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XXVII Congresso Interamericano de Engenharia Sanitária e Ambiental

V-010 - ESTUDOS DE CASO DA APLICAÇÃO DA FERRAMENTA


GERENCIAL CPOQ NA ANÁLISE DO SISTEMA DE GERENCIAMENTO DOS
RECURSOS HÍDRICOS DA BACIA HIDROGRÁFICA DO ALTO TIETÊ -
REGIÃO METROPOLITANA DE SÃO PAULO

Luís Eduardo Gregolin Grisotto(1)


Ecólogo. Especialização em Gestão Ambiental e Mestrando pela Faculdade de Saúde
Pública da Universidade de São Paulo. Integrante da equipe de gerenciamento e apoio à
UGP- Unidade de Gerenciamento do Programa Guarapiranga.
Paulo Roberto Inglez de Souza
Biólogo. Especialização em Gestão Ambiental pela Faculdade de Saúde Pública da
Universidade de São Paulo
Carlos Roberto Sampaio Leite
Advogado da Cia. de Saneamento Básico do Estado de São Paulo – SABESP.
Arlindo Phillipi Jr.
Engenheiro Civil e Sanitarista. Doutor em Saúde Pública. Pós-Doutorado em Política e Gestão Ambiental.
Professor da Faculdade de Saúde Pública e Coordenador Científico do Núcleo de Informações em Saúde
Ambiental da Universidade de São Paulo

Endereço(1): Rua Teodoro Sampaio, no 363 - apto 1.102 - Pinheiros - São Paulo - SP - CEP: 05405-000 -
Brasil - Tel: +55 (xx) 11 3064-5298 - Fax: +55 (xx) 11 3064-5298 - e-mail: edugrisotto@hotmail.com

RESUMO
A deficiência dos serviços públicos e a baixa oferta de infra-estrutura, aliadas a ocupação inadvertida dos
mananciais, indicaram a gradativa deterioração da qualidade das águas metropolitanas, como do Rio Tietê ou
da própria represa do Guarapiranga, chegando a inviabilizar, muitas vezes, o processo de abastecimento.
Partindo de uma análise das iniciativas que objetivaram mitigar ou eliminar tais impactos, o presente
trabalho procurou identificar as principais características do Projeto Tietê e do Programa de Saneamento
Ambiental da Bacia do Guarapiranga, ambas iniciativas realizadas na Bacia do Alto Tietê – Região
Metropolitana de São Paulo, tendo como base a aplicação da ferramenta gerencial CPOQ, efetuando
questionamentos sobre O que deve ser gerenciado? (What); Porque gerenciar os recursos hídricos? (Why);
Como e Onde gerenciá-los? (How e Where); Quem deve gerenciar? (Who); e Quando fazer e Quanto Custa
o gerenciamento? (When e How many). Com respeito sobre o quê gerenciar?, tanto o Projeto Tietê quanto o
Programa Guarapiranga caracterizam-se como um conjunto de ações para a melhoria da qualidade das águas,
prevendo intervenções físicas e institucionais. No item porque gerenciar, ambos também coincidem na
redução da poluição como pressuposto básico para a sustentabilidade dos recursos hídricos. Quanto ao como e
onde gerenciar, tendo o entorno do Rio Tietê e a bacia hidrográfica do Guarapiranga como unidades
geográficas de intervenção, coube referência particular aos sistemas colegiados como forma de apoio à gestão
e controle das atividades nessas áreas, cuja forma associa-se ao item quem gerencia, apoiando-se nas políticas
públicas e no exercício paritário da gestão, vinculado à participação do Estado, dos municípios e sociedade
civil. Sobre o quando fazer e quanto custa, o Projeto Tietê apontou custos próximos a US$ 900 milhões
(reavaliados em US$ 1,1 bilhão), com horizonte de execução entre 1992 e 1998 enquanto o Programa
Guarapiranga, originalmente orçado em US$ 262 milhões, alcançou US$ 336 milhões para o
desenvolvimento dos estudos, obras e serviços, sendo desenvolvidos no período de 1992 a 2000. De forma
conclusiva, a análise de estudos de caso a partir do emprego da ferramenta gerencial da qualidade CPOQ
facilitou a organização das informações e permitiu a sistematização dos dados de forma a sugerir-se seu
emprego na análise de outros estudos de caso, inclusive para o desdobramento de novas soluções integradas
de ação, estudos e projetos ou, ainda, para fins de capacitação técnica relacionada aos recursos hídricos.

