportagem por alguns
minutos.
— Onde estão meus irmãos? — pergunto.
— Vossas Altezas foram levados a um lugar seguro — diz, a voz
nervosa e urgente, sem me dar informações extras. — O rei está com
eles. Alteza, por favor — tenta mais uma vez. — Eles estão perto
demais do castelo, o protocolo de segurança…
— Quais as suas ordens? — interrompo, voltando os olhos para a
tela.
— Eliminar a ameaça — diz, a voz recoberta de insatisfação e
julgamento.
Rio seca.
— Certo. Suas ordens mudaram — aviso, soltando os braços e
virando-me de frente para ele.
O general me olha com cautela.

— Alteza, eu não…
— Recebe ordens de mim, eu sei — aviso displicente. — O país
acordou em guerra. Há conflitos espalhados por todos os lugares, e nós
dois sabemos que não foi da noite para o dia. Essas pessoas estão
abandonadas à própria sorte há anos, era questão de tempo. É claro
que estão marchando em direção ao castelo. É claro que querem a
cabeça do rei. De quem mais é a culpa se não dele?
— Alteza, não é essa a questão hoje — insiste. — Está se
colocando em risco ficando aqui. Sua vida é valiosa demais e…

— General — interrompo. — O capitão é o último a abandonar o


navio em chamas.
— Com todo o respeito, Alteza, mas isso não é um navio.
— Não. É um país em chamas. Eu não vou a lugar nenhum. —
Albert abre a boca para protestar, mas ergo a mão. — Minha decisão é
final. Esse assunto está encerrado. Fui clara?
— Sim, Alteza — responde, contrariado.

— Como eu disse antes, suas ordens mudaram. Na ausência do


meu pai, você responde a mim. A menos que queira que eu vá
pessoalmente tentar acalmar os protestantes.
Seus olhos se arregalam, e ele olha para Liam, parado a poucos
passos de distância, como se buscasse confirmaçãode que eu seria tão
louca assim. Liam apenas suspira, dando de ombros.
O general assente, por fim.
— Deus me ajude. Quais são suas ordens, Alteza?

Sinto os olhos nervosos dos soldados que monitoram as câmeras


espalhadas pelas ruas do país sobre mim desde que cheguei aqui há
algumas horas, mas os ignoro. Percorro os olhos pelos monitores
espalhados pela parede, acompanhando o andamento da operação
organizada às pressas pelas imagens. Poucas horas depois da minha
conversa com Albert, ele repassou as ordens aos seus subordinados e
espalhou as tropas pelo país.
Conter e desescalar. Levar preso quem precisar, dispersar
multidões. Usar o mínimo de violência possível. Armas letais em último
caso.

Abraço meu corpo, tentando manter o nervosismo dentro de mim.


Vasculho a mente em busca de toda a educação e treinamento que já
tive, mas é diferente na vida real. Cenários hipotéticos na faculdade não
te preparam para assistir em uma tela enquanto um militar acerta um
protestante com mais brutalidade do que eu gostaria.
— General.
— Estou fazendo o que posso, Alteza — diz, distribuindo mais
meia dúzia de ordens aos seus comandantes.
Estou em falta aqui. Há um limite no que posso fazer, e pego-me
recebendo olhares cheios de expectativas de pessoas esperando
ordens, mas minha experiência militar é limitada a coisas que estudei.
Hesito algumas vezes, com medo de tomar a decisão errada e piorar as
coisas.
— Alteza. — Viro para Liam, parado atrás de mim. — Você tem
visita.
— Como no inferno alguém conseguiu chegar a este castelo
agora? — pergunto, sem desviar o olhar das câmeras.
— É Theodore — insiste.
Congelo no lugar. Não preciso disso agora. Não posso lidar com
isso agora, não posso lidar com ele agora. Passei a última semana
navegando sem rumo em águas confusas, dividida entre agradecer o
espaço que me dá e ficar furiosa por não ter vindo atrás de mim.
Confusa entre acreditar que foi tudo mentira e me agarrar ao que meu
coração me diz.
Não estou pronta para vê-lo, ainda dói demais. Não serei racional
o suficiente, não posso fazer isso, não agora.

— Não posso recebê-lo — murmuro. Liam não se move, e talvez


seja a primeira vez que não acata uma instrução minha. — Liam?
— Fui eu que o chamei, Alteza — confessa.
— Você… o quê? — pergunto, desestabilizada.
Ele não responde, não se dá ao trabalho de tentar argumentar
comigo. Apenas espera. Assinto por fim. Liam volta depois de alguns
instantes, acompanhado dele. Mantenho os olhos presos nas imagens,
dessa vez porque não me atrevo a olhar na sua direção. Não adianta.
Sinto sua presença às minhas costas sem que precise me virar.
Magnética, envolvente. Toma tudo de mim para fingir indiferença e,
mesmo enquanto tento, sei que estou falhando.
Não se surpreendo quando sua mão pousa nas minhas costas,
mas meu corpo se sobressalta ainda assim com a pressão dos seus
dedos. Sinto sua boca perto da minha orelha por trás e sei que sua
presença inesperada está chamando ainda mais atenção do que a
minha.
— Você está bem? — pergunta, preocupado. O tom apreensivo
me desestabiliza. Faço que sim em silêncio. — Do que você precisa?
— Eu não sei o que fazer — admito baixinho para que só ele ouça.
A situação de Devondale está pior do que antecipei, tenho certeza.
Vi, nos últimos dez anos, o país deixar de ser um exemplo internacional
de prosperidade e entrar em um declínioque nunca parou. Ainda assim,
me convenci de que não estava tão ruim assim. Está. Não vou conseguir
consertar isso hoje, não vou conseguir impedir que muita gente se
machuque.
A onda de ansiedade me invade, agora que a reconheço. Meu
corpo tremula, e me concentro nos círculos lentos que Theodore traça
na minha cintura.

— Respira, amor — sussurra no meu ouvido. Odeio o quão


imediatamente meu corpo reage ao murmúrio doce. — Eu estou aqui.
Você está fazendo um ótimo trabalho.
— Sem condescendências, Theo — peço. Há uma leve pressão
dos seus dedos em mim, e sei que é pelo uso do seu nome assim,
despreocupada. Não tenho forças para voltar atrás, nem para me forçar
a antagonizá-lo.
Tudo imediatamente parece mais fácil só por ele ter chegado.
— Não estou sendo condescendente, Alteza. Liam me atualizou
de tudo no caminho, e estou acompanhando seus esforços nas últimas
horas. Você está fazendo um ótimo trabalho — insiste. — Mas essa é a
minha área de especialidade. Eu posso ajudar. Você só precisa…
Confiar em mim.
É o que está prestes a sair da sua boca, mas nunca sai. Ele não
se atreve.
Mas eu confio. Se não como homem, como general. Merda, eu
confio.
— Você tem carta branca — concordo e sinto sua testa pousada
no meu ombro.
— Obrigado.
Ele beija minha têmpora e desliza a mão para longe da minha
cintura. Afasta-se alguns passos antes que o chame de novo.
— Theo? — Levo mais alguns segundos para tomar coragem de
olhá-lo. Quando o faço, perco o ar. Não só porque ele parece exausto,
não só porque as olheiras escuras se destacam na pele clara, não só
pela barba desalinhada. Mas porque ele me olha como se estivesse
diante do seu mundo inteiro. — Por favor, não brinque com meu país
também.
Sua piscada falha, vejo o movimento do pomo de Adão quando
engole em seco. Volta a mim, puxa meu rosto e deposita um beijo firme
na minha testa.
— Nunca — promete antes de se afastar de vez.
Ele tira as mãos de mim e toma um passo à frente, braços
cruzados na frente do peito, olhos rápidos por todos os cantos. Acontece
em um segundo. Sua postura muda, e sou capturada pelo poder que
exala do seu corpo, como se um interruptor tivesse sido ligado.
Theodore se aproxima das telas, troca meia dúzia de palavras
com um soldado. Ele é rápido. Quaisquer que sejam suas dúvidas, são
sanadas em poucos minutos. O que quer que veja, ativa todos os seus
gatilhos, porque começa a agir de imediato.
Quando me olha, há um pedido de permissão para continuar ali.
Há também uma promessa de que vai cuidar de tudo.
Concedo, entregando tudo a ele mais uma vez.
Não sei que horas são, mas a noite se foi e chegou novamente,
com poucas pausas para comer e nenhuma para dormir. O dia seguinte
já está no fim quando recebemos a confirmação de que tudo está sob
controle, por ora, ao menos nas proximidades do castelo. Ainda assim,
são necessárias muito mais horas de trabalho. Serão dias, talvez
semanas, para acalmar todos os ânimos.
Minha cabeça dói. Estou com fome. Preciso de um banho. Estou
exausta.

Acima de tudo, carrego um sentimento dúbio. Odeio o que


aconteceu hoje. Odeio que, em algum lugar, alguém se machucou.
Odeio que qualquer coisa do tipo aconteça aqui, quando tenho em mãos
todos os recursos para fazer com que essa não seja a realidade. Mas
nada jamais chegou perto da satisfação que senti hoje por finalmente
poder fazer alguma coisa. Um exército inteiro e dois generais estavam
aguardando ordens minhas e, ao invés de paralisada pela
responsabilidade, foi como se eu tivesse nascido sabendo o que fazer
.
Mas não poderia tê-lo feito sozinha, sei disso.
— Por favor, mantenha meus irmãos e o rei onde quer que
estejam por mais alguns dias — peço a Albert. — Até termos certeza de
que não vai acontecer de novo.
— É claro, Alteza.
— Descanse um pouco, general. Obrigada por tudo.
Ele faz uma reverência para mim e outra para Theo, saindo logo
depois. Troco um olhar com Liam, silenciosamente avisando que
conversaremos depois sobre ter agido pelas minhas costas assim. Ele
também se despede e sai e, simples assim, estamos sozinhos.
O som da porta se fechando parece ecoar pelo escritório. Não
tenho escolha além de olhar para ele. Quando o faço,não tenho escolha
a não ser me aproximar. Recostado na mesa, seu rosto é uma máscara
rígida, inflexível.Theodore aperta os próprios braços cruzados, o peito
subindo e descendo com violência, como se estivesse se esforçando
para não desabar.
— Obrigada pela ajuda. Não sei se as coitas teriam se resolvido
tão facilmente assim sem você aqui. Não sei se eu teria ficado tão calma
sem você aqui — digo a última parte baixo. Sequer tenho certeza de que
me escuta, não até sentir seus braços ao meu redor.
Travo por um instante. Congelo no lugar, sem estar pronta para o
toque inesperado. Desesperado. Urgente. Um segundo apenas, em que
tudo está suspenso. Um segundo, e meu coração volta a bater
compassado no peito.
— Merda, Madelaine — rosna, afundando o rosto no meu
pescoço. Apoio a palma sobre seu peito para sentir o descompasso
violento que mora ali. Faço isso porque quero senti-lo. — Não faz isso.
Você não tem o direito de fazer isso.
Ele me puxa, me tira do chão. Sem cuidado ou qualquer apreço
pelo que quer que esteja em cima da mesa, empurra o que precisa para
o lado e me coloca sentada na beira do tampo de madeira, as mãos
segurando meu rosto. Pousa a testa na minha, a respiração irregular na
minha pele.
— Você é a porra do meu pior pesadelo encarnado — grunhe,
escorregando os dedos ao meu cabelo, cravando-os ali. — Tem alguma
ideia do quão perto estava de dar uma merda gigantesca? O que você
acha que ia acontecer se conseguissem cruzar esses portões? Você
não tem o direito de se colocar em perigo desse jeito.
Quero gritar. Dizer que ele não tem o direito de falarsobre direitos.
Que sei me defender, que não vou recusar das minhas obrigações. Mas
nada, absolutamente nada sai quando sinto a umidade de uma lágrima
tocar a minha bochecha.
— Eu não posso te perder assim — ele sussurra. — Foda-se se
nunca mais quer me ver, Maddy. Se não confia em mim, se… — Ele
engole duro. — Mas eu preciso saber que você está segura.
— Eu estou segura — garanto, começando a perder qualquer
disposição para ficar com raiva dele.
Quem estou querendo enganar? Não estou com raiva. Raiva seria
mais fácil de manejar. É com a mágoa que nunca aprendi a lidar.
— Esse é o problema, Alteza — sussurra, o nariz arrastando no
meu. — Não confio sua segurança a ninguém que não eu.
— Eu sei me defendersozinha, você sabe — sussurro de volta, no
mesmo tom de desalento.
Theodore me puxa pela cintura e encaixa-se entre as minhas
pernas.
— Você sabe. Mas o que eu faço com essa necessidade de
passar cada segundo do meu dia garantindo que você está bem? —
pergunta, subindo o polegar ao meu rosto.
— Theo…
— A esperança do seu pai foi que eu te fizessedesistir do trono —
diz, e a tensão volta ao meu corpo de imediato. Retraio,
inconscientemente tentando escapar do seu abraço. Ele não me solta.
— Escuta. Você sabe que não me dei ao trabalho. Seria inútil.
— Você teria tentado se achasse que conseguiria.
— Eu nunca menti para você sobre isso, Maddy — murmura ao
meu ouvido. — Sempre deixei claro que faria o que fosse para proteger
quem eu amo. A minha única prioridade sempre foi meus irmãos, até…
— Até?
— Até você.
Dedos firmesapertam a parte de trás do meu pescoço, um suspiro
pesado acerta minha têmpora.
— Eu nunca entendi a disposição dos meus irmãos de colocarem
a vida muito estável e segura deles em risco pelas minhas cunhadas.
Entendo o conceito de amor, entendo que, em teoria, você encontra a
sua metade e o mundo começa a fazer sentido, mas… Eu nunca entendi
como alguém seria capaz de ignorar tudo pelo que fomos criados, para
o que fomos criados, todas as obrigações, tradições e
responsabilidades, apenas por essa outra pessoa que acabou de
chegar.
Theo resvala os lábios pela minha têmpora.
— Você acabou de chegar, Madelaine. Não devia deter tanto
poder assim sobre mim. Não devia me fazer querer jogar tudo para o
alto e te seguir até o fim do mundo se for preciso.
Deslizo o rosto sobre o seu, tocando seu nariz com o meu.
Encaixo as mãos em volta das suas costelas, puxo-o pela farda para
mim. Por entre os cílios, encaro o universo inteiro nas íris azuis.
— Nunca foi mentira. Nada nunca foi mentira, Maddy
.
Caminho voluntariamente até a beira do precipício que me
quebrou uma vez.
— Eu não te usei, nem por um mísero segundo.
As feridas ainda estão abertas, doloridas. Recentes. Eu devia fugir
daqui e voltar para onde é seguro, para onde não vou me machucar.
— Acredita em mim.
Com os lábios pairando sobre os seus, eu pulo.
— Acredito.
capítulo vinte e quatro

Lar.

