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Agrupamento de Escolas General Humberto Delgado

Escola Secundária/3 José Cardoso Pires

PORTUGUÊS 11º ANO


A LINGUAGEM E O ESTILO QUEIROSIANO

1. O uso expressivo do adjetivo e do advérbio


O uso expressivo do adjetivo é porventura o processo estilístico que melhor individualiza Eça de
Queirós na literatura portuguesa. O advérbio apresenta uma flexibilidade sintática comparável à do
adjetivo.
a) Quase todo o nome é acompanhado de adjetivo(s), antes ou depois, em séries binárias ou
ternárias, estabelecendo relações inesperadas, surpreendentes e, por vezes, contraditórias ou
exprimindo uma realidade objetiva e outra subjetiva – “na enorme e estranha cidade”; “
espessos veludos escuros”; “ num cismar que se ia desprendendo, vago e ténue”; “ outono
luminoso e macio”.

b) O caráter mais interpretativo do que descritivo do adjetivo/advérbio – “- Mas é muito esperto,


minha rica Senhora […] / - É possível – respondeu secamente a inteligente Silveira “. (Os
Maias) – (A posição irónica/subjetividade do narrador).

c) Outros modos de emprego do adjetivo e do advérbio:


. animização ou personificação – “os espertos regatinhos”; a palidez dos céus espantados”;
“sol tímido”; “alvejava recolhidamente o fino e claro pórtico de um templo”;
. dando corpo a sinestesias - “luz macia”; “escarlate estridente”;
. traduzindo a essência do ser ou objeto: “ Uma gente feíssima, encardida, molenga,
reles, amarelada, acabrunhada”;
. sugerindo ideias opostas (oximoro) – “fala de uma forma grotesca e tocante”; “decotada
e austera” ;
. o adjetivo com valor adverbial – “o carro lento passou (passou lentamente)”;
. com intenção irónica – “fumando caro”; “ imenso talento”; “ o país ia alegremente e
lindamente para a bancarrota”;
. o advérbio no princípio, meio ou fim da frase – “instintivamente, Carlos, de vez em quando,
ia despertar as lâmpadas”; “um armário de pinho envidraçado abrigava melancolicamente um
serviço barato de louça nova”; “Afonso apoiava-o gravemente”;
. o advérbio em forma binária ou ternária – “o relógio de Luís XV foi ferindo alegremente,
vivamente, a meia noite”; “estais ambos insensivelmente, irresistivelmente, fatalmente,
marchando um para o outro”;
. o advérbio superlativando o adjetivo – “Na sua terrível perturbação, Carlos achava só esta
palavra melancolicamente estúpida”;
. o advérbio caracterizando a ação verbal – “o de pálpebra cerrada, com o beiço trombudo, ficou
mamando gravemente a boquilha”.
2. O verbo
Usado em sentido próprio ou figurado, o verbo oferece uma combinação e colocação variada e rica
na frase.
a) Formas verbais seguidas, marcando a rápida sucessão de ações: “Castro Gomes foi perfeito:
saudou, sorriu, murmurou”.
b) A contínua busca de verbos ou combinações originais, chegando a inventar (neologismos),
tendo em vista uma maior expressividade: “gouvarinhar”; “Ega sepultou-se na peliça”; “atirou
com a bebida às goelas”.
c) Na introdução do DD, substitui os verbos declarativos pelos de ação: “ Depois, erguendo-
se, ficou diante de Afonso a coçar reflectidamente o queixo:
- Então que lhe parece, Vilaça?”; “Carlos encolheu os ombros:
- Se é que se pode chamar a isto trabalhar.”

