A HIPÓTESE E A EXPERIÊNCIA CIENTÍFICA EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIA: CONTRIBUTOS PARA UMA REORIENTAÇÃO EPISTEMOLÓGICA

João Praia
1

António Cachapuz
2

Daniel Gil-Pérez
3

Resumo: O presente artigo desenvolve-se em torno do estatuto epistemológico da hipótese e da experimentação, numa perspectiva de transposição para o campo da Educação em Ciência. Não se trata de olhar aquela vertente pela estrita óptica dos epistemólogos, mas centrar a nossa atenção na busca e apropriação crítica de elementos fundamentadores de uma teorização para a Educação em Ciência, por sua vez também necessária para orientar práticas educacionais. Unitermos: epistemologia, hipótese, experiência científica, educação em ciência. Abstract: In this paper we study the epistemological status of hypotheses and experimentation, not for the sake of epistemology but in order to better orient science teachers education and theirs teaching. Keywords: epistemology, hypothesis, experimentation, science education.

Introdução
Este trabalho situa-se no quadro de um conjunto de três artigos articulados entre si, a serem publicados na revista Educação & Ciência, e têm em vista discutir problemáticas ligadas à epistemologia do trabalho científico. O primeiro "Por uma imagem não deformada do trabalho científico", foi já editado e desenvolveu-se em torno de uma crítica fundamentada às concepções, mais habituais, dos professores sobre tal trabalho, apresentando uma extensa bibliografia capaz de ajudar a melhorar e organizar a sua formação. O segundo encontra-se no prelo e refere-se à observação e à teoria científicas, bem como à sua complexa relação, sendo aí focadas incidências para uma adequada atuação do professor em nível das estratégias de ensino. O presente artigo, o terceiro, é uma tentativa de resposta às questões e às dificuldades encontradas nas práticas letivas, devido a posições epistemológica marcadamente positivistas, no que diz respeito ao estatuto da hipótese e da experimentação. Na unidade enunciada nos três artigos, o que se procura é contribuir para uma viragem na Educação em Ciência mais congruente com posições epistemológicas contemporâneas.

A hipótese em ciência
Numa perspectiva de pendor empirista a hipótese tem um papel apagado e inserese num processo de verificação em que o exame exaustivo dos fatos é determinante para a sua elaboração. No entanto, na perspectiva racionalista contemporânea, que aqui interessa salientar, a hipótese intervem ativamente, desempenhando um importante papel na construção do conhecimento científico. 253
Ciência & Educação, v. 8, n. 2, p. 253-262, 2002
1

Professor Associado, Faculdade de Ciências, Universidade do Porto, Portugal (e-mail: jfpraia@fc.up.pt)
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Professor Catedrático, Departamento de Didáctica e Tecnologia Educativa, Universidade de Aveiro, Portugal (e-mail: cachapuz@dte.ua.pt)
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Professor Catedrático, Departamento de Didáctica de lãs Ciências Experimenales, Universidade de Valencia, Espanha. (e-mail: Daniel.gil@uv.es)

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Ainda que nos interesse aqui discutir mais o contexto da prova e menos o da descoberta, ou o modo como são geradas, o que se pode aventar é que se trata de um processo complexo que pode ter origem na imaginação fértil, inspiradora, porventura em idéias especulativas, às qual subjaz um fundo reflexivo. A Enciclopédia Einaudi (1992) diz-nos que "aquilo que hoje em dia, no discurso científico classificamos de hipótese, apenas pode ser considerado como uma paragem provisória do pensamento, seja por conjecturar um facto descrito de modo a ser susceptível de ser estabelecido ou refutado no quadro dos termos que o definem, seja por propor um conceito que justifique provisoriamente a sua coerência e eficácia no raciocínio explicativo dos fenômenos observados ou provocados". Entretanto, para nós, o que está em causa é, neste momento, a questão da prática científica e de que forma é que ela nos ajuda e dá ensinamentos para o ensino das ciências. Assim, a prática científica pode ser vista como um processo composto de três fases: a criação, validação e incorporação de conhecimentos, que correspondem à geração de hipóteses, aos tes-

tes a que a hipótese(s) é sujeita e ao processo social de aceitação e registro do conhecimento científico (Hodson 1988). Contudo, parece importante fazer a distinção clara entre estas fases no trabalho científico em educação em ciência, pois pode ajudar os alunos a clarificar o propósito e o sentido da própria atividade reflexiva que estão a levar a cabo. Torna-se desejável que haja clarificação entre as duas situações – a criação da hipótese científica e a sua validação – para que possam compreender a complexidade daquela atividade, saber os caminhos que ela envolve e, neste caso, compreender a questão da validade dos testes de confirmação negativa ou de confirmação positiva a que a(s) hipótese(s) está (estão) sujeita(s). A hipótese tem um papel de articulação e de diálogo entre as teorias, as observações e as experimentações, servindo de guia à própria investigação. Condiciona fortemente os dados a obter num percurso descontínuo, ainda que balizado por um fundo teórico que lhe dá plausibilidade, intervindo ativamente nas explicações posteriores dos resultados. Uma vez formulada a hipótese torna-se necessário, em seguida, a sua confirmação. Duas vias são possíveis. A confirmação positiva e a negativa. No entanto, há que ter presente que o processo de confirmação positiva nada nos diz sobre a verdade da hipótese, já que esta pode ser falsa mas confirmada. Porém, uma sistemática e persistente confirmação positiva pode ajudar a tornar o trabalho científico mais apoiado e fazer progredir o programa de investigação a ele associado. Numa perspectiva do tipo popperiana, como nos refere Maskill & Wallis (1982) tenta-se, através do método hipotético-dedutivo, "aproximar" a ciência dos cientistas da ciência praticada na sala de aula. Assim: a) o problema é percebido e compreendido como uma descontinuidade em relação a uma teoria explicativa; b) propõe-se, então, uma outra possível solução que é uma hipótese; c) e deduzem-se proposições testáveis a partir da hipótese enunciada; d) que, através de experiências e observações, cuidadosamente seguidas, conduzem a tentativas de falsificação; e) cuja escolha criteriosa se faz a partir da sua relação, em diálogo, com as teorias. CIÊNCIA & EDUCAÇÃO 254

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Trata-se de uma perspectiva que exige dos alunos grande capacidade criativa, assim como um bom fundo teórico e espírito crítico. Se é certo que o professor tem que providenciar essa excelente formação teórica, incitar a diferença e o pensamento divergente, para levar a descobrir o que não é esperado, não é menos certo que a exigência conceptual a par de processos científicos de elevada complexidade tornam as situações de aula algo difícil. Para se mobilizar tais competências, capacidades e atitudes com eficiência, torna-se necessário conhecer bem o contexto em que se opera e, neste sentido, o domínio dos conteúdos científicos é um requisito fulcral para que tal possa acontecer. As pessoas pensam e lidam de forma mais eficiente nos e com os problemas cujo contexto e conteúdo conhecem melhor, lhes são particularmente familiares. O conhecimento científico é um constante jogo de hipóteses e expectativas lógicas, um constante vaivém entre o que pode ser e o que "é", uma permanente discussão e argumentação/contrargumentação entre a teoria e as observações e as experimentações realizadas. No âmbito desta perspectiva Bady (1979) realizou um estudo sobre a compreensão dos alunos acerca da "lógica da testagem de hipóteses", em diversas escolas com alunos de diferentes anos de escolaridade. O autor verificou que poucos alunos pareceram entender a lógica dos testes da hipótese e que menos da metade dos alunos de escolas superiores conseguiram entender que as hipóteses podem ser testadas por tentativas de falsificação. Uma conclusão do estudo, talvez a mais importante, aponta para que "os alunos que acreditam que as hipóteses podem ser testadas e provadas por verificação, parecem ter uma visão simplista e ingenuamente absoluta da natureza das hipóteses científicas e da teoria. De fato, uma pessoa que não perceba que as hipóteses científicas não podem ser logicamente provadas, mas apenas desaprovadas, não percebe verdadeiramente a natureza da ciência". A irrefutabilidade deixa de ser um sinal, como tantas vezes é percebido pelos professores, de superioridade e, segundo esta perspectiva, reside aqui o carácter dinâmico, a possibilidade do conhecimento científico se desenvolver. Um outro elemento que será necessário introduzir na discussão será o da luta "con-

também a evidência factual. bastante inapropriadas para construir conhecimentos básicos. a informação epistemológica relevante e necessária ( Chalmers 1989). 2002 Page 4 A experiência científica Na prática científica moderna.. A experiência não é uma atividade monolítica. a ciência requer a obtenção de dados com significado. uma importância particular. O investigador nunca experimenta ao acaso. consoante a perspectiva é empirista ou racionalista . como prova física. deve ajudá-los e darlhes confiança para que se possam exprimir num clima de liberdade. sem perda do rigor intelectual. produzida pela experiência. intencionalmente. sendo o seu propósito testar hipóteses. a pensar sobre o porquê delas. os fazer variar e. Bachelard acentua. é porque possui uma hipótese articulada com o fenômeno em estudo. Da reflexão dos resultados a que ela conduz pode.. é freqüentemente suposto que os fenômenos naturais são regidos por leis universais. a experimentação científica não deve funcionar no sentido da confirmação positiva das hipóteses. pois. é o primeiro meio de estabelecer a credibilidade de uma teoria. um inventário empírico de parâmetros susceptíveis de ter influência no fenômeno estudado para. estando atento aos obstáculos que se colocam à aprendizagem. Isto exige-lhe um esforço do ponto de vista conceptual. neste contexto. de estratégias metodológicas dirigidas ao desenvolvimento de competências do pensar" (Santos & Praia 1992). de momento. por eles equacionados. Outra idéia que importa refere-se à necessidade de reagir contra a tendência para considerar o erro como evidente. tem vida própria" (Haching 1992). metodológico e atitudinal (Gil Perez 1993) mais consentâneo com a preconizada metodologia científica atual. procuram soluções para os problemas colocados e. eventualmente. a par das dificuldades do aluno. a partir dos quais se elabora o conhecimento científico. se o investigador supõe. 253-262. os empiristas e os indutivistas. estabelecer uma lei que lhes dê sentido e coerência.. mas no sentido da retificação dos erros contidos nessas hipóteses. depois dos resultados obtidos.. quer conteudal quer processual. Está em causa.. isto é incompatível com a elucidação das leis como regularidades empíricas e. ironicamente. nesta perspectiva. por sua vez. o racionalismo deduz experiências de leis" (Santos & Praia 1992). para quem todo o conhecimento vem da experiência. com algum pormenor. bem como muitas capacidades. a experimentação exige uma grande e cuidada preparação teórica e técnica. como simples manipulação de variáveis. p. A experiência . não ignorando o papel do trabalho cooperativo e da "comunidade científica de alunos" que. O investigador faz. Porém. ou seja. tentam reduzir a experimentação a uma manipulação de variáveis. mesmo. Para Popper. v. Assim. para alguns parâmetros. n. questionar as suas razões para que nós possamos aproximar da verdade possível.tra a desconfiança progressiva na capacidade intelectual do aluno. este passa de receptor sobretudo de conteúdos científicos. que só é superável num ambiente escolar em que o professor caminha. Numa perspectiva empirista. que enquanto o empirismo deduz leis de experiências. discuti-lo. para em seguida olhar melhor as suas implicações no trabalho escolar. a experiência científica surge-nos. em seguida. é necessário. muitos tipos de compreensão. Em todo o caso. no mundo natural esses fenômenos justapõem-se de maneira complexa. "A experimentação. precedida e integrada num projeto que a orienta. antes de tudo. mas sempre guiado por uma hipótese "lógica" que submete à experimentação. em conjunto. em geral. a sujeito ativo na construção do seu próprio saber – de conhecimento. De uma forma geral. mas uma atividade que envolve muitas idéias. Porém. considerá-lo como inevitável. indica porque é que as descrições dos dados observáveis são. deduzindo leis (teorias) a partir dela própria ou da sua sistemática reprodução. Contudo. Passamos a rever. também. sendo a intervenção experimental necessária como meio capaz de fazer ressaltar e trazer ao de cima. 8. Ela é determinante na obtenção de um conjunto de dados. sim. Ora. 2. "Já está ultrapassada a idéia da experiência como serva da teoria. Este processo tem de ser partilhado pelos pares. Porém. intencional e sistemática. as posições epistemológicas empirista e racionalista. uma mudança no papel do aluno. não tem de seguir uma estratégia idêntica relativa ao pensar sobre as respostas a dar aos problemas. tende a ser conduzida para o mundo real ou para "mundos possíveis". incentivar os alunos a consciencializarem as suas dificuldades. Ele deve procurar. quase sempre. advir um outro saber a problematizar. que depois de interpretados levam a generalização (indução). A assumção de que a educabilidade da inteligência é possível abre amplas perspectivas à elaboração. A HIPÓTESE E A EXPERIÊNCIA CIENTÍFICA 255 Ciência & Educação.

