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Universidade Federal de Pelotas

Licenciatura em Música
História da música brasileira

Os principais marcos da história musical brasileira

Octávio Amaral Machado

Introdução

O Brasil é um país que abrange uma multidão de culturas e povos e que,


ainda hoje, procura uma identidade. Essa busca por identidade nos leva a uma
série de questionamentos. No campo da música não é diferente. O que é, afinal,
a música tipicamente brasileira? O que define o brasileiro, visto que os povos
originários, atualmente, quase não representam mais o país em sua totalidade?
Sob outra perspectiva, os estrangeiros talvez definam o Brasil como o país do
carnaval, do samba, da bossa-nova, etc. Porém, se analisarmos detidamente
estas características, veremos que sofreram grande influência europeia e norte-
americana, por exemplo. Será então o Brasil um país híbrido, que escolhe o que
há em determinada cultura e a transforma? Estas e outras perguntas pairam
ainda no imaginário daqueles que se dedicam em procurar uma resposta. A
verdade é que, apesar disso, o país apresenta uma história musical muito rica,
variada e interessante. Portanto, o objetivo deste texto é elencar os principais
marcos da história brasileira e de como a música foi sofrendo transformações
até chegar ao que conhecemos hoje.
O Brasil colônia

Nas terras que hoje denominados Brasil, anteriormente à chegada dos


portugueses, habitavam quase cinco milhões de indígenas. Estes povos
originários produziam sua própria música, estando quase sempre à serviço da
sua religiosidade, das festividades, da guerra e da caça, com a utilização de
instrumentos de percussão e de sopro, muitas vezes acompanhado de dança.

Após a chegada dos portugueses, a música do período colonial fora


utilizada principalmente como um eficaz instrumento para fins ‘’ civilizatórios’’ e
para a catequese pois, segundo a visão cosmológica dos povos ibéricos que
chegavam, baseada nas palavras de Jesus Cristo: Ide por todo mundo e pregai
o Evangelho, havia uma necessidade, um dever, de que a educação ocidental
chegasse à todos. Porém, este não foi um pensamento generalizado, pois que
estamos tratando da Idade Moderna e de um outro Ethos, ou seja, os interesses
dos grandes monarcas e nobres portugueses visavam principalmente a riqueza
temporal, aqui neste mundo, tais como as pedras preciosas que buscavam na
América.

Em 1549, Tomé de Souza (1503-1579), o primeiro governador-geral do


Brasil, empreende a instalação da Companhia de Jesus. Estes religiosos, os
jesuítas, por outro lado, rivalizavam com o poder temporal dos portugueses e
queriam salvar as almas dos indígenas. Dos frutos que deram a Ordem ao Brasil
vemos a atuação de São José de Anchieta, que parte com 18 anos para o Novo
Mundo, capaz de apreender a cultura e o idioma dos nativos de forma
surpreendente e escrever poesia, teatro e música para a catequese. Porém,
além do ensinamento da música como teoria e prática havia também o ensino
da confecção dos instrumentos que seriam utilizados, inclusive, em Roma, feitos
pelos indígenas da terra da Santa Cruz.

Portanto, a música neste momento histórico serviu a dois interesses: um


temporal, puramente civilizacional e que visava o lucro da coroa portuguesa que
aqui estava (principalmente antes e durante a chegada da Corte) e um interesse
catequético, que visava a salvação das almas e o crescimento dos fiéis católicos
nas Américas.
A corte no Brasil: D. João VI

Com a chegada da Corte portuguesa no Brasil há uma supervalorização


da cultura europeia. Além da música, nota-se uma crescente ''atualização'' dos
modismos e costumes da época e a reforma da cidade carioca para receber D
João VI. A arquitetura, a urbanização, as novas construções, o vestuário, as
artes em geral, tudo modifica-se a fim de atender aos interesses da corte.

