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biblioteca de psicopatologia fundamento!

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ANNA 0. [18—59—1936]

JIBLIOTECA DE
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_ICOPATOLOGIA
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?UNDAMENTAL
COLEÇÃO DIRIGIDA :»oa
MANOEL msm aewww
MANOEL TOSTA BERLINCK
(ORG.)

OBSESSIVA NEUROSE
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© by Editora Escuta para a edição em língua portuguesa


lª edição: fevereiro de 2005
SUMARIO
EDITORES
Manoel Tosta Berlinck
Maria Cristina Rios Magalhães
CORTESIA
CAPA

Laika Designers Associados, a partir de


DA
Albrecht Dúrer, Hieronymus Holzschuher, 1526 EDWORA

.
PRODUÇÃO EDITORIAL
Araide Sanches
PREFACIO,Manoel Tosta Berlinck ................................................ ..... 7
A VALORAÇAO NARCÍSICA nos PROCESSOS EXCRETÓRIOS...........
Berlinck, Manoel Tosta (org.) NOS SONHOS E NA NEUROSE
" Paulo
Sao
Obsessiva neurose / Manoel Tosta Berlinck (org.). —

ANAL
Biblioteca de Psicopatologia Fundamental
Karl Abraham
: Escuta, 2005.
448 p. ; 14x21 cm CONTRIBUIÇÓES A TEORIA DO CARÁTER 19
ISBN 85-7137-237-3
Karl Abraham
A ENFERMIDADE DOS TAB US! DO QUERER GOZAR AO QUERER DIZER....... 41
l. Psicopatologia. 2. Psicanálise. 3. Neurose obsessiva. [. Título Vera Lopes Besset (: Susane Vasconcelos Zanotti
UNIDA
Nº CHA
% CDD-61685227
MLM-WM 176
O EGO NA NEUROSE OBSESSWA.

MECANISMOS DE DEFESA
RELAÇÃO DE OBJETO E
51
ADAzé/ó (?ª/), Maurice Bouvet

ªªjª
,

A “RELIGIÃO PARTICULAR” Do NEURóTIco. NOTAS COMPARATIVAS


SOBRE A NEUROSE OBSESSIVA E A PERVERSÃO 125
mas se!
*!. JC., magª—“gg $ ,
Flávio Carvalho Ferraz
PENSANDO A NEUROSE OBSESSIVA A PARTIR DE
5 PREÇO “ ºº ,
“ATOS OBSESSIVOS E PRÁTICAS RELIGIOSAS”, DE FREUD 151
Sérgio de Gouvêa Franco
Nº CPO. __
.,

ª
NEUROSE OBSESSIVA E HISTERIA: SUAS RELAÇÓES EM FREUD E
' ' Q/S—f
B ,“) 397
) = Editora Escuta Ltda. FREUD. ESTUDO CLÍNICO, CRÍTICO E ESTRUTURAL
....... .. 165
A PARTIR DE
Rua Dr. Homem de Mello, 446
André Green
05007—001 São Paulo, SP
METAPSICOLOGIA DA NEUROSE OBSESSIVA 215
Telefax: (11) 3865-8950 / 3675-1190 / 3672-8345 ....................................... ..
e-mail: escuta©uol.com.br André Green
www.editoraescuta.com.br &
ODIO E INAÇÃO: O NEGATIVO NA NEUROSE OBSESSIVA
........................ 237
Decio Gurfinkel
TRAÇOS DO CARÁTER ANAL-ERÓTICO
............................................... 295
Ernest Jones
NOTAS SOERE A NEUROSE OBSESSIVA EM FREUD
PREFÁCIO
E LACAN
................. 327
Urania Tourinho Peres DA CIVILIZAÇÃO A NEUROSE OBSESSIVA
A MULHER OBSESSIVA ENTRE A TRAGÉDIA E 0 HUMOR
........................ 399
Maria Anita Carneiro Ribeiro
A OBJETIVAÇÃO DO TEMPO No MUNDO OBSESSIVO
............................. 405
María Lucrecia Rovaletti ê4t

MECANISMOS DE DEFESA NA NEUROSE OBSESSIVAZ


Manoel Tosta Berlinck
FORMAÇÃO REATIVA, ANULAÇÃO E ISOLAMENTO
.............................. ;. 419
Vera Stela Telles
REFERENCIAS
........................................................................ 433
SOBRE OS AUTORES
.................................................................... 437 Este livro reúne um conjunto de importantes trabalhos sobre
neurose obsessiva escritos sob a perspectiva freudiana. Trata-se não
Só de uma coletânea, mas da apresentação de uma perspectiva

metapsicológica sobre essa complexa e intrigante manifestação


psicopatológica.
Este breve prefácio pretende chamar a atenção do leitor para
certos aspectos da obsessividade e da neurose obsessiva que, talvez,
não estejam'devidamente realçados nos textos aqui reunidos.
Em 1914/1915, preparando um livro denominado preliminar-
mente de Subsídios à preparação de uma metapsicologia, Freud eS-
creve um pequeno trabalho denominado Visão de conjunto das
neuroses de transferência (tendo recebido, em português, o inapro-
priado título de Neuroses de transferência: uma síntese) dando-O, em
seguida, de presente a Sándor Ferenczi, que havia terminado de pro-
duzir (1914) Thalassa. ensaio sobre a teoria da sexualidade.
Nesse trabalho, Freud, ocupado com fantasias perturbadoras,
apresenta O seguinte argumento: o que hoje São neuroses eram fases
do estado da humanidade. As fantasias que perturbavam Freud eram
filogenéticas e, provavelmente, tinham sido provocadas pela leitura
de Thalassa. Essas fantasias — uma verdadeira construção mito-
pOiética epopéica psicopatológica — nunca resultaram em algo para
o público e o próprio livro sobre a metapsicologia não foi concluído.
Entretanto, a construção mito-poie'tica epopéica de Freud reaparece
fragmentária e discretamente em diversos textos posteriores e se
8 Manoel Tosta Berlinck Prefácio 9

constitui num vasto e complexo panorama para a compreensão da do-se às necessidades, moldaram-se no percurso dos difíceis
natureza psicopatológica do humano. tempos glaciais.
Em carta de 12 de julho de 1915, Freud escreve & Ferenczi: Ora, a neurose obsessiva repete as características dessa fase
da humanidade, uma parte da mesma de forma negativa já que a
disposta em ordem cronológica de aparecimento, existe uma
neurose, na configuração da formação de suas reações, também
sequencia relacionada com doentes singulares, cujo percurso é o
representa a resistência contra esse retorno. São traços não mo-
seguinte: histeria de angústia — histeria de conversão — neurose
dificados: acentuação exagerada do pensar; a energia gigantesca,
obsessiva — demência precoce — paranóia — melancolia-mania.
retornando na compulsão; a onipotência do pensamento; a ten-
essa seqtiência repete filogeneticamente um desenrolar histórico.
dência para leis invioláveis. Porém, contra os impulsos brutais, os
(1987, p. 89)
quais querem substituir a,vida sexual, opõe-se a resistência de
A idéia segundo a qual aquilo denominado hoje de desenvolvimentos posteriâres. Estes partem do conflito libidino-
neurose foi,
no passado, um conjunto de maravilhosas invenções do humano para so, paralisam a energia vital do indivíduo e consentem apenas
protegê—lo de catástrofes ambientais constitui, na verdade, um naqueles restos de impulsos através da obsessividade, desloca-
recur-
so clínico de vasto alcance, percebido imediatamente dos para insignificâncias. Assim como o tipo grandioso do pai
por Ferenczi. primitivo, que realmente sucumbiu nas relações familiares criadas
Esse recurso tem sido, entretanto, praticamente ignorado pelos psi-
canalistas, que preferem se ater aos aspectos psicopatológicos por ele próprio, ressuscita depois como divindade, assim também
on—
sucumbe esse tipo humano, o mais valioso para o desenvolvimen-
togenéticos na compreensão de sua atividade clínica.
to da cultura, em seu retorno, diante das exigências da vida
No manuscrito perdido, há o seguinte trecho:
sexual. (p. 76—8)

O desenvolvimento seguinte é fácil de construir. Refere-se Este trecho é, por diversas razões, surpreendente e revelador e
principalmente ao homem. Depois de ter aprendido a poupar sua
libido e a reduzir sua atividade sexual através da gostaria de destacar alguns desses aspectos.
regressão a Em primeiro lugar, Freud realiza importante distinção entre
uma fase anterior, a inteligência ganhou para ele o papel prin-
cipal. Aprendeu obsessividade e neurose obsessiva. Enquanto aquela, voltada para o
a pesquisar, a entender de alguma maneira
o mundo hostil e a entendimento e o controle do mundo hostil por meio do pensamento,
assegurar para si através das invenções um
primeiro domínio sobre esse mundo. Desenvolveu-se sob 0 Sig- da pesquisa, da linguagem e da criatividade técnica, e' manifestação
no da energia, formava os princípios da linguagem e precisava civilizadora, a neurose obsessiva, na repetição empobrecida desses
prestar grande importância às novas conquistas. A linguagem traços, é uma tragédia. Há, porém, já nessa grande invenção, a
era para ele magia; seus pensamentos pareciam-lhe onipoten— continuada perda de contato com a regularidade e com o objeto de
tes; compreendia o mundo através de seu próprio eu. É a época satisfação sexual, bem como um desvio da energia vital denominada
da concepção anímica do mundo e de sua técnica mágica. libido para outros fins, distantes do prazer.
Como recompensa pelo seu poder de proporcionar
proteção Em sua primeira descrição do obsessivo, Freud declara que
de vida a tantos desamparados, arrogava-se o domínio ilimita-
do sobre eles, defendendo, através de sua certos neuróticos apresentam três traços caracterológicos
personalidade, as particularmente pronunciados: um amor à ordem que muitas vezes
duas primeiras normas: sua inviolabilidade e
que não pudesse
ser negado a ele dispor das mulheres. No fim dessa época, a hu- se transforma em formalismo; uma parcimônia que facilmente se
manidade era dividida em hordas isoladas, as quais eram transforma em avareza; e uma obstinação que pode se tornar irada
dominadas por um homem sábio, forte e brutal, como pai. E rebeldia. Aqui, também, a obsessividade civilizadora se transforma em
pos-
sível que a natureza desconsiderada, ciumenta e egoísta,
que as repetição neurótica apequenando e descaracterizando as grandes
ponderações da psicologia popular atribuem ao pai primitivo da conquistas da humanidade na fase obsessiva filogenética. Na visão
horda humana não existisse desde o começo, senão de Freud, a neurose tem como base sempre uma grande invenção
que, adaptan—
10 Manoel Tosta Berlínck Prefácio 11

visando proteger a sexualidade humana do mundo hostil. Entretanto, aquele momento inaugural. O tratamento psicanalítico visa a
essas conquistas se transformam em neurose na medida em que dissolução dessa estrutura, ou seja, pretende encontrar, por meio da
deixam de ter um caráter plástico e passam a ser defesas repetitivas transferência, da associação livre e do sonho, caminhos parciais para
e padronizadas, vale dizer, estruturadas. Defesas que servem não um erotismo criativo que se perdeu na memória dos tempos. O pai
mais aos desígnios da sexualidade, mas de uma evitação desse mesmo (a
um tipo freudiano e, portanto, não declina. Pode-se, pela vivência
prazer, ou seja, do erotismo. da psicanálise, restabelecer um contato tênue e parcial com essa
Note-se que outros autores, como Max Weber, contemporâneo memória corporal filogenética e até mesmo isso não é tarefa nada
de Freud, lançam mão da obsessividade para compreenderem, por fácil. como observa Freud em “Análise terminável e interminável”.
exemplo, o espírito do capitalismo (Weber, 2004). A fase obsessiva da humanidade foi, para Freud, um momento
O segundo aspecto surpreendente do trecho de Freud é a de ouro, de grandes descebertas que ainda
regem os nossos
maneira indisfarçavelmente admiradora apresentada na caracterização destinos. Entretanto, a neurose obsessiva é uma das defesas
do tipo “pai primitivo“ ou pai da horda que, em “Totem e tabu” intrapsíquicas inventadas pelo humano contra esse mesmo momento,
(1912-13) havia sido apresentado como um tipo odioso e em que se cultiva, de forma recalcada, um erotismo denominado
desprezível. Essa concepção torna a noção de superego, instância anal—sádico, típico de nossa civilização.
psíquica herdeira do pai primitivo, mais complexa e ambivalente de Realçando esses aspectos, pretendo fornecer ao leitor dimensões
como é apresentada mesmo por Freud em outros textos. verdadeiramente grandiosas dos fundamentos da neurose, essa
Por último, gostaria de ressaltar a concepção de neurose persistente estrutura intrapsíquica que possui vastas expressões
presente nesse trecho. Trata—se, como sempre acreditou Freud, de sociais e culturais e contra a qual os psicanalistas labutam, muitas
uma defesa contra as manifestações da sexualidade humana diante de vezes, de maneira completamente obsessiva.
um mundo que requer, por razões familiares, um recalque dos
impulsos eróticos. A família é aqui vista como instituição
apequenadora e inibidora da grandeza do pai e, por isso, Referências
eminentemente neurotizante. É evidente que Freud não está se
referindo à família contemporânea, mas à família inventada pelo pai lªiaRENCZI, Sándor. Thalassa, ensaio sobre a teoria da
genitalidade. In:
primitivo, que visava a sobrevivência da espécie no mundo hostil. O ()!)ras completas III. Trad. de Álvaro Cabral. Rev. téc. e da trad. de Clau-
pai sábio, forte e brutal abre mão de suas características duramente tlia Berliner. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
conquistadas em favor de uma organização social que asseguraria a
FREUD, Sigmund (l913[l912—13]). Totem e tabu. In:
sobrevivência da espécie. A família, assim, é uma organização Edição Standard Bra-
sileira das Obras Psicológicas Completas. Trad. de Orizon Carneiro Mar-
defensiva tanto dos impulsos eróticos como do mundo hostil, e sua
tins. Rio de Janeiro: Imago, 1969. v. XIII.
institucionalização contribui decisivamente para a neurose.
Assim como não há, em Freud, um lugar para se
pensar o
,
__ Neuroses de transferência: uma síntese. Trad. de Abram
liksterman. Rio de Janeiro: Imago, 1987.
declínio da função paterna, na chamada contemporaneidade também
não há lugar para se pensar uma psicanálise revolucionária, como
propunha Wilhelm Reich, outro brilhante discípulo do mestre
_

_ (1937). Análise terminável e interminável. In: Edição Standard


Ihªasileira das Obras Psicológicas Completas. Trad. de Órizon Carnei-
l't) Martins. Rio de Janeiro: Imago, 1969, v. XXIII.
vienense.
O pai começa e termina com a horda primitiva. Somos, WEBER, Max. A ética protestante e O ”espírito” do capitalismo. Edição
enquanto pais, meras sombras repetitivas e padronizadas dessa (IeAntônio Flávio Pierucci. Trad. de José Marcos Mariani de Macedo.
grandiosa figura inventora da civilização e não há como recuperar São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
A VALORAÇÃO NARCÍSICA DOS
PROCESSOS EXCRETÓRIOS NOS
SONHOS E NA NEUROSE (1920)*

dia
Karl Abraham

Enquanto era submetida a tratamento psicanalítico, uma


paciente teve o seguinte sonho:
Estava sentada em uma cadeira de palha perto da parede de
uma casa à beira de um lago. A cadeira estava bem ao lado da água.
Havia botes no lago e muita gente nadando. Vi dois homens em um
bote, um jovem e, o outro, mais velho. Quando o bote estava se
aproximando de mim, veio uma rajada de vento que fez levantar uma
enorme onda atrás do bote e o tragou junto com seus ocupantes. As
pessoas que estavam nadando também se afogaram. Apenas uma
delas, uma mulher: manteve—se boiando. Nadou até mim e se agarrou
em minha cadeira. Pensei que poderia estender a perna para que ela
se apoiasse, mas senti tão pouca simpatia por ela quanto pelos
outros infelizes, de modo que nada fiz para ajudá-la.
A análise do sonho, à medida que nos interessa aqui, traz à luz
estes fatos: os dois homens no bote eram o pai e o irmão da paciente,
sobre os quais estava fortemente fixada sua libido. A mulher que
estava nadando era sua mãe. Passarei por alto a constelação psíquica
que impulsionava a paciente a desejar inconscientemente a morte de
toda sua família, e apenas considerarei o método pelo qual a destruiu
no sonho.
Nos sonhos e sintomas neuróticos desta paciente, cujo erotis—
mo genital estava reprimido de uma maneira pouco comum, encon—

Tradução de Monica Seincman.


14 Karl Abraham A valoração narcísica dos processos excretórios... 15

tramos uma expressão muito forte de erotismo anal e uretral. O


cvacuações do menino. Preocupava—se constantemente com a quan—
exemplo recém-citado é um modelo disto. “Cadeira”,l “vento” e tidade e com a qualidade, e costumava aplicar-lhe
“água” são seus traços principais. A família da paciente é exterminada um enema quase
diariamente. Por sua vez, o menino manifestou dores neuróticas
pelo vento e pela água. Ela própria parece ser uma espectadora de- no
estômago com o propósito de obrigar a mãe a continuar os enemas.
sinteressada, devido a censura. Mas a insensibilidade com que con-
Quando tinha 11 anos, fez uma grande viagem com seus pais. Uma
templa a catástrofe desperta a suspeita de que é ela a causadora do
noite, quando pararam em um hotel, ouviu
desastre. E esta suspeita converte-se em certeza quando vemos como por acaso seus pais man-
terem relação sexual. Esse fato lhe causou uma impressão ainda
termina o sonho. Ao negar-se a ajudar a mãe, ela é a causa de sua maior
já que por muitos anos eles haviam mantido quartos separados
morte. em
casa. Recordava agora que
Nas psicanálises de neuróticos estamos acostumados a ver eªse acontecimento havia lhe parecido
que intolerável, e que havia resolvido muito conscientemente
as sensações anais e uretrais estão estreitamente relacionadas com os impedir sua
repetição. Durante o resto da viagem, arquitetou para organizar as
impulsos infantis de amor. E a análise desta paciente apresentou
coisas de tal forma que teve de dividir um
abundante material evidenciando isto. Corresponde inteiramente a quarto com o pai. A par—
tir da observação do coito entre os pais, havia
nossa experiência a respeito da ambivalência da vida instintiva do se identificado com
a mãe, e transferido suas fantasias de coito anal
neurótico encontrarmos a utilização das funções e produtos do para o pai. Até esse
intestino e da bexiga como instrumentos dos impulsos hostis. Mas momento havia atribuído à mãe a posse de um pênis, representado
é raro achar estes impulsos tão notoriamente exibidos pelo tubo dos enemas. Mas agora, assumiu uma atitude feminina ——

como no passiva em relação ao pai.2 Pouco depois foi mandado


-—

exemplo citado, em que as funções do intestino e da bexiga são para sua


cama. Durante esse tempo, passou alguns dias sem
postas a serviço exclusivo do sadismo, e a urina e a flatulência evacuar, e, como
conseqiiência, sentia uma sensação de pressão no abdômen. Essa noi—
aparecem como os instrumentos do ataque sádico.
te, sonhou que tinha que expelir o universo pelo ânus.
Merece consideração especial o enorme poder que a paciente
Nesse sonho expressa muito claramente a idéia da onipotência
atribui a seus excrementos. Com base neste sonho, podemos colocar
da defecação. Recorda—nos os mitos da
ao lado da idéia primitiva da onipotência dos pensamentos com a qual Criação, nos quais pode se
produzir o ser humano a partir da terra ou da argila, ou seja, de uma
estamos bem familiarizados, a idéia da onipotência das funções da
substância semelhante aos excrementos. O mito bíblico da
bexiga e do intestino. Ambas expressam, obviamente, a mesma Criação
tem duas versões diferentes a respeito deste
superestimação narcisista do próprio eu. Mas a idéia da onipotência aspecto. Na versão
“Elohista”, Deus cria o universo e também o homem
das funções da bexiga e do intestino parece ser a mais primitiva das por meio de sua
ordem: “Faça—se”, ou seja, pela onipotência de seu
duas, uma etapa preliminar da “onipotência dos pensamentos”. Um pensamento,
vontade ou ato. Na versão “Javhista”, cria-se o homem
segundo exemplo ajudará a confirmar esta hipótese. com o barro
sobre o qual Deus sopra; de modo que aqui encontramos
Um paciente neurótico, que em seus primeiros anos imaginava expressa
a idéia mais primitiva da onipotência dos produtos do intestino.
constantemente ser um “príncipe”, que julgava ser o “Kaiser”, e Mas
que não podemos considerar outros paralelos mitológicos
mais tarde havia se consolado com fantasias de dominação mundial, neste contexto. ,

Voltando ao significado sádico da defecação, mencionarei


experimentou uma mudança peculiar aos onze anos de idade. Até que
a paciente, que no sonho matava sua família
então, esteve completamente fixado em sua mãe, que o prevenia sis- por meio de seus
tematicamente contra o pai. Ela exacerbou seu erotismo anal ao ele— excrementos, estava seriamente afetada por uma diarréia nervosa.
var quase ã qualidade de um culto sua preocupação a respeito das
2. Em suas fantasias dos anos posteriores,
o paciente conservou a idéia de
1. Em alemão Stuhl = 1. “cadeira"; 2. “inodoro", “fezes”. uma mulher com um pênis. Costumava esconder seus órgãos genitais entre
as coxas para sentir-se como uma mulher.
16 Karl Abraham A valoração narcísica dos processos excretórios... 17

Além das causas costumeiras, a psicanálise descobriu no fundo deste :luramente reconhecível. Quando urinava no mar, procurava dar a
sintoma um elemento sádico. A diarréia demonstrou ser um uupressão de que este era produto seu.
equivalente dos ataques reprimidos da ira. Outros casos analisados Os dois sonhos que mencionei têm uma relação estreita com
confirmaram esta relação. Por exemplo, conheço uma neurótica que wma fantasia infantil. Enquanto nos sonhos de excreção com que já
reage com diarréia a qualquer acontecimento que provoque sua ira. Wllltmos familiarizados os produtos do corpo são superestimados
Parece curioso que um ataque de raiva possa'ser representado uunplesmente de um modo quantitativo, nos exemplos que acabamos
justamente por este sintoma neurótico. Para encontrar a explicação, lll“ citar são superestimadas as funções de excreção, no sentido de
devemos considerar a conduta da criança em seus primeiros anos de atribuir-lhes um poder enorme, e quase ilimitado, de criar ou destruir
vida. Na raiva, a criança exibe a mesma congestão facial, os mesmos qualquer objeto.
gestos, os mesmos movimentos corporais que quando expele os
a

excrementos. E em ambas as ocasiões profere os mesmos gemidos.


Esta identidade dos meios deexpressão em ambas as ocasiões indica
uma estreita associação entre aqueles que são aparentemente impulsos
distintos. Podemos assim compreender que uma evacuação explosiva
do ventre possa oferecer ao inconsciente do neurótico um substituto
de uma manifestação de cólera que não se efetuou.
A relação mais fundamental entre o sadismo e o erotismo anal
reside, sem dúvida, no fato de que o sentimento sexual passivo
associado com a zona anal se acopla aos impulsos sádico—ativos, uma
combinação de opostos que representa a primeira etapa da polaridade
entre homem e mulher. A atitude ambivalente muito marcada que há
na vida instintiva dos neuróticos obsessivos baseia-se nesta estreita
relação entre os impulsos ativos e passivos. A conexão antes
mencionada dos impulsos sádicos e anais não contradiz esta hipótese;
pelo contrário, demonstra que também estão associados com a
atividade do intestino impulsos libidinais de caráter ativo,3 e nos
mostra a múltipla determinação de tal relação.
A superestimação dos excrementos foi reconhecida há tempos
na literatura psicanalítica. Já em 1900, em sua Traumdeutung, Freud
deu exemplos dela. Sonhos em que um fluxo de urina exerce
poderosos efeitos apresentam-se em mulheres com um “complexo
masculino” fortemente marcado. Em um trabalho anterior mencionei
o caso de um menino de três anos cuja megalomania narcísica não
estava reprimida, de modo que sua relação com os excrementos era

3. A dupla significação erógena da zona anal — ativa e passiva — foi tratada


em detalhes por Federn, em seu “Beitrãgen zur Analyse des Sadismus und
Masochismus" (1913).
CONTRIBUIÇÓES A TEORIA DO
*

CARÁTER ANAL (1921)*

êa

Karl Abraham

O vasto campo que se abre atualmente à ciência da psicanálise


nlmccc um abundante número de exemplos do rápido aumento do
mnliccimento psicológico ao longo das linhas da investigação
|u|mmcnte indutiva. O desenvolvimento da teoria do caráter anal
mlvw, seja o mais notável e instrutivo desses exemplos. Em 1908,
.
um de 15 anos após o aparecimento de suas primeiras contribuições
.]
[v.lcologia das neuroses, Freud publicou um breve trabalho,
Hll llulttdo “Caráter e erotismo anal”. Preenchia
apenas três páginas de
um periódico e era um modelo de exposição condensada e de resumo
|HuÍlth) e claro. O número gradualmente crescente de seus
: mnpnnhciros de trabalho, entre os quais pode-se mencionar Sadger,
i't'lt'ilt'Ll c Jones, auxiliou a ampliar o campo de conhecimentos
nim.. ulicrtos. A teoria concernente aos produtos da transformação do

punham" anal ganhou uma importância legítima quando, em 1913,


tintuln prosseguimento a importante investigação de Jones sobre “O
mtuu « o erotismo anal na neurose obsessiva”, Freud descreveu uma
lutnnlthl organização “pré-genital” da libido. Considerou que os
muunwç da neurose obsessiva eram o resultado de uma regressão
dn Iilmlo àquele estágio de desenvolvimento que se caracteriza por
mim |nir|mudcrância dos componentes instintivos anais e sádicos. Isto
lim—,um uma nova luz tanto sobre a sintomatologia da neurose
Ulm '.“.IVJ quanto sobre as peculiaridades caracterológicas da pessoa

tun—IHU“) do Marília
.
Montenegro.
20 Karl Abraham Contribuições à teoria do caráter anal 21

que dela sofre sobre o chamado “caráter obsessivo”. Antecipando


——

mande perseverança, lado a lado com a tendência a deixar tudo para


uma publicação futura, poderia acrescentar que anomalias de caráter lazer no último momento.
muito semelhante são encontradas naquelas pessoas que tendem a Deixarei de lado observações isoladas de outros autores na
estados mentais melancólicos ou maníacos. E é necessário o mais literatura psicanalítica, e voltar-me-ei para o estudo minucioso e
rigoroso estudo possível dos traços caracterológicos sádico—anais amplo de Jones sobre este assunto. Posso antecipadamente advertir
antes de podermos passar a investigar aquelas doenças mencionadas que não discordo desse autor em ponto algum, mas, não obstante,
por último, que ainda nos são tão enigmáticas. O presente estudo trata muto que suas afirmações, sob outros aspectos, necessitam de
principalmente das contribuições anais à formação do caráter. A última ninpliação e acabamento.
'

grande obra de Jones (1918) sobre este assunto apresenta uma Jones distingue muito corretamente dois atos diferentes no
relevante quantidade de material, mas não esgota, porque a obra de
pincesso que geralmente“ designamos como a educação da criança
uma pessoa isolada não pode corresponder a multiplicidade e nos hábitos de limpeza. A criança tem não apenas de ser ensinada a
complexidade dos fenômenos; cada analista que possua dados mio sujar seu corpo e seu ambiente com os excrementos, mas tem
obtidos por si próprio deveria publica—los, ajudando assim na também de ser educada a exercer suas funções excretoras em horas
contribuição do corpo do conhecimento psicanalítico. Da mesma nªnillarcs. Em outras palavras, ela tem de abandonar tanto a sua
forma, o propósito das observações seguintes e ampliar a teoria dos «npiªol'ilia quanto o seu prazer no processo de excreção. Este
traços caracterológicos anais em certas direções. Neste estudo, processo duplo de limitação de impulsos infantis, junto com suas
referir-se-á ainda, com bastante frequência, a uma outra questão de mimeqiiências na esfera psíquica, exige uma investigação posterior.
grande importância teórica. Até o presente, compreendemos muito () método primitivo de evacuação da criança—coloca toda a
incompletamente as ligações psicológicas particulares que existem '.upvrffeic de suas nádegas e extremidades inferiores em contato com
entre os dois impulsos — o do sadismo e o do erostimo anal que,- n mina e as fezes. Este contato
parece desagradável e mesmo
quase por hábito, mencionamos sempre intimamente associados um ir|iiilsivo para os adultos, cujas repressões os afastaram da reação
ao outro. Procurarei solucionar esta questão em trabalho posterior. ml."!lil a esses processos. Eles não podem apreciar as fontes de
Em sua primeira descrição do caráter anal, Freud disse que in .mºi' que a libido do bebê pode obter quando o jato de urina moma
certos neuróticos apresentam três traços caracterológicos Nilmª it pele e o contato com a massa tépida das fezes produzem
particularmente pronunciados, a saber: um amor à ordem que muitas uªu-.uçõcs agradáveis. A criança só começa a dar sinais de
vezes se transforma em formalismo; “uma parcimônia que se lll'M uuforto quando os produtos excretados
começam a esfriar sobre
transforma facilmente em avareza, e uma obstinação que pode tomar- " mi corpo. Trata-se do mesmo prazer que a criança busca quando
se uma irada rebeldia. Ele estabeleceu o fato de que o prazer primário inmupnla suas fezes, num período um tanto posterior. Ferenczi
pela defecação e pelas fezes apresentava nessas pessoas uma ênfase t Wlh) acompanhou o desenvolvimento posterior desta tendência
particular e também que, após uma repressão bem-sucedida, sua tnhmlil, Não se deve esquecer, ainda, que o prazer na visão e no
coprofilia se sublimava no prazer em pintar, modelar ou atividades . hmm das fezes está associado a
essas sensações.
similares ou, então, avançava ao longo do caminho na formação () prazer especial no ato de excreção, que devemos diferenciar
reativa para uma devoção especial a limpeza. Por fim apontou a um [condutas do processo excretório, compreende, além das
equivalência inconsciente estabelecida entre as fezes e o dinheiro ou mªrtins,-n*»; fisicas, uma satisfação psíquica que se acha baseada na
outros valores. Entre outras observações, Sadger (1910) notou que mm («lg Il” desse ato. Ora, exigindo uma estrita regularidade em suas
as pessoas com um caráter anal pronunciado acham-se geralmente vu It'l.lll“i,, bem como limpeza, o treinamento da criança expõe o
convencidas de que podem fazer tudo melhor que os outros. Fala um. I'.I'.lllti dela a um primeiro e severo teste. A maioria das crianças
também de uma contradição existente em seu caráter, ou seja, uma mtuu-|.: 'a' mais cedo ou mais tarde a essas exigências. Nos casos
20 Karl Abraham Contribuições à teoria do caráter anal 21

que dela sofre — sobre o chamado “caráter obsessivo”. Antecipando grande perseverança, lado a lado com a tendência a deixar tudo para
uma publicação futura, poderia acrescentar que anomalias de caráter fazer no último momento.
muito semelhante são encontradas naquelas pessoas que tendem a Deixarei de lado observações isoladas de outros autores na
estados mentais melancólicos ou maníacos. E é necessário o mais literatura psicanalítica, e voltar-me—ei para o estudo minucioso e
rigoroso estudo possível dos traços caracterológicos sádico-anais amplo de Jones sobre este assunto. Posso antecipadamente advertir
antes de podermos passar a investigar aquelas doenças mencionadas que não discordo desse autor em ponto algum, mas, não obstante,
por último, que ainda nos são tão enigmáticas. O presente estudo trata sinto que suas afirmações, sob outros aspectos, necessitam de
principalmente das contribuições anais à formação do caráter. A última ampliação e acabamento.
grande obra de Jones (1918) sobre este assunto apresenta uma Jones distingue muito corretamente dois atos diferentes no
relevante quantidade de material, mas não esgota, porque a obra de
processo que geralnf'ente designamos como a educação da criança
uma pessoa isolada não pode corresponder à multiplicidade e nos hábitos de limpeza. A criança tem não apenas de ser ensinada a
complexidade dos fenômenos; cada analista que possua dados não sujar seu corpo e seu ambiente com os excrementos, mas tem
obtidos por si próprio deveria publica-los, ajudando assim na também de ser educada a exercer suas funções excretoras em horas
contribuição do corpo do conhecimento psicanalítico. Da mesma regulares. Em outras palavras, ela tem de abandonar tanto a sua
forma, o propósito das observações seguintes e' ampliar a teoria dos coprofilia quanto o seu prazer no processo de excreção. Este
traços caracterológicos anais em certas direções. Neste estudo, processo duplo de limitação de impulsos infantis, junto com suas
referir—se-á ainda, com bastante frequencia, a uma outra questão de consequências na esfera psíquica, exige uma investigação posterior.
grande importância teórica. Até o presente, compreendemos muito O método primitivo de evacuação da criançahcoloca toda a
incompletamente as ligações psicológicas particulares que existem superfície de suas nádegas e extremidades inferiores em contato com
entre os dois impulsos — o do sadismo e o do erostimo anal — que, a urina e as fezes. Este contato parece desagradável e mesmo
quase por hábito, mencionamos sempre intimamente associados um repulsivo para os adultos, cujas repressões os afastaram da reação
ao outro. Procurarei solucionar esta questão em trabalho posterior. infantil a esses processos. Eles não podem apreciar as fontes de
Em sua primeira descrição do caráter anal, Freud disse que
prazer que a libido do bebê pode obter quando o jato de urina morna
certos neuróticos apresentam três traços caracterológicos sobre a pele e o contato com a massa tépida das fezes produzem
particularmente pronunciados, a saber: um amor à ordem que muitas sensações agradáveis. A criança só começa a dar sinais de
“»»-*

wªv”?

vezes se transforma em formalismo; uma parcimônia que se desconforto quando os produtos excretados começam a esfriar sobre
transforma facilmente em avareza, e uma obstinação que pode tomar- o seu corpo. Trata-se do mesmo prazer que a criança busca quando
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se uma irada rebeldia. Ele estabeleceu o fato de que o prazer primário manipula suas fezes, num período um tanto posterior. Ferenczi
pela defecação e pelas fezes apresentava nessas pessoas uma ênfase (1916) acompanhou o desenvolvimento posterior desta tendência
particular e também que, após uma repressão bem-sucedida, sua infantil. Não se deve esquecer, ainda, que o prazer na Visão e no
coprofilia se sublimava no prazer em pintar, modelar ou atividades cheiro das fezes está associado a essas sensações.
similares ou, então, avançava ao longo do caminho na formação O prazer especial no ato de excreção, que devemos diferenciar
reativa para uma devoção especial à limpeza. Por fim apontou a nos produtos do processo excretório, compreende, além das
equivalência inconsciente estabelecida entre as fezes e o dinheiro ou sensações físicas, uma satisfação psíquica que se acha baseada na
outros valores. Entre outras observações, Sadger (1910) notou que realização desse ato. Ora, exigindo uma estrita regularidade em suas
as pessoas com um caráter anal pronunciado acham-se geralmente excreções, bem como limpeza, o treinamento da criança expõe o
convencidas de que podem fazer tudo melhor que os outros. Fala narcisismo dela a um primeiro e severo teste. A maioria das crianças
também de uma contradição existente em seu caráter, ou seja, uma adapta-se mais cedo ou mais tarde a essas exigências. Nos casos
22 Karl Abraham Contribuições à teoria do caráter anal 23

favoráveis, a criança consegue transformar a necessidade em uma satisfatório para a mãe assoberbada. Anormalmente cedo, a criança
virtude, por assim dizer; em outras palavras, identifica—se com as tornou—se um modelo de limpeza e cresceu surpreendentemente
exigências de seus educadores e orgulha—se de sua realização. Dessa submissa. Quando cresceu, a paciente ficou num constante confli-
forma, o dano primário ao seu narcisismo é compensado e o to entre uma atitude consciente, por um lado, de submissão, resig—
sentimento original de auto—satisfação é substituído pela satisfação em nação e disposição a sacrificar-se e, por outro, um desejo
seu feito, em “ser boa”, em merecer elogio de seus pais. inconsciente de vingança.
Nem todas as crianças alcançam o mesmo êxito a este respeito. Este breve relato ilustra de maneira instrutiva o efeito dos danos
Deve-se chamar particularmente a atenção para o fato de existirem causados muito cedo ao narcisismo infantil, especialmente se esses
certas supercompensações por trás das quais se acha oculto aquele danos forem de natureza persistente e sistemática e forçarem
apego obstinado ao direito primitivo de autodeterminação que mais prematuramente ufn hábito à criança, antes que esta esteja
tarde irrompe, ocasionalmente, de modo violento. Tenho em mente psiquicamente preparada para ele. Esta preparação psicológica só
aquelas crianças (e, naturalmente, também os adultos) que são surge quando a criança começa a transferir para objetos (sua mãe
notáveis por sua “bondade”, suas maneiras polidas e obediência, mas etc.) os sentimentos que originalmente se acham ligados ao
que baseiam seus impulsos rebeldes subjacentes no fato de terem sido narcisismo. Quando a criança adquire essa capacidade, ela se torna
forçados à submissão desde a infância. Esses casos possuem sua limpa “pelo amor” dessa pessoa. Se a limpeza é exigida cedo demais,
própria história de desenvolvimento. Em uma de minhas pacientes, irá adquirir o hábito por meio do medo. Sua resistência interior
pude seguir o curso dos acontecimentos, até a primeira infância, em persistirá e a libido continuará numa fixação narcísica tenaz; resultará
relação à qual, é verdade, foram úteis as informações anteriores de disso uma perturbação permanente da capacidade da amar.
sua mãe.
.