pelo que as estratégias a adotar têm que ter legitimidade quer filosófica quer pedagógica. A experiência enquadra-se num processo não de saber-fazer. que valorizem o papel do aluno no sentido primeiro de o confrontar com as suas situações de erro para posteriormente as vir a retificar.. que comporta uma diversidade de caminhos. um papel primordial que importa não esquecer. 8. ou seja. dados estes dotados de exterioridade. 2. ou seja. como tentativa da sua retificação e questionamento – ela interroga. realizada com cautela para não cairmos em simplismos fáceis. como empreendimento humano que toma opções e tomadas de posição não neutrais. não relevando os aspectos mais complexos e difíceis da pesquisa. Cachapuz (1992) diz-nos que "uma sala de aula não é um laboratório de investigação. políticos. num confronto de idéias com os seus pares. CIÊNCIA & EDUCAÇÃO 256 Page 5 O que mais importa numa perspectiva empirista.. Por outro lado. confuso e não produtivo. A experiência enquadra-se num método pouco estruturado. enquanto programa de investigação progressivo. v. muitas vezes. (re)orientam e (re)centram a atividade de pesquisa. também aqui. diálogo nem sempre simples. já que. mas de reflexão sistemático. pensamos. a submete a um interrogatório. como tem que ser sempre olhado à luz dos seus quadros interpretativos 4 . o confronto entre o teórico (o idealizado) e a prática (o realizado) se interligam.científica fundamenta. em ambiente escolar. a questiona. olhada pelo lado didático. muitas vezes. Hodson (1990) considera que o trabalho experimental tal como é conduzido em muitas escolas é de concepção pobre. todo o conhecimento e só no final da(s) experiência(s) se faz questão. problematiza – . como construção e produção social do conhecimento científico. pois. Também. que procura funcionar.. religiosos . ético-morais. Os resultados da experiência surgem como esperados e mesmo óbvios. ajustando-se ao contexto e à própria situação investigativa. em muitos casos na atualidade. p. a experiência surge-nos não problemática. também. muitos professores acreditam que o trabalho experimental ensina os estudantes sobre o que é a A HIPÓTESE E A EXPERIÊNCIA CIENTÍFICA 257 Ciência & Educação. Os seus resultados são lidos como elementos (possíveis) de construção de modelos interpretativos do mundo e não cópias (e muito menos fiéis) do real. Se a hipótese intervém ativamente nas explicações que os resultados da experiência sugerem. 253-262. n. Para ele. se toma em conta a(s) teoria(s). em que o resultado não só não está de antemão conseguido. ao sujeitarmos a experiência científica a uma tentativa de questionamento estamos convidando os alunos a desenvolveremse cognitivamente. sobretudo. são os resultados finais independentemente dos processos da sua obtenção. Como poderíamos afirmar que a experimentação científica encerra múltiplos fatores não apenas tecnológicos. Ela como que está separada da própria teoria. Muitas vezes a constatação dos resultados experimentais levam a ignorar-se a hipótese que funciona como suposição transitória de valor epistemológico duvidoso. Numa perspectiva racionalista. Do ponto de vista didático. de respostas não definitivas. para paradoxalmente a confirmar. quase só a confirmação positiva do já previsto e obtido a partir dos dados observacionais. mas histórico-culturais. A experiência científica valoriza. 2002 4 Apesar da perspectiva epistemológica subjacente à questão da experimentação ser algo marcado por uma visão popperiana. A comunidade científica tem. A transposição didática. de criatividade e mesmo de invenção. Reside aqui. mas carregadas de valores. Há pois que harmonizar estas duas dimensões". conduzindo. a experiência é tida como algo separado da hipótese e não influencia os resultados daquela. entendemos que numa situação de testagem. a teoria tem um papel primordial na avaliação dos resultados obtidos. a experiência científica deve ser guiada por uma hipótese. Trata-se de um diálogo entre hipóteses/teorias e a própria experimentação. No sentido de assinalarmos incidências da reflexão epistemológica da ciência no trabalho experimental escolar. deve traduzir-se em sugestões de propostas de atividades de ensino-aprendizagem. a outras hipóteses. ela afigura-se-nos como uma alternativa útil aos . que condicionam e. nem as condições teóricas e técnicas da sua produção. É a experiência que põe à prova a teoria e não o inverso. A experiência científica é orientada e mesmo valorizada pelo enquadramento teórico do sujeito. não se analisa e reflete no significado da experiência e tão só no que é previsível que aconteça. que em diálogo com ela. uma das riquezas heurísticas da experimentação.

tomando consciência das interações complexas entre ciência e sociedade. Estamos. não se analisa e reflete nos resultados. mas apenas se constata o que era mais do que previsível que acontecesse – a experiência realizou-se para dar determinado resultado já esperado e conhecido de antemão. Muitos dos objetivos que se estabelecem para o trabalho experimental escolar e que os professores quase sempre enunciam referem-se. quase sempre. 3. é uma visão que corresponde a um programa em regressão epistemológica. nomeadamente. Aprendizagem das ciências: como a aquisição e o desenvolvimento de conhecimentos teóricos (conteúdos das ciências). éticos. deixam-se algumas notas sobre o sentido com que a experimentação deve ser encarada na sala de aula: i) deve ser um meio para explorar as idéias dos alunos e desenvolver a sua compreensão conceptual. Caso contrário. mantêm o mito de que ele é a solução para os problemas de aprendizagem em ambiente laboratorial. Gil Pérez et al. Têm sido uns entusiastas ao acreditar que o caminho para aprender ciência. 1993. Numa perspectiva inadequada da experiência científica realizada na sala de aula. para as ultrapassar. ao seu forte sentido motivador. Hodson (1992. os seus métodos e processos é "descobrir aprendendo" ou "aprender fazendo". entre outros. deixando à margem das suas aulas. No primeiro caso é o professor que identifica o problema. Tal não significa que os autores do artigo partilhem. que conduz as demonstrações (fora de um contexto de problematização) e dá instruções diretas – tipo receita. Esta visão distorcida baseia-se em pressupostos epistemológicos. iii) deve ser delineada pelos alunos para possibilitar um maior controle sobre a sua própria aprendizagem. Entretanto. progressivamente. tecnológicos e culturais da construção e produção científica. tendo em atenção novos objetivos do ensino das ciências. interessa sublinhar que em muitas situações de ensino o estudo de casos históricos. postos em causa. 2. ligada a uma visão heróica do cientista. a ausência de juízos de valor.1994) descreveu como objetivos centrais: CIÊNCIA & EDUCAÇÃO 258 Page 7 1. à luz do quadro teórico e das hipóteses enunciadas. a experiência científica escolar toma o sentido do fazer. ou seja. a perspectiva popperiana – ver. pois. ii) deve ser sustentado por uma base teórica prévia informadora e orientadora da análise dos resultados. ou seja. O trabalho experimental é. 2001. mais explicativas para os fenômenos naturais. Para aquele investigador em Educação em Ciência os professores usam o trabalho experimental sem uma adequada reflexão. desvalorizando o sentido da própria luta por idéias mais verdadeiras. A prática da ciência: desenvolvimento dos conhecimentos técnicos. sobre as suas dificuldades e de refletir sobre o porquê delas. que o professor tem de conhecer e não se pode alhear. sem saber por que e para quê. Tamir (1977) distingue dois tipos de trabalho experimental: os de verificação e os de investigação. psicológicos e didácticos que têm vindo a ser. a considerar a ciência numa lógica que está fora da própria história do pensamento as idéias. . Aprendizagem sobre a natureza das ciências: o desenvolvimento da natureza e dos métodos da ciência. como volta a perguntar qual o significado do trabalho experimental.. Page 6 ciência e a sua metodologia. que Hodson (1990) não só questiona. neste caso. de todo. sobretudo no que diz respeito ao aprender ciências na sala de aula de acordo com as perspectivas epistemológicas atuais. Quanto ao segundo tipo de trabalho experimental. de forte pendor empirista. sobre a investigação científica e a resolução de problemas. Na perspectiva que vimos falando. tipo investigativo. Neste sentido. orientado para fomentar a aprendizagem de conceitos e métodos da ciência. Numa outra linha de pensamento. urge redefinir e reorientar a noção que os professores têm sobre o trabalho prático. pois. que relaciona o trabalho com outros anteriores. os contextos sociais.professores. a experiência surge. incluindo a eventual exploração de "experiências cruciais". a abertura de espírito. entre outros. como algo episódico. ignora. O autor vai ao ponto de referir que "muito do que se faz está mal concebido e não apresenta qualquer valor educacional. bem como ao desenvolvimento de atitudes científicas tais como a objetividade. isto é. No seguimento desta orientação o trabalho experimental deve ser redefinido.

