A HIPÓTESE E A EXPERIÊNCIA CIENTÍFICA EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIA: CONTRIBUTOS PARA UMA REORIENTAÇÃO EPISTEMOLÓGICA

João Praia
1

António Cachapuz
2

Daniel Gil-Pérez
3

Resumo: O presente artigo desenvolve-se em torno do estatuto epistemológico da hipótese e da experimentação, numa perspectiva de transposição para o campo da Educação em Ciência. Não se trata de olhar aquela vertente pela estrita óptica dos epistemólogos, mas centrar a nossa atenção na busca e apropriação crítica de elementos fundamentadores de uma teorização para a Educação em Ciência, por sua vez também necessária para orientar práticas educacionais. Unitermos: epistemologia, hipótese, experiência científica, educação em ciência. Abstract: In this paper we study the epistemological status of hypotheses and experimentation, not for the sake of epistemology but in order to better orient science teachers education and theirs teaching. Keywords: epistemology, hypothesis, experimentation, science education.

Introdução
Este trabalho situa-se no quadro de um conjunto de três artigos articulados entre si, a serem publicados na revista Educação & Ciência, e têm em vista discutir problemáticas ligadas à epistemologia do trabalho científico. O primeiro "Por uma imagem não deformada do trabalho científico", foi já editado e desenvolveu-se em torno de uma crítica fundamentada às concepções, mais habituais, dos professores sobre tal trabalho, apresentando uma extensa bibliografia capaz de ajudar a melhorar e organizar a sua formação. O segundo encontra-se no prelo e refere-se à observação e à teoria científicas, bem como à sua complexa relação, sendo aí focadas incidências para uma adequada atuação do professor em nível das estratégias de ensino. O presente artigo, o terceiro, é uma tentativa de resposta às questões e às dificuldades encontradas nas práticas letivas, devido a posições epistemológica marcadamente positivistas, no que diz respeito ao estatuto da hipótese e da experimentação. Na unidade enunciada nos três artigos, o que se procura é contribuir para uma viragem na Educação em Ciência mais congruente com posições epistemológicas contemporâneas.

A hipótese em ciência
Numa perspectiva de pendor empirista a hipótese tem um papel apagado e inserese num processo de verificação em que o exame exaustivo dos fatos é determinante para a sua elaboração. No entanto, na perspectiva racionalista contemporânea, que aqui interessa salientar, a hipótese intervem ativamente, desempenhando um importante papel na construção do conhecimento científico. 253
Ciência & Educação, v. 8, n. 2, p. 253-262, 2002
1

Professor Associado, Faculdade de Ciências, Universidade do Porto, Portugal (e-mail: jfpraia@fc.up.pt)
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Professor Catedrático, Departamento de Didáctica e Tecnologia Educativa, Universidade de Aveiro, Portugal (e-mail: cachapuz@dte.ua.pt)
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Professor Catedrático, Departamento de Didáctica de lãs Ciências Experimenales, Universidade de Valencia, Espanha. (e-mail: Daniel.gil@uv.es)

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Ainda que nos interesse aqui discutir mais o contexto da prova e menos o da descoberta, ou o modo como são geradas, o que se pode aventar é que se trata de um processo complexo que pode ter origem na imaginação fértil, inspiradora, porventura em idéias especulativas, às qual subjaz um fundo reflexivo. A Enciclopédia Einaudi (1992) diz-nos que "aquilo que hoje em dia, no discurso científico classificamos de hipótese, apenas pode ser considerado como uma paragem provisória do pensamento, seja por conjecturar um facto descrito de modo a ser susceptível de ser estabelecido ou refutado no quadro dos termos que o definem, seja por propor um conceito que justifique provisoriamente a sua coerência e eficácia no raciocínio explicativo dos fenômenos observados ou provocados". Entretanto, para nós, o que está em causa é, neste momento, a questão da prática científica e de que forma é que ela nos ajuda e dá ensinamentos para o ensino das ciências. Assim, a prática científica pode ser vista como um processo composto de três fases: a criação, validação e incorporação de conhecimentos, que correspondem à geração de hipóteses, aos tes-

tes a que a hipótese(s) é sujeita e ao processo social de aceitação e registro do conhecimento científico (Hodson 1988). Contudo, parece importante fazer a distinção clara entre estas fases no trabalho científico em educação em ciência, pois pode ajudar os alunos a clarificar o propósito e o sentido da própria atividade reflexiva que estão a levar a cabo. Torna-se desejável que haja clarificação entre as duas situações – a criação da hipótese científica e a sua validação – para que possam compreender a complexidade daquela atividade, saber os caminhos que ela envolve e, neste caso, compreender a questão da validade dos testes de confirmação negativa ou de confirmação positiva a que a(s) hipótese(s) está (estão) sujeita(s). A hipótese tem um papel de articulação e de diálogo entre as teorias, as observações e as experimentações, servindo de guia à própria investigação. Condiciona fortemente os dados a obter num percurso descontínuo, ainda que balizado por um fundo teórico que lhe dá plausibilidade, intervindo ativamente nas explicações posteriores dos resultados. Uma vez formulada a hipótese torna-se necessário, em seguida, a sua confirmação. Duas vias são possíveis. A confirmação positiva e a negativa. No entanto, há que ter presente que o processo de confirmação positiva nada nos diz sobre a verdade da hipótese, já que esta pode ser falsa mas confirmada. Porém, uma sistemática e persistente confirmação positiva pode ajudar a tornar o trabalho científico mais apoiado e fazer progredir o programa de investigação a ele associado. Numa perspectiva do tipo popperiana, como nos refere Maskill & Wallis (1982) tenta-se, através do método hipotético-dedutivo, "aproximar" a ciência dos cientistas da ciência praticada na sala de aula. Assim: a) o problema é percebido e compreendido como uma descontinuidade em relação a uma teoria explicativa; b) propõe-se, então, uma outra possível solução que é uma hipótese; c) e deduzem-se proposições testáveis a partir da hipótese enunciada; d) que, através de experiências e observações, cuidadosamente seguidas, conduzem a tentativas de falsificação; e) cuja escolha criteriosa se faz a partir da sua relação, em diálogo, com as teorias. CIÊNCIA & EDUCAÇÃO 254

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Trata-se de uma perspectiva que exige dos alunos grande capacidade criativa, assim como um bom fundo teórico e espírito crítico. Se é certo que o professor tem que providenciar essa excelente formação teórica, incitar a diferença e o pensamento divergente, para levar a descobrir o que não é esperado, não é menos certo que a exigência conceptual a par de processos científicos de elevada complexidade tornam as situações de aula algo difícil. Para se mobilizar tais competências, capacidades e atitudes com eficiência, torna-se necessário conhecer bem o contexto em que se opera e, neste sentido, o domínio dos conteúdos científicos é um requisito fulcral para que tal possa acontecer. As pessoas pensam e lidam de forma mais eficiente nos e com os problemas cujo contexto e conteúdo conhecem melhor, lhes são particularmente familiares. O conhecimento científico é um constante jogo de hipóteses e expectativas lógicas, um constante vaivém entre o que pode ser e o que "é", uma permanente discussão e argumentação/contrargumentação entre a teoria e as observações e as experimentações realizadas. No âmbito desta perspectiva Bady (1979) realizou um estudo sobre a compreensão dos alunos acerca da "lógica da testagem de hipóteses", em diversas escolas com alunos de diferentes anos de escolaridade. O autor verificou que poucos alunos pareceram entender a lógica dos testes da hipótese e que menos da metade dos alunos de escolas superiores conseguiram entender que as hipóteses podem ser testadas por tentativas de falsificação. Uma conclusão do estudo, talvez a mais importante, aponta para que "os alunos que acreditam que as hipóteses podem ser testadas e provadas por verificação, parecem ter uma visão simplista e ingenuamente absoluta da natureza das hipóteses científicas e da teoria. De fato, uma pessoa que não perceba que as hipóteses científicas não podem ser logicamente provadas, mas apenas desaprovadas, não percebe verdadeiramente a natureza da ciência". A irrefutabilidade deixa de ser um sinal, como tantas vezes é percebido pelos professores, de superioridade e, segundo esta perspectiva, reside aqui o carácter dinâmico, a possibilidade do conhecimento científico se desenvolver. Um outro elemento que será necessário introduzir na discussão será o da luta "con-

intencional e sistemática. sim.. considerá-lo como inevitável. em geral. como simples manipulação de variáveis. tem vida própria" (Haching 1992). intencionalmente.. para quem todo o conhecimento vem da experiência. Numa perspectiva empirista. também a evidência factual. este passa de receptor sobretudo de conteúdos científicos. por eles equacionados. uma mudança no papel do aluno. metodológico e atitudinal (Gil Perez 1993) mais consentâneo com a preconizada metodologia científica atual. tentam reduzir a experimentação a uma manipulação de variáveis. ironicamente. ou seja. Está em causa. produzida pela experiência. 8. discuti-lo. isto é incompatível com a elucidação das leis como regularidades empíricas e. a informação epistemológica relevante e necessária ( Chalmers 1989). como prova física. sem perda do rigor intelectual.tra a desconfiança progressiva na capacidade intelectual do aluno. procuram soluções para os problemas colocados e. a experiência científica surge-nos. Outra idéia que importa refere-se à necessidade de reagir contra a tendência para considerar o erro como evidente.. Da reflexão dos resultados a que ela conduz pode. Ele deve procurar. Porém. a pensar sobre o porquê delas. "A experimentação. não ignorando o papel do trabalho cooperativo e da "comunidade científica de alunos" que. também. a experimentação científica não deve funcionar no sentido da confirmação positiva das hipóteses. os fazer variar e. o racionalismo deduz experiências de leis" (Santos & Praia 1992). a sujeito ativo na construção do seu próprio saber – de conhecimento. é freqüentemente suposto que os fenômenos naturais são regidos por leis universais. depois dos resultados obtidos. mas sempre guiado por uma hipótese "lógica" que submete à experimentação. de momento. A experiência . estando atento aos obstáculos que se colocam à aprendizagem. sendo a intervenção experimental necessária como meio capaz de fazer ressaltar e trazer ao de cima. pois. antes de tudo. não tem de seguir uma estratégia idêntica relativa ao pensar sobre as respostas a dar aos problemas. p. a partir dos quais se elabora o conhecimento científico. eventualmente. De uma forma geral. Em todo o caso. bastante inapropriadas para construir conhecimentos básicos. incentivar os alunos a consciencializarem as suas dificuldades. estabelecer uma lei que lhes dê sentido e coerência. 253-262. A assumção de que a educabilidade da inteligência é possível abre amplas perspectivas à elaboração. Contudo. Porém. advir um outro saber a problematizar. O investigador faz. indica porque é que as descrições dos dados observáveis são. é o primeiro meio de estabelecer a credibilidade de uma teoria. Este processo tem de ser partilhado pelos pares. bem como muitas capacidades. O investigador nunca experimenta ao acaso. que depois de interpretados levam a generalização (indução). 2. para alguns parâmetros. muitos tipos de compreensão. A experiência não é uma atividade monolítica. tende a ser conduzida para o mundo real ou para "mundos possíveis". as posições epistemológicas empirista e racionalista. neste contexto. é necessário. "Já está ultrapassada a idéia da experiência como serva da teoria.. a experimentação exige uma grande e cuidada preparação teórica e técnica. precedida e integrada num projeto que a orienta. mesmo. Assim. é porque possui uma hipótese articulada com o fenômeno em estudo. um inventário empírico de parâmetros susceptíveis de ter influência no fenômeno estudado para. se o investigador supõe. a ciência requer a obtenção de dados com significado. Ora. nesta perspectiva. de estratégias metodológicas dirigidas ao desenvolvimento de competências do pensar" (Santos & Praia 1992). que enquanto o empirismo deduz leis de experiências. v. A HIPÓTESE E A EXPERIÊNCIA CIENTÍFICA 255 Ciência & Educação. n. mas no sentido da retificação dos erros contidos nessas hipóteses. Para Popper. uma importância particular. os empiristas e os indutivistas. mas uma atividade que envolve muitas idéias. que só é superável num ambiente escolar em que o professor caminha. Passamos a rever. quase sempre. com algum pormenor. para em seguida olhar melhor as suas implicações no trabalho escolar. Porém. sendo o seu propósito testar hipóteses. deduzindo leis (teorias) a partir dela própria ou da sua sistemática reprodução. no mundo natural esses fenômenos justapõem-se de maneira complexa. 2002 Page 4 A experiência científica Na prática científica moderna. a par das dificuldades do aluno. questionar as suas razões para que nós possamos aproximar da verdade possível. Bachelard acentua. consoante a perspectiva é empirista ou racionalista . deve ajudá-los e darlhes confiança para que se possam exprimir num clima de liberdade. Isto exige-lhe um esforço do ponto de vista conceptual.. em seguida. em conjunto. Ela é determinante na obtenção de um conjunto de dados. quer conteudal quer processual. por sua vez.

