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UNIVERSIDADE FEDERAL DE OURO PRETO

ESCOLA DE MINAS
DEPARTAMENTO DE GEOLOGIA

NOTAS DE AULA

GEOFÍSICA - GEO 122

Métodos Elétricos

Maria Sílvia Carvalho Barbosa

Fevereiro / 2003
NOTAS DE AULA - MÉTODOS ELÉTRICOS

ÍNDICE

ÍNDICE .................................................................................................................... 1

1. MÉTODO GEOELÉTRICO.................................................................................. 3

1.1. CONDUTIVIDADE ELÉTRICA (σ ) ......................................................................... 4


1.2. TIPOS DE CONDUTIVIDADE ELÉTRICA ................................................................. 5

2. CLASSIFICAÇÃO DOS MÉTODOS ELÉTRICOS.............................................. 6

2.1. POTENCIAL ESPONTÂNEO - SP ......................................................................... 7


2.1.1. CONSIDERAÇÕES GERAIS .................................................................. 7
2.1.2. TIPOS DE POTENCIAL .......................................................................... 8
2.1.2.1. Potencial Eletrocinético (Potencial de fluxo)...................................... 8
2.1.2.2. Potencial de Junção Líquida (difusão)............................................... 9
2.1.2.3. Potencial Nernst (folhelho) .............................................................. 10
2.1.2.4. Potencial de mineralização.............................................................. 10
2.1.3. INSTRUMENTOS.................................................................................. 11
2.1.4. PROCEDIMENTOS DE CAMPO........................................................... 11
2.1.5. INTERPRETAÇÃO ................................................................................ 11
2.1.6. APLICAÇÕES ....................................................................................... 15
2.2. TELÚRICO E MAGNETOTELÚRICO ................................................................... 15
2.2.1. CONSIDERAÇÕES GERAIS ................................................................ 15
2.2.2. EQUIPAMENTO DE CAMPO ................................................................ 15
2.2.3. INTERPRETAÇÃO ................................................................................ 17
2.3. MÉTODOS ELETROMAGNÉTICOS ...................................................................... 17
2.3.1. CONSIDERAÇÕES GERAIS ................................................................ 17
2.3.2. INSTRUMENTOS................................................................................. 19
2.4. RESISTIVIDADE - EL....................................................................................... 21
2.4.1. CONSIDERAÇÕES GERAIS ................................................................ 21
2.4.2. EQUAÇÕES FUNDAMENTAIS ............................................................. 21
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2.4.3. EQUAÇÕES PARA A TERRA HOMOGÊNEA ...................................... 22


2.4.3.1. Fonte de corrente no interior da Terra............................................ 23
2.4.3.2. Fonte de corrente na superfície da Terra ........................................ 23
2.4.3.3. Superposição de potenciais ............................................................ 24
2.4.3.4. Conceito de resistividade aparente ................................................. 25
2.4.4. MÉTODOS EL DE SUPERFÍCIE........................................................... 25
2.4.4.1. Equipamentos.................................................................................. 25
2.4.4.2. Arranjos de eletrodos ...................................................................... 26
2.4.4.2.1. ARRANJOS LINEARES ............................................................ 26
2.4.4.2.2. ARRANJOS DIPOLARES.......................................................... 28
2.4.4.2.3. ARRANJOS MULTIELETRODOS ............................................. 29
2.4.5. Interpretação ......................................................................................... 30
2.5. POLARIZAÇÃO INDUZIDA - IP ........................................................................... 31
2.5.1. INTRODUÇÃO ...................................................................................... 31
2.5.2. TIPOS DE POLARIZAÇÃO ................................................................... 32
2.5.2.1. Polarização de Membrana............................................................... 32
2.5.2.2. Polarização de Eletrodo .................................................................. 32
2.5.3. MÉTODO DE POLARIZAÇÃO INDUZIDA – IP ..................................... 33
2.5.3.1. Domínio do tempo ........................................................................... 33
2.5.3.2. Domínio da Freqüência ................................................................... 33
2.5.4. ARRANJOS DE CAMPO E EQUIPAMENTOS..................................... 33
2.5.5. EQUAÇÕES FUNDAMENTAIS ............................................................. 34

3. BIBLIOGRAFIA ................................................................................................ 35

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1. MÉTODOS GEOELÉTRICOS
Fornecem uma imagem da Terra em termos da variação da condutividade elétrica.

Importância:

A partir da década de 20, os irmãos (Conrad e Marcel) Schulumberger


efetuaram o primeiro perfil elétrico em poço e as medidas de resistividade
mostraram-se capaz de indicar horizontes sedimentares com hidrocarbonetos
(alta resistividade elétrica) daqueles com água salgada (baixa resistividade). O
interesse aumentou ao perceber-se que a resistividade elétrica está associada à
saturação em óleo da formação;

Exploração de água subterrânea pois a sua acumulação, qualidade e capacidade


em se locomover causam variações na resistividade elétrica das rochas;

Mineração: alta condutividade dos minerais sulfetados, fonte principal de


metais básicos (Cu e Pb) e preciosos (Au e Ag), em relação às encaixantes
permite o emprego desse método;

Mapeamento geológico em áreas de poucos afloramentos, pois sabe-se que a


resistividade e a espessura do manto de alteração são características inerentes
às rochas subjacentes.