PALAVRAS-CHAVE: Recursos Hídricos, Gerenciamento, Ferramentas da Qualidade, Projeto Tietê,


Programa Guarapiranga.

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INTRODUÇÃO
A deficiência dos serviços públicos e a baixa oferta de infra-estrutura aliadas a ocupação inadvertida dos
mananciais indicaram uma gradativa deterioração da qualidade das águas metropolitanas, como do Rio Tietê
ou da própria represa do Guarapiranga, notando-se, nessas águas, problemas associados ao acúmulo de algas,
de gosto e odor, anoxia ou concentração alterada de fósforo e nitrogênio oriundos principalmente dos esgotos
domésticos aí lançados, chegando a inviabilizar, muitas vezes, o processo de abastecimento público.

No bojo desse cenário e tendo em vista a complexidade desses problemas, surgiram algumas iniciativas, tais
como os Projetos Tietê e Programa de Saneamento Ambiental da Bacia do Guarapiranga, como esforços do
poder público para mitigar e reverter esses impactos e assegurar a sustentabilidade dos recursos hídricos para
as várias finalidades de uso, considerado-se, ainda, a disparidade entre o crescimento dos níveis de
disponibilidade hídrica frente à crescente demanda pelo uso da água na Metrópole de São Paulo.

Partindo de uma análise sistemática destas iniciativas, através do uso da ferramenta gerencial da qualidade
CPOQ, o presente trabalho objetivou (i) identificar e organizar as principais características de cada projeto;
(ii) descrever suas particularidades segundo uma estrutura metodológica que permitisse subsidiar o
desenvolvimento de planos de ação para a sustentabilidade das intervenções; (iii) orientar a prática de
planejamento de novas iniciativas, com base na metodologia apresentada; e (iv) subsidiar planos e programas
de capacitação técnica relacionados ao gerenciamento dos recursos hídricos.

MATERIAIS E MÉTODOS
O método aplicado consistiu na adaptação da ferramenta 5W e 1H, baseada nos questionamentos das palavras em
inglês: What, Why, Where, Who, When, How e How Many para CPOQ, cujo método é bastante usual no ambiente
gerencial empresarial e nos sistemas de gestão da qualidade. Trata-se de questionamentos dirigidos à temática do
gerenciamento de recursos hídricos, a partir de sete perguntas-chave, quais sejam: O que deve ser gerenciado?
(What); Porque gerenciar os recursos hídricos? (Why); Como e Onde gerenciá-los? (How e Where); Quem deve
gerenciar? (Who); e Quando fazer e Quanto Custa o gerenciamento? (When e How many).

Essa ferramenta tem, conforme apresentam CAPELOSSI & ASSUNÇÃO (1993), relação direta com outras
ferramentas estatísticas normalmente empregadas na análise da disponibilidade e qualidade hídrica, tais
como avaliações da escassez de água e das atitudes pró-ativas voltadas à mitigação ou eliminação dos
impactos ambientais associados a suas causas. A ferramenta CPOQ associa-se, também, ao chamado ciclo
PDCA, também identificado como ciclo de Shewhart, cujo sistema de autoria de William Deming teria como
finalidade tornar exeqüível os 14 princípios formulados para a prática da administração da qualidade
empresarial (BATEMAN,1998 e MAXIMIANO, 1995).

O presente trabalho visou identificar e caracterizar o escopo das atividades e objetivos do Projeto Tietê (1a
Etapa) e do Programa de Saneamento Ambiental da Bacia do Guarapiranga através da aplicação do CPOQ,
ou seja, gerando-se respostas aos questionamentos apresentados.

O Projeto Tietê constituiu um conjunto de ações integradas, desencadeado pelo Governo do Estado de São
Paulo, para a melhoria e controle da qualidade das águas da Bacia do Alto Tietê, tendo como objetivo um
amplo processo de recuperação ambiental atingindo os recursos hídricos, desde os pequenos córregos até os
rios principais, sendo necessário que se atuasse efetivamente sobre o sistema público de coleta e tratamento
de esgotos, efluentes de origem não-doméstica, urbanização e recuperação de fundos de vale, coleta e
disposição final de resíduos sólidos e em melhorias nos sistemas de limpeza pública.