. deve traduzir-se em sugestões de propostas de atividades de ensino-aprendizagem. Por outro lado. pensamos. mas carregadas de valores. também aqui. muitas vezes. todo o conhecimento e só no final da(s) experiência(s) se faz questão. religiosos . A experiência científica é orientada e mesmo valorizada pelo enquadramento teórico do sujeito. pois. conduzindo. 2. A transposição didática. problematiza – . Ela como que está separada da própria teoria. dados estes dotados de exterioridade. Numa perspectiva racionalista. a questiona. mas de reflexão sistemático. Trata-se de um diálogo entre hipóteses/teorias e a própria experimentação. são os resultados finais independentemente dos processos da sua obtenção. a experiência é tida como algo separado da hipótese e não influencia os resultados daquela. como tentativa da sua retificação e questionamento – ela interroga. para paradoxalmente a confirmar. Hodson (1990) considera que o trabalho experimental tal como é conduzido em muitas escolas é de concepção pobre. como construção e produção social do conhecimento científico. No sentido de assinalarmos incidências da reflexão epistemológica da ciência no trabalho experimental escolar. É a experiência que põe à prova a teoria e não o inverso. realizada com cautela para não cairmos em simplismos fáceis. de respostas não definitivas. mas histórico-culturais. a submete a um interrogatório.científica fundamenta. que em diálogo com ela. diálogo nem sempre simples. Reside aqui. a experiência surge-nos não problemática. Como poderíamos afirmar que a experimentação científica encerra múltiplos fatores não apenas tecnológicos. em muitos casos na atualidade. Cachapuz (1992) diz-nos que "uma sala de aula não é um laboratório de investigação. uma das riquezas heurísticas da experimentação. ajustando-se ao contexto e à própria situação investigativa.. Há pois que harmonizar estas duas dimensões". em que o resultado não só não está de antemão conseguido. sobretudo. muitas vezes. que condicionam e. que comporta uma diversidade de caminhos. que procura funcionar. não relevando os aspectos mais complexos e difíceis da pesquisa. que valorizem o papel do aluno no sentido primeiro de o confrontar com as suas situações de erro para posteriormente as vir a retificar. ao sujeitarmos a experiência científica a uma tentativa de questionamento estamos convidando os alunos a desenvolveremse cognitivamente. A comunidade científica tem. confuso e não produtivo. nem as condições teóricas e técnicas da sua produção. a teoria tem um papel primordial na avaliação dos resultados obtidos. ou seja. já que. pelo que as estratégias a adotar têm que ter legitimidade quer filosófica quer pedagógica. enquanto programa de investigação progressivo. 2002 4 Apesar da perspectiva epistemológica subjacente à questão da experimentação ser algo marcado por uma visão popperiana. como tem que ser sempre olhado à luz dos seus quadros interpretativos 4 . Se a hipótese intervém ativamente nas explicações que os resultados da experiência sugerem. 8. Também. Muitas vezes a constatação dos resultados experimentais levam a ignorar-se a hipótese que funciona como suposição transitória de valor epistemológico duvidoso. em ambiente escolar. de criatividade e mesmo de invenção. num confronto de idéias com os seus pares. ela afigura-se-nos como uma alternativa útil aos . Para ele. n. se toma em conta a(s) teoria(s). também. A experiência científica valoriza. políticos. 253-262. quase só a confirmação positiva do já previsto e obtido a partir dos dados observacionais. muitos professores acreditam que o trabalho experimental ensina os estudantes sobre o que é a A HIPÓTESE E A EXPERIÊNCIA CIENTÍFICA 257 Ciência & Educação. Do ponto de vista didático. A experiência enquadra-se num processo não de saber-fazer. ou seja. o confronto entre o teórico (o idealizado) e a prática (o realizado) se interligam. Os seus resultados são lidos como elementos (possíveis) de construção de modelos interpretativos do mundo e não cópias (e muito menos fiéis) do real. a experiência científica deve ser guiada por uma hipótese. v. como empreendimento humano que toma opções e tomadas de posição não neutrais. CIÊNCIA & EDUCAÇÃO 256 Page 5 O que mais importa numa perspectiva empirista. entendemos que numa situação de testagem. Os resultados da experiência surgem como esperados e mesmo óbvios. ético-morais. p.. olhada pelo lado didático. (re)orientam e (re)centram a atividade de pesquisa. a outras hipóteses. um papel primordial que importa não esquecer. A experiência enquadra-se num método pouco estruturado. não se analisa e reflete no significado da experiência e tão só no que é previsível que aconteça.

entre outros. mais explicativas para os fenômenos naturais. Neste sentido. os contextos sociais. Gil Pérez et al. sobre as suas dificuldades e de refletir sobre o porquê delas. No primeiro caso é o professor que identifica o problema. 2. A prática da ciência: desenvolvimento dos conhecimentos técnicos. 3. a perspectiva popperiana – ver. a experiência científica escolar toma o sentido do fazer. pois. Aprendizagem das ciências: como a aquisição e o desenvolvimento de conhecimentos teóricos (conteúdos das ciências). incluindo a eventual exploração de "experiências cruciais". ou seja. ignora. nomeadamente. para as ultrapassar. Quanto ao segundo tipo de trabalho experimental. neste caso. Tamir (1977) distingue dois tipos de trabalho experimental: os de verificação e os de investigação. mas apenas se constata o que era mais do que previsível que acontecesse – a experiência realizou-se para dar determinado resultado já esperado e conhecido de antemão. Muitos dos objetivos que se estabelecem para o trabalho experimental escolar e que os professores quase sempre enunciam referem-se. que conduz as demonstrações (fora de um contexto de problematização) e dá instruções diretas – tipo receita. que Hodson (1990) não só questiona. de todo. Aprendizagem sobre a natureza das ciências: o desenvolvimento da natureza e dos métodos da ciência. como volta a perguntar qual o significado do trabalho experimental. a considerar a ciência numa lógica que está fora da própria história do pensamento as idéias. como algo episódico. a abertura de espírito. interessa sublinhar que em muitas situações de ensino o estudo de casos históricos. sobretudo no que diz respeito ao aprender ciências na sala de aula de acordo com as perspectivas epistemológicas atuais. à luz do quadro teórico e das hipóteses enunciadas. Têm sido uns entusiastas ao acreditar que o caminho para aprender ciência. 2001. entre outros. iii) deve ser delineada pelos alunos para possibilitar um maior controle sobre a sua própria aprendizagem. tipo investigativo. éticos. Caso contrário.. Tal não significa que os autores do artigo partilhem. Estamos. Page 6 ciência e a sua metodologia. Numa perspectiva inadequada da experiência científica realizada na sala de aula. sobre a investigação científica e a resolução de problemas. postos em causa. isto é. ii) deve ser sustentado por uma base teórica prévia informadora e orientadora da análise dos resultados. O trabalho experimental é. tomando consciência das interações complexas entre ciência e sociedade. Esta visão distorcida baseia-se em pressupostos epistemológicos. é uma visão que corresponde a um programa em regressão epistemológica. sem saber por que e para quê. No seguimento desta orientação o trabalho experimental deve ser redefinido. ao seu forte sentido motivador. Na perspectiva que vimos falando. bem como ao desenvolvimento de atitudes científicas tais como a objetividade. ou seja. tecnológicos e culturais da construção e produção científica. tendo em atenção novos objetivos do ensino das ciências. a ausência de juízos de valor. Hodson (1992. progressivamente. 1993. Para aquele investigador em Educação em Ciência os professores usam o trabalho experimental sem uma adequada reflexão. ligada a uma visão heróica do cientista. Entretanto. deixam-se algumas notas sobre o sentido com que a experimentação deve ser encarada na sala de aula: i) deve ser um meio para explorar as idéias dos alunos e desenvolver a sua compreensão conceptual. Numa outra linha de pensamento. deixando à margem das suas aulas. psicológicos e didácticos que têm vindo a ser. desvalorizando o sentido da própria luta por idéias mais verdadeiras. não se analisa e reflete nos resultados. que o professor tem de conhecer e não se pode alhear. pois. que relaciona o trabalho com outros anteriores. os seus métodos e processos é "descobrir aprendendo" ou "aprender fazendo". mantêm o mito de que ele é a solução para os problemas de aprendizagem em ambiente laboratorial. de forte pendor empirista. O autor vai ao ponto de referir que "muito do que se faz está mal concebido e não apresenta qualquer valor educacional. urge redefinir e reorientar a noção que os professores têm sobre o trabalho prático. a experiência surge. . quase sempre. orientado para fomentar a aprendizagem de conceitos e métodos da ciência.professores.1994) descreveu como objetivos centrais: CIÊNCIA & EDUCAÇÃO 258 Page 7 1.

