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DO DIALOGISMO AO GÊNERO:

AS BASES DO PENSAMENTO DO CÍRCULO DE BAKHTIN

Adail Sobral

2008
Introdução

Mikhail M. Bakhtin é hoje considerado um dos principais pensadores do


século XX. Conhecido como teórico da literatura, da linguagem e do discurso e,
mais recentemente (em especial fora do Brasil), como filósofo, esboçou entre 1920
e 1924 uma filosofia do ato ético que dialoga com uma multiplicidade de filósofos,
de Aristóteles a autores do século XX (para detalhes, cf. SOBRAL, 2007c). Essa
filosofia é conhecida como filosofia do ato, a partir do título argutamente dado a
um de seus escritos fragmentados (e não preparados para publicação) pelo editor
russo. Pretendemos mostrar que, das considerações aí feitas na juventude, iria se
desenvolver aquilo que hoje se conhece como dialogismo, fundado no chamado
pensamento participativo, ou não-indiferente (uchastnoye myshlenie), ou a idéia
segundo a qual todo sujeito/todo sentido é constituído, forma sua identidade,
sempre em processo, nas relações que mantém desde o nascimento com outros
sujeitos/sentidos, algo que é inclusive a base da concepção de cultura de Bakhtin
e seu Círculo.
Bakhtin, que se pode chamar de o filósofo das diferenças, um ecologista da
diversidade humana, apresentou, ao lado dos membros do Círculo, propostas que
se concentraram fortemente nas questões da linguagem e do discurso, tanto na
vida diária como em sua representação literária, o que amplia o alcance de sua
filosofia. Podemos considerá-las as bases de uma filosofia da vida
(Lebensphilosophie), ou seja, uma filosofia não transcendental — porque centrada
no mundo concreto e não em princípios alheios a ela — nem imanente — porque
centrada no agir dos sujeitos, mais no processo da ação do que em seus
resultados. 1 É preciso também esclarecer desde o começo que, ao contrário do
que supõe a idéia comum de diálogo (e interação) como espaço em que reina a
harmonia, a compreensão mútua, diálogo (e interação) na concepção de Bakhtin
não exclui uma possível harmonia ou compreensão mútua, e quem sabe talvez as
busque, mas é principalmente a descrição de um lugar de tensões (cf. AMORIM,
2003; SOBRAL, 2006), uma “arena de vozes” (cf. VOLOSHINOV, 1976), um
campo de luta, de confronto entre diferenças, estando seu aspecto principal no
fato de que somos seres relacionais, seres que vivem e se constituem nas
relações uns com os outros, que se formam nos diálogos que travam ao longo da
vida, seja qual for sua natureza, e de que o sentido nasce da diferença.
O nome "Bakhtin" e a expressão "Círculo de Bakhtin" estão ligados, como é

1
Trata-se de propostas que têm pontos de contato com a filosofia da vida de Henri Bergson (1859-
1941) e com a filosofia do processo de Schelling (1775-1854), além de ter vínculos com teorias de
Husserl, Merleau-Ponty e Heidegger, entre outras (para detalhes, cf. SOBRAL, 2007a). Além disso,
fundam-se fortemente num proveitoso diálogo, sempre tenso, com neokantianos como Hermann
Cohen (1842-1918) e principalmente com o próprio Immanuel Kant (1724-1804), de quem Bakhtin
retomaria e reformularia radicalmente o conceito de arquitetônica (para detalhes, cf. SOBRAL,
2007b). Há ainda, entre outros elementos, concepções materialistas dialéticas que são
retrabalhadas no que chamei de “síntese bakhtiniana” (em analogia com a célebre “síntese
kantiana”).
sabido, a algumas noções e conceitos bastante disseminados hoje: gênero 2 ,
dialogismo, enunciado concreto, polifonia, carnavalização, ato ético,
responsabilidade, entoação avaliativa, responsividade ativa, forças centrípetas e
forças centrífugas, esferas de atividade etc. Nesse sentido, a questão da autoria
das obras do Círculo continua problemática, mas ainda assim preferimos distinguir
os autores de acordo com o conhecimento recente que atribui certas obras a
certos membros do Círculo (cf., p. ex., VASILEV, 2006). Por outro lado, tem-se a
impressão — a nosso ver parcialmente positiva, porque indício da riqueza da obra
do Círculo — de haver uma profusão de maneiras distintas (e mesmo
incompatíveis) de entender toda essa rede conceitual, inclusive no ambiente
formado por pesquisadores dedicados às obras do Círculo, em que se vêem
divergências sobre seu alcance e implicações, divergências que, paradoxalmente,
contribuem para que novas facetas da obra venham à luz. Não obstante, como
têm caráter científico, esses conceitos e noções apresentam, no interior da(s)
teoria(s) do Círculo, um dado núcleo de sentido parcialmente estabilizado (ainda
que sempre em deslocamento, inclusive em obras de um mesmo autor do Círculo)
que nos permite empregá-los na teoria e na prática.
E podemos fazê-lo, mesmo com compreensões diferentes desse ou
daquele aspecto específico, porque há uma linha de continuidade que está não na
especificidade desses conceitos e noções, mas no plano epistemológico, na
concepção, filosoficamente fundada, do estatuto dos seres humanos, da
linguagem, do enunciado, do ato etc. e de um dado modo de estudar os
fenômenos humanos. Diga-se de passagem que aquilo que uma mente dita
científica, e que seria melhor dizendo positivista, consideraria uma indefinição é
algo bem ao gosto de Bakhtin “ele mesmo”, o qual nunca se empenhou em
estabelecer uma versão canônica do que propunha, e as reformulava sempre que
julgava necessário, chegando mesmo a apresentar várias versões de algumas
propostas, além de dar a impressão de tudo fazer para “confundir”, em vez de
explicar, a questão da autoria. Afinal, não temos no discurso um autor-pessoa,
mas um autor-criador, e sua criação, um autor de linguagem, de discurso – mas
nem por isso menos concreto — um autor que não se define por um nome, mas
por um fazer tematicamente identificável.
Este livro pretende precisamente destacar a unidade epistemológica do
referido núcleo de sentido, o acordo mínimo sobre o sentido desses conceitos e
noções que permite a uma comunidade de falantes usá-los em suas
comunicações e se entender quanto a isso, assim como discutir os parâmetros
dessa compreensão, numa produtiva polêmica. Seu objetivo é portanto explorar
aspectos essenciais desses conceitos e noções em termos das principais relações
que mantêm entre si do ponto de vista da teoria do conhecimento proposta pelo
Círculo em suas várias obras. Não quer isso dizer que outros comentadores não
tenham dado conta da tarefa a que se propuseram, mas antes que, no Brasil, não
parece ter havido até o momento uma descrição desses conceitos e noções que
explorasse suas bases filosóficas nos mesmos termos aqui propostos, ainda que o

2
Nem sempre “de discurso” ou “discursivo”, como deveria ser, mas sempre com menção ao
Círculo, como se bastasse citar Bakhtin para que designações semelhantes tenham o mesmo
sentido axiológico.
artigo precursor de COSTA (1997) e alguns ensaios contidos em FARACO,
TEZZA e CASTRO (2006), especialmente o de Amorim, sejam um passo nesse
sentido; houve também uma abordagem parcial da questão em SOBRAL 2005a, b
e c, que é aqui retomada de outra perspectiva.
Trata-se assim da proposição de um roteiro de leitura dessas bases, dado
que não pretendemos evocar todas as questões nem explicar a contento todas as
teses do Círculo. Mas não é um roteiro superficial ou diluidor, visto que, embora
siga uma dada ordem na discussão dos conceitos aqui privilegiados, em vez de se
perder em infinitas especulações sobre detalhes nem sempre relevantes, 3 o livro
não é uma “explicação” da obra do Círculo. E como também não é um estudo
aprofundado das obras, pode-se defini-lo como uma primeira incursão, de nossa
perspectiva, na complexidade da obra do Círculo em termos de suas concepções
epistemológicas. Sem torná-las o seu foco (o que daria ao livro um caráter menos
acessível a leitores menos afeitos à filosofia), empenha-se em situar as propostas
do Círculo no horizonte dessas concepções, ou, se se preferir, aborda as
concepções do Círculo da perspectiva de seus fundamentos filosóficos, sem
prejuízo da explicação da produtividade prática dessas concepções.
Sustentamos que a compreensão de uma obra tão complexa quanto a do
Círculo torna ainda mais vital a idéia de que tentar entender — ou aplicar — uma
proposta sem buscar entender suas bases filosóficas, explícitas e principalmente
implícitas, pode criar uma dificuldade de compreensão por vezes paralisante,
quando não distorce, dilui, reduz a obra a uma técnica, proposta de aplicação ou
coisa parecida – nesse caso, um “Bakhtin de bolso”. Sustentamos igualmente que
entender essas bases implica, em vez de pensar os conceitos e noções em
termos de sua(s) definição(ões), ou deter-se longa e inutilmente em minúcias
filosóficas, refletir sobre essas definições em termos da perspectiva filosófica e do
método filosófico de pensamento do Círculo, sem prejuízo de sua elucidação. Na
verdade, como explicar os conceitos e noções contidos nas obras do Círculo é
algo necessário mas não suficiente para entender as propostas deste (e é preciso
lembrar que não faltam obras que expliquem esses conceitos e noções), tentamos
oferecer aqui uma primeira exploração dos fundamentos do pensamento do
Círculo em suas implicações sobre as propostas mais conhecidas deste. Percorre
o livro, por esse motivo, uma insistência — marcada por constantes retomadas
desse “núcleo de sentido parcialmente estabilizado” — que busca destacar de que
maneira as teses básicas do Círculo contribuem para uma análise do discurso
que, fincada no conceito de gênero do discurso, vai além de boa parte das
propostas de análise do discurso que são em verdade propostas de análise textual
— com maior ou menor grau de sucesso.

3
Naturalmente, cada autor apresenta seus escritos segundo sua própria entoação avaliativa;
outros autores que abordam as obras do Círculo privilegiam outros conceitos e/ou propõem outros
percursos; sobre as tantas leituras do Círculo e os tantos “Círculos de Bakhtin” em circulação, cf.,
para uma “versão” recente, WALL, 2006. Claro está que alguns conceitos deixaram de ser
abordados detidamente neste livro, o que nos parece inevitável, por não ser nossa proposta fazer
um glossário — nem uma enciclopédia —, mas propor um dos roteiros possíveis para a leitura das
obras do Círculo do ponto de vista de suas bases, não da definição de conceitos e/ou noções per
se.
TODA ESCOLHA É UMA AVALIAÇÃO (OU “UMA DEFESA PRÉVIA DO
PERCURSO SEGUIDO”)

Tomada a decisão de escrever o livro, surgiu a questão: por onde começar


um livro sobre o Círculo de Bakhtin e que percurso fazer? Como escolher os
pontos de partida e de chegada? Julgamos necessário, para decidir, considerar
entre outras coisas que

1) as obras que nos chegaram até o momento foram elaboradas por vários
autores numa época politicamente muito complicada, e não só para eles;
2) as Obras Completas de Bakhtin ainda não foram publicadas por inteiro em
russo;
3) os conceitos e noções não puderam ser, na época de vida dos membros do
Círculo, sistematizados à maneira hoje tida por aceita no mundo ocidental,
devendo-se ainda considerar o fato de que os vários autores trabalharam em
conjunto, mas nem sempre juntos e muitas vezes sem ter contato entre si durante
anos, o que levou tanto a repetições como a omissões, afirmações superficiais,
inclusões indevidas e mesmo incoerências etc., algo que não invalida a concepção
do Circulo mas dificulta a tarefa de descrevê-la;
4) as obras não chegaram ao conhecimento dos estudiosos na ordem em que
foram elaboradas nem os autores foram conhecidos na ordem em que haviam
produzido seus textos que está na base das “disputas autorais” e das várias
“versões” das obras, tanto em termos de textos como de comentários dos textos;
5) os diferentes comentadores criam por assim dizer uma multiplicidade de
"Bakhtins", "Voloshinovs" e "Medvedevs" (os principais autores do Círculo), de
acordo com sua área específica de atividade, . E mesmo no interior de cada uma
dessas áreas há diferenças de interesses e ênfases (cf. quanto a isso, p. ex.
BRAIT, 2005; WALL, 2006; SOBRAL, 2006);
6) os interesses do Círculo vão do uso oral da língua ao ato ético, da enunciação à
estética etc., sendo a sua uma obra de cunho transdisciplinar e translingüístico
complicada por sua "multi-autoria" e, paradoxalmente, pelo próprio sucesso que
suas teses alcançaram, o que levou o conceito de gênero, por exemplo, a ser
apropriado das mais diversas maneiras, algumas delas sumamente distantes do
que propõe o Círculo.

Diante disso, estabelecemos um percurso temático fundado na idéia de que


o aspecto mais destacado das teses do Círculo é a questão do dialogismo e de
que o aspecto que mais merece uma releitura é a questão do gênero, bem como
de que há a necessidade de esclarecer o vínculo entre dialogismo e gênero. Logo,
o primeiro passo é abordar a concepção de dialogismo (considerando a filosofia
do ato ético) e de interação do Círculo em termos amplos, elementos que
procuramos tornar mais específicos discutindo em seguida a questão do sujeito.
Passamos à questão da autoria e da arquitetônica (atos de sujeitos), a fim de
situar a radicalidade das propostas do Círculo quanto ao agir enunciativo, e em
seguida abordamos significação/tema e signo ideológico, que servem de base à
introdução — de modo ainda restrito — da questão do enunciado concreto.
Esses elementos nos permitem explorar com algum detalhe a imbricação
entre entoação avaliativa e responsividade ativa, que constituem o núcleo do
dialogismo. Só então definimos melhor enunciado concreto, bem como discurso e
texto, que nos parecem zonas um tanto cinzentas no campo bakhtiniano. Julgamo-
nos nessa etapa prontos a apresentar com certo grau de aprofundamento as
bases da teoria estética do Círculo, o que fazemos nesse momento a fim de
arrolar mais elementos para uma definição do complexo e controverso conceito de
gênero do discurso ou gênero discursivo, que tem em seguida uma ilustração de
seu potencial numa proposta de análise.

UMA PROFISSÃO DE FÉ?

Na “batalha” de idéias, são válidos os métodos que, respeitando os


“adversários”, busquem mostrar os pontos cegos dos empreendimentos destes ou
que procurem ir além deles, ao menos de um dado ponto de vista, sem
menosprezar as divergências tachando-as de “erros”. E, também nisso, Bakhtin e
seu Círculo alcançaram a excelência! Tentando ser fiel a este espírito, este livro
une-se a vários esforços de pesquisadores sérios que têm publicado obras acerca
desse tema, o que não significa que sempre concorde com eles, ou sempre
discorde deles. O que sim há é um diálogo com aquilo que dizem, um diálogo
razoavelmente tranqüilo para um espírito tão polêmico como é o meu, que chegou
a ser considerado “a radicalização de Bakhtin”, afirmação que recebi como elogio,
uma recepção ativa oposta à entoação avaliativa, negativa, de meu interlocutor!
Lembro-me da feliz síntese que Marília Amorim, na qualidade de membro de
minha banca de doutoramento, fez de meus empreendimentos teóricos. Em
minhas palavras, reconstituindo as dela: “Você faz ciência com ponto de
exclamação!”. Antes de escrever o texto a que ela se referia, eu dissera a amigos
(numa mensagem que se pode ler em
http://www.revista.agulha.nom.br/francisco201.html): “Ando tentando encontrar um
meio de fazer o contrário de buscar a isenção objetiva, pois nem o tempo e o
espaço estão isentos de valores, como o provou Einstein com a Teoria da
Relatividade. Pretendo descobrir um meio de legitimar a presença das próprias
convicções pessoais. Porque, como a verdade não existe, temos de assumir, sem
distorções além das inerentes à condição humana - marcada por um aqui e um
agora singulares, porém com um pé da universalidade -, a verdade de cada um
como uma verdade provisória, mas válida, que outras não anulam, mas compõem.
E quero mais: explicitar as predileções, para aproveitá-las sem explorá-las
indevidamente. Estou tentando fazer isso em minha tese, que segue as regras do
gênero, fundamentando o que afirma, demonstrando, por assim dizer, mas que
traz claramente avaliações pessoais: ’impressionantes vendas’, 'interessante
fenômeno’, em vez de só ‘vendas na casa dos milhares’, ‘fenômeno digno de nota’
etc. Até agora tem havido receptividade. Mas sei que todo escrito é marcado pela
construção, que varia com o tempo, o lugar, a pessoa etc.: respondemos a
interlocutores de cuja existência sequer desconfiamos, desprezamos outros por
meio de um simples advérbio, temos de mudar o que dizemos devido a opiniões
de outros tantos etc. Tenho evitado cair no participacionismo: trata-se de uma
tese, não de confissões. Acho que não devemos tentar camuflar nossas
preferências, nossa ‘situacionalidade’, mas sim assumir a precariedade de toda
afirmação. Não coisas impressionistas como ‘X é péssimo’, mas ‘a meu ver, X é
negativo porque não leva em conta o contexto, como se pode perceber, por
exemplo, no seguinte comentário...’ Mas não proponho que não haja valores
compartilhados; proponho que esses valores estão em permanente tensão com
valores advindos da posição singular de cada um. O tema como um todo é
fascinante. Costumo dizer ‘fascinante’ depois de fazer uma exposição teórica.
Assim como às vezes faço análises teóricas de certas atitudes emocionais. ‘O
mundo O’, para parodiar esse tão bakhtiniano autor. “
Tudo para dizer que todo texto é um pretexto para alguma coisa, e que,
como meu interesse é fazer chegar uma dada maneira de entender o pensamento
bakhtiniano a um público mais amplo do que o de meus cursos, comunicações,
artigos e palestras, e por meio de um conjunto textual marcado por uma firme
unidade temática que busque aprofundar a reflexão que venho fazendo há vários
anos, decidi disponibilizar este livro. Claro que as idéias do Círculo estão aqui
“filtradas” por minha própria formação e meus próprios interesses confessos, e
escrevo-o por minha própria conta e risco. Mas filtrar é uma ação
constitutivamente humana: não há entendimento que não filtre o objeto
entendido, visto que cada sujeito é, a par de semelhante aos outros sujeitos, um
ser ímpar, peculiar. Basta que não se pretenda ter a posse da verdade, mas a
pretensão não arrogante de ter tentado mostrar uma face das coisas. Como
afirmei num debate, diante de certo “dono” da verdade: “sejamos pretensiosos,
mas deixemos a arrogância de lado”.
Decidi apresentar esses ensaios por julgar necessário avançar para além da
introdução ao complexo pensamento do Círculo que fiz nos ensaios publicados no
tão bem-sucedido Bakhtin: Conceitos-Chave (BRAIT, 2007, 4. ed.) fazem outros
países, inclusive próximos de nós, aprofundando o conhecimento acerca das bases
das teorias do Círculo. Claro que muito mais se poderia dizer, mas pretendi iniciar
um diálogo mediante o roteiro de leitura das propostas do Círculo que aqui
apresento. Saliento que busco indicar ao leitor caminhos possíveis para a
continuidade de seu contato com as obras do Círculo, caminhos que
necessariamente superam o "roteiro" de leitura aqui apresentado. Figuram entre
esses caminhos alguns dos principais comentadores do círculo, em obras
publicadas nos últimos anos (no caso do Brasil, cf., por exemplo, AMORIM, 2001,
2006a, 2006b; BRAIT, 2005, 2006, 2007; TEZZA, 2003; FIORIN, 2006a e b; os
textos contidos em FARACO, TEZZA & CASTRO, 2006 etc.).

DISTRIBUIÇÃO DOS CAPÍTULOS

O capítulo 1 traz a descrição do conceito de dialogismo, relacionado


logicamente com sua concepção de interação, que por isso é ali abordada. O
dialogismo é tratado em três níveis (seguindo principalmente, mas não só,
SOBRAL, 2005a), do geral para o particular: no de concepção geral do agir e do
existir (“ser-evento”) humano, no da interdiscursividade constitutiva do discurso e
no de forma de organização de textos mobilizados por discursos. Falar de
dialogismo supõe naturalmente falar de sujeitos, e, por esse motivo, no capítulo
2, abordamos a concepção de sujeito do Círculo em sua relação com a questão da
produção dos sentidos no discurso e na vida — porque o Círculo não tem apenas
uma concepção de linguagem a oferecer, mas também uma concepção filosófica
dos sujeitos nas várias esferas em que são agentes.
Tratamos no capítulo 3 das categorias de autoria e estilo, fazendo uma
primeira abordagem de sua relação com os conceitos de forma composicional e
forma arquitetônica, a ser retomados quando tratarmos especificamente das
concepções estéticas do Círculo (cf. SOBRAL, 2005b, 2006). Ocupamo-nos no
capítulo 4 da questão significação/tema (cf., entre outros, CEREJA, 2005), em
sua relação com o signo ideológico (sem pretender esgotar a conceito de ideologia
do Círculo; cf., por exemplo, MIOTELLO, 2005), o que implica um primeiro
tratamento da concepção de enunciado concreto (cf. SOUZA, esp. 1999; BRAIT,
2005a, b, c).
No capítulo 5 discorremos de modo específico sobre a entoação avaliativa
(ou expressiva) e a responsividade ativa, estreitamente relacionadas, retomando
as propostas feitas antes. A exploração do conceito de enunciado concreto (cf.
SOUZA, 1999) e a concepção de discurso do Círculo é o objeto do capítulo 6, que
busca definir igualmente texto e discurso de uma maneira que se pretende
inovadora (cf. SOBRAL, 2006; para outra posição, cf. FIORIN, 2006a, 2006b).
A teoria estética do Círculo de Bakhtin é abordada no capítulo 7, no qual
discorremos sobre as relações entre o material, a forma e o conteúdo da obra
literária do ponto de vista da ação autoral arquitetônica como o “momento” de
transfiguração estética do mundo dado. O capítulo 8 é dedicado ao conceito de
gênero discursivo em seu vínculo intrínseco com as esferas de produção,
circulação e recepção. Buscamos demonstrar a relevância desse conceito na
concepção geral de discurso do Círculo, propondo que, além do estilo (autoral e de
gênero), do tema e da forma composicional, com que se costuma tratar o
conceito, deve-se considerar a forma arquitetônica e a ação autoral em seu
entendimento.
No capítulo 9, tentamos indicar, a partir de um texto verbo-visual, uma
capa de livro de auto-ajuda (objeto outrora tido por menos nobre), alguns
elementos do que seria a Semiótica da Cultura de Bakhtin, isto é, a maneira como
Bakhtin e seu Círculo descrevem e explicam a vida simbólica, ou “sígnica”, dos
sujeitos. Naturalmente, o conceito de gênero, que é uma idéia-força dessa
semiótica da cultura (já que sempre nos exprimimos por meio de gêneros, da vida
cotidiana às “altas esferas” da cultura) é retomado nesse capítulo. Pretendemos
mostrar ser o gênero, entendido da maneira complexa proposta pelo Círculo, e não
em certas diluições modernas dessa noção, constitui o ponto de chegada prático
daquilo que é o dialogismo em termos teóricos – o que explica inclusive o título
dessa coletânea de ensaios. Em outras palavras, trata-se de uma amostra de
análise de discurso em que nos empenhamos em abordar os principais conceitos e
noções de uma maneira que mostre a convergência entre dialogismo e gênero (em
vez de sua mera contigüidade) e a confluência, na “unidade” assim formada,
desses conceitos e noções. Quando dizemos "amostra de análise", queremos dizer
que nenhuma análise (ou modelo de análise) esgota seu objeto e que um mesmo
objeto pode ser analisado, mesmo a partir dos mesmos instrumentos, de mais de
uma maneira. Trata-se, portanto, de uma possibilidade de análise, não de uma
fórmula, o que de modo algum significa que não siga parâmetros identificáveis e
coerentes; o ponto essencial é a recusa em declarar “esta é a análise bakhtiniana”:
os absolutismos autoritários, assim como os relativismos pusilânimes, repugnam
ao Círculo de Bakhtin!
Estão presentes em todos os capítulos, dedicados especificamente a um ou
mais conceitos e/ou noções basilares do Círculo, termos contidos em outros
capítulos, bem como alguns outros que são explicados brevemente quando de seu
uso. Cada capítulo retoma em progressão, dialogicamente, elementos contidos nos
precedentes, sempre a partir da insistência no que julgamos ser o “núcleo” da
proposta do Círculo, a fim de destacar antes o modo de agir do Círculo do que a
definição — que, insistimos, é necessária, mas de modo algum suficiente.

***

Aproveito para agradecer à Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em


Literatura do Centro de Letras e Ciências Humanas da Universidade Estadual de
Londrina (UEL), Profª. Drª. Regina Helena Machado Aquino Correa, que me deu
em 2006 a oportunidade de “testar” parte daquilo que o livro propõe num curso de
curta duração no nível de pós-graduação intitulado “A Concepção Estética de
Bakhtin no Âmbito do Dialogismo”. Agradeço ainda a todos os interessados e
argutos alunos que então acompanharam o curso e me fizeram, por meio de suas
interrogações, ver coisas com novos olhos! Agradeço igualmente, e de modo
especial, à Profa. Dra. Maria de Lourdes Matêncio, que me deu a oportunidade de
publicar este livro.
Adail Sobral
São Paulo, Outubro de 2008
CAPÍTULO 1
Dialogismo e Interação

“A PALAVRA DIALÓGICA” NA UNIÃO SOVIÉTICA

Para situar a questão do dialogismo no contexto russo no qual surgiu na


década de 1920, cabe mencionar de passagem as principais circunstâncias
intelectuais e políticas da época do interesse pela questão do diálogo/da dialogia
como objeto de estudo científico. Esse interesse, que não marcou apenas as
obras do Círculo, começou pelo diálogo verbal face-a-face, e, portanto, pela
interação tal como então entendida, numa época em que ainda predominava na
União Soviética a lingüística histórico-comparativa, dedicada ao estudo das leis
fonéticas etc., e em que o texto escrito, principalmente literário, era visto como
“documento” de uma época ou de um país, o que precede a própria concepção
formalista mais tarde criticada pelo Círculo. Com as profundas transformações
sociais e históricas ocorridas nessa época e nesse contexto cultural, manifestou-
se uma crise dos estudos lingüísticos russos tradicionais, que viram suas
problemáticas cederem lugar a novas problemáticas, mais compatíveis com o
“clima de época”, tanto no plano acadêmico como no político. A partir da primazia
dada num primeiro momento ao governo do proletariado, passou a haver um forte
interesse institucional em dotar o povo da capacidade de expressão clara das
idéias (e não entramos aqui no mérito do sentido dessa expressão), tanto por meio
da fala como da escrita. A contraposição de um governo que se dizia não-
autoritário à monarquia então derrubada criou assim um clima propício à ênfase
na ação do sujeito falante entre outros sujeitos falantes no âmbito da sociedade e
da história. Os eventos políticos posteriores, que mudaram a face do novo
governo, não alteraram esse interesse, mas criaram várias dificuldades à sua
continuidade, ao menos em termos “não oficiais”.
Coube a Lev Jakubinski, formalista membro da OPOJAZ (Sociedade para o
Estudo da Linguagem Poética), a primazia da publicação, em 1923, de um artigo
sobre “a palavra dialógica” — expressão naturalmente dotada de um sentido no
âmbito da proposta desse autor, não do ponto de vista do Círculo. O texto é
construído de uma perspectiva crítica (com relação ao saber então aceito) a partir
do comportamentalismo (!) de John Watson (1878-1958), das concepções da
psicologia de William James (1842-1910) e da psicologia social do sociólogo belga
Gabriel Tarde (1843-1904), o primeiro a ocupar-se do que hoje recebe o nome de
“opinião pública”. Voloshinov foi colega de Jakubinski numa instituição russa,
tendo retomado, ampliado e reformulado radicalmente algumas idéias contidas
nesse artigo, principalmente em partes de sua obra conhecida no Brasil pelo título
Marxismo e filosofia da linguagem. 4 Não temos dados acerca de eventuais
relações diretas entre Jakubinski e os membros do Círculo, mas é de notar que as
concepções de Voloshinov, de Bakhtin e de Medevedev contêm de alguma
maneira elementos das propostas desse autor, transplantados e reapropriados
nos diferentes contextos e empreendimentos em que viveu e de que se ocupou o

4
Cf. IVANOVA, 2003, que usamos amplamente aqui, e MATIEYKA, 1976.
Círculo, dado que, naturalmente, várias outras teorias e concepções filosóficas,
estéticas, lingüísticas e discursivas convergem para as propostas do Círculo
Podemos descrever esquematicamente as novas problemáticas surgidas,
que foram desenvolvidas pelo Círculo de Bakhtin, da seguinte maneira:

1) O interesse pela ação dos sujeitos falantes (objeto específico do Círculo),


em contraposição à linguagem como sistema fechado e ao texto como
“documento”;
2) O interesse pelo discurso interior, o aspecto psicológico da linguagem
(objeto específico da psicologia marxista de Vigotski e abordado pelo
Círculo em termos de seus interesses específicos), em contraposição ao
sistema lingüístico como algo que se sobrepõe ao psiquismo dos seres
humanos sem a participação destes (um “sistema-sujeito”).
3) A ênfase no aspecto social dos estudos da linguagem, de cunho
principalmente marxista, que enfatizava a função social da linguagem
(objeto específico do Círculo, mediante uma revisão das teses do chamado
marxismo vulgar), em contraposição a uma concepção a-social e a-histórica
da linguagem, de caráter subjetivista (um “sujeito-sistema”) (cf. SOBRAL,
1999).

Essas problemáticas destacam 3 elementos principais: o agir do sujeito


falante como agente dotado de um psiquismo e imerso em relações sociais que o
constituem e em que ele constitui o outro, com a mediação de um sistema
lingüístico não fechado porque inserido na sociedade e na história, sendo estas
concebidas como sistemas dinâmicos. Como vamos ver ao longo deste livro, as
teorias do Círculo são a mais abrangente e profunda formulação do conjunto
dessas problemáticas, propondo, mais do que uma teoria do discurso, uma
“semiótica da cultura”, de cunho filosófico, fundada num coerente conjunto de
procedimentos metodológicos e práticos que superam em muito “fórmulas” ou
técnicas de análise. Para dar uma idéia disso desde o princípio, faço a seguir
algumas considerações sobre a filosofia do ato ético de Bakhtin.