Já o Programa de Saneamento Ambiental da Bacia do Guarapiranga tem como área de abrangência a própria
bacia hidrográfica, situada no sudoeste da Região Metropolitana de São Paulo, ocupando área equivalente a
639 Km2, estendidos entre seis municípios e com uma população residente, predominantemente, concentrada
em áreas urbanizadas de baixo padrão habitacional. Entre 1980 e 1999, a região da bacia do Guarapiranga
teve a sua população ampliada de 332 mil para 650 mil pessoas, dentre as quais 450 mil estão situadas no
município de São Paulo. A represa Guarapiranga é o segundo maior sistema produtor de água da Grande São
Paulo, responsável pelo abastecimento de cerca de 3 milhões de habitantes na Região Metropolitana de São
Paulo.

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RESULTADOS

Aspectos Gerais do Projeto Tietê


O Rio Tietê, como descreve BRUNA (1999), “talvez seja o rio que mais possibilidades tem de alavancar
planos e projetos para um desenvolvimento, unindo turismo, comércio e agribusiness, isso porque atravessa o
Estado mais rico da nação e, com o sistema de navegação em suas águas, estruturando uma rede hidrográfica
que hoje conta com a navegação nos rios Tietê e Paraná, começa a servir para transbordo da produção de uma
ampla região.”

Devido à poluição crescente das águas do Rio Tietê, principalmente no trecho correspondente à Região
Metropolitana de São Paulo onde o crescimento e adensamento urbano não foi acompanhado de uma oferta
compatível de serviços públicos de saneamento básico e infra-estrutura, surgiram iniciativas que buscaram
mitigar tais impactos, como o Projeto Tietê, que trouxe consigo alternativas para a melhoria da qualidade das
águas através de um plano de intervenções no seu entorno e, ainda, propostas de aproveitamento dos recursos
hídricos da bacia do Alto Tietê, tais como o Plano Integrado de Aproveitamento dos Recursos Hídricos das
Bacias Alto Tietê, Piracicaba e Baixada Santista elaborado pelo Consórcio HIDROPLAN, em 1995, afim de
equacionar as demandas hídricas até o ano de 2020.

O Projeto Tietê, constituiu um conjunto de ações integradas, desencadeado pelo Governo do Estado de São
Paulo, para a melhoria e controle da qualidade das águas da bacia do Alto Tietê que, segundo BRUNA
(1999), foi criado em 1992 mas somente viabilizado em 1995, tendo, portanto, como objetivo um amplo
processo de recuperação ambiental atingindo os recursos hídricos, desde os pequenos córregos até os rios
principais. Para que isso se tornasse realidade era necessário que se atuasse efetivamente sobre o sistema
público de coleta e tratamento de esgotos domésticos, efluentes de origem não-doméstica, urbanização e
recuperação de fundos de vale, coleta e disposição final de resíduos sólidos e em melhorias nos sistemas de
limpeza pública, além de atividades relacionadas à educação ambiental.

Com o Programa seriam executadas as intervenções relacionadas no Quadro 1, com a primeira etapa das
obras do sistema de esgotos somando investimentos de US$ 900 milhões (reavaliados posteriormente em US$
1,1 bilhão, dos quais US$ 450 milhões financiados pelo Programa BID- Banco Interamericano de
Desenvolvimento e os US$ 650 milhões restantes com recursos próprios). O gerenciamento dos recursos e das
intervenções coube ao Governo do Estado de São Paulo e, considerando-se a criação do Comitê da Bacia
Hidrográfica do Alto Tietê em 1994, enalteceu-se a importância do Projeto Tietê e das iniciativas
relacionadas ao gerenciamento e sustentabilidade dos recursos hídricos da bacia do Alto Tietê, discutidas por
representantes do Poder Público estadual, municipal e representantes da sociedade civil organizada.

Quadro 1 - Obras Previstas no Projeto Tietê


OBRA 1ª ETAPA 2ª ETAPA TOTAL
Rede Coletora (km) 1.500 500 2.000
Ligações Domiciliares (un) 248.000 52.000 300.000
Coletores – Tronco (km) 315 278 593
Interceptores (km) 37 83 120
ETE Barueri (m3/s) - incremento 2,5 4,75 7,25
ETE ABC (m3/s) 3,0 1,5 4,5
ETE Parque Novo Mundo (m3/s) 2,5 2,5 5,0
ETE São Miguel (m3/s) 1,5 3,0 4,5

Programa de Despoluição Industrial


O Programa de Despoluição Industrial, parte integrante do Projeto Tietê, visou em sua primeira etapa
controlar e monitorar os despejos de 1.250 empresas, através da implementação de projetos associados ao
controle das fontes prioritárias de poluição das águas; capacitação técnica do corpo operacional da CETESB;
implantação de um sistema integrado de processamento de dados; e adequação da infra-estrutura da
CETESB.