a repetibilidade não é. instrumento didático de grande utilidade. susceptíveis de determinar uma atuação cuidadosa do professor. mas proposto por um grupo de alunos. susceptíveis de interessar os alunos a desenvolver um plano experimental coerente. p. particularmente interessantes.. 2002 Page 8 Conforme referem Gil Pérez (1993) e Beviá (1994). ajudar a simular aspectos sociológicos. mantida em movimento pela interação contínua entre conjectura e refutação". distingue três elementos principais: o consenso dos pares. as interrogações. as dúvidas. é quase sempre considerado apenas o lado esquerdo (conceptual). a argumentação e o consenso dos pares constituem elementos de racionalidade científica que importa desenvolver conjuntamente – alunos e professores – partilhando e vivendo dificuldades inerentes à própria prática científica. a uma aprendizagem capaz de mudar as próprias representações de ciência. desta forma. pode ser usada para uma possível escolha de teorias em competição. Não se pode. sobretudo. assim. que não seja indicado pelo professor. Deste modo estará criado nos grupos de trabalho um clima propício para fazer emergir. Importa que os professores compreendam e se consciencializem da importância do elemento cognitivo. ao falar-nos das características do trabalho científico. fazem-se apressadas generalizações a partir de uma ou duas experiências. A concluir Muito do que acabamos de referir traduz-se em dificuldades e fatores. uma propriedade do conhecimento científico. quer pela confirmação experimental escolar positiva. A HIPÓTESE E A EXPERIÊNCIA CIENTÍFICA 259 Ciência & Educação. na sala de aula. experiências intencionalmente orientadas para levar a resultados não esperados e referência a resultados que vêm da literatura. pode ser útil didaticamente. levando a generalizações fáceis e demasiado simplistas. nomeadamente através do confronto com os conceitos e teorias aceitas em ciência. Por outro lado. quer pela observação neutral. No seu artigo intitulado Procedimentos experimentais: sobre cozinheiroschefes e cientistas. entre outras.. ignorar o papel do sujeito na construção do conhecimento. concebendo a ciência como uma simples descoberta. de certo. em particular da experiência científica refere que ele se situa em "uma esfera muito alargada e dinâmica. O confronto é mais vasto. a consciência das limitações teóricas. pode. no quadro de uma sempre prudente analogia com a comunidade científica. de forte pendor racionalista crítico de raiz popperiana. O que pode estar em causa é. tal exercício escolar permite uma aprendizagem efetiva. n. o problema da indução está presente em muitas das abordagens que os professores fazem.. podem ser guiadas pelo docente. A crítica. o desafio dos dogmas e a combinação única entre a arrogância e a humildade. A experimentação. Essas atividades. exigindo-lhe uma aprofundada formação . as deficiências. Entretanto. No V epistemológico de Gowin. Trata-se. 253-262. tem incidências não só em nível lógico como também em nível sociológico. conjuntamente. possibilitando aos alunos a percepção da variedade de processos implicados na atividade científica. Importa sublinhar que uma ou duas experiências não dão resposta definitiva ao problema.. 2. sobre as características do trabalho científico. Desta maneira. Por outro lado. não estando presentes as suas relações com o lado direito (metodológico). O que nos parece de sublinhar é. gerando as vivências que permitem aos alunos refletir. como muitos professores pensam. 8. também por isso. significativa e com sentido de cidadania. que raramente ela é equacionada e pensada. que atribuam ao estudo e à reflexão um espaço indispensável para compreender as dificuldades e a complexidade que se reveste um tal processo de construção da ciência. das comumente chamadas "experiências para ver". torna-se necessário planificar a aprendizagem a partir do tratamento de situações problemáticas abertas. entretanto.quando está em jogo o conceito de testagem. a necessária mudança de atitude dos professores. também de valores e atitudes inerentes ao processo científico escolar. O desenvolvimento intergrupal e intragrupal. v. neste sentido. Há que considerar outras possíveis alternativas mais enriquecedoras como sejam contra-exemplos. da discussão argumentativa. Esta abordagem já não é hoje aceita. Em síntese: a relação entre a experimentação e a teoria é bem mais complexa do que muitos professores pensam e é. nem abalam uma teoria que está a ser discutida. a questão da hipótese que a experiência põe à prova: a confirmação positiva ou negativa. no sentido de ultrapassarem a aceitação fácil de um empirismo clássico e ingênuo. Maria de Sousa (1992). investigadora em ciência. as incoerências. pois. como refere Beviá (1994). mesmo à luz de pressupostos epistemológicos de natureza e de sentido inequivocamente positivista.

se venha a transformar em mudança. A. o mesmo é dizer que tais tarefas devem ser um desafio. Método-Teoria. Por fim. sempre que possível. Contribución de la historia y de la filosofía de las ciencias al desarrollo de un modelo de enseñanza/aprendizaje como investigación. com um grau de dificuldade susceptível de se constituirem em incentivo e não de fonte de desânimo. Porto. Didáctica de las Ciencias Experimentales. Praia & Jorge. pode desvalorizar razões epistemológicas e didáticas que deviam ser orientadoras e determinantes da ação. coerentemente. J.). longe disso. v.. 1993. Los trabalos prácticos de Ciencias Naturales como actividad reflexiva. Dias de Carvalho (Org. nomeadamente. 1. Congresso Las Didácticas Específicas en la Formación del Profesorado.científica que não passa unicamente. com as atividades que promove. D. A. 47-56. v. In: Alambique. Está. Casa da Moeda. Qué es esa cosa llamada ciencia? (E. A. é mais bem conseguida e a compreensão das idéias estruturantes torna-se o fio condutor das propostas de ação didática do professor. Filosofia da Ciência e Ensino da Química: repensar o papel do trabalho experimental. Sedeño y P. por possuir uns tantos conhecimentos adquiridos na formação inicial. Ed. Mañez. Servem pelas interrogações que suscitam e pela busca de explicações mais verdadeiras. Centro de Estudos de Educação em Ciência. A. porém. Referir ainda que a simplicidade com que os problemas e os fenômenos são apresentados (atente-se ao nível etário) obrigam o professor a retomá-los mais adiante e. Uma chamada de atenção para tornar claro que o professor tem de ter cuidados muito particulares com o processo de aprendizagem e.). P. feita de reflexão e consubstanciada na própia ação didática. em particular motivacionais que fazem perder o sentido das primeiras. In: Formação de Professores de Ciências. Montero Mesa e Vaz Jeremias. ou seja. 1995. persistentemente. & JORGE. 21. desmotivação e de impossibilidade de resolução. exige uma formação contínua que segue um percurso de desenvolvimento pessoal e profissional exigentes. Santiago de Compostela. crítica y creativa. CACHAPUZ. CACHAPUZ. A transposição didática. Trata-se. CACHAPUZ. ainda que sejam fatores positivos. J. M. L. como uma unidade intrínseca. O Ensino das Ciências para a excelência da aprendizagem. chama-se a atenção para a tentação de uma excessiva motivação para experimentar e que o professor. Pode mesmo invertê-la e torná-la sociologicamente perversa. Eds. 197-212. 1989. em causa. n. p. F. Cachapuz (Org. Porto: Porto Editora. 1994. nº1. de usar a formação como um processo de pesquisa efetuando investigação com os professores. . A. CHALMERS. 349-385. Tomo II. L. As experiências de aprendizagem que o professor promove são meios que devem ser considerados como instrumentos para melhorar a explicação que se dá para os fenômenos e não podem ser consideradas como fins em si mesmas. CIÊNCIA & EDUCAÇÃO 260 Page 9 em favor de razões de pedagogia geral. Só assim seremos capazes de gerar. p. A. Estas devem desenvolver-se na "zona de desenvolvimento próximo". 1992. 2001. 357-363. porque argumentativamente mais apoiadas.. materiais didáticos. quer outros. 2001). 1992.). F. F. bem intencionadamente. ENCICLOPÉDIA EINAUDI. Madrid: Siglo Veintiuno de España. a que não é alheio o ritmo e o tempo de aprendizagem. A conceptualização. uma formação de professores que se quer "completa". trads. que articule epistemologia e didática e que releve conjuntamente teoria e prática. em particular. tentativamente. 2.. Enseñanza de las Ciencias. Referências bibliográficas BEVIÁ. a ligá-los a outros para os articular de forma a que o currículo em espiral seja possível. A espectacularidade dos fenômenos.. vídeo. PRAIA. v.. com vista a que tal produção de saberes seja reinvestida na inovação para que esta. Perspectivas de Ensino. In: Novas Metodologias em Educação.. aliada à sua apresentação. podem não ajudar a potenciar a aprendizagem desejada. quer através de registros. Lisboa: Imprensa Nacional. introduz na aula de laboratório. Actas. GIL PÉREZ. 2. enquanto recursos fundamentais para o exercício de práticas de sala de aula mais consentâneas com o que se preconiza numa perspectiva de ensino por pesquisa (Cachapuz. 11. isto é.

não há nada na Bíblia sobre isso. v. 1. J. M. Por uma imagem não deformada do trabalho científico. v. Filosofia de da Ciência y Educación Científica.). Procedimentos experimentais: sobre cozinheiros-chefes e cientistas.Casa da Moeda. K.. 103-118. Porlán. 551-554. J. HACKING. 3. n. 1992. 63. A critical look at pratical work in school Science. 70. In: Ciência como Cultura. c) acreditaria. R.Entendendo o mundo como uma partida de futebol 3.O método científico e as pseudociências ou "O dragão na minha garagem" 7. MONTORO. 8. p. n. 2. 1992. v. In: A Ciência como Cultura. (Estudos Gerais. A HIPÓTESE E A EXPERIÊNCIA CIENTÍFICA 261 Ciência & Educação. 1992. R. 7. n. 2001. n. Sevilha: Diada Editoras. I. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda. P. 311-316. 7-34. Projecto MUTARE / Universidade de Aveiro. Sua fundamentação epistemológica. p. teorias e leis 5. A. 1988. 125-153. afinal eu devo saber o que digo para estar escrevendo um artigo. 256. n. A. . Enseñanza de las Ciencias. Cañal (Compil. School Science Review. HODSON. C. SOUSA. Scientific thinking in the classroom. D. d) não acreditaria. D. um amigo seu já teve essa sensação antes. D. Re-thinking old ways: towards a more critical approach to pratical work in School Science. v. SANTOS. Garcia & P. J. Ciência & Educação. v. p. I. Série Universitária). D..O peru indutivista 4. G. n. E.Hipóteses.. F. School Science Review. HODSON. J. TAMIR. F. 2. Gil (Org. 1993. v. 1977. n.Redefining and reorienting pratical work in school science. 264: 65-78. E. v. School Science Review. MASKILL. Refazer o mundo. 142. 224. How are the laboratories used ? Journal of Research in Science Teaching. 1992. 5-21. v. 33-40..Falhas no método científico? 8. 1990. b) não acreditaria. é muito absurdo pra ser verdade. p. D.). Percurso de mudança na Didáctica das Ciências. 91-102. Artigo recebido em março de 2002 e selecionado para publicação em novembro de 2002. M. 299-313. 2002 Page 10 HODSON. 22. In: Ensino das Ciências e Formação de Professores. In: Constructivismo y Enseñanza de las Ciencias. 73. HODSON. p. Studies in Science Education. D.Conclusão Introdução Se eu lhe dissesse que o tempo passa mais devagar no primeiro andar de um prédio do que no último. HODSON. Hacia un enfoque más crítico del trabajo de laboratorio.GIL PÉREZ.O método científico e a Ladeira do Amendoim 6. 85. & PRAIA. Lisboa: Imprensa Nacional .. CACHAPUZ. 12. ALÍS. & WALLIS. você: a) acreditaria na minha palavra. F. 1994.Introdução 2. & PRAIA. p. 253-262. 1982. 14.. 4. p. n.

