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IP&T CURSOS DE EXTENSÃO

JAZZ: A ARTE DO IMPROVISADOR


Bob Wyatt

Direção Geral: Giba Favery


Coordenação Pedagógica: Guilherme Marques
Jazz: a arte do improvisador

APRESENTAÇÃO
A importância do jazz no desenvolvimento da bateria no Brasil é um fato notável
desde a introdução do instrumento no país em fins dos anos de 1910 e ao longo da década
seguinte, quando as jazz bands se ocuparam de disseminar o instrumento musical que então
era uma das grandes novidades no cenário cultural da época.
Depois disso, e ao longo de todo o século XX, o jeito de tocar bateria no Brasil –
com seus ritmos e gêneros musicais – foi muito marcado por um diálogo intenso com a cultural
musical norte americana, que ora nos influenciou, ora foi influenciada pela nossa música
popular brasileira. Deste modo, o que podemos observar é a existência de uma longa tradição
brasileira de tocar bateria.
Bob Wyatt, natural de Baltimore (EUA), ocupa uma posição interessante nessa
história. Chegando ao Brasil em 1981, Bob foi prontamente introduzido no efervescente
cenário musical do Rio de Janeiro de então, trabalhando na noite, em shows e espetáculos
com artistas de grande importância tais como Osmar Milito e Hélio Delmiro. Poucos anos
depois de aportar no Rio, Bob se transferiria para São Paulo, onde novamente seria
incorporado na cena musical, tocando e gravando com músicos de ponta e grupos renomados
como o Pau Brasil. É interessante notar como Bob cumpriu essa mediação entre as culturas
musicais norte americana e brasileira, apontando caminhos e introduzindo formas de pensar
e tocar os ritmos brasileiros a partir de sua experiência como baterista de jazz. Aliás, é no jazz
que Bob construiu uma de suas especialidades como instrumentista: o contexto das big bands.
Antes de chegar ao Brasil Bob tocou, entre outras bandas e artistas proeminentes, com o
lendário trompetista Maynard Ferguson e sua big band, além de inúmeros artistas de peso da
cultura musical norte americana.
Além da intensa atividade profissional tocando e gravando com inúmeros artistas
brasileiros e estrangeiros que por aqui passaram (Chet Baker é um exemplo), Bob contribuiu
decisivamente para a construção de uma tradição de ensino, estudo e pesquisa em torno da
arte de tocar bateria. Entre uma certa geração de bateristas, que começou a tocar e estudar
nos anos 1980-90, no eixo Rio-São Paulo, são poucos os que não passaram pelas mãos de Bob,
podendo desfrutar de todo seu conhecimento, sua generosidade e o entusiasmo na forma de
compartilhá-lo.
É um prazer enorme para nós do IP&T Brasil – Giba Favery, e eu Guilherme
Marques, ambos ex-alunos e colegas de Bob por mais de 15 anos ensinando bateria em nível
superior, além de toda a equipe de professores e colaboradores da escola – podermos receber
e dar as boas-vindas a este músico que é uma referência quando o assunto gira em torno da
improvisação, do jazz e seus estilos, e da arte de tocar bateria em big band. Por fim,
agradecemos a confiança em nosso trabalho e desejamos um ótimo curso a todas e todos os
participantes,
Guilherme Marques
Coordenador Pedagógico Cursos Extensão IP&T
Jazz: a arte do improvisador

Introdução

Os bateristas de jazz proporcionaram muita alegria e inspiração à minha vida.


Motivaram-me e mostraram-me os caminhos para um meio de expressão. De todas as
possibilidades de expressão artística, a bateria e o jazz tornaram-se minha paixão. As lições
que aprendi com meus ídolos forneceram a base de um estilo eclético apropriado aos mais
variados contextos jazzísticos. Digo jazzístico porque eles exigem a habilidade de improvisar.
São ambientes democráticos onde cada músico tem o prazer e a responsabilidade de solos e
acompanhamento. A transição suave entre esses dois papéis – solo e acompanhamento – é a
marca registrada dos grandes bateristas de jazz. Assim, a meu ver, falar de jazz é falar de
improvisação.
Seguiremos o lema: condução rítmica também é improvisação, mas é direcionada
para um acompanhamento, em vez de um solo. Vista assim, a improvisação envolve-se na
música inteira. Veremos como esses bateristas preencheram os dois papéis – acompanhar ou
solar –, nos quatro períodos definidos aqui: o jazz clássico, o swing e as big bands, bebop e
afins (cool, hard bop) e, finalmente, o período pós-bop. Cada um deles resolveu o mesmo
problema que os bateristas jazzistas enfrentam hoje em dia: o que fazer dentro do contexto
atual. As soluções, em cada caso, foram inovadoras e causaram grande impacto nos bateristas
que os seguiram.