O pleno significado de tal experiência para o desenvolvimento


A paciente era a do meio, entre três irmãs. Ela apresentava de psicossexual da criança só se evidencia se examinamos detidamente
modo inusitadamente claro e completo os traços característicos de 0 curso do prazer narcísico. Jones acentua a ligação existente entre
uma criança “do meio”, que Hug-Hellmuth (1921) recentemente a elevada auto—estima da criança e os seus atos excretórios. Em um
descreveu de maneira tão esclarecedora. Mas sua indocilidade, que breve trabalho (s/d.) já apresentei alguns exemplos para demonstrar
se achava associada de modo mais claro ainda com sua afirmação do que a idéia da criança sobre a onipotência de seus desejos e
direito infantil de autodeterminação no sentido acima mencionado, pensamentos pode originar-se de um estágio no qual ela concede uma
provinha, em última instância, de uma circunstância particular de sua onipotência desse tipo às suas excreções. Uma experiência posterior
infância. convenceu—me de que esse é um processo regular e típico. A paciente,
Quando nascera, sua irmã mais velha contava menos de um ano sobre cuja infância falei, havia indubitavelmente sido perturbada no
de idade. A mãe não havia conseguido completar a educação da mais gozo de um prazer narcísico dessa espécie. Os graves e dolorosos
velha nos hábitos de limpeza, quando a recém-chegada lhe impôs o sentimentos de insuficiência que a afligiram mais tarde muito
dobro do trabalho de lavagens, tanto de roupas quanto de corpos. provavelmente remontavam, em última análise, a essa destruição
Quando a paciente estava com alguns meses de vida, a mãe ficou prematura de sua “megalomania” infantil.
grávida pela terceira vez e resolveu apressar a educação de sua se— Considerar as excreções um signo de enorme poder é estranho
gunda filha nos hábitos de limpeza, de maneira a não estar por de- à consciência dos adultos normais. Que persiste no inconsciente, é
mais ocupada com ela quando nascesse a terceira filha. Exigiu demonstrado, contudo, por muitas expressões cotidianas, na maior
obediência por parte da criança com referência a fazer suas neces- parte de natureza jocosa; assim, por exemplo, o assento da privada
sidades mais cedo que o costumeiro e reforçou o efeito de suas pa- é muitas vezes designado como “trono”. Não é de espantar que
lavras, batendo nela. Essas medidas produziram um resultado muito crianças que cresceram num ambiente anal-erótico intenso incorpo-
22 Karl Abraham Contribuições à teoria do caráter anal 23

favoráveis, a criança consegue transformar a necessidade em uma satisfatório para a mãe assoberbada. Anormalmente cedo, a criança
virtude, por assim dizer; em outras palavras, identifica-se com as tornou-se um modelo de limpeza e cresceu surpreendentemente
exigências de seus educadores e orgulha-se de sua realização. Dessa submissa. Quando cresceu, a paciente ficou num constante confli—
forma, o dano primário ao seu narcisismo e' compensado e o to entre uma atitude consciente, por um lado, de submissão, resig—
sentimento original de auto-satisfação é substituído pela satisfação em nação e disposição & sacrificar-se e, por outro, um desejo
seu feito, em “ser boa”, em merecer elogio de seus pais. inconsciente de vingança.
Nem todas as crianças alcançam o mesmo êxito a este respeito. Este breve relato ilustra de maneira instrutiva o efeito dos danos
Deve-se chamar particularmente a atenção para o fato de existirem causados muito cedo ao narcisismo infantil, especialmente se esses
certas supercompensações por trás das quais se acha oculto aquele danos forem de natureza persistente e sistemática e forçarem
apego obstinado ao direito primitivo de autodeterminação que mais prematuramente fim hábito à criança, antes que esta esteja
tarde irrompe, ocasionalmente, de modo violento. Tenho em mente psiquicamente preparada para ele. Esta preparação psicológica só
aquelas crianças (e, naturalmente, também os adultos) que são surge quando a criança começa a transferir para objetos (sua mãe
notáveis por sua “bondade”, suas maneiras polidas e obediência, mas etc.) os sentimentos que originalmente se acham ligados ao
que baseiam seus impulsos rebeldes subjacentes no fato de terem sido narcisismo. Quando a criança adquire essa capacidade, ela se toma
forçados à submissão desde a infância. Esses casos possuem sua limpa “pelo amor” dessa pessoa. Se a limpeza é exigida cedo demais,
própria história de desenvolvimento. Em uma de minhas pacientes, irá adquirir o hábito por meio do medo. Sua resistência interior
pude seguir o curso dos acontecimentos, até a primeira infância, em persistirá e a libido continuará numa fixação narcísica tenaz; resultará
relação à qual, é verdade, foram úteis as informações anteriores de
.
disso uma perturbação permanente da capacidade da amar.
sua mãe. O pleno significado de tal experiência para o desenvolvimento
A paciente era a do meio, entre três irmãs. Ela apresentava de psicossexual da criança só se evidencia se examinarmos detidamente
modo inusitadamente claro e completo os traços característicos de o curso do prazer narcísico. Jones acentua a ligação existente entre
uma criança “do meio”, que Hug-Hellmuth (1921) recentemente a elevada auto-estima da criança e os seus atos excretórios. Em um
descreveu de maneira tão esclarecedora. Mas sua indocilidade, que breve trabalho (s/d.) já apresentei alguns exemplos para demonstrar
se achava associada de modo mais claro ainda com sua afirmação do que a idéia da criança sobre a onipotência de seus desejos e
direito infantil de autodeterminação no sentido acima mencionado, pensamentos pode originar-se de um estágio no qual ela concede uma
provinha, em última instância, de uma circunstância particular de sua onipotência desse tipo às suas excreções. Uma experiência posterior
infância. convenceu-me de que esse é um processo regular e típico. A paciente,
Quando nascera, sua irmã mais velha contava menos de um ano sobre cuja infância falei, havia indubitavelmente sido perturbada no
de idade. A mãe não havia conseguido completar a educação da mais gozo de um prazer narcísico dessa espécie. Os graves e dolorosos
velha nos hábitos de limpeza, quando a recém-chegada lhe impôs o sentimentos de insuficiência que & afligiram mais tarde muito
dobro do trabalho de lavagens, tanto de roupas quanto de corpos. provavelmente remontavam, em última análise, a essa destruição
Quando a paciente estava com alguns meses de vida, a mãe ficou prematura de sua “megalomania” infantil.
grávida pela terceira vez e resolveu apressar a educação de sua se- Considerar as excreções um signo de enorme poder é estranho
gunda filha nos hábitos de limpeza, de maneira a não estar por de— à consciência dos adultos normais. Que persiste no inconsciente, é
mais ocupada com ela quando nascesse a terceira filha. Exigiu demonstrado, contudo, por muitas expressões cotidianas, na maior
obediência por parte da criança com referência a fazer suas neces— parte de natureza jocosa; assim, por exemplo, o assento da privada
sidades mais cedo que o costumeiro e reforçou o efeito de suas pa- é muitas vezes designado como “trono”. Não é de espantar que
lavras, batendo nela. Essas medidas produziram um resultado muito crianças que cresceram num ambiente anal—erótico intenso incorpo-
24 Karl Abraham Contribuições à teoria do caráter anal 25

rem no conjunto de suas lembranças esses tipos de comparação que Jones dá ênfase ao fato de que muitos neuróticos desse tipo se
tão freqiientemente escutam e façam emprego deles em suas fanta- aferram obstinadamente ao seu próprio sistema de fazer as coisas.
sias neuróticas posteriores. Um de meus pacientes tinha uma com- Recusam inteiramente acomodar—se a qualquer sistema imposto de
pulsão a entender um significado desse tipo no hino nacional alemão. fora, mas esperam a submissão de outras pessoas desde que
Transpondo-se a si próprio em suas fantasias de grandeza, para o elaborem seu próprio sistema. Como exemplo, poderia mencionar a
lugar do kaiser, representava—se o “elevado deleite” de “banhar-se na introdução de regulamentos escritos para uso no escritório ou,
glória do trono”, isto é, tocar em seus próprios excrementos. possivelmente, a autoria de um livro que contenha regras ou
Mais uma vez a linguagem nos fornece exemplos característicos recomendações obrigatórias para a organização de todos os escritórios
desta superestimação da defecação. Em espanhol, a expressão de uma determinadaforma.
comum para ela, “regir el vientre” (“reger o ventre”), que é usada O próximo é urfi exemplo gritante desse tipo de neurótico. Uma
com toda a seriedade, indica claramente o prazer obtido pela pessoa mãe traçou, por escrito, um programa em que dispunha o dia de sua
no funcionamento de seus intestinos. filha da maneira mais minuciosa. As ordens para o início da manhã
Se reconhecermos no orgulho infantil pela evacuação um estavam estabelecidas do seguinte modo: ]) Levantar-se; 2) Usar a
sentimento primitivo de poder, poderemos entender a sensação privada; 3) Lavar-se etc. Pela manhã, batia de tempos em tempos na
peculiar de impotência que tantas vezes encontramos em pacientes porta de sua filha e perguntava: “Onde é que você está agora?”. A filha
com prisão de ventre neurótica. Sua libido foi deslocada da zona respondia então “9” ou “15”, conforme o caso. Desse modo, a mãe
genital para a zona anal e eles deploram a inibição de suas funções mantinha uma vigilância constante sobre a execução de seu plano.
intestinais exatamente como se fosse uma impotência sexual. Poder-se-ia mencionar que todos os sistemas desse tipo não
Pensando na pessoa que e' hipocondríaca a respeito de sua evacuação, apenas “evidencia, em seu inventor, uma obsessão pela ordem, mas
fica-se tentado a falar em uma impotência intestinal. também o seu amor pelo poder, que é de origem sádica. Pretendo,
Está estreitamente ligada a este orgulho a idéia de muitos posteriormente, tratar com mais detalhes sobre a combinação dos
neuróticos pela primeira vez descrita por Sadger — de que devem
-—
impulsos anais e sádicos.
fazer tudo eles próprios, porque ninguém mais poderá fazê—lo tão Pode-se fazer uma alusão aqui ao prazer que esses neuróticos
bem. De acordo com a minha experiência, frequentemente esta obtêm em fazer listas e registros de tudo, em elaborar quadros
convicção é exagerada a ponto de o paciente acreditar ser uma pessoa sinópticos e em lidar com estatísticas de toda espécie.
inigualável. Tomar—se—á pretensioso e arrogante e tenderá a subestimar Além disso, apresentam a mesma determinação em relação a
todos os outros. Certo paciente expressou isto do seguinte modo: qualquer exigência ou pedido que lhes seja feito por alguma outra
“Tudo o que não seja meu é sujeira”. Esses neuróticos só têm prazer pessoa. Lembremo-nos do comportamento daquelas crianças que
em possuir uma coisa que ninguém mais possua e desprezarão ficam com prisão de ventre quando a defecação lhes é exigida, mas
qualquer atividade que tenham de partilhar com outras pessoas. que se rendem depois a necessidade, na ocasião em que lhes é
É conhecida a sensibilidade da pessoa de caráter anal a agradável. Tais crianças rebelam—se igualmente contra o “vai” (ordem
usurpações externas de toda espécie, no campo real ou suposto de para esvaziar os intestinos) e contra a “obrigação” (expressão infantil
seu poder. É bastante óbvio que a psicanálise deve evocar a mais para designar a necessidade de defecar); seu desejo de adiar a
violenta resistência em tais pessoas, que a encaram como uma evacuação é uma proteção contra ambos os imperativos.
interferência inaudita em sua maneira de vida. “A psicanálise se mete A entrega de excremento é a forma mais primitiva pela qual uma
em meus assuntos”, disse certo paciente, indicando assim, criança “dá” ou “presenteia” alguma coisa, e o neurótico muitas vezes
inconscientemente, sua atitude homossexual passiva e anal para com apresenta a determinação que descrevemos na questão de dar. Assim,
o analista. em muitos casos recusará um pedido ou solicitação que lhe é feito,
26 Karl Abraham Contribuições à teoria do caráter anal 27

mas, por deliberação própria, dará a alguém um belo presente. Para O tipo oposto recebeu pouca consideração na literatura
ele, o importante é preservar seu direito de decisão. Freqtientemente psicanalítica. Há certos neuróticos que evitam tomar qualquer espécie
encontramos em nossas psicanálises um marido que se opõe a de iniciativa. Na vida comum, desejam um pai bondoso ou uma mãe
qualquer despesa proposta por sua mulher, ao mesmo tempo em que, atenta que estejam continuamente à mão para afastar todas as
pouco depois, entrega-lhe, por sua “livre e espontânea vontade”, mais dificuldades de seu caminho. Na psicanálise, ressentem-se de ter de
do que ela a princípio pedira. Esses homens deleitam—se em manter fornecer associações livres. Gostariam de ficar inteiramente quietos
suas esposas em permanente dependência financeira deles. Distribuir e deixar o médico efetuar todo o trabalho analítico ou, então, de
dinheiro em quantias que eles próprios determinam lhes é uma fonte
serem interrogados por ele. A similaridade dos fatos revelados pela
de prazer. Encontramos em alguns neuróticos um comportamento
análise desses casosª permite-me afirmar que esses pacientes, na
semelhante em relação à defecação, que eles apenas deixam efetuar-
infância, costumavam resistir ao ato de defecação deles exigido, e era
se in retracta dosi. Uma tendência especial que esses homens e
mulheres apresentam e distribuir a comida em porções, de acordo comum então poupar-lhes esse trabalho pela aplicação de freqiientes
enemas ou purgantes, por parte de sua mãe ou de seu pai. Para eles,
com o que acham melhor, e este hábito assume ocasionalmente
formas grotescas. Por exemplo, houve o caso de um velho sovina a associação livre e' uma evacuação psíquica, e, tal como ocorre com
a evacuação corporal, não gostam que lhes peça que a efetuem.
que alimentava o seu bode dando-lhe cada folha de capim
Estão continuamente a espera de que o trabalho lhes seja tornado
separadamente. Tais pessoas gostam de despertar desejo e
mais leve, ou seja, completamente feito para eles. Devo lembrar uma
expectativa nos outros e então conceder-lhes satisfação em
quantidades pequenas e insuficientes. forma inversa dessa resistência, que, da mesma maneira, localizei em
Nos casos em que têm de render—se à exigência de outra pessoa, fontes anais eróticas, num trabalho anterior (1919). Ela se refere
alguns desses neuróticos se esforçam por manter a aparência de estar àqueles pacientes que na análise desejam fazer tudo de acordo com
tomando uma decisão pessoal. Um exemplo disto é a tendência a seu próprio método e, por essa razão, recusam-se a realizar a
pagar em cheque mesmo as menores quantias; desta maneira, a associação livre prescrita.
pessoa evita usar as notas e moedas correntes, mas cria o seu Não pretendo, neste trabalho, discutir as formações neuróticas
“próprio dinheiro” em cada caso. O desprazer em pagar é assim de sintomas que surgem do erotismo anal reprimido, nem as suas
diminuído na mesma proporção em que seria aumentado se o manifestações caracterológicas. Dessa maneira, apontarei apenas as
pagamento fosse feito em dinheiro. Gostaria de esclarecer, contudo, diversas formas de inibição neurótica que obviamente têm algo a ver
que aqui também atuam outros motivos. com um deslocamento da libido para a zona anal. Necessita maior
Os neuróticos que desejam introduzir seu próprio sistema em estudo o fato de que evitar o esforço é uma característica freqiiente
tudo, são predispostos a exagerar sua crítica dos outros e isto facil— do caráter anal, e devo avaliar sucintamente qual é o estado de coisas
mente degenera em mera cavilação. Eles constituem, na vida social, na pessoa com o chamado “caráter obsessivo”.
o grupo principal dos descontentes. A característica anal da determi- Se a libido da pessoa do sexo masculino não progride
nação pode, contudo, desenvolver-se em duas direções diferentes, inteiramente para o estágio da organização genital, ou se regride da
como Jones convincentemente demonstrou. Em alguns casos fase genital para a fase de desenvolvimento anal, resulta disso
defrontamo-nos com o isolamento e a teimosia, isto é, com carac- invariavelmente uma diminuição de atividade masculina em todos os
terísticas que são anti-sociais e improdutivas. Em outros encontra— sentidos da palavra. Sua produtividade fisiológica acha—se ligada com
mos a perseverança e a meticulosidade, ou seja, características de a zona genital. Se a libido regride à fase sádico-anal, ela perde o
valor social, desde que não sejam levadas a extremos. Temos de poder produtivo e não apenas no sentido puramente generativo. Sua
chamar a atenção mais uma vez para a existência de outras fontes libido genital deveria dar o primeiro impulso ao ato procriador e, com
instintivas, além do erotismo anal, que vão reforçar essas tendências. isso, à criação de um novo ser. Se a iniciativa necessária para este
28 Karl Abraham Contribuições à teoria do caráter anal 29

ato reprodutivo está faltando, invariavelmente encontramos uma falta fixas, de modo que, em casos desfavoráveis, sua preocupação com
de produtividade e iniciativa em outros aspectos de seu a forma externa supera seu interesse na realidade da coisa.
comportamento. Mas os efeitos vão, mesmo, além disso. Considerando as diversas maneiras pelas quais o caráter anal debilita
Junto com a atividade genital do homem encontra-se uma a atividade masculina, não devemos esquecer a tendência,
atitude de sentimentos positiva para com seu objeto de amor e essa freqiientemente muito obstinada, de adiar qualquer ação. Estamos
atitude estende-se ao seu comportamento para com outros objetos e bem familiarizados com a origem desta tendência. Muitas vezes acha-
se expressa em sua capacidade de adaptação social, sua dedicação se associada a ela uma tendência a interromper toda atividade que foi
a certos interesses e idéias etc. Em todos esses aspectos, a formação iniciada, de modo que, em muitos casos, assim que uma pessoa
de caráter do estágio sádico-anal é inferior ao da fase genital. O começa a fazer algo, já se pode prever que uma interrupção ocorrerá
elemento sádico, que na vida emocional de um homem normal é de muito em breve. '“

grande importância, desde que sofra uma transformação apropriada Com mais raridade, encontrei o comportamento inverso. Por
através da sublimação, aparece com intensidade especial no caráter exemplo, um de meus pacientes estava impedido de escrever sua tese
obsessivo, mas torna-se mais ou menos paralisado em consequência de doutorado por causa de uma resistência de longa data. Após terem
da ambivalência da vida instintiva de tais pessoas. Ele contém vindo à luz diversos motivos de sua resistência, encontramos o
também tendências destrutivas e hostis ao objeto e, por causa disso, seguinte: ele declarou que se abstinha de iniciar o trabalho porque,
não pode sublimar'se numa capacidade real de devoção a um objeto uma vez o houvesse iniciado, não poderia abandona-lo de novo.
amado, porque a formação de reação de submissão e gentileza Lembramo—nos do comportamento de certos neuróticos com relação
demasiadas, que é freqiíentemente observada em tais pessoas, não às suas excreções. Eles retêm o conteúdo dos intestinos ou da bexiga
deve ser confundida com um verdadeiro amor transferencial. Aqueles tanto quanto podem; quando finalmente cedem à necessidade que se'
casos em que o amor objetal e a organização genital da libido foram tornou forte demais para eles, não pode haver mais retenções e
em boa parte atingidos são mais favoráveis. Se o traço evacuam todo o conteúdo daqueles órgãos. Um fato a ser
caracterológico da superbondade acima mencionado combina com particularmente observado aqui é que há um prazer duplo: () de reter
um amor parcial de objeto desta espécie, produz-se uma “variedade” as excreções e o de evacuá—las. A diferença essencial entre as duas
socialmente útil, a qual é, contudo, em aspectos essenciais, inferior formas de prazer reside na natureza de adiamento do processo, num
ao pleno amor objetal. dos casos, e no seu rápido curso, no outro. Com referência ao
Em indivíduos com uma genitalidade mais ou menos paciente acima mencionado, o início do trabalho longamente adiado
prejudicada, encontramos regularmente uma tendência inconsciente significava uma passagem do prazer na retenção para o prazer na
a considerar a função anal a atividade produtiva e dar a impressão de evacuação.'
que a atividade genital é secundária. Conseqiientemente, o Um pormenor da história do mesmo paciente mostrará até que
comportamento social dessas pessoas acha-se fortemente ligado ao ponto uma preponderância do erotismo anal sobre o genital toma o
dinheiro. Elas gostam de fazer presentes de dinheiro ou seu
equivalente e tendem a tornar-se patronos das artes ou benfeitores 1. A tendência a reter as fezes representa uma forma especial de aderência

de alguma espécie. Mas a sua libido permanece mais ou menos ao prazer antecipado e me parece merecer uma consideração especial.
Mencionarei aqui apenas um ponto referente à mesma. Recentemente,
desligada dos objetos e, assim, o trabalho que fazem continua treqúentes tentativas foram efetuadas para criar dois “tipos psicológicos"
improdutivo no sentido essencial. Não lhes falta, de modo algum, opostos e colocar todos os indivíduos numa ou noutra das categorias.
perseverança — um traço constante do caráter anal — mas sua Podemos lembrar. a este respeito, os tipos “extrovertido" e "introvertido" de
Jung. O paciente a quem mencionei acima se achava indubitavelmente
perseverança é em grande parte utilizada de maneiras improdutivas. voltado para si próprio no mais alto grau. mas, no curso de sua análise,
Elas a gastam, por exemplo, na observância pedantesca de formas abandonou cada vez mais essa atitude de hostilidade para com os objetos.
30 Karl Abraham Contribuições à teoria do caráter anal 31

neurótico inativo e improdutivo. Também durante a sua análise ele e anais da inveja, uma vez que ambas são de significado menor e
permanecia inteiramente inativo por longo período e, através dessa auxiliar da produção desse traço de caráter, que se origina da fase
resistência, impedia que se verificasse qualquer alteração em seu anterior, a oral, do desenvolvimento da libido. Bastará um exemplo
estado e circunstâncias. Como frequentemente acontece com os para ilustrar a ligação de toda inveja com as idéias anais de possessão
pacientes obsessivos, seu único método de lidar com as dificuldades e essa é a freqiiente inveja sentida pelo paciente em relação ao seu
externas e internas era praguejar violentamente. Essas expressões de analista: ele lhe inveja a posição de “superior” e continuamente se
afeto eram acompanhadas de um comportamento muito significativo. compara a ele. Um paciente disse certa vez que a distribuição dos
Em vez de pensar no êxito de seu trabalho, costumava ponderar a papéis na psicanálise era demasiadamente injusta, porque era ele quem
questão do que aconteceria às suas maldições. se elas alcançariam tinha de fazer todos os sacrifícios: visitar o médico, produzir as
Deus ou o diabo e qual era o destino das ondas sonoras em geral. associações e pagarªo dinheiro. 0 mesmo paciente tinha também o
Sua atividade intelectual era, assim, substituída por um remoer hábito de calcular a renda de todas as pessoas que conhecia.
neurótico. Suas associações mostravam que a questão remoída sobre Chegamos agora muito perto de um dos traços clássicos da
o lugar a que chegava finalmente o ruído se referia também ao cheiro pessoa que possui um caráter anal, ou seja, a sua atitude especial para
e, em última análise, era de origem anal—erótica (flatos). com o dinheiro, a qual é habitualmente uma atitude de parcimônia ou
Falando de um modo geral, pode-se dizer que quanto mais a avareza. Por mais frequentemente que tenha sido confirmada esta
atividade masculina e a produtividade se acham obstaculizadas nos característica pela literatura psicanalítica, existe ainda um certo
neuróticos, mais pronunciado se toma o seu interesse na posse e isto número de aspectos relacionados a ela que não receberam muita
de uma maneira que se afasta completamente do normal. Em casos atenção e dos quais, dessa maneira, passarei a tratar.
acentuados de formação de caráter anal, quase todas as relações da Há casos em que a relação entre a retenção intencional das fezes
vida são colocadas na categoria de ter (aferrar-se) e dar, isto é, de e a parcimônia sistemática é perfeitamente clara. Posso mencionar
propriedade. É como se o lema de grande parte dessas pessoas o exemplo de um rico banqueiro que repetidamente fazia ver a seus
fosse: “Quem quer que me dê algo é meu amigo; quem quer que filhos que deveriam reter o conteúdo dos intestinos tanto quanto
deseje algo de mim é meu inimigo”. Certo paciente disse que não possível, a fim de haurir os benefícios de todos os pedaços dos
poderia ter quaisquer sentimentos amistosos para comigo durante o alimentos caros que comiam.
seu tratamento, dando uma explicação: “Enquanto tenho de pagar Alguns neuróticos limitam sua parcimônia ou avareza a certos
algo a alguém, não posso ter amizade com ele”. Encontramos tipos de despesas, enquanto em outros aspectos gastam dinheiro com
exatamente o oposto desse comportamento em outros neuróticos; uma liberalidade surpreendente. Há um tipo de paciente que evita
seus sentimentos amistosos para com uma pessoa aumentam em gastar qualquer dinheiro em coisas passageiras. Um concerto, uma
proporção à ajuda que esta necessita e pede. viagem, uma visita a uma exposição envolvem despesas e nada se
No primeiro dos grupos, o maior, a inveja sobressai clara- obtém de permanente em troca. Conheci uma pessoa que evitava ir
mente como traço caracterológico principal. A pessoa invejosa, a ópera por esta razão; não obstante, comprava partituras para piano,
contudo, não mostra apenas desejo pelas posses dos outros, mas liga das óperas que não havia ouvido, porque dessa maneira obtinha algo
a este desejo impulsos rancorosos contra o possuidor privilegiado. “duradouro”. Alguns desses neuróticos evitam gastar dinheiro em
Mas, de passagem, faremos apenas uma referência às raízes sádicas comida, porque ela não é retida como uma posse permanente. É
significativo que outro tipo de paciente gaste sem parcimônia em
Essa e muitas experiências semelhantes provam que a “introversão”, no alimentos que o valorizem. Trata—se dos neuróticos que estão sempre
sentido junguiano, constitui um apego infantil ao prazer na retenção. vigiando ansiosamente seus corpos, verificando o peso etc. Seu
Estamos, assim, lidando com uma atitude que pode ser adquirida ou
abandonada e não com uma manifestação de um tipo psicológico rígido. interesse acha-se relacionado com a questão do que sobra como
32 Karl Abraham
Contribuições à teoria do caráter anal 33

possessão permanente do material absorvido pelo seu corpo. É num só movimento, pela manhã. Exemplos desta espécie poderiam
evrdenteque identificam o conteúdo do corpo com o dinheiro.
multiplicar—se facilmente.
.Em outros casos, descobrimos que o neurótico leva sua As formas pelas quais o prazer na posse pode se expressar são
parcrmônia a todos os aspectos da vida e, em certos
pontos, chega muito numerosas. O colecionador de selos que tão profundamente se
a extremos, sem efetuar qualquer economia
apreciável. Poderia ressente da falha em sua coleção, não se acha tão afastado do ava—
mencronar um avarento excêntrico que costumava andar
pela casa rento que, de acordo com a noção popular, conta e se rejubila com
com a bragueta desabotoada, a fim de
que as casas dos botões não moedas de ouro. O trabalho de Jones referente ao impulso a colecio-
se gastassem muito depressa. É fácil adivinhar
que, neste caso, nar é tão informativo que nada de importância posso acrescentar-lhe.
outros impulsos também entravam em ação, mas é
característico que Por outro lado, parece—me necessário fazer uma rápida alusão
eles estejam ocultos por trás da tendência anal—erótica de economizar a um fenômeno que seªacha estreitamente relacionado com o prazer
dinheiro e que este motivo deva ser tão enfatizado. Em alguns do indivíduo em olhar para suas próprias posses. Retiro-me ao pra-
pacrentes, encontramos uma parcimônia no caso especial do
uso de zer de olhar para as nossas próprias criações mentais, cartas, manus-
papel higiênico. Nisto, a aversão a sujar uma coisa
limpa coopera critos etc., ou obras completas de todos os tipos. O protótipo desta
como fator determinante.
tendência é o exame de nossas próprias fezes, que é uma fonte sem-
O deslocamento da
avareza, do dinheiro ou do valor do dinheiro pre renovada de prazer para muitas pessoas e, em alguns neuróticos,
para o tempo, pode ser observado com muita freqiiência. O
tempo, uma forma de compulsão psíquica.
devemos lembrar, é igualado ao dinheiro num dito familiar. Muitos Este fato de uma superênfase libidinal da posse explica a
neuróticos preocupam-se continuamente com
seu desperdício de dificuldade que nossos pacientes têm de se separar de objetos de
tempo e apenas o que gastam sozinhos ou em seu trabalho é '

que lhes todos os tipos, mesmo quando estes não possuem uso prático nem
parece bem empregado. valor monetário. Tais pessoas frequentemente colecionam toda sorte
'Qualquer perturbação do seu trabalho os irrita sobremaneira. de objetos quebrados no sótão, sob o pretexto de que poderão
Odelam a inatividade, os prazeres etc. São
pessoas que tendem a precisar deles mais tarde. Depois, em uma ou outra ocasião, livram—
apresentar as “neuroses de domingo” descritas por Ferenczi (1919), sc de uma só vez de todo o monte de quinquilharias. Seu prazer em
isto'e, que não podem suportar uma interrupção de seu trabalho. possuir uma massa de material armazenada corresponde inteiramente
Assrm como todo propósito neuroticamente
exagerado deixa com ao prazer na retenção das fezes. Neste caso, descobrimos que a
freqtiência de alcançar o seu objeto, este é também o caso aqui. Os
remoção (evacuação) do material é postergada tanto quanto possível.
pacrentes freqtientemente economizam tempo em
pequena escala e As mesmas pessoas colecionam pedaços de papel, envelopes velhos,
desperdiçam-no em alto grau.
penas usadas e coisas semelhantes e não podem livrar-se disso por
'IZais pacientes muitas vezes empreendem duas
ocupações de longos períodos de tempo; depois, a raros intervalos, fazem uma
uma so vez, a fim de economizar tempo. Gostam,
por exemplo, de limpeza geral, que de certa maneira se acha associada com prazer.
estudar, ler ou realizar outras tarefas durante a defecação.2
Repetidas I'íntt'e homens de negócio e empregados de escritório encontrei
vezes encontrei pessoas que, a fim de
poupar tempo, “costumavam algumas vezes uma tendência particular a preservar cuidadosamente
colocar ou tirar seu paletó e colete juntos ou, ao irem para a cama,
deixavam as cuecas dentro das calças, a fim de enfiar papel mata-borrão inteiramente sujo e rasgado. No inconsciente
as duas peças desses neuróticos, os borrões de tinta são equivalentes a mancha das
2.
luas. Poderia mencionar que conheci uma mulher senil e de mente
Para estes neuróticos, a privada é o verdadeiro lugar de “produção" onde
o isolamento é uma ajuda. Certo paciente Ilt'hllltada, com uma forte regressão da libido ao estágio anal, que
que demonstrava uma violenta
res:stencia a dar associações livres durante as horas analíticas [ uslumava colocar no bolso o papel higiênico que havia usado e
produzia-
as em casa, na privada, e trazia-as já prontas para a análise. IFVZIVlÇl-O com ela
por todos os lados.
34 Karl Abraham Contribuições à teoria do caráter anal 35

O hábito peculiar de uma mulher que também apresentava pode representar o equivalente de uma desejada libertação da libido
pronunciados traços anais em outros aspectos, mostra claramente (1917), mas neuroticamente inibida. Poderia mencronar aqut a
que jogar fora objetos equivale, no inconsciente, a evacuar fezes. inclinação que certas mulheres têm de jogar dinheiro fora. Isso
Essa mulher era incapaz de jogar fora objetos
que haviam se tornado expressa hostilidade para com o marido, cujos “recursos"ª lhe sao
inúteis. Não obstante, às vezes sentia-se impelida a tirados dessa maneira; está ligada, portanto (se deixarmos de lado
se desfazer de
algum desses objetos e inventara, por assim dizer, um método de certos determinantes), a uma expressão do complexo feminino de
enganar-se a si mesma. Saía de casa para um bosque vizinho com castração, no sentido de uma vingança contra o homem. Novamente
o objeto a ser jogado fora umas roupas velhas, vemos aqui motivos sádicos cooperando com os de origem anal-
por exemplo — preso
——

às suas costas por uma ponta, enfiada sob cordão do erótica.


o avental. Em
sua caminhada pela floresta ela o “perdia” e voltava Podemos compreender inteiramente, por sua atitude contradi- .

para casa por tória em relação à defecação, a mesquinhez que muitos neuróticos
outro caminho, para que não encontrasse o objeto “perdido”. Dessa
maneira, a fim de abandonar a posse de um objeto, tinha de deixá- mostram na poupança de pequenas somas de dinheiro, ao mesmo
lo cair da parte posterior do
corpo. tempo em que gastam larga e generosamente de tempos em tempos.
As pessoas que não gostam de se livrar de Essas pessoas adiam o esvaziamento dos intestinos por tanto tem-
objetos usados, em
regra não se prendem facilmente a novos. Compram roupas novas, po quanto possível — frequentemente dando a falta de tempo como
mas não as usam; “guardam-nas” para o futuro e só tiram delas razão — e, quando vão ao banheiro, evacuam somente uma pequena
um
prazer real enquanto permanecem dependuradas e sem uso no quantidade de fezes. Mas, de vez em quando, têm uma evacuação em
guarda-roupa. grande escala.
.