Enquanto beijo Madelaine, sinto como se estivesse voltando para


casa.
É diferente. Tem um gosto de calmaria que não experimentei antes
com ela. Não tem o desespero do proibido, não tem a disputa por
controle e poder. Se o mundo inteiro deixar de existir, sobraremos eu,
ela e a promessa de recomeço.
Afundo os dedos na sua nuca, trazendo-a ainda mais para mim.
Tanto quanto é possível, desafiando qualquer lei da físicaque tente
provar o contrário. Recebo dela uma coisa que achei que estivesse
perdida para sempre: entrega. Madelaine se entrega a mim com
abandono, sem ressalvas, sem qualquer autopreservação. Eu a seguro,
carregando com orgulho do peso e da responsabilidade de deter seu
coração nas minhas mãos.
— Você está me deixando sem ar, Alteza — reclama com um
sorriso no rosto, os lábios grossos inchados pelos beijos. O pronome de
tratamento sai em um sussurro suave, como um apelido carinhoso.
— Uma pena, porque eu estou só começando — respondo,
descendo a mão aos seus ombros para abaixar as alças do vestido.
Plano esse que nunca se cumpre, porque uma batida na porta nos
interrompe. Ajudo-a a ficar de pé, deslizando os dedos por onde posso
do seu corpo no processo, sem disposição alguma para deixá-la fora do
meu alcance.
Liam entra depois de autorizado, e uma olhada alternada entre
nós dois é o suficiente para que sorria em entendimento. Aponta com o
celular que tem em mãos para Maddy.
— Seu irmão, Alteza — diz, e Madelaine cruza a sala em duas
passadas longas antes de tomar o aparelho para si.

Ela começa a ligação aqui, mas desaparece corredor afora quase


imediatamente.
— Está todo mundo bem? — pergunto a Liam, que assente.
— Por ora, sim. Não quero imaginar o pandemônio que vai se
formar quando o rei retornar.
Uno as sobrancelhas em uma interrogativa silenciosa, e ele
explica brevemente sobre Madelaine ter ido contra as ordens dadas pelo
pai e como toda essa operação foi de encontro ao que Elijah havia
estabelecido. Um desafio claro à sua autoridade que Elijah não vai
aceitar com um sorriso no rosto.
— Espere um minuto — interrompo-o. — Madelaine não ficouaqui
só porque queria acompanhar tudo de perto?
Ele nega com a cabeça.
— Ela ficou para convencer o general a fazer o exato oposto do
que o rei mandou. De novo — adiciona com uma repreensão em forma
de sorriso. — Da primeira vez, foi uma coisa local e pequena, com a
certeza de que Elijah não notaria, porque não é como se ele prestasse
atenção em alguma coisa que acontece por aqui. E depois ela continuou
com essas pequenas coisinhas enquanto estava em Delway, mas…
Dessa vez, ele vai saber.
Ele está preocupado com a reação do rei, é claro que está.
Qualquer líder ficaria possesso por ser desobedecido e desrespeitado
assim, mas não consigo focar nisso, não quando tudo o que quer sair da
minha boca é:
— O general, os comandantes e todos os soldados que estavam
aqui hoje estavam cientes de que estavam desobedecendo a ordens do
rei? — pergunto, mastigando cada sílaba.

Liam entende. Claro que entende. Pode ter sido designado como
segurança particular da princesa, mas foi treinado como um soldado. Ele
sabe as punições para uma insubordinação dessa proporção.
— Preciso fazer uma ligação — digo, pedindo licença, discando o
número de Richard.
Assim que ele atende, despejo o meu plano.

Passo muito tempo na ligação com Richard. Em algum momento,


vira uma conferência com Brian também. Stephen, sem ser convidado,
invade a discussão. É bom tê-lo aqui porque, depois de toda a logística
decidida e de Brian ser dispensado, torna-se uma conversa em família.
Uma que é muito importante para mim agora.
Vendo o rosto dos meus irmãos na tela, recosto na parede de um
corredor vazio do castelo.
— Fuieu que comeceiessa história
toda de casar e começar o
apocalipsenessa família, é claroque você tem a minha bênção! —
Stephen ri com um olhar carinhoso sobre mim.

— Eu não estava pedindo sua bênção para me casar com a minha


noiva, Steph — asseguro, mas mimico o repuxar de lábios que deveria
ser um abraço se eles não estivessem do outro lado do mundo.
— Ex-noiva.Ela te deu um chute na bunda. Não acreditoque
Madelainete aceitoude volta . Acheique elafossemaisinteligente
que
isso— ele implica, e eu mostro o dedo do meio.

— Crianças…— Richard repreende, como sempre faz conosco


antes que comecemos a rolar na grama. — Tem certezade que é isso
que você quer? Não vaiser fácil— pergunta, prendendo sua atenção
em mim.
— Vocês dois me ensinaram que quando vale a pena, não precisa
ser fácil. Nós damos um jeito.
— Sempre damos— Steph concorda.
— Juntos— Richard adiciona. Ele suspira. — Muitobem. Tem a
minha autorização, general.
— Obrigado, Majestade — agradeço, tentando como posso não rir
do Stephen revirando os olhos para toda a formalidade.
Richard vê pela tela do celular que dividem, porque seus lábios
também franzem em um sorriso reprimido.
— Estamos te esperando em casa, irmão.
— Nossos pais vão surtar
.

Partilhamos uma risada, um momento de descontração. Um


momento de apoio em que palavra nenhuma é necessária. Não vai ser
fácil,mas eu sempre vou ter os dois. E no fim,isso é tudo o que importa.
Desligo o chuveiro, aliviado. Fiquei mais tempo debaixo da água
quente do que planejei, deleitando-me de um muito necessário banho.
Amontoo a farda em um canto, programo o despertador no celular que
deixei na pia, um lembrete de que tenho uma reunião com Albert em
algumas horas, mesmo que tudo o que eu queira seja dormir.
Preferencialmente, com ela em meus braços.
Saio do banheiro, toalha na mão, secando os cabelos, olhos
focados na tela do celular.
— Merda, Maddy — digo, quase derrubando o aparelho no chão
pelo susto, por não esperar vê-la aqui, deitada na cama do quarto de
decoração neutra em que me enfiei, barriga para cima, livro aberto na
altura dos olhos.
— Maya Angelou? — pergunta, mostrando-me a capa do livro que
sequestrou de cima da pequena mochila que foi tudo o que lembrei de
trazer comigo.
— É para você — explico, e ela fecha o livro, olhando-me de
cabeça para baixo. A forma como sua boca se retorce em malícia é o
que me faz lembrar que estou sem roupa. — Não me olha assim, filhote
de demônio.

Madelaine gira na cama, parando de barriga para baixo, roubando


o que a resta da visão da minha virilha antes que eu me cubra.
— Para mim? — pergunta quando desiste de tentar fazer a toalha
cair com a força do pensamento, mostrando a capa de Mom & Me &
Mom.
— Capa dura — implico, mas ela não ri. Alisa a capa com cuidado,
olhos inquisitivos sobre mim. — Eu te ouvi conversando com a Heather
sobre não ter lido o último volume da autobiografia da sua escritora
preferida quando vocês estavam falando dos tais livros de CEO que
enlouquecem o Steph.
A explicação não a satisfaz, porque a confusão no seu semblante
não diminui.

— Eu nunca te disse qual a minha escritora preferida. — Com uma


sobrancelha erguida, adiciona: — O quão detalhado foi aquele dossiê,
general?
— Muito — provoco. — Você tem livros dela espalhados por todos
os cantos no seu quarto.
— Você esteve no meu quarto uma vez por… dois minutos? —
constata em choque. Dou de ombros, mas, ao invés de me vangloriar do
superpoder que pode ser minha capacidade de observação, pego-me
consciente demais pela primeira vez. — Vem aqui — pede e me segura
pelo quadril quando a alcanço. Apoia o queixo sobre a toalha, deixa um
único beijo singelo bem abaixo do meu umbigo. — Obrigada. É
adorável.
— Adorável? — Testo a palavra com desconfiança.

— Encantador — adiciona, os olhos cintilando com o brilho


travesso que amo.
— Você ficaassustadora quando é fofadesse jeito. Será que pode
voltar a arrombar portas e treinar tiro ao alvo? — sugiro e recebo uma
mordida no abdome, que deveria ser em reprimenda, eu sei, mas tem o
efeito contrário.
— Na verdade… — Suspira, afastando-se de mim, arrastando-se
para o meio do colchão. — Nós precisamos conversar. De princesa-
desesperada para príncipe-general.
Seu semblante cai, sombrio e preocupado, mesmo com a tentativa
de piada. Assinto, pedindo um minuto. Sentindo seus olhos queimando
sobre as minhas costas, visto uma calça de moletom e puxo uma
cadeira, colocando-a de costas para a cama, as pernas abertas,
antebraços apoiados no encosto.
— O quão ruim está tudo? — ela pergunta.

— Ruim — respondo, sem embelezar o que não pode ser


embelezado. — Nós estamos falando de operações diárias de
pacificação, treinamento apropriado para a polícia local, e
provavelmente muitas outras coisas que estão fora do meu limite de
conhecimento porque não tenho a menor ideia de como governar um
país. Não são semanas de trabalho, são anos.
— Anos de trabalho que meu pai não vai colocar em prática.
— Anos de trabalho que seu pai não vai colocar em prática —
concordo.
Toma tudo de mim não ir até ela, mas concedo o espaço que uma
conversa profissional exige. Madelaine encara algum ponto atrás de
mim por minutos a fio, em um completo silêncio que grita.
Quando me olha, os olhos estão marejados.
— Eu confio em você — sussurra, um sorriso pequenino nos
lábios. — Com a minha vida e com o meu coração.
É uma frase simples, uma constatação óbvia do que seus gestos
já mostram, mas significa tudo. É cansativo não poder confiar em
ninguém. É cansativo olhar por cima do ombro a todo momento, apenas
por garantia. É cansativo viver pensando se não há segundas intenções
em cada gesto. Vindo dela, que descobriu dentro da própria casa que
precisa estar alerta a todos os momentos, essas quatro palavras têm
ainda mais poder.
— Talvez seja uma coisa estúpida de se fazer, mas confio em
você.
— Não é estúpido — garanto, levantando-me e indo até ela. — Eu
prometo que não é.

Maddy repousa o rosto na minha mão, beija a palma. Solta um riso


perturbado.
— Eu me apaixonei por você, Alteza — admite baixo. Meu coração
dá um salto no peito, um sorriso bobo cresce no meu rosto.
— O suficiente para aceitar se casar comigo de verdade? —
pergunto, arrastando o polegar pela ponte do seu nariz.
Sorrindo, ela fecha os olhos, e uma única lágrima escorre.
— O suficiente para me casar com você de verdade.
— Mas?
— Mas eu não posso — sussurra, dolorida.
Beija meus dedos, mordisca o mindinho e afasta o rosto da minha
carícia.

— Nunca foi sobre poder, Theo. Sempre foi sobre fazer o que
precisa ser feito. E se a única forma que eu tenho de fazer isso é usar
todo o meu tempo livre para fazer um dia de reinado do meu pai mais
infernal do que o outro até que ele faça alguma coisa por essas
pessoas, então é isso que vou fazer. Não posso ir com você.
Seguro seu queixo e trago sua boca para mim.
— Sorte a sua que não precisa ir a lugar nenhum.
capítulo vinte e cinco

— Não.

Não importa quantas vezes ou de quantas formas ele repita essa


proposta insana, a única coisa que sai da minha boca é:
— Não.
Theodore está sentado na beira do colchão, braços cruzados e
determinação no olhar. Eu, por outro lado, ando de um canto ao outro do
quarto, porque me manter concentrada nas minhas passadas é a única
forma de me impedir de dizer sim sem pensar nas consequências.
— Nós podemos ter isso resolvido amanhã no fim do dia.

— Não!
Esfrego o rosto, arrastando os dedos com força pela pele. Isso é
privação de sono. É a única explicação possível.
— Você sabe que é a melhor solução.
— Você está se ouvindo?! — exaspero, derrubando as mãos em
desalento. — Me diz que isso é uma piada de mau gosto.
— Não é uma piada de mau gosto, Alteza — nega, levantando-se
devagar.
Dou um passo para trás e estendo um dedo em riste.
— Nem mais um passo. Você enlouqueceu?
Theo segura meu dedo e o leva à boca, mordiscando a ponta.

— Você sabe que é uma boa ideia — insiste, e eu solto um


gemido angustiado. Ele segura meu rosto e força meu foco ao seu.
Qualquer leveza que um dia existiu aqui dá lugar a uma seriedade
incontestável. É uma transição rápida e fácil de identificar: é o general
falando. — É uma boa ideia. Você sabe que é.
Jogo os olhos para o teto, balançando a cabeça em negativa.

— Cada detalhe desse plano é pior do que o anterior, Theodore.


— Theo — corrige, arrastando a curva entre o polegar e o
indicador pela minha garganta.
— Theodore — insisto e recebo uma mordida no queixo. — Se
você precisa tentar me distrair para me convencer de que não perdeu
completamente o juízo…
— Está funcionando? — interrompe, subindo a mão pela minha
coxa por cima da calça.
— Funcionaria, se você não fosse tão ruim nisso — devolvo e,
antes que eu possa respirar outra vez, a parede está nas minhas costas,
a boca dele no meu ouvido.
— Senti falta disso — sussurra. — Senti falta de nós dois.
Theo guia meus braços para cima, prende minhas mãos sobre a
cabeça.
— É assim que você conduz todas as suas negociações? —
gemo, abrindo espaço para a sua boca na minha garganta. Dentes,
língua e lábios traçam o caminho até o meu queixo.

O beijo que me dá é lento, longo e doce. Serve para acalmar


minha respiração acelerada, pele arrepiada, corpo desejoso.
— Usurpar o trono, Theo? — pergunto na sua boca quando me
solta com uma mordida. — Não sei como as coisas funcionam de onde
você vem, mas as punições para crimes contra a coroa aqui nunca são
frívolas.
Ele solta minhas mãos, apoia as suas no meu quadril.
— E quem vai te punir? O exército que é leal a você?
Franzo o cenho, e ele arrasta o nariz no meu.
— O exército serve ao país, não aos meus interesses.
— As ordens do seu pai eram mais rápidas de serem acatadas,
mas eles estão aqui, agora, nesse momento, no meio da noite,
trabalhando dobrado para obedecer a você, mesmo que não tenha
nenhuma autoridade para isso. — Ele beija a linha da minha mandíbula.
— A lealdade deles é sua, Alteza. Eu te garanto que se você se sentar
naquele trono e se recusar a se levantar, nenhum deles vai mover um
único músculo para te tirar de lá à força.
— Simples assim? — Desconfio com uma risada.
— Não tem nada de simples nisso — adverte. — E não tem volta.
Talvez seu pai tenha aliados dispostos a lutar por ele, talvez ele resista.
Existem muitos cenários em que tudo é muito complicado. E eu vou
estar ao seu lado em cada um deles.
Theo para de me beijar e afasta-seo suficientepara que eu possa
visualizar seu rosto por inteiro.
— Amor e poder, Maddy — diz, sério.
Estende a mão para mim, a palma virada para cima. É um salto no
escuro, e tudo o que tenho é a confiança cega de que ele irá me
segurar. Apoio os dedos nos seus, assentindo.
— Vamos ao trabalho.
Pergunto-me em que faculdade ensinam “Fundamentos básicos
para planejar a queda de um rei em três dias”. Theodore ganharia
pontos extras no currículo por fazer isso enquanto ajuda Albert a
gerenciar a crise de segurança no país.
Três dias.