BREVE NOTÍCIA SOBRE A FILOSOFIA DO ATO, OU O DIALOGISMO NA


CONSTITUIÇÃO DO EU NA VIDA SOCIAL

A filosofia do ato ético (ou ato responsável, ou ainda, como propusemos


alhures, ato responsível) de Bakhtin é em termos gerais uma proposta de estudo
do agir humano no mundo concreto, mundo social e histórico e, portanto, sujeito a
mudanças, não apenas em termos de seu aspecto material, mas das maneiras de
os seres humanos o conceberem simbolicamente, isto é, de o representarem por
meio de alguma linguagem, e de agirem nesses termos em circunstâncias
específicas. O empreendimento bakhtiniano sobre essa questão é, como se vai
explorar, uma tentativa de mostrar como generalizar validamente acerca das
singularidades que são os atos sem perder de vista precisamente essa
singularidade.
Falar de ato nos termos de Bakhtin é falar de um agir geral que engloba
atos particulares; por isso, falar de ato é falar ao mesmo tempo de atos. O ato
como conceito é o aspecto geral do agir humano, enquanto os atos são seu
aspecto particular, concreto. Todos os atos têm em comum alguns elementos: um
sujeito que age, um lugar em que esse sujeito age e um momento em que age.
Isso se aplica tanto aos atos realizados na presença de outros sujeitos como aos
atos realizados sem a presença de outros sujeitos, aos atos cognitivos que não
tenham expressão lingüística etc. Falar de ato, portanto, pressupõe dois planos,
um plano de generalidade, dos atos em geral, e um plano de particularidade, de
cada ato particular, planos esses que estão necessariamente interrelacionados. A
generalidade e a particularidade são categorias filosóficas, e o filósofo Bakhtin as
considera em sua proposta de filosofia do ato; ele distingue entre o conteúdo do
ato, isto é, aquilo que o ato produz ao ser realizado, ou seu produto, e o processo
do ato, ou seja, as operações que o sujeito realiza para produzir atos.
Vemos assim na concepção de ato de Bakhtin um processo do ato, um
produto do ato e um agente (interagente) do ato. Ao contrário de algumas
filosofias da ação, ou do processo, a filosofia de Bakhtin pode ser considerada,
como já afirmei, uma “filosofia humana do processo”, ou seja, uma filosofia do
processo em que o agente do processo, e não apenas o processo, ou o produto,
tem sua importância reconhecida. Do mesmo modo, ao contrário de outras
filosofias, de caráter mais formalista, vinculadas com a forma, ou de caráter mais
teorético), o produto do ato, ou o aspecto comum a todos os atos, não é o
elemento mais importante, mas sim as características singulares de cada ato. Isso
acontece porque, para Bakhtin, a vida, o mundo concreto, é a vida de sujeitos
concretos, é vida prática, e seu entendimento pela teoria não pode por isso ser
abstrato, ou seja, tão geral que perca de vista os atos concretos realizados por
sujeitos concretos em situações concretas que as teorias não podem abarcar de
uma vez por todas. Além disso, ele concebe a vida de cada sujeito como formada
por uma sucessão de atos concretos; trata-se de atos que são singulares,
irrepetíveis (só acontecem uma vez), atos únicos, ou atos que não são iguais a
outros atos, mas que têm elementos comuns com outros atos e por isso fazem
parte da categoria englobante ato.
Bakhtin critica várias teorizações, filosóficas e outras, que, ao generalizar,
apagam a especificidade de cada ato, vendo apenas o que há de comum entre
eles; é o que Bakhtin denomina “teoreticismo”, ou a tendência a perder de vista,
ao se criarem conceitos, o aspecto concreto, material, dos eventos que servem à
formação desses mesmos conceitos. Ao ver do filósofo, é nefasta a tendência
teoreticista de reduzir atos particulares ao que há em comum entre todos os atos,
pois isso separa o concreto do abstrato, o geral do particular, e, assim, perde de
vista a totalidade que é o ato, uma dialética entre conteúdo (ou sentido) e
processo concreto de realização. Bakhtin se opõe aqui a filosofias formalistas,
próximas do racionalismo, em que as categorias de organização da percepção se
sobrepõem ao aspecto empírico da percepção e a reduzem ao geral. Por outro
lado, ao defender uma versão da filosofia da práxis materialista dialética, Bakhtin
evita cuidadosamente cair no extremo oposto de certas tendências filosóficas,
próximas do empirismo, em que a percepção seria tida como imediata, sem
categorias que a organizem, e que a reduzem assim a seu aspecto particular.
Logo, se não admite que a teoria apague a vida concreta, prática, Bakhtin também
não admite que a prática concreta apague a teoria, o plano em que se pode
generalizar sobre todos os atos. Nesse sentido, Bakhtin considera vital, em todo
empreendimento humano, evitar a separação entre “o conteúdo ou sentido de um
dado ato/atividade e a concretude histórica do ser desse ato/atividade, a
experiência atual e uni-ocorrente dele” (BAKHTIN, 1993/1997 [edição russa de
1986], p. 1), separação que a seu ver atinge tanto o pensamento teórico discursivo
(as ciências naturais e na filosofia) como a descrição-exposição histórica e a
intuição estética.
O “conteúdo ou sentido do ato/atividade” refere-se ao produto do ato, aquilo
que o ato gera; a “experiência atual e uni-ocorrente” do ato é o processo do ato,
que se atualiza (se realiza) numa situação concreta que não permanence imutável
e, portanto, ocorre uma única vez. Ainda que realize a mesma ação física (Tat, do
alemão filosófico) e o mesmo ato puro (Akt) ao agir no aqui e agora (e só se age
no aqui e agora), o sujeito terá realizado segundo Bakhtin dois atos (Akt-
deiatel’nost) distintos, pois a ação física e o ato puro são partes do conteúdo do
ato, mas não de sua experiência concreta, que não se repete, ainda que as
circunstâncias de sua realização se assemelhem. Trata-se de uma dialética
“produto-processo”; dialética porque o processo supõe um produto dele resultante
e, o produto, um processo de produção. A partir dela, embora os diferentes atos
possam ser objeto de uma generalização como atos, membros da classe do ato,
dado que o conteúdo ou sentido de cada ato é repetível, ocorre mais de uma vez,
seu processo, por ser irrepetível, ocorrer uma só vez, não pode ser objeto de uma
generalização. Assim, entender um ato é entender o todo do ato, sua dialética
produto-processo, seu caráter situado, isto é, de ação humana que ocorre num hic
et nunc, aqui e agora.
Bakhtin traz assim à luz para os fins de sua filosofia da vida outra
importante distinção filosófica, a que separa o sensível do inteligível. O sensível
está ligado ao mundo da vida (Lebenswelt), ao mundo vivido, e é o plano das
impressões que o sujeito obtém de suas vivências nesse mundo dado, mundo
existente per se; refere-se, no caso da teoria do ato, ao vir-a-ser concreto do ato,
ao seu processo. O inteligível está ligado à elaboração segunda da percepção, ou
seja, à apreensão organizada das impressões (em nosso caso, do sentido ou
conteúdo do ato), apreensão em termos de uma dada forma de organização,
referindo-se à parcela generalizável do(s) ato(s). Assim, integram-se nos atos o
conteúdo e a forma, a materialidade concreta e a elaboração teórica, o estar-no-
mundo e a categorização do mundo, os elementos peculiares a cada ato e o que
de comum entre todos os atos. Bakhtin privilegia sempre a situação concreta em
que ocorrem os atos. Ele afirma que se pode fazer abstração do produto ou do
processo, por razões teóricas e outras, mas não se pode tomar nem o produto
nem o processo como a totalidade do ato. Fazê-lo é cair seja no teoreticismo que
nega o diferente ou num tosco empirismo que só vê o diferente. Afinal, o
conteúdo, ou aspecto abstrato do ato, que todo ato e cada ato compartilha com
todos os outros atos, é organizado com base no processo do ato, no agir do
sujeito em sua situação histórica e social, e o processo do ato, ou aspecto
concreto do ato, que é peculiar de cada ato, só pode ser compreendido a partir da
estrutura compartilhada por todos os atos.
O plano das categorias de organização da experiência humana, ou
inteligível, e o plano das experiências humanas, ou sensível, plano da percepção
das impressões totais, só adquirem sentido em sua oposição complementar, em
sua dialética: a percepção sensível da multiplicidade e a redução inteligível à
unidade são “instâncias” separáveis teoricamente, mas que se auto-pressupõem
na prática: uma não existe sem a outra, e sua articulação é que permite identificar
o ato como um todo. Nisso Bakhtin se aproxima da redução fenomenológica de
Husserl e Merleau-Ponty, o retorno às "coisas mesmas", ao mundo vivido, o
Lebenswelt, mas insiste em tomá-lo em seu aspecto contextual e situacional, sem
abstrações teoreticistas. O mundo dado, o mundo existente, mundo que está aí
(dan em russo), mundo sensível, se articula com o mundo postulado (zadan), o
mundo organizado, mundo inteligível, ou, de outro ponto de vista, o mundo da
realização (processo) de uma multiplicidade de atos irrepetíveis, o mundo das
singularidades que são os atos, se articula com o mundo da organização (sentido)
da multiplicidade de atos irrepetíveis, mundo da unidade, da generalidade, que é o
conceito de ato. Esta é a maneira encontrada por Bakhtin para generalizar sobre
as singularidades que são os atos humanos, que não seguem leis como as da
física, por exemplo, leis que supõem a eterna repetibilidade do mesmo.
Por razões didáticas, falamos até o momento no ato per se, fazendo vagas
referências aos agentes, aos sujeitos concretos que realizam atos, numa espécie
de “semântica da ação sem agentes” (RICOEUR, 1990, p. 73). Mas o grande
diferencial da filosofia do ato de Bakhtin é precisamente a forma de proposição do
agente dos atos como mediador entre os atos particulares que realiza e os
atos/atividades possíveis em sua situação, as práticas no âmbito das quais o
agente realiza atos. Bakhtin entende o ato, já ao escolher a palavra russa com que
o designa, postupok, como “ato-feito”, “ato-façanha”, logo, ato em processo de
realização, mas que é tanto pressuposto como pressupõe seu produto ainda não
realizado. Temos como implicações disso que (a) o agente age numa situação
concreta organizada em torno de práticas sociais e históricas que limitam as
possibilidades de atos e de formas de realização de atos e (b) essas
circunstâncias específicas devem ser consideradas em todo entendimento de
atos, porque, sem elas, os atos são incompreensíveis.
As práticas supõem grupos humanos, não sujeitos isolados; supõem
situações concretas e sujeitos concretos; supõem ainda a intencionalidade do
sujeito de realizar atos e sua realização concreta de acordo com formas aceitas de
realização, ainda que sempre em realização individual-relacional. Para Bakhtin,
que fala de “atos de nossa atividade”, há atividades-tipo, os atos/atividades, ou
seja, conjuntos globais de atos, e atos-ocorrência, atos/feitos, ou seja, ocorrências
singulares de atos, organizados contudo segundo atos/atividades.
Esclareço que não estão excluídos da categoria dos atos as ações
involuntárias dos sujeitos, mas destaco que o foco aqui é a categoria de sujeito
entendida em termos éticos, em termos de responsabilidade ética e de
responsividade aos outros sujeitos. Para Bakhtin, que afirma que “não há álibi na
existência”, sejam ou não voluntários, os atos do sujeito são responsabilidade sua
(ou melhor, “responsibilidade” sua, isto é, responsabilidade pelo ato e
responsividade aos outros sujeitos no âmbito das práticas em que são praticados
os atos (para uma explicação detalhada de “responsibilidade”, em russo
otvetstvennost', cf. SOBRAL, 2005a, p. 20-21). Bakhtin, aproximando-se de Sartre
e Heidegger, reformula o “em-si” e o “para-si” hegelianos em termos da condição
humana segundo as categorias “eu-para-mim”, “eu-para-o-outro” e “outro-para-
mim”. O eu-para-mim é, naturalmente, eu enquanto voltado para mim mesmo; o
“eu-para-o-outro” se refere à minha iniciativa de aproximar-me de outros sujeitos,
numa espécie de “saída de si”; e o “outro-para-mim” se refere à iniciativa do outro
de aproximar-se de mim, também uma espécie de “saída de si”.
Tentando mais uma vez, como é típico de seu pensamento, alcançar a
unidade do fenômeno em vez de limitar-se a algum aspecto parcial dele, Bakhtin
considera legítimo que o eu saia de si para aproximar-se do outro, e vice-versa,
mas afirma enfaticamente que essa saída deve ser sempre seguida de uma “volta
a si”: aquele que se põe no lugar do outro e não volta ao lugar que lhe pertence é
infiel a si e ao outro! Porque cada sujeito ocupa um lugar ímpar, peculiar,
irrepetível, insubstituível no mundo. Portanto, as relações entre sujeitos não
submetem os sujeitos, singulares, ao coletivo de sujeitos, despersonalizando-os, e
ao mesmo tempo não atribui a cada sujeito a possibilidade de se sobrepor ao
coletivo, tornando-se autárquico. Portanto, exige coerentemente de cada sujeito a
responsabilidade por seus atos e obrigações éticas com relação aos outros
sujeitos. E o faz propondo o que chamei de “sujeito situado” (Id., p. 22ss), ou seja,
um sujeito cujas decisões éticas não ocorrem apenas a partir de regras gerais,
pretensamente aplicáveis a todas as situações, mas da junção entre essas regras
e as circunstâncias específicas da decisão. Em vez de um código moral, de um
conjunto de regras abstratas, ele propõe um código ético, um conjunto que parte
de regras abstratas e as torna concretas nas situações em que se tomam
decisões éticas.
O sujeito que toma decisões éticas, em suas circunstâncias específicas,
não pode alegar depois que foi vítima delas (naturalmente, exceto em caso de
uma coação irresistível), nem pode culpar as regras gerais pelo desfecho de suas
decisões concretas específicas. Porque para Bakhtin o conteúdo ou sentido das
decisões éticas está intrinsecamente ligado ao processo de decisão e, portanto, à
“situacionalidade” do agente. O ponto alto da proposta de Bakhtin é alegar que a
validade das decisões éticas depende não de abstrações, mas da articulação,
junção, entre regras éticas (se assim se pode dizer) e as circunstâncias concretas
da vida concreta, do processo situado de decisão, do agente: o sujeito, ao agir,
deixa por assim dizer uma “assinatura” em seu ato e por isso tem de
responsabiliza-se pessoalmente por seu ato e se responsabiliza por ele perante a
coletividade de que faz parte (e, em última análise, perante a humanidade como
um todo!).
Para Bakhtin, portanto, a valoração/avaliação ética que o agente tem de
fazer de seus próprios atos é o elemento unificador de todos os atos de sua
atividade. Trata-se de um ato de avaliação “responsível” em que se fazem
presentes o processo do ato, ou sua singularidade, o conteúdo do ato, ou sua
generalidade, e o agente como sujeito que avalia seus atos/feitos singulares no
âmbito da generalidade dos atos/atividades. O sujeito não está sozinho: o valor de
seus atos, a avaliação/valoração que o sujeito faz deles é o valor que eles têm
para o agente, em vez de um valor absoluto que se impusesse a ele, mas essa
valoração/avaliação ocorre numa situação de interação com outros sujeitos. O
sujeito une em seus atos éticos, em suas decisões éticas, o mundo dado (dan),
mundo natural, e o mundo postulado (zadan), social e histórico, objetivado, ou
“interpretado”, por uma coletividade, mas o faz em seus próprios termos, pelos
quais tem de responsabilizar-se. O agir do sujeito, assim, é uma sucessão de atos
de mediação entre o geral e o particular; essa mediação tem um caráter situado,
avaliativo e responsável, nos termos da situação do sujeito, entre a materialidade
concreta e a “simbolização” coletiva dessa materialidade. Trata-se de uma
mediação que depende da “interpretação” (apropriação) específica que cada
sujeito, singular que é, faz pessoalmente da “interpretação” (objetivação) coletiva
do mundo dado.

DIALOGISMO

Num dos pontos altos do que denominei “dialogismo generalizado do Círculo”,


Bakhtin afirma:

Não existe a primeira nem a última palavra, e não há limites para o contexto
dialógico (este se estende ao passado sem limites e ao futuro sem limites).
Nem os sentidos do passado, isto é, nascidos do diálogo dos séculos
passados, podem jamais ser estáveis (concluídos, acabados de uma vez por
todas): eles sempre irão mudar (renovando-se) no processo de
desenvolvimento subseqüente, futuro, do diálogo. Em qualquer momento do
desenvolvimento do diálogo, existem, massas imensas e ilimitadas de
sentidos esquecidos, mas em determinados momentos sucessivo
desenvolvimento do diálogo, em seu curso, tais sentidos serão relembrados
e reviverão em forma renovada (em novo contexto). Não existe nada
absolutamente morto: cada sentido terá sua festa de renovação (2003, p.
410).

Trata-se de uma das mais abrangentes descrições da “concepção dialógica


da linguagem”. Essa concepção é chamada dialógica porque propõe que a
linguagem (e os discursos) têm seus sentidos produzidos pela presença
constitutiva da intersubjetividade (a interação entre subjetividades) no intercâmbio
verbal, ou seja, as situações concretas de exercício da linguagem. A subjetividade
é entendida ao mesmo tempo em termos psíquicos, sociais e históricos, em vez
de puramente psicológicos, e é considerada a condição de possibilidade da
subjetividade: o sujeito da linguagem, sujeito do discurso, é um agente – ou
melhor, um “interagente” –, alguém que age na presença (que não é
necessariamente física; ver a seguir a seção “Interação”) de outro(s) agente(s). A
concepção de linguagem e de discurso proposta pelo Círculo de Bakhtin é
essencialmente ativa, e, portanto, centrada no agente: o ato verbal, o processo de
intercâmbio lingüístico, no qual são produzidos os enunciados, e não apenas os
enunciados/discursos entendidos redutivamente como produtos de um significado
fixado de uma vez por todas, constitui o objeto de estudo e o centro de seu
empreendimento. Para o Círculo, todo enunciado pressupõe uma enunciação e
toda enunciação produz enunciados (cf., por exemplo, BRAIT e MELO, 2005).
Tomar exclusivamente o texto ou o contexto como objeto é tarefa legítima,
mas necessariamente parcial, dado que não abarca a inteireza do processo de
produção de sentido, restringindo-se a um de seus aspectos, o produto em si ou o
processo em si. “Inteireza”, naturalmente, refere-se não a tratar de todos os
aspectos do fenômeno, mas a tratar de todo o fenômeno em vez de considerar
apenas alguns de seus aspectos como se fosse o fenômeno todo; trata-se de uma
perspectiva arquitetônica totalizante mas não totalitária. Toda a obra do Círculo
pode de certo ponto de vista ser entendida como a busca da superação de
propostas teóricas e metodológicas que tomam a parte pelo todo, que julgam o
todo mera soma ou simples junção de partes, que não levam suas propostas às
últimas conseqüências ou que sequer se dão conta dessas conseqüências. No
âmbito dessa concepção ativa, que se empenha em abarcar a natureza dos atos
humanos sem essencialismos, merece destaque, naturalmente, a idéia de
dialogismo, a idéia-mestra segundo a qual toda “voz” (todo ato) humana envolve a
relação com várias vozes (atos), dado que nenhum sujeito falante é a fonte da
linguagem/do discurso, ainda que seja o centro de suas enunciações, do mesmo
modo como nenhum agente humano é a fonte de seus atos, ainda que seja o
centro destes e por eles tenha de responsabilizar-se (cf. BAJTÍN, 1997).
O conceito de dialogismo, vinculado indissoluvelmente com o de interação,
é assim a base do processo de produção dos discursos e, o que é mais
importante, da própria linguagem: para o Círculo, o locutor e o interlocutor têm o
mesmo peso, porque toda enunciação é uma “resposta”, uma réplica, a
enunciações passadas e a possíveis enunciações futuras, e ao mesmo tempo
uma “pergunta”, uma “interpelação” a outras enunciações: o sujeito que fala o faz
levando o outro em conta não como parte passiva mas como parceiro —
colaborativo ou hostil — ativo. A linguagem para o Círculo define-se precisamente
a partir dessa cadeia ou corrente mutante de enunciações, de enunciados
concretos, sem prejuízo da estabilidade relativa das “frases”, das “formas da
língua”, que são o material das enunciações, mas não sua “essência”.
Acentuamos aqui a enunciação, o processo de produção de enunciados, em vez
do enunciado, o produto da enunciação, por ser essa a base da concepção do
Círculo. É contudo preciso lembrar que, para o Círculo, se na verdade só há
enunciados se houver enunciação, só sabemos que há enunciação se houver
enunciados – mesmo que o enunciado seja o silêncio, a não-fala. Em outras
palavras, enunciação e enunciado se pressupõem mutuamente, são as duas faces
de uma mesma moeda – algo que, em russo, é bem evidente, pois uma só palavra
designa “enunciado” e “enunciação”.
Os atos humanos — discursivos e outros — ocorrem nos termos do Círculo
em permanente tensão com outros atos, passados e futuros, ou seja, o dialogismo
é a base da idéia de que só da diferença nasce o sentido, sem menosprezar a
semelhança, porque, sem esta última, haveria incompatibilidade, não diferença.
Essa concepção vê a diferença não como propriedade de um sistema (ou código)
fechado, mas como a base e o resultado das relações concretas entre os seres
humanos na sociedade e na história, relações que apresentam elementos
estáveis, que se repetem, e elementos instáveis, que não se repetem; uns não
existem sem os outros. Os elementos estáveis são justamente os que nos
permitem identificar os elementos instáveis; esses elementos instáveis, por sua
vez, acabam por alterar os estáveis, criando um novo estado do sistema. Como
isso ocorre o tempo inteiro, nunca há um sistema estático, mas um constante
processo de interconstituição entre estabilidade e mudança que faz do sistema um
dinamismo, em vez de um conjunto estático.
Cabe enfatizar, embora pudesse parecer desnecessário, que “dialogismo”
não se confunde com “diálogo”, quer se trate das réplicas de um diálogo face a
face ou de sua representação em discursos, estéticos e outros. O diálogo é um
fenômeno textual e um procedimento discursivo englobado pelo dialogismo, sendo
apenas um de seus níveis mais evidentes no nível da materialidade discursiva.
Por outro lado, o enunciado e o discurso, por mais “fechados”, por mais
“subjetivos” que sejam, continuam a ser dialógicos, porque (1) não pode haver
enunciado sem sujeito enunciador, (2) o sujeito não pode agir fora de uma
interação, mesmo que o outro não esteja fisicamente presente; (3) não há
interação sem diálogo, que é uma relação entre mais de um sujeito, mesmo no
caso do chamado “discurso interior”, discurso do sujeito dirigido a si mesmo, o
“falar com os botões”, como vai ficar mais claro adiante.
O conceito de dialogismo é portanto conceito amplo, de cunho filosófico,
discursivo e textual. Refere-se assim a três planos distintos, que apresentamos do
geral para o particular:

1. Dialogismo designa em primeiro lugar a condição essencial do próprio ser


e agir dos sujeitos (cf. SOBRAL, 2007b, esp. p. 106 ss; 2006, passim; e
FIORIN, 2006a, p. 55 ss, 2006b, p. 192, n. 4). O sujeito só vem a existir na
relação com outros sujeitos, assim como só age em relação a atos de
outros sujeitos, nunca em abstração desses sujeitos e desses atos.

Nesse sentido, a existência do sujeito humano (que é mais do que um ser


biológico) está fundada na diferença, no confronto entre um “isto” e um “aquilo”,
um “eu” e um “tu”. A criança vem ao mundo como um ser biológico que só se torna
ser social na interação com outros seres que vieram antes dela. O fato de essas
pessoas terem vindo ao mundo antes não faz a relação desses sujeitos com ela
deixar de constituir o ser delas, visto que não se trata de uma relação de uma só
direção em que a criança é receptáculo do que os outros lhe “transmitem”, mas
sempre de uma inter-relação. Claro que o peso específico dos adultos nessa fase
é maior do que o da criança, mas nem por isso ela deixa de afetá-los, e mesmo de
manipulá-los; a criança cedo descobre como fazê-lo!

2. Dialogismo designa em segundo lugar a condição de possibilidade da


produção de enunciados/discursos, do sentido, portanto. Segundo o
Círculo, adquirimos a linguagem em contato com os usos da linguagem nas
situações a que somos expostos (não nos dicionários ou nas gramáticas).
Isso implica que o sentido nasce de “diálogos” (no sentido amplo) entre
formas de enunciados/discursos passados, que já foram produzidos, e
formas de enunciados/discursos futuros, que podem vir a ser produzidos –
independentemente do “texto” desses discursos, mas claro que levando em
conta formas textuais tipicamente presentes em discursos.

Aqui vemos a profundidade do conceito de dialogismo no plano do discurso:


antes mesmo de pronunciar uma só palavra diante do outro, seja qul for a
materialidade da expressão, o sujeito já está “respondendo” a esse outro,
“antecipando-se” a objeções suas, “perguntando-lhe” algo, questionando-o e
questionando a si mesmo (“devo dizer isso?” “devo dizer assim?” etc.). Esse
aspecto do dialogismo é a base da amplitude da concepção de interação do
Círculo, que, como veremos adiante, vai bem além de outras concepções de
interação. Isso porque não se restringe ao contexto imediato, ao ambiente físico
real do intercâmbio verbal, à textualidade propriamente dita, às características
pessoais dos sujeitos envolvidos etc., mas reúne esses e outros elementos.

3. Dialogismo é, por fim, a base de uma forma de composição de


enunciados/discursos, o diálogo. O dialogismo não se restringe às réplicas
“mostradas” de uma interação na superfície textual, que é a função da
forma diálogo. Além disso, o fato de não se separarem “falas” num texto
não implica a inexistência de um diálogo. Do mesmo modo, “diálogo” não
tem aqui o sentido do senso comum.

Quando diz a si mesmo sobre alguma coisa “Não é tão ruim assim”, aquele
que o diz está respondendo a um enunciado “não-dito”: “é ruim”, “é bem ruim” etc.
No caso da representação do diálogo no discurso, tanto marcado por aspas ou
travessões etc. como não marcado, há uma oposição de forma com respeito à
forma de composição “monólogo” algo comum, por exemplo, na enunciação
poética. Esse sentido mais “restrito” foi explorado recentemente, em termos
práticos, por FIORIN (2006a, 2006b), e dele não nos ocupamos especificamente,
dado que o nosso objetivo é examinar as bases do conceito.
Neste ponto, é preciso esclarecer que embora haja formas monológicas e
formas dialógicas, para o Círculo nenhum enunciado/discurso pode ser
constitutivamente, intrinsecamente, monológico nos dois outros sentidos, que são
translingüísticos, ou seja, vão além do lingüístico: o simples fato de alguém
enunciar algo como “a verdade” já pressupõe a existência de alguma outra
“verdade” possível (do mesmo modo como toda negação pressupõe alguma
afirmação, como bem viu Wittgenstein, 2005). 5 Quando se leva em conta o
“confronto” de vozes de que fala o Círculo, o fato de cada voz ser única e de que,
ao falar, cada sujeito trazer de certo modo “sua” versão do mundo, percebe-se
com clareza que todo discurso (e mesmo toda palavra) é arena, lugar de
enfrentamento, de presença do outro, não se podendo pois conceber um discurso
monológico no sentido de discurso que neutralize todas as vozes que não a
daquele que enuncia, mesmo que essa seja a impressão causada pela
materialidade do texto. Em outras palavras, “confronto” não é necessariamente
“conflito”, podendo ser igualmente “acordo”, o que pressupõe mais de um sujeito,
e que esse “confronto” é fator constitutivo do intercâmbio verbal, fundado, como
todo processo de produção de sentido, na diferença. Para o Círculo, interagir,
dialogar, não é nem a falsa harmonia que neutraliza ou apaga a diferença, nem
uma luta sem quartel que cala a voz do outro por meio da força. Do mesmo modo,
não se pode julgar idealista a relação eu-tu aí envolvida: a concepção de “outro”

5
Ao falar adiante da concepção de estética do Círculo, retomamos essa questão em termos da
distinção entre o “prosaico” e o “poético”.
do Círculo (como vamos desenvolver adiante) é complexa, porque o outro pode
ser amigável, submisso, autoritário, inimigo etc., mas permanece em todos os
casos constitutivo do eu, tal como o eu é, como já dissemos alhures, “o outro do
outro”.
Pode-se, não obstante, perceber nos discursos o que denominamos
“tendência ao monológico” e “tendência ao dialógico” (cf. SOBRAL, 2006), para
dar conta dos extremos que são o dialogismo e o monologismo “mostrados”, ou
seja, as formas “monólogo” e “diálogo” como dominantes de uma dada
materialidade textual. Esses extremos só são possíveis, naturalmente, em termos
teóricos, mas não concretamente verificáveis — não há na prática discursos
monológicos e/ou dialógicos “puros” nem mesmo nesse sentido “mostrado”: o
discurso em forma monológica continua a ser dirigido a alguém, mesmo que este
alguém seja imaginário ou aparentemente apagado. O discurso “tendencialmente
monológico” é aquele que se mostra, em termos de sua organização, e de seu
projeto enunciativo (a intencionalidade do sujeito ao enunciar, aquilo que ele
pretende dizer), voltado, tanto em termos de incorporação como de negação, para
a “neutralização”, na superfície discursiva, das vozes que o constituem, pondo em
destaque a voz do locutor/enunciador, ou seja, criando o efeito de instauração de
uma só voz como a voz dominante. Isso pode ser feito tanto de maneira explícita
como de maneira implícita. O discurso “tendencialmente dialógico” é aquele que
se mostra, nesses mesmos termos, voltado para tornar presentes, tanto em
termos de incorporação como de negação, as vozes que o constituem. Trata-se do
discurso que busca criar o efeito de instauração, explícita ou implícita, de um
concerto de vozes, que naturalmente podem ser dissonantes. Isso explica a
possibilidade de haver discursos que, em sua organização superficial, se mostram
dialógicos, mas tendem ao monológico (um discurso demagógico, ou populista,
por exemplo, que, ao “agradar” ao outro e, assim, parecer levá-lo em conta, na
verdade tenta impedi-lo de manifestar-se reivindicatoriamente). Do mesmo modo,
há discursos que na superfície se organizam em termos monológicos, mas que
tendem ao dialógico, como é o caso de um discurso acadêmico que faz com
veemência certas afirmações, dando a impressão de abafar a voz do outro, mas
que em seu âmbito reconhece a presença de outros discursos, de outras vozes,
no próprio ato de afirmar: recordemos que negar é reconhecer uma dada
afirmação!
Há na verdade vários graus de dialogismo e de monologismo, dado que,
insistimos, não há formas “puras”, exceto como artifício metodológico e tendo em
vista que, como dissemos, o discurso, por mais autoritário que seja ou pareça ser,
ainda se dirige a um outro que o constitui. Por outro lado, mesmo um tal discurso
(claro que se não for o da condenação à morte do adversário ou coisas desse
tipo), que envolve, pelo simples fato de existir, um projeto enunciativo de que o
locutor tem consciência, apresenta inúmeros aspectos que fogem ao seu controle:
ele também responde a vozes que só se fazem ouvir, paradoxalmente, em suas
réplicas — apesar dele mesmo! Pode-se portanto afirmar que dialogismo é um
conceito que busca dar conta do elemento constitutivo não apenas dos discursos
como da própria linguagem e mesmo do ser e do agir humanos. Para o Círculo, a
recepção presumida dos discursos é tão parte da criação do sentido quanto o são
sua produção e sua circulação: não há sentido fora da diferença, da arena, do
confronto, da interação dialógica, e assim como não há um discurso sem outros
discursos, não há eu sem outro, nem outro sem eu. Em suma, a concepção
dialógica sustenta que, antes mesmo de falar, o locutor altera, “modula”, sua fala,
seu modo de dizer, de acordo com a “imagem presumida” que cria de
interlocutores típicos, ou seja, representativos, do grupo a que se dirige. Esse
modo de entender as relações dialógicas marca a concepção de interação do
Círculo, tratada a seguir.

INTERAÇÃO

O Círculo propõe uma concepção de interação radicalmente dialógica, que


começa no próprio discurso interior e que na verdade nunca cessa: ainda
“respondemos” aos gregos, e nossos discursos já estão “interrogando” gerações
futuras que não vamos ver. Nesse sentido, a concepção de linguagem, de
discurso etc. do Círculo pode ser resumida na afirmação a seguir, que torna bem
presente a questão do diálogo em sentido amplo e mostra o caráter central da
interação:

Chamo sentido ao que é resposta a uma pergunta. O que não responde a


nenhuma pergunta carece de sentido. [...] O sentido sempre responde a
uma pergunta. O que não responde a nada parece-nos insensato, separa-
se do diálogo (BAKHTIN, 1997, p. 386).

Vemos aqui que o Círculo concebe o sentido como fruto da interação, de


cunho dialógico. A interação é entendida como essencialmente fundada no diálogo
em sentido amplo, algo que não se separa dele, isto é, que envolve mais de um
termo e mais de um sujeito: a “pergunta” e a “resposta”, o eu e o outro. A pergunta
e a resposta podem naturalmente ser feitas por um só sujeito, mas, como vamos
mostrar adiante, mesmo a “conversa” de um sujeito consigo mesmo é para o
Círculo um “diálogo”, porque não há eu sem outro – nem outro sem eu!
A interação é apresentada assim como constitutiva do processo contínuo de
criação do sentido, pois, sem ela, há uma separação, ou afastamento, do diálogo
e, portanto, não há sentido. Pode-se porém ter a impressão, diante do trecho
citado, de que no princípio haveria uma dada pergunta originária que teria dado
início a uma corrente de respostas. Ora, essa afirmação do Círculo pressupõe em
vez disso um mundo já organizado ao qual cada sujeito chega, não tendo portanto
nenhuma pretensão de discutir a origem da linguagem humana, algo que de resto
se perdeu na névoa do tempo. Importa aqui que, nas atuais condições do mundo,
só faz sentido para o ser humano aquilo que responde a “alguma coisa”, ainda que
essa “coisa”, ou a resposta a ela, seja o silêncio, que também é uma enunciação.
Logo, a “resposta” não precisa ser precedida de uma “pergunta” concreta; ela é
resposta no sentido de “réplica” tanto ao que foi dito como ao que, do ponto de
vista do sujeito, pode ser dito. De fato, a “resposta” é dada não só a
enunciados/enunciações que precedem o discurso como também aos que o
poderão suceder, e as enunciações não ocorrem em algum plano abstrato, mas
no ambiente da vida concreta dos sujeitos.
Interação é outro conceito do Círculo que envolve vários níveis e, como foi
dito, vai além do plano da relação face-a-face entre sujeitos, embora a englobe,
como não podia deixar de ser. Quando fala de interação, o Círculo de Bakhtin fala
da própria base, raiz e fundamento do sentido: a relação entre sujeitos. Fala de
algo que vai da conversa face-a-face à relação entre sujeitos de lugares e mesmo
épocas distintos, algo sem o que o sentido não poderia surgir, pois o que não se
vincula/não é “resposta” a coisa alguma parece aos seres humanos algo sem
propósito, se é que eles conseguem perceber algo aí. Para entender o caráter
radical do conceito de interação do Círculo, vamos descrever aqui seus quatro
níveis integrados. Apresentamos esses níveis de acordo com seu grau de
amplitude, seu grau crescente de abrangência, que vai do contato, direto ou não,
entre os sujeitos, do tipo particular de relação entre consciências individuais (que,
insistimos, não são entendidas em termos cognitivos mecânicos) ao chamado
“espírito de época”, passando pelas instituições sociais e pelos elementos
conjunturais presentes à interação. Esses níveis são:

1. Antes de tudo, o nível do intercâmbio verbal em termos de seu aqui e


agora (ou lá e então) da presença (ou ausência) dos interlocutores na
interação. Não se trata de entender a interação em termos sociológicos ou
puramente empíricos, mas de considerá-la do ponto de vista da enunciação
projetada no enunciado, quer dizer, das marcas que a enunciação deixa no
enunciado sobre a situação material da interação.