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Com o desenvolvimento desses projetos, previa-se a eliminação de cerca de 85% da carga inorgânica de
origem industrial que era despejada na bacia do Alto Tietê, promovendo o controle sobre a carga orgânica
gerada pelas indústrias, obtido pelo enquadramento dos efluentes líquidos nos parâmetros de emissão
estabelecidos contando, ainda, com o controle dos resíduos gerados pelos sistemas de tratamento de águas
residuárias implantados nas indústrias do programa e com a capacitação técnica e aperfeiçoamento do corpo
operacional da CETESB, direta ou indiretamente ligado ao programa de despoluição industrial, ao mesmo
tempo que se promovia o aumento da eficiência das ações de controle, pela informatização dos procedimentos
técnicos e administrativos; e o provimento de uma infra-estrutura de comunicação, de transportes e de
instalações, compatível com as necessidades da CETESB.

As atividades desenvolvidas pela CETESB visavam atingir uma série de metas globais, destacadamente, o
controle de 300 indústrias até dezembro de 1992, aumentando-se para 650 indústrias até dezembro de 1993 e,
finalmente, para 1.250 indústrias até dezembro de 1994.

Nos relatórios de situação de 1997, cerca de 97% das indústrias implantaram planos de controle e obtiveram
avaliação demonstrando o atendimento ao padrões legais de emissão, ou seja, tendo os seus casos resolvidos.
Cerca de 1,8% implantaram sistemas de tratamento que se encontravam em aferição, por não atenderem aos
padrões de emissão, enquanto que apenas 0,56% das empresas estavam implantando seus planos de controle.

Considerados os aspectos gerais do Projeto Tietê e sua inserção metropolitana, partiu-se para a aplicação da
metodologia CPOQ, realizando-se os questionamentos sobre o que deve ser gerenciado?; porque gerenciar?;
como e onde gerenciar?; quem deve gerenciar?; e quando fazer e quanto custa o gerenciamento?,
identificando-se os seguintes resultados:

a) O - O Quê Gerenciar: a Primeira Etapa do Projeto Tietê caracteriza-se como um conjunto de ações para a
melhoria e controle da qualidade das águas da bacia do Alto Tietê, implicando, diretamente, no aspecto
qualitativo das águas em relação à sua disponibilidade para uso futuro e sustentabilidade deste corpo d’água.
Previu, por conta disso, a implementação de intervenções físicas, relacionadas ao sistema de esgotamento
sanitário (ligações domiciliares, coletores-tronco, interceptores e estações de tratamento de esgotos – estas
construídas ou com sua capacidade ampliada) e efluentes não-domésticos;

b) P - PorQue Gerenciar: a redução da poluição sobre os rios é pressuposto básico para a sustentabilidade
ambiental e, neste caso, conta com a redução de impactos ambientais diretos sobre o rio Tietê e seus
tributários, tais como os esgotos sanitários de origem doméstica e as descargas industriais e as cargas
poluidoras orgânicas e inorgânicas associadas. A sustentabilidade ambiental nos centros urbanos, segundo
MAGLIO (1999), é um dos maiores desafios ambientais deste final de século, reconhecendo-se que o
acúmulo de problemas relativos à poluição das águas “não apenas afeta a produtividade das cidades mas
também cobra um ônus maior das populações mais pobres, sobre as quais recaem os impactos desse
processo”;

c) C & O - Como e Onde Gerenciar: a localidade e delimitação geográfica das intervenções identifica-se
como a bacia hidrográfica do Alto Tietê, de modo que a prática do gerenciamento dos recursos hídricos
através das atividades e intervenções implementadas contou com incrementos de caráter institucional a partir
da criação do Comitê da Bacia do Alto Tietê, que ampliou as discussões em torno da importância do Projeto
Tietê e da participação colegiada na tomada de decisões relacionadas à sustentabilidade das águas. Esse novo
modus de gestão, descentralizado e integrado, é um dos mecanismos adotados pela Política Nacional e
Estadual de Recursos Hídricos para assegurar a implementação dos fundamentos, princípios, objetivos e
diretrizes de ação e o planejamento das ações voltadas ao gerenciamento dos recursos hídricos em nível local
ou regional;

d) Q - Quem Gerencia: tendo em vista que o gerenciamento das intervenções e dos recursos é realizado pelo
Governo do Estado de São Paulo, tomador do empréstimo junto ao Banco Interamericano de
Desenvolvimento – BID, cabe ressaltar o apoio dos entes colegiados nas discussões e avaliações dos reflexos
do Projeto Tietê no âmbito da Região Metropolitana de São Paulo e na evolução do sistema de gerenciamento
de recursos hídricos, cuja participação do Poder Público Estadual, dos municípios envolvidos e da sociedade
civil, componentes do Comitê da Bacia do Alto Tietê;