a partida é sempre interrompida quando a bola sai dos limites traçados no campo).O método científico e a Ladeira do Amendoim 6. Mas é claro que a responsabilidade da ciência é muito maior do que a sua. nas palavras do físico Richard Feynmann.O peru indutivista 4. pois você conhece a Teoria da Relatividade de Einstein que diz que o tempo passa mais devagar próximo a campos gravitacionais. podemos interagir com ela realizando experimentos. os preconceitos. ela não é completa. ela se depara o tempo todo com alegações sobre as quais deve decidir se "acredita" ou não. tentar contactar vida extraterrestre e muitas outras atividades que têm profundo impacto na raça humana. permanece num estado de stand by crédulo?). Na tarefa de descobrir a verdade. percebendo que alguns lances se repetem e têm sempre o mesmo desfecho (por exemplo. Entendendo o mundo como uma partida de futebol Vamos nos permitir alguma liberdade criativa e imaginar que um alienígena recém chegado à Terra. vendo todas aquelas pessoas correndo atrás de uma bola. É quase certo que após algum tempo observando a partida e depois de vários palpites errados. pensaria ao ver um zagueiro aplicando uma tesoura na altura do pescoço de um outro jogador.Hipóteses. Pois nela o ET assiste passivamente ao desenrolar dos lances na partida e propõe hipóteses que somente tem como verificar esperando que se repitam. a idéia de realizar um experimento para testar uma hipótese é bastante nova. dentro de sua esfera de atuação. "ou talvez o objetivo seja matar o humanóide que carrega a bola". A ciência precisa de um método científico. teorias e leis 5. Pois nós somos como este alienígena. Neste papel. A Ciência é a esfera da atividade humana responsável por investigar o mundo ao nosso redor. Mais importante do que a sua resposta à pergunta é a questão que se origina dela: quais os critérios que você usa para decidir no que acredita ou não? Você sempre aceita a palavra das autoridades no assunto? (mesmo daqueles que se auto-intitularam autoridades?) Baseia suas crenças no "bom senso comum"? (e acredita que o seu senso é bom e comum?) Acredita no que a maioria das pessoas acredita (afinal alguns milhões de pessoas não podem estar erradas)? Confia suas crenças a respeito da natureza a livros sagrados de alguma religião? Não acredita em nada mas também não é muito rápido em duvidar. assim como você. provavelmente testa sua hipótese tentando acender os faróis ou medindo o potencial da bateria com um multímetro. Certamente no início da partida o ET ficaria bastante confuso. que há mais de 2500 anos foram os primeiros a investigar o mundo de maneira racional e sistemática. Porém ainda que nossa metáfora seja didática. as crenças pessoais (religiosas ou não). pois segundo Shakeaspeare "há mais no céu e na Terra do que sonha nossa vã filosofia"? (ou seja. não tem mais do que 500 anos. ele talvez pensasse após assistir um infeliz chute de fora da área. pois o conhecimento obtido por ela será usado para medicar pessoas. Mas ao longo da partida. ou melhor. decide ir ao Maracanã assistir a uma partida de futebol. construir reatores nucleares. manipular geneticamente alimentos e seres humanos. não somos meros expectadores da natureza mas participamos dela. interessado em conhecer nossos costumes. métodos de investigação precisos que descartem as ilusões dos sentidos.C. mas sabe que a diferença em questão é tão pequena que só pode ser sentida por relógios de altíssima precisão. Nós.e) acreditaria. por outro lado. Porque seria diferente com a ciência? Pois por incrível que pareça. ele provavelmente formularia algumas hipóteses sobre o jogo: "será que o objetivo é enviar a bola o mais distante possível?".Entendendo o mundo como uma partida de futebol 3. achavam que a natureza só poderia ser compreendida pelo uso da razão e do intelecto e por isso desdenhavam a experiência. O filósofo Parmênides (510 a. "Entender a natureza é como aprender a jogar xadrez somente assistindo a partida". Afinal quando seu carro não pega pela manhã e você desconfia que a bateria está descarregada.Introdução 2. Estamos imersos no grande "jogo" da natureza tentando entender suas "regras": será que tudo o que sobe desce? Porque as coisas têm cor? Será que a posição que os corpos celestes ocupavam no instante de nosso nascimento podem afetar nossa personalidade? Em outras palavras. O peru indutivista 1.O método científico e as pseudociências ou "O dragão . Os filósofos gregos. Claro que isto pode parecer um tanto óbvio.) é um exemplo de como os gregos estavam dispostos a levar a lógica e a razão até as últimas consequências: ao negar a existência do tempo e do vazio e portanto do movimento. e muito intrigado ao ver como alguns jogadores ficam tão sensíveis quando ela se aproxima demais daquelas redes localizadas nas extremidades do campo. o visitante extraterrestre fosse capaz de compreender a maior parte das regras do nosso futebol. a ciência precisa de critérios claros. as superstições de todo o tipo. Parmênides concluiu que se tinhamos a impressão de que as coisas se moviam e o tempo passava era somente porque vivíamos num mundo ilusório (uma versão antediluviana do filme Matrix).

O método científico e as . pode-se estabelecer uma regra geral: "todo ser humano é mortal". Ao observar que todo homem e toda mulher cedo ou tarde morrem. para o peru indutivista.e já que todos os seres humanos são mortais então Fulano é mortal. ou que as regras não mudariam do primeiro para o segundo tempo. tem sido assim desde que o homem é capaz de se lembrar e tem sido assim em todos os lugares do universo aonde o homem já foi capaz de estender sua visão.Hipóteses..Entendendo o mundo como uma partida de futebol 3. Quanto mais uma teoria sobrevive a esta busca. Admitindo a existência de uma ordem universal e imutável torna-se possível prever o comportamento da natureza e este é o mais importante passo do método científico no que concerne à experiência física. porque é nessas situações que a ciência progride. maior a nossa confiança em sua veracidade.Falhas no método científico? 8.O método científico e a Ladeira do Amendoim 6. Note entretanto que a indução é totalmente apoiada na repetição da experiência e na crença na imutabilidade dos processos naturais. portanto. surge a pergunta: quantas observações são suficientes para justificar a regra? Cem.em condições suficientemente variadas para alegar que aquela regra é realmente universal? Este problema foi contornado por Karl Popper. que apresentou o conceito de falsificabilidade. Em vez da ciência se basear nas observações que reforçam uma teoria. Esta forma de raciocínio lógico que extrai uma verdade geral a partir da observação de um grupo particular é chamada de indução.. Mas nada garante à ciência que vá continuar sendo assim amanhã ou que seja assim em algum confim desconhecido do universo. para existir. teorias e leis 1. o objetivo dos cientistas não é defender ostatus quo ou proteger as leis científicas contra contestações. Se estabelecemos uma regra geral a partir de um determinado número de observações.na minha garagem" 7. Por outro lado as hipóteses "O tempo passa mais rapidamente nos lugares altos" e "O futuro pode ser previsto pela posição dos astros nos céu" são falsicáveis e portanto estão dentro do escopo da ciência. no dia de Natal a regra não se revela verdadeira. este peru finalmente conclui por indução a regra geral: "sou sempre alimentado às 9:00 da manhã!". mas não existem teorias comprovadas. Sobre isso Bertrand Russel nos traz o seguinte exemplo: imagine um peru que recebe sua ração todos os dias do ano. o método científico parte do princípio da imutabilidade dos processos da natureza ou "o princípio da uniformidade da natureza". se por meio de algum experimento real ou imaginário for possível provar sua falsidade. mas depois de perceber que esta experiência se repete por um considerável período de tempo. faça chuva ou faça sol. isto é a melhor coisa que pode acontecer. todos os dias da semana inclusive sábados domingos e feriados.muito importante . ao contrário do que muitos pensam. milhões? Como saberemos se temos um número suficiente de observações e . o frio esquenta e o quente esfria. Assim como nosso alienígena visitante não podia ter certeza de que os jogadores no Maracanã não estavam simplemente correndo ao acaso atrás da bola. toda vez que encostamos algo quente em algo frio. ela passa a buscar observações que a falsifiquem. não? ipóteses. A partir desta regra geral. pode-se então deduzir (dedução é a forma de raciocínio que extrai uma verdade particular de uma verdade geral) que se Fulano é um ser humano .O peru indutivista 4. ou desta lei natural.Conclusão Antes de mais nada. Mas alguém que prove que Newton estava errado. A hipótese "Deus existe" não é uma hipótese que possa ser julgada pela ciência pois não existe nenhuma experiência imaginável que possa provar que "Deus NÃO existe". teorias e leis 5. nós também não podemos ter certeza de que a natureza possua uma ordem e que esta ordem seja imutável. exatamente às 9:00h da manhã. segundo o qual uma hipótese só é considerada científica se for falsicávelou seja. como denominava o filósofo Karl Popper. Seu objetivo é justamente tentar contestar estas leis! Um cientista que tenha realizado cinqüenta milhões de experiências comprovando a teoria de Newton não foi muito útil. você já ouviu falar de Einstein. Qual a vantagem disto? Isto leva uma mudança de atitude. mil. No início o peru é cauteloso. E quando é provado que uma determinada teoria está errada. apenas teorias que ainda não foram derrubadas. para tentar compreender o jogo da natureza é preciso acreditar que há regras para serem compreendidas. Ou nas palavras de Einstein (usadas num contexto ligeiramente diferente): "Deus é sutil mas não maldoso"... Assim. estabelecida pela observação do mesmo resultado repetidas vezes.Introdução 2. O método indutivo apresenta.. Temos apenas fortes evidências disto: por exemplo. Infelizmente. uma limitação. Assim.

