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conhecimento e cidadania 6

tecnologia social e
Articulação comunidade-escola
Volume 1

instituto de tecnologia social dezembro 2008


Apresentação 05

Introdução 09

sumário
Uma visita a duas cidades educadoras 17
1. Sorocaba: cidade saudável, cidade educadora
2. A Escola Integrada de Belo Horizonte

Escola cidadã: uma proposta do Instituto Paulo Freire 41

Fórum de Educação da Zona Leste de São Paulo 55


1. Um espaço de diálogo para pensar a educação
2. Plano Local de Desenvolvimento Educativo
da Zona Leste de São Paulo

Considerações finais 73

Referências bibliográficas 79
Apresentação
A educação é prioridade permanente nas ações do Instituto de Tecnologia Social 5
(ITS Brasil) e está presente em cada atividade que promove, em cada projeto que
elabora, em cada publicação que edita. Desde sua fundação, quando seu Conselho De-

apresentação
liberativo tinha como membro o doutor Jorge Nagle, professor, pesquisador em edu-
cação, sempre esteve claro para nós o lugar central que a educação tem no desenvolvi-
mento socioeconômico, sobretudo quando este é encarado como um caminho para o
rompimento com as estruturas que perenizam as desigualdades e injustiças sociais.
Em seguida, quando organizamos em 2004 os seminários que reuniram mais de oi-
tenta organizações para construir o debate e elaborar coletivamente o conceito de tecno-
logia social. Discutimos uma série de experiências desenvolvidas no campo da educação,
além de outras nos campos da agricultura familiar, desenvolvimento local participativo
e tecnologia assistiva. Estes seminários evidenciaram novamente que a educação não é
apenas um campo de conhecimento ou área de atividade, mas uma dimensão transver-
sal não só à tecnologia social, mas à vida de cada pessoa, de cada cidadão.
Vivemos aprendendo, aprendemos porque vivemos, nos transformamos pelo
aprendizado enquanto enfrentamos as dificuldades e problemas que estão postos em
nossa realidade. A educação, portanto, entendida não como absorção de conhecimen-
tos prontos e vindos de fora, mas como a invenção e re-elaboração constante do mun-
do, e de si mesmo, que cada um empreende durante toda a sua vida, é a mais ativa e mais
presente das dimensões que constituem a tecnologia social.
É por isso que entender o mundo já é transformá-lo e também participar um pou-
co mais dele. Entender o mundo significa apropriar-se dele, sentir-se dentro dele, mais
próximo das coisas e das pessoas. Significa também respeitar o mundo e as pessoas,
admirar-se de sua grandeza e mistério, não para cultuá-lo, mas para amá-lo e construir
nele uma existência íntegra, feliz e sustentável.
A série de cadernos que inicialmente resultou dos seminários, e que prossegue com
a publicação deste volume, recebeu então o nome de Conhecimento e Cidadania. Os
dois conceitos estão imbricados um no outro: não há cidadania sem conhecimento,
sem a construção de uma compreensão da realidade que permita atuar de modo cons-
6 ciente e autônomo no espaço público da sociedade; e o exercício da cidadania gera sem-
pre novos conhecimentos, que são construídos coletivamente e compartilhados.
Todas as ações promovidas pelo ITS Brasil abarcam atividades de formação, em que
instituto de tecnologia social

se criam situações de intenso aprendizado. Pode-se citar o exemplo de todo o processo


de pesquisa popular e implantação do projeto, desenvolvido no bairro de Cidade Ipava
(em São Paulo, SP) ou nos bairros de São Sebastião, Itapuã e Mestre D’Armas (em Bra-
sília, DF) na construção de seus processos de desenvolvimento local participativo, ou
mesmo a própria formação em meio ambiente que integrou este mesmo processo; o
amplo processo educativo que ocorre no projeto Pão Sol, em parceria com a prefeitura
de Osasco (SP), uma padaria modelo que funciona como um espaço de aprendizado e
exercício da profissão da confeitaria e padaria e gera oportunidades de trabalho e ren-
da, estimulando também os processos de economia solidária; o curso à distância sobre
Direitos Humanos e Mediação de Conflitos, em parceria com a Secretaria Especial de
Direitos Humanos do governo federal; ou ainda as várias ações ligadas à tecnologia as-
sistiva, extensão universitária, entre tantas outras.
Assim, quando falamos de tecnologia social, surge com toda força a noção de uma
educação sistêmica, transversal, presente em cada momento, seja de modo explícito em
atividades de educação formal, não-formal e informal, seja implicitamente nos aprendi-
zados que acontecem a cada interação humana. Há muito que a ideia de uma única matriz
de conhecimento (a acadêmica) tornou-se obsoleta, mas ideologicamente continua-se a
preterir as diversas formas de conhecimento presentes na sociedade, e que muitas vezes
apresentam as portas de saída para impasses encontrados pela academia.
Uma educação sistêmica significa também a eliminação de certas segmentações e
fronteiras artificiais que em geral apenas fazem a manutenção de velhas estruturas de
poder. Por que razão não deveria a escola dialogar com a comunidade de seu entorno?
Por que a escola deve ter “muros”? Não estará aí uma das razões de a escola brasileira
ter sido tão pouco eficaz na educação de nossas crianças e jovens e a explicação do por-
quê da perda do vínculo com a realidade vivida dessas pessoas e do motivo pelo qual o
que se procura ensinar são conteúdos que não lhes dizem respeito? Talvez estes conte-
údos até lhes digam respeito, mas são sentidos como coisas totalmente desligadas de 7
suas realidades. Será que isso não ocorre justamente porque ao invés de pontes o que se
constrói são muros?

apresentação
As crianças, como quaisquer pessoas, só aprendem em contexto. O conhecimento
só faz sentido quando inserido num contexto e confrontado com ele. Esta é uma das
razões da importância central da articulação entre comunidade e escola, tema deste ca-
derno. Que a escola deixe de ser um lugar de segregação e submissão para ser um lugar
de referência na geração de esperança e alegrias para a comunidade, que a comunidade
se encontre na escola e que esta seja, de fato, parte da comunidade.
Este caderno, portanto, é mais um passo entre tantos que precisam ser dados na
construção de uma educação pública de qualidade no Brasil. Recolhemos e apresen-
tamos tecnologias sociais de organização e gestão destinadas à articulação comunida-
de-escola a partir de uma perspectiva territorial dos sistemas de educação formal dos
municípios de Sorocaba e Belo Horizonte e daquilo que se poderia chamar de a “comu-
nidade escolar” da Zona Leste de São Paulo. No próximo volume, a articulação comuni-
dade-escola será vista por meio de iniciativas que tecem suas redes a partir das unidades
escolares, sem necessariamente afetar todo o sistema de um município.
Estamos prontos para ouvir os comentários, críticas, opiniões e sugestões que pos-
sam surgir de sua apreensão desse texto.

Boa leitura!

Irma R. Passoni, gerente-executiva do ITS Brasil


introdução
H istoricamente, em diferentes regiões Assim, não importa qual seja o tema 9
brasileiras, organizações da socieda- abordado (desenvolvimento local parti-
de civil criaram práticas e metodologias cipativo, agricultura familiar, alfabetiza-

introdução
participativas de produção de conheci- ção, ensino de matemática e de ciências,
mento e tecnologias originais, valorizan- tecnologia assistiva, entre outros), a edu-
do as capacidades das comunidades e das cação sempre participa dos processos
pessoas para enfrentar os problemas do que envolvem tecnologia social. Aliás,
seu dia-a-dia. No diálogo entre as dife- essa é uma característica de importância
rentes áreas de conhecimento, freqüen- central. Primeiro, porque a participação
temente são descobertos caminhos que sempre traz aprendizados. São situações
as integram e geram diversificadas for- novas, novos desafios, que envolvem o
mas de aprendizado. diálogo entre pessoas que são diferentes,
Em publicações anteriores, o ITS Bra- com diferentes idéias e pontos de vis-
sil procurou abordar algumas dessas ex- ta. E esse encontro com a diferença é, na
periências, sempre tendo como um dos realidade, um dado essencial a qualquer
focos de primordial importância a di- processo educativo. Como diz o filóso-
mensão educativa. Com efeito, pode-se fo da educação Jorge Larrosa(2009,p.),
tomar como regra o fato de que uma re- “não há formação que não se realize de
alidade não muda sem produção e difu- um encontro com a diferença e a alterida-
são de conhecimentos. Se essa mudança de, com o que não sou eu, com o que não
acontece do modo como acreditamos ser é apenas uma repetição ou uma projeção
justo e democrático, com a inclusão de to- de mim mesmo” .
dos os cidadãos que compõem a comuni- Segundo, mas não menos importan-
dade em questão, necessariamente há que te, é que estamos falando sobre enfren-
se dar uma resposta à pergunta: qual é o tar problemas concretos, efetivamente
caminho mais adequado para que as pes- vividos pelas pessoas e para os quais não
soas, de fato, aprendam, se fortaleçam e se existem soluções prontas. Ou seja, é pre-
tornem cada vez mais ativas nos proces- ciso inovar, criar soluções novas. Para is-
sos que lhes dizem respeito? so, é muito importante querer encontrar
a solução, sentir profundamente essa ne- em que a sociedade brasileira busca cami-
cessidade, mas isso está longe de ser sufi- nhos para lidar com temas determinantes
ciente. A sociedade é muito complexa, ne- na conquista de um desenvolvimento que
la se entrecruzam muitas dimensões, as consiga contemplar, sem contradição, os
quais envolvem muitas especialidades de seguintes princípios:
conhecimento. Ser capaz de participar na n a inovação tecnológica visando ao de-
formulação de respostas a esse tipo de pro- senvolvimento socioeconômico in-
blema significa aprender a ouvir diferentes clusivo e sustentável e a melhoria da
atores da sociedade, aprender a reconhecer qualidade de vida da população;
problemas que às vezes sequer se sabia de n a qualidade e a eficácia da educação bá-
sua existência... A cada momento, há mui- sica de crianças, jovens e adultos;
to conhecimento envolvido, que preci- n a garantia dos direitos humanos uni-
sa ser difundido, recriado coletivamente, versais.
adaptado, incorporado, transformado. Felizmente, embora ainda sejam exce-
10 Toda essa circulação e geração de co- ção à regra, já não são poucos os casos de es-
colas e sistemas de educação locais que se
nhecimento acontece, nestes projetos,
reinventam em busca de uma nova qualida-
muitas vezes em situações de educação
de. Essa qualidade, que procuramos captar
instituto de tecnologia social

não-formal ou informal. São oficinas re-


neste caderno, envolve todas as caracterís-
alizadas pontualmente, processos de for-
ticas metodológicas de tecnologia social:
mação, dinâmicas de troca de saberes – ou
então saberes aprendidos na prática, en-
1. compromisso efetivo com a transfor-
frentando os problemas, vencendo difi-
mação social;
culdades... Não se pode minimizar a im-
2. o ponto de partida são as reais necessi-
portância de toda essa rede de saberes.
dades e demandas da população;
Muitas vezes, no entanto, houve e há
3. relevância social;
conflito entre práticas educativas que bus-
4. sustentabilidade ambiental;
cam a autonomia e a participação demo- 5. inovação, seja pela introdução de tecno-
crática das comunidades, elaboradas em logias já desenvolvidas numa realidade em
situações educativas novas, e estruturas que são estranhas, seja pela criação ou re-
escolares tradicionais e tradicionalistas, criação de tecnologias no próprio processo;
rígidas em demasia, e não adequadas à re- 6. organização e sistematização;
alidade do seu público. É ainda muito mais 7. acessibilidade e apropriação pela po-
comum que as escolas não enxerguem o pulação;
seu entorno e as pessoas que fazem parte 8. aprendizados gerados para todos os
de sua comunidade do que o contrário. envolvidos;
De fato, como coloca Rodrigo Perpé- 9. diálogo entre saberes populares e co-
tuo na entrevista que concedeu neste ca- nhecimento científico;
derno, não é possível vislumbrar uma 10. difusão dos conhecimentos e tecnolo-
sustentabilidade a longo prazo de modos gias desenvolvidos;
de desenvolvimento que tenham nas pes- 11. processos participativos de planeja-
soas e no conhecimento a sua principal mento, acompanhamento e avaliação;
coluna de sustentação sem a força da edu- 12. fortalecimento do processo demo-
cação formal. Sobretudo num momento crático.
Este caderno procura coletar, organi- Pode-se citar ainda o Plano de Ação
zar e apresentar algumas dessas experiên- 2007–2010: Ciência, Tecnologia e Ino-
cias, de modo a fornecer subsídios a essa vação para o Desenvolvimento Nacional,
discussão. Em nosso horizonte, temos a que integra o conjunto de ações do Progra-
necessidade de contribuir para a formu- ma de Aceleração do Crescimento (PAC).
lação de políticas públicas de articulação Nele, a Secis tem a missão de promover
entre escola e comunidade, entendidas a popularização e o aperfeiçoamento do
como processo, a um só tempo, socioe- ensino de ciências nas escolas, bem co-
ducativo e cultural. Idealmente, tais po- mo a produção e a difusão de tecnologias
líticas deverão fomentar a aproximação e inovações para a inclusão e o desenvol-
entre os diferentes atores sociais de uma vimento social, descrita no “Eixo estraté-
comunidade, gerando e aplicando tecno- gico IV – Ciência, Tecnologia e Inovação
logias sociais com vistas ao desenvolvi- para o Desenvolvimento Social”.
mento sustentável, fortalecendo o pro- No plano internacional, deve ser
cesso democrático e a inclusão social. mencionada a iniciativa da Organização 11
Estruturas assim pensadas, de mo- das Nações Unidas denominada Déca-
do integrado aos projetos político-peda- da da Educação para o Desenvolvimen-

introdução
gógicos das escolas, deverão favorecer a to Sustentável, de 2005 a 2014. Diversos
apropriação local de ciência, tecnologia e países já estão desenvolvendo seus pla-
inovação para melhor atender às deman- nos ou estratégias nacionais de educação
das socioeconômicas, educativas e cultu- nesta perspectiva, entre eles a Finlândia,
rais específicas daquele território. E tam- o Japão, a Escócia, a Índia, a Suécia e a
bém auxiliar no combate às disparidades Alemanha (Gadotti, 2008).
socioeconômicas, educacionais e cultu-
rais, com a valorização das potencialida-
des e especificidades regionais, por meio Algumas perguntas norteadoras
do apoio a programas de educação públi- A partir dessa introdução, podemos situar
ca em tempo integral, relacionando de- nosso universo de investigação com algu-
senvolvimento socioprodutivo local com mas perguntas guia:
formação geral, científica e cultural.
Não há dúvida, a educação é assunto n O que é preciso garantir para que as
que concerne a todos. Esta proposta es- pessoas de um território se desenvol-
tá, portanto, em perfeita sintonia com a vam integralmente, fortaleçam sua
finalidade da Secretaria de Ciência e Tec- identidade, criem novas possibilida-
nologia para a Inclusão Social do Ministé- des de ser e, ao mesmo tempo, com-
rio da Ciência e Tecnologia (Secis/MCT), preendam e inventem modos de pro-
órgão governamental que apoia a elabora- dução que proporcionem a elas e às
ção deste caderno: suas comunidades uma vida digna,
propor políticas, programas, projetos e ações
com o alimento e a cultura de que to-
que viabilizem o desenvolvimento econômico, dos precisamos?
social e regional, e a difusão de conhecimentos n Como fortalecer a escola, pólo produ-
e tecnologias apropriadas em comunidades ca- tor e irradiador de idéias, como espa-
rentes do meio rural e urbano. ço aberto para as trocas simbólicas, um
fórum de discussão da, sobre e para a
comunidade, pela e para a cidadania?
n Como integrar a educação ao trabalho,
não só de modo funcional – o que fa-
ria da escola um centro de treinamen-
to para a realização de tarefas, aprendi-
zado que logo se tornaria obsoleto em
nosso mundo em rápida transforma-
ção –, mas também para formar seres
humanos capazes de criar e recriar seu
conhecimento, de modo crítico e au-
tônomo, aprendendo a aprender?
n Como ampliar a consciência de que o
aprendizado “de fora” da escola é tão
fundamental para a vida em comuni-
dade como os aprendizados “de den-
tro” da escola, superando as contradi-
ções entre eles?

n Como realizar o diálogo efetivo entre
escola e comunidade, para que ambas
sejam transformadas uma pela outra?
O que fazer para que a escola participe
da vida da comunidade, que seja cor-
responsável por seus problemas e su-
as potencialidades, e para que a comu-
nidade cuide da escola como um bem
público precioso, lugar especial onde
possa haver intercâmbio para a produ-
ção de novos saberes e a construção de
novas realidades?

Ao tentar responder a essas pergun-


tas, buscando articular educação formal e
desenvolvimento local, define-se um im-
portante campo de ação e discussão. Os
sistemas educativo e produtivo estão im-
bricados, por diversas razões. De um lado,
o sistema produtivo local, corresponden-
te às vocações próprias do território, ne-
cessita de profissionais qualificados em
A Escola Integrada de Belo Horizonte (no alto), áreas específicas, o que gera a necessi-
a Oficina do Saber em Sorocaba (ao centro) e a dade de centros formadores. Do outro, o
Festa da Escola Cidadã (embaixo) conjunto de atividades econômicas da lo-
calidade exerce por si mesmo papel edu- é hoje a coordenadora da Rede Territorial
cativo, seja porque as pessoas exercem Brasileira da Associação Internacional
aquelas atividades e têm muitas oportu- das Cidades Educadoras (Aice), e vem, há
nidades de aprendizado prático, seja pe- muitos anos, desenvolvendo a cultura de
la proximidade de tais pessoas (parentes, participação e da descoberta de oportu-
amigos, vizinhos etc.). O terceiro aspec- nidades de educação no convívio dos ci-
to é que essas duas áreas são parte de uma dadãos com sua cidade. A proposta da Es-
mesma cultura local, que também tem cola Cidadã, desenvolvida pelo Instituto
papel educativo muito relevante. Paulo Freire, em parceria com algumas
Os Arranjos Produtivos Locais, por secretarias municipais de Educação, arti-
exemplo, já contêm elementos de educa- cula-se diretamente com a idéia de uma
ção, pois as atividades da cadeia produtiva cidade que pensada como campo educa-
de um setor numa região exercem pressão tivo e de participação. É também o caso do
para a formação de certos profissionais. Fórum de Educação da Zona Leste de São
Se imaginarmos um arranjo similar, mas Paulo, instância de debates organizada e 13
com ênfase na educação – os tais "arran- gerida pela comunidade, que teve como
jos educativos" mencionados no Plano de fruto de seu próprio processo a produção

introdução
Desenvolvimento da Educação (PDE)]– de um Plano Local de Desenvolvimento
abre-se uma concepção mais abrangente. da Educação. Num próximo caderno, que
Mais que a combinação de atividades eco- dará continuidade a este, o foco serão ini-
nômicas, eles seriam – se pensarmos do ciativas construídas a partir ou em rela-
ponto de vista de um projeto de constru- ção com as unidades escolares.
ção da cidadania – ambientes de formação A importância da apresentação do pro-
integral de cidadãos, que se educam en- jeto das cidades educadoras no contexto
quanto estudam, praticam esportes, tra- anunciado reside no fato de tratar-se de
balham, produzem, consomem respon- uma proposta fundada em valores de cida-
savelmente, divertem-se, criam... dania, de construção dialógica de uma co-
munidade planetária. Está claro, portan-
to, que os arranjos que integrem educação
As experiências selecionadas e produção não devem tornar-se um meio
para este caderno de depredação do meio ambiente local,
Neste caderno, serão relatadas algumas ampliando atividades econômicas sem a
experiências de articulação entre comu- garantia de valores e medidas de sustenta-
nidades e escolas a partir de um pon- bilidade ambiental e qualidade de vida du-
to de partida territorial, abrangendo se- radoura. Este é o risco maior a ser evitado.
ja um município seja uma região de um O ministro da Educação, Fernando
grande município como a cidade de São Haddad, tem afirmado que o PDE e outros
Paulo. São assim os casos de duas cida- programas de sua pasta foram pensados a
des educadoras, Sorocaba e Belo Hori- partir do conceito de “educação sistêmica”.
zonte – a primeira vivendo ainda os pri- Isto superaria a infrutífera discussão sobre
meiros momentos dessa nova “postura” priorizar a educação básica ou a superior.
que consolida o compromisso com a Car- Não haverá qualidade da educação supe-
ta das Cidades Educadoras. Já a segunda, rior sem um bom ensino básico, que forme
os alunos para as universidades. Mas não se escolar em diálogo com o seu entorno.
constrói uma educação básica de qualidade Outro ponto importante de gestão
sem educação superior que propicie a for- da Escola Cidadã é a inclusão de práticas
mação de excelência dos educadores. formadoras da cidadania e a participação
de todos os setores da escola. Os gesto-
res, professores e funcionários, os pais e
mães, também os estudantes, mesmo os
Muitas vezes há conflito mais novos, todos participam da constru-
entre práticas educativas ção do Projeto Eco-Político-Pedagógico

que buscam a autonomia da escola, por meio da representação.


