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Planejamento e Desenvolvimento dos Territórios Rurais. Conceitos,


controversias e experiências,

Book · January 2002

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Eric Pierre Sabourin


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Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária
Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento
Universidade Federal da Paraíba
Centro de Cooperação Internacional de Pesquisa Agronômica para o Desenvolvimento

Planejamento e
Desenvolvimento dos
Territórios Rurais
Conceitos., controvérsias e experiências

Eric Sabourin
OIivio Alberto Teixeira
Editores Técnicos

Embrapa Informação Tecnológica


Brasília, DF
2002
Capírule 1

Desenvolvimento Rural e Abordagem Territorial


Conceitos, Estratégias e Atores

Erie Sabourin

Introdução
Este texto introdutivo apresenta e comenta, na primeira parte, alguns
conceitos básicos sobre noções de território, espaço e abordagem territorial
dodesenvolvimento.
o apoio ao desenvolvimento rural cobra novas exigências, ligadas à evolução
rápida dos fenômenos de globalização. Esses caracterizam-se, entre outros
elementos, por uma concorrência mais intensa, pelo não-engajamento do Estado
e pela privatização e/ou descentralização dos serviços públicos.
No caso do apoio à agricultura brasileira, em particular aos sistemas
diversificados de produção familiar, as políticas setoriais empreendidas em âmbito
federal têm mostrado limitações (Delgado, 1995). Segundo Touzard (1995), a
agricultura constitui uma atividade que se situa precisamente na interface entre o
setor e o território. Assim, o apoio ao desenvolvimento rural - incluindo novas
atividades não-agrícolas (Silva, 1999) - supõe abordagens cada vez mais
diversificadas,multissetorial e, sobretudo, espacial e territorial. Abramovay (1998,
2002) explica como o Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar -
Pronaf -, apesar das suas limitações e ambigüidades, introduziu um primeiro
enfoque territorial na política agrícola, ao associar o financiamento de infra-
estruturas coletivas às deliberações dos conselhos municipais de desenvolvimento
rural e à elaboração de planos municipais. Se o desenvolvimento rural passa,
antes de tudo, por ações executadas em âmbito local (produção, exploração de
recursos naturais, etc.), ele depende, também, da articulação entre várias escalas
de análise, de decisão e de ação (Tonneau, 2002; Sabourin et al., 1997).
Abramovay (2002) comenta a sinergia, entre as comunidades locais e os diferentes
âmbitos do Estado, da ação pública.
A segunda parte trata precisamente da questão das coletividades territoriais
no Brasil e, particularmente, dos problemas de governança e de coordenação
entre atores do desenvolvimento rural. O Brasil oferece o exemplo de um país-
continente, onde as populações das zonas rurais I ,histórica e politicamente, são
pouco valorizadas e, portanto, pouco representadas.
Entre o Estado (federal ou regional) e a população, só existe uma unidade
governada - o município -, geralmente marcada por um forte viés urbano, inclusive
no meio rural (Wanderley, 2002; Abramovay, 2002). É portanto legítimo questionar
a natureza das coletividades territoriais no contexto das populações rurais. De
fato, correspondem aos diversos níveis territoriais (comunidade, distrito, município,
Estado, região). São coletividades humanas, socioeconômicas e políticas, forjadas,
ao longo da história, por uma identidade comum, por atividades comuns ou
complementares ou, no mínimo, por relações de proximidade (geográfica, social e
cultural). Na realidade, como lembra Touzard (1995), se os agentes econômicos
se definem por uma dupla inserção - em um setor (de atividade) e em um território -
, os atores sociais definem-se essencialmente em relação a um território.

Território e Desenvolvimento Rural


Como conceituar o termo "território"?
O conceito de "território" surgiu há alguns anos, na literatura especializada,
assim como no vocabulário das políticas de desenvolvimento. Como definir
"território" numa perspectiva de desenvolvimento?