O início

O jazz é filho do ragtime, a música popular do final do século XIX. Nas primeiras
duas décadas do século XX, as duas palavras eram sinônimas. Os anos 20 testemunharam o
crescimento do jazz nas boates de Chicago e Nova York. Nestes anos Baby Dodds, irmão do
grande clarinetista Johnny Dodds, era o baterista das formações Hot Five e Hot Seven de Louis
Armstrong. Conhecido pelo swing, sutileza e criatividade, ele foi o primeiro improvisador
importante da bateria. Na época, a técnica focalizou-se na caixa e no bumbo. Ser um bom
baterista significava ter uma boa técnica na caixa. O bumbo servia para marcar o pulso. O
primeiro exemplo mostra a sua marca registrada, a condução rítmica na qual a mão direita
tocava quatro semínimas em cada compasso e a mão esquerda arrastava a baqueta na pele
nos segundo e quarto tempos. Dodds usava, também, efeitos sutis, como tocar nos aros ou
blocos de madeira para variar a textura e o volume. O seu estilo mostra a importância de
marcar os tempos para uma platéia dançante. É uma tendência que dura até o final dos anos
de 1940. Recomendo as gravações de Louis Armstrong e Jelly Roll Morton com Dodds na
bateria.
No final dos anos 20 a dança fox trot chega à América do Norte. Com suas quatro
batidas por compasso no bumbo – em vez das duas do jazz clássico – a dança foi uma sensação
e forneceu o ritmo principal do período swing, nas décadas de 1930 e 40. Era a época das big
Jazz: a arte do improvisador

bands e o país dançava ao som de Duke Ellington, Count Basie, Jimmy Lunceford e Benny
Goodman. A banda de Goodman destacava os talentos de Gene Krupa, o primeiro astro da
bateria. Tocando com Goodman até 1941, Krupa estabeleceu o baterista como um solista. Sua
gravação mais famosa na época é a da música Sing-Sing-Sing. Nesse arranjo, Krupa
desenvolveu uma condução rítmica no surdo que serviu tanto para acompanhamento quanto
para solo. Era o maior hit da banda e a música que tornou Krupa famoso. O segundo exemplo
mostra a batida básica que usava no arranjo. Nesse período os bateristas conduziram muito
ritmo em um novo aparelho, o chimbal. O grande baterista Jo Jones, da banda de Count Basie,
inventou ou popularizou a batida que marca o jazz até hoje, o famoso “titi-bum” ou “spã-gah-
lã”. O exemplo dos anos 40 mostra a figura que se tornou a marca registrada do jazz. É
importante lembrar que os bateristas dessa época mantiveram o pulso constante, mesmo nos
solos.
No final dos anos de 1940, jovens jazzistas, entediados com as restrições
harmônicas e rítmicas do estilo, iniciaram experiências musicais que revolucionaram a música.
Foi o início do jazz moderno, uma música destinada aos ouvintes e muito menos preocupada
com andamentos “dançantes”. O bop, como esse estilo é chamado, ousava andamentos
rápidos, harmonias e melodias dissonantes e solos “quilométricos”. Houve uma mudança no
papel do baterista. Liberado da necessidade de marcar ritmos para os pés dançantes da
platéia, eles começaram a desenvolver uma nova maneira de tocar. A marcação principal do
pulso sai do bumbo e muda para o prato, com o chimbal fechando nos segundo e quarto
tempos. Essa técnica é a base da condução rítmica até hoje. Além disso, Max Roach
desenvolveu um estilo pessoal e único que era muito melódico. Usando figuras rítmicas
distribuídas entre as mãos e pés, tanto no acompanhamento quanto nos solos, ele criou frases
de grande originalidade, complexidade e interesse. Esse estilo predomina no jazz até hoje e
forma a base da aprendizagem dos novos bateristas de jazz.
Os anos de 1960 nos EUA foram tempos de grandes mudanças na sociedade e no
jazz. O espírito incansável da procura de novas formas de expressão e a exaltação da
criatividade do indivíduo levou o jazz para terras sonoras inexploradas. Mais uma vez, o papel
da bateria e o funcionamento do grupo de jazz são questionados. Houve uma explosão de
novos estilos de tocar bateria. Porém, dois nomes destacam-se nos anos 60: Elvin Jones e Tony
Williams. Ambos mostram influências de Max Roach, mas desenvolveram estilos únicos e
inconfundíveis.
Elvin Jones alcançou fama tocando no quarteto de John Coltrane. Seu uso da
acentuação em frases de ritmos complexos e densos levou a arte do baterista a novos planos
de expressão. Sua marca registrada envolve polirritmias baseadas em tercinas subdivididas.
Sua criatividade no acompanhamento é igual à dos solos. Só muda a intensidade e a densidade
das idéias. O exemplo mostra um pouco do seu estilo. Não há marcação fixa dos tempos, nem
no prato, nem no chimbal. Em vez disso, existe uma distribuição caleidoscópica da marcação
rítmica entre as mãos e os pés, cuja soma tem o efeito de uma tremenda propulsão. Tony
Jazz: a arte do improvisador