Desse modo, torna-se possível resga-
e a participação tar a escola como referência local e/ou re-
democrática das gional de integração da vida comunitária,

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comunidades e estruturas algo que na maioria das vezes se perdeu. A
escola passa a ser um espaço para discutir a
escolares tradicionais vida da comunidade, e também onde a co-
e tradicionalistas munidade pode se encontrar para debater
instituto de tecnologia social

o que espera da educação, o que acredita


ser preciso aprender em cada momento.
O aprendizado está presente em cada um
Pensada de modo sistêmico, a educa- desses momentos e para todos os partici-
ção é vista como um processo de interes- pantes. De fato, participação redunda em
se primordial para toda a sociedade: deve aprendizado, e se a participação é efetiva,
incluir também os pais e mães dos alunos em um aprendizado de democracia.
e também, por que não, o restante da co- Por essa razão, a qualidade do proces-
munidade, que passará a se interessar e so democrático depende de fóruns de de-
ser corresponsável pela escola. Essa é uma bate, com livre manifestação de ideias e
possibilidade que começa a ser debatida da manutenção de um processo contínuo
de forma mais contínua e sistemática. A de formação dos debatedores. Esses deba-
formação dos conselhos de escolas, pre- tedores serão, potencialmente, todos os
visto no PDE, deve fortalecer este cami- membros da comunidade. Uma experi-
nho. Programas como o Mais Educação, ência digna de nota, neste sentido, é o Fó-
que estimula a interação com as comu- rum de Educação da Zona Leste da capital
nidades do entorno da escola oferecen- paulista. Trata-se de um espaço de debate,
do atividades que complementem o tur- não deliberativo, que busca a ampliação
no escolar no contraturno que completa o da compreensão de temas relativos à edu-
horário integral, também apontam neste cação. Participam dele pessoas de todas
sentido. E é também a base do Programa as camadas sociais e profissionais, des-
Escola Cidadã, desenvolvido pelo Institu- de profissionais da educação (como pro-
to Paulo Freire em parceria com prefeitu- fessores e gestores de escolas públicas) e
ras. A “leitura do mundo”, um princípio militantes de partidos políticos até orga-
metodológico freiriano, tornou-se uma nizações culturais, alunos, assim como
atividade que inclui toda a comunidade seus pais e mães. O Fórum criou um espa-
ço aberto de debate, de aprofundamento,
autogestionado, sem “coordenação” ou
“presidência”, o que esvazia possibilida-
des de controle político.
Discutindo os temas educacionais de
interesse da comunidade, sem escolhas
arbitrárias, procura-se redescobrir o sen-
tido da educação escolar. Existe o desejo
de se re-encantar a escola e os conheci-
mentos nela produzidos. Este re-encanta-
mento é também buscado pelo MEC, por
meio do citado programa Mais Educação,
que foi estruturado, segundo Jacqueline
Moll, da Secretaria de Educação Continu-
ada, Alfabetização e Diversidade (Secad/ 15
MEC), “por meio do desejo e da determi-
nação da imbricação entre o currículo es-

introdução
colar e as políticas públicas no sentido do
re-encantamento do saber escolar”. Este
é, segundo Moll, o principal desafio que se
propôs a atual gestão.
Este breve resumo introduz as discus-
sões que serão empreendidas neste ca-
derno. As experiências selecionadas são
exemplos de metodologias e/ou práti-
cas de grande densidade no que se refere
aos princípios da tecnologia social. Foram
criadas de modo participativo, na busca
da construção de um mundo sustentá-
vel, aprendente, democrático e sábio. En-
tretanto, nunca será demais demonstrar
nossa plena consciência de que, ao efetu-
ar escolhas, estamos realizando uma gran-
de injustiça com todos aqueles que são
excluídos. Outras tantas experiências de
excelência poderiam, em pleno direito,
figurar no lugar destas que aqui apresen-
tamos. Mas não havia outra alternativa a
não ser a seleção, assim, contamos com a
compreensão de todos e esperamos que
apreciem a leitura.
uma visita a duas
cidades educadoras
A cidade pode ser descrita como o terri- A cidade é um espaço complexo de cir- 17
tório que delimita muitas das múlti- culação, onde ocorrem processos de di-
plas dimensões que participam da vida de versas naturezas. Viver numa cidade é

uma visita a duas cidades educadoras


uma pessoa. Não apenas por ser uma uni- lidar, de maneira mais ou menos cons-
dade administrativa do Estado, para a qual ciente, com tais processos. Estes podem
se elegem representantes. Para além do ser restritos à área urbana, nacional ou
bairro ou zona, onde cada indivíduo tem a mesmo globais. Mas o fato é que, no co-
vivência de pertencer a uma comunidade, tidiano, sofremos os impactos localmen-
a cidade é o espaço pelo qual se é responsá- te, e a grande maioria do alcance de nossas
vel e que pode ser vislumbrado como um ações tem efeito local.
conjunto com uma identidade. É o espaço É a partir destas premissas que a pro-
pelo qual eu sou corresponsável, com pes- posta de cidades educadoras ganha espe-
soas que eu não conheço e, no entanto, sou cial interesse, na busca do diálogo comu-
afetado por elas, tanto quanto elas são por nidade–escola para o desenvolvimento
mim afetadas. integral. Como diz a Carta das Cidades
Esta é uma síntese em linhas bastan- Educadoras (2004, p.145), este tipo de ci-
te gerais, que não leva em conta as múlti- dade “é um sistema complexo, em cons-
plas realidades vivenciadas pelas pessoas tante evolução, e pode ter expressões di-
e as comunidades na descoberta e inven- versas. Porém, sempre dará prioridade ao
ção contínua de suas identidades. Posso investimento cultural e à formação per-
me identificar com meu bairro, ou viver manente de sua população”. Afinal, “a ci-
numa cidade com a qual não me sinta, no dade, grande ou pequena, dispõe de in-
meu cotidiano, identificado. Em todo ca- contáveis possibilidades educacionais” .
so, vivo inserido nos processos que nela Uma marca das cidades educadoras,
acontecem. Ao menos porque o orçamen- prevista na Carta, é a implementação de
to público arrecadado em função da pro- estratégias de integração dos vários as-
dução e ocupação da cidade será repartido pectos da administração pública com o
pelos espaços, instituições e pessoas que elemento básico que faz a costura de tudo
compõem a sua comunidade. isso: a vida das pessoas.
O cidadão tem múltiplas necessida- o seu sentido. Não estamos falando de
des. Ele não é um cidadão que estuda pela ideais, mas dos problemas efetivamen-
manhã e à tarde, é outro que necessita de te vividos e da maneira mais eficaz e sus-
atendimento médico e, à noite, é um ter- tentável de solucioná-los.
ceiro que sai em busca de lazer. É o mes- Gadotti e Padilha (2004, p.130) dizem
mo cidadão. Ele estuda porque é saudável, que as cidades educadoras perseguem
sabe aproveitar seus momentos de folga “a utopia das cidades justas, produtivas,
porque trabalha, ou estuda, quando ne- democráticas e sustentáveis” , que são as
cessário, e assim por diante. E, se isso é que conseguem “romper com o controle
válido para os seus direitos, vale também político das elites locais e com as formas
para os seus deveres de cidadão. Em cada burocráticas, corruptas e clientelistas de
situação respeitamos o próximo. Se vive- governar” (Caccia Bava apud Gadotti &
mos conflitos, buscamos solucioná-los Padilha, 2004, p.130). Elas procuram ser
preservando a paz e o bem estar coletivo, justas. O primeiro princípio com o qual
18 cuidamos dos espaços públicos. uma cidade que se assume educadora se
Na prática, como sabemos, isso nem compromete, é o de que “todos os [seus]
sempre acontece. O isolamento dos vários habitantes (...) terão o direito de desfrutar,
instituto de tecnologia social

setores da administração pública favorece em condições de liberdade e igualdade,


a visão parcial de algo que na realidade, por dos meios e oportunidades de formação,
bem ou por mal, é integrado. Quando uma entretenimento e desenvolvimento pes-
secretaria de governo se preocupa apenas soal que a cidade oferece”(idem, p.150).
em “realizar suas tarefas”, sem atentar pa- Neste sentido, diz o décimo princípio,
ra a sua interação com as outras esferas – as cidades “deverão se conscientizar dos
públicas e privadas – da vida na cidade, mecanismos de exclusão e marginalidade
corre um sério risco de colocar suas ativi- que as afetam e das modalidades que re-
dades, que são meios, à frente da sua fina- visem e desenvolvam as intervenções de
lidade última, o bem estar público. compensações adequadas”(idem, p.150).
à esse respeito, a Carta das Cidades Embora a educação seja entendida em
Educadoras (2004, p.150) diz que as in- sentido amplo, não se reduzindo à formal,
tervenções da gestão pública “deverão a escola tem um papel preponderante na
partir de uma visão global da pessoa, de cidade educadora. Como afirmou ao ITS
um modelo configurado pelos interesses Brasil o secretário de Relações Interna-
de cada uma delas e pelo conjunto de di- cionais de Belo Horizonte, Rodrigo Per-
reitos que concernem a todos” . pétuo, “não se pode pensar na sustenta-
A participação e o diálogo não aconte- bilidade a longo prazo de um projeto de
cem por geração espontânea, sobretudo cidade educadora sem a força da educação
quando décadas de práticas não-demo- formal”. A escola torna-se uma referência
cráticas se enraizaram em muitos âm- de formação nos bairros e comunidades, e
bitos de nossas vidas. O diálogo é algo o sistema educacional uma referência pa-
inerente e essencial aos seres humanos. ra outras políticas públicas.
Contudo, requer esforço e valores que Por essa razão as cidades educadoras
precisam ser cultivados e redescobertos têm desenvolvido propostas de escolas
a cada momento para que não percam mais abertas. O desafio é grande.
O princípio 2 diz que “as prefeitu- É interessante observar como os mu-
ras executarão com eficiência o que lhes nicípios vêm integrando a dimensão eco-
compete em matéria de educação” (idem, nômica nos seus projetos de cidade edu-
p.148). Eficiência aqui pode ser entendi- cadora. É certo que os princípios da Carta
da, como muitos têm afirmado, no sen- apontam para processos de redistribuição
tido de se ter o foco no aprendizado, não de renda e de oportunidades, e o impac-
no ensino. A preocupação com a qualida- to da educação na economia no mundo
de implica clareza de objetivos; as pessoas atual é bastante forte. Mas é possível que a
têm que aprender para serem capazes de participação nas decisões no campo eco-
lidar com os desafios que uma sociedade nômico dependa de um processo eman-
pautada pelo conhecimento impõe. cipatório mais profundo, difícil de ser ob-
servado na prática. Permanece o desafio
da participação efetiva dos cidadãos nos
"As cidades educadoras processos decisórios no que diz respeito
à economia local. 19
perseguem a utopia Procuramos conhecer mais de perto
das cidades justas, dois projetos de cidade educadora. Pri-
produtivas, democráticas

uma visita a duas cidades educadoras


meiro, o de Sorocaba, que vive sua fase
inicial, mas já com uma riqueza enorme
e sustentáveis", segundo de iniciativas e programas em diferentes
Gadotti e Padilha áreas da administração pública. A expe-
riência sorocabana abrirá um caminho
para conhecermos melhor o Programa
Outra questão fundamental para a ci- Escola Cidadã do Instituto Paulo Freire.
dade educadora, que está diretamente re- Em segundo, o de Belo Horizonte,
lacionada à tecnologia social, é o esforço cidade que coordena a rede de cidades
de autoconhecimento, de diagnóstico de educadoras no Brasil. Esta tem em sua
problemas e de descobrimento das po- história várias gestões municipais com-
tencialidades e vocações no próprio terri- prometidas com a participação e o diálo-
tório. Estes elementos poderiam ser tra- go para solucionar problemas e melhorar
duzidos por “transparência”, não só da a qualidade de vida dos seus cidadãos. Em
gestão das contas públicas, mas também BH focaremos particularmente a Escola
da busca de um conhecimento. Integrada: programa de escola em tempo
A cidade educadora reúne uma série de integral articulada com a comunidade.
características integradas que procuram
assegurar a qualidade de vida de modo
sustentável. É produto das pessoas e tam-
bém responsável pelas relações sociais
que se estabelecem no seu âmbito. Está
em perfeita sintonia com os princípios da
tecnologia social, sendo assim uma refe-
rência para o desenvolvimento e imple-
mentação de tecnologias de gestão.
sui dois obstáculos que dificultam a cir-
1. Sorocaba:
culação, um natural e um artificial: o rio
cidade saudável, Sorocaba e a linha férrea. “Como muitas
cidade educadora cidades da região, Sorocaba cresce em rit-
mo acelerado e temos que lidar com a idéia
de que em alguns anos o sistema viário vai
Talvez o programa mais emblemático de ser insuficiente”, diagnostica o secretário
Sorocaba (SP) como cidade educadora municipal da Juventude, Antonio Carlos
seja a construção de cerca de 77 quilôme- Bramante, cuja pasta inclui o Pedala So-
tros de ciclovias, dos quais 42 quilôme- rocaba, programa que procura incentivar
tros já estão concluídos. A ciclovia é uma a utilização das novas vias e das bicicletas.
malha viária que promove um meio de “A ciclovia pode ser uma alternativa para
transporte não poluidor, ao mesmo tem- solucionar a circulação na cidade.”
po que incentiva as práticas esportivas Não é apenas “sobre duas rodas” que
20 integradas no cotidiano e identifica os ci- a prefeitura sorocabana está inovando.
dadãos com sua cidade. Quer dizer, tem O Programa Pedala Sorocaba visa a tor-
um grande potencial de “fazer bem”, no nar a bicicleta um meio de transforma-
instituto de tecnologia social

sentido corriqueiro mesmo da expres- ção cultural através do transporte eficaz


são: faz bem para o ciclista, faz bem para a para o trabalho e lazer na cidade. Há um
cidade e seus cidadãos (evita a poluição) conjunto de programas, inspirados em
e faz bem para o relacionamento entre as experiências bem sucedidas em outros
pessoas e destas com a sua cidade. municípios brasileiros, como Aracaju e
Assim, os principais objetivos da im- Santos, que interagem entre si das mais
plantação da ciclovia são os de fomentar diversas maneiras para aproveitar o po-
políticas públicas para o uso da bicicleta; tencial de aprendizado existente “nas
usar o ciclismo como meio de inclusão so- ruas” da cidade. Praticamente todas as
cial, promover a melhoria da autoestima, secretarias municipais estão envolvidas
da qualidade de vida e do meio em que vi- nesse grande projeto, que cria a coluna
vemos; desenvolver atividades educativas dorsal do programa de governo.
relacionadas ao comportamento preventi- Pretende-se também construir paraci-
vo do ciclista no trânsito; promover a cons- clos (doze destes já instalados no centro
cientização e a valorização do uso da bici- da cidade, com capacidade para doze bici-
cleta para preservação do meio ambiente; cletas cada) e bicicletários (com maior ca-
integrar o projeto das ciclovias no contex- pacidade) em pontos estratégicos na cida-
to urbano promovendo a interligação en- de, terminais de ônibus e ciclovias.
tre as regiões da cidade; proporcionar à fa- A Guarda Municipal de Sorocaba ad-
mília um ambiente saudável por meio do quiriu 14 bicicletas equipadas e treinou 24
ciclismo; criar mecanismos para o desen- policiais do batalhão para utilizá-las da me-
volvimento e o incentivo das diversas mo- lhor maneira, como transporte eficaz e até
dalidades esportivas do ciclismo. mesmo como arma. Eles terão a função de
A ciclovia pode, efetivamente, ter um garantir a segurança nas principais ciclo-
impacto expressivo no desafogamento vias e parques da cidade. Todo este equipa-
viário desta cidade plana, mas que pos- mento urbano pode servir à Educação.
Veremos a seguir alguns dos progra-
mas que constituem o projeto soroca-
bano de cidade educadora, procurando
compreender como eles interligam a edu-
cação com a comunidade, e também for-
mas de geração de trabalho e renda e dina-
mização da economia local.

Uma Sorocaba educadora


Em abril de 2008, durante o X Congres-
so Internacional de Cidades Educadoras,
a prefeitura apresentou o seu conceito
de “Sorocaba, Cidade Educadora, Ci-
dade Saudável”. Realizado pela primei-
ra vez em uma cidade da América Latina
(São Paulo), o Congresso é uma iniciati-
va da Associação Internacional de Cida-
des Educadoras (Aice). O projeto “Bair-
ro Mais Feliz”, que abordaremos a seguir,
também foi selecionado para ser apresen-
tado neste evento.

Bairro Mais Feliz


Em dezembro de 2007, a prefeitura de So-
rocaba lançou o projeto Bairro Mais Feliz,
no Jardim Nova Esperança, uma das re-
giões da cidade de grande vulnerabilida-
de. Com a participação de oito secretarias
municipais que formam o “eixo social”, o
projeto desenvolve mais de 40 ações em
benefício daquela comunidade.
O bairro foi escolhido como piloto do
projeto, para ser contemplado com ativi-
dades como oficinas nas áreas de saúde,
arte, esporte e lazer, educação não-formal
e qualificação profissional para geração de
renda, entre outros programas. As ações
da prefeitura incluem ainda investimen-
tos na infraestrutura, novos equipamen-
Com ênfase no desenvolvimento de uma vida
tos públicos, segurança e recuperação ur- saudável, Sorocaba procura renovar a relação do
banística daquela região. poder público com os cidadãos
O Bairro Mais Feliz inclui uma rede de orientação de técnicos do Sebrae e do Se-
iniciativas que buscam transformar a re- nac. Depois, as costureiras terão acesso
lação com a população num grande apren- a créditos, por intermédio do Banco do
dizado de cidadania, ao mesmo tempo em Povo, para adquirir suas próprias má-
que as ações de gestão pública são, de fato, quinas. As participantes que deixarem a
efetivadas. Uma delas é o programa Meta- cooperativa para atuar por conta própria
Sorocaba, que visa a inserir o conceito de vão dar lugar a novas costureiras, em um
meta-reciclagem em Nova Esperança. processo que deve se repetir a cada seis
A meta-reciclagem usa a reapropriação meses.
de tecnologia objetivando a transforma-
ção social. Esse conceito abrange diversas
formas de ação: da captação de computa- Cidade Superlimpa
dores usados e montagem de laborató- O projeto Cidade Superlimpa colocou
rios reciclados usando software livre, até mais 37 mil novos contêineres na cidade,
22 a criação de ambientes de circulação da 1.500 lixeiras nas ruas e 50 “ecopontos”
informação através da internet, passando para receber entulho. Foram criadas mais
por todo tipo de experimentação e apoio três cooperativas de catadores de material
instituto de tecnologia social

estratégico e operacional à projetos so- reciclável e iniciado um trabalho de roça-


cialmente engajados. gem e capinagem das praças e ruas, com
participaram do projeto 25 jovens no mão de obra dos egressos das penitenciá-
primeiro grupo, em outubro de 2007. O rias, entre outras ações.
objetivo do programa é realizar oficinas e Um importante desdobramento, lan-
formar uma comunidade com um grupo çado recentemente, é o programa Esco-
de 50 jovens de Nova Esperança, para um la Superlimpa, desenvolvido nas escolas
amplo processo de inclusão digital. municipais da cidade. Foram distribuídos
Outra iniciativa relevante é a Coo- nessas escolas conjuntos de quatro contê-
perativa de Costura de Sorocaba. Em ineres para receber materiais recicláveis
atuação desde fevereiro de 2008, ela é como papel/papelão, metal, plástico e vi-
formada por mulheres do bairro e por dro, além de bombas para receber a doação
ex-alunas de um curso promovido pe- de óleo de cozinha. Os materiais reciclá-
la Secretaria de Relações do Trabalho veis serão recolhidos pelas cooperativas
(Sert), em parceria com o Serviço Social de reciclagem e o óleo será encaminhado
da Indústria (Sesi). Neste caso, a admi- à fábrica de sabão do Iesa.
nistração pública procura facilitar os ca-
minhos de inserção no mundo do traba-
lho acompanhando todo o processo, e A escola em tempo integral
dando o apoio necessário para que essas O programa Oficina do Saber, da Secre-
mulheres consolidem seu aprendizado taria da Educação, é a solução encontrada
para tornarem-se autônomas. para atender, em período integral, 1.040
A cooperativa, que funciona no Ins- alunos de terceira e quarta séries de sete
tituto Humberto de Campos, trabalha- escolas do ensino fundamental da cidade.
rá até o final de 2008 para introduzir sua A iniciativa se inspira em projetos como
produção em grandes magazines, sob a o Cidade Escola, da ONG Aprendiz, de
São Paulo, a Escola Bairro, de Nova Igua- tirar questões para o aprendizado a partir
çu (RJ), e a Escola Integrada, de Belo Hori- de sua realidade vivida.
zonte (ver neste caderno, na página 28). Também são desenvolvidas diversas
O programa prevê atividades de arte, instâncias de participação nas decisões refe-
informática, aulas de língua estrangeira, rentes à educação e a sua inserção na comu-
prática de esportes, brincadeiras, oficinas nidade de entorno. Desde bem pequenas,
e aulas ao ar livre em locais próximos às as crianças são convidadas a pensar suas ne-
unidades. “As ações irão reforçar os con- cessidades escolares, eleger representantes
ceitos de cidadania e ampliar a interação e propor soluções. Além dos alunos de to-
dos participantes com o bairro e a comu- das as idades, os pais e mães também parti-
nidade”, afirma a secretária da Educação, cipam, em fóruns e conselhos adequados,
Maria Teresinha Del Cístia. assim como os professores e professoras.
Para definir os locais de atividades, a Todos são, em alguma medida, educado-
Secretaria da Educação realizou, em con- res e educandos, pois todos ensinam uns
junto com as escolas, um mapeamento aos outros e aprendem mutuamente sobre 23
detalhado dos espaços disponíveis nas suas realidades vividas, suas necessidades e
proximidades de cada escola participan- possíveis caminhos para solucioná-los, no

uma visita a duas cidades educadoras


te do programa. Uma praça, um parque, que cabe ao âmbito escolar.
uma quadra de esportes, a casa paroquial Complementando essa integração
de uma igreja servem de espaços educati- das atividades educativas com os bairros,
vos. Vale ressaltar que todas as atividades existe o projeto Sabe Tudo, com o objeti-
são coordenadas por um educador comu- vo principal de promover a inclusão digi-
nitário. Para as atividades educativas fo- tal. São centros de estudos equipados com
ra da escola, são organizados grupos de 25 20 computadores que utilizam a internet
alunos acompanhados por um monitor. como ferramenta de pesquisa, ministram
A rede municipal de ensino de Soro- cursos de informática e fornecem à co-
caba também conta com o programa Es- munidade jornais e revistas. A inspiração
cola Cidadã (ver neste caderno, na página para esse projeto da Secretaria da Educa-
38), realizado em parceria com o Institu- ção, com o apoio da Secretaria de Gover-
to Paulo Freire. Trata-se de um amplo no e Planejamento, foi o Farol do Saber,
programa de estruturação do ensino- de Curitiba. Os núcleos são construídos
aprendizagem, com um importante fo- em bairros da cidade, em geral, anexos a
co na participação de toda a comunidade uma escola. Para o gerenciamento do pro-
escolar (que envolve desde professores, grama, a prefeitura firmou convênio com
gestores e alunos, até os familiares des- a ONG Projeto Pérola, responsável pela
tes e outras pessoas da comunidade de mão de obra qualificada, material didático
entorno). Criam-se diversas práticas de e aplicação das aulas. O projeto apresenta,
integração comunidade- escola (de ins- também, espaços para leitura, disponibi-
piração freiriana), como, por exemplo, as lizando jornais e revistas.
“festas” de "leitura do mundo". São dias São 19 centros de inclusão digital e
em que os estudantes, professores, co- social implementados. Mas até o final
ordenadores, diretores e pais se reúnem de 2008, serão 30 unidades em toda a ci-
para “conhecer” seu bairro, investigar e dade. Os Sabe Tudo já existem em cin-
co bairros: Ipiranga, Paineiras, Marcelo cia com o Território Jovem, criado a partir
Augusto, Hungarês e Conjunto Habita- da reforma de uma propriedade munici-
cional Ana Paula Eleutério. Funcionam pal no bairro Jardim Ipiranga, em março
de segunda a sexta-feira, das 8h às 20h, e de 2006. A concepção desse espaço, tam-
aos sábados, das 8h às 13h. bém destinado à comunidade, pretende
garantir ao jovem um local para o lazer e o
estudo informal, com o desenvolvimen-
Jovens protagonistas to de atividades de interesse juvenil.
O projeto de cidade educadora de Soroca- O espaço conta com salão, palco e in-
ba reserva um lugar especial ao jovem, pa- fraestrutura para cursos, mantidos pe-
ra seu potencial criativo, de transformação la Secretaria da Juventude e secretarias
e de aprendizagem. Um exemplo disso é o municipais, que fazem parte do Comitê
ComJov – Conselho Municipal do Jovem. Intersetorial da Juventude. Mensalmen-
Criado em 2006, ele inaugurou em Soro- te há atividades que permitem ao jovem
24 caba uma ponte de integração entre os jo- desenvolver habilidades artesanais, físi-
vens e o poder público do município. cas, capacidades lingüísticas e prepara-
A primeira diretoria, com 60 integran- tórias para a geração de renda. Com fre-
instituto de tecnologia social