exigindo-lhe uma aprofundada formação . uma propriedade do conhecimento científico. O desenvolvimento intergrupal e intragrupal.quando está em jogo o conceito de testagem. Trata-se. Deste modo estará criado nos grupos de trabalho um clima propício para fazer emergir. instrumento didático de grande utilidade. distingue três elementos principais: o consenso dos pares. neste sentido. tal exercício escolar permite uma aprendizagem efetiva. No seu artigo intitulado Procedimentos experimentais: sobre cozinheiroschefes e cientistas. possibilitando aos alunos a percepção da variedade de processos implicados na atividade científica. no sentido de ultrapassarem a aceitação fácil de um empirismo clássico e ingênuo... nomeadamente através do confronto com os conceitos e teorias aceitas em ciência. 253-262. particularmente interessantes. concebendo a ciência como uma simples descoberta. o problema da indução está presente em muitas das abordagens que os professores fazem. entretanto. torna-se necessário planificar a aprendizagem a partir do tratamento de situações problemáticas abertas. O que nos parece de sublinhar é. Esta abordagem já não é hoje aceita. v. significativa e com sentido de cidadania. não estando presentes as suas relações com o lado direito (metodológico). 2. a questão da hipótese que a experiência põe à prova: a confirmação positiva ou negativa. Importa sublinhar que uma ou duas experiências não dão resposta definitiva ao problema. Em síntese: a relação entre a experimentação e a teoria é bem mais complexa do que muitos professores pensam e é. Por outro lado. Importa que os professores compreendam e se consciencializem da importância do elemento cognitivo. as interrogações. de forte pendor racionalista crítico de raiz popperiana.. nem abalam uma teoria que está a ser discutida. quer pela confirmação experimental escolar positiva. a repetibilidade não é. as dúvidas. gerando as vivências que permitem aos alunos refletir. que atribuam ao estudo e à reflexão um espaço indispensável para compreender as dificuldades e a complexidade que se reveste um tal processo de construção da ciência. também de valores e atitudes inerentes ao processo científico escolar. a uma aprendizagem capaz de mudar as próprias representações de ciência. tem incidências não só em nível lógico como também em nível sociológico. assim. A experimentação. a necessária mudança de atitude dos professores. como refere Beviá (1994). No V epistemológico de Gowin. A crítica. como muitos professores pensam. as incoerências. na sala de aula. conjuntamente. O que pode estar em causa é. O confronto é mais vasto. ignorar o papel do sujeito na construção do conhecimento. pode ser útil didaticamente. fazem-se apressadas generalizações a partir de uma ou duas experiências. da discussão argumentativa. a argumentação e o consenso dos pares constituem elementos de racionalidade científica que importa desenvolver conjuntamente – alunos e professores – partilhando e vivendo dificuldades inerentes à própria prática científica. A concluir Muito do que acabamos de referir traduz-se em dificuldades e fatores. de certo. quer pela observação neutral. ajudar a simular aspectos sociológicos. no quadro de uma sempre prudente analogia com a comunidade científica. o desafio dos dogmas e a combinação única entre a arrogância e a humildade. Desta maneira. das comumente chamadas "experiências para ver". 8. pode ser usada para uma possível escolha de teorias em competição. em particular da experiência científica refere que ele se situa em "uma esfera muito alargada e dinâmica. A HIPÓTESE E A EXPERIÊNCIA CIENTÍFICA 259 Ciência & Educação. entre outras. mantida em movimento pela interação contínua entre conjectura e refutação". é quase sempre considerado apenas o lado esquerdo (conceptual). sobretudo. desta forma. Há que considerar outras possíveis alternativas mais enriquecedoras como sejam contra-exemplos. também por isso. investigadora em ciência. mesmo à luz de pressupostos epistemológicos de natureza e de sentido inequivocamente positivista. susceptíveis de determinar uma atuação cuidadosa do professor. que não seja indicado pelo professor. levando a generalizações fáceis e demasiado simplistas. Essas atividades. ao falar-nos das características do trabalho científico. n. mas proposto por um grupo de alunos. susceptíveis de interessar os alunos a desenvolver um plano experimental coerente. podem ser guiadas pelo docente. p. Não se pode. sobre as características do trabalho científico. experiências intencionalmente orientadas para levar a resultados não esperados e referência a resultados que vêm da literatura. que raramente ela é equacionada e pensada. pode. Maria de Sousa (1992). Por outro lado. a consciência das limitações teóricas. Entretanto. 2002 Page 8 Conforme referem Gil Pérez (1993) e Beviá (1994). as deficiências. pois..

Está. Actas. Estas devem desenvolver-se na "zona de desenvolvimento próximo". Sedeño y P. p. A. enquanto recursos fundamentais para o exercício de práticas de sala de aula mais consentâneas com o que se preconiza numa perspectiva de ensino por pesquisa (Cachapuz. Perspectivas de Ensino. Montero Mesa e Vaz Jeremias. A espectacularidade dos fenômenos. A. F. trads. Lisboa: Imprensa Nacional. 349-385. Enseñanza de las Ciencias. ainda que sejam fatores positivos. In: Alambique. como uma unidade intrínseca. Los trabalos prácticos de Ciencias Naturales como actividad reflexiva.científica que não passa unicamente. n. A transposição didática. J. Congresso Las Didácticas Específicas en la Formación del Profesorado. 357-363. Filosofia da Ciência e Ensino da Química: repensar o papel do trabalho experimental. com um grau de dificuldade susceptível de se constituirem em incentivo e não de fonte de desânimo. Trata-se. Contribución de la historia y de la filosofía de las ciencias al desarrollo de un modelo de enseñanza/aprendizaje como investigación. A. quer outros. Ed. Método-Teoria.. A. D. bem intencionadamente. por possuir uns tantos conhecimentos adquiridos na formação inicial. 2. O Ensino das Ciências para a excelência da aprendizagem.). . porque argumentativamente mais apoiadas. aliada à sua apresentação. A. se venha a transformar em mudança. Praia & Jorge. Qué es esa cosa llamada ciencia? (E. Santiago de Compostela. persistentemente. 47-56. Casa da Moeda. F. GIL PÉREZ. a que não é alheio o ritmo e o tempo de aprendizagem. vídeo. Referências bibliográficas BEVIÁ. chama-se a atenção para a tentação de uma excessiva motivação para experimentar e que o professor. 2. CIÊNCIA & EDUCAÇÃO 260 Page 9 em favor de razões de pedagogia geral.. 2001). CACHAPUZ. 21. 1992. L. nº1. v. pode desvalorizar razões epistemológicas e didáticas que deviam ser orientadoras e determinantes da ação. com vista a que tal produção de saberes seja reinvestida na inovação para que esta. Tomo II. 2001.. com as atividades que promove. 1992. introduz na aula de laboratório. p. F. Cachapuz (Org. Madrid: Siglo Veintiuno de España. Porto: Porto Editora. 1.. longe disso.. em causa. em particular motivacionais que fazem perder o sentido das primeiras. 1995. Porto. uma formação de professores que se quer "completa". Por fim. v. M. In: Novas Metodologias em Educação. a ligá-los a outros para os articular de forma a que o currículo em espiral seja possível. coerentemente. nomeadamente. exige uma formação contínua que segue um percurso de desenvolvimento pessoal e profissional exigentes. 1993. Servem pelas interrogações que suscitam e pela busca de explicações mais verdadeiras. feita de reflexão e consubstanciada na própia ação didática. CHALMERS. de usar a formação como um processo de pesquisa efetuando investigação com os professores. A conceptualização.). Só assim seremos capazes de gerar. & JORGE. v. Pode mesmo invertê-la e torná-la sociologicamente perversa. Eds. CACHAPUZ. é mais bem conseguida e a compreensão das idéias estruturantes torna-se o fio condutor das propostas de ação didática do professor. desmotivação e de impossibilidade de resolução. PRAIA. quer através de registros. porém. crítica y creativa. A. Mañez.). podem não ajudar a potenciar a aprendizagem desejada. 1994. 1989. In: Formação de Professores de Ciências. tentativamente. materiais didáticos. CACHAPUZ.. Referir ainda que a simplicidade com que os problemas e os fenômenos são apresentados (atente-se ao nível etário) obrigam o professor a retomá-los mais adiante e. ou seja. J. Centro de Estudos de Educação em Ciência. Didáctica de las Ciencias Experimentales. P. isto é. ENCICLOPÉDIA EINAUDI. As experiências de aprendizagem que o professor promove são meios que devem ser considerados como instrumentos para melhorar a explicação que se dá para os fenômenos e não podem ser consideradas como fins em si mesmas. 197-212. o mesmo é dizer que tais tarefas devem ser um desafio. Uma chamada de atenção para tornar claro que o professor tem de ter cuidados muito particulares com o processo de aprendizagem e. 11. que articule epistemologia e didática e que releve conjuntamente teoria e prática. L. em particular. sempre que possível. Dias de Carvalho (Org.

HACKING. p. Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda.. Por uma imagem não deformada do trabalho científico. v. 1982. Projecto MUTARE / Universidade de Aveiro. Re-thinking old ways: towards a more critical approach to pratical work in School Science.Casa da Moeda. n. Percurso de mudança na Didáctica das Ciências. 1992. How are the laboratories used ? Journal of Research in Science Teaching. Filosofia de da Ciência y Educación Científica. 1992. Sua fundamentação epistemológica.Introdução 2. 125-153. p. Refazer o mundo. J. MONTORO. J.Entendendo o mundo como uma partida de futebol 3.). 12. 299-313. 1988. 85. 1. J. Cañal (Compil. Lisboa: Imprensa Nacional . & WALLIS. p. um amigo seu já teve essa sensação antes.. 2. 264: 65-78. 1992. Porlán. SOUSA. 2.. 73. 103-118. 551-554. 1977.. 14. d) não acreditaria. n. D. MASKILL. 253-262. teorias e leis 5. 256. não há nada na Bíblia sobre isso.Hipóteses. Enseñanza de las Ciencias. HODSON. 311-316. 224. School Science Review. F. CACHAPUZ.GIL PÉREZ. A. E. P. n. 5-21. Garcia & P. 8. é muito absurdo pra ser verdade. 1992. v. TAMIR. D. School Science Review. R. 1994.O peru indutivista 4.O método científico e as pseudociências ou "O dragão na minha garagem" 7. p. K.. In: Ensino das Ciências e Formação de Professores. E. C. 63. p. Procedimentos experimentais: sobre cozinheiros-chefes e cientistas. 22. G.Falhas no método científico? 8.Conclusão Introdução Se eu lhe dissesse que o tempo passa mais devagar no primeiro andar de um prédio do que no último. HODSON. v. M. p. 1990. 91-102. D. p. n. Scientific thinking in the classroom. Studies in Science Education. 4.. D. (Estudos Gerais. In: A Ciência como Cultura. In: Constructivismo y Enseñanza de las Ciencias. M. . n. n. 1993. Hacia un enfoque más crítico del trabajo de laboratorio. 2001. você: a) acreditaria na minha palavra. 142. Sevilha: Diada Editoras. A.). HODSON. Artigo recebido em março de 2002 e selecionado para publicação em novembro de 2002. HODSON. 2002 Page 10 HODSON. 33-40. D. v. D. & PRAIA. I. Gil (Org. SANTOS. v. 7. v. A critical look at pratical work in school Science.Redefining and reorienting pratical work in school science. 3. J. b) não acreditaria. afinal eu devo saber o que digo para estar escrevendo um artigo. & PRAIA. School Science Review. n. A HIPÓTESE E A EXPERIÊNCIA CIENTÍFICA 261 Ciência & Educação. ALÍS.O método científico e a Ladeira do Amendoim 6. F. I. Ciência & Educação. 70. v. 7-34. F. v. In: Ciência como Cultura. n. R. Série Universitária). c) acreditaria.