Voltemos às hipóteses: mas e quando diversas hipóteses servem para explicar o mesmo fenômeno? Ou seja. obtidas por um grande número de pesquisadores independentes ela pode ser promovida à lei ou ajudar a compor uma teoria. e se for possível explicar o mesmo fenômeno e prever os mesmosresultados utilizando hipóteses diferentes? Neste caso a ciência prefere adotar a hipótese mais simples. ou seja. onde por mais simples se entende aquela que usa o menor número de suposições ou que introduzam o menor número de entidades novas na ciência. nada mais é do que uma crença que se desconfia que seja verdadeira. Por exemplo a Lei da Gravidade é bem curtinha e simples: ela diz que os corpos se atraem com uma força proporcional às massas de cada um e inversamente proporcional ao quadrado da distância entre eles. Algumas das leis da física são a Lei da Gravidade ou as três Leis de Newton que você já aprendeu na escola. é um estatuto que explica de forma simples e concisa (por isso geralmente é enunciada de maneira matemática) um fato bem estabelecido pela ciência. este experimento só será considerado válido se puder ser reproduzido por outras pessoas mantendo-se as mesmas condições. Não caia nesse truque retórico. É curioso que por que as palavras "teoria" e "lei" tem significados tão diferentes no cotidiano as pessoas leigas tendem a achar que as teorias são menos formais ou menos válidas do que as leis. Afinal quando se faz o menor número de suposições possíveis é menos provável que se descubra mais tarde que uma delas estava errada. . Para testar a hipótese será quase sempre necessário umexperimento. não sua validade. Uma lei. A partir daí deve-se testar a hipótese. Se a hipótese se confirma um grande número de vezes ela deve estar correta. Já uma teoria é um conjunto de explicações sobre um certo tipo de fenômeno. O que muda é só o escopo e abrangência de cada uma. conforme você já deve ter percebido. Com base na observação e apoiado pelo pensamento indutivo formula-se uma hipótese que. Se a hipótese se confirma uma vez ela pode estar correta. Uma Lei da Natureza é o mais longe que podemos chegar com o método científico mas ela não constitui uma verdade definitiva. Já a Teoria da Gravitação é muito mais ampla e complexa e faz uso da Lei da Gravidade para explicar os fenômenos relacionados à atração gravitacional.Conclusão Vimos que o método científico começa com a observação da natureza. Se a hipótese não se confirma ela deve ser reformulada e novamente testada. como veremos a seguir. Os defensores do criacionismo (aquele movimento que defende que a Terra foi criada por Deus em 6 dias literais) dizem que a Teoria da Evolução é "apenas uma teoria" e como tal não poderia ser ensinada nas escolas. Uma teoria é tão consistente quanto uma lei. utilizar a hipótese para verificar o fenômeno que ela explica e.Falhas no método científico? 8. com hipóteses amplamente testadas e validadas. utilizar a hipótese para prever novos fenômenos.pseudociências ou "O dragão na minha garagem" 7. que num ambiente controlado possa quantificar o fenômeno. Este método é chamado de Navalha de Ockham. Quando uma hipótese já reúne um número considerável de evidências. para a ciência. mais importante. Independentemente do resultado. ou um grupo de fenômenos semelhantes.

De qualquer maneira esta postura do método científico. Qualquer uma das quatro hipóteses (ou outra que se possa imaginar) poderá ser considerada e deverá ser testada. O método científico e as pseudociências ou "O dragão na minha garagem" Um amigo lhe diz que descobriu um dragão na garagem da casa dele. houve um erro na interpretação dos dados. se você examinar o fenômeno até o fim chegará a conclusão que a hipótese (4) é a verdadeira. Uma lei física é um estatuto do qual temos uma forte sensação que seja verdadeiro e que até o momento não foi contradita por nenhuma experiência humana. etc . Se por um lado este estado das coisas assegura aos cientistas que nenhuma verdade estará livre de contestação. Bem. por parte de quem realizou a experiência. telepática. ao invés de descer sob a ação de seu peso ele anda para cima! Estarão os carros na Ladeira do Amendoim desafiando a lei da gravidade? Se você se propõe a investigar o fenômeno provavelmente pensará em pelo menos quatro hipóteses para explicar o fenômeno: (1) existe algum tipo de força sobrenatural. enraizada em sua própria definição. não conhecida pela ciência: mágica. por outro nos impede de assumir qualquer conhecimento como final e definitivo. ou uma verdade científica. A Lei da gravidade está a salvo (por enquanto). (4) a observação de que o carro sobe não é verdadeira. As leis da física não podem ser "desafiadas". telúrica. (3) a lei da gravidade está errada ou não se aplica a este local do planeta e deve portanto ser revista. o que um investigador munido do método científico não poderá fazer é desconsiderar o fato observado com o argumento de que "a lei da gravidade é uma lei da natureza bem estabelecida e acima de qualquer dúvida". já pensando nas manchetes dos jornais. isso é incrível! Vamos lá vê-lo!" você diz entusiasmado. ou seja. (2) existe alguma força conhecida pela ciência. ou seja. . Alguém se equilibra sobre uma corda estendida entre dois arranha-céus e logo se diz que ele está "desafiando a lei da gravidade" (quando na verdade não poderia fazer o que faz se não fosse por ela). a disposição das ladeiras próximas a Ladeira do Amendoim e a dela própria criam a ilusão de que o carro está subindo quando na verdade ele desce normalmente. Uma lei física. como as leis legisladas em nosso mundo. nada mais é portanto que um estado de repouso do conhecimento (o que não deixa de ser um pensamento um tanto pessimista).O método científico e a Ladeira do Amendoim O que chamamos de leis da natureza não são leis no sentido usual da palavra. é que garante a investigação constante e vigilante do conhecimento humano. como em qualquer outra ladeira do mundo. astral. espectral. Veja a Lei da Gravidade por exemplo. Vejamos um exemplo: você está na cidade de Belo Horizonte e ao passar pela ladeira conhecida por Ladeira do Amendoim percebe um fenômeno interessante: quando seu carro é deixado em repouso nesta ladeira. por exemplo).puxando o carro para cima. "Uau. mas não evidente no momento. atuando sobre o carro (uma força magnética vinda de algum depósito de minerais.

E depois tiramos umas fotos. instrumentos exóticos capazes de medir a "energia" de dragões. e encara o seu ceticismo como má-vontade em crer neste maravilhoso dragão-invisível-incorpóreo-que-cospe-fogo-frio. quasares."Bem.. Você começa a perder a paciência e. revelação em sonhos. afinal descobrir que dragões podem estar escondidos em garagens pelo mundo e que podem ser usados para curar e prever o futuro é uma descoberta extraordinária demais para ser ignorada." "Ahhh? Tinta? Bom. partículas atômicas e subatômicas." "Mas o fogo deste dragão é um fogo frio. Tycho Brahe ficou famoso por coletar os mais precisos dados astronômicos que já haviam sido colhidos até a sua época. Foi preciso que seu discípulo e assistente. que está à temperatura ambiente. Esta história é uma adaptação livre de um trecho do livro "O Mundo Assombrado pelos Demônios" de Carl Sagan e ilustra o típico pensamento pseudocientífico."A gente joga tinta nele então. dirão (ao que Carl Sagan acrescentaria: "riram do Bozo também. afinal você sabe que um dragão invisível é ainda mais incrível que um dragão qualquer. De fato você não precisa ir muito mais longe para. e hoje famosa. Por fim as previsões feitas por pessoas "guiadas" pelos dragões são menos acertadas na média do que as previsões feitas por profissionais e o número de curas feitas pela tal energia do dragão é equivalente ao das curas espontâneas ou por placebo. Falhas no método científico? Assim como já houve diversos cientistas que pensaram ter feito uma nova e revolucionária descoberta e mais tarde verificaram que seus dados não eram corretos. Muitos torcerão um pouquinho a história e se compararão a Galileo e a Colombo que foram perseguidos por desafiarem o pensamento científico estabelecido: "Riram de Galileo e de Colombo e riem de nós".. técnicas ancestrais milenares de detecção de dragões (provavelmente orientais)." "Incorpóreo?!!" "Sim. Este éter deveria ser de tal natureza que não interferisse no movimento da Terra através dele e que permanecesse inalterado e imóvel ao ser atravessado pela luz. mas outros começaram a desconfiar que não haveria éter nenhum para ser detectado." "Você fala sério?!". ordinárias nem extraordinárias.. até o ano de 1960. Ele só aparece para algumas pessoas "escolhidas" e nunca diante de câmeras. sempre com os mesmos resultados. incorpóreo. muito embora ninguém ainda o tivesse detectado.. Porém Tycho não acreditava no modelo heliocêntrico proposto por Copérnico e utilizou suas observações para formular um novo modelo geocêntrico do universo (que se tornou muito popular)." "Tá. soltar fogo ele solta! Se bem que o fogo é invisível também. alguns cientistas tentam assim mesmo detectar este dragão. Investigar portanto é preciso. mágicos conseguem reproduzir tudo o que as pessoas dizem fazer usando a energia dos dragões. não tem problema. não vai dar pra sentir. alguns anos mais tarde utilizasse os mesmos dados mas orientado por uma crença . Não pense que dragões indetectáveis são exclusividade dos pseudocientistas. Claro. Isso o tornava por definição extremamente dificil de ser detectado. Johannes Kepler. isso também não vai dar. preferindo interpretar suas conclusões de uma maneira "convencional"." "Mas este dragão solta fogo? Pelo menos isso?" "Sim. além de um pouco preocupado com a sanidade do seu amigo. Alguns imaginaram falhas na experiência. etc. ele é finalmente esquecido. para a ciência pelo menos. porém nada foi observado. mas seu momentâneo desapontamento é logo substítuido por uma excitação ainda maior. Estas pessoas provavelmente acusarão os cientistas que não querem crer na existência de seus dragões de estreiteza de pensamento ou dirão que eles se negam a encarar as evidências porque temem que elas abalem sua forma ortodoxa de pensar. A conclusão é que por mais que a ciência investigue o fenômeno não há evidências. Em 1881 Michelson e Morley idealizaram uma cuidadosa. variações no espaçotempo . Mas este dragão tem um problema de timidez.. Por isso. a gente usa um visor de infravermelho pra ver este fogo invisível. Mas mais importante do que isso: não é só porque a ciência não é capaz de detectar o dragão que ele não existe. imaginar pessoas que preveêm o futuro inspirados por dragões indetectáveis. Germes. também houve vários casos de pesquisadores que fizeram de fato descobertas revolucionárias mas não souberam reconhecê-las. Todas as evidências de sua existência ou são contestáveis ou não vêm de fontes confiáveis ou podem ser explicadas por fatos já bem conhecidos pela ciência. usando a mesma analogia. isso não vai ser possível porque ele é invisível. e daí?"). tipo um fantasma ou um ectoplasma. quando foi definitivamente descartado.pode-se citar inúmeros exemplos de fenômenos que num determinado momento da história não foram ou não poderiam ser detectados pelas técnicas e instrumentos disponíveis mas que não deixaram de existir por isso.. O éter continuou a ser perseguido utilizando-se técnicas mais avançadas e instrumentos mais precisos. experiência para tentar "capturar" o éter. ou que dizem curar usando a energia destes seres. A ciência já teve que lidar com seus "dragões". pois este dragão é incorpóreo. uso da intuição. fica imaginando qual a diferença entre um dragão que não pode ser detectado de nenhuma maneira e dragão nenhum:"Então como você sabe que há realmente um dragão lá?!" Seu amigo responde a esta pergunta com explicações confusas que misturam capacidade de se comunicar telepaticamente com o dragão. obtidas através de um rigoroso método científico que suportem a existência do Dragão Invisível." "!!" Você propõe mais uma dúzia de maneiras de detectar o dragão e seu amigo refuta todas elas dizendo que com este dragão não vai funcionar. Até o final do século XIX os físicos acreditavam na existência de uma substância chamada éter que preencheria o vácuo e que seria o meio no qual se propagariam a luz e as ondas gravitacionais.