tes (titulares, suplentes e remanescen- qüência há parcerias com universidades,


tes), foi constituída por sorteio público, entidades e voluntários, o que enrique-
do qual participaram aproximadamente ce o programa desenvolvido. O espaço
700 jovens. A opção deve garantir uma também é utilizado para a apresentação
inclusão democrática e capaz de acolher de bandas e a realização de eventos festi-
toda a diversidade juvenil. Na gestão da vos para comemorar datas especiais.
primeira diretoria houve um amadureci-
mento dos integrantes para o desempe-
nho do papel de conselheiros, especial-
mente com a realização da 1ª Conferência
O investimento e o
Municipal da Juventude, cujo documen- crédito nas pessoas são
to final apresentou os anseios dos partici- o mais importante
pantes quanto à implementação das polí-
ticas públicas para a juventude.
Para o biênio 2007–2008, os conselhei-
ros definiram uma nova forma de consti- A Secretaria da Juventude (Sejuv) co-
tuição do ComJov. Ela é tripartite, contan- ordena também o Grafite Sorocaba, proje-
do com a participação de representantes to que visa a geração de renda por meio do
de entidades e movimentos sociais, poder desenvolvimento artístico dos grafiteiros.
público e jovens inscritos para um sorteio Em 2006, o 1º Encontro do Grafite – que
público. Como orientação, todos os con- reuniu jovens e teve a participação de cem
selheiros deverão, preferencialmente, es- renomados artistas de São Paulo – permi-
tar na faixa etária entre 16 e 29 anos. tiu o mapeamento do grupo de grafiteiros.
Uma das políticas discutidas no A partir desse encontro, a Sejuv ofereceu
ComJov é a implantação de espaços pú- cursos de arte para os jovens aprimorarem
blicos destinados à juventude. Ela se ini- suas técnicas, conhecerem a história da ar-
te e ampliarem sua visão da arquitetura ur- intersetorialidade e a ação comunitária.
bana. Foram realizadas ações coletivas em Destina-se a atender a população juvenil
muros da cidade e a projeção dos grafitei- dos bairros mais carentes da cidade. Anual-
ros foi muito positiva. Empresários de vá- mente, o Comitê Intersetorial da Juventu-
rios segmentos solicitaram indicação de de (Cijuv), formado por representantes
jovens para a realização de grafites em seus de doze secretarias municipais, define um
estabelecimentos. conjunto de ações a serem desenvolvidas
Outra questão fundamental na vida em um bairro a partir dos interesses apre-
do jovem que foi abordada é a inserção no sentados pelos jovens da comunidade.
mundo do trabalho. Uma das principais Os atores sociais da localidade são com-
iniciativas da Secretaria da Juventude, o prometidos com o desenvolvimento das
programa Emprego Jovem, busca oferecer ações, que incluem também vários seg-
a pessoas de 16 a 25 anos a primeira experi- mentos da sociedade. Mensalmente há
ência de estágio dentro da estrutura das se- um programa de atividades nas áreas de
cretarias municipais. Além do aprendiza- arte, saúde, trabalho, esporte etc. 25
do das diversas atividades de cada setor, os
jovens passam por um curso de iniciação
Conclusão

uma visita a duas cidades educadoras


ao mundo de trabalho e têm reuniões se-
manais com um tutor, que acompanha seu Após quase dois anos de adesão à Carta
aprendizado e suas atividades durante o es- das Cidades Educadoras, Sorocaba en-
tágio, e segue acompanhando o jovem de- contra-se num momento de experimen-
pois, em sua busca por trabalho. As vagas tar e colher os primeiros frutos nesse
são abertas a estudantes do ensino médio. processo. A grande quantidade de pro-
Há um processo seletivo e uma entrevista gramas, que pode parecer até excessiva,
com assistentes sociais para constatação da está relacionada com isso. Afinal, eles
condição socioeconômica das famílias dos têm que passar pela prova de sua efetiva
candidatos (renda familiar inferior a meio aplicação e é natural que nem todos so-
salário mínimo per capita). brevivam e se tornem aquisições perma-
A partir de 2006, o Programa Emprego nentes da sociedade sorocabana.
Jovem atendeu cerca de cem jovens, que Há, no entanto, sem dúvida, um olhar
dele participaram por seis meses, renová- diferenciado do poder público em relação
veis por mais seis meses. Ao término des- aos cidadãos, perceptível em cada progra-
sa experiência de estágio, muitos jovens ma. As pessoas são vistas não como fonte
têm sido empregados por empresas da ci- de problemas, mas sim como aquelas que,
dade. Além da Secretaria da Juventude, como membros de uma comunidade, estão
que coordena o projeto, participam as se- implicadas nos problemas coletivos e que
cretarias de Recursos Humanos, Traba- darão a eles uma solução. O investimento
lho, Desenvolvimento Econômico e Par- e o crédito nas pessoas são, assim, o mais
cerias. A carga horária diária é de quatro importante. Crédito, neste caso, quer di-
horas, com remuneração mensal de R$ zer acreditar que as pessoas são capazes de
210, mais vale transporte. se transformarem juntas e assim modifica-
Outra iniciativa é a Incubadora Jovem, rem a sua cidade; o investimento para que
que tem como metodologia de trabalho a isso ocorra deve ser feito em educação.
Entrevista com Maria ITS brasil Em que consiste a proposta de Ci-

Teresinha Del Cístia, dade Educadora de Sorocaba?


Maria Teresinha del cistia Vou contar um
secretária de Educação pouco da história. Quando fomos mon-
de Sorocaba tar o planejamento do governo, a equipe
juntamente com o prefeito baseou-se em
No dia 29 de julho de 2008, o ITS Brasil duas grandes agendas internacionais. Era
foi a Sorocaba conhecer in loco algumas Sorocaba – Cidade Saudável e Cidade Edu-
dimensões do seu projeto de cidade edu- cadora, entendendo isto como uma expe-
cadora. Um dos principais momentos riência da cidade e não só da Secretaria da
desta visita foi a entrevista realizada com Educação. Esse é o diferencial, enxergar a
a secretária de Educação, Maria Teresi- cidade como um grande espaço de apren-
nha Del Cístia, que explicou como está dizagem. É aprender com e na cidade.
se construindo o jeito sorocabano de en- Fomos conhecer outras experiências,
carar o grande desafio de articular áreas nos filiamos à Associação Internacional
e secretarias numa nova relação com os das Cidades Educadoras. Começamos
cidadãos. Embora a secretária afirme que também um contato com a Unesco, fize-
a cidade se encontra “no início da cami- mos várias reuniões, um grande trabalho
nhada” da descoberta e amplificação das pra que ela desse um suporte a nossa cida-
oportunidades educativas que se encon- de. E também com o Instituto Paulo Frei-
tram no dia a dia dos cidadãos, os primei- re na questão das escolas. São muitos pro-
ros passos já foram dados e se mostram gramas de várias secretarias, que ajudam
bastante consistentes. Confira os princi- a comunidade a se integrar com o bairro, a
pais trechos. escola com o bairro e com a cidade.

ITS brasil Quais secretarias municipais se


envolvem?
del cistia Nós trabalhamos com esta li-
nha do “eixo social”. São as secretarias da
"O rio Sorocaba teve a margem refeita, foi construí-
do o parque das Águas. Foi feito um deck para que os
professores possam levar as crianças e dizer: 'este
é o nosso rio, que nós estamos despoluindo, esta é a
história da nossa cidade'"

Educação, da Cultura, da Saúde, da Juven- cidade”. Os novos espaços estão sendo 27


tude, das Relações do Trabalho, da Cida- construídos como espaços educadores.
dania; a da Comunicação sempre está co-

uma visita a duas cidades educadoras


nosco também. E embora não sejam do ITS brasil Como a escola está sendo estrutu-
eixo social, a Infraestrutura sempre nos rada na perspectiva da cidade educadora?
acompanha, pois as ações envolvem a del cistia Com o Instituto Paulo Freire,
criação de novos parques, novas praças, nós temos uma parceria há um ano, tra-
calçadas ampliadas para que as crianças balhando com todas as escolas de ensino
possam caminhar. Tem também a secre- fundamental e de educação infantil, em
taria que cuida do trânsito, que é a Urbis. três grandes eixos: os Projetos Eco-Políti-
Porque nós temos também a questão da co Pedagógicos; o fortalecimento da ges-
“Educação para o trânsito”. tão democrática, com a participação dos
Mas a cidade educadora envolve tam- Conselhos; e também o protagonismo
bém a Secretaria de Obras, a Secretaria de infanto-juvenil, que é a participação efe-
Urbanismo. Ao fazermos todas essas ci- tiva das crianças.
clovias estamos dando acesso às pesso- Outro programa que estamos desen-
as que não podem andar de ônibus, a de volvendo há um ano, e que tem sido uma
carro, pois podem vir de bicicleta para o experiência maravilhosa, é a nossa esco-
centro. Temos vários parques que foram la de período integral, que chamamos de
construídos com teatro de arena, para Oficina do Saber. São oficinas não obri-
que a comunidade tenha mais um espa- gatórias realizadas no contraturno, para
ço educador. O nosso rio Sorocaba teve a as quais as crianças podem se inscrever.
margem refeita. Foi construído o parque Nós não tínhamos como atender a cida-
das Águas. Também foi feito um deck pa- de toda, então priorizamos aqueles bair-
ra que as crianças possam ir lá, para que ros que têm o maior risco social, onde as
os professores possam levar uma classe crianças não têm outra oportunidade.
e dizer: “este é o nosso rio, que nós es- E como é feito isso? Aproveitamos os
tamos despoluindo. Já está quase 100% espaços do bairro dentro da linha da cida-
despoluído. Esta é a história da nossa de educadora. Assim, nos apropriamos
do bairro e usamos seus espaços. Porque seja uma inclusão cidadã, não só uma in-
se formos esperar pra acontecer uma es- clusão digital. Ali nós temos os jornais do
cola de período integral nos moldes tra- dia, as revistas da semana e um pequeno
dicionais, vamos dobrar o nosso número acervo de livros que os jovens gostam. O
de salas de aula? Não, a nossa idéia é real- nome Sabe Tudo vem daí. é um lugar on-
mente aproveitar as oportunidades da ci- de eles vão ficar “sabendo de tudo”.
dade. Que essas crianças também possam
ir ao museu, ao teatro e conhecer o roteiro ITS brasil A escola passa a ser um pólo de
histórico da cidade... referência do bairro?
del cistia Em muitos bairros, o único es-
ITS brasil E do ponto de vista da inclusão paço público é a escola. Nós temos que
digital? garantir a aprendizagem, que é o ponto
del cistia Fizemos também um Centro de principal da Secretaria da Educação. A es-
Inclusão Digital em algumas escolas. Ho- cola tem que de cumprir a sua função pri-
28 je, temos 19 funcionando e mais dois em mordial, que é a educação, não a função
construção, que chamamos de Sabe Tudo. social. Nós temos que disponibilizar es-
Foi a partir daquela experiência de Curiti- te espaço, temos que oferecer outras ativi-
instituto de tecnologia social

ba, o Farol do Saber. Nós temos 20 equi- dades para a comunidade fora do horário
pamentos da mais alta tecnologia, como escolar, depois de garantido o horário for-
internet sem fio. Ele é construído no ter- mal, garantida essa aprendizagem, garan-
reno da escola, mas é aberto para a comu- tido que esse aluno vai ter sucesso. Aí nós
nidade, atende as crianças daquele bairro criamos essa oportunidade para a comu-
que, porventura, estejam em outras esco- nidade: abrir a escola, utilizar salas, uti-
las, estaduais ou até escolas particulares. lizar aos finais de semana. Muitas vezes
aquele bairro não tem nenhum outro es-
paço. Como nós poderemos levar o cine-
ma para ele? A Secretaria da Cultura leva
"Muitas ações nós filmes. Temos uma atividade em que leva-
disponibilizamos mos o caminhão que tem a tela de cinema,
também para a rede colocamos cadeiras e distribuímos pipo-
cas para o pessoal, apagamos as luzes da
estadual, pois a praça e passamos o filme. A praça lota. Es-
população é sorocabana, ta é uma atividade da cidade educadora.
independente de se ela
está no serviço público ITS brasil E como se articulam essas duas
coisas, o currículo formal das disciplinas
municipal ou estadual" e esse programa de integração da escola
com a comunidade?
del cistia Nós estamos no caminhar. é
Além da internet gratuita, temos cur- passo a passo, não queremos descuidar da
so de formação, nos quais são ministra- questão da aprendizagem. Mas tem uma
dos cursos de informática e eles têm tam- pessoa que faz isso, que denominamos de
bém lições de cidadania. A idéia é a de que educador comunitário.
Nós temos uma parceria com o Projeto ITS brasil Em que momento dessa caminha-
Aprendiz também, na linha do programa da a senhora acha que Sorocaba se encon-
Cidade Escola. Fizemos a formação, a capa- tra, como cidade educadora?
citação dos nossos professores e temos es- del cistia Acredito que estamos no início
se acompanhamento mensal com eles. A e temos muito que andar e aprender. São
equipe está sempre aqui conosco. Forma- ações novas, mas já conseguimos avan-
mos 160 pessoas, que não eram só da Edu- çar em vários aspectos. Porém, nós temos
cação. O que eu acho muito bom. Tivemos muito a caminhar. É uma mudança de pa-
representantes das Unidades Básicas de radigma que estamos construindo juntos.
Saúde, um de cada uma do bairro, para fa-
zer a integração da unidade de saúde com a
escola e com o bairro. Vieram também re-
presentantes da Secretaria de Esportes, da
Secretaria da Juventude. Eles também tive-
ram a formação de educador comunitário. 29
Temos também parceria com o Insti-
tuto do Esporte e Educação, que realiza o

uma visita a duas cidades educadoras


esporte social. A gente trabalha nos bair-
ros, utiliza a quadra da escola, não só da
municipal como da estadual, pois os nú-
cleos são do bairro.

ITS brasil Existem muitas parcerias com o


sistema estadual?
del cistia A gente tem muito trabalho
com o sistema estadual. Por exemplo,
tem esta parceria para o Sabe Tudo, que
realiza a inclusão digital, disponibili-
zada para toda a rede estadual. Agora
estamos solicitando autorizações para
construir unidades em nove escolas es-
taduais, nos bairros que não têm escolas
municipais. A Secretaria da Educação já
aprovou e agora depende da aprovação
das instâncias estaduais. O município
vai construir e vai manter. O estado só
vai oferecer o terreno. Muitas das ações
que fazemos, são disponibilizadas tam-
bém para a rede estadual. Porque temos
de melhorar a qualidade de vida da nossa
população, e ela é sorocabana, indepen-
dentemente se está no serviço público
municipal ou estadual.
2. A Escola Integrada
de Belo Horizonte

Belo Horizonte é hoje a cidade coorde-


nadora da Rede Territorial Brasileira de
Cidades Educadoras. Tal título não de-
corre de um acaso, mas sim do desen-
volvimento de uma cultura da partici-
pação no município. Não há dúvida que
as sucessivas administrações públicas,
com visão democrático-popular, garan-
tiram a continuidade e a consolidação de
diversos projetos e programas com for-
te caráter participativo e educativo na ci-
dade, em áreas tão diversas quanto trân-
sito, coleta de lixo, segurança, educação,
habitação e outras. Mas é também a po-
pulação belo-horizontina que, além de
garantir as eleições sucessivas desse pro-
jeto, construiu com o poder público a sua
forma própria de encarar a relação com as
instâncias de governo.
Neste caderno, vamos abordar apenas
o modelo de escola em tempo integral, a
Escola Integrada, que vem sendo imple-
mentado com grande êxito pela prefei-
tura de BH. Este relato foi construído a
partir de entrevista com o secretário da
Educação de Belo Horizonte, Hugo Vo-
curca, o secretário de Relações Interna-
cionais Rodrigo Perpétuo (veja entre-
vista na página 34) e a responsável pelo
programa Escola Integrada, Neusa Ma-
cedo. O ITS Brasil também realizou vi-
sita à Escola Municipal Ulysses Guima-
rães, no bairro São Pedro, sendo recebido
pela diretora Aparecida Augusta de Oli-
veira Decat, no dia 12 de agosto de 2008.

"Todo espaço da cidade, o salão, de uma


igreja, o muro de uma casa, vira espaço edu-
cativo", diz Hugo Vocurca (embaixo)
A proposta O projeto Cidade Escola Aprendiz
“Em primeiro lugar, é sabido que uma A Associação Cidade Escola Aprendiz é uma Organização
das coisas que fazem diferença no apren- da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) que, desde
dizado das crianças é o tempo de perma- 1997, experimenta, aplica e dissemina o conceito de educa-
ção comunitária.
nência na escola. Daí a necessidade de
Para isso, o bairro da Vila Madalena, em São Paulo (SP), onde
dar essa oportunidade a elas. Segundo, o a organização está localizada desde a sua fundação, serve
modelo tradicional do menino dentro da como laboratório pedagógico para as suas ações. Nele são
escola em horário integral ainda é inviá- desenvolvidas e sistematizadas experiências e programas que
ajudam a consolidar a idéia de Bairro-Escola, no qual é criado
vel para o país, devido a problemas com
um amplo espaço educativo, estruturado por uma rede que une
estrutura física e a remuneração dos pro- toda a comunidade, amplia as possibilidades de aprendizagem
fessores. É caro e, por isso, insustentável e melhora a qualidade de vida urbana.
orçamentariamente. Terceiro, este mo-
delo parte de um pressuposto compli-
Sobre a educação comunitária
cado: retirar o menino da rua ou da co- A educação comunitária, a educação integral, o conhecimen-
munidade, colocar dentro da escola. Não to em rede e o desenvolvimento local constituem a trilha con-31
acreditamos que isso dê certo de fato.” ceitual que levou o Aprendiz a elaborar o conceito de Bairro-
Escola.
Estes são os três pontos de partida bási-
No Bairro-Escola, os processos formativos extrapolam

uma visita a duas cidades educadoras


cos apontados pelo secretário da Educa- o contexto escolar e tomam a cidade. As separações que
ção de Belo Horizonte, Hugo Vocurca, cindem o conhecimento entre dimensões acadêmica/popu-
como aqueles que motivaram a criação lar, teórica/vivida, racional/afetiva, intelectual/corporal,
individual/coletiva são superadas na construção de uma
do formato da Escola Integrada.
comunidade de aprendizagem. Nesta perspectiva, a educa-
Partiu-se da experiência do Bairro- ção é uma responsabilidade compartilhada entre pais, edu-
Escola da cidade de Nova Iguaçu (RJ), cadores, estudantes e a comunidade e não uma tarefa de
onde se viu a possibilidade concreta de especialistas. Para tanto, propõe-se a criação de políticas
intersetoriais geridas por conselhos de bairro.
fazer um programa de escola em tempo
O desenvolvimento humano integral é a principal preocupa-
integral, com atividades que fortaleces- ção da educação comunitária. e a autonomia, portanto, é
sem o vínculo com a comunidade, e com seu meio e fim. A cidade oferece aos aprendizes (estudan-
orçamento baixo. Outra referência foi o tes e educadores) uma série de oportunidades educativas a
serem exercitadas face às suas potencialidades, carências
Projeto Aprendiz, que acontece no bair-
e problemas.
ro da Vila Madalena, em São Paulo (SP). O currículo é um mapa que orienta as experiências singula-
Foram então agregados dois fatores. res e lhes confere um sentido comum; projetos individuais
“Nova Iguaçu tem um pouco disso, mas e coletivos estruturam o desejo de aprender e de intervir
na cidade. As relações temporais e espaciais são cons-
aqui em Belo Horizonte, todos os órgãos
truídas pela participação de todos e os conflitos que delas
públicos tem uma pessoa destacada pa- advêm são vistos de maneira positiva e geridos de modo
ra o programa Escola Integrada, para re- democrático.
solver os problemas que aparecem. E são
Texto fornecido pelo projeto Cidade Escola Aprendiz e tam-
muitos. Às vezes é remover uma lixeira,
bém disponível em http://aprendiz.uol.com.br
cortar uma árvore, fazer a sinalização de
ruas, formar agente cultural...”, expli-
ca Vocurca. O segundo fator é a parceria
com as universidades, que desenvolvem
atividades com estagiários em regime de
extensão. As universidades compõem
um cardápio de atividades para as esco- De um total de 170 escolas de ensino
las, selecionadas conforme suas necessi- fundamental na rede municipal, 53 são in-
dades, desejos e disponibilidade. Os uni- tegradas. Hoje o programa atende cerca de
versitários têm um dia de formação na 15 mil crianças, e a meta é chegar a 100 mil,
própria universidade. A parceria com as de um total aproximado de 130 mil.
universidades foi uma maneira de quali-
ficar esse atendimento.
A principal característica desse forma- Como acontece
to é a utilização de espaços na cidade. Vo- O programa conta com o professor co-
curca afirma que “todo espaço da cidade, munitário, pessoa que coordena o traba-
o salão de uma igreja, o muro de uma casa, lho dentro da escola. Quando ela pensa
tudo vira espaço educativo”. em integrar, precisa pensar nesta pessoa,
Para buscar esses espaços na comuni- necessariamente um professor concur-
dade, coordenar os horários e se respon- sado do quadro da escola, mas com um
32 sabilizar pela articulação do programa, perfil muito específico. De preferência
cada escola destaca um professor. Ele se- deve ser morador, ou já ter relaciona-
rá o professor comunitário. É quem fica mento com a comunidade. A escola deve
instituto de tecnologia social

