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os ilhados

Ismar Tirelli Neto

os ilhados
©2015 Ismar Tirelli Neto sumário
Este livro segue as normas do Acordo Ortográfico
da Língua Portuguesa de 1990, adotado no Brasil em 2009.

Coordenação editorial
Isadora Travassos Ah, o campo 9
Um mau amigo das viagens 10
Produção editorial
As cidades antevistas (“o dia hoje está que é um córrego”) 11
Eduardo Süssekind
Rodrigo Fontoura Furore12
Victoria Rabello O anverso 13
Relato de uma terrível domesticidade14
E as atrizes de má morte 15
Ilegibilidade16
Ilegibilidade ii17
cip-brasil. catalogação-na-fonte “Todas as histórias, mesmo aquelas que não vão
sindicato nacional dos editores de livros, rj muito além de seus próprios desvios” 18
t515i Um seleto círculo de amigos 20
Tirelli Neto, Ismar Autorretrato a partir de uma praça 21
Os ilhados / Ismar Tirelli Neto. – 1. ed. – Rio de Janeiro : 7 Letras, 2015. Insignificância22
isbn 978-85-421-0342-7 Os solitários 24
1. Poesia brasileira. i. Título.
Os ilhados 28
Uma visita 30
15-23921 cdd: 869.91
cdu: 821.134.3(81)-1 Os irmãos 33
Nesta ordem 34
As cidades antevistas (“como o rapaz que é de fato”)37
Verão (calistênicos) 38
2015 Os piores anos de nossas vidas (aproximações) 40
Viveiros de Castro Editora Ltda. “Eu que dediquei minha vida inteira
Rua Visconde de Pirajá, 580/sl. 320 | Ipanema
à perseguição do sublime” 44
Rio de Janeiro | rj | cep 22410-902
Tel. (21) 2540-0076 Resultados milagrosos 46
editora@7letras.com.br | www.7letras.com.br Os hóspedes 48
Contrafeitiços50
O meu namorado 53
Vida & martírio 55
“Não tem por onde se lhe pegue” 57
Um funcionário 61
Tempestades, vícios 63
Sob uma marquise, 26 de outubro de 2014 65
A consciência, a consciência por  70
Onde cair morta 72
O homem sobrescrito 75
As mães em chamas 76
Dezesseis anos novamente 80
O pulôver 83
O pulôver, ii84
“Não é boa vizinhança afirmá-lo” 86
“Não é caso de se levantar” 87
“Não há uma só palavra para junho” 88
Quei giorni insieme a te 89
A noite polar 90
“Façamos votos” 91
Desespero92
As cidades antevistas (“Quero partir. Não partirei no horror”) 95
Fantasia acerca da dignidade dos homens 96
“Isto vai mal” (Segunda fantasia acerca da dignidade Ilhas perdem o homem.
dos homens) 99
Ideia da morte na Cinelândia (Terceira fantasia acerca carlos drummond de andrade,
da dignidade dos homens) 101 “Mundo grande”
Pleiteantes103
ah, o campo

i
Não sinto a menor falta do campo. Com morar lá tantos e tan-
tos anos (uma eternidade atentada), acabei por me render a toda
espécie de dualismo fácil. Envergonha-me dizer que houve para
mim, em algum momento, o campo – e para lá da rodovia, uma
cidade, o seu plural, acidentes (as estradas que nos cintavam).
Rapidamente se impôs a necessidade de rarefazer um pouco as
coisas, sutilizá-las – afinal, era uma vida que não se colocava, ao
fim e ao cabo, dava-se em qualquer canto. Suavizada a luz a que
me apareciam de costume estas questões, pude finalmente con-
cluir que toda terra é estrangeira para alguém. Reconheço, não
é difícil atinar com este raciocínio; há mesmo nele certo ranço
a lugar-comum; torná-lo uma segunda natureza – não precisar
remontá-lo a cada vez, por exemplo, que pego numa câmera –
isto sim me custou um bocado.

ii
Não sei se entendi a sua pergunta. Você quer dizer estes retratos?
Não, não sei quem os bateu, são meus irmãos, foram passar o
ano-bom no sítio de um amigo. Sim, parecem muito felizes.

9
um mau amigo das viagens as cidades antevistas
(“o dia hoje está que é um córrego”)

Bom, nada mais absurdo que meu vulto rondando essas rodo-
viárias do interior do estado, acorcundado sob a mochila grande Se ele não volta,
demais, pernas desfraldadas de altos bancos de concreto –, balan-
çando, balançando... (ele não volta)

Mas isto à primeira vista. Uma agradável sensação – afetação, bem depois,
como quiserem – de continuidades decorre de estar num lugar e,
e por que não? É uma aventura grave –, concreto armado, obras
logo em seguida, noutro. Talvez se trate de uma cidade abando-
de sapa –, além do mais, faz bem pouco tempo, falávamos
nada às pressas, feita para se abandonar às pressas, de improviso,
assentíssimos
com firmeza de decisão tão absurda quanto a mochila que agora
lhe pesa sobre as costas; talvez se trate de uma cidade que – como sobre o tempo. Como tornou-se certeiro. Com o tempo. Como.
insiste em dizer aos amigos que lá foram cavar a vida –, nunca lhe Sucessão de disparos. Como quê. Corretivos. O tempo
fez favor nenhum,
bom, sejamos francos, que diferença pode fazer agora um par de
muito pelo contrário. anos?

Quem sabe? Partidas bem mais improváveis despencam sobre Aqui pode-se fazer tudo a pé. Gosto das bibliotecas. Se ao menos
todos, todos os dias, basta olhar em torno. A você, mau amigo a prefeitura parasse de deitar cafés sofisticados por toda parte.
das viagens, a quem o simples ato de se deslocar de um canto a O problema
outro de um saguão envidraçado parece, no mais das vezes, intei-
ramente impossível, outro destino não caberia. é que ninguém nunca nos perguntou o que julgávamos belo.
Ninguém nunca nos perguntou sequer o que julgávamos
Como se não bastasse, ao longo das estradas percorridas de noite necessário.
espaçam-se lugares ainda menos definitivos. Como é difícil acre-
ditar que cidades inteiras se abrem por detrás das paradas, dos Que mais poderíamos fazer?
banheiros das paradas, dos sucessivos espelhos em que meu rosto
Não tínhamos escolha. Não éramos aristocratas.
vai se embaçando –, estes banheiros onde invariavelmente se pensa:
isto é possível, não é bem eu, este percurso é inteiramente possível.

10 11
furore o anverso

Esta é simples, encarnada, não como aquelas que se esgueiram Acreditava-se à época que os bebês eram feitos em moviolas, e
por debaixo da mobília, entre os tacões do sofá, vozes tão esvaídas vivíamos as certezas da forma e do ritmo como se tivéssemos, de
que sequer vão dar à janela. fato, o corpo vivo, e dentro deste golpes de vento divinais que nos
avançassem pelas presas dos parques com a noite já alta.
É certo que tem andado um pouco desiludido, mas agora as pala-
vras aderem à superfície, escrevem-se, ao passo que as investidas Lembra-me um vigia que nos acenava com o quepe e abria os
anteriores jamais resultaram em coisa parecida. portões para que pudéssemos passar. Dizia-se então “fôlego”
para dizer uma série de outras coisas que com o passar do tempo
Antes, um cão que ladrava dobradamente para um terreno devo- foram silenciando de punho próprio.
luto. Havia vitrines. Os quintais em declive de velhas senhoras.
É sem reverso o silêncio que volta a recamar o parque. Sobre o
E também o nosso próprio unívoco reflexo no cromo da chaleira. banco nossas mãos já recamadas de formigas; adiante o barranco
Tal & qual, os assassinos espalhavam-se pela relva baixa e febril, e seu turvamento. Observamos.
até onde a vista perde notícia.
De onde a onde nos chega algum estrondo de cidade conquis-
Vê-se que era uma noite como outra qualquer. Nada volta de um tada. Falo então dos insistentes acessos de tosse do tipo que alu-
porão escuro para contestá-lo. A despeito de seus gritos, a casa ia gou o quarto ao lado. Os tranquilizantes já não dão vazão. Ora,
sempre silenciosa. mas que horror.
Hoje ele grita com a certeza de que pode tornar habitada uma Pois bem, pois bem, o “horror”. Escuras as voltas à volta dos par-
casa. Ele grita, meneia os quadris, pinta uma parede de vermelho. ques –, legião as unhas que raspam distraidamente o verniz dos
Não vivo mais, não amo mais ninguém. bancos. À volta dos parques, árvores coçam-se há meses sem
pregar olho.

Adiante, o barranco. O seu turvamento. O “horror” sem volume


que se dissera. Crianças que não mencionamos por pudor de
viciá-las. Adiante, o vigia ao tentarmos girá-lo à saída.

12 13
relato de uma terrível domesticidade e as atrizes de má morte

Há quase cinco anos repete-se pelos meninos do 303 esta Lenta, excruciante comédia de passar à frente do armarinho três,
mesma música indistinta. Quando vão turrar no terraço recordam quatro vezes, que as outras possam ver como vai bem, ainda que
sempre maus atores, maus atores desempenham dentro ou fora nos papéis de travessia sofra infinitamente uma Mérilin, estaca
dos meninos do 303 a mesma música, já não sei se diria indistinta, numa pedreira, parada –, nada soprando do metrô.
mas isto não é o pior.
O pior é a literatura. (Salta de um segundo piso a voz da moça a serafins. “É música
Como mãe desvencilhada de seus específicos em algum clássica”. Ah.)
parque de diversões estrangeiro, dia e noite desfaz-se pelos À mostra as raízes pretas, o fraco por Grapette e drops tangerina,
corredores – “onde estão os meus meninos”, “onde estão os meus também os seus excessos (constataremos) fatais.
meninos?”.
Há quase cinco anos quero dizer aos meninos do 303 que À mostra é uma pedreira; armarinho do outro lado, sol do meio-
tratem de crescer as barbas, à literatura que não lhes permita em -dia; os uniformes de que fora despedida na semana anterior.
hipótese alguma voltar para casa depois do primeiro divórcio,
que acho todos obscenos. À mostra os dedos de vime, noutra as mãos de velha, engan-
Há quase cinco anos meu coração ensaia pedir licença aos chando retrato do único Tom –, do único Dick –, do único Harry
colcozianos, às vadias de internato, aos crooners de quinta que a quem sobremaneira amara
tanto lhe pesam –, pedir-lhes calma por favor tenham calma –, um
dia reencontraremos todos as mesmas vagas ideias de abandonar
a casa materna.

14 15
ilegibilidade ilegibilidade ii

de como os da antessala me induziram em erro Um idioma até então desconhecido, sempre nos preocupa a
“Não hostis”, pensei, “consonantais” questão – até que ponto conseguiremos chegar “com nossos
estaria pigarreando ali no canto não sei mais quantas horas próprios pés”?
não fosse um senhor de bigodes fartos dar acordo
e um silêncio de cabala tomar o bar pelos pulsos De raro em raro, ele areja um pouco a lição. As intrusões
os bigodes destacaram-se do grupo dialógicas, por exemplo.
menção para que os seguisse “Que horas são?”, “estou muito atrasado”, “para que lado é o
sim através de umas portas pesadas de mogno obelisco?”
uma peça de iluminação reta
claro aberto no meio do turfe Nunca nos adiantamos muito às locuções emergenciais. Não era
o alinhamento impiedoso das mesas soa uma nota de refeitório tão mau professor, contudo, ignorava – uma emergência pode e
[escolar frequentemente tomará sobre si termos os mais imprevisíveis.
entregue à mocinha do avental
uma mesa ao centro a porta a meio caminho de fechar Meus colegas de classe não atinavam bem com isso. Baliam
àquela altura porém a do avental já devia ser outra exaustivamente para o quadro-negro –
talvez uma gêmea embora não saiba de quê
“Leve-me ao consulado”, “leve-me ao hospital mais próximo”,
“Como é bom sentir-se amado”, pensei
“leve-me ao consulado”
o cardápio redigido em caracteres nativos
O abatalhado do idioma a vir, como um chinelo eclodindo na
garganta. Como nos torna imperativos, bárbaros, bárbaros,
repitam comigo –

“Eu fiz reservas para hoje”, “eu devo partir às oito”, “eu não entendo
o que você quer dizer”

Não era tão mau professor. Era um carrasco, um golpista, um


vilão. Não tinha nenhuma alegria no erro. Todos os outros eram
um pouco para os lados.

16 17
“todas as histórias, mesmo aquelas que não vão A questão que se põe –
muito além de seus próprios desvios”
O que fazer o que fazer das memórias de infância daqueles que
não nos amam, dos que não alcançamos amar

Senão as mesmas palavras de onde nos lançamos


Longo tempo sem compreender a doçura com que me falavam Todos os dias
as debacles.
repatriadas
Incrustação de turistas na praça em outrem idioma –, impermeá-
veis bege, obstinados no outono, ninguém

chegaria a um acordo.