Três dias em que não tenho um único segundo de descanso


enquanto tento cobrir todas as possíveis bases, analisando todos os
possíveis caminhos tortuosos que Elijah pode tomar. Três dias em que
tento ignorar a sensação de culpa de estar armando um golpe de estado
contra o meu próprio pai. Três dias que chegam e vão embora rápido
demais e, quando menos espero, Liam me avisa que ele chegou.
— Meus irmãos? — pergunto, olhando-o pelo espelho.
— Longe daqui — garante com um aceno encorajador. — Você
está bem, Alteza?
— Acho que vou vomitar — digo. Viro-me para ele e respiro fundo
seguindo suas instruções enquanto ele esfrega meus braços. — Você
não interferiu — comento, ao fim de um inspira-expiralongo. — Hora
nenhuma. Não teve um mísero “com todo respeito, Alteza” durante tudo
isso.
Meu amigo querido sorri carinhosamente, oferecendo-me o braço.
— Com todo respeito, Alteza — começa, arrancando-me uma
risada baixa —, já não era sem tempo de tomar o que te pertence.
Lanço os olhos aos dele, encontrando encorajamento e apoio.
Devolvo o afagoterno em minha mão enquanto sou guiada ao lugar que
conheço tão bem. Poderia fazer o caminho até a sala do trono de olhos
vendados.
— Estou orgulhoso — ele diz por fim. — A mulher inocente e
teimosa de alguns meses atrás jamais estaria aqui.
Não, não estaria. Em uma vida pré-Theodore, eu ainda estaria
esperando pelo melhor, alimentando a esperança vazia de final feliz em
família.

— Pronta, amor?
Levo a mão ao ponto de comunicação na minha orelha com um
sorriso cúmplice no rosto.
— Quando você estiver.
Ouço sua confirmação do outro lado e estendo a mão para abrir a
porta.

— Ei — chamo sua atenção outra vez. — Eu te amo, soldado.


A risada descrente do outro lado me faz respirar melhor.
— Vamos acabar logo com essa história
para eu te fazerrepetir
isso gemendo meu nome, coisinha infernal.
Indico com a cabeça, e Liam abre a porta.

Em um salão imenso e aparentemente vazio, encontro apenas o


meu pai, deixado aqui por seus guardas, trazido da residência segura
onde meus irmãos ainda estão.
Impaciente e irritado como sempre.
Tomo meu tempo absorvendo seus detalhes, preparando-me para
a possibilidade de ser a última vez que o vejo. Reconheço traços meus
no seu rosto — do nariz largo aos olhos escuros. Reconheço traços
meus nos seus gestos; aprendo muitos com ele, afinal.
Em uma promessa a mim mesma, decido jamais me permitir me
tornar quem ele é.
— A sua impertinência está ultrapassando todos os limites, garota!
— grita assim que me vê. — Quem você acha que é para mudar as
minhasordens sobre como lidar com o meu país?
Solto-me do braço de Liam com um agradecimento silencioso.
Seguro a barra do vestido longo, caminhando sem pressa na sua
direção e além dele.

Ouço sua risada cheia de menosprezo quando subo o primeiro


degrau.
Meu nome é chamado quando piso no terceiro.
Tenho certeza de estar olhando nos seus olhos quando solto a
saia e me sento no trono, cruzando as pernas.
— Meu país — corrijo.

Elijah bufa, exasperado.


— Está tudo bem, aliás. Não que você jamais se interesse em
perguntar. A situação foi contornada e está sob controle.
— Pai mau, rei ruim — zomba, movendo a mão em um círculo
preguiçoso. — Você está ficando repetitiva.
— Estou. Por isso, é a última vez que temos essa conversa.
Gostaria de se sentar?
— Eu tenho mais o que fazer — dispensa-me, alisando a camisa,
virando-se em direção à porta.
Fechada. Com Liam bloqueando seu caminho. Elijah grunhe.
— Mesmo? — pergunta, voltando-se a mim com a face tomada
por cólera. — Que cena ridícula é essa que você está tentando fazer
aqui, Madelaine?
— Me responda uma coisa — peço, entrelaçando as mãos no meu
joelho. — Como alguém se torna regente na monarquia, papai?
— Ah, por Deus… — resmunga, jogando as mãos para o alto em
impaciência.
— Herança é o mais comum. Você me negou essa. — Começo a
listar nos dedos. — Casamento, o que não me ajudaria em nada aqui. —
Tombo a cabeça para o lado. — Ou à força.
— À força? — pergunta, rindo, sobrancelhas arqueadas,
descrente. — É isso que você acha que está fazendo? Não seja
patética, Madelaine. Acha que vai me convencer disso?
— Não estou tentando te convencer de nada — garanto. — Tentei,
por muito tempo. Não me levou a lugar nenhum. É apenas um
comunicado. Eu assumo daqui. Você está fora.
Elijah dá dois passos ameaçadores na minha direção.
— É mesmo? Você e que exército vão me tirar daqui? — pergunta
entredentes.
— Fico feliz que tenha perguntado — digo, acenando com a mão
para Liam à porta.
Ele as abre, e não sei o que esperar. Essa foi a parte em que Theo
sussurrou aquele confiaem mim cheio de promessas, e eu confiei.
Considero se ele vai inundar o cômodo com soldados, para efeitovisual,
mas logo descubro que não. Um único homem cruza as portas, e eu
tenho um sorriso no rosto enquanto Albert caminha na minha direção. O
único efeito visual necessário é a sua reverência ao pé da pequena
escada, joelho ao chão, cabeça curvada.
Lanço os olhos ao meu pai, que encara Albert com horror nos
olhos. A matemática é simples: o general lidera, os soldados seguem.
— Que exército? O meu — respondo por fim, indicando para
Albert que levante.
— Isso não pode ser sério — disputa, os olhos frenéticos a todos
os lados, como se buscasse uma explicação melhor ou uma solução ao
seu arredor. Não vai encontrar nenhuma das duas. — Eu sou seu pai!

— É. Sempre foi. Eu só demorei demais para perceber que você


ser meu pai não significa que eu seja sua filha — respondo, engolindo a
decepção junto com a saliva. — Você não tem o direito de esperar de
mim o que nunca me entregou.
— Madelaine… — rosna, ameaçador.
— Não estou ameaçando te deixar sem casa, aliás, o que é mais
do que fez por mim. Vou deixar que escolha uma das propriedades da
família.E, se você colaborar, se não fizer dessa situação um show de
horrores, tudo o que precisa fazer é anunciar sua saída do trono em
meu favor e continuar recebendo seu ofensivamente alto salário de
regente aposentado. Se, é claro, você quiser tornar público essa nossa
conversa, cancelar qualquer regalia sua será meu primeiro ato real.
Pense com cuidado.
Seu rosto queima em fúria. Raiva mal contida. Ódio destinado a
quem ele devia amar. Espero pelos gritos, acusações, ameaças. O que
não espero é pela tentativa patética de encontrar uma brecha.
— Você precisa ser casada para assumir a coroa — diz, os olhos
loucos, um sorriso erroneamente vitorioso.
— Ah, essa é minha deixa
— a voz de Theo ao meu ouvido me faz
sorrir. — Ei. Eu te amo.
Sob chuva torrencial, em sussurros apaixonados, em uma viagem
romântica. Não. É claro que nossa declaração seria feitano meio de um
golpe de estado.
— Não se preocupe, eu cuidei de tudo. Acho que você já conhece
seu genro — aviso, vendo Theodore aparecer na outra ponta da sala.
Sem nunca tirar os olhos de mim, aproxima-se a passos largos. A
exaustão de dias atrás foi substituída por energia redobrada. Partilhada
e multiplicada. Na tentativa de controlar meu caos, papai me enviou
direto para os braços de quem o celebra.
Entrego minha mão a Theo, e ele beija o dedo que carrega o anel
que colocou ali na noite passada.
Theodore e eu adicionamos uma nova motivação a casamentos
por conveniência. O nosso, escondido do mundo, com Liam e Albert de
testemunhas, celebrado às pressas, aconteceu para que eu pudesse
roubar um país.
Aos olhos arregalados do meu pai, ofereço:
— Theodore Oliver Denver-Thompson. A única boa escolha que
você fez para mim.
Elijah estreita os olhos, lutando para entender o significado de
tudo o que está acontecendo na sua frente.
— Isso não pode ser sério — murmura, perdido.
Ele não sabe como reagir. Eu também não saberia, no seu lugar.
Estive no seu lugar meses atrás, e ele não demonstrou qualquer
compaixão. Mas eu não sou como Elijah, disso tenho certeza agora,
porque não sinto prazer algum em tudo isso. São meios para um fim;
não há nada de agradável no dia em que traí meu pai.
Theodore, por outro lado…
— Como gostaria de fazerisso? — Theo pergunta, parado ao meu
lado, a postura protetora como nunca. — Por bem, ou preciso salientar
que, de presente de casamento, minha esposa recebe o meu exército e
o aval do meu rei para usá-lo?
capítulo vinte e seis

Foi por bem.

É claro que foi.


Sem qualquer reforço ou apoio, sua única opção foi aceitar
.
Pelo menos por ora.
E eu vou trazer o inferno à Terra se for preciso para garantir que
assim continue.

Tem certezade que é issoque você quer? na voz do meu irmão


ao telefone agora tem uma resposta irrefutável. eTnho. Tenho certeza.
Desde o primeiro instante, um casamento com Madelaine
significou um futuro incompleto a alguém. A ela, caso se rendesse aos
desmandes do pai, porque eu jamais seria capaz de suprir a falta que o
trono a faria. A mim, caso a seguisse até aqui, porque a ideia de perder
o controle sobre a segurança da minha família sempre me aterrorizou.
Não sei quando as coisas mudaram, mas elas mudaram. Porque
quando vi aquela mensagem de Liam no celular, insinuando que algo
poderia ter acontecido a Madelaine, nem por um único segundo eu
considerei ficar para garantir que Stephen e Louise levaram a
quantidade certa de guardas quando saíram de casa. Nem por um
segundo me passou pela cabeça conferir se a escolta de Richard e
Heather estava organizada para o dia seguinte.
Eles estão bem. Sempre estiveram. Nunca foi sobre a segurança
deles, sempre foi pela minha necessidade de fazer alguma coisa para
que estivessem bem. E vou fazer. Sempre vou fazer. Meus pais, Richard
e Stephen, e cada um dos anexos recentes à famíliaque vieram para
nos completar ainda mais, sempre serão meu mundo inteiro. Sempre
serão uma parte grande demais de mim, de quem me tornei, de quem
espero que meus filhos sejam. Não vai ser uma viagem de cinco horas
de jatinho que vai mudar isso.
Não. Não vai. Mas agora eu entendo. Entendo Stephen não se
preocupar com a reação do rei em cada uma das suas transgressões
que colocam um sorriso no rosto de Louise. Entendo Richard abrir mão
de qualquer paz e tradição para manter Heather em sua vida. Entendo,
porque se no começo disso tudo eu estava disposto a tudo, a sacrificar
meu futuro e minha vida por eles, agora minha motivação para colocar o
mundo abaixo se for preciso tem outro nome.
Nome, e um sobrenome que agora carrego também.
Quando liguei para Richard naquela noite para contá-lo sobre o
que pretendia fazer, não sabia se precisava do meu irmão ou do meu
rei. No fim, como sempre, recebi os dois. Recebi a bênção dos dois. E
de Stephen. Recebi o aval dos dois outros dois terços para que
entregasse tudo o que tenho a outro alguém. Longe deles.
Ou ao menos achei que seria longe deles, porque não leva uma
semana inteira para que o antes silencioso castelo de Devondale seja
invadido em manada.
Estou de pé ao lado da mesa da sala de jantar,
momentaneamente convertida em local de trabalho, já que todos os
centros de comando estão sendo usados em capacidade máxima nos
últimos dias, quando ouço as vozes familiares.
Troco um olhar confuso com Liam, que dá de ombros, tão confuso
quanto eu. Sigo até a sala principal a tempo de ver meus pais cruzarem
as portas, segundos antes de ter minhas pernas agarradas por uma
Blair agitada.
— Oi, titio! O papai disse que você é rei agora também. Como que
eu faço para ser rainha? — Abro a boca para responder, dando-me
conta pela primeira vez que estou, de fato, casado com uma rainha e
isso, tecnicamente, me fazregente de um país.Ela esquece de mim tão
rápido quanto me encontrou. — Oi, Liam!

— Oi, princesinha — ele cumprimenta com uma reverência. —


Como você está?
— Eu tôbem. O Orson tá aí? Ele prometeu que ia assistir Pantera
Negra comigo.
— Se me permite, Vossa Alteza Real — Liam pede, e eu concordo
com a cabeça. Recebo uma reverência mais longa do que o necessário
antes de ser abandonado por Blair, que agarra a mão dele e sai
saltitando pelo castelo.
Viro, então, minha atenção para o resto da família.Estendo os
braços, e Louise me entrega James, já bem pesado e inquieto agora
que passa de dois anos de idade. Tento pegar Valerie também, mas
Stephen se recusa a me entregar a garotinha, que pula agitada no colo
do pai, falando sem parar como foi desde que aprendeu a dar sua
primeira palavra.

— O que vocês estão fazendo aqui? — pergunto, olhando deles


para os meus pais. — Richard e Heather?
— Algum compromisso nos próximos dias, mas vão chegar antes
da sua festa de casamento e coroação — Louise responde, vindo até
mim. Deixa um beijo no meu rosto e outro na cabeça do filho. — Por que
vocês me odeiam? Sabe o trabalho que eu vou ter para organizar tudo
em uma semana?
— Se alguém consegue, é você — bajulo, e ela me olha
desconfiada. — Seu filho fica comigo — aviso, movendo o tronco para
longe dela quando tenta pegá-lo de volta.
— Eu sabia que tinha um preço para a sua cooperação. — Revira
os olhos. — Onde ela está?