A dificuldade para jogar fora Encontramos ocasionalmente pessoas com um pronuncrado .

objetos usados ou sem valor


conduz frequentemente a uma tendência compulsiva: caráter anal cuja libido se voltou com inteira exclusividade para a
fazer uso
mesmo das coisas mais insignificantes. Um homem rico costumava posse de dinheiro. Um paciente contou-me certa vez que, quando
cortar suas caixas de fósforos vazias em pequenas tiras e dava-as menino, não brincava de batalha com soldados de chumbo como
aos faziam as outras crianças, mas sim com moedas. Fazia com que as
criados para que acendessem o fogo com elas. Uma tendência
semelhante aparece nas mulheres no período de involução. pessoas lhe dessem moedas de cobre e estas representavam os
Em muitos casos o interesse da pessoa em fazer soldados comuns. As moedas de níquel eram oficiais inferiores de
uso de sobras diversas categorias e, as de prata, oficiais superiores. Uma moeda de
experimenta uma forma incompleta de sublimação, tal
como, por prata de cinco marcos era o marechal-de-campo. Esse ofrcral achava:
exemplo, quando um neurótico tem como seu sonho diurno favorito
a utilização do lixo de uma cidade inteira, embora não se a salvo de todo ataque num edifício especial “por trás do fronte .
nenhum resultado prático de suas reflexões. Trataremos apareça Na batalha, um dos lados fazia “prisioneiros” do outro e os
posteriormente dos sonhos diurnos dessa natureza. acrescentava a seu próprio exército. Desta maneira, um dos lados
Encontramos em nossos pacientes, com menos frequência aumentava a sua possessão de dinheiro até que nada sobrava ao
& parcimônia,
que outro. É bastante evidente que a “luta” no inconsciente do pacrente
uma tendência à extravagância. Numa observação
comunicada à Sociedade Psicanalítica de Berlim, Simmel estabeleceu era contra o seu pai “rico”. Vale a pena notar, contudo, que o dinheiro
um paralelo entre a extravagância e a diarréia neurótica, de substituía inteiramente os seres humanos e, na verdade, quando esse
modo tão paciente procurou—me em busca de tratamento, não tinha mais
evidente quanto o paralelo existente entre a avareza e
a prisão de
ventre, que há muito tempo era clara para nós. Posso confirmar a
correção de sua opinião pela minha própria experiência e, na verdade, 3. A palavra alemã Vermogen significa “recursos”, “opulência", e tambem
há alguns anos chamei a atenção “capacidade sexual" (N. da T.).
para o fato de que gastar dinheiro
36 Karl Abraham Contribuições à teoria do caráter anal 37

interesse pessoalem outros indivíduos, quaisquer que fossem', apenas Poderia mencionar aqui que no inconsciente desses neuróticos,
a posse do dinheiro e de valores monetários o atraía.
um quarto fora de ordem, com gavetas desarrumadas etc., representa
A conduta de nossos pacientes é tão contraditória
em relação à o intestino cheio de fezes. Repetidas vezes tive ocasião de analisar
ordem e à limpeza quanto ao gasto de dinheiro. O fato é tão familiar
sonhos que aludem aos intestinos dessa maneira. Um de meus pacien—
a todo psicanalista que uma referência geral a ele não deveria
ser lcs trouxe-me um sonho em que subia uma escada após a mãe, a fim
necessária, mas certas peculiaridades a este respeito merecem uma de chegar a um quarto de trastes velhos situados no sótão. Era um
consrderação especial.
sonho de incesto, com uma fantasia de coito anal, na qual o ânus era
O prazer em fazer listas e classificar,
compilar relações e simbolicamente representado como uma escada estreita e, o intesti—
resumqsestatísticos, traçar programas e regular o trabalho por meio no, como um quarto de coisas velhas. Os traços caracterológicos
li-
de horarios, é bem conhecido como constituindo
uma expressão do gados à ordem, como: por exemplo a minuciosidade e a precisão,
carater anal. Esta tendência se constitui de forma tão acentuada em incham—se com frequência estreitamente associados a característica
murtas pessoas que o prazer antecipado
que obtêm na elaboração de oposta. Esses traços são particularmente examinados nas investiga-
um plano é mais intenso que a satisfação em sua
execução de ções de Jones e não necessito entrar neles, mas posso mencionar o
maneira que muitas vezes o deixam por fazer. Conheci um certo anseio por simetria e “justiça” que se acha muitas vezes representa—
numero de pacientes. com uma inibição de longa data em
seu (|O no caráter anal.
trabalho, que traçavam um plano de atividade, digamos, a cada Assim como alguns neuróticos contam os passos a fim de
domrngo, para a semana seguinte e depois deixavam completamente
de po-loem prática. Deve-se notar chegar a seu destino com um número par de passadas, também não
que eles incluíam não apenas toleram a assimetria em outros assuntos. Dispõem todos os seus
pessoas mdecisas, mas também obstinadas que, em sua maneira
objetos simetricamente e dividem tudo com uma exatidão minuciosa.
auto-referente, rejeitavam os métodos já provados de outros e Um marido fará cálculos para demonstrar a mulher que não existe
desejavam agir de acordo com os seus próprios. Muitos neuróticos
equilíbrio entre os seus gastos respectivos em roupas etc., e estará
permanecem durante toda a vida numa particular atitude de constantemente calculando o que um deles gastou e, portanto, o que
ambivalência em relação à ordem e à limpeza. Há pessoas que são
o outro tem direito de gastar, para emparelhar as coisas. Durante a
murto bem arrumadas no que concerne ao seu exterior
mas escassez de comida, na Grande Guerra, dois irmãos solteiros
enquanto as suas roupas visíveis são irrepreensíveis, as roupas de mantinham casa juntos. Quando a carne racionada para ambos era
baixo e as partes cobertas de seu
corpo são extremamente sujas.4 colocada sobre a mesa, eles a dividiam pesando cada porção numa
Essas mesmas pessoas tendem a manter uma ordem
escrupulosa em balança de cartas. Ambos mostravam-se ansiosos para que o outro
suas casas. Na mesa de escrever, por exemplo, cada objeto
possui não ficasse com menos ou se sentisse injustamente tratado. O desejo
o seu lugar especial e os livros são colocados com
grande cuidado
e regularidade na estante em que se acham visíveis. Nas perpétuo de estar “quite” com outras pessoas, isto é, não se achar
gavetas
contudo, reina a completa desordem, a qual somente é corrigida por em dívida, por trivial que seja, é também significativo. A tendência
uma limpeza completa em raras ocasiões e, mesmo então, de outras pessoas com um pronunciado caráter anal, a esquecer as
apenas de dívidas (particularmente quando se trata de pequenas somas) pode
uma maneira temporária.
ser considerada um sintoma de erotismo anal não sublimado.
4.
Finalmente, devemos discutir uma descoberta de Jones
HEáurn ditado em Berlim com referência a tais pessoas: Oben hui, unten pfuil mencionada apenas de passagem, mas que, obviamente, é o resultado
( m crma, todo arrumado; embaixo, oh, que vergonha!). Na Bavária dizem.
mais vulgarmente: Oben beg/issen ("brilhando"), unten beschissen (._í condensado de uma ampla experiência.
beSIIal )ª lts cºlltlªdlçºes de ªlgumªs pessºªs a eSte Iespeltº Saº, Um dos mais interessantes resultados do erotismo anal, escreve
pºllªlllº, assunto de COIIlleCÍIIIeIIlO
COIIIUIII. ele, “é a tendência a se ocupar com o lado oposto de diversas coisas
36 Karl Abraham Contribuições à teoria do caráter anal 37

interesse pessoal em outros indivíduos, quaisquer Poderia mencionar aqui que no inconsciente desses neuróticos,
que fossem', aP ena 5
a posse do dinheiro e de valores monetários o atraía.
um quarto fora de ordem, com gavetas desarrumadas etc., representa
A cpnduta de nossos pacientes é tão contraditória de analisar
em relação à o intestino cheio de fezes. Repetidas vezes tive ocasião
ordem e a limpeza quanto ao gasto de dinheiro. O fato é tão familiar
sonhos que aludem aos intestinos dessa maneira. Um de meus pacien-
a todo psicanalista que uma referência geral a ele não deveria
ser tes trouxe-me um sonho em que subia uma escada após a mãe, a fim
necessaria, mas certas peculiaridades a este respeito merecem uma de chegar a um quarto de trastes velhos situados no sótão. Era um
consrderação especial. sonho de incesto, com uma fantasia de coito anal, na qual o ânus era
O prazer em fazer listas e classificar,
compilar relações e simbolicamente representado como uma escada estreita e, o intesti-
resumqsestati'sticos, traçar programas e regular o trabalho por meio li-
de horarios, é bem conhecido como constituindo no, como um quarto de coisas velhas. Os traços caracterológicos
uma expressão do gados à ordem, comia por exemplo a minuciosidade e a precisão,
carater anal. Esta tendência se constitui de forma tão acentuada em acham-se com frequência estreitamente associados a característica
murtas
pessoas que o prazer antecipado que obtêm na elaboração de oposta. Esses traços são particularmente examinados nas investiga-
um plano e mais intenso que a satisfação em sua mencionar o
execução de ções de Jones e não necessito entrar neles, mas posso
maneira que muitas vezes o deixam por fazer. Conheci um certo anseio por simetria e “justiça” que se acha muitas vezes representa-
numero de pacientes. com uma inibição de longa data em seu
do no caráter anal.
trabalho, que traçavam um plano de atividade, digamos a cada Assim como alguns neuróticos contam os passos a fim de
domingo, para a semana seguinte e depois deixavam completamente chegar a seu destino com um número par de passadas, também não
de po-loem prática. Deve—se notar
que eles incluíam não a enas toleram a assimetria em outros assuntos. Dispõem todos os seus
pessoas mdecisas, mas também obstinadas que, em sua maiiieira
objetos simetricamente e dividem tudo com uma exatidão minuciosa.
auto—referente, rejeitavam os métodos já provados de outros e Um marido fará cálculos para demonstrar a mulher que não existe
desejavam agir de acordo com os seus próprios. Muitos neuróticos
equilíbrio entre os seus gastos respectivos em roupas etc., e estará
permanecem durante toda a vida numa particular atitude de constantemente calculando o que um deles gastou e, portanto, o que
ambivalência em relação à ordem e à limpeza. Há pessoas que são
o outro tem direito de gastar, para emparelhar as coisas. Durante a
murto bem arrumadas no que concerne ao seu exterior mas
escassez de comida, na Grande Guerra, dois irmãos solteiros
enquanto as suas roupas visíveis são irrepreensíveis, as roupas de mantinham casa juntos. Quando a carne racionada para ambos era
baixo e as partes cobertas de seu
corpo são extremamente sujas 4 colocada sobre a mesa, eles a dividiam pesando cada porção numa
Essas mesmas pessoas tendem a manter uma ordem
escrupulosa em balança de cartas. Ambos mostravam-se ansiosos para que o outro
suas casas. Na mesa de escrever, por exemplo, cada objeto
o seu lugar especial e os livros são colocados
possui não ficasse com menos ou se sentisse injustamente tratado. O desejo
com grande cuidado achar
e regularidade na estante em que se acham visíveis. Nas perpétuo de estar “quite” com outras pessoas, isto é, não se
gavetas trivial que seja, é também significativo. A tendência
contudo, reina a completa desordem, a qual somente é corrigida por em dívida, por
.
.- e, mesmo então, de outras pessoas com um pronunciado caráter anal, a esquecer as
um a llmpeza completa em raras ocasroes
apenas de dívidas (particularmente quando se trata de pequenas somas) pode
uma maneira temporária.
ser considerada um sintoma de erotismo anal não sublimado.
Finalmente, devemos discutir uma descoberta de Jones
ditado em Berlim com referência a tais
aliamum pessoas: Oben hui, unten pfui/
todo arrumado; embaixo, oh, que vergonha!). Na Bavária dizem.
mencionada apenas de passagem, mas que, obviamente, é o resultado
maisetmp, condensado de uma ampla experiência.
vu garmente: Oben beg/issen ("brilhando"), unten beschissen (=:
beshat ). AS cºntladlçºes de algulllas pessºas a este leSPeltº saº] Um dos mais interessantes resultados do erotismo anal, escreve
Pºllalltº, assuntº de Cºllllec IllelllO COIIIUIII. ele, “é a tendência a se ocupar com o lado oposto de diversas coisas
38 Karl Abraham
Contribuições à teoria do caráter anal 39
e situações. Isto pode se manifestar de
muitas maneiras diferentes:
numa curiosidade acentuada sobre o
oposto ou o lado de trás de
objetos e lugares — como, por exemplo,
no desejo de viver no outro
lado de uma colina f
porque ela tem o seu lado de trás voltado
determinado lugar — na inclinação a para um
cometer numerosos enganos
à
quanto esquerda e direita, este e oeste, a'inverter alg: a dlZEI ::In [EÍEIEHCIa & ES[E ESLZlClO da IHEHLE'
na escrita, e assim por diante”.
palavras e letras
Poderia apoiar a opinião de Jones
com diversos exemplos
tirados de minha própria experiência. Eles
são de grande importância
para a compreensão de certos sintomas e
traços caracterológicos &

neuróticos. Não há dúvida de m


que o deslocamento da libido da zona p
genital para a anal é o protótipo de todas
essas “inversões”. Nesse
sentido, pode-se mencionar a conduta de
muitas pessoas que são
consideradas excêntricas. Sua natureza é
construí da, na maioria das
vezes, por traços caracterológicos anais. Elas g S
tendem a agir, tanto em '
grandes quanto em pequenas coisas, de
maneira oposta à das outras
pessoas. Usam roupas que são tão diferentes m S Sp
moda predominante; trabalham quanto possível da ,

enquanto os outros se divertem. Se


fazem um trabalho no qual os
outros se senta m, elas ficam de pé, S , Vel C6
Onde os outros vão de
carro, elas caminham ou correm,
os outros andam. Se as enquanto
pessoas estão usando roupas quentes,
vestem o contrário. A comida de
que gostam é contrária ao gosto C t e p nh OSSO ªCle CCllt ,
geral. A ligação entre isto e o conhecido ,
traço caracterológico da de ÍCIleZl pr:nun:1adª9 :S “PICC- traçªs :ata:[EI:1:Dl: :S Ellla'ls
obstinação é inequívoca.
, $

Na minha época de estudante conheci


um jovem que era notado
por seus hábitos peculiares. Vivia associalmente, .- . x
ªltu ' -

l
q e Ílao est
.
resistia à moda do LOHSCICHtC Ve & & Z
tempo de uma maneira ostensiva e não se
adaptava aos costumes do , !
resto dos estudantes. Certo dia,
º a

quando estava almoçando com ele g


num restaurante, reparei
que seguia o cardápio na ordem inversa, isto
é, começava com o doce e terminava , ' -

com a
-
» º

tarde, seus parentes pediram—me sopa. Alguns anos mais


fosse visitá—lo
profissionalmente. Descobri que já havia que dos EStag138
desenvolvido delírios & CCIIlpIeensac CCS quals ESSEHClal l'un E SGHhECIHIEntC
paranóicos definidos. Se mantivermos
em mente a grande pré-genitais do desenvolvimento.
significação do erotismo anal na
psicogênese da paranóia,
significação que Ferenczi apontou, poderemos
comportamento excêntrico desse homem compreender o
como uma formação de
caráter anal e, portanto, como um
precursor da paranóia.
Certos casos de neuroses em
mulheres, nas quais se expressa
um complexo de castração excepcionalmente 5“ Al urnas é verdade têm a seu dispor abundantes fo_ntes
'
naI'CISI 'cas de
forte, revelam—nos prªzer e vivem num estado de sorridente auto—satisfaçao.
40 Karl Abraham

Referências

A BRAHAM,Karl (1917). The Spending


,
A ENFERMIDADE DOS TABUSI
of Money in Anxiety States
(1919). The Applicabili ty of Psycho-Analytic Treatment DIZER*
to DO QUERER GOZAR AO QUERER
Patients
.
at an Advanced Age.
(s/d.). The Narcissistic Ev “ 1 “ªnº”
'
,
of Excretory Processes in
Dreams and Neurosís.
FERENCZI, Sándor (1916), On the
Onto of an Interest in Money Vera Lopes Besset
(Sobre a ontogênese do interesse no di genesis
nheiro) ª».

Susane Vasconcelos Zanotti


(1919). Sunday Neurosis (Neurose de
domingo).
H UG-HELLMUTH, Hermine von (1921). Vom
“mittlerem” Kinde .
JONES, Ernest (1918). Anal- erotic Chara cter Trazts
'
. (Traços caracteroló—
glcos anªl—eróticos). Sintoma: proibição e satisfação
SADGER, Isidor (1910). Analerotik und Analcharakter
A clínica psicanalítica inscreve-se na tradição freudiana, que
confere valor de verdade à fala do sintoma. Acreditar no sintoma é
também
dar sentido ao sofrimento. Mas se o sintoma diz algo, fala,
desse modo, a
nos interroga, em sua permanência. Impõe—nos,
serve? O que resiste, no sintoma, atrela-se a
pergunta: para quê
inércia do gozo, que escapa à lógica do princípio do prazer
e se
a construção do sintoma
desvela na repetição. Nessa perspectiva,
revela-se uma necessidade ou uma solução (Brodsky, 2002).
do
Ao contrário da histeria, onde o recalque converte parte
fazendo faltar a representação
corpo próprio em símbolo mnêmico,
a consciência — lacuna na psíquico (Freud, 1950b, p. 269) — na
deslocamento
neurose obsessiva, esse mesmo processo provoca o
do afeto, de uma representação para outra. Por isso, possível
é

afirmar que o obsessivo é alguém que sofre de seus pensamentos.


O fato de as representações permanecerem na
consciência, ou seja,
de poder entrar sem entraves na fala do sujeito, não é sem
consequências para a clínica psicanalítica.

da autora
*
Texto referente a pesquisa em andamento, sob a coordenação
do CNPq, no âmbito da linha de pesquisa Subjetividade, Cultura e
e apoio
Questões do Contemporânea do Programa de Pós-Graduação
em
Psicologia do Instituto de Psicologia da UFRJ.
42 Vera Lopes Basset e Susana Vasconcelos Zanetti
A enfermidade dos tabus 43

Na clinica observa-se
que, apesar de buscar liberar-se de seu
sintoma, o sujeito paradoxalmente resiste
a fazê-lo. Eis ao que isso toma do qual se goza. Na formulação freudianazbê1
" ' ' “ açao ob sessiva '
"
'
e' resumivelmente um a defesa frente a açao p ror a; porem prefe -
*
'
aponta: cada um se satisfaz, goza com seu sintoma. l
Ess e goza, tão ríãmos dizer , - , o” ( Pre/Ud, . .

infiltrado no sintoma, traz dificuldades que na verdade e a repetiçao do que e prºibid


_

ao tratamento de obsessivos,
que aparecem como paradigma do 1913 57).
que chamamos os “novos .
,Tliata-se de ” Cha ada .

satisfação substitutiva da moçao pulsronal roemuâmr


. .
sintomas”. Neles, em vez de um
querer dizer, exibe-se um querer
pelo eu , que não mais se reconhece como tal. Essa, acenta
gozar (Miller, 1998/1999); onde a exigência pulsional c , _ .

a forma de compulsão: bulimias, comparece sob


anorexias, excessos — sexuais,
"
se nao roduz nenhu ma sensaçao '
de praze , r mas apres 0 cará—

tei de Ligia compulsão. Isto porque, ao processo vo 6, “ ml-


. . .

consumo desenfreado de bens, drogas... Sofrimentos fggããggg] 93-1)


'

com frequencia, apenas demanda de alívio não


saber sobre suas causas. Trata-se de
e uma
que originam,
construção de
bl'd 0 ( V erwehren) transpor-se em açao (Freud,
&

Temos aí , conjugadas, na base da cons tru ç


'
"'

ão do
73

smtoma,
, p.

a b usc
.

&
. '
sintomas que resistem ao sentido “ -
de uma satisfação pulsional e a prºibição da açao. Nte ssa neurose
. .

ou, pelo menos, não se oferecem a ele.


Sintomas mudos, que ta,
apresentam uma proximidade com a pulsão, tal proibição tem relação com as interdiçoes que cai-jcder izam os
pelo silêncio que as
caracteriza (Besset, 2002). bus . Por isso , poderia ser denominada de enfermi a e. dos tabus
ind1v1dualmente, se criar mi
. . . mi,_
São os impasses clínicos observados Pº' sto que se trata de “pessoas que,
no tratamento da neurose agem
obsessiva que levam Freud (1926[l925]), bi "oes tabu e obedece maelas comome smo rigor que os se v
]
ao final de sua obra, a àsçproibições coletivas de sua tribo ou ” 913
soc1edades (Frçufd, ªmº"“; 34).
. .
avançar na investigação sobre o sintoma. Evitando .

viés do psíquico, o sintoma obsessivo a angústia pelo :


lado san , por
' ' ' a

um “sagrado IC
L

presentifica uma satisfação Tabu Significa, por , ,


1

pulsional difícil de ser abandonada pelo sujeito. “impuro”


.
(ibid.). Tanto na
.
ão.
ao
outro “perigoso” . , “proibido”, rtelfiçmbli
Isto, a'despeito de
sua forma mental de apresentação,
que escamoteia o que do corpo
sagrddo quanto ao impuro, observa—se o . “horror ao conítlamªgmª o '
pode estar em jogo. Essa dimensão de dos
satisfação revela—se um nha Freud (ibid., p. 33), horror que e, por alissmitedªzeelic'),
obstáculo ao saber do sujeito e ao da '
tabus. Nesse texto, in teressamo-nos especra men tabu de con-
psicanálise.
Nesta modalidade de
neurose, o eu, em constante vigilância, tato resente na fori naçao dos smtoma
' ' .
s obsesswos e ,
nº amblto de
. .

essa “a
tenta anular o alheamento e o isolamento do ,trEtamento, onde funcrona como obstaculo.
. , Por & neu -
.

sintoma para ligá-lo a um


si, incorporando-o à sua funCion ªmém“) do
organização. Diante da impossibilidade de rose obsessiva nos ensina sobre a natureza e o
eliminá—lo “impõe—se conformar—se
e tirar [dele] a máxima
'
vantagem mc onsciente.
possível” (ibid., p. 93-4). Assim, a cada Cia ão
Na clínica , o obsessivo resrste a deixar-se levar pela %”ng
. .

vez que o prazer já não se gue


escamoteia sob a capa do sofrimento, há livre Parece conhecer mu1to bem o peso das palavras, sa e
'
nova formação de sintoma.
Esse consiste no resultado de um além e a despeito do que se quer dizer. Isto, pela espe cmddade
processo de degradação do curso se dz !
da satisfação que “é mantido longe,
do processo de recalcamento que Freud assmala, em cartaOa press-
' i
&

o mais possível, de sua descarga .

pela motilidade” e deve “esgotar—se «'Para a neurose obsesswa se confirma q ue a re ãeresentaça - palavra
' '
na alteração do corpo próprio”
(ibid., p. 90—1). O sentido do sintoma é, onde irrompe ()
nesse caso, a satisfação. e não o conceito a ela inerente, e a loca I'd l a
Na neurose obsessiva, o resultado da
defesa contra a pulsão recalcado” (Freud, l950c, p. 314).
mostra seu avesso: o próprio sintoma torna—se
a fonte principal de
satisfação. As ações obsessivas,
que visam cancelar as restrições e
renúncias, exibem isso de forma peculiar. Realizam-se
um cerimonial, apresentam um caráter
sob forma de Interdição particular: tabu
compulsivo e têm a nature-
za de penitências e purificações. Entre
elas, a mais usual é a ação de ' '
de
lavar-se. Nelas, trata-se de evitar a
proibição conservando-a no sin- Com o uso do deslocamento, o obsessrvo' respeidta o tiªsu
contato , “um dos mais antigos e fundamentais man a me
' dª
44 Vera Lopes Besset e Susana Vasconcelos Zanetti A enfermidade dos tabus 45

neurose ' ”
(Freud, 1926[l925], p. 116), efetuando
(Ãbãessiva a foi a ação” (1913, p. 162). Na neurose obsessiva, a recordação da
evjtação unçao desse tabu é evitar o contato com
de inves.“ o objeto se'a ação — experiência sexual precoce — traz desprazer e uma acusação
amoroso (Eros), seja de investimento agressixlo consciente. Trata-se, ao contrário do que ocorre na histeria, de “um
(destruÍ ç ã(r)r)ienDto
essa forma, o deslocamento, acontecimento que causou prazer, uma agressão inspirada pelo desejo
.
_
processo metonímico
eslintomas apartir de uma equivalência erótica; sexual (no caso do menino) ou de participação com gozo das relações
a um cão e o solteiro coleciona sexuais (no caso da menina)” (Freud, 1896, p. 154). O que retorna,
Charm“, & primeirª Sal tafticcrona un sua necessidad
1832

e d e comunidade no fracasso do recalque, é a recriminação que, de início, surge como


1
'
con u g ª e o segundo, sua necessrdade de
.
1 _
_]

( F reud, l950a, p. 249—50). conquistas n ªmºrºsªs ” consciência de culpa pura.


O ue esse SUJCIKO . . .
As idéias obseslsivas seriam “reprovações que o sujeito se dirige
evrta, na concepção freudiana, é lembran
que
trªzq
d esprazer, e uma a a por causa desse goza sexual antecipado, porém reprovações
acusação consciente de um a mais (ile desfiguradas por um trabalho psíquico inconsciente, de
prazer ligado a uma ex perrencra '“ '
sexual preco ce. Tem e dlzer
'
transformação e de substituição” (ibid., p. 154). Permanecem,
se coloque como verdadeiro ªlgº que
e que
entretanto, num regime de gozo, pois o próprio pensamento é
marcado pela erotização. Isso, graças à equivalência erótica que
ao eu. A dúvida leva o sujei “ ' possibilita ao obsessivo a permuta de seus objetos de desejo (Gazzola,
2002). É o que Lacan (1991, p. 295) faz valer na fórmula da fantasia
' “
medidas protetoras e a uma eo
de expulsar a 'mcerte7a E' ela do obsessivo $ <> (a, a', a”, a”, ...).
. .
sejam impossiveis de se realizarem ,.
qu efazeom ues CUS .. ' ' ªtºs
Prºprlºs Cl
Tanto quanto os tabus, as proibições obsessivas são imotivadas
Essa evrtação do contato se e de origem enigmática. Surgiram uma vez e "agora é preciso observá-
enco ntra no tabu sobre nomes, las, do contrário, surge uma angústia incontrolável. Há uma
que os selvagens tratam o nome e já
personalid de um homem. Por ' consciência moral que dispensa ameaças externas de castigo. Essas
pronundar ªde
1580, apresentam horror a características aproximam os tabus do supereu: “... se esclarecermos
de um defunto, pois “tratam
tºdos os S .dnome as palavras em o tabu, traremos talvez uma luz sobre a obscura origem de nosso
enbti os“, como corsas...” (Freud, 1913, p. 62) Também
neurótico o sessrvos apresentam os próprio “imperativo categórico”, (Freud, 1913, p. 35). Esse
Profôrirs extrema “sensibilidade com rela ão
&
escutar palavras e nomes específicos” imperativo, como afirma Lacan, é: “Goza!” (Lacan, 1975, p. 10).
entre esseso: omes encontra-se seu ' ' (ibid . ) . Quati—do Por suas características, Freud entende que a neurose obsessiva
“ _
ser ias inibiçoes,
. . .
como no caso de uma paciente ,de Frªud
'
proprio nome is so ode ac ªnetªr poderia ser considerada a caricatura de uma religião (Freud, 1913,
p. 78). Sublinhamos esse caráter de caricatura, pois as restrições e
Uma dessas pacientes de
tabu , que eu conheci, adotara limitações que impõe, tais como as dos tabus, divergem das restrições
como regra não escrever seu ' de ordem religiosa ou moral. Assim, “não estão remetidas ao mandado
esse caísse ' '
suaegielrsigosld; ªlguêm, que aí ficaria de posse de uma de um deus, mas na verdade proíbem a partir de si mesmas”...“ As
pªl-[e de na a e. a fidelidad e convulsrva
proibições do tabu carecem de toda fundamentação; são de origem
'
1
'
, PC ª quªl
. 1
se v1a obrigada a se proteger das
.

desconhecida; incompreensíveis para nós, parecem coisa natural a


'
tentaçõe s de sua fantasr' '
&, ºnºu
-
Zamandamento de “nao dar nada de sua pessoa”
s estava sobretudo o seu todos aqueles que estão sob seu império” (ibid., p. 27). Desse modo,
próprio nome e, como extensão, a
escrita, o que escrevia, até que, por fim,
. sua
teve que deixar de escre— parecem ser de ordem individual, particular, sem relação com um
ver. (1bid., 62—3) p. Outro, já que não se encontram inscritas em num sistema universal
I II
»

l .. , . que determine e fundamente essas abstenções como necessárias.


O tabu de contato está na base da dificuldade do obsessivo em
. -
l l

“obedecer à regra fundamental” (Freud, l926[1925], p. 116).