Ou nas palavras de Einstein: "Minhas idéias levaram as pessoas a reexaminar a física de Newton. Blondlot repetiu a experiência. Um cientista não espalha os fatos sobre a mesa e espera que a verdade emane deles espontaneamente. o holandês. Obviamente . De fato. poderíamos achar que ele havia nascido nos Estados Unidos. conhecida como Indo-Européia." Conclusão Em um momento em que há um projeto de lei propondo a regulamentação de uma arte divinatória de 5000 anos atrás. Se isto não acontecer haverá uma falha grosseira em algum lugar. tudo o que é vivo muda com a marcha do tempo. A distribuição geográfica de grupos linguísticos também nos fornece dicas a respeito de movimentos populacionais. mas desta vez Wood secretamente retirou o prisma da montagem. A moral da história aqui é que os fatos não falam por si mesmos. A Teoria da Evolução de Darwin é uma das teorias mais belas e simples da ciência. Um fato só é aceito pela ciência depois de exaustivamente reproduzido por cientistas em todo o mundo (a história dos raios N também serve para ilustrar este ponto). com mais facilidade para encontrar comida. Por outro lado. Como disse o cientista Henri Poincaré "Um punhado de fatos não é mais ciência do um punhado de tijolos é uma casa". a discussão sobre o alcance e validade da ciência é mais atual e necessária do que nunca. mas uma base que todo ser humano precisa ter para exercer sua cidadania.. "fusil" em francês. de onde se espalhou pelo resto do mundo. dando origem a uma família de mais de 140 línguas. pensou ter descoberto uma nova forma de radiação que chamou de raios N.diferente. O inglês. plantas. Estas mudanças acontecem por acaso. "ovis" em latim. onde se encontra atualmente o maior número de falantes dessa língua. Praticamente todas as línguas européias (incluindo. tal qual uma letra ou uma palavra trocada acidentalmente em um enorme livro. etc.. "ruzhyo" em russo e assim por diante. A partir daí podemos deduzir que o inglês nasceu nesta região.por que não? . este dialeto foi gradualmente se espalhando e se modificando. "ovtsa" em russo. a ciência não se fia na autoridade de nenhum pesquisador e nem em pesquisas isoladas. Os raios N produzidos por um filamento aquecido de platina deveriam atingir um prisma e difratarem-se de encontro a uma tela produzindo bandas luminosas. por volta de 6. gerando seres defeituosos (infelizmente poucos nascem podendo portar garras de adamantium). O próprio método científico se encarrega de eliminar os julgamentos pessoais e impede que a longo prazo dogmas sejam formados. Austrália e outros países e. sabemos por registros históricos que o "avô" do inglês britânico moderno foi levado dali para a Inglaterra por anglo-saxões que a invadiram nos séculos V e VI. o mesmo não pode ser feito para arma de fogo. se defender de predadores. as línguas escandinavas e outros – todos amontoados no noroeste da Europa e o mais próximo deles é um dialeto falado em uma pequena parte da costa holandesa e alemã. estudando os recentemente descobertos raios X. Mas se Tycho Brahe viu pouco em seus próprios dados o cientista francês Rene Blondlot enxergou demais (literalmente). espalhou-se pela América do Norte. E daí? O histórico da evolução de uma família de línguas nos dá pistas para descobrir em que épocas certos desenvolvimentos culturais e tecnológicos ocorreram. Ciente tanto de sua responsabilidade quanto da falibilidade dos cientistas. Naturalmente alguém um dia irá reexaminar minhas próprias idéias. a palavra ovelha.ânsia em comprovar o que consideram ser a verdade. obviamente. Mas a língua inglesa tem vários "parentes" próximos – o alemão. se não conhecessemos sua origem. mas nenhum outro cientista ainda tinha conseguido reproduzir suas experiências nem vislumbrar o menor sinal dos raios N. Quanto . Todas estas palavras têm obviamente uma origem comum que pode ser rastreada até o dialeto original da família Indo-Européia. armas de fogo surgiram bem depois da diferenciação destas línguas e cada uma teve que inventar uma palavra própria. mas umas poucas delas podem gerar seres mais bem adaptados ao meio em que vivem. Nos primeiros anos do século XX. e pessoas como se sabe. Ou "avis" em lituano e sânscrito. Fatos e medidas precisam ser interpretados pelas pessoas que conduzem os experimentos. "oveja" em espanhol. Por isso em 1904 o cientista americano Robert Wood foi enviado ao laboratório de Blondlot para tentar desvendar o mistério. A grande maioria das mutações é nociva. Nesse meio tempo. Será que o fato do cientista ser falível torna a ciência falível? Sim e não. análises tendenciosas e . préconceitos. bactérias. É esta pois a beleza da ciência. ou "gun" em inglês.000 atrás. Blondlot continuou enxergando as bandas luminosas originadas pelos raios N! Não é preciso dizer que logo depois disso toda a história dos raios N foi desacreditada e esquecida. Veja por exemplo. e entender o rigor com que examina alegações extraordinárias é apenas uma parte desta discussão. Para seu espanto. "owis" em grego e "oi" em irlandês. na forma de pequenas mutações acidentais no código genético. o nosso português e também o grego) são descendentes de um dialeto falado por uma tribo que vivia onde atualmente fica a Ucrânia. Compreender o método que a ciência usa para construir o conhecimento humano. são naturalmente susceptíveis a julgamentos pessoais. Isto sugere que aquela tribo já conhecia e domesticava ovelhas e isto é confirmado por evidências arqueológicas. por exemplo. Blondlot. Até 1903 Blondlot já havia publicado mais de 10 trabalhos sobre sua descoberta. para não só comprovar o modelo heliocêntrico como ainda estabelecer as Três Leis de Kepler do movimento planetário. porém quando Wood observou a tela não foi capaz de ver nenhuma das bandas luminosas que Blondlot alegava ver. Basicamente ela diz que a vida nem sempre foi como é hoje: animais.

Como sempre os robôs mais aptos evoluíam introduzindo pequenas modificações no código de seus descendentes. como mamutes e dinossauros. Várias gerações depois (um instante apenas no tempo da CPU). os pesquisadores Christoph Adami e Charles Ofria do Instituto Tecnológico da Califórnia criaram o projeto Avida (A de "artificial" em inglês. Vinte ciclos depois. um programa de computador "habitado" por organismos virtuais que evoluem. Hoje. um programador visual precisa desenhar seu movimento passo a passo ou mapear a coreografia de uma pessoa real equipada com sensores. O problema é que a evolução demora demais para acontecer. Computação genética serve ao cinema mais do que apenas como inspiração para seus roteiros. Você pode assistir o vídeo de um ser digital aprendendo a andar no site da Natural Motion. a companhia fundada por Reil. dentro de seus computadores. Até aqui os programadores estiveram criando vida artificial virtual. da Universidade de Oxford. não à toa ela é uma das patrocinadoras do projeto. mais curto ou mais elaborado e portanto mais capaz de se alimentar e se reproduzir. a maior parte destas modificações produzia seres ainda mais inaptos. Os seres da primeira geração mal saíam do lugar. Se você quiser conferir e cultivar sua própria colônia de organismos digitais pode acessar o site do Digital Life Laboratory e baixar gratuitamente a última versão do Avida. A maior parte destas mutações dá origem a bugs .mas em raras ocasiões uma mutação pode melhorar o pequeno programa tornando-o mais rápido. Softwares que evoluem fazem parte de um ramo emergente da computação chamada Computação Genética (Genetic Programming ou GP em inglês) e não servem apenas para que os pesquisadores entendam melhor os mecanismos do darwinismo. uma espécie mutante pode diferir completamente da espécie original tornando-se mais comum e mais bem sucedida que as outras. É interessante notar que sem a natureza para imitar. os personagens virtuais haviam aprendido a andar com desenvoltura. que se reproduzem (como aqueles vírus que vivem atacando o Windows). O dia em que isto acontecer a Microsoft quer estar lá. Para acelerar um pouco as coisas. mas uns poucos deles melhoravam as metas da geração anterior e eram selecionados para continuar se reproduzindo. Estes organismos virtuais são pequenos programas. Hod Lipson e Jordan Pollack do MIT. com um pedaço de código a mais ou fora de lugar. Além de envolver uma formidável quantidade de trabalho o método não é nada versátil. Por que não colocar a evolução para trabalhar e deixar o personagem aprender a andar sozinho? Foi isso o que fez o pesquisador Torsten Reil.programas defeituosos . por isso é muito difícil de ser observada e testada. enquanto os menos aptos acabavam extintos. um programador apenas determinará as tarefas a serem executadas e o programa evoluirá até se tornar capaz de executá-las. Pode-se imaginar o dia em que programas de computador vão estar escrevendo outros programas de computador. para fazer um personagem virtual como Hulk ou o Gollum de "O Senhor dos Anéis" andar. o computador produziu . comem . trechos de código. exatamente como acontece na natureza. um organismo pode gerar um descendente mutante. Cerca de 600 gerações depois os robôs mais bem sucedidos foram construídos em plástico moldado em uma máquina de prototipagem (uma impressora em 3D). em linguagem C++. os engenheiros intervieram apenas para montar os motores nas peças de plástico expelidas pela máquina. acasalar e passar seus genes beneficamente modificados para sua prole. correr ou saltar. se o roteiro for modificado todo o procedimento precisa ser refeito. No processo.mais adaptado mais chances de sobreviver.números binários são sua comida predileta e realizam tarefas na forma de pequenos algoritmos. não mais que alguns minutos de processamento. A medida que evoluem. logo desabavam desajeitadamente. E por que não começar a criar vida artificial "real"? Em 2000 dois engenheiros. Ao se reproduzir. Ele criou centenas de pequenos seres digitais com a mesma liberdade de movimentos que os humanos e estabeleceu a meta que eles deveriam atingir a cada geração: a maior distância percorrida sem cair. anunciaram um programa de computador destinado a projetar evolutivamente robôs que caminham. os programas que habitam Avida se tornam mais complexos e mais capazes de resolver os problemas propostos. vida de vida em bom português mesmo). Como na natureza. incluindo o código fonte do programa. mas os melhores dentre eles davam origem a descendentes com ligeiras modificações aleatórias.