OBS.: É importante analisar os parâmetros que interferem na resistividade elétrica das


rochas para aprimorar a interpretação. A existência de diferentes condutores na área a ser
estudada dificulta a interpretação dos resultados. Por exemplo, a presença de grafita
interfere na detecção de corpos sulfetados; a presença de minerais da classe das argilas ou
sais dissolvidos na água dificultam a avaliação da formação quando explora-se
hidrocarbonetos ou água subterrânea.

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1.1. Condutividade Elétrica (σ )


A condutividade elétrica (σ) expressa a facilidade de um corpo em conduzir
corrente elétrica. O inverso da condutividade é a resistividade elétrica (ρ), que para uma
amostra cilíndrica de comprimento L e seção transversal de área A é definida por:

A
ρ=R (1)
L

sendo, R a resistência elétrica (propriedade intrínseca do material)


que é medida em ohms.

Lei de Ohm:

V
R= (2)
I

sendo V a voltagem (volts) e I a corrente (ampére).

No sistema internacional a resistividade é medida em ohms.m, e a condutividade


Siemens/m (S/m). Pode-se atribuir para a resistividade a unidade ohm.m/m², o que torna
mais evidente a sua dependência com a geometria do corpo.

Assim, a partir das equações (1) e (2), tem-se que:

1 L  I  L  J
σ= = =    =
ρ RA  A  V  E

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sendo E o campo elétrico (volts/m)

As medidas de resistividade em laboratório são obtidas de :

AV
ρ=
LI

1.2. Tipos de Condutividade Elétrica


As rochas na natureza possuem três tipos de condutividade elétrica:

Condução Eletrônica: resulta da movimentação de elétrons livres nos retículos


cristalinos dos materiais. É o tipo de condução que ocorre nos metais (minerais
nativos) e também em alguns minerais de sulfetos e na grafita. De um modo
geral a condução eletrônica é inexpressiva na maioria dos materiais terrestres
os quais podem ser considerados isolantes elétricos.

Condução Eletrolítica: é causada pelo movimento dos íons em solução.

Pela equação de Archie ( 1942):

ρe = aφ − m S − n ρw

onde:

φ - volume poroso fracional (porosidade)

s – fração de poros que contém água

ρw - resistividade da água

n – aproximadamente igual a 2

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a – constante = 0.5 ≤ a ≤ 2.5

m – constante = 1.3 ≤ a ≤ 2.5

As rochas fraturadas ou porosas podem armazenar soluções aquosas


as quais, por serem condutivas (pela presença de sal em solução) aumentam a
condutividade elétrica do conjunto rochoso. Um granito fraturado, por
exemplo, pode reter maior quantidade de água e por isso tende a ser mais
condutivo que um granito maciço. A grosso modo, a resistividade da maioria
das rochas depende da quantidade de fluidos que ela comporta e da
condutividade elétrica do mesmo, sugerindo uma associação com a porosidade
e com a condutividade elétrica do fluido. Um arenito contendo água salgada,
por exemplo, terá condutividade elétrica maior do que o mesmo arenito
contendo água doce. Apesar destas regras gerais, vários outros fatores (forma
dos espaços porosos, grau de saturação em água, temperatura, presença de
argila-água por adesão, densidade de fraturas, etc.) contribuem na composição
da resistividade elétrica sendo difícil obter um só modelo que seja aplicável
para todas as litologias.

Condução Dielétrica: predomina em regime de corrente alternada sendo


função da permissividade dielétrica do meio da freqüência empregada. A
condução eletrolítica é a que possui maior importância no regime de corrente
contínua ou de baixa freqüência (até 20 kHz).

2. CLASSIFICAÇÃO DOS MÉTODOS ELÉTRICOS

Os métodos elétricos apresentam uma grande diversidade de técnicas,


propriedades e instrumentos e podem ser classificados em duas grandes linhas. Naturais,
que utilizam fontes naturais de energia, e Artificiais, cuja energia é liberada através de
algum dispositivo ou equipamento. Nesta classificação, os métodos potenciais vistos até
agora são métodos naturais, e os métodos sísmicos são artificiais.

Os principais métodos elétricos são:

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Naturais:

- potencial espontâneo (SP);

- telúrico e magnetotelúrico (MT);

- Audio-Frequency Magnetic Fields (AFMAG).

Artificiais:

- Very Low Frequency (VLF);

- Resistividade;

- Eletromagnético,

- Polarização Induzida (IP).

2.1. Potencial Espontâneo - SP


2.1.1. CONSIDERAÇÕES GERAIS

Mede as diferenças de potenciais elétricos na superfície do terreno ou dentro de


poços produzidos por atividade eletroquímica ou mecânica. Estes potenciais estão
associados com o intemperismo de sulfetos, variações na composição mineralógica nos
contatos geológicos, atividades bioelétricas de materiais orgânicos, corrosão e ao gradiente
de pressão e temperatura dos fluidos em subsuperfície (determinações recentes mostram
que existe água em vazios microscópicos das rochas até profundidades de pelo menos 25
km).

O mecanismo de potencial espontâneo (SP) em zonas mineralizadas não é


completamente entendido, embora várias teorias tenham sido desenvolvidas para explicá-
lo. Uma explicação original, baseada na evidência de zonas mineralizadas estarem em
zonas oxidantes, é que o corpo mineralizado comporta-se como uma célula galvânica em
que a diferença de potencial é criada dentro da zona oxidante. Pontos fracos desta
explicação: grafita freqüentemente tem altas anomalias, embora não oxide.

Uma outra hipótese sugere que a variação de pH abaixo e acima da água


produziria correntes de fluxo em torno desta. Há evidências que a solução acima tenha um

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pH ácido (2-4); enquanto abaixo seja básico (7-9). Porém a diferença de pH somente não
move elétrons dentro ou fora da zona mineralizada e não mantém o fluxo de corrente.