46 Vera Lopes Besset e Susana Vasconcelos Zanetti A enfermidade dos tabus 47

Diflculdªde )ª ª "C. () () () | gerada por uma interpretação equivocada, “um mal—entendido por
|
parte do consciente” (ibid.).
Curiosamente, é como “mal-entendido” que Lacan ( 1977) vai,
finalmente, caracterizar o inconsciente. Se aceitamos essa hipótese,
podemos supor que a neurose obsessiva exibe esse funcionamento,
ao mesmo tempo em que indica um sujeito advertido contra seu
S Sf rçª para fªle e localnerllo desvelamento. Sendo assim, concordamos com Miller, quando afirma:
q g lªo curSO do pc () () | () | |
"[ “|" e
“O que permite que haja psicanálise é o engano (bévue), há enganos
sempre possíveis eptre as palavras...” (Miller, 2003, p.
23).
material do inconsciente” seria
Igualmente, entendemos que a “base
à (ibid.).
0 “tropeço, o escorregão, o deslizamento de palavra palavra”
Para que o inesperado se dê e algo de novo se construa. ficção
face ao inominável do objeto, é preciso que o sujeito ceda a esse
O peso das palavras: o inconsciente como deslizamento. Isso requer abrir mão do controle que mantém em
engano
funcionamento o processo de deslocamento. Do contrário,
da
A buse protegendo-se de engano, esse sujeito coloca entraves à proposta
Zedª certeza, na neurose obsessiva. parece se devotar a
'
modo de operação do inconsciente, de
expurgªr de psicanálise, que contraria o
.

na o engano . Há, de fat 0, uma amea a L.“o


as, representações obsc ssrvas ' '
ç “mªntº, POIS' repetição incansável do mesmo.
permitem o ace sso —, P or subst 'Itªi窺
' *“
, . — a
&
“Um engano” (“1 'um bévue”) e' a tradução proposta 'por Lacan
Zitommica, representação reealcada. Ess as representações “se “mais longe” do que o
em am .
particular impreeisao
.
- de palavra fim de
.
para Unbewusst quando nos convida a ir
"ªuge, porn a permitir inconsciente entendido como uma “elucubração de saber” (Lacan,
esse USO u !, ª '
tipo (ibid:, p. 315). Para tanto, valem-se de palavras
amb] um a recordação só é despertada 1977, p. 5). Assim, um sonho, um ato falho, um chiste seriam
ªssonªndzigu lªlvocas: por meras “enganos”. Nesse momento de seu ensino, caracterizado como
1950b, p. 266). Trata—se aí do duplo sentido
do SignifÍCª(treud, terceiro e último por Miller (2003) esse autor procede a um
.
Slam
.
n e, na contingênci a da articula
Lacan sublinha
.
'
çao com outr ' questionamento da psicanálise. Pergunta—se se ela não seria uma
Zhefic3ntes, qge ao final de seu ensino' “A palavºs
é 1a e senti o
porque el a parte desta du p lie'd '
fª trapaça,1 posto que o significante, por seu duplo sentido, pode
a d e aqu1' desenhada
, significar tudo, sempre dizer outra coisa, o mesmo e o contrário.
1

(fl .] _ e
_

palgavr) porque a palavra tem duplo sentido, que é SZ , q ue a


dele mesmo” (Lacan, 1978 . Entende a linguagem como elucubração feita para dar conta de
pª sergido plena
e
, p . 8) . de suas
ara reud, ' '
se engana com as palavras . Eis alíngua, cristais de língua materna. Distanciando-se, então,
exemplo : uma mu qánconseiente
er, que havi a terminado '
um diretivas iniciais quando celebram o domínio do Outro, postulando
um curso de costura e não
assaltada . _
uma representaçao obsessrva: “Não deves ir-te ainda
, uma autonomia do simbólico, dá ênfase ao que é singular, o que
não termipor tens que fazer mais, aprender tudo que se partilha.
posswernãzste, (ªfunda
r , 1950c, p. 314). O trabalho analítico
o for Nessa ocasião, postula que, no trabalho analítico, se trata de
infâgu. remete-a a de oposições”: “A metáfora
cenªs de em, onde a punham no penico. Não superar “a lei do discurso como sistema
queria ficar lá e
experiment ava a mesma e metonímia não têm capacidade para interpretar, a não ser quando
compulsão: “Não deves ir—te, não terminaste
ªinda ten mais ' (ibid., p. 315). Nesse caso “a elas são capazes de exercer a função de outra coisa com a qual se
fazer, em]sitquefa'zer , palavra
,
e reunir Situação posterior
.
,.. .
Freudpa rei a com a infantil” (ibid ) Para
, presentaçao obsessrva “Ainda tens que aprender mais” 1. Escroquerie no texto original.
é
48 Vera Lopes Besset e Susana Vasconcelos Zanetti A enfermidade dos tabus 49

unem estritamente o som e o sentido” (Lacan, l978a,


p. 11). Nesse e que foge, por assim dizer, ao controle que se pode exercer num
contexto, esse autor faz coincidir fala e goza: ao falar, ' '
lado.
goza—se. Trata—
se de um gozo autista, por assim dizer, dlscuãiiafdfªe trata da pulsão, ,
posto que desvinculado do a defesa esta em questão. E
que
Outro, que se satisfaz no corpo próprio. “O (f)

inconsciente participa do equivoco,


que se diz a partir do se passa quando se visa uma mudança na dimensao da satistªçãg
que e' o princípio do chiste -—
paradoxal do sintoma. Nesse caso, o mstramen-to da intelrpre çt
equivalência de som e de sentido” (Lacan, 1977a,
p. 12). revela seus limites, posto que quanto à pulsao, nao ha reca caril/irão.
Na mesma ocasião, afirma
que o sujeito sempre diz a mesma Recentemente, ao abordar a questão do real no tratamento, dl ezr
coisa, com exceção de quem se propõe a “falar”
com o analista. Isto, (1998/1999) retoma a indicação de Lacan, propondo desacomo gr
porque “Não há meio de fazer de outra forma
a defesa como a intervenção do analista—que pode ser adequat &
&

que a de receber de
um psicanalista o que desarranja sua defesa”
(ibid.). abordagem do sintiôma em sua dimensao de gozo. Fara tan
ª
Na histeria, a trama de intrigas se
conta, reconta. No contexto necessário que o analista trabalhe na contrarnao do
ile .
de um tratamento, a busca de sentido 'incqnãme [,
pode conduzir um sujeito a um Nesse sentido, coloca-se algumas vezes na via contraria a o ta ll
blá-blá—blá interminável. Na
neurose obsessiva, todavia, o sujeito, que de contato, como obstáculo ao domínio do “imperativo categorico ,
sofre com os distúrbios do
pensamento é, ao mesmo tempo, mestre ª praiª::ª 251111135:
” '
u ereu.
em seu controle. Assim, com o ãoptratamento, o sofrimento
,

pensamento, preenche qualquer in_siste, esculpe sulcos


hiância, apaga qualquer intervalo. Sua fala obedece
a uma ordem na fala, abrindo espaço para que uma interrogação se construa. Dies-sg
lógica e os temas abordados são da ordem do
universal. Esta lógica maneira, uma questão se configura lá onde a certeza da pu
vale—se dos mecanismos do
isolamento e da anulação. A atividade
de imperava. Promessa de um saber que compete, ao sujeito, tr; 1221110
ªo
concentração produz o isolamento e faz entrave à um enigma — como se passa no encontro de Édipo com o.
Na introdução ao texto sobre o Homem dos associação livre.
dificuldade com a neurose obsessiva “Os
ratos, Freud assinala a — decifrar. Compete ao analista
conduzrr o tratamento, a partir d e u m
neuróticos obsessivos querer gozar, em direção a um querer dizer.
graves se submetem a tratamento analítico mais
histéricos” (Freud, raramente que os
1909, p. 124).
Raul é inteligente, culto e
passeia com desenvoltura pelas Referências
alamedas dos saberes e salões da
intelectualidade de sua época.
Entende que nossos encontros — é a idéia
tratamento analítico — se resumiriam a que se faz de um BESSET, V. L. Do horror ao ato — a sexualidade na etiologia da neurose ob-
colóquios sobre os temas tão
cruciais para ele, questões sobre a vida e 31%? sessiva. Latusa, Rio de Janeiro, n. 3, p. 71-83, 1999.
a morte, entre outras, “ ,
distantes dos problemas corriqueiros. ª A clínica da angústia: faces do real. In: BESSET, V. L. (org.). Angus-
Logo apresenta—se uma ocasião “1me-

que o leva a contrariar suas intenções, um mal-estar tia. São Paulo: Escuta, 2002. p. 15-29.
vicissitude da vida cotidiana. Um ligado a uma
equipamento do banheiro de sua BRODSKY, G A solução do sintoma. Opção Lacaniana, n. 34, p. 17-25, out./
casa não funciona bem e ele se dá 2002.
conta, no final de uma entrevista,
que só falou disso o tempo todo. Mostra—se FREUD, S. (1894/1989). Las neuropsicosis de defensa. In: Obras Comple-
contrariado, exclamando
que “não é para isso” que vem ali. “Por tas. Buenos Aires: Amorrortu, 1989. p. 40-61. v. III.
que não, se é isso o que,
agora, lhe aflige?”. Raciocina, rapidamente, aceita
e a indicação, após (1896). La herencia y la etiologia de las neurosis. Obras Comple-
concluir que às vezes é preciso tratar
cuidar do mal maior... Em pequenas mazelas antes de tas. Buenos Aires: Amorrortu, 1989. p. 139—56. v. III.
casos assim, falar do cotidiano implica
uma certa licença ao blá-blá-blá da queixa.
Fala descompromissada “tirar do lugar
2 No original: dérranger, que remete também a incomodar,
50 Vera Lopes Besset e Susanª Vasconcelos Zanoni

(1909). A propósito de un caso de neurosis obsesiva. Obras Com-


pletas. Buenos Aires: Amorrortu, 1988. p. 119-251. v. X.
(1913). Totem y tabú. In: Obras Completas. Buenos Aires: Amor—
rortu, 1988. p. 1-164. v. XIII. O EGO NA NEUROSE OBSESSIVA.
(1926[1925]). Inhibición, sintoma y angustia. In: Obras Comple— RELAÇÃO DE OBJETO E
tas. Buenos Aires: Amorrortu, 1988. p. 71-164. v. XX.
(1950a[1892-99]). Fragmentos de la correspondencia con Fliess. MECANISMOS DE DEFESA“
Manuscrito H. Paranóia. In: Obras Completas. Buenos Aires: Amorror—
tu, 1988. p. 246. v. I.
ªn.

(1950b[1892—99]). Fragmentos de la correspondencia con Fliess.


Manuscrito K. Las neurosis de defensa. In: Obras Completas. Buenos Maurice Bouvet
Aires: Amorrortu, 1988. p. 260-9. v. I.

(1950c[1892-99). Fragmentos de la correspondencia con


Fliess. Carta79. In: Obras Completas. Buenos Aires: Amorrortu, 1988. Informe clínico
p. 314—5. v. I.
GAZZOLA, L. R. Estratégias na
neurose obsessiva. Rio de Janeiro: Jorge Introdução
Zahar, 2002.
LACAN, J. (1960-61). Le sémínaire. Livre VIII. Le transfert. Paris: Seuil, Apresentar uma comunicação sobre o ego na'neurose ob-
1991. sessiva pode parecer ousado, já que, por um. lado, e nessa afec-
La direction de la cure et les principes de son pouvoir. ln: Écríts. ção que O aspecto da personalidade denominado ego tem srdo
Paris: Seuil, 1966. p. 585—645. há muito tempo objeto de atenção dos analistas. Nao se poderia,
(1972-73). Le séminaire. Livre XX. Encore. Paris: Seuil, 1975. pois, considerar o estudo da neurose obsessrva sem abordar—O
L'insu que sait de l'une-bévue s'aile a mourre. Omicar? do ego, que está tão ativamente implicado nessa neurose e tao
n. 12/13, intimamente mesclado com o desenvolvrmento de sua Sintoma-
p. 4—16, 1977.
tologia. A um dos seus primeiros artigos sobre a neurose obses—
(l977a). “Nomina Non Sunt Consequentia Rerum”. Opção Laca-
siva Freud não deu o título “As psiconeuroses de defesa ?
m'ana, Rio de Janeiro, n. 18, p. 6-19, jul./2000.
Ainda não se disse tudo sobre o tema. Não se descreveu
Vers un signifiant noveau.
Omicar? n. 17/18, p. 17-23, 1978. em todos os seus aspectos o pensamento pré-lógico? Não se m-
(1978a). Rumo a um significante novo, Opção Lacaníana, Rio de sistiu suficientemente sobre as formações reativas do ego? Se
Janeiro, n. 22, p. 6—15, ago.! 1998. há um aspecto patológico do ego do qual a clínica analitica te-
MILLER, J .-A. A experiência do real
no tratamento analítico. Seminário nha dado uma descrição precisa, é o do ego obsessrvo.
1998/1999. Inédito.
O último ensino de Lacan, Opção Lacaniana,
2003.
n. 35, p. 6-2, jan]
1. Este trabalho foi apresentado na XV Conferência de Psicanalistas de Lín-
ZANOTTI, S.V. A angústia na neurose obsessiva.
Dissertação de Mestra- guas Romanas, Paris, 1952. Publicado na Revue França/se de
Psychanalyse, t. XVII, n. 1-2, p. 11-196.
do. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2001.
Tradução de Dirceu Scali Jr.
52
Maurice Bouvet
O
-
ego na neurose obsessiva. Relaçao de ob|eto...
.
53
Não tenho, portanto, a
intenção de voltar a falar de fatos
que são do conhecimento de todos, O primeiro item será dedicado ao estado atual do
tampouco dos estudos, tão tem:;
penetrantes, que nos proporcionaram O segundo a um estudo clínico do ego e de suas re ç ões
os conhecimentos que pos—
suímos sobre os principais d e ob-eto em geral.
mecanismos psicopatológicos da %) "
neu- terceiro, ao estudo das relaçoes de objeto na transfereAn-
_

rose obsessiva.
Desejaria abordar aqui um cia.
ponto particular: o das relações - e a sua evoluç ão
de objeto que o ego obsessivo O quarto, aos instrumentos dessa relaçao
&

estabelece com seu meio. Isto é,


bem o sei, um problema
que suscitou desde o começo dos estu- no transcurso do tratamento analitico.
dos analíticos o interesse dos O quinto item, à exposição de uma observaça“º q ue pare-
autores e todos recordam os tra-
balhos de Abraham. Contudo,
tanto minhas leituras quanto mi- ceu bastante demqpstr ativa.
nhas - de ordem
E o sexto , a algumas consrderaçoes
.
lca
A .

experiências pessoais, por limitadas


comprometeram-me a dedicar este trabalho que sejam,
ao estudo desse tema.
' terapelàt stá
antes de apresentar as conclusoes que, penso, posso extr air e
Como de fato se verá ao ler estudo.
o próximo item, os trabalhos
mais importantes
que trataram da neurose obsessiva durante
ses últimos vinte anos tiveram es-
por objeto, precisamente, o exa— 1. Estado atual do tema
me dessas relações. Talvez surpreenda o título
que dei a esta '
A expressão relação de objeto, tomada em sentido ais e-
'
apresentação — O ego na neurose obsessiva
—, quando acabo piro exgte
traçar seus limites e indicar
que apenas me referirei de passa-
por '
"
ral, aplica - se a to das as relaçoes do SUJC ito com o mun
'
-
gem a tudo oque a clínica psicanalítica, rior e, no caso parti cular da neurose o b se ssrva, sem ti enhumª
' ' ' .

ensina sobre o ego obsessivo; digamos clássica, nos dúvida dada a importância dos deslocamentos e das repr ese“-
se assim o decidi foi ,
guns estudos contemporâneos tentam porque al- .

fazer uma descrição de tações simbólicas, não pode ser diferenãzs


conjunto da personalidade total do '
Fiz "
alusao
'
anteriormen te aos es u de Abraham sºbre o
sujeito obsessivo à luz das , ' - à ues-
relações objetais, e desse modo introduzem tema Consagrou, de fato, toda uma serie
.

culações da neurose obsessiva, e das


o problema das vin- .
” ' dª pUbhªaçºeÍereqsse
demais síndromes psico- tao das relaçoes do o bsessrvo com seus o J'etos e m
” e
patológicas tanto psicóticas como '
terlzam
.

neuróticas, enquanto outros amor, a suas diferenç as e semelhanças com as que


*
carac
trabalhos se limitam a um
aspecto mais restrito dessas relações
'
outros estados pswopa tologlcos ' ' como a me ] anco [ia, a ma mª em
.

de objeto. '
“Neurose obsessrva e estad os maniaco—depress , ivºs” , 1911.,
' '
Pensei que se poderia tentar “Breve estudo do desenvolv '
imento da llbldO .
v1sto a luz dos trans - &

uma síntese dos resultados ob- ,


tidos por outros autores . -
do carater anal ” ,
.
t o mos mentais” , 1924', “Contribuiçao a teoria
&

que recentemente se interessaram


neurose obsessiva, resultados pela .
1921, para citar apenas os
. 2 o

que de certa forma não fazem mais prmcrpals.l


que completar e precisar o
que já estava implícito em estudos Abraham chega a“ segur'nte conc usa-o : & neurose ºbseSSiva
anteriores; pareceu—me que do termina em uma regressão ao estagio ,
, . sadico-anal . .
ão h—
conjunto desses dados se despren- dafevrãluçcomo
dia a noção de uma relação de
objeto cujo alcance era muito ' '
bidinal pelo que as relaçoes de objeto podem ser de in i as
ral e cuja expressão clínica ge- se se ue:
investiguei. Por isso dedicarei
grande parte deste trabalho a uma gO . . .

uma exposição clínica, talvez um sujeito é capaz de amor parcral ao objeto, quer dizer pea
ue
'
pouco minuciosa e demorada, pelo tende apenas à possessão de uma parte do objeto, que im p
o 1
que peço desculpas.
Nessa apresentação adotei o
seguinte plano:
2 Veja na mesma coleção: K. Abraham. Oeuvres comp/êtes. (N. do E.)
52 Maurice Bouvet 0 ego na neurose obsessiva. Relação de objeto... 53

Não tenho, portanto, a intenção de voltar a falar de fatos O primeiro item será dedicado ao estado atual do tema.
que são do conhecimento de todos, tampouco dos estudos, tão O segundo, a um estudo clínico do ego e de suas relações
penetrantes, que nos proporcionaram os conhecimentos que pos- de objeto em geral.
suímos sobre os principais mecanismos psicopatológicos da neu- O terceiro, ao estudo das relações de objeto na transferen-
rose obsessiva. cia.
_
Desejaria abordar aqui um ponto particular: o das relações O quarto, aos instrumentos dessa relação e a sua evoluçao
de objeto que o ego obsessivo estabelece com seu meio. Isto é, no transcurso do tratamento analítico.
bem o sei, um problema que suscitou desde o começo dos estu- O quinto item, à exposição de uma observação que pare-
dos analíticos o interesse dos autores e todos recordam os tra- ceu bastante demo,;pstrativa.
balhos de Abraham. Contudo, tanto minhas leituras quanto mi- E o sexto, a algumas considerações de ordem terapeutica,
nhas experiências pessoais, por limitadas que sejam, antes de apresentar as conclusões que, penso, posso extrair deste
comprometeram—me a dedicar este trabalho ao estudo desse tema. estudo.
Como de fato se verá ao ler o próximo item, os trabalhos
mais importantes que trataram da neurose obsessiva durante es- 1. Estado atual do tema
ses últimos vinte anos tiveram por objeto, precisamente, o exa—
me dessas relações. Talvez surpreenda o título que dei a esta A expressão relação de objeto, tomada em sentido mais ge-
apresentação — O ego na neurose obsessiva —, quando acabo por ral, aplica-se a todas as relações do sujeito com o mundo exte-
traçar seus limites e indicar que apenas me referirei de passa- rior, e, no caso particular da neurose obsessiva, sem nenhuma
gem a tudo oque a clínica psicanalítica, digamos clássica, nos dúvida, dada a importância dos deslocamentos e das represen-
ensina sobre o ego obsessivo; se assim o decidi foi porque al-
tações simbólicas, não pode ser diferente.
guns estudos contemporâneos tentam fazer uma descrição de Fiz alusão anteriormente aos estudos de Abraham sobre o
conjunto da personalidade total do sujeito obsessivo à luz das tema. Consagrou, de fato, toda uma série de publicações à ques-
relações objetais, e desse modo introduzem o problema das vin- tão das relações do obsessivo com seus objetos de interesse e
culações da neurose obsessiva, e das demais síndromes psico- amor, a suas diferenças e semelhanças com as que caracterizam
patológicas tanto psicóticas como neuróticas, enquanto outros outros estados psicopatológicos como a melancolia, amania etc.
trabalhos se limitam a um aspecto mais restrito dessas relações “Neurose obsessiva e estados maníaco-depressivos”, 1911;
de objeto. “Breve estudo do desenvolvimento da libido visto a luz dos trans-
Pensei que se poderia tentar uma síntese dos resultados ob- tornos mentais”, 1924; “Contribuição à teoria do caráter anal”,
tidos por outros autores que recentemente se interessaram pela 1921, para citar apenas os principais.2
neurose obsessiva, resultados que de certa forma não fazem mais Abraham chega à seguinte conclusão: a neurose obsessiva
que completar e precisar o que já estava implícito em estudos termina em uma regressão ao estágio sádico-anal da evolução li-
anteriores; pareceu—me que do conjunto desses dados se despren- bidinal, pelo que as relações de objeto podem ser definidas como
dia a noção de uma relação de objeto cujo alcance era muito ge- se segue:
ral e cuja expressão clínica investiguei. Por isso dedicarei uma O sujeito é capaz de amor parcial ao objeto, quer dizer que
grande parte deste trabalho a uma exposição clínica, talvez um tende apenas à possessão de uma parte do objeto, o que implica
pouco minuciosa e demorada, pelo que peço desculpas.
Nessa apresentação adotei o seguinte plano: 2. Veja na mesma coleção: K. Abraham. Oeuvres comp/êtes. (N. do E.)
0 ego na neurose obsessiva. Relação de objeto... 55
54 Maurice Bouvet

estrutura psicopatológica dada se expressem signos testemunhan-


um respeito relativo da individualidade deste. Esse desejo de pos- do a superveniência de formações conflitivas pertencentes a pe-
se, de conservação de um objeto, que dá ao sujeito satisfações ríodos anteriores, e angústias inerentes a essas mesmas fases do
narcisistas, é testemunha da organização pulsional da segunda desenvolvimento.
fase do estágio sádico-anal, tal como Abraham a diferenciou Mas é indiscutível: a fase na qual ficou fixada e em que
opondo—a à primeira em que predominam os desejos sádicos des-
regride a libido na neurose obsessiva e' uma fase intermediária
trutivos com intenções de incorporação. A regressão da neurose
sumamente importante do desenvolvimento no que concerne às
obsessiva está, para ele, essencialmente estabilizada nessa fase
relações de objeto e, como o aponta Abraham, assim que & libi-
anal conservadora, mas esse desejo de conservação do objeto do deixa de se expressar no modo e com as qualidades de carga
se encontra contrabalançado por um desejo de expulsão, de des-
que são as da faseªsádico-anal conservadora, efetua uma regres—
truição, que dá à fase anal suas características de ambivalência são com extrema facilidade a suas organizações anteriores.
tão conhecidas: a conservação corresponde ao amor, a expulsão Isto torna para nós compreensíveis, no plano da evolução
ao ódio. das pulsões, as relações íntimas que unem a neurose obsessiva
Esta fase da organização anal é aquela na qual a maioria dos
com a psicose, já que essas testemunham uma regressão libidi-
autores, para não dizer quase todos, fixam o término da regres— nal aos estágios de organização anterior.
são da neurose obsessiva. Tudo, de fato, concorre para que a
Nacht, em O masoquismo,3 assinalou que as comparações
situemos nesse nível: a existência, nesse estágio, de uma distin- feitas por Abraham entre a neurose obsessiva e a melancolia são
ção muito franca entre o sujeito e o objeto, a separação comple- discutíveis, tanto no plano tópico — em um caso trata—se de um
ta do ego e do não—ego, a intensidade das diferentes formas de
ego neurótico e em outro de um ego psicótico — como no plano
sadismo nas fases sádico-anais, a existência de uma ambivalên- dinâmico: no primeiro caso a agressividade é transformada em
cia fisiológica, a intervenção vigorosa e progressiva na vida da
masoquismo por causa de sua volta ao ego, por intermédio de
criança de uma organização psíquica cada vez mais forte, mas um superego arcaico e no outro a agressividade toma, sem trans—
que todavia se expressa, precisamente, segundo um modo ar- formação prévia, o ego por objeto.
caico — o modo pré—lógico. E, de fato, está fora de questão que, De qualquer forma, a introjeção do deprimido é a conse-
de um modo geral, se possa atribuir a regressão nessa afecção
quência da ruptura das relações libidinais de objeto; e, classi—
caracteres mais primitivos; contudo, como veremos, a afirma-
camente, é assimilada às relações de objeto de canibalismo total
ção de Abraham de que o sujeito, na neurose obsessiva, renun— da fase oral sádica da evolução pulsional, que é imediatamen-
ciou a toda intenção de incorporação é discutível e controverti-
te anterior ao estágio sádico-anal (Freud). Deste modo a rup-
da pelos fatos. Sem dúvida é necessário ver nisso a consequencia
tura das relações com concentração da libido sobre o ego pode
de um excessivo rigor nas oposições que Abraham quis fazer. terminar em esquizofrenia, com retração predominante das car-
Já que as fases da evolução se superpõem umas às outras e se
gas objetais. A clínica nos mostra diariamente a correção do
interpenetram, assim como o explicitou Mack Brunswick, não
esquema de Abraham, ao nos impor a noção das estreitas re-
há dificuldade em admitir que não exista nenhuma divisão cate-
lações que existem entre os estados obsessivos e as psicoses,
górica, e que os quadros de concordância das síndromes neu- estejam estas caracterizadas pela predominância dos mecanis—
róticas e das fases de organização libidinal não tenham mais que
mos de recusa e de projeção, como as psicoses de persecução,
um valor geral e só possam servir para estabelecer uma relação
entre a estrutura de conjunto de um transtorno e uma fase da
3. Mesma coleção, Paris: Payot, P.B.P. n. 71. (N. do E.)
evolução. Por isso não deve surpreender que por meio de uma
56 Maurice Bouvet O ego na neurose obsessiva. Relação de objeto...
57

ou por introjeções destrutivas como a melancolia, ou por uma sam tanto amor como ódio. Este é, acredito, um ponto essencial
retração massiva das cargas objetais, como a esquizofrenia. e sobre o qual nunca insistiremos o suficiente.
Pi clinica psiquiátrica concorda aqui com os ensinamentos da teo— Apenas posso, no âmbito desta exposição, citar os nomes
ria analítica. que são conhecidos por todos nós: o de Jones, por exemplo, cujos
Por outro lado, o que disse anteriormente sobre a
superpo- estudos sobre Ódio e erotismo anal na neurose obsessiva e ris-
'
srção das fases do desenvolvimento umas às outras, dá conta cos de caráter erótico são clássicos.
nao apenas da presença de formações orais sádicas em todas as Entre os trabalhos contemporâneos, cujo objetivo se limita
análises de neurose obsessiva referidas na bibliografia bem à descrição de um mecanismo relacional particular, gostaria de
como, em alguns casos, de transtornos de estruturação db ego insistir, ainda queªnão lhe dê a importância dos trabalhos de Jo-
que são o reflexo de seu estado nas fases anteriores do desen— nes, por exemplofsobre os de Bergler. Como se sabe, Bergler, que
volv1mento, como, por exemplo, a ausência de separação com— atribuía uma importância muito especial à fase oral do desen-
pleta entre o ego do sujeito e do objeto. volvimento, viu nas dificuldades da amamentação o protótipo das
Ferenczi atribuiu a mesma significação que Abraham às con- relações ambivalentes, que são precisamente as da neurose ob-

sequencras, para a evolução das relações de objeto, das fases sessiva. Encontrou no curso do desenvolvimento toda uma sé-
anais do desenvolvimento. O sentido de realidade está, em sua rie de circunstâncias que podiam apresentar uma analogia com
opinião, estreitamente ligado à educação dos esfíncteres e à sua a situação inicial e responsabilizar—se pelas angústias não supe-
moralidade”. radas dessa primeira relação ambivalente, a educação dos esfínc-
Freud, como sabemos, aceitou completamente o esquema teres por exemplo, outra experiência de passividade, imposta.4
de Abraham, e adotou a subdivisão em fases orais e anais Esses trabalhos e a impressão que tive de uma boa parte
que
havra descrito em fases preambivalentes e orais—sádicas
por um da agressividade da neurose obsessiva era uma reação de defesa
lado, e sádico—anais conservadoras por outro. contra uma tendência passiva, masoquista, sobrevivência dessas
AEste esquema é o que se encontra sobre o quadro das con- experiências impostas de passividade, não podiam deixar de me
cordancras entre as fases do desenvolvimento libidinal, as rela- surpreender. Eu mesmo estudei o aspecto homossexual da trans-
çoes deiobjeto e as manifestações psicopatológicas que Mack ferência na neurose obsessiva, e pude comprovar, precisamen-
Brunswrck publicou, e que representa a opinião definitiva de te, que a partir do momento em que o sujeito podia tomar cons—
Freud sobre essa questão. ciência de seu desejo homossexual, quer dizer, aceita-lo, o
Gostaria apenas de fazer uma observação sobre a posição contexto afetivo com esses enfermos tornava-se mais seguro; o
de Freud em relação à neurose obsessiva. Sem insistir sobre de traumatis-
seus que não quer dizer, contudo, que sempre se trate
estudos clássicos acerca dessa afecção, procuro chamar a aten- mos importantes do período oral.
çao sobre o que não cessou de reafirmar, a saber: que as for- Glover publicou, em 1935, um artigo, “O estudo do desen-
mas mais arcaicas da libido são muito parecidas com as mani— volvimento das neuroses obsessivas”, que a meu ver é de parti—
festaçoes agressivas, que, sob a influência da frustração ou de cular importância para a compreensão da significação de con—
uma causa interna, pode-se fazer um traslado de energia pulsio- junto dos sintomas obsessivos que aparecem como a expressão
nal da Significação libidinal da relação à sua significação destru— de uma verdadeira técnica destinada a manter as relações com a
tiva; são essas diversas formulações que expressam, todas, esta realidade.
ideia principal: que depois que a regressão, a partir do conflito
edipico, cumpriu seu papel, as manifestações agressivas expres- 4, Veja na mesma coleção, E. Bergler, A neurose básica. (N. do E.)
O ego na neurose obsessiva. Relação de objeto... 59
58 Maurice Bouvet

Este trabalho se inspira em concepções de Melanie Klein e fazer eu próprio em múltiplas ocasiões) ou também, em geral, a
neurose obsessiva é uma boa garantia contra a psrcose.
'
faz alusão ao estágio paranóide e psicótico da primeira infância,
Além disso é certo o que Glover escreve sobre os aspec-
'à teoria dos bons e maus objetos introjetados, teoria em relação
à qual Glover apresenta, já nesta época, extremas tos positivos da regressão, substancialmente: que é uma técnica
reservas, de—
sejando que se possa elaborar uma descrição mais rigorosa das segura e amplamente provada de estabilidade a qual se recorre
fases primárias do desenvolvimento. Mas parece-me ante novos perigos, precisamente porque se tem a experiencia
que o que de que já havia protegido contra os perigos anteriores ao estagio
dá a esse trabalho todo o seu valor é seu caráter clínico. Basean—
do-se no estudo das formas marginais ou limites da neurose ob- que a marca, não pode deixar de ter um valor geral fora de toda
sessiva — neurose obsessiva e depressão, neurose obsessiva e discussão relativa ao conceito de objeto.
.