Todas as histórias, mesmo aquelas que não vão muito além de


seus próprios desvios, precisam ambientar-se em alguma parte.

A questão que se põe – em que região do olho transcorre esta que


acabamos de contar? No branco, no azul?

Uma vez desligado o abajur,

que é feito do homem forte que nos olhava diretamente ao umbigo?


Da amiga que, sendo a última a deixar o escritório às quintas, pre-
cisa atravessar sozinha os mais longos corredores, cuida

que as sombras não

respinguem?

De uns trens
quando havia dois nadas
dois ou mais nadas
de uns trens que dividiam-no em dois
parentes remotos que viveram e morreram numa estação
[ferroviária azul

18 19
um seleto círculo de amigos autorretrato a partir de uma praça

quem se perde de suas rendas brancas?, perdia-se Com certa frequência nada nos ocorre
com uma parede. O rosto tão pouco de pertinente
interrompia alguma coisa na luz muito assinalada. a dizer –, A dado objeto,
O único traço que se colocava era o reforço reage-se às vezes com o próprio objeto,
fuliginoso sob os olhos, era assim e desde sempre mais nada. Repetir uma praça
era assim: o filho se avistava apenas talvez prosseguisse alguma superfície
quando ela abria a boca um sismo sob a voz indefinidamente.
uma criança a cada intervalo entre as canções A isto chamamos, de hábito,
surgia ele agarrava-me o ombro: “estou tão cansada”. duração –, o que ainda não nos foi tomado,
Ato contínuo, entrava a dançar dizem, desiludem-nos
de novo e abandonadamente o vinho branco de novas relações,
saltava da caneca, das poças que assentava tentarei durante muito tempo.
no assoalho vinham subindo sempre Não convém desistir, muito arriscado desistir.
novos convidados (Desisto.)
Sinto que há sobre mim uma clareira muito pesada.
Que me deito sobre ela, ipsis verbis, durmo
como se me candidatasse a um cargo importante

20 21
insignificância Eu sou o filho ônibus do Kapital.
Às vezes me pergunto como certamente você

você
Vá trabalhar, anjo. você
Nenhuma paixão é realmente capaz de substituir o álcool você
afora, talvez, o dinheiro. e este homem espigado atrás de mim –,
Foi assim que construí meu império. quem vem lá? A visita inesperada de um moinho.
Probidade. A Perseverança.
De repente ficou tão humilde que mal consegue deixar o terraço Tão fora de esquadro com as dimensões desse sótão.
quando Um homem bem-nascido pode se dar ao desfrute de ser paciente.
a chuva quebra seus primeiros frascos de amônia na calçada, Quanto a mim, sigo em minhas devoções.
os anjos infiltrados na mureta Acho que nunca encontrarei uma saída.
dão um dó, diz O cansaço
que emborcou dois imóveis no Flamengo em menos de dez anos, saiu-lhe aos braços, a voz
ali perto da praia. saía-lhe uma fazenda branca.
Repete. A cara toda pegada de sólidos.
Repete para você ver
que não me faltam experiências.
Vê-se logo que é um sujeito incapaz de se sacrificar por coisa
[alguma.
Vê-se logo, um aventureiro, às vezes
tomar o caminho mais longo, aquele
que passa pelos botecos que assombrávamos à época.
Ponho a cabeça na chuva,
já não reconheço ninguém.
Galgando ladeiras sempre com grande tormento para todos.
Pois bem, onde já se viu um Wunderkind de trinta anos de idade?
A última crise de fé espocou nos idos da graduação.
Em dado momento vi-me forçado a abandonar a cidade, tão
[exausto
andava de parabenizar os meus.

22 23
os solitários convincentes para estar onde ora se encontra. Agora uma
pequena crispação.

Os dias.
Os solitários se erguem de brusco, agarram-se às traves, as pál- Os dias repartem-se em pequenas crispações, acessos de tontura.
pebras cerradas numa chama casta. Talvez, talvez delirem ao de Os dias agora estão amenos, frescos, bons para passear os dias.
leve quando puxam o cordão que deterá o coletivo na próxima Então, ele caminha, palma a testa, a palma brilha, a palma ardida.
parada. Um delírio coletivo, talvez, os solitários. Delirantes de Veste azul, mas seria preciso olhar bem de perto. É um risco que
pureza, saltam para uma bela manhã de outono, muito fresca, ele não corre.
muito amena (onde estiveram escondidos o verão inteiro?). Uma
canção, a começar por seus ouvidos, vai mudando-se num sopro ***
irregular enquanto atravessa o crânio, jatos de ar intermitentes Mas como terminaram dessa maneira, esses postulantes, esses
que passam, não sem alguma dificuldade, pelos lábios crestados. entes sem recompensa? Não terão mesmo ninguém neste mundo?
Porém, o som desaparece pela aspereza da língua, de todo o apa- Nenhum parente, nenhum amigo, nenhum amante? Não. Todos
rato bucal. Os solitários então buscam abrigo à sombra projetada se foram. Sem dúvida, seria preciso olhá-los (aos solitários) mais
pela marquise de uma agência bancária. Baixam as cabeças, pas- de perto – mas como, se todos se foram? Estão sempre fugindo
sam manteiga de cacau. Lançam um olhar amoitado à gente que para algum recesso sujo, pela falta de alguma pastilha, alguma
passa na rua, à gente que se enfileira frente aos caixas automáti- desarmonia no desenho do piso. Sempre que dispomos de tempo
cos. São, a despeito de si próprios, um pouco obscenos. para eles, escapam por alguma fresta, alguma irregularidade azul.
E no entanto, quando estamos ocupados, quando estamos às
***
voltas com nossos cuidados cotidianos, eles reaparecem, fazem
Umedece os lábios, a mão direita tapando-lhe o trabalho à boca. visitas intermináveis, querem-nos por confessores. Falam, fala-
É como se tentasse mastigar, tendo apenas poucos dentes, uma rão sempre, sem parar, com a condição de que ninguém lhes dê
generalização perigosa. Por ora os olhos ainda estão fechados. E ouvidos. Dessa maneira deixam-se ficar, trauteando sobre nos-
depois? Abertos, à procura de algum recesso sujo, uma pastilha sas cadeiras de balanço os seus crimes sem importância. Quando
que falta, uma desarmonia no desenho do piso. Sua expressão é finalmente voltam para a falha de dentro da qual rastejaram, esta-
intensa e concentrada, um tudo nada combativa. Isto não é novo. mos completamente esgotados, tomados de uma comoção surda.
Está lançando âncoras, busca fixar-se, esforça-se por vencer a
leve, porém persistente desorientação que parece acompanhá-lo ***
onde quer que vá. Precisa de ajuda. Não sabe se poderá aguentar- Os solitários... onde estiveram escondidos o verão inteiro?
-se muito mais tempo dessa maneira. Já se distrai o tempo todo
de cuidados que deveriam, de há muito, habitá-lo. Com frequên- (Uma falha azul cortando toda a extensão de um deserto branco.
cia assustadora, sente que lhe faltam motivos verdadeiramente Nenhum anseio conciliatório na paisagem).

24 25
Mas como terminaram desse jeito? Não terão mesmo ninguém? âncoras, fixam-se nos ombros de um rapaz tomando açaí na mesa
Nenhum parente, nenhum amigo, nenhum amante? em frente. Certamente estará voltando da praia, não estão todos
voltando da praia? O rapaz na lanchonete, o homem no ônibus,
Não, todos se foram. sentado no banco ao lado, a obscena maranha de veias em sua
Nos bares, nas lanchonetes, nos cafés, imensa mão tapa-lhes o têmpora esquerda, o ônibus atravessa um deserto branco. Baixam
trabalho à boca. Eles sabem. Deixam a sombra projetada pela os olhos. Tapam a boca.
marquise, retomam o percurso por calçadas cada vez mais estrei- Agora sim, sentem-se revigorados. Erguem-se de brusco, agar-
tas. Quase colhidos por um ônibus em alta velocidade. Talvez ram-se às traves. Pensam na lentidão que há nessas pernas e bra-
estejam um pouco febris, talvez seja apenas o calor do verão que ços jogados sobre a faixa de areia escaldante. Na total negação
não se dissipou de todo. Há sempre qualquer coisa que não se dis- dessa calma, dessa pequena desordem, tão vital e acolhedora.
sipa de todo. O percurso retomado entre ônibus, vagões de metrô,
carros, motocicletas, tudo indo a uma velocidade terrível, rápido ***
demais, como se não houvesse uma curva logo adiante, rápido Os solitários se erguem de brusco, de manifesto, dispostos a pagar
demais para eles. Com que propósito observar tantos compro- com a vida.
missos inúteis? A pergunta é uma afetação ingênua (se ao menos
não soubéssemos os motivos). Apenas de raro em raro erguem a
cabeça, talvez para as copas das árvores, placas de rua, mas que
serventia teriam neste caso? Talvez para tabuletas, passam sor-
rindo aos cães impassíveis, não têm um sorriso bonito. Poderiam
reconhecer-se uns aos outros pelos sorrisos, esses distintivos, a
desfiguração neles, talvez. Mas fazem questão de passar longe dos
seus. Os solitários se evitam, não vão se irmanar a outros soli-
tários. Eles se medem nas esquinas, no saguão de um cinema,
numa farmácia, na seção de hidratantes labiais: reconhecem-se,
acham-se possíveis, e este pensamento lhes é aterrador, o que só
à primeira vista nos deveria parecer inexplicável. Rapidamente
retomam a caminhada, contrariados. Trocam de calçada, ten-
tam não olhar para trás. Em tudo se portam como se tivessem
escapado de um perigo mortal. Sim, a solidão dos outros, eles
sabem, de raro em raro olham para o alto. Revocam a calidez
de um corpo, a ideia de um corpo, não dentro deles, não uma
extensão deles; uma separata. Fixam-se nos corpos fora, lançam

26 27
os ilhados “Posso viver num quarto em qualquer lugar do mundo”.
Mas a questão, cumpre repetir, não é tão simples quanto amar
a cidade, quanto amar ou odiar a cidade, esta cidade. Há – mal ou
bem – a questão da sorte, diversos pormenores a acertar, preferia
A hora parecia propícia à descoberta de que havia no mundo praias de seixos às de areia? Gostava de neblina pelas manhãs?
impulsos ainda mais vitais que o amor e o ódio. Gostaria de acordar todos os dias e ver um farol pela janela do
“Não”, ele observou, “está entre as pedras, depois da amurada, quarto? Agradavam-lhe as narrativas em torno da ilha? Viveria
lá embaixo. Está entre as fendas no calçamento – onde o confete num farol, para um farol?
mina, há meses, em algo estranho e nobre”. A dor não chega de todo – na onda opaca, longa travessia,
Àquela altura, o céu revestia-se de azul bastante denso, quase indigência das barcas.
elétrico – logo involuiria para uma mesma escuridão tufada aqui Havia um visco de sol sobre a água. Agora ele atravessa a
e acolá de laranja – qualquer outra noite de verão. Refletia então ponte e desce as escadas de granito até alcançar a estreita faixa
na possibilidade, na mera possibilidade de abandonar aquela de areia branca. Escusado fazer pala com as mãos. Os barcos
doca, aqueles pequenos barcos nus entre os quais tinham-no continuavam oscilando a uma distância irrisória, seu corpo lhes
encontrado há pouco. Decerto o sangue demoraria um pouco rendendo âncora. Teria ouvido uma voz áspera, cascalhosa, recla-
mais até alcançar os pés, suas pedras – nos joelhos havia uma dor mando para si aquela praia e aquele tempo esterilizados pela con-
ainda distante, do outro lado da baía. templação. Naquela profundidade, a areia já não se dizia “branca”.
Ela não tinha pressa, assobiava, até. Partir ou ficar eram um Agora ele não consegue respirar.
mesmo lugar sem matizes. Mais ao sul, ele lembrava, o clima é
bem mais amigável, mas quando o tempo clareia, abre, agulha, o
sol parece perturbadoramente próximo, busca apoio aos ombros
de quem passa. No entanto, poderia ainda salvá-lo uma grande
inspiração, pois se as coisas
não?
se as coisas ao redor
não?
se as coisas ao redor já se tinham mostrado capazes de impro-
visos tão notáveis... Algo muito parecido haveria de acontecer
no instante em que o sangue preenchesse as solas por completo.
Caminharia.
Sempre muito espalmados pelo calçamento irregular, os pés
fincavam hastes, bandeiras que se recusavam terminantemente.

