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Revista
da ADPPUCRS

Porto Alegre, nº. 5, p.117-121, dez. 2004

O caráter ético do conhecimento científico


URBANO ZILLES

Os novos desafios colocados pelo ou seja, os pobres? Quais são os limites e as


progresso da tecno-ciência mostram que as conseqüências da intervenção do homem
normas éticas tradicionais tornaram-se in- na natureza da qual faz parte? Poderá de-
suficientes e, por vezes, inadequadas para fender-se, ainda, a velha tese do caráter
os nossos dias. Sem dúvida exige-se uma objetivo da ciência, eticamente neutro? Há
nova ética, baseada, por um lado, na obje- realmente pesquisas científicas isentas de
tividade e, por outro, no serviço à vida. interesses econômicos, militares, ideológi-
Essa nova ética deve ser adequada aos desa- cos ou outros? Quem é, em última análise,
fios gigantescos da ciência e da técnica, o sujeito responsável pela condução da
com critérios objetivos que ofereçam garan- investigação científica num mundo sempre
tia do servirem à vida do homem no mun- mais globalizado? Não será indispensável
do. Tais critérios devem ser procurados e, constituir sujeitos de responsabilidade, ou
em geral, só podem ser afirmados com cer- seja, entidades controladoras dos processos
ta probabilidade porque quase sempre ig- biotecnológicos em número suficiente com
noramos, nesse campo, as conseqüências de a participação mais ampla possível de todos
nosso agir a longo prazo. Por isso, esses os segmentos da sociedade?
critérios devem ser permanentemente rea- O conhecimento técnico-científico
valiados. opera maravilhas. Aplaina montanhas, des-
Querer recuar ao passado, aos mode- loca rios, mas também destrói florestas,
los de moral que nos são familiares para polui águas e divide cidades. Possibilita
aplicá-los ao progresso da ciência e da téc- viagens à lua e outros planetas, mas tam-
nica seria renunciar a uma participação bém cria abismos entre as pessoas no cam-
transformadora da sociedade. Importa co- po social, por exemplo, no acesso aos bens
nhecer as racionalidades dos atores, tentar materiais e espirituais. Para alguns, realiza
entender seus modelos de pensar e agir. O sonhos que apenas pareciam fábulas. Para
que os motiva? Quais suas metas? Como outros, instaura o desemprego, a miséria, a
chegam às suas decisões? Percebem o que a fome e a frustração. Diante disso cabe per-
sociedade deseja? É o desenvolvimento guntar: até que ponto a sociedade é capaz
técnico-científico apenas para privilegiar de usar seus novos conhecimentos de tal
alguns poucos, marginalizando a maioria, maneira que não prejudiquem a vida de
toda a população de hoje, das gerações fu- mundo, mas o transforma. Decisões cientí-
turas e sem agredir o ecossistema? ficas condicionam e possibilitam a produ-
No Brasil podemos citar três grandes ção como também a distribuição de chan-
projetos que deram certo: a Petrobrás, a ces e riscos. Por essa razão, a pesquisa cien-
EMBRAER e a EMBRAPA. Foram proje- tífica não mais poderá ser vista como algo
tos com grande investimento que produ- secundário e isolado do resto. Tornou-se
zem frutos. O primeiro, além de criar nu- uma questão com funções políticas e, para
merosos empregos, conduz o país à auto- tanto, deve legitimar-se. Por outro lado, a
suficiência de petróleo; a EMBRAER colo- política da ciência e tecnologia, por exem-
cou o Brasil em capacidade de concorrer plo, no que tange ao seu aumento e a quem
com os países do Primeiro Mundo na cons- financiar a capacitação para produzi-la é
trução de aviões comerciais; a EMBRAPA hoje uma função central dos governos em
capacita o Brasil para ocupar destaque em vista do próprio desenvolvimento social dos
agropecuária para a produção de alimentos. povos. A questão ética já se manifesta na
No final do século XX, afirmava-se própria oferta das condições para produzir
que o conhecimento será a moeda mais novos conhecimentos, nas formas e inova-
forte do século XXI. Quem tem o conhe- ções que são autorizadas, estimuladas ou
cimento tem o poder. Isso deve conscienti- reprimidas, na concessão de recursos a es-
zar políticos e cientistas de sua responsabi- ses ou àqueles pesquisadores. Tudo isso é
lidade que cresce a cada dia. O homem decisivo para o futuro de um povo.