toxicomania, fobia, que cobrem um processo obsessivo — assim Esta tese, além disso, convém muito bem com o que im-
como em casos de neuroses obsessivas caracterizadas, Glover plica o esquema de Abraham, por um lado, quer dizer que nas
demonstra que a técnica obsessiva — deslocamento, isolamento, relações de objeto de caráter sádico-anal há psrcoses, e, por ou-
simbolização — permite ao sujeito manter, por meio de um jogo tro, o que nos ensina o estudo das relações, mas desta vez do
psicológico complexo, relações de objeto concretas e estáveis, ponto de vista psicanalítico, entre a neurose obsessrva e a psr-
graças a um esfarelamento dos afetos cuja intensidade e alter- cose.
ªi. ,
nância rápida teriam sido insuportáveis para o Esses estudos demonstram que de todos os modos, na pra-
ego, evitando o tica, e quaisquer que sejam as conclusões às quais se chegue
sujeito, desse modo, os perigos das introjeções irremediáveis de
objetos maus, pela sucessão rápida de condutas de introjeção e quanto a significação da neurose em relação a uma psrcose con-
projeção. comitante ou subjacente, no que se refere a suas conexoes
Posteriormente, em inúmeros trabalhos, Glover tomou uma recíprocas não se tem nenhum interesse em destruir desconsi—
posição resoluta contra o conceito de objetos parciais negando- deradamente a relação de objeto neurótico, porque a psrcose entao
lhe a qualidade de conceito de base (“Conceitos mentais de base, se faz presente e amplifica.
seu valor clínico e teórico”) e insistindo sobre a inexistência do Lamento não ter tempo para insistir aqui sobre os estudos
objeto nas fases primárias do desenvolvimento. Não nega, con- de Federn, Stengel, Gordon, Pious e muitos outros. E verdade
tudo, que a criança faça com seu corpo fantasias simples que depois que a análise da esquizofrenia parece ter se converti-
que do em prática mais corrente, ou pelo emprego de uma tecnica
lhe servem para se expressar. Mas diferencia essas fantasias de
objetos das imagos cujo processo de formação recorda, a partir modificada (Federn, Pious), ou por uma análise bastante classr-
das experiências reais de prazer ou sofrimento vividas nas rela- ca (Rosenfeld), a posição do problema pode ser diferente; mas
ções de objeto. Após o abandono ou desaparecimento do objeto, permanecendo no limite deste trabalho, parece-me. queuuma no-
forma—se, segundo os casos, uma boa ou má imago, ção capital se desprende do conjunto dessas mvestrgaçoes: 0 ea—
que é assi- ráter vital da relação obsessiva, pois ela supre as relaçoes mais
milada a uma parte de si, sendo essas más imagos as responsá-
veis pelas projeções que transformam os objetos em evoluídas que o sujeito não pode alcançar, e os efeitos catastro-
objetos ficos de sua ruptura sobre o estado de equilíbrio e coerencza do
maus. Mas essas restrições não tiram o valor clínico de seu tra-
balho; e por outro lado, na última edição de seu trabalho, faz ego de um dado sujeito. _ ,
numerosas referências à tese que defendia em 1935, como esta, Talvez possam objetar-me, precisamente, que nao esta de
maneira nenhuma demonstrado que haja uma relação de causali-
por exemplo: os obsessivos que já não sofrem de suas obses—
sões parecem estar privados de um apoio (verificações dade entre a manutenção de uma relação de objeto obsessrva e
que pude
60 de objeto... 61
Maurice Bouvet O ego na neurose obsessiva. Relação

certo grau de coerência do ego, e que são simplesmente aspec— ao admirável trabalho de Odier ("A neurose obsessiva”) apresení
tos concomitantes e paralelamente variáveis da personalidade tado nesta assembléia, ou, pelo menos, àquele queo precedeu,
nele se especrficam as rfe-
mórbida; é verdade, mas não o é menos que o argumento clíni- parece-me desnecessário recordar que
co conservando todo seu valor e se admitimos, desde Freud, uma lações de objeto em uma e outra de suas-afecçoes e que se de l(;
do supereg
escala de regressão cada vez mais profunda, podendo chegar até ne, com a mencionada claridade, o funcronamento
o estupor catatônico, não há razão para não admitir
que um es- em CÉZriIdiÍnarei delas.
tado' regressivo menos profundo representando,
consequentemen- agora um texto bem curto de Lacan no qual
te, um progresso sobre o estado anterior, não seja um suporte, esse autor escreve que a neurose obsessiva-é urn transtorno re-
uma plataforma, na qual se refugia o sujeito que, não tendo po- sultante das primeiras atividades de identificaçao do ego.. Assír-
dido aceder a relações mais evoluídas, está a ponto de ceder à nala que o esforçg de restauração do eu se traduz no destino do
vertigem da regressão sem limite. Esta maneira de ver, por ou- obsessivo por uma persecução, que se malogra no momento e
tro lado, está de acordo com as comprovações feitas pelos au- se satisfazer, do sentimento de sua unidade, e se vera,
na se—
tores que se ocupam da esquizofrenia e da qual um dos dois es- qiiência desse trabalho, que as idéias defendidas aqur se aproxr-
crevia substancialmente: é comovente ver esses sujeitos (os can.
mªm É?: iiiªetliáirabalho
esquizofrênicos) esforçarem-se por encontrar, por meio de um sobre a importância do aspecto homos-
sistema obsessivo, um contato com a realidade. sexual da transferência no tratamento de quatro casos de neu—
os fe-
Por outro lado, não é uma perspectiva um pouco
compa- rose obsessiva masculina, ao qual já fiz alusão, estudava
rável à que Borel e Cénac sustentaram, na conferência de psica- nômenos de identificação regressiva, queproporcronama esses
nalistas de língua francesa, em seu informe sobre “A obsessão”? sujeitos um sentimento de força e de unidade necessarios, qntie;
Claro que eles põem antes de tudo o acento sobre a intenção de lhes permite passar dessa identificaçao pre-genital e arcaica a u
resolução, por meio da obsessão, de um conflito intrapsíquico, ' ' ' " adulta.
ldennâfriiçííívida perceber-se-á
mas ao insistir sobre seu caráter de reação geral hedonista, por que a atenção que eu chamava
um lado aproximam-se do ponto de vista precedente. Na auto— o título deste texto, no sentido de que prometia demais;—e
para
trabalhos que ao
observação, referida neste informe, da obsessão de uma melo— justificada, já que até agora apenas apresentei
dia que apareceu precisamente durante um estado de fadiga, tal- importância à relação de objeto e nada dizem no que concerne
vez em. parte comparável a esses rápidos estados de ªº egfsiso sobre
despersonalização que Federn havia estudado em si próprio, cabe se deve a que, além de tudo o que se escreveu
neurose obsessrva, nao encon-
perguntar se a obsessão, se se pode dar esse nome aos fenôme- o ego e o pensamento mágico na
nos referidos, não era precisamente um reflexo de uma técnica trei na bibliografia nada que se refira a outros aspectos do ego,
de defesa destinada a manter o contato com uma representação salvo um trabalho de Federn, ao qual me referirei no próxrmo
de objeto. . , item. Este estudo, de um estilo muito diferente dos que pude ler
Mas referi-me, a partir do trabalho de Glover, a toda uma até agora, é uma tentativa de estimação do valor do ego, e nao
uma
série de trabalhos que consideram as vinculações da relação de uma análise de seus mecanismos de defesa. Consiste. em
objeto obsessiva e a dos estados de regressão mais acentuada histérico e se completa, alem disso, com
comparação com o ego
do aparelho psíquico, ou seja, as psicoses. Quanto às vincula- as descrições clínicas relativas ao ego esquizofremco.
Como se vê, o conjunto de trabalhos contemporaneos so-
A

ções dessa relação com a de regressões menos acentuadas, e em


estudo
particular a da histeria de angústia, não posso senão me remeter bre a neurose obsessiva se relaciona, em suma, com o
62 Maurice Bouvet de obieto... 63
O ego na neurose obsessiva. Relação

da , .

rellaçao objetal
do obsesswo, estejando consagrados mais es-
. .
pela mesma razão, não defini-
que sobrecarregar este trabalho;
mente a descrição dessas relações, ou que se interessem a gênese da
gecra rei sistematicamente os mecanismos que presidem
e uma maneira mais geral pela Significa
' ' ' "
ç ao da estrutura domínio.
obses— obsessão ou que condicionam seu
.
debilidade
31%. O que se entende, pois, exatamente por força ou
Tambem, como se vê, esses estudos não fazem mais que definir. Nunberg, em
do ego? Eis aqui uma noção difícil de se
] e completar o esforço dos primeiros pesquisadores conclusão: a força ou de— a
pªtê ongâr um longo estudo, chega à seguinte
os “e egam a mesma conclusão: as relações objetais de tipo de vida
bilidade do ego depende da proporção em que as pulsões
ºb sessrvo sao, para um dado sujeito, de vital importância. “Mesmo que esta con-
e morte estão combinadas, e acrescenta:
clusão não seja muito significativa...”. Por isso irei me ater a de-
mesmo problema
2. O ego na neurose obsessiva. Suas relações de objeto finição clínica de Elover que, examinando o
escreve: que se
em um artigo sobre o conceito de dissociação,
plenamente o exer-
omrªlllâªíorrgãiâiªeirêªenção,.nesta parte
do trabalho, considerar pode qualificar de forte um ego que assegura
de um modo
nvencronou chamar de debilidade ou força cício das pulsões modificadas e controladas por ele,
do ego. E, comum, de fato, dizer que o ego na neurose obsessi- compatível com as exigências da realidade
exterior. Sublinha que
é tanto uma prova de debi-
va e. fraco em certos casos, mas forte em outros , e tirarlc 0" a submissão muito marcada a pulsão
esta última.

clusoes prognósticas. lidade como uma limitação muito grande imposta a


do ego, define
Todos os autores insistem com razão sobre o desdobramento Nesse trabalho, Glover, fiel à sua teoria nuclear
do ego. Fenichel, por exemplo, em seu tratado Histeria e de integração insuficiente
neur sua debilidade como o resultado uma
atitu-
se obsessiva, assinala que a parte mágica do ego está do lado d]- total, mas sobretudo
dos núcleos do ego primitivo no ego
verdadeiramente
resrstencra e que a parte lógica é a aliada do terapeuta' no exa;-1 de que me parece responder a uma concepção
de for-
me que faz das condições que dificultam particularmente o tra - realista do problema, insiste sobre o fato de que a noção
tamento da neurose obsessiva, da importância a este desdob do exame da personalida-
ça ou debilidade do ego se desprende
uªli-
mento do ego. Nas fases da análise em que a parte mágica da de total e de sua adaptabilidade.
domina a Personalidade, esta converte o tratamento em arilálisz É forte o ego que pode, sem maior desordem, fazer frente
de uma. psrcose. Além desse desdobramento cria às demandas atuais e normalmente previsíveis
da realidade exte—
uma dificulda
de particular. A interpretação, todavia bem compreendida não rior.
ama, apenas permite ao paciente se forjar uma teoria de sua e “. Gostaria precisamente, tomando dois exemplos concretos,
referência à im-
fermidade sem viver seu tratamento. Em outras palavras de mostrar quão enganosa e, no plano prático, a
_)Clto utiliza essa cisão entre as partes de seu
ego como
um: tsf— portância da sintomatologia e à sua extensão e quão
adulterado
que coloca entre o analista e ele, e se coloca já a questão gª está, em todos os casos, o ego do obsessivo em seu
conjunto.
livfã são a
relaçoes de objeto no curso do tratamento. Odier em seu Recorrerei para isso ao estudo das relações objetais, que
Acrescentarei a se-
expressão da adaptação do sujeito ao mundo.
A angustia e o pensamento mágico, fala do setodpré-lógico
do
ego.. Nunberg insiste na regressão do ego ao estágio anim'Is t ª" guir que dessa demonstração de que um ego aparentemente me-
sadico (Tratado geral das neuroses). realidade enfermo, de certo modo, em sua
nos afetado está na
Como já disse, não gostaria de voltar a falar da descrição refletir mais profundamente, não espe-
totalidade, e se se quiser
d o modo de pensamento pré-lógico, característico do setor re— ao prognóstico distante
ro tirar uma conclusão especial quanto
gressrvo do ego. Seria uma repetição inútil que não faria mais de tal afecção. Creio ser razoável admitir que ego, que apesar
o

'
Ii” ' *

ª' ª E"? fºi fai.


,...,
64 Maurice Bouvet 65
0 ego na neurose obsessiva. Relação de objeto...
de uma amputação real e profunda dá
provas antes de toda aná- ses dois fatores cuja significação prognóstica é evidentemente
lise de grande capacidade de síntese, é mais
capaz que outro de
manter os ganhos adquiridos na análise; mas penso, em todo certa.Eis
aqui essas duas observações: o primeiro caso'é o de
caso, que no que concerne à facilidade da própria cura, ou seja, um jovem a quem chamaremos'Paulo, e CUJa analise sçra
uma cura real e não uma análise intelectualizada, é ilusório tirar
apresentada mais adiante, assim assinalarel apenas dors elemen
um argumento prognóstico da força aparente do
ego, tal como que interessam a esta parte de minha exposrçao. Paulo tem
;;
nos e' sensível no curso de um exame clínico em que, contudo,
anos, faz quatro anos que está doente quando vem me. vher,
se estudam minuciosamente os antecedentes mórbidos, a data
acompanhado de seus pais, pois nuncaterla podido vir sozm o,
de aparição dos transtornos, a eficiência
aparente do sujeito na expressa-se com dificuldade e seu discurso e continuamlente
vida social, e, finalmente, a importância da sintomatologia. Evi—
acompanhado deªgestos de anulaçao; apresenta um e—ve
dentemente, tudo o que acabo de dizer não é válido senão den- tartamudeio e um tique nasal que repete continuamente. Expoe-
tro de certos limites. Permanece fora de questão
que um sujeito me com muitas reticências seus sintomas que o impedem,
com neurose obsessiva sintomática, esquizofrenia latente e atualmente, e em virtude de uma progressão crescente, de
que
apresenta massivamente fenômenos de estranheza e alienação,
entregar-se a qualquer atividade.
assim como essa reação paradóxica do desaparecimento massi- .
São obsessões de “voltar a começar, as que o impedem qual-
,

vo depois de alguns meses de tratamento de todas ou muitas con—


dutas de sintomatologia obsessiva, tem um quer trabalho e leitura. De fato, depois de ter.lido algumas .li-
ego cuja debilidade nhas deve recomeçar, como se sentisse que deixa alguma corsa
coloca problemas prognósticos e terapêuticos muito particula— de longe as
para trás. Tem também obsessões de zonas. que sao
res. Nas fronteiras da neurose obsessiva, tudo isso é questão de mais penosas; para ele, o espaço está div1d1do em zonas favora-
matizes, e, em alguns casos, muito difíceis de apreciar. A este veis e nefastas; quando abruptamente toma—o de assalto a ideia
estudo não interessa senão casos que pertencem indiscutivelmen—
de que tal ou qual movimento fará entrar uma parte de seu cor-
te ao grupo das neuroses obsessivas e desejaria
si dois sujeitos afetados pela neurose obsessiva
comparar entre po em uma zona nefasta, se vê obrigado a suspender seu movr-
cuja gravidade é mento ou a recorrer a algum conjuro; seu próprio corpo, da mes-
aparentemente muito diferente, para mostrar que, em um caso ma forma que o corpo dos outros, estava dividido em zonas,
como no outro, a personalidade está afetada em seu conjunto e
como se verá no correr da análise. Revela, alem disso, obses-
que as relações de objeto estão igualmente alteradas in tato; por sões “homicidas”: “Se compro tal coisa, se faço tal gesto, meu
outro lado, devo adicionar que o caso aparentemente mais fácil
pai morrerá ou minha mãe...” e obsessões de castraçao: quando
demonstrou ser o mais resistente. Esta última observação,
cor- lia um romance ou via um filme, toda descrição ou todo espeta-
roborada por tudo o que pude comprovar até aqui, concorda
com culo de um ato de violência provocava-lhe a obsessao de ter (;
o que Fenichel nos ensina sobre o prognóstico da neurose ob-
braço ou a garganta cortadosiem resumo, de sentir a dor aAqua
sessiva; na obra citada chega à conclusão de havia sido exposta a vítima; lutava contra todos esses fenome-
que é impossível
estabelecer uma regra prognóstica firme e que apenas a
prova nos mediante diversas técnicas de anulação. Para se levantar, e
do tratamento é concludente. Glover situa o prognóstico desta
em especial para se deitar, executava um ritual que durava ho-
afecção na importância relativa da fixação e da regressão. Volta-
ras e do qual seus pais deviam partrcrpar.
rei a falar deste ponto ao estudar o "
Apresentava, além disso, fenômenos de despersonallzaçao.
.

aspecto homossexual da re-


lação de objeto, mas devo dizer, desde já, que no meu entender Sentia-se subitamente mudado, aturdido, vacilante, seus movr-
temos aqui um elemento que permite apreciar a importância des—
mentos pareciam-lhe descordenados, torpes, inadequados; as ve-
66 Maurice Bouvet O ego na neurose obsessiva. Relação de objeto... 67

zes tinha a impressão de que tal parte do corpo não era


sua, sua personalização em quase todas as minhas observações. Os .en-
mão por exemplo. O que se produzia com mais freqiiência fermos os confessam com muita dificuldade, e ainda que sejam
era
um transtorno da percepção das relações espaciais,
que desig- prova de um transtorno da síntese do ego, não são de forma
nava com o nome de transtorno da acomodação: os objetos
se alguma um argumento decisivo a favor da equizofrenia; para o
distanciavam, a dimensão de um quarto parecia imensa, as
po—
próprio Federn, só adquirem um valor alarmante se forem parti-
sições relativas dos objetos se modificavam; em outros cularmente freqiientes e estiverem acompanhados de outros sm-
casos
variava o grau de luminosidade, ou melhor, uma
espécie de né— tomas. Neste caso têm sido sempre muito raros e breves. Por
voa se interpunha entre os seres e ele. outro lado, como se verá, este jovem melhorou profundamente
Tudo isso ia acompanhado de um sentimento de
angústia depois de três anos e meio de análise.
Insistirei um pouco mais sobre suas relações de objeto, antes
.
indefinível, a angústia de terceiro grau, segundo sua própria clas-
sificação; mas deve-se acrescentar que esses fenômenos da análise, na vida, tal como posso reconstitui-las agora. Esse
eram
muito breves, perfeitamente controlados pelo
ego, e se produziam jovem conservava uma recordação infeliz de sua infanCia e, de
apenas em ocasião de impulsos extremamente violentos de agres— fato, nunca havia estabelecido relações emOCionais livres e ricas
sividade, provocados por uma frustração qualquer. Como não com ninguém; ainda que tenha sido muito evidado por _sua fa-
gostaria de voltar a descrever esses sintomas ao relatar a obser- mi'lia, vivia à margem, solitário, escondido, tinha um irmao pou-
vação, acrescentarei que para lutar contra esses fenômenos de cos anos mais velho que ele, de quem dirá mais adiante que la—
despersonalização, os procedimentos mágicos se mostraram in— menta não ter podido ama-lo mais. Esse irmão tinha, segundo
suficientes, como os demais de que falarei mais 'à frente, e ele, um caráter encantador, o que não impedia que fora-os ser-
que
se via obrigado a “aferrar-se ao real, interessando-se voluntaria- viços que este último lhe prestava, o sujeito nunca teve com ele
mente por alguma coisa”, em princípio em alguns “setores
con- a menor intimidade, nunca confiou-lhe nada de sua Vida intima,
soladores de sua vida”. Esse esforço de domínio encontrei temendo brincadeiras ou repulsas que nada permitiaro prever.
em
todos os sujeitos que sofrem de tais fenômenos e Além disso, invejava-o intensamente porque tinha a impressao
parece-me que
se deve considerar um procedimento de defesa contra de que seus pais o preferiam. Durante um breve periodo de sua
a ruptura
de relacionamentos de objeto, à maneira da
obsessão; encontra- infância teve certa admiração por seu pai, mas neste caso tam-
se neles a mesma necessidade narcisista de um objeto de com— bém sempre lhe foi impossível confiar, sempre temeroso de que
plemento, a mesma angústia de o perder eventualmente: “Quan- se atentara contra sua liberdade. Teve inúmeras dificuldades com
do me sinto afetado no meu próprio
corpo, já não tenho nada seus pais em relação à disciplina familiar, era terrivelmente des-
em que me apegar, porque meu transtorno está em mim e já não confiado, e era—lhe difícil suportar a menor manifestação de au—
posso contar com um ponto de apoio exterior”, os mesmos toridade ou a menor brincadeira.
pro-
Por outro lado, nunca pensou, com exceção desses últimos
.

cedimentos de deslocamento e muitas vezes o mesmo simbolis-


mo. Certamente é necessário cotejar essas “estranhezas” com a anos e por razões que irei expor na observação, em afastar-se
forma particularmente passiva das obsessões de de seus pais pois tinha muita necessidade deles para apaziguar
castração, que
me parecem testemunhar uma incerteza dos limites do
ego. Dian— uma angústia latente. Em sua infância padecia de medos violen-
te de uma sintomatologia tão complexa, havia—se
mencionado o tos e temia, acima de tudo, a solidão e o isolamento;.nao que
diagnóstico de esquizofrenia para descarta—lo logo em seguida sua vida tivesse sido emocionalmente pobre já que abrigava se—
por
causa do caráter energético e sem claudicações da defesa da qual cretamente por sua mãe, por jovens que apenas conhec1a, ou por
o sujeito sempre havia dado provas. Encontrei esses fatos
de des- companheiros de escola, sentimentos que, quando os progres—
68 Maurice Bouvet 69
0 ego na neurose obsessiva. Relação de obieto...
sos da análise o permitiram, puderam ser referidos tado melhorou espontaneamente, em uma atmosfera de terror em
completamen-
te, revelando-se como excepcionalmente vigorosos
e violentos. que seu eu estava permanentemente em perigo.
Era capaz de sentir alegrias inefáveis, Encontrava, como muitos obsesswos, um elemento de se -
mas também dores arra—
sadoras; como nunca se manifestava, sofria atrozmente
a indi- gurança indispensável em sua roupa. Paulo, como o SUJCIIO elªa
ferença ou a frieza que essas reações de despeito, exacerbadas observação é comunicada por Fenichel, experimentava um ir; .
pela menor frustração, o faziam sofrer, a tal estar físico quando não estava convenientemente vestido, so na
ponto que foi pre—
cisamente por ocasião de uma decepção sentimental de uma verdadeira hipocondria vestimentaria — acontecra o mes-
em sua pri-
meira infância quando experimentou pela
primeira vez, pelo me- mo quando se “desacreditava” um objeto que lhe pertenCia, e pil'e-
nos em sua lembrança, uma sensação de despersonalização. feria destrui-lo a conserva-lo, assim como se livrou de uma e
No começo da análise vivia com seus pais, ” ”
em uma situa— Sªº eaa ual uer preço.
cthârzlimos ªgorª
ção de dependência total por causa de sua enfermidade. Tinha um sujeito a quem chamaremos Pedro. Apa—
alguns amigos com quem mantinha relações rece sozinho em meu consultório, seu comportamento e abso u-
apenas superficiais:
não lhes confiava nada relativo à sua afecção tamente normal, muito arrumado, fala com voz ”suave, sem (eis-
nem tinha por eles
nenhum sentimento real; serviam-lhe principalmente de colher as palavras, com elegância, sorri sem afetação; me iz
interlo-
cutores em discussões nas quais aguçava suas faculdades de ré—
que tem 25 anos, que é chefe deuma empresa e que assurlíie
plica e argumentação, encontrando nessas disputas oratórias funções de direção delicadas, que implicam pesadas responsa
1

uma
satisfação narcisista essencial para seu sentimento de lidades. Está doente há uns quatro anos, sofre de um Sintonia
autocon-
fiança. Em circunstâncias as mais variadas experimentava desa—
que à primeira vista parece ter mais. de fobia que de obsessao.
.gradáveis emoções homossexuais se se encontrava Realmente, em si mesmo é muito limitado; contudo, a pulszào ªque
na presença
de um homem que, por qualquer motivo,
evocava nele o senti- se expressa por seu contrário salva todas as medidas ãe eeeZZ
mento de um poder superior; então sentia medo e o evitava, ainda de aparência lógica que o sujeito tenta lhe opor, de mo
que as circunstâncias lhe impusessem relações sociais. Se ten- ogume-
produzem contaminações e a extensao sempre crescente ç.
tasse caracterizar brevemente o estilo de suas didas de evitação não chega a trazer um apaz1guamcnto de initi-
_
.

relações de obje—
to, diria que longe de ser indiferente era, ao contrário, de vo para o temor do sujeito. Além disso,.outras qbsessoes se
uma
extrema sensibilidade e capaz de um afeto apaixonado, unem a precedente e todas têm a mesma Significaçao agresswa,
mas que
sempre se sentiu incômodo, não somente por sua possessivida— e sobretudo a análise mostrou que ex1stia um spperego nao ape—
de, sua incapacidade de tolerar a menor frustração,
sua agressi— nas moral, mas também sádico, e que as pulsoes haViam sofri-
vidade, bem como por seu temor, porque sua do uma regressão massiva ao estágio sádico-anal. Se faço esta
reação à emoção
homossexual era representativa de suas dificuldades
em toda re- observação, opondo-a à precedente, é porquemeste caso 0 Zªc;
lação objetal. Tinha medo do que mais desejava: o não parece haver sofrido regressão de tipo magico, e issohp
contato com
um ser forte, seja lá qual fosse seu sexo, contato iludir, digo iludir, porque descobri por ocasiao de um sos o a [é
cujo desejo
lhe era imposto por seus medos, suas
preocupações hipocon— que ponto o pensamento de Pedro estava impregnado e tirª-a
dríacas, seu terror à solidão, que lhe faziam indispensáveis es—
crença na onipotência do pensamento. Se empregava procD
sas relações. Essas chegaram a ser, por sua mentos de defesa mágica, não pretendo saber com certeza. e -
vez, necessárias e
pesadas, apaixonadas e glaciais, densas e superficiais. Esse pois de me haver exposto violentamente, sem'rodeios, sua ne—
su-
jeito não conheceu jamais uma recompensa pulsional substan- cessidade de onipotência e seu desprezo sistematico pelarealidade
cial, viveu, salvo raras fases de sua existência exterior: “O que importa, é o que eu preCiso e a realidade e o
nas quais seu es-
70 '
Maurice Bouvet 71
O ego na neurose obsessiva. Relação de objeto... ii

' '
q ue eu imagino
79

, contou—me um sonho no
qual via um edifício
CUJOS andares superiores ele desejava ma não se define. A infância é um presídio porque nela não se
que estivessem recobertos
de neves
eternas e eis aqui como oferecia uma base aparente- encontra nenhuma alegria. A vida adulta, que deveria trazer a li-
mente racronal para suas obsessões: “Quando tenho uma obses- bertação tão esperada, não e' mais satisfatória; apenas ocasional-
sao, procuro Justificá-la a meus próprios olhos, mente encontra uns poucos pontos de felicidade e esta compa-
porque experi—
mento um sentimento penoso de insegurança e deficiência ração espacial adquire todo seu sentido: o ponto é, de fato, um
mental
por ter uma idéia absurda ou inexplicável; eu fazia, lugar geométrico ideal e a felicidade é tão fugaz, tão passageira
sem me dar É produzida por sa-
cpnta, como no sonho; sonhando, surpreendia-me que esse edi— que se pode representa-la com um ponto.
freio pudesse ser tão alto, pensava contar os andares mas tisfações mínimas, puramente narcisistas, sem brilho, lábeis, sem-
como
sabla perfeitamente que o número de andares
não correspondia pre à mercê de um, acontecimento qualquer, e o resto do tempo,
nunca aos meus desejos de que estivessem recobertos fora de algumas saÍisfações conseguidas no manejo dos negócios,
de neves
eternas, decidia no próprio sonho conferir-lhe o valor de “porque o dinheiro é algo sólido, e a felicidade, vento”, tudo são
um an—
dar a cada sarrafo de madeira
que constituía as cortinas de ue panos quentes, obrigações, esforços, como na infância: “Se sou
estavam providas cada janela, e assim dava a conta de uecrlr tão apegado ao dinheiro, que por sua vez não uso para mim mes-
mo, é que não me sobra outra coisa”. A realidade exterior está
segundo meuª desª:
cessrtava. Sempre transformei a realidade
” povoada de perigos, deveres, compulsões. “As pessoas dizem que
'
_]OS .

Poderia multiplicar os exemplos dessas são felizes, ou se diz que o é, não compreendo o que se quer
racionalizações ab—
surdas dizer com isso, para mim é absolutamente irreal, é um estado
que empregava parajustificar suas obsessões. Ao lhes dar
uma aparencra de realidade. reassegurava—se,
ao mesmo tem o que não sinto... Não sei o que quer dizer... Agora, espero con-
que no plano pulsional assegurava de certo modo a perenidfde tudo alguma coisa, provavelmente a vida futura que tampouco
de sua agressividade. Dirá mais tarde:
“Tenho tal ódio uando posso representar-me. Quando estou com os meus, tenho a de-
me smto repelido, que no fundo, vejo agora, arrumo—as paga mim sagradável impressão de estar sendo pressionado. Quando estou
só tenho medo! Se minha família se foi, não posso deitar-me só
inconscienternente para apoiar meus pensamentos agressivos em
um rac1ocmro, por mais arbitrário em minha casa, tenho medo de que os ladrões me assaltem, ou
que seja, mas isso volta-se
sempre contra mim. Apego-me às minhas obsessões ainda ainda que me assassinem, ou também de sofrer um mal-estar e
sofrendo, agora o vejo”. que morrer só, sem que me prestem socorro, tudo isso está fora de
Na transferência, por outro lado, e minhas obsessões. Quando criança me enviaram para uma colô-
penso que é um argu—
mais em favor da natureza obsessiva de seu nia de férias, não pude me adaptar, imediatamente caí doente de
3231220 transtorno,
. ou
aolmaxrmo os isolamentos afetivo e associativo de seus angústia e terror, sempre considerei aquele momento como o pior
conteudos ideativos. Se elegi esse exemplo, é de todos, de fato, estava separado de minha mãe!”. As relações
precisamente por-
que nele a regressão do ego não é evidente a primeira com sua mãe, que são as mais significativas de sua existência,
vista
porque o SUjCltO dá provas de um esforço constante e por ue Á são também sumamente narcisistas. “Me dou conta” — dizia—me
srntomatologia está muito incompleta e conseqiientemente no] pla— — “de
que gosto de minha família, na medida em que forma par-
no que nos ocupamos, opõe-se ao caso precedente. Vejanios te de mim mesmo, em que estaria perdido sem ela, não tenho
a g o- nenhuma independência já que não disponho de dinheiro próprio
ra suas relações de objeto.
Guarda de sua infância em geral a impressão de um presí- e isso me dói, mas nela me sinto seguro, formamos um bloco e
apesar de todos os inconvenientes que implica essa situação, eu
.
dio; o unico consolo é que um dia chegará
a libertação, cuja for—
tiro proveito; bem sei que devo pensar em construir uma vida
72 73
Maurice Bouvet O ego na neurose obsessiva. Relação de objeto...

essoal ' ' ' arcaico de relação de objeto que, exceto a fuga obsessiva,
ªms [e ,hque manter essa optica lnfantil é perigoso e absurdo
'

n o
que reconhecer, todo o sentimento que tenho de mini só poderia se traduzir nessa restrição quase total de sua vida
mes mo esta baseado em nossa fortuna e emocional.
em minha família Não
Essas restrições são, por outro lado, as que permitem aos
.
'
os so Vida sem uma fortuna sólida
pe arimaginar a e a pior catástro-
ranpa aHmim seria uma revolução que me privasse dessa segu- obsessivos proteger certos setores de sua vida social e profissio-
a nal. Pedro podia exercer suas funções, com a condição de se
envílile ptsltro líatlo que mexe comigo: a idéia de que minha mãe
proibir toda satisfação profunda, de reduzi-las a uma série
de atos
ça. ua e eza me agrada e me pergunto q ual se ' mmhª
.
atitude quando est'iver velha ou o '
rª ' muito automatizados, de evitar quanto possível todo tipo de con-
que e u faria se ficasse desf'!-
'
, .
flito no próprio âmbito de sua atividade, de não gozar de nenhu-
gurada, seria terrivel! Me sentiria mais. q ue di m1nu1
' .
o

'd o, e se
' da—
na o mesmo se meus irmaos " - ma liberdade, e assim a vida continuava para ele sendo um pre-
.
nao triunfassem, sinto-me feliz com
.

seus b r1111 sídio como na infância.


'aptçís çssudos, porque então minha importância aumenta
e assj me uo. correome smo com meus ami' g o 5, apego-me A análise demonstrou, e terei a oportunidade de voltar a esse
de ob—
& Eles n
medida ponto a propósito do aspecto masoquista de suas relações
.

em
.
_a que prec1so deles para lhes confiar minhas de
Obses soes e encontrar neles
um recurso contra o isolamento jeto, que esse sujeito sofria de uma verdadeira incerteza seus
fenômenos de despersonalização. Como
Tºdo 5 os que me rodeiam
cumprem a mesma função , são de Pº" '. limites corporais sem
Paulo, encontrava em sua roupa um elemento de proteção indis-
.
srtos de Potência”.
Nã se deve crer, contudo, pensável.
que esse sujeito só tenha sido
ca ªz d:
*

Pareceu—me importante comparar esses dois quadros clíni-


sentimentos
.