— No escritório. — Indico com a cabeça e mantenho meus olhos


na porta fechada por alguns segundos a mais, preocupado com o tanto
de trabalho que ela acumulou de uma vez só.
Se de presente de casamento ofereci um exército, de lua de mel
Madelaine ganhou trabalho dobrado. Ela mal dormiu desde que isso
tudo começou, e estou a ponto de jogá-la no ombro e amarrá-la na
cama — para que descanse e não para o que eu realmente gostaria de
fazer.
Louise assopra um beijo para o marido e desaparece casa
adentro. Sequer tenho tempo de me virar novamente antes de sentir um
beliscão na minha orelha.
— Ai. Ai! — reclamo, tentando escapar da minha mãe, mas é em
vão. — O que foi que eu fiz? — pergunto, esquivando-me do ataque,
usando James como escudo humano.
— Vocês vão me fazer ter uma morte precoce um dia — Beatrice
dramatiza, repreendendo-me com o olhar duro. — Você se casou,
Theodore!
— Com autorização do rei — defendo-me, mas ela não se
comove. Abro o braço livre, e ela se encaixa aqui. — E Louise vai
organizar uma cerimônia digna da rainha que minha esposa é, e você
vai me levar ao altar. Tudo bem? — negocio e vejo-a ceder com
facilidade. — Eu te amo.
— Eu também te amo — diz, recebendo um beijo no topo da
cabeça.
— Eu queria pedir um minuto da atenção de todos — Stephen diz,
levando a mão ao peito, dramático — para dizer que, apesar do que
vocês dizem, eu fui o único a seguir com as tradições de casamento
dessa família. Exijo mais respeito daqui para frente. Muito obrigado.
Meu irmão faz uma reverência debochada, que faz com que
Valerie gargalhe com a palhaçada do pai. Contra todas as
probabilidades, ele está certo. O único príncipe da famíliaque sempre
condenou abertamente todas as regras e tradições foi o que as seguiu
com mais afinco.
Viro-me para o meu pai, calado até então. Seu olhar contemplativo
sobre nós vem acompanhado de um sorriso sereno que me diz que vai
ficar tudo bem.
— Podemos conversar por um minuto? — ele pede, e eu assinto,
devolvendo James ao pai antes de indicar o caminho pelo jardim.
Andamos por alguns minutos, procurando resguardo contra o sol
de meio-dia. Indico um banco posicionado debaixo de uma árvore com a
copa grande, que faz sombra o suficiente para que não seja
desagradável. Indico para Arthuro, que se senta e espera que eu faça o
mesmo.

— Estou prestes a receber uma bronca? — pergunto intrigado,


porque sempre foi assim que ele as conduziu.
Arthuro é um homem de poucas palavras. Sempre presente e
vigilante, com muito a ouvir e pouco a dizer. Cada uma dessas
conversas em que pediu um momento a sós ainda estão gravadas na
minha mente. Raras, mas significativasdemais. Sei que já virou tradição
na família que o faça às vésperas dos casamentos ou em momentos
turbulentos dos relacionamentos dos meus irmãos. Então apenas
aguardo, porque sei qual vai ser o assunto em pauta.
— Não tenho broncas para você hoje — diz, tomando minhas
mãos para si. — O que é uma surpresa, Theodore, porque tinha certeza
de que você seria o mais difícil dos três.
— Difícil? — pergunto sem entender
.
Ele sorri, as rugas da idade se acentuando ao redor dos olhos.
— Vocês três são o complemento perfeito um do outro. Steph
sempre foinosso coração, Richard a nossa razão, e você a nossa força.
— Ele ri baixinho e bate nos meus dedos. — E foiexatamente o coração
e a razão que os fizeramsofrer. Eu tinha certeza de que ia ser seu caso
também.
Escuto em silêncio, sem entender o rumo da conversa.

— Você sempre foimuito pragmático, Theodore. Sim ou não, preto


ou branco. Obedece ao que é certo, condena o que é errado. A vida
toda, eu te vi se esquecer de que emoções também fazem parte de
tomar decisões fortes.
Eu sei disso. Aprendi como espectador, sentado na primeira fila
para assistir ao desenrolar dos relacionamentos dos meus irmãos.
— Não foi uma escolha fácil, eu tenho certeza — ele continua,
carinhoso.
— Não foi — concordo. — Mas eu não poderia ter feito outra.
Bato na porta, entrando em um cômodo escuro demais para ser
habitado, apenas com a pequena luminária acesa, apontando para
papéis espalhados e uma Madelaine adormecida sobre a mesa.
Aproximo-me devagar, desligo o computador, rolo sua cadeira com
cuidado para trás e sorrio para o seu resmungo cansado quando a
levanto.
Encaixo-a em meus braços, e Maddy enrosca os braços ao redor
do meu pescoço. Conduzo-nos para fora do escritório, com cuidado para
não esbarrar em nada. Estou subindo o segundo lance de escadas
quando ela dá qualquer sinal de consciência.

— Que horas são? — pergunta com um bocejo.


— Tarde — respondo, beijando seu rosto.
Abro a porta do quarto depois de muitas tentativas, empurrando-a
com as costas.
— Eu preciso…

— Você precisa dormir — interrompo. — A menos que queira


discutir suas olheiras com Louise amanhã quando estiver se arrumando
para o nosso casamento.
Ele ri baixinho contra o meu pescoço e se agarra mais a mim
quando tento deixá-la sozinha na cama. Deito-me ao seu lado,
acomodando Madelaine ao meu peito.
— Eu não tenho a menor ideia do que estou fazendo — sussurra,
sonolenta.
Acaricio seu cabelo e puxo-a para mais perto de mim.
— Você está se saindo muito bem — garanto, acariciando sua
cintura. — E Richard está na discagem rápida, sempre que precisar.
— Eu não tenho a menor ideia do que estou fazendo com meu
irmão — corrige.
Demoro alguns segundos para processar que a preocupação não
é com o paísque passou a ser sua responsabilidade da noite para o dia.
Ela está exausta, mas realizada, disso eu sei.

Brennon não teve qualquer problema em aceitar a nova dinâmica.


Sua relação com o pai, que nunca foi das melhores, não dava indícios
de melhoras em nenhum futuro próximo. Mas Orson é só uma criança
que não entende muito do que está acontecendo, e sei que isso está
tirando seu sono.
— Honestamente, eu acho que Blair tem o mantido entretido o
suficiente pelos últimos dias para que ele sequer perceba que tem
alguma coisa errada. — Solto um grunhido ao me lembrar. — Se eles
assistirem Pantera Negra mais uma única vez, eu vou enlouquecer.
Acho que já decorei as falas do filme.
Sinto seu sorriso na minha pele, o deslizar preguiçoso de dedos
pelo meu pescoço.
— E como você está se adaptando a tudo, general? — pergunta,
em um tom leve que não disfarça a preocupação. — Você sabe, entre se
casar com a mulher mais bonita do mundo, mudar de país, mudar de
emprego…
Giro-a na cama, prendendo suas costas no colchão. Encaixo-me
por cima do seu corpo, beijando os olhos que mal se mantêm abertos.
— Posso me acostumar com as regalias de ser marido da rainha
— respondo e beijo a ponta do seu nariz.
— Rei — murmura, arrumando a cabeça no travesseiro, forçando
os olhos abertos para mim. — Quero que seja rei ao meu lado.
Ergo as sobrancelhas, apoiando um cotovelo na cama.
— Esqueceu como funciona a hierarquia? — pergunto, traçando
círculospequenos na sua cintura com a outra mão. — Você governa, eu
lambo o chão que você pisa. É essa a função de príncipes-consortes.
Madelaine passa os braços pelo meu pescoço.
— O país é meu, eu te chamo do que eu quiser.
Desço o nariz ao seu, beijo cada canto da sua bochecha.
— Nós conversamos sobre isso quando você não estiver quase
desmaiando de sono — sugiro. Ela nega com a cabeça.

— Você escolheu mudar a sua vida inteira para me dar o que eu


quero — diz, trazendo a boca para pairar sob a minha. — Você me
entregou meu país, eu te quero ao meu lado, comandando o meu
exército. Você nasceu para isso, Theo. Vai enlouquecer se não puder
distribuir ordens por aí.
Não é só um gesto romântico, é uma decisão delicada. Foi por ter
um exército ao seu lado que Madelaine conseguiu tomar à força o que
deveria ser seu por direito. Eu sempre vou ter a lealdade de Delway;
entregar o comando militar de Devondale significa que a única garantia
de que não vou destroná-la é a minha palavra. Não é um movimento
calculista e seguro, está longe disso.
Emoções também fazem parte de tomar decisões fortes, afinal.
— Eu te prometo lealdade até o fim dos tempos — sussurro na
sua boca, e ela sorri.
Fecho os olhos quando seus dedos adentram minha camisa,
subindo pelas costelas. Mesmo sem ver, sei que ela está traçando o
contorno de uma tatuagem em específico que mora aqui. Honra.
capítulo vinte e sete
Mantenho-me tão parado quanto posso enquanto Richard arruma
minha gravata pela quarta vez, resmungando consigo mesmo sobre não
estar perfeitamente no lugar.
Troco um olhar divertido com Stephen, que assiste à inquietação do
nosso irmão com curiosidade.
— Ele sabe que sou eu que vou me casar, não sabe? — pergunto a
Steph, que não perde uma única oportunidade de atormentar a vida do
rei e se junta a mim sem hesitar.

— Se ele está assim com você, imagine quando foro filhodele a se


casar — diz, parando ao meu lado para ver mais de perto seu estado
agitado.
— Estou começando a ficar preocupado. Você está bem? —
pergunto, apoiando uma mão no ombro de Richard, tentando fazê-lo
parar com o movimento errático dos dedos.
— Era para o Theo estar surtando, e ele não está. O que está
acontecendo? — Steph questiona.
Richard solta um suspiro pesado e se afasta alguns passos, ainda
incomodado com a minha gravata. A emoção no seu rosto é inegável
demais, e eu o chamo para um abraço.
— Ele está assim porque achou que você não ia se casar nunca?
— Steph sussurra. Eu rio. — Mas é alívio ou é tristeza?

— Os dois — Richard responde por fim.


Segura meus ombros com força, sorrindo.
— Eu não achei que um dia você fosse confiar em alguém —
explica, depois de passar tempo demais sem dizer nada. — Estou feliz
por ter encontrado o seu “para sempre”, irmão. Só não estou pronto para
me despedir de você.
Sinto o bolo na minha garganta e assinto, compartilhando do
sentimento.

— Você vai fazer falta — Steph concorda. — Já está fazendo.


Com o cenho franzido, olho de um para o outro.
— Está tudo bem em Delway? — pergunto, preocupado.
Brian assumiu meu posto, já mais do que preparado para isso. Ele
é competente, sério, confiável. Não poderia escolher outra pessoa para
cuidar da minha família,e não deixei de receber atualizações aqui e ali
sobre o que acontece lá. Nunca vou deixar.
Richard bufa, exasperado.
— Você é um ótimo general, Theodore, mas é como irmão que faz
falta — corrige, segurando meu rosto. — Estou orgulhoso de você. De
quem se tornou. Dos caminhos que escolheu. Madelaine é uma mulher
de muita sorte.
Nego com a cabeça.
— A sorte é toda minha.

É a primeira vez que entro nessa igreja, mas não é muito diferente
da usada em Delway para realizar cerimônias oficiais.
O trajeto aqui foi tenso, porque eu não tinha ideia do que esperar
da reação popular. Madelaine insistiu em seguir passo a passo da
tradição agora, então um desfile lento em carros oficiais foi pedido até
que chegássemos aqui, com a segurança redobrada por contarmos com
duas famílias reais inteiras em um país que está lidando com um
conceito muito frágil de paz.
Mas a paz prevaleceu.
Ao redor dos carros, apoiadores ávidos.
Depois do anúncio oficial do nosso casamento e da coroação de
Madelaine, depois de Elijah ter assinado todos os documentos que o
cabiam, a comoção pública começou em peso. Parece que não era só
seu exército que Madelaine já tinha conquistado. O apoio popular veio
em peso, saudando a nova rainha, e seguiu assim durante os quarenta
minutos em que percorremos a distância necessária até a igreja, com
apenas um par de incidentes menores e fáceis de resolver.

Agora, aqui, de pé no altar, conferindoo relógio mesmo que ela não


esteja atrasada, não consigo me lembrar das obrigações de general. Sou
apenas um homem ansioso, sedento por ter sua mulher caminhando até
ele em um vestido de noiva.
Quando a música começa a tocar, percebo que nem em um milhão
de anos estaria preparado para a visão que é Madelaine. Meu coração
perde o compasso, acelera e quase para. Errático. Apaixonado.
O vestido dourado se arrasta pelo tapete vermelho, ocupando cada
centímetro de espaço disponível, brilhante contra a pele escura,
impossível de ser ignorado. Cachos longos caem por seus ombros e,
sobre o seio esquerdo, a bandeira de Delway divide espaço com a de
Devondale, bordadas na peça.
Madelaine troca um sorriso amoroso com Brennon, que a
acompanha.
Quando focaem mim, é como ser sugado a uma realidade paralela
em que nada mais existe.
Somos apenas eu e ela.
Sem consequências ou obrigações. Sem ontem nem amanhã.
Apenas o hoje. O agora. Um para sempre construído a cada segundo.
Preciso de muito esforço para me lembrar de permanecer no meu
lugar, de esperar que ela me alcance, que venha até mim. Falho no
último segundo, dando um passo à frente para encontrá-la. Aceito a mão
que me oferece, beijo o dorso dos dedos. Compartilho do sorriso que me
dedica antes de nos virarmos para o celebrante.
Para Richard, esperando por nós dois, as escrituras e ritos em
mãos, orgulho estampado no olhar. Não poderia ser outra pessoa.
Ninguém mais compartilhou cada detalhe, segredo e alegria de todo o
caminho conturbado que nos trouxe até aqui.
Eu não menti. Não tem nada de simples nisso, e não tem volta.
Resvalo os dedos no dorso da mão dela, e Maddy encaixa o dedo
mindinho no meu, em um gesto discreto que sei que não vai passar
despercebido por ninguém. Não me importo. Existem muitas coisas que
podem dar errado, e eu vou estar ao seu lado em cada uma delas.
— Princesa Madelaine Nia Denver, em nome do poder a mim
concedido, você promete honrar seu povo e o seu futuro rei? — Richard
pergunta.
A diversão confusano olhar de Madelaine me fazestreitar os olhos
também. Richard… mudou os votos? Onde está a parte de “seguindo as
tradições e costumes”?
— Sim, prometo — responde, fazendo o que pode para prender o
riso diante da constatação de que o rei de Delway decidiu desistir de
esperar sensatez dessa família.
— E aceita Theodore Oliver Thompson como seu marido,
prometendo assumir todo compromisso com ele, seu país e sua família?
— Aceito — diz, dessa vez a resposta saindo com um tom
carinhoso.
E quando chega a minha vez de recitar os votos, não tem sequer
uma centelha de dúvida no meu coração.
— Pode beijar a noiva — declara, mas é a noiva que me beija.
Não há aplausos ou flashes de câmeras que sejam capazes de
afastá-la de mim. Se Madelaine está em uma missão para superar o
escândalo que foi nosso beijo no baile de inverno, vai ter sucesso.
— Eu te amo, general — sussurra na minha boca, e não há nada
no mundo que possa me impedir de tomar sua boca de novo à minha.
Segurando sua mão, guio-a até que se ajoelhe no altar, sobre a
almofada posicionada para isso. Encontro sorrisos orgulhosos e
emocionados ao nosso redor. Ajoelho-me ao seu lado, e Madelaine não
solta minha mão em momento algum durante a longa cerimônia de
coroação que se sucede.
Seus olhos estão marejados quando Richard cobre seus ombros
com o manto vermelho, uma única lágrima escorre pela sua bochecha
quando inclina a cabeça para frentepara receber a coroa. Todo seu amor
e admiração estão estampados no rosto emocionado quando faço o
mesmo, e o peso da coroa de Devondale sobre a minha cabeça não é
nada comparado à responsabilidade que é fazer essa mulher feliz.
Eu me recuso a falhar em qualquer uma dessas duas tarefas.
— Madelaine Nia Denver-Thompson, rainha de Devondale, e seu
rei, Theodore Oliver Denver-Thompson — Richard apresenta assim que
nos levantamos, ovacionados por todos que estão na igreja.
Madelaine recebe a atenção e carinho com graça e orgulho, e
permaneço ao seu lado, assistindo-a cumprir seu destino.