encarregado de pensar a matriz educa- reunir o seu coletivo de educadores para


tiva, conversar com as universidades e saber se há, de fato, interesse; e se todos
buscar espaços. concordam em fazer a passagem para Es-
O programa é totalmente baseado em cola Integrada. Depois reúne a comuni-
adesão. Isso vale tanto para a escola, que dade. A partir daí, o professor comunitá-
deve passar por algumas adaptações es- rio começa sua atuação. Ela consiste em
truturais, principalmente de cantina/ buscar espaços na comunidade, entrar
refeitório e banheiro/vestiários quan- em contato com líderes comunitários e/
to para o aluno e sua família. Pois, se não ou pessoas representativas da comuni-
quiserem aderir, a escola oferece o mode- dade em busca de apoio e, sobretudo, de
lo tradicional. “A gente procura articular espaços para realizar as oficinas.
as áreas para que as famílias conheçam o Por esta razão é o território que dá a
programa etc. e articular com programas cara do programa. Depende dos espaços
como o Bolsa Família...”, diz Vocurca. e das pessoas daquela comunidade. Por
Qualquer instituição, qualquer cida- exemplo, uma escola situada nas proxi-
dão, pode contribuir. A idéia é que um midades de um parque terá atividades di-
artista, um professor, um médico, po- ferenciadas de outra, que não conta com
de doar parte do seu tempo para reali- esse tipo de estrutura urbana.
zar uma atividade na escola. “Queremos O único professor que lida com os alu-
criar um prêmio para as pessoas que aju- nos nas atividades específicas do progra-
dem a Escola Integrada. Não é só o pai ma, ou seja, nas quatro horas e meia do
que quer saber como vão as notas do fi- contraturno, é o professor comunitário.
lho. Pensamos na responsabilidade da Ele busca os espaços e estabelece as par-
comunidade com a escola. Não pensa- cerias. O uso dos espaços pode ser sem
mos em remuneração, apenas “o reco- ônus para a prefeitura. Eventualmente
nhecimento”, apresenta Vocurca. acerta-se um valor para ajuda de custo
que permita cobrir gastos com água e luz, Uma estratégia-chave na integração
por exemplo. De posse dessas informa- entre os dois turnos é a parceria com o
ções, o professor comunitário constrói a Inhotim, instituto de arte contempo-
matriz curricular. Ou seja, a grade de ati- rânea localizado na cidade de Brumadi-
vidades e seus horários para cada turma. nho, interior de Minas Gerais. A parce-
A orientação da Secretaria de Educação é ria foi feita mediante convênio, visando
a de que a matriz seja construída em con- a motivar e estimular a ampliação dos co-
junto com o coletivo da escola. Segundo nhecimentos no contato com o meio am-
Neusa Macedo, responsável pelo progra- biente e pela integração da arte com a na-
ma Escola Integrada, “algumas escolas tureza. Promovem-se ações de formação
têm conseguido realizar isso com muito dos professores comunitários, monito-
sucesso, outras ainda não. É um desafio res, agentes culturais e alunos, tendo o
muito grande para nós, essa integração acervo artístico e botânico do Inhotim
de um turno com o outro”. como agente de inclusão e valorização da
identidade cultural. 33
O convênio atenderá 12 mil alunos de
escolas integradas e seus educadores. Duas
Das 170 escolas de ensino

uma visita a duas cidades educadoras


vezes por semana, às terças e quartas feiras,
grupos de duzentos alunos, organizados
fundamental na rede por ciclos de formação e acompanhados
municipal, 53 são integradas. de seus educadores, visitam o Inhotim.
Hoje o programa atende Os educadores são tanto os professores do
horário regular/parcial quanto os agentes
cerca de 15 mil crianças, culturais, estagiários das universidades e
e a meta é chegar a 100 mil. professores comunitários.
Todos eles passam o dia no instituto.
Enquanto os alunos participam de visi-
tas monitoradas, a equipe de educado-
Neusa identifica a prática de reuni- res das escolas passa por formação, com
ões de todo o coletivo de educadores o objetivo de desenvolver, coletivamen-
que atua com as crianças, desde os agen- te, projetos nas áreas de arte ou meio am-
tes culturais até os professores das áre- biente. Desta forma, é possível promo-
as, como a principal característica das ver a integração dos turnos em algumas
escolas mais bem sucedidas na integra- escolas. Neusa Macedo conta que, para
ção dos dois turnos. “Aí há mais inter- 2009, estão sendo concebidas outras ati-
câmbio e a construção da matriz é mais vidades “a serem realizadas no âmbito da
coletiva”, avalia. Em outras escolas, há escola, tais como a efetivação da constru-
uma maior lentidão para se assimilar es- ção das matrizes curriculares pelo coleti-
se elemento novo na vida escolar, que é vo de educadores que atuam com os alu-
o professor comunitário. A construção nos e com os próprios alunos”.
do diálogo entre esses dois níveis é um
dos focos do trabalho da equipe de coor-
denação em suas visitas às escolas.
A construção da matriz curricular nizadas pelo professor comunitário na
As instituições de ensino superior matriz curricular a partir das atividades
parceiras da Escola Integrada colocam oferecidas pelos agentes culturais e pe-
as atividades à disposição do programa. los universitários; uma hora e meia é gas-
Assim se elabora um “cardápio” de ati- ta com a mobilidade, o almoço, descanso
vidades para as escolas. Há, por exemplo, e, eventualmente, banho.
dez universidades conveniadas, que de- O estagiário da universidade tem
finem quais oficinas poderão ser ofereci- uma bolsa-estágio. Sua jornada, que po-
das por seus alunos, em regime de exten- de ir de 20 a 30 horas, divididas entre o
são universitária. As oficinas abordam os trabalho com os alunos, um tempo com o
temas mais diversos, desde higiene pes- professor comunitário e um tempo com
soal e cuidados com o corpo até robóti- o seu coordenador na universidade.
ca, física, música, atividades esportivas,
e assim por diante. Ao todo, são mais
34 de duzentas oficinas disponibilizadas.
Diante desse cardápio de ofertas, as es- Relatório de avaliação
colas selecionam as atividades que dese- do Ideb mostrou
um desempenho de
instituto de tecnologia social

jam trazer para seus alunos.


Outra figura que atua nas escolas é o
agente cultural, com perfil definido por aprendizagem das escolas
algumas diretrizes. Em geral, ele deve integradas 15% superior
ter completado o ensino médio. Além em relação às demais,
disso recomenda-se que ele participe
de algum movimento cultural na cida- segundo Neusa Macedo
de e que tenha alguma experiência an-
terior de trabalho com jovens. Neusa
Macedo conta que “já havia uma expe- Os agentes culturais têm uma jorna-
riência muito grande com esses agentes da de 20 a 40 horas, incluindo um tempo
culturais. Alguns deles atuam na escola com o professor comunitário e um tem-
há muito tempo, por meio do programa po maior com os alunos. Eles passam por
Escola Aberta e de projetos pedagógicos formação coordenada pela própria Se-
das escolas. Isso já possibilita a sua con- cretaria de Educação, em conjunto com
tratação. São pessoas que de certa forma, a Secretaria Municipal de Cultura. A for-
já estavam na escola. O programa apenas mação inclui um período de discussões
potencializa isso, Acreditamos que esse e palestras sobre temas levantados pelos
saber social deve estar presente na esco- próprios agentes, como adolescência, in-
la, junto da cultura acadêmica”. fância, relações étnico-raciais, entre ou-
São nove horas diárias de atividade. tros, e um período de oficinas temáticas
Metade com o turno regular, com au- que são uma qualificação da próprias prá-
las da escola, e as outras quatro horas e ticas deles na escola – que envolve artesa-
meia são da jornada complementar es- nato, dança, música, letramento, novas
pecífica da Escola Integrada. Destas, três mídias, variando de acordo com a área de
horas são ocupadas com oficinas, orga- interesse e as oficinas do agente.
As escolas têm autonomia financeira
por meio das caixas escolares. No caso da
Escola Integrada, é depositada uma verba
na caixa escolar que o diretor pode operar
conforme as necessidades. A escola pede a
verba que ela própria gerencia, para com-
pra de materiais e o pagamento dos agen-
tes culturais e das bolsas dos universitá-
rios.
Ainda não é possível chegar a um
veredito final sobre o impacto deste pro-
grama no desempenho dos alunos. ou
seja, não apenas os ganhos em saúde,
higiene e bem estar, mas principalmente
no aprendizado das disciplinas do turno 35
regular. Este, no entanto, permanece co-
mo o objetivo central do programa, se-

uma visita a duas cidades educadoras


gundo Hugo Vocurca: “Todo o esforço,
se não redundar na melhora do apren-
dizado, será deficiente”. Segundo Neu-
sa Macedo, o relatório mais recente di-
vulgando o resultado das avaliações do
Índice de Desenvolvimento da Educação
Básica (Ideb) mostrou um desempenho
de aprendizagem das escolas integradas
15% superior em relação às demais, o que
já é um ganho bastante significativo.
Entrevista com ITS brasil Qual o lugar da Escola Integra-
Rodrigo Perpétuo, da na estratégia de Belo Horizonte como
cidade educadora?
secretário de Relações
Rodrigo Perpétuo Existe em Belo Horizon-
Internacionais de te um esforço para se resgatar a escola co-
Belo Horizonte mo referência da comunidade, referência
para a família, para outras instituições, clu-
bes, igrejas, empresas, entidades de classe.
A entrevista a seguir com o secretário Resgatar a escola como referência de edu-
adjunto de Relações Internacionais de cação, pois muitas vezes isso está perdido.
Belo Horizonte, Rodrigo Perpétuo, teve O conceito de cidade educadora é mais
como tema principal o projeto belo-ho- amplo que isso. A Escola Integrada se
rizontino de cidade educadora. Perpétuo identifica com esse conceito ao permitir
recebeu o ITS Brasil no dia 12 agosto de a realização de atividades fora da escola,
2008, no gabinete do secretário de Edu- permitir a interação da escola com a cida-
cação, Hugo Vocurca, que também es- de e que o aluno tenha outras oportuni-
tava presente. A simplicidade e o bom dades no seu processo de formação. Não
humor com que ambos se dispuseram a é possível construir um conceito de Cida-
discutir temas ligados à administração de Educadora, implementado de maneira
pública de BH traduziram o espírito do ampla, sem a força da educação formal.
que seja uma cidade educadora. Para co-
locar em palavras, o essencial é construir ITS brasil Essa integração, vínculo com a co-
a relação entre a prefeitura e a população munidade, envolve uma questão forte de ci-
com base na discussão franca dos proble- dadania. Mas existem programas de forma-
mas e na busca dialogada por soluções, ção para a cidadania, para a participação?
procurando no aprendizado coletivo os Perpétuo Eu diria que, para ter condições
elementos que darão a sustentabilida- de colocar um programa da envergadu-
de aos caminhos escolhidos. Confira os ra da Escola Integrada na cidade, tem que
principais trechos. se criar o ambiente para isso. Belo Hori-
"Belo Horizonte tem dezesseis anos de governo
democrático-popular, um governo que prega e exer-
cita práticas democrático-populares e por isso tem
credibilidade para dialogar com a comunidade"

zonte tem dezesseis anos de governo conscientização dos espaços públicos; aí a 37


democrático-popular, um governo que Escola Integrada tem função importante
prega e exercita práticas democrático- de sentimento de apropriação. A família,

uma visita a duas cidades educadoras


populares, como o Orçamento Participa- quando a criança começa a usar o parque
tivo, uma prática inspiradora. Outras ci- para entender as ciências, o que é a natu-
dades do mundo desejam saber como é reza, o meio ambiente, passa a zelar por
que a gente faz esse trabalho. O governo aquele espaço. O programa de recupera-
tem credibilidade para dialogar com a co- ção urbana, chamado Nascentes, recu-
munidade, neste caso a partir da escola. pera córregos, faz uma proteção e o deixa
O programa da Escola Integrada man- aberto para a comunidade. Espera-se que
tém, através da Secretária Municipal de ela não volte a poluir o córrego. O progra-
Educação (Smed), em parceria com as re- ma Saúde da Família em Belo Horizonte
gionais, um Fórum que envolve toda a é referência e o BH Cidadania trabalha a
comunidade em diálogo periódico. Par- família de uma forma mais ampla. Tem o
ticipam todos os representantes das ins- Pré-Morar, o Pós-Morar – quando uma fa-
tituições parceiras, de outras entidades, mília é deslocada, ela é educada pra morar
inclusive a polícia, o corpo de bombeiros num condomínio e conviver com seus vi-
e as famílias. O diálogo acontece às vezes zinhos de forma harmônica. O programa
na escola, às vezes na regional da prefei- só abandona este processo depois de um
tura. Apesar de não ser um processo de ano. Existe um conjunto de atividades e
educação formal, isso tudo vai criando o programas do município que se somam e
ambiente para a construção da cidadania, que dão a BH condições de ser a cidade co-
e aí entram as outras componentes da Ci- ordenadora da Associação Internacional
dade Educadora. de Cidades Educadoras no Brasil.
Por exemplo, existe o programa per-
manente da educação para o trânsito. A ITS brasil Como isso se construiu ao longo
BH Trans tem o programa “Eu respeito”. desses dezesseis anos?
O programa da superintendência de lim- Perpétuo Aqui, ninguém enxerga a cida-
peza urbana, o BH Cidade Limpa, cria a de como um organograma fragmentado.
BH tem várias dimensões e a gente pro-
vila viva
O Vila Viva é um projeto de intervenção urbanística real- cura resolver de maneira integrada. Mui-
izado no Aglomerado da Serra, área de favelas de Belo tas vezes as pessoas vêm aqui buscan-
Horizonte. Sua principal característica, que faz dele uma do uma resposta, como faz isso, como
tecnologia social complexa e eficaz, é a de integrar à re-
faz aquilo. Nós dizemos como fizemos,
estruturação urbanístico-ambiental os processos sociais
que ocorrem ali. compartilhamos o problema, sentamos
O Aglomerado da Serra é uma área de encosta, com locais com os atores ali, discutimos até chegar a
expostos a riscos como desabamentos, entre outros. uma solução, as pessoas saem daqui um
Resíduos sólidos e esgotos eram jogados nos cursos d’água
pouco frustradas. Mas isso é a essência da
que seccionam as escarpas, cujas matas ciliares estavam
bastante degradadas. Foi feito um Plano Global Específico cidade educadora, é a cidade que busca as
(realizado pela Urbel, empresa municipal de urbanização em suas origens, as suas raízes, o seu local, e
BH, junto com a comunidade), identificando-se a carência aponta para o futuro.
de 13.500 domicílios para cerca de 50 mil habitantes. Outra
deficiência era a educação infantil e fundamental.
A principal ação de re-estruturação do viário é a abertura da ITS brasil Como é que essa cultura da par-
avenida do Cardoso, que ligará o bairro ao centro de BH como ticipação funciona para pensar o desen-
um fator essencial para mudar a relação favela-cidade. A volvimento econômico da cidade?
antiga favela deixa de ser considerada um local inacessível,
Perpétuo A prefeitura não trabalha de for-
um gueto, os ônibus e automóveis passam a chegar até o
coração do bairro e outros serviços públicos, como coleta ma isolada, chamamos isso de “gestão
de lixo, tornam-se possíveis. Concorre também a urbaniza- compartilhada”. Compartilhamos nossa
ção dos becos e a construção de unidades habitacionais, gestão com o governo do estado e o gover-
que suavizam ou eliminam o contraste da paisagem.
no federal. Ao criar na cidade uma possi-
Uma marca do projeto é a construção de edifícios de qua-
tro andares, com dois apartamentos por andar (ver foto na bilidade de redução das desigualdades,
página ao lado). O programa Pré-Morar prepara as pes- uma perspectiva de formação ao longo da
soas para o convívio em um condomínio e o Pós-Morar vida dos cidadãos, ao readequar estrutu-
acompanha a superação de conflitos até um ano após a
ras urbanas da cidade, ao requalificar a ci-
mudança. Cada etapa é realizada com um programa de
acompanhamento social. dade, se quiser resumir assim, se está dan-
Parte da mão de obra é recrutada e capacitada na própria do um sinal para o setor privado de que
comunidade. Formam-se pedreiros, carpinteiros, eletricis- aqui é um bom lugar para se investir. De
tas etc., que após concluídos os trabalhos terão mais chanc-
fato, nos jornais da semana passada pode-
es de inserção no mercado de trabalho. O uniforme da obra é
confeccionado por mulheres organizadas em cooperativas se ver que BH foi a cidade que mais gerou
de costura, que também recebem formação. emprego dentre as capitais brasileiras.
Estas ações são integradas com uma intensa intervenção
ambiental, com a remoção de famílias das margens dos
ITS brasil O senhor poderia falar um pou-
cursos d’água, 100% de captação de esgotos, recuperação
das matas ciliares e a criação de áreas de lazer e esportes co sobre um processo de re-estruturação
nos locais. Os programas incluem a educação sanitária e urbana como o Vila Viva? Como a escola
ambiental, tanto com crianças que frequentam as novas uni- participa?
dades escolares quanto com o restante da comunidade.
Perpétuo Aquela região está passando
por um processo de melhoria, ela não ti-
nha uma escola, não tinha escola infan-
til. Existem aí dois aspectos. Primeiro, a
credibilidade do poder público para fa-
zer uma intervenção urbana junto da co-
munidade, ouvindo a comunidade. Es-
tou falando de Orçamento Participativo
também, que é uma componente impor-
tante, mas a própria obra como um todo
precisa ser debatida e pactuada com a co-
munidade, mesmo não sendo recursos
do Orçamento Participativo.
O Vila Viva é um modelo de urbaniza-
ção de favelas no Brasil todo. Qual é a tec-
nologia que inspira outras cidades a vir em
aqui beber da nossa fonte? É a construção,
é o processo de urbanização em si? Não,
isso todo mundo faz. O difícil é articular
todo o processo urbano com os processos
sociais. Isso sim é a nossa tecnologia.
E esse diálogo com a comunidade não
é uma coisa que se faz da noite pro dia,
ele tem que ser construído permanente-
mente, pois é muito frágil, é muito fácil
de perder. Tem de envolver todos os ato-
res que participam não só da obra, mas
que estão presentes na comunidade.
O Vila Viva busca empregar boa parte
da mão de obra da população local, capaci-
ta essas pessoas pra que possam encontrar
emprego em outros lugares após o térmi-
no da obra, e organizam as esposas desses
trabalhadores, e em cooperativas para a
produção de uniformes usados na obra.
Qualquer intervenção gera um des-
conforto. Mesmo quando melhora a vida
das pessoas, é necessário construir esse
argumento com elas, envolvê-las nis-
so, senão elas resistem. O diferencial da
prefeitura de Belo Horizonte em relação
a outras é a capacidade de diálogo. Aí a es-
cola vem cumprir seu papel. Sem a esco-
la, não há perspectiva de futuro para esse
processo. É uma cultura de participação
que se dissemina na cidade.
escola cidadã: uma
proposta do Instituto
Paulo Freire
M oacir Gadotti e Paulo Roberto bilidade sobre os processos formadores 41
Padilha (2004, p.121-2), diretores presentes na vida do município, trans-
do Instituto Paulo Freire, explicam que formando-os em seus principais instru-

Escola cidadã – instituto paulo freire


A relação entre “escola cidadã” e “cidade educa- mentos de gestão pública, que, nesse ca-
dora” encontra-se na própria origem etimoló- so, é necessariamente participativa. Daí
gica das palavras “cidade” e “cidadão”. Ambas que em ambos os casos esteja previsto
derivam da mesma palavra latina civis, cidadão, um processo de aprendizado para e pe-
membro livre de uma cidade a que pertence por la cidadania, para e pela participação. Os
origem ou adoção, portanto sujeito de um lugar, autores citam a definição que o próprio
aquele que se apropriou de um espaço, de um lu- Paulo Freire (apud Gadotti & Padilha, 2004,
gar. Assim, “cidade” (civitas) é uma comunidade p.123) deu para a escola cidadã:
política cujos membros, os cidadãos, se autogo-
vernam, e “cidadão” é a pessoa que goza do direi-
A Escola Cidadã é aquela que se assume como
to de cidade. “Cidade”, “cidadão”, “cidadania”
um centro de direitos e de deveres. O que a
referem-se a uma certa concepção da vida das
caracteriza é a formação para a cidadania. (...) Ela
pessoas, daquelas que vivem de forma “civiliza-
é cidadã na medida mesma em que se exercita
da” (de civilitas, afabilidade, bondade, cortesia),
na construção da cidadania de quem usa o seu
participando de um mesmo território, autogo-
espaço. (...). É uma escola de produção comum
vernando-se, construindo uma “civilização”.
do saber e da liberdade. É uma escola que vive a
experiência tensa da democracia.
É interessante introduzir a discussão
sobre a escola cidadã após termos relata-
do algumas experiências de cidades edu- O Instituto Paulo Freire vem desen-
cadoras, a partir da origem das palavras volvendo parceria com três administra-
que estão em jogo. De um lado, a esco- ções municipais para a implementação
la cidadã é aquela que se volta à “cida- de uma proposta freiriana de educação
de”, ou seja, ao espaço público em que as cidadã: em Osasco, na Região Metropoli-
pessoas constroem vidas em comunida- tana de São Paulo (SP), em Sorocaba (ver
de. De outro, a cidade educadora é aque- neste caderno), no interior do estado de
la que assume a consciência e a responsa- São Paulo, e em Nova Iguaçu, na Baixada
Fluminense, estado do Rio de Janeiro.
conversa com ITS brasil Quais são os fundamentos da es-
cola cidadã?
educadores do IPF Alcir Caria Os fundamentos da escola ci-
dadã – a partir do que dizem Moacir Gadot-
Este diálogo com alguns dos coor- ti, Paulo Roberto Padilha, Paulo Freire, Jo-
denadores do Programa Escola Cidadã sé Eustáquio Romão – são os seguintes:
aconteceu no dia 28 de julho de 2008, na 1. seu financiamento é viabilizado pelo
sede do Instituto Paulo Freire, no bairro Estado (o que já indica um recorte polí-
da Lapa, em São Paulo. Nosso principal tico-ideológico claro); 2. a destinação é
tema foi a experiência de Sorocaba, mas pública; 3. a gestão é democrática.
várias ideias de alcance mais geral foram Aí temos uma questão histórica: o fato de
trazidas para a conversa, além das pos- você ter uma rede estatal de ensino não
síveis conexões dessa proposta de esco- quer dizer que ela seja pública. Na verda-
la com o desenvolvimento local. Partici- de, quem define o currículo dessas esco-
param Francisco Pini, da coordenadoria las são os especialistas em educação que
da Educação Cidadã; Eliseu Muniz dos estão a serviço do Estado, quem define
Santos, responsável pelo projeto em o cotidiano daquele espaço são os traba-
Sorocaba; Alcir Caria, responsável pe- lhadores da educação. A população fica
la formação dos gestores educacionais; ausente deste processo. Por isso a escola
Silvia Carvalho, responsável pelo prota- cidadã propõe um rompimento históri-
gonismo infanto-juvenil; e Juliana Fon- co, permitir que o arranjo escolar se dê na
seca O. Neri, responsável pela formação esfera pública. Não há nada, em matéria
dos Conselhos de Escola. de educação, que a população não possa
discutir, debater, conversar, modificar,
desde o processo de elaboração do Plano
Municipal de Educação – uma experiên-
Na foto acima, a atual equipe do projeto Escola
cia muito bonita que a gente está viven-
Cidadã em Sorocaba: Alcir Caria, Alessandra Santos,
Francisco Pini, Eliseu Muniz, Danila Garrido Pereira do hoje em Osasco, com a população to-
e Juliana Fonseca O. Neri talmente apta e qualificada para definir as
"A escola cidadã, como uma expressão da cidade
educadora, caminha no sentido de fortalecer os
espaços de participação, de aprendizagem da
comunidade"

suas prioridades –, até discutir a lei que or- ITS brasil De que modo esses saberes po- 43
ganiza os conselhos de escolas, que tam- pulares são incorporados ao currículo
bém são conselhos gestores e que a legis- escolar?