A construção e utilização de ferramentas é a principal habilidade humana responsável por nosso desenvolvimento tecnológico. mas chamam a si mesmos de húngaros!". mas também ao grande número de geniais cientistas daquele país. é necessário romper a barreira dos 1. Robôs autoreplicantes seriam ideais para utilização em ambientes inóspitos ao homem. formavam uma liga que se revelou de grande utilidade – o bronze (que também podia ser feito com antimônio. em compostos que chamamos genericamente de minérios.. Ainda que sua descoberta tenha sido um grande avanço. cobre e estanho. era pouco resistente. não que venham de um futuro não muito distante em que as máquinas dominaram o mundo e costumam enviar. que o simples fato de nunca termos encontrado robôs de civilizações alienígenas tem sido usado como argumento de que ou elas não existem. Por acaso você pensou num velho robô exterminador T-800 sendo ultrapassado por um moderníssimo T-X em um mundo dominado pelas máquinas? Bem. No início. Na verdade. Assim pode-se produzir tipos diferentes de aço. descobrimos que derretendo o cobre junto com outros metais é possível produzir combinações interessantes.500oC. algo mais parecido com formas primitivas de vida alienígena. outro metal de baixo ponto de fusão. mas por volta de 3. o físico húngaro Leo Szilard. tornando-se mais adaptados a cada geração e fazendo os modelos anteriores ficarem obsoletos.700oC.. Seu colega. por que. Afinal.1% de carbono e quantidades variáveis de níquel.150oC (Celsius). Logo que aprendemos a refinar o cobre. é preciso. Se vamos encontrar robôs autoreplicantes um dia só o tempo vai dizer. os cientistas não ouvem nada além do "Grande Silêncio"? Esta é uma variante do Paradoxo de Fermi. considerado o pai do computador digital e o primeiro a propor máquinas autoreplicantes. chegando ao refeitório do lendário laboratório de Los Alamos bradou a frase que se tornaria famosa: "Onde eles estão?". mas uma grafite de melhor qualidade é usada em inúmeras outras aplicações (desde motores elétricos a reatores nucleares) e para produzí-la é necessário atingir 3. o cobre. Além de caro. uma sigla para Genetically Organized Lifelike Electro Mechanics. arsênico ou chumbo). . Mas a temperatura de fusão do ferro é por volta de 1. dono de um poderoso senso de humor. temperaturas muito maiores que essas são necessárias para a produção de um material que não é metálico – a grafite. acima da temperatura de fusão do cobre. Alguns metais também eram usados. em fornos fechados. uma questão inicialmente elaborada pelo físico Enrico Fermi (que não chegou a pensar em robôs autoreplicantes). o titânio funde próximo a 1. diferente de todas as línguas européias. além da capacidade dos fornos antigos. Mas a maior parte do cobre existente na crosta terrestre. que na lenda judaica subjuga o rabino que lhe deu vida. Vastamente empregado na indústria aeroespacial. Hmm.000oC. ainda que em uma versão primitiva. Lipson e Pollack denominam seu projeto de GOLEM. os cientistas também.. já que a tecnologia da época só permitia processar metais macios e encontrados na natureza em sua forma pura. como o titânio.. encontra-se combinado com oxigênio. Outros metais utilizados modernamente tem pontos de fusão ainda maiores. Daí a visão clássica do ferreiro antigo batendo repetidamente em uma peça de ferro sobre uma bigorna..500 a. Mas para produzir aço de melhor qualidade. entre eles John von Neumann. como ouro. de tempos em tempos.robôs que não se parecem com nada que anda na Terra. Neste caso vamos torcer para que pertençam a civilizações alienígenas sociáveis.. aquecê-lo a uma temperatura alta o suficiente para derretê-lo (é preciso também uma fonte de carbono – como madeira ou carvão – para remover o oxigênio). Outra opção era retirar as impurezas do minério sólido. mas tão boa. surpreendentemente. Teríamos então o perfeito cenário de um filme de ficção científica: robôs evoluindo e se reproduzindo sem nenhuma intervenção humana. Precisávamos de um metal melhor. faz sentido. o bronze apresentava limitações. prata e. Compare isso com a temperatura da superfície do Sol: 6. Elas nos permitem realizar tarefas que seriam impossíveis se contássemos somente com a capacidade natural de nosso corpo e sua utilidade está intimamente ligada ao material do qual é feita. andróides exterminadores ao passado para matar o líder da resistência humana. Uma fogueira aberta não é capaz disso.000oC. desde o projeto até a fabricação. ou de orcs forjando suas espadas. Para manter sempre acesa a lembrança da responsabilidade que têm. Havia então duas formas de contornar esta limitação. antes de mais nada. chamadas de ligas. Por exemplo. só podíamos contar com diversos tipos de rochas e ossos. sem a adição de carbono aquecendo-o a uma temperatura abaixo do ponto de fusão do ferro. Para transformar o minério do metal em metal puro. por quê o universo não está infestado de robôs se reproduzindo exponencialmente em cada sistema solar que chegam? Por que ainda não encontramos um grande monolito negro como o de "2001 Uma Odisséia no Espaço"? Em outras palavras. através de impactos repetidos. ou não atingiram um estágio tecnológico comparável ao nosso. se existe vida inteligente lá fora e ela é tão abundante como crêem alguns cientistas. mas que é também o nome de uma criatura mágica. Fermi acreditava firmemente na existência de vida inteligente extraterrestre mas andava um tanto frustrado por ninguém ter encontrado ainda uma pista sólida deles.. muitos dos mais brilhantes físicos do século XX nasceram na Hungria. a idéia de robôs autoreplicantes explorando o universo por nós é tão boa. especialmente outros planetas. respondeu: "eles estão entre nós.5% de carbono o ferro se liquefaz a uma temperatura mais baixa.500oC e modernamente isto é feito em fornos especiais que permitem controlar cuidadosamente a quantidade de carbono e outros elementos presentes. A grafite que você usa na sua lapiseira é encontrada diretamente na natureza. nossos antepassados conseguiram atingir por volta de 1. Quando misturado com aproximadamente 3. assim como a maioria dos metais.. Esse processo de impactos repetidos alternados com aquecimento também podia ser aplicado ao ferro ao qual carbono havia sido adicionado de forma a reduzir a quantidade de carbono presente a níveis abaixo de 2% – o aço. Mas. como por exemplo o aço inoxidável (que tem menos de 0. em menor grau. O próximo passo seria inventar máquinas com sensores que pudessem fazer tudo sozinhas. por mais que vasculhem o céu. e conseguimos – o ferro. cromo e outros metais).C. só que mais como ornamentos do que em ferramentas. Um dia. A brincadeira corrente em Los Alamos de que os húngaros são na verdade marcianos disfarçados dizia respeito não apenas à estranhíssima língua húngara. tanto que a NASA vem há tempos estudando a possibilidade de semear a superfície da Lua e de Marte com robôs deste tipo.

barcos (especialmente os pesqueiros. saiba que cientistas em todo mundo estão buscando atingir temperaturas literalmente milhares de vezes maiores. enquanto que à medida que se afasta ele parece mais grave. da NASA e da agência espacial francesa. os satélites do NOAA usam o efeito Doppler. para saber se estão nas áreas delimitadas para pesca). Não. Então. os oceanógrafos podem saber o que faz o próprio oceano. Desta maneira. Aliás. formando uma grande mistura de partículas carregadas.000. vários exemplos de plasma podem ser encontrados em nosso cotidiano (obviamente a temperaturas muito mais baixas). velocidade e direção das correntes oceânicas. só que em vez de ondas sonoras. O principal uso do ARGOS é na pesquisa oceonográfica (que responde por mais da metade do uso do sistema) mas qualquer coisa na qual se possa fixar um minúsculo transmissor de 15 gramas pode ser monitorado: aves. lá embaixo na Terra. é sinal de que está o mais próximo possível dele. Essas partículas podem. O sistema ARGOS é um empreendimento conjunto do NOAA. para medir seu deslocamento. o plasma seria confinado por um forte campo magnético. portanto. Em um reator. estes dois componentes são separados. os pesquisadores são capazes de determinar o movimento das marés. Quando você está se movimentando em direção às ondas sonoras acaba atravessando um número de ondas maior do que o que passaria por você se estivesse parado (assim como uma lancha atravessa mais ondas se navega em direção a elas). À medida que seu carro se aproxima o som da buzina parece mais agudo. além do que fazem os peixes no oceano. Hoje em dia há milhares de transmissores espalhados pelos sete mares monitorando-os e enviando zilhões de bytes de informação para os . nenhum material conhecido consegue suportar estas temperaturas. Elas são necessárias para manter uma reação de fusão nuclear – a mesma fonte de energia que mantém as estrelas brilhando e que pode solucionar os problemas energéticos mundiais. nessa temperatura. nível dos oceanos. não erramos no número de zeros. e quanto maior a frequência do som mais agudo ele é. Com transmissores ancorados ou à deriva em bóias. Para entender o efeito Doppler imagine que você está em um carro em movimento e passa por um outro carro que está buzinando. O contrário acontece quando você se afasta da buzina: com menos ondas chegando ao seu ouvido num mesmo intervalo de tempo. Em condições normais. Ao contrário da fissão nuclear. aventureiros em terras inóspitas (os exploradores de hoje não são como os de antigamente). O grande desafio para os cientistas nucleares será atingir e manter as altas temperaturas necessárias à reação de fusão nuclear. como seria construído um reator desse tipo? Bem. ser controladas por um campo magnético. Mas como satélites monitoram animais a centenas de quilômetros acima da Terra? Primeiramente os cientistas prendem aos animais pequenos transmissores. Para determinar a posição do transmissor. A grande dificuldade é que a reação só acontece acima de 100. Assim como para Frodo e seus amigos. Isto acontece porque as ondas sonoras emitidas pela buzina são como ondas no mar atingindo seu ouvido.Mas se você acha que estas temperaturas são altas. Conhecendo-se a órbita e velocidade do satélite assim como a velocidade das ondas de rádio (igual a velocidade da luz) é possível calcular a posição do transmissor com uma precisão que varia de 150 a 1000 m. Quando o satélite "ouve" uma frequência igual a que o transmissor está emitindo (que ele conhece). de forma a não entrar em contato direto com as paredes do reator e diminuindo a temperatura a que o material das paredes seria exposto. qualquer material encontra-se sob uma forma conhecida como plasma. os átomos de qualquer material são constituídos de um núcleo (com carga elétrica positiva) e um conjunto de elétrons (com carga elétrica negativa). o satélite viajando pelo espaço "escuta" as ondas eletromagnéticas enviadas pelo transmissor. No ponto em que a buzina se encontra à menor distância possível do seu ouvido a frequência que você ouve é a mesma da buzina (a mesma que ouve todo o tempo o motorista do carro parado). quanto mais ondas chegam em um determinado período de tempo maior a frequência do som que você ouve. a CNES. como por exemplo o interior das lâmpadas fluorescentes ou nas telas dos modelos mais modernos (e caros) de televisões.000oC. no que é chamado de confinamento. utilizada nos reatores nucleares atuais. o sucesso nessa busca pode mudar radicalmente o futuro de nossa sociedade. destinado exclusivamente à pesquisa ambiental. imóvel num engarrafamento na contra-mão. a frequência do som é menor e ele é mais grave. a fusão nuclear não gera lixo radioativo e utiliza combustíveis facimente encontrados. é cem milhões de graus Celsius mesmo. Para começar. Estes transmissores enviam ondas de rádio que são captadas por dois satélites do NOAA especialmente equipados com um sistema especial conhecido por ARGOS. No plasma. caminhões com carga sensível e até mesmo o gelo das calotas polares. Este é o mesmo princípio dos satéites do NOAA. animais selvagens.