A hipótese mais razoável (Sato & Mooney 1960), postula reações de duas meia
células eletroquímicas de sinais opostos: um catodo acima do plano de água e um anodo
abaixo. Na meia célula catodo há uma redução química de substâncias em solução (ganha
elétrons), enquanto a meia célula anoda em reação oxidante tem perda de elétrons. A
própria zona mineralizada transporta os elétrons do anodo para o catodo.

2.1.2. TIPOS DE POTENCIAL

2.1.2.1. Potencial Eletrocinético (Potencial de fluxo)

É o efeito observado quando uma solução de resistividade elétrica (ρ) e viscosidade


(η) é forçada a passar em um meio poroso ou capilar. O potencial resultante entre os fins da
passagem é:

∆Pερ
EK = −φ
4πn

onde:

φ - potencial de adsorção
∆P – gradiente de pressão

ε - constante dielétrica da solução

Obs.: Mais observado na perfilagem quando a perfuratriz penetra uma formação porosa.

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2.1.2.2. Potencial de Junção Líquida (difusão)

Deve-se à diferença de movimento de vários íons em solução de diferentes


concentrações. O valor é dado por:

Ed = − Rθ
(Ia − Ic ) log C1 
 
Fn ( I a + I c )  C 2 

sendo:

R – constante do gás ( = 8.31 joules/°C)

θ - temperatura absoluta

F – constante de Faraday (= 9.65x104 C/mol)

N – valência

Ia e Ic - movimento dos ânions e cátions

C1 e C2 – concentração da solução

Por exemplo:

Para uma solução de Na Cl, onde Ia / Ic = 1.49 a 25°C, tem-se que :

 C1 
Ed = −11.6 log 
 C2 

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2.1.2.3. Potencial Nernst (folhelho)

Quando dois eletrodos metálicos idênticos estão imersos em uma solução


homogênea, não há diferença de potencial entre eles. Se contudo, a concentração é diferente
para os dois eletrodos , há uma diferença de potencial dado por:

Rθ C1
Es = − log
Fn C2

Para n = 1, θ = 25°C, tem-se que:

C1
Es = −59.1log 10
C2

A combinação dos potenciais de difusão e Nernst são conhecidos como auto


potencial eletroquímico ou estático.

2.1.2.4. Potencial de mineralização

As anomalias de interesse, na utilização de potencial espontâneo como método


exploratório, estão associada a mineralizações de sulfetos de metais, como grafita, e
também com óxidos de metais como a magnetita. As anomalias mais comuns ocorrem
sobre depósitos de pirita, calcopirita, pirrotita, esfalerita, galena e grafita. As amplitudes
variam de alguns milivolts até 1volt; 200 mV é considerado uma boa anomalia. Geralmente
o potencial é negativo sobre o corpo mineralizado.

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2.1.3. INSTRUMENTOS

A utilização de eletrodos de metal em contato com o solo para medidas de


potencial espontâneo, está sujeita à interação eletroquímica espúria do metal com o solo,
causando medidas sem valor. Esta interação também varia de local de modo que torna-se
impossível efetuar uma correção fixa. Consequentemente, eletrodos não polarizáveis são
essenciais nos levantamentos de potencial espontâneo.

Os eletrodos consistem de um metal imerso em uma solução de seu próprio sulfato


como, por exemplo, cobre em solução de CuSO4; zinco em ZnSO4; etc., em um recipiente
poroso que permite o contato da solução com o solo.

O voltímetro deve ter uma impedância alta o suficiente para permitir a leitura de
pequenas medidas e ser isolado para impedir correntes erráticas causadas por contato com o
corpo ou com o solo.

2.1.4. PROCEDIMENTOS DE CAMPO

Dois eletrodos idênticos devem fornecer leituras inferiores a 2 mV quando


colocados lado a lado. Uma das maneiras de efetuar o levantamento é manter um eletrodo
fixo e fazer leituras com o outro eletrodo em estações eqüidistantes do eletrodo base. Esta
maneira requer fios elétricos com várias centenas de metros o que pode atrasar a operação.
Outra maneira é deslocar os dois eletrodos simultaneamente que, por sua vez, podem
acumular erros durante o levantamento. Uma maneira alternativa é mover alienadamente
um eletrodo de cada vez, invertendo a polaridade dos eletrodos em cada medida. Com isso
evita-se o acúmulo de erros.

2.1.5. INTERPRETAÇÃO

O resultado final do levantamento consiste em uma série de perfis ou em um mapa


de curvas equipotenciais. É possível calcular o campo potencial nas circunvizinhanças de
corpos polarizados com formas simples tipo dipolos, esferas e elipsóides, e modelar as
anomalias para interpretação quantitativa, mas isso raramente é feito limitando-se à
interpretação qualitativa. Uma estimativa da profundidade do corpo polarizado pode ser
feita a partir do formato da anomalia. Se x é a largura no perfil da metade da anomalia
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máxima (negativa), então a profundidade do topo do corpo é da ordem da metade desta


largura. Em particular, se a anomalia apresentar maior extensão lateral, isto significa que o
corpo também tem maior extensão lateral, e não porque está mais profundo. A
profundidade de detecção do método está limitada a menos de 100 metros.

É possível calcular a distribuição potencial ao redor de corpos polarizados de


formas simples, como dipolo, esfera e elipsóides, assumindo algumas simplificações.