torna-se cada vez mais responsável pela bi- Pode a própria ciência ou os próprios
osfera. Se o conhecimento científico- cientistas elaborar uma ética? É de se espe-
tecnológico se orientar unicamente pelas rar que as instituições dedicadas à produ-
leis do livre mercado, é possível que aquilo ção de novos conhecimentos, como as uni-
que hoje se apresenta como a grande espe- versidades, também elaborem seu código de
rança, amanhã se torne autodestruição da normas para manter tal produção dentro
espécie humana. dos limites responsáveis para o uso da co-
As sociedades hodiernas cada vez munidade?
mais se tornam sociedades de informação e Essa é uma questão muito complica-
de conhecimento científico. Decisões to- da porque não existe simplesmente a ciên-
mam-se menos na base da tradição ou de cia. São muitas e diferentes as ciências. Será
princípios éticos, mas em vista de finalida- difícil encontrar uma receita igual para
des racionais de interesse mais ou menos todas elas, mesmo dentro de uma institui-
imediato.E esta é uma questão do conhe- ção. Além disso, não há razões para, de
cimento disponível. O desenvolvimento de antemão, admitir que os que exercem a
sociedades depende cada vez mais da pro- práxis científica estejam mais ou menos
dução e aplicação do saber. Mas o conhe- qualificados para a formulação de normas
cimento não é um conhecimento simples- éticas que os de outras profissões, com ex-
mente disponível e sua aplicação pode ser ceção dos profissionais da disciplina filosó-
problemática. Sempre mais será indispen- fica de ética. A socialização das conquistas
sável o exame prévio de possíveis conse- do conhecimento científico, em geral, não
qüências, as quais poderão ser irreversíveis, exige uma formação especial. É próprio da
e das eventuais alternativas. pesquisa romper padrões existentes. De
A aplicação do conhecimento envol- certa maneira, pesquisadores agem, dentro
ve, pois, sérios problemas éticos, pois a de sua área de conhecimento, sem escrúpu-
ciência não se restringe a interpretar o
los. Claro, com isso não queremos dizer liberam dióxido de carbono para poluir o
que são irresponsáveis. meio ambiente. Além disso, as reservas
Em ciência, a rigor, não há verdades minerais, como petróleo e o carvão, se es-
evidentes. Os próprios enunciados relativos gotarão. Os que criticam o uso da energia
aos fatos são já frutos de uma interpretação nuclear para fins pacíficos apontam para a
à luz dos conhecimentos aceitos. Einstein ameaça de um possível acidente nos reato-
mostrou que as bases da física teórica não res e dos detritos desse tipo de lixo atômi-
são nem verdades evidentes, nem verdades co. As usinas dessa energia sempre apresen-
deduzidas, mas hipóteses. Por hipóteses en- tam grandes riscos. Acentuam, ainda, os
tendemos sentenças cuja veracidade, mes- críticos que Estados inescrupulosos, que
mo sem estar definitivamente comprovada, dominam tal tecnologia, em tempos de
num primeiro momento, serve de base para crise, poderão usá-la para fins militares com
o agir cognitivo, como conjetura. O que a conseqüências imprevisíveis para a própria
ciência reivindica é que seus enunciados humanidade. Por isso, os críticos da ener-
formam um conjunto logicamente coerente gia nuclear preferem fontes renováveis co-
e corroborado pela experiência. mo a luz solar, os ventos e a biomassa. Tais
A história da ciência mostra que os energias, além de disponíveis, são de acesso
cientistas são seres humanos capazes tanto relativamente fácil. A opção por uma ou
de grande engajamento político quanto de outra alternativa, contudo, não é científica,
fanatismos. Sob esse aspecto, são profissio- mas ética ou política.
nais muitas vezes guiados por paixões como Coisa semelhante ocorre no campo
políticos ou religiosos com tendências fun- da biologia genética. Os que são favoráveis à
damentalistas, prisioneiros do seu próprio biotecnologia apontam para a possibilidade
mundo. Entretanto a institucionalização de de melhorar a alimentação da população
uma ordem moral imposta de fora, com através da modificação genética de plantas
controles correspondentes, certamente e de animais e a terapia celular como bene-
também seria problemática, como o de- fício para cura de doenças hereditárias e do
monstrou o passado. Se o pesquisador câncer. Os críticos da transgênese ou modi-
sempre devesse esclarecer previamente se o ficação genética temem que tais interven-
que faz é bom ou mau seria submetido à ções possam trazer danos irreparáveis para
pressão permanente de legitimar sua ativi- o ecossistema com efeitos imprevisíveis.