28 29
uma visita Pisamos as tábuas amolecidas pela água. Em certos pontos da
casa, o assoalho está tão carcomido que já se formam poças. No
quarto de despejo, minha irmã cerra os punhos diante de uma
eletrola quebrada.
Calculo mal a distância quando me inclino para beijá-lo e gol-
No quarto de despejo, minha irmã cerra os punhos diante de um
peio a testa contra a torneira. De uma altura muito grande, sou
velho troféu de equitação.
conduzido de volta à mesa da cozinha, na mão direita um copo
de laranjada. Gostaria de saber se minha irmã também ouve o No quarto de despejo, minha irmã cerra os punhos diante de um
rumor a água corrente, mas temo que a pergunta a deixe ainda meteorito imprevidente.
mais agitada.
Trata-se, naturalmente, de uma provocação.
Enquanto me aplica uma compressa à protuberância que se for-
Por fim, estamos de volta ao quarto de nossa avó. Folheamos jun-
mou na região atingida, observo-lhe que, a cada ano, cresce a
tos antigos álbuns de retratos. De dentro de um deles, assoma um
impressão de que meu corpo está fora de proporção com relação
panfleto de uma casa de roupas italianas situada em Montevidéu,
ao mobiliário dessa casa.
impresso em 1949. Tomo o panfleto nas mãos, inspeciono-o por
Ela diz ter a mesma impressão, e ajunta, brusca: “Respira-se mal alguns instantes, por longo tempo rumino o convite estampado
entre os acontecimentos”. no cabeçalho – “visite-nos sem obrigação”.

(Continuando meu raciocínio –,) Visite-nos... visite-nos sem... Trata-se, naturalmente, de uma
provocação. Porém, por alguns instantes, a frase exerce sobre
Surge em suas mãos uma pequena faca com cabo de marfim, com mim uma leveza tão pouco habitual que me esqueço de todos
a qual ela rompe o laço que amarra as pesadas cortinas da sala. O os elementos imediatos da cena. Cerram-se os punhos diante da
cômodo, no entanto, não parece reconhecê-lo. Em seguida, põe-se água que cresce, o rumor de água à nossa volta, aos nossos pés.
a observar o movimento dos carros do lado de fora. Logo ficamos tão sozinhos, tão separados quanto querem nossas
lembranças.
“Quando eu era pequena, tinha de ficar na ponta dos pés para
enxergar a lagoa por essa janela. Hoje em dia, se fizer isso, corro o Quando dou acordo de mim, tenho as mãos sujas – 1949 –, coço
risco de me desequilibrar e cair lá embaixo”. distraidamente a perna esquerda no lugar onde um mosquito me
picara na noite anterior.
(Por alguns instantes, fico desconcertado com a facilidade com
Horrorizado por esse descuido momentâneo, peço licença às
que ela me exclui dessa memória de nossa infância. Porém, não
minhas companheiras e volto correndo ao banheiro. Abro a tor-
posso julgá-la. Sempre que me vejo obrigado a retomar esta casa
neira. Lavo a ferida insistentemente. Neste leva-e-traz, acabo gol-
também me vejo sozinho).
peando o pé esquerdo contra a borda do bidê. Perco o equilíbrio.

30 31
Procuro apoio na bancada de mármore, mas meu pulso escapa, os irmãos
subitamente rijo. Uma unha se desprende, salta na vista.

Minha irmã cai de uma altura muito grande.


Um seu irmão é possível? Poderia replicar as circunstâncias? Em
que contexto acaba de dizer: Descartes era um cretino, fodeu com
todos nós? Com que autoridade, em que circunstâncias? Um seu
irmão, será possível, o que é? A acreditar-se no próprio,

uma coisa finita olhando isso tudo, rubrica entre designer e


monge, cuidados ritualísticos com a moto, recém-saídos da
concessionária, identidade crescente com quebra-molas, curvas
fechadas, agarre-se bem

“Não temas agora nenhum inimigo, quer entre as pessoas, quer na


natureza. Colocamo-nos todos em tua defesa, todos nós garantimos
a tua segurança, cuidamos incansavelmente de ti, porque somos
irmãos, somos todos teus irmãos, e somos numerosos e fortes”

Poderíamos replicar as circunstâncias? O telefone batia


antigamente, campainhas disparavam, disparavam portas,
disparavam vaga-lumes da fiação defeituosa. Poderíamos replicar
as circunstâncias?

Café posto sobre uma das águas do telhado. Trincando torradas,


a moto já submersa.

Um seu irmão pergunta, Por que você voltou para casa?, um seu
irmão responde, Recuar para melhor saltar, meu bom homem, um
seu irmão pergunta, Por que você voltou para casa?, um seu irmão
responde, Recuar para melhor saltar, meu bom homem, um seu
irmão pergunta Por quê

32 33
nesta ordem começou a procurar – sem sucesso, felizmente – por nossa janela.
Recuo discreto para a zona sombreada, a dama até então oculta
irrompendo da transversal. A princípio um borrão pastel no canto
dos olhos, foi centrando-se cada vez mais, e à medida que ganhava
Você me pede para contar a história de novo. Não há muito que o primeiro plano ia lançando-lhe à cara diversas imprecações con-
contar, na realidade. Todas as canções poderiam, em última aná- tra a juventude num castelhano ofegante. Vez por outra fazia men-
lise, chamar-se São Demais os Perigos Desta Vida. Porém, não ção de ir embora, erguia a própria camiseta deixando entrever o
sendo este o caso, o único expediente que nos resta é prosseguir. abdômen musculoso, como se fosse enxugar as lágrimas. Não pre-
Medida. Humildade. O pátio ainda não anoitecera de todo. Ainda cisávamos de binóculos para ver que era tudo encenação, ele não
nada anoitecera –, nesta ordem. Fazia um tempo agradável para chorava, o cachorro, era um cachorro. Ela o chamava. Algo a res-
meados de dezembro. Já ia anoitecendo e a janela do quarto recém- peito de um churrasco. Um churrasco? Sim, parece mesmo impos-
-alugado dava para uma pacata rua sem saída, um pátio interno, sível escapar a certas e determinadas fórmulas. Além do mais,
os fundos de outro edifício, ou seja: tomara a decisão acertada. devia ter-se em muito boa conta para achar que poderia deixá-la
Arranjara-se bem, não queria sair, não sabia se abria aos domin- assim na esquina, berrando sozinha. E lá ia ela sobre espetos e
gos, pau comendo na esquina defronte. Um rapaz e uma moça de sobre espelhos barrar-lhe a passagem. Pela veemência com que
dezessete, dezoito anos, se tanto. Mas nós estávamos em cinco, tingira as maçãs do rosto entendia-se que estava se referindo aos
apinhados à janela, e a postos. Apesar da tensão generalizada (a meninos que comemoravam no posto de gasolina. É provável que
atmosfera estava irrespirável), a ida foi relativamente sem Deus. isto dure até de manhã cedo, quando, finda a serata, os convidados
Alguma coisa a respeito de um churrasco, alguém tivera conduta se retiram e Ester comenta com Lola: “Veja só, você de fato tem
imprópria ao longo de um churrasco. Um churrasco, ele pensa, amigos nessa cidade”. Agora dão-se as mãos e vão para debaixo
depondo os binóculos sobre o parapeito. Difícil acreditar que do texto, mergulho sincronizado, sorrisos cúmplices enquanto
ainda existissem pessoas tão jovens. Ela, uma arquitetura senho- levam os pratos para a cozinha. Porém, nada realmente restou
rial sobre saltos espelhados, parecia resoluta que não. O conflito daqueles disparos sucessivos salvo a palavra jóvenes, percutida
deve ter principiado no trajeto de volta, foi preciso brecar a mar- no blush, nos arcos bombardeados das sobrancelhas. Ela cravou
cha em alguma esquina e esperar que o sinaleiro desse passagem. o que ainda tinha das unhas no pulso em torno do qual ele enro-
Na sacola plástica, o pacote de bolachas recheadas de doce de leite. lara a alça da sacola plástica, e tudo em volta dissolveu-se numa
No instante em que o rapaz ergueu a mão, Ester – cuja voz jamais água morna e barrenta dobrando esquinas, avenidas de atropelo,
ouvíramos altear-se para além de um sussurro – deu sonoroso os do posto trepando esquifes improvisados. Não éramos os úni-
berro de “Polícia!”. Enquanto aguardava (arranjara-se bem), repa- cos enxurrados. Lanhando-lhe ainda e sempre o pulso, peço que
rou que o posto de gasolina na calçada oposta estourava de torce- não vá embora tão cedo, asseguro-lhe que em breve tocarão a
dores corintianos, comemorando uma vitória que lhes ocorrera nossa canção. Ele olha pela janela – bom tempo para dezembro –,
– a todos, naturalmente – mais cedo pela manhã. O menino então janeiro –, fevereiro –, março...? –, decide dar um pulo ao merca-
estufou o peito, lançou o queixo insolentíssimo contra o edifício, dinho e comprar um pacote de bolachas. Assim não precisará ir

34 35
mais tarde até o mercadinho comprar um pacote de bolachas. Mas as cidades antevistas
como conseguirá chegar até lá sem pontos de referência, com mais (“como o rapaz que é de fato”)
da metade do comércio da vizinhança fechado? Apaziguador, ele
nos recorda do posto de gasolina. Diante disso, todos respiram
aliviados, sacam de seus telefones e chamam táxis. Estão felizes.
Não estão felizes. Não sabem da onda barrenta subindo a ladeira. Tento seguir o seu exemplo. Quem sabe assim não recupero o
Parece mesmo impossível escapar a certas e determinadas fórmu- sentido de lugar.
las. Contudo, ele já se localizava com muita segurança pelos arre-
dores, raramente (quase nunca) se perdia. Voltar às graças dessa cidade. Passear, preparar um relato o mais
circunstanciado possível de tudo quanto veja, ouça etc.

Mas também desta vez a história me foge. As ruas desatam-se


umas às outras. Não há nenhum rosto de abrigada. Não

que a cidade negaceie. Raramente não é o pino do dia.

No entanto, a forma sob a qual nos aparece – sob a qual desde


sempre nos tem aparecido – é a de um punho colhido pelo meio.

A vida inteira passamo-la pregados a um par de braços que se


atiram a

Meio arco, desobrigando-se, adiante

Há sempre um ombro que trunca violentamente meia volta. Vejo-


lhe a beira, quase nada além. Em tudo e por tudo trancado,

margeia as grades do Passeio Público.

Nunca será como um gesto, tantos quanto um gesto.

Como não reparara ainda na enorme estátua de Gandhi?

Diz que é posta ali não é de ontem.

36 37
verão (calistênicos) esfaimado, reclamando sempre mais amabilidades, mais e mais
bons votos.

Ó criança amarfanhada, arrojada como um telegrama sobre a


Então espreguiçadeira de vime
temos dias como este – acorda, à falta ó bode, traçado carmim no tronco do salgueiro
de termo mais exato, procura acordar, consulta verbetes ó telegramas, ó visitas, ó boa gente que para sempre corre rumo
o verão às quadras de tênis
o verão põe guizos
o verão um peso em torno “esperem por mim!”
a vida em seu costume mais chanchadesco
estes dias de todos os lados iluminados

dá um passeio pelos arredores do terreno e vê, enroscada no


arame farpado, uma sombra que reconhece imediatamente como
a sua. Assente com a cabeça. Continua a caminhar.

Uma compacta nuvem de


pendurado a um braço do salgueiro, o saiote enfunado da suicida
pregressa
de volta ao jardim, Nicolau-aliás-O-Bode torna a assumir uma
postura desfaçada, dissimula sua impaciência servindo-se de
mais um copo de sangria.

Ele rabisca numa ficha pautada algumas opções: A Tortura da


Vocação, A Vocação Torturante, Vocação e Tortura.