Por exemplo:

Em um bastão polarizado, o potencial no ponto P é dado por:

1 1
V = q − 
 r1 r2 

onde q é a carga dos extremos do bastão;

r1 = x12 + z12

r2 = (x1 - a)2 + z 22

a = l cosα

l – comprimento do corpo

α -0 mergulho

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Superfície P

z1 r1

1 r2 z2

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-50
RESIST MÍNIMA / 2
-100

-150
X = 2H

Superfície
A A’
H

Sulfeto

-50

-150
A A’

Figura 1 – Exemplo de análise de um perfil SP

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2.1.6. APLICAÇÕES

Além da detecção de sulfetos, o método do potencial espontâneo é utilizado em


perfilagem de poços onde o formato da curva de SP é característica para certas formações
geológicas, e sua correlação pode indicar convergência, acunhamento e mergulho das
formações.

Mas de uma maneira geral, este método (SP) é pouco usado na exploração
geofísica devido à dificuldade na interpretação dos resultados e a pouca penetrabilidade (±
100m). É usado em conjunto ao método Em e geoquímico, às vezes é usado em
mapeamento de estruturas rasa como zonas de cisalhamento, fraturamento e contatos.

2.2. Telúrico e Magnetotelúrico


2.2.1. CONSIDERAÇÕES GERAIS

Fazem uso das correntes elétricas (telúricas) induzidas na Terra por correntes
elétricas da ionosfera, e respectivos campos magnéticos (magnetotelúrico). A existência de
correntes naturais de larga escala e baixa freqüência foi detectada em 1847 e tem sido
medidas desde então em vários centros de pesquisa do mundo. As correntes elétricas na
ionosfera são influenciadas pelas variações diurnas do campo magnético terrestre e geram
um sistema indutivo eletromagnético que se propaga entre a ionosfera e a Terra, com
freqüências que vão desde 10-5 Hz a 104 Hz. Obviamente que este campo magnetotelúrico
pode penetrar na Terra para gerar as correntes telúricas.

O método AFMAG obedece ao mesmo princípio, porém, tem origem nas


descargas elétricas associadas com tempestades. A intensidade destas correntes é maior
durante o dia e o campo elétrico associado a elas pode atingir valores de 10 mV/km.

2.2.2. EQUIPAMENTO DE CAMPO

Para medir os potenciais gerados pelas correntes telúricas, os mesmos cuidados


que no método SP devem ser tomados. Neste caso, é comum a utilização de placas de
chumbo. Os eletrodos são conectados a um amplificador que seleciona as freqüências
desejadas. A diferença de potencial estático entre os eletrodos é balanceada por potenciô-

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N
11305

00 10
20 00
11305
00
40

19305
4000
21305
400
0
23302

00
20
2000
26305
1000

500
100

200

T 3
100

T 4

00
20

1000 Resistividade aparente f = 8Hz

0 500 ft
Zona de sulfeto

Figura 2 – Utilização do método telúrico na prospecção de sulfetos

metro. Devido à grande variação de amplitude do sinal com o tempo, dois arranjos de
eletrodos são necessários. Um como estação base e outra como estação móvel. Como o
sinal varia também de direção com o tempo, dois pares ortogonais em cada estação são
necessários; um registrando a componente N-S e outro E-W. Equipamentos para medir os
campos magnetotelúricos são mais elaborados. As duas componentes da variação do campo
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NOTAS DE AULA - MÉTODOS ELÉTRICOS

magnético com o tempo são registradas por magnetômetros de grande sensibilidade (pois a
variação do campo magnético com o tempo é da ordem de miligamma) na freqüência
desejada.

2.2.3. INTERPRETAÇÃO

Se o terreno for bastante homogêneo entre as duas estações e elas estiverem


bastante distantes, somente um pequeno deslocamento será observado entre os campos
elétricos das correntes telúricas. Entretanto, qualquer estrutura geológica não uniforme irá
distorcer o fluxo das correntes, gerando uma anomalia entre as duas estações. O efeito de
estruturas geológicas simples no campo elétrico pode ser teoricamente computado.

Na prática, todavia, o fluxo de corrente tende a ser sempre paralelo à direção da


anomalia, pois a tendência é seguir a direção de rochas melhor condutoras e como a maioria
das rochas é anisotrópica o fluxo não é uniforme, gerando registros complexos. Mesmo
assim, é possível fazer estimativas de resistividade relativa (ou condutividade) da área
prospectada através de medidas quantitativas de amplitude do campo telúrico.

2.3. Métodos Eletromagnéticos


2.3.1. CONSIDERAÇÕES GERAIS

O método eletromagnético (EM) envolve a propagação de um campo


eletromagnético de baixa freqüência induzido na Terra. Depois do método magnético, é o
método de prospecção mais comum na exploração mineral. É utilizado também na detecção
de tubulações enterradas e no uso militar para a detecção de minas.

Neste método o meio é estimulado através de um campo eletromagnético variável


no tempo sem a necessidade de contato galvânico com o solo. Se o meio for condutivo
estabelece-se uma distribuição de corrente elétrica em seu interior que produz um campo
eletromagnético secundário que pode ser medido na superfície por meio de bobinas ou por
eletrodos aterrados. As características deste campo secundário (magnitude, fase, etc.)
permitem estimar a distribuição de condutividade elétrica no meio ou a simples detecção e
delimitação de corpos geológicos condutivos.