Nesta época, o Rio de Janeiro possuía as dimensões de uma grande vila


portuguesa, modesta, porém, com a presença de um porto, o que fez desta vila
um centro comercial muito ativo e, por consequência, trouxe grande produção
cultural para o Brasil. Notamos igualmente a larga produção musical do Pe. José
Nunes Garcia (1767-1830), que atendia às necessidades dos ofícios religiosos
e aos divertimentos da nobreza pois que há um número considerável de missas,
modinhas, sonatas e óperas do seu próprio punho. De origem humilde, possuía
um timbre vocal excelente e boa memória e, com apenas 17 anos, fundou a
Irmandade de Santa Cecília para a formação de novos professores capacitados
para o ensino musical. Apesar de sua religiosidade, não se conteve apenas em
seu ofício de compositor sacro, compôs música dramática, modinhas profanas e
sinfonias. Era necessário que se mantivesse informado das novidades da
Europa, especialmente a Ópera, para entreter a corte, por este motivo mantinha
grande influência na câmara municipal e chegou a ofereceu a sua Abertura ‘’
Zemira’’ para uma solenidade política. O Pe. José Nunes Garcia incentivou a
educação musical, criando compêndios de livre acesso à elite brasileira para
estrito acesso à família Imperial e ao trabalho que teria de cumprir de músico
oficial provisório.

A família Real contratou nos anos seguintes, especificamente em 1813,


renomados músicos do exterior, como, por exemplo, o austríaco Sigismund
Neukomm (1778-1858) e os portugueses Marcos Portugal (1762-1830) e Rafael
Machado que elitizaram a música produzida no país. É deste período a música
luso-brasileira e os primeiros impulsos para o nacionalismo que ascenderá
apenas no final do século XIX.
A música da Independência: o primeiro Império

Durante a Revolução do Porto, de 1820, em Portugal, o absolutismo


português fora colocado em evidência e os portugueses desejavam que a sede
da monarquia estivesse em Lisboa e não no Rio de Janeiro. Descontentes com
isso, D. João VI (1767-1828) retorna, sob pressão, à Europa e deixa o seu filho,
D. Pedro IV de Portugal (1798-1834), futuro D. Pedro I do Brasil, administrando
as terras americanas. Por outro lado, os brasileiros se organizaram contra este
movimento que, na tentativa de impor sua vontade, quis o aumento da autoridade
portuguesa no Brasil, e desejaram o desligamento do país com a corte
portuguesa. Com o estopim desta revolução, D. Pedro I, em sintonia com a
vontade paterna, toma a resolução de ficar no Brasil e de torna-lo independente.
Desta forma, nasce o primeiro Império brasileiro.

O país sofre grandemente na sua economia e vê-se obrigado a voltar os


olhos para os acontecimentos políticos e bélicos que o acometiam, deixando um
pouco de lado a produção artística. Todavia, os antigos mestres-de-capela e
músicos da corte ainda continuaram a trabalhar no recente Império brasileiro.
Nesta época, Francisco Manuel da Silva (1795-1865) organiza o novo país
musicalmente, promovendo recitais, fundando escolas e conservatórios de
música e, paulatinamente, surge uma nova fase em busca deste patriotismo. Os
teatros, as lojas maçônicas e a imprensa conheceram o apogeu desta mudança.
A elite apegou-se à uma peculiaridade de ser, especialmente no Rio de Janeiro,
com música importada e letra nacional e, apesar deste pequeno passo, não
podemos ainda afirmar com veemência tratar-se de música nacionalista, visto
que a estética musical bebia largamente da influência europeia. Este acontecido
adquire seu valor político igualmente, e é possível averiguar que a música serviu
para formar uma sociedade de referência, repercutindo na Europa e recebendo
o reconhecimento de ser, de fato, independente.
Segundo Império no Brasil: investimento na arte e nacionalismo.

No segundo Império, sob o governo de D Pedro II (1815-1891), entusiasta


das artes em geral e homem de grande erudição, a situação muda
drasticamente. O país, agora estável, manda os seus gênios para estudar na
Europa e incentiva a produção musical, mas segue reproduzindo uma música
estrangeira, seguindo as inspirações do movimento romântico. Todavia, é na
segunda metade do século XIX que vemos surgir os primeiros raios do
nacionalismo e da verdadeira ''Independência'' cultural brasileira, com o
surgimentos de nomes tais como: Carlos Gomes (1836-1896) e Brasílio Itiberê
(1846-1913) e Alberto Nepomuceno (1864-1920).

Com o segundo Reinado (1840-1889), a cidade do Rio de Janeiro se


moderniza largamente, com o dinheiro gasto no tráfico de escravos, que fora
abolida por pressão da Inglaterra e, por isso, possibilitou a ideia de uma ‘’
reinvenção’’ para o Brasil e, também, de internacionalizar a cultura nacional,
especialmente as danças de salão e as canções (agora) em português. A valsa
popularizou-se e trouxe uma marca registrada da elite. Também os teatros eram
o centro nervoso cultural das cidades mais importantes do Império. Por este
motivo, houve no Brasil, uma tentativa de instaurar um movimento para a criação
da Ópera Nacional, ou seja, um local de estreia para as obras de compositores
nacionais, com temas tipicamente brasileiros e de língua portuguesa - e não mais
italiana -. Porém, não foi muito duradoura a criação desta Ópera, carecendo de
um corpo consistente e de obras criativas e originais pois que a população
carioca, no segundo Império, apreciava largamente o repertório europeu e não
opinava sobre os compositores locais, apesar de alguns nomes terem vistos no
''auge da fama'' por algum curto tempo.