Williams, por sua vez, mostrou o caminho para descobrir novas possibilidades. Sob a tutela de
Miles Davis, Williams ficou livre para explorar novos modos de conduzir o ritmo e explorar
conceitos rítmicos mais flexíveis e fluidos. Abandonou o uso do chimbal nos segundo e quarto
tempos, preferindo uma marcação de quatro tempos. Isso, combinado com figuras
polirrítmicas no prato, tem o efeito de ocultar a passagem dos compassos.
Essa pequena introdução serve para apresentar o elenco desta matéria.
Conversaremos sobre esses e outros grandes bateristas com o objetivo de mostrar a
linguagem musical de cada um, como eles criam frases e como podemos aproveitar essa
riqueza musical. Afinal, nossa missão não é recriar o passado, mas aprender com o passado
para sermos mais criativos no futuro.

Uma técnica muito útil

1. As big bands do Jazz como instituições de aprendizagem

2. O conceitos de “preparação” e “convenção”

3. Treino (repete, repete, repete, …)

O ofício

É difícil imaginar o jazz sem a criação espontânea dos grandes mestres da bateria,
tais como Gene Krupa, Buddy Rich, Max Roach, Elvin Jones e Tony Williams. Suas gravações
compõem uma literatura rica em idéias e inspiração para quem se interessa pela arte do
improvisador. Ao contrário dos instrumentos da orquestra que têm uma longa tradição de
publicação de partituras, o repertório dos bateristas de jazz está nas gravações. É assim que
os momentos efêmeros de criação espontânea foram preservados para as gerações futuras.
Nesta coluna, vamos explorar os solos desses e de outros bateristas para entender melhor de
onde vem tal criatividade, como os improvisos estão organizados, quais os elementos e
recursos musicais que os compõem e, finalmente, como podemos aproveitar essa riqueza de
ideias e inspiração.
Como ponto de partida, falaremos dos conceitos subjacentes aos estilos de jazz
para bateria. Desde o seu início até os anos 50, o jazz foi uma música para dançar e uma das
suas características mais marcantes era, e continua sendo, um pulso constante com forte
sincopação. Todos os estilos rítmicos dos bateristas jazzistas são derivados ou reações a essa
característica rítmica. De fato, cada mudança de estilo no jazz implicou uma mudança no papel
do baterista e as mudanças nos estilos de condução rítmica anunciaram novos caminhos para
a improvisação. Acho apropriado mostrar essas mudanças do ponto de vista de quem senta
atrás da bateria.
Jazz: a arte do improvisador

Para facilitar a comparação dos estilos, vou dividir a história da bateria no jazz em
quatro períodos: o jazz clássico, o swing e as big bands, bebop e afins (cool, hard bop) e,
finalmente, o período pós-bop. Isso é uma simplificação e, em alguns aspectos, uma visão
polêmica. Selecionei um ou dois representantes de cada uma dessas épocas: Baby Dodds,
Gene Krupa, “ Papa” Jo Jones, Max Roach, Elvin Jones, Tony Williams e Jack DeJohnette. Claro
que temos muitas outras opções, mas para iniciar a coluna escolhi nomes consagrados pelos
bateristas e pelos historiadores do jazz.

Conversaremos sobre como aprender com esses grandes bateristas, e outros, ou seja, nas
palavras do do grande trompetista, Clark Terry: como “Imitar, assimilar, e inovar.”
Drums Exercícios para leitura de partituras
de big band jazz
Bob Wyatt
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