Escola cidadã – instituto paulo freire


lação permite que sejam elaborados . Caria Quando você fala em educação po-
francisco pini Gostaria de enfatizar um pular e como ela afeta o currículo da esco-
fundamento da educação popular, Esse la regular, entra um importante processo
exercício para e pela cidadania, requer metodológico, o processo de “leitura do
um novo ordenamento de escola. Da for- mundo”, uma concepção freiriana que
ma como estava concebida, a escola não ressignifica verticalmente a natureza do
permitia que os saberes populares aden- currículo da escola.
trassem o currículo. Partir do conheci-
Na escola cidadã, é direito de todas as
mento do educando, do conhecimento
crianças aprenderem tudo o que pude-
já estruturado, não era parte constitu-
rem aprender de matemática, ciências,
tiva do processo de ensino-aprendiza-
geografia, língua portuguesa, ou seja, nós
gem. Na escola cidadã, parte-se do co-
não podemos roubar delas o acesso a es-
nhecimento do educando para construir
ses conhecimentos estruturados histori-
com ele o conhecimento.
camente. Mas, na escola cidadã tampou-
Isso é uma mudança central, porque
co podemos roubar o direito das pessoas
você educa para e pela cidadania, e você se
aprenderem a ler o mundo, ou seja, dis-
constrói sujeito do processo. Alunos e pro-
fessores ensinam e aprendem. É um fun- cutir a realidade por elas vivida. Em que
damento que não se pode deixar de men- medida o currículo escolar permite que
cionar. A escola cidadã nasce justamente se discuta a razão pela qual há dez anos
da crítica do modelo elitista de educação aquele esgoto que passa na rua debaixo
das décadas de 80 e 90. No próprio pro- da escola ainda está a céu aberto? Discutir
jeto da Constituinte no Brasil se discutia, por que ainda existe uma massa de traba-
por meio dos educadores populares, que lhadores informais naquela região? A lei-
concepção de escola era essa, pública, gra- tura do mundo é um direito das pessoas e
tuita e financiada pelo Estado. a escola precisa viabilizar este direito.
Quando se fala em leitura do mun- pal. O Programa Escola Cidadã, quando
do como direito, o currículo escolar fi- começa a dialogar com as cidades, discu-
ca mais amplo. O currículo não é apenas te estas questões, mas também discute
aquele arcabouço de conhecimentos que quais são os impedimentos estruturan-
eu ensino a crianças ou jovens. Currículo tes que hoje marcam o relacionamento
escolar são todos os conhecimentos pro- da escola com a sua comunidade.
duzidos na escola e que afetam as crian-
ITS brasil Quais são estes impedimentos,
ças, os adultos, as famílias e as pessoas
as forças de resistência?
que na escola trabalham.
Pini O Alcir falou da questão da reprodu-
ITS brasil Como se constrói essa participa- ção tecnocrática. Parte das pessoas que
ção? E de que modo a Escola Cidadã encara estão nos órgãos de decisão – Secreta-
a questão dos colegiados escolares? ria de Educação, Conselho Municipal de
Caria O enfraquecimento dos colegiados Educação – não tem a cultura dos direi-
provocou uma grande crise dentro da es- tos. Assim, elas não conseguem traduzir
cola pública. O colegiado gestor – pela para a população que as decisões não são
qual em tese a legislação permite que a matéria estritamente técnica, são tam-
escola organize para decidir aspectos de bém matéria política, e por isso reque-
interesse coletivo – é muito fraco, por- rem a participação popular. Em Osasco,
que as pessoas não vivenciaram a parti- no ano de 2007, nós desencadeamos um
cipação. A escola cidadã é um espaço on- processo junto da Secretaria de Educação
de isto pode ser aprendido. de elaboração de uma lei que cria o Siste-
A escola pública precisa investir na ma Municipal de Educação.
formação dos conselheiros, na forma- O resultado foi totalmente opos-
ção dos pais e estimular os pais para uma to a este sistema tecnocrático que o Al-
maior participação. Isto também é currí- cir acabou de descrever. A secretária [da
culo da escola. A LDB [Lei de Diretrizes e Educação] chamou todos os segmentos
Bases da Educação] flexibilizou, tornou que compõem a rede de educação. Para
muito mais simples, deu mais garantias nossa surpresa, o que em tese é técnico
e possibilidades para os municípios rein- passou a ser de conhecimento comum,
ventarem seus sistemas. Apesar disso, inclusive da família, que historicamente
os sistemas criados nos âmbitos munici- nunca foi chamada a participar de pro-
pais nada mais são que uma réplica, uma cessos como estes.
repetição do modelo tecnocrático, buro- É a cultura do gestor, a cultura dos
crático que os estados já tinham. operadores desta nova política que pre-
Em vez de municípios pensando sis- cisa ser mudada. Quando temos gestores
temas mais flexíveis, mais participati- que coadunam com esta proposta de es-
vos, mais plurais, mais dinâmicos, o que cola cidadã, que coadunam com o princí-
se vê é a descentralização da burocracia, pio dialógico, democrático, participati-
do controle. Os modelos dos estados, vo, temos criatividade e realizações que
inventados há muito mais tempo, estão vêm ao encontro da política participati-
sendo reproduzidos no âmbito munici- va efetiva.
Osasco fez isso: a criança, o adulto de
leitura do mundo
EJA [educação de jovens e adultos], o ges-
tor, todos participaram do processo de A metodologia da Festa da Escola Cidadã
criação da lei. Agora só falta passar pela A festa resgata a cultura do povo. Para realizá-la como “lei-
tura do mundo” alguns procedimentos precisam ser leva-
última esfera, a Câmara Municipal, para
dos em conta:
ser aprovada como lei. 01. Discutir com a comunidade escolar o significado da festa
Silvia Carvalho Esse movimento de dis- da Escola Cidadã para evitar, desde logo, possíveis simpli-
cussão realizado com os professores, com ficações, resistências e até mesmo manifestações precon-
ceituosas com a idéia da festa. Buscar o diálogo crítico e
os pais, os familiares, a gente realiza com
uma adesão consciente e comprometida com este possível
as crianças também. Porque não teria sen- caminho para iniciarmos a leitura do mundo. (...)
tido se a gente não fizesse um diálogo com 02. Constituir na escola uma Comissão da Festa da Escola
as crianças. O Programa da Escola Cidadã Cidadã – um coletivo instituinte que possa organizar e coor-
denar todo o processo na escola. (...)
propõe um movimento em que as crian-
03. Criar espaços para que toda a comunidade escolar possa
ças possam ter a oportunidade de exercer definir e decidir, conjuntamente, sobre como será a festa da
a cidadania desde a infância. escola, ou seja, sobre quais atividades a escola desenvol-45
A escola é o lugar que vai promo- verá a título de festa.
04. Após a definição das atividades, definir responsabi-
ver este exercício. A gente realiza com
lidades, cronograma das ações e formar os membros da

Escola cidadã – instituto paulo freire


as crianças um exercício de participação Comissão da Festa para coordenar a sistematização pro-
por meio de representação. Elas elegem cessual da festa.
representantes de sala, que se encontram 05. Preparar os membros da comunidade para a busca e
captação de recursos para as diferentes ações relacio-
semanalmente com estagiários aqui do
nadas à festa.
Instituto para discutir a escola que elas 06. Definir um calendário para que haja momentos em que os
têm e a que gostariam de ter, e também participantes das atividades da festa possam apresentar o
os problemas que afetam a escola. Nesta resultado dos trabalhos para um público ampliado, em even-
tos organizando o encontro de várias escolas (interescola-
discussão, que acontece numa atividade
res) e também destes com as escolas de outros pólos etc.
lúdica, a criança tem a oportunidade de 07. Estar permanentemente dando o retorno à comunidade
pensar a sua escola, o seu bairro, a sua ci- escolar sobre o resultado dos trabalhos e das atividades
dade. Isso é importante porque ela prati- desenvolvidas, após a avaliação coletiva da festa e de todo
o processo.
ca o seu direito e vai se preparando para o
08. Em regime de colaboração com o Conselho Escolar/
exercício da cidadania na sociedade. Colegiados Escolares/Conselho Consultivo e Deliberativo da
Escola, com as assembleias ampliadas (...) e com os demais
ITS brasil isso acontece desde que idade? colegiados ou comissões existentes na escola e na comuni-
dade, realizar e coordenar a discussão do marco referencial
carvalho terceira, quarta série – oito, no-
do projeto político-pedagógico da escola, sobretudo a partir
ve, dez anos. da sistematização da experiência da festa, cujos registros
pini O exercício de cidadania em Osasco serão objeto da reflexão de todos os segmentos escola-
ocorre desde a educação infantil, aos cin- res e se transformaram, por exemplo, em material didático
pedagógico a ser trabalhado em sala de aula durante todo
co anos. Isso é mudança na cultura po-
o processo de construção, execução e avaliação do projeto
lítica, que de fato contribuirá para criar político-pedagógico da escola. Daí ser esse processo políti-
novos cidadãos, pessoas que vão pensar co, pedagógico e aprendente em si mesmo.
este país no presente e no futuro, de ou- 09. Processualmente avaliar o processo e atualizar o dire-
cionamento do olhar em relação a determinados enfoques
tra forma. Serão pedagogos, assistentes
e dimensões que se deseja pesquisar, de acordo com a pró-
sociais, advogados, chefes de Estado que
vão ter uma nova cultura política. Tanto n
n pria dinâmica escolar/comunitária, para que a festa esteja
Sorocaba quanto Osasco têm investido
na participação política desde a infância,
sempre voltada para a construção do currículo da escola e isto é o mais inovador.
da atualização do seu projeto político-pedagógico (...). Tenho discutido muito com pessoas
10. Tornar a festa um evento permanente na escola e na que participavam da política na década
comunidade, mas sempre diferenciada, atualizando lingua-
de 70. É diferente a participação da clas-
gens, atividades, oficinas, cursos. Sempre que possível,
trocar experiências com outras escolas, comunidades, se média da década de 70 da de uma es-
bairros, municípios, estados e também com outros países, cola pública deste século 21. A pessoa me
visando ao intercâmbio cultural e científico cada vez mais diz “na minha época já era assim”. Aí eu
ampliado. Dessas trocas de experiências, procurar registrar
respondo “não, na sua época quem par-
sempre o processo e suas consolidações, de forma a que as
decisões nos diferentes níveis possam servir, efetivamente, ticipava era quem já tinha assegurado o
como subsídios fundamentais para a definição das políticas direito. Em 1988 foi que este país passou
públicas educacionais. a assegurar a participação de todos, antes
Como vimos, são várias as possibilidades da realização da
era só para alguns”. Queria que alguém
festa da Escola Cidadã e inúmeros os seus possíveis forma-
46 dissesse o contrário, mas o fato é que as
tos. Cada escola deve ter a possibilidade de escolher o seu,
de criar e inovar. O fundamental é que haja um movimento crianças não podiam participar.
positivo na escola e na comunidade e que escolhas sejam Este investimento de Sorocaba na
feitas, processualmente, para orientar o olhar para determi-
instituto de tecnologia social

participação infanto-juvenil é destacá-


nadas dimensões e características de interesse da própria
comunidade escolar, porque o projeto político-pedagógico vel para uma cidade educadora. Isto vai
da escola, nascido da leitura do mundo, estará ressignifi- modificar e está colaborando com uma
cado e será resultado de um planejamento dialógico, par- geração que vai transformar de fato a so-
ticipativo, interativo, e não mais representará apenas um
ciedade. Isto é pensar na sustentabilida-
documento burocrático, puramente técnico e sem vida.
de do planeta, você investe localmente e
Paulo Roberto Padilha (2004, p. 286-316), diretor isso vai ter ressonância mundial.
de Desenvolvimento Institucional do Instituto Paulo Freire. carvalho Você perguntou sobre as resis-
tências que a gente encontra. A escola é
marcada por uma tradição conservado-
ra e autoritária. Isso não só em Soroca-
ba e Osasco, é uma cultura que ainda não
reconhece o direito que a criança tem de
participar dos processos educativos da
escola, do seu bairro e da cidade. A maior
resistência que a gente encontra é essa, a
mudança de cultura.
A gente propõe para as crianças essa
reflexão e vai mudando. A questão do cur-
rículo, além do que o Alcir falou, é o prin-
cipal desafio. Entender o currículo consi-
derando estas questões: como a criança
participa da elaboração desse currícu-
lo? Que contribuições ela tem para dar?
O que é importante aprender na escola?
Quais as leituras do mundo que ela traz?
"A escola é marcada os pais para pensar a escola, a educação,

por uma tradição dando voz a esses pais que historicamen-


te não tiveram esta cultura.
conservadora e Nestes processos formadores, os fami-
autoritária. é uma cultura liares freqüentemente dão uma devoluti-

que ainda não reconhece va para a gente: eles se sentem sujeitos,


pois nunca tiveram voz, nunca ninguém
o direito que a criança perguntou a sua opinião em relação a is-
tem de participar dos so. Quando a gente convida para pensar

processos educativos e participar da escola de uma forma dife-


rente, eles dizem que “se sentem gente”.
da escola, do seu bairro Neste sentido, os familiares também
e da sua cidade" se constroem como sujeitos. Os fami-
liares também estão sendo desafiados a
participar da gestão democrática da es- 47
pini A nossa metodologia é construída cola nos conselhos de Associações de
com os sujeitos. Quem discute e quem Pais e Mestres (APMs). Em Sorocaba, por

Escola cidadã – instituto paulo freire


define os conteúdos? É evidente que há exemplo, não existe conselho de escola
uma diretriz política, um projeto de go- constituído. As escolas têm APMs, mas
verno, mas naquilo que será desenvolvi- com aquela visão – que a maioria do nos-
do os sujeitos têm participação e podem so país tem – de uma instância de arreca-
interferir. A gente pode chegar com uma dação de dinheiro. Na verdade, também
programação, mas ela é debatida, rearti- é função da APM pensar a escola, delibe-
culada, replanejada. Assim, no início a rar sobre as suas questões.
gente enfrenta um alto grau de resistên- Há uma coisa que os pais têm levan-
cia, porque essa mudança política requer tado em relação à cidade educadora, um
que nós quebremos nossos preconcei- impasse que eles colocam e que a gente
tos, nossas verdades, as nossas certezas ainda não teve como resolver: por que só
e trabalhemos nesta perspectiva crítica, as escolas municipais têm o Programa Es-
participativa. Quando a escola percebe cola Cidadã? A gente está falando de uma
que este caminho favorece o crescimen- cidade educadora, por que não há escola
to de todos, ela adere à proposta e a cons- cidadã nas escolas estaduais também?
trução fica muito mais prazerosa.
ITS brasil Gostaria de desenvolver este
ITS brasil Como tem sido a participação ponto. Como se dá essa articulação do
dos familiares? Programa Escola Cidadã com a proposta
Juliana Fonseca Este é outro impasse das cidades educadoras?
que a gente tem que quebrar nas forma- pini Quando o município adere à Carta
ções, esta cultura de que o pai e a mãe vão das Cidades Educadoras, há um processo
à escola só para saber nota ou só para ter que começa na escola, mas que não deve
aborrecimento. Quando a gente fala de parar aí. Quais as interfaces que o municí-
leitura do mundo para a construção do pio tem feito com a Secretaria de Habita-
projeto da escola, a gente está colocando ção, Saúde, Assistência, quais as contri-
buições das demais redes do município? disciplina de Geografia, por que ela deve
Penso que Sorocaba está na fase de aproxi- ter essa fragmentação? Essa organização
mação com as demais secretarias. Qual o da estrutura da escola, as disciplinas e os
papel da universidade? O currículo cons- horários, também precisam ser revistos.
truído não tem dado conta de assegurar as Isto vai ao encontro dessa proposta na
diversas questões que estão postas na so- qual a gente tem apostado, a educação in-
ciedade. Precisa haver uma revisão curri- tegral. A escola cidadã é também expres-
cular nas próprias universidades. são da educação integral. E isso não se
A própria rede de escolas vai intera- refere só ao horário integral. A gente pre-
gir com outras redes de serviços públi- cisa também criar a escola de horário in-
cos. Enquanto a habitação e a saúde não tegral, que vai permitir esta recriação da
se valerem deste conceito, não vão colo- organização do espaço de aprendizagem.
car em suas práticas este conceito de ci- Mas a escola cidadã é também expressão
dade educadora. E a própria escola tam- desta educação integral dos cidadãos pa-
48 bém tem que aprender com os outros ra as diversas dimensões da vida.
espaços. Este é o desafio que está coloca-
do hoje na relação da escola cidadã com ITS brasil Como se muda o diálogo inter-
instituto de tecnologia social

a cidade educadora. Como se relacionar no da própria escola nesta perspectiva?


e como aprender com estes outros espa- Como os professores, que muitas vezes
ços e como influenciar este ser educativo trabalham isolados, se tornam uma equi-
nos outros campos da cidade? pe de trabalho?
caria A escola cidadã, como uma expres- caria Sobre esta questão dos professores,
são da cidade educadora, caminha no queria comentar algo que a mim, pes-
sentido de fortalecer os espaços de par- soalmente, incomoda: eu prefiro pen-
ticipação, de aprendizagem da comuni- sar que os dilemas que a escola vive no
dade. Quando a comunidade, a APM, o seu interior estão atrelados a impasses no
conselho de escola são fortalecidos, se âmbito do sistema. Porque senão a gente
está implementando um aspecto, uma corre o risco de ficar colocando “remen-
parte da cidade educadora, porque está se do novo em pano velho”. A gente respon-
abrindo espaços de aprendizagem aos ci- sabiliza o professor, responsabiliza a es-
dadãos, não apenas ao aluno que está di- cola, espera dos sujeitos escolares novas
retamente na escola. atitudes, novos posicionamentos, mas
Outro aspecto é a questão da estru- as condições não são dadas. Por exemplo,
tura dura. A escola não se recriou, não não conseguiremos construir uma esco-
inovou, não tem se pensado, tem sido la cidadã articulada com o movimento de
muito conservadora na sua organização cidade educadora se o professor tem que
e gestão. É necessário dialogar com a co- cumprir uma jornada de trabalho apenas
munidade, aproveitar outros espaços, se como “auleiro”. O sujeito dá 25 aulas por
comunicar com outras secretarias, traba- semana, o planejamento ele faz em casa,
lhar com outros equipamentos. Por que e não existe um espaço de autoformação
a escola tem que ter uma estrutura, uma ou de formação coletiva.
organização fixa? Das 8h às 8h40, a dis- Como a gente vai conseguir fazer que
ciplina de História, das 8h40 às 9h30, o professor articule projetos pedagógi-
cos para além da sala de aula? Vamos jun-
tar as nossas crianças e começar a discutir
como é a organização política no nosso
bairro, como se dá a associação de mora-
dores, se o nosso bairro é de fato um bair-
ro ou não passa de um feudo de um de-
terminado vereador, se existem outras
expressões e lideranças que polarizam
o debate? Como a gente consegue pôr o
professor para fazer um movimento des-
te, se ele só é remunerado pela quantida-
de de aulas que ele ministra? O sistema
precisa resolver esta questão.
A escola cidadã se entende como es-
timuladora da construção de uma esfera
pública cidadã, onde as pessoas exerçam
um controle social sobre o Estado; mas
como, se os conselhos escolares hoje não
conversam com os conselhos municipais
de educação? Estes rearranjos estrutu-
rais precisam ser pensados.

ITS brasil Qual o papel do Plano Municipal


de Educação, neste contexto?
caria A ausência de um Plano Municipal
de Educação impede o controle social.
Sem planejamento, a política educacio-
nal fica à mercê das políticas partidárias
do prefeito de turno. O plano, em tese,
subordina o administrador. Algumas es-
colas vivem processos mais acelerados
de envolvimento da comunidade na sua
gestão. Isso é mérito das pessoas que es-
tão ali por um traço de personalidade. Al-
guns diretores e professores já têm uma
vivência de uma tradição mais democrá-
tica e conseguem viver estes processos,
outros não.
Quando o diretor vem falar “eu não
tenho experiência em gerir a escola nu-
ma perspectiva democrática e partici-
pativa”, isso a gente supera com forma- Na escola cidadã, as crianças aprendem
ção. O sistema tem que viabilizar desde o a participar pela prática, desde bem cedo
plano de carreira do professor até o plano coisas? Quando o sujeito vai para a esco-
municipal que define as prioridades. São la, traz uma visão da realidade, e esse co-
impasses que precisam ser pensados. nhecimento tem que ser significativo pa-
ra alterar a sua realidade, para superar as
suas dificuldades.
Nós temos os conteúdos de Matemá-
"Ecopedagogia é tica, Língua Portuguesa, Geografia, mas
a possibilidade da como estes conteúdos auxiliam o sujeito
a pensar a sua realidade e transformá-la?
população, a partir da Esta é a importância da leitura do mun-
escola cidadã, não só do, feita permanentemente. Primeiro
ampliar a sua capacidade o sujeito pensa como é a sua realidade
em determinado aspecto ou área do co-
de controle social sobre nhecimento; é este conhecimento que
50 o Estado, mas também a escola vai desenvolver, socializar. Por
de exercer controle exemplo, em que medida os conteúdos
escolares podem contribuir com o edu-
social sobre o capital"
instituto de tecnologia social

cando a pensar o córrego que passa no


fundo da escola e cria uma série de pro-
blemas para a comunidade? A partir des-
E também não podemos falar sobre ta reflexão é que os conteúdos, o conhe-
escola cidadã e cidade educadora sem falar cimento, podem ressignificar sua visão e
sobre ecopedagogia. Ecopedagogia como transformar a sua realidade.
possibilidade da população, a partir da es- Também temos recorrido à ideia do tra-
cola cidadã, não só ampliar a sua capacida- balho interdisciplinar, o que não é fácil. Fa-
de de controle social sobre o Estado, mas la-se muito de interdisciplinaridade, mas
também de exercer controle social sobre o na realidade gostamos de ter domínio das
capital. Precisamos discutir sobre aquela especialidades. O trabalho interdisciplinar
fábrica que está jogando resíduos poluen- tem sido colocado na rede como um prin-
tes no solo. As concepções da ecopedago- cípio do trabalho coletivo, mas ainda está
gia que integram o movimento da escola longe de ser alcançado e vivenciado. Por-
cidadã potencializam esta discussão. que as pessoas ainda têm essa visão de se
limitar ao domínio de sua disciplina, o que
ITS brasil Como a leitura do mundo, o não impossibilita, mas dificulta o avanço
ques­tionamento da realidade vivida, dia- do trabalho interdisciplinar. Ao mesmo
loga com o conteúdo programático das tempo, elas têm que dar conta desses te-
disciplinas? mas contemporâneos que estão colocados
pini Nós entendemos que para o conhe- e, novamente, os conteúdos pré-determi-
cimento ter significado é preciso que ele nados não dão conta. Por exemplo, como
seja construído pelos sujeitos, por isso trabalharei o tema da violência sexual? E a
ele parte de sua visão de mundo. Resga- questão da orientação sexual, que já foi co-
tando Paulo Freire, o conhecimento tem locado pela LDB como tema transversal?
uma função: para quê a gente conhece as O assunto é de todos e de ninguém.
Não se trata de ter uma cadeira de direi- nal, precisa dialogar com as necessidades
tos humanos na escola, mas a educação em e as demandas locais, de forma que possa
direitos humanos no Brasil existe, como ser uma articuladora, uma potencializa-
proposta curricular, desde 2006 e poucos dora do desenvolvimento da comunidade
tem implementado. Tem que haver uma e que responda ao processo de educação
interface entre o Ministério da Justiça e a dos cidadãos, preparando-os para uma
Secretaria de Educação, mas ninguém sa- atuação política, social e econômica, co-
be como fazer isto. Por quê? Porque não meçando na sua comunidade.
houve formação adequada. É necessário pini Eu lembro quando a SDTI, a Secretaria
um reordenamento do currículo dos pro- de Desenvolvimento de Trabalho e Inclu-
fessores que estão se formando na facul- são de Osasco, foi apresentar os dados do
dade, até para aqueles que irão trabalhar na Mapa da Exclusão para os diretores e coor-
educação infantil. Os temas contemporâ- denadores pedagógicos da rede de educa-
neos são um desafio para o professor. ção de Osasco, eles receberam como uma
grande novidade. Sinal de que não conhe- 51
ITS brasil O Programa Escola Cidadã incor- ciam o município onde moram. Não co-
pora a perspectiva do desenvolvimento lo- nheciam a realidade das famílias dos seus