Com música de inspiração romântica europeia, eis algumas obras que


foram estreadas e outras que não: as Vésperas de Guararapés (partitura hoje
perdida e de compositor anônimo), Marília de Itamaracá (de Adolpho Maersch),
O Vagabundo (de Henrique Alves de Mesquita). Mais tarde, patrocinado por D
Pedro II, Carlos Gomes irá compor, na Itália, o seu Il Guarany e estrear não no
Brasil mas no Teatro Scala, de Milão. Com tema romântico da obra Iracema, de
José de Alencar, Carlos Gomes mostrará ao mundo um tema tipicamente
brasileiro mas com música tipicamente europeia. Afinal, o Ópera Nacional faliu.

Apesar de todas estas tentativas, no final do século XIX, mais


radicalmente a música popular separava-se da música ‘’ erudita’’ importada da
Europa. Clubes iam-se criando, por nome de compositores como: Clube
Beethoven, Clube Mozart e Cube Schubert. Todavia, alguns peculiares
compositores interessaram-se pela música feita pela maioria dos brasileiros nas
periferias das cidades. O romantismo que morria na Europa nascia no Brasil com
suas características populares. Por isso, estes apreciadores da música europeia,
não percebiam a riqueza incalculável do que era produzido nas camadas
populares. Foi Alberto Nepomuceno (1864-1920) o grande compositor
responsável por nacionalizar a música brasileira em grande massa. Estudou em
Roma, Paris e Berlim e compôs peças ao piano com a graça e o ritmo popular
das terreiras e dos batuques de origem africana. As melodias utilizadas muitas
vezes eram inspiradas nas diversas toadas assoviadas nas residências
populares da época. Nepomuceno tinha a consciência de que o povo também
cultivava suas origens e as mesmas deveriam receber valorização. Machado de
Assis (1839-1908), irônico e crítico, assistiu o músico mineiro de propor ao país
o olhar aos novos tempos que se aproximavam na integração da música popular
e nas canções de temas cada vez mais centrados no homem e suas paixões. A
crítica, na virada do século, propunha uma estética música tradicional do Brasil,
ou seja, uma mescla da cultura nativa e dos gêneros populares que foram se
desenvolvendo a partir da cultura negra; uma letra em português que não se
limitasse somente ao cotidiano, mas às situações sérias, cultas e acirradas do
governo; um compositor preocupado com a pátria. Enfim, uma nova forma de
produção que pudesse ao primeiro momento selar a cultura brasileira. Por
extrema consideração crítica na passagem ao século XX, Nepomuceno
escreveu: ‘’ Não tem pátria um povo que não canta em sua própria língua.’’
República Velha: Villa Lobos e a Semana de 1922