Ou quase.
Beijo sua mão, e ela me olha confusa quando me afasto. Sinto seu
olhar me acompanhar enquanto vou até Liam e ele me estende a caixa
retangular e aveludada.

Ela entende.
Assim que me viro novamente em sua direção, Madelaine entende.
Seus olhos marejam, e ela luta com muito mais força contra as
lágrimas agora. Peço ajuda de Richard, que se aproxima e segura a
caixa para mim, abrindo-a para revelar seu conteúdo.
Com o cuidado e respeito, pego o colar de rubis das suas
antepassadas.
Madelaine prende a respiração e fecha os olhos quando pouso a
joia em seu pescoço. Espera paciente enquanto prendo o fechoe dedilho
sua nuca em reverência.
— Eu disse que ia ser seu — sussurro antes de me afastar.

Outra lágrima escorre quando ela molda um “obrigada” com os


lábios.
Beijo sua mão e prometo:

— Ontem, hoje e para sempre.


capítulo vinte e oito

Nunca me perguntei sobre o que acontece depois do “sim”. É


nessa hora que o filme acaba, os créditos sobem e o “felizes para
sempre” começa. Suponho que o combo cerimônia-festa-lua de mel
esteja implícito, seguido pela construção de uma rotina gostosa
partilhada com a sua metade. Paz, calmaria e companheirismo.
A minha dúvida é: quando se é rainha de um país necessitado de
atenção urgente, casada com um homem obcecado por segurança,
quais as probabilidades reais de qualquer um desses planos se
concretize?
Eu queria estar em Paris, mas estou aqui, ouvindo gritos
acalorados de homens se comportando como adolescentes irracionais.
Cruzo as pernas e recosto no encosto da cadeira. Espero.
Consigo discernir meia dúzia de ofensas entre as acusações feitas de
um ao outro, em uma discussão paralela para tentar chegar a uma
decisão que é só minha.
— Falta muito? — pergunto, elevando a voz mais do que eu
gostaria para que as crianças pirracentas me escutem.
— Madelaine… Majestade. — O da esquerda se corrige quando
ergo as sobrancelhas. — Por favor, seja razoável — barganha.
— Estou sendo razoável. São vocês que estão se comportando
sem qualquer profissionalismo.
Com um suspiro, aperto o botão de comunicação do telefone, que
chama Liam. Ele entra poucos segundos depois.
— Majestade — cumprimenta, esperando instruções.
— Por favor, acompanhe esses dois senhores até a saída —
instruo, sendo recebida com olhares arregalados e surpresos.

— Mas você não pode…!


— O que eu não posso é ter meu tempo desperdiçado dessa
forma. Por favor — adiciono a Liam, que acata e os guia para longe
daqui.
Aperto as têmporas, ainda tentando entender o que foi esse show
de horrores. Delego mais meia dúzia de decisões à equipe que está
sendo montada aos poucos, supervisionada de perto por Liam nas
últimas semanas.
Ele volta alguns instantes depois.
— Precisa de mim para mais alguma coisa, Majestade? —
pergunta, e eu assinto, pedindo que se aproxime.
Liam se senta na cadeira de frente para mim, mantendo a
distância profissional que a hora do dia pede. Dispenso-a e vou até ele,
puxando a minha cadeira para perto para que possa segurar as suas
mãos. Acaricio seus dedos, e ele me olha preocupado.
— Aconteceu alguma coisa? — pergunta, o cenho vincado.
— Aconteceu — concordo, tombando a cabeça para o lado. —
Está na hora.
Ele entende alguns segundos depois, os olhos escuros se
arregalando de leve.
— Majestade…
— Liam — interrompo, apertando suas mãos. — Eu estou te
aposentando.
Ele ri nervoso e aperta minhas mãos.
— Você não vai me aposentar aos quarenta e cinco, Madelaine —
repreende.
— Não está em discussão — insisto suavemente.
— Maddy, não existe a menor chance de eu te deixar sozinha logo
agora.
— Você não vai me deixar sozinha, nunca — asseguro. — Sempre
vai ser meu conselheiro, a voz de sabedoria que ainda me falta. Você
vai ser o tio babão dos meus filhos, e sempre, sempre o melhor amigo
que a vida podia ter me dado.
Uma onda de emoção cruza seu rosto, e sei que, assim como eu,
ele está se lembrando de tudo o que aconteceu nos últimos quinze
anos, desde que eu caí de paraquedas como sua responsabilidade
pessoal e comecei a fazer da sua vida um inferno.
— Você passou tempo demais dedicado a mim, meu amigo.
Precisa viver sua vida também. Ou você acha que a senhora assistente
do rei de Delway não merece ter o namorado dela por perto por mais
tempo?
Ele revira os olhos carinhosamente, já sem conseguir disfarçar o
sorriso sempre que menciono a namorada.
— Meio período? — tenta barganhar.
Suspiro, balançando a cabeça.
— O que está acontecendo com os homens hoje que acham que
podem discutir minhas decisões? — pergunto, dando um tapa na sua
mão antes de me levantar.
Ele se levanta também, sem disfarçar a insatisfação no rosto, o
vinco profundo entre as sobrancelhas.
— Me acompanha? — peço, e ele me oferece o braço.
— Está a caminho de aposentar mais alguém, Majestade? —
implica, e eu rio.

— Na verdade, estou. Albert precisa de férias.

Ao contrário do meu amigo teimoso, Albert recebeu o aviso de


aposentadoria com graça, elegância e muitos agradecimentos. Foram
décadas de serviço ao nosso exército e ele já estava há muito tempo
pronto para descansar.

Vai ser uma transição gradual.


A maioria dos comandantes abraçou Theodore com afinco,
conhecendo o seu trabalho em Delway, mas sei que ainda há uma parte
que não está felizem ser liderada pelo que veem como apenas o marido
da rainha. Não me preocupo, porque sei que não vai demorar mais do
que algumas semanas para que vejam que isso não poderia estar mais
longe da verdade.
Passo o resto do dia com um Liam mal-humorado ao meu lado e
eu sei que vou ceder. É só uma questão de tempo. Também não o quero
longe. Meu marido vai surtar quando souber da minha decisão, porque
são poucas as pessoas que detêm a sua confiança, e meu amigo
conquistou essa posição com louvor.
— Com todo respeito, Majestade… — ele começa, e não há nada
que eu possa fazer para evitar sorrir.
— Por que, Liam? — pergunto, jogando as mãos para o alto em
rendição. — Por que você quer tanto ficar?
— Aqui é minha casa também — responde com um menear de
cabeça. — Eu te vi passar de uma adolescente insegura para uma
rainha que está lidando com uma crise com a cabeça erguida e
serenidade que muitos líderes experientes não têm.
— Eu estou aterrorizada, e você sabe disso — discordo. Ele
ignora.
— Vi Brennon crescer, vi Orson nascer — continua. — Espero
poder ver seus filhos nascerem e crescerem também. Sei que não tem
idade para ser minha filha, Madelaine, mas…
Ele não precisa completar a frase. Assinto em entendimento,
porque o sentimento é partilhado.
— Mas você é o único pai de verdade que eu tive — concordo,
porque é verdade. Meu primeiro indício de que carinho, amor e lealdade
falam mais alto que sangue.
Eu o abraço apertado, e talvez seja a primeira vez que vejo esse
homem enorme e com a armadura de um ser impenetrável com os olhos
marejados.
— Está tudo bem?
Lanço os olhos à porta, onde um Theodore preocupado alterna o
olhar entre Liam e eu.
— Vem abraçar o Liam também — instruo, soltando-me dele e
virando-o para Theo.

— O que está acontecendo? — meu marido pergunta


pausadamente, terminando de entrar no escritório para onde voltamos
horas atrás.
Sigo até a minha mesa e recolho alguns papéis que vou precisar
para mais tarde, vendo a hora e notando que preciso ir se não quiser me
atrasar.
— Liam pelo visto vai ser o padrinho dos nossos filhos— comento
displicente, digitando uma mensagem no celular para confirmar que
estão me esperando.

Um silêncio inesperado se abate sobre a sala, e me viro devagar


para encontrar Theodore estarrecido. Olhos arregalados, lábios
entreabertos.
— Você está grávida? — pergunta baixo, os olhos caindo à minha
barriga.
— Não! — respondo de pronto e tenho a impressão de ver
decepção por trás dos olhos sempre tão azuis. — Primeiro esse país
precisa parar de estar a ponto de colapsar, depois lua de mel, depois
bebê. Nessa ordem — aviso, aproximando-me dele.
Beijo um beijo curto nos seus lábios, aprofundando-o sem querer,
porque não consigo evitar, não consigo resistir. É o pigarro de Liam que
me faz soltá-lo.
— Precisa de mim? — pergunto nos seus lábios. Ele nega e indica
Liam com a cabeça. — Te vejo no jantar, então — defino, dando um
último selinho.
— Escolta, Madelaine! — Theo grita quando estou saindo do
escritório. — Quero dois carros na frente, dois atrás.
Olho-o por sobre o ombro:
— Ou o quê? — pergunto em um sussurro travesso.
Seus olhos escurecem e se estreitam, ameaçadores.
Assopro um beijo, sabendo muito bem que ele vai me mostrar
mais tarde o quanto detesta ser contrariado.

Sentada ao chão, sentindo a grama molhada e terra pelas minhas


pernas, concentro-me na lápide à minha frente.
Não preciso olhar para saber e sentir a dúzia de homens
guardando o cemitério ao redor, especialmente porque meus irmãos
estão comigo.
Com a saída do meu pai e sua ausência pelas últimas semanas,
as tensões têm diminuído.Ainda assim, não é todo mundo que está feliz
com a famíliareal e sei que toda essa segurança é necessária. Pelo
menos por enquanto. Definitivamente se meus irmãos estiverem
envolvidos, porque não vou assumir nenhum risco com eles.
— Foi por minha causa? — Orson pergunta depois de muitos
minutos em silêncio, de pé ao meu lado.
Levanto os olhos para ele, que encara os próprios pés. Ele está
enorme. Não vai demorar muito para me ultrapassar em altura, e por
vezes isso me faz esquecer de que é só uma criança.
— O que foi por sua causa, meu amor? — pergunto, segurando
sua mão rechonchuda.
— Que a mamãe morreu — fala, e eu me levanto de imediato,
ficandode joelhos para ficarda sua altura. — Ela estava doente quando
estava grávida de mim…
— Não — respondo, firme, segurando seu rosto. — É claro que
não. Não foi culpa de ninguém. Às vezes… — minha voz falha, como
sempre é quando estou falando dela. — Às vezes coisas ruins
acontecem com pessoas muito boas. Não foi culpa de ninguém, tudo
bem? Nem sua, nem de ninguém.
Ele assente, mas não sei se acredita de verdade. Há uma tristeza
no seu olhar, e faço tudo o que posso fazer por ele agora: eu o abraço
apertado, tentando repor o amor que o foi negado por fatalidades do
destino.
— O papai vai voltar? — pergunta no mesmo tom baixo.
Meu corpo retesa à menção de Elijah, porque faz tempo que não
tenho notícias suas, e é assim que gostaria que continuasse. Qualquer
assunto que eu tivesse pendente com ele não existe mais. Mas não sou
filha única e essa decisão não cabe só a mim. Ainda estou à espera de
alguma reação sua. Cheguei a considerar que levaria Orson, apenas por
pirraça. Mas não. Em momento algum perguntou sobre o menino.
— Você pode falar com ele e visitar quando quiser — garanto.
— E se eu não quiser?

Solto-me dele, segurando seus ombros.


— Ninguém vai te obrigar — garanto. Ele anui e me abraça de
novo.
Olho por cima do ombro, apenas para constatar que Brennon está
nos assistindo. Ele me oferece um sorriso encorajador e estende os
braços. Guio Orson até dele, que agarra as pernas do irmão.
Brennon ficou, no fim.
É claro que ficou. Seu super-herói particular se mudou para
Devondale e trouxe com ele toda sua experiência militar. O melhor de
dois mundos. Enquanto meu futuro soldado preferido conversa com o
irmão, volto minha atenção novamente à lápide de mamãe.
Leio o nome cravado na pedra, datas de nascimento e morte.
Mãe, esposa e melhor mulher do mundo. E me pergunto o que ela
acharia de tudo isso. De tudo o que a minha vida se tornou. De todos os
obstáculos, de como eles foram superados. Eu me pergunto o que ela
acharia do final feliz que estou construindo.

Fecho os olhos quando a brisa fresca toca meu rosto, quebrando o


calor do dia abafado.Sorrio, sentindo cócegas no rosto por onde o vento
passa. Como uma carícia suave da qual sinto saudades todos os dias.
Como uma aprovação.
— Sinto sua falta — sussurro para o tudo e para o nada. —
Obrigada por ter existido.
Muito mais do que isso, obrigada por ter me ajudado a ser quem
eu sou agora. Espero que se orgulhe, mãe.
capítulo vinte e nove

Tiro os olhos dos painéis de controle quando meu celular apita.

Clico na notificação, vendo que é Madelaine compartilhando sua


localização comigo. Estranho ao ver o endereço da marina, porque não
me lembro de ela ter ido para lá.
Disco seu número, mas ela não atende. Ao invés, uma mensagem
sua pisca na tela.

Quanto tempo você leva para me encontrar


, soldado?

Uma onda de adrenalina corre meu corpo, um sorriso inflamado


cresce pelo meu rosto.
O que estamos jogando, Maddy?
Os últimos meses têm sido tranquilos, apesar de tudo. As coisas
estão entrando de novo no lugar, pouco a pouco; nossa vida está se
ajustando, pouco a pouco.
Viagens entre Delway e Devondale se tornaram rotina — seja a
trabalho ou por saudades. Alianças foram fortalecidas entre os dois
países, mas, acima de tudo, nossa família nunca se afastou.
No começo, quando não era sensato que Maddy se afastasse de
Devondale, não foram raras as vezes em que Louise e Heather
apareceram sem serem convidadas para fazer companhia à amiga.
Quando as coisas melhoraram um pouco, se tornaram menos raras
ainda as vezes que Delway se tornou nossa fugapor um ou dois dias de
todos os problemas que não deixam de se acumular.
E eu, que nunca sequer havia sonhado com uma vida em parceria,
fui presenteado com uma que parece moldada para me fazer feliz.