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NOTAS DE AULA - MÉTODOS ELÉTRICOS

O campo primário, neste método, consiste fundamentalmente na passagem de uma


corrente elétrica através de condutores. A lei de Biot-Savat, relaciona a intensidade do
campo magnético em pontos afastados do condutor com a intensidade da corrente, e
embora tenha sido demonstrado para corrente contínua, é também válida para correntes
alternadas de baixa freqüência. Em regiões de baixa condutividade, o receptor captará o
campo gerado pelo emissor sem anomalias. Na presença de terrenos ou corpos com alta
condutividade, o campo primário induzirá o aparecimento de um campo secundário que
aparecerá com amplitude distinta e defasado do campo primário, embora com a mesma
freqüência. Consequentemente, o receptor será energizado simultaneamente por dois
campos magnéticos. Alguns sistemas medem somente a diferença de fase, outros somente a
diferença de amplitude e outros ainda registram tanto a diferença de fase quanto de
amplitude entre os campos primário e secundário.

Os métodos Em, por investigar o substrato sem a necessidade de aterramento de


cabos, são apropriados para levantamentos aerotransportados, nos quais pelo menos um dos
elementos do par transmissor-receptor é colocado a bordo de aviões (geralmente ambos são
colocados). Esta versatilidade possibilita a adoção de diferentes tipos de fontes, receptores,
arranjos e freqüências gerando uma grande variedade de métodos, cada qual especializado
em investigar a Terra em uma escala de resolução específica. Apesar das diferenças, todos
eles se apoiam na teoria dos campos eletromagnéticos, que é sintetizada pelas equações de
Maxwell:
r
r ∂b
∇x e=-
∂t
r
r ∂d r
∇x h=- +j
∂t
r
∇. b = 0
r
∇. d = 0

onde:

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NOTAS DE AULA - MÉTODOS ELÉTRICOS
r
e - intensidade do campo elétrico
r
h - intensidade do campo magnético
r
b - densidade de fluxo magnético
r
d - densidade de fluxo elétrico
r
j - densidade de corrente elétrica

As equações de Maxwell são de grande importância, pois unificaram o


conhecimento até então, séc. XIX, se encontrava disperso dentro das leis de Faraday,
Ampare, Ohm e Coulomb.

Tal como escritas, as equações de Maxwell não dizem a respeito dos materiais nos
quais se estabelece os campos e as densidades de corrente. Isto é realizado através das
equações constitutivas:
r r
b =µh
r r
d =ξ e
r r
j =σ e

sendo:

σ - condutividade elétrica

µ - permeabilidade elétrica

ξ - permissividade elétrica

2.3.2. INSTRUMENTOS

A fonte primária é um gerador de corrente alternada em uma ou duas freqüências


movido à bateria no caso de pequena potência, com um amplificador de baixa impedância.
Em sistemas maiores a potência varia de 250 a 2500 watts, enquanto que os sistemas
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NOTAS DE AULA - MÉTODOS ELÉTRICOS

portáteis operam na faixa de 1 a 10 watts. O sinal gerado varia de 100Hz a 5000Hz. No


método AFMG o princípio é o mesmo, porém a fonte é natural como mencionado
anteriormente. No método VLF a fonte consiste em sinais emitidos por sistemas de
navegação aérea e marinha.

A grande vantagem do método EM, assim como o método magnético e radioativo,


é que ele pode ser realizado por levantamentos aéreos reduzindo dramaticamente o custo de
aquisição de dados. Levantamentos tradicionais são realizados por sistemas de grande
potência instalados em um avião. O transmissor horizontal fica situado entre as asas e o
receptor, normalmente vertical, é arrastado uns 200 metros atrás e 100 metros abaixo do
avião.

Como o receptor sofre movimentos aleatórios devido à turbulência do ar, medidas


relativas de amplitude são impossíveis de se realizar, e o que se mede é somente a diferença
de fase entre os campos primários e secundário. Geralmente são utilizadas duas freqüências
(400 e 2300Hz) e a razão entre as duas permite estimativas de condutividade de uma
possível anomalia.

Existem várias técnicas e inúmeros equipamentos que utilizam o princípio do


método eletromagnético. Variáveis como inclinação do campo induzido, diferença de fase e
amplitude podem ser medidas simultânea ou separadamente. Os mapas integrados finais
são interpretados com as mesmas técnicas do método magnético.

O objetivo na interpretação dos dados obviamente é localizar corpos condutores,


estimar seu tamanho e eventualmente suas características. Reconhecimento de campo é
mandatório pois o levantamento aéreo é de reconhecimento rápido para isolar as áreas mais
atrativas. Normalmente o levantamento aéreo produz um excesso de anomalias, pois
detecta sem discriminação zonas alagadas, zonas de cisalhamento, falhas, feições
geológicas de larga escala, como também zonas de grafite e com minérios condutores.
Obviamente que a combinação de dois ou mais métodos geofísicos produz muito mais
informações do que a soma dos métodos isoladamente.

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NOTAS DE AULA - MÉTODOS ELÉTRICOS

2.4. Resistividade - EL
2.4.1. CONSIDERAÇÕES GERAIS

Consiste no emprego de uma corrente elétrica artificial introduzida no terreno


através de eletrodos. O procedimento, então, é medir o potencial em outros eletrodos
colocados na vizinhança do fluxo da corrente. Com isso, é possível identificar regiões em
subsuperfície que apresentam maior ou menor resistividade, ou condutividade. Em
prospecção mineral, contudo, este método é pouco utilizado devido ao seu alto custo
operacional, quando comparado com os métodos eletromagnéticos. Apresenta, contudo,
aplicações práticas econômicas importantes em poços de petróleo e na prospecção de água.