Esse nível é o mais “limitado" em termos de grau, mas constitui a base de


todos os outros, pelos quais é afetado, porque a interação “fundadora” é
justamente o contato verbal, direto ou indireto, entre ao menos dois sujeitos. Trata-
se, podemos dizer, do aspecto físico da interação, envolvendo o ambiente físico e
os meios materiais de mediação da interação. Assistir a uma palestra num “telão”
ou diante do “palestrante”, por exemplo, são circunstâncias que alteram a
recepção do discurso e mesmo sua produção; neste último caso, uma dada
pessoa presente num auditório pode ter uma reação capaz de levar o palestrante
a inserir alterações naquilo que diz, no modo como o diz ou nos dois.

2. Em seguida vem o nível do contexto imediato do intercâmbio social.


Trata-se de um nível mais amplo e de certo modo mais abstrato. Nele estão
presentes os lugares (ou papéis) sociais, a posição dos interlocutores
envolvidos uns com relação aos outros; a imagem desses interlocutores,
tanto de um com relação ao(s) outro(s) como em relação a outros sujeitos e
à sociedade; as formas legítimas de interação social entre os sujeitos
envolvidos etc.

Esse é o nível dos imaginários e das práticas sociais, da constituição e da


legitimação de quem pode dizer o quê a quem em que momento e de que
maneira(s). Um palestrante, ao ocupar essa posição, pode dizer certas coisas e
agir de certas maneiras que não se permite, nessa circunstância, a um colega seu,
de mesmo nível acadêmico (ou academicamente superior), que esteja na platéia –
embora esse mesmo colega possa em outro momento ser o palestrante, e assim
por diante.
Nesse nível do contexto imediato estão em ação, mais do que as
características pessoais, os aspectos sociais e históricos dos sujeitos
“convocados” pela interação: os sujeitos não deixam de ser quem são, pessoas
com uma dada identidade, mas manifestam essa identidade de uma maneira
específica, a depender do outro diante do qual estão e da situação em que se
encontram: um aluno pode saber muito sobre um dado assunto de aula, mas
continua a ser aluno diante do professor, mesmo que este, digamos, possa até
saber menos sobre esse mesmo assunto.
Mesmo que o aluno seja, por exemplo, professor de música de seu
professor universitário, na qualidade de aluno, na situação acadêmica, ele
continua a ser aluno, por mais que sua condição de professor em outro contexto
interfira na interação. O contexto acadêmico institui um como professor e o outro
como aluno; ainda que o professor tenha de aceitar negociar com o aluno, ainda é
ele quem avalia o aluno – e não vice-versa. Todos os elementos desse nível
sofrem a influência do próximo nível.

3. Em seguida vem o nível do contexto social mediato, que envolve o


domínio mais amplo das esferas de atividade, do tipo de lugar em que
ocorre a interação e das exigências que esse lugar faz, num dado
momento, aos participantes da interação. Trata-se do plano da organização
social e histórica de uma dada sociedade, de suas subdivisões, de suas
instituições formais (como a Justiça ou a escola) ou informais (como o
grupo de amigos ou as gangues) específicas.

Estão presentes a esse nível as determinações conjunturais, o ambiente


cultural específico, e a situação particular desse ambiente, as relações entre
grupos sociais em que se divide a sociedade e outros elementos sociais que
incidem sobre o modo de ser da interação.

4. Vem então o nível do horizonte social e histórico mais amplo, que


abrange a cultura em geral, as relações entre culturas, os grandes períodos
da história, o “espírito de época” (Zeitgeist) e mesmo a relação entre
diferentes “espíritos de época”, bem como épocas. A interação entre
pessoas de duas gerações diferentes, de duas culturas diferentes, de duas
tradições culturais diferentes etc. não é a mesma que, por exemplo, pode
haver entre pessoas da mesma idade ou da mesma família. Ler um texto
escrito originalmente em grego hoje não é o mesmo que ler esse texto
dentro de 50 anos. Etc.

Nesse nível, que é o mais amplo, e está constitutivamente presente em


todos os outros, estamos no âmbito da abstração. Basta porém ver duas pessoas
de religiões diferentes discutindo, digamos, o que é “bom comportamento” para
perceber como fatores aparentemente bem distantes da situação de interação
estão agindo, em muitos casos apesar dos sujeitos envolvidos. Assim, a interação
nos termos do Círculo é condicionada pela situação pessoal, social e histórica dos
participantes e pelas condições materiais e institucionais – imediatas e mediatas –
em que ocorre o intercâmbio verbal. Todos esses elementos condicionam o
discurso, tanto por meio da interdiscursividade, de que vai se falar mais tarde,
como por meio da relação dialógica entre os sujeitos do discurso.

O PROSAICO E O POÉTICO, OU O QUE BAKTHIN NÃO DISSE

É oportuno evocar aqui a distinção entre o prosaico e o poético (cf. a esse


respeito, por exemplo, MORSON e EMERSON, 1989, 1990; HOLQUIST, 1990;
CLARK & HOLQUIST, 1998; BRAIT, esp. 1994, 1996, 1997; BARROS & FIORIN,
1994; EMERSON, 2003; TEZZA, 2003; AMORIM, 2001, SOBRAL, 2006), objeto
de tantas polêmicas e equívocos, e que é tratada pelo Círculo, a nosso ver, nos
seguintes termos: tanto o discurso prosaico como o discurso poético advêm, pelo
próprio fato de serem discursos, da interação entre sujeitos, e destes com o tema
do discurso, vinculado com os presumidos, os elementos não ditos que tanto
facilitam a compreensão como criam mal-entendidos. É da natureza do prosaico
“re-presentar”, isto é, transformar em “vozes” do discurso, em vez de meros
conteúdos, várias “vozes” em diálogo, mesmo quando não usa a forma
composicional “diálogo”. Do mesmo modo, é da natureza do poético, mesmo no
caso de poemas épicos, que apresentam por assim dizer “personagens”, não as
“re-presentar” e, mais do que isso, tender a só fazer ouvir a voz — objetivada —
do poeta, mesmo se usar a forma composicional “diálogo”.
Quando se leva em conta o “confronto” de vozes de que fala o Círculo, e
que é fator constitutivo do intercâmbio verbal, percebe-se com clareza que todo
discurso (e, mesmo toda palavra) é arena, lugar de confronto, de presença do
outro, não se podendo pois conceber um discurso monológico no sentido de
discurso que neutralize todas as vozes que não a daquele que enuncia, assim
como não se pode julgar idealista a relação eu-tu aí envolvida: o outro pode ser
amigável, submisso, autoritário, inimigo etc., permanecendo em todos os casos
constitutivo do eu, tal como este é, como se costuma dizer, “o outro do outro”.
Além disso, embora haja um projeto enunciativo de que o locutor tem
consciência, há inúmeros aspectos que fogem ao seu controle: ele também
responde a vozes que só se fazem ouvir, paradoxalmente, em suas réplicas, o que
inclui o silêncio, o não reconhecimento de vozes — apesar dele mesmo! O sujeito
que enuncia não tem nem pode ter total consciência de todas as vozes que
atravessam seu discurso. Mas nem por isso ele deixa de ter um desígnio, um
projeto, o que permite dizer que, em última análise, todo discurso põe em
destaque a voz do locutor, que, embora afetada diretamente pelo outro, nem por
isso perde sua individualidade como tal. Nesse sentido, todo discurso busca na
verdade monologizar os sentidos que cria, porque, ao dizer, o locutor procura
tornar aceito seu tom avaliativo — não o do outro.
Assim, seja no poético ou no prosaico, o dialogismo é constitutivo em
termos arquitetônicos (cf. BAKHTIN, 1993) de todo discurso, mas os discursos
podem ser estruturados composicionalmente de modo a apresentar ou não
“marcas de dialogismo”. Em outras palavras, as vozes, os discursos “outros”, são
constitutivas de todo discurso; a “mostração” e a “escamoteação” de marcas são
recursos do plano de composição da obra, de sua textualização, não de sua
constituição interdiscursiva e dialógica, de sua arquitetônica. A arquitetônica é
uma construção do locutor que, no momento em que tem a palavra, é senhor do
que diz (com as ressalvas já feitas), até concluir seu enunciado, quando é então
substituído nesse papel pelo outro.
Capítulo 2
A concepção de sujeito do Círculo

Ao tratar de dialogismo e de interação, falamos aqui e ali, como é inevitável,


do sujeito, inclusive na história que contamos sobre sujeitos empíricos. Vamos
agora descrever mais detidamente a concepção de sujeito do Círculo, buscando
corrigir uma impressão que por vezes se tem de que o Círculo só vê o social e
nunca o sujeito! Pelo contrário, insistimos que o Círculo de Bakhtin teoriza
precisamente sobre a individualidade, o sujeito, mas, realisticamente, em suas
relações com outros sujeitos que o constituem e são constituídos por ele. Quem é
afinal esse sujeito? A bem dizer, desde a primeira formulação que nos chegou,
cronologicamente falando, a de Voloshinov (1976a), o sujeito é pensado em
termos de uma interação constitutiva com a sociedade: assim como precisa da
sociedade para existir como tal, o sujeito constitui, em suas relações com outros
sujeitos, essa mesma sociedade. Em outras palavras, toda relação entre ao
menos duas pessoas já é um evento social, uma relação social e histórica que
envolve toda a sociedade, do ponto de vista de seus diferentes recortes possíveis
num dado momento histórico, isto é, a relação entre duas pessoas traz à cena a
soma total das relações sociais dessas pessoas, envolvendo no mínimo um
espectro que vai da família ao Estado — e como estes só existem numa dada
sociedade e num dado momento histórico, quando dois interagem, é de alguma
forma o mundo que interage!
Isso acentua o fato de que a sociedade não pode existir
independentemente das relações entre os sujeitos que dela fazem parte; são
precisamente essas relações que a constituem, seja qual for o ambiente e o grau
específico de “formalização” desse ambiente: somos povoados pelo outro, e
nossas relações com o outro faz de nós e deles os elementos constituintes da
sociedade. Não se trata de propor uma uniformização dos sujeitos nem da
sociedade. O sujeito se divide em múltiplos papéis, de acordo com suas relações
sociais, e a sociedade se divide em múltiplos grupos e segmentos, de acordo com
as relações entre esses grupos e segmentos. Há assim a integração entre o
domínio da construção ideológica do psiquismo e o domínio da participação do
psiquismo na construção ideológica da realidade que podemos perceber nos
signos da linguagem, nas representações do mundo pela linguagem. A construção
ideológica do mundo afeta o psiquismo, mas não pode existir sem ele; ela e o
psiquismo estão inseridos no ambiente social e histórico, marcado por divisões de
vários tipos, que é tanto seu contexto e condição de possibilidade como produto
de sua ação: assim como dependem do ambiente social e histórico para existirem,
a ideologia e o psiquismo constituem esse mesmo ambiente.
Esse é um aspecto da dialética materialista que é uma das bases do
dialogismo bakhtiniano, esse fundamento constitutivo não apenas dos discursos
como da própria linguagem e mesmo do agir humano. Essa concepção implica a
idéia do sujeito locutor e do sujeito interlocutor como sujeitos agentes, dotados do
mesmo estatuto: assim como é, retrospectivamente, uma resposta a enunciações
precedentes de interlocutores “passados”, a enunciação do locutor responde
prospectivamente a interlocutores “futuros”. Isso não significa que o locutor não
tenha um papel ativo ao dirigir-se a um dado interlocutor. Pelo contrário: o projeto
enunciativo do locutor o leva a agir em busca de seus fins, levando em conta o
interlocutor. O que se quer dizer é que o interlocutor não é entendido como
entidade passiva que simplesmente recebe o que o locutor lhe dirige. Bakhtin fala
de algo chamado “sobredestinatários”, que são, em termos amplos, pessoas ou
entidades, concretas ou abstratas, que servem de “fiadores”, de garantia, aos
participantes da interação e a quem eles também se dirigem indiretamente ao
dirigir-se um ao outro. Todos conhecem políticos que usam sobredestinatários
como fiadores; é lugar comum a afirmação de políticos de que não deixarão de dar
sua contribuição caso o país, a nação, o povo, a história etc. assim o exijam!
Se o interlocutor tem o mesmo peso que o locutor, a recepção e a
circulação dos discursos são tão parte do sentido quanto sua produção. A
produção ocorre no âmbito de interações dialógicas entre sujeitos inseridos em
contextos sociais e históricos; os discursos produzidos circulam nesses contextos
sociais e históricos, de acordo com suas coerções, e a recepção depende desses
contextos sociais e históricos para realizar-se. Assim, a produção é influenciada
em sua nascente pelas condições de circulação e de recepção, e também
influencia essas condições. Vamos explorar mais isso ao falar das esferas de
atividade, que são espaços de produção, recepção e circulação de discursos, de
sentidos. Todo sujeito tem uma consciência individual toda sua, que é para o
Círculo mais do que uma capacidade cognitiva em termos biológicos ou um
psiquismo autônomo. A compreensão das coisas pela consciência individual só
ocorre com base num material dotado de sentido e esse material tem uma
realidade concreta e vem da realidade concreta mais ampla, que não é nem pode
ser individual. Por isso, a própria consciência individual só se constitui “na
concretude material dos signos” (VOLOSHINOV, 1976a, p. 22), isto é, a
consciência individual só se constitui no processo de interação social e a partir do
processo semiótico de representação ideológica do mundo. Na interação entre o
individual e o social, “a psique anula a si mesma, ou é eliminada, no processo de
converter-se à ideologia, e a ideologia anula a si mesma no processo de
converter-se à psique” (Id.).
Destacamos que “anulação” funciona aí como metáfora, dado que o trecho
indica a interconstituição ativa entre psique individual e ideologia, isto é, a
consciência individual cede espaço à ideologia e a ideologia cede espaço à
consciência individual no processo por meio do qual a ideologia é influenciada
pelo funcionamento psíquico e este é influenciado pela ideologia. Isso mostra que,
para o Círculo, “individual” e “social” não se opõem, sendo um parte integrante do
outro: sem os outros não há eu, mas sem eu não há outro. Repetindo, a sociedade
é constituída pelos sujeitos e ao mesmo tempo constitui os sujeitos; a ideologia
precisa da psique para ter sentido e a psique é afetada pela ideologia, e as duas
convergem na formação do chamado signo ideológico, um signo que resulta de
avaliações sociais e pessoais do mundo concreto.
A ênfase nos sujeitos como agentes cujas relações constituem
continuamente a sociedade se associa à inserção social e histórica dos sujeitos.
Assim como o sujeito é um ser em permanente formação, embora dotado de certa
continuidade de consciência, a sociedade se articula para além dos propósitos
individuais dos sujeitos, para além da soma desses propósitos, sendo então
marcada pela articulação entre eles no todo social, que é sempre modificado ao
longo da história. O sujeito — e não nos referimos apenas ao sujeito do discurso
— segundo o Círculo apresenta assim 3 características essenciais:

1. É dotado de uma constituição psíquica que explica sua identidade


relativamente fixada, os elementos que lhe permitem perceber uma dada
continuidade psíquica em si mesmo, aquilo que ele mesmo identifica como
seu “eu”. Dizemos “relativamente fixada” para mostrar que, se a consciência
do sujeito permanece com certa continuidade, nem por isso ela deixa de se
modificar: o sujeito, por mais diversas que sejam as suas relações com
outros sujeitos, não deixa de ser ele mesmo, mas, naturalmente, vai se
alterando a partir dessas relações e, nesse sentido, também é uma
entidade em mutação.

2. Traz na constituição de sua condição de sujeito, de sua “subjetividade”,


as marcas dos aspectos sociais e históricos de sua vida em sociedade, de
sua “intersubjetividade”, que vão se integrando gradativamente à sua
identidade, a partir do reconhecimento de seu ser pelo outro, a partir dos
deslocamentos de suas posições individuais que as relações com os outros
provocam etc.

3. Age sempre (o que inclui todos os atos: cognitivos, verbais etc.), segundo
uma avaliação/valoração daquilo que faz ao agir/falar, e pela qual se
responsabiliza, e o faz a partir tanto da identidade que forma e vê
reconhecida como das coerções que suas relações sociais lhe impõe ao
longo da vida e que vão alterando essa identidade que ele veio a formar.

A continuidade da consciência implica certa permanência de características


de cada sujeito, do mesmo modo como as marcas sociais e históricas também
apresentam certa continuidade, pois nem o sujeito nem a sociedade se alteram de
maneira imediata e, para ser considerados um sujeito x e uma sociedade x, têm
de ter alguma continuidade, por mais relativa que seja. Quanto ao sujeito, o
aspecto da responsabilidade, da avaliação responsável, de que ele não pode
escapar (o que não significa que ele não possa ser irresponsável ou recusar-se a
assumir sua responsabilidade) é justamente o “cimento” que solda os outros dois,
o individual e o social, em sua estabilidade relativa. Sendo um mediador entre os
atos socialmente possíveis e os atos que de fato realiza, o sujeito, ao agir,
“cimenta” a junção entre o socialmente previsto e o individualmente (se bem que
intersubjetivamente) executado.
Essa “avaliação responsável” envolve dois aspectos. De um lado, avaliar
supõe propor ao outro um dado modo de ver as coisas no mundo, e a presença
desse outro envolve a tentativa de chegar a um acordo com esse outro (que
também faz sua avaliação responsável) sobre aquilo que faz (se fala), porque,
sem esse acordo, não há compreensão ou aceitação dos atos dos sujeitos. Mas
como nem todos os atos são possíveis em todas as sociedades ou em todos os
lugares e momentos, toda avaliação envolve presumidos, isto é, maneiras
esperadas de agir no mundo/entender o mundo que não precisam ser explicitadas
a cada vez que se age/fala e que são, portanto, coletivas, sociais, relativas a
grupos sociais de que o sujeito é parte. Do outro, ser responsável supõe mostrar-
se diante do outro como alguém que assume aquilo que fala/faz, e nesse plano o
sujeito “assina” aquilo que diz/faz, pois embora todo ato seja social num dado
aspecto, sendo portanto repetível, no outro todo ato é individual, irrepetível,
porque nunca ocorre da mesma maneira que outros atos: cada sujeito realiza o
“mesmo” de “outra” maneira, de uma maneira sua, sem que com isso deixe de se
alterar no contato com o outro e sem que os atos únicos que realiza sejam tão
diferentes que não tenham elementos em comum com outros atos a ponto de não
ser reconhecidos como atos do universo de atos possíveis e compreensíveis.
O que mais merece destaque nessa concepção é justamente o papel ativo
do sujeito, seu caráter de agente, dado ser essa sua condição que une pessoal e
social, cognitivo e empírico, universal e singular, em atos que apresentam um
conteúdo (ou produto) que remete aos de outros atos, mas cujo processo é
sempre único, ímpar, singular. Portanto, no sujeito está o mundo, do mesmo modo
como o sujeito está no mundo: o ato do sujeito altera o mundo em que o sujeito
está e esse sujeito também é alterado por esse mundo. Claro que isso envolve
diferentes proporções: nem todo sujeito pode dizer/fazer determinadas coisas,
pois isso depende de seu lugar social, seu papel na sociedade, em seu grupo
social, em seu ambiente familiar e profissional etc., em que ele ocupa diferentes
“posições-sujeito”, ou possibilidades de ação como sujeito.
Todos os elementos até agora arrolados permitem dizer que social e
pessoal são para o Círculo elementos imbricados nos próprios discursos, na
própria linguagem, nos próprios atos; não se trata de uma proposta de análise dos
sujeitos biológicos, mas da proposição de que os sujeitos biológicos só se tornam
sujeitos humanos na interação com outros sujeitos em situações sociais e
históricas concretas, situações de enunciação. Nessa descrição da condição
social do sujeito, não há as limitações de concepções do sujeito como ser isolado,
em seu agir, dos outros sujeitos e da sociedade, nem as limitações de concepções
do sujeito que o tornam “ausente”, substituindo-o pelas determinações sociais.
Para o Círculo de Bakhtin, cabe ao sujeito mediar um processo que, enquanto
define sua identidade em meio à sua interação com outros agentes, dele depende
para sua própria constituição. Nessa perspectiva, se o sujeito deixa de ser o
“centro” (cartesiano) do processo de produção do sentido, em contrapartida é ele
resgatado do despotismo de um todo social onipotente que lhe retiraria toda
possibilidade de ação individual, ação que é vital para a sua interação, e não só
discursiva.
A primeira formulação do conceito de sujeito do Círculo está no texto
conhecido como “para uma filosofia do ato”. Nele, Bakhtin destaca o caráter da
“responsabilidade” e da “participatividade” ou “responsividade” do sujeito como o
que marca a constituição deste. A palavra russa otvetstvennost' designa tanto
esse aspecto responsivo como o da assunção de responsabilidade do agente pelo
seu ato. O ato envolve um dado conteúdo e um dado processo por meio da
valoração/avaliação do agente com respeito a seu próprio ato, avaliação que
envolve ser responsável pelo ato e responsivo aos outros sujeitos envolvidos no
ato. O valor do ato é o valor que ele tem para o agente, diante de e em suas
relações com — outros agentes, numa dada situação, em vez de um valor
absoluto que viria impor-se a estes últimos. Assim, a experiência no mundo
humano é sempre mediada pelo agir situado e avaliativo dos sujeitos, que lhe
confere sentido, a partir do mundo dado (o mundo enquanto materialidade
concreta). Há aqui a insistência na interdependência constitutiva, de que já
falamos, entre o processo e o conteúdo do ato como momentos constituintes que
envolvem o agente e as circunstâncias de seu agir, incluindo sua responsibilidade
e participatividade e, portanto, o outro, considerado em suas circunstâncias
específicas e não em termos abstratos.
Para o Círculo, o sujeito é essencialmente um agente responsável pelo que
faz, agente que, em suas relações sociais e históricas com outros sujeitos
igualmente responsáveis (inclusive apesar de si mesmos), constitui a própria
sociedade sem a qual ele mesmo não existe. No plano dos atos verbais, o sujeito
tem o estatuto de agente mediador entre “os sentidos socialmente possíveis e os
discursos efetivamente produzidos em situações concretas, [situações] projetadas
[e identificáveis] em sua superfície” (SOBRAL, 1999, p. 9). Quanto a isso, chama
a atenção uma interessante expressão usada por Voloshinov (1976a) ao falar da
relação entre o discurso na vida e o discurso na poesia (ou na arte): "socializar os
sentimentos". Aqui, unem-se de maneira feliz o individual e o social, indicando
que, para ser entendido pelo outro, o sujeito que sente algo e deseja exprimi-lo
tem de fazê-lo de uma maneira que leve em conta esse outro; trata-se de algo tão
presente ao sujeito que este, mesmo no solilóquio, “fala” de uma maneira que se
assemelha a um diálogo com outra pessoa! (E as interferências de outros planos
da mente dão até a impressão de que “há de fato mais alguém ali”).
Por outro lado, exteriormente o sujeito também é dividido, também é “mais
de um” – no mínimo aquele que ele julga ser e aquele que os outros julgam que
ele é: ainda que se veja como uma “mesma” individualidade, o sujeito vê-se
inescapavelmente no “espelho do outro”. O sujeito depende do outro, de seu
reconhecimento, para ser visto como íntegro, para ser reconhecido, constituído.
Ele só tem uma idéia mais clara de si mesmo no contato com o outro, cujas
reações lhe mostram coisas sobre si mesmo a que ele não tem acesso. Ao
mesmo tempo, o sujeito vê o outro como um ser completo, ser que veio a existir
num dado momento que nunca mais se repete, ser que não tem igual, e, assim,
mostra ao outro uma imagem do que esse outro “é” enquanto ser íntegro. O
sujeito fala no interior de uma “rede de interlocução” (ou de interlocutores) em que
ocupa diferentes posições-sujeito em diferentes situações de enunciação. As
marcas do mundo concreto deixadas pelo processo em que a enunciação cria
uma “objetivação” do sujeito empírico no corpo do discurso autorizam a
convocação de elementos extra-discursivos para o discurso, para o plano
intradiscursivo, isto é, só no interior do discurso os elementos extradiscursivos
fazem sentido. O sujeito tem de “saber” — não subjetivamente em termos
psicológicos, mas individualmente, e no âmbito de suas relações sociais — o que
dizer, como dizer e como negociar esse paradoxo de ser mais o portador da
palavra de uma imagem de si mesmo do que ele mesmo empiricamente presente,
embora seja um sujeito concreto, não, por exemplo, um falante “ideal”. Só lhe
resta ser, como foi sugerido, um “personagem de si mesmo”, isto é, um sujeito de
discurso, sem por isso deixar de ser um sujeito concreto. Essa condição decorre
do fato de que a linguagem não representa nem reflete diretamente o mundo, mas
o torna objeto de uma construção social e histórica, sem no entanto negar a
existência concreta desse mundo.
Assim, ao mesmo tempo em que, como ser social, está restrito em sua
expressão ao socialmente possível, em sua condição de agente individual, em vez
de coletivo, o sujeito produz discursos que são seus e não repetição do que a
sociedade imporia. O sujeito tem naturalmente vivências muito pessoais, mas
precisa exprimir isso de maneira que o outro entenda, logo, por meio do que há de
comum entre ele e o outro na sociedade e na história. Ele não age sozinho, mas
não deixa de ser ele mesmo, nas várias “posições-sujeito”, nos diferentes papéis
que assume diante de diferentes interlocutores. É um agente mediador inserido na
sociedade e na historia; não está submetido a elas como um fantoche, mas ao
mesmo tempo não age em isolamento, de si para si, porque não pode situar-se
acima da sociedade e da história.

EM OUTRAS PALAVRAS

A descrição da concepção dialógica feita no capítulo específico (1) e sua


retomada neste capítulo dedicado ao sujeito — concepção que naturalmente só
será melhor entendida ao final deste “roteiro de leitura” — começa, como
dissemos, nos primeiros textos do Círculo. Um dos mais importantes desses
textos, de Bakhtin “ele mesmo”, é, como dissemos, o que recebeu o título de Para
uma filosofia do ato. Há nesse texto, e este é o momento de retomar essa
questão, as bases do que mais tarde seria a concepção dialógica, já mais voltada
para a questão da linguagem, ainda que a linguagem não esteja ausente das
preocupações desse texto. Em Sobral (2005a), há um tratamento um pouco mais
amplo da concepção do ato. Aqui, apresentamos uma dada exploração do
conceito de ato com vistas a dar consistência ao ponto de vista da descrição de
dialogismo que foi feita acima, ou seja, para mostrar algo sobre a linha de
continuidade que a nosso ver marca o percurso das obras do Círculo. No próximo
capítulo, vamos discorrer, com base no que foi dito até agora, sobre autoria e
estilo, trazendo assim a linguagem para o primeiro plano.
Tentamos mostrar aqui que a concepção do ato já traz elementos que vão
dar forma à concepção dialógica, ou, se se quiser, mostrar que, embora o texto
sobre o ato não se detenha especificamente numa concepção de linguagem e de
discurso, já há nele as sementes do que seria a concepção dialógica em termos
de linguagem e de discurso. Porque esse texto traz o primeiro grande sentido de
dialogismo, o de princípio geral do agir do sujeito na sociedade e na história,
fundado na junção entre processo, produto e avaliação dos atos, inclusive
lingüístico-discursivos, para não falar que, com base nessa idéia, Bakhtin analisa
um poema lírico!
Para Bakhtin, todo sujeito, cada sujeito, é impar, traz e deixa no mundo a
“assinatura autoral” dos atos que pratica em sua própria vida, da sucessão de atos
“inter-ativos” que constitui sua vida, descobrindo e construindo sem cessar essa
sua singularidade — uma estabilidade no fluxo — no contato com outros sujeitos.
Esse contato entre sujeitos diferentes gera sentido, obviamente, a partir da
diferença, não da concordância ou uniformidade universal, que pode ser negativa,
mormente se considerarmos as tantas formas de manipulação do outro e de
comportamento estratégico (ações por definição aéticas). Como é natural, esses
“diferentes”, para se relacionarem, para se “interconstituírem”, não só têm de
compartilhar características comuns (que não os tornam “iguais”, algo
naturalmente impossível), como se distinguir uns dos outros. Essa dualidade da
condição de cada sujeito, ser ele mesmo e simultaneamente ter algo em comum
com os “outros”, fornece a base para a própria percepção das diferenças, e para a
sua valorização, o respeito à contribuição que cada sujeito traz para os contatos
entre sujeitos. Esses sujeitos, diferentes por definição, nem por isso são opostos
entre si, pois se assim fosse também não poderia haver relação entre eles; eles
vivem em tensão constitutiva, porque um sujeito só se vê como tal no “espelho” da
visão de outros sujeitos, que por sua vez precisam uns dos outros com esse
mesmo fim. Logo, a relação entre sujeitos, mesmo que seja negativa, constitui os
sujeitos.
Em oposição a isso, é precisamente a diferença como centro do sentido que
é ressaltada em conceitos como interação e diálogo —, o que se explica de modo
deveras lógico: os seres humanos, o mundo humano, o sentido humano etc.
nascem da diferença, do confronto, da distinção, e, o que pode parecer paradoxal,
é a semelhança – nunca a uniformidade — que constitui a base da diferença, pois
toda coisa que difere de outra coisa tem alguma semelhança com ela. Sem
semelhança, os diferentes sujeitos seriam simplesmente incompatíveis, em vez de
diferentes. Os incompatíveis simplesmente não têm relação entre si e, assim, não
dialogam, enquanto os diferentes dialogam entre si e, ao fazê-lo, definem seus
próprios contornos. Portanto, pode-se mesmo dizer que a identidade dos
diferentes depende desse diálogo: se o sentido nasce da diferença, só na
diferença podemos encontrar sentido. Assim, se cada sujeito sabe dos outros
sujeitos o que estes não podem saber de si mesmo, ao mesmo tempo todo sujeito
depende dos outros para saber o que não tem condições de saber sobre si
mesmo. 6 No texto “para uma filosofia do ato”, Bakhtin destaca que os atos
humanos envolvem tanto a “responsividade” (reação) do agente com relação aos
outros como a “participatividade” do agente em seus atos, sua “responsabilidade”
por seus atos. Assim, a relação entre os sujeitos une o responder a alguém ou a
alguma coisa e o responder pelos próprios atos. Propusemos (Sobral 2005a) o
polêmico neologismo “responsibilidade” como uma tentativa de unir numa só
palavra esses dois aspectos, o de responder pelos próprios atos, e o de responder
a alguém ou alguma coisa.
O ato “responsível” (ou ato responsável/responsivo ou ato ético) envolve o
conteúdo e o processo do ato, e estes são unidos, na “unidade do sentido”, pela
valoração/avaliação do agente com respeito a seu próprio ato. Isso envolve a
chamada “ausência de álibi”, a impossibilidade de escapar à responsabilidade por
seus atos, desse agente. Assim, todo ato traz a “marca” de quem o pratica,
mesmo que essa marca também seja “tingida” pela influência dos outros; afinal,
quem age é responsável pelo que faz mesmo que o faça para “agradar” o outro ou
em submissão a ele. Assim, se se admite que em alguns casos o sujeito seja
induzido — por bem ou por mal — a fazer o que não deseja, nem por isso se
desculpa o sujeito em princípio por ter feito algo. O que se pode é explicar as

6
Baseamo-nos amplamente aqui em SOBRAL, 2005a.
circunstâncias de seu ato, mas nem sempre justificar esse ato: não é por haver
atenuantes que o “crime” deixou de ser cometido!
A avaliação responsível, ou ato valorativo ético, organiza os atos do (inter-)
agente, sendo portanto o aspecto arquitetônico (organizacional) do ato, o cimento
que cria a totalidade que é o ato, sempre ético (mesmo apesar dos sujeitos). O
caráter situado, circunstancial, do sujeito que isso implica não o isenta, como
vimos, da responsabilidade/responsividade éticas, e pelo contrário, requer dele
que as assuma. O valor do ato é o valor que ele tem para o agente no momento
do agir, sempre nos termos de uma dada interação de que ele participa, com base
na totalidade de suas relações sociais, em vez de um valor absoluto, um valor em
si, fora de contexto, que se impusesse a todos os sujeitos indistintamente.
Para Bakhtin, o “dever-ser”, a obrigação ética (que vai além do dever-ser,
sollen, de Kant), não é essencialista nem absolutista, mas “relacional”, situado,
endereçado, contextualizado. Isso, se não nega o valor dos preceitos morais,
requer que, tal como a fé, estes se traduzam em obras, incluindo assunções de
responsabilidade e ações de responsividade, que são a base do ato ético e dos
atos em geral, discursivos e outros. Vemos assim que faz sentido dizer que o
conceito de dialogismo, e seu correlato, o de interação, se baseiam em algo que
vai além do campo da lingüística e mesmo do discurso: uma concepção filosófica
do ser e do agir dos sujeitos humanos, uma maneira específica de pensar a
condição desses sujeitos, baseada numa ampla discussão de idéias de alguns dos
principais filósofos ocidentais e que leva em conta ainda algumas concepções
orientais (cf. esp. SOBRAL, 2005c e a bibliografia dos artigos do autor em BRAIT,
2005).
Capítulo 3
Autoria e estilo