I No Brasil, no lugar da expressão "zona rural", prefere-se "interior", por oposição a um litoral
urbanizado em torno das capitais.

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Primeiro, território faz referência a gestão de um espaço governado
(Andrade, 1995).
No sentido socioantropológico, Tizon (1995) chama de território "o ambiente)
de vida, de ação e de pensamento de uma comunidade, associado a processos
de construção de identidade".
Para Abramovay (1998), "um território representa uma trama de relações
com raízes históricas, configurações políticas e identidades que desempenham
um papel ainda pouco conhecido no próprio desenvolvimento econômico".
Chia, citado por Cirad-Sar (1996), define território como "um espaço
geográfico construído socialmente, marcado culturalmente e delimitado
institucionalmente" .
Segundo o Cirad-Sar (1996), nessa nova perspectiva, território não é um>
simples suporte físico das atividades econômicas ou um quadro de localização
dos agentes. "Ele é um espaço construído histórica e socialmente, no qual a
eficiência das atividades econômicas é intensamente condicionada pelos laços
de proximidade e pelo fato de pertencer a esse espaço. O território é então um
resultado e não um dado". Por isso, fala-se de "construção de territórios" a
partir das estratégias de atores envolvidos e de mecanismos de aprendizagem
coletiva, quer dizer, a aquisição de conhecimentos, de informações comuns, por
meioda prática ou da experiência coletiva. A idéia central da abordagem territorial
do desenvolvimento é a preocupação pela integração e pela coordenação entre
as atividades, os recursos e os atores, por oposição a enfoques setoriais ou
corporativistas que separam o urbano do rural, e o agrícola do industrial (a
universidade do ensino básico, a pesquisa da extensão, etc.).

Espaço ou território
Na linguagem corrente, a noção de território vem precisar a de espaço.
O espaço é um lugar ou uma área mais ou menos delimitada, onde se pode
situar alguma coisa, uma extensão, uma superfície (Ferreira, 1988). O conceito
de território passou da geografia física - "uma considerável extensão de terra"
(Ferreira, 1988) - para uma definição mais política e complexa - "área da
superfície terrestre onde vive um grupo humano e, especificamente, uma
coletividade política nacional" (Robert, 1990).

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Território distingue-se de espaço, de lugar e também de região. Como lembra
o Professor Manuel Correia de Andrade (1995), "deve-se ligar sempre a idéia
de território à idéia de poder (...), poder público estatal, (...) poder das grandes
empresas (...)". A diferenciação clássica entre território e espaço - "um território
é um espaço governado, administrado" - é hoje redutora, já que a administração
dos recursos públicos passou a ser manejada por coletividades sociais, e que a
noção de "governança" tem ampliado o sentido da de governo.
De fato, mesmo no sentido acadêmico, espaço e território são termos
muitas vezes confundidos. Primeiro, porque a "nova Geografia" integrou uma
forte dimensão humana; segundo, porque houve uma diversificação do uso
do termo território, passando da Etologia para a Ecologia, da Administração
para a Economia, da Etnologia para a Sociologia. Para a nova Geografia e, de
acordo com Brunet (1990), o espaço é uma construção social: "I'espace est
un produit de societés, devenant instrument et milieu de leur propre
reproduction" ("o espaço é um produto das sociedades, que se transforma
em instrumento e meio da própria reprodução").
Especificar e caracterizar um espaço é, realmente, quase criar um território.
Bertrand (1975) define o espaço rural como "um conjunto onde os elementos
naturais combinam-se dialeticamente com os elementos humanos. Por uma
parte, forma uma estrutura cuja aparência é a paisagem rural no sentido banal
do termo (...); por outra parte, constitui um sistema que evolui sob a ação
combinada dos agentes e dos processos físicos e humanos". Essa temática da
"divisão/continuum" entre espaço rural e espaço urbano é atualmente objeto
de diversos trabalhos no Brasil, entre os quais, o Projeto Rurbano da Universidade
de Campinas, SP (Silva, 1999); do Instituto de Pesquisa e Experimentação
Agrícola - Ipea - (Abramovay, 1998, 2000), do Ministério Extraordinário de
Política Fundiária (Abramovay, 1998; Wanderley, 1998) e das universidades da
Região Nordeste (Wanderley, 1999).