Pois nela o ET assiste passivamente ao desenrolar dos lances na partida e propõe hipóteses que somente tem como verificar esperando que se repitam.Introdução 2.C. a idéia de realizar um experimento para testar uma hipótese é bastante nova. Afinal quando seu carro não pega pela manhã e você desconfia que a bateria está descarregada. permanece num estado de stand by crédulo?). Entendendo o mundo como uma partida de futebol Vamos nos permitir alguma liberdade criativa e imaginar que um alienígena recém chegado à Terra. Mas ao longo da partida.) é um exemplo de como os gregos estavam dispostos a levar a lógica e a razão até as últimas consequências: ao negar a existência do tempo e do vazio e portanto do movimento. A ciência precisa de um método científico. Claro que isto pode parecer um tanto óbvio. que há mais de 2500 anos foram os primeiros a investigar o mundo de maneira racional e sistemática. Pois nós somos como este alienígena. ou melhor. Estamos imersos no grande "jogo" da natureza tentando entender suas "regras": será que tudo o que sobe desce? Porque as coisas têm cor? Será que a posição que os corpos celestes ocupavam no instante de nosso nascimento podem afetar nossa personalidade? Em outras palavras. ela não é completa. ele talvez pensasse após assistir um infeliz chute de fora da área. "ou talvez o objetivo seja matar o humanóide que carrega a bola". não somos meros expectadores da natureza mas participamos dela.O peru indutivista 4. Neste papel.O método científico e a Ladeira do Amendoim 6. nas palavras do físico Richard Feynmann. a ciência precisa de critérios claros. tentar contactar vida extraterrestre e muitas outras atividades que têm profundo impacto na raça humana. Parmênides concluiu que se tinhamos a impressão de que as coisas se moviam e o tempo passava era somente porque vivíamos num mundo ilusório (uma versão antediluviana do filme Matrix). Na tarefa de descobrir a verdade. pois o conhecimento obtido por ela será usado para medicar pessoas. decide ir ao Maracanã assistir a uma partida de futebol. não tem mais do que 500 anos. interessado em conhecer nossos costumes. Certamente no início da partida o ET ficaria bastante confuso. Mais importante do que a sua resposta à pergunta é a questão que se origina dela: quais os critérios que você usa para decidir no que acredita ou não? Você sempre aceita a palavra das autoridades no assunto? (mesmo daqueles que se auto-intitularam autoridades?) Baseia suas crenças no "bom senso comum"? (e acredita que o seu senso é bom e comum?) Acredita no que a maioria das pessoas acredita (afinal alguns milhões de pessoas não podem estar erradas)? Confia suas crenças a respeito da natureza a livros sagrados de alguma religião? Não acredita em nada mas também não é muito rápido em duvidar. assim como você. É quase certo que após algum tempo observando a partida e depois de vários palpites errados. provavelmente testa sua hipótese tentando acender os faróis ou medindo o potencial da bateria com um multímetro. ele provavelmente formularia algumas hipóteses sobre o jogo: "será que o objetivo é enviar a bola o mais distante possível?". as superstições de todo o tipo.Entendendo o mundo como uma partida de futebol 3. O filósofo Parmênides (510 a. A Ciência é a esfera da atividade humana responsável por investigar o mundo ao nosso redor. mas sabe que a diferença em questão é tão pequena que só pode ser sentida por relógios de altíssima precisão. construir reatores nucleares. achavam que a natureza só poderia ser compreendida pelo uso da razão e do intelecto e por isso desdenhavam a experiência. Porque seria diferente com a ciência? Pois por incrível que pareça. vendo todas aquelas pessoas correndo atrás de uma bola. as crenças pessoais (religiosas ou não).O método científico e as pseudociências ou "O dragão . Nós. pensaria ao ver um zagueiro aplicando uma tesoura na altura do pescoço de um outro jogador. ela se depara o tempo todo com alegações sobre as quais deve decidir se "acredita" ou não. O peru indutivista 1. métodos de investigação precisos que descartem as ilusões dos sentidos. manipular geneticamente alimentos e seres humanos. a partida é sempre interrompida quando a bola sai dos limites traçados no campo). percebendo que alguns lances se repetem e têm sempre o mesmo desfecho (por exemplo. teorias e leis 5. o visitante extraterrestre fosse capaz de compreender a maior parte das regras do nosso futebol. pois você conhece a Teoria da Relatividade de Einstein que diz que o tempo passa mais devagar próximo a campos gravitacionais. Porém ainda que nossa metáfora seja didática. pois segundo Shakeaspeare "há mais no céu e na Terra do que sonha nossa vã filosofia"? (ou seja. dentro de sua esfera de atuação. podemos interagir com ela realizando experimentos. por outro lado. os preconceitos.e) acreditaria.Hipóteses. "Entender a natureza é como aprender a jogar xadrez somente assistindo a partida". Os filósofos gregos. e muito intrigado ao ver como alguns jogadores ficam tão sensíveis quando ela se aproxima demais daquelas redes localizadas nas extremidades do campo. Mas é claro que a responsabilidade da ciência é muito maior do que a sua.

Infelizmente. E quando é provado que uma determinada teoria está errada.. se por meio de algum experimento real ou imaginário for possível provar sua falsidade. Admitindo a existência de uma ordem universal e imutável torna-se possível prever o comportamento da natureza e este é o mais importante passo do método científico no que concerne à experiência física. Assim como nosso alienígena visitante não podia ter certeza de que os jogadores no Maracanã não estavam simplemente correndo ao acaso atrás da bola.Hipóteses. apenas teorias que ainda não foram derrubadas. para existir. Qual a vantagem disto? Isto leva uma mudança de atitude. Seu objetivo é justamente tentar contestar estas leis! Um cientista que tenha realizado cinqüenta milhões de experiências comprovando a teoria de Newton não foi muito útil. O método indutivo apresenta. para o peru indutivista. No início o peru é cauteloso. para tentar compreender o jogo da natureza é preciso acreditar que há regras para serem compreendidas.. ou que as regras não mudariam do primeiro para o segundo tempo. Assim. isto é a melhor coisa que pode acontecer. ou desta lei natural. pode-se então deduzir (dedução é a forma de raciocínio que extrai uma verdade particular de uma verdade geral) que se Fulano é um ser humano ..em condições suficientemente variadas para alegar que aquela regra é realmente universal? Este problema foi contornado por Karl Popper. segundo o qual uma hipótese só é considerada científica se for falsicávelou seja. Note entretanto que a indução é totalmente apoiada na repetição da experiência e na crença na imutabilidade dos processos naturais.e já que todos os seres humanos são mortais então Fulano é mortal. porque é nessas situações que a ciência progride. o método científico parte do princípio da imutabilidade dos processos da natureza ou "o princípio da uniformidade da natureza". exatamente às 9:00h da manhã.O método científico e as . mil. Assim. Por outro lado as hipóteses "O tempo passa mais rapidamente nos lugares altos" e "O futuro pode ser previsto pela posição dos astros nos céu" são falsicáveis e portanto estão dentro do escopo da ciência. toda vez que encostamos algo quente em algo frio. Mas nada garante à ciência que vá continuar sendo assim amanhã ou que seja assim em algum confim desconhecido do universo. todos os dias da semana inclusive sábados domingos e feriados. que apresentou o conceito de falsificabilidade. Ao observar que todo homem e toda mulher cedo ou tarde morrem. Mas alguém que prove que Newton estava errado. maior a nossa confiança em sua veracidade. este peru finalmente conclui por indução a regra geral: "sou sempre alimentado às 9:00 da manhã!". teorias e leis 5.Entendendo o mundo como uma partida de futebol 3. A hipótese "Deus existe" não é uma hipótese que possa ser julgada pela ciência pois não existe nenhuma experiência imaginável que possa provar que "Deus NÃO existe". faça chuva ou faça sol. no dia de Natal a regra não se revela verdadeira. ela passa a buscar observações que a falsifiquem. Em vez da ciência se basear nas observações que reforçam uma teoria.muito importante . o objetivo dos cientistas não é defender ostatus quo ou proteger as leis científicas contra contestações.na minha garagem" 7. você já ouviu falar de Einstein. Esta forma de raciocínio lógico que extrai uma verdade geral a partir da observação de um grupo particular é chamada de indução.. surge a pergunta: quantas observações são suficientes para justificar a regra? Cem. pode-se estabelecer uma regra geral: "todo ser humano é mortal".Falhas no método científico? 8.O peru indutivista 4. Sobre isso Bertrand Russel nos traz o seguinte exemplo: imagine um peru que recebe sua ração todos os dias do ano. Ou nas palavras de Einstein (usadas num contexto ligeiramente diferente): "Deus é sutil mas não maldoso". ao contrário do que muitos pensam.Conclusão Antes de mais nada. mas depois de perceber que esta experiência se repete por um considerável período de tempo. milhões? Como saberemos se temos um número suficiente de observações e .. nós também não podemos ter certeza de que a natureza possua uma ordem e que esta ordem seja imutável. Se estabelecemos uma regra geral a partir de um determinado número de observações. Temos apenas fortes evidências disto: por exemplo. estabelecida pela observação do mesmo resultado repetidas vezes.Introdução 2. teorias e leis 1. não? ipóteses. Quanto mais uma teoria sobrevive a esta busca. tem sido assim desde que o homem é capaz de se lembrar e tem sido assim em todos os lugares do universo aonde o homem já foi capaz de estender sua visão. como denominava o filósofo Karl Popper. mas não existem teorias comprovadas.O método científico e a Ladeira do Amendoim 6. o frio esquenta e o quente esfria. A partir desta regra geral. uma limitação. portanto.