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e) Q & Q - Quando e Quanto Custa: aponta-se custos e investimentos da ordem de US$ 900 milhões,
reavaliados posteriormente em US$ 1,1 bilhão, dos quais US$ 450 milhões financiados pelo Programa BID-
Banco Interamericano de Desenvolvimento e os US$ 650 milhões restantes com recursos próprios, cujo
período de execução e desenvolvimento das intervenções situou-se entre 1992 e 1998.

Considerações sobre o Programa de Saneamento Ambiental da Bacia do Guarapiranga


A Bacia do Guarapiranga está situada no sudoeste da Região Metropolitana de São Paulo, ocupando área
equivalente a 639 Km2, estendidos entre os municípios de São Paulo (34%), Embu (7%), Itapecerica da Serra
(23%), Embu-Guaçu ( 24%), Cotia (3%), São Lourenço da Serra (5%) e Juquitiba (1%) e a população
residente, predominantemente, concentra-se em áreas urbanizadas de baixo padrão habitacional. Entre 1980
e 1999, a região da bacia do Guarapiranga teve a sua população ampliada de 332 mil para 650 mil pessoas,
dentre as quais 450 mil estão situadas no município de São Paulo.
A represa Guarapiranga, tomando área de 26 Km2, é o segundo maior sistema produtor de água da Grande
São Paulo, com capacidade de acumulação de 180 milhões de metros cúbicos. A SABESP – Companhia de
Saneamento Básico do Estado de São Paulo, retira da represa 12,0 m3/s de água, responsáveis pelo
abastecimento de cerca de 3 milhões de habitantes na Região Metropolitana de São Paulo.
O avanço da malha urbana na Bacia do Guarapiranga motivou o Poder Público, durante a década de 70, a
elaborar dispositivos legais que regulassem o uso e ocupação do solo, com a finalidade última de proteger os
recursos hídricos e disciplinando o uso do solo para proteção dos mananciais da grande São Paulo.
Se, por um lado, conteve a atividade industrial na Bacia, não inibiu a urbanização descontrolada, com o
aumento do número de favelas e loteamentos clandestinos, representando cerca de 18% da população da
Bacia, ou seja, próximo a 100 mil habitantes em favelas. Esta ocupação se deve, sobretudo, à oferta de
empregos em áreas dinâmicas muito próximas à bacia, localizadas na região sul da Região Metropolitana de
São Paulo, entre os bairros de Santo Amaro, Brooklin e Interlagos.
Este fato se aliou a deficiência na rede coletora de esgotos e demais serviços públicos, ocasionados pelo desejo
do Poder Público de conter a ocupação da bacia. Apesar dessa baixa oferta de infra-estrutura, a ocupação
continuou ocorrendo, prevendo que a estratégia estava errada.
Estes processos indicaram uma gradativa deterioração da qualidade da água da represa, notados pelo
aumento na concentração de fósforo e nitrogênio oriundos principalmente dos esgotos domésticos lançados
na represa, intensificando o crescimento de algas e, por conseguinte, a existência de odor e gosto
desagradáveis nas águas de abastecimento. O excesso de algas, sobretudo entre 1977 e 1989, obrigou a
SABESP a empregar, em diversos momentos, produtos químicos para corrigir o problema mas que,
invariavelmente, alterou e onerou a operação das estações de tratamento de água.
Mobilizado à buscar soluções efetivas, o Governo do Estado substituiu a procura de novos mananciais pela adoção
de um Programa que permitisse diminuir as conseqüências negativas da ocupação e uso do solo e, ao mesmo tempo,
definisse e operasse mecanismos de reordenação deste quadro urbano, paralelo à uma nova configuração
institucional proporcionada pelo advento da Política Estadual de Recursos Hídricos, com o surgimento dos
dispositivos legais que disciplinaram a proteção aos mananciais, em 1997, e com os desdobramentos relativos a
gestão da bacia do Guarapiranga, alicerçada pela criação do Comitê de Bacia do Alto Tietê, em 1994, e da
operacionalização do Sub-Comitê Cotia-Guarapiranga, órgão colegiado descentralizado de apoio à gestão da bacia
instituído em 1997, contando com representação paritária do Estado, Municípios e sociedade civil, contando-se com
11 representantes de cada segmento, segundo estatuto deste órgão.
Muito embora o Programa de Saneamento Ambiental da Bacia do Guarapiranga objetivasse assegurar a
qualidade da água do manancial, desdobrou-se em duas metas específicas: (i) a melhoria da qualidade de vida
da população da Bacia e a proteção do manancial por meio da implantação de parques e áreas verdes,
incluindo-se reflorestamentos e adequação paisagística e (ii) a criação de uma unidade de gestão, adotando
padrões ambientalmente sustentáveis de ocupação e controle da ocupação territorial.
Estas duas estratégias estão sendo implantadas através de intervenções desenvolvidas por cinco organismos
executores, distribuídos em cinco subprogramas distintos, conforme apresenta o Quadro 2.