Ao falar do sujeito, falamos de passagem de enunciado e dissemos que o


enunciado tem um autor. Isso pode parecer estranho, pois autor é uma palavra
muito carregada que não costuma ser usada para designar o “mero” agente de
enunciações “corriqueiras”. Pode-se dizer que por autor o Círculo designa não
somente o autor de obras, literárias ou não, mas também o autor de enunciados, o
que se justifica se pensarmos que, embora reconhecendo a especificidade dos
discursos aos quais se costuma atribuir um autor, o Círculo considera os atos de
discurso parte do conjunto dos atos humanos em geral — e todo agente de um ato
humano é, nesse sentido, “autor” de seus atos. Assim, falar de autor no âmbito
das teorias do Círculo implica pensar no contexto de ação dos sujeitos, e nas
complexas tarefas que realizam ao enunciar. Implica considerar, como afirmei
alhures, de um lado, o princípio dialógico (que segue a direção do interdiscurso,
da relação com o outro) e, do outro, os elementos sociais, históricos, etc. que
formam o contexto da interação e que incidem sobre a ação autoral. Trata-se de
elementos que estão contidos na própria superfície dos discursos, e que só aí nos
são acessíveis, mas que não se esgotam nessa superfície.
Esse modo de ver a questão opõe a concepção bakhtiniana a algumas
pragmáticas formalistas e alguns estudos sociológicos que “matam” o texto em
nome do contexto, bem como a tendências de estudo que propõem o contexto
como se fosse outro “texto”, algo independente do texto de que é justamente o
contexto. Essas várias tendências acabam por aceitar uma separação entre o
contexto da interação e a interação propriamente dita, entre o texto e o contexto,
entre a realidade discursiva e a realidade per se, tornando-se então teoria do texto
em termos lingüísticos estritos (e, logo, não do discurso) ou teoria sociológica do
contexto, do texto como “documento”, em vez de unidade de sentido.
Como é evidente, uma ou outra posição tem sérias conseqüências para a
análise do discurso, e evocá-las serve aqui para marcar a especificidade das
teorias do Círculo, bem como para demonstrar o caráter integrado dos vários
conceitos e noções até agora estudados e/ou mencionados. Numa primeira
abordagem, cabe dizer que há uma distinção no Círculo entre o autor no discurso
estético e o autor em outros discursos. Não vamos discorrer longamente neste
capítulo sobre as concepções estéticas do Círculo, mas falar da questão do autor
em sua relação com o estilo (ligado à avaliação de que falamos) e dar uma breve
descrição dos conceitos de forma composicional e forma arquitetônica, tanto para
definir a questão do autor e do estilo como para preparar o leitor para o tratamento
das concepções estéticas, que recorrem a esses e outros conceitos, em capítulo
específico. Pode-se naturalmente ler este e o capítulo em questão como um todo.
Bakhtin muito se estendeu sobre a categoria do autor no discurso literário,
mas suas formulações abrangem, como dissemos, outras modalidades discursivas
(cf. FARACO, 2005). Embora os discursos estético e não estético tenham suas
especificidades, enquanto enunciador, sujeito de discurso, o autor tem o mesmo
estatuto em todo discurso. O que há de diferente é (1) o tipo de distanciamento
entre autor e tópico que a obra estética implica (a transfiguração estética do
mundo) e, (2) de modo geral, a existência, na obra literária, mesmo poética, da
representação de agentes e de suas ações como personagens do mundo da obra,
o mundo “criado” por ela, o que afasta o discurso estético, ainda mais do que os
outros, do que seria uma reprodução da realidade, de resto inexistente.
Bakhtin alega que o acontecimento estético requer “duas consciências que
não coincidem” e que a avaliação que o autor faz do herói (personagem) e o grau
de proximidade entre eles não prescinde do terceiro elemento determinante da
forma artística, e dos discursos em geral: o ouvinte, que afeta essa relação autor-
herói. A importância disso para a questão do autor é evidente (para não falar da
questão associada dos gêneros do discurso): o grau de
proximidade/distanciamento do autor com relação ao outro, ao ouvinte, tanto no
âmbito do discurso estético como nos outros âmbitos, é igualmente constitutivo –
ou seja, é uma parte essencial – das modalidades de discurso, podendo-se
igualmente verificar que, dada uma modalidade de discurso, ou gênero (ver
adiante), o enunciador é levado a assumir esta ou aquela posição com relação ao
outro. Assim, na variedade de relações com o outro está a própria chave da
constituição do “tom” e do “fio” dos discursos, em seus vários planos — estético,
ético, cognitivo, religioso — pelo autor, o que leva igualmente em conta as esferas
de atividade em que são possíveis e aceitáveis um dado “tom” e um dado “fio”.
Assim, ser autor é assumir, de modo permanentemente negociado, posições que
implicam diferentes modalidades de organização dos textos, a partir da relação do
autor com o “herói”, ou tópico, e com o ouvinte.
A própria seleção de palavras já envolve uma orientação na direção do
ouvinte e do herói por parte do autor, e a recepção (que é na verdade, nesses
termos, uma co-seleção!) dessa seleção advêm do contexto da vida, que
impregna as palavras de julgamentos de valor, impondo pois ao seu significado
uma direção específica: todo discurso é “endereçado”, dirige-se a alguém e,
portanto, traz esse alguém para sua superfície. A seleção envolve a simpatia, a
concordância com os ouvintes ou a discordância com relação a eles e remete
igualmente à avaliação que o autor faz do herói e julga que o ouvinte faz. O
elemento mais relevante quanto a isso é o fato de o autor selecionar julgamentos
de valor “do ponto de vista dos próprios portadores desses julgamentos de valor”,
naturalmente tal como ele os percebe e projeta a partir dos “presumidos”, os
valores aceitos numa dada coletividade (VOLOSHINOV, 1976, p. 10). A posição
do autor com respeito ao conteúdo da obra é ativa (ainda que, ao contrário do que
quer a tradição, o estilo seja não o homem, e sim o autor em sua relação com o
leitor). Mas esse seu caráter ativo, como vimos, não o deixa acima de todas as
influências que incidem sobre seu agir em seu ambiente socioistórico. Ser autor da
obra estética (e de outros discursos) envolve tudo dizer em termos pragmático-
referenciais, dado que faltam ao enunciado estético (e a outros discursos escritos)
as circunstâncias concretas que permitem identificar o dito e o presumido de modo
relativamente imediato como o seria na interação face-a-face.
É assim evocada a problemática do estilo, dado que o “tudo dizer” pode
assumir várias formas. O estilo, diante disso, também é interativo, também é
dialógico, vem da relação entre o autor e o grupo social de que faz parte, em seu
representante autorizado, ou típico, a imagem social do ouvinte, que também é um
fator intrínseco vital da obra. O estilo tem relações com a forma do conteúdo, o
modo como o conteúdo é organizado, e não tem que ver com um “desvio” da
norma, do mesmo modo como seu uso não se restringe à obra literária. O estilo é
determinado pelas inter-relações entre a escala avaliativa do evento descrito e seu
agente, o herói, cujo peso depende do “contexto não-articulado de avaliações
básicas da obra” (BAKHTIN, 1997, p. 11), isto é, das possibilidades de avaliação,
manifestas — e isso merece destaque — “na própria maneira como o material
artístico é visto e disposto” (Ibid., p. 12), o que descarta de uma vez por todas a
idéia de que só são avaliações os elementos apresentados como tais na obra, nos
discursos: pode-se dizer que, tal como no caso da heterogeneidade, há uma
“avaliação mostrada” e uma “avaliação constitutiva”, que é objeto específico do
Círculo, sem prejuízo do reconhecimento da presença da avaliação “mostrada”
O Círculo destaca, falando da avaliação, que um dos princípios do estilo é o
fato de ele se alterar “de acordo com a mudança do valor social do herói (objeto)
do enunciado” (Id., Ibid.). Vem então uma afirmação que faz muitos subjetivistas
tremer, afirmação que já mencionamos: o poeta tem de “socializar o sentimento”,
ou seja, “elaborar o evento correspondente [às vivências pessoais do poeta] no
nível da significação social” [Op. cit., Loc.cit.] Isso remete à afirmação bakhtiniana
de Brait (1999, p. 34) sobre o autor: “o autor não pode ser confundido com o
indivíduo. O autor é uma instância de produção, do ato, do texto, do discurso”. Em
outras palavras, o autor bakhtiniano é um autor de linguagem e não um sujeito
concreto em termos ontológicos, embora para o Círculo não possa haver autor
sem haver um sujeito concreto.
O segundo princípio, ou elemento constitutivo do estilo, é o grau de
proximidade recíproca entre autor e herói. Esse ponto (que remete, como se disse,
à questão dos gêneros) é vital não só em termos do estilo como também em
termos do estatuto do lingüístico no discursivo, dado que postula, de um lado, que
“a própria estrutura da língua reflete o evento da inter-relação entre os falantes”
(VOLOSHINOV, Op. cit.) e, do outro, que muitos dos fatores da forma da obra são
determinados em parte pelo grau de proximidade entre autor e herói.
Por outro lado, esses elementos não são suficientes, tomados em
isolamento, para determinar a forma artística. Cumpre reconhecer a presença do
ouvinte, elemento que afeta, como sabemos, a “interação” autor-herói. O ouvinte
não é o sucedâneo do autor nem ocupa o seu lugar; trata-se antes de uma
instância independente do evento da criação artística. Além disso, o ouvinte tem
uma posição bilateral, visto que apresenta diferentes graus de proximidade com
relação ao autor, de um lado, e com respeito ao herói, do outro. O Círculo
esclarece, refutando certas teses destinadas a defender quer o ponto de vista
formal, quer o sociológico, como se fossem o essencial, que “... autor, herói e
ouvinte em parte alguma se fundem numa só massa indistinta — eles ocupam
posições autônomas, são na verdade lados... de um evento artístico com estrutura
social específica cujo ‘protocolo’ é a obra de arte” (Id., p. 14, tradução modificada).
A partir das formulações do Círculo, pode-se assim dizer que, tanto em
termos de estilo como da própria estruturação da obra e dos discursos em geral, o
autor não se confunde com o indivíduo-autor, sendo antes aquilo que o constitui
como tal na própria obra; e ele o faz por meio da forma e do material, em interação
com o herói e com o ouvinte. O autor, o autor em geral e não só o literário, é
facilmente identificável como “imagem-objeto”, mas não é parte da intenção nem
do projeto do locutor; esse autor concreto não é o criador da palavra nem do
discurso “enquanto autor de seu próprio enunciado” (BAKHTIN, 1997, p. 336).
Logo, a existência concreta do autor é pertinente porque está incorporada ao autor
do discurso, ao ator que dá forma, que molda o material textual.
Nesse sentido, é função do autor, como o afirma Caryl Emerson (1996, p.
113), falando especificamente do discurso estético, “ver todos os aspectos da
personagem criada, tanto os interiores como os exteriores, em toda posição
potencial e em toda potencial oposição a essa posição. Porque criar não é ...
meramente inventar”, mas antes desenvolver “uma consciência ficcional ...
suficientemente autônoma para ter vida própria, entrar em suas próprias relações
sujeito-sujeito.” E isso nos remete ao herói.
Por outro lado, o herói não se confunde com o autor, nem vem de um ato
consciente e autônomo deste. Entidade autônoma, ele tem seu papel próprio a
desempenhar na dupla interação com, de um lado, o autor, e, do outro, o ouvinte;
é e o centro das avaliações inerentes a todo enunciado, avaliações que entram na
composição da própria materialidade da obra, em sua forma moldadora, e não se
reduzem portanto a conteúdos que eventualmente se incorporem a ela nem a
formas cristalizadas de avaliação, ainda que estas também tenham sua
relevância, dado que todas as avaliações vêm, naturalmente, do universo social e
histórico das interações entre os homens.
Além disso, o ouvinte não se confunde com o indivíduo-ouvinte, o publico
empírico e, por assim dizer, identificável, sendo na verdade a imagem típica do
interlocutor a que cada autor específico se dirige, o que depende, como é óbvio,
do caráter e da corporalidade de cada autor, do seu ethos (MAINGUENEAU,
2006, p. 266 ss), que, se incorpora elementos pré-discursivos, é criado pelo
discurso e nele se manifesta, dos contextos extra-verbais por assim dizer
cristalizados nos quais se acha inserido o autor. O ouvinte, repetimos, relaciona-se
de um lado com o autor e do outro com o herói ou tópico.
Em resumo, autor, ouvinte e tópico estão presentes, como elementos
constitutivos, em toda enunciação, sendo de sua interação, e como produto e
resultado dela, que a enunciação vem a ser. De modo específico, é dessa
interação, nos termos descritos com referência ao estilo, que o autor retira seu
instrumental de trabalho com a forma e o material da obra, sendo a maneira
peculiar de realizar esse trabalho, mesmo respeitando as coerções de gênero da
obra, que constitui o estilo.
Outra coisa a destacar aqui é que o autor de todo discurso se mostra em
seu discurso como uma “personagem de si mesmo” (SOBRAL, 2006), ou seja, não
é o autor-indivíduo, pois isso só seria possível se a linguagem fosse
representação objetiva do mundo, mas uma imagem desse autor-indivíduo que
toma a forma de autor-criador, e é este último que está presente no discurso.
Logo, se não se pode, na concepção do Círculo, desprezar a realidade concreta e
seus sujeitos concretos; pelo contrário, o Círculo defende justamente que se
entenda o discurso a partir dessa realidade concreta e desses sujeitos concretos,
também não se pode ver no discurso a representação objetiva dessa realidade
concreta, e desses sujeitos concretos, mas sim a imagem em discurso dessa
realidade e desses sujeitos.

FORMA COMPOSICIONAL E FORMA ARQUITETÔNICA


Introduzimos aqui a descrição da distinção entre essas “formas” para
mostrar seu papel na questão da autoria, bem como para arrolar dados para
explicar a diferenciação que há para o Círculo de Bakhtin entre “texto” e
“discurso”. Vamos retomá-la ao falar da teoria estética, e ao definir texto e
discurso, e, naturalmente, levá-la em conta ao falar de gênero discursivo. Para o
Círculo, todo discurso contém um conteúdo, uma forma e um material com que o
autor trabalha. Numa descrição sumária, o conteúdo são os atos humanos, o
material é, no caso dos discursos verbais, a língua, e a forma é o modo de dizer,
de organizar os discursos, estando integrada ao conteúdo e ligada ao material.
Quando se fala de “forma”, fala-se na verdade de duas formas; a primeira se
refere à materialidade do texto – é a forma composicional – e, a segunda se refere
à superfície discursiva, à organização do conteúdo, expresso por meio da matéria
verbal, em termos das relações entre o autor, o tópico e o ouvinte – esta é a forma
arquitetônica.
No caso do discurso estético, a forma composicional cria um objeto externo,
e a forma arquitetônica um objeto estético (ver adiante cap. 7). No caso de outros
discursos, a forma composicional cria um dado texto e a forma arquitetônica uma
dada forma de interlocução, de relação entre autor e ouvinte, locutor e interlocutor.
A atividade do autor incide primordialmente sobre a forma arquitetônica, que é a
organização do discurso, a partir da forma composicional, em termos de uma dada
avaliação do discurso pelo autor e de sua recepção ativa por um ouvinte. A forma
composicional se vincula com as formas da língua e com as estruturas textuais; a
forma arquitetônica se vincula com o projeto enunciativo do autor, com o tipo de
relação com o interlocutor que ele propõe. Por isso, a forma arquitetônica
determina a forma de composição, mas esta nunca pode determinar a forma
arquitetônica. Contudo, não há forma arquitetônica sem forma composicional,
porque a organização arquitetônica precisa de um material no qual moldar o
conteúdo. A forma arquitetônica, portanto, pode se realizar composicionalmente
de várias maneiras. Para explicar essa questão, recorremos a um exemplo: a
forma discursiva coluna social revela a presença de uma (ou mais) forma textual
historicamente típica (tipos de enunciado como “A Festa, cheia de modernos e
modernas, contou com o maior número de tatuagens por metro quadrado da
região dos Jardins”; FSP, p. E2, 22/10/2008). Quando uma forma textual da coluna
social é apropriada, isto é, usada, pela forma discursiva coluna editorial assinada,
esta não se altera por inteiro no que se refere à produção, circulação e recepção;
a introdução desse elemento “externo” muda algo da forma de composição,
sugere um novo tema e modifica algo do estilo da forma discursiva coluna editorial
assinada, mas não altera sua forma arquitetônica.
Por outro lado, os tipos de enunciado da forma discursiva coluna social que
são introduzidos na coluna editorial assinada também não se alteram na coluna
social, mas sua forma de composição, ao ser introduzida na coluna editorial
assinada, perde a ligação direta com a coluna social em que é costumeira e passa
a produzir novos sentidos, estranhos a ela. Além disso, o impacto que a
introdução num editorial de formas textuais comuns na coluna social é bem menor,
dada a natureza de um editorial, do que o é a introdução na coluna social de
formas textuais típicas de um editorial. O uso da forma da coluna social “Barreto
comemora filme com jantarem, sua cobertura” (Op. cit.) num editorial poderia ser
entendida como tendo intenção de fazer uma paródia da coluna social, e nesse
caso teria menor impacto, porque a coluna social em si é apenas uma das formas
de visibilidade legitimada dos poderosos de plantão. Mas se queremos ir além da
paródia como fim em si, e para isso precisamos de mais dados, e vemos que
todas as “socialites” do editorial-coluna social têm sobrenome “Silva”, que
“recebem” debaixo da ponte etc., vemos que o projeto enunciativo da coluna
editorial assinada se mantém, porque essa forma discursiva continua a ser (ao
superar a paródia como fim em si) um pronunciamento opinativo explícito do
veículo jornal mediante a “voz” de um locutor autorizado e legitimado por esse
veículo, e a forma de composição da coluna social aí usada não faz da coluna
editorial assinada uma coluna social. 7

EM OUTRAS PALAVRAS

Cabe esclarecer que o tópico, ou herói, é “independente” no sentido de não


se confundir com o autor nem com o ouvinte, mas sua presença na obra, em todo
discurso, depende das avaliações resultantes da interação dialógica entre o autor
e o ouvinte. O autor da obra estética difere do autor de outros discursos
precisamente em termos do distanciamento com relação ao tópico. O ouvinte, por
sua vez, recebe os discursos, estéticos e não estéticos, de acordo com os
presumidos sociais sobre quais gêneros descrevem de que modos o mundo
concreto: a obra estética que aborda a pobreza é uma “transfiguração” do mundo
com regras próprias, que difere de, por exemplo, um tratado sobre a pobreza ou
um manifesto contra a pobreza.
Assim,

1. A obra (o discurso) resulta de um trabalho arquitetônico do autor que une o


conteúdo, o material e a forma;
2. Esse trabalho é feito pela vontade consciente do autor, mas (o que marca o
diferencial das propostas do Círculo);
3. O autor é um “interagente”, dado que não age em isolamento – ele interage com
o herói e com o ouvinte; e
4. Essa interação influencia tanto a composição da obra, ou seu “texto”, como sua
arquitetônica, ou “concepção”, ligada à discursividade (o discurso entendido como
conjunto de discursos concretos) e à genericidade (o caráter constitutivo dos
gêneros em circulação com respeito a gêneros elaborados/em elaboração), ou
melhor, à interdiscursividade e à intergenericidade, dado que não há discursos
nem gêneros puros.

7
“Pronunciamento opinativo explícito” é designação usada aqui para dizer que a “reportagem” mais
“objetiva”, ou mesmo a montagem da “capa” do jornal (cf. BRAIT, 2005c), são, por sua própria
existência e arquitetônica, uma opinião. A organização da capa, a escolha de um tópico etc. já são
uma opinião. O que cria a diferença é o fato de que, socialmente, quando se fala em editorial ou
coluna como formas discursivas, pensa-se de modo mais imediato em opinião. Contudo, por mais
que os órgãos de imprensa diferenciem entre “opinião” e “reportagem”, buscando criar neste último
caso um “efeito de objetividade” (e eles de fato falam de fatos concretos, mas os fatos nunca
“falam por si”), toda enunciação é uma opinião, uma avaliação, porque enunciar é valorar.
Capítulo 4
Significação e Tema

Para falar de significação e tema na obra do Círculo, começamos


mostrando em que um difere do outro em termos práticos. Há no ambiente
bakhtiniano recente usos “coloquiais” comuns que associam “dialógico” com
“abertura” e “monológico” com “fechamento” (por exemplo, “como não mostrou
como chegou a x, você foi monológico”; “as aulas dela são dialógicas” etc.). Trata-
se de um procedimento “bakhtiniano” (e esse uso já ilustra o que estamos
explicando!), porque, ao retirar do contexto científico estrito esses termos técnicos,
propõe para eles uma nova acepção. O importante aqui é que essa inflexão, essa
acepção, não nega o sentido que esses termos têm no contexto científico estrito,
e, pelo contrário, leva-o em conta. Esse uso de “monológico”, como o mostram os
enunciados de exemplo, refere-se em geral, ao sentido mais restrito do termo – o
de forma de organização de textos – e o aplica a atitudes de um certo tipo de
falante num dado contexto. Afinal, dizer de um pesquisador bakhtiniano que ele é
“monológico” nos dois outros sentidos seria uma ofensa: no primeiro caso, o de
que ele não leva o outro em conta, seria atribuir-lhe uma postura de afastamento
do outro em geral, um comportamento patológico, e, no segundo, o de negação do
outro, do valor do outro, um comportamento pretensioso e até de fechamento em
si mesmo. O uso de “dialógico” nesse mesmo contexto dos exemplos é, pelo
contrário, como se vê, elogioso.
Vemos em todos esses usos (e há, claro, outros) duas coisas. Em primeiro
lugar, todos eles recorrem às palavras “dialógico” e “monológico”, que se opõem
entre si: “dia” envolve mais de um e “mono” envolve apenas um. Assim, cada uma
delas traz em si uma significação, um elemento que é comum a todos os usos
apontados: “mono-lógico” indica etimologicamente “fala única”, “discurso único”, e
“dia-lógico” indica “fala dupla”, “discurso duplo”. Esse núcleo comum permanece
em todos os usos, mas os contextos, as situações, de uso, o alteram, imprimindo
a essas palavras novos sentidos.
Esses novos sentidos, que dependem dos contextos de uso, são cobertos
pelo conceito de tema. Tema, como se vê, não é simplesmente “assunto” ou
“tópico”, mas sentido concreto, contextual, sentido que parte do sentido abstrato,
registrado nos dicionários, e vai além dele (cf. CEREJA, 2005, 2007). O sentido
atribuído ao conceito de “tema” do Círculo, que nos levou a fazer esta última
observação, indica mais uma vez a diferença entre significação e tema, ao partir
da significação comum de “tema” e mostrar seu uso especializado na teoria.
Em suas análises concretas, o Círculo parte dos enunciados/discursos
concretos, ao mesmo tempo em que, naturalmente, leva em conta as formas
fixadas da língua. Assim, para o Círculo, a enunciação envolve tanto o tema como
a significação: as formas da língua são o plano da significação, dos significados
convencionalmente estabelecidos, fixados, cristalizados, e a interação é o plano
dos elementos concretos que surgem do contexto em que essas formas da língua,
incluindo palavras, são usadas, o plano do tema. “Tema” e “significação” estão
ligados de tal modo que um não pode existir sem o outro: não podemos entender
a significação sem que haja um tema com que ela esteja associada, nem
podemos entender um tema independentemente da significação que lhe serve de
base — e que é associada ao tema no ato de interação.
“Significação” é portanto o conjunto de elementos da língua que são
reiteráveis e idênticos, as formas fixadas da língua. Trata-se de elementos
abstratos fundados numa convenção, elementos que não têm existência concreta
independente da enunciação. Mas eles são parte essencial da enunciação, que
sem eles não pode ocorrer. A “significação” é um conjunto de recursos
necessários à realização do “tema”, sendo nessa realização que nasce o sentido.
Mas a significação não é suficiente para dar conta do sentido, porque este sempre
nasce em situações concretas nas quais prevalece o tema. Por isso os escritos do
Círculo dizem que a significação é inferior e o tema superior; não se trata de
hierarquia, mas de precedência: a significação vem antes do tema, mas este
depende dela para existir.
A idéia de tema é melhor entendida como “unidade temática”, expressão
que esclarece o que distingue tema de assunto, e que o define como o conjunto
integrado de elementos únicos que se manifestam na enunciação concreta, os
elementos não reiteráveis e não-idênticos da enunciação, tão únicos quanto ela, e
que geram sentido por ser tomados em seu contexto e em sua situação de
produção. O tema só é entendido quando se levam em conta os elementos extra-
verbais da enunciação ao lado dos elementos verbais; o tema não é fixado, mas
dinâmico; é uma mobilização de formas da língua segundo as condições da
enunciação, é o lugar em que significação + enunciação produzem sentido. Assim,
o intercâmbio social, a interação, o contato concreto entre os homens, seja
presencial ou presumido (um texto escrito por exemplo) são a base da
comunicação, entendida em termos de ação concreta de tornar comum; na
especificidade da interação, que é sempre um evento irrepetível, mas que usa,
transforma e cria formas repetíveis, surgem as formas de atuação lingüística,
formas que, em seu decorrer histórico, acabam por transformar as próprias formas
da língua de que partiram.
O conceito de tema como designação dos sentidos nascidos da interação
dialógica, os verdadeiros sentidos da linguagem humana, porque concretos,
dinâmicos, se estende à própria história da língua, ao mostrar que nenhum
significado é fixado de uma vez por todas, porque novos contextos criam novos
temas, mesmo partindo de significações remotas. Ele mostra como, para o
Círculo, a língua é um sistema dinâmico, não um repertório estático de palavras
dicionarizadas e de construções eternas; a própria significação, o núcleo básico
essencial da língua, se altera a partir dos contextos em que é mobilizada por
vários temas em vários contextos possíveis. Esses contextos, por outro lado, não
são ilimitados, dado que o mundo concreto é construído semioticamente (em
termos de sentido) a partir de vários “recortes” da realidade, que são fruto do agir
humano, naturalmente limitado.
Neste momento, julgamos oportuno retomar em nova chave a questão da
ideologia (cf. para detalhes, SOBRAL, 1999 e MIOTELLO, 2005). Isso se deve ao
fato de o tema estar ligado aos recortes ideológicos da realidade, dado que os
sentidos criados nas situações concretas não são criação totalmente nova dos
sujeitos em interação, mas advêm da soma das relações sociais desses sujeitos.
Por outro lado, os vários elementos a que o Círculo recorre para demonstrar a
natureza social e histórica da linguagem, sua articulação com o meio histórico em
que se insere e a cujas necessidades atende implicam a ideologia. Além disso,
como mencionamos de passagem, o sujeito tem uma consciência individual que é
“atravessada” pela ideologia e esta depende dessa consciência individual. As
necessidades sociais a que a palavra, a linguagem, atende estão distribuídas nos
numerosos interesses em confronto dos grupos particulares que povoam o todo
social. Assim, os signos só surgem no território interindividual, na interação entre
ao menos duas consciências (que, como vimos, não são subjetivas, mas
individuais). Como é inteiramente absorvida por sua função de signo, a linguagem
é o fenômeno ideológico por excelência e ao mesmo tempo é um material
semiótico que não pertence a nenhum campo específico da criatividade (entendida
como faculdade de criação de sentidos) ideológica, prestando-se por isso a
funções ideológicas de qualquer tipo. O signo lingüístico participa do
comportamento comunicativo humano, que se manifesta em todos os campos da
vida, e ao mesmo tempo pode ser “palavra interna”, porque é gerado pelos meios
próprios do organismo; além disso, ele se faz presente, de modo concomitante, a
todo ato consciente e, em suas relações com a “realidade”, constitui o índice mais
sensível das trocas sociais.
Para Voloshinov (1976a, cap. 1), o produto ideológico é ao mesmo tempo
parte de uma realidade, natural ou social, e reflexo e refração de outra realidade
que lhe é exterior. Assim, todo produto ideológico tem significado, ou valor
semiótico, pois aponta para algo que está fora dele, ou seja, é um signo. A
ideologia não está na consciência, porque, como a compreensão só ocorre tendo
por objeto um material semiótico e como a direção do signo sempre o faz atingir
outro signo, a própria consciência só pode surgir e constituir um fato possível na
concretude material dos signos; do mesmo modo, ela não é um mero agregado de
reações psico-fisiológicas casuais que redundaria fortuitamente na criatividade
ideológica. O processo de criatividade e de compreensão ideológicas é
ininterrupto, e a consciência só vem a ser consciência quando imerge no conteúdo
ideológico, isto é, no processo social da interação. Voloshinov (1976) afirma ainda
que a presença de ao menos um locutor e um interlocutor é concomitante à
produção do signo verbal. A linguagem constitui o principal vínculo entre a base
material e a criatividade mental do homem, tendo em vista ser o signo verbal
emitido pelo locutor a partir de um dado inventário que ele “conhece”, e dado que
sua emissão concreta é regulada pelas relações sociais, pelo processo de
intercâmbio social que constitui a realidade da língua. Assim, os signos estão
sujeitos aos critérios de avaliação ideológica, coincidindo o seu domínio com o da
ideologia. Por conseguinte, todo produto ideológico tem valor semiótico e, além de
refletir (partir de) e refratar (construir de uma dada maneira) a realidade, tem uma
realidade concreta passível de estudo científico, visto ser produto de um processo
concreto, em vez de se reduzir a distorções da realidade, reflexo especular da
realidade ou coisas desse tipo: a ideologia é parte integrante da construção dos
sentidos.
Como a compreensão e a consciência só se produzem com base num
material semiótico e como esse material se institui como realidade concreta, a
própria consciência só se constitui, no processo de interação social, a partir do
ideológico. A plenitude ideológica ocorre apenas quando se realiza em signo, e a
realização em signo só ocorre por meio da plenitude ideológica. Como precisa
realizar-se no signo ideológico como signo, o sentido depende de sua inscrição na
psique (no “mundo interno”); sem assumir um acento subjetivo, sem ser objeto da
avaliação do sujeito, o signo não tem vida, estagna. Além disso, o signo interno,
para deixar de ser uma experiência apenas subjetiva e tornar-se signo social
(ideológico), para ser compreendido e experienciado pelos interlocutores, deve
integrar-se aos contextos, que são, como sabemos, sociais e históricos.
A palavra7 8 , que não é entendida pelo Círculo como mero item lexical, mas
como o elemento constituinte da linguagem, é portanto o “fenômeno ideológico por
excelência”; sua natureza se define por sua função de signo e sua realidade é
determinada pelo intercâmbio social. Por outro lado, ela é um material semiótico
diferente dos outros materiais semióticos: esses outros materiais são criados por
um dado campo que formula símbolos e signos aplicáveis apenas a ele mesmo,
quer dizer, são criados a partir de uma função ideológica específica e
permanecem por isso inseparáveis dessa função. A linguagem, por sua vez, na
qualidade de sistema de produção de sentidos, não se especializa em nenhuma
função ideológica específica, podendo desempenhar funções semióticas dos mais
diversos tipos.
Além disso, ela é o meio fundamental da consciência individual, produzida
no próprio organismo sem recurso a qualquer material exterior ao corpo, servindo
assim de material da “verdade interior da consciência” (linguagem interna) antes
de chegar à expressão externa. A criatividade ideológica e a compreensão dos
processos ideológicos têm a palavra como elemento essencial: a função da
palavra nesses planos é constituir a linguagem interna, que é a base desses
processos. Vemos aqui mais um importante elemento da maneira como o Círculo
une o pessoal e o social em suas teorias.
A palavra, nesse sentido, tem como características, em sua condição de
signo ideológico:

a) servir à expressão de qualquer realidade;


b) servir a qualquer função ideológica sem estar ligada intrinsecamente a
elas;
c) participar de todo fenômeno interativo;
d) servir à linguagem interna;
e) ser uma presença necessária e concomitante a todo ato consciente.