Aªnáj' eiãperimentar estritamente utilitários


amplamente cos tão diferentes de sujeitos do mesmo sexo, da mesma idade,
pªÍXõesise lemonstrou que também pode sentir de cultura e inteligência similares, mas que contrastam tanto por
VlO nas quais se misturam sentimentos de adora _
ç㺠, [ emu ra, ” erátas
sua sintomatologia, muito rica no primeiro caso, quase
que pode conhecer uma felicidade pro— monossintomática e muito pobre no segundo; em ambos apare-
funda , cº mo fevoçao,
or-me possível c omprovar q uand o me relatou vi-
breve , . .
de amor de sua infância ou adolescência
- _
ce a mesma estrutura de relações de objeto, profundamente
fcsntãpisoditm que ciada em um caso cºmo no outro.
não rn mais que um sonh 0
, ja que nunca se arriscou
'
a
" Sem dúvida que a coerência do ego do segundo sujeito é
lhes
ªrrebíªãm çomeço de realidade. A própria
.

de
en os emocionais tanto no sentido '
intensidade de seus superior à do ego do primeiro, o qual deu provas de relações
. da exalt ªçªº“
º dª fº" defesas vigorosas e continuadas sem tréguas, o que não impede
herdade com o no da pena, o ranco '
.

reoodio '
, eratal q u e 0 b' "8ª" que a estrutura emocional de suas relações com o
mundo seja
va-o & Proibir—se , com o medida '
de preca uçao "
idêntica em um e em outro, e que apesar das aparências suas
'
* . , todo im P ul 30
que nao estivesse estrita mente controlado em
capacidades de adaptação profunda sejam sensivelmente equiva-
"
relaçao a outr ª
pessoa, fosse quem fosse . P or outro lado atrás (1
res que tivesse querido amar, como tivesse
.
' .
, essas mulhe- lentes, porque tanto em um como no outro o ego está afetado
'
q u endo amar a sua em sua totalidade, de maneira mais visível em um e menos
ma—
ma sentia que estava oculta uma
— .

nifesta no outro. Se considerarmos um sujeito dado do ponto


.

te,
[ ru iva
imagem aterradora e des -
que se traduzia e m sua conscrencra '“ '
& P o r um medo t & 1
de vista da realidade interna veremos que o que é essencial, o
as mu temia "
relaçao
_

de suas relações
suÍcÍdilheres, que a sexual como equivalente do que conta, é a riqueza, a liberdade, a qualidade
o, e assrm é perturbad o em sua mundo. Sendo assim, no começo, essa quali—
evolução P or esse te- emocionais com o
mor, tanto de ser castr ado pela mulher idêntica em cada um deles. Com a regres-
como de s er mutila- '
dade é sensivelmente
do pelo homem, nao *
teria podido 1r mais além desse estilo
. . .

estilo definir como se segue:


são ambos têm certo que se pode
74 Maurice Bouvet .. 75
de obleto...
u

O ego na neurose obsessiva. Relaçao


Antes de toda análise, suas relações fato Fe-
estavam truncadas; po— ' '
'
der- se-ia dizer, transpondo ao cológica espiritual, que exrge um imenso trabarllllipgªçlezajumª
plano psicológico o esquema de
Abraham, que eram parciais: o trato com dern reconhecia no ego obsessrvo um” vrgor,burdªde
os outros só lhes pro- fundamen-
porcionava satisfações limitadas, extremamente capacidade de resistência que. cogtrapgterãgelá rego
narcisistas, de histérico in-
'
ca acidade, ã ausêncra e c

proteção, conforto e segurança, mas de nenhuma tcªlssãiitremgnte m
maneira satis—
_
.

fações totais, e não havia intercâmbio humano passivo e transbordado pelos aíonêfãlªínªsfêfço
eles e os outros. Sempre completo entre fato subsiste, que o obsessivo se comprome e
ameaçados, sempre ameaçantes, um e objetars or meio de umª
outro corrigiam suas tentativas de para conservar a todo custo as relaçoes piificumades im-
aproximação com reações de
fuga, expressando por meio desse regressão estrutural, que foi uma; (ªegísgsçsgglrgddª
comportamento ambivalente ' ' ue um , toma
ainda
a dupla significação do poãªlbâfªcgeasgã㪪o? ecin uma luta que só pode ter
que se nos apresenta à primeira vista de A“
.

como agressividade, que de fato é agressividade,


mas que ainda rrrriziheiras:
film n:;
sob essa forma tem um sentido que se instale um novo equ1h'briã) relacrperíla essª?;
ambíguo. Teria sido inexato di— e
zer que entre eles e os outros no fundo nada tenha mudado; que esgota oKemCCose.
apenas existiam relações de des- absolutamente exangue, o ego se abandone—ua psrssa gerque nos
truição, pois também estabeleciam com eles SUbsti-
é verdade que por meio de
relações libidinais, casos que possam ter uma solução, tal relaçao gªg,
condutas agressivas, e isso é justa- precária ªin—
mente o que constitui a originalidade da tuída por outra, salvadora sem duv1da, mas que
da por muito tempo. Parece-me que essa prec ariedªdecios
relação de objeto obses— tanto
siva, relação que não tem somente um Cidade Ob-
duplo sentido na polari—
dade dupla do desejo quanto a obstinação anal, explica a'proverbia tenaz)S
que expressa, mas que e dupla também. em
sessivos na manutenção de seu Sistema contra esforços do
sua relação com o sujeito, desejada e tratamento
repelida, livre e imposta, analista. Na obra já citada, Fenlchel aconselha tato
ficando apenas no plano clínico mais tªn
superficial de um estudo todos os casos, mesmo naqueles e curso equizo-
objetivo. Gostaria de assinalar com isso an? l'tico em
comcrdin d o n isto
'I .

que, dada a debilidade


.

reservada,
_

fundamental do ego, tudo se A o inião de Federn é mais


apresenta como se tal rela ção fos- írâfhíode Frªud. Quanto a mim, não poderia, e
se imposta ao sujeito de fora. dadtzlnãªràlãaeeiípas
Para resumir, extrairei desse paralelo riência totalmente insuficiente, tomar partidp em
a conclusão de que é creio que, em todo caso, a compreensao tao exa—f. ta “amo, seja
difícil apreciar o valor relativo dos (; ão
setores regressivo e racional da dª re—
do ego, nos casos em possível, em cada instante do tratamento,. Sigriitiaiscsârpresas e
que o setor regressivo parece pouco im-
portante, estão inclusive viciadas em sua totalidade, lação de objeto na transferêncra pode evrtar $ªno
e que, se a em suas re-
sintomatologia extensiva pode provocar reservas erros cuja consequência seria, ao frustrar otanjeªmeme
quanto ao prog- se cons-
nóstico distante, não permite inferências lªçõºs Cºm O ªnªàiStª, deSfªífâoº (3533155?
sobre a facilidade ou a “manter-se
dificuldade do tratamento analítico. Assisti
'
: unoaexpr “ doentes,
a sujeitos com sinto— ::;Jãlíàosegou, melhor ainda, tirar—lhe uma ºporãlâªcªgíhgí '

matologia muito importante e não tropecei,


caso, em maiores dificuldades.
como no segundo trocar uma má, porém válida relaçao de objeto, por
O ego obsessivo é tão forte
em certos aspectos, tão débil
em outros, como me dizia um dos 3. A relação de objeto na transferência
que conhecem melhor essa
afecção. Parece-me oportuno recordar aqui '
a opinião de Federn, não
O problema da relação de objeto na neurose obsessrzra
'
que considera o ego obsessivo forte
porque tenta solucionar o esse
problema da angústia mediante um jogo deixou de preocupar a todos aqueles que se mteressaratpzilspes
interior, uma defesa psi— tão estranho e de con Vio-
estado mórbido tão particular,
76 77
'
Maurice Bouvet 0 ego na neurose obsessiva. Relação de objeto...
lentos es“ estado que se
mãngése encontra nas fronteiras da psicose emocionais é maior com as pessoas do mesmo sexo. E todos
si mes-
que com ela relaçoes muito íntimas, ainda
que perma,_ esses aspectos da relação de objeto são importantes em
necendo ª]? elo, ao menos em al da relação
guns casos , ao lo n㺠de tºdª mos, apenas não expressam mais que um momento
'
.
Vlda. E como pod erra '
dos aspectos prevalece: po-
ser de outro mod o.'7 Como P od '
ªriª nªº ser objetal, e um momento em que um
um problema semp re novo aquele der-se-ia dizer da mesma maneira que o obsessivo é rígido, o
que e stabelecem esses su ' ex- '
[os ªs vez
&
, momentos e' as-
mas que obedecem aos ritos mais arcaijcos que habitualmente é verdade, e que em outros
_

lucrdos,
do pensa"?ento magico, as sombrosamente sugestionável, que recusa e que só deseja aceitar.
vezes minuciosos, atentos ao menor
detalhe d e uma realidade cole cronavel ' ' , mas se u Quando abordamos o tratamento desses doentes nos depa-
o mundo com afir maçoes “ '
g rºs d dºminªr
puramente irr ears de om P otê "Clª dº '
ª '
'

ramos com contrastes como estes: qual vai ser a relação


de ob-
' ' ' eficaz Tal é, creio,
pensamento , suscetíve'18 as jeto na transferênªcia, e quais serão suas vicissitudes?

vezes de do mimo "
da realida— '
de pelo jog o de uma inteligê ' .
melhor o obsessivo, por-
a prova que nos permitirá compreender
' _

nela murtas vezes su Pºf'ºrv '


dº um
“5

apego forçado aos r'ituais ' ' nós.


infantis' enca rregados de lhes
Permitir
' '
que esta relação é a mais familiar para
os atos mais elementares da existência? Quando a transferência pode começar a se estabelecer e se
.

rela-
*

Parece-me que a relação de obj e' tal as primeiras resistências foram vencidas, desenvol-se uma
to, como gostaria de des- ,

l crever aquÍ, res ponde' a todos' os ' ' ção de objeto essencialmente narcisista e ambivalente que cons-
aspectos multiplos e contradi—
tóríºs de seu comportamento, titui o nó da situação desses sujeitos no mundo. Essa relação
é
aspectos que alguns autores des—
creverª objetal, quer dizer, uma relação de objeto autêntica. Mas uma
é
.

predomim ltsoladamente e aos quais parecem dar um valor interessa


na tal como VlmOS no .
.
. .
primeiro capítulo deste texto., relação de objeto narcisista, quer dizer que o sujeito se
enquantº , ;;;) menos em minha exper'”lencra ' '
, for-me lmPºSSIVºl
'
' pelo objeto apenas em função do acréscimo do sentimento
de si
reconhecer uma pr'imama '
do papel imediato que
constante a al g um mecanism '
º d ªtºr" que sua posse lhe proporciona, em função
l. minado de
.

representa ante ele e da necessidade inextinguível possuí-lo.


antitétiéopqpexiergplo, ao componente ativo ou passivo do par
1vr a e-passividade t”
, ao caracterrstrc ' '
º d ª neurºse Há algum tempo qualifiquei tal relação de “narcisismo projeta-
obsessrva . Em c ada caso particula
.
'
do”, querendo mostrar assim que o controle e a posse do objeto
, r , segundo o ue me fºi Pºs“
Cl
'

srvel “ Es-
_
comprovar , e stao presentes tod as as modalidad ºs d rºlª" '
ª era desejado com fins estritamente pessoais e egocêntricos.
çao de objeto O suje'ito tem as de
sas relações são evidentemente muito diferentes das relações
.

.
.

vezes u ma atitude '
' lºª
sad '
e mª“
soqursta, masculina e feminina . Mas sobretudo d
' '
objeto adultas, às quais se poderia contrapor ponto por ponto.
, , , esses P ares
ªnn
. .

Porque se no amor mais evoluído “sempre há amor próprio” e


. .

deteticos o.ma1s importante e o menos característico — porque


é acaba
uma universalidade tal que se encontra fora dos li
mites da se a relação amorosa, ainda em sua forma mais elevada,
n eurose obsessrva, o do amor e do normalmente por estabelecer o sentimento de si em virtude do
ódio — est a implicado nos
menores detalhes de sua ação. reconhe-
aporte do objeto, e no fim das contas muitos autores
Ou de modo
cem atualmente que o amor não se opõe à identificação
.

Observaããos aspeitos relac1ona1s opostos


.
têm surpreendido os
res: o o sessivo é um solitario '
' ' , dizem
'
al guns,' se ªpº“ tão rigoroso como o afirmou Freud (Fenichel, Graber,
Christofel), não é menos certo que a relação genital normal
ga desesperadamente., pensam outros Tudo e' d ' é
ate, ª me
.
.. esconcertante descreve. Em
* .
narcisista aqui se
unerteza da eleicao do objeto. Tais sujeitos parecem apre: muito diferente da relação que
.

sentar a sua forma primitiva essa relação não leva em conta a especifici-
acrlnbivalenma que afeta tanto aos seres do mesmo sexo
quanto a os e sexo oposto . M as aqur' contudo dade do objeto; este pode ser substituído por outro que propor-
, se d estaca um
mªm ma.18 ou menos constante: a possrbilidade
.
,. de ter relações cione os mesmos benefícios rigorosamente indispensáveis. Além
79
78 Maurice Bouvet O ego na neurose obsessiva. Relação de objeto...

dos
disso, essa satisfação pode ser obtida, plena e inteira, sem Em Breve estudo do desenvolvimento da libido à luz
que de objeto
intervenha nenhuma consideração dos desejos e necessidades do transtornos mentais, Abraham define assim a relação
do obsessivo: o objeto permanece inteiramente exterior ao cor-
proprio objeto. O ego infantil não sabe renunciar a uma satisfa-
çao imediata. Evidentemente, um estilo de relação renunciou por completo a toda intenção de m—
um pouco me- po do sujeito que
lhor se instala muito precocemente. Abraham do objeto, mas
fixa o aparecimento corporação. Sua libido fica apegada a uma parte
desde o estabelecimento do segundo período da fase sádico-anal o sujeito se contenta em controla-la e possuí-la.
Essa relaçao cor-
que e preCisamente aquela em que se situa a regressão da libido responde ã quarta fase do desenvolvimento segundo Abraham, a
na neurose obsessiva. Contudo, nos obsessivos fase sádico—anal tardia, em que os processos de destruiçao, sem
adultos se en-
contram, atrás das atenuações que um ego mais evoluído que o considerar o objeto com fins de incorporação da fase preceden-
da criança impõe à expressão pulsional, de posse e controle
os riscos essenciais desse te, são substituídos pelo desejo ambivalente
amor infantil e, antes de tudo, a utilização do
objeto para fins de do objeto. O amor às matérias fecais, objeto da “fase anal e
fortaleCimento do ego, do sentimento de sua unidade (Lacan) de
prefiguração de todas as demais, é a primeira manifestação
Ins1sti nesse ponto no item
anterior e tratei de apresentar sua nitidamente independente do
amor a um objeto percebido como
demonstração concreta na vida. Esses sujeitos, com seu senti- controle das fezes
próprio corpo. A conservação, a retenção, o
mento de incompletude (Janet), seu temor, às vezes a incerteza são os protótipos da conservação, do controle dos objetos cuja
dos limites de seu corpo, suas experiências de despersonaliza— narcisista do SUJeito. Gene-
posse e' tão necessária ao equilíbrio de
çao, estao. sempre empenhados em exercer um controle tanto ticamente falando, esta relação com as matérias fecais serve
mais estreito de seus objetos significativos dito e o amor objetal,,a_s-
quanto sua posse é ponte entre o narcisismo propriamente
de uma importância absolutamente vital para eles. Na transfe- do obsessivo com o mundo é intermediarja
renCia, apesar da fúria com que definem
sim como a relação
seu foro interno mos— entre o narcisismo predominante do esquizofrênico e a relaçao
tram-se estranhamente tributários de seu analista
que, um dia ou genital normal. Na verdade, para Abraham o obsessivo está sem—
outro, se converte no objeto narcisista de seu universo.
Como se sabe, Abraham qualifica as pre a ponto de regressar à primeira
fase sádico-anal de destrin-
relações do obsessivo vistas à incorporação,
de amor parcial do objeto. Desculpo-me ção, sem consideração do objeto e com
por voltar a me referir mas não se detém ali por muito tempo. Como
demonstra no pa-
aqu1 auma noção já clássica; faço-o na medida em que sua pre— obseSSi-
Cisa discussão intervém na análise rágrafo dedicado à neurose obsessiva e a melancolia, o
que tento fazer da situação medo de per-
atual das relações de objeto do obsessivo. vo entra imediatamente em situação de alerta por
Como disse, Abraham viu no amor der seu objeto, e nesse sentido pode-se dizer que seu nívelde
parcial, ao mesmo tem—
po que uma redução das exigências narcisistas, uma tentativa regressão é o da segunda fase anal. Enquanto o melancolico
de “abandona” suas relações psicossexuais, o obsesswo da um jei-
resolução da ambivalência inerente às fases pré—genitais do de- ou-
senvoIVimento em que, segundo sua expressão, a libido é to para escapar de seu destino. Por isso se pode dizer, por
pre- os-
dominantemente hostil para com o objeto de seus desejos. tro lado, que a técnica obsessiva, que assegura uma perpetua
Limitar sua exigência à posse de cilação entre as duas tendências contraditórias
de destrurçao e
apenas uma parte do ob— Alem disso,
conservação, procura manter relações de realidade.
_

jeto, permite satisfazer com essa parte todas as


suas necessida— atividades anais, o obsessivo, como a criança,
des puls10nais, sem pôr em perigo a existência da totalidade do por meio de suas
sentimentos com a seu objeto, e
objeto,
ea relação objetal em seu conjunto não corre o risco de expressa seus diversos relação
de um bom
ser questionada ou, melhor, rompida, O objeto, as fezes podem tomar a significação objeto que se
por intermédio
da relação parcial, é por sua vez
possuído e respeitado. dá por amor, ou de um instrumento de destru1ção, por prºjeçao
80 81
Maurice Bouvet O ego na neurose obsessiva. Relação de obleto...

sobre elas dos afetos do sujeito segundo a


predominância mo- truição, mas também ao risco de estar habitado por uªâgzpã
mentânea de um dos termos do par antitético Amor-Ódio, destruidor: “Quais são os sentimentos que acompan
que
me parece ser o nó da relação de objeto obsessiva. idéia de absorver seu esperma?" (filia-mescªlinª?) nrgiãopdeªeiemes
Clinicamente, a existência de fins de incorporação de irrita .ão vio enta... mor-
na neu-
rose obsessiva é indiscutível. Todos os autores as assinalam ªrljglecncireltfrlãfsformar...çde ser habitado por ser
.

e ,um onipotãil:
parece que quase não existe observação em que elas não sejam te e maléfico que escapasse de meu. controle Emfouttraã .

encontradas; de minha parte nunca vi que faltem. cunstâncias, tal introjeção poderia ter outro de efi (: ser
E isso me faz voltar ao problema das a de
relações de objeto por acompanhada de um sentimento de alegria,] e “306,3, ,uma
introjeção na neurose obsessiva. Tais relações podem, de invulnerabilidade; mas é verdade 'que se—desenvo verl
fato,
ter uma dupla significação, e pode—se dizer atmosfera que já filão seria agreístivla se'naªiírªãztslª V;;ra dadeirª
que o expediente do
amor parcial só resolve imperfeitamente o problema da ambiva- conservadora da qua a arei m mim
introjeção .
lência. Quando está acompanhada de '
. . '
anais, a in-
uma forte carga agressiva. ' '
nte assinalar aqui que, como as atrvrdades
a introjeção de apenas uma parte do objeto Írâjuefçãbepode
provoca uma reação se revestir segundo os casos de dois asííçrtlªipepããz
de angústia sumamente viva, um estado de
“pânico”, segundo a tos, e que essas significações diferentes estao rigoro
expressão de Glover. O sujeito se sente habitado por uma subs- terminadas pelo estado afetivo que a acompanha.
tância má, perigosa, tóxica, que põe em . ,
perigo sua própria exis— Em todo caso, o corretivo das intrºjeçoes perigosas e.?) pºr- ro—
tência ou simplesmente sua individualidade. Tende
a se desem— jeção, porque esta recusa é também uma prºjeção ja ªge 12,30
baraçar desse hóspede perigoso lançando-o ele-
para longe de si. O responde apenas a um colocarxpaíawíolriªâig :rgpsrêoelerâemo
objeto, de fato, que adquiriu essas propriedades vulneráveis '
bem como aari dª
fato de haver realizado uma projeção
prévia sobre ele — como
pelo o
Éuearlitgaãêrdãºpserigoso
que lhe foi conferida durante a
.

int-rãjeçlío
.
'
insistirei mais à frente das próprias características agressivas em virtude de uma verdadeira projeção, sobre ele, no senti iqopno
——

do sujeito, é vivido como o vetor de um


perigo mortal, ou me- no do termo, das emoções e afetos especrficos do suje
lhor, como se estivesse animado
por uma intenção má. Em todo ato.
caso, é assim que reagem os sujeitos adultos que se momíltifrtcrlgdução .
da noção de uma significação especral (1102332
_

entregam a
essas fantasias de incorporação com forte
de objeto que incorporam possui as
carga agressiva. A parte ,
por projeção dos afetos do sujeito parece-melser ugn ªsí/as
mesmas propriedades peri- ww essencial da compreensão das relaçoes de objeto o se“ 50.1)
gosas que o objeto inteiro que enfocam em suas relações. Além »
Por enquanto, e ainda que a partir de consrderaçoeissmª- re
disso, essa parte de objetoé, em virtude da
correspondência sim- o “amor parcial”, uma digressão necessaria—levou-me a
bólica entre a parte e o todo, representativa da
totalidade do ser lar ao mesmo tempo a questão da identificaçao por intrºjeçaão no
com quem estabelecem tal relação, ao menos em certa
medida, curso da cura analítica da neurose obsessrva, irei mí açeío essa
porque a relação de objeto não se rompe como na melancolia. noção de uma relação de objeto autentica e Vital pe od a mes-
Sem querer abordar aqui o problema do valor
conceitual da no- mo de seu caráter narcisista. O que leva a negar to 0 caráter
ção de objeto parcial de Melanie Klein, dizemos simplesmente libidinal é seu próprio arcaísmo; isso me pareceabusgf) ue
os doentes se expressam efetivamente como se que
valor narcisista implica o carater llbldlnal: ao pªrª“:
a introjeção afinal, seu _

agressiva (a partir de agora empregarei na maioria das cebem, de fato, relações de objeto puramente destrutivas qu e Emo ro-
vezes este
qualificativo para evitar a expressão “com forte conforto seu
carga agressi- porcionem ao sujeito segurança e em senfiama
va”) das partes de objeto que equivaleria não a]-
apenas a uma des— próprio. Penso que nos encontramos, por mais que se (;
82 Maurice Bouvet 83
O ego na neurose obsessiva. Relação de objeto...
guma reserva de estilo, ante um preconceito que
pesou f , das substituições, simbolismos e deslocamentos, não chega a se
temente sobre a neurose obsessiva e que vai muito mai lºr- do
do que Freud quis dizer ao falar da agressividade dos 088283.“ oferecer um ersatz, não lhe sobra mais — e já na ambiguidade
entra
,

jogo interior, felizmente corrigido e adaptado sem cessar,


vos.“Como lembrei, teve cuidado de assinalar em toda sua obSI-
nele que entrincheirar-se nas últimas defesas da psicose cujo
qure
depors de se produzir uma regressão, a pulsão amorosa $ -—

abandono acaba na morte.


sob a mascara da pulsão sádica” (Introdução à psica—
Maps:)nta Chegado a esse ponto de minha exposição, suspeito que se
minhas
Poderia multiplicar os textos, mas creio poderia repreender em mim que eu me deixe levar pelas
que será sufic' impressões e que o apresente como um postulado que
não se
recordar “Inibição, sintoma e angústia”: “Desse modo des lelite &. Assim, antes de voltar a falar desse sentido
rao, por um lado, as tendências agressivas da época inicliílr apoiaria em nada.,
obsessiva, gostaria
por outro, uma parte mais ou menos considerável — e nos is, que creio dar à refação de objeto da neurose
de insistir sobre o fato de que sigo aqui a linha mais estrita do
2351552:mintoitlalidade
— das
novas pulsões libidinais emprâen: obsessi—
' pensamento freudiano, segundo a qual a representação
os tra ados e surglfª' em fºrmª
'
fundo “gostaria de te pos—
de tendências agressivças e dEZtIthEÍ/ígífsªº va “gostaria de te matar” significa no
desse disfarce das tendências... o eu resiste suir” (Freud). e que me apóio no sentido geral daquele que. por
b“(Depois) as- meio de uma bibliografia sem dúvida incompleta, pode extrair dos
?er àriiqgãcêplírâ assempulsõesviolentas e. cruéis, enviadas pelo estudos contemporâneos e das alusões à neurose obsessiva con-
suspeitar que, agindo assim, luta contra
tidas nos trabalhos relativos à estrutura do ego. Como indiquei,
,
desejos erótic os que de outro modo teriam escapados de
su ª "1 -
'
estudam a re—
*
tervençao." esses trabalhos obedecem a duas tendências: uns
lação de objeto; outros (Glover, Pious, Stengel) apresentam a téc-
A atividade pulsional sofreu uma
regressão a uma fas em nica obsessiva como uma última tentativa para manter relações
que as pulsões são dificilmente discerníveis. Trata-se deeu_mª direta-
substancra da qual o sexual e o sadismo poderiam ' com a realidade, e como das relações de objeto depende
mente”.
sur gir ulterior—
mente, e por consequência a integridade do ego como agente de
de es-
Bem sei que nos encontramos ante um fato que não está adaptação, por dois acessos diferentes as duas categorias
creio que não é inútil chamar uma vez mais tudo convergem para o mesmo sentido.
2232235222, mas Se a relação obsessiva protege o sujeito contra a psicose é
.re esse ponto essencial: 'à ue a re '
relaçãg) ogjetal fuiíjmíífílgegíe porque não somente tem uma significação
destruidora, mas tam-
vamente o SLljeltO a um estilo de potencialmente, uma relação de
bém porque contém, pelo menos
arcaica, e por conseguinte se expressa, pela insatisfação inevi— mantém
tavel, de um modo muito estritamente agressivo com fre "” objeto libidinal: a agressividade a força que provoca e
é

era se perde de vista todo o vital, fundamental e até draniª'iltçn- a frustração, mas que também a faz cessar.
“Devoro a todos os que me rodeiam e também a você, gos-
que expressa tal relação, atrás de todas as desfigurações ue ' lfºº
em Virtude dos mecanismos de atenuação e evitação ªu'oso rle taria de abri-lo, sacudi-lo, extrair-lhe o que tem no crânio... Sou
consrderaremos mais adiante. O que expressa,de Jpcfsizii: como uma criança a quem se deixa só e que tem medo, gostaria
çlances de penetrar em você e saber o que tem dentro! E de toda essa
C:),ªaiomrgglstrâpcfímlgg que
uma tendência violenta à destruição
violência nasce um ódio e um remorso terríveis. Digo para mim
é 'uma "CCCSSÍdªdº dº é uma espécie de amor, por-
amor exasperada , inqulizrtlzíodªlchãtslmªr,
a, am ' ' que sou um bicho mau e contudo
primeira vez
que o amo destruindo—o, tomo-o para mim, e pela
,
presente, e tanto mais fundamental quanto gesosstiiâifdtteiãryãgrã de
,
levarei alguma coisa sua em mim, o sentimento uma igualda-
84 Maurice Bouvet 85
0 ego na neurose obsessiva. Relação de objeto...
de. Você não me expulsou, compreendeu-me, e sinto-me
em co— é por sua vez dispensador de todos os bens. Este é o persona-
munhão com você, acedo ao sentimento de minha liberdade e gem fabuloso que o obsessivo busca e se esquiva.
minha dignidade.” Busca—o porque apenas ele, como a mãe da primeira infân-
Assim essa relação de objeto autêntica, porém de um sujei—
cia, possui o encanto que pode preencher sua necessidade; es-
com um objeto narcisista destinado a cumprir uma função pre—
to quiva-se porque, como a própria essência dessa necessidade,
eisa ao mesmo tempo que elementar, a de aumentar o sentimen- consiste em se apropriar de seu conteúdo, de sua substância vi—
to de poder do ego. assegurar-lhe um contato com a realidade
tal, na forma mais arcaica que existe, o sujeito tem medo de ser
esta relação tão fortemente ambivalente, a que objeto se dirige vítima da retaliação de tal desejo contra ele. Quanto ao mais, a
primitivamente, antes que a explicação repetida da relação inter- destruição desse ijeto consumaria a perda de uma relação ne-
humana da transferência não tenha interrompido seu curso ine- cessária do ponto de vista narcisista. Com o deslocamento e a
Vitável e modificado sua orientação estritamente
destruidora à substituição todo ser, todo objeto que se torna significativo para
qual estava condenada apesar do sentido erótico, que, ainda que o sujeito, quero dizer, sobre o qual se transfere sua necessidade
nao perceptível à primeira vista, estava potencialmente incluído
narcisista, é por esse mesmo motivo, de modo atenuado ou to-
nela? E clássico dizer, considerando de um ponto de vista des- talmente, o substituto de tal imagem. Tudo ocorre como se en—
critivo, que o obsessivo vive num mundo fúnebre em que tudo cobrisse todos os seus caracteres, converte-se no ser que dis-
e perigo, morte, crime.
tribui todas as certezas, e por isso mesmo indispensável. Não é
Ao estudar as relações de objeto parcial fiz alusão à
_ proje- necessário dizer que tal situação é a da análise; o obsessivo pro—
çao que transformava o objeto do desejo agressivo, ou melhor cura estabelecer uma relação íntima que teme com todo seu ser.
ambivalente, “em uma coisa" agressiva, ou, mais exatamente, Assim como não pode renunciar à sua necessidade, também não
CUjas qualidades são afinal ambivalentes. Em outras palavras o pode superar seu terror, e tanto uma como o outro estão justifi-
su_|eito vive inconscientemente o outro, como é inconsciente ele cados. A primeira em virtude da necessidade em que se encon-
mesmo. Dizemos que projeta sobre o outro sua própria imagem. tra de estabelecer a qualquer preço relações de objeto; o segun-
Nao estou certo de que além de seu
superego, não projeta uma do em virtude da forma mesma de sua necessidade. A resolução
parte de seu ego, e a identificação se produza no momento em dessa antinomia é evidentemente o xis da questão. Não é sem—
que se estruturou a imago — cuja revivescência torna precisa-
pre que é plenamente possível, mas no mais das vezes me pare-
mente tão fúnebre e perigoso este mundo — a tal ponto global e ce capaz de ter uma solução muito satisfatória e em certos ca-
difusa que compromete todo o ser. O certo é
que o persona- sos completa. Em todo caso, dela e apenas dela depende o que
gem, o outro com quem tão vivamente deseja entrar em relação se pode qualificar de cura, e penso que isso é o que Freud quis
aparece—lhe como ele mesmo, animado
por um desejo incoercí: expressar quando escrevia: “Apenas podemos esperar que a pró-
vel deopoder sem limite, tão perigoso e destruidor
como ele se pria análise se converta em obsessão, porque toda obsessão ex-
acusaria de ser se conhecesse tudo o que se esconde atrás de pressa, através de todos os deslocamentos, de toda a armação
seus rituais e conjuros. Esse outro, seja qual for o agente mas- simbólica, de todos os isolamentos sejam quais forem, este dile-
culino ou feminino dos traumatismos que precipitaram a regres— ma do obsessivo”. Dizer que a própria análise chega a ser uma
sao, e uma imagem fálica cuja figura é muito conhecida para que obsessão, não é afirmar que o problema está sensivelmente bem
seja necessário insistir nela: personagem onipotente, devorado— colocado, e da maneira mais realista, na própria transferência?
ra, cruel, dotada de um poder ilimitado, mágico, Mas antes que o colóquio analítico ofereça ao doente a opor—
que, fato apa-
rentemente paradóxico se não conhecêssemos sua raiz genética, tunidade de solucionar seu dilema, ou, se se prefere, de reduzir
87
86 .
Maurice Bouvet O ego na neurose obsessiva. Relação de objeto...

sua ambivalência fundamenta], quer dizer, de bém para o objeto já que, nesse momento em que o componen-
superar os efeitos
da deSintrincação das pulsões,
que por sua vez é responsável el ª te erótico da relação se transforma como conseqiiência do esta-
regressao, o sujeito tentou resolver seu problema e se acoªi do de frustração permanente, em uma pulsão agressiva, o sujei-
dar o melhor-possível à perigosa situação vital Oo to sente seu desejo pelo objeto como essencialmente destruidor.
que leva consi
em todas as Circunstâncias reais da existência atual. falª- Pois bem, o objeto é indispensável para o equilíbrio narcisista e
Chega a
seu desaparecimento provocaria a perda da relação com o
lo tao bem que, fora dos períodos em obje—
que uma circunstância
rompe o que se costuma chamar o equilíbrio das relações & res— to, com todas as suas conseqiiências.
Sivas do sujeito com o mundo, o qual no égu Eis aqui um exemplo que, espero, mostrará melhor o que
meu entender ª quero expressar com essa noção da relação a
distância. Mônica
expressao insatisfatória, sempre pela mesma razão de que é den
sente o desejo dá uma relação sexual comigo, o que se traduz
critiva apenas superficialmente, chega a evitar o tormento da oli-
“- na obsessão de me fazer engolir, involuntariamente entenda-se,
sessao evrdente. Como sabemos, os processos utilizados ara
pagar,—«

simbólico de
(pºr uma porção de materiais fecais que o equivalente
iijma e'
a
fim. ambivalência podem ocasionalmente consistir em ,>