dade profissional. O que significa “bom” Com a intervenção manipuladora no ge-
ou “mal” é uma questão a ser definida e, noma de plantas e animais, segundo esses
por isso, muitas vezes, discutível e compli- críticos, as melhoras não compensam os
cada. A realidade complexa do mundo da possíveis malefícios a longo prazo.
ciência e da técnica é ambígua, pois, via de No campo da informação e das novas
regra, combina determinadas vantagens tecnologias de comunicação, ocorrem alte-
com determinadas desvantagens. Isso difi- rações profundas. O computador tornou-se
culta um juízo unívoco e consensual, uma um instrumento imprescindível no traba-
vez que diferentes visões se distanciam en- lho diário para nossa sociedade. Os favorá-
tre si. veis às novas tecnologias da informática
Para esclarecer o exposto, bastaria vêem possibilidades incalculáveis de ampli-
considerar alguns aspectos éticos significa- ar o uso do computador. Crêem que a co-
tivos no campo da energia nuclear. Os que municação entre os homens se torna sem
são favoráveis ao seu uso para fins pacíficos fronteiras. O computador alarga os hori-
acentuam que os geradores de energia não zontes humanos como antes sequer se po-
dia imaginar. Os críticos, por sua vez, inda- ciências que se ocupam com a vida, bem
gam se o rompimento tecnológico das fron- como às tecnologias correspondentes.
teiras na comunicação realmente significa A pesquisa científica, nas últimas dé-
um benefício. A convivência humana, se- cadas, abriu perspectivas até há pouco im-
gundo os críticos, depende mais da comu- pensáveis. Mas elas não só trazem soluções.
nicação direta e imediata, e as tecnologias A mídia, em geral, só exalta os benefícios,
dificultam tal porque consomem o tempo silenciando os riscos. As tentativas de clo-
de lazer. nagem, o sucesso do transplante de órgãos,
Se ainda considerarmos os muitos a decodificação do código genético huma-
conflitos de interesses e de objetivos vincu- no são sucessos anunciados sobre todo o
lados à conquista de novos conhecimentos planeta com euforia e sensacionalismo.
e novas tecnologias não conseguiremos Mas tudo isso, para muitos críticos, aumen-
vislumbrar uma ética geral de consenso, ta a responsabilidade.
pelo menos, a curto prazo. Apesar de as Potter pretendia a bioética como ci-
questões éticas se tornarem cada vez mais ência que garantisse a sobrevivência do
prementes no atual estado da investigação planeta. Entretanto esse conceito de bioéti-
científica, o próprio cientista não pode ca mudou. Segundo o professor Joaquim
deixar de ponderar os possíveis efeitos de Clotet, um dos pioneiros dessa área do
suas descobertas, de tematizar as questões conhecimento no Brasil, “a bioética é o
dramáticas que ameaçam a sociedades. estudo sistemático da conduta humana na
A questão ética é tão urgente que, em área das ciências da vida e cuidado da saú-
algumas áreas do conhecimento, se criaram de, enquanto essa conduta é examinada à
subdisciplinas, como a bioética na medici- luz dos valores e princípios morais”. A pró-
na, para tratar desses novos problemas. É pria ética, como disciplina humanista, pres-
claro, não se deve ignorar que tais iniciati- supõe elementos científicos. Por outro la-
vas incorrem no perigo de desenvolver-se do, trabalha com valores, metas e sistemas
em sistemas próprios sem maior relevância, de sentido. Sob esse aspecto, a bioética
porque, no exemplo da bioética, há o peri- nada mais é do um ramo especial da ética
go da limitação de seus titulares no campo geral, uma ética aplicada. Numa sociedade
da biologia ou da ética geral ou ainda em pluralista, não poderá renunciar à preten-
ambos. são de universalização. Seu caráter será
O termo bioética foi cunhado, em interdisciplinar, pois a vida não é monopó-
1970, pelo oncologista norte-americano de lio da biologia. Para chegar à universalida-
origem holandesa Van Rensselaer Potter. de, com critérios para distinguir adequa-
Divulgou-se muito rapidamente porque damente entre o factível e o permitido,
tenta responder a uma necessidade urgente. entre o conveniente e o prejudicial, necessi-
Potter tinha como objetivo assegurar a so- ta, devido à própria interdisciplinaridade,
brevivência da humanidade ameaçada por de um estilo dialogal para chegar a consen-
uma ciência descontrolada e, para muitos, sos, ao menos majoritários, quanto à ma-
irresponsável. Percebeu que há uma preo- neira adequada de conduzir a pesquisa bio-
cupante lacuna entre o avanço rápido da científica em benefício da humanidade.