Assente com a cabeça. Continua a caminhar. De volta ao salão de


livros, sufoca entre telegramas amáveis. As respostas, igualmente
pródigas em bons votos, ele as pousa sem muito lapidá-las sobre
uma salva de prata enferrujada. Em seguida – e há que lembrar-
-se dos guizos – depõe a salva no elevador da copa. Pressiona
um botão vermelho; o elevador desce; em seguida, assoma vazio,

38 39
os piores anos de nossas vidas (aproximações) já faz quantos anos?, pouco depois de conhecer Daniel, Dagmar
abandona a União Soviética em circunstâncias “menos que idíli-
cas”. Mesmo hoje em dia, não é incomum que se rejeite sua pro-
dução no exílio como autoindulgente
i.
v.
Por um breve período de tempo, ei-lo o homem que se debruçava
sobre a amurada e via a água colear um antigo slogan revolucio- Triste, genuinamente enraivecido por não conseguir pensar em
nário, se bem me lembro, “é preciso explorar sistematicamente termo mais bíblico para “autoindulgente”
o acaso”. Segue-se a este outro breve, espocado homem, homem
sentado a um banco de praça, homem que em sua grande maioria vi.
vem se dedicando única e exclusivamente à tarefa um tanto árdua Agora meditemos um pouco nisso. Meditemos um pouco nas
de voltar a si –, isto já faz quantos anos? Ora recusas que não nos envaidecem

ii. vii.
Nicolau é mesmo de uma indelicadeza imperdoável quando É preciso fazê-lo, é preciso fazê-lo sem emporcalhar a água.
Reconstrói passo a passo uma velha e esboroada fantasia: dirigir-
iii. -se continuamente às escusas do outro, sendo as escusas do outro
Ressalva, ao pé de Dagmar (ao pé de Dagmar serve-se de mais um aquilo que –, no outro –, trama continuamente às voltas com ten-
copo de sangria, ressalva), que não acredita nem em reproduções tar tornar o exílio em
de quadros nem em poemas traduzidos, porque “a arte é muito
método
ciumenta, há que buscá-la em casa”. De resto, trata-se de encon-
tro amplamente documentado, um grande acontecimento para o
cinema, um grande acontecimento para o “mundo cultural”, um
viii.
grande acontecimento para Não é sem alguma vergonha que me pego fazendo agora essas
ponderações. Ontem, ao telefone com Daniel, tive ocasião de
poucos concluir que estou fazendo tudo errado (novamente). Eis a
hipótese –, a hipótese –, a hipótese –, que desencadeou todo o
anos depois
processo: embora não tenha feito outra coisa ao longo do verão
afora minutar neste caderno de maneira mais ou menos fidedigna
iv.
o pouco que lhe costuma acontecer a cada dia, é certo que não
Ela abandona a União Soviética em definitivo – segundo artigo encontraria o que dizer caso alguém lhe pedisse para descrever o
que traduzi ano passado, pouco depois de conhecer Daniel, isto que de fato está se passando neste exato momento:

40 41
ix. do verão, pode-se afrouxar. Este, como se sabe, foi um bocado
pior do que o anterior – que, por sua vez, foi um verdadeiro
Uma parede branca à minha frente é dizer a vizinhança do outono
inferno comparado ao de ‘79 – que eu já julgava ter esgotado todo
é dizer o que se passa comigo neste exato momento com a maior
o cristianismo de minha outrora mansíssima natureza, que
frontalidade possível dirigir-se àquele outro no outro àquele
outro no outro àquele outro até mesmo em Daniel aquele outro
encruado no outro que precisa sempre tomar o voo das nove e
xiii.
meia urgentemente Isto vai retrocedendo, retrocedendo, até já não fazer mais sen-
tido algum propalar por aí asneiras como este realmente não foi
x. o nosso ano.
De resto, pensei que a renúncia papal acabaria por devolver à Vergonhoso, sim, vergonhoso
ordem do dia os insultos do espírito. Acreditei (ingenuamente,
concedo) que esta seria minha segunda grande chance como falar de grandes vacâncias dentro de uma cabeça, vergo-
nhoso como descobrir à base da nuca uma nova e diminuta dor
xi. que só vibra inconteste quando rimos ou engolimos um pouco
Meus amigos, inteligentes e cínicos como médicos legistas, pen- de saliva,
dem para o cinema. Dizem: “cinema”, dizem: “há mais cinema
vergonhoso como voltar de uma longa viagem de mãos abanando
nisto do que naquilo outro”. Certamente desejariam ouvir que me
circunstanciei com a cidade novamente, à força de uns quantos
passeios pela Urca ao anoitecer ou golpes de vento na Cinelândia.
Poderia, então, ocupar o lugar que me reservam à mesa, suspirar
de cansaço diante do rocambole – afinal, ninguém tem dinheiro,
– seremos nós os aventureiros? perdoarão um dia o nosso recato?
com que poetas, minha mãe, com que poetas? – afinal, os aventu-
reiros grassam. Contudo, falando estritamente, não me foi dado
ver coisa alguma desse deserto, dessa terrível, terrível lentidão –
aparecem-me sem propriamente imagem, ainda e talvez perma-
nentemente irrepresentáveis, o que também não quer dizer muita
coisa. A propósito

xii.
Daquela sequência de “Nostalgia” em que o Erland Josephson
ateia fogo às vestes, diremos apenas que já falta pouco para o fim

42 43
“eu que dediquei minha vida inteira entendo minha irmã esse velho ressentimento diante do mutismo
à perseguição do sublime” [dos objetos
o mutismo dos objetos como ofensa pessoal
os objetos calados as pessoas matracando
os objetos calados meu cunhado matracando
fiz urra o que seria de mim “a poesia precisa ser assim a poesia precisa ser assado”
agora aqui se está bem mana não entendo por que você não separa
meus pais regressaram de um cruzeiro às “ilhas amigáveis” [desse cretino
[anunciando o desquite isto não vai melhorar assim de uma hora para outra
foi cada um para o seu quarto não saem de lá faz três meses por é preciso dar tempo ao tempo às vezes nem a lua me parece
[falta de camisas limpas suficientemente distante
fui obrigado a instalar-me provisoriamente em casa de minha irmã acho que tudo será muito lento daqui pra frente
a tese emperrada muito lento meu irmão e trabalhoso
os olhares atravessados do meu cunhado
mal chega da universidade já está
a esvaziar os cinzeiros que fomos enchendo ao longo do dia
[esvaziar os cinzeiros
concertar com um terno que a lavanderia apronta para as três
segundo meu cunhado minha irmã andava fumando apenas três
[cigarros por dia antes da minha chegada
“sua irmã tinha finalmente conseguido reduzir os cigarros do dia
[a três um após cada refeição”
eu que dediquei minha vida inteira à perseguição do sublime
eu que como um coelho como uma lebre através dos campos
[como um
que me sinto tão grave e sem remédio quando tenho nas mãos
[um abridor de latas
peço mana mais um cigarro mais uma manta vou sentar-me na
[cadeira de balanço
aqui se está bem
há dias acompanho a lenta fiada de uma aranha que a uma quina
[da janela da sala tece coplas futurológicas

44 45
resultados milagrosos não consigo cogitar dos fatores que levam um Indivíduo a optar
[pela Medicina
(ele pretende, de fato, reembolsar o atual amante de sua esposa
[pela passagem?)
“Meu filho adolescente anda a ler os estoicos”, ele disse e afinal quando eles chegam não configura exatamente distensão
uma janela domina pelo contrário
(não há outra palavra para) resta sempre engatilhado o medo de folhear aquele antigo volume
relutância em admitir que a luz é âmbar [e reencontrar-lhe uma mesma inflamação nas amígdalas
(sendo as velas um perigo para o edifício inteiro) não comigo só (o caso de tão brandos reencontros)
então escrevi a meu pai o médico a caminho do cinema, vejo-me obrigado a explicar para minha
não excluía de todo a possibilidade de uma hérnia [mãe que nossa última entrevista não foi triste e sim
era Lídia construtiva
quem me respondia agora era “é bom que a casa fica mais arrumada” sim
o olho direito que mais que ela faz?
ou seja, a cirurgia ela domina (não há outra palavra para) certo configuro de muros
vou perguntar mais uma vez “de quem é essa letra?” [e telhas
meus irmãos, bem entendido, não disseram nada e as cheíssimas sombras da vizinha bromélia
tiveram outra criação concordo –, isto não é vida
não pude me conter quando ele se confessou triste por estar sente-se nos quadris a troca de estação
ausente do consultório há mais de uma semana retiro o casaco de seus referentes
(estranho, não? a vida fora contemplando um bocado esta planta é de mau tom
[monasticamente minha família inteira resolve colocar as diferenças de lado e
a ideia do suicídio [reunir-se num armazém do cais do porto
para ser acometido tão logo divisasse a curva dos trinta por esse no intuito de me alertar para
[– como se diz? – “insuportável desejo de viver”)
não, talvez não
lançou um olhar um depois do outro sobre eles e disse quero a
[sua idade
“será possível sem o recurso às cifras?”
não eu não vou descansar
não eu não vou descansar até que
não vou aceitar não como não vou aceitar como não como não
[como resposta

46 47
os hóspedes perfeitamente capaz de deitar pelo Salão Topázio uns juízos
[continentais acerca da vida, de como se deve tocá-la.
(A vida é
A arte é
Dois anos. Mas parecem dois anos. O amor é
Uma família, talvez – todos não-fumantes – O remorso é)
ignoram a insígnia, o serrilhado de dentes Uma história íngreme.
sobre o braço da cadeira As camareiras refaziam, em silêncio, toda manhã.
alguém tomará assento. Começará uma história íngreme. “Melhor abrir uma janela”, pensei, acendendo por descuido
o bêbado que abraçava os postes da ladeira
“Tudo o que aconteceu foi um trator, e, sob a minha janela, berrava – “quem é o protagonista?”
... uma colheitadeira?” Então pude respirar. Vesti o pijama e fixei detidamente o papel de
[parede, sem compreender muito bem a estampa que se repetia.
Telefonam para o saguão. Desejam saber se as janelas só abrem
Pensei nestes dois anos, sem tampouco compreender a estampa
[aquele tanto.
[que se repetia.
O tipo da gente populosa, amável, demanda de muito ar.
Pensei – “ser livre, meu amor, livre, a última primavera do
Sobre a mesa já não há nada de terrivelmente aceso.
[significado... !”.
Fumaça, poeira, almofadas esventradas
avivam o espaço, dão a conhecer
as palavras Mudou-se-me o nome de um médico.
eram – “quem é o protagonista?”. O cão, como disse, é recente.
Inamovível, atravessei a seção de luz, o papel amassado na mão
[direita.
Ao tentar empurrá-lo pela minúscula abertura da janela, vi subir
[a ladeira do hotel
um bêbado que enlaçava-se de poste em poste,
berrando... Em cada poste
detinha-se o traste, o bastante para retomar o fôlego
– o quarto não era feito de outra coisa –,
logo arremetia ao seguinte. Teria escapado (o dia seguinte),
não fosse por um enguiço fortuito na porta giratória.
E no dia seguinte, ao café da manhã, alguém se sentirá moderno,
i. e.,

48 49
contrafeitiços à hora do chá,
civilidade e peçonha,
a esta hora
em que tudo fraqueja,
Algo que já amamos, confio a você, meu amor, esta hora,
algo esta hora de lata
que certamente já foi amado e peças,
por nós, começa a lata com as peças,
a estreitar a casa o tabuleiro
depois do anoitecer, sobre a mesa,
coloca seus ângulos a mesa,
em causa, pela janela as cedências do terreno,
da sala, o quintal perde a você, ainda a meio
nomes, para revertê-lo do caminho, quem sabe
reviro palpando o molho de chaves,
a lata de biscoitos ladeira a meio,
onde guardamos pensa,
as peças de gamão, quem me atira essas coisas?,
operações simples quem me atira essas coisas?,
que me devolvam, imagine,
ainda que escalpelado, meu amor, os objetos
à língua materna, perdendo
a esta hora, agouro, resquício algum
às janelas de contrariedade,
que não param de afundar, poder então tocá-los,
reviro de fato tocá-los,
a lata de biscoitos fechá-los em caixas,
onde estariam guardadas as peças mandá-los,
para sem a menor consideração
perder os passos por sua história íntima,
do tipo alto para um novo
que o convidava endereço, eu
para o chá, poderia morrer aqui,

50 51
você dizia –, eu –, o meu namorado
poderíamos morrer aqui,
você
abre a porta de casa,
dá comigo de era muito bonito
olhos cravados lembrava
no tabuleiro,
imóvel, um boneco de cera
com gesto de algum cantor famoso
infinitamente amoroso
veste as costas bonito como alguém que volta
da cadeira que precisa voltar
com o paletó, suo porque esqueceu
frio (cachecol, luvas)
e censura de comprar água sanitária
em silêncio meu
otimismo –, ó venha meu amor
algo que já amamos, respirar ao meu lado as montanhas
algo que ainda amaremos, azuis ademais
começa a estreitar a casa esquecemos de comprar
pouco depois do anoitecer água sanitária

quem em sã consciência
chamaria isso aqui
de “montanha”

seus lábios – devidamente retificados


por gélidos ventos
de agosto – mudam-se agora
em ventrudo móvel
espécie de canastra

52 53
(galgar – galgar a) vida & martírio
dolorosa retratação
dos lábios – o travo
de água sanitária
a cabeça uma zurrada Relatou ao doutor
de sintetizadores como vinha reescrevendo,
os seus amigos de uns tempos para cá, o impulso
de escrever. É como se
os meus amigos eu ouvisse um disparo longínquo
em algum lugar da vizinhança,
nossos amigos convém não investigar
rumavam a fundo. Cogita brevemente colocar
depois do acidente sua fogueira sobre a moça
para a sala de estar sentada na poltrona
logo à frente, acontecia-nos
abriam uma garrafa de vinho (a todos) de Groucho adentrar o saloon
ligavam a tevê e abancar-se ao lado
de um beberrão desmaiado,
na sessão de meia-noite perguntar: “Já não fomos apresentados
uma ginasta em Monte Carlo – na noite em que o senhor
soltava-se da barra estourou os miolos?” O alto da mudez
e partia-se ao meio e petrosidade dela, isto o fez indagar-se
ao aterrissar o que viera fazer ali dentro
(ela ali, dentro no mundo. Reiteradamente)
eu buscava a giros nos falam o quanto
cada vez mais bruscos do molinete são inofensivas as pessoas
trazer de volta à enseada que entram em cinemas sem ligar
os anos adiante muita atenção ao que estão levando,
querendo apenas morrer
meus dedos soltavam-se ou pôr ordem às ideias, o que,
um a um pensando bem,
não seria a primeira mentira.
eu não sentia a mais leve coisa Depois, reentrado