15“
soc1açaq das relações ambivalentes, e isso é muito sensível seu corpo inteiro. Por outro lado, tem a obsessão complemen-
ob-
transferencia. Alguns doentes, por exemplo, reservam sua honsa- tar de engolir uma porção de meus próprios materiais. Essa
fan-
tilidade para seu analista, e recobrem as satisfações libidinais n sessão, que corresponde à revivescência na transferência de
tasias sadomasoquistas da infância, nas quais era cortada em
c1s1stas que lhes são necessárias carregando um persona e
Éir—

fantaSia ou realidade com os afetos positivos dg 'm


º pedaços “como frango” e devorada por seu pai, leva-a a utilizar
que estã º Cªnnª“ lavar com—
dos ao seu médico. -
os procedimentos de defesa que se pode imaginar: o
dos órgãos
Mas a solução desse dilema, ou pelo menos sua solu
aprox1mada, está contida na própria estrutura da relação obg—ei:Í
' pulsivo das mãos, renúncia aos cuidados
genitais e da zona anal, retenção voluntária
higiênicos
das matérias fecais e
Siva, quer se trate de uma relação cujo caráter da urina nas horas que precedem à sessão, uso de luvas, negati-
psicológico é ab consequência da
solutamente evidente, porque se expressa por meio de uma b-- va em dar-me a mão ainda de luvas e, como
sessao nitidamente caracterizada, não velada e com vis(t) transposição do temor de ter manchas no cabelo, lavar compul—
diretamente a um sujeito determinado, ou que constitua um m das sivamente a cabeça; todas essas medidas não impedem que a pa-
“5
vivendi aparentemente normal, em virtude de
um jogo bem
CCZ)
ciente se dê uma satisfação simbólica de seu desejo falando-me
pensado de intercâmbios, se se pode falar de intercâmbios q uzin— muito freqiientemente de seu temor. Mantinha pois uma relação
do estao tão estreitamente vigiados. "' de objeto por meio de todas essas medidas de defesa, mas essa
forma
A relação obsessiva traz uma
solução ao dilema do dese'o e situação continuava sendo perigosa em função da própria
do temor
por, seu caráter fundamental de relação a distânjcia em que a regressão e a fixação combinadas impunham ao seu
trian-
Quandoalguem se mantém a distância de um objeto cu'o co; desejo sexual. Depois de reviver na transferência uma relação
merCio e absolutamente indispensável, mas
cuja intimidªde gular típica da infância, que a fez consciente com todas as suas
estabe-
teme, seja pelo cerimonial corretor de uma obsessão & ress'se significações, pareceu prosseguir sua evolução libidinal,
ou mais Simplesmente consentindo um empobrecimentog masw'a ,,ti lecendo relações com jovens de sua idade e flertando com al-
subsistiam evitava sempre
vo da Vida emocional, pode—se manter, sem sentir muita an Liss]: guns deles. Mas suas resistências e
sexual ou
tia para s1 e para ele, uma relação de objeto, porque é necegssá— pronunciar palavras que podiam ter uma significação
escatológica. Logo tive a convicção de que seus flertes, que não
rio nao esquecer que se para o sujeito a intimidade com o ob'eto
e perigosa, ja que pode levar à sua própria
destruição, o é
tiim- tinham nenhuma significação profunda para ela, não eram mais
88 Maurice Bom/et de objeto... 89
O ego na neurose obsessiva. Relação

que uma transposição da relação que comigo, objeto significati- intermédio de


relação libidinal com o superego, se impõe, por
vo, nao podia sustentar, e que por meio deles me falava de seus fim, ou então se obri-
seus mecanismos de defesa, expiações sem
sentimentos para comigo, fato que me confirmou posteriormen- transbordar toda imaginação,
ga a um ascetismo cujo rigor pode constitui
te. A relação comigo, graças a esse disfarce, se mantinha se instintivas
e em que, afinal, a limitação das pulsões de
que ela se desse conta claramente. Por outro lado eis aqui comrbl Pelo jogo das medidas
em si uma manifestação masoquista.
procedeu conscientemente para conservar-me como seu apoio restri-
defesa a agressividade, que poderia se desenvolver sem
sem me fazer correr o perigo de uma destruição total. A
situa: sujeito, ou seja, contra
ção contra o objeto, volta-se contra o
çao amorosa era para ela, de fato, insuportável, menos por mo- seu ego.
tivos de interdição que por ter medo de que eu a matasse e medo da rela-
Isso não é tudo. Se os mecanismos de atenuação
de me matar: “Se eu me aproximasse de você, lhe tomaria al autopunitivo, e se por meio
ção objetal compiªeendem um aspecto
%?
esse conheces-
seu. (castração) e teria medo de que me matasse”. Tal foi a deles o ego é castigado pelo superego, como se
Eiti obsessivo sob seu dis-
meira formulação. A segunda foi mais explícita: “Tenho a se a significação agressiva do pensamento
pressao de que se tivesse relações contigo o devoraria e ue
se isso não constitui
momentg farce, para retomar uma formulação clássica,
mais primiti-
correria perigo de que você fizesse o mesmo”. No mai todo o masoquismo obsessivo. Há um mecanismo
agudo de sua enfermidade tinha a obsessão de que seu ai se; da indiferenciação relativa
vo (Nacht), o que resulta diretamente
levantava de noite para ir devorar cadáveres. Quando a aªa ão
do
do sujeito e do objeto, ou, para falar em termos genéticos,
que sentia por mim se fez muito imperiosa, havia—me mataÍio , ego e da personagem fálica.
Se o sujeito, como dizia Abraham,
daquele de seu obje—
segundo sua expressão, por precaução, acumulando a meu re S—
possuísse um ego nitidamente diferenciado
peito todas as críticas possíveis para desprender-se de mim haver descartado as defesas
to, não perceberíamos, depois de
que afinal havia conseguido, ao menos em parte. Matar—me erª mais superficiais, que esta individualidade se
defende tanto mais
uma solução que preservava a relação narcisista: “Se o matasse é questionada e no fundo se afirma
porque em todo momento constante—
sente
poderiaainda me apoiar em seu cadáver que eu imaginaria em tanto mais quando menos segura é. O sujeito
seu ataqde, mas se tivesse relações sexuais contigo teria a im P res- transitivismo nele tão surpreendente, o
mente, em virtude desse
sao de te-lo devorado, digerido, já não sobraria had ª º Cªiªnª ' dizer sem exagero que se
ataque que inflige ao outro, e pode-se
absolutamente só”. devora devorando-o. É por isso pelo menos, tanto como pelo
Creio que este exemplo é bastante representativo de todos mecanismo de autopunição necessário para apaziguar a angústia
os determinantes da relação à distância do obsessivo e da solu- do sentimento de culpa, que o obsessivo é masoquista.
çao que uma boa distância pode dar a seu dilema. Poderia multiplicar os exemplos dessas identificações pas—
Conten-
-
Consrderei até aqui a relação de objeto do obsessivo em fun— sivas que unem tão estreitamente o sujeito e o objeto.
çaodaiambivalêncialibidinal fundamental, agressiva das ulsõe tar-me-ei aqui em apresentar um caso recente que me surpreen-
instintivas. Gostaria de assinalar agora os outros aspectos amb'S deu muito pela rapidez com que se estabeleceram
as
valentes dessa relação, quer dizer, seu aspecto sadomasoquista- correspondências às quais aludi. Era um sujeito, mas não aquele
Nao penso que devam se realizar aqui longos desenvolvimentos. ma-
cuja observação será relatada mais adiante, que apresentavainibi-
ainda que tenha tentado contrapor o masoquismo por um lado, importantes
nifestações obsessivas ao mesmo tempo que
e o sadismo obsessivo, por outro (Berliner). Comb Nacht disse, eu tossia, disse-me que
ções. Na sétima sessão de análise, como
de fato, a mais eminentemente masoquista das neuroses é seni incomodava, e nesse
tinha o pensamento de que a expectoração o
duv1da a neurose obsessiva, em que o ego, para não romper sua sonhos que evidenciaram,
período produziu toda uma série de
90 O
'
ego na neurose obsesswa.
Relaçao de ob]"etc... ' 91
Maurice Bouvet

há ali—uma
segundo um modo muito regressivo de absorção oral,
seu dese— sa de pseudoagressiva. Claramente tecidªs: gugeesu
o poder das pulsões de destruiçao, e'p.
jo de se identificar comigo. Apresentei aqui esse fragmento de das rela- .
90:12:26; tendência a valorizar a srgmfrcaçao 1

observação com o único objetivo de mostrar o quão estreita é libidjnqi


a Eggs obsessivas, Ber ler
ligação inconsciente entre o sujeito e o objeto, o
quão íntimas nuncadpodelria—Zubliczªzrt'oa55132308: omªg-
são as relações que se estabelecem rapidamente *
o maso uista a re aça
entre o objeto Saªgfgfêssa poisfl, por sua vez e concorrentelqlgnfrligãodgãls sei- Si -
do desejo narcisista e o ego. Tais sujeitos
se definem, por seu a
lado, com extrema violência contra os sentimentos de
angústia nificações fundamentais do masoquismo, aerspstêrlcia de uma
que lhes causa a percepção confusa da fragilidade de sua indivi— timento de culpa ' e' a autodestrurçao por p
Cºnf usao " entre sujeito e objeto.
dualidade.
se & ro-
. . . .
.

O paciente Pedro, de
quem falei no segundo item deste tra- Outro aspeeíto da ambivalêncm ' '
at1v1dade—pass1v1dídãuestgo é
' sadismo e ma soquismo.
xlm a murto do prece dente.
'
balho e do qual disse que apresentava um '
ego relativamente for— ' mhdade .
_ .
. .
-
lexª no que concerne a oposrçao masculinidade femiêS sujei,
.

te, só se sente protegido por sua


roupa. A situação mais perigo- (Zºndª ness
sa que pode imaginar é a da nudez, em ªm que por um lado haja uma correspondenma,
que se sente exposto a ' '
sadico,
' '
feminino u1sta.
todos os perigos de uma penetração pelos tos , entre masculino e enmaltsoªr
outros. Além disso, em conta a in-
era—lhe impossível ter nas mãos
um animal vivo, pois temia “tudo Tal apresentação dos fatos parece nao ev
de objeto neurose Ob—
o que se esconderia debaixo de sua pele”, e temia
as mulheres fluência do superego sobre as relações nadusão. dado
a segumte' con
de pele muito clara cuja superfície cutânea, s essiva . Fenichel chega, justamente, essa; rela-
pensava, era irregu— "
ue existem causas que alteram
lar e deixava filtrar mais facilmente os conteúdos as relaçoes objetaàstoras ,
nocivos e su— qões estão viciadas, primeiro pelas medidas intelr do su—
jos de seu corpo. Para ele, tocar os órgãos genitais equivalia ç
a dos aspectos nas re aç ões Objctais;
uma penetração anal e lhe proporcionava uma exaltação de e re 0' segundo , pela frieza
sentimento narcisista de poder. Encontra—se,
seu ? recªro pela necessidade de encontrar . apºios externcganptaSiaS
.
S ªrª ven-
em um sujeito cujo º ' de
ego parece a primeira vista muito estável, essa mistura de hor— cer a angustia ' ' do sentimento de cu l p a , quar to , p or
' '

ror e a necessidade absoluta de uma identificação consubstancial introjeção.


com o objeto de seu desejo, e pode-se dizer Se tu eu raciocínio foi bem acompanhado, ver-se-a queúla
que essa urei definir, responde as tres
permeabilidade de todo seu ser é um passo
para as identifica- relação objetal, tal como a proc .
Fenichel. Quanto a pri-
ções passivas e instantâneas às quais me referi anteriormente. timas causas que são mencxona das por
Compreende-se que em tais condições toda ação meira, a influência interditora do srtlªeíei rego não parece, a primei-
sobre o objeto implica ipso facto um
agressiva - .
r de fazer das relªções de
ra Vista interv1r n a exposrçao que ,
' ' .

aspecto masoquista. É o
.

ªs vezes lg -
. .

e que a
objeto , enquanto o ego,' “inocente'
.

que os pacientes expressam constantemente. Para Mônica, ma— ?alorlªgões que ten-
' ' ” funda as re
tar—me é me destruir, e poderia citar
muitos outros exemplos. nºrª Pºr Cºmpletº a Si g nificaçao ' probri ado a suportar, como vr .—

Penso que esse masoquismo tão regressivo de a estabelecer com o mundo, e o g


desempenha um gran— das - de ºbjeto os
de papel na relação obsessiva com o
objeto, e que é responsá- mos ao estudar o aspecto' masoqursta relaçoest
m consc1en e que é O su—
'
&

,
“ '
moral '
vel, em grande parte, pela ostentação de os n orosos desta mstancra
' '
precauções que o sujei- ”
pªgão Esgse eminentemente nas re 1a ç OCS do
. .

intervém, pors,
,

to desenvolve em suas relações com outros.


Aqui se insere muito
naturalmente a teoria de Bergler, quem faz a defesa o com o mundo.
' '
agressiva con— Sºlªno funcionamento do superego na neurose I&)blsessiUva 6 se-
tra o desejo de passividade masoquista reprimido, “peªegº
um dos me-
canismos essenciais da neurose obsessiva. Qualifica
essa defe-
'
'
gundo exp ressao de Odier, q uase
*' '
especifico. e a o s
92
——+71 Maurice Bouvet

se mostra não só hipermoral, mas também


ego, e sabemos que foram formuladas duas
sádico em relação ao

car essas particularidades. Alexander faz disso


teorias para expli—
O ego na neurose obsessiva.
- de ob|eto...
Relaçao

. . ,
O certo é, sem dúvida, que o sujãtlodc; ZEZZIZÉZZZÃZS,
" '
nifica'ão instintiva r
ciªsçlãrfoggeêiãnte, aºação do superego que impoe
_
m-
e
.
o
93

-
nômica: existe uma espécie de equilibrio
uma questão eco-
q' lp 32
é de nenhuma maneira nega
cifrª;
"19055 ne'ssad: laufnão não
entre a severidade da Np
repressão e a possibilidade de expressão das pulsões mecanismo mais direto, o da O e
instintivas. ºm PfºVflth .qul- prºjeçao.
Para Freud, o superego não
.

escapou a regressão e produziu—se evidência neste estudo é que o sujeito tem. dimªis—
uma desintrincação das pulsões; mas aquilo sobre querº pªir
ria de chamar especialmente a
o qual gosta— sua relação de objeto não apenas por sua propria acgons-
atenção no que concerne às rela— dªdªs se da qual não percebe mais que os derivados onipdades
ções, eu diria interiores, do ego e do ªlii/zh; inexplicáveis para ele, mas tambem.
superego, é a extrema am- peªísogªieme de
bivalência dessas relações. Freud já havia assinalado
maneira geral a complexidade das relações
de uma sivas ue copfere, por causa da prºjeçao
entre o ego e o supe- ªãaeªrópriaqagressividade, ao
.
sea, ue
rego; uma parte do superego é aliada do ego, objetlo crlíoãfvuoiísgqêlqgão Jª [uqdm
outra, seu adver- secºmpºrtª ɺm 503.123;
sário e seu inimigo, e sabemos o necessário sjªuccburg (;
semi-imaginária de
que é para todo su— cºmº, e'm (glanfno pessoa
jeito que existam boas relações entre o infância com as personagens pa-
ego e 0 superego. Tais ocorre na
relações são de capital importância, e o as-
que é verdade para um seutsaiªalâirelacçªo
com os objetos' significativos? Zorrªgjjezittg
sujeito cujo ego tenha sua coerência normal, fºn ,
l
l

o é todavia mais ' ' io araavra o .


para o obsessivo cujo ego tem, de todas as maneiras, & debilida- Sinaleli/l “ªvªliªrão/ZI ãaqâgsfãflglilbrsupperego. Como
!

de conhecida. Por isso o obsessivo deve sabârenphsé


essa instância, mas também aqui sua atitude é
se conciliar sempre com .Freud fª; dele o herdeiro do complexo de
.

Édipo“? ãgnãâlpª in-


ambivalente. To- coloca-o na origem do sentimen
funçºfªs mº rais
dos os autores que se “
ocuparam das relações entre o ego e o Não penso que nesse momento se coloque co “mdo
superego na neurose obsessiva, e especialmente Bergler Fe-
e conseleiuede não tem tambem origen—serãai-is
dern, descrevem essas relações como
uma mistura de submis— ª ªluºªªº saber se o superego existência de um superego pre p
são amorosa e hostilidade rebelde. Insiste-se
nos benefícios nar- ªntlgªs- T9 d 03 ardmitem a
de uma maneira geral pode-se,
cisistas que o ego obtém de sua submissão
ao superego, como ººº mas'flcdaí Iigas saber desenvolvimento,
se
falar desentimentlo it;
nªs
também nas diversas técnicas do
que utiliza para infringir seus man- fasles pâlãvelr), de
datos e o enganar: contradições internas da lei
do pensamento cujas críticas a respeito das teorias Msãânse
cul Pª.
obsessivo (leis citadas por Federn), o
recorrer à utilização do recordei quando houve oportunidade, estima queomento
Kofi?
princípio da onipotência do pensamento etc. Em
outras palavras, Em
falar de sentimento de culpa senao a ”Stºre; do ter-
o ego se comporta com respeito ao
superego como uma criança que a intervenção da linguagem—, :uesejrãáingªda
diante de um pai severo e para que o
opressor, a quem respeita odiando e Cªirº ªnº, fºi SUfbcfgõeengnrheugdzcbsxterigr
escarnece amando. Assim, e' necessário tanto sejam perfeitamente
der o amor da mãe onipotente introjetada,
se guardar de per- egº e O nãº-ªgº, de etc são muito confusas, estao
como evitar se sub— distintos. Antes as relagãões (33le
meter cegamente a ela, pois uma submissão absoluta ' se possa estabelecer um diá-
mu ito P ouco diferenc ia as para
'

à morte. Em conseqiiência, equivaleria “ .


moral. Prefr ro em p re-
.

e a conscrencra
parece—me que se encontra aqui ou-
tra expressão da relação a distância, eixo deste
lºgº quªlquer º ntre o ego ' ' ' ” , qu e exclui toda mtervençao "
trabalho, e que ar o termo de “angústia projetiva
ao interpretar as dificuldades da relação de brionária 0u_
º uma voz da consciência,daainda que fosse em. retaliatiVª”,
%!
objeto como a con-
sequência de projeções repetidas ao infinito das expressao angustia
imagens paren- tros (Hendrick) se servem não é
precedente. Penso que essa lS tm ç ãº
.
tais, na verdade dei ao superego toda a à
importância desejável. qu e é equivalente
94

inútil porque re Spºnde a fato S


trabalho co '
RetomnSlderª prmClPalmente
.

emos o esquema de Glover e


.
v—
Maurice Bouvet

d'lfºrºntºs; por outr


lªdº, esse
as angústias proje?lvas.
estudemos a estrut ura-
O ego na neurose obsessiva.

ea me pareceram muito importantes.


tervenção da terceira pessoa edípica no
me pareceu secundária e variável segundo
o obsessivo freqiientemente invoca
sua necessidade de recorrer a uma
nha apenas a título de aliado contra o
Relação de obieto...

De qualquer maneira, a in-

A segunda modalidade da intervenção


na projeção, da qual falei ao longo
parentais sobre o analista, ou seja,
sonagem fálico.
diálogo analítico sempre

deste
os casos; além disso
a proibição para dissimular
terceira pessoa que interve-
analista na transferência.
do superego consiste
trabalho, das imagens
do próprio superego, do per-
Ó médico se converte então, por sua vez, em
vive em sua relação com o
95

proibidor e perigoso em si. O sujeito


srmultâneos na perso- a culpa e à proje-
médico angústias que por sua vez se devem
olvrmento contribui, a da análise por inibições que
ção, e que se traduzem ao começo
se expressam por meio de uma
verbalização aproximativa. Quan-
tenho direito, não posso
do o paciente diz “tenho medo ou não
de culpa derivados da
me permitir”, expressa tanto sentimentos
Mais tarde sente
interdição como a angústia por suas projeções.
diz: “não te—
muito bem o que lhe corresponde uma ou outra e
“tenho medo de
nho direito” para caracterizar a interdição e
medo pelo analista con-
trastes. No ue »
você” para dar conta precisamente de seu
veiª dª ºrgªnizªçãº]:saaº.mStªnCIª
sugerçgºº Vªmºs qUe diferentes m'.
siderado como objeto. Isso é perfeitamente apreciável no trans-
Cªt㺠Presentes ao mesmo de obsessivo. O primeiro conflito abordado
tºmpº e se expressam Por outro lado curso da análise um
por meio da mesma ex- transferência, o sujeito
pressão Verbal: “Não b tenho medo”. é o de Édipo, tal como foi vivido. Na
Como o superegd) n㺠0? incestuosos, ou
vive o medo de ser castigado por seus desejos
ferên cia? Intervém de duaservem .nas relações de ºbjeto na trans- meio do
melhor, por todos os seus desejos sexuais. Depois, por
p um lªdº' cºmº se fºsse a angústia da re-
uma terceira pessoa Que s mªn?“?í or desejo de passividade homossexual se expressa
Isso foi, pºr exemplo, 0 (1360552; :; ulnntàmidadfêl dessas relações, lação com “o outro”, personagem
fálico. Aqui é uma angústia
Pere o atuav
cªsº e Môni —
mais violenta, mais direta a que se desprende. Já não é questão
de destruição
Sua m ância lhe
de interdição, mas seguramente de um medo
º º
vividos como agressivos,
retaliativa dos desejos de aproximação

bido ua
- . .
ªls mullãenrªspbol;
gªzetlitiggªgâde com S.eu'pªi' Tºdªs
SCSSÍVÉiS
tais como a regressão os conformou; enfim, dado que a análise,
viram impedidas em seu mais primárias
Contato cºmigo pelasiao dãapalisar “se
em sua marcha retrógrada, alcançou as
angústias
“2068 facilmente atribuídas à mudam de sig-
nagem materna que mªiº: perso-
dlflc" ª ºfoeSSãº, ainda ate- e que o sujeito as superou, as relações
de objeto
ºrnava de seus desejos in-
nuada, de uma atração Por mim. Nos nificação. O sujeito tem medo novamente
homens, em troca seme_ limitado da interdição. O
lhantes interdições , cestuosos, mas do ponto de vista mais
“certamente compreendidas Co, duvida de se atri-
Cºndenassem uma rivalidade com.

a mãe em relação ao parinªufle-


analista está entre ele e a mulher, e o sujeito
buir o direito de fazer como ele. Esta é, certamente,
,
e apenas
96
——r—"'* Maurice

gostaria de sublinha-lo, uma


Bºu“,

representação esquemática de tal


º egº na “eul ºse ºbseSSIua'
“ela窺 de ºbleto'"

Cºmbªtes, lutas , corpos abertos, sangrentas“ imagenssâípçªsªr-


. ,
E ;

a—

evolução e não gostaria que se pudesse acreditar '


êm fantasias de intrºjeçao, estao
que para mim ção." Quªndº mtebime & ões
as coisas se passam segundo um regªdªs dº um potencial agressivo e provocam refrçeme
ordenamento regular; creio ersentimentos de pânico. Veremos mais
contudo que esse esquema, .

de Ztemais
por mais arbitrário que seja, pode .t.. 35007
piãuãªsse quadro clínico, em que as imagens p
servir de ponto de referência. É um exem
nessa última fase que aparecem
4

as confirmações edípicas reais, estão mal diferenciadas.


quero dizer, acompanhadas de
toda sua carga afetiva.
a
Nos primeirods,daº libido alcançou
. .
' '
O aspecto homossexual da
relação objetal tem a partícula— as ulsionais diferentes. [es-
ridade, e por isso o separei do conjunto das ªºíªngeriital , o Édipo foi francamente gbornaagénsaSSim como
relações de objeto, ª ' parentais, mas
de nos oferecer muito
precocemente informações sobre o equi- tªmªnhªm naoUefa ' ' '
a nas adi ferenctaçao as
emo .
1

“(mais_. e S ua
.
.

riqueza das pos51bilidades


.

líbrio pulsional em um caso dado. em a ex


De fato, observei que a relação de tªmxijde “ m a e mais im- 1

objeto homossexual na variedade. A regressao desempenho; lí qiiepa


grat nte — guardadas as devidas proporçAoe. fixação, a
neurose obsessiva podia tomar dois
aspectos diferentes. Em um & é mais fácu.
primeiro grupo de casos, que corresponde for
rªn
ªferência e também a resolução terapeutécteStemunham
aos que constituirão e—me qu
uma
o objeto de meu trabalho sobre “o
aspecto homossexual da trans— uanto aos seg undos, parec -
lu ao nao - f 0] abor- .

Qão ,
libidinal muito timida. Em sua evo Sç
.
ferência”, a atração homossexual evo l UÇ
espontaneamente vivida na in— condiçoe , as imªgens
pa—
fância e adolescência era dªdº “0 Éd' l o senão em muito mas
acompanhada de reações emocionais nãopestão tão bem diferenCiadas
' '
no e asc prece-
muito ricas, muito misturadas, de verdadeiras
amizades no sen—* [emªs ' corpqlha
sempre e me parceido
tido pleno do termo e não dava lugar mais m da que a imagem paterna
derada; às vezes se haviam dado contatos
que a uma defesa mo— dentebªco menos arcaica que a imago maãersrrilaedidas emoções
.
. suas
sexuais. Na transfe- “E“ P . sem ma—
rência tais situações são revividas m re extraordinariamente vxolentas,” eabºlidªs pelas me-
9

com um mínimo de reações sªo Sºdepsencadeadas quando as defesas


de defesa e num contexto emocional saol
que se pode comparar com “zes, é muito d1f1c1 , a resºlução tem-
muita exatidão com o das experiências
juvenis; nesses casos a nores causas. A transferência
,
imagem paterna se mostra sempre infinitamente P êUtiºª n㺠tªº
é fªºll- .
-
mais acolhedo- '
em ue o estilo das relaçoes
ra que a imagem materna. Pensei que existia, na medida qh
'
temun a () grau de evºlução
sexuais na tra nsferencra tes
A
Em um segundo grupo de casos '
as coisas se apresentam . .

de modo muito diferente. Esses horriifasl elemento de


, tamº mm S Ime- .

da libido, um progncàstiàzg
sujeitos têm, como os do pri- gº suas famªSias
meiro grupo, sentimentos homossexuais
conscientes, mas con— Fesl
sante quanto, ªºmºnº 5 P or mei
. .
' m & enas & metade ,
sistem em fenômenos de fascinação brutal ISO cionistas cuja significaçao compreenãle mupto
ante um homem que ab dar uma olha a rápidª à sua
oferece uma imagem de poder, o
que determina uma reação de os o sess ivos nos deixam
angústia sumamente profunda. Esses pacientes têm estrutura profunda.
ami gos, mes-
mo “bons amigºs” , mas sua troca com eles
se limita a fins es-
tritamente narcisistas, não têm “amizades”.
Contrariamente aos
'
strumentos da relaça”o de objeto.“
Su4a gvsoZição anal/tico
sujeitos do grupo precedente, na transferência
se negam furio— no caso do tratamento
samente a sentir qualquer sentimento afetuoso
lista. Utilizando uma atitude paranóica para com 0 ana-
a mínima, acusam—no de
sugerir- lhes sentimentos homossexuais. Em
suas fantasias só há
98 de objeto... 99
Maurice Bouvet O ego na neurose obsessiva. Relação

de tudo,
Da minha parte limitei—me simplesmente, e antes
significação,
em caracterizar um estado de fato e a precisar sua
da nature—
não suas causas; prova disso é que guardei a questão
za dos traumatismos responsáveis.
Creio que isso entra no âmbito dos casos particulares e que
g só as rememorações precisas e os dados convergentes surgidos
( l esta-
da análise nos permitem atribuir a tal ou qual período, que
7 )9

traumático, um valor unívoco.


ríamos tentados a considerar como
Tive em análise um doente cujas fantasias e sonhos 0 apresen—
coito parental que
tavam como a testemunha de uma cena de
.]
.. .

tivesse provocado nele uma identificação com a mãe possuída


g S 1 1
sadicamente; contudo nunca encontrou uma recordação precisa
provável que tenha pre-
de uma cena desse tipo e parece pouco
outro lado, reviveu com muita
senciado realmente alguma; por
E” QUE, FCI Causa da
intensidade, tanto na transferência como em sua recordação, um
leglessa: lIlStllltl unl ladc
FCI da plo
conflito essencialmente oral que foi seguido alguns anos depois
& e

de animais; sua mãe fazia-


pela visão traumatizante de um coito
lhe comer contra sua vontade papinhas que não gostava e que
interpretações
: CbJEtE7 dª! cuspia uma vez ou outra. De mim apenas tolerava
lªlaçac “
E C
&
SngJE": EJKPIESSHC ("JJÚÚCIÚ que
muito curtas, de modo que quando eu falava em demasia, se agi—
debate:
tava com as reações motoras de uma criança que se
“Suas palavras” — dizia com uma violenta atitude de oposição —

série de
“gostaria de cuspi-las”. É possível que durante uma
fantasia da cena primitiva, mas
transposições tenha imaginado a
-
.. - . .
, .
evocado pelo coito ani-
parece que o traumatismo significativo Não
mãe. estou
mal continua sendo o das relações orais com a
não
l l
. . .
l. .]
. ,.
f
sustentando que todas essas incertezas, enquanto ao trauma,
resolvi-
[L "ªda das L::“:[glas PLllSl:nzus :Ll, Sllnple“;nlente7 tenham importância; creio, ao contrário, que devem ser
“Inª
das na medida do possível, mas penso que apenas estaremos em
&

. ] ç g condições de fazê—lo a partir do momento em que, precisamen-


tenha se dissolvido e
te, esta relação a distância da transferência
.

p transformado em uma relação direta.


Minha experiência clínica tem-me ensinado sempre, como
os fatos já en—
c) Uma frustração extremamente sev e ra dessas
mesmas neces— a cada um de nós, que a partir desse momento
relevo e
srdades. contrados e abordados analiticamente tomam todo seu
.

isso apliquei-me ao
d) Uma impossibil'idade quase com pleta de to lerar & ' ' em
angustia adquirem todo seu valor demonstrativo. Por
_
relaçao a uma frustração. estudo da relação transferencia], da qual não me parece suficien-
de objeto... 101
100 Maurice Bouvet O ego na neurose obsessiva. Relação

mesma maneira e utilizam em seu discurso


te dizer. por exemplo, que é sadomasoquista para caracteriza-la. o mesmo proçedi—
outros tem tendencia
A relação transferencial é de uma “qualidade afetiva especial”, mento de defesa; alguns falam sem parar,
Mais talvez seja
segundo a feliz expressão empregada por Nacht a propósito do a ficar em silêncio continuamente. interessante
masoquismo pré-genital, que é precisamente um dos aspectos o emprego da perífrase que lhes serve para
nao se verembobrr-
da relação de objeto obsessiva. só pronunciar certas palavras tabus, mas tam em a
gados não a
realistas; o abandono desse
Vejamos agora os instrumentos dessa relação. Penso que empregar expressões demasiado prá)-
este título não necessita de comentário. Serei muito breve ao tra- cedimento de defesa, ainda em último caso, e acompanhado e
tar desse ponto, porque se refere a todos os procedimentos de a Vista,
uma liberação pulsional, cuja importância parece, primeira
defesa da neurose obsessiva e estes foram descritos minuciosa— a tao gran-
não ter relação nenhuma com a causa que determina,
mente. Relações de objeto e mecanismos de defesa se intrincam da Ja estou me
des são as implicações dinâmicas linguagem. que
estreitamente porquanto os mecanismos de defesa contra as pul— de que
referindo ao discurso dos obsessivos, gostaria assmalar
sões se aplicam a situação atual considerada perigosa, e que por cometer grandes erros se se interpretam abusrvaãnen-
se podem
outro lado tornou-se perigosa pela exigências pulsionais. toma a no
te seus comportamentos em função da agressrvidade,
O obsessivo em análise está dominado
por um propósito sentido de atividade puramente destrutiva: um srlencro, por exerg-
apenas inconsciente: o de conservar sua relação com seu analis- doente que 'se nega ad-
plo, pode com razão, sobretudo em um
ta sem que essa relação se torne perigosa para qualquer um dos considerado uma manifestaçao e
solutamente a rompê-lo, ser
dois partenaires. As diversas técnicas que emprega são as minhas pacientes me afirmaram
que hostilidade; contudo, todas as
utiliza no dia a dia, tanto no setor de suas obsessões como no muito mais fáqil dizer-me cors—as
de seus demais contatos humanos simbólicos ou concretos. Des- um dia ou outro que lhes era
desagradáveis ou injuriosas, manifestações, nao obstante,Eauten-
se ponto de vista a experiência analítica evidencia que o ego está m um
doente em sua totalidade, e que o sujeito está perturbado no con-
.,
ticas de agressividade, que me dirigir palavras amorosas.
o tra—
só caso estavam limitadas pelo temor de que eu Éompesse
junto se suas relações de objeto forem obsessivas ou não. alusao a uma apro-
Pedro, a quem mencionei no item dedicado ao ego, mani- tamento, enquanto em outro, a mais remota
angústia intensa. Com os homens pa-
festa uma indiferença completa ao seu tratamento, ou seja, a mim, ximação determinava uma
nthan—-,—35W:€EWQ'

receu-me que ocorria sensivelmenteo mesmo..E assim se


sublinha com muita frequência que vem por hábito, que não es— tais
compreende claramente toda a ambiguidadede mpniíestãé
pera nada desse tratamento, que nunca pensa na análise fora das nos esta
ções agressivas. A agressividade, obsessrvos, onãe
sessões, que lhe sou completamente estranho; tal é, ao menos, de oposrçao, e inclusrve po e-se
ser sempre uma manifestação
sua posição habitual. Mas uma circunstância exterior que inter- a mo-
veio bruscamente esteve a ponto de lhe impor o fim de suas vi- dizer que as manifestações agressrvas que equrvalem um
facrlmente,
sitas; Pedro teve, então, uma crise de angústia extremamente vio- vimento de oposição são as que se produzem-mais
ao abrigo e. reforçalrn o
lenta, adoeceu, teve de ficar de cama, e quando se levantou porque são as menos perigosas, põem
quarenta e oito horas depois, seus amigos se surpreenderam com sentimento de poder e individualidade, mas a agressrvrdade- iga-
a alteração de suas feições; não lhe foi difícil se dar conta de da ao desejo de aproximação, e consequentemente de significcla-
da palavra, constrtur o ver a-
que havia adoecido ao pensar que deveria voltar a se encontrar ção libidinal no verdadeiro sentido
só na vida. Creio que o relato desse incidente ilustra a maneira deiro perigo: aquele contra o qual lutam os obsessrvos.
Por outro lado, isto ocorre mais facrlmente porque, dadas
tangível que é a relação de objeto nos obsessivos.
necessárias restrições da técnica analítica,-esses SUjeitos veem
Não insistirei no caráter estereotipado e na monotonia de as
levados por
seu comportamento. Os obsessivos se expressam sempre da transformar-se em tendências agressivas aqurlo que,
- de obleto...
. 10 3
102 Maurice Bouvet O ego na neurose obsessiva. Relaçao

em negar todshãignâ:
seu desejo de aproximação, ao nascerem seus sentimentos tinha sença, mas quando um doente se contenta
de analise, qual, CIIlCIiTll
o
uma significação libidinal direta, e não é a dificuldade menor de ficação afetiva às suas relações “cpm
Vl a eo
seu tratamento que suas tendências afetuosas, frágeis, se trans— nião, não é absolutamente diferente do que faz na
formem com tanta facilidade em um desejo de posse rancorosa quando renuncia à expressão de suas emoçoes ao meãmo Seªs
t '
senti-las, não salvaguarda aqu1 tam em
e exasperada em função da frustração real das relações analíti- po que se proíbe
cas. Parece—me que isso explica as grandes dificuldades que en-
” b'eto. ,
relaçÉÍoÍ/Zrºirjisiste .
a
contrei no tratamento de mulheres obsessivas; porque, para os no fato de que a técnica obsessiva e qãie
vez relaçoes de
homens, as fantasias homossexuais guardam um caráter de fan— permite à criança estabelecer pela primeira rlea 12;
tasia relativa. Os sentimentos amorosos de transferência não têm dade. Não creio que seja necessário recordar, ppt ãxemp gfhº
apar
para as mulheres o mesmo significado, e a dosagem da frustra— importância do pensamento simbólico na maturaçao ,o á i-
intelectual e a aquisição da linguagem, nem a das praticas
ção é mais fácil. Terminarei com estas notas clínicas sobre a ma- mt gei
da realidade e me corditen arºr
neira como, em suas associações, os obsessivos procuram falar cas na intenção de domínio ativo
de tudo sem dizer nada, relatando o procedimento que Pedro em- somente em fazer uma comparação entre o que acabo e exp
Freud escreveu sobre a anor á-
pregava para não ter de se revelar a mim. Enquanto no começo sobre a relação a distância e o que
como
da análise tinha as maiores dificuldades para trazer-me um ma— lise de seus doentes. O termo que tenho empregado, pno
lado sublinhei em minha descrição, implica a
teria] significativo, eu observava que pouco a pouco suas asso- outro manuãençzzª-
ciações iam se fazendo exclusivamente com fantasias, com pa- tão prolongada quanto seja possível dessa relaçao miãiga apºis
lavras de significação escatológica ou homossexual; utilizava nichel assinala o- horror que os obsesSivos tem a mu ança.
dem
ww-