Interesses e limites da abordagem territorial do desenvolvimento


Depois de tantas qualificações do termo desenvolvimento (harmonioso,
integrado, autocentrado, endógeno, sustentado, etc.), muitas vezes associadas
a fenômenos de moda, deve-se ter o cuidado de não interpretar o enfoque
territorial como um novo receituário, à imagem do Incra. Esse instituto vendeu

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o projeto do "novo mundo rural", pregando uma abordagem baseada em um
"novo desenvolvimento territorial", para justificar o fim de apoios específicos
aos perímetros de reforma agrária (lncra, 1999). O enfoque territorial considera
sobretudo a valorização coletiva e negociada das potencialidades das localidades,
das coletividades ou das regiões, chamadas de atributos locais ou de ativos
específicos".
O interesse consiste em associar, nas políticas de desenvolvimento rural
(regional ou local), a noção integradora e espacial de "construção do território",
como complemento das abordagens setoriais. Essa abordagem aponta para a
identificação e a valorização das dinâmicas de coordenação e organização das
relações e dos fluxos existentes entre os agentes locais, por uma parte, e entre
o território e seu ambiente externo, por outra. De fato, constata-se que o
desenvolvimento das atividades produtivas depende cada vez mais de relações
territoriais - por exemplo, da proximidade (geográfica, social, cultural, etc.) -
ou do interconhecimento, por meio de redes econômicas, sociais e técnicas. No
Brasil, existem exemplos, como as pequenas e as médias empresas do Rio
Grande do Sul (Courlet, 1993), a indústria de calçados do Vale dos Sinos
(Azevedo, 1996; Schneider, 1999) e os pólos de irrigação do Vale do São
Francisco (Sabourin et al., 1997).

Território e Coordenação entre Atores


Na terminologia do desenvolvimento local, os atores são os agentes sociais
e econômicos, indivíduos ou instituições, que realizam ou desempenham
atividades, ou, então, mantêm relações num determinado território.

Coletividades territoriais
Na origem, entende-se por coletividades territoriais o conjunto dos atores
(individuais e institucionais) de um dado território. Essa noção foi logo associada
à representação social e política das comunidades, dos distritos, de municípios e

2 Neste sentido, as estratégias de desenvolvimento territorial, de acordo com Sébillotte (2000),


podem ser subdivididas em quatro principais linhas: (I) cadeias produtivas, produtos e qualidade;
(2) governança e coordenação territorial ou local (políticas públicas, organização e cooperação);
(3) atividades e empregos (novas atividades, reestruturação produtiva, geração de empregos ... );
(4) lógicas de inovação (construção sociotécnica da inovação).