54 55
em seu direito, remói-se “não tem por onde se lhe pegue”
por não tê-la apanhado de volta,
porquanto são três os tempos
do fogo: primeiro, o tornar
puro – ao segundo deita-se a ideia Trabalho num edifício do governo
de uma continuidade obreira, um, fronteiro há
por assim dizer, “trabalho” – sendo um jardim do governo
o terceiro acarretador de cessações onde aleias do governo
as mais violentas, há
buio omega a tudo abocanhando listas caramanchões do governo
de pendências, certificados sob os quais
de vacinação. Ele disse: “não a lonjura e o desperdício namorados do governo
do símbolo, mas” cantam o caput
do contrato remiram firmes
reivindicativas flores
onde
abelhas há
que rebentam
rebentam de apólices
suspeitas
onde há velhos onde
cerram-se
rijas enfermeiras do governo
para que não se tornem
das mesmas carpas
que as crianças
chutam
seixos cercas estacas
formigueiros há
onde
atiraram-se ofícios acesos
há polícias bom
não são mais do que os rigores

56 57
do lugar não terás sido
dentre os quais Saturnino
uma planície sustentada (não são mais)
por enferrujadas mãos Saturnino
francesas (do que os rigores)
já não se conta nada Saturnino
de propriamente meu tirante (do lugar)
umas duas trombas Saturnino
d’água o mais
(uma à entrada o mais
outra pontualmente [...]
mais adiante) poupado?
& essa diabólica quisera
inflamação pôr em tudo
das bolsas sinoviais que fiz uma cidade
até mesmo a bengala uma ameaça
tomei-a de empréstimo uma mal
a uma amiga -pronunciada oubliette
cuja mãe – mas
& agora minhas mãos tremem
amparo-a contra imperceptivelmente
um coqueiro do governo sobre o cilindro cinzeiro seguro
um pouco penso terei o aspecto de quem
à laje das coisas acaba de perder uma vogal importantíssima
rebusco os bolsos como “a” ou
onde os cigarros o quanto antes
onde o isqueiro rezar um léxicon
onde as migalhas na intenção destas senhoras de jaleco branco
& minhas mãos (tremem sem comboio de colírio
imperceptivelmente) ou lencinho alavandado
cogito de todos os homens parecem extraviadas de longo jejum
que morreram à procura tomam
de sombra distraidamente

58 59
por uma língua morta um funcionário
& de dentro
gritando
fogo
& de dentro Agora que voltei ao escritório, voltarei também ao lirismo?
gritando Dobrar-me-ão de passagem para a copa
fogo as vergas
(já não parece d’O Cântico dos Cânticos, As Mil e Uma Noites,
que foi ontem) certa nota de jornal enfiada à carteira
fizemos soar a versar sobre a infinita divisibilidade de Homero
as alarmas de incêndio agora com postulados algébricos?
nada disso companheiros Ora, merda.
é culpa minha A quem cantarei agora estas maravilhas?
pergunto-me
fixando abobado um glossário de termos petrolíferos
uma fotocópia
largada sobre minha mesa, encarquilhada de manuseio
(falando-me do manuseio, falando-me a muitas mãos. Quase
[tomando-a por algo belo)
gongo à garganta da ascensorista
“desce”
uma malha de corredores vazios, espalha-se a ordem por
lajotas de mármore
maravilhas?
Coisas tão miscíveis em seu próprio tempo,
que tipo de operação as dissociaria de tão entramada geral?
Eu tratava o divórcio entre as coisas.
Eu tinha tempo.
Estava ainda por topar a palavra Absoluto
em meio a uma interminável lista de aromatizantes...
(Era embasbacá-la, era – sim, um dever moral).
A quem cantarei agora

60 61
Óleo absoluto de rosa damascena tempestades, vícios
Óleo absoluto de rosa damascena?
Bem que me disseram que esta era a cidade das coincidências,
que não havia meios de escapar,
que, como toda a gente, eu ainda reencontraria no metrô algum que tipo de megera
[velho me tornei o tipo que
conhecido dos tempos de colégio
abotoado dos pés à cabeça, roufenho a certo
que eu ainda seria levado a pensar, forçosamente, na amigo escavado ao
[fraternidade dos homens,
nestas partilhas ásperas, acaso a um café: e tu também
minudentes, te cansarás um dia
levadas a cabo no mais entalado silêncio.
Eu sabia destas coisas. de responder a e-mails
Julgava-me – em alguma medida – preparado. em redondilha menor deus
Inclinava as pupilas com a luz branca,
recebia dócil, alegre até, de que misericordioso
o beco trabalhado em minha testa. rasgo! meus olhos
Mas eu olho para baixo e o que vejo, ao fim do dia, são os
[sapatos de um outro. em tudo excedidos enfim
O verniz de um outro. cifram-se neste cigarro

queimando entre
os cigarros, os amigos

a quem tento me
explicar há anos

serão sempre antes?


depois o canteiro

perquirido segue breu


de qualquer palavra

62 63
sua que me pudesse sob uma marquise, 26 de outubro de 2014
consolar desta bateria

de romances em que o
sono me atirou só Já não há tempo de explicar aos pósteros
o que foi uma videolocadora
dou por um gesto Certos mares, talvez
de resto um bocado laborada exalação de sua tristeza
São certos mares, pálidas montanhas
largado já mal se divisa concorrentemente tristes
através da manhã E também certas ilhas pegadas ao solo apenas pelos nomes
A esta longa elemental tristeza
poucas as coisas Opõe-se esta outra
que hoje me ocorrem Tão breve e, em última instância, dizível quanto
hálito
em verso, entanto que se raja contra uma vidraça
busco há anos adiantar-me Sob uma marquise,
ao abrigo de chuva repentina,
ao gesto É claro, uma situação, madrugada
surpreendê-lo Noto que às minhas costas há uma videolocadora
E ao ler a placa
à esquina adiante Últimas semanas, venda de estoque
dizer –, tempestades, Quarenteno uma emoção, admito, um tanto burguesa,
ao reparar no piso axadrezado,
vícios, vejam, através das grades,
tudo é trabalho ladrilhos, suponho, ladrilhos
pretos, brancos
Sobre um sábado chuvoso, exíguo
O lugar é exíguo, subitamente inunda
daquele leve pasmo de pessoas que não sabem ao certo o que
[fazem de seu dia
apinham-se diante da estante de Lançamentos
lamaceiam pegadas

64 65
(sobre pegadas) (sobre pegadas) que a ultrapasse uma banca de cachorro-quente
sobre o piso axadrezado um ônibus vazio
Haverá tempo ainda risco branco
tempo de falar aos pósteros sobre os funcionários velocíssimo destino centro cai
das videolocadoras às minhas costas
sua beleza sem vigor, seu imperioso tédio, uma videolocadora prestes a encerrar suas atividades
sua juventude – sempre truncada – sempre truncada, Eu penso alguma coisa afinal
não? Eu penso
Já não há tempo, Coloquemos diante da história uma pequena pena de
afinal, [videolocadoras
preteridos pelas montanhas, Coloquemos diante da história também esta pequena pena de
tornaram-se tão provisórios quanto sempre nos pareceram [videolocadoras
Rápido, rápido acaba-se o tempo das explicações, há estas Rápido, não há tempo de explicar aos pósteros
montanhas (o que são os invólucros do meu tempo? O que é este objeto negro,
com e sem tempo [cassete na clareira?)
E depois de se extinguirem, a lua Coloquemos também na história
sentada algures sobre a vertente de uma montanha
a marquise, sob a marquise coberta de ladrilhos
junta-se a mim um casal que espera a chuva abrandar pretos e brancos
Com efeito, a chuva abranda, passados
dez ou quinze minutos
O casal parte
Provisório, capa mais branca que
cai, recebe-o em sua queda
a montanha, penso
(Eu
estou
pensando)
O momento não
é tão oportuno quanto sempre nos deram a entender
Pense novamente
Ninguém nos espera –, RÁPIDO –, ninguém espera
a chuva

66 67
numa lanchonete, final de 2012 O que revém este momento?
O que revém esta rua, este bairro, esta cidade, não estou
sempre a nascer?
Procurando exasperadamente acomodar
Penso no homem que inventou a meia-noite. o ar, a luz,
A escarpa extática de seu nariz ao inclinar-se. a ruminação nestas bocas?
O ato de inclinar-se, A fome? a devoradora banalidade dos saciados?
fazendo cair o cascalho, costa abaixo, Também naquele momento,
catalogar, condenado, como todos os outros, a vir abaixo,
representar no espírito os salgados expostos na estufa, havia já algo que vinha abaixo,
a luz branca que os mantinha, como que à força, em seu lugar. um punhado de pedriscos
Das duas entradas de uma galeria em “u” despencando no mar,
efluía então certa ideia de movimento humano, a luz branca a escapar
síntese daquilo que viemos a entender como natural dos freezers, das estufas,
(“o mundo natural”, “a ordem natural das coisas”). das vitrines.
Estas pessoas que saem, que entraram, sabe-se lá por onde, A luz branca já voltava à carga.
ninguém dá por nós, Nós levantamos. Nós pagamos a conta.
este comércio estreito na luz branca,
esta galeria,
a luz atravancada de galerias, estufas, refrigeradores,
eu repito: natural.
Eu repito: as coisas representam-se no mundo.
É da ordem natural das coisas não revermos estas pessoas.
Não as vimos.
Nenhuma delas, por sua vez, reparou em nós.
Nenhuma delas nos interpreta, nem mesmo agora,
como o sítio de uma grande devastação futura,
cerca desigual,
corrimão carunchado,
arame
embrulhando
a fronteira.

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a consciência, a consciência por lança um braço de rocha pela gola
porque breve extrapolará o quarto a canção de amor do tecido
[desfeito
porque se rompe um braço uma perna ou um outro acordo
um hábito [qualquer
e agora
preto, monacal,
já somos tantos
ilhas de ranho e porra –, e troca-se
a consciência por um par que somos grilos, corujas,
de olhos um bocado hermafroditas, cracudos, chineses que escrutam o loteamento
amanifestos voltam-se [vizinho
ao rombo na porta do banheiro à procura de um terreno para a construção da nova sede do
por onde os bombeiros arrastaram-no [consulado que somos
sábado passado tantas criaturas de fábula
tantos infelizes aguardando com perfeita paciência
os olhos o momento da fábula
os olhos cortados cerce

ouve-lhe ainda a patrícia rosnadura


diante de uma planta aproximativa do shopping eldorado
outro

esbugalha-se à janela do quarto às duas da manhã


e outro que ergue o bisturi cansado
do semimorto que vem escavando há horas vislumbra
um outro emparelhar-se com Veneza
a caminho
do barbeiro

por fim, uma dessas ilhas que vêm figurando tão insistentemente
[em nossos últimos e-mails

70 71
onde cair morta Há sempre graves consequências para portas e janelas, e o senhor
meu pai certamente convirá, meu trabalho tem que ver em sua
essência com descuido.

Fui uma criança feliz, possuidora de suas solidões –, assim dizem Eis a única concessão que não me disponho a fazer – não reco-
os leks quando entram a pensar em voz alta sob os toldos dos nhecerei os seus parques, os seus cães, os seus espelhos – não os
bares. reconhecerei. O meu trabalho talvez não interesse a ninguém – é
uma hipótese, aliás, bastante cabível –, mas eles... ora, eles...
Agora, no entanto, e o senhor certamente convirá, minha situa-
ção é deplorável. Decresço talvez da espessura de um tule, um e se não se deixarem aplacar nem mesmo pela minha ausência?
barbantinho deveras penitenciado, e todos concordarão já não
sou a mesma tipa que… Sei que breve darão por encerrada minha estadia aqui – impos-
sível prever que pretextos, que perjúrios, ocupo-me disso com
contudo todas as fibras do meu ser mas continuo sem compreender o que
onde os meios de aplacá-los? exatamente se espera de mim.