Escola cidadã – instituto paulo freire


cal Há um espaço no âmbito da escola para educandos, como os dados do analfabe-
se pensar e criar alternativas econômicas? tismo e do desemprego e quanto que isto
eliseu muniz dos santos De algum tempo influencia no aprendizado da criança.
para cá, temos refletido sobre isso e lan- Não é que eles tenham que intervir
çamos de uma forma geral esta idéia nos [em âmbitos externos à escola], mas têm
nossos processos formativos. Contudo, de conhecer o que se passa nas outras se-
não temos nenhuma proposta mais sis- cretarias para saber como encaminhar.
temática de ações direcionadas que ar- Não precisam dar conta das demandas
ticulem de fato o desenvolvimento lo- sociais que aparecem na escola, mas
cal. Por exemplo, que a escola, articulada precisam saber que existe uma secreta-
com a comunidade, possa organizar um ria que tem programas de geração de tra-
curso de profissionalização a partir de balho e renda, que existem cooperativas
demandas locais. no seu município às quais se pode enca-
Claro que isto está presente no nosso minhar a família do seu educando. São
discurso, no diálogo que fazemos com a temas antigos, mas que aparecem como
comunidade. A todo momento temos fa- novidade e ampliam o olhar de quem
lado que a participação, numa perspectiva está na escola. E essa é uma das relações
de escola cidadã e cidade educadora, po- que se estabelece com os programas de
tencializa a escola, mas também precisa geração de trabalho e renda.
potencializar o desenvolvimento da co- caria Uma questão importante é a da qua-
munidade. Ou seja, o desenvolvimento lidade da educação. De um lado há os indi-
da comunidade não está separado do de- cadores, como o Ideb [Índice de Desenvol-
senvolvimento da escola, os dois preci- vimento da Educação Básica], no âmbito
sam caminhar juntos. nacional. Sorocaba fez o “Já sei”, baseado
Esta escola, articulada com elementos em indicadores de aprendizagem local e
mais universalizantes do currículo nacio- avaliação anual. Colaboraram na avalia-
ção: o aprendizado, o ambiente escolar, construir parâmetros para a avaliação.
a participação, os temas presentes ou au- No contexto de Sorocaba, essa cultura da
sentes. Porque o desafio da escola cidadã é avaliação institucional tem se ampliado
a qualidade. Como incorporar e dar visibi- e o programa tem contribuído bastante
lidade ao desenvolvimento local e à quali- para a melhoria desses parâmetros. No
dade de vida? Ainda não há uma interface âmbito da cidade educadora, novos in-
de IDH [Índice de Desenvolvimento Hu- dicadores precisam ser formulados pa-
mano] e indicadores de educação. ra discutir questões que não as do ensino
regular desenvolvido pela rede pública
ITS brasil Quais são os indicadores de re- municipal. A avaliação escolar pode ser
sultados do Programa Escola Cidadã? um ponto de partida para outras avalia-
santos Primeiro, temos os indicadores es- ções e de exercício do controle social.
pecíficos do nosso programa. Os boletins, santos Temos provocado as escolas a
as formações, as ações já são resultados que pensar quais seriam os indicadores de
52 indicam o grau de execução do programa. desenvolvimento na perspectiva da eco-
Isso num primeiro nível. Num segundo ní- pedagogia. Em debate com quatro di-
vel, a gente tem indicadores qualitativos. A retores, eles começaram a pensar, por
instituto de tecnologia social

gente vai observando ao longo do proces- exemplo, no consumo de água e ener-


so como a discussão reverbera e promove gia na escola. Quanto se consome, qual
de fato a participação nas escolas. Este ano, o grau de desperdício, como a gente po-
em Sorocaba, todas as escolas fizeram seus de avaliar isso numa perspectiva de sus-
PTAs [Planos de Trabalho Anual] com um tentabilidade? Nossa provocação é a de
grau maior de participação do que nos anos que isso se estenda para a comunidade,
anteriores. Fizemos trabalho de formação, não seja apenas da escola. São indicado-
visitamos todas as escolas dialogando com res que vão ao encontro de uma perspec-
a comunidade, sentindo, registrando a re- tiva de desenvolvimento local. Como é
ceptividade, a adesão dos professores e da essa comunidade, quais são os seus pro-
comunidade ao Programa Escola Cidadã. blemas e como se poderia ter indicadores
fonseca Trabalhamos com uma avaliação de melhoria da qualidade de vida?
dialógica, diagnóstica e formativa. Pri- carvalho Neste mesmo movimento, as
meiro o diagnóstico, para poder inter- crianças tiveram, antes das férias, uma
vir. Onde vou intervir na minha área de discussão sobre a convivência na escola.
atuação e onde na esfera de vocês? O ges- Como acham que ela deve ser? A convi-
tor que apresenta esta proposta para ser vência está indo bem ou não? Isso é mui-
desenvolvida está um passo adiante da- to importante para romper essa tradição
queles que não a colocam. A avaliação de conservadora que não considera a voz, a
2008 não será igual à de 2007 e o planeja- opinião delas, também porque as prepa-
mento de 2009 vai se valer dela para tra- ra para uma participação mais ampla de-
tar do desenvolvimento da rede munici- pois, no conselho de escola, na discussão
pal e até do desenvolvimento interno. sobre o seu bairro, sobre a sua cidade.
caria A própria natureza dos indicado-
res tem importância pedagógica muito
grande, porque permite ao pai e à mãe
Fórum de Educação
da Zona Leste
de São Paulo
55
1.um espaço de diálogo Alguns líderes comunitários, líderes
do movimento, dos sindicatos e estu-
para pensar a educação: dantes do ensino médio mobilizaram-se

fórum de educação da zona leste de são paulo


naquela oportunidade e concluíram que
esse tipo de debate deveria ser algo recor-
rente, não uma coisa extraordinária, epi-
A origem sódica, de um momento tão agudo como
Em 1993, houve uma longa greve do ma- o de greve. Decidiram então criar um
gistério estadual de São Paulo. Em Ermeli- Fórum de debates.
no Matarazzo, a Escola Estadual Condessa Terminada a greve, o Fórum continuou
Filomena Matarazzo, uma escola bastante pautando temas de debate, que combina-
conhecida na região, à época dirigida por vam também com alguns temas de rei-
Célia Giglio, foi mantida aberta durante vindicação em torno de serviços. Solici-
a greve. Isso contrastava com a prática tava-se a presença de autoridades, como a
usual dos diretores, que normalmente antiga Delegacia de Ensino, com o intuito
fechavam as escolas até o fim da greve. de enfrentar o desafio de cobrir a deman-
A escola acabou por tornar-se uma re- da de vagas. Desde então, o Fórum passou
ferência de encontro e de informação. Tur- a ser animado por um grupo flutuante e
mas de estudantes acampavam no pátio da nunca se formalizou como instituição.
escola, pessoas de outras escolas iam lá para
se manterem informadas do movimento.
“Como foi uma greve longa, quando Re-estruturação
as escolas pararam de funcionar regular- As atividades do Fórum, no entanto,
mente, as pessoas conversavam, debatiam aconteciam de modo bastante fluido. Re-
a educação. É curioso e um tanto parado- solvia-se fazer um debate, imprimiam-se
xal. Quando as escolas funcionam regular- folhetos que eram distribuídos em espa-
mente não se trata do assunto...”, comen- ços públicos e as pessoas eram convida-
ta Elie Ghanem, professor da Faculdade de das, um pouco ao acaso. Sentiu-se a ne-
Educação da USP e participante do Fórum. cessidade de dar mais consistência a este
processo e, em 1997, o Fórum solicitou atitude de anular os adversários ou os
à organização não governamental Ação interlocutores.
Educativa uma assessoria sistemática. Os encontros aconteciam na maioria
“Um pouco de organização ajudou: pe- das vezes no auditório da escola Filome-
gar o nome inteiro das pessoas, conta- na Matarazzo. Os temas geralmente di-
to, endereço etc. Começamos a manter ziam respeito a demandas, como matrí-
uma correspondência regular, de mo- culas, vagas, criação de escolas.
do que quem não comparecesse em um Houve alguma experiência anterior
dos debates teria um informe do que ha- de variação de temas, como a discussão
via ocorrido nessas ocasiões, mantendo sobre os acordos multilaterais com o
continuidade”, conta Elie Ghanem, que Banco Mundial e o BID, devido à influ-
ficou encarregado da assessoria. As pes- ência que essas instituições financeiras
soas não precisavam estar presentes em foram assumindo na definição da políti-
todas as ocasiões para poder comparti- ca educacional.
56 lhar as discussões, as informações e os Ao iniciar a parceria com a Ação Edu-
enfoques. Nos encontros, nos momen- cativa, o temário foi posto em discussão.
tos de debate, havia um empenho espe- Formou-se uma comissão executiva en-
instituto de tecnologia social

cial em convidar autoridades do poder carregada de organizar e viabilizar os de-


público. Alguns parlamentares de oposi- bates com uma programação de temas.
ção que atuavam na região eram freqüen- O temário se diversificou, abordando
tadores e também colaboravam. assuntos como “Financiamento da edu-
O Fórum sempre teve como caracte- cação”, “Educação do povo negro”, “Edu-
rística a pluralidade, inclusive política. cação e música”, “Formação de docentes”,
Havia pessoas com vinculação partidá- “Direito à educação e Poder Judiciário”,
ria muito clara, mas de diferentes par- entre muitos outros. Algumas vezes fo-
tidos, não apenas de esquerda, como se ram debatidos aspectos da participação
poderia esperar. Havia malufistas, ou- popular na escola. Buscava-se ressignifi-
tras que eram do PMDB, outras do PDT, car os meios institucionais de participa-
do PT, PCdoB e assim por diante. Trata- ção e a deliberação no âmbito da unidade
se de algo importante a ressaltar, porque escolar, que eram os conselhos de escola
se conseguia um convívio entre posições e as Associações de Pais e Mestres.
opostas. Isto porque os encontros eram
concebidos como momentos de apren-
dizado, nos quais se procurava partilhar Metodologia dos encontros
informação. “E se conseguia, digamos, Conforme o temário foi sendo organi-
debater para entender, mesmo que hou- zado e uma programação foi estrutura-
vesse disputa”, diz Ghanem, que credi- da, as reuniões do Fórum começaram a
ta a convivência pacífica entre opiniões, acontecer mensalmente. Essas reuniões
e mesmo tendências partidárias diver- assumiam a forma de debates em torno
gentes, sobretudo ao fato de que não se de um tema. O público dos encontros
tratava de um lugar de tomada de deci- era formado principalmente por pro-
são, de deliberação. Isso favorecia a que fissionais de escolas estaduais e muni-
as pessoas pudessem participar sem a cipais, professoras, coordenadoras pe-
dagógicas e diretoras, estudantes de
ensino médio e líderes comunitários.
Uma mudança importante foi in-
troduzir a idéia de que o encontro sem-
pre fosse uma ocasião na qual as pessoas
aprendessem algo sobre educação. Espe-
cialistas seriam convidados para tratar de
um assunto. Ao mesmo tempo, se procu-
raria estabelecer uma oportunidade igual
para que os participantes manifestassem
suas posições e ideias sobre aquele tema.
Também passou a haver uma diferen-
ça entre as reuniões regulares do Fórum
e os seminários. Estes tinham uma du-
A diversidade da Zona Leste de São Paulo se reúne
ração maior, tratavam de mais de um te- nos encontros do Fórum, debate ideias e produz
novos aprendizados
ma, traziam mais pessoas, mais especia-
listas, e deveriam resultar em propostas
de ação. Diferentemente dos seminários,
as reuniões só pretendiam compreender
melhor o assunto.
Aproveitavam-se as reuniões regu-
lares para distribuir vários tipos de pu-
blicações. Por exemplo, a Imprensa Ofi-
cial imprime a Constituição do Estado
de São Paulo, a Lei Orgânica do Municí-
pio. Eram solicitados muitos exemplares
para distribuir entre as pessoas, às vezes
eram publicações de ONGs sobre temas
diversificados.
O primeiro seminário teve como te-
ma a educação e as pessoas ditas porta-
doras de necessidades especiais. “Nós
chamamos de pessoas com capacida-
des especiais, principalmente para mu-
dar o ponto de vista sobre deficientes”,
explica Ghanem. Partia-se da idéia de
que elas são deficientes em algumas coi-
sas, mas têm algumas capacidades es-
peciais. O seminário gerou uma série de
propostas interessantes, entre as quais a
de dar visibilidade a essas pessoas, par-
tindo-se do pressuposto de que elas não
circulavam nos mesmos lugares que as
outras pessoas, que elas ficavam confi- As atividades concentraram-se em es-
nadas dentro de casa. Foram feitos tam- colas públicas e centros educativos co-
bém seminários desse tipo sobre educa- munitários da Zona Leste de São Paulo
ção e atividades físicas. (SP), na qual vivem aproximadamente
As reuniões regulares eram curtas, ti- 4 milhões de pessoas. As características
nham hora para começar e para acabar, e de pobreza das áreas onde atuou o proje-
começavam pontualmente. A duração era to Integrar pela Educação agravam traços
de duas horas. Havia tempo para todas as gerais da educação escolar, que perde sen-
pessoas falarem e contava com uma apre- tido porque não responde a necessidades
sentação, de vinte minutos, de um espe- econômicas, políticas e culturais das po-
cialista, um estudioso, um pesquisador, pulações.
uma autoridade. A ideia era a de que se O principal objetivo do projeto era
abordasse um pouco o assunto com algu- gerar novos sentidos para essa educa-
ma informação, mas que a maior parte do ção, combinando práticas escolares e
58 tempo servisse para debater com igualda- não escolares. A realização se deu entre
de. Assim, ser um especialista não garan- setembro de 1999 e novembro de 2002,
tia mais voz, qualquer um podia falar. na perspectiva de orientar e aperfeiçoar
instituto de tecnologia social

Como foi dito, as reuniões regulares a dimensão de aprendizagem de diferen-


ocorriam geralmente na escola Filomena tes comunidades do seu ambiente. Pa-
Matarazzo. No caso dos seminários, pro- ra gerar novos sentidos para a educação
curavam-se outras articulações e alian- escolar, definiram-se ações para aumen-
ças. Os dois primeiros aconteceram no tar a influência de alunos e familiares na
Sesc Itaquera. orientação da educação escolar, assim
como para recompor relações interpes-
soais e intergrupais por meio de práticas
O projeto Integrar pela Educação educacionais artísticas e associativas. A
A partir de 2001, o Fórum de Educação da essas ações, somaram-se as que preten-
Zona Leste ganhou novo impulso porque diam manter relação ativa com os meios
passou a implementar o projeto Integrar de comunicação de massa e as voltadas a
pela Educação, junto da Escola Estadual fortalecer o Fórum de Educação da Zona
Filomena Matarazzo (de nível médio), a Leste como interlocutor coletivo nas po-
Escola Municipal de Ensino Fundamen- líticas educacionais governamentais.
tal Antonio Carlos de Andrada e Silva, O grupo responsável pelo projeto en-
a Associação Ética e Arte na Educação, tendia que são bastante raras as práticas
a Ação Comunitária Paroquial do Itaim baseadas no reconhecimento de que mui-
Paulista, o Núcleo Cultural Força Ativa tas e diferentes agências da sociedade são
e a ONG Ação Educativa. O projeto fa- educativas. Ressaltava a pouca impor-
zia parte da iniciativa em educação básica tância que se dá à combinação de esforços
denominada Comunidade de Aprendi- entre órgãos públicos e organizações da
zagem, da Fundação W.K. Kellogg, com- sociedade civil e criticava a tradição brasi-
posta por catorze projetos de nove paí- leira, segundo a qual a elaboração de polí-
ses da América Latina e Caribe, três dos tica educacional, na prática, é privilégio de
quais eram brasileiros. gestores de órgãos públicos. Assim sendo,
a política educacional deixa de contem- se biblioteca para uso comunitário, e o
plar importantes aspectos e proposições. mesmo aconteceu com um laboratório
Mas o Fórum de Educação da Zona Leste de informática e um auditório para exi-
contrariava essa tradição, possibilitando bição de vídeos. Organizaram-se, em ca-
acesso à informação e envolvimento em da escola diretamente envolvida, grupos
debates, principalmente de pessoas que, de teatro, música, dança ou artes plásti-
de outro modo, estariam completamente cas, com alunos e outros jovens artistas
alijadas da oportunidade de influir e con- locais, e também se estruturou o inter-
tribuir na política educacional. câmbio desses trabalhos.
Novos sentidos para a educação esco-
lar foram gerados e, entre os principais

A convivência pacífica resultados, comunidades internas às es-


colas, ou compostas pela escola e seu am-
entre opiniões e mesmo biente imediato, dinamizadas pelos pro-
tendências partidárias fissionais das escolas, engajaram-se em 59

divergentes sobretudo experimentações educativas, ativida-


des diferenciadas, inclusive em projetos
ao fato de que não

fórum de educação da zona leste de são paulo


mais amplos e consistentes, entre os quais
se tratava de um lugar o Circuito Cultural Escolar e o projeto Ci-

de deliberação, mas nema e Vídeo Brasileiro nas Escolas. Em


participação de maior escala, o Fórum de
de aprendizado. Educação da Zona Leste consolidou-se e
impulsionou ampla mobilização em fun-
ção da elaboração democrática de um pla-
Para aumentar a influência de alunos e no local de desenvolvimento educativo.
seus familiares nas decisões das unidades
escolares, realizou-se assessoria junto a
profissionais e cursos com conselheiros Plano Local de Desenvolvimento
de escolas visando a experimentar proce- Educativo da Zona Leste
dimentos de reorientação das atividades Com a experiência dos seminários e com
educativas com maior envolvimento de a experiência do projeto Integrar pela
docentes e, a partir destes, envolvimento Educação, um dos temas propostos em
de estudantes e de seus familiares. 2001 foi o de um Plano Local de Desen-
Para o objetivo de disseminar a in- volvimento Educativo da Zona Leste.
formação e o debate sobre políticas edu- Então foi organizado um seminário na
cacionais, o projeto apoiou técnica e fi- Universidade Cruzeiro do Sul (Unicsul),
nanceiramente reuniões, seminários e realizado em conjunto com uma Direto-
publicações do Fórum de Educação da ria de Ensino Estadual, uma Coordena-
Zona Leste. Para promover a recompo- doria de Educação Municipal, uma uni-
sição de relações interpessoais e inter- versidade particular local (a Unicsul) e o
grupais, as escolas públicas foram luga- Fórum. “Percebemos que aquilo era cru-
res de formação e integração em torno cial. Não dava para fazer apenas um se-
de práticas artísticas, criou-se ou abriu- minário sobre o tema. Resolveu-se fazer
uma sequência de seminários, envol- que se considerava muito importante
vendo gente dos três níveis de governo”, que as propostas fossem construídas por
conta Elie Ghanem. pessoas comuns, que não fossem “coi-
“Normalmente estamos habituados sas de especialistas”. Uma das mudanças
a assistir a especialistas, muitas vezes en- foi inverter a ordem em que geralmente
castelados em seus gabinetes, decidirem acontecem as intervenções e que, aliás,
o que seria melhor neste campo, e aque- caracterizavam as reuniões ordinárias
les que serão atingidos por estas mudan- do Fórum. Os especialistas que deve-
ças raramente são ouvidos ou chamados riam ter uma fala própria intervinham
a participar das decisões”, avalia Regi- depois, não antes, como de costume. De-
na M. Oshiro, professora de História na veriam oferecer sua contribuição apre-
Escola Estadual Moacyr Campos desde ciando criticamente as idéias que fossem
1987 e atuante no Sindicato dos Profes- produzidas pelos demais participantes.
sores do Ensino Oficial do Estado de São
60 Paulo (Apeoesp).
Oshiro começou a participar do Fó-
rum a partir do 2º seminário sobre o Pla- Concebeu-se uma
metodologia que não
instituto de tecnologia social

no, no início de 2002. Para ela, um dos


aspectos mais importantes desses semi-
nários foi “envolver e mobilizar diver-
hierarquizasse a
sos segmentos da sociedade, desde o ci- discussão, uma vez que
dadão comum, como o pai, o aluno, até se considerava muito
representantes do poder público federal,
estadual e municipal”. Foram entre 150
importante que as
e duzentas pessoas em cada seminário, propostas fossem
cuja diversidade “já demonstrava uma construídas por
concepção de educação mais ampla, não
apenas escolar, participativa e democrá-
pessoas comuns
tica”, explica.
Por este processo, chegou-se a um
documento final, reunindo cerca de 180 Reuniram-se pequenos grupos para
propostas de ação. “Sem ser um Plano formular propostas, estas eram apresen-
muito definido, acho que as propostas tadas para o conjunto, as pessoas opina-
eram em geral muito consistentes. E to- vam até que se chegasse a enxergar o que
das elas foram aprovadas por consenso. era consenso. “Entre o que é consenso e
Essas 180 são as consensuais!”, diz Gha- o que não é, vamos centrar fogo naquilo
nem. Algumas poucas propostas, cerca que nos une, não é? Vamos fazer o que é
de 10% do total aprovado, não eram con- consenso! E vamos tratar o que é dissen-
sensuais, mas foram explicitadas, visan- so”, esclarece Ghanem. Só então, após
do sua abordagem posterior. os debates, o especialista tecia o seu co-
Do ponto de vista da metodologia dos mentário. Poderia apontar algo que não
seminários, concebeu-se um modo que foi visto ou considerado, ou elogiar algo
não hierarquizasse a discussão, uma vez que considerasse bom.
Foram realizados cinco seminários ra e considera ainda que, “apesar de todos
encadeados. A partir de ideias gerais, terem a educação como prioritária, ainda
foram-se abordando aspectos mais es- são poucos os que se mobilizam para o en-
pecíficos, até chegar ao ponto de im- frentamento de questões nesse campo”.
plementação, indicando as propostas Mesmo com atividades reduzidas, o
prioritárias e algumas que poderiam ser Fórum se mantém vivo. No entanto, um
abraçadas por coalizões. importante aprendizado, a ser recupera-
Essa experiência parece importante e do no momento oportuno: o debate so-
deveria ser algo promovido pelo poder pú- bre educação, é um intenso e prolífico
blico. Porque é uma obrigação legal ter um processo de educação.
Plano Municipal de Educação, já que, em
2001, foi aprovado no Congresso um Plano
Nacional de Educação (Lei nº 10.072), de-
terminando que nos níveis inferiores tam-
bém haja planos semelhantes. 61
Em 2003, o Fórum sugeriu que se
aproveitasse a experiência da Zona Leste

fórum de educação da zona leste de são paulo


para convocar a população de São Paulo
para elaborar um Plano de Educação para
a cidade, não reduzido a um simples pla-
no sobre os equipamentos da prefeitura.
“A prefeitura deveria convocar a cidade
toda para rever sua vida e produzir um
norte para a educação no município. Isso
foi muito difícil”, lembra Ghanem.
“Ao atrelarmos o cronograma do Fó-
rum de 2004 com o plano de educação
que estava sendo articulado pelo poder
público do município, o PLDEZL ficou a
reboque, quando a mobilização em torno
do plano municipal foi interrompida”,
explica Regina Oshiro. Mesmo assim,
naquele ano, foram realizados dois semi-
nários, em parceria com a Comissão de
Educação da Câmara Municipal, para dis-
cutir a presença da universidade pública
na região, já que o novo campus da USP ali
seria fundado em 2005 (USP Leste).
Oshiro acredita que o Fórum passa
atualmente por um período em que há di-
ficuldade para reunir o pessoal que atuava
antes. “Talvez cada um de nós tenha prio-
rizado outras frentes de atuação”, ponde-
2.Plano Local de nho democrático de conseguir uma edu-
Desenvolvimento cação adequada para nossa região. Esse
caminho é o da elaboração participativa
Educativo da Zona Leste de um plano de educação próprio.
de São Paulo Chegou-se à constatação da necessi-
dade e oportunidade dessa iniciativa por-
que queremos nos desenvolver, ter igual-
Fórum de Educação dade e uma vida feliz, o que não é possível
sem que planejemos como realizar uma
da Zona Leste educação que promova esses objetivos.
3º Seminário Plano Local de Desenvolvi- A educação existente praticamente não
mento Educativo. São Paulo: 26 e 27 de é planejada e, quando algumas autorida-
novembro de 2002* des programam ações a respeito dela, fa-
zem isso sem considerar traços próprios
62 de nossas populações e, principalmente,
Documento Final sem levar em conta as pessoas e organiza-
São Paulo – 2003. Realizado no Centro ções que já se empenham em práticas edu-
instituto de tecnologia social