2.4.2. EQUAÇÕES FUNDAMENTAIS


r
Quando se injeta uma corrente contínua na Terra, o campo elétrico ( e , que se
estabelece, é conservativo, ou seja, o trabalho realizado ao mover uma carga elétrica em um
trajeto fechado é igual a zero. Tal propriedade permite calcular o trabalho realizado ao se
mover a carga entre dois pontos usando uma função que depende apenas das posições
inicial e final do trajeto percorrido. Para o campo elétrico estacionário, esta função é
denominada de potencial elétrico (V):

r
e = - ∇V

Num meio que existe um campo elétrico, estabelece-se uma densidade de corrente
r
( j ). Para a lei de Ohm, sua intensidade e direção será proporcional à condutividade elétrica
do meio:

r r
j = σe

sendo que para o campo estacionário:

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NOTAS DE AULA - MÉTODOS ELÉTRICOS

r
j = - σ ∇V

No ponto de contato do eletrodo positivo as cargas adquirem um movimento


divergente, e no polo negativo, um movimento convergente. Em qualquer outro ponto do
meio, a mesma quantidade de carga que chega é igual à que sai. Matematicamente, isto é
representado pelo operador divergente:

r
∇. j = - ∇. (σ ∇V) = - ∇σ . ∇V - σ ∇²V

r
∇²V = - ρ ∇ j → Eq. de Poisson

∇²V = 0 → Eq. de Laplace

Resolver problemas em eletroresistividade significa resolver estas equações


sujeitas às condições de fronteira para o campo e o potencial elétrico na interface entre
meios com diferentes resistividades.

2.4.3. EQUAÇÕES PARA A TERRA HOMOGÊNEA

O modelo considerando-se a Terra homogênea não é uma boa aproximação da


realidade. Apesar disto, ele permite definir conceitos importantes, tais como o de
resistividade aparente, zonas com maior contribuição no sinal, além de estabelecer algumas
equações básicas do método El.

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NOTAS DE AULA - MÉTODOS ELÉTRICOS

2.4.3.1. Fonte de corrente no interior da Terra

Considerando um fio sem revestimento na extremidade dentro de um furo de


sondagem, injetando uma corrente elétrica (I) no meio. O potencial elétrico é dado por:

Iρ 1
V=
4π r

2.4.3.2. Fonte de corrente na superfície da Terra

Neste caso a corrente flui apenas para o interior da Terra, pois o ar é isolante. A
corrente elétrica é dividida em duas:

I = - 2π Aσ

Onde:


A=

Ou seja:

Iρ 1
V=
2π r

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NOTAS DE AULA - MÉTODOS ELÉTRICOS

2.4.3.3. Superposição de potenciais

A exploração geofísica emprega dois eletrodos de correntes e pelo menos dois de


potenciais separados conforme mostra a figura abaixo:

+ -
A r1 M r2 N B
r3 r4

O potencial elétrico de cada eletrodo sobrepõe-se, fazendo com que o potencial


resultante no ponto M seja dado por:

Iρ 1 1
VM =  - 
2π  r1 r2 

Em N:

Iρ 1 1
VN =  - 
2π  r3 r4 

Portanto:

Iρ 1 1 1 1
VM - VN =  - + - 
2π  r1 r2 r4 r3 

Observa-se que medindo a diferença de potencial (VM - VN ), pode-se estimar a


resistividade elétrica do meio segundo:

VM − VN
ρ=K
I

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NOTAS DE AULA - MÉTODOS ELÉTRICOS

sendo:

1 1 1 1
k = 2π  - + -  fator geométrico
 r1 r2 r4 r3 

Obs.: O fator geométrico (k) depende do arranjo e dimensões entre os eletrodos, mas é um
fator conhecido.

2.4.3.4. Conceito de resistividade aparente

O valor da resistividade dada pela equação acima só será verdadeiro se o meio for
homogêneo. Assim, o potencial elétrico, que estabelece no meio, não será dado pelas
equações acima, bem como a diferença de potencial.

O conceito de resistividade aparente contorna este problema, pois passou a


comparar o potencial medido com aquele esperado para um modelo de terra homogênea:

∆V'
ρa = k
I

Assim, ρa expressa um desvio dos valores medidos em relação ao modelo


homogêneo.

2.4.4. MÉTODO EL DE SUPERFÍCIE

2.4.4.1. Equipamentos

Os equipamentos no método EL são classificados em dois tipos: de potencial e de


corrente. Os eletrodos de potencial devem ser não polarizáveis a exemplo dos eletrodos
usados no método SP. Os eletrodos de corrente são metálicos, geralmente constituídos de
aço, bronze ou latão. Eles são cravados no solo por percussão a martelo ou por
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NOTAS DE AULA - MÉTODOS ELÉTRICOS

rosqueamento para melhorar a conexão elétrica com o solo. Para terrenos muito resistivos,
usa-se molhar o solo com uma solução salina. A dificuldade em se efetuar um bom contato
elétrico com o solo é a principal deficiência dos métodos EL.

Informações complementares quanto à aparelhagem (fontes, conversor de


voltagem, multímetro, ... ) e acessórios (cabos, eletrodos, ... ) podem ser obtidos em Telford
e colaboradores (1986).

2.4.4.2. Arranjos de eletrodos

O método EL mais comum emprega pelo menos 4 eletrodos cravados no solo,


sendo dois para injetar corrente e dois para medir o potencial. Estes eletrodos podem
formar arranjos lineares ou dipolares. A investigação do substrato pode se dar na forma de
caminhamento, mapeamento lateral ou mapeamento vertical (sondagem elétrica).