conforme você já deve ter percebido. para a ciência. . Uma lei. A partir daí deve-se testar a hipótese. Para testar a hipótese será quase sempre necessário umexperimento. Por exemplo a Lei da Gravidade é bem curtinha e simples: ela diz que os corpos se atraem com uma força proporcional às massas de cada um e inversamente proporcional ao quadrado da distância entre eles. ou um grupo de fenômenos semelhantes. Afinal quando se faz o menor número de suposições possíveis é menos provável que se descubra mais tarde que uma delas estava errada. Se a hipótese não se confirma ela deve ser reformulada e novamente testada. Quando uma hipótese já reúne um número considerável de evidências. não sua validade. O que muda é só o escopo e abrangência de cada uma. Se a hipótese se confirma um grande número de vezes ela deve estar correta. Não caia nesse truque retórico. este experimento só será considerado válido se puder ser reproduzido por outras pessoas mantendo-se as mesmas condições.pseudociências ou "O dragão na minha garagem" 7. obtidas por um grande número de pesquisadores independentes ela pode ser promovida à lei ou ajudar a compor uma teoria. utilizar a hipótese para verificar o fenômeno que ela explica e. Se a hipótese se confirma uma vez ela pode estar correta. onde por mais simples se entende aquela que usa o menor número de suposições ou que introduzam o menor número de entidades novas na ciência. Este método é chamado de Navalha de Ockham. Algumas das leis da física são a Lei da Gravidade ou as três Leis de Newton que você já aprendeu na escola. é um estatuto que explica de forma simples e concisa (por isso geralmente é enunciada de maneira matemática) um fato bem estabelecido pela ciência. nada mais é do que uma crença que se desconfia que seja verdadeira. Uma Lei da Natureza é o mais longe que podemos chegar com o método científico mas ela não constitui uma verdade definitiva. mais importante. Voltemos às hipóteses: mas e quando diversas hipóteses servem para explicar o mesmo fenômeno? Ou seja.Falhas no método científico? 8. utilizar a hipótese para prever novos fenômenos. que num ambiente controlado possa quantificar o fenômeno. Uma teoria é tão consistente quanto uma lei. Com base na observação e apoiado pelo pensamento indutivo formula-se uma hipótese que. e se for possível explicar o mesmo fenômeno e prever os mesmosresultados utilizando hipóteses diferentes? Neste caso a ciência prefere adotar a hipótese mais simples. como veremos a seguir.Conclusão Vimos que o método científico começa com a observação da natureza. Os defensores do criacionismo (aquele movimento que defende que a Terra foi criada por Deus em 6 dias literais) dizem que a Teoria da Evolução é "apenas uma teoria" e como tal não poderia ser ensinada nas escolas. É curioso que por que as palavras "teoria" e "lei" tem significados tão diferentes no cotidiano as pessoas leigas tendem a achar que as teorias são menos formais ou menos válidas do que as leis. Independentemente do resultado. Já uma teoria é um conjunto de explicações sobre um certo tipo de fenômeno. com hipóteses amplamente testadas e validadas. Já a Teoria da Gravitação é muito mais ampla e complexa e faz uso da Lei da Gravidade para explicar os fenômenos relacionados à atração gravitacional. ou seja.

Vejamos um exemplo: você está na cidade de Belo Horizonte e ao passar pela ladeira conhecida por Ladeira do Amendoim percebe um fenômeno interessante: quando seu carro é deixado em repouso nesta ladeira. já pensando nas manchetes dos jornais. De qualquer maneira esta postura do método científico. (3) a lei da gravidade está errada ou não se aplica a este local do planeta e deve portanto ser revista. houve um erro na interpretação dos dados. (2) existe alguma força conhecida pela ciência. nada mais é portanto que um estado de repouso do conhecimento (o que não deixa de ser um pensamento um tanto pessimista). Veja a Lei da Gravidade por exemplo.puxando o carro para cima. a disposição das ladeiras próximas a Ladeira do Amendoim e a dela própria criam a ilusão de que o carro está subindo quando na verdade ele desce normalmente. isso é incrível! Vamos lá vê-lo!" você diz entusiasmado. Alguém se equilibra sobre uma corda estendida entre dois arranha-céus e logo se diz que ele está "desafiando a lei da gravidade" (quando na verdade não poderia fazer o que faz se não fosse por ela). etc . ou seja. não conhecida pela ciência: mágica. enraizada em sua própria definição. As leis da física não podem ser "desafiadas". O método científico e as pseudociências ou "O dragão na minha garagem" Um amigo lhe diz que descobriu um dragão na garagem da casa dele. Qualquer uma das quatro hipóteses (ou outra que se possa imaginar) poderá ser considerada e deverá ser testada. Se por um lado este estado das coisas assegura aos cientistas que nenhuma verdade estará livre de contestação. astral.O método científico e a Ladeira do Amendoim O que chamamos de leis da natureza não são leis no sentido usual da palavra. é que garante a investigação constante e vigilante do conhecimento humano. telepática. . ao invés de descer sob a ação de seu peso ele anda para cima! Estarão os carros na Ladeira do Amendoim desafiando a lei da gravidade? Se você se propõe a investigar o fenômeno provavelmente pensará em pelo menos quatro hipóteses para explicar o fenômeno: (1) existe algum tipo de força sobrenatural. como as leis legisladas em nosso mundo. Uma lei física. Uma lei física é um estatuto do qual temos uma forte sensação que seja verdadeiro e que até o momento não foi contradita por nenhuma experiência humana. ou uma verdade científica. por outro nos impede de assumir qualquer conhecimento como final e definitivo. por parte de quem realizou a experiência. telúrica. se você examinar o fenômeno até o fim chegará a conclusão que a hipótese (4) é a verdadeira. como em qualquer outra ladeira do mundo. A Lei da gravidade está a salvo (por enquanto). o que um investigador munido do método científico não poderá fazer é desconsiderar o fato observado com o argumento de que "a lei da gravidade é uma lei da natureza bem estabelecida e acima de qualquer dúvida". mas não evidente no momento. "Uau. atuando sobre o carro (uma força magnética vinda de algum depósito de minerais. espectral. por exemplo). (4) a observação de que o carro sobe não é verdadeira. Bem. ou seja.

pois este dragão é incorpóreo." "Ahhh? Tinta? Bom. Tycho Brahe ficou famoso por coletar os mais precisos dados astronômicos que já haviam sido colhidos até a sua época. De fato você não precisa ir muito mais longe para. experiência para tentar "capturar" o éter. afinal descobrir que dragões podem estar escondidos em garagens pelo mundo e que podem ser usados para curar e prever o futuro é uma descoberta extraordinária demais para ser ignorada. sempre com os mesmos resultados.. alguns cientistas tentam assim mesmo detectar este dragão. mágicos conseguem reproduzir tudo o que as pessoas dizem fazer usando a energia dos dragões.. e daí?"). Claro. e encara o seu ceticismo como má-vontade em crer neste maravilhoso dragão-invisível-incorpóreo-que-cospe-fogo-frio. O éter continuou a ser perseguido utilizando-se técnicas mais avançadas e instrumentos mais precisos. Germes. ele é finalmente esquecido. muito embora ninguém ainda o tivesse detectado.. instrumentos exóticos capazes de medir a "energia" de dragões. obtidas através de um rigoroso método científico que suportem a existência do Dragão Invisível. soltar fogo ele solta! Se bem que o fogo é invisível também. uso da intuição. incorpóreo. quasares. técnicas ancestrais milenares de detecção de dragões (provavelmente orientais). mas seu momentâneo desapontamento é logo substítuido por uma excitação ainda maior. E depois tiramos umas fotos. isso também não vai dar. Esta história é uma adaptação livre de um trecho do livro "O Mundo Assombrado pelos Demônios" de Carl Sagan e ilustra o típico pensamento pseudocientífico. também houve vários casos de pesquisadores que fizeram de fato descobertas revolucionárias mas não souberam reconhecê-las." "!!" Você propõe mais uma dúzia de maneiras de detectar o dragão e seu amigo refuta todas elas dizendo que com este dragão não vai funcionar. Não pense que dragões indetectáveis são exclusividade dos pseudocientistas. a gente usa um visor de infravermelho pra ver este fogo invisível. Muitos torcerão um pouquinho a história e se compararão a Galileo e a Colombo que foram perseguidos por desafiarem o pensamento científico estabelecido: "Riram de Galileo e de Colombo e riem de nós". Todas as evidências de sua existência ou são contestáveis ou não vêm de fontes confiáveis ou podem ser explicadas por fatos já bem conhecidos pela ciência. A ciência já teve que lidar com seus "dragões". dirão (ao que Carl Sagan acrescentaria: "riram do Bozo também. Este éter deveria ser de tal natureza que não interferisse no movimento da Terra através dele e que permanecesse inalterado e imóvel ao ser atravessado pela luz. tipo um fantasma ou um ectoplasma. Você começa a perder a paciência e. preferindo interpretar suas conclusões de uma maneira "convencional". que está à temperatura ambiente. afinal você sabe que um dragão invisível é ainda mais incrível que um dragão qualquer. para a ciência pelo menos..pode-se citar inúmeros exemplos de fenômenos que num determinado momento da história não foram ou não poderiam ser detectados pelas técnicas e instrumentos disponíveis mas que não deixaram de existir por isso. Johannes Kepler. não tem problema. Até o final do século XIX os físicos acreditavam na existência de uma substância chamada éter que preencheria o vácuo e que seria o meio no qual se propagariam a luz e as ondas gravitacionais. usando a mesma analogia." "Tá. Porém Tycho não acreditava no modelo heliocêntrico proposto por Copérnico e utilizou suas observações para formular um novo modelo geocêntrico do universo (que se tornou muito popular). além de um pouco preocupado com a sanidade do seu amigo. revelação em sonhos."Bem. Por isso. quando foi definitivamente descartado. Estas pessoas provavelmente acusarão os cientistas que não querem crer na existência de seus dragões de estreiteza de pensamento ou dirão que eles se negam a encarar as evidências porque temem que elas abalem sua forma ortodoxa de pensar. porém nada foi observado. alguns anos mais tarde utilizasse os mesmos dados mas orientado por uma crença . Em 1881 Michelson e Morley idealizaram uma cuidadosa. fica imaginando qual a diferença entre um dragão que não pode ser detectado de nenhuma maneira e dragão nenhum:"Então como você sabe que há realmente um dragão lá?!" Seu amigo responde a esta pergunta com explicações confusas que misturam capacidade de se comunicar telepaticamente com o dragão. ou que dizem curar usando a energia destes seres."A gente joga tinta nele então. até o ano de 1960. ordinárias nem extraordinárias.. e hoje famosa. Mas este dragão tem um problema de timidez. Por fim as previsões feitas por pessoas "guiadas" pelos dragões são menos acertadas na média do que as previsões feitas por profissionais e o número de curas feitas pela tal energia do dragão é equivalente ao das curas espontâneas ou por placebo. Foi preciso que seu discípulo e assistente. não vai dar pra sentir. partículas atômicas e subatômicas. Mas mais importante do que isso: não é só porque a ciência não é capaz de detectar o dragão que ele não existe. Alguns imaginaram falhas na experiência. Falhas no método científico? Assim como já houve diversos cientistas que pensaram ter feito uma nova e revolucionária descoberta e mais tarde verificaram que seus dados não eram corretos." "Você fala sério?!". isso não vai ser possível porque ele é invisível. Investigar portanto é preciso. variações no espaçotempo . Ele só aparece para algumas pessoas "escolhidas" e nunca diante de câmeras. mas outros começaram a desconfiar que não haveria éter nenhum para ser detectado. A conclusão é que por mais que a ciência investigue o fenômeno não há evidências. Isso o tornava por definição extremamente dificil de ser detectado." "Mas o fogo deste dragão é um fogo frio.." "Mas este dragão solta fogo? Pelo menos isso?" "Sim." "Incorpóreo?!!" "Sim. etc. imaginar pessoas que preveêm o futuro inspirados por dragões indetectáveis.