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Quadro 2 – Subprogramas de Intervenções do Programa Guarapiranga.


SUBPROGRAMAS DESCRIÇÃO DAS ATIVIDADES
Expansão das redes coletoras de esgoto
Incremento no número de ligações domiciliares
I - Serviços de Água e Esgotos Implantação de interceptores e coletores tronco
Construção de estações elevatórias de esgoto
Implantação de estações de tratamento de esgoto
Expansão dos serviços de coleta de resíduos nos municípios de
Embu, Itapecerica da Serra e Embu-Guaçu
II - Coleta e Disposição Final do Lixo Adequação e melhorias no sistema de disposição final dos resíduos
sólidos nos municípios de Embu e Itapecerica da Serra
Adequação de infraestrutura urbana
Urbanização de favelas
III - Recuperação Urbana
Construção de Conjuntos e Unidades Habitacionais para
reassentamento populacional
Implantação de parques, educação ambiental, estudos ambientais e
IV - Proteção Ambiental
fiscalização integrada
Operacionalização da gestão com apoio de instrumentos
V - Gestão da Bacia georreferenciados e informações gerenciais, elaboração do PDPA,
capacitação técnica de lideranças e ONG's para a gestão da bacia

A implementação destas ações iniciou-se a partir da assinatura do contrato de empréstimo entre o Governo do
Estado e o Banco Mundial em 1992, com um orçamento original de US$ 262 milhões, dos quais US$ 119
milhões financiados pelo Banco Mundial. Os investimentos totais reprogramados, atualmente, no Programa
de Saneamento da Bacia somam US$ 336 milhões, fruto de incrementos no desenvolvimento de estudos,
obras e serviços, de modo que os valores originais financiados pelo BIRD não se alteraram, permanecendo os
US$ 119 milhões.

Os principais tributários da Bacia do Guarapiranga são os rios Lavra, Bonito-Pedras, Santa Rita, Parelheiros,
Embu-Guaçu, Embu-Mirim, córregos Guavirutuba e Itupu, estes dois últimos sendo responsáveis por quase
50% das cargas poluidoras totais afluentes ao reservatório.

As cargas de DBO por dia, apresentadas e medidas pela CETESB (1997), totalizam 34,1 ton DBO/dia ,
sendo que deste montante 33,4 ton se referem a cargas domésticas enquanto somente 0,7 ton referentes às
cargas industriais.

O monitoramento da qualidade das águas do reservatório e dos seus afluentes, é realizado pela SABESP e
CETESB: a SABESP com 8 pontos no reservatório Guarapiranga e 13 pontos nos seus tributários, e a
CETESB realizando amostragens em três pontos do reservatório. A CETESB também monitora a
balneabilidade em 12 praias do reservatório Guarapiranga, desde 1991.

Os IQA’s, em todos os pontos, mantiveram-se na maior parte do período de 1997 na qualidade “boa” ,
entretanto não apresentando tendências de evolução nos últimos cinco anos. Todavia, no âmbito do espaço
geográfico da Bacia Hidrográfica do Guarapiranga, devem ser considerados dois aspectos relevantes: o
crescimento da população desde a assinatura do contrato com o BIRD e, o segundo, relativo ao processo atual
de conclusão e finalização das ações e obras relativas aos sistemas de exportação de esgotos e urbanização de
favelas, elevando-se os atuais volumes de 1.727 milhões de metros cúbicos por mês de esgotos exportados
para 2.354 milhões de m3/mês de esgotos, incrementando o índice de atendimento e, sobretudo, traduzindo-se
em significativa melhoria da qualidade das águas do reservatório.