Dão-me a entender continuamente que o pouco que peço da vida O que posso dizer é que a atmosfera torna-se cada dia mais rebar-
não é absolutamente razoável. Dizem também que não sofro, que bativa. Dentro em pouco encontrarão algum motivo para me
não há razão, que se não o admito é por volúpia e perversidade. desalojar; minhas economias acabaram; não tenho mais ninguém
Então, não sofro. Não sofro. Mas também não sei mais o que fazer. no mundo a quem recorrer. O senhor não me receberia em sua
casa, talvez em junho, julho, o senhor não me faria a caridade de
Passo os dias pateando com a barriga. Assim não se vai muito um cantinho para organizar os pensamentos?
longe, mas insisto – não reconhecerei essa cidade. De resto, já fiz
concessões demais. Há limites para tudo. penso que

Não bastou um só marinheiro. Houve um mar rebocado de Prometo ajudar nas pequenas tarefas da casa, acompanhar os seus
branco, pensei, e fui abaixo. Quando voltei para a minha mesa, meninos até o colégio, se é que já não estão na universidade, os
contava com certa ancestralidade que antes não tinha. Os da casa, meninos. Eu não sei. Tentarei, tentarei me envolver, naturalmente,
naturalmente, não souberam como reagir. dentro dos limites que o senhor achar por bem colocar.

Toquei para o quarto me lustrar. Além do mais, parece-me que há muito postergamos um íntimo
acerto de contas.

72 73
Eis, portanto, uma bela oportunidade que o senhor me daria de o homem sobrescrito
conhecê-lo um pouco melhor, uma oportunidade talvez de tro-
carmos raízes, apesar de todos esses anos que passamos alheados
um do outro.
A começar por um homem. Este –, não ultrapassa uma lauda,
Sou a primeira a reconhecer que fiz um casamento infeliz, que o curso de alguns breves parágrafos –, é perfeitamente possível
desperdicei os melhores anos de minha vida com empreitadas vê-lo pela primeira vez.
absurdas, irreais. Tenho presente o tanto de desgosto que dei Que eu o veja pela primeira vez.
àqueles que só queriam o meu bem, e que minha reputação neste Ele é conforme –,
Eixo não é das melhores. Não serei merecedora, contudo, de uma uma carruagem fantasma? Estará vindo em meu auxílio?
segunda chance? Ora, os senhores nunca têm nada de muito esfíngico a dizer
quando venho pedir ajuda para o aluguel, tão logo dobro a
O senhor certamente convirá em que trilhou caminhos os mais esquina improvisam meu antigo quarto em oratório. Passam-se
tortuosos até encontrar a felicidade doméstica. meses, anos me embotando –, tempo ao longo do qual não me
lembro de coincidir com nada.
Não serei merecedora, contudo, de uma segunda chance? Insisto.
Mas o senhor me recusaria? É perfeitamente possível vê-lo, seja, não revê-lo, não guardar
Mas o senhor não me recusaria a caridade de um canto para pas- deste homem a mais remota lembrança.
sar o inverno. Os senhores e seus campos reencarnados; seus olhares de
obsidiana compaixão.
Já nada me ocupa tão ferozmente quanto o esforço de não
reproduzi-los – aos campos, aos olhares – quando me volto ao
homem sobrescrito, a essa pequena dianteira de palavras. Afinal,
como gostaria de dizer-lhe – tampouco eu,
tampouco eu enxergo alguma coisa em torno de si
Mas com tantas léguas de permeio, é improvável que me faça
ouvir.

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as mães em chamas quê? Sinto-me culpado, não sei que derrota tomar, rebusco em
mim mesmo algum escrúpulo de lealdade. Afinal, exaspero-me
também. Tenho inúmeras pendências a resolver, se não me ocu-
par delas, quem terá a caridade de fazê-lo por mim? Não é exata-
Desde que pôs os pés aqui dentro, já quase não tenho forças para mente razoável ressentir-se de alguém a quem se ateou fogo, mas
visitar ninguém. Isto deve ter sido em fins de março. De lá para tente compreender –, o proprietário nos deu apenas dois meses
cá, não houve um só instante de paz. Abro a porta e lá está ela para devolver o apartamento nas condições em que se encon-
– a mãe, em chamas. Tento me explicar, não posso, não estou trava quando nos mudamos, e além do mais, meu corpo sem-
em casa. Mas ela passa por mim estalando, senta-se no sofá sem pre dana-se todo da mais leve flutuação climática. Já o corpo de
dar acordo do que digo. O que é, mãe? É dinheiro? Precisa de minha mãe, envolto que está em labaredas que se erguem até ao
dinheiro? São os tranquilizantes? Eu não tenho tranquilizantes. teto sem exatamente recuá-lo, parece irredutível. Eu e ele nada
O que tenho? Receio que as línguas de fogo acabem se alastrando podemos. Ela também, tampouco se consome, ela nem nada.
pelo sofá, mas parecem inteiramente circunscritas à sua figura Como nada se consome ela e o fogo e eu e o fogo e ela e o fogo
breve, acaixotada. Ela já não foi assim, evidente, houve tempo e eu seguimos gesticulando exasperadamente, ocupam horrí-
que não era assim –, como nos comove pensar que houve tempo veis guinchos eletrônicos, adejam pela sala pedacinhos negros
que não era assim, que eu não andava tão ocupado –, da missa –, de papel fotográfico. Murilo volta da despensa visivelmente irri-
a metade –, coloco a distância avisada. Longo tempo permaneço tado. Tem nas mãos uma vassoura e uma pá. Sempre referi-me
chegado à porta, a mão sobre a maçaneta, o rosto voltado em sua às polaroides do parto como “um banho de sangue”. Ó mãe, devo
direção. Minha mãe se volta com o fogo para mim. Minha mãe tremer? Posso tremer?
se volta com o fogo para mim. Minha mãe faz com o fogo inúme-
***
ros gestos exasperados sem finalidade aparente. Crepita, estala,
balbucia. Sua voz rompe o mosquiteiro negro e ocupa com um Mãe, minha mãe, nunca escrevi poemas tão bons. Não peço que a
espesso ruído eletrônico. Essa voz, esse som, tão volumoso que senhora tente entendê-los, não peço que os esmiúce, não peço que
não consigo me acercar. Continuo chegado à porta, a mão na a senhora lhes tire, um a um, os fiapos de linho; peço que deixe os
maçaneta, o rosto voltado em sua direção. O que significa? Que fiapos onde estão; peço apenas que tenha fé, que acredite, como eu,
derrota tomar? Ela se volta com o fogo para mim. No corredor, que estes poemas poderão um dia nos tirar daqui. Passei boa parte
uma pinha de passantes. Limpo a garganta, tusso, peço descul- da manhã de ontem relendo cadernos antigos; posso assegurar-lhe
pas. Como é antigo este vaudeville. Devo pegar um balde d’ água, agora, mãe, nenhum sofrimento é razoável, ninguém nos tenta,
minha mãe? Devo tremer? Devo telefonar para alguém? Quer ninguém procura nos perder. Mais tarde, ao telefone com Murilo,
que eu prepare um escalda-pés? Pequenos pedaços chamuscados disse-lhe que podia agora acompanhar minhas próprias desven-
de papel vão saltando dela, antes de pousarem no piso riscado turas passadas com algum distanciamento, como se se tratasse de
riscam no ar uns adejos tolos – sei que se trata de um pedido, um estranho. Mas não se trata de um estranho, não, em absoluto.
sei que querem algo de mim, algo talvez importantíssimo, mas o É evidente que me reconheço – que me reconheço em cada gesto

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narrativo, em cada recorte; é evidente que não me esqueço de outono. Quem morará lá, eu me pergunto – quem morará em
nada, que não é do meu talhe esquecer. No entanto, anda por lá parte alguma? Alguém como você, alguém como eu, como nós?
uma ausência. Existimos, eu e ele, eu e aquele outro, em suportes Meu rosto voltou a dar coices essa semana, como não fazia há
diversos. Ele se deteve, não perfez (não perfaz) um ciclo. Mesmo mais de dez anos, e embora não seja possível escrever com espe-
àquela época, já se mostrava preocupado em fixar o tempo, bus- lhos, por vezes somos quase idênticos a nós mesmos. Falta pouco,
cava compreender as implicações; repetia de mim para mim, cada minha mãe, é preciso acreditar, falta pouco para que toda essa
vez que me sentava para escrever, repetia como um conjuro que a miséria acabe de uma vez por todas.
importância daqueles registros só se revelaria mais tarde, muito
mais tarde; que, em algum momento, aquele cheiro bom a alho Hoje sonhei que uma mulher chorava, aferrada, muda, diante do
que subia do apartamento logo abaixo se mostraria absolutamente túmulo de seu primogênito no cemitério de um vilarejo russo.
crucial; que eu me comprometia a continuar existindo, nem que
fosse apenas para acompanhar este processo, a vinda disto, a aber-
tura disto; que eu me fixaria aqui, que eu me domiciliaria aqui, até
que a memória se mostrasse, de fato, necessária. Foi uma espera
longa e acidentada, minha mãe, mas pude comprová-lo ontem
pela manhã: o tempo funciona, não descura de nada.

Essa é a última vez que me coloco em causa com tanta violên-


cia. Eu já tive muitas dúvidas; a senhora também, a Veneranda, já
deve ter sido acometida de desconfiança parelha, já deve ter pen-
sado que aquelas coisas, aquelas coisas não parariam nunca mais
de acontecer; que acabariam por fazer o barranco ruir; que aca-
baríamos todos soterrados e que um dia, talvez, um dia ainda nos
viriam importunar atrás dos usos e costumes de antiquíssimas
metrópoles... Enfim, talvez eu próprio não acredite tão piamente
nessas casas que tenho dito. São demasiado altas, demasiado ima-
teriais, quase não fazem sombra, é uma libração precária.

O apartamento ao final do corredor foi desocupado há pouco e


passa atualmente por uma série de reformas. Tenho parado com
frequência diante daquela porta, o mesmerefeito de sua brancura;
até a sujeira que se insinua pela fresta me parece nova, impecável;
pouco provável que rastejem dali folhas escuras e quebradiças de

78 79
dezesseis anos novamente Tendo dezesseis anos de idade, penso que algo ainda vai aconte-
cer. Estas observações, esta atenção indivisa e reverente às primei-
ras chegadas da manhã, tudo isto me parece encerrar um futuro,
um “modo de vida”. Isto é um modo de vida, penso eu – parar
Há uma dura simetria na cozinha –, tenho dezesseis anos nova- no meio do ruído, deste seguido balbucio que interpreto (equi-
mente. Uma dura simetria à medida que a manhã vai demovendo vocadamente) como sendo o futuro, e aguardar uma mensagem
de seus esconderijos os objetos da cozinha e um vago som a patas clara. Penso que, no futuro, ou melhor, a qualquer momento,
correndo para debaixo do armário. Isto tudo se cumpre com um me acontecerá uma mensagem clara. Como poderia discerni-la,
princípio de azul. A cúpula da igreja, entrevista da janela, tem vivendo como vivia em constante revelação? Porém, nada objeta
também um seu princípio de azul. Isto é de bom auspício?, eu me nada, trata-se de um único e mesmo princípio, e muito embora
pergunto, tendo novamente dezesseis anos de idade. eu esteja parado, absolutamente parado em meio ao ruído, na
expectativa de uma comunicação inteligível por parte do futuro,
***
estou também dançando, equilibro um drinque branco, doce e
Logo a casa inteira se vê sofreada, depois da cozinha, antes de leitoso na minha mão direita, percorro os bolsos da calça sem
púrpura, amarelo, vermelho. Nesta luz, como o princípio do encontrar minha carteira, tropeço de volta para casa agarrado a
azul, mesmo as imagens sacras da sala – imagens que tanto me um homem que, amanhã de manhã, aos trinta, vai me perguntar
punham nervoso aos dezesseis anos de idade –, parecem benig- como deixei a situação chegar a esse ponto.
nas, improvavelmente acolhedoras. É quase fria, a cor que beira
esses anos devolvidos. Mas eu já vi uma chama. Os anos por den- ***
tro queimam. Passamos pela igreja na antiga névoa azul.