Em especial quando minha esposa toma para si a missão de me


enlouquecer.

Você está tão encrencada quando eu te achar

Respondo à mensagem, dando a partida no carro antes mesmo de


fechara porta. Estou nos portões do castelo antes de terminar de discar
o número de Liam.
— Majestade — ele atende, a voz abafada pelo vento.

— Você está com ela? — pergunto, conferindo o GPS do carro e


vendo que estou a pouco mais de dez minutos de distância.
— Ela está segura, sim — ele diz, e eu sorrio, excitado.

Muito bem, Madelaine.


— Bom, Liam. Por favor, avise à rainha que chego em dez minutos
— respondo, balançando a cabeça para ninguém em específicodepois
de encerrar a ligação.
Em sete, estaciono na entrada da marina e imediatamente
entendo por que Madelaine escolheu este lugar. Está deserto. Trancado,
fechado, protegido por segurança militar exatamente como eu faria. Ela
sabe que está segura, mas sabe também que o lugar é grande o
suficiente para que eu demore a encontrá-la.
Ela acerta em cheio, porque depois de mais dez minutos andando,
a frustração está acumulada no meu corpo, junto a um frenesi
arrebatador. Meu celular vibra no bolso.

Frio

Mudo de direção, seguindo para a esquerda. Outra mensagem:

Morno

Apresso o passo, percorrendo os olhos por entre barcos


desconhecidos. Tranco os olhos em um, branco e discreto, grande o
suficiente para nós dois, minúsculo em comparação com os outros
estacionados aqui.

Quente

Meu celular apita com a última mensagem, e pulo a bordo do


barco, apenas para encontrá-la no deque, sorriso travesso e malícia
escrita em cada centímetro do seu corpo.
— Sozinha, Majestade? — pergunto, aproximando-me a passos
lentos, predatórios.
Seu sorriso se amplia, e sei que Madelaine me tem exatamente
onde quer.
Prendo-a contra o guarda-corpos, uma mão de cada lado seu,
encurralando seu corpo sem chance de escape.
— Você demorou — sussurra no meu ouvido, sugando o lóbulo. —
Você já foi melhor que isso, Theodore.
Estremeço, a respiração pesada, dedos fincados na sua cintura.

— Theo — corrijo-a, sedento, saudoso.


Faz tanto tempo.
As provocações, implicâncias, desafios. A brutalidade caótica que
nos trouxe até aqui.
— Theodore — canta, separando as sílabas, dentes arrastando
pela minha mandíbula.
É tudo o que preciso.
Agarro-a pela bunda, puxando seu corpo para cima.
— Prende as pernas na minha cintura — ordeno, uma mão
firmando seu cabelo, puxando seu rosto para mim.
Engulo o gemido surpreso com a boca, em um beijo faminto e
doloroso. Não gasto muito tempo olhando ao redor quando entramos na
cabine. Carrego-a até onde descubro ser o quarto, desabando meu
corpo sobre o dela na cama.
Madelaine ofega quando prendo a mão em seu pescoço, geme
baixinho quando separo seus joelhos com os meus.
— É isso que você quer, Majestade? — pergunto, mordendo seu
queixo, deslizando dois dedos pela sua umidade. — Você quer que eu te
foda, meu amor? — adiciono sobre a sua boca, escorregando a mão
livre pela alça fina do seu vestido.
Ela não responde. É claro que não. Madelaine teve tempo de
aperfeiçoar esse jogo, se tornar mestre nele. Sabe como me
enlouquecer como ninguém. Ao invés de uma resposta, ganho um
sorriso desafiador.
— O que eu faço com você? — grunho, travando uma luta árdua
com o seu vestido, tentando arrancá-lo do seu corpo.
Quando consigo, quando tenho para mim a visão do seu corpo
seminu, Madelaine se espreguiça na cama, preguiçosa. Sem cortar
contato visual, rola de barriga para baixo. Tenho os olhos pretos sobre
mim, mirando-me por sobre o ombro, quando ela empina a bunda,
esfregando-se em mim.
Estalo um tapa na sua bunda, arrancando um gemido safado; e
outro, mais alto, quando enrosco seus cachos no punho e puxo,
arqueando suas costas.
— Pede — rosno no seu ouvido.
Seu sorriso se expande, e Madelaine desliza uma mão lentamente
pelo próprio corpo, explorando cada curva, brincando com cada pedaço.
A calça se torna apertada demais no meu corpo quando encaixa a mão
dentro da calcinha e substitui meus dedos.

Puta merda.
Solto-a com a intenção de ficar longe apenas por tempo o
suficiente para tirar a roupa. Mas é claro que ela tem outros planos.
Madelaine se senta na cama, as pernas abertas para mim. Pousa
uma mão no seio, a outra entre as pernas, o olhar desejoso em meu
corpo.
— Devagar — pede. Estreito os olhos, concentrado demais no vai
e vem dos seus dedos para me mover. — Tira a roupa devagar,
Theodore. Obedeça a sua rainha — ordena, e o tom que usa atrai minha
atenção.
— Isso depende — contesto, arrancando a jaqueta sem pressa.
Seguro a barra da camiseta, levanto apenas o suficientepara que minha
barriga fique à mostra. — Você vai ajoelhar para o seu rei, Madelaine?
Seu sorriso se expande, se converte em um gemido pecaminoso e
teatral quando aumenta os estímulos dos dedos. Mordo o lábio com
força,ciumento. Invejoso. Egoísta.Quero fazerisso eu mesmo, ela sabe
disso. É uma provocação barata que sempre funciona. Funciona hoje
também.

Termino de tirar a camisa, mas é tudo que faço antes de ir até ela
e puxá-la pelas coxas. Madelaine solta um gritinho de susto quando a
puxo para mim, invertendo nossas posições em um movimento abrupto,
colocando-a sobre o meu rosto.
— Senta — ordeno, apertando suas coxas. Roço os lábios pelos
seus, deslizo a língua devagar, sugo seu clitóris uma única vez. — Senta
— repito, e dessa vez ela acata.
Seguro-a no lugar com uma mão, a outra trabalhando para
desabotoar a minha calça enquanto a chupo. Solto um gemido quando
meu pau pula liberto das restrições e envolvo a mão ao redor da minha
extensão, sincronizando o movimento dos meus dedos com os da minha
língua.
Madelaine estreme, esfregando-seno meu rosto. Reconheço seus
gestos, suas reações. Sei quando está prestes a se render.
— Pede — rosno, soltando minha ereção para cravar os dedos
nas suas pernas. — Pede, Maddy.
Ela tomba a cabeça para frente, lábios entreabertos, olhos
nublados. Ela pede. Mas ao invés de pedir para gozar, ao invés de
seguir o roteiro do nosso jogo, ela me arranca do controle mais uma vez.
— Me fode, Majestade — sussurra, e a próxima coisa que sai da
sua boca é um gemido com meu nome gravado nele quando estoco de
uma vez só, colocando-a de joelhos na cama.
Colo meu peito às suas costas, aperto seu quadril, envolvo sua
cintura e desço os dedos ao seu clitóris, colecionando murmúrios de
prazer, gritos, choramingos, gemidos cada vez mais despudorados.

— Eu te amo tanto — rosno ao seu ouvido, acelerando as


estocadas, sentindo-a cada vez mais molhada. — Tanto. Goza para
mim, meu amor.
— Me faz gozar — ordena.
Mordo seu pescoço, inclino-a mais no colchão, colando seu peito à
cama. Estabeleço o ritmo punitivo que ela gosta, que me drena, que me
rende. Não demora muito. Mais fundo,mais bruto é tudo o que leva para
que ela derreta sob mim, desabando de exaustão.
Desacelero as estocadas, aninhando-me a ela, enlaçando seu
corpo por trás. Entro e saio devagar, beijando seu rosto, pescoço,
ombro. Acaricio sua barriga, seios, pescoço.
— Theo… — sussurra, desamparada, entregue. Empurra a bunda
para trás, cobre a minha mão com a sua. — Eu não sei o que eu prefiro
— admite com um riso, a voz rasa e desejosa. Morde o lábio e geme,
rebolando contra mim.
— Sorte a sua que pode ter tudo — respondo, a voz rouca,
necessitada. O corpo queimando, à espera da ordem que sei que vai vir.
Que achava que ia vir, porque ela mais uma vez foge do nosso
roteiro. Escapa de mim, fazendo-me gemer desolado pelo abandono
súbito. Empurra-me com as costas no colchão e me abocanha antes
que eu tenha tempo de processar o que está fazendo.
— Puta que pariu — rosno, incapaz de me acostumar com a
sensação da sua boca em mim. Seguro seu cabelo, tirando-o da frente
do seu rosto. Impulsiono o quadril de encontro à sua boca e jogo a
cabeça para trás.
A ordem vem.

— Goza para mim — sussurra, descendo a boca outra vez, e não


demora mais do que alguns segundos para que eu obedeça sem
contestar.
Puxo-a para cima e prendo-a no colchão. Tomo sua boca, sentindo
meu gosto nos seus lábios.
— Você sabe que vou continuar te irritando se continuar me
recompensando desse jeito, não sabe? — sussurra, o lábio preso entre
meus dentes.
— É exatamente esse o plano, Majestade.

O céu está escuro lá fora quando acordo.


Estou sozinho na cama, enroscado no lençol, seu lado da cama
ainda bagunçado. Visto a boxer outra vez, antes de ir à sua procura.
Assim que saio da cabine, vejo que não estamos mais atracados.

Olho ao redor, vendo as luzes da cidade ao longe, a estrutura


imponente do castelo destacando-se no espaço vazio.
— Espero que velejar esteja entre suas habilidades secretas —
digo, olhando para cima para vê-la ao timão, o cabelo cheio e revolto
pelo vento.
— Para a sua sorte, está — diz, sorrindo. — Fique onde está. E
fecha os olhos.
Faço o que pede, curioso com o que quer que essa doida esteja
fazendo agora. Em uma coisa eu estava certo: nada nunca é entediante
com Madelaine por perto. Bons cinco minutos se passam antes que ela
me diga que posso olhar e, seja lá o que eu estivesse esperando, não
era um piquenique à luz de velas.

Com o cenho franzido e um sorriso no rosto, vou até ela. Sento-


me ao seu lado sobre a manta e aceito a taça de vinho que me estende.
Sugo dos seus dedos um pedaço de morango, roubando o outro da sua
boca.
— O que é isso? — pergunto.
— Seu primeiro encontro — responde, e demoro para entender do
que está falando.
Minha mente custa a me levar à nossa conversa no baile de
inverno, tantas vidas atrás. Se eu pudesse ter qualquer coisa, teria um
primeiro encontro. Porque nunca tive um. Destinado a um casamento
por conveniência, não havia motivos para isso. Nunca tive um primeiro
encontro porque nunca tive um relacionamento, nada além de encontros
casuais.

— Na verdade — ela se corrige, montando no meu colo — é o


aniversário do nosso primeiro encontro. No hotel — diz, travessa, os
olhos cintilando tanto quanto as estrelas no céu.
Aperto sua bunda e a trago para mais perto.
— Quem diria que você é romântica, Majestade — provoco,
escovando os lábios nos seus.
— Você desperta o pior de mim, general. Eu sempre soube que
tinha motivos para te odiar — devolve, faceira. Sugo seu lábio, e ela me
beija de volta. — Tenho muitos mais motivos para te amar.
Tomo sua boca em um beijo lento e cheio de promessas.
Sem que qualquer palavra seja necessária, entrego para ela o
meu coração, a minha honra e tudo o que um dia achei que jamais
pertenceria a alguém.
Pertence.
À minha rainha.
epílogo

Algumas coisas nunca mudam, não importa quanto tempo


passe.
Eu, por exemplo, continuo roubando os filhos alheios de
tempos em tempos. Estou agora mesmo com um dos gêmeos de
Louise e Stephen nos braços, o outro sendo mimado por Madelaine.
Os bebês de pouco mais de seis meses foram a mais recente
adição da família, que não para de crescer
.

Stephen e Louise têm cinco agora: Blair, Valerie, James, e os


gêmeos, Aiden e Emma. Richard, que trata o país como seu filho,
está contribuindo mais devagar pelo crescimento da família,com
Richard II, nosso futuro rei, e Ella.

Outras coisas, mudam para melhor.

O fato de conseguirmos nos reunir na casa de campo da


família,isolados do mundo, afastados de qualquer resquício de
civilização, é um milagre a ser comemorado. Um verdadeiro milagre
de Natal para os Thompson — e Denver, porque os irmãos de
Madelaine se juntaram a nós. Arrancar Richard e Madelaine de suas
responsabilidades é sempre uma operação de guerra — com sorte,
essa é a minha especialidade.

Com o exército de Devondale sob o meu comando e


finalmente estruturado como eu gostaria, é fácil convencer minha
rainha a tirar dias de folga, porque o país não está mais à beira de
um colapso. Cinco anos se passaram e as coisas agora têm gosto
de paz. Os esforços da minha mulher para corrigir os danos
causados pelo seu pai chamaram a atenção de muita gente. E se
qualquer um teve qualquer dúvida de como ela conseguiria lidar
com o trono assim que foi coroada, não demorou muito para que se
tornasse um exemplo a ser seguido.

Eu não poderia estar mais orgulhoso.

— Eu tenho uma pergunta! — Stephen diz, ainda com a sua


mania de levantar a mão para falar. — A gente vai continuar essa
história de casamento por conveniência para essa pirralhada toda?
— pergunta, fazendo um círculo amplo com o dedo para apontar as
crianças espalhadas para todos os lados.

— Eu estou fora — Brennon avisa, sentado ao lado da irmã no


tapete confortável que todos dividimos. Aos vinte e três anos, o
garoto está fazendoseu nome, construindo uma carreira sólida. Não
me atrevo a sugerir isso, porque é um futuro muito distante, mas
não duvido que seja natural que seja meu sucessor, se assim quiser.
Disciplina e competência para isso, ele tem.

— A primeira coisa que eu fiz foi mudar as leis de Devondale


— Maddy entra na conversa com uma careta. — Rainha nenhuma
descendente minha vai precisar se casar para assumir o trono. Sem
ofensas, meu amor — adiciona, batendo os cílios em uma falsa
doçura, a mão pousada no meu antebraço.

Os olhares recaem sobre Richard, porque é dele a


responsabilidade por legitimar nossas tradições ou não.
Seu olhar apaixonado cai sobre Heather, que continua o
olhando como se fosseseu mundo inteiro. Richard beija sua testa, e
ela sorri.

— Se alguma dessas crianças, quando tiverem idade para


isso, quiser um casamento arranjado, terá um casamento arranjado.
Mas não vou forçar ninguém — determina, e Heather se aconchega
ao seu peito.

— Quem escolheria se casar com um desconhecido? —


Heather murmura, sonolenta nos braços do marido.