março/2021 A Profª Guilda Correia


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d) Substituição de verbos por outros de maior poder expressivo, por vezes, com valor
caricatural: “ganir”; “rosnar”; “roncar” – “O que ele precisava antes de tudo era chicote –
rosnou o Cruges.”.
e) A predileção pelo gerúndio dado o sentido de duração, continuidade: “E pouco a pouco,
passeando e suspirando, começou a falar daqueles últimos anos.” ; “ como se algures, no
seu ser, estivesse rompendo, borbulhando uma nascente rica de alegrias futuras.”.
3. O diminutivo, com diferentes valores semânticos (pequenez/carinho/ironia)
O diminutivo é utilizado em grande número na obra Os Maias, quase sempre com valor irónico ou
pejorativo: “A Joaninha Vilar […] gordinha e lânguida”; “as perninhas flácidas (Eusebiozinho)”;
“a mamã prometeu-lhe que, se dissesse os versinhos…”; “o barão aos pulinhos, aos risinhos”,
mas também indicando ternura, “Está-se fazendo tarde, Carlinhos”.
4. Os neologismos
As inovações de Eça manifestam-se em várias categorias gramaticais e, muitas delas tendem a
suscitar efeito cómico ou pitoresco, revitalizando a linguagem, outras servem para revelar sentimentos
ou visualizações inéditas. Vejamos:
. nomes/diminutivo: adulteriozinho; excessozinho
. verbos: gouvarinhar; esverdinhar
. advérbio de modo: gordamente; animalmente.

5. A construção frásica
a) Combinação do discurso indireto livre (DIL) com o discurso direto (DD) e indireto (DI)
Com grande expressividade, Eça articula discursos, evidenciando o DIL, tratando-se de um processo
favorito de fazer ouvir o falar e o pensar das personagens. O DIL permitia ao autor:
. libertar a frase dos verbos declarativos “disse que…”, quebrando a monotonia do diálogo;
. aproximar a expressão literária da linguagem falada.

“ - Diz-me uma coisa, Alencar – perguntou Carlos baixo, parando e tocando no braço do poeta – o
Dâmaso está na Lawrence?
Não que ele o tivesse visto. Verdade seja que na véspera, apenas chegara, fora-se deitar fatigado”
(Os Maias);
“ - Onde está V. Ex. alojado, Sr. Brito?
Pelo amor de Deus! Que não se incomodasse! Estava no Hotel Central” (O Primo Basílio);
“ Estás típico, Alencar! […] Que diabo, algumas compensações havia de ter a velhice!... Em todo o
caso o estômago não era mau e conservava-se, caramba, filhos, um bocado de coração”.

b) Marcas de oralidade
A obra de Eça apresenta uma “relação estreita com a língua falada”, tanto no vocabulário como na
sintaxe. Perseguia um estilo compreensível, essencialmente comunicativo, nem difícil nem culto,
democratizando a prosa.
. Utiliza palavras do quotidiano, não evitando o emprego frequente de palavras e expressões de calão
popular (pulha, gajo, focinho …). O autor legitima termos que se tinham posto de parte como
vulgares e impróprios para a expressão literária: arrotar; escarrar; vomitar; nádega; cuspir…
“ E ela é de apetecer, Vossa Excelência reparou? Eu a bordo atirei-me. E ela dava cavaco!”; “mas
trago-a de olho, que ela demora-se […] E, se me pilho só com ela, ferro-lhe logo um beijo […]
mas eu cá com as mulheres, a minha teoria é esta: atracão! Eu cá, é logo atracão!”.

. Predominam as orações coordenadas, as frases curtas, o ritmo sincopado, havendo suspensões,


com recurso a reticências, a repetições e exclamações.
6. Figuras de estilo mais frequentes
a) A ironia –Tem intenção humorística e crítica, mas pode atingir o sarcasmo, quando apresentada
de modo violento insultuoso ou cruel. Assume particular importância na obra de Eça, que a usou
em retratos, de forma caricatural, na avaliação de situações, comportamentos ou mentalidades.
Vejamos alguns exemplos:

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. caracterização do Eusebiozinho: “ o morgadinho, o Eusebiozinho, uma maravilha muito falada
naqueles sítios. Quase desde o berço este notável menino revelava um edificante amor por
alfarrábios […]. Ainda gatinhava […] com o craniozinho calvo de sábio curvado sobre as letras
garrafais da boa doutrina (uso do diminutivo).”;

. caracterização do Dâmaso: “ Sim, coitado, coitadinho, coitadíssimo… Mas como vês, imensamente
ditoso, até tem engordado com a perfídia!”(uso do diminutivo).”;

. caracterização do Alencar: “Era ele! O ilustre cantor das Vozes de Aurora, o estilista de Elvira, o
dramaturgo do Silêncio do Comendador.”;

. Ega face a Cohen, no jantar: “Então Ega caiu em êxtase, apertou as mãos contra o peito. Oh!
Que delicioso traço! Oh! Que admiravelmente observado!”;

. utilização do adjetivo e do advérbio com intenção irónica, já referido.

b) A hipálage, ao serviço do adjetivo ou na visão impressionista de captação da realidade:


“ As lojas loquazes dos barbeiros”; “ Todos os dias de jejum come um peixe austero”; “ passando
os dedos […] pelos longos bigodes românticos”.

c) A sinestesia, muito abundante em Eça, na síntese de perceções e sensações mistas, presente na


visão impressionista da realidade:
“ O som vermelho do clarim”; “ luz macia”; “ escarlate estridente”; “ A espaços, a estrada parecia
banhada de uma claridade quente que faiscava” .

d) A aliteração, harmonia imitativa muito presente no estilo de Eça:


“ Um rude trovão rolou, atroou a noite negra” (o r e o t combina com as vogais fortes – o/u, sugerindo o
ruído surdo do trovão); “ um moço loiro, lento, lânguido, que se curvava em silêncio diante dela” (sons
nasais e lábio-dentais que sugerem suavidade, delicadeza).
7. O Impressionismo
É o nome de uma escola de pintura surgida em França em 1874. Os impressionistas valorizam a
impressão pura, a perceção imediata, não intelectualizada, com o seu caráter fragmentário e fugaz.
Tiram o maior partido da cor e da luminosidade, em quadros de ar livre, com objetos de contornos
esfumados. São realistas à sua maneira, dada a sua sensibilidade à sensação, mas reagem contra o
realismo, interessando-se, não pelo objeto em si, mas pelo efeito que provoca no artista.
Em Portugal, Eça de Queirós faz uma utilização sistemática e habilíssima do impressionismo literário.
Vejamos os seguintes exemplos:
a) Construções impessoais – “Uma alvura de saia moveu-se no escuro” (Eça de Queirós) - (A
cor antepõe-se ao objeto.).
b) Combinação de perceções de tipo diferente, o que pode traduzir uma visão irónica
– “Branca de susto, meiga e míope, estacando” ; “Um cheiro salutar e honesto a pão no
forno”; Amareladamente, os cães parecem lobos” (Cesário Verde).
c) A hipálage – “ao trote esgalgado dos seus magros cavalos brancos” ; “paz dormente de
bairro” (Transpõe-se o atributo do agente para a ação.).; “venerável cadeira”; “cidade
preguiçosa” ; “adro pensativo e grave” ; “copas mesquinhas das árvores”; (Eça de
Queirós).
d) A sinestesia (Referida acima.)

Bibliografia:
CABRAL, Avelino Soares - O Realismo, Eça de Queirós e Os Maias. Sintra: Sebenta Editora, 2007
CAL, Ernesto Guerra da - Linguagem e Estilo de Eça de Queirós. Lisboa: Ed. Aster, 1953
LAPA, Manuel Rodrigues – Estilística da Língua Portuguesa. Coimbra Editora, 1984
REIS, Carlos – Introdução à Leitura de Os Maias. Coimbra: Livraria Almedina, 1978

março/2021 A Profª Guilda Correia

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