Com as respostas que recebeu. Albert I morreu em 1922 com 72 anos de idade. tinha bons motivos para ir contra as práticas médicas comuns do século XVIII. No final do século XIX.. Sim. o médico alemão Samuel Hahnemann (1755-1843).Os princípios da homeopatia 3. O maior destaque do museu é o impressionante aquário contendo um coral vivo no qual se pode ver. o sentido de rotação das correntes marinhas no Oceano Atlântico.Conclusões O pai da homeopatia.Introdução 2.A aparente eficácia 6. mas graças às suas cores vivas e listras brancas o peixe anêmona atende mesmo é pelo nome de peixe-palhaço. sem a ajuda de satélites nem transmissores. purgas e outros métodos que realmente causam mais mal do que bem. entre outras espécies. Homeopatia por Ana Luiza Barbosa de Oliveira em 05/07/02 Os princípios da homeopatia 1.Pesquisa científica 5. chamado anêmona. Mas é claro que nem sempre o estudo do oceano foi tão high-tech assim. o peixe anêmona. o princípe Albert pôde estabelecer e mapear pela primeira vez. o nome do pequeno Nemo não veio apenas do famoso capitão do livro de Júlio Verne. naquele romântico tempo em que um homem podia se lançar ao estudo da ciência movido só pela curiosidade e paixão e desvinculado de financiamentos do governo (claro que neste aspecto a generosa conta bancária da família real ajudou bastante) este aristocrata lançou ao mar centenas de garrafas e esferas ocas de bronze com mensagens que pediam a quem as encontrasse que as devolvessem ao remetente contando onde as haviam encontrado. Este peixe recebe seu nome por viver entre os tentáculos de um venenoso animal parecido com uma planta aquática. isso mesmo. Hahnemann percebeu que a administração de quinino (uma droga . sanguessugas. Antes disso construiu em Monaco um grande museu náutico que hoje é visitado por mais de um milhão de pessoas por ano. que incluíam sangrias. O princípe Albert I de Monaco foi um dos primeiros oceanógrafos de que se tem notícia.O ponto de vista bioquímico 4.satélites do ARGOS.. Durante seus estudos.

Conclusões . Estas idéias são a base da homeopatia moderna. os óxidos de enxofre SO2 e SO3 causam crises de tosse semelhante a crises de asmas. os remédios homeopáticos são "dinamizados". animal e mineral.Pesquisa científica 5.Os princípios da homeopatia 3. que são utilizados para associar os sintomas de um paciente com a droga adequada. Hahnemann justificou este procedimento com uma teoria de que não são os átomos das substâncias que curam. igual) e pathos (doença. olhos azuis. amiga. mas sim uma espécie de efeito indutivo causado pela presença destas moléculas durante a diluição.A aparente eficácia 6. teorizando que quanto maior a diluição maior o efeito. Hahnemann expôs sua teoria na frase em latim similia similibus curentur (semelhante cura semelhante) ou melhor ainda. seguindo esta linha de pesquisa.é uma mulher jovem com cabelo louro ou castanho claro. A aparente eficácia 1. Ele declarou ainda que as doenças eram perturbações na habilidade do corpo de se curar e que portanto eram necessárias apenas quantidades ínfimas para iniciar o processo de cura. isto é.pessoa agressiva.gosta de ser independente. que foram compilados em livros chamados materia medica.Introdução 2. uma doença artificial no doente. que fazia o corpo curar a doença verdadeira. quando ingeridas. Desta forma. Hahnemann eventualmente concluiu o seguinte princípio terapêutico: o caminho certo para tratar uma doença é dando ao paciente uma determinada droga. Estes remédios são prescritos de acordo com o tipo constitucional da pessoa.pessoa nervosa e muitas vezes chorona e que não gosta de fumaça de cigarro Pulstilla . Este princípio é conhecido como Lei dos Infinitesimais. Assim. que foi apresentada ao mundo em 1796. Sulfur . gentil. Nux Vomica . doenças semelhantes curam doenças semelhantes. porém tímida. diluídos até o ponto em que não mais exista mais uma única molécula do princípio ativo.O ponto de vista bioquímico 4. Muitos homeopatas afirmam também que algumas pessoas possuem uma afinidade especial com um remédio em particular (o chamado "remédio constitucional") e que serve para curar várias doenças.empregada no tratamento da malária) a um paciente saudável causava alguns dos sintomas associados à esta doença. a qual numa pessoa saudável causa os mesmos sintomas apresentados pela pessoa doente. emotiva. um tipo de miasma ou espírito maligno. Por exemplo. sofrimento). romântica. Este é o princípio da similitude ou a Lei da Similitude. ambiciosa e hiperativa. Ele também declarou que as doenças crônicas eram uma manifestação de uma coceira reprimida (psora). belicosa. Hahnemann posteriormente passou a empregar enormes diluições. temerosa. Alguns exemplos destes tipos são: Ignatia . pois ele achava que determinadas substâncias causavam. A palavra homeopatia vem do grego homoios (similar. então estas substâncias são prescritas para pacientes asmáticos. Utilizando inicialmente doses pequenas de medicamentos. Hahnemann e seus seguidores começaram a fazer experimentos com várias substâncias de origem vegetal.

Outros fatores podem influenciar a percepção da eficácia de um medicamento. Nesses testes se adota um procedimento conhecido como duplo cego. até o momento. cuja função é apenas fazer o paciente acreditar que está sendo tratado. Um placebo é definido como um tratamento que causa um efeito no paciente. O verdadeiro teste de uma nova teoria é a sua coerência com resultados experimentais observados e sua capacidade de prever novos resultados anteriormente inesperados. a oposição (de pelo menos parte) da comunidade homeopática a que isto seja feito. Em primeiro lugar. pelo contrário. eles estão em flagrante desacordo com o nosso conhecimento atual de física. imparcial. o método científico é. Este é um risco assumido conscientemente por pacientes que se oferecem voluntariamente para participar de pesquisas de novos medicamentos. É difícil acreditar que a comunidade médica em geral descartaria qualquer tipo de tratamento cujo efeito fosse realmente comprovado. foram posteriormente comprovadas. apesar de não ter nenhuma ação específica na doença. principalmente. Isto significa que parte dos pacientes recebe o medicamento real e o restante recebe um placebo. o fato de uma teoria ir de encontro ao conhecimento atual em qualquer área da ciência não significa necessariamente que esta teoria esteja errada. Entretanto. Conclusões 1. por .Introdução 2. várias condições médicas de menor gravidade (por exemplo. Isto é realmente válido para doenças auto-limitadas. a administração de um placebo para doenças graves pode levar a sérias conseqüências (inclusive. em sua concepção. é eliminada qualquer influência de fatores psicológicos na evolução da doença.Apesar da falta de comprovação científica. é um medicamento "falso". química e biologia. sabe-se então que isto é realmente conseqüência de sua ação química no organismo. O efeito placebo é bem documentado. Um excelente texto sobre este assunto pode ser encontrado aqui. a pessoa frequëntemente associará a cura ao medicamento. Placebo significa em latim "eu vou agradar". Desta forma. Em outras palavras. Um argumento clássico a favor das chamadas terapias alternativas. o verdadeiro teste é a obtenção de resultados experimentais confiáveis. ainda não foram obtidos resultados convincentes de que os remédios homeopáticos são realmente eficazes contra qualquer tipo de doença. que não apresentam consequências graves. onde a homeopatia se enquadra.Conclusões Os princípios que formam a base teórica da homeopatia não têm nenhuma comprovação científica. contribui para a descrença em sua eficácia. O termo foi introduzido no século XIX para denominar remédios que eram receitados somente para agradar o paciente. a morte). A princípio. Mais uma vez. agindo por algum outro mecanismo desconhecido. isto não constitui um problema. uma gripe) têm uma regressão natural. Dependendo da doença em questão a fração de pacientes que apresentam melhora após a administração do placebo pode ser superior a 30%. sendo empregado nos testes de avaliação de novos medicamentos. sendo que nem os pacientes nem os médicos que aplicam os medicamentos sabem quem está recebendo o quê. Outro efeito importante é conhecido como efeito placebo. é de que os resultados que comprovam sua eficácia são descartados pela comunidade científica em razão de preconceito ou da ausência de uma atitude "aberta" a conhecimentos originados fora das linhas tradicionais de pesquisa. Apesar de isto poder ser verdade para certos indivíduos. em alguns casos. Por quê? Dois efeitos contribuem para a aparente eficácia dos remédios homeopáticos.Pesquisa científica 5.O ponto de vista bioquímico 4. Infelizmente.Os princípios da homeopatia 3. Ao observar esta regressão após tomar um medicamento ineficaz. já que a pessoa irá se curar de sua doenças sem sofrer efeitos colaterais resultantes da administração de remédios tradicionais. é concebível que os remédios homeopáticos sejam eficazes. mesmo que nenhum medicamento seja empregado. apesar de serem empregados há mais de um século. inúmeras pessoas atestarão a eficácia dos remédios homeopáticos a partir de suas experiências pessoais. Se o medicamento em teste apresentar resultados significativamente melhores que o placebo. inicialmente descartadas. mesmo que este não tenha tido nenhuma participação no processo. Pode-se argumentar que se o efeito de um medicamento baseia-se unicamente no efeito placebo. as teorias da homeopatia não atingiram nenhum destes requisitos.A aparente eficácia 6. O fato de que os remédios homeopáticos não são submetidos a testes tão rigorosos como os medicamentos tradicionais e. Por outro lado. Mesmo que as teorias homeopáticas estejam erradas. Existem inúmeros casos na história da ciência onde novas teorias.

. Isto é especialmente válido para o caso dos remédios homeopáticos.simples preconceito. em virtude de seu baixíssimo custo de preparação.

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