Troco um olhar cúmplice com Madelaine, e sei que Louise faz


o mesmo com Stephen.
Às vezes a vida tem uma forma curiosa de nos levar onde
precisamos estar.

Se eu pudesse voltar atrás, não mudaria nada.


Muita coisa poderia ser diferente na nossa história.
Poderíamos sequer termos nos conhecido. Poderíamos ter casado
de imediato e jamais desenvolvido a relação que temos hoje.
Poderia ser só um acordo, poderia não ser nada. Poderia ser uma
realidade distinta e muito menos feliz.

Nós passamos por poucas e boas. Nós dois, nós seis. Minha
famíliaespalhada por todos os cantos do planeta agora, que se une
e se completa. Que se ama, se protege e apoia, acima de tudo,
acima do mundo.
Porque entre poder e amor, não há motivo para escolher. Não
quando as duas coisas existem no mesmo lugar. Não quando posso
chamar este lugar de casa.
Desço meu rosto ao dela, deixando um beijo delicado nos
lábios cheios.

— Como está se sentindo? — pergunto, ajeitando o bebê no


meu colo.

— Minha bexiga está me matando — reclama outra vez, como


tem sido comum nos últimos meses.

Desço a mão à barriga redonda, mostrando com louvor os seis


meses de gravidez.
— Falta pouco agora — comento, abaixando-me com cuidado
para beijar seu vente. — Falta pouco para eu te conhecer, meu
amor.

Provando que algumas tradições não precisam ser quebradas,


seguimos o mesmo caminho dos meus irmãos, sem querer saber o
sexo do bebê. Não importa. A única coisa que importa é que pude
dar a Madelaine a única coisa que nunca se permitiu sonhar em ter:
filhos com o homem que ama, uma famíliaunida e pronta para
qualquer coisa.
— Eu te amo — sussurro para a barriga que carrega o meu
futuro inteiro. Subo à sua boca, pesco seus lábios. — Eu amo você,
filhote de demônio.

Furto o sorriso que escapa da sua boca, tomo-o para mim.


— Mal posso esperar para saber o que essa coisinha vai fazer
para te enlouquecer — admite, e solto um gemido sofrido, porque
sei que vai ser exatamente isso que vai acontecer.
Essa criança é uma extensão dela. De cada dose de loucura e
caos, de cada gota de determinação e amor.

E eu não trocaria isso por nada.


FIM.
LEIA TAMBÉM: PRÍNCIPE DA
MENTIRA

Se você ainda não conferiuo livro do Stephen Thompson, que


tal conhecer o começo do relacionamento dele com a Louise?
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Leia Príncipe da mentira

SINOPSE:

UM ROMANCE CONTEMPORÂNEO E POR CONVENIÊNCIA


ENTRE MEMBROS DA REALEZA

Stephen Thompson está acostumado a uma vida sem grandes


emoções. Filho do meio da famíliareal de Delway, não precisa se
preparar para assumir o trono como seu irmão mais velho e nem se
preocupar em comandar o exército como o caçula. Aos trinta anos,
ocupa seus dias com trabalhos em instituições de caridade. Então,
quando seus pais o avisam que precisa honrar um acordo e se
casar com a herdeira de um paísaliado, ele não acha que tem nada
a perder.
Louise Alton se sente uma farsa. Criada para ser doce e
casta, entregue para ser a mãe dos herdeiros de um completo
desconhecido, ela sabe que precisa manter seu novo marido longe
dos seus segredos e do seu coração machucado. Mas a princesa
não demora a descobrir que não é a única a ter um passado que
pode dar um rumo diferente ao seu casamento.

Stephen não imaginou que teria seu primeiro herdeiro dessa


forma e não esperava se ver preso em uma rede de mentiras que
colocam o país em risco. Agora, precisa se tornar o príncipe da
mentira para proteger a sua família.

ESTE LIVRO NÃOÉ RECOMENDADO PARA MENORES DE


18 ANOS.

Capítulo um – Stephen

Ver o sorriso das crianças é, sem dúvidas, a melhor parte da


minha semana. As expressões radiantes sempre que eu apareço,
seja pela sacola cheia de presentes fora de hora ou apenas pela
minha presença, me enchem de um amor que nunca pensei que
fosse sentir.

— Stephen! Stephen! Você foi atingido! — grita Thomas, um


garotinho ruivo de aproximadamente sete anos, apontando uma das
arminhas de brinquedo na minha direção.
— Oh, nobre cavaleiro, eu imploro por sua clemência! —
Entrando na brincadeira, me curvo para ele e escuto sua risadinha,
fazendo-me rir também.

— Eu te perdoo e não te atinjo mais, mas só porque você é


um príncipe de verdade. A tia Dolores disse que a gente não pode
falar besteira para você.
— Thomas! — A mulher aparece, com os lábios e mãos
tremendo como sempre, nervosa simplesmente com a minha
presença aqui, mesmo que este lugar seja parte da minha rotina
semanal. Já faz bons anos que visito o orfanato, mas parece que ela
nunca se acostuma à minha presença.

De todos os trabalhos filantrópicos que faço, estar com as


crianças é o meu preferido.

— Não precisa brigar com ele, senhora Dolores. Nós estamos


brincando.

— Vossa Alteza, não queremos incomodá-lo.


Não tenho tempo de responder mais uma vez que não é
incômodo nenhum, que não venho aqui por obrigação como todos
parecem pensar, como a maioria dos membros da famíliareal de
Delway parece fazer. Não que minha famíliaseja mesquinha ou
contra atos de caridade, prefiro pensar que cada um tem uma
habilidade, uma vocação. Não consigo imaginar Theo, líder do
nosso exército, e Richard, futuro rei, que lida com todos os assuntos
burocráticos, meus queridos e atarefados irmãos, tirando várias
horas do dia para brincar com crianças.
— Príncipe Stephen, eu posso ser a sua princesa? — Escuto
uma voz fina atrás de mim e me viro, ainda com os joelhos no chão
depois de ter sido supostamente atingido pela arma de brinquedo de
Thomas.

— Oh, senhorita Blair, se você fosse um pouco mais velha,


seria uma honra. Mas que tal um príncipe da sua idade?
A expressão murcha no seu rostinho, e meu coração se parte,
porque odeio ser o causador dela. Observo a garotinha linda de
cabelos crespos, armados, traços marcantes de uma legítima
princesa. Levanto-me apenas para mexer em uma das sacolas que
trouxe e tiro uma coroa dali. Aproximo-me dela e me agacho
novamente. A expressão triste some, dando lugar a uma de
curiosidade que me faz sorrir na mesma hora.

— Mas se tem uma coisa que aprendi é que existem princesas


por aí que não precisam de príncipes.
Coloco o objeto de plástico com pedras rosa que imitam joias
na sua cabeça, e as mãos pequenas a seguram, trêmulas.

— Eu não preciso de um príncipe mesmo para ser uma


princesa? É verdade?

— Verdade. Palavra real — respondo, tocando a bochecha


negra e gorda, que logo se estica pelo sorriso arrebatador que a
toma.

Quando chega a hora de me despedir de todas elas, como


sempre é, meu coração se aperta um pouco. Era para ser um
trabalho de uma vez na semana, mas várias vezes apareço com
uma desculpa nova de que preciso checar se as crianças estão
precisando de mais alguma coisa.

O orfanato é muito mais cheio de crianças do que eu gostaria,


então, meu trabalho é garantir que não falte nada material para
nenhuma delas, que elas se sintam queridas e amadas até que
apareça alguém para adotá-las.
Saio dali e cerca de dez seguranças imediatamente me
rodeiam, fazendo um círculo de proteção enquanto volto para o
carro. Durante o caminho até o castelo, gasto bons minutos olhando
para a janela, vendo os campos muito verdes, as casas rústicas, as
vilas mais humildes.

Quanto mais me aproximo do meu destino, menos habitações


vejo, porque minha família mora mais afastada do restante da
população. Para proteção, segundo Theodore, meu irmão caçula.
Só me resta aceitar, porque não há nada que eu possa fazer para
lidar com seu jeito superprotetor, e às vezes até paranoico. Ele é o
mais novo, mas facilmente parece que é o mais velho de nós dois.
Poderia dizer de nós três, mas ninguém consegue ultrapassar o
nível de maturidade e cuidado com a famíliade Richard, nosso
irmão mais velho, futuro rei de Delway assim que nossos pais
decidirem que chegou a hora de abdicarem do trono para
descansarem.
Quando o motorista estaciona em frente ao castelo, logo um
dos funcionários aparece para abrir a porta do carro.

— Gerald, como estamos? — cumprimento o senhor que


parece um Papai Noel com um tapinha nas costas, e ele se inclina
de um jeito respeitoso, mesmo que com dificuldadedevido à barriga
protuberante.

— Vossa Alteza…
— Ah, os costumes, Gerald. Você nunca vai os perder, não é?

Sacudindo a cabeça por ninguém me ouvir e me chamar pelo


nome, subo as escadas da entrada do palácio correndo. Não tenho
nem o direito de abrir a porta, porque até isso fazempor mim. A vida
em um castelo às vezes pode ser entediante quando se tem
pessoas dispostas a limparem até a sua bunda — e nem estou
sendo exagerado, existe mesmo essa possibilidade.

— Darla… — Aceno para uma das arrumadeiras, que se curva


e acena antes de sair. — Margareth, linda como sempre.

Cumprimento vários funcionários pelo caminho e encontro


Richard saindo de um dos escritórios no andar de cima. Com a cara
enfiada em uns papéis, a expressão concentrada, a ruguinha
acentuada no meio da testa.
Observo-o de longe, contando os segundos até seus olhos
irem para o relógio de pulso. Sorrio sozinho quando, menos de dois
segundos depois, o tique se concretiza. Parece que meu irmão está
sempre atrasado para algum compromisso, sempre preocupado,
tenso, sério. Nós dois não poderíamos ser mais diferentes nesse
aspecto.

Enquanto me aproximo devagar, sem que ele tenha me


notado, vejo-o perder a compostura enquanto lê o que quer que
tenha escrito ali. Não o agrada. A mão vai até os cabelos castanhos
muito bem arrumados, iguais aos meus. Iguais aos de Theo
também. Nós somos bem parecidos, se não pela cor dos olhos, que
variam entre o de Theodore em um tom escuro de azul, os
castanhos de Richard e os meus, que são um meio-termo.

— Você ainda vai envelhecer mais uns dez anos em uma


semana se seguir enrugando o rosto assim — falo alto, esperando
assustá-lo, mas ele nem se abala quando ergue o olhar para mim.

— Onde você estava? Nós temos um jantar com nossos pais


em menos de dez minutos. Você nem está pronto — resmunga,
olhando-me de cima a baixo com a expressão carrancuda e
julgadora.

— E desde quando eu preciso colocar um terno para comer


com nossos pais? — ironizo, olhando para suas roupas bem
passadas, como se estivesse pronto para participar de um dos
muitos bailes que temos. — Não estou apresentável para jantar com
o futuro rei de Delway, Vossa Majestade?

Rio debochado, sem realmente esperar que meu irmão se


estresse e rebata. Ele é contido e sério demais para isso. Não teria
pessoa melhor para assumir o trono do nosso país do que Richard.

Abraço-o pelo ombro, sacudindo-o de leve para que relaxe,


enquanto andamos em direção à sala de jantar. Eu queria tomar um
banho antes, mas prefiro ficar assim a cometer o crime de me
atrasar.

Não é apenas meu irmão mais velho que é rígido com


horários, toda a famíliaé. Bem, exceto eu. Prova disso é encontrar
os três membros restantes já sentados à mesa, esperando. Assim
que entramos, Richard se aproxima da nossa mãe, Beatrice
Thompson, e se inclina, dando um beijo na sua mão em seguida.
Faz o mesmo com Arthuro, nosso querido pai. Repito seu gesto e
recebo a expressão doce dos dois de volta. Rígidos como
governantes do país, amorosos como pais, eles são ótimos.

— Por que não me espanta que você esteja todo sujo,


querido? — mamãe repreende em um tom amável demais, que
engana qualquer desavisado que pode pensar que por trás do
sorriso doce tem uma mulher fraca. Beatrice Thompson é a mulher
mais forte e admirável que eu conheço.
— Não duvido que estivesse rolando com os cavalos ou no
meio da plantação — alfineta Theo, sentado à esquerda da nossa
mãe.

— Eu estava com as crianças, alguém tem que fazer alguma


coisa divertida nessa família— brinco, sentando-me ao lado de
Richard.

Não consigo deixar de notar a troca de olhares entre meus


pais, discreta, mas preocupante.

Nos meus trinta anos de vida, nunca tive muitas


responsabilidades sérias com a realeza. Eventos ali, meus trabalhos
filantrópicos, jantares beneficentes acolá, nada de mais. Gosto de
socializar. Mas nunca tive que me importar em lidar com questões
diplomáticas, guerras, proteção do nome da família,caos, tretas
com outros países, nada tedioso. E meus pais tentaram muito fazer
com que eu me envolvesse mais, mas sinceramente, a ideia de
passar um dia inteiro discutindo política me faz querer me jogar do
alto da torre.
Depois que o jantar é servido, minha famíliacome em silêncio.
“Não é de bom tom conversar enquanto se come, querido.” Consigo
ouvir várias versões da minha mãe ao longo dos anos me
repreendendo. “Um príncipe não conversa quando é a hora de
comer”. Então, é por isso que estranho quando meu pai começa a
falar, soltando um pigarro, a primeira falahesitante que já presenciei
vinda dele. Ele é o rei, afinal. Hesitação não faz parte do seu
vocabulário. Até hoje.

— Steph… — ele começa após dar um gole longo no vinho.


Seu olhar vai em direção à minha mãe e, apesar da expressão de
repreensão dela, ele continua: — Nós tivemos uma mudança de
planos.
Olho para meus irmãos, e eles parecem tão surpresos quanto
eu pelo momento. Ambos largam os talheres e limpam a boca com o
guardanapo, parando qualquer movimento, os olhos focados no
nosso pai.

— Sim? — digo, esperando que continue.

— Você sabe que nosso país tem boas amizades. Nós


construímos laços fortes e vantajosos durante todos esses anos. E
queremos continuar construindo. Você sabe que a família de
Priestdale tem uma filha.

Aceno, aguardando que ele siga falando, mas Arthuro


Thompson decide que é uma boa hora para quase me causar um
ataque e dá um gole de vinho.

— Louise Alton é uma jovem muito bela, e seus pais estão


muito felizes por ela fazer parte da família.
— E por que estão falando comigo? O primeiro casamento
não deve ser o do Richard? Afinal, o futuro rei é ele — rebato, as
sobrancelhas franzidas pela dúvida.

— Eles não acham que ela está preparada para ser rainha,
mas ficaram mais do que felizes em casá-la com você.

Para a loucura da minha mãe, Theo se engasga com a água


e, em um gesto nada principesco, o líquido salta de leve da sua
boca, enquanto uma tosse misturada a uma risada sai.