A partir do golpe de estado dos militares em quinze de novembro de 1889


e da formação de uma oligarquia política, a família real foi obrigada a sair do
Brasil, sem indenização e sem o consentimento popular. Portanto, a República
brasileira nasceu dentro de um contexto irônico e incomum pois que Deodoro a
proclamou por estar irritado com o Imperador, que nomearia para primeiro-
ministro o senador Silveira Martins, seu rival na disputa amorosa. Apesar da
instabilidade política, a música vai seguindo os seus próprios passos e se
desvincula dos interesses da nobreza pois que, agora, a República já não exige
compositores para a sua ‘’ corte’’ como outrora, apesar de se utilizar da música
muitas vezes para propaganda política.
Neste período, o país sentiu o avanço frenético da crítica à política e aos
sucessos nacionais. Por razão de clima de sátira, as festas populares, terreiros
e os cafés-cantantes, chopes berrantes e os teatros de revistas ascenderam ao
nível comum da população em geral. Os cafés e chopes eram as versões
brasileiras dos cabarés franceses. Neste momento de grandes mudanças
políticas vemos o surgimento de compositores engajados na busca de material
de música popular para a produção de sua obra. Heitor Villa Lobos (1887-1959),
um destes grandes compositores responsáveis por levar a música brasileira aos
grandes palcos, desde a mais tenra idade, apresentou um grande interesse pela
música popular produzida no Brasil e foi largamente influenciado por ela visto
que ''naqueles tempos saudosos em que o rádio ainda não poluíra a música
popular brasileira o pequeno Tuhú (Villa Lobos) deliciava-se com as modas
caipiras, sofria as penas do tocador de pinho, enfim, embebia-se, sem o saber,
daquele folclore que universalizaria mais tarde'' (MARIZ, 2005, p 138). E, além
da música caipira, com apenas oito anos, através do contato que travara com
uma tia pianista, ouviu, entusiasmado, pela primeira vez, o Cravo bem
temperado de Bach. Depois, aos 11 anos de idade, travou conhecimento com a
música nordestina e com a música dos Chorões, que fora obrigado por seu pai
a apreciar muito ''moderadamente''. Por este motivo, além do Violoncelo e do
Clarinete, aprendeu Violão e Saxofone, instrumentos que possuíam certo
protagonismo no ambiente boêmio da época. Por tanto, durante a sua
maturidade como compositor, Villa Lobos conseguiu a proeza de unir dois estilos,
que a princípio, parecem separados por um enorme abismo, ou seja, a junção
entre o estilo Bachiano e a música popular brasileira, resultando no que hoje
conhecemos de sua música. Para exemplificar esse empreendimento,
encontramos em suas Bachianas Brasileiras N° 5 o estilos dos chorões nos
Violoncelos e a melodia tipicamente Bachiana na voz da cantora. Enfim, Villa
Lobos conseguiu criar fortes laços entre o Velho e o Novo Mundo.
Neste mesmo período, durante a Semana de 1922, a data de
''Independência'' cultural do Brasil, a produção artística, principalmente a
literatura, afastou-se drasticamente de toda a estética conhecida até então no
país, que valorizava a cultura estrangeira, desconsiderando o Brasil real e
optando por um ''ideal'', europeu e romântico. Para a música, a principal
repercussão da Semana de 1922 foi a liberdade criativa do artista, sem apegar-
se ao estilo erudito da época e investindo consideravelmente sobre temas
populares e folclóricos brasileiros. Desta forma, representando o grande
expoente da música moderna brasileira, Villa Lobos conseguiu elevar a música
dos chorões, por exemplo, que conheceu na juventude, e levá-los aos grandes
palcos da época, utilizando-os depois como inspiração para a sua própria
produção musical erudita. Enfim, o violão, o músico de rua e boêmio da cultura
popular, outrora rejeitado, ganhava o seu espaço paulatinamente no imaginário
coletivo brasileiro.
Conclusão

Na busca incessante por identidade, o Brasil deparou-se com inúmeros


movimentos artísticos que divergiam entre si mas que comungava do mesmo
interesse que visava dar um rosto musical ao país, sendo produzindo uma
estética já conhecida ou em busca de outra mais original. Atualmente, porém,
pouco de nossa produção musical erudita alcança o imaginário popular e muito
da história de nossa música se perdeu no ensino público. Apesar disso, no
exterior, o nome de Villa Lobos ainda soa como o grande representante de nossa
música nacional. Portanto, a consciência de nossa história musical facilitará o
resgate de obras que atualmente foram esquecidas e que representaram uma
geração e o que o Brasil já produziu de sua música e que ainda poderá produzir
de obras primas e imortalizadas pelo tempo que, para elas, parece não passar.
Referências bibliográficas

KIEFER, B. História da música brasileira: dos primórdios ao início do séc.


XX, 1976. Porto Alegre: Editora Movimento

MARIZ, V. História da Música no Brasil, 2005. Rio de Janeiro: Nova Fronteira

Rodrigues, MF. E assim a música caminhou pelo Brasil. Revista Mosaico.


2018 Jul./Dez.; 09 (2): 32-34.
Em anexo

Relação de compositores da Segunda Geração nacionalista e suas obras:

Lorenzo Fernandez (Trio Brasileiro, Suítes Brasileiras)

Dinorah de Carvalho (Sertaneja, "Ê bango, bango-ê")

Fructuoso Vianna (O Corta-Jaca, Dança de Negros Op. 2 N 1)

Souza-Lima (Valsa Choro, Prelúdios).

Ernani Braga (Tango Brasileiro, Minueto melancólico)

Armando Alburqueque (Suíte infantil, Tocata)

Hekel Tavares (Concerto para piano, Capricho Brasiliense)

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