diferente. espalhou-se pela América do Norte. Ciente tanto de sua responsabilidade quanto da falibilidade dos cientistas.ânsia em comprovar o que consideram ser a verdade. o mesmo não pode ser feito para arma de fogo. "oveja" em espanhol. Será que o fato do cientista ser falível torna a ciência falível? Sim e não.. A grande maioria das mutações é nociva. Nesse meio tempo. gerando seres defeituosos (infelizmente poucos nascem podendo portar garras de adamantium). o nosso português e também o grego) são descendentes de um dialeto falado por uma tribo que vivia onde atualmente fica a Ucrânia. sabemos por registros históricos que o "avô" do inglês britânico moderno foi levado dali para a Inglaterra por anglo-saxões que a invadiram nos séculos V e VI. A Teoria da Evolução de Darwin é uma das teorias mais belas e simples da ciência. ou "gun" em inglês. Mas a língua inglesa tem vários "parentes" próximos – o alemão. a ciência não se fia na autoridade de nenhum pesquisador e nem em pesquisas isoladas. mas uma base que todo ser humano precisa ter para exercer sua cidadania. a discussão sobre o alcance e validade da ciência é mais atual e necessária do que nunca. "ruzhyo" em russo e assim por diante. Como disse o cientista Henri Poincaré "Um punhado de fatos não é mais ciência do um punhado de tijolos é uma casa". mas desta vez Wood secretamente retirou o prisma da montagem. bactérias. se não conhecessemos sua origem. mas umas poucas delas podem gerar seres mais bem adaptados ao meio em que vivem. o holandês. plantas. O próprio método científico se encarrega de eliminar os julgamentos pessoais e impede que a longo prazo dogmas sejam formados. Obviamente . análises tendenciosas e ." Conclusão Em um momento em que há um projeto de lei propondo a regulamentação de uma arte divinatória de 5000 anos atrás. O inglês. Até 1903 Blondlot já havia publicado mais de 10 trabalhos sobre sua descoberta. etc. Ou "avis" em lituano e sânscrito. "owis" em grego e "oi" em irlandês. porém quando Wood observou a tela não foi capaz de ver nenhuma das bandas luminosas que Blondlot alegava ver. A partir daí podemos deduzir que o inglês nasceu nesta região. mas nenhum outro cientista ainda tinha conseguido reproduzir suas experiências nem vislumbrar o menor sinal dos raios N. Ou nas palavras de Einstein: "Minhas idéias levaram as pessoas a reexaminar a física de Newton. poderíamos achar que ele havia nascido nos Estados Unidos. pensou ter descoberto uma nova forma de radiação que chamou de raios N. Estas mudanças acontecem por acaso. as línguas escandinavas e outros – todos amontoados no noroeste da Europa e o mais próximo deles é um dialeto falado em uma pequena parte da costa holandesa e alemã. Basicamente ela diz que a vida nem sempre foi como é hoje: animais. Blondlot. tal qual uma letra ou uma palavra trocada acidentalmente em um enorme livro. Isto sugere que aquela tribo já conhecia e domesticava ovelhas e isto é confirmado por evidências arqueológicas. Por outro lado. Veja por exemplo. por volta de 6. tudo o que é vivo muda com a marcha do tempo. Compreender o método que a ciência usa para construir o conhecimento humano. Praticamente todas as línguas européias (incluindo. Nos primeiros anos do século XX. Blondlot repetiu a experiência. e entender o rigor com que examina alegações extraordinárias é apenas uma parte desta discussão. conhecida como Indo-Européia. este dialeto foi gradualmente se espalhando e se modificando. "ovis" em latim. "fusil" em francês. Um cientista não espalha os fatos sobre a mesa e espera que a verdade emane deles espontaneamente. "ovtsa" em russo. Mas se Tycho Brahe viu pouco em seus próprios dados o cientista francês Rene Blondlot enxergou demais (literalmente). dando origem a uma família de mais de 140 línguas.por que não? . A distribuição geográfica de grupos linguísticos também nos fornece dicas a respeito de movimentos populacionais. de onde se espalhou pelo resto do mundo. se defender de predadores. para não só comprovar o modelo heliocêntrico como ainda estabelecer as Três Leis de Kepler do movimento planetário. Se isto não acontecer haverá uma falha grosseira em algum lugar. Os raios N produzidos por um filamento aquecido de platina deveriam atingir um prisma e difratarem-se de encontro a uma tela produzindo bandas luminosas.000 atrás. Austrália e outros países e. com mais facilidade para encontrar comida.. a palavra ovelha. Fatos e medidas precisam ser interpretados pelas pessoas que conduzem os experimentos. Naturalmente alguém um dia irá reexaminar minhas próprias idéias. onde se encontra atualmente o maior número de falantes dessa língua. são naturalmente susceptíveis a julgamentos pessoais. Quanto . De fato. estudando os recentemente descobertos raios X. na forma de pequenas mutações acidentais no código genético. por exemplo. É esta pois a beleza da ciência. Para seu espanto. e pessoas como se sabe. Todas estas palavras têm obviamente uma origem comum que pode ser rastreada até o dialeto original da família Indo-Européia. préconceitos. E daí? O histórico da evolução de uma família de línguas nos dá pistas para descobrir em que épocas certos desenvolvimentos culturais e tecnológicos ocorreram. Blondlot continuou enxergando as bandas luminosas originadas pelos raios N! Não é preciso dizer que logo depois disso toda a história dos raios N foi desacreditada e esquecida. A moral da história aqui é que os fatos não falam por si mesmos. obviamente. Um fato só é aceito pela ciência depois de exaustivamente reproduzido por cientistas em todo o mundo (a história dos raios N também serve para ilustrar este ponto). armas de fogo surgiram bem depois da diferenciação destas línguas e cada uma teve que inventar uma palavra própria. Por isso em 1904 o cientista americano Robert Wood foi enviado ao laboratório de Blondlot para tentar desvendar o mistério.

Para acelerar um pouco as coisas. que se reproduzem (como aqueles vírus que vivem atacando o Windows). Pode-se imaginar o dia em que programas de computador vão estar escrevendo outros programas de computador. Várias gerações depois (um instante apenas no tempo da CPU). os engenheiros intervieram apenas para montar os motores nas peças de plástico expelidas pela máquina. um programador apenas determinará as tarefas a serem executadas e o programa evoluirá até se tornar capaz de executá-las. Cerca de 600 gerações depois os robôs mais bem sucedidos foram construídos em plástico moldado em uma máquina de prototipagem (uma impressora em 3D). por isso é muito difícil de ser observada e testada. enquanto os menos aptos acabavam extintos. anunciaram um programa de computador destinado a projetar evolutivamente robôs que caminham. A medida que evoluem. um programa de computador "habitado" por organismos virtuais que evoluem. mais curto ou mais elaborado e portanto mais capaz de se alimentar e se reproduzir. da Universidade de Oxford.programas defeituosos . um organismo pode gerar um descendente mutante. o computador produziu . É interessante notar que sem a natureza para imitar. comem . a companhia fundada por Reil. vida de vida em bom português mesmo). os personagens virtuais haviam aprendido a andar com desenvoltura. O problema é que a evolução demora demais para acontecer. Hod Lipson e Jordan Pollack do MIT. com um pedaço de código a mais ou fora de lugar. E por que não começar a criar vida artificial "real"? Em 2000 dois engenheiros. mas uns poucos deles melhoravam as metas da geração anterior e eram selecionados para continuar se reproduzindo. dentro de seus computadores.mais adaptado mais chances de sobreviver. acasalar e passar seus genes beneficamente modificados para sua prole. se o roteiro for modificado todo o procedimento precisa ser refeito. uma espécie mutante pode diferir completamente da espécie original tornando-se mais comum e mais bem sucedida que as outras. Os seres da primeira geração mal saíam do lugar. logo desabavam desajeitadamente. exatamente como acontece na natureza. os programas que habitam Avida se tornam mais complexos e mais capazes de resolver os problemas propostos. Hoje. incluindo o código fonte do programa.números binários são sua comida predileta e realizam tarefas na forma de pequenos algoritmos. mas os melhores dentre eles davam origem a descendentes com ligeiras modificações aleatórias. Vinte ciclos depois. O dia em que isto acontecer a Microsoft quer estar lá. para fazer um personagem virtual como Hulk ou o Gollum de "O Senhor dos Anéis" andar. Computação genética serve ao cinema mais do que apenas como inspiração para seus roteiros. Além de envolver uma formidável quantidade de trabalho o método não é nada versátil. Softwares que evoluem fazem parte de um ramo emergente da computação chamada Computação Genética (Genetic Programming ou GP em inglês) e não servem apenas para que os pesquisadores entendam melhor os mecanismos do darwinismo. um programador visual precisa desenhar seu movimento passo a passo ou mapear a coreografia de uma pessoa real equipada com sensores. Por que não colocar a evolução para trabalhar e deixar o personagem aprender a andar sozinho? Foi isso o que fez o pesquisador Torsten Reil. os pesquisadores Christoph Adami e Charles Ofria do Instituto Tecnológico da Califórnia criaram o projeto Avida (A de "artificial" em inglês. em linguagem C++. como mamutes e dinossauros. Como na natureza. trechos de código. Se você quiser conferir e cultivar sua própria colônia de organismos digitais pode acessar o site do Digital Life Laboratory e baixar gratuitamente a última versão do Avida. não à toa ela é uma das patrocinadoras do projeto. Até aqui os programadores estiveram criando vida artificial virtual. Ao se reproduzir. a maior parte destas modificações produzia seres ainda mais inaptos. Você pode assistir o vídeo de um ser digital aprendendo a andar no site da Natural Motion. Ele criou centenas de pequenos seres digitais com a mesma liberdade de movimentos que os humanos e estabeleceu a meta que eles deveriam atingir a cada geração: a maior distância percorrida sem cair. Como sempre os robôs mais aptos evoluíam introduzindo pequenas modificações no código de seus descendentes. No processo. correr ou saltar. A maior parte destas mutações dá origem a bugs . Estes organismos virtuais são pequenos programas.mas em raras ocasiões uma mutação pode melhorar o pequeno programa tornando-o mais rápido. não mais que alguns minutos de processamento.