Vemos em (a) que o signo, na qualidade de membro de um sistema de


produção de sentidos, que a partir dos signos e de um conjunto finito de regras de
uso de signos, produz infinitos sentidos. Assim, não há restrição à capacidade de
expressão do signo, que pode exprimir realidades conhecidas e novas, concretas
e abstratas, reconstituídas ou imaginadas etc., ao contrário dos elementos de um
código, que são restritos por natureza.
Vemos em (b) que o signo pode servir a múltiplas funções sem se reduzir a
elas, porque seu campo é a vida em geral, em vez de uma das partes desse
campo; ele pode servir a funções científicas, artísticas, políticas etc., mas não está

8
Cf. Stella, 2005 para um tratamento aprofundado.
ligado a nenhuma dessas funções nem se limita a elas.
Vemos em (c) que o signo é o meio de realização da interação e que,
portanto, sempre que há interação há signos. Nesse sentido, os signos são
“instrumentos” da interação, não em termos equivalentes aos de uma ferramenta,
mas como recursos expressivos de mediação dos contatos entre seres humanos,
porque o mundo humano não é só biológico nem só material, mas simbólico, um
mundo de sentido, de produção de sentido.
Vemos em (d) que o signo, assim como existe fora do sujeito, no mundo
simbólico dos seres humanos, existe também na consciência individual do sujeito.
Unindo-se (b) e (d), fica mais claro entender o ponto de contato que o
Círculo estabelece entre o individual e o social pela mediação do signo: o signo,
constituído ideologicamente, penetra a consciência individual para manifestar-se
e, como elemento presente à consciência individual, penetra o ideológico. Sem o
signo, portanto, nem a consciência individual nem a ideologia podem existir e, sem
elas, o mundo seria apenas biológico e material, sem construção simbólica e,
portanto, não humano.
Vemos em (e), por fim, que o signo é condição necessária à consciência, e
que, portanto, todo ato consciente implica a presença de signos. Em outras
palavras, a consciência tem como condição de possibilidade a existência e a
presença de signos, o que não nega a existência de pensamento sem linguagem,
mas indica uma concepção filosófica de grande alcance que não vai ser
aprofundada aqui; para essa concepção, a consciência se constitui mediante
signos, é, digamos assim, “comunicável”, pode ser expressa, quase como se o
que não é expresso não existisse, e o próprio sujeito que tem consciência sabe
que tem porque ela lhe chega na forma de signos. Por ora basta entender que o
signo, ou seja, a linguagem verbal (expressão que atualmente designa as línguas
orais e as línguas de sinais) é o próprio elemento definidor do sujeito humano,
visto que está presente em todos os processos propriamente humanos (isto é, os
que não são só biológicos ou só materiais), processos de produção de sentidos,
processos individuais-sociais inseridos na história.
Essas características da linguagem, ao lado da natureza dos discursos e da
criatividade ideológica, constituem para o Círculo a psicologia social, cuja
manifestação é uma variedade de discursos condicionados pela organização
social dos participantes dos atos discursivos, bem como pelas condições
imediatas em que se dá a interação desses participantes. A ideologia está assim
ligada de modo inseparável à realidade material do signo, de só é perceptível no
âmbito das formas concretas do intercâmbio social, determinadas pela base
material. Só o que tem valor social faz parte do universo da ideologia, e o
reconhecimento social atribui um dado valor ao signo, o que lhe permite “ingressar
no mundo da ideologia, tomar forma e estabelecer-se” (VOLOSHINOV, Op. cit., p.
35). Além disso, ao afirmar que “a psique anula a si mesma, ou é eliminada, no
processo de converter-se à ideologia, e a ideologia anula a si mesma no processo
de converter-se à psique”, o Círculo contesta tanto as correntes de estudo
lingüístico ou discursivo que julgam ser o sujeito, em sua psicologia individual,
centro da produção de sentidos, como as tendências que, exagerando as
diferenças entre individual e social, querem ver o discurso como o lugar em que o
falante, em vez de dizer, é dito (em termos concretos, não como uma metáfora
para indicar que o sujeito não controla inteiramente a sua própria fala).
As considerações feitas até o momento permitem tomar a idéia de
significação e tema como um dos pontos de convergência de vários conceitos:
diálogo, interação, sujeito, enunciação, contexto, projeto enunciativo, avaliação,
ideologia. Isso a nosso ver ocorre porque

1. as palavras servem, em sua significação, ao surgimento e


desenvolvimento de temas. A significação é a base a que o sujeito em
contexto (na presença do “outro”) recorre para “criar” e desenvolver o tema;
2. os temas surgem na interação dialógica (que não se restringe a algumas
formas fixas), sendo portanto fruto da situação de produção dos discursos;
3. o sujeito avalia aquilo que diz levando em conta as reações presumidas
do interlocutor etc., e o faz no âmbito de uma dada maneira de conceber e
construir o mundo humano a partir do mundo natural, biológico; e
4. essas maneiras de conceber e construir o mundo têm caráter ideológico,
o mesmo ocorrendo com os signos, sempre entendidos como signos
ideológicos.

Tendo mencionado a ideologia, descrevemos no próximo capítulo a


maneira específica como o Círculo vê a construção ideológica da realidade tal
como expressa no discurso.
Capítulo 5
Entoação avaliativa e responsividade ativa

A proposta de estudo do Círculo parte, como se sabe, do terreno da ação


verbal, do concreto, para chegar ao da língua, o abstrato, e, depois, voltar ao da
ação verbal, integrando assim significação e tema, eu e outro, linguagem e
sociedade, individual e social, formas composicionais e formas arquitetônicas,
formas da língua e formas de enunciado etc. As formas cristalizadas da língua
estão presentes nas ações verbais e são objeto da mobilização e da influência
destas; isso muda seu sentido na interação e acaba, por um efeito de inter-
influência, por alterar a própria significação – que se fixa momentamente até ser
alterada mais uma vez. A linguagem, portanto, não é entendida como um sistema
abstrato de formas (o saussurianismo, baseado no valor econômico proposto por
Walras e Pareto, que só vê as relações entre mercadorias e sujeitos abstratos)
nem como resultado da criação individual dos sujeitos (os vários idealismos do
sujeito cartesiano autárquico), mas como o espaço em que se unem o individual e
o social. Há aqui a insistência no fato de que toda enunciação envolve um tom
avaliativo impresso pelo sujeito a suas atuações verbais, de acordo com suas
relações com seu interlocutor e o momento da interlocução. Na verdade, o tom
avaliativo está integrado à própria forma do texto; o texto não se restringe a
conteúdos, porque estes só surgem como resultado da ação da forma, e essa
ação altera a significação e cria o tema.
Na definição de outra base da concepção dialógica, o Círculo usa a
expressão “entoação avaliativa” (ou “expressiva”) para designar o fato de que o
sujeito sempre diz algo ao outro a partir de uma dada posição social, que resulta
da relação do sujeito com o outro nas circunstâncias concretas de sua interação.
Como vimos, todo ato (e não só verbal) traz um tom avaliativo pelo qual o sujeito
se responsabiliza, envolve um dado conteúdo e um dado processo, que adquirem
sentido ao ser unidos pela entoação avaliativa em sua relação com a
responsividade ativa, ou seja, o fato de o interlocutor não ser um receptáculo ou
decodificador do enunciado do locutor, mas um “parceiro” da produção de sentido.
Já vimos que, além do processo do ato e do produto do ato, há a valoração que o
agente faz do ato em suas interações – porque todo ato é “inter-ação”, nunca ação
isolada, o que impede que se entenda a valoração como ato puramente subjetivo:
o sujeito só avalia em interação, o que molda sua valoração. Essa valoração é a
entoação ativa. Como essa valoração ocorre apenas em interação, a resposta
presumida do interlocutor na interação é a responsividade ativa.
Para ilustrar isso, contamos mais uma história real: contam a um famoso
palestrante que uma dada pessoa que estaria na platéia, uma pessoa conhecida
como irreverente que já mostrara em público certa divergência com ele, iria,
segundo dissera, fazer uma pergunta ou observação contestatória ou ao menos
provocativa. O palestrante começa a palestra qualificando como “vaga” a proposta
de um pensador com quem a tal pessoa provocadora trabalha. Na palestra feita,
vê-se que não havia necessidade de usar o qualificativo “vago” sobre o tal teórico
para os fins da argumentação desenvolvida; o palestrante poderia simplesmente
não mencioná-lo. Mas ainda assim ele o fez. O uso de “vago” pode portanto ser
interpretado — nas circunstâncias — como uma “provocação ao provocador”, a
quem o palestrante desafiava assim a fazer a tal pergunta/observação anunciada.
Verificou-se que a palestra teve alterados alguns elementos seus em função da
provocação anunciada; e, de igual forma, a provocação afinal feita também se
alterou em função do “vago” que o palestrante usou: a observação feita foi de que
justo certos conceitos do tal teórico “vago” poderiam conferir maior “concretude”
(palavra de fato usada!) à proposta do palestrante que o considerara “vago”. Mas
a pergunta/observação original que a tal pessoa faria não se referia a isso.
Pode-se dizer que o uso de “vago” na palestra, que não estava previsto
pelo palestrante, foi provocado pelo fato de o palestrante saber que esse seu
interlocutor pretendia agir de uma dada maneira, e o uso de “concretude” pelo
interlocutor, que não fora previsto por ele, adveio do fato de “vago” ter sido usado.
O palestrante conhecia seu interlocutor, conhecia parte de suas “avaliações”,
digamos, e “atacou” justo um elemento dessas avaliações; o interlocutor, a partir
disso, se sentiu “validado” (porque o palestrante poderia simplesmente tê-lo
ignorado) e “atacado”, e passou a palestra imaginando o que perguntaria (já que
sua pergunta original passara ao segundo plano), tendo afinal descoberto um
“ponto cego” na palestra que lhe permitiu dizer o que acabou dizendo.
Vemos aí todo um jogo de valorações em conflito. O palestrante altera, a
partir de seu conhecimento de uma possível reação do “adversário”, e do
conhecimento que tem das opiniões deste, a palestra que iria proferir. Ao iniciá-la
marcando o “vago”, ele faz uma primeira avaliação que pode ou não ser
necessária para sua proposta, e assume a atitude de aceitar a provocação
anunciada, o que constitui mais uma avaliação. Ao ouvir “vago”, o tal provocador
(a partir de seu conhecimento de uma possível reação do adversário, do
conhecimento que tem das opiniões deste, bem como das relações deste com
certos conhecidos comuns) percebeu que a pessoa a quem dissera de sua
intenção tinha contado ao palestrante o que ele dissera e se preparou para “dar o
troco”, o que é uma avaliação da afirmação e uma reação a essa avaliação. Logo,
ouvir isso altera a própria recepção da palestra por ele, que vai assisti-la buscando
algo que ele possa caracterizar como “vago” no que o palestrante dissesse para
rebater o que o palestrante iria dizer. E, de fato, ele “dá o troco” nesses termos.
Ainda que o provocador fosse, digamos, fazer a “mesma” observação que
afinal fez após a palestra sem ter ouvido o tal “vago”, o fato de tê-lo ouvido alterou
sua avaliação da palestra como um todo, e o fato de ele usar “concretude” no final
é uma marca clara do fato de ele ter sido atingido pela avaliação do outro,
configurada em “vago”. O palestrante, por sua vez, ao “provocar”, altera de alguma
maneira os rumos do modo como faz a palestra, porque, ao dizer “vago”, se
compromete com essa provocação e, portanto, se prepara para uma dada
contestação que sabe que virá. Há aí uma “modulação” bem interessante: o
palestrante está numa posição superior, de detentor da palavra, e suas avaliações
têm um peso que a observação do provocador, mesmo que este tivesse o mesmo
peso institucional, não poderia ter naquele momento, porque o momento institui o
palestrante como o centro do evento. O contexto da interação estabelece papéis
distintos, impondo certas possibilidades de avaliação: mesmo um provocador tem
de respeitar o papel do palestrante — além de que nem todos podem ser
provocadores nesse contexto, porque isso implica um dado saber e um dado lugar
social. Assim, em sã consciência, o contestador pode contestar o que quiser, mas
tem de seguir algumas normas se não quiser ser julgado “inconveniente”, e, no
final, a “última palavra” é do palestrante.
Observa-se ainda outra coisa: ao dizer antes da palestra que faria uma
provocação, o provocador (que o fez por julgar-se de alguma maneira legitimado
para dizer isso) está por assim dizer “respondendo” ao palestrante, com base no
que conhece da perspectiva teórica deste, antes de este falar! O palestrante, ao
usar “vago”, também “responde” ao provocador, que tem sua “resposta” ao
desenrolar da palestra alterada e que, ao usar “concretude”, também “responde”
ao palestrante e assim por diante. Isto é, a um dado tom avaliativo, ou entoação
avaliativa, corresponde um dado “tom” responsivo, uma atividade “ativa” de
resposta, aquilo que o Círculo denomina “responsividade ativa”, que não é mera
recepção passiva, mas justamente uma forma avaliativa ativa de recepção pelo
interlocutor, uma avaliação que é presumida pelo locutor antes de este falar.
Vemos assim que a entoação avaliativa de um dos protagonistas tem
relação com a resposta ativa presumida do outro (resposta que o locutor pode
buscar antecipar, reforçar, evitar, provocar etc.) e vice-versa. Todo discurso traz
em si a valoração pelo locutor do dito e do modo de dizer, mesmo que ele
antecipe as possíveis reações do outro ou deseje provocar uma dada reação no
outro sem conhecê-lo (ao contrário do que ocorre no nosso exemplo real). Há,
portanto, em todo discurso, um ajuste, uma negociação, entre entoação avaliativa
e responsividade ativa, que começa antes mesmo de ser proferida a primeira
palavra. Para esquematizar, pode-se dizer que todo discurso envolve a relação
entre os seguintes elementos:

1. A avaliação do locutor
2. A avaliação do interlocutor
3. A resposta do locutor
4. A resposta do interlocutor

Para compor sua avaliação (1) e sua resposta (3), o locutor leva em conta a
avaliação (2) e a resposta (4) presumidas do interlocutor. A avaliação e a resposta
do interlocutor, por sua vez, que foram consideradas (presumidas) pelo locutor,
dependem da avaliação e da resposta do locutor, num jogo de imagens individuais
e sociais dos protagonistas, porque as avaliações e as respostas/reações
dependem da posição, do papel social, dos protagonistas do discurso, das
relações sociais que há ou passa a haver entre eles, e essas posições ou lugares
envolvem valores ideológicos correspondentes a essas posições, além de toda a
configuração psíquica dos envolvidos etc. no âmbito de uma dada sociedade e da
história (cf. SOBRAL, 2008a).
A entoação avaliativa e a responsividade ativa são assim atitudes vitais
presentes em todo ato e em toda enunciação, vinculados com todo processo de
apropriação social e histórica do mundo pelos sujeitos. Como se trata de
fenômenos que só se manifestam em enunciados e discursos, tratamos a seguir
mais especificamente desses conceitos.
Capítulo 6
Enunciado concreto e discurso

Vimos nos capítulos precedentes que a linguagem é para o Círculo um


sistema semiótico aberto que se sustenta numa dialética entre um plano
convencional dotado de certa estabilidade, isto é, um núcleo centrípeto, um
componente que tende à permanência, e um plano marcado pela instabilidade, ou
seja, um plano de caráter centrífugo. A linguagem é por conseguinte fruto de uma
tensão dialética contínua entre estabilidade e instabilidade, entre a cristalização de
significações e a amplitude dos temas social e historicamente possíveis. A
compreensão da linguagem nesses termos tem como centro, e já o dissemos, a
inter-ação lingüística, uma inter-ação entre sujeitos concretos, ação em que
sempre se fazem presentes diferentes formas de apropriação do mundo.
Para o Círculo, o lugar do exercício da língua é o ambiente social e
histórico em que ocorrem as interações, lingüísticas e outras. As interações são,
como vimos, intrinsecamente dialógicas; a relação diálogica engloba e vai além da
relação entre as réplicas de um diálogo real e alcança, por sua extensão, variação
e complexidade, o plano de um meta-discurso (um discurso sobre o discurso,
discursos nos discursos), num contínuo processo. Esse meta-discurso interliga
discursos não em termos de sucessão temporal e de presença num mesmo
espaço, mas em termos de sentido: o que é dito ou pode ser dito em outros
discursos está presente num dado discurso.
Essa concepção de linguagem destaca o caráter ativo do intercâmbio
lingüístico: os enunciados/discursos são considerados um produto desse processo
de intercâmbio. Ao contrário de outros produtos, trata-se de um produto que só
pode ser entendido se levarmos em conta o processo de sua produção, de sua
circulação no mundo e de sua recepção por outros sujeitos, e só podemos
considerar esse processo mediante o acesso ao seu produto. Assim, o produto
“discurso” não é algo estabilizado, acabado, morto, independente da situação de
sua produção; ele só passa a produzir sentido se entendido no âmbito desse
processo e é nesse processo, portanto, que devemos procurar seu sentido. A
maneira como o Círculo se propõe a estudar esse processo difere das propostas
de várias outras teorias da linguagem e do discurso, pois o Círculo vê o sentido
como um processo contínuo. Esclarecemos que isso não significa que o Círculo
diga que o sentido nunca se concretize; pelo contrário, o Círculo reconhece que
todo enunciado e todo discurso concretizam um dado feixe de sentidos e afirma
que os sentidos sempre se concretizam numa dada circunstância histórica e social
que exibe elementos comuns com outras e elementos específicos seus,
divergências e acordos, conflitos e harmonia.
Esse modo de ser da linguagem envolve um processo de permanente
negociação e regulação do sentido, que é assim algo que está sempre se
formando, se alterando, ressurgindo, mostrando novos aspectos, descartando
certos aspectos etc. Porque sujeitos diferentes, em momentos ou épocas
diferentes, lugares diferentes, circunstâncias específicas diferentes, criam em suas
relações sentidos diferentes – inclusive para um mesmo discurso, um mesmo
enunciado, uma mesma palavra. A interação envolve (1) a presença de partes
implícitas ou explícitas de outros textos num dado texto – a intertextualidade, (2) a
presença de discursos em outros discursos (nos modos de dizer, de elaborar
textos, nas formas de interação etc.) – a interdiscursividade e (3) a presença de
gêneros (modos de entender e de organizar o mundo em discursos) em outros
gêneros – a intergenericidade 9 . Isso ocorre mesmo que nenhuma “frase” de outros
textos, ou enunciados de outros discursos e gêneros, estejam presentes num
dado discurso, mas isso é tema para outro livro!
O conceito de enunciado do Círculo tem como um de seus momentos
importantes de definição um artigo de Bakhtin sobre o problema do texto (1997, p.
330). Nele, Bakhtin alega que “dois fatores determinam um texto e o tornam um
enunciado: seu projeto (a intenção) e a execução desse projeto”. Ele acrescenta
que entre projeto e execução pode haver divergências e que ao longo da
execução o projeto pode ir se modificando, referindo-se naturalmente às
modulações que o locutor imprime ao enunciado.
Em outro momento do mesmo texto, ele diz que todo texto, para tornar-se
enunciado, precisa ter um autor. Ora, se é preciso um autor, um projeto
enunciativo desse autor e a execução desse projeto, com suas modulações, e se
o lugar do exercício da língua é a inter-ação, que é sempre concreta, mesmo num
texto escrito, o enunciado para o Círculo de Bakhtin não equivale à frase nem a
seqüências de frases e não se reduz à materialidade do texto. O Círculo entende
que a frase e a materialidade do texto (que são componentes das formas da
língua, do plano potencial da significação), o “material” a partir do qual o
autor/locutor procura realizar seu projeto de sentido, no plano concreto do tema.
Além disso, como está numa relação de pressuposição mútua com a
enunciação, entendida em termos de seu processo e não apenas de seu produto,
o enunciado tem caráter concreto, é fruto de uma relação concreta entre sujeitos
concretos que se acha refletida em sua estrutura. A ênfase no “concreto” assinala
precisamente o fato de o conceito de enunciado concreto (cf. SOUZA, esp. 1999)
ser um conceito anunciativo, não um conceito textual com o qual se designam
frases usando o termo enunciado, embora se permaneça no plano mais restrito do
texto como unidade gramaticalmente fechada em si. O que faz que uma
frase/texto seja tomada como enunciado é portanto algo que vai além da frase e
do texto: a ação concreta do autor de conceber (intencionalidade) e executar
(enunciação) um dado projeto enunciativo numa dada situação de enunciação,
algo que não anula as formas da língua, mas vai necessariamente além delas.
Além disso, é preciso haver uma situação comum ao locutor e ao interlocutor; o
conhecimento dessa situação por eles e um acordo, de grau variável, sobre sua
compreensão; e certo acordo, de grau variável, sobre como avaliar essa situação.
Além desses elementos, o Círculo propõe dois critérios estruturais
intrinsecamente ligados para a identificação do enunciado, em oposição à oração
ou frase. O primeiro diz que todo enunciado implica a alternância entre sujeitos
falantes: num dado momento, todo enunciado chega ao fim, e dá então lugar à
compreensão responsiva ativa do leitor; o segundo diz que o enunciado é um
todo, tem um acabamento, isto é, todo enunciado, uma vez que chegou ao fim,
indica que seu autor disse tudo o que pretendia dizer. Vemos nesses dois critérios

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Baseamo-nos aqui em BAKHTIN, 1997, p. 354, que não usa o termo “intergenericidade”. Para
detalhes, cf. SOBRAL, 2006.
a presença inevitável do outro. O pressuposto da alternância e o acabamento são
precisamente o que permite a resposta do outro; o enunciado envolve quanto a
isso três fatores inter-relacionados: a exaustividade, o projeto enunciativo do
locutor e a estruturação do acabamento em termos das “formas típicas do gênero
do acabamento” (BAKHTIN, 1997, p. 300. Cf. ainda p. 290-327).
A exaustividade varia de acordo com as coerções da esfera de atividade (o
campo da ação humana em que o enunciado é produzido; ver adiante) em que o
enunciado é proferido: num lado do espectro, as perguntas sobre eventos factuais,
nas relações cotidianas, são quase totalmente exaustivas, ao passo que um
tratado exibe uma exaustividade relativa apenas suficiente para despertar uma
resposta ativa. Esse acabamento mínimo está naturalmente vinculado, tanto em
termos de grau como de forma, ao projeto enunciativo do locutor, que estabelece
sua extensão e suas fronteiras: a depender do que queira dizer e da resposta que
deseje provocar ou evitar, o locutor dirá mais ou menos, delimitará seu enunciado
de uma ou de outra maneira, nos termos das formas típicas dos enunciados. O
projeto enunciativo se liga ao objeto de sentido, o tema, e forma com ele uma
unidade indissolúvel (Op. cit., p. 301), associada por sua vez com as
circunstâncias concretas de produção do enunciado. As formas típicas dos
enunciados são os gêneros do discurso: o projeto enunciativo do locutor o leva a
escolher um gênero. Estão envolvidos aqui as especificidades das esferas, os
aspectos específicos da interação, as necessidades temáticas etc.
Vemos já na definição de enunciado a fundamental presença dos gêneros,
e, o que é mais importante, o fato de que o projeto enunciativo “do locutor, sem
que este renuncie à sua individualidade e à sua subjetividade, adapta-se e ajusta-
se ao gênero escolhido, compõe-se e desenvolve-se na forma do gênero
determinado” (Idem, p. 302; grifos nossos). Vemos ainda que a assimilação das
formas da língua depende da assimilação das formas típicas dos enunciados: não
aprendemos a língua em dicionários nem em gramáticas, mas através de
enunciados concretos: “falar é aprender a estruturar enunciados (porque falamos
por enunciados e não por orações isoladas e, menos ainda, é óbvio, por palavras
isoladas) [Ibid., p. 303]. Se aprender a falar é aprender a estruturar enunciados de
acordo com suas formas típicas, aprendemos a falar mediante a assimilação de
regras de gênero, ou critérios de estruturação e uso de enunciados de acordo com
as esferas de atividade em que surgem os gêneros.
As formas típicas dos enunciados são bem mais flexíveis do que as formas
da língua, havendo um espectro de padronização cujo ponto máximo são gêneros
cotidianos como as felicitações, os votos etc., e cujo ponto mínimo são as obras
literárias. Mas nem por isso há uma total rigidez padronizadora nos gêneros
cotidianos, que variam a depender das relações entre os protagonistas do
discurso, nem uma total liberdade nos gêneros literários, que são parte da esfera
da literatura, que tem suas normas. Cabe pois fazer um importante esclarecimento
acerca da relação entre as formas da língua e as formas típicas do enunciado.
Bakhtin (Op. cit., p. 306), desenvolve a idéia de que a escolha de um tipo de
oração depende do todo do enunciado completo. Segundo ele, (1) a frase é
mobilizada em função do “todo do enunciado completo”, isto é, depende do projeto
enunciativo do locutor; (2) esse todo “determina nossa opção”; e (3) esses
elementos dirigem o processo discursivo, que é o espaço em que as frases,
unidades da língua, adquirem sentido por serem mobilizadas num enunciado,
unidade da comunicação discursiva.
Assim, o sentido dos enunciados, expresso por meio da materialidade das
frases, é estruturado de acordo com as formas típicas dos enunciados, e estas
dependem da concepção do todo do enunciado completo, assim como a própria
composição de um conjunto de frases. Assim, enunciado e frase não se
confundem, porque as frases são mobilizadas pelos enunciados nos termos das
normas flexíveis de composição do todo destes: uma mesma frase pode dizer
coisas distintas a depender das formas típicas dos enunciados que a mobilizam,
não havendo portanto uma relação direta entre frases e formas típicas de
enunciados – assim como não há uma relação direta entre uma dada forma textual
e um dado gênero (cf. SOBRAL, 2006, passim e ver adiante o capítulo sobre
gênero). Todo enunciado pressupõe uma enunciação e um enunciador, aquele
que o produz, bem como um enunciatário, alguém a quem essa enunciação é
dirigida, e tanto o enunciador como o enunciatário são, obviamente, sujeitos. Não
há enunciação sem enunciado, nem enunciado sem enunciação.
O sentido, retomando o que foi dito até agora, é produzido portanto “entre
sujeitos”, nas relações entre esses sujeitos, é produto de um processo que nasce
na e da relação entre enunciador e enunciatário, criando uma realidade segunda,
uma realidade de discurso, que não altera o mundo material, mas também não é
um reflexo “objetivo” dele. A enunciação é grosso modo o ato de proferir um
enunciado, de dizer alguma coisa, que é sempre dirigida, “endereçada” a alguém,
com um dado objetivo. O enunciado, assim, não é o mesmo que a frase: a frase é
unidade do sistema lingüístico, e uma dada frase pode significar muitas coisas e
ser dita por qualquer pessoa, enquanto o enunciado é unidade do sistema de uso
da língua (SOBRAL, 2005, 2006), e o que pode significar depende de seu autor,
daquele a quem ele se dirige, do lugar e momento em que é proferido e do “querer
dizer” (ou projeto enunciativo) desse seu autor.
Na qualidade de locutor, todo sujeito recorre a significações fixadas no
sistema lingüístico e a valorações (a sua e a dos interlocutores a que se dirige)
que não estão no sistema, mas nas circunstâncias de uso da língua; e é a união
entre significação e valoração que cria sentidos nas circunstâncias históricas e
sociais dadas de enunciação. O sujeito sempre avalia, ainda que aí estejam
envolvidos aspectos inconscientes que ele não pode controlar, o que pretende
dizer e causar com seu dizer (seu projeto enunciativo) e modula/adapta seu modo
de dizer de acordo com a situação em que diz, o que envolve outros sujeitos,
instituições etc., bem como as reações concretas ou presumidas dos outros
sujeitos etc. E chegamos assim a um importante aspecto da definição do sujeito
da enunciação: o sujeito da enunciação é entendido como um sujeito concreto,
mas não em termos empíricos estritos e sim como sujeito do discurso: de certo
modo, o sujeito sempre se constitui no discurso como uma personagem de si
mesmo, uma “máscara”, um “papel” construído na situação em que se encontra.
Mas o discurso remete inevitavelmente ao mundo empírico, que de certo
modo não é recuperável integralmente no enunciado, mas deixa neste marcas que
remetem à concretude da enunciação – sempre do ponto de vista dos
protagonistas dessa enunciação, não nos termos supostamente absolutos de
certas análises imanentes ou de certa sociologia. Assim, pode-se dizer que, em
todo discurso, há uma espécie de “contrato” “firmado” entre as “personagens” do
enunciador e do enunciatário em sua relação específica. Nessa situação, o sujeito
é responsável pela “verdade” de seu discurso, uma verdade de discurso, mas que
nem por isso nega o concreto. Se o sujeito não existe sem o social, mas não se
anula diante desse social, o discurso do sujeito não existe sem o mundo mas não
se anula diante desse mundo. De igual forma, o social não é anulado pelo sujeito
nem o discurso anula o mundo concreto.
As formas típicas dos enunciados são escolhidas nas circunstâncias
específicas da interação, envolvendo a relação do locutor com seus próprios
enunciados (o tom avaliativo) e com o interlocutor (a responsividade ativa). Assim,
é a ação do locutor em interação que realiza a escolha de formas típicas do
enunciado, em vez de haver uma imposição rígida de uma dada forma típica numa
dada situação. Logo, cada vez que uma dada forma típica é usada, as
circunstâncias do uso alteram elementos dessas formas, o que permite que o
locutor tanto realize seu projeto enunciativo – mas não como o falante criador das
teorias subjetivistas – ao mesmo tempo em que obedece às regras das formas
típicas, que dependem do ambiente social, da esfera de atividades em que os
enunciados são produzidos, da relação específica entre os interlocutores etc. –
mas não mediante a sujeição a regras impessoais incontornáveis que façam das
formas típicas dos enunciados fórmulas a ser repetidas.
O enunciado é portanto a unidade da interação, sendo determinado pelas
especificidades da interação, em vez de ser seu determinante:

A enunciação [ou o enunciado] concreta [concreto] (e não a abstração


lingüística) nasce, vive e morre no processo de interação, e sua forma em
geral se define a partir da forma e do caráter dessa interação (BAJTÍN,
1997, p. 122).