Tecnológico da Zona Leste cativas voltadas para a melhoria de nossas


É permitida e recomendada a repro- condições e para uma participação digna
dução total ou parcial desta obra, desde nos rumos da sociedade brasileira.
que citada a fonte. Favor enviar cópia do É preciso unir todos os esforços pa-
veículo em que for feita a reprodução. ra inventar a educação que precisamos e
Edição de texto: Elie Ghanem (Facul- para realizar essa ideia. Essa é a maneira
dade de Educação da USP) de deixar para trás as reformas educacio-
Apoio: Ação Educativa – Assessoria, nais entendidas puramente como refor-
Pesquisa e Informação mas escolares, as políticas educacionais
Apoio para esta publicação: Apeoesp que não respeitam a diversidade, a pre-
– Sindicato dos Professores do Ensino ocupação com a quantidade sem cuida-
Oficial do Estado de São Paulo do com a qualidade, as decisões políticas
sem consulta pública e sem envolvimen-
to das instituições educacionais, de seus
Um novo caminho agentes e usuários, a desarticulação en-
para nossa educação tre setores governamentais e a falta de vi-
A partir de 2001, o Fórum de Educação da são de longo prazo. Por isso, o Fórum de
Zona Leste deu início a um processo de Educação, junto a outras organizações,
mobilização e entendimentos no cami- esteve à frente da realização de três se-

* Tendo sido realizados cinco seminários para a elaboração coletiva deste Plano Local de Desenvolvimento Educativo
da Zona Leste de São Paulo, o leitor poderá estranhar que o documento que recebe este título tenha sido concluído no
3º Seminário. A razão para este fato é que este 3º Seminário foi dedicado a reunir e sistematizar as propostas formuladas
nos dois primeiros. Em torno desse conjunto, no 4º Seminário tratou-se de indicar os órgãos públicos e as organizações
da sociedade civil mais aptos a dedicar-se à realização de uma ou outra proposta de ação. O 5º Seminário, por sua vez,
concentrou-se em cogitar fontes de recursos para a implementação das propostas e apontou para o debate a respeito
dos orçamentos públicos nas casas legislativas.
minários de elaboração de um Plano Lo- Cerca de 150 participantes, em sua
cal de Desenvolvimento Educativo, que maioria profissionais de serviços edu-
contaram com a participação de centenas cativos, debateram e elaboraram cem
de pessoas, tendo convidado escolas e propostas sobre: integração entre esco-
outros centros educativos, públicos e co- la e comunidade; condições de trabalho
munitários, grupos locais e órgãos de go- e formação de professores; comunica-
verno municipais, estaduais e federais, ção e informação; inclusão; organização
de diferentes setores (escolar, de trans- da escola. Com base nessas propostas e
portes, habitacional, cultural, financei- em outras oitenta formuladas no 1º semi-
ro, esportivo etc.). nário (jun. 2001), foi esboçada a 1ª versão
Esse processo produziu o presente para discussão de um plano de desenvol-
documento, com dezenas de propostas vimento educativo para a Zona Leste.
de ação dirigidas a três eixos: a) orienta- Dando sequência a esse processo par-
ção da educação para necessidades bási- ticipativo de elaboração de política públi-
cas; b) participação da comunidade; c) ca, a 1ª versão foi debatida no 3º Seminário. 63
oferta de serviços educacionais. Montou- Essa 1ª versão foi analisada coletivamen-
se também um grupo de trabalho para dar te e sofreu alterações. Também se expli-

fórum de educação da zona leste de são paulo


sequência ao processo, que já conta com citaram os pontos consensuais e os de
cerca de trinta órgãos e centros educativos dissenso, apresentados adiante.
públicos, organizações da sociedade civil
e indivíduos. Aprovou-se também uma
agenda de atividades para 2003. Objetivos
Essa experiência pode ser inspirado- n Formular um documento preliminar
ra para grupos situados em outras regiões, de plano de desenvolvimento educativo
principalmente tendo em vista a constru- para a Zona Leste.
ção de um plano de educação do municí- nDefinir agenda de ações para dar seqüên-
pio de São Paulo, que precisa tornar-se a cia ao processo de planejamento.
decisiva criação de vasto processo edu- Local: Centro Tecnológico da Zona Les-
cativo, muito mais que o cumprimento
te – av. Águia de Haia, 2819 – Cidade A. E.
de uma exigência formal da lei.
Carvalho

Comissão Executiva
1ª versão discutida
Em agosto de 2002, o Fórum de Educa-
Zona Leste – Plano Local
ção da Zona Leste promoveu o 2º semi-
de Desenvolvimento Educativo
nário Plano Local de Desenvolvimento
Educativo. Realizado no Centro Tecno-
lógico da Zona Leste, o seminário contou 1. Eixos principais
com apoio da Administração Regional Este plano prioriza três eixos de atuação:
de Ermelino Matarazzo, da Administra- n Orientação da educação para ne-
ção Regional de São Miguel Paulista, do cessidades básicas;
Núcleo de Ação Educativa 10 e do Núcleo n Participação da comunidade;
de Ação Educativa 11. n Oferta de serviços educacionais.
Em cada eixo, foram definidos objeti- Participação da comunidade. O tra-
vos e providências para atingi-los, des- tamento adequado do eixo educação pa-
critos a seguir. ra necessidades básicas não será possível
sem um novo tipo de participação da co-
Orientação da educação para neces- munidade, que supera a tradição caracte-
sidades básicas . De modo geral, valo- rizada por:
riza-se apenas a educação escolar e esta, nReforma educativa entendida exclusi-
por sua vez, concentra-se no ensino de vamente como reforma escolar.
saberes próprios de uma cultura escolar nVisão homogeneizante e uniformiza-
fechada, que se mantém distante de ne- dora da educação e das políticas educa-
cessidades tais como: cionais e dificuldade para entender e as-
n Sobreviver e cuidar da própria saúde e sumir a diversidade.
dos demais. nÊnfase na quantidade mais que na qua-
n Alimento, habitação e vestuário. lidade.
64 n Identificar e desenvolver os próprios n Decisões sobre política pública com
talentos e capacidades (intelectuais, afe-
débil ou nula consulta pública e envol-
tivas, espirituais e físicas).
vimento das instituições educacionais,
n Expressar-se e comunicar com clareza
instituto de tecnologia social

seus agentes e usuários.


através de diversas linguagens e meios.
nVisão de curto prazo acima de uma vi-
n Formar, cuidar e desfrutar de uma fa-
são de médio e longo prazo.
mília saudável e harmoniosa.
nLógica de projeto predominando sobre
n Trabalhar e participar produtivamente
a lógica de processo.
da economia.
nFalta de uma visão intersetorial do edu-
n Participar ativa e informadamente na vida
cativo.
comunitária e desenvolvimento do país.
nBuscar e aproveitar novas oportunida-
Oferta de serviços educacionais. Ser-
des e meios de aprendizagem.
n Aprender a aprender e desfrutar da viços educacionais escolares não são dis-
aprendizagem durante toda a vida. poníveis a todos. Para grandes parce-
nDesenvolver um pensamento crítico e las, quando esses serviços são públicos
autônomo. e gratuitos e estão instalados nos locais
n Aproveitar da cultura, nela incluído o de moradia e trabalho, não contam com
jogo, a arte e o desporto. vagas suficientes. Quando são serviços
nAssumir um código ético e moral. particulares, requerem recursos que as
nProteger o meio ambiente. famílias não têm para pagá-los. A dis-
nConhecer os próprios direitos e obriga- tribuição dos serviços é, portanto, de-
ções. sigual. Grandes déficits se mostram na
n Compreender, refletir e atuar sobre a oferta de centros e escolas de educação
própria situação para superá-la. infantil, escolas de ensino médio, ensi-
nFavorecer o desenvolvimento de uma no universitário público e educação bá-
identidade própria. sica (fundamental e médio) de jovens e
n Desenvolver uma consciência social adultos. No caso do ensino fundamental
solidária e de serviço aos demais. regular, a oferta cobre a quase totalidade
da demanda, mas as vagas são distribuí- 3. Atividades
das de maneira muito desequilibrada, de Atividade I
maneira que algumas escolas ficam su- Objetivo: Conceber e implementar
perlotadas, funcionando em quatro tur- práticas educativas que respondam às
nos diários, mesmo sendo próximas de necessidades básicas da população.
outras que funcionam apenas em dois ou 1. Reduzir o número de alunos por sala de
três turnos. aula e por professor.
Os serviços educacionais são consi- 2. Oferecer curso universitário gratuito
derados equivocadamente somente co- para professores da rede escolar pública.
mo serviços escolares. Por isso, não há 3. Promover a formação continuada de
medidas para promover e articular a atu- educadores integrando-os em processo no
ação educativa dos serviços de outros qual sejam também condutores e opinem
setores estatais (saúde, transporte, cul- sobre caminhos de superação das dificul-
dades relativas a ensino e aprendizagem.
tura, emprego, comunicação, ciência e
4 . Utilizar os saberes desenvolvidos 65
tecnologia, assistência social, abasteci-
nas escolas em práticas que beneficiem
mento, habitação, esporte etc.) e de ou-
a comunidade dando sentido ao que se
tros grupos e organizações da sociedade

fórum de educação da zona leste de são paulo


aprende nas escolas e valorizando o tra-
civil (econômicas ou sociais, com fins de
balho dos profissionais em educação.
lucro ou não).
5. Elaborar proposta específica de forma-
A oferta de serviços é também nega-
ção de educadores de adolescentes em
tivamente marcada pela prioridade de
conflito com a lei.
investimento em coisas mais que nas
6. Formar pessoas para que saibam ques-
pessoas e nos recursos humanos da edu-
tionar e alterar as relações.
cação. Eles não são concebidos para, ao se
7. Melhorar a preparação de professores para
efetivar, desenvolver também seus pro-
que saibam tratar com relações humanas.
fissionais e seus educandos. Para isso não
8. Promover a formação e a sensibilida-
estão definidas jornadas, orientação e re- de para quem precisa ouvir os indivíduos
muneração. mais vulneráveis.
9. Desenvolver e incentivar a cultura dos
2. Objetivos jovens nas escolas e outros locais.
Estabelecidos os três eixos deste plano, 10. Para dar voz às pessoas, não reduzir
apresentam-se os seguintes objetivos: exclusão a um problema relativo apenas
nConceber e implementar práticas edu- a secretarias de educação, mas relacioná-
cativas que respondam às necessidades lo às secretarias de todos os setores.
básicas da população. 11. Constituir incubadora de cooperati-
nConstituir um sistema educativo que vas juvenis ligada à área das tecnologias,
articule a maior diversidade de agentes utilizando espaços da comunidade, in-
do poder público e da sociedade civil, es- clusive equipamentos públicos.
pecialmente família, escola e meios de 12. Propiciar orientação profissional aos
comunicação. egressos das escolas para busca de em-
nIncluir todos os indivíduos do territó- prego e de alternativas de sobrevivência.
rio nos serviços educativos. 13. Orientar a gestão ambiental impli-
cando todos os equipamentos públicos, 26. Criar oficinas nas escolas e apresen-
o uso racional da água, da energia, dos tar periodicamente suas experiências
recursos materiais e humanos e a criação como espaços de convivência relaciona-
de áreas verdes para melhorar a qualida- dos com as necessidades individuais e
de do ar, da temperatura e da vida. por faixa etária.
14. Promover valorização profissional de 27. Realizar um plebiscito em São Paulo so-
maneira igualitária. bre o pagamento da dívida do município.
15. Conceber a escola como local que deve 28. Convocar os cidadãos e aumentar o
ser atraente também para professores. número de delegados às plenárias do or-
16. Implantar rádios comunitárias nas çamento participativo.
escolas como forma de incentivar os jo- 29. Destinar proporções justas de verbas
vens e facilitar a criação de um canal de a todas as escolas independentemente de
comunicação com a comunidade. sua localização.
17. Pesquisar junto a alunos e pais sobre 30. Divulgar de forma transparente – in-
66
suas reais necessidades, o que esperam e formando sobre fornecedores e pesqui-
querem que seja a escola.
sas de preços – os gastos efetuados com
18. Usar a escola como um meio de co-
as verbas destinadas às escolas.
instituto de tecnologia social

municação para ouvir as pessoas através


31. Promover periodicamente palestras
de conselhos de classe etc.
proferidas por alunos e pais.
19. Atuação de órgãos públicos junto a
32. Envolver a família na vida escolar.
empresas para que ofereçam oportuni-
33. Humanizar as reuniões de pais das es-
dades de trabalho a jovens em conflito
colas privilegiando sua orientação, for-
com a lei.
mação e a criação de vínculos.
20. Investir mais na educação infantil.
34. Superar o caráter classificatório do
21. Promover, por meio de órgãos ofi-
mecanismo de avaliação da progressão
ciais, a formação constante e permanen-
continuada para torná-la um instrumen-
te de todos os educadores.
to de orientação.
22. Realizar censo escolar – e divulgar
35. Adotar avaliação não seletiva como
dados por distrito – que obtenha infor-
medida para o professor conhecer o edu-
mações também sobre pessoas que es-
tão fora da escola, idade, etnia e pesso- cando.
as com necessidades especiais e serviços 36. Descentralizar merenda e verba para
que utilizam. o enriquecimento do cardápio.
23. Fazer levantamento de dados demo- 37. Constituir um centro de referência
gráficos por distrito. para apoiar o trabalho docente quanto à
24. Incorporar os projetos de ativida- inclusão de portadores de necessidades
des educativas não letivas ao currículo especiais (inclusive usuários de drogas e
da escola. adolescentes infratores em regime de li-
25. Implantar projetos de humaniza- berdade assistida).
ção da escola (vivência sócieducativa, 38. Criar mais centros de lazer com pro-
consciência do aluno como indivíduo e fissionais qualificados e remuneração
cidadania). compatível.
Pontos não consensuais, acréscimos rização do Magistério) nos salários dos
e sugestões docentes e na ampliação dos profissio-
nInstituir “Dia do Professor na Família”, nais das escolas municipais. Comentá-
constituindo grupos de professores pa- rios: contratação de mais professores com
ra, em sua jornada de trabalho, visitarem a verba do Fundef; a melhor medida é am-
e conhecerem as famílias dos alunos da pliação de verbas para todos os níveis.
comunidade. Comentários: criar meca- nEfetivar a autonomia da escola, inclu-
nismos para trazer os pais à escola; mo- sive a financeira, para o desenvolvimen-
dificar a jornada dos professores para que to de projetos. Comentários: autonomia
eles possam conhecer as famílias e as co- não é independência; incentivar os alu-
munidades em que estão inseridos os nos para, desde cedo, participarem de
alunos; cobrar dos equipamentos de saú- projeto e terem iniciativa para desenvol-
de que cumpram seu papel; acrescentar vê-los. Obter autonomia para delibera-
fonoaudiólogos e oftalmologistas; arti- ção e aplicação de orçamento feito pelo
cular serviços básicos de saúde aos cen- conselho de escola. Comentário: auto- 67
tros educativos. nomia não é independência.
n Fazer avaliação psicológica dos alu- n Formar adolescentes para a materni-

fórum de educação da zona leste de são paulo


nos e encaminhá-los a setor competen- dade. Comentário: incluir paternidade,
te. Comentário: esta proposta deve es- com orientação e planejamento familiar.
tar articulada com os serviços de saúde; n Formar docentes – particularmente
que a avaliação seja feita somente com de educação infantil e do primeiro ciclo
alunos que apresentem necessidade. do ensino fundamental – para trabalha-
nContratar psicólogos e dentistas para rem com portadores de necessidades es-
trabalhar diretamente com alunos, ten- peciais (inclusive usuários de drogas e
do como posto o NAE (Núcleo de Ação adolescentes infratores em regime de li-
Educativa, da Secretaria Municipal de berdade assistida). Comentário: separar
Educação de São Paulo). Comentário: es- portadores de necessidades especiais de
ta proposta deve estar articulada com os usuários de drogas e infratores.
serviços de saúde; alterar para: garantia nImplantar sistema self service na meren-
de atendimento (a curto prazo) em posto da escolar com alimentos de época. Co-
de saúde para toda a comunidade. mentário: incluir educação nutricional.
nInvestir recursos humanos, materiais nReconhecer que movimentos sociocul-
e financeiros em projetos de orientação turais são produtores de saberes (grupos
psicológica a pais e jovens. Comentário: de mulheres, negros, religiões, hip-hop
orientação não só psicológica, mas de etc.). Comentário: separar religiões dos
acordo com as necessidades da comuni- demais grupos.
dade escolar. nFormar professores para lidarem com
nConsultar jovens em conflito com a lei alunos portadores de necessidades espe-
sobre seus anseios e expectativas. Co- ciais. Comentário: ampliar a formação a
mentário: além de consultar, desenvol- outros profissionais e por meio de cen-
ver trabalhos com eles. tros de apoio.
nAplicar a verba do Fundef (Fundo de Ma- nAmpliar a participação dos educandos
nutenção do Ensino Fundamental e Valo- na gestão democrática das escolas por
meio de representantes nas reuniões bi- 4. Estabelecer parcerias entre o Fórum
mestrais de conselho de classe (a exem- de Educação da Zona Leste e associações
plo do que ocorre na Escola Estadual Fi- de bairros.
lomena Matarazzo) e nas reuniões de 5. Discutir, no Fórum de Educação da Zo-
planejamento das atividades pedagógi- na Leste, o preconceito social como forte
cas (como se dá no Cefam São Bernardo elemento de exclusão (negação da cultu-
do Campo). Comentário: em vez de am- ra, do histórico, da raça).
pliar, propiciar. 6. Estabelecer parcerias com empresá-
nCapacitar professores (inclusive profis- rios e convidá-los a participar do Fórum
sionais de centros de educação infantil) de Educação da Zona Leste.
para participarem do orçamento partici- 7. Identificar e divulgar os recursos das
pativo e para orientarem alunos e comu- comunidades, inclusive programas go-
nidade. Comentário: substituir o termo vernamentais que atendem às suas ne-
participarem por divulgarem. cessidades.
68 nEstabelecer parcerias entre professores 8. Redefinir propósitos e linhas gerais da
e alunos para transformar o ambiente. educação brasileira com poder público,
Comentário: ampliar a parceria a outros sociedade civil e educadores.
9. Produzir políticas educativas locais.
instituto de tecnologia social

profissionais, não somente professores.


nCriar salas de leitura com orientador nas 10. NAEs e órgãos semelhantes devem
escolas estaduais e nas escolas municipais promover a capacitação dos integrantes
de educação infantil. Comentário: garan- do Crece (Conselho Regional de Conse-
tir o espaço de leitura em todas as salas. lhos de Escolas).
nCriar videotecas nas escolas, com profes- 11. Fazer circular saberes da comunidade
sor responsável. Comentário: através de na escola.
projeto em que os professores se revezem. 12. Revisar e ampliar o significado e a im-
portância dos conselhos de escolas entre
Atividade II as comunidades.
Objetivo: Constituir um sistema educa- 13. Discutir o significado do conselho de
tivo que articule a maior diversidade de escola em reuniões periódicas entre pais
agentes do poder público e da socieda- e professores.
de civil, especialmente família, escola e 14. Realizar seminários sobre projeto de
meios de comunicação educação democrática, fatores para que
alunos participem das decisões da escola
1. Integrar a atuação dos governos fede- e para que os conselhos de escolas sejam
ral, estadual, municipal. realmente espaços eficazes de represen-
2. Criar fórum de educação em cada dis- tação da comunidade escolar.
trito. 15. Financiamento público para profis-
3. Divulgar e propor divulgação do Fó- sionais de centros de educação infantil
rum de Educação da Zona Leste em en- (CEIs) formarem-se em serviço, e con-
tidades como associações de bairros e cluírem o curso superior.
igrejas da comunidade utilizando carta- 16. Realizar encontros de profissionais
zes, faixas, folhetos, anúncios em rádio, da educação vinculados a secretarias de
televisão etc. diferentes setores (educação, assistência
etc.), níveis de governo (municipal, esta- 30. Estabelecer projetos político-peda-
dual e federal) e organizações da socieda- gógicos com os pais e comunidade para
de civil (empresas, associações etc.). transformar grade curricular, horários,
17. Integrar várias secretarias em projetos oferta de cursos e intervenção cultural.
que visem a mobilização da comunidade, 31. Aproveitar terrenos, imóveis e insta-
a exemplo do projeto Recreio nas Férias, lações ociosas para variadas atividades
com a Secretaria Municipal de Educação educativas (inclusive esportivas) com a
e a Secretaria Municipal de Esportes. comunidade.
18. Ouvir e respeitar os alunos. 32. Realizar parcerias de escolas com mu-
19. Troca de experiências entre pessoas seus, teatros e cinemas.
de escolas estaduais e municipais sobre a 33. Estabelecer parcerias entre escolas e
necessidade de grêmio estudantil como universidades para que seus concluin-
uma das possíveis formas de expressão tes em diferentes áreas apoiem o traba-
dos educandos. lho educativo.
20. Realizar encontros periódicos de re- 34. Ampliar a atuação dos conselhos tu- 69
presentantes de cada segmento de pes- telares junto às escolas no trabalho com a
soas vinculadas à escola (alunos, ou pro- comunidade e a família.