No caminhamento a dimensão do arranjo permanece fixa e o mesmo é deslocado


sobre a área investigada obtendo-se a variação da resistividade elétrica a mesma
profundidade. Ao expandir o arranjo a corrente penetra mais profundamente no solo
permitindo a investigação das camadas mais inferiores.

2.4.4.2.1. ARRANJOS LINEARES

Os arranjos Wenner, Schulumberger são os mais usados em levantamentos de


superfície. Os outros arranjos exigem maior quantidade de cabos sendo empregados na
perfilagem elétrica de poços.

Wenner

A M a N B

a a

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NOTAS DE AULA - MÉTODOS ELÉTRICOS

Schulumberger

A M a N B
na na

3 Eletrodos

A M N

2 Eletrodos

A M

Os arranjos Schulumberger e Wenner investigam profundidades semelhantes (a/2)


para uma mesma abertura de eletrodos de corrente, porém quanto a outros aspectos eles
possuem prós e contras. O arranjo Schulumberger é mais vulnerável a erros na medida do
gradiente do potencial ( a diferença de potencial torna-se muito pequena à medida que os
eletrodos de corrente se afastam). O arranjo Wenner por expandir simultaneamente os
eletrodos de potencial com os de corrente não se depara com este problema, porém, torna-
se mais vulnerável às interferências causadas por heterogeneidades laterais (também é mais
oneroso pois exige maior movimentação dos eletrodos de potencial).

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NOTAS DE AULA - MÉTODOS ELÉTRICOS

2.4.4.2.2. ARRANJOS DIPOLARES

A vantagem desse arranjo é que utiliza uma menor quantidade de cabos para
investigar uma mesma profundidade.

A B M N

45° 45°

z (profundidade de investigação)

Por manusear uma menor quantidade de cabos, a movimentação do arranjo é mais


simples principalmente em terrenos difíceis de caminhar. A desvantagem é que o potencial
elétrico produzido pelo par AB tem caráter dipolar, decaindo em função do inverso do
quadrado com a distância (o potencial polar decai com o inverso). Isto torna a medida do
gradiente do potencial mais sensível ao ruído, principalmente à medida que se afasta do
ponto de injeção.

Outros tipos de arranjos:

- paralelo - perpendiculares - equatorial

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NOTAS DE AULA - MÉTODOS ELÉTRICOS

- polar - radial - azimutal

2.4.4.2.3. ARRANJOS MULTIELETRODOS

Tal sistema otimiza a aquisição nos arranjos anteriores obtendo simultaneamente o


mapeamento lateral e vertical do meio em termos da resistividade elétrica aparente. Esta
otimização baseia-se na adoção de eletrodos múltiplos que tanto podem ser usados para
injetar corrente no solo, quanto para medir a diferença de potencial elétrico. Inicialmente os
eletrodos são colocados em contato com o solo em posições pré estabelecidas:
1 2 3 4 5 6 7 8

Em seguida são conectados por cabos múltiplos a uma caixa de controle que
permite agrupá-los segundo a geometria do arranjo Wenner com diferentes espaçamentos.
Num estágio inicial, 4 primeiros eletrodos são agrupados permitindo a leitura da
resistividade aparente cuja posição é atribuída à posição demarcada pelo círculo (escuro).

A B
M N

Num estágio apenas, os eletrodos de números 2, 3, 4 e 5 são conectados


permitindo uma nova leitura da resistividade aparente. A representação de agrupamentos

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NOTAS DE AULA - MÉTODOS ELÉTRICOS

com este espaçamento permite a leitura das resistividades aparentes nas demais posições
assinaladas.

A B
M N

.. o o o o

Em seguida a caixa de controle agrupa os eletrodos 1, 3, 5, 7 viabilizando a leitura


da resistividade aparente nas demais profundidades.
A B
M N

.. . .. .
. o o o o

O procedimento de agrupamentos de eletrodos é repetido para espaçamentos cada


vez maiores permitindo a investigação de profundidades cada vez maiores. Observe que o
único trabalho do operador é fincar os eletrodos e conectá-los .

2.4.5. Interpretação

Na interpretação de dados EL é comum adotar modelos plano estratificados


(camadas planas, isotrópicas e homogêneas), que apesar de muito simples conseguem
representar muitos modelos geológicos ( bacias sedimentares, manto de alteração de rochas,
etc.) .

Variações laterais na condutividade afetam significantemente o potencial elétrico.

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NOTAS DE AULA - MÉTODOS ELÉTRICOS

2.5. Polarização Induzida - IP


2.5.1. INTRODUÇÃO

Durante a aquisição de dados eletroresistivos, nota-se, em alguns locais, que o


potencial elétrico no multímetro não retorna ao valor zero imediatamente após a interrupção
de corrente. Inicialmente, ele sofre uma queda abrupta e depois decai lentamente até se
anular, conforme esquema abaixo:

U
U’

Sendo:

U – potencial lido enquanto se procede a injeção de corrente;

U’ – o valor imediatamente após a interrupção da injeção.

A diferença (U – U’) é uma característica do terreno, sendo independente do


tempo pelo qual se permanece injetando a corrente. No entanto, o decaimento do potencial
é tanto maior quanto maior for o intervalo de aplicação da corrente.