*** ***
Eu já vi uma chama? Eu já vi a extinção de uma chama? Sim, eu Havia, naquela época, em torno de dez pessoas nuas no mundo
já vi uma chama. inteiro. Eu não era uma delas. Agora, há uma dura simetria no
meu cabelo – seu comprimento, o mesmo dos meus dezesseis
***
anos de idade – a maneira como reage ao vento, a mesma, ou
Tendo quase trinta anos de idade, sei que nada se contradiz, nada uma reprodução muito fiel da mesma. Penso que meu corpo é
objeta nada, trata-se de um único princípio, um mesmo princí- revoltante. Torno-me belo, torno-me um ai-jesus, um fim-de-
pio percorre tanto a cúpula azul da igreja quanto a devolução dos -mundo, um Belmondo. Mas a beleza é de configuração lenta,
meus dezesseis anos, e a manhã se fecha sem qualquer esforço custosa. Tendo dezesseis anos, penso que um dia acordarei e algo
sobre todas estas águas digladiando-se entre si. terá acontecido. Penso na beleza, penso –, isto está demorando.
*** ***

80 81
Eu me ausento por alguns anos. o pulôver
***
Torno-me um homem feio, um homem monstruoso. Durante
minha ausência, a casa volta para o seu lugar. Volto para casa, Este é meu pulôver favorito
para a minha antiga poltrona, passo um café. Penso em como sem um retrato
costumava tomá-lo com açúcar aos dezesseis anos de idade, em do meu pulôver favorito.
como costumava despejar colheradas e colheradas de açúcar no Roçam-se os puídos no trem,
café até torná-lo lamacento. Penso em como me agradava aquela caminho do trem,
mucilagem doce, peganhenta. Rapazola caprichoso, penso eu, parado no cabideiro.
não sem desprezo.
Parado no cabideiro
*** (ponto
Em seguida, ponho-me a esperar uma comunicação inteligível do de onde não se pode mais recuar
futuro. sem resvalar-se pela metafísica)
ele não faz
***
vagão,
Nas cerdas do pente sobre a mesa, um tufo de cabelo que se soltou. rampas de concreto
Eu me ausento por alguns anos. Tendo quase trinta anos de idade, do outono para o inverno,
penso que algo já aconteceu –, que algo não aconteceu em absoluto. nada.
***
Parado no cabideiro,
Diante da sala, detido diante de um cinza e princípio de azul. o pulôver não é senão
Eu já vi isso antes? Poderia replicar as circunstâncias? Penso que uma trama, uma entre tantas.
estou à soleira de algo, a configuração de um segundo rosto, uma
comunicação clara. Será agora? depois de tanto tempo? agora? o Neste pormenor, lembra um pouco
êxtase de desprender-se da forma desprender-se um futuro? “um uma valise prateada
modo de vida”? Os anos, por dentro, continuam queimando. Eu que me pediram certa vez para olhar.
já vi uma chama –, eu já vi a extinção de uma chama.
Sob os pés de outra pessoa,
*** já não sei que cor teria.
De chapa essa dança que nada contradiz, nada objeta –, nada. A
Desnecessário dizer.
borda azul do dia e seus interiores, inexprimivelmente vastos. Essa
Desnecessário dizer.
dança imóvel, azul, como se eu tivesse dezesseis anos novamente.

82 83
pulôver, ii se havia lá dentro
besta parecida,

não subiu
Atiramos um seixo para nos cumprimentar
para dentro do pulôver.
A lã ondulou,
concêntrica,
até a margem,
molhando nossos pés.

Afora isto,
que mais posso dizer?

Se havia lá dentro profunda


criatura a guardar
abadia,

médico de outono de província


encanecesse
numa plataforma de trem

um relógio, uma corrente, uma carta


da noiva a observar
os trigais de passagem
ou mesmo

trigais,

de passagem –,

84 85
“não é boa vizinhança afirmá-lo” “não é caso de se levantar”

Todos estão brandos estas são as estações brandas Eu não sei a diferença entre a coerência & a coerência &
a mãe um dos muitos pátios que urge varrer a repetição caligem fósseis conterraneidade ruidosa
ora sei que é preciso murar-se no verso
o poema algo à maneira de uma tosse
deve-se sentá-lo pelas quatro estações de um ano terrível seca e não consigo dar
o que nos diz o terminal quando para de ondear um décimo andar sobre nada cravado
do verão, procure ouvir de ventos frios
aqui está onde sinto-me perder a variante decisiva
quente morno temperado “minha vida”
aqui não há quase estações falando verdade foi que abriram tanto
o homem ordinário é uma tara, que muitos outros mundos são florão buquê parentético eu não sei
[esses? quem sabe a coisa que o vento
há um reparo amarelo aqui não há quase um clima avulsa de mim assina
fora o indulto de licenças poéticas um casario alegre & deitado
aqui o tempo está esplêndido escreve-me por terra. Onde sinto-me perder até as latentes
certa gente que não vejo há meses

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“não há uma só palavra para junho” quei giorni insieme a te

Como os hemisférios desvairam O mesmo acontece


entre si com a canção.
não há uma só palavra para junho, É aqui, sob esta arcada
nem mesmo de violinos, matam
julho, agosto, setembro, não há a pauladas e golpes
isto que há, que escrevo agora, de corrente a bruxa
“uma bela manhã”, do povoado,
isto que escrevo e numa língua a bruxa de quem
em que eu talvez não seja nascido, teria o descaro de dizer
oportunos azuis, amarelos, um poema da voz que chega
a que não comparecem a azul, tão sem grilhão,
testemunhas, uma luz que há mesmo certa graça
que noite de tão abobadante, enquanto
longe. Este é o planeta – já estamos arrasta-se a bruxa
consolados? –, ele se move do povoado, como de resto,
para criar um diferendo, outras não para de arrastar-se
plagas para fora do campo-santo
onde partir não significa a bruxa do povoado
bem isto galga a pequena encosta,
desce a melodia a pulsos,
mas tão logo alcança
o acostamento, os violinos
recuam à vista das mãos,
dos dedos esgalhados,
sujos (como tudo já foi
um dia) de terra e sangue
e a canção –
a canção
é como se diz.

88 89
a noite polar “façamos votos”
“Só um desejo de nitidez ampara o mundo...”
mário de andrade, do poema
Momento (abril de 1937)
O sol aguça já os cacos de vidro
sobre o calçamento, embora
Então não estamos exaustos.
escrito sem o sol com As bocas limitam com o mundo
a sempre muda superfície do café seus embrulhos prateados –, “paga
por caixas de papelão
que calam casa uma miséria e a burocracia
fora –, escrito é interminável. Que mais queriam
neste pé do ano?”. Contração da primavera
na gaze, na vitrina
espedaçada com até dar com os punhos cerrados
a vitrina espedaçada, sobre a mesa da cozinha. Solstício.
a fechar um pavão Os jornais.
de dias inúteis.
Então somos homens ao sol,
Deles, sabe-se apenas não somos?, homens no princípio
que virão outros de certo peso, desejosos de –,

às iterações reiterações Coisas caminhadas às claras,


deste mesmo tão distantes de adivinhas quanto
pulso e preparos estamos de uma pátria
para a noite polar –
mãe: Ao dar com os punhos cerrados
coxas, antes das mãos, lábios sobre a mesa da cozinha, desengasta a palavra
que industriamos “solstício” de uma folha de jornal
para a redundância.

90 91
desespero ii
Penso nos

muitos amigos que vivem em edículas sob o sol do meio-dia, vão


i para dentro, sombras que se recolhessem ao interior dos objetos,
Este sou eu descendo as escadas do metrô, tentando desemara- de dentro vão desmantelando umas ideias de cidade. Depois de
nhar a palavra “revolução” dos cabelos de Pierre Clementi, não é, muito, aprenderam a correspondência consigo próprios, estão
receio, tarefa das mais fáceis, (receio) –, satisfeitos, nunca imoralmente. Chegou-lhes esta idade como che-
gam as vassouras, os ancinhos, os cuidados com as provisões de
Mãos afoitas, olho nas mãos o piso que se acerca, paulatino, entre boca, não há palavra de consolo inútil que se agite ao pé de suas
os dedos. Este ano gargantas. São belos, movem-se, param a meio para retomar o
fôlego. Correspondem a si mesmos, é tudo. Quando os evoco, sur-
conheceram minhas mãos um tom de vermelho até então desco- gem a um canto de um quintal ensolarado, empunham uma pá de
nhecido –, incharam, cobriram-se de bolhas, depois cederam. As lixo, lenço branco à volta das cabeças. Apontam-me o comando
mãos: que torna o céu negativo.

conheci-as iii
Muitos amigos temporariamente recolhidos a joguetes lógicos,
estendidas, agarradas, espalmadas sobre a mesa de meu pai, rece- de dentro dos quais telefonam duas ou três vezes por ano, per-
biam, indiferentes, muitos versos sobre as mãos, que depois iam guntam, de dentro de seus brinquedos de montar, perguntam,
copiar. querem saber, não há nada de novo (com que graça evitamos a
questão, com que
As mãos estendidas, espalmadas sobre os mosquitos, recebendo
cedissimo arcaísmo, agora poetas, minha mãe, com que poetas?

esta –, sobre as mãos, a palavra “revolução”, nenhuma certeza se a vida tornou-se exatamente aquilo que mais temíamos), são as
quanto a que outra palavra encaixá-la agora. Nas mãos, pequenos velhas escaramuças de sempre, ainda que entre os dedos já come-
cachos negros, ressequidos, eu cem brancos corredores,

já começam a clarear as enfermeiras, já começam a acercar-se,


passo a roleta.
médicos de engomadas feições, levam-nos pelos braços a peque-
nas salas vazias.

92 93
As mãos. E não apenas as mãos. as cidades antevistas
(“quero partir. não partirei no horror”)
Aqui todas as formas fazem um punho. Alcançamos os nossos
passos, passamos juntos à mesma saleta, ouvindo por sobre a
conversa miúda o som das lâmpadas fluorescentes acendendo-se
uma a uma, as rodas enferrujadas de uma maca a carrear do lado
Quanta beleza não havia ainda
de fora
em negar –, circuitar compromissos urgentes –, desmarcar em
iv cima da hora. Toda essa conversa de parques, museus,

Aos amigos de dentro dos quais telefonam-nos duas três vezes bruscas cidades saltando de nós o tempo inteiro. Rigorosamente
[ao ano as mesmas que hoje encaramos um tanto torcendo as mãos.
Aos amigos que vivem em edículas sob o sol do meio-dia
Aos amigos temporariamente recolhidos a joguetes lógicos Diante das faltas levantadas pela delegação, nós nos perguntáva-
Aos amigos devolvidos num clarão hospitalar mos – que espécie de olhar teria sido suficiente? Não seria melhor
Aos amigos presos nos cachos de Pierre Clementi pôr logo um cão a tudo isso?
Aos amigos que me passavam sem aviso pesados refletores
Não, não
Aos amigos de olhos fitos na janela chuvarada
Aos amigos (eles repetem) se esquivasse instante sequer. Outra coisa não é que a letra da
“Isto acaba, isto acaba” insônia. Uma escuridão – dir-se-ia pela primeira vez – cristalina.
Total.

Para melhor ilustrar esse ponto, um obscuro explorador quinhen-


tista toma disposições, de seu leito de morte, para que se faça che-
gar a um seu irmão em Espanha “a sua derrota”.

94 95
fantasia acerca da dignidade dos homens Como parece tranquilo, afinal.
Debruçado à varanda, traz para dentro dos ossos a impossibilidade,
[embala-o (dentro dos ossos) o reproche maternal do tempo.
Remediado está.
Que fazia em meu lugar um homem digno, um homem de Remediado está.
[princípios elementais? Não consigo interromper a costura do fantasma.
Esvaziadas já todas as peças, põe-se a folhear a varanda. Mancheias de sangue no interruptor.
Volta-se ao corretor. Talvez sejam minhas.
“A vista é muito graciosa, decerto, mas com ela não se pode Que sei eu?
[limpar o rabo”. Ele é digno como os sonhos, mas ele se move.
Eis aí um homem sensato. Ele se move pela estatuária –, grotesca –, não há como contornar –,
Sensato, como se vê, jovial. [apalpa umas corujinhas de louça.
(Disse uma verdade, o firmamento não veio abaixo). Que fazia das medalhas, este homem, das medalhas?
Agora partem os dois em busca de coisa mais compreensível. Cortava-nos os pés?
A mim, deixam-me quieto. Cortávamos os pés.
Que mais posso pedir? Cortavam-nos os pés as medalhas, voltando da praia.
Em sonhos, no entanto, alteio-me ao centro da sala. Os anos já não comportavam tanta boa vontade.
Eis aí um homem sensato, de voz ancorada, voz que fundeia o Tanto “sacrifício”.
[navio. E no entanto, aquilo continuava.
Olhos fitos em cada um deles. Que fazia dos anos, fazia que não dava por eles? Que não tinham
Que faz este leme no canto da sala? O que quer dizer, que querem [peso, gravidade?
[dizer com isso? Fazia como os homens que levam num frasco a bala que por
Sou um homem. [pouco não os matou?
Destes que dizem coisas como –, “não saio daqui sem respostas”. Que fazia a respeito dos quadros, destes quadros com os galos,
Um homem digno, enfim. [por exemplo?
Este homem, que fazia este homem para tirar da grande revelação São odiosos, não há quem não o reconheça.
[a grande revelação? No entanto, pelo que sei, jamais moveu-se uma palha para tirá-los
É de supor que já se tenha defrontado em algum momento com [do lugar.
[o problema do teatro. Agrada-me a ideia do leilão, é civilizada (civilizada demais para
O problema da representação. [nós, se querem mesmo saber).
O problema da afirmação decisiva. Dói-me, no entanto, que os vestidos dela não conheçam o fogo.
Como terá resolvido o problema da afirmação decisiva? Creio tratar-se de um impasse objetivo.