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Estados, considerados como atores institucionais e jurídicos. Foi consagrada na
Europa, pela necessidade de encontrar um termo genérico para a diversidade
de coletividades locais (unidades administrativas de base, como municípios,
communes, cantons, districts, etc.) e regionais (départements, regiões,
província, counties, conselhos) (Abramovay, 1999b).
Nem todas as formas de relacionamento entre os componentes da população
ou das instituições de um território constituem, entretanto, uma coletividade
territorial legalmente estabeleci da. Podem-se citar, no Brasil, os perímetros
irrigados, os assentamentos de reforma agrária e ainda as comunidades rurais
que não correspondem a uma unidade político-administrativa reconhecida.
Nesses casos, existem outros níveis específicos de coordenação, como o da
ação coletiva, funcionando por meio de organizações formais (associação,
cooperativa, clube, sindicato, federação, etc.), e de estruturas de relacionamento
informais, que podem também ultrapassar os limites de um território, como, por
exemplo, as redes de interconhecimento, as redes comerciais, etc.
No Brasil, considerar como coletividade territorial apenas as coletividades
sociopolíticas associadas a unidades administrativas "governadas" limitaria o
conceito aos âmbitos municipal e estadual. Usar essa noção para o conjunto
das unidades administrativas locais e regionais permite considerar também os
níveis do distrito, da cidade, do consórcio de municípios, da microrregião e da
grande região (Nordeste, Norte, etc.). Uma atitude pragmática, para não entrar
nos debates sobre a criação de novos Estados ou novos municípios, citados por
Moraes, nesta coletânea, seria considerar apenas os vazios ou as lacunas de
representação das coletividades nas escalas locais da constituição brasileira.
Poder-se-ia, assim, estender a noção de coletividade territorial a escalas
territoriais com potencial de aquisição de estatuto jurídico ou de governo: o
distrito, o povoado, a microrregião ou a região.

Formas de coordenação entre atores e coletividades


O fortalecimento de iniciativas e atividades produtivas locais ou regionais
tem a ver não só com a sustentabilidade desses sistemas de produção
localizados, rurais ou urbanos, como também com sua viabilidade em curto
prazo, em um contexto de integração global dos intercâmbios. Isso depende,
entre outros fatores, da capacidade dos sistemas locais de tecer relações, de

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conseguir uma integração regional e de fortalecer as interfaces com o mundo
externo ou com territórios vizinhos. Essas relações traduzem-se em fluxos
(de bens, dinheiro, informações, conhecimentos), em relacionamentos
interpessoais e em projetos comuns.
Link (1996) escreve que "as sociedades rurais e, por conseqüência, seus
modos de coordenação, definem-se primeiro, em referência a um marco
territorial específico, que elas estruturam e desenham, de onde tiram uma parte
notável dos recursos patrimoniais ou organizacionais que podem mobilizar".
A inter-relação entre grupos sociais e agentes econômicos, entre outros 'I
locais, apóia-se sobre processos de coordenação entre atores, quer dizer, sobre
o funcionamento de redes de atores sociais que gerenciam fluxos de
conhecimentos e de informações. Essas redes, ou seus membros, podem ser
levados a posicionar-se, individual ou coletivamente, por meio de conflitos ou
de alianças, para tomar decisões e atuar. Esses modos de coordenação podem
implicar atores confinados ao espaço local, no caso, por exemplo, da
aprendizagem e da difusão de tecnologias de produção. Podem também integrar
intervenções externas para a mobilização de apoios financeiros e informativos,
para a negociação dos preços dos produtos, etc. Nesse caso, assiste-se à
confrontação de atores e instituições pouco acostumados a se encontrar ou a
dialogar, e com diferentes expectativas, estratégias e racionalidades.
Superar essas situações supõe processos de aprendizagem coletiva
destinados a elaborar representações comuns, como bases de diálogo ou de
acordo. As redes e as organizações sociais, socioprofissionais ou culturais
contribuem ativamente para facilitar a construção de tais representações
comuns (Putnam, 1996).

Papel das redes


Nas últimas décadas, surgiram no Nordeste novas formas de coordenação
entre os atores locais (produtores, comerciantes, artesãos, etc.), isto é,
organizações profissionais, como sindicatos, associações, cooperativas, etc.
Finalmente, menos visíveis, são as redes interpessoais, como as redes comerciais
ou as técnicas, que contribuem para a orientação dos fluxos e das relações, no
âmbito dos territórios.