Por esse motivo, Brait e Melo (2005, p. 72) resumem a abordagem do


enunciado nos termos do Círculo destacando os seguintes elementos (que não
esgotam a questão, mas apontam a direção a seguir): o interlocutor a que o
enunciado se dirige, a percepção que o locutor tem do interlocutor e a influência
do interlocutor sobre o enunciado, a que se acrescentam, como apontam as
autoras, a relação social específica entre os interlocutores e outras condições
relevantes. Vemos aqui com clareza porque o enunciado para o Círculo é sempre
entendido como enunciado concreto (cf. SOUZA, 1999, 2002) – na verdade,
“enunciado” pode ser substituído nas obras do Círculo, sem alteração de sentido,
por “enunciação”, o que reforça isso, inclusive porque em russo uma única
palavra, slovo, designa “enunciado” e “enunciação”.
O enunciado pode ser definido como uma unidade discursiva mediante a
qual o locutor busca realizar um dado projeto enunciativo, de acordo com a
interação em que está envolvido (e que o leva a alterar esse projeto enunciativo
ao longo de sua execução), tendo por material as formas da língua e imprimindo
ao que é dito um tom avaliativo que leva em conta a resposta ativa presumida do
interlocutor a quem o locutor se dirige. O enunciado é unidade discursiva porque
vai além das unidades lingüísticas que são a palavra, a frase e o texto como
materialidade. O enunciado situa-se entre o verbal e o não-verbal, serve-lhes de
mediador; ele traz o não-verbal em sua própria estrutura verbal: o contexto extra-
verbal deixa marcas no enunciado nele produzido, e, na verdade, torna-se “intra-
verbal”. O que interessa do contexto está contido no enunciado, porque a
enunciação que o produz inscreve nele essas marcas, e são elas que autorizam o
analista a buscar elementos contextuais. O enunciado é formado assim por dois
componentes: aquilo que é dito e aquilo que é presumido; aquilo que é dito (plano
da significação), a parcela visível do enunciado, remete àquilo que é presumido
(plano do tema), a parcela não visível. A parcela não visível é precisamente o que
remete o enunciado à sua situação, a ponto de o enunciado não ser compreendido
por quem não conheça as condições pragmáticas em que é produzido – mesmo
que as palavras e frases que constituem o enunciado sejam compreendidas em
sua significação!
Por exemplo, se ouvimos uma mulher à porta de uma casa dirigir a outra o
enunciado “Ele veio?”, entendemos que ela está fazendo uma pergunta sobre
alguém do sexo masculino (ele) e sobre uma dada ação desse alguém (vir).
Podemos supor que essas mulheres se conheçam de alguma maneira e que elas
sabem de quem falam, saibam da possibilidade de esse alguém vir, dever vir, ter
de vir, poder vir etc. Vemos que há uma expectativa sobre essa vinda, e
provavelmente que elas sabem por que viria, para quê, quando ou com que
regularidade vem etc. Esse enunciado é para nós, que não conhecemos os outros
dados relevantes dessa situação pragmática, uma frase. Ele poderia ter sido dito
por um homem qualquer a algum outro, por uma criança à mãe etc. e, sabendo
disso, continuaríamos a saber o mesmo, e a não entender seu sentido (e nem
estamos falando do tom com que ele é dito, que pode alterar em muito esse
sentido ).
A única maneira de entender o evento verbal que ocorre por meio desse
enunciado (porque para as duas mulheres ele é um enunciado, não uma frase) é
conhecer as circunstâncias pragmáticas de produção desse enunciado, o “cenário”
desse evento (cf. VOLOSHINOV, 1976a). Se sabemos que o marido de uma das
mulheres viaja, que elas são irmãs, que esse marido muitas vezes promete vir a
não vem etc., a frase se torna um enunciado: identificamos um projeto do locutor,
sua interação com o outro, numa situação conhecida e entendida de uma dada
maneira pelos dois, bem como um certo acordo sobre como avaliar essa situação.
Conhecendo o cenário do evento, podemos entender esse evento. No texto
escrito, os enunciados trazem marcas da enunciação que apontam para esse
cenário e permitem que o analista se ponha por assim dizer na posição de
interlocutor desse evento (VOLOSHINOV, Id.).
Surge naturalmente a questão de determinar as relações entre o texto e o
discurso. Tal como no caso da frase em relação ao enunciado, o texto é
manifestação do plano das formas da língua e da textualidade, do dito, ao passo
que o discurso é do plano das formas típicas de estruturação do dizer,
contextualmente definidas, e sujeitas a uma variação bem maior. Um mesmo tipo
de texto pode servir a mais de um discurso, do mesmo modo como um mesmo
discurso pode recorrer a mais de um texto. Tal como as formas da língua são o
material do texto, o texto é o material do discurso, a materialidade do discurso, sua
alavanca – mas é o discurso que pretende mover o mundo. O Círculo insiste que a
concepção dialógica de linguagem vê frase e texto como unidades do nível das
formas da língua e de sua materialidade, e vê enunciado e discurso como
unidades translingüísticas, de um nível que vai além da língua, o nível dos atos de
linguagem sociais concretos – o que torna os próprios métodos de análise
lingüístico-textuais um procedimento auxiliar de uma análise enunciativa: a frase e
o texto como materialidade não têm “autor”, ao passo que o enunciado e o
discurso pressupõem necessariamente um “autor”, que sempre está em relação
dialógica com algum interlocutor – com todas as decorrências apontadas.
Diante do texto, portanto, cabe perguntar, antes de tudo: que projeto
enunciativo este texto procura realizar? O modo de dizer (e isso designa
naturalmente bem mais do que a mobilização de recursos textuais estritos), altera
o que é dito, ainda que se usem as mesmas frases! Todo modo de dizer é parte
de um repertório – e em alguns casos do arsenal – de modos de dizer social,
histórica e ideologicamente possíveis, sendo o sujeito o mediador entre estas e
aquilo que ele pode realizar e realiza no contexto específico de sua enunciação.
Uma análise do discurso fundada nas teses do Círculo pressupõe o texto, mas
não se restringe a seus segmentos, nem à sua totalidade, em termos autônomos,
pois o texto só se organiza nos termos de um dado discurso e suas significações
só podem ser entendidas se pensadas em termos dos temas a que servem no
discurso.
Um texto é, portanto, um objeto material que, ao ser tomado como o texto
produzido por um sujeito, um texto com autor, é tomado como um enunciado, um
discurso, algo proferido por alguém num dado contexto, um processo cujas
“marcas” estão no próprio texto! Logo, os sujeitos e os contextos não estão
submetidos ao texto, não se podendo tomar o texto como unidade autárquica
transferível integralmente. O texto traz assim potenciais de sentidos, é uma
materialidade em que são criados sentidos a partir da produção do discurso, que
transforma frases em enunciados. O texto, tal como a frase, não pertence a
ninguém; o enunciado e o discurso, ao contrário, vêm de alguém, dirigem-se a
alguém, são “endereçados”, trazem em si um tom avaliativo e remetem a uma
compreensão responsiva ativa.
A distinção entre enunciado e discurso, que alguns autores identificam em
obras do Círculo, não invalida, à luz dos elementos comuns entre discurso e
enunciado aqui indicados, a aproximação entre seus sentidos. Assim, a
concepção de enunciado do Círculo é a nosso ver a base da concepção de
discurso do Círculo, que na verdade nunca foi formulada explicitamente na obra (e
é preciso lembrar que “palavra” e “discurso” em russo são designados pelo mesmo
vocábulo, slovo). Assim sendo, reunindo-se os vários elementos relevantes das
obras do Círculo em que são abordados o enunciado e o discurso, julgamos poder
definir discurso da seguinte maneira (cf. SOBRAL, 2006):

Discurso é uma unidade de produção de sentido que é parte das práticas


simbólicas de sujeitos concretos e articulada dialogicamente às suas
condições de produção, bem como vinculada constitutivamente com outros
discursos. Mobilizando as formas da língua e as formas típicas de
enunciados em suas condições socioistóricas de produção, o discurso
constitui seus sujeitos e inscreve em sua superfície sua própria existência e
legitimidade social e histórica.
Pode-se perceber nessa definição que, sem sujeitos e contextos, não há
discursos, ao mesmo tempo em que, sem discursos, não há sujeitos nem
contextos apreensíveis linguisticamente. O discurso vem a existir
fundamentalmente mediante um processo de produção de sentidos realizado por,
para e entre sujeitos. Logo, como não se pode entender o discurso sem entender
seus sujeitos ou protagonistas, uma definição de discurso que não envolva uma
definição dos sujeitos discursivos levando em conta seu ser socioistórico concreto
e sua constituição no próprio discurso é incompleta. Cabe alertar que não se trata,
contudo, de uma relação mecânica entre um “contexto” e um “texto”, pois, como
vimos, a produção do discurso vem da ação de um sujeito em interação com ao
menos outro sujeito, sendo o sujeito o mediador entre os sentidos socialmente
possíveis (mesmo que não realizados) e os sentidos que são atualizados,
manifestos, de acordo com as condições específicas da interação. Todo sujeito
tem um dado projeto enunciativo e um dado ponto de vista avaliativo, a que
corresponde uma resposta ativa de ao menos outro sujeito, e que pode alterar a
própria maneira de realizar esse projeto enunciativo. Além disso, tomar os
enunciados do discurso como objeto só tem legitimidade se cada enunciado for
considerado um elemento constituinte do macro-enunciado que é um discurso, se
for tomado em termos da unidade de sentido que é o discurso, que não é uma
soma de enunciados nem uma unidade “trans-enunciado”, mesmo que um dado
enunciado possa alterar por completo o tom avaliativo do discurso como um todo.
Veremos, ao tratar da relevância do conceito de gênero para a teoria da
linguagem e do discurso do Círculo, que a segmentação do discurso é uma etapa
pré-analítica, uma etapa de levantamento de dados, mas a análise propriamente
dita deve produzir uma imagem do discurso como a totalidade que ele é, em sua
inserção genérica, sua condição de membro de um gênero, inserido numa dada
esfera da atividade humana, e em sua mobilização específica das formas da
língua e das formas textuais. Veremos ainda que o gênero se renova cada vez
que há a produção de discursos em seu âmbito.
Em conclusão, esse modo de definir o discurso, e o processo discursivo,
leva em conta tanto as determinações sociais passíveis de definir os elementos
fundamentais do discurso, que podem conferir a ele uma dada configuração
textual “geral”, como os elementos discursivos indicativos de elementos relevantes
no contexto social, que são parte da configuração “específica” do discurso. Essa
perspectiva nos permite seguir na análise, de forma simultânea e integrada, dois
percursos: o que leva das marcas discursivas aos condicionantes da produção do
discurso e o que leva da situação de interação às marcas que o discurso pode
manifestar: as marcas discursivas remetem à situação de produção do discurso e
a situação de produção remete ao discurso. O discurso é assim o ponto de
convergência entre um dado evento de construção simbólica do mundo e o
cenário desse evento, sendo assim a unidade em que se manifesta a real
natureza da língua.
Capítulo 7
Elementos da teoria estética
em seu vínculo com a questão do gênero

A necessidade de tratar da concepção bakhtiniana do discurso estético vem


não apenas do valor intrínseco dessa concepção para os estudos literários e do
discurso em geral como do fato pouco apontado de o conceito de gênero não
poder ser entendido devidamente sem que se examinem as bases de sua
formulação pelos vários membros do Círculo em várias obras, mesmo aquelas em
que não se menciona o termo “gênero” (cf. SOUZA, 2003). Além disso, como as
teses do Círculo, por serem também a base de muitos estudos literários, chegam
a ser consideradas por alguns aplicáveis apenas à literatura, torna-se necessário
mostrar que o tratamento do discurso literário pelo Círculo respeita as
especificidades deste, mas nem por isso deixa de tratá-lo como uma modalidade
de discurso em meio a outras modalidades da categoria mais ampla discurso.
A concepção de discurso estético do Círculo parte de duas recusas e de
uma proposta de síntese: de um lado, a recusa da proposta formalista, que via a
obra estética como um conjunto independente de recursos literários, separando a
arte da vida, ou a linguagem “cotidiana” da linguagem “artística”, como dois
mundos independentes, e, do outro, a recusa da proposta marxista vulgar, a idéia
dos discursos como representação ou reflexo diretos das situações sociais e
históricas nas quais estão imersos e de que surgem. A síntese reúne, em linhas
gerais, duas atitudes: uma atitude geral que vê as manifestações simbólicas dos
seres humanos como processos situados na sociedade e na história, no âmbito da
interação dialógica entre sujeitos constituídos intersubjetivamente, em que os
discursos constroem ativamente essas situações, e, no campo literário, uma
atitude específica, que vê a obra estética como discurso que transforma, ou
“transfigura” um dado conteúdo, o mundo dos seres humanos, em termos
estéticos, de acordo com as variadas e variáveis formas de representação estética
deste, com base num material semiótico (a língua) [cf. para outros detalhes
SOBRAL, 2005b].
O exame dessa transfiguração se funda nas relações entre os planos do
discurso, literário em nosso caso, e o da história (que é sempre sociohistórica) do
ponto de vista da atividade autoral, da ação do sujeito, entendida como atividade
arquitetônica de articulação estética que envolve o conteúdo (o mundo humano
em sua apropriação avaliativa pelos sujeitos no ambiente social e histórico), o
material (a linguagem ou linguagens) e a forma da obra estética (a concepção e a
realização específicas, baseadas nas formas de interlocução). Cabe recordar que
todo discurso envolve alguma espécie de transfiguração do mundo dado, mas esta
varia em termos de grau e de tipo.
O Círculo se opõe às teses stalinistas imediatistas vigentes nas décadas de
1920-1930 na Rússia, formulando, mais do que uma teoria estética, uma teoria da
cultura. Essa teoria estético-cultural, sua “poética sociológica” (assim como suas
teorias de modo geral), tem duas bases principais: o materialismo dialético de
Marx e Engels, em sua versão “não vulgar”, e a concepção de Kant da apreensão
do mundo por meio de categorias, sem o caráter teoreticista de Kant, além de
achar-se assentada nas fontes do pensamento ocidental (por exemplo, remonta,
dado o papel central da linguagem e da interação, ao diálogo socrático) e de
assimilar criticamente elementos de diversas teorias não subjetivista da percepção
e da construção do mundo humano a partir do mundo material dado (a
fenomenologia, por exemplo), e não só, repetimos, em termos estéticos (cf.
SOBRAL, 2005a, b, c).
A transfiguração estética do mundo se distingue da transfiguração não
estética no sentido de que apresenta, além de uma representação situada do
mundo, uma representação dessa representação, ou seja, os agentes humanos
em seu agir situado, num objeto estético, marcado pelo afastamento radical entre
o autor e o herói: o autor, essa “personagem de si mesmo” (SOBRAL, 2006), em
sua relação com o ouvinte, é o agente organizador do acontecimento estético, e o
herói é objeto dessa atividade de organização, é quase “outra pessoa”. Para
complementar essa breve introdução à teoria estética do Círculo, exploramos aqui
4 trechos de importantes textos do Círculo que tratam especificamente da questão
estética. O primeiro é de Bakhtin, e vem do texto “O conteúdo, o material e a
forma do discurso literário” (BAKHTIN, 1997); o segundo é de Voloshinov (1976b),
e vem do texto “Discurso na vida e discurso na arte” [ou “na poesia”], o mesmo
ocorrendo com o terceiro; o quarto é de Medvedev (1985). Esses trechos são aqui
reproduzidos tanto em função de seu conteúdo específico como porque mostram
uma mesma concepção apresentada de 3 pontos de vista distintos e de 3
maneiras distintas de abordar o objeto de que tratam, servindo assim para dar
uma amostra da especificidade do pensamento dos três membros do Círculo a
cujas obras temos maior acesso, provando que eles compartilhavam de uma
mesma perspectiva, pouco importando questões menores de autoria.
O primeiro texto fala do “desígnio artístico”, que podemos traduzir como
“realização do projeto enunciativo estético”, a elaboração arquitetônica que reúne
dialeticamente forma, conteúdo e material, em sua interdependência, que faz que
uns não “vivam” sem os outros na obra:

O autor é orientado pelo conteúdo (...) ao qual ele dá forma e acabamento


por meio de um material determinado - verbal, no caso de que tratamos (...).
Com base nisso, distinguiremos na obra de arte, mais exatamente no
desígnio artístico, três elementos: o conteúdo, o material, a forma. A forma
não pode ser compreendida independentemente do conteúdo, mas ela não
é tampouco independente da natureza do material e dos procedimentos que
este condiciona. A forma depende, de um lado, do conteúdo e, do outro,
das particularidades do material e da elaboração que este implica
(BAKHTIN, 1997, p. 207).

Assim, “forma” se distingue de “acabamento”, e os dois se integram na


obra. Isso indica que a concepção de “forma” de Bakhtin não se restringe ao
aspecto composicional, que é do plano da língua, da “obra material”, incluindo
igualmente o aspecto arquitetônico, que é da ordem do discurso, que constrói
objetos discursivos, literários em nosso caso, e cria o “objeto estético”. A união
entre forma, conteúdo, material e acabamento cria uma totalidade dotada de
sentido que não se reduz a nenhum de seus componentes, mas os transcende ao
mesmo tempo em que deles depende.
O segundo trecho é parte do que Voloshinov denomina “poética
sociológica”, expressão que sintetiza os dois pilares da proposta do Círculo, o
estudo da obra (poética) como discurso (sociológica):

Subentende-se que a forma é realizada com a ajuda do material (...) mas,


em virtude de seu sentido, ela ultrapassa o material. O sentido, o sentido da
forma tem relação não com o material, mas com o conteúdo.
(VOLOSHINOV, 1976b, p. 11).

Vemos mais uma vez a presença de forma, conteúdo e material, a


referência a sentido, que supõe acabamento. E, mais uma vez, o material, que
“fixa” a forma, não a determina, sendo antes mobilizada por ela em termos do
conteúdo. Este é objeto de uma avaliação, outra constante da obra do Círculo, em
sua proposta de um sujeito não subjetivo em termos psicológicos, um sujeito
responsável pelo que enuncia e que se faz presente no discurso como agente.
O terceiro trecho, de Voloshinov (Id., p. 10), tem como pontos relevantes
abordar a relação entre o mundo social e histórico (o contexto extra-verbal) e a
obra estética (a parte verbal), bem como de estabelecer a “tarefa” específica do
discurso estético (parte dela típica de todo discurso escrito):

(...) O discurso na arte não é e nem pode ser tão estreitamente dependente
de todos os fatores do contexto extraverbal, de tudo aquilo que e visto é
sabido, quanto o discurso na vida. Uma obra poética não pode apoiar-se
em objetos e eventos do meio imediato como coisas “entendidas”, sem
fazer sequer uma ligeira alusão a eles na parte verbal do enunciado. (...)
muito mais é exigido do discurso na literatura(...). Nada deve ser deixado
não dito numa obra poética do ponto de vista pragmático-referencial.

Voloshinov afirma com isso que a representação transfiguradora do mundo


pelo discurso estético é construída por meio de recursos de reconstituição,
produção, de um “cenário” para o evento de seus enunciados. O contexto extra-
verbal de uma conversa face a face permite que se presumam certas coisas, que
se considerem certas coisas como sabidas pelos participantes, e por isso admite
enunciados cuja parte verbal não precisa representar tudo em termos pragmático-
referenciais: os enunciados já são produzidos numa situação pragmático-
referencial identificável.
O evento estético tem de dizer em sua parte verbal tudo o que há de
relevante sobre o mundo que representa de um dado ponto de vista, precisa dar
indicações pragmático-referenciais, indicações que remetem à parte extra-verbal
desses enunciados. Ao fazer isso, o discurso estético instaura uma representação
avaliativa do mundo que na verdade cria — no sentido de “construir” — um novo
mundo, um mundo que não é uma representação ou reflexo diretos do mundo
concreto, mas tem esse mundo como seu contexto, sua condição de possibilidade,
e como seu objeto, seu conteúdo.
O quarto trecho é a nosso ver uma síntese do empreendimento (não só)
estético do Círculo. Nele, Medvedev (pensando do ponto de vista do conceito de
gênero) diz, no livro em que discute o método formal nos estudos literários (1985,
p. 118-119), que:

De que maneira, no seio da unidade da construção artística, a presença


material direta da obra, seu aqui e agora, se combina com as infinitas
possibilidades de seu sentido ideológico?...Que elemento une de fato a
presença material da obra e seu sentido?... Esse elemento é a nosso ver a
avaliação social.

Vemos aí reunidos, de maneira sintética e radical, os elementos que


definem a obra literária, e as ações que os mobilizam na criação do todo estético.
Fica bem claro que a construção artística vai além da junção de artifícios
“literários”: essa construção une a materialidade da obra a suas possibilidades
socioistóricas de sentido (conteúdo), combinados (forma) numa unidade
(arquitetônica) por meio do agir avaliativo do autor, que, como sabemos, liga-se à
resposta ativa do ouvinte. A “avaliação social” da obra estética advém de um
projeto, ou “desígnio”, estético que mobiliza o material, a partir do conteúdo (a
“tensão ético-cognitiva” que o herói provoca no autor), para dar à obra uma forma
arquitetônica que realiza determinadas possibilidades de seu “sentido ideológico”.
A forma do conteúdo é o plano que une as possibilidades ideológicas de
sentido da obra e sua materialidade nos termos de uma dada avaliação social.
Toda avaliação social implica, como vimos, a relação entre duas “consciências”
que não se misturam, o autor e o ouvinte. A forma do conteúdo, além disso,
depende do distanciamento entre o autor e o herói. Esse distanciamento é
designado pelos termos transgrediência, exotopia, excedente de visão,
extraposição, que descrevem o fato de o autor, para ser autor, dever saber tudo
sobre o herói, sobre sua “personalidade”, sua “condição” etc., que o herói não
pode saber. Etimologicamente, “exotopia” é formada por ex, “fora” e topos, “lugar”.
Logo, é um lugar afastado, mas não apartado da situação de enunciação, da vida
concreta do autor/locutor tal como configurados em discurso.
Por conseguinte, o autor/locutor ocupa – necessariamente, para ser
autor/locutor – uma posição que vai além da do herói, do tópico, do tema. Essa
posição exotópica não se aplica, como se pode perceber, apenas ao autor da obra
estética mas à posição do locutor, e do sujeito humano de modo geral. A partir
dela, o autor/locutor vê o mundo de que é parte de uma dada distância, necessária
(e isso é vital) para ter desse mundo uma visão global e fazer dele uma avaliação
situada, sem no entanto situar-se além dele, pois mesmo quem parece estar “além
de sua época” está ocupa uma posição que lhe permite num dado momento
antever a confluência de forças já em andamento, naturalmente por ter condições
individuais de perceber a ação dessas forças.
A posição exotópica é assim uma posição a partir da qual o sujeito vê o
mundo, a obra, o discurso, com certo distanciamento de sua própria condição
nesse mundo, o que lhe permite perceber elementos que a proximidade não lhe
permitiria: mergulhado em sua própria condição, sem afastar-se dela, o sujeito
humano nem mesmo poderia reconhecer a si mesmo. A posição exotópica do
autor se define como aquela que lhe permite criar a obra, sendo marcada por seu
distanciamento de sua obra, que lhe permite ter uma visão global do enunciado,
da enunciação. Todo autor/locutor situa-se numa fronteira entre o mundo concreto
e o discurso que cria. Se assim não fosse, a linguagem seria reflexo ou
representação diretos da realidade e o discurso expressão subjetiva do autor (cf.
também, sobre autor e autoria, FARACO, 2005). Assim como o dialogismo, a
exotopia apresenta graus, e estes servem em última análise para definir tipos de
relação entre autor-leitor-personagem, logo, tipos de discurso e gêneros. Seja o
discurso mais objetivo ou mais subjetivo, permanece a posição exotópica de seu
autor/locutor, porque o autor/locutor nunca representa a si mesmo, nem a seu
objeto, mas uma imagem de si mesmo, uma imagem de seu objeto, e, portanto,
distancia-se de si/dele em algum grau. O locutor do discurso é uma personagem
de si mesmo (SOBRAL, 2006).
Em conclusão, a posição exotópica, assim como o dialogismo e o cronotopo
[ou cronótopo], é constitutiva; está presente em todo e qualquer discurso, diferindo
em termos de grau. No discurso estético, alcança o grau máximo, porque o autor
desse discurso não apenas apresenta como representa o mundo. Não há discurso
sem dialogismo, sem exotopia, sem cronotopo, e a posição exotópica, que pode
parecer dar ao autor alguma superioridade monológica, marca simplesmente sua
ação arquitetônica, sua posição de estruturador do discurso. Como nunca pode
agir fora do triângulo autor-herói-ouvinte, o autor age constituído, interpelado pelos
outros membros desse triângulo, sem no entanto ver-se privado de sua
individualidade.
Os vários elementos expostos permitem ver que o evento discursivo
estético, além de transfigurar o mundo, como faz todo discurso, o transfigura nos
termos de um “protocolo” que é a obra estética (seja prosaica ou poética), um
protocolo que tem suas regras específicas: partindo do conteúdo, do material e da
forma, a obra estética tem seu ponto alto na forma do conteúdo, que apresenta o
conteúdo (o mundo humano transfigurado) em termos de uma dada concepção
arquitetônica (a forma do objeto estético) que recorre a uma dada forma
composicional (a forma do objeto exterior) e ao material verbal.
O material condiciona a forma, porque esta não pode existir sem ele, mas
não a determina, porque a forma não se reduz a ele; o material é portanto um
elemento relevante mas secundário no evento estético (e nos discursos em geral),
embora não em termos lingüísticos estritos. De todo modo, o saber lingüístico em
si não pode dar conta de discursos e menos ainda do discurso estético, embora
seja legítimo em seu domínio auxiliar específico.
Capítulo 8
“Ver o mundo com os olhos do gênero”

Quando se fala em gênero discursivo do ponto de vista do Círculo, fala-se


de algo que é ao mesmo tempo estável e mutável. O gênero discursivo é estável
porque conserva traços que o identificam como tal e é mutável porque está em
constante transformação, se altera a cada vez que é empregado, havendo mesmo
casos em que um gênero se transforma em outro. Como o gênero é entendido
com essas características, o Círculo o define, por exemplo, como “formas
relativamente estáveis e normativas de enunciado” (BAKHTIN, 2003, p. 286).
Observe-se nessa definição que o “relativamente” marca a mutabilidade em meio
à estabilidade indicada por “formas”, “estáveis” e “normativos”.
Como pode algo ser “normativo” e “relativamente estável” ao mesmo
tempo? 10
Vejamos, para esclarecer a questão, outra definição de gênero: “formas e
tipos da comunicação discursiva” (VOLOSHINOV, 1992, p. 45). Essa segunda
definição menciona “comunicação discursiva”, e sendo esta o lugar em que a
significação dá lugar ao sentido, supõe-se que essas formas e tipos estejam
sujeitas a mudanças, a novas avaliações, ressignificações etc. Logo, essas formas
e tipos são sim normativas, dado que o ambiente socioistórico requer a
cristalização de formas (e mesmo de fórmulas!) para que não se tenha de
“reinventar” a cada vez que se fala os modos de falar. Mas como ocorre no nível
dos enunciados e, portanto, no âmbito da comunicação discursiva, essa
normatividade é mutável.
Assim, não se trata de “estruturas fixas de enunciados” nem de
“enunciados-tipo”. Entender o conceito assim é reduzi-lo ao lingüístico estrito. Isso
não é admissível para o Círculo, porque o plano lingüístico estrito não tem
enunciados, e sim frases (nem discursos, mas textos), ou seja, não é o domínio da
comunicação discursiva, em que as frases são apenas o material dos enunciados,
e sim o domínio do estudo das formas da língua, cujo conhecimento, por si só, não
possibilita entender o sentido, embora seja imprescindível para que se entenda
10
Cabe aqui um excurso: a formulação do conceito de gênero nesses termos leva muitos a
confundir gênero com camisa-de-força e a buscar em outras formulações elementos teóricos que
levem em conta a mutabilidade. Hanks (2008, esp. p. 64-117), por exemplo, busca unir Bakhtin e
Bourdieu, mas dá a nosso ver, dos dois, em certos momentos de seu livro, uma visão parcial, ainda
que, de modo geral, faça argutas análises com base nisso, o que depõe em favor de sua
capacidade analítica – e criticar esse aspecto de modo algum é negar o valor de seu trabalho. Isso
a nosso ver resulta muitas vezes de, e/ou numa, uma compreensão, se não errônea, ao menos
bastante restrita da radicalidade da proposta de gênero do Círculo. Não nego com isso, por
exemplo, a grande produtividade dos ensaios de, por exemplo, Bakhtin: outros conceitos-chave
(BRAIT, 2006), e nós mesmos trabalhamos com outros teóricos do discurso. Refiro-me ao fato de
em alguns casos não se explorarem devidamente certos conceitos bakhtinianos, seja porque a
visão que se tem dos autores já estabelece um dado olhar, ou porque os interesses específicos de
seu uso já os ressignificam de uma dada maneira ou simplesmente porque se buscam
instrumentos e não se julga necessário examinar e/ou assumir suas bases e implicações
filosóficas, sua filiação, sua radicalidade ou seu contexto, devendo-se ainda considerar a hipótese
de que a recepção de certas teses do Círculo seja tão condicionada pela visão de mundo dos
respectivos círculos intelectuais que com elas ocorra algo que, no caso de Freud, levou sua
psicanálise a ser recebida como “mais uma” psicologia nos EUA.
(assim como sem textos não pode haver discurso, mas discurso não é só texto).

Para reforçar essas idéias, vejamos o seguinte trecho de Bakhtin (2002, p.


159 ):

O gênero possui sua lógica orgânica, que em certo sentido pode ser
entendida e criativamente dominada a partir de poucos protótipos ou até
fragmentos de gênero. Mas a lógica do gênero não é uma lógica abstrata.
Cada variedade nova, cada nova obra de um gênero sempre a generaliza
de algum modo, contribui para o aperfeiçoamento da linguagem do gênero.

Aqui vemos precisamente os principais aspectos do caráter estável-


dinâmico dos gêneros:

1. o gênero é dotado de uma lógica orgânica, isto é, não há algo que


venha de fora se impor a ele, mas uma ação generificante, criadora
de suas características como gênero;
2. protótipos e fragmentos do gênero permitem “dominá-lo”, ou seja,
o gênero tem um certo “tom”, certa “linguagem”, não devendo ser
confundido, portanto, com uma fórmula fixa (embora alguns gêneros
possam ser “formulaicos”);
3. sua lógica não é abstrata, porque se manifesta em cada variedade
nova, em cada nova obra, e portanto, o gênero não é rígido em sua
normatividade, mas dinâmico e concreto;
4. o gênero traz o novo (a singularidade, a impermanência) articulado
ao mesmo (a generalidade, a permanência), porque não é uma
abstração normativa, mas um vir-a-ser concreto cujas regras supõem
uma dada regularidade e não uma fixidez.