Fermi acreditava firmemente na existência de vida inteligente extraterrestre mas andava um tanto frustrado por ninguém ter encontrado ainda uma pista sólida deles. faz sentido. que o simples fato de nunca termos encontrado robôs de civilizações alienígenas tem sido usado como argumento de que ou elas não existem. uma sigla para Genetically Organized Lifelike Electro Mechanics.000oC. Se vamos encontrar robôs autoreplicantes um dia só o tempo vai dizer. como ouro. A construção e utilização de ferramentas é a principal habilidade humana responsável por nosso desenvolvimento tecnológico. mas tão boa. ou não atingiram um estágio tecnológico comparável ao nosso. por mais que vasculhem o céu. diferente de todas as línguas européias. mas uma grafite de melhor qualidade é usada em inúmeras outras aplicações (desde motores elétricos a reatores nucleares) e para produzí-la é necessário atingir 3. . dono de um poderoso senso de humor. como o titânio. só que mais como ornamentos do que em ferramentas. A grafite que você usa na sua lapiseira é encontrada diretamente na natureza. entre eles John von Neumann.. sem a adição de carbono aquecendo-o a uma temperatura abaixo do ponto de fusão do ferro. Uma fogueira aberta não é capaz disso. arsênico ou chumbo). mas por volta de 3. chamadas de ligas.000oC. tornando-se mais adaptados a cada geração e fazendo os modelos anteriores ficarem obsoletos. Outra opção era retirar as impurezas do minério sólido. os cientistas não ouvem nada além do "Grande Silêncio"? Esta é uma variante do Paradoxo de Fermi. Um dia. cobre e estanho. Para transformar o minério do metal em metal puro.700oC. como por exemplo o aço inoxidável (que tem menos de 0. só podíamos contar com diversos tipos de rochas e ossos. uma questão inicialmente elaborada pelo físico Enrico Fermi (que não chegou a pensar em robôs autoreplicantes). Neste caso vamos torcer para que pertençam a civilizações alienígenas sociáveis. mas chamam a si mesmos de húngaros!". tanto que a NASA vem há tempos estudando a possibilidade de semear a superfície da Lua e de Marte com robôs deste tipo.. Teríamos então o perfeito cenário de um filme de ficção científica: robôs evoluindo e se reproduzindo sem nenhuma intervenção humana. não que venham de um futuro não muito distante em que as máquinas dominaram o mundo e costumam enviar. Mas a temperatura de fusão do ferro é por volta de 1.. Por exemplo. O próximo passo seria inventar máquinas com sensores que pudessem fazer tudo sozinhas. através de impactos repetidos. é preciso. Seu colega. os cientistas também. além da capacidade dos fornos antigos. Na verdade. o cobre. Por acaso você pensou num velho robô exterminador T-800 sendo ultrapassado por um moderníssimo T-X em um mundo dominado pelas máquinas? Bem. a idéia de robôs autoreplicantes explorando o universo por nós é tão boa. outro metal de baixo ponto de fusão. Vastamente empregado na indústria aeroespacial. temperaturas muito maiores que essas são necessárias para a produção de um material que não é metálico – a grafite. surpreendentemente. por quê o universo não está infestado de robôs se reproduzindo exponencialmente em cada sistema solar que chegam? Por que ainda não encontramos um grande monolito negro como o de "2001 Uma Odisséia no Espaço"? Em outras palavras. acima da temperatura de fusão do cobre. algo mais parecido com formas primitivas de vida alienígena. Mas a maior parte do cobre existente na crosta terrestre. descobrimos que derretendo o cobre junto com outros metais é possível produzir combinações interessantes. encontra-se combinado com oxigênio. formavam uma liga que se revelou de grande utilidade – o bronze (que também podia ser feito com antimônio. e conseguimos – o ferro. por que. Alguns metais também eram usados. desde o projeto até a fabricação... Precisávamos de um metal melhor. muitos dos mais brilhantes físicos do século XX nasceram na Hungria.1% de carbono e quantidades variáveis de níquel. Quando misturado com aproximadamente 3. Mas para produzir aço de melhor qualidade. Logo que aprendemos a refinar o cobre. o bronze apresentava limitações. Mas. No início. é necessário romper a barreira dos 1. Assim pode-se produzir tipos diferentes de aço.robôs que não se parecem com nada que anda na Terra. aquecê-lo a uma temperatura alta o suficiente para derretê-lo (é preciso também uma fonte de carbono – como madeira ou carvão – para remover o oxigênio). chegando ao refeitório do lendário laboratório de Los Alamos bradou a frase que se tornaria famosa: "Onde eles estão?". de tempos em tempos. Compare isso com a temperatura da superfície do Sol: 6.500oC. mas que é também o nome de uma criatura mágica. cromo e outros metais).. Robôs autoreplicantes seriam ideais para utilização em ambientes inóspitos ao homem. já que a tecnologia da época só permitia processar metais macios e encontrados na natureza em sua forma pura. Outros metais utilizados modernamente tem pontos de fusão ainda maiores. ou de orcs forjando suas espadas. andróides exterminadores ao passado para matar o líder da resistência humana. Para manter sempre acesa a lembrança da responsabilidade que têm.. Afinal.5% de carbono o ferro se liquefaz a uma temperatura mais baixa.C. prata e.500oC e modernamente isto é feito em fornos especiais que permitem controlar cuidadosamente a quantidade de carbono e outros elementos presentes. respondeu: "eles estão entre nós. Elas nos permitem realizar tarefas que seriam impossíveis se contássemos somente com a capacidade natural de nosso corpo e sua utilidade está intimamente ligada ao material do qual é feita. em menor grau. em fornos fechados. antes de mais nada. o titânio funde próximo a 1. Ainda que sua descoberta tenha sido um grande avanço. Lipson e Pollack denominam seu projeto de GOLEM. nossos antepassados conseguiram atingir por volta de 1. o físico húngaro Leo Szilard. mas também ao grande número de geniais cientistas daquele país. que na lenda judaica subjuga o rabino que lhe deu vida. Além de caro. Havia então duas formas de contornar esta limitação. ainda que em uma versão primitiva.. Esse processo de impactos repetidos alternados com aquecimento também podia ser aplicado ao ferro ao qual carbono havia sido adicionado de forma a reduzir a quantidade de carbono presente a níveis abaixo de 2% – o aço. era pouco resistente. em compostos que chamamos genericamente de minérios. Hmm.500 a. especialmente outros planetas. Daí a visão clássica do ferreiro antigo batendo repetidamente em uma peça de ferro sobre uma bigorna. considerado o pai do computador digital e o primeiro a propor máquinas autoreplicantes.150oC (Celsius). A brincadeira corrente em Los Alamos de que os húngaros são na verdade marcianos disfarçados dizia respeito não apenas à estranhíssima língua húngara. se existe vida inteligente lá fora e ela é tão abundante como crêem alguns cientistas. assim como a maioria dos metais.

barcos (especialmente os pesqueiros. Elas são necessárias para manter uma reação de fusão nuclear – a mesma fonte de energia que mantém as estrelas brilhando e que pode solucionar os problemas energéticos mundiais. Para entender o efeito Doppler imagine que você está em um carro em movimento e passa por um outro carro que está buzinando. a frequência do som é menor e ele é mais grave. Para começar. À medida que seu carro se aproxima o som da buzina parece mais agudo. como por exemplo o interior das lâmpadas fluorescentes ou nas telas dos modelos mais modernos (e caros) de televisões. vários exemplos de plasma podem ser encontrados em nosso cotidiano (obviamente a temperaturas muito mais baixas). nenhum material conhecido consegue suportar estas temperaturas. portanto. no que é chamado de confinamento. O sistema ARGOS é um empreendimento conjunto do NOAA. ser controladas por um campo magnético. os satélites do NOAA usam o efeito Doppler. para saber se estão nas áreas delimitadas para pesca). O contrário acontece quando você se afasta da buzina: com menos ondas chegando ao seu ouvido num mesmo intervalo de tempo. Este é o mesmo princípio dos satéites do NOAA. caminhões com carga sensível e até mesmo o gelo das calotas polares. O grande desafio para os cientistas nucleares será atingir e manter as altas temperaturas necessárias à reação de fusão nuclear. não erramos no número de zeros. velocidade e direção das correntes oceânicas.000oC. como seria construído um reator desse tipo? Bem. Aliás.000. quanto mais ondas chegam em um determinado período de tempo maior a frequência do som que você ouve. Em um reator. o sucesso nessa busca pode mudar radicalmente o futuro de nossa sociedade. Conhecendo-se a órbita e velocidade do satélite assim como a velocidade das ondas de rádio (igual a velocidade da luz) é possível calcular a posição do transmissor com uma precisão que varia de 150 a 1000 m. lá embaixo na Terra. formando uma grande mistura de partículas carregadas. Não. só que em vez de ondas sonoras. destinado exclusivamente à pesquisa ambiental.Mas se você acha que estas temperaturas são altas. os átomos de qualquer material são constituídos de um núcleo (com carga elétrica positiva) e um conjunto de elétrons (com carga elétrica negativa). é cem milhões de graus Celsius mesmo. Estes transmissores enviam ondas de rádio que são captadas por dois satélites do NOAA especialmente equipados com um sistema especial conhecido por ARGOS. a CNES. de forma a não entrar em contato direto com as paredes do reator e diminuindo a temperatura a que o material das paredes seria exposto. enquanto que à medida que se afasta ele parece mais grave. Desta maneira. além do que fazem os peixes no oceano. Então. Mas como satélites monitoram animais a centenas de quilômetros acima da Terra? Primeiramente os cientistas prendem aos animais pequenos transmissores. os pesquisadores são capazes de determinar o movimento das marés. nível dos oceanos. Hoje em dia há milhares de transmissores espalhados pelos sete mares monitorando-os e enviando zilhões de bytes de informação para os . para medir seu deslocamento. é sinal de que está o mais próximo possível dele. Em condições normais. a fusão nuclear não gera lixo radioativo e utiliza combustíveis facimente encontrados. A grande dificuldade é que a reação só acontece acima de 100. e quanto maior a frequência do som mais agudo ele é. Com transmissores ancorados ou à deriva em bóias. animais selvagens. o satélite viajando pelo espaço "escuta" as ondas eletromagnéticas enviadas pelo transmissor. O principal uso do ARGOS é na pesquisa oceonográfica (que responde por mais da metade do uso do sistema) mas qualquer coisa na qual se possa fixar um minúsculo transmissor de 15 gramas pode ser monitorado: aves. o plasma seria confinado por um forte campo magnético. Isto acontece porque as ondas sonoras emitidas pela buzina são como ondas no mar atingindo seu ouvido. nessa temperatura. Quando o satélite "ouve" uma frequência igual a que o transmissor está emitindo (que ele conhece). os oceanógrafos podem saber o que faz o próprio oceano. Para determinar a posição do transmissor. Assim como para Frodo e seus amigos. imóvel num engarrafamento na contra-mão. Quando você está se movimentando em direção às ondas sonoras acaba atravessando um número de ondas maior do que o que passaria por você se estivesse parado (assim como uma lancha atravessa mais ondas se navega em direção a elas). estes dois componentes são separados. qualquer material encontra-se sob uma forma conhecida como plasma. No ponto em que a buzina se encontra à menor distância possível do seu ouvido a frequência que você ouve é a mesma da buzina (a mesma que ouve todo o tempo o motorista do carro parado). No plasma. Essas partículas podem. Ao contrário da fissão nuclear. da NASA e da agência espacial francesa. utilizada nos reatores nucleares atuais. saiba que cientistas em todo mundo estão buscando atingir temperaturas literalmente milhares de vezes maiores. aventureiros em terras inóspitas (os exploradores de hoje não são como os de antigamente).