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Redes são instrumentos intelectuais ou representações usados para evidenciar
as diversas formas de relação social. São apresentadas, a seguir, algumas das
contribuições conceituais e metodológicas que permitiram construir a noção de
rede sociotécnica, particularmente adaptada à abordagem territorial dos
mecanismos de mudança ou de desenvolvimento.
f) Relações econômicas como as das redes de comercialização (redes de
fornecedores, atravessadores ou clientes, fidelidade comercial, etc.) são as mais
conhecidas e visíveis. No caso da produção leiteira familiar do Estado de Sergipe
(Moreira, 1996), foi evidenciada a correspondência entre diversificação dos
sistemas de produção familiar e diversidade das formas de articulação com o
mercado, em particular por intermediários ocasionais (fretistas, biscateiros ou
mangalheiros) e de unidades de processamento informais.
Os mesmos mecanismos foram observados no caso da cadeia produtiva da
batatinha, no Agreste da Paraíba.
A estruturação em rede funciona para outras relações socioeconômicas
de proximidade, como as prestações de trabalho (mutirão, ajuda mútua, troca
de diárias, etc.). O fenômeno "rede", porém, é particularmente decisivo no
caso da circulação da informação e da inovação. Darre (1986) usa o concei to
de "rede de diálogo técnico" na escala de um "grupo profissional local"
- GPL. O GPL é definido como "o conjunto dos agricultores trabalhando em
condições semelhantes, tendo várias e repetidas oportunidades de se encontrar,
se falar, de cooperar (... ) e tendo um conhecimento compartilhado da
composição e dos limites do seu grupo". A rede é apenas o meio de descrever
..•o sistema de relações e de diálogo técnico no seio desse grupo. Segundo
Darré (1986), é "o desenho das relações entre as pessoas, que permite prever
quem fala com quem, e entre que indivíduos, as idéias têm mais probabilidade
de ser transmitidas e transformadas". Darre adaptou ao meio rural europeu
os trabalhos de Rogers e Kincaid (1981), associando a configuração em rede
aos mecanismos de adaptação e difusão da inovação. Para caracterizar e
valorizar esses mecanismos em diversas escalas, foram propostas noções
mais gerais. Callon (1991) fala de "rede técnico-econômica" ou RTE como
"um conjunto ordenado de atores heterogêneos, (...) centros de pesquisa e
extensão, empresas, organismos financiadores, usuários e poderes públicos
que participam coletivamente da concepção, da elaboração, da produção e
da difusão de processos de produção, bens e serviços, incluindo transações

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comerciais em certos casos". A RTE integra atores humanos e não-humanos,
como dispositivos técnicos, processos produtivos, objetos, etc.
No contexto de pequenos produtores das fronteiras agrícolas da Argentina
e do Brasil, Albaladejo (1994) aplica a noção de organização sociotécnica:
"organização local espontânea (...) estruturada por redes fortes de parentesco,
diálogo técnico e cooperação técnico-econômica, troca de trabalho em
particular".Finalmente, no contexto da diversificação produtiva e organizacional
da agricultura familiar nordestina, Hubert (1997) define as redes sociotécnicas
como"estruturas desenhadas pelas relações interpessoais múltiplas, que reúnem
atoresindividuais e institucionais em âmbito regional ou local, em tomo de objetos
técnicos e de objetivos comuns".
Tais redes sociotécnicas foram identificadas no âmbito da produção leiteira
em Pintadas, BA, do processamento do queijo em Nossa Senhora da Glória,
SE, da criação de caprinos nos municípios do Médio São Francisco (Bahia e
Pernambuco) e da produção de uva de mesa no pólo Petrolina-Juazeiro
(Sabourin, 1999b).
As redes sociotécnicas, na realidade, nem sempre são tão perceptíveis.
É preciso empenho para identificá-Ias. Elas representam, entretanto,
poderosos exemplos de práticas institucionais catalisadoras. Tal abordagem
passa, também, pelo apoio à implementação de sistemas de informação que
podem subsidiar tanto a ação pública como as atividades das redes
sociotécnicas ou econômicas.