Percebe-se que, no percurso que vai do dialogismo ao gênero, há uma


mesma concepção: a diferença e a semelhança, a mudança e a estabilidade, se
acham em tensão permanente, no aqui e agora e ao longo do tempo, já que, para
o Círculo, no mundo humano o “absolutamente novo” é tão inconcebível quanto o
“absolutamente mesmo”. O “absolutamente novo” pressuporia sujeitos que
conhecessem tudo o que existe para então criá-lo ou identificá-lo; o
“absolutamente mesmo” pressuporia a total imutabilidade do mundo humano, a
própria indistinção. Logo, a articulação entre o repetível e o irrepetível, a atividade
em geral e os atos específicos dessa atividade, presentes na concepção do ato,
percorrem toda a obra do Círculo — do dialogismo ao gênero.
Tema, ou conteúdo temático, forma de composição (ou composicional) e
estilo são os termos com que o Círculo busca descrever o gênero. Tema é um
termo de grande riqueza sugestiva que não se confunde com “assunto”: pode-se
falar de um dado assunto e ter outro tema (ver adiante); a forma de composição
(ou composicional), vinculada com a forma arquitetônica, que é determinada pelo
projeto enunciativo do locutor, não se confunde com um artefato, ou forma rígida,
porque pode se alterar de acordo com as alterações dos projetos enunciativos;
quanto ao estilo, trata-se do aspecto do gênero que indica fortemente sua
mutabilidade: ele é a um só tempo expressão da comunicação discursiva
específica do gênero e expressão pessoal, mas não subjetiva, do autor ao criar
uma nova obra no âmbito de um gênero.
O Círculo afirma que os gêneros são potencialmente infinitos, mas isso não
nos autoriza a tomar componentes lingüístico-textuais de um dado gênero como
outros gêneros. Por exemplo, podemos tomar uma capa de revista como um texto
verbo-visual autônomo, mas não como um discurso autônomo, porque toda capa
de revista, mesmo que seja desenhada por Picasso, continua a ser parte da
revista, e entendê-la autonomamente é negar essa realidade. Naturalmente,
podemos estudar o desenho de Picasso na capa, mas sabendo que esse mesmo
desenho numa exposição, se for esse o caso, pode ter a mesma significação do
desenho na capa, mas não o mesmo tema ou o mesmo sentido. Assim, a capa é
em si uma unidade, do ponto de vista do texto verbo-visual, algo que identificamos
como capa, mas nem por isso é outro gênero, pois só faz sentido como capa de
alguma coisa, no caso, uma revista. Do ponto de vista do Círculo, o gênero é uma
categoria discursiva, da ordem do enunciado, não do texto ou da frase.
Podemos então concluir que o gênero se define como certas formas ou
tipos relativamente estáveis de enunciados/discursos que têm uma lógica própria,
de caráter concreto, e recorrem a certos tipos estáveis de textualização (tipos de
frases e de organizações frasais mobilizadas costumeiramente pelos enunciados e
discursos de certos gêneros), mas não necessariamente a textualizações estáveis
(frases e organizações frasais que sempre se repitam), pois são tipos ou formas
de enunciados. É certo que, ao longo do tempo, há certa cristalização dos gêneros
em termos de certas formas de textualização, mas isso ocorre sem fixidez, porque
os gêneros se acham em constante mudança — em diferentes ritmos, a depender
do gênero. É também certo que um memorando é mais estável do que um blog.
Passamos agora a discorrer sobre os principais pontos da teorização de
Medvedev, o membro “desprezado” do Círculo, que reúne a questão da
construção da forma do conteúdo à questão do gênero. Para dar conta do caráter
de totalidade que é o discurso, no seu caso a obra literária, Medvedev acentua
que esta é marcada por uma “unidade temática” que não advém das palavras ou
frases nem de suas combinações por si só, mas que as toma como um de seus
elementos, definindo-se assim como o tema do discurso poético como um todo.
Em outras palavras, a atividade autoral é um ato socioistórico concreto que cria
uma totalidade de sentido maior do que a soma dos componentes que convergem
para essa construção.
Na obra se unem os elementos lingüístico-textuais e a situação extra-verbal
em que o discurso é produzido, as circunstâncias histórico-sociais de tempo e de
espaço, nos termos de uma dada orientação de produção de sentido. Essa
orientação depende da relação específica entre os interlocutores envolvidos na
situação, e destes com o “herói”, ou seja, é o resultado dinâmico de uma atividade
autoral dialógica a que se fazem presentes o conteúdo, o material e a forma, o
composicional e o arquitetônico, o lingüístico e o enunciativo, o verbal e o extra-
verbal.
O aspecto normativo dos gêneros, como foi dito, decorre do fato de que não
se poderia inventar a cada vez que se fala as formas de falar e de cada
sociedade, como espaço coletivo construído por sujeitos e construtor de sujeitos,
representar o mundo de várias maneiras específicas, a depender da posição
relativa que os sujeitos ocupam nela. Quando se produz um discurso, esse
discurso circula em partes da sociedade, ou na sociedade como um todo, e é
objeto de uma dada recepção. Mesmo quando circula e é objeto de recepção na
sociedade como um todo, o discurso apresenta um dado modo de ver o mundo, a
sociedade etc., que reflete a posição relativa dos que estão nele envolvidos — um
dado locutor e um dado interlocutor típico, seja ele mais geral ou mais específico.
Essa posição relativa, podemos entender a esta altura, estabelece formas ou tipos
de enunciados que são os gêneros. E estabelece a partir de um dado espaço
social. Os gêneros estão assim ligados a esses espaços sociais, que são
designados pelo Círculo com a expressão esferas de atividade. Cada esfera de
atividade tem sua própria forma de produção, de circulação e de recepção de
discursos.
Detalhemos a definição de esferas de atividade. As esferas de atividade
são “regiões” de recorte socioistórico-ideológico do mundo, lugar de relações
especificas entre sujeitos, e não só em termos de linguagem. São dotadas de
maior ou menor grau de estabilização a depender de seu grau de formalização, ou
institucionalização, no âmbito da sociedade e da história, de acordo com as
conjunturas específicas. Assim, esfera deve ser entendida como a versão
bakhtiniana marxista de “instituição”, ou seja, uma modalidade socioistórica
relativamente estável de relacionamento entre os seres humanos. A esfera vai das
relações de intimidade familiar ao aparato institucional do Estado, passando por
circunstâncias como as que tornam possíveis comentários casuais que
desconhecidos fazem um para o outro na rua sobre diversos assuntos cotidianos.
Em conseqüência, esfera tem um caráter mais amplo do que definições de
instituição que se restringem àquilo que o Estado inclui em seu aparato. Para o
Círculo, o simples fato do encontro casual de duas pessoas já é um evento
institucional, uma relação social e histórica que envolve toda a sociedade, do
ponto de vista de seus diferentes recortes possíveis num dado momento histórico.
A relação entre duas pessoas traz à cena a soma total das relações sociais
dessas pessoas, envolvendo no mínimo um espectro que vai da família ao Estado.
Isso ocorre porque a sociedade não pode existir independentemente das relações
entre os sujeitos que dela fazem parte: são precisamente essas relações que a
constituem, seja qual for o ambiente e o grau específico de “formalização” desse
ambiente.
O intercâmbio verbal, a interação, constitui o espaço próprio do vir-a-ser do
sentido, inclusive quando os discursos aí surgidos se cristalizam em formas fixas,
padronizadas. Os gêneros que se originam nas esferas cotidianas são os gêneros
primários, modalidades menos complexas, advindos de interações verbais
espontâneas, quer dizer, não elaboradas no ambiente da cultura letrada. Deles
derivam, nas esferas culturais letradas, os “gêneros secundários”, modalidades
mais complexas, principalmente escritas; os gêneros secundários absorvem e
transmutam os gêneros primários, que perdem no processo sua relação direta
com a interação imediata e com os enunciados alheios (Op. cit., p. 281), sem que
por isso deixem de trazer suas marcas. Os gêneros secundários partilham com os
primários não só a estabilidade como o dinamismo: cada esfera de atividade —
que não é determinada nem fixada por nenhum agente individualizável, mas vem
a existir no âmbito da arena de vozes que é a sociedade, mergulhada na história
— desenvolve continuamente suas próprias modalidades de uso da língua,
sujeitas a permanentes alterações, embates, apropriações, justaposições, etc.
A perspectiva bakhtiniana sobre os gêneros leva portanto em consideração
tanto a relação entre os gêneros primários e os secundários como, o que tem
grande relevância, os processos históricos de composição dos gêneros,
principalmente os secundários, o que engloba tanto sua derivação a partir dos
primários como a interrelação, assimilativa e polêmica, entre gêneros, os gêneros
híbridos e intercalados etc., que têm relação direta com os embates travados entre
gêneros em suas esferas de produção, recepção e circulação. Trata-se pois de
uma perspectiva bem mais ampla do que as das tipologias textuais, que o mais
das vezes fixam-se em aspectos lingüísticos e textuais, isto é, aspectos materiais
e composicionais, não alcançando portanto o plano da arquitetônica, nem, por
conseguinte, o intercâmbio verbal, com sua “normatividade em constante
mudança” (!), com seu agir avaliativo como o “cimento” que une a materialidade
lingüístico-textual às possibilidades ideológicas de sentido do discurso. A teoria
dos gêneros recusa também isomorfismos do tipo “à situação x, corresponde(m)
o(s) texto(s) x, y...”), pois o discurso, partindo de uma dada situação, também cria
essa situação, e se configura como uma transfiguração do mundo concreto. Não
se entenda contudo que o estudo das tipologias textuais não tenha relevância do
ponto de vista bakhtiniano: desde que se não se pretenda estudo da totalidade
discursiva, esse estudo traz relevantes informações acerca de aspectos do
discurso e portanto dos gêneros, dado que não há texto nem discurso que não
seja parte de um gênero.
Cabe mencionar a hibridização e a intercalação de gêneros. As construções
híbridas caracterizam-se pela junção de duas linguagens, separadas social e/ou
historicamente, no âmbito de um mesmo enunciado; trata-se de um procedimento
para representar a linguagem de outrem, em vez de simplesmente dar uma
amostra dela, e as duas linguagens representadas são postas em confronto a
partir de um dado ponto de vista, o do autor/locutor. Há aí não só duas vozes e
duas acentuações como também duas linguagens, ou seja, duas consciências
sociolingüísticas individualizadas, em confronto e, ao mesmo tempo, fundidas num
único enunciado. Logo, não há aí uma apropriação do discurso do outro, mas a
representação tensa de dois pontos de vista; as duas linguagens englobadas no
enunciado não estão em relação de apropriação ou de subsunção.
Esse procedimento, denominado híbrido intencional, difere do híbrido
orgânico, que é um dos principais processos centrífugos que intervêm na
mudança lingüística em geral, sendo marcado por uma mistura “densa e sombria”,
isto é, impessoalizada e fora de controle de todo sujeito. Esse elemento, ao lado
de outros, torna infrutífera toda tentativa de legislar sobre a língua, que afinal não
é apreendida nas gramáticas e dicionários, mas na vida concreta de todos os dias,
no contato com os enunciados alheios, no confronto com as diferentes
perspectivas que marcam os enunciados produzidos.
Os gêneros intercalados são uma das principais formas de introdução do
plurilingüismo ou heteroglossia no romance. Trata-se do recurso a gêneros os
mais diversos no âmbito da arquitetônica de um dado gênero; esses gêneros
mantêm sua estrutura, sua autonomia e suas idiossincrasias lingüísticas e
estilísticas, o que é mais nítido no caso da prosa romanesca. Embora não haja
uma atividade de apropriação, mas de “apresentação”, seja quando os gêneros
intercalados são mostrados como objeto pelo discurso ou representados
claramente do ponto de vista do autor, essa apresentação é uma forma de
reprodução do discurso do outro que reacentua esse discurso, podendo mesmo
haver um perceptível confronto entre o gênero intercalado e a “direção” do sentido
da obra. Por outro lado, alguns dos gêneros intercalados chegam mesmo a
determinar a própria forma do gênero que os intercala; no caso do romance, é
esse o caso da confissão, do relato de viagens etc., criado uma curiosa situação
ao estilo “caixa chinesa”. Mas é preciso dizer que, em todos os casos, é no todo
do discurso que se deve buscar o tom avaliativo que lhe confere sua
especificidade.
Propusemos 11 os conceitos de “intergenericidade” e de “fase parasitária”
para tratar da questão da formação de gêneros. Intergenericidade designa o
caráter constitutivo dos gêneros em circulação com respeito a gêneros
elaborados/em elaboração, envolvendo igualmente as próprias relações temporais
e espaciais entre culturas e Zeitgeisten (espíritos de época), ou seja, as maneiras
pelas quais os gêneros se interconstituem na sociedade e na história por meio do
conjunto dos discursos e textualidades. Com esse conceito, busca-se dar conta
da atividade dos gêneros como espaço em que tradição e inovação se relacionam
ativa e constantemente. Fase parasitária refere-se aos procedimentos de
assimilação e refutação de gêneros por outros gêneros, que são formas de
apropriação ativa e criativa dos gêneros alheios. Essa fase constitui uma maneira
por assim dizer antropofágica, extremamente ativa, de ocupar o espaço discursivo
dos gêneros parasitados, ou criar um espaço discursivo paralelo, alternativo, que
envolve esforços de alteração ou de redefinição da esfera de produção, recepção
e circulação, ou então de criação de uma esfera paralela/agregada, em todos os
casos num esforço de afirmação.
A hipótese apresentada é a de que é provável que todo gênero, em seu
processo de formação, ao buscar antecipar-se a dificuldades que mais tarde vai
enfrentar para sua consolidação, passe por uma fase “parasitária”, na qual,
incorporando certos gêneros a partir dos quais se forma, e recusando outros
gêneros que também lhe servem de base, parece hesitante e frágil precisamente
porque, ao criar para si uma estrutura de superfície fechada, um arcabouço de
afirmações indiscutíveis que revela o medo da recusa e a falta de condições de
enfrentá-la caso ocorra, tem uma existência indefinida, ambivalente, sem definição
“genérica”. Nessa fase, o gênero mantém-se numa permanente tensão interior, de
modo implícito ou explícito, em maior ou menor grau, e não refuta diretamente os
gêneros a que se opõe, nem se comprometem diretamente com aqueles que
buscam incorporar para seus fins específicos.

11
“Intergenericidade” não tem relação com a “auto-narration” e o “inter-genre” de Rajan (1998),
nem com a “ficção auto-reflexiva” de Andrew (2004), e de Halmari e Virtani (2004), ou com a
“genericidade” interna de Schaeffer (1986). Trata-se de um conceito fundado numa exploração das
propostas do Círculo; Cf. SOBRAL, 2006.
O que define a noção de “fase parasitária” é portanto o fato de as próprias
formas composicionais, de validação das relações interlocutivas, e em alguns
casos, de textualização etc. e o tipo de recepção e circulação que o gênero em
formação procura assegurar exibirem tal esforço de escamoteamento da presença
tensa dos gêneros apropriados, por assimilação ou rejeição, que tornam patente a
ambivalência de suas propostas de libertação dos sujeitos das profissões de
ajuda, da “hetero-ajuda”, esfera ampla dos gêneros parasitados. Por paradoxal
que pareça, esse procedimento torna os discursos assimilados/contestados ainda
mais presentes no gênero parasitário identificado, o que prova de outro ângulo
uma tese bakhtiniana acerca da polêmica oculta, e parece revelar que a formação
de gêneros, embora ocorra o tempo inteiro, é melhor percebida no tempo longo: a
irrupção, consolidação, morte etc. identificável de gêneros seria assim o ponto
culminante de um processo, não o próprio processo, que de certo modo é
“invisível”.

GÊNERO PRIMEIRO X GÊNERO SEGUNDO

Para tornar clara a questão da formação de gêneros, discorremos agora,


brevemente, sobre a formação de um dado gênero, o da publicidade de livros
numa revista de cultura. Como surgem por vezes formas de gênero que são parte
instituída e “instituinte” de gêneros surgidos no âmbito de outros gêneros, e de
suas respectivas esferas, e exibem características distintas das formas de
discurso habituais desses gêneros e esferas, usamos (SOBRAL, 2006) a
designação “gêneros segundos” para explicar esse fato, o que implica,
naturalmente, a noção conexa de “esferas segundas”. “Primeiro” e “segundo” são
qualificativos que não implicam hierarquização, mas anterioridade.
A “publicidade de livros” passou a existir na Revista do Brasil, um célebre
periódico de cultura paulista, numa época de transição na qual o objeto livro,
graças aos esforços de Monteiro Lobato, deixava de ser visto apenas como
veículo da cultura dirigido às elites ilustradas e passava a ser também um produto
material propriamente dito a ser vendido como tal a um público mais amplo.
Tratou-se assim de uma ampliação da categorização do objeto livro a partir de um
novo contexto no qual este se viu inserido. Essa publicidade como gênero
segundo surgiu assim por ter surgido ao mesmo tempo a “esfera segunda” em que
o objeto livro passou a ter sentido também como produto material.
Em outras palavras, o surgimento desse gênero segundo não se reduziu ao
surgimento de uma textualização chamada “publicidade de livros”, no âmbito de
um dado gênero primeiro, porque não há uma relação direta entre uma dada
textualização e uma dada relação enunciativa específica: várias textualizações
podem ser usadas para fazer a publicidade de livros. O aspecto vital da questão é
o surgimento de uma esfera de atividades distinta, o que fez da publicidade de
livros uma forma de interlocução e, portanto, um gênero por direito próprio. Esse
gênero mais tarde se fez presente em outros veículos, com diferentes
textualizações, mantendo-se contudo a relação interlocutiva ou o dispositivo de
interlocução, mediada pelo “objeto livro”, que a constitui em gênero tal como o
conceito é entendido nas obras do Círculo de Bakhtin.
A importância dessa consideração reside no fato de que os gêneros
nascem de uma dada inserção socioistórica de discursividades, ou conjuntos de
discursos, de sua relação com outros gêneros da mesma ou de outras
discursividades, por oposição ou assimilação, diretas ou indiretas. Num dado
momento histórico, isso leva ao surgimento de gêneros segundos, que só podem
ser considerados gêneros, e não apenas textualizações, quando alguma esfera
segunda advém do âmbito de uma dada esfera primeira, isto é, os gêneros se
formam e se autonomizam na medida em que suas esferas respectivas deixam de
ser segundas e se tornam primeiras. Assim, gêneros segundos são gêneros que
surgem no âmbito de outros gêneros e que só assumem feição própria, e mais
tarde autonomia, porque seu surgimento ocorre simultaneamente à instituição de
esferas segundas, que se tornam autônomas, a não ser que desapareçam – o que
por vezes acontece. Portanto, sem esferas, primeiras ou segundas, não surgem
gêneros, mas textualidades/textualizações/formas textuais, que são, tanto quanto
as discursividades, parte do gênero no sentido aqui entendido – um recorte
ideológico-discursivo do mundo,manifesto em discursividades socioistoricamente
inseridas, que mobiliza certos recursos lingüístico-discursivos.
Cremos poder então concluir que o gênero se define como certas formas ou
tipos relativamente estáveis de enunciados/discursos que têm uma lógica própria,
uma lógica de caráter concreto, não sendo assim sistemas fechados, mas recortes
sócio-ideológicos do mundo no âmbito dos enunciados. Os gêneros recorrem a
certos tipos de textualização (tipos de frases e de organizações frasais), que em
alguns casos passam a ser mobilizadas costumeiramente pelos enunciados e
discursos de certos gêneros. Contudo, não há uma relação necessária entre
gênero e textualizações estáveis (frases e organizações frasais que sempre se
repitam), pois os gêneros são tipos ou formas de enunciados, não se reduzindo,
portanto, nem à forma, nem ao conteúdo, nem ao material.
Repetimos que, ao longo do tempo, há uma cristalização dos gêneros em
termos de certas formas de textualização, mas isso ocorre sem fixidez, porque os
gêneros se acham em constante mudança — em diferentes ritmos, a depender do
gênero: um memorando é mais estável do que um blog, dado que a dinamicidade
de suas respectivas esferas é distinta. Assim, o que confere aos gêneros sua
dinâmica é a dinâmica de suas esferas de produção, circulação e recepção, em
vez de alguma característica lingüístico-textual intrínseca, o que torna
desnecessário buscar “teorias da prática” fora do campo do Círculo, ainda que não
se devam desprezar exteriores teóricos úteis, mas usá-los, como fiz com certas
teses de Maingueneau e de Greimas, para dar conta de algo que de fato não é
tratado pelo Círculo (SOBRAL, 2006). Destacamos por fim que o Círculo não
nega que as fórmulas sejam gêneros; ele apenas diz que nem todos os gêneros
são fórmulas, embora sejam formas normativas; é que, no mundo humano, apesar
dos positivistas, o normativo também muda no tempo e no espaço!
Em resumo:

1. O gênero mobiliza formas textuais, mediante o discurso, mas não é


mobilizado por elas, que são apenas seu aspecto material.
2. O discurso é o espaço em que são mobilizadas as textualidades de
acordo com o gênero a que pertence o discurso.
3. As formas textuais apontam para o(s) gênero(s) que as mobilizam
costumeiramente e, por isso, ao escolher um gênero, costuma-se evocar
a(s) forma(s) textual(ais) típica(s) desse gênero, ou seja, as formas que
uma tradição genérica tornou mais comumente mobilizadas.
4. A escolha do gênero dos discursos depende da relação específica
entre os interlocutores nos termos da esfera de atividades.
5. A inserção genérica do discurso determina a escolha da forma textual,
(e, mais do que isso, das próprias palavras), que, por conseguinte, pode
variar no interior de um mesmo gênero sem por isso alterá-lo
substancialmente, dado que é o gênero e o discurso que lhes atribui
sentido.
Capítulo 9
Uma Possível Análise

Esperamos ter mostrado ao longo do livro a abrangência da concepção


dialógica, do ponto de vista teórico-filosófico, bem como as possibilidades
analíticas do conceito de gênero discursivo do Círculo de Bakhtin. Como vimos, o
conceito de gênero discursivo, por sua amplitude e produtividade, engloba a
textualidade e a discursividade, tornando praticamente sem sentido a designação
gênero textual, dado que, se um texto só adquire sentido no âmbito de um gênero,
e se todo gênero mobiliza discursos, um gênero textual, caso se justificasse que
uma tal designação fosse tomada como conceito, cobriria apenas o aspecto de
significação, mas não o do sentido; cobriria o aspecto composicional, mas não o
arquitetônico.
Isso mostra que um texto, tomado fora de sua discursividade e de sua
genericidade (o que já per se uma contradição), oferece apenas uma série de
formas da língua articuladas materialmente, em contigüidade, mas não em termos
semióticos, em termos de sentido, em constitutividade. Porque o sentido do texto
não está dado em sua superfície, embora sem esta não exista, nascendo de sua
mobilização por um discurso, estando este sempre interpelado por um gênero.
Assim, diante de um texto, devemos, parodiando a velha máxima cherchez la
femme, procurar o gênero! Nesses termos, o título deste capítulo é um tanto
incômodo porque remete parcialmente a uma inexistência: uma “possível análise”.
Mas esta inexistência, seguindo o Círculo de Bakhtin, vai – na arena de vozes –
aliar-se ao novo, contrariar o velho, perfilar-se com os pensamentos dos que
procuram pensar uma análise discursiva proveitosa seguindo primordialmente os
conceitos do Círculo de Bakhtin. 12
Como vemos, nessa perspectiva, sequer é possível começar um discurso
analítico sem resvalar de imediato ao núcleo da teoria. Digamos que esse núcleo
é tudo na linguagem, é o elemento constitutivo desta. O individual nunca existe por
si, mas desliza inexoravelmente para a relação dialógica, para o que de fato existe
em termos práticos na vida cotidiana em todos os seus aspectos. O tempo não
deixa de comparecer de modo essencial. Quando fala em embate de vozes, o
Círculo de Bakhtin não deixa nenhuma fonte de engano: trata-se de vozes
presentes, passadas e futuras, e o seu entrecruzamento. Parece o mundo inteiro.
Vamos fazê-lo didaticamente parcial, mas nunca tendencioso. Recusamos a idéia
de “a” análise, preferindo “uma” análise, entendida como um “possível” entre
outros possíveis. Ainda mais porque o “método” do Círculo de Bakhtin consiste
não em “aplicar” teorias a fenômenos, mas abordar fenômenos mediante uma
dada concepção teórica, e, respeitando os termos desses fenômenos, constituí-los
em objetos a ser analisados. Como diz Brait, é preciso ver o que o objeto de
análise requer e não impor-lhe instrumentos.
Nosso objetivo é mostrar, por meio da análise, precisamente que todo texto
é mobilizado por um dado discurso e que este é interpelado sempre por algum

12
Agradeço a minha companheira conjugal-teórica, Maria Stela Gonçalves, a sugestão da
formulação desse parágrafo, bem como pelo olhar crítico-analítico que lançou sobre a análise
como um todo.
gênero e que por isso o texto só faz sentido se articulado à sua inserção
discursiva e genérica. O que vamos mostrar busca articular a definição de gênero
em sua vertente mais completa, a de Medvedev, considerando ainda,
naturalmente, as propostas de Voloshinov e as análises e propostas de Bakhtin.
Por razões metodológicas (porque não nos sentimos autorizados a, nem
competentes para, uma análise tal como as feitas pelo Círculo), a análise segue a
seqüência descrição - análise – interpretação proposta (s.d.) e magistralmente
usada por Brait (várias datas) e que descrevi com detalhes, adaptando-a, em
Sobral (2006; esp. p. 49-55), com a gentil permissão de sua autora. Vamos assim
analisar, a título de exemplo, a capa de um livro de auto-ajuda trabalhada com
outros objetivos e de maneira distinta por Sobral (2006). 13
Dividimos didaticamente a análise de acordo com essas etapas, mas não
pretendemos com isso propor que se façam análises não ilustrativas usando
essas divisões. Grosso modo, não há propriamente uma divisão, exceto se a
pensarmos como recurso de “demonstração” do percurso de abordagem do
objeto, mas antes ênfases distintas: a descrição busca ater-se à materialidade per
se da capa do ponto de vista de um levantamento dos componentes dessa
materialidade; a análise busca, a partir dessa descrição, arrolar dados do ponto de
vista das “dominantes” discursivas, ou seja, os elementos da materialidade que
são privilegiados no projeto enunciativo dos textos; e a interpretação busca reunir
todos esses dados, com destaque para os vários elementos contextuais que a
capa autoriza — do ponto de vista da concepção teórica — a fim de dar uma idéia
da relação entre o projeto enunciativo, as modulações do projeto enunciativo ao
longo de sua realização e o “produto” final. Quando falamos em “autoriza”,
referimo-nos ao fato de a dimensão intradiscursiva da capas — e de todo discurso
— remeter a certas realidades extradiscursivas de que parte e nas quais é
produzida — o “cenário” do evento de sua produção —, mas não a outras. Em
suma, só as realidades extradiscursivas que são “intradiscursivizadas”, tornadas
partes do todo do discurso, podem ser mobilizadas legitimamente pelo analista.
Do contrário, pode-se aplicar uma camisa-de-força ao objeto e deixar de vê-lo
quer em sua especificidade ou naquilo que ele compartilha com outros objetos.
Não vamos fazer um tratamento exaustivo da capa, mas é preciso alertar
para o fato de que não se propõe aqui uma análise de uma capa per se, mas
enquanto capa de um livro, e de um certo tipo de livro, o de uma vertente de auto-
ajuda. O estudo original envolveu uma série de operações cujos resultados serão
descritos sumariamente aqui para dar uma idéia dos procedimentos e elementos
que foram considerados. Para isso, apresentamos parte do que foi amplamente
desenvolvido em Sobral 2006.
O corpus original é formado por 4 livros de uma vertente de livros de auto-
ajuda, e leva em conta inúmeros outros livros, de várias épocas cronológicas, que
se destacaram na história do gênero, publicados principalmente nos EUA, vários
deles traduzidos no Brasil. O objetivo original foi o estudo qualitativo da construção
discursivo-genérica desses textos enquanto gênero em formação, em sua fase
“parasitária”. Naturalmente, esses textos em português no Brasil não podem ser
tomados, por maior que seja a “fidelidade” da tradução, como se fossem os textos

13
Para uma versão da análise, com outros objetivos, cf. SOBRAL, 2008b.
em inglês que circulam nos Estados Unidos/no Reino Unido e no resto do mundo.
Isso impôs levar em consideração sua produção, circulação e recepção em
português do/no Brasil, sem contudo desconsiderar que o foco do estudo original
foi determinar a origem e desenvolvimento das características dos livros de auto-
ajuda e destacar sua importância e/ou popularidade em todo o mundo do ponto de
vista da formação dos gêneros, o que fez o estudo original aproximar-se de uma
semiótica da cultura que no entanto não foi desenvolvida ali.
Os quatro livros privilegiados no estudo original constituem o corpus
justamente por serem representativos das principais tendências atuais dos textos
de auto-ajuda de cunho “psico-espiritual”, ou seja, que buscam a alteração ou o
aprimoramento do eu a partir de propostas de cunho espiritual. A escolha,
portanto, não se restringe a critérios meramente estatísticos, mas da ordem da
relevância: o estudo revelou quais eram as “tendências atuais”, marcando “atuais”
um dado período de tempo. Os livros em questão foram traduzidos do inglês
americano, com exceção de A Força da Paz Interior (COOPER, 1994; Ed. Bras.:
1997), da Inglaterra, e escolhido para fins da identificação de possíveis contrastes.
Os livros especificamente estudados podem ser descritos da seguinte
forma: há um de raízes temporalmente mais antigas e que incorpora uma dada
versão norte-americana do espiritismo, adaptada aos modernos princípios da
“Nova Era”, mais compatível com a idéia, nova para o espiritismo tradicional, de
auto-ajuda: é o caso de O Crescimento Através da Crise Pessoal (BRO e BRO,
1988. Ed. Bras.: 1992). Outro, essencialmente moderno, vincula-se com uma
ressignificação particularíssima da ciência moderna (especialmente da física
quântica, e de diversas psicologias e espiritualidades ora em circulação) nos
termos da “Nova Era” e que se sustenta de modo geral na autoridade científica do
autor, cuja condição de “Ph.D.” (assim mesmo!) é explicitada. Trata-se de um
dado bastante comum em vários dos livros do gênero (e de modo particular na
vertente de aconselhamento, que exibe a meu ver especificidades que a
distinguem da de auto-ajuda propriamente dita). Essa modalidade é representada
por Na Plenitude da Alma (BORYSENKO, 1993. Ed. Bras.: 1996).
Outro livro, igualmente moderno, funda-se em habilidades e experiências
extra-sensoriais, competência hoje mais aceitável no nível do grande público, e
que exibe inúmeras variedades: A Força da Paz Interior (COOPER, 1994. Ed.
Bras.: 1997); esta obra vem, como se disse, do inglês britânico, mas há muitos
livros norte-americanos que também se fundam nessas habilidades e
experiências. Há também Um livro, fruto dileto da “Nova Era”, que apresenta
textos que se qualificam mais declaradamente a partir da experiência prática dos
autores, em geral agentes de cura (em particular não institucionais). A autora
específica estudada norteia sua prática de cura pela força do amor, reinterpretado
à luz dos princípios da “Nova Era”: Crise Espiritual (YOUNG-SOWERS, 1993 [Ed.
Bras.: 1995).
Foi feito no estudo original um levantamento dos tipos de títulos disponíveis
na última década e no período 1973-1996. Distinguiram-se as seguintes
tendências, bastante disseminadas nos Estados Unidos, e que também se fazem
presentes no Brasil:
a) livros dirigidos principalmente ao público por eles entendido como
feminino no que se pretende que tem de específico em termos de cuidado
dos filhos etc. (ainda hoje);
b) livros dirigidos ao público entendido como masculino, nos mesmos
termos, centrados na questão da obtenção de melhor desempenho
profissional, sucesso etc. (ainda hoje);
c) os chamados, nos EUA, how to books [como fazer], que não se dirigem
a um público específico, e são manuais práticos que ensinam de como
comprar camisas a como consertar naves espaciais etc.;
d) livros de aconselhamento, em que conselheiros (nos EUA, categoria
genérica de “terapeutas”, que vai de psicólogos a pastores) de várias
tendências transmitem suas conclusões sobre terapias com seus
“pacientes”; e
e) livros de auto-ajuda “propriamente ditos”, marcados pelo simulacro de
veículos de apresentação de experiências pessoais de vários tipos que
constituem a base de diversas propostas de “cura da vida” dos leitores.

Assim, a análise de certo tipo de livros implicou um levantamento de vários


livros publicados em vários momentos, sua contextualização, suas inter-relações e
mesmo o levantamento algumas reações de vários segmentos sociais a esse tipo
de livros. Logo, não se analisaram capas como objetos autárquicos, mas como
componentes de objetos mais amplos, os livros, parte de um dado universo
genérico que foi definido. A análise apresentada aqui não enfoca diretamente as
contracapas (que, junto com as capas, constituem a “face exterior” dos livros),
nem os livros de que são capas, as correlações entre o “miolo” dos livros e a capa-
contracapa ou as correlações entre os vários livros e a esfera de atividades etc. —
embora tudo isso tenha sido considerado na “montagem” dessa exemplificação.
Analisar as capas per se seria um contra-senso, a própria negação do valor
de uma análise “com os olhos do gênero”, a recusa do valor de uma análise
segundo os princípios do Círculo. Não que analisar a forma textual capa seja
ilegítimo, mas uma análise em termos de gênero não pode desconsiderar o fato de
que, para o Círculo, gênero é mais do que discurso e mais do que texto, e que,
portanto, analisar só um dos aspectos do fenômeno como se fosse seu todo é
incorrer mais uma vez numa parcialidade imperdoável.
Passemos então à análise ilustrativa.

A CAPA DE CRISE ESPIRITUAL


_
1. Uma descrição

Crise Espiritual, livro traduzido do inglês (Spiritual Crisis – What’s Really Behind
Loss, Disease and Life’s Major Hurts) é de fácil manuseio: pouco maior que um livro de
bolso, tem 14 centímetros de largura por 21 de altura – um tamanho médio na esfera
editorial.
A capa da edição brasileira de que nos ocupamos mostra um fundo de cor púrpura a
que se sobrepõe uma forma que poderíamos descrever como redonda, alongada – algo
como um vaso, um recipiente –, que começa no alto da capa e que ocupa quase todo o
espaço desta. Essa forma é de cor azul escura, quase roxa.
Começa no alto da capa e ocupa quase todo o espaço desta. Contém o nome da
autora (caixa alta e baixa em itálico, na cor branca) – Meredith L. Young-Sowers –, o título
do livro, em grandes letras amarelas maiúsculas – CRISE ESPIRITUAL – e o subtítulo
(caixa alta e baixa, letras centralizadas quase na base da forma alongada azul-roxa, em
três linhas, letras brancas menores):

O verdadeiro significado
das perdas, das enfermidades
e dos sofrimentos da vida

O nome da editora vem a seguir, em letras, amarelas, minúsculas, com exceção da


inicial “C”, de “Cultrix”.

Na parte púrpura há, ao redor do local em que se acham os trechos de texto – que
estão centralizados –, uma moldura fina de cor branca, com o lado superior aberto; na
parte inferior, ela traz um corte, no centro, onde se encontra o nome da editora. Essa
moldura ocupa assim as partes inferior, esquerda e direita da capa, no interior do fundo
púrpura. Temos portanto uma capa cujo fundo traz cores do mesmo campo cromático.
Alguns centímetros abaixo da parte azul-roxa, centralizado, em letras amarelas
minúsculas, aparece um texto de cinco linhas, quatro de comprimento simétrico e a quinta
centralizada em relação a estas últimas. O texto diz o seguinte:

Nossa habilidade para curar a nós mesmos


depende do nosso equilíbrio espiritual e
do modo como usamos o amor para vencer
nossos desafios. O amor é mais que uma
emoção: é a energia que cura.

Um pouco abaixo desse trecho vem o nome da editora, cuja disposição já foi
descrita; as letras, amarelas como o texto acima mostrado, são igualmente minúsculas,
com exceção da inicial “C”, de “Cultrix”.
Uma informação relevante, mas que não índice diretamente na análise é que a
capa do original em inglês tem fundo claro, traz o título em letras garrafais, seguido em
ordem descendente pelo subtítulo e pelo nome da autora. Apresenta uma estilização da
parte central de um famoso fragmento do painel do teto da Capela Sistina, “A Criação do
Homem” (1511-12), de Michelangelo. Não traz nenhum trecho descritivo. Esse dado é
relevante na medida em que indica que o “mesmo” livro se apresenta a diferentes
públicos leitores de maneira distinta, revelando distintas relações enunciativas vinculadas
a fatores sócio-histórico-culturais.
A capa brasileira mostra, em seqüência descendente, o nome da autora, em itálico,
e na cor branca; o título, em letras cerca de cinco vezes maiores que as dos outros
segmentos textuais, e em amarelo – “crise” está sobre “espiritual”; o subtítulo, em branco
e itálico, compõe-se de três linhas, a saber, “O verdadeiro significado”, “das perdas, das
enfermidades” e “e dos sofrimentos da vida”, o que mantém a simetria entre as linhas.
Quanto ao texto inserido na parte púrpura da capa, já o mostramos em sua formação
original: quatro linhas de comprimento simétrico e a quinta centralizada.
Em termos da capa como um todo, os vários componentes ocupam o centro da
página e o foco da visão, o que é parte da cenografia cristalizada de capas de livros. Essa
cenografia apresenta como elementos fixos o nome do autor, de modo geral na parte
superior da capa; o título do livro, e; o nome da editora na parte inferior. A centralização
dos segmentos textuais é a disposição costumeira. O subtítulo e eventuais trechos
descritivos do livro ou transcritos deste são, na prática brasileira, opcionais, mesmo
quando o livro traz um subtítulo.
O trecho que aparece na parte inferior da capa parece constituir, em nível de
descrição, algo como um segmento-síntese do livro como um todo, formando, ao lado do
título e do subtítulo, a unidade maior capa no que se refere à parte “explicativa” do texto
verbal.