A presença de um potencial elétrico residual indica que o meio é capaz de reter


temporariamente uma distribuição de cargas elétricas em seu interior em resposta à injeção
de corrente. Quando a injeção é interrompida, o potencial passa a ser parcialmente
sustentado pela distribuição de cargas estabelecidas no meio, as quais ao retornar à
condição inicial de equilíbrio, faz o potencial decair gradativamente a zero. A capacidade

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NOTAS DE AULA - MÉTODOS ELÉTRICOS

de um meio em se polarizar depende de suas características mineralógicas, texturais e


estruturais ocorrendo sempre quando há o impedimento ao livre fluxo de cargas elétricas
pelo interior da rocha. Na prospecção geofísica os mecanismos que causam polarização
elétrica são denominados de polarização de membrana e de eletrodo.

2.5.2. TIPOS DE POLARIZAÇÃO

2.5.2.1. Polarização de Membrana

Surge em conseqüência do acúmulo de cargas negativas na superfície de alguns


minerais, principalmente argilas. Este acúmulo de cargas tendem a reter as cargas positivas
na vizinhança do mineral gerando uma concentração anômala de cargas positivas,
denominada dupla camada, que pode ter extensão na ordem de 10-6 m ( na mesma ordem de
grandeza que os poros da rocha). Quando se injeta corrente elétrica em tal meio, o fluxo de
corrente elétrica pelos poros deixa de ser livre (até mesmo obstruído), levando à
acumulação de cargas elétricas nos pontos de estrangulamentos, gerando as gargantas dos
poros.

A polarização de membrana está associada com a presença de argilas nas rochas,


entretanto não há uma relação linear entre a quantidade de argila e a magnitude da
polarização induzida. Nas rochas com muita argila, a magnitude de polarização induzida é
pequena, pois é baixa a quantidade de cargas elétricas livres. Esta é mais intensa em
arenitos argilosos.

2.5.2.2. Polarização de Eletrodo

A diferença na mobilidade das cargas elétricas é causada pela presença de minerais


com alta condutividade eletrônica em contato com uma solução eletrolítica. O fenômeno
torna-se intenso para minerais condutivos do tipo pórfiro ou do tipo filonar descontínuo,
pois nestes casos a área total da interface, onde se acumulam as cargas, é maior.

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NOTAS DE AULA - MÉTODOS ELÉTRICOS

2.5.3. MÉTODO DE POLARIZAÇÃO INDUZIDA – IP

Existem duas maneiras de se estimar o efeito da polarização induzida: uma no


domínio do tempo e outra no domínio da freqüência.

2.5.3.1. Domínio do tempo

O meio é submetido a uma injeção de corrente elétrica durante um intervalo fixo


de tempo, e após a interrupção, duas ou mais medidas do potencial elétrico são realizadas.

Sendo a cargabilidade (C) definida como a razão entre o potencial total medido
(U) e a diferença de potencial (U- U’), tem-se que quanto maior a polarização induzida
maior a cargabilidade.

2.5.3.2. Domínio da Freqüência

O efeito de IP pode também ser estimado pela medição do valor de resistividade


aparente para dois regimes de corrente elétrica: com freqüência muito baixa ou com
corrente alternada.

2.5.4. ARRANJOS DE CAMPO E EQUIPAMENTOS

Os métodos para a aquisição de dados de polarização induzida são semelhantes


àqueles usados para medir a resistividade aparente do terreno nos métodos EL: arranjos
Wenner, Schulumberger, polo-dipolo e dipolo-dipolo. O receptor é diferente pois no
método da polarização induzida é necessário estimar o decaimento do potencial elétrico
após a interrupção da injeção de corrente no solo, ao contrário dos métodos EL, que medem
o potencial elétrico durante a injeção de corrente.

A potência elétricas exigida dos instrumentos nos métodos de polarização induzida


é bem maior, exigindo quase sempre a adoção de geradores. No aspecto operacional, a
semelhança com os métodos EL é muito grande, sendo comum se efetuar simultaneamente
as medidas de resistividade aparente. A apresentação dos dados é feita através de perfis ou
por pseudo-seções, sendo relativamente recente a interpretação quantitativa dos mesmos.

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NOTAS DE AULA - MÉTODOS ELÉTRICOS

2.5.5. EQUAÇÕES FUNDAMENTAIS

Apesar dos mecanismos complexos que o origina, o fenômeno de polarização


elétrica pode ser descrito assumindo que, em resposta à injeção de corrente, um meio
polarizável adquire uma distribuição de dipolos elétricos que opõem à corrente injetada. A
r
densidade de corrente que em um meio não polarizável é j , torna-se em um meio
r
polarizável j ’
r' r
j = (1- C ) j

σ ' = (1- C ) σ

sendo C a cargabilidade do meio.

Desta forma, a polarização induzida se traduz em uma redução da condutividade


elétrica do meio.

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NOTAS DE AULA - MÉTODOS ELÉTRICOS

3. BIBLIOGRAFIA

DOBRIN, M.B. – 1981 – Introduction to Geophysical Prospecting. 3. Ed. International


Student Edition. 630p.

FERNANDES, C.E.M. – 1981 – Fundamentos de Prospecção geofísica. Rio de Janeiro:


Interciência, 190p.

LUIZ, J.G. & SILVA, L.M.C – 1995 – Geofísica de Prospecção. Belém: Cejup, 311p.

PARASNIS, D.S. – 1971 – Geofísica Minera. Madrid: Elsevier Publishing Co. Ltda, 376p.

TELFORD, W.M.; GELDART, L.P.; SHERIFF, R.E. & KEYS, D.A. – 1986 – 2. Ed. Cambridge: Cambridge
University,: 770p.

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