Papel das coletividades territoriais no planejamento rural


Muitas das questões prioritárias apresentadas a pesquisadores e agentes de
desenvolvimento, pelas coletividades locais ou regionais, traduzem-se em termos
de ajuda à tomada de decisão ou de planejamento. Trata-se de reforçar a
capacidade de ação e de iniciativa dos atores e de suas organizações. Assim
como a pesquisa agropecuária e a extensão rural não podem mais se limitar à
escala da propriedade, os tradicionais métodos da assistência técnica e social
não são mais suficientes para resolver todas as questões. Mesmo o Nordeste
Semi-árido vem se recusando a adotar receitas prontas e a difundir kits
padronizados: motobomba, vaca na corda, chapéu de couro, água na roça, carro-
pipa, casa de farinha, caridade e clientelismo misturados. Ocorre, porém, que

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os tomadores de decisão na escala local e regional - prefeitos municipais ou
governadores estaduais, eleitos por 4 anos - geralmente continuam preocupados
com resultados imediatos, quando não com ações de emergência, como na
Região Nordeste, durante as últimas secas.
Raramente, esses govemantes sabem avaliar o verdadeiro potencial da
agricultura familiar ou da pequena empresa, o interesse de consolidar sistemas
localizados de inovação a partir do ensino profissional, ou a possibilidade de
conquista de novos mercados mediante a organização de feiras promocionais
ou de viagens de estudos. Quando conseguem recursos, os políticos querem
aplicá-Ios atraindo uma indústria para a região ou instalando um supermercado
ou um shopping center. Isso se deve, primeiro, à falta de informação pertinente
e operacional sobre o potencial produtivo das coletividades locais e, segundo, a
uma prioridade exacerbada conferida ao setor industrial e ao espaço urbano.
No melhor dos casos, os governantes só se interessam em investir em agricultura
familiar, na pequena empresa ou no ensino profissional, se houver a garantia de
resultados rentáveis, visíveis e, de preferência, em curto prazo. Assim, como
lembra Weber (1997), "um desenvolvimento sustentável é, antes de tudo, um
desenvolvimento viável, hoje".

Abordagem territorial: questões de pesquisa e desenvolvimento


Há pelo menos três temas que podem ser objeto de debate, de pesquisa e de
contribuição dos centros de ensino, ciência e tecnologia.
Primeiro, trata-se de ações e formas de coordenação que permitem apoiar
e garantir uma representação mais democrática e diversificada da sociedade
civil, das coletividades sociais que constituem a base dos sistemas produtivos e
das aglomerações populacionais (distritos, bairros, povoados) de maneira que
elas possam ter acesso à informação e às tomadas de decisão. Essa linha
remete primeiro ao acompanhamento das organizações profissionais (de
agricultores, pequenos empresários, artesãos, pescadores, etc.) e das
organizações de moradores. Passa também pela criação e pela experimentação
de novas práticas, de novos espaços ou estruturas de negociação do
desenvolvimento, como: conselhos e comissões distritais, municipais,
intermunicipais e estaduais, fóruns, unidades de planejamento, etc.