2. Uma análise
Rica em elementos passíveis de análise e interpretação, a capa de Crise Espiritual
já nos apresenta num primeiro nível a questão das cores. Como dissemos, a capa da
edição brasileira exibe um fundo de cor púrpura a que poderíamos acrescentar,
analisando, o adjetivo cardinalícia, algo que a literatura mística associa à religião – bispos,
cardeais –, ao mistério (a indistinção do púrpura), dois fortes componentes a merecer uma
análise, tanto mais porque à cor púrpura é acrescentada a referida cor azul-roxa da forma
ovalada também presente na capa. Esta última cor, ou, mais precisamente, essa nuança
cromática, parece intensificar o sentido religioso abrangente, espelhado em nosso
material de análise.
O azul escuro, quase roxo, é um matiz cromático que a literatura mística associa ao
campo semântico do misterioso, do sacrifício santificado, em suma, uma cor de intensas
conotações religiosas. Talvez possamos acrescentar a isso a questão da forma do
desenho em que o azul-roxo aparece na capa: ele lembra um recipiente com a boca
voltada para cima, o que remete, por um lado, à tradição do Graal (ainda que o “cálice” se
mostre no caso desprovido de uma base) e, por outro, à alquimia, em que os elementos
químicos são misturados num cadinho (embora a superfície inferior do recipiente contido
na capa não lhe permita ficar “de pé” como um cadinho). Até este ponto, podemos dizer
que o conjunto desses elementos remete portanto à esfera do misticismo, se assim se
pode dizer.
A capa já nos apresenta num primeiro nível a questão das cores, um fundo de cor
púrpura a que poderíamos acrescentar, analisando, o adjetivo cardinalícia, algo que a
literatura mística associa à religião – bispos, cardeais –, ou ao mistério (a indistinção
dopúrpura); à cor púrpura é acrescentada a cor azul-roxa da forma ovalada. Essa nuança
cromática parece intensificar o sentido “religioso” abrangente, espelhado em nosso
material de análise. Quanto à forma do “desenho” que o azul-roxo forma, ele lembra um
recipiente com a boca voltada para cima, o que remete, por um lado, à tradição do Graal
e, por outro, à alquimia, em que os elementos químicos são misturados num cadinho É
útil ressaltar que a alusão cromática a textos esotéricos etc., da edição em português, se
associa igualmente ao fato de a casa editorial Pensamento publicar livros esotéricos há
vários anos.
Observamos aqui múltiplas significâncias. Num primeiro momento, vemos já na
presença da cor púrpura cardinalícia uma primeira interpelação enunciativa, um “contrato
fiduciário”, ao público a que se dirige o livro e, portanto, uma indicação da “esfera”: só
“conhecedores” poderiam identificar a alusão ao religioso, ao misterioso efetuada por
essa cor, por sua indistinção. Notemos esse primeiro recorte relativo ao “auditório”, ao
“interlocutor”, produtor de sentido.
Mencionamos na parte descritiva que a forma ovalada azul-roxa lembra, entre
outras coisas, um cálice (embora desprovido de base) e que remete tanto à tradição do
Graal como à alquimia. O conjunto desses elementos remete portanto à esfera do
misticismo, se assim se pode dizer, o que nos induz a buscar novos aspectos dessa
possibilidade de análise.
Se tomamos, por exemplo, o texto em letras amarelas na parte inferior da capa,
observamos que é apresentado com uma inversão dos períodos que o compõem na
contracapa, criando outros efeitos de sentido: na contracapa, ao contrário da capa, esse
trecho traz o período “O amor... cura” antes do outro período (“Nossa... desafios”).
Verifica-se na capa uma estrutura textual que parece voltada para refutar por antecipação,
de modo reforçado no segmento final, mas já no subtítulo, eventuais restrições feitas à
proposta básica do livro quando do contato inicial do interlocutor, na condição de possível
comprador do livro, com a capa. Num exame que se pretende minucioso, mas não
exaustivo, faço as considerações a seguir.
O título apresenta um estado presumido como negativo – “crise” –, modulado pelo
atributo “espiritual”, o que cria o âmbito de uma crise específica, e não de qualquer crise.
À guisa de explicação do “diagnóstico” feito, vem o segmento formado pelo subtítulo, no
qual se destaca a modulação do seu principal elemento, “significado”, pelo atributo
“verdadeiro”, e que incide sobre outros elementos negativos mais definidos do que “crise”:
perdas, enfermidades, sofrimentos da vida, o que une o material ao espiritual.
Observa-se que esses elementos são apresentados, por meio de “da vida”, como
típicos, comuns, corriqueiros. Vemos no subtítulo o primeiro movimento de uma refutação
de objeções: se eventualmente discorda do diagnóstico – a existência de uma “crise” de
cunho “espiritual” e não de outra natureza –, o interlocutor o faz, pelo que o texto permite
dizer, porque não conhece o “verdadeiro” significado dos “sintomas”, o que presume que,
se eles tiverem mais de um significado, só o apresentado pelo locutor é verdadeiro.
Temos aí uma entoação avaliativa inter-incompreensiva das bases da proposição do
contrato fiduciário.
Os “sintomas” da crise vêm a seguir. Os locutores (o enunciador é a editora, mas
são locutores a editora e a autora) afirmam no título que há uma situação negativa de um
dado tipo e explicam essa sua asserção por meio do subtítulo, que refuta eventuais
objeções ao ser modulado em determinada direção, a da existência de um “significado
verdadeiro” para certos presumidos, conhecidos pelo locutor, mas que o interlocutor pode
não conhecer com o mesmo sentido que o locutor propõe, o que motiva a explicação da
parte da “autoridade” que é o locutor. O uso de “verdadeiro” como recurso de contestação
é bastante comum em discursos que têm por objeto questões polêmicas ou que abordam
assuntos de maneira polêmica, como é o caso deste, o que é claramente comprovado no
segmento adicional.
Uma análise interpretativa mostra que a proposição do “amor” como “energia de
cura”, tendo em vista a concepção típica do amor no mundo ocidental, propõe uma
entoação avaliativa específica que requer explicação, defesa etc., não do ponto de vista
do texto, mas do discurso e do gênero, o que está centrado no tipo de relação
interlocutiva proposta: o locutor se diz alguém capaz de transmitir um saber e uma
competência, a autocura, a partir de determinados elementos e procedimentos.
A unidade temática do gênero, que gira em torno do valor “autocura”, está vinculada
com o tópico “o amor como energia de cura”, algo que se opõe a um dado presumido
(relativo ao amor e à cura, e, mais do que isso, à sua junção nos termos desse discurso),
e requer o uso de uma expressão compatível, no caso “Crise Espiritual”, para dar sentido
a essa proposta. O “valor” desse título é explicado por um dado segmento textual, no
caso, “O verdadeiro significado das perdas, das enfermidades e dos sofrimentos da vida”.
O que se entende por “verdadeiro significado”? Essa expressão retoma obviamente
“Crise Espiritual” e redefine a “causa” das perdas, das enfermidades e dos sofrimentos da
vida”, o que leva o discurso a opor-se a outras valorações dos elementos mobilizados.
Nesse sentido, o trecho adicional que vem na parte inferior da capa, um recurso presente
a alguns livros, parte opcional da cenografia típica das capas, vem em favor dessa
oposição: ele apresenta os elementos básicos que sustentam a proposta temática, a
autocura, nos termos específicos do tópico do livro cuja discursivização é mobilizada pelo
gênero, o que determina a escolha de uma dada textualização.
No segmento complementar, há o pressuposto de que um “nós” inclusivo (com que
o locutor já inclui o interlocutor no âmbito dos sujeitos dotados de uma dada comunidade
de interpretação, dotada de uma dada competência) que pode curar a si mesmo,
associado ao implícito /precisamos de cura (porque) estamos em crise espiritual/ e que
retoma os referidos “sintomas”. Isso reforça a evocação denegada do discurso médico em
geral (cura) e mesmo do discurso da religião (cura espiritual) e indica que o livro se
pretende propositor de uma terapia, de um remédio, mas que não tem a mesma natureza
dos remédios da medicina, dado ser de cunho espiritual, mas que também não é religioso.
Analisando com fins interpretativos, vemos que, num só movimento, buscam-se
redefinir os presumidos sobre o amor, sobre a doença, sobre a cura, sobre a
espiritualidade e seus benefícios em sua vertente religiosa a fim de propor uma nova
avaliação de tudo isso. Não há menção explícita à medicina nem à religião, mas, para
ficar num indício, “verdadeiro”, modificando “significado”, serve para sugerir que o
diagnóstico e a prescrição médicos e religiosos são falsos!
Fica evidenciado aqui que essa competência, cuja obtenção é apresentada como
meta do interlocutor, é concebida como algo que (apesar do “nós” inclusivo) só será
transmitido integralmente ao sujeito que passar pelas “provas” apresentadas pelo locutor
como necessárias. Observa-se que o locutor se propõe como doador dessa competência,
algo que interfere na composição da contracapa, e que ele propõe ao interlocutor uma
modificação de condição, a passagem de alguém potencialmente capaz de exercer essa
habilidade a alguém que de fato a exerce. O convite fiduciário é reforçado: “junte-se a
nós”, e, portanto, “afaste-se deles”.
Associam-se nesse âmbito alguns valores apresentados como positivos, o que dá
uma inflexão específica ao “diagnóstico”: há uma dada situação negativa que tem
determinados atributos e cuja resolução depende do entendimento do “verdadeiro”
significado de certos elementos e de ações determinadas (ter “equilíbrio espiritual” e “usar
o amor”); o interlocutor pode se tornar capaz de superar essa situação, mas só se adquirir
as competências x e y, que permitem realizar z, que é portanto a condição de
possibilidade dessa superação. Isso prepara o interlocutor para a proposição de um novo
valor, sobreposto àquele que é objeto de uma concessão, e que é vital para a proposição
desse segundo sentido, para “amor”: o de “a energia da cura”, diferente de “emoção”, mas
não oposto a esse sentido, dado que é “mais do que uma emoção” (e aqui uno na análise
genérica elementos do discurso e elementos do texto, numa sobreposição que vai
necessariamente ocorrer).
Retomando interpretativamente a questão do amor, vemos que o sentido atribuído
pelo locutor inclui o que o interlocutor presumivelmente conhece, ao mesmo tempo em
que, nos termos do locutor, o ultrapassa. Ou seja, não se nega o sentido do senso comum
que tem “amor”, mas acrescenta-se a ele um novo atributo. Temos aqui o valor para o
qual convergem todos os segmentos precedentes, e que vai nortear igualmente o
desenrolar do livro. Logo, o modelo médico parece receber aqui uma sutil contestação: a
“doença” é concebida em termos não corporais e não psíquicos. Essa contestação não é
clara – e aqui entram elementos empíricos relativos à esfera de atividades –, devido à
dificuldade de contestar em nossos dias o caráter científico da medicina, além da
necessidade de evitar a aplicação de leis como as que proíbem o abuso da fé e que têm
levado alguns livros de auto-ajuda a fazer afirmações que deixem claro não estarem se
propondo a substituir os tratamentos médicos “tradicionais” da medicina científica. Não
obstante, ainda é a autocura que o livro propõe.
Observa-se que /amor/, tal como definido pelo locutor, se torna o valor no qual se
funda toda essa primeira proposição do contrato fiduciário. O interlocutor vai mais tarde
constituir-se em agente, devendo antes passar por uma transformação da compreensão x
das coisas à compreensão y – desde que aceite o contrato proposto, mediante um
determinado agir: ele deverá aceitar as operações que levam do poder ser e do poder
fazer ao saber fazer e ao poder fazer. Dessa aceitação inicial parece depender todo o
resto – a leitura, a adesão, a transformação: se se qualificar e vencer a prova, o príncipe
receberá a mão da princesa! E, a julgar pela disposição “propositória” dos textos de auto-
ajuda estudados, não lhe faltam adjuvantes...).
A continuação da análise permite-nos ver aqui, num caso específico, os momentos
de preparação de um percurso a ser realizado pelo interlocutor, mas que já o é pelo
discurso examinado, ao menos a julgar pelo que vimos até agora. Isso instaura uma
estrutura composta essencialmente por, digamos, DIAGNÓSTICO, PRESCRIÇÃO e
INSTRUÇÕES DE USO (para a auto-aplicação da prescrição). Não se trata de buscar
apenas a adesão a determinadas teses, mas de levar o interlocutor a agir em termos de
um dado percurso com vistas a alcançar um dado fim, desde logo positivo, oposto a uma
situação presente caracterizada como negativa. Esse tipo de discurso talvez pudesse por
isso ser caracterizado como uma modalidade de discurso programador (cf. Greimas,
1983, p. 157-169): trata-se de descrever os passos que levam, por meio de um dado agir,
da situação x à situação y, caracterizando-se esta última como melhor, a partir de
ingredientes dados e de uma receita de combinação desses ingredientes, chega-se a um
dado “prato”, desde sempre suculento, a ser devorado, desde que aceito o
posicionamento do locutor.
Além disso, como a pesquisa revelou, os métodos clássicos de autocura, como os
da AA [Alcoólicos Anônimos], baseiam-se em “passos” de um dado percurso. O discurso
programador requer de modo geral o tipo de texto “instativo” e é parte de um gênero em
que x detém uma competência a ser transmitida. Esse gênero não pertence
necessariamente a uma dada esfera, e só a ela, mas a todas as esferas nas quais seja
concebível algum tipo de relação assimétrica de transmissão de saber e de competência
que requeiram um agir que vai além do ato cognitivo de compreensão. Logo, é um indício
de que também os gêneros e as esferas não se acham em correlação necessária, apesar
da existência de cristalizações históricas.

3. Uma interpretação

Verifica-se assim, já na capa do livro, uma estruturação discursiva voltada para


refutar por antecipação, de modo reforçado no segmento final, mas já no subtítulo,
eventuais restrições feitas à proposta básica do livro desde o contato inicial do interlocutor
com a capa – o que delimita a posição discursiva do texto. A capa se dirige a partir
desses elementos a um dado segmento do público (sensível a esse apelo), o que constitui
uma “macro-marca” de gênero, ou seja, um dos elementos que definem, no texto, o
gênero.
O interlocutor é preparado para a proposição de um novo valor, sobreposto àquele
que é objeto de uma concessão (amor como emoção), e que é vital para a proposição
desse segundo sentido (“amor” como “a energia da cura”, isto é, “mais do que uma
emoção”. O locutor a adiciona ao sentido do senso comum de “amor” um novo atributo: o
valor para o qual convergem todos os segmentos precedentes, e que vai nortear
igualmente o desenrolar do livro. Logo, a medicina parece receber aqui uma sutil
contestação: a “doença” é concebida em termos não corporais e não psíquicos.
Essa contestação não é clara, mas “oblíqua”, devido à dificuldade de contestar em
nossos dias o caráter científico da medicina, além da necessidade de evitar a aplicação
de leis como as que proíbem o abuso da fé e que têm levado alguns livros de auto-ajuda
a fazer afirmações que deixem claro não estarem se propondo a substituir os tratamentos
médicos “tradicionais” da medicina científica. Não obstante, ainda é a autocura que o livro
propõe.
Através desse novo “amor”, o interlocutor vai se constituir em agente, mas deve
antes passar por uma transformação da compreensão x das coisas à compreensão y –
mas só se aceitar o contrato proposto, mediante um determinado agir. Dessa aceitação
inicial parece depender todo o resto – a leitura, a adesão, a transformação: se se
qualificar e vencer a prova, o príncipe receberá a mão da princesa! Vemos aqui um dos
momentos de preparação de um percurso a ser realizado pelo interlocutor na leitura do
livro, mas que já o é pelos elementos examinados na capa.
A capa e a contracapa oferecem assim elementos para afirmar que o livro é uma
espécie de “livro de receitas”, um discurso programador, marcado pelo “como fazer”, o
que os outros segmentos examinados confirmam. Os elementos da capa e da contracapa
buscam acentuar o caráter “científico” – ainda que o termo seja necessariamente
redefinido – ou ao menos bem fundado, do texto a ser lido, sem todavia, de modo
coerente, desprezar o místico/cósmico que é sua base. O texto insiste na palavra “cura” e
seus derivados, recorre a termos médicos, químicos etc., mas em nenhum momento se
refere diretamente ao modelo médico ou psicanalítico/psicológico da cura, sendo assim
interiormente polêmico, ou denegativo. Propõe uma nova definição de cura, por exemplo,
e sugere de modo bastante sutil que outras definições estão erradas. Assim, a “face”
exterior do livro é uma síntese do próprio livro, um “microcosmo” do “macrocosmo” livro, e
busca dirigir a leitura a um dado rumo compatível com a proposta feita.
Vemos então uma cuidadosíssima “construção” do aspecto exterior do livro tanto em
termos visuais como textuais, em termos de um dado ethos do autor, da editora enquanto
fiador do autor e do leitor, bem como do tipo de percurso que o livro propõe. A própria
organização dos elementos da capa e da contracapa têm assim um caráter persuasivo,
revelando um trabalho de entoação avaliativa voltado para a indução de uma dada
responsividade do interlocutor, bem como de uma sutil refutação antecipada de dúvidas
e/ou objeções à abordagem proposta.
O livro é apresentado como livro teórico-prático “alternativamente” institucionalizado,
livro que busca fornecer uma receita x a ser seguida para a obtenção de um resultado y.
Há a proposição ao leitor de um contrato em termos de ser e de fazer ser, implicado no
próprio atributo de “auto-ajuda” com que se costuma caracterizar empiricamente esse tipo
de livro, mesmo que não sejam os próprios livros que assim se definam praticamente.
Propor ao leitor que ajude a si mesmo, ajude aos outros e ao planeta pressupõe um duplo
modelo: por um lado, nega-se a “hetero-ajuda” oferecida por outras propostas e, por
outro, busca-se qualificar o leitor para ser ele um agente de “hetero-ajuda”, de outras
pessoas e mesmo do planeta, mas em termos “alternativos” – o que comprova a
estratégia de denegação. Além disso, o valor /amor/, tão presente na ideologia cristã,
como emoção e como atitude “divina”, é redefinido em termos “científicos” (energia) e
“médicos” (de cura).
Logo, contesta-se indiretamente um dado modelo de “hetero-ajuda”, seja ela
médica, psicológica/psicanalítica ou religiosa institucional, mas não se contesta a ação
dela decorrente; desqualificam-se sutilmente os praticantes desses outros tipos de hetero-
ajuda e procura-se dar à proposta do livro o fundamento advindo de uma tradição
esquecida, mas ainda válida, e que ele busca relembrar, estando tudo marcado por um
grau de generalidade que enfatiza a idéia de que o livro vai além das outras propostas,
recorrendo-se para isso, desde o início, a itens lexicais (como “divino”, “força divina”,
“universo” etc.) sugestivos de amplitude, de “além-sujeito”, bem como base para a
proposição de que as teses do livro são por isso “verdadeiras”. Essa generalidade
acentua igualmente a coletividade cósmica como o lugar adequado da ação individual e
coletiva, e um plano ultra-social e ultra-histórico como o real ambiente da vida na terra, o
que implica a proposição de uma “essência” do homem, de um “ponto fixo”, que se acha
situado além da sociedade e da história, dentro do ser humano ou além dele. O mundo
mutante, materialista, é assim contestado por um ponto fixo que, a fim de evitar
associações com a “imobilidade”, um valor disfórico, é acentuado positivamente como
“estabilidade”, valor eufórico.
A capa e a contra-capa acentuam mais o interlocutor “possível comprador” em suas
duas “vertentes”: adepto e neófito, do que o interlocutor “leitor”, com respeito ao qual não
tem tanta importância a distinção adepto x neófito, ao passo que os outros segmentos que
examinei se aproximam mais de acentuar o interlocutor “leitor”, ao qual é inclusive feito
um desafio, do que o interlocutor “possível comprador”. Creio que isso se deve ao fato de
que, na contra-capa, o locutor se desdobra nos enunciadores “autora” e “editora” (como
fiador da autora): esta “fala” com o título e o subtítulo, e aquela, com a apresentação da
autora e do livro, usando para isso, nos outros segmentos, a autora como locutor e como
enunciador. Além disso, o leitor é objeto de um direcionamento da leitura (entenda x
como...), ao passo que se busca atrair o possível leitor a interessar-se pelo livro.
O discurso programador requer de modo geral o tipo de texto “instativo” (instruções
a seguir) e é em geral parte de gêneros em que x detém uma competência a ser
transmitida. Esses gêneros não pertencem necessariamente a uma só esfera, mas a
todas as esferas nas quais seja concebível algum tipo de relação assimétrica de
transmissão de saber e de competência que requeiram um agir que vai além do ato
cognitivo de compreensão. Logo, é um indício de que também um dado gênero e uma
dada esfera não se acham em correlação necessária, no sentido de imutável, apesar da
existência de cristalizações históricas no nível dos discursos e dos textos.
A partir de elementos como os analisados é que propusemos (SOBRAL, 2006) o
conceito de “intergenericidade”, ou relação de interconstituição entre gêneros e esferas,
vinculado com o de “parasitarismo” dos gêneros em sua fase de formação com respeito
aos gêneros com os quais entram em contato, em termos de conflito e de incorporação.
Um texto é um objeto material que é tomado como o texto produzido por um sujeito,
tomado como um discurso, proferido por alguém num dado contexto cujas marcas estão
no próprio texto! O texto traz potenciais de sentidos, realizados apenas na produção do
discurso; o discurso vem de alguém, dirige-se a alguém (ou seja, é “endereçado”), traz em
si um tom avaliativo e remete a uma compreensão responsiva ativa – nos termos do
gênero no qual se insere.
CONCLUSÃO

O título “Conclusão” talvez seja impróprio, porque o que fazemos aqui é, de um


lado, retomar o que foi dito sobre as bases filosóficas da concepção de sentido do Círculo
e resumir as “tarefas” do estudo da linguagem nos termos do Círculo, a fim de “arrematar”
a descrição feita, e, do outro (o que julgamos mais importante), indicar possibilidades de
exploração das obras do Círculo. Escolhemos esse título porque, aqui, o nível de
generalidade das considerações é um pouco maior do que ao longo do livro, como se
fizéssemos um “resumo metalingüístico” do que foi desenvolvido.

AS BASES DA CONCEPÇÃO DE SENTIDO DO CÍRCULO DE BAKHTIN: UMA


SÍNTESE

A abordagem descrita muito deve ao materialismo dialético, mas vai além dele,
aproximando-se de uma fenomenologia da linguagem na linha de Herder, Husserl e
Heidegger. Podemos resumi-la da seguinte maneira:

1. A comunicação e suas formas estão ligadas às suas condições ou


bases materiais, devendo ser estudadas de acordo com as situações
concretas da interação, que envolve tanto a significação (ou significados
convencionalmente estabilizados), quanto o tema (ou os sentidos surgidos em
situação). O sentido, constituído a partir da significação e do tema, depende da
avaliação feita pelos protagonistas do discurso sobre aquilo que é dito.
2. As formas da língua obtêm sentido, a partir de sua significação, em
associação intrínseca com as formas concretas com que se manifesta o sistema de
comunicação social organizada. Assim, elas não são artefatos físicos que
existissem independentemente da interação, mas, pelo contrário, só fazem sentido
em seu âmbito.
3. O signo tem caráter ideológico e a ideologia está ligada à
materialidade concreta da linguagem, não existindo fora dela. O processo de
criatividade ideológica envolve diferentes formas de conceber e construir o
mundo social, sendo um processo que vai além de conteúdos que a linguagem
apenas veicularia. O ideológico depende da consciência do sujeito e esta é
entendida como instância vinculada com a sociedade e a história.
Temos aqui uma concepção de como se processa a construção do mundo
humano, de natureza social e histórica, a partir do mundo natural e físico; o mundo
natural e físico é o mundo dado e o mundo humano é o mundo postulado. A
construção social e histórica do mundo é um processo que tem um aspecto geral, o
do mundo postulado por uma dada sociedade, e um aspecto específico, o do mundo
postulado pelas classes e outros segmentos sociais. Esse processo impõe ao
conjunto dos atos humanos, inclusive de linguagem, reações e avaliações situadas,
contextuais; pode-se dizer que a significação do mundo é apreendida
contextualmente, o que produz temas; sendo os temas, portanto, uma avaliação
situada do mundo.
O mundo material permanece o mesmo, mas há diferentes maneiras de concebê-lo
e construí-lo, diferentes avaliações dele, mesmo no interior de uma mesma sociedade, o
que cria por assim dizer vários mundos num só mundo. Neste ponto, o materialismo
dialético do Círculo, que propõe que o mundo é objetivado coletivamente e apropriado
individualmente, se une ao seu aspecto fenomenológico, e inclusive reinterpreta aspectos
da obra de Kant. Vamos discorrer sobre essas duas categorias e sobre a relação entre o
sensível e o inteligível, duas interessantes e importantes categorias filosóficas que ajudam
a explicar a dialética dialógica do Círculo.
Para dizê-lo com poucas palavras, para o Círculo de Bakhtin, o mundo não
chega à consciência em estado bruto, mas mediado, apreendido de uma dada
maneira pelos sujeitos em sociedade. Essa mediação pode ser entendida em
termos do sensível, que é o plano de apreensão “intuitiva” do mundo, sem
elaboração “teórica”, o plano das “impressões totais”, indistintas, de que fala Adam
Schaff; o inteligível é o plano em que o apreendido intuitivamente e de modo
indistinto é elaborado de acordo com categorias que são “teóricas” no sentido de
distintas, de organizadas. O plano do sensível é do processo de percepção e de
ação como vivência criadora de impressões; o inteligível é o do processo de
transformação dessas impressões numa unidade de conteúdo, num conceito,
espontâneo ou científico (para lembrar Vygotski). O sensível é instância da
multiplicidade, da descontinuidade, e o inteligível, a da busca da unidade, da
continuidade.
Para o Círculo de Bakhtin, o sensível e o inteligível têm de ser vistos em sua
integração constitutiva, porque a apreensão do mundo ocorre na unidade do ato, ou seja,
a junção entre o processo de realização concreta do ato, seu aqui e agora e seus
agentes, e a organização de seu conteúdo, que é parte de seu resultado ou produto. O
ato só faz sentido à luz de sua realização concreta, que envolve seu “resultado”. Esse
resultado é o material por meio do qual reconstituímos o processo do ato, e por isso não
se restringe ao conteúdo do ato em si, pois envolve, além do processo, a forma ou modo
de organização desse conteúdo.
Todo ato de apreensão (ou de enunciação) é um processo que não se repete, mas
que gera um produto segundo formas repetíveis (ainda que sempre mutáveis); partindo do
mundo dado, das impressões intuitivas que esse mundo provoca, o ato de apreensão
produz um mundo postulado. O mundo natural só se torna humano por meio de
processos de mediação realizados pelo sujeito humano; assim o que é apreendido não é
o mundo dado, mas sempre um mundo já objetivado, criado simbolicamente no âmbito do
diálogo, da interação, e o sujeito o apreende apropriando-se dele, dando à apropriação
coletiva diante da qual é posto feições individuais compatíveis com os presumidos de sua
cultura específica.
O materialismo dialético em que se baseia essa construção está fundado na
objetivação do mundo, mediada por instrumentos (entre os quais a linguagem), e
em sua apropriação pelo sujeito - individual, mas não puramente subjetivo, dado
que imerso na soma total de suas relações sociais, o que ultrapassa em muito as
situações imediatas de interação.
Para mostrar como o Círculo incorpora, ampliando e aprimorando, esse
materialismo, vamos explicar resumidamente como os autores entendem a
percepção. A percepção para o Círculo envolve (e aí entram algumas categorias
filosóficas dos autores citados e certas propostas de Kant)

1. o contato do sujeito com os fenômenos concretos (o que remete a


noções fenomenológicas);
2. a presença de categorias organizadoras (o que remete a noções
kantianas), que influenciam o agir, o pensar e a linguagem;
3. os processos mediante os quais a coletividade objetiva o mundo, isto
é, o constrói de acordo com suas vivências coletivas construídas
ideologicamente (o que remete ao materialismo dialético); e
4. os processos mediante os quais o indivíduo se apropria do mundo
objetivado socialmente e passa a ver os fenômenos concretos sob nova luz,
contribuindo igualmente para uma nova objetivação do mundo (o que remete
ao materialismo dialético).

A percepção, assim, incorpora as funções estritamente cognitivas mas não pára


nelas, dado que estrutura as impressões totais do sujeito (o sensível) sobre o mundo
dado a partir de categorias organizadoras, de cunho social e histórico (o inteligível), que
criam um mundo postulado, ou, para repetir uma metáfora, a percepção usa a significação
do mundo e cria situadamente um tema
A objetivação do mundo consiste na transformação material e simbólica do mundo,
ou seja, o mundo dado é apreendido em termos das relações que constituem a sociedade
no âmbito da história: o que chega à consciência não é o mundo objetivo, mas o mundo
lido pelas lentes sociais e históricas dos seres humanos. A apropriação consiste na
apreensão do mundo objetivado pelo sujeito individual, que chega a ele e já o encontra
transfigurado material e simbolicamente. Assim como a objetivação varia de acordo com o
tipo de sociedade e do período histórico, assim também a apropriação varia de acordo
com o indivíduo e com as relações sociais de que faz parte. Logo, se a objetivação altera
o mundo dado, a apropriação altera o mundo transfigurado.
Os seres humanos constroem o mundo (sem que com isso neguem sua
materialidade) e cada ser humano individual ressignifica essa construção em termos de
sua constituição pessoal e de suas relações sociais (sem negar sua objetivação). Esse
processo aplica-se igualmente aos gêneros, que como vimos são formas discursivas de
apropriação, de recorte, do mundo, que lhe dão certa feição, e que são alterados por todo
sujeito que as usa – por isso são formas relativamente estáveis.

AS “TAREFAS” DO CÍRCULO DE BAKHTIN

Em termos teóricos amplos no tocante ao nível da interação verbal, o Círculo vê o


intercâmbio social, a interação, o contato concreto entre os homens, seja presencial (o
contato face-a-face) ou presumido (um texto escrito ou virtual), como a base da
comunicação, entendida em termos de ação concreta de “tornar comum” avaliações
necessariamente distintas. Na especificidade da interação, que é sempre um evento
irrepetível, mas no qual estão presentes e do qual advêm formas repetíveis, surgem as
formas de atuação lingüística; essas formas de uso, em seu decorrer histórico, acabam
por transformar as próprias formas da língua — que vão, num processo dialético, surgir
nas interações verbais.

No nível geral, o Círculo propõe como bases de estudo:

1. considerar o ideológico em sua ligação com a materialidade concreta da


linguagem, em vez de existir fora dele, de ser um conteúdo que a linguagem apenas
veicularia ou de existir na consciência do sujeito entendida como instância
desvinculada do social e do histórico.
2. entender as formas da língua como obtendo sentido, a partir de sua
significação, em sua associação constitutiva com as formas concretas do sistema de
comunicação social organizada, em vez de como um artefato físico que existe
independentemente da interação.
3. entender a comunicação e suas formas no âmbito de suas bases materiais,
ou seja, das situações concretas, sem propor uma correlação direta entre tipos de
situação e formas de comunicação.

Seu projeto de construção do objeto parte do terreno da ação verbal para chegar ao
da língua e, depois, voltar ao da ação verbal. Ou seja, ele vê as formas cristalizadas da
língua presentes nas ações verbais como objeto da influência destas, o que muda seu
sentido na interação e altera em última análise essas mesmas formas.
As etapas da análise do discurso no âmbito dessa proposta de dialogismo
generalizado do Círculo são:

1. examinar os diversos tipos e formas de interação verbal tomadas em


termos de suas situações concretas de interação, ou seja, a análise começa pelos
enunciados/discursos efetivamente produzidos — em seu caráter de eventos
irrepetíveis, e não em termos de seus conteúdos lingüísticos;
2. identificar as formas repetíveis presentes a enunciados/discursos
particulares, bem como as formas repetíveis das atuações verbais particulares, em
sua estreita relação com a interação de que são os elementos verbais; trata-se de
formas relativamente estáveis de ação lingüística integradas aos recortes sócio-
ideológicos do mundo no âmbito das esferas de atividade, isto é, os gêneros:
3. examinar as formas da língua e das significações cristalizadas, da
perspectiva de seu surgimento a partir das próprias ações verbais.

Resumindo, percebe-se que a ênfase é sempre dada aos processos e não aos
resultados, ao concreto e não ao abstrato, à interação e não às intenções subjetivas de
um sujeito extra-social e extra-histórico, à organização dos textos por um sujeito situado
e, portanto, que as altera de acordo com a situação. Ênfase nos processos não significa
desprezo do produto, porque é só no produto que se podem identificar as “marcas” do
processo. No caso do produto texto, pode-se dizer que, para o Círculo, um dado texto não
é como é por algum efeito mecânico decorrente da situação em que é produzido, porque
essa situação também está sujeita a alterações conjunturais, mas algo que traz marcas do
processo ocorrido nessa situação, e são essas marcas que estão no produto que nos
levam a identificar, dentro do humanamente possível, o processo. Há a insistência na idéia
de que a linguagem como sistema abstrato de formas ou como criação individual dos
sujeitos não é seu objeto; insiste que o tom avaliativo que o sujeito imprime a suas
atuações está integrado à própria forma do texto, interpelado por um discurso e,
principalmente, um gênero, abrangendo ainda a materialidade lingüística (a linguagem
verbal, línguas de sinais etc.).
O ser e o agir do sujeito no mundo são desde sempre um constante embate (tensão
sustentada) entre o repetível e o irrepetível, o mesmo e o outro, a significação e o tema,
polêmica do sujeito consigo mesmo no nível da consciência, em que lutam as noções
coletivas impostas e a necessidade que ele tem de criar noções para si mesmo; polêmica
com o dito, as enunciações passadas, e com o dizível, as futuras enunciações
presumíveis; polêmica com enunciações presentes, em que nem sempre o presumido por
um sujeito é exatamente o presumido pelo outro; polêmica, enfim, entre a imagem que o
sujeito tem de si e a imagem que o outro lhe traz, e entre a imagem que ele faz do outro e
que o outro tem de si mesmo.
O sentido (e o sujeito), em todos os seus níveis, surge sempre da tensão, da
polêmica, da diferença, unindo na arena da simultaneidade arquitetônica o centrífugo e o
centrípeto, o singular e o universal, o repetível e o irrepetível, o eu e o outro. Portanto,
dizer é dizer-se. E, ao dizer, o sujeito se compromete, corre riscos, em sua relação
interconstitutiva com o outro. Viver, por conseguinte, é não só comprometer-se (com o
outro), responder por si e ser responsivo ao outro, mas igualmente levar o outro a
comprometer-se, responder pelo outro e ser responsivo a si mesmo.
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