O ponto de vista bioquímico 4.Pesquisa científica 5. o peixe anêmona... o nome do pequeno Nemo não veio apenas do famoso capitão do livro de Júlio Verne. O princípe Albert I de Monaco foi um dos primeiros oceanógrafos de que se tem notícia. o sentido de rotação das correntes marinhas no Oceano Atlântico. Com as respostas que recebeu. mas graças às suas cores vivas e listras brancas o peixe anêmona atende mesmo é pelo nome de peixe-palhaço. Sim. Este peixe recebe seu nome por viver entre os tentáculos de um venenoso animal parecido com uma planta aquática. Homeopatia por Ana Luiza Barbosa de Oliveira em 05/07/02 Os princípios da homeopatia 1. o princípe Albert pôde estabelecer e mapear pela primeira vez. chamado anêmona. entre outras espécies.Conclusões O pai da homeopatia. que incluíam sangrias. Mas é claro que nem sempre o estudo do oceano foi tão high-tech assim. isso mesmo. sem a ajuda de satélites nem transmissores. purgas e outros métodos que realmente causam mais mal do que bem. sanguessugas.Introdução 2. O maior destaque do museu é o impressionante aquário contendo um coral vivo no qual se pode ver. Hahnemann percebeu que a administração de quinino (uma droga . o médico alemão Samuel Hahnemann (1755-1843). Durante seus estudos. naquele romântico tempo em que um homem podia se lançar ao estudo da ciência movido só pela curiosidade e paixão e desvinculado de financiamentos do governo (claro que neste aspecto a generosa conta bancária da família real ajudou bastante) este aristocrata lançou ao mar centenas de garrafas e esferas ocas de bronze com mensagens que pediam a quem as encontrasse que as devolvessem ao remetente contando onde as haviam encontrado.satélites do ARGOS. tinha bons motivos para ir contra as práticas médicas comuns do século XVIII. Albert I morreu em 1922 com 72 anos de idade. Antes disso construiu em Monaco um grande museu náutico que hoje é visitado por mais de um milhão de pessoas por ano. No final do século XIX.A aparente eficácia 6.Os princípios da homeopatia 3.

A palavra homeopatia vem do grego homoios (similar. que foi apresentada ao mundo em 1796.A aparente eficácia 6. Alguns exemplos destes tipos são: Ignatia . olhos azuis. Desta forma. Nux Vomica . Hahnemann posteriormente passou a empregar enormes diluições. amiga. Estes remédios são prescritos de acordo com o tipo constitucional da pessoa.O ponto de vista bioquímico 4. uma doença artificial no doente. a qual numa pessoa saudável causa os mesmos sintomas apresentados pela pessoa doente.Introdução 2. gentil. Hahnemann expôs sua teoria na frase em latim similia similibus curentur (semelhante cura semelhante) ou melhor ainda.empregada no tratamento da malária) a um paciente saudável causava alguns dos sintomas associados à esta doença. Utilizando inicialmente doses pequenas de medicamentos. que são utilizados para associar os sintomas de um paciente com a droga adequada. A aparente eficácia 1.pessoa nervosa e muitas vezes chorona e que não gosta de fumaça de cigarro Pulstilla .Pesquisa científica 5. um tipo de miasma ou espírito maligno. isto é. Muitos homeopatas afirmam também que algumas pessoas possuem uma afinidade especial com um remédio em particular (o chamado "remédio constitucional") e que serve para curar várias doenças.é uma mulher jovem com cabelo louro ou castanho claro. porém tímida.pessoa agressiva.Conclusões . belicosa. Hahnemann eventualmente concluiu o seguinte princípio terapêutico: o caminho certo para tratar uma doença é dando ao paciente uma determinada droga. Ele declarou ainda que as doenças eram perturbações na habilidade do corpo de se curar e que portanto eram necessárias apenas quantidades ínfimas para iniciar o processo de cura. quando ingeridas. Ele também declarou que as doenças crônicas eram uma manifestação de uma coceira reprimida (psora).gosta de ser independente. Hahnemann e seus seguidores começaram a fazer experimentos com várias substâncias de origem vegetal. emotiva. igual) e pathos (doença. temerosa. romântica. Hahnemann justificou este procedimento com uma teoria de que não são os átomos das substâncias que curam. sofrimento). teorizando que quanto maior a diluição maior o efeito. diluídos até o ponto em que não mais exista mais uma única molécula do princípio ativo. Por exemplo. Este é o princípio da similitude ou a Lei da Similitude. os óxidos de enxofre SO2 e SO3 causam crises de tosse semelhante a crises de asmas. que foram compilados em livros chamados materia medica. mas sim uma espécie de efeito indutivo causado pela presença destas moléculas durante a diluição. ambiciosa e hiperativa.Os princípios da homeopatia 3. Estas idéias são a base da homeopatia moderna. Assim. animal e mineral. Este princípio é conhecido como Lei dos Infinitesimais. Sulfur . então estas substâncias são prescritas para pacientes asmáticos. os remédios homeopáticos são "dinamizados". doenças semelhantes curam doenças semelhantes. pois ele achava que determinadas substâncias causavam. seguindo esta linha de pesquisa. que fazia o corpo curar a doença verdadeira.

sendo que nem os pacientes nem os médicos que aplicam os medicamentos sabem quem está recebendo o quê. que não apresentam consequências graves. uma gripe) têm uma regressão natural. a oposição (de pelo menos parte) da comunidade homeopática a que isto seja feito. Entretanto. Dependendo da doença em questão a fração de pacientes que apresentam melhora após a administração do placebo pode ser superior a 30%. Outro efeito importante é conhecido como efeito placebo.Introdução 2. a administração de um placebo para doenças graves pode levar a sérias conseqüências (inclusive. Nesses testes se adota um procedimento conhecido como duplo cego. as teorias da homeopatia não atingiram nenhum destes requisitos. Se o medicamento em teste apresentar resultados significativamente melhores que o placebo. o fato de uma teoria ir de encontro ao conhecimento atual em qualquer área da ciência não significa necessariamente que esta teoria esteja errada. o verdadeiro teste é a obtenção de resultados experimentais confiáveis. até o momento. Desta forma. a morte). Um excelente texto sobre este assunto pode ser encontrado aqui. O fato de que os remédios homeopáticos não são submetidos a testes tão rigorosos como os medicamentos tradicionais e. Este é um risco assumido conscientemente por pacientes que se oferecem voluntariamente para participar de pesquisas de novos medicamentos. em alguns casos. imparcial. isto não constitui um problema. eles estão em flagrante desacordo com o nosso conhecimento atual de física. Isto é realmente válido para doenças auto-limitadas. Mesmo que as teorias homeopáticas estejam erradas. é concebível que os remédios homeopáticos sejam eficazes. ainda não foram obtidos resultados convincentes de que os remédios homeopáticos são realmente eficazes contra qualquer tipo de doença. Por outro lado. Em outras palavras. sabe-se então que isto é realmente conseqüência de sua ação química no organismo. sendo empregado nos testes de avaliação de novos medicamentos. apesar de serem empregados há mais de um século. várias condições médicas de menor gravidade (por exemplo. é um medicamento "falso".A aparente eficácia 6. Por quê? Dois efeitos contribuem para a aparente eficácia dos remédios homeopáticos. contribui para a descrença em sua eficácia. agindo por algum outro mecanismo desconhecido. apesar de não ter nenhuma ação específica na doença. em sua concepção. É difícil acreditar que a comunidade médica em geral descartaria qualquer tipo de tratamento cujo efeito fosse realmente comprovado. a pessoa frequëntemente associará a cura ao medicamento.Pesquisa científica 5. onde a homeopatia se enquadra. Existem inúmeros casos na história da ciência onde novas teorias. já que a pessoa irá se curar de sua doenças sem sofrer efeitos colaterais resultantes da administração de remédios tradicionais.Conclusões Os princípios que formam a base teórica da homeopatia não têm nenhuma comprovação científica. O efeito placebo é bem documentado. cuja função é apenas fazer o paciente acreditar que está sendo tratado. Ao observar esta regressão após tomar um medicamento ineficaz. é de que os resultados que comprovam sua eficácia são descartados pela comunidade científica em razão de preconceito ou da ausência de uma atitude "aberta" a conhecimentos originados fora das linhas tradicionais de pesquisa. O termo foi introduzido no século XIX para denominar remédios que eram receitados somente para agradar o paciente.Os princípios da homeopatia 3.O ponto de vista bioquímico 4. Pode-se argumentar que se o efeito de um medicamento baseia-se unicamente no efeito placebo. Apesar de isto poder ser verdade para certos indivíduos. Mais uma vez. pelo contrário. Um placebo é definido como um tratamento que causa um efeito no paciente. Em primeiro lugar. A princípio. química e biologia. mesmo que este não tenha tido nenhuma participação no processo. O verdadeiro teste de uma nova teoria é a sua coerência com resultados experimentais observados e sua capacidade de prever novos resultados anteriormente inesperados. Conclusões 1.Apesar da falta de comprovação científica. Isto significa que parte dos pacientes recebe o medicamento real e o restante recebe um placebo. inúmeras pessoas atestarão a eficácia dos remédios homeopáticos a partir de suas experiências pessoais. Outros fatores podem influenciar a percepção da eficácia de um medicamento. Infelizmente. inicialmente descartadas. por . mesmo que nenhum medicamento seja empregado. principalmente. Um argumento clássico a favor das chamadas terapias alternativas. o método científico é. foram posteriormente comprovadas. Placebo significa em latim "eu vou agradar". é eliminada qualquer influência de fatores psicológicos na evolução da doença.

em virtude de seu baixíssimo custo de preparação.simples preconceito. . Isto é especialmente válido para o caso dos remédios homeopáticos.

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