96 97
Nada disto dançará selvagemente? “isto vai mal” (segunda fantasia acerca
Nada conhecerá a blasfêmia? da dignidade dos homens)
Não conhecerão o fogo
o leme
as corujas
os galos Os homens continuaram a tomar o bonde.
os malditos galos? Extintos os bondes, os homens continuaram
Vamos lá, respondam. a tomar o bonde.
Que fazia em meu lugar um homem digno? Extintos os homens, continuaram
Matava-se. com andaimes pendurados,
Ou isto ou sumia no mundo. enfileirando-se ante guichês,
espalhando sobre o balcão os tostões
resfolegantes, cobertos de suor, indagam ainda da saúde de
parentes,
amargam a descoberta de que certos bibelôs tidos como
inestimáveis deveres de um eco vão
cotados a preço de banana no mercado de antiguidades,
descobrem que as antiguidades são, antes de mais, mercado,
moram, mercadejam, amam ainda
que extintos os homens, definitivamente extintos
os meus dias de grande salonnière,
posso agora ocupar-me dessa questão:
que espécie de futuro toca aos homens
com andaimes pendurados?
Isto vai mal, isto vai mal.
Cobertas de onça, louras montanhosas
deixam o restaurante, crianças descaram, tossem
sobre a nova fornada de pães,
alguém – um estudante – seria lógico – acaba
de perguntar se a eletricidade já voltou ao campus,
o trocador vai mastigando sua piada de sucuri
até o ponto final,

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então despencavam, despencávamos para a rua. ideia da morte na cinelândia (terceira fantasia
Os homens fazem despencar. acerca da dignidade dos homens)
Tudo isto os homens fazem despencar.
Exausta literatura de Vans, ônibus, catamarãs,
exausta literatura de guichês de que
nunca exorbitamos, o abate do hábito –, a outorga do outro –, Ó morrer como Jó. Velho, “farto de dias”, todas as úlceras canceladas,
dançavam ainda os homens duramente em duros aros, duplicados os não sei quantos jumentos, pensa
malemal equilibrados sobre o naco do nariz miudinho ao chegar à Cinelândia,
quando e se dançavam, a tudo despencando, o espaço batendo-lhe em cheio, devolvendo-lhe então umas ideias
pelas praças concretadas, ensombravam na entrega, que não tivera tempo de aprofundar à hora do almoço,
enganavam-se quanto ao código postal. eis o que acontece a qualquer um que porventura venha dar à
Isto vai mal, já não pode haver dúvida, isto vai mal. [Cinelândia,
Por todo o trajeto de volta seja por que lado for, é o espaço, (o que acontece),
mastigavam fantasmas e ilhas, não se afazem, não conseguem esta irrupção sempre imprevista que vem testar o perímetro do fôlego,
formular uma hipótese quanto ao que virá depois que nos arranca em definitivo aos escritórios
de apartamentos, no azul noticiário onde vamos perdendo cotidianamente a razão,
jantavam os homens como jantam ainda, que é o último arranque, (testar o perímetro do fôlego), jorro
continuaram trocando de canal, continuam de espaço para aprofundar umas ideias
detidos, continuam de “boa morte”, muito espaço, muita ocasião
detidos diante de uma imagem em câmara lenta, para quem vinha já esboçando de ocupar-se do assunto desde a
a imagem de um esquiador a saltar de uma rampa, [hora do almoço,
continuavam observando o esquiador não pudera prosseguir, era esperado,
e seu salto para além de qualquer contexto, esperado em seus dissensos, em suas próprias miúdas predileções,
transferindo para o monitor os belos desusos do homem, era chamado sem demora a uma certa maneira plenamente
uma ideia de pureza, uma ideia de “gasto”, [identificável
pelo canto inferior direito de fazer girar a cadeira no acarpetado vazio da sala,
os homens continuavam reaparecendo, repovoando altear o peito, exprimir-se alto e bom som acerca de qualquer
a imagem a cada replay, [banalidade,
os homens aplaudiam, sim, em muito pouco tempo nos erguemos, em muito pouco tempo
aplaudiam a aterrissagem perfeita, [já está lá
os homens pensavam “os deveres de um eco” um reflexo, não se mata a pauladas,
não uma inquietação acerca da “boa morte”,

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a morte com que é recompensado Jó após longa provação, pois bem, pleiteantes
há gente que não mexe nessas coisas e passa muito bem e eu
entre elas e em meio a nós bordam fieiras de pesadíssimas fardas
mas antes
saber o que é “provação”, esboçar uma ideia clara de “provação”, Ao deixar o escritório, mete-se então por outra hipótese,
não deixá-la assim dependurada sobre a mesa do refeitório, suponhamos, após uma entrevista de emprego, posto que após
afinal, trabalhou duro o dia inteiro para merecer a gravidade uma entrevista de emprego há ainda que atravessar para a cidade,
[destas palavras:
reconquistar a morte de Deus. Morrer sob essa morte. firmar a vista, os nervos, compreender, compreender com mais
Ter uma visão da Cinelândia, livrar-se dela e depois adentrá-la, força, outra a coisa que nos pede agora, é outra a sua exigência,
eu entre elas e em meio a nós a cidade pede ser refraseada, o mundo, o mundo quando
as fardas pisando esta aberta hoje atada de luzes policialescas, desce, chocalhando palavras, não novas, raramente arrancadas
e como, como reconquistaremos a morte de Deus? aos glossários,

raramente postas em circuito com o verão, raramente


ascensorista adverte

que não podemos entrar com o copinho de café que nos


deram à saída, abre-se outro tempo no corredor, os pleiteantes
dão-se pressa,

lábios queimados na cortesia, baralham-se em torno da


lixeira, se

se mirassem, certamente o fariam com ódio, arreganhada-


mente, cada qual retendo em si o tempo do outro, barragem com
o tempo do outro, cada qual

uma dobra, um refolho, uma quebratura, capacho estendido


sobre a chave de casa, as portas deslizam com silêncio, sem mostra
de dentes, as paredes

do elevador, o elevador quando desce, são de madeira, são


todos,

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o revestimento lembrava madeira, despachavam-nos na nunca
portaria, palco de uma reforma que já parecia estender-se há
perguntamos-lhe então, que profundidade, que súbita ampliação
meses, que talvez não acabasse nunca, que se arremessava para
do campo acredita que ocorreria se os nervos de fato estalassem,
fora do edifício, a bem-dizer, uma ruína despercebida,
se se pusesse a gritar como um fulminado, um recém-converso,
pisava-se o chão esburacado e as mentes abriam minas até o dentro de uma sala de cinema quase vazia, não tendo voltado do
tapume, mais além o tapume, enjoativo tapume salmão que cerca almoço, nunca, metendo-se por uma sessão das duas,
a portaria e que é preciso
nestas circunstâncias,
atravessar todos os dias para dar à cidade, às calçadas, às ruas
perguntamos-lhe então que comoção cretina é esta ao
esburacadas à espera dos novos trens, cuidando sempre para não
depararmos, meados de abril, qualquer coisa
acertar a cabeça na borda superior, todos os dias, agora, todos
os dias, dura como uma tábua debaixo do braço, guarda-chuvas
virados do avesso espetando as gengivas das lixeiras do centro, o
a roleta cede à pressão dos quadris e os quadris com palavras,
corpo avessado, não resistindo, não tendo resistido,
não novas, raramente calha, entalhadura, rebite –,
não tendo voltado do almoço, nunca, sumindo pelos
dentro de um dos pleiteantes aparecerá a palavra rebite,
areais cinzentos dos centros culturais, na calçada esburacada,
aparecendo depois da palavra nervos, quiçá cedo demais
atravessada sobre um bueiro,
para aparecer a palavra nervos, adiantada a uns quantos diante da vitrine de uma velha joalheria, juntam-se dentes, boca,
pungentes esbarrões, coincidências, simetrias imprevistas, mas desgrenha-se o tecido, varetas saltadas para trás, para fora, o vento
isto não tem importância, apareceu a palavra nervos, consequente
perguntarmos-lhe então, rasgando inumeravelmente a pele do pleiteante, aparecerá
então a palavra silhueta,
os nervos estão rebitados
será enxotada,
endurecidos, endurecidos já contra qualquer coisa? ou estarão
antes em frangalhos, os nervos, a engrenagem toda dos nervos? voltará,
a fricção, o atrito, o contato imparável, como trabalharam nos
contra o retângulo branco, a silhueta, a silhueta ao deixar o
nervos? fortaleceram ou esfolaram os nervos? estarão capazes,
escritório, pedimo-la, nestas circunstâncias,
em frangalhos, subindo para a pele? retesando-se cada vez
ainda que fossem outras –, quais? –, por exemplo, quando se
mais de encontro a pele, um pouco cedo, um pouco mais a cada
deixa um laboratório,
dia, mês, a cada volta da estação, há anos prestes a estalar custando
a estalar não estalando um laboratório médico ou um laboratório fotográfico?,

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envelope branco debaixo do braço, reto, branco, duro, duro um dia conseguirá abri-los também para cima, nem por isso
como uma tábua, invergável como a ideia que fazem alguns do comprometerá a fidalga identidade dos dias, dossiês inteiros
destino, destinados ao lixo para desocupar as estantes,

abril, quando serão sacudidos de seu domingo e deitados ao cesto forrado de


plástico azul sem maiores explicações, a recepcionista sorri, chama-se
deixa-se março e o clarão das drogarias parece ainda mais
espesso, povoado de gente pia, sacrificada, causal, amontoam-se vitiligo, visitas a zoológicos, planetários, museus aos fins de
então nos olhos do pleiteante, semana,
do paciente ou do pleiteante, picam-lhe os olhos, um charco acreditando exaurir os domingos e exaurindo somente a si
branco, ou começa nas pálpebras um charco branco, um charco próprio, ele continuará, para os interiores forrados de branco,
pelo qual deveriam caminhar somente para onde rumamos todos,
santos, duplas exposições, pensa-se, neste ofuscamento esquecendo, primeiro de maneira dirigida, responsável,
depois sem nenhuma intencionalidade identificável, nada de
de supermercados, papelarias, agências de viagem, estações
imediato, nem para si nem para os outros, tão só esquecendo e
de metrô, não, não se salvaram nem as bancas de jornal, os cheiros
com insistência cada vez maior
são contíguos e todos os interiores iluminados como hospitais
aparecem chaves sobre os pisos dos elevadores, comissuras
e a este pleiteante em particular parecerá justo que todos
dos elevadores, retos envelopes brancos sobre os assentos dos
os interiores hoje em dia prefigurem de algum modo hospitais,
afinal, é para lá que rumamos todos, ônibus e táxis e guarda-chuvas

é para lá que atravessamos, todos os dias, agora, todos os dias, e sob mesas de restaurantes a quilo, virados ou não do avesso,
pastas verdes sobre as bancadas dos cartórios, abarrotadas de
chegaremos antes dos novos trens, documentos, esgarçadas
se edições de bolso sobre pias de banheiros públicos,
perguntamos-lhes então, não esqueceram alguma coisa?
se mirassem, se pudessem, certamente o fariam com ódio,
arreganhadamente, cada qual retendo em si o tempo do outro, de que querem afinal? que ficção os trouxe até aqui? o que não
certeza se estariam esburacando, devorou ainda o que ela deixou intacta
revirando os corpos sobre o poeirento carpete do corredor, o que é que há dentro que exista ainda qualquer coisa dentro
não encontrando uma chave, ele sabe,
de um dos pleiteantes, dentro mais adiante, aparecerá um
a cidade continuará cadeada, abrindo buracos sob nossos pés, rapaz bem moço trajando avental do greenpeace e ele

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(voltará, como a silhueta)

contorna, batendo o indicador da mão direita sobre o


mostrador de um relógio ausente, não imaginado ou imaginário,

ausente, o rapaz,

tão delicado, um biscuí, emboscava próximo ao local onde


ruíra, há obra de alguns meses, o teatro municipal,

estas coisas se comunicavam de algum modo e por se


comunicarem metiam-lhe medo,

medo do diálogo que se travava ali adiante, de adentrar


o espaço do diálogo, de ser apanhado pelo diálogo, de que lhe
apanhasse o chapéu e o pisoteasse ali, no que restava da calçada,
de remoinhar com o diálogo para baixo, para os trens,

de que estas forças que se batiam surdamente logo adiante –


rapaz com avental do greenpeace, as ruínas do teatro municipal –,
subitamente se voltassem contra ele e o esmagassem, ele

que estuga o passo, que indica um relógio ausente, ausente


tanto do pulso quanto da praça, que breve não fará mais
circunstâncias, que com uma semicircunferência

engolia há pouco um guarda-chuva como se fora um espadim e

sorri aos passantes não sem algum acanhamento, tem-se

igualmente a impressão de que os subterrâneos aprofunda-


ram-se, de que deu-se, por alguns instantes, livre curso às galerias
e elas se puseram então a cavar,

a cavar, eventualmente tocaram a parte secreta, diante do que


recuaram, enojadas, recuaram um pouco, o mundo,

o mundo quando desce

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primeira edição impressa
na gráfica j. sholna
para viveiros de castro editora
em julho de 2015.

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