ciência, por um lado, e a reflexão crítica A própria política, no campo da ci-
sobre o que é permitido e conveniente, de ência e da tecnologia, defronta-se com pro-
outro. Assim a bioética nasce como uma blemas éticos. A cada instante decide-se o
tentativa de imprimir responsabilidade às que é ou não importante para investimento
na pesquisa. E, em certas áreas, as somas
são muito elevadas quando se trata de rias e métodos científicos incluísse a teoria
grandes projetos. Tais decisões pressupõem do conhecimento, sobretudo por parte
juízos de valor e de objetivos, decisões difi- daqueles que se dedicam à pesquisa. Não
cílimas em países considerados ainda em só a ciência deve sintonizar melhor com os
desenvolvimento, nos quais ainda falta o problemas e as exigências da sociedade con-
alimento para grandes massas. temporânea, mas a própria teoria do co-
A política da ciência e da técnica faz nhecimento e a teoria da ciência devem
parte de um processo mais amplo e mais conscientizar-se melhor da função media-
complexo no qual, na prática, raras vezes se dora da ciência e da técnica. É ameaçador o
chega a um denominador comum. Mas perigo de os expertos se enjaularem, ocu-
sempre poderá ser aperfeiçoado. Tudo in- pando-se apenas com suas próprias ques-
dica que a política tradicional se tornou tões. Nesse sentido, a participação do pú-
insuficiente para resolver os novos proble- blico leigo pode ser proveitosa para abrir os
mas. Os governantes certamente deverão horizontes dos especialistas para a comple-
integrar instituições, grupos de profissio- xidade do mundo real.
nais em suas assessorias para elaborar suas Os modernos meios de comunicação
decisões políticas e buscar atualização per- podem auxiliar ou dificultar a tarefa medi-
manente das informações. A pesquisa cien- adora da ciência. Bastaria lembrar a Inter-
tífica mexe em questões que decidem a net para fins científicos. Mas tudo isso não
sobrevivência da espécie humana, como é a dispensa os cientistas de sua responsabili-
questão da globalização, da justiça social, dade social e ética. Em princípio, todavia,
da economia e da ecologia. Nesse sentido, a não há razões para dizer não à pesquisa da
política da ciência e da tecnologia deve ser natureza do homem. Embora saibamos que
profissionalizada, mas não partidarizada, o ser humano pode abusar de seu poder,
nem ideologizada. Instituições políticas e temos razões para acreditar no bom senso e
grupos de pesquisadores devem refletir na responsabilidade ética de nossos cientis-
sobre as chances e riscos que envolvem tas. Sem pesados investimentos na pesquisa
novas descobertas. científica, nenhum povo hoje gozará de
A atual situação, ao menos no Brasil, bem-estar durante período mais longo. Mas
muitas vezes é objeto de discursos caóticos também, numa sociedade que carece de
no labirinto de possibilidades quanto às consenso sobre valores, pode chegar-se a
metas. Tais discursos, freqüentemente, um acordo de que nem tudo que é possível
substituem o aspecto religioso medieval, fazer se deve fazer de fato.
contaminados por novas ideologias, vítimas Para concluir, as mudanças rápidas e
de interesses partidários e de organizações profundas que ocorrem em vista do desen-
internacionais. Tudo isso dificulta decisões volvimento técnico-científico exigem novas
adequadas. A discussão pública só é provei- reflexões filosóficas para a adequação de
tosa quando livre de pressões dominadoras. códigos e normas de ética profissional. Sur-
Os expertos em teoria do conhecimento e gem, a cada momento, novos problemas e
teoria da ciência têm uma tarefa difícil, novas perguntas que não se respondem
pois trabalham na periferia das decisões. satisfatoriamente com respostas velhas.
Essa situação afasta os cientistas das Neste mundo novo da tecno-ciência, mui-
possibilidades e necessidades do mundo tas teorias, também filosóficas, se esgotam,
exterior. Especialização quase sempre signi- e a ciência, por si, não produz normas éti-
fica distanciamento. Os consumidores das cas. Mas sem elas o mundo se tornará de-
conquistas, dos métodos e das teorias cien- sumano. A própria política, se não quiser
tíficas, por sua vez, escolhem seus produtos globalizar apenas a miséria, necessita de
de acordo com os seus próprios interesses. profundas mudanças.
Seria fundamental que a formação em teo-