Baseando-se nesta breve descrição do Programa Guarapiranga e aplicando-se a metodologia CPOQ, pode-se
sumarizar as principais características deste Programa da seguinte maneira:

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a) O - O Quê Gerenciar: o Programa Guarapiranga, pelo ineditismo apresentado, conseguiu reunir diversos
órgãos da administração pública estadual e municipal (municípios de São Paulo, Embu, Embu-Guaçu e
Itapecerica da Serra) em torno das metas estabelecidas para o Programa, essencialmente voltadas à melhoria
da qualidade da água do reservatório para garantia do abastecimento. Todavia, os objetivos se
complementaram por meio da melhoria da qualidade de vida da população e no uso e ocupação do solo da
bacia, variáveis de fundamental importância para a sustentabilidade hídrica e ambiental da bacia do
Guarapiranga. Dessa forma, torna-se claro que os itens gerenciáveis, incluídas a disponibilidade, qualidade e
demanda hídricas em relação ao uso e ocupação do solo, estão adequadamente e objetivamente tratados neste
Programa, sobretudo por meio do desenvolvimento das atividades contidas nos subprogramas de (i) serviços
de água e esgoto (implantação de redes coletoras, ligações domiciliares, ETE’s, estudos de qualidade da água
e aperfeiçoamento tecnológico, etc.); (ii) adequação dos resíduos sólidos; (iii) recuperação urbana
(reassentamentos, urbanização de favelas e adequação de infra-estrutura urbana); (iv) proteção ambiental
(parques, repovoamento vegetal e estudos ambientais); e (v) gestão da bacia (plano de desenvolvimento e
proteção ambiental da bacia - PDPA, apoio técnico e institucional e instrumentos de gestão);

b) P - Porquê Gerenciar: a sustentabilidade dos recursos hídricos, compatível ao uso e ocupação do solo e
proteção ambiental da bacia do Guarapiranga, é fundamental para a garantia do abastecimento público,
sobretudo porque as ações implementadas ou fomentadas pelo Programa devem se sustentar a tal ponto de
permitir que os municípios inseridos na área territorial da bacia compatibilizem suas atividades de
gerenciamento e planejamento territorial ao crescimento demográfico, atentos, portanto, à sustentabilidade
hídrica através da prevenção e redução de impactos ambientais associados, principalmente, ao esgotamento
sanitário e conseqüentes cargas poluidoras carreadas aos tributários ou, diretamente, ao reservatório
Guarapiranga;

c) C & O - Como e Onde Gerenciar: o gerenciamento dos recursos hídricos na bacia do Guarapiranga foi
norteado, basicamente, por meio das Políticas Públicas, sobretudo concernente à revisão e aprovação da nova
Lei de Mananciais (Lei Estadual no 9.866/97), que hoje permite as discussões em torno do estabelecimento de
uma legislação específica para a regulação do uso e ocupação do solo na bacia do Guarapiranga. À medida
que os órgãos coordenadores e executores do Programa mobilizaram-se em torno da integração para
desenvolvimento das intervenções e para a gestão da bacia, os instrumentos de apoio à gestão puderam ser
implementados com êxito, tal qual foram o desenvolvimento do PDPA – Plano de Desenvolvimento e
Proteção Ambiental da Bacia do Guarapiranga, do Sistema de Informações Georreferenciadas da bacia (GIS),
do Modelo de Simulação Matemática, de Correlação entre o Uso do Solo e a Qualidade da Água (MQUAL) e
do Sistema Integrado de Informações sobre a Qualidade da Água (SIQUA). Esses instrumentos foram
disponibilizados à todos os municípios envolvidos, permitindo que a gestão seja consolidada quanto ao
aspecto de descentralização e envolvimento social;

d) Q - Quem Gerencia: tanto a coordenadoria do Programa quanto as instituições executoras e os


representantes do Poder Público Estadual e dos municípios, à medida que tenham conseguido articular-se de
forma integrada em torno dos objetivos e metas do Programa, alavancaram a existência e o fortalecimento do
sub-comitê Cotia-Guarapiranga, órgão colegiado de estrutura paritária e tripartite, responsável pela discussão
e deliberação das propostas e dos planos para a gestão da bacia. Este relacionamento entre diversas esferas no
âmbito deste sub-comitê têm sido uma referência de gestão no âmbito estadual, sobretudo porque, quando da
aprovação e veiculação do sistema de cobrança pelo direito de uso dos recursos hídricos, deverá ser um dos
órgãos colegiados capazes de viabilizar projetos e empreendimentos condizentes com a realidade local da
bacia, ou seja, de acordo com os cenários de desenvolvimento local previstos no PDPA e na legislação
específica;