— Theodore Thompson! — minha mãe briga, olhando-o feio.


— Me perdoe, mãe. Mas isso foi…inesperado. Stephen tem a
maturidade de um garoto. Como espera que seja o primeiro a se
tornar o marido de alguém?

Boquiaberto, ficosem reação. Olho para Richard, que observa


nossos pais com o mesmo choque que eu. Mas ele não ousa
questionar.

— Isso é mesmo necessário, pai? E Theo? Já que ele se acha


tão apto assim, por que a jovem não se casa com ele? E por que
eles apareceram com essa ideia assim, do nada?

— Ei! Tenho coisas mais relevantes para me preocupar.

Nossos pais suspiram ao mesmo tempo, em uma sincronia


bonita de se observar, construída ao longo dos anos. Não é
incomum que casamentos por amizade aconteçam entre os países
aliados na monarquia. Eu sabia que em algum momento isso
aconteceria. Não só comigo, mas com meus irmãos também. Só
não imaginava que fosse ser tão depressa.
— Sinto muito, filho. Sei que não estava preparado agora, mas
nós temos deveres — papai fala, e eu aceno em concordância. —
Não sabemos os motivos deles. Apesar de ser uma proposta
inesperada, não podemos negar que será um bom casamento.

— Tudo bem. Eu me caso com ela.

Voltamos a comer em silêncio e, pela primeira vez em muito


tempo, o peso da coroa real cai sobre mim, porque sei que minha
vida jamais será a mesma depois que eu me casar. Mais
responsabilidades com dois países diferentes virão, e eu estou
muito longe de estar preparado para isso.

Leia Príncipe da mentira


LEIA TAMBÉM: PRÍNCIPE DO
GELO

Se você ainda não conferiu o livro do Richard Thompson, que


tal conhecer a relação proibida dele com a Heather? Príncipe do
gelo já está disponível na Amazon.

Leia Príncipe do gelo

SINOPSE

ELE VAI SE AP
AIXONAR POR UMA PLEBEIA VIRGEM E
COMPLETAMENTE PROIBIDA

Richard Thompson teve seu destino traçado. Aos trinta e cinco


anos, o primogênito da famíliareal sabe que o trono o espera, assim
como um casamento político como mandam as tradições. Político e
responsável, sempre coloca suas obrigações acima de qualquer
outra coisa. Até que uma noite muda tudo.

Heather Stafford sonha em desbravar o mundo em cima de


um rinque de patinação no gelo. A patinadora é apaixonada pelo
que faz, mesmo que suas apresentações não sejam o suficiente
para garantir uma vida de luxo. Quando tem a oportunidade de se
apresentar para a família real, sabe que sua vida inteira pode
mudar, mas não imaginava que seria porque despertou a atenção
do futuro rei.

É um amor proibido e que não pode ter futuro, mas não há


ninguém melhor do que uma patinadora para derreter o coração do
príncipe do gelo. E quando suas obrigações são colocadas em
xeque, o futuro rei precisa escolher entre a mulher que ama, uma
plebeia doce, virgem e meiga, e o país que tem obrigação de servir.

ESTE LIVRO NÃOÉ RECOMENDADO PARA MENORES DE


18 ANOS.

Capítulo um – Richard

O atraso de vinte minutos do monarca de um dos países


aliados resultou em vinte minutos de atraso no jantar com a minha
família.Enquanto desço as escadas em direção ao grande salão de
jantar, olho no relógio de pulso, agoniado com o tictac do ponteiro
que parece zombar de mim.

Assim que adentro o cômodo, o sorrisinho zombeteiro do meu


irmão Stephen, o filho do meio da famíliareal Thompson, me atinge
pelo meu atraso. Eu nunca me atraso.

— Ora, ora, se não as coisas não estão mesmo mudadas


nessa família— ele zomba, mesmo que a expressão da nossa mãe,
Beatrice Thompson, seja de repreensão ao encará-lo.

Como sempre é, não caio na sua provocação e cumprimento a


todos com uma reverência rápida antes de me sentar ao lado do
nosso pai, Arthuro Thompson, o até então rei de Delway. Pelo
menos de nome, já que há bons anos venho desempenhando a sua
função. Ele cuida das assinaturas, eu cuido do trabalho árduo e das
burocracias. Como um treino para o futuro próximo, ele disse
quando sugeriu que eu passasse a tomar conta de tudo antes de ser
coroado de fato. Mas sei que nosso pai só está cansado.

Ele assumiu o trono muito cedo e pouco aproveitou do seu


casamento e dos seus filhos. As viagens que Arthuro e Beatrice
Thompson tanto amam só estão sendo feitasagora. De certa forma,
me sinto honrado pela confiança que eles depositam em mim.

— Tudo bem, filho? Você parece cansado — meu pai


comenta, inclinando a cabeça de leve em minha direção para que
Beatrice não nos repreenda por conversar à mesa.

Faz algum tempo que ela deixou de ser tão rígida com essas
regras, afinal não tem como controlar crianças por muito tempo, mas
é difícilse desfazer de costumes rígidos, então nós ainda estamos
nos acostumando à nossa nova rotina.

— Estou bem, pai. Só tive um dia cheio.

— Se você estiver sobrecarregado demais, eu posso tomar o


controle novamente. Você sabe que não precisa pegar uma
responsabilidade dessas tão cedo — fala, esticando a mão para
apertar a minha por cima da mesa.
— O senhor sabe que esse é o meu sonho. Eu nasci para
isso. Não estou sobrecarregado.

Ele sorri orgulhoso e acena em concordância.


Distraio-me por alguns segundos quando mamãe autoriza que
o jantar seja servido, agora que cheguei. Escuto a barulheira
incomum enquanto as comidas são servidas e preciso assumir que
gosto de como as coisas estão funcionando depois que Stephen se
casou.

O casamento foi inesperado, porque de acordo com as


tradições, eu, como irmão mais velho e futuro rei, deveria ser o
primeiro a me casar para poder assumir o trono que meus pais
estão doidos para abdicarem. Mas, contrariando todas as
expectativas, Stephen se casou em uma união por conveniência
com a princesa de um dos países com quem tínhamos uma
amizade e aliança. A chegada das minhas sobrinhas só serviu para
alegrar o castelo, que sempre foi tão silencioso.
— Você está triste, titio rei? É por que vai ficarvelho? Não fica
assim, ser adulto é muito legal. — Blair Thompson-Alton, minha
sobrinha mais velha, uma garotinha muito esperta de sete anos, faz
todos rirem à mesa, inclusive eu.

— Não estou triste. Só estou um pouquinho cansado. E como


a mocinha sabe que ser adulto é legal?

— É o que dizem. — A pequena dá de ombros e logo se


desinteressa pelo assunto, embarcando em uma conversa com a
bebê ao seu lado. Quer dizer, em um monólogo, porque Valerie, a
minha sobrinha mais nova, está começando a soltar as primeiras
palavrinhas agora.

Vejo a expressão de preocupação no rosto de todos ao me


fitarem e imagino que minha face deve estar estampando todo o
cansaço do dia. Da semana. Mas já estou acostumado a lidar com
todos os membros dessa família,e eles estão acostumados que
dificilmente vou assumir alguma fraqueza, então nunca insistem.
Felizmente para mim, não menti para meu pai quando disse
que é meu sonho de vida assumir o trono. Vale a pena todo o
cansaço. Acho que me preparo para isso desde os meus dez anos,
quando vi meu pai comandar o paísinteiro de formajusta, ajudando
quem precisava, sendo firme onde requeria. Ele sempre foi meu
exemplo. Mesmo que isso drene todas as minhas energias, foi para
isso que estudei e me dediquei a minha vida inteira: para me tornar
um rei como Arthuro foi.

A ansiedade pela coroação me corrói, mas não tenho muito


tempo para pensar nisso. Sei que antes vou precisar encontrar uma
esposa, alguma princesa que se encaixe no perfil de rainha. Ainda
não tenho nenhuma em mente, mas sei que minha mãe já deve ter
dezenas de princesas na sua lista.
Não me importo em obedecer às tradições; na verdade,
acredito fielmente que nosso país só chegou onde está pelo fato de
as seguirmos. Foram poucas as exceções que resultaram em coisas
boas, uma delas foia confusão em que Stephen nos meteu com seu
casamento.

Faço minha refeição em silêncio, observando a dinâmica de


cada um à mesa. Stephen e Louise, sua esposa, não param de
trocar olhares apaixonados e toques despretensiosos. Nossa mãe
não para de babar em Valerie, com pouco mais de um ano de idade
agora. Theodore, meu irmão caçula e general do exército, calado
até então, observa a tudo com a sobrancelha arqueada e o sorriso
zombeteiro.

— Por favor, Richard, quando você se casar, não fique como


esses dois aqui — Theo pirraça Stephen, que só não o bate como
costumava fazer quando éramos pequenos porque ele tenta fingir
seriedade durante o jantar pelo menos.
— Diga isso depois que você se casar. E espero que você não
suporte ficar sem a sua esposa da mesma forma que eu.

Louise sorri para ele e toca seu rosto com carinho.

É estranho observar como esses dois parecem ser um só na


maior parte do tempo. O amor deles sobreviveu a poucas e boas.

Sinceramente, não me imagino em um relacionamento assim.


Sim, vou me casar com alguma princesa algum dia, mas será mera
conveniência. Não me imagino marido de alguém, porém sei que
farei o necessário para que a minha coroação seja possível. E se
para assumir a coroa, preciso disso, então me caso sem questionar.

Só que a certeza de que não encontrarei o amor da minha


vida assim vem forte, pois um raio não cai duas vezes no mesmo
lugar, muito menos três. Meus pais se amam de forma devota,
Stephen e Louise se completam como ninguém. Isso não vai
acontecer comigo. E não procuro por isso. Estou bem com o
comando do meu país, não tenho nem tempo para relacionamentos
sérios. Mesmo que eu admire o amor dos meus pais e do meu
irmão, o sentimento não é a minha prioridade.

Nós terminamos de comer em uma bagunça agradável. Nosso


irmão do meio conta sobre mais um dia no orfanato, o local preferido
da sua vida inteira, com o sorriso habitual no rosto sempre que fala
das crianças que ajuda. Louise colabora com as histórias, porque
depois que se casaram, eles se engajaram ainda mais com os
trabalhos filantrópicos.

Preciso agradecer à minha cunhada por ter assumido essa


parte de decidir sobre os eventos. Mesmo que nós não façamos
tudo, porque somos cercados de gente dispostas a fazerem o que
for preciso, em qualquer situação, nós temos em comum o fato de
gostarmos de nos envolver diretamente naquilo que nascemos para
fazer. Eu, em encontros diretos, viagens, congressos, eventos
políticos; Stephen nas instituições em que ajudamos, em visitas
semanais, levando mantimentos, e Theodore no exército, treinando
os soldados, viajando para ajudar países aliados quando solicitado.
E agora Louise, que está cuidando da organização de todos os
eventos. Menos uma coisa para eu me preocupar. Deixei tudo em
suas mãos, e nas do meu irmão quando decide se envolver.

— Richard, posso ajustar uns detalhes com você sobre o seu


aniversário depois? — Falando nela, minha cunhada faladepois que
terminam a história da apresentação que fizeram no orfanato.

— Claro. — Aceno sucinto, e Louise faz o mesmo.

Quando os funcionários do castelo recolhem os pratos, nós


nos levantamos e cada um vai para os seus aposentos. O único que
fica ao meu lado é Theodore, que me acompanha na minha
caminhada em direção ao andar superior, onde fica meu quarto.

— Você está bem mesmo?

Viro-me de lado para mirar o caçula, as tatuagens em excesso


de fora da camisa social branca que usa, o cabelo quase raspado,
os olhos azuis brilhantes demais.

— Está. Por que não estaria?

— Você está mais cansado do que o normal. Seus exames


estão em dia? — fala, e solto uma risada baixa.

Theo às vezes é paranoico com a proteção da nossa famíliae


faz de tudo para que cada membro fique bem, mesmo que signifique
ficar de olho em cada aspecto da nossa vida.

— Não vou morrer agora, irmão. Estou bem. Amanhã estarei


novo.

— Diga isso depois que essa expressão de quase morte sair


do seu rosto.

— Quando ficou tão dramático? — pergunto, com a


sobrancelha arqueada, encarando a expressão de verdadeira
preocupação.

Theodore para na minha frente, impedindo minha passagem,


e coloca a mão na minha nuca. Sei que, quando é assim, é porque
atingiu seu limite de preocupação, então tento o tranquilizar.
— Está tudo bem.
— Você tem essa pose de dono do mundo que não se abala
com nada, mas aqui dentro, para a sua família,você é apenas o
Richard filho, irmão, tio, o que for — fala, encostando a testa na
minha. — Você não precisa carregar o mundo sozinho.

Dou um tapa no seu ombro e o tranquilizo mais uma vez de


que tudo está bem. E está mesmo.

Ele acena, mesmo contrariado, e me distraio quando meu


celular começa a vibrar no bolso da calça social. Despeço-me de
Theo com um boa-noite e dou atenção à minha agenda programada
para o dia seguinte. Mal o dia se encerrou e já tenho ideia de tudo o
que me espera amanhã.

Subo as escadas até o andar superior, confirmando todos os


compromissos para que possam aparecer na minha agenda.

Assim que chego ao quarto, me livro de toda a roupa social


que faz parte de mim no meu dia a dia e vou até a sala de banho.
Fico em frenteao espelho por alguns segundos para ver o que tanto
pareceu assustar a minha família e noto as olheiras escuras
embaixo dos olhos castanhos. Apesar da boa aparência, do cabelo
bem cortado, da barba feita e do terno impecável, estou mesmo um
caco. Isso porque dormi pouco mais do que quatro horas na noite
passada, porque tive que me encontrar com um embaixador do
outro lado do país.

Tomo um banho demorado, mas saio dos meus poucos


minutos de descanso com mais notificações vindas do meu celular.
Enrolo apenas uma toalha na cintura e volto para o quarto, vendo
mais compromissos sendo inseridos pela assistente que cuida
exclusivamente da minha agenda. Suspiro e aperto os olhos ao ver
que as seis horas que eu ia dormir se transformaram em quatro,
porque uma coletiva de imprensa foi inserida para bem cedo.

Apesar de todo o cansaço, me sinto realizado por estar


vivendo tudo o que sempre desejei.

E esse é só o começo do meu reinado.

Leia Príncipe do gelo


Sobre a autora

Victoria Gomes, nascida e criada no Rio de Janeiro, tem vinte


e seis anos e atualmente mora na Austrália. Bióloga de formação,
trabalha como revisora e dedica grande parte dos seus dias à
escrita dos seus livros. Começou a escrever em junho de 2017,
quando conheceu o Wattpad por meio de uma amiga, e,
percorrendo os mais diversos gêneros, conta com um livro de
fantasia infanto-juvenil e um drama, além de diversos contos,
disponíveis na plataforma. Começou na Amazon em outubro de
2018 e desde então a escrita virou seu trabalho em tempo integral.

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