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Segundo, interessa desenvolver, tanto no âmbito dessas organizações
profissionais como entre os tomadores de decisão (governos, secretarias
estaduaise municipais, prefeitos e vereadores), a capacidade de análise e de
representaçãodos territórios e dos atores locais e institucionais e de seu potencial
produtivo. Trata-se de ajudá-Ios a adquirir uma visão territorial do
desenvolvimento. Isso remete a trabalhos sobre métodos e instrumentos de
diagnóstico, de ajuda à tomada de decisão e de planejamento, e sistemas de
informação (ver Métodos e Instrumentos de Diagnóstico e Ajuda à Tomada
de Decisão, apresentados no Anexo).
Essas dinâmicas e ferramentas podem contribuir para melhor dimensionar
"o possível". Pode-se, assim, optar pela utopia realista ou pelo sonho "do
possível" (Tonneau, 2002), ou pelas "possibilidades de fazer escolha"
(Abramovay,2002). Quer dizer, considerar ações ao alcance das coletividades
territoriais,esquecendo os planos ambiciosos delineados por políticos miopes
ouhipócritas, precisamente para nunca serem aplicados. No Nordeste, além do
casoda famosa transposição das águas do Rio São Francisco, existe o exemplo
dosPlanos Estaduais de Desenvolvimento Sustentável, amplamente divulgados,
mas nunca executados.
Finalmente, é fundamental reconsiderar as lógicas de desenvolvimento (dos
recursos,das populações e dos territórios) e as formas de coordenação associadas
a essas políticas. A questão do desenvolvimento leva geralmente a questionar
os processos de produção e mobilização dos recursos e dos atores. Existem
fatosque não variam, mesmo entre civilizações fundadas em representações e
valores diferentes.
Há recursos de natureza mercantil reproduzidos e apropriados individualmente
por meio de relações comerciais, segundo a lógica do intercâmbio mercantil.
Ocorremtambém recursos e relações não-mercantis, que correspondem a uma
herançadas sociedades humanas, a um capital social ou humano (Abramovay,
2002). A gestão dessa categoria de recursos e de fluxos depende de outras
lógicas além daquela do intercâmbio mercantil. Corresponde a formas de
coordenação não-mercantis: reciprocidade, cidadania, administração ou política,
geralmente associadas a outras formas de valor além do valor mercantil (valores
de uso, prestígio, justiça, responsabilidade, confiança e amizade).
É, portanto, útil retomar a análise a partir das pistas propostas por economistas
comoRawls ou Sen (1999), que testemunharam a preocupação pela distinção de

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categorias econômicas matrizes, que geram lógicas de desenvolvimento opostas,
quando não contraditórias. Durston (1996) retoma esses elementos a propósito
das sociedades camponesas da América Latina. Sugere, ao contrário da noção
de limitação da produção às necessidades de subsistência das farrulias (Sahllins,
1976), quatro propostas conceituais para tratar das sociedades camponesas da
América Latina: o ciclo de desenvolvimento da unidade familiar ou doméstica; a
comunidade como referência de prestígio (e motor social da produção); o
parentesco como reserva de reciprocidade"; e a identidade étnica como recurso
social. A oposição dialética entre economia de câmbio e economia de reciprocidade
já foi apresentada por Dominique Temple a propósito de comunidades indígenas
e camponesas da América Latina (1983). Trabalhos mais recentes (Temple &
Chabal, 1995; Temple, 1997) analisam a natureza da reciprocidade como matriz
dos valores humanos.

Conclusão
A abordagem territorial do desenvolvimento, particularmente a do
desenvolvimento rural, remete à ampliação das categorias de análise, além dos
enfoques mercantis e setoriais.
Trata-se de considerar, ao mesmo tempo - de maneira global, ampla,
específica e localizada -, as condições, os fatores e as mudanças produtivas e
socioeconômicas, assim como as dinâmicas locais, regionais ou mundial,
associadas a esses processos.
No caso do desenvolvimento rural, as formas de apropriação do espaço e
dos recursos, e a construção de sistemas produtivos localizados constituem
questões-chave num campo de investigação ainda pouco explorado. Trata-se,
também, de considerar com novos olhos a relação campo-cidade, o continuum
rural-urbano e as aspirações socioculturais ligadas à construção de novos
territórios. Uma abordagem territorial do mundo rural deve levar em consideração
as formas de coordenação não formalizadas ou institucionalizadas (redes,
relações de proximidade, reciprocidade camponesa, etc.), os atributos
comparativos dos produtos e recursos associados a territórios específicos, social
e culturalmente marcados (capital social, valores de uso, valores éticos, valores
3 Como Levy-Strauss (J 967), Durston reconhece que as estruturas do parentesco são ordenadas pela
reci procidade.

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de prestígio), e, finalmente, as dinâmicas de inovação ligadas a esses processos
e a valores de natureza diferenciada.

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