e) Q & Q - Quando e Quanto Custa: o horizonte das intervenções do Programa Guarapiranga iniciou-se em
1992, desenvolvendo-se até o final do ano 2000. Seus custos, originalmente situados em US$ 262 milhões,
alcançam, atualmente, US$ 336 milhões fruto de incrementos em obras e serviços, divididos entre os cinco
subprogramas de ações. Desse montante, US$ 119 milhões são financiados pelo Banco Internacional de
Reconstrução e Desenvolvimento - BIRD.

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CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES
Em ambas as iniciativas, todos os questionamentos foram respondidos, de forma que o emprego da
metodologia CPOQ permitiu a organização e sistematização, de forma clara e abrangente, das principais
características do Projeto Tietê e do Programa de Saneamento Ambiental da Bacia do Guarapiranga,
reconhecendo seus principais aspectos, objetivos, metas e estratégias.

A avaliação das duas iniciativas a partir do CPOQ permite, também, que se possam efetuar comparações e
analogias direcionadas a aspectos específicos, por exemplo relacionados a um questionamento determinado, a
fim de que possam subsidiar a elaboração de estratégias preventivas ou corretivas de atuação, relacionadas ao
gerenciamento dos recursos hídricos na Bacia do Alto Tietê – Região Metropolitana de São Paulo.

Recomenda-se o emprego desta ferramenta, particularmente na análise de estudos de caso, quando da


avaliação, discussão e decisão em torno das intervenções, investimentos realizados, propostas e novos
projetos formulados e, também, quanto à análise de planos e políticas setoriais, desenvolvidos no âmbito
metropolitano ou em bacia hidrográficas do Estado de São e dos demais Estados brasileiros, contribuindo
significativamente para que os órgãos colegiados, suas câmaras técnicas e demais instituições participantes
do processo de gestão e gerenciamento dos recursos hídricos possam elucidar e esclarecer os diversos níveis
de detalhamento técnico, econômico e institucional, em prol da legitimidade do processo de gestão
descentralizada, integrada e participativa.

Finalmente, sugere-se a utilização do referido método na avaliação de outras iniciativas e o desdobramento


dessas análises na capacitação dos entes envolvidos com a gestão e gerenciamento dos recursos hídricos,
sobretudo em bacias hidrográficas, rios ou corpos d’água onde a problemática de gestão estenda-se, como é o
caso de ambos os estudos apresentados, à problemas relacionados ao processo de urbanização e altas
densidades populacionais, uso e ocupação inadequada dos solos urbanos, pobreza e distribuição de renda,
carência de infraestrutura e serviços públicos e deficiência nas estruturas de lazer e meio ambiente.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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In:REBOUÇAS e col. Águas Doces no Brasil – Capital Ecológico, Uso e Conservação. São Paulo:
Escrituras Editora; 1999. p. 653-69.
2. CAPELOSSI FILHO S & ASSUNÇÃO JV de. Recurso Água - como utilizar o recurso água
assegurando sua disponibilidade prolongada e preservando o ambiente. In: Seminário Panamericano em
Tecnologia II e Qualidade Total. Rio de Janeiro, 1993.
3. CETESB. Relatório de Qualidade das águas interiores do Estado de São Paulo. São Paulo, 1997. 289
p.
4. GRISOTTO LEG e col. Análise do Gerenciamento de Recursos Hídricos através de Ferramentas da
Qualidade: o caso da Bacia do Alto Tietê – Região Metropolitana de São Paulo. São Paulo, 1999.
[Monografia de Especialização - Faculdade de Saúde Pública da USP]
5. HIDROPLAN. Plano Integrado de Aproveitamento e Controle dos recursos Hídricos das Bacias Alto
Tietê, Piracicaba e Baixada Santista. São Paulo, 1995. 43 p.
6. MAGLIO IC. Cidades Sustentáveis: Prevenção, Controle e Mitigação de Impactos Ambientais em
Áreas Urbanas. In: Philippi Jr A e col. Municípios e Meio Ambiente: Perspectivas para a
Municipalização da gestão Ambiental no Brasil. São Paulo; 1999. p. 80-5.

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