fórum de educação da zona leste de são paulo


fessores, ou familiares, ou funcionários
não docentes) dentro da escola. Pontos não consensuais, acréscimos
21. Realizar plenárias por turno, com re- e sugestões
presentação de todos os segmentos. nObter autonomia para a unidade esco-
22. Órgãos técnico-administrativos (por lar selecionar e recrutar seus professores.
exemplo, NAE ) devem promover en- Comentário: avaliar professores e fun-
contros específicos sobre o processo de cionários através da apreciação do con-
democratização da gestão da educação. selho de escola.
23. Elaborar plano de trabalho articula-
do entre diversos setores públicos para Atividade III
apoiar as escolas nas áreas de abasteci- Objetivo: Incluir todos os indivíduos do
mento, trabalho, habitação, lazer, cultu- território nos serviços educativos
ra, esportes, meio ambiente e saúde.
1. Reduzir o número de alunos por sala
24. Instituir apoio intersetorial (assis-
de aula.
tência social, saúde, cultura etc.) às prá-
2. Diminuir o número de alunos por sa-
ticas educativas.
la de aula para atender de forma diferen-
25. Contratar profissionais operacionais
ciada alunos portadores de necessidades
e administrativos para as escolas.
especiais.
26. Preencher os postos de coordena-
dores e diretores de escolas por meio de 3. Equalizar o número de aulas por dis-
eleição direta. ciplina.
27. Realizar oficinas de integração entre 4. Realizar concursos públicos para pro-
pessoas de diferentes escolas. fessores de educação básica.
28. Promover periodicamente palestras 5. Remunerar profissionais de centros
dirigidas a alunos e pais. educativos públicos em níveis superio-
29. Esclarecer a comunidade sobre o res aos dos profissionais dos centros par-
projetos das escolas. ticulares com melhor remuneração.
6. Criar centro especial para atendimen- da Zona Leste (Fatec).
to a crianças especiais e com problemas 21. Abrir as bibliotecas ao público no pe-
de saúde. ríodo noturno.
7. Criar novas unidades ou convênios 22. Distribuir adequadamente os inves-
para atendimento de crianças com defi- timentos das empresas privadas na área
ciência mental em Ermelino Matarazzo, da cultura.
São Miguel Paulista e Itaim Paulista. 23. Fazer levantamento dos espaços pú-
8. Atender à demanda por serviços de blicos existentes para melhor utilização.
educação escolar básica e superior con- 24. Tornar disponíveis (não só nos fins
forme necessidades por bairro. de semana) as dependências e instala-
9. Ampliar a oferta de vagas em univer- ções escolares para uso em atividades co-
sidade pública, que supram as necessida- munitárias.
des da região em ciências exatas, huma- 25. Adequar a estrutura da escola de mo-
nas e biológicas. do que haja mais tempo para recreação,
70 10. Instalar campi de universidades pú- evitem-se enormes filas para merenda e
blicas na Zona Leste. haja espaços para diversas modalidades
11. Estabelecer programa de construções de ensino.
instituto de tecnologia social

e reformas de prédios escolares. 26. Valorizar o brincar e orientar pais so-


12. Utilizar profissionais e instalações es- bre a finalidade do “trabalho lúdico” rea-
colares existentes em horários ociosos. lizado na escola.
13. Difundir a informação sobre direitos 27. Contratar profissionais especializa-
que fazem parte da legislação, por exem- dos para realizar atividades comunitárias
plo, na LDB (Lei de Diretrizes e Bases da nos fins de semana nas escolas.
Educação Nacional, (nº 9394/96), a edu- 28. Instalar computadores nas escolas
cação abrange também o período entre estaduais e nas escolas municipais de
zero e seis anos de idade. educação infantil.
14. Ampliar recursos para os conselhos 29. Construir auditórios nas escolas
tutelares. existentes e incluí-los na construção dos
15. Informar todos na unidade escolar e prédios futuros.
no conjunto da comunidade sobre o or- 30. Agilizar processo de efetivação das
çamento participativo, realizando inclu- unidades do Mova.
sive seminários. 31. Melhorar a segurança, a estrutura e as
16. Conferir pleno e legítimo poder de de- atividades dos centros de lazer existentes.
cisão popular no orçamento participativo.
17. Definir tempo suficiente para pesqui- Pontos não consensuais, acréscimos
sar e gastar as verbas. e sugestões
18. Criar um centro cultural e curso uni- nIncentivar a criação de núcleos de estu-
versitário público em cada macrorregião do pré-vestibular de acordo com os in-
da Zona Leste. teresses e anseios de cada comunidade.
19. Oferecer cursos de informática pro- Comentários: incluir pré-vestibular para
fissionalizante. escolas técnicas; criar núcleos de estudo
20. Estabelecer convênios educativos pré-vestibular gratuito em todas as esco-
profissionais com o Centro Tecnológico las de ensino médio.
nRever o processo de reorganização das
escolas estaduais para revitalizar algu-
mas que têm sido abandonadas enquanto
outras estão superlotadas. Comentário:
acrescentar: utilizar o sistema de trans-
porte de alunos visando otimizar as vagas
em unidades com espaços disponíveis.

Novas propostas
1. Agregar as propostas afins e comple-
mentares, reorganizando o documento.
2. Parcerias com entidades para atendi-
mento das necessidades dos alunos.
3. Construir, manter e preservar em cada 71
escola um anfiteatro e uma quadra cober-
ta, com atividades cotidianas.
4. Para os três eixos do plano, definir e ex-

fórum de educação da zona leste de são paulo


plicitar os conceitos de educativo, esco-
lar e autonomia.
5. Redigir uma introdução referindo-se
aos conceitos nele utilizados.
6. Explicitar que há um contexto político
que contribui com a atual orientação de
investimento educacional: políticas do
Banco Mundial, lógica financeira torna-
da exclusiva.
7. Criar dinâmicas em que seja possível a
troca de experiências com outras regiões.
8. Implantar opção para regime de dedi-
cação exclusiva para que o professor per-
maneça em uma única escola, proporcio-
nando adicional sobre seu salário.
9. Alterar a legislação que permite ao
professor titular do cargo faltar por 29
dias consecutivos.
10. Trazer a comunidade para dentro da
escola através de atividades previstas nos
projetos da escola.
considerações finais
Alguns aprendizados dade de cada cidadão e instituição, pú- 73
Ao longo deste caderno, pudemos co- blica ou privada. Atualmente, a institui-
nhecer algumas experiências que arti- ção responsável por essa formação básica

considerações finais
culam comunidade e escola com vistas a é a escola, que estabelece diversos tipos
uma educação integral dos cidadãos. Fo- de relação com o seu entorno e com a so-
ram selecionadas iniciativas que abran- ciedade em geral. Pelas experiências aqui
gem sistemas educacionais de âmbito vistas, percebe-se que diversas práticas
regional/local, ou seja, os sistemas edu- de educação formal podem ser estendi-
cacionais tanto de um município quanto das para o âmbito da cidade.
de uma região de um município (no ca- Uma vez que se trata de um contínuo,
so do Fórum da Zona Leste de São Pau- não deveria existir uma cisão entre o den-
lo, considerando que a região compre- tro e o fora da escola, a escola não deve-
ende mais de 4 milhões de habitantes, ria ter muros. Em outras palavras, esco-
muito maior que muitos grandes muni- la e comunidade só têm a ganhar quando
cípios). A seguir, apresentamos alguns se tornam aliadas no processo educati-
dos aprendizados obtidos no processo de vo. Afinal, a escola existe para formar ci-
elaboração deste caderno, ao aproximar- dadãos que vão atuar no mundo real, ou
mo-nos desses projetos e de algumas das seja, na comunidade entendida de mo-
pessoas que os realizam. do mais ou menos amplo; e a comunida-
de tem na escola um lugar, não exclusi-
a. A educação formal enquanto proces- vo, mas sem dúvida muito especial para
so de formação das pessoas que se ini- a formação de suas crianças e jovens. Ao
cia já nos primeiros anos de vida, acon- zelar uma pela outra, comunidade e esco-
tece de modo intenso até a juventude e la descobrem e inventam diversos senti-
pode prosseguir com práticas mais ou dos para as suas vidas. Essa colaboração
menos esporádicas ao longo de toda a vi- em algum momento da história se per-
da tem um lugar central no desenvolvi- deu e em muitos casos nunca existiu , e é
mento das sociedades contemporâneas, importante que os profissionais da edu-
sendo uma necessidade e responsabili- cação, pela própria natureza do seu tra-
balho e papel social, assumam a iniciati- lado, a escola deixa de considerar os pais
va de buscar reconstruir o diálogo com a e as mães simplesmente como os respon-
comunidade. sáveis quando o aluno vai mal ou apre-
Ao mesmo tempo, por ser algo que senta comportamentos agressivos ou
diz respeito a todos e por se tratar de considerados inadequados para o am-
um espaço amplo e interdisciplinar, in- biente escolar, ou então aqueles que só
clusive para a garantia de outros direi- são chamados à escola para ter aborreci-
tos, a educação não pode ser considera- mento (quando ocorrem problemas) ou
da um nicho exclusivo de especialistas. saber das notas de seus filhos. De outro
Isso não quer dizer que não existam os lado, os pais não vão culpar os professo-
especialistas em educação; ao contrário, res pelo mau desempenho de seus filhos,
é fundamental que os educadores sejam ou então considerar que a educação es-
profissionais com boa formação e remu- colar é, no fim das contas, inútil. Escola
neração condizente com o seu papel na e comunidade vão cuidar um do outro,
74 sociedade. Mas, justamente, enquanto numa relação respeitosa e transparente,
educadores (docentes, gestores e demais buscando compartilhar a responsabili-
trabalhadores da unidade escolar), pode- dade e o mérito para concretizar o obje-
instituto de tecnologia social

se afirmar que eles devem ser especialis- tivo comum que é proporcionar uma boa
tas não só nas questões e habilidades que formação às crianças.
concernem diretamente suas atividades
escolares, mas também especialistas no c. A participação das crianças desde cedo
diálogo com a comunidade. no processo de pensar e decidir sobre as
coisas que dizem respeito à sua educação
b. Como vimos nas experiências apre- pode ser de grande valia no processo edu-
sentadas, muitas são as vantagens educa- cativo. Isso fica evidente na experiência
tivas deste tipo de postura que estabele- da Escola Cidadã, que pudemos conhe-
ce uma linha forte de relação entre escola cer neste caderno, que trabalha a partici-
e comunidade. Primeiramente, está pro- pação com as crianças desde bem novas.
vado que um dos fatores que concorrem Entende-se que a melhor maneira (senão
para o bom desempenho das crianças na a única) de se aprender a participar é par-
escola é o acompanhamento dos pais. Se ticipando, e que este será um aprendiza-
as famílias e a escola entendem que não do fundamental para o cidadão ao longo
competem entre si na formação dos mais de toda a sua vida.
jovens e que são, isso sim, parceiras nesse Como se pode exigir de alguém que
processo, aumentam-se as chances de que seja capaz de participar, de compreender
eles sejam bem sucedidos no seu aprendi- a sua interação com outras pessoas e os
zado, pelo fato mesmo de que todos os in- diversos interesses envolvidos na vida
teressados estarão zelando por ele. em sociedade, se durante toda a sua vi-
Além disso, ao criar espaços oficiais da escolar esta pessoa apenas aprendeu
de participação nas escolas, em que os fa- a obedecer e a executar tarefas segun-
miliares podem de fato opinar e decidir do ordens superiores? Numa concepção
sobre assuntos importantes da vida es- democrática da escola, ela é um lugar de
colar, cria-se uma outra relação. De um exercício e aprendizado de democracia.
Nunca é cedo demais para a construção A administração pública que assume
do diálogo. A participação e as experiên- uma outra relação com seus cidadãos, co-
cias estão comprovando isso na prática. E locando-se aberta à construção de cami-
até mesmo a sustentabilidade deste tipo nhos dialogados, é a que mais avançará
de escola a longo prazo exige a formação em termos de educação e sustentabilida-
de pessoas capazes de serem sensíveis ao de a longo prazo das políticas públicas.
diálogo e às questões coletivas e também Programas construídos em diálogo com
de levar a cabo processos participativos a comunidade são em geral menos sus-
de educação e gestão. cetíveis às alternâncias de poder, pois
equacionam as forças presentes em um
d. O Estado tem um papel fundamental território. Neste sentido, vale destacar a
na promoção da educação formal; a par- importância da institucionalização des-
tir das experiências estudadas, percebe- tas conquistas em instâncias que estejam
se que o Estado tem também um papel acima do plano de governo de uma ges-
destacado na extensão dessa educação tão. A Associação Internacional de Cida- 75
formal em sua interação com a comuni- des Educadoras, por exemplo, só creden-
dade. Embora não haja razão para que as cia um município se a adesão à Carta das

considerações finais
práticas democráticas e participativas, Cidades Educadoras for aprovada pela
assim como a integração com as comu- Câmara de Vereadores.
nidades, se restrinjam às escolas públi- A construção de um Plano de Desen-
cas, são elas que deverão assumir a van- volvimento da Educação aprovado como
guarda deste processo, pelo seu próprio lei tem um papel similar. Os entrevista-
papel na redução das desigualdades e in- dos do Instituto Paulo Freire destacaram,
justiças sociais. Os alunos de escolas pú- neste caderno, a experiência ocorrida na
blicas enfrentam mais diretamente as di- cidade de Osasco, que não foi especifica-
ficuldades e precariedades mente relatada aqui, mas que de algum
Assim, no âmbito municipal, são modo está incluída, por sua implemen-
muitos os espaços em que é possível de- tação da proposta da Escola Cidadã. Em
senvolver esse tipo de experiência, co- Osasco, ocorreu um amplo processo de
mo pudemos constatar nos dois casos consulta popular que culminou na apro-
aqui estudados, de prefeituras que assu- vação de um Plano Municipal de Educa-
mem a difícil tarefa de constituir escolas ção, com metas de médio e longo prazo.
integradas às comunidades de Belo Ho- No caso do Fórum de Educação da Zona
rizonte e Sorocaba. Ao abrir-se a parce- Leste de São Paulo, durante todo o pro-
rias com indivíduos e instituições de seu cesso de elaboração do Plano de Desen-
entorno, a escola começa a ocupar es- volvimento da Educação da Zona Leste
paços públicos e privados que antes lhe de São Paulo, observou-se um esforço
eram vedados, e amplia-se assim a re- dos membros do Fórum em integrar nos
de de colaboração e de responsabilidade debates os mais diversos grupos sociais
que se esforça por uma melhor formação daquela região, inclusive representantes
de nossas crianças. Ou seja, também pe- do poder público das três instâncias. Em-
la construção de uma escola melhor e de bora o Fórum não tivesse poder delibera-
uma sociedade mais justa e igualitária. tivo, tratou-se de um processo pedagó-
gico com potencial de incluir também as to realiza uma troca intensa entre o es-
instâncias governamentais. paço doméstico e o espaço da escola. Ao
Outro aspecto observado nas experi- realizar atividades escolares cuja própria
ências deste caderno é que a articulação viabilidade implica um vivência colabo-
comunidade-escola fatalmente acarreta rativa comunitária (pela cessão dos espa-
uma re-estruturação dentro da própria ços, por exemplo), os jovens vivenciam
administração do sistema escolar, exi- um modo de estar no mundo que pode
gindo uma colaboração sistemática en- influenciar em sua maneira de se relacio-
tre várias secretarias municipais. Em Be- nar com as questões e os espaços públi-
lo Horizonte, por exemplo, designou-se cos. Ou seja, a cidadania deixa de ser ape-
um funcionário em cada secretaria mu- nas um conteúdo a ser tratado em aula
nicipal para ocupar-se exclusivamente para ser também um processo vivencia-
das questões referentes à Escola Integra- do na maneira como as diversas ativida-
da, que são das mais diferentes naturezas. des acontecem.
76 Pode ser a adaptação da sinalização das n A escola passa a ser o centro de refe-
vias públicas, a obtenção de autorização rência de um processo de revalorização
para a utilização de espaços da cidade ou dos espaços públicos. Isso acontece tan-
instituto de tecnologia social

até mesmo a viabilização de obras públi- to porque a circulação das crianças pe-
cas de maior porte. Ao mesmo tempo, no las vias do entorno das escolas inspira,
momento em que assume uma postura provoca e exige um cuidado com a pre-
educativa e não impositiva em relação aos servação, limpeza e organização dos es-
seus cidadãos, o município descobre uma paço, quanto porque a apropriação gera
quantidade enorme de oportunidades de um maior conhecimento sobre a situa-
educação em cada momento da vida em ção desses espaços. Segundo a adminis-
comunidade. Cada situação de interação tração de Belo Horizonte, por exemplo,
entre as pessoas e com o meio pode tan- são muitos os exemplos de pessoas que
to se tornar um espaço de formação indi- se dispõem voluntariamente a auxiliar
vidual ou coletiva quanto fornecer temas no cuidado de uma praça ou parque, uma
para estudo nas escolas pelos alunos, em vez que seus filhos vão ali para realizar
abordagens transversais/interdisciplina- atividades escolares.
res. Isto vale para o trânsito, para a re-es- n A comunidade se reconhece como tal,
truturação urbana, o saneamento básico, ou seja, há neste processo um forte po-
o meio ambiente, a cidadania, a segurança tencial agregador em torno de um pro-
alimentar e assim por diante. jeto comum de cuidado e transformação
da vida em comum, com um foco espe-
e. Nas experiências relatadas, pode-se per- cial na atenção coletiva à formação das
ceber como a apropriação da cidade como crianças e jovens.
espaço educativo potencialmente propor- n Há também um impacto positivo do
ciona ganhos relevantes, entre os quais: ponto de vista financeiro. A escola em
n Há um forte potencial de mudança da tempo integral, por exemplo, torna-se
relação dos jovens com a cidade, que in- uma alternativa viável, já que se concre-
fluencia uma mudança similar em toda a tiza por meio de parcerias que ampliam
comunidade, uma vez que este segmen- os espaços de atividades escolares sem a
necessidade de construção de edifícios comum, consegue-se com maior efici-
que deem conta da ampliação da deman- ência abordar temas que exigem a cons-
da. Este aspecto foi apontado como rele- trução de consensos e que não deveriam
vante tanto em Sorocaba como em Belo ser influenciados diretamente por diver-
Horizonte, que se inspiraram na expe- gências de grupos políticos. Assim, se as
riência pioneira da prefeitura de Nova experiências de governos municipais re-
Iguaçu, no Rio de Janeiro. latadas aqui mostraram a importância de
uma postura e ações de governo demo-
f. A constituição de fóruns de debate não cráticas, populares e participativas, por
hierarquizados e que tenham como foco outro lado é preciso que esse aprendiza-
o aprendizado sobre a educação pode ser do aconteça independente das alternân-
uma estratégia muito eficaz para mobi- cias de poder e que seja capaz, inclusive,
lizar os habitantes de um município em de refletir sobre elas numa perspectiva
torno do interesse comum, sem idéias de longo prazo.
preconcebidas. Como foi dito acima, a 77
educação não pode ser tratada como um
assunto só para especialistas. E para que

considerações finais
a participação dos chamados cidadãos
comuns seja qualificada é preciso inves-
tir na sua formação e participação. Seria,
entretanto, contraditório se esta forma-
ção fosse realizada de cima para baixo,
ministrada por especialistas, contrata-
dos para ensinar aos leigos como se deve
pensar e discutir educação. Ao contrário
disso, a experiência do Fórum de Educa-
ção da Zona Leste mostrou as vantagens
de uma metodologia autogestionada, em
que os próprios participantes decidam
sobre qual deve ser o conteúdo e a forma
de suas práticas, a partir de um questio-
namento sobre suas vidas e suas expec-
tativas em relação à educação, podendo
recorrer sempre que necessário a espe-
cialistas (seja para consultas, assessorias
ou processos formativos), mas não dele-
gar a eles ou elas o poder de decidir sobre
o presente e o futuro da educação.
Outro aspecto que parece importante
é preservar uma distinção entre os espa-
ços de decisão e os espaços de aprendiza-
do. Ao esvaziar as disputas político-par-
tidárias em instâncias de aprendizado
referências
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Projeto de Comunicação do Instituto de Tecnologia Social apoiado pelo Ministério da Ciência
e Tecnologia – Secretaria da Ciência e Tecnologia para a Inclusão Social

Ministério da Ciência e Tecnologia


Ministro da Ciência e Tecnologia Dr. Sérgio Machado Rezende
Secretaria da Ciência e Tecnologia para a Inclusão Social
Secretário da Ciência e Tecnologia para a Inclusão Social Joe Valle

Instituto de Tecnologia Social


Conselho Deliberativo
Presidente Marisa Gazoti Cavalcante de Lima
Vice-presidente Maria Lúcia Barros Arruda
Membros Laércio Gomes Lage, Moysés Aron Pluciennik, Pascoalina J. Sinhoretto e Roberto Dolci
Conselho Fiscal Alfredo de Souza, José Maria de Sousa Ventura e Sandra Magalhães
Suplente do Conselho Fiscal Marli Aparecida de Godoy Lima
Gerente Executiva Irma R. Passoni

Equipe de Projetos
Coordenador de projetos Jesus Carlos Delgado Garcia
Equipe Adriana Vieira Zangrande, Edilene Luciana Oliveira, Edison Luis dos Santos, Emerson Lopes da Silva,
Flávia Torregrosa Hong, Gerson José da Silva Guimarães, Luiz Otávio de Alencar Miranda,
Marcelo Elias de Oliveira, Marcos Palhares, Maria Aparecida de Souza, Suely Ferreira e Vanessa Souza.

Conhecimento e Cidadania 6 - volume 1


Tecnologia Social e articulação comunidade-escola
Autores Irma R. Passoni e Jesus Carlos Delgado Garcia (coordenação geral),
Maurício Ayer (coordenação editorial), Beatriz Rangel, Elie Ghanem, Gerson José da Silva Guimarães,
Helena Hypólito, Jorge Lescano e Roseli Mello
Revisão: Edison Luís dos Santos e Emerson Lopes da Silva
Projeto gráfico Lia Assumpção
Diagramação Marilia Ferrari
Fotografias Divulgação Prefeitura de Belo Horizonte (pág 12, 30 e 36), Equipe IPF (pág 12, 42 e 49),
Emerson Ferraz (pág 12 e 21), Paulo Ochandio (pág 21), Divulgação Prefeitura de Sorocaba (pág 26),
Renato Marcio Nascimento (pág 67)

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