SUJCItOS
conjuntamente o isolamento e o deslocamento; o que chegou a bem, Freud nos ensina que as analises desses plo
ªr ª
m—

reca c
continuar indefinidamente: não é isso precisamente
».

ser importante era precisamente o que não o era no começo: os ri-


necessidade que têm de um contato e a dificuldade que expe
fatos de sua vida cotidiana. “O que eu faço não lhe diz respeito,
você procura ter um meio de chantagem ao saber tudo o que dar-lhes fim? , '
mentzlhnsiªªtlirraei do
ocorre em minha profissão”. ainda mais na evolução das relações analiticas
mais
Rronunciei a palavra isolamento, e isso me leva a enumerar obsessivo. O sujeito, como acabo de dizer, nao deseja que
disposto a
a lista de procedimentos de defesa dos quais se serve o ego, na continuar estabilizando-as em certo ponto, e esta 12-
todas as concessões possíveis e inclusive inverter
neurose obsessiva, para dominar os impulsesado vid que a repres— zer corãip
com a -0
são não tenha conseguido interromper: reações éticas, anulação tamente o valor relativo de suas assoc1açoes, contaçã-
tem
de que essas relações não evoluam. Todos os autores
1

retroativa, expressão do princípio de onipotência do pensamen- têm


to. Esses procedimentos são evidentemente utilizados nas rela— tido na necessidade de ter cuidado çom as tendencuãs [que
analise. As vezes, a. o ain umª
ções de objeto da transferência; completando as técnicas de des- esses sujeitos a intelectualizar sua
eme
locamento e de simbolização comuns a todas as atividades do atitude mais valente, pelo menos aparentemente, mas igua ]m
infecunda. Falam abundantemente do analista sem nomea- o, pda &.
espírito, permitem ao sujeito suavizar a relação com seu analis-
ele meio
ta. Poderia dar muitos exemplos do uso dessas técnicas no sen- recem abordar diretamente seus conflitos com por
de falam; uma de minhas pac1entes expos-me as-
tido que acabo de assinalar, mas creio que isso seria inútil e en- pessoa quem
an-
fadonho. Quando o analista e objeto de uma obsessão, como se sim com toda claridade, falando-me de seus pretendentísàas
0 es-
apresentava no caso de Mônica, está muito claro que a técnica gústias que sentia com respeito as relaçoes sexuaisf, à? e O
obsessiva protege o contato entre os dois partenaires em pre- ses procedimentos dilatórios tem a mesma Signi
icaç
104 Maurice Bºuvet O ego na neurose obsessiva. Relaçao
' '
de ob|eto... 105

mesmo resultado: representam um esforço para manter 0 conta-


dero-o um sádico que se irrita cohmigo, que engãníriíªrlíitzaqpâªn
to, mas seja qual for a riqueza aparente do material trazido, a
em arrancar o que ti em mim, ,

situação não varia. Tãcêºsrâblârjiá te disse:


penso que você prolonga o tratamenvtgcªo;
Não gostaria que se pudesse crer que, em uma análise des- curado ha muito àerrtilpãê)
sa classe, esqueço o material infantil, sendo esse necessário pura crueldade, poderia ter me é pen-
para responsável por minha enfermidade,,inas o pior ema
a compreensão da situação de transferência, e acho muito natu- g mar que
sar que pude ter semelhante sonho, dºi-me o ventre
i
ral sua utilização na interpretação dessa, mas 's ôde me
na exposição que louco... Ninguem
desejo fazer agora deixarei de lado todos os outros aspectos da possa amá—lo, tenho de estar jamaidp i ica r. te-
influenciar, e você, insidiosamente, consegue me mo
análise, para fixar—me exclusivamente na relação de objeto. An- Ǻcê
nho medo, durante muito tempo pensei que essa rua em .quaeçnente
tes de prosseguir gostaria de fazer duas observações. A
primei- vive era perigosª; me dou conta de que adoto piº—ogrãssrjloz
ra, análoga à que fazia Ella Sharpe, por outras razões que não e ver-
as minhas, em um trabalho em que colocava o problema do tra—
suas maneiras de pensar, de julgar, suas entonaçoes ,na“—
dadeiramente me envenena, me dá vontade de joga-lo,,pe
a 1 _]

tamento analítico da neurose obsessiva: é necessário dar tempo o


la, não posso conceber que eu continue tratamentcà: ,
a esses sujeitos para se habituarem ao contato analítico, uma.
que os Nesse momento, o paciente se poe de pe no ivaueagdªr;
leva naturalmente, com a condição, todavia, de doente es
que a transfe— “Ouça—me bem, preferiria continuar com:; oenetrado
rência de defesa seja analisada corretamente, a uma “aproxima-
lhe razão curando-me”. Esse tªmos; de 53152221 dªdª %
ção” que se traduz na produção de fantasias sádicas cujo objeto de meu
'
tá na idéia ue se az e mt
é o médico. A segunda é que o aparecimento dessas fantasias ggbângoíãue em outraq ' .

fase de sua análise particularnlijgrtecãimg:


coincide regularmente com a melhoria da situação de transferên—
cia, querendo com isso dizer que o doente reage como se o sen-
nificativa para ele, por razões que nao posso deselznvp
S homos-
pletamente aqui, tinha uma séirie (lie sgnhiplsndã re açªpefeliCidlee
timento de uma espécie de comunidade entre seu analista e ele
rn seu ai, e ao rc ata— os iz -
' .
.
convertesse seu contato afetivo em um contato mais substancial, ãiíuzxspgfimentavª nesses sonhos
mais fácil. era absºl—mªnfme-Fãâªaâªà
O modo em que se introduzem essas fantasias sádicas nária, não posso dizer—lhe o que sentia, era tao fe-iz,(j1a
t e r com—
va- medo de nada, sentia-me forte, tinha a impressao e
ria segundo os casos: tão logo emergem por meio de Vida de r eu
represen- preendido como o amor pode transfprmar a mªdi?) ,se“;
tações de relações genitais, como se impõem ao espírito sem con- e e contudo um pre_ciom
texto afetivo, um pouco à maneira de uma obsessão; às vezes para quem ela tem sido sempre ªrª—
fim; mostro-lhe. acrescenta, que emprego a mesmdai umppow
além disso dão lugar, como essas últimas, a medidas de anula- e
ção quando falo da análise, ITI—anleSSCS tempos mut
ção ou & comportamentos compulsivos. Em todo caso estão, no
começo, muito regularmente isoladas, mas logo se acompanham
de reações afetivas extremamente violentas.
co de opinião, penso: é um criminoso
conhecer que, quando domina a segunda
ou eum san
impressao, p devo re-
Sinto—me

transformado, a vida me parece aberta.:


Eis aqui alguns exemplos desse tipo de reação. Pedro me .
d S fan—
Para tornar plenamente compreensivelo sentido essado
conta um dia o seguinte sonho, que testemunha um desejo de de
tasias, devo precisar dois pontos:? [ªriÃnSÍiefCiZlqàleenpe Tâtâneoz
introjeção todavia atenuado: “Esta noite sonhei que o beijava e ' '
ão utilizado por esse SUjei o
que tragava violentamente sua saliva. Me surpreendeu muito com- ªgitªr, .

tocar, equivale a tragar, tomar. “.ªImaginar que togãtàm


provar ao despertar que havia tido uma ejaculação. Esse sonho
é ridículo, é idiota, não significa nada, eu detesto
membro me produz tanto prazer quanto imaginar que o] ªs“;
a
você, consi- Por outro lado, como disse anteriormente, era imposswe
106
' de obleto...
0 ego na neurose obsessiva. Relaçao
' 107
Maurice Bouvet
S O
J ª
sujeito ter um animal vivo em suas mãos por medo do que me- q
9
,

xia sob sua pele, e figurava—se que as mulheres eram tão peri-
gosas porque através de seus tegumentos podiam filtrar-se subs— , 1- lc 1 E“ zune" :
-

lcª,
] &
SEngIl
..
FIlInElta aç ellas
-
- -
-
SEL &
tâncias tóxicas e morais; o segundo ponto é que, em relações ] e 1“ xgjsçacº &

sexuais imaginárias, procura a coabitação com um personagem


poderoso que o faça participar de suas qualidades de força e de
coragem deixando-se acariciar os órgãos genitais e o corpo. A
relação entre o poder do objeto e o sujeito está regulada por uma
série de disposições minuciosas.
Joana, que testemunha em seu comportamento, depois que
suas resistências foram quebradas, a necessidade de receber algo :Ilna “
dª PIDPIIZL f
EE
: &
5“:
[ª "lu
ZIILES
de mim solicitando reasseguramento, fazendo perguntas, produ- ilet'cs IJ:;ELI 5a: 1“: EP

ziu numerosas fantasias isoladas de introjeção orais. Um dia ima-


ginou o seguinte: “De noite sonhei mais uma vez que mordia—lhe
que lnlpllca ESSEl tªcxn'a E na quªl, psr CDHSEnglH
o pênis com uma espécie de furor, mastigava-o lentamente, a ªs ÍI LlSlIElÇÇJES

g 8
necessidade de me apropriar de alguma coisa sua, de guarda-la ,
g
em mim definitivamente e depois vi um peito asqueroso, enor— 7

me como o de uma mulher que amamenta, tive uma impressão


de asco e de medo abominável, tinha a impressão de que você
era como o cravo que sinto em mim e do qual lhe falei tantas g
blllSCªIHellte "IN/adida elO pens en q
vezes...” e acrescenta: “Olha! tenho uma expressão de estranhe- SClltlU SC
,
- º , .. A
'

za”. Como lhe pedi que me esclarecesse o que sentia, respon-


l,“;
deu depois de um momento: “Agora, já passou, e algo indefinível
ll e abominável”, mas eu não soube senão muito depois em que ,
g '

consistia essa impressão de estranheza: “É” — disse (condenso


aqui o que obtive em numerosas ocasiões) — “um duplo fenô— [' '
p g S
meno, mas não saberia dizer qual se dá primeiro. O certo é que (1

g
se produz quando sinto uma emoção violenta, ou de medo, ou
9

de cólera minhas percepções se alteram, vejo pouco e ouço as


——

pessoas como através de um algodão, tenho uma impressão de


irrealidade, tudo é vago, confuso, e me invade uma espécie de ,
- - . .-
-


.. , -

pânico; e esta é a outra face do fenômeno, volto-me sobre o fun-


cionamento de meu corpo, escuto meu coração, a pulsação de .
f Ettª :CIIIPCIIÍIIKE
lIllICJSQaJ :D")
. __
. .
.
SUJEIÍ:
:punl“: pl:
,. 33211“) &
minhas artérias, tenho a impressão de que meu crânio vai es— 1

tourar, meu cérebro vai se despedaçar, tenho um sentimento de


miséria, de isolamento absoluto, de morte iminente, não há nada
talvez funda "lals acentuajcs'
[ Cls
PICdUZÍIn EStadCS allallgCS
E

a se fazer contra isso, senão ocupar—me imediatamente com algo,


109
108 Maurice Bouvet O ego na neurose obsessiva. Relação de objeto...

ob-
bem, como a frustração exalta a agressividade do sujeito não é esfarelamento. A enferma, de quem se lerá mais adiante uma
mecanismos obsessi-
surpreendente que a introjeção agressiva de um objeto traga junto servação, denota certa nostalgia de seus
um con-
os mesmos transtornos que a ameaça de sua perda. Nos dois vos; outra, a quem até aqui não me referi, apresentava
isenta de interesse.
casos a agressrvidade e máxima e é talvez nos estados emociona' junto sintomático cuja análise não está
dessa “classe, que assaltam o sujeito tanto quando
quer 3 Informarei aqui somente os elementos absolutamente indispen—
apropriar com raiva do que deseja como quando corre o risco sáveis para a compreensão do papel da obsessão. Essa mulher,
limitada, doente durante
de o perder, onde se encontra a raiz da obstinação
com a qual que tinha uma obsessão relativamente
osAobsesswos mantêm uma relação a distância com seu objeto toda sua existência, apresentou crises obsessivas importantes
frus-
Monica—se persuade de que por sua falta seus pais se arruinaram cada vez que as circunstâncias da vida provocavam-lhe uma
foi proibido que ti-
e ela nao poderá continuar seu tratamento.
Experimenta um tração. A primeirja crise explodiu porque lhe
vesse relações sexuais “reservadas”; essa crise cessou
esponta—
estado comparável, de qualquer ponto de vista ao
que a havi toda religiosa.
acometido no dia em que foi ver um homem nu que posava ª neamente quando a paciente renunciou a prática
que evrdentemente, por deslocamento, me representava' “Eu Conheceu então um período de calma que durou uns dez anos.
A segunda crise foi provocada pela frustração involuntária que
estava completamente perdida, tudo estava escuro caía a hoite
lhe infligiu seu marido quando voltou de seu cativeiro e não pôde
tinha de atentar para meus gestos para que não se revelasse nada, recrudecimento
tinha medo de morrer. Quando criança, muitas vezes experimente", responder às suas exigências sexuais; viveu um
estavai desses fenômenos mórbidos todos os anos, para a festa de Pás-
a mesma sensação, esta horrível angústia de
que tudo coa, época da comunhão obrigatória
a qual se viu levada a re-
modificado, que eu mesma não tinha nenhuma consistência ue
nunciar por causa de sua enfermidade, que a proibia, pela inter-
ia me dissolver sem que ninguém me atendesse; minha obsescslão receber o sacramento. Pude
ferência de pensamentos agressivos,
ao menos não me inflige nunca os mesmos tormentos” dependia estreitamente de seus
Gostaria de aproveitar a ocasião para insistir sobre a ma— me dar conta de que seu equilibrio
os seus ou uma
.
raros afetos com personagens significativas,
neira como esses pacientes falam de suas obsessões quando ha são maus, torna-se violen-
mulher eleita; quando esses contatos
vendo avançado o suficiente na análise como
ii;
l

para que se ve'am tamente agressiva e se priva voluntariamente de toda


comunhão“
lll ii
expostos a essas intensas tempestades emocionais que Glolver afetiva com seus próximos, sofre terrivelmente a frustração que
qualifica de sentimentos pré-ambivalentes, podem situá-los c ºm se impõe, e é então que a obsessão propriamente
dita aparece.
sobre o
relaçao ao desencaminhamento de afetos que entranham suas Seu próprio tema é eloqíiente: teme ver Deus, caminhar
laçoes diretas e não atenuadas com seu terapeuta. Ao
todos
pensar :; membro de Cristo etc. Mas antes que a obsessão se
Joana.
instale, pro—

os'casos que me serviram para elaborar este texto não cura apegar—se a ocupações incessantes, como
posso deixar de. me surpreender com a opinião unânime dos a- Em todos estes casos, a reação obsessiva parece ser
tam—
c1entes: por mais penosa que seja a obsessão, é
preferível a ªs- bém, por sua vez, a conseqiiência de um violento impulso agres-
ses desencantamentos que muitas vezes estão acompanhados sivo, insuportável para o sujeito, e a correção desse mesmo im-
tentativa de
dessas sensações inefáveis de despersonalizacão. Já assinalei
ue pulso agressivo, não só porque constitui uma
Joana, quando sente esse mal-estar profundo se satisfação substitutiva, mas também na medida em que fragmenta
uq
apega a
ocupação qualquer ou se põe a contar e sabenios que é cláss'ma e depura os violentos afetos cuja intensidade provoca
esses es—
ICO
afir-
consrderar que a mania do ritmo encobre os pensamentos a tados de despersonalização, em relação aos quais não poderia
manei-
Sivos (Bartemeir). Mônica declara claramente que essas
reªr“— mar que existam em outros casos, mas que, de qualquer
paçoes obsessivas defendem-na contra suas impressªescdle ra, como acabamos de ver, são sumamente frequentes.
111
110 Maurice Bouvet o ego na neurose obsessiva. Relação de objeto...

A bibliografia analítica atribui à despersonalização


signifi- tender, o aparecimento de tais fantasias de introjeção conãerva-
cações diversas tanto no que concerne à sua significação quan— dora demonstra uma evolução libidinal e e acompanhada eàum
to ao seu mecanismo ou os estados psicopatológicos nos
quais aumento da coerência do ego. Como prova da primeira deísps
se encontra. Alguns autores, entre os quais se encontra Bergmann asserções citarei simplesmente algumas palavras de Joana re a-l
e Schilder, sublinham que, entre outras causas, esse sintoma vas aos sentimentos que vive agora em relaçoes sexuais rfeats.
pode estar relacionado com violentos impulsos agressivos, es— Devo dizer que, até aqui, ela não havra'podido aceitar sua emi—
pecialmente orais-sádicos. Nos casos de neurose obsessiva nilidade, e se uma primeira análise havra .drmmuido suas repug-
que
tive de tratar, parece-me que tem sido sempre assim. Evidente- nâncias, continuava sendo, contudo, meio frigida e procràiava
mente, obsessão e estado de despersonalização podem, em cer— evitar a aproximação sexual. Pois bem., um tempo antes e se
tos momentos, coexistir, mas não creio que isso faça perder sua confirmar o que, acabo de dizer, me diZia isto:. Tive uma expe
significação de procedimento de defesa ao conjunto da técnica riência extraordinária, a de poder gozar da feltcrdadede mfeu ma-
obsessiva. Parece—me que apenas se pode tirar como conseqiiên— rido, comoveu-me enormemente comprovar sua alegria,l e _12 me;
cia que a defesa está, em parte e transitoriamente, submergida seu prazer”. Não se podem caracterizar melbor as re açoes g
nitais adultas; quanto à afirmação da coerencra do ego, naoape
_

pela violência de reações emocionais, que são responsáveis,


por nas se deduz do desaparecimento da sintomatologia obsessrvale
sua vez, pelos fenômenos de despersonalização. De qualquer se reve a
modo, e seja qual for a significação que se lhes dê, seja a de os fenômenos de despersonalização, mas tambem que
pelo acesso a um sentimento de liberdade e unidade que e uma
uma sobrecarga narcisista (Freud), ou a de uma insuficiência da '“ ' nova ara esses sujeitos.
libido do ego (Federn), dão prova de uma deficiência, ao exper'llãlllcmae parecªu .
menos ser a evolução da relação de objeto na ªe?—
passageira, da estruturação do ego. e 1-
rose obsessiva durante o tratamentoanalitico e nos casos
Penso, por outro lado, que essa maneira de ver encontra deste
zes, porque não gostaria que por meio trabalho—sativª?
uma demonstração pelo absurdo nos efeitos da introjeção,
a impressão de que penso que todos os obsessrvos sao
que sus
se desenvolve em outro clima afetivo e que denominarei introje-
veis de uma melhora similar, e ainda-nos melhores casos, an t es
ção conservadora. de que essa se estabilize, sob influências acrdentais qàle reativcarg
Depois que se desenvolveram, durante um tempo bastante
sua agressividade se produzem recardas, fortalecen o-se :: g-
longo, estas fantasias de introjeção com forte carga agressiva
com cada melhora. Por outro lado, deveria prosseguir mn; ex
&

do objeto, surgem fantasias de introjeção com forte


carga libidi— posição e mostrar como, a partir do momento da idefnti reªção
nal que, em lugar de provocar essa espécie de pânico ao
qual regressiva, podem ser abordadas as angustias do que 010 p
me referi tantas vezes, estão acompanhadas de um sentimento dº
elepÉtfe acabo de dizer sobre a
de plenitude, unidade e força. Um de meus pacientes
me dizia: evolução da relação de objeto
“Sonhei que tínhamos uma relação sexual, participava de sua for- no transcurso do tratamento obrigou-me a formular tres
ça e sua virilidade, tinha o sentimento de uma expansão, de uma
certeza, já não tinha medo, tornava—me forte, levava—o em mim”. Ilárâgfiiâsse conciliam os fatos observados com a teoria sádico-
Para não sobrecarregar esse trabalho, não voltarei a me re- rose obsessiva?
aCnoarlngacgíildeber -
ferir aos extratos já citados das observações de Joana e de Pe— a resolução da relação a distâncra em relaçao
_

2.
dro, nem me anteciparei às de Paulo que se lerão mais adiante. a teoria clássica da identificação? .

Limitar-me-ei em assinalar (e disso poderão dar-se 3. Como representar no plano teórico a melhora substancra que
1

conta, por
outro lado, lendo este último registro) o fato de que, no meu en- entranha a introjeção conservadora?
q“?— Maurice Bouvet

O ponto de partida da regressão libidinal não provoca difi-


culdade em nenhum dos meus casos; cada um deles se mani—
festou, tenha tido ou não sinais premonitórios durante a segun-
da infância, no momento em que o amadurecimento mais ou
menos precoce colocou os problemas correspondendes a uma
reativação de um complexo de Édipo, mas são menos bem abor-
dados e em certos casos apenas considerados. Por outro lado
o que pode suscitar uma discussão é o estágio no qual se fixou
a, libido e em que se deteve a regressão, e sabe-se que Bergler
srtuou oconflito de ambivalência na fase oral do desenvolvimento
e que viu. uma reprodução desse conflito em todas as situações
O ego na neurose obsessiva. Relação

que não intervém no fenômeno

vos; o certo é que o que observei


que reina um estado no qual
ção, e que, além disso, se a
da
vo. Não retomarei aqui os argumentos
inclusão, na esfera da identificação,
de objeto...

Sabemos que para Freud a identificação primária repre—


sentada pela introjeção, que é profundamente ambivalente e
sempre um caráter agressivo. Quanto
identificação,

de
de
dois
confirma

ativa e a projeçãd passiva, o contrário também


mc que esse contínuo cruzar-se responde ao
Glover

a
continuamente se cruzam
tese de
a
é

ao processo de projeção,

Glover

introjeção é na maioria das vezes


113

possui

é sempre passi-
em favor da
fenômenos projeti-

introje—

existe e parece-
transitivismo ao qual
dependem
e

de passrvrdade imposta. Lacan atribui um papel importante. Disso, justamente,


sofre a imagem que o sujeito
Nao penso que as análises de obsessivos que pude realizar por sua vez as modificações que
me permitam confirmar a teoria de Bergler. Se em certo número se faz do objeto e suas próprias modificações.
só pode
A persistência de uma imagem arcaica no obsessivo
de casos a anamnese revela diversas dificuldades de amamenta— identificações primárias.
çao ou de desmame e a existência de sinais de inibição oral em ser concebida como um fracasso das
O sujeito não pode dominar as angústias correspondentes a seus
outros os traumatismos parecem mais tardios. Não creio pois
de solucionar
que se tenha o direito de generalizar; por outro lado, já oldisse, desejos relacionais arcaicos e tinha a possibilidade
completo sua
tanto mais quanto sempre é difícil situar com certeza o momen: essa dificuldade, seja reprimindo quase por
de maneira predominante os
to de uma fixação, como Glover justamente assinala. Apenas se agressividade ou utilizando teria
mecanismos de projeção e de introjeção. No primeiro caso,
pode contar com a significação em si das fantasias, e por outro do ego de
lado as tendências oral—sádicas se encontram em todas as neu- conhecido transtornos caracterológicos da estrutura
e no segundo devia, depois da
roses; além disso, e creio que este é o argumento mais impor- tipo paranóide (Hendrick), é o que este
tante, o que importa em um estado patológico é sua estrutura e regressão, converter-se em um obsessivo, que suficiente
é
ja sublinhei, ao estudar o estado atual do problema que a estru- trabalho tende a demonstrar. A projeção nem sempre
do ego que resulta da ausência de
tura das relações de objeto e do ego na neurose obsessiva é aque- para impedir esta carência
total, e creio que este
la que
com toda razão se pode atribuir à fase sádico-anal do de- integração da agressividade primária no ego
estudo o demonstra. Hendrick assinalou que as fantasias
senvolv1mento. Por outro lado, os interesses da esfera anal difícil foi
substituem os da zona oral e a criança se vê levada naturalmen- agressivas desaparecem quando a identificação
da agressividade
te, pelo aparecimento dessa nova fase da evolução, a satisfações superada e que, precisamente, a integração
Essa tese me parece
substanciais, a separar-se definitivamente de seus conflitos an- primária ao ego total se realizou ao final.
do ego como
teriores, não excluindo que se expresse por meio das dificulda- paralela à de Glover, que representa a estruturação
des da fase anal, angústias mal superadas da fase precedente o resultado de integrações no ego
total de elementos nucleares
modo
sendo talvez isto o que explica a diferença do ego de certos
ob: das primeiras fases do desenvolvimento. Penso que esse
da estrutura do
violência de suas reações à frustração ou à introje- de ver permite compreender o aperfeiçoamento
sesswos e a conservadoras, sempre que essas
ç㺠com forte carga agressiva, assim como o caráter tão arc—ai— ego que segue as instruções
real, isto é,
co das identificações nas quais se detiveram. estejam em relação com a resolução do problema
115
114 Maurice Bouvet 0 ego na neurose obsessiva. Relação de objeto...

é sujeito frustrado de um contato real


depois que se tenham efetuado plenamente, graças a uma técnica que se pode esperar que o
obsessivos, no sentido lato do ter-
humana, mas estrita, as projeções angustiantes necessárias para agrave seus procedimentos
obsessões ou de uma neutrali-
que a identificação superada, o fortalecimento do ego e uma mo, quer se trate de verdadeiras distancian-
evolução pulsional possam se produzir nos casos felizes. dade afetiva reativa. Assim é como o sujeito reage,
falar sequer de
do-se a cada vez que, inoportunamente, sem
facilmente que sentido
tentativas de sedução — pois adivinha—se
considerações terapêuticas tomando a
terão para ele —, alguém procura “desculpabilizá-lo”
6. Algumas
iniciativa.
Ao término deste trabalho cabe perguntar que interesse prá- nível muito super—
Qualquer efeito apaziguador que, em um
tico se atribui a essa tentativa de buscar a expressão clínica de
.
reasseguradoras
ficial de sua organização psíquica, as palavras
uma síntese dos resultados, por um lado, dos estudos antigos e de possuir o valor de uma proposi-
possam ter, não deixariam aqui é o movi-
contemporâneos sobre a relação de objeto na neurose obsessi- ção perigosa para o obsessivo.
O que importa
movimento é vivido
va, e, por outro, dos trabalhos de inspiração estruturalista. Por mento do médico para seu paciente.
Esse
lado, por causa da
que se e certo que não deixa de ter importância comprovar que sempre como um ataque, ao menos por
um
ao falar de dois pontos de vista tão diferentes como o da evolu- sobre o terapeuta. Muitas ou—
projeção prévia da imagem fálica
,”
l'

"º.

ção pulsional e o da estrutura de uma personalidade mórbida se intervêm nesse retrocesso, sobredeterminado pelas
tras causas
as considero se-
chega a uma convergência tal que se pode enunciar uma propo— interdições, o masoquismo, o sadismo, mas eu
s1çao simples, a saber, que a estrutura do ego de um sujeito é cundárias em relação ao medo.
diferente quando o en-
função da de suas relações de objeto que, contudo, dentro de As coisas se apresentam de modo
não é uma boa políti-
certo limite, tudo é interjogo, no sentido mais literal do termo fermo vai na direção de seu interlocutor, e
Á sistemática às demandas
entre o. sujeito e o mundo, não menos certo que
é da relação ca opor uma aparente incompreensão necessário pro-
distancia, expressão clínica desta síntese, deve desprender—se al- de segurança. Não quero dizer com isso que seja
guardar silên—
guma inferência prática. meter ou tranquilizar, mas creio que seja prudente
evitar entrar no jogo do
Penso que, além de tudo, o que nos dá como significações cio. Temos, de fato, um meio tanto de
compreensível, como de
das relações de transferência, nos traz pelo menos duas que não paciente, sem torná-lo claramente compreensão ge-
sao mais que o corolário dessas significações. frustra-lo sem dar-lhe o testemunho de nossa
necessidades, e esse meio é a in-
Elas apontam para a atitude geral do analista com respeito ral de suas particularidades e
gostaria de insistir um
a dosagem das frustrações, o que poderia formular-se nessas terpretação. Mas antes de ir mais longe,
&

da relação do obsessivo com


poucas palavras: a importância da compreensão. pouco mais no segundo aspecto
de sua presença efetiva. Está
Se recordamos que o obsessivo na análise está orientado seu médico: a necessidade que tem
não receba toda a
pela necessidade de uma relação a distância e que em seu foro evidentemente fora de cogitação que o sujeito
gostaria de mos-
atenção que tem direito a esperar, mas que
o
mterrro se tornou mais sensível que outros, por causa da o estado interior de
estreiteza de sua dependência a toda frustração real, talvez trar aqui é sua extrema sensibilidade para de
as menores variações
compreendamos melhor a razão de alguns fracassos do colóquio seu partenaire. Capta imediatamente às quais nin-
senão naquelas
analítico. comportamento, e não penso aqui
guém, salvo ele e os paranóicos, daria uma significação qualquer,
Se o médico se aproxima, o sujeito tomará distância enquan- circunstâncias, o sujeito
to não tiver feito a experiência da irrealidade de seu medo; se o e irei inclusive mais longe: em algumas Percebe com
médico se subtrai, e são muitas as maneiras de o fazer, o mais dá provas de um verdadeiro sentido de adivinhação.
&
ij,
«

l
l
m
,j.

i—llj
116

transferência.

ximação completa.

para
Maurice Bouvet

toda exatidão o que passa no espírito do interlocutor, ainda

valor as vacilações, as fugas, os comportamentos paradoxais des—


ses sujeitos que quando estão a ponto de se abandonar à confi-
dência mais sincera se refugiam em uma atitude de indiferença
afetada, que solicitam conselhos que não podem seguir e que
manifestam incessantemente “desejos” que são contrários ao
parecem desejar. Mas é verdade que a situação é habitualmente
mais complexa ainda do que parece, uma vez que suas atitudes
são tanto conscientes como inconscientes, de modo que muito
freqiientemente poder-se—ia lhes imputar que têm má vontade se
se perdesse de vista tudo o que representa para eles uma apro-

Estão verdadeiramente à espreita de tudo o que pode ser


eles um eco da impressão que têm de que o outro e' mau,
perigoso, que a cada instante pode revelar-se sob sua verdadei-
ra face, que sua própria acolhida e o sinal de seu imperioso de-
sejo de posse destruidora. Essa impressão é tão forte que quan-
do são absolutamente sinceros confessam que fazem de seu
médico uma imagem ambígua a qual se lhes impõe, entretanto,
além de todos os raciocínios que podem fazer e de todas as se-
guranças racionais que se podem dar. Verdadeiramente, fica—se
estupefato pelo vigor dessas projeções que trazem com, nos ca-
sos mais acentuados, certezas quase delirantes, e e' por isso que
já se chegou a dizer com razão que a parte regressiva de seu
ego se comportava como um ego psicótico. Podemos estar cer-
tos de que o que há de racional neles desempenha um papel muito
débil, ainda que essencial, em seus intercâmbios com o objeto
quando esse se torna significativo: esta parte racional de seu ego
lhes serve, de fato, para justificar a seus olhos o bem fundado
que
esse esteja suficientemente disposto a dar-lhe tudo o que lhe deve;
o menor estado de fadiga, de preocupação, lhe é perceptível e,
contudo, serve para alimentar sua projeção. Isso indica quanta
sensibilidade tem para captar as menores variações da contra-

Creio que a representação exata da situação que dá essa no-


ção de distância pode ajudar o terapeuta a evitar uma contra-
transferência inadequada, permitindo-lhe apreciar em seu justo

que
0 ego na neurose obsessiva. Relação de objeto...

de sua conduta para afirmar que têm razão de esperar qualqàlârr


coisa e que o outro a que se dirigem/nao e somente gestíqàade.
E é precisamente essa aptidão tão habil para uma o jei
relativa o que suaviza a violêncra de suas projeções agres mz;
que é conveniente respeitar com o maior curdado. Jamaifs ªda-
afirmação poderia substituir a expertencra que “wrªp“; lirêm
mente, quer dizer, a de sentir-se, crer-se compreen
por sua vez, tão poucas possibilidades

o recurso dessa desalienação na qual


reais

sa para sentir o fnenor matiz de irritação ou


de
vê—las com um personagem benévolo enuma tendencia tao
de

.Lacan ve o
o
crer. que .e[

fruto

santemente à construção narcisista de seu ego, em que po '3


conhecer por sua vez sua obra e aquilo pelo.
artesão. Quer dizer, esse medo do qual pode
não o sente nem de mim, nem dele mesmo .
qual
dizer ao
.

do working through (trabalho elaboratrvotanal/rtico copisr igªrª-


do que o sujeito, pela análise das resrstencras, e remeti o

Lacan acrescenta: “A esse outro por fim descobertp, o suª


jeito poderá fazer reconhecer seu desejo em 'um ato pdaCl icodqªn
por sua vez exige a esse outro e o
. .

antenlggfoutro
,,
constitui objeto e um
Sivas

m
1

.d ven;

indiferãnça,ªaex_
da interior, que é necessário, a qualquer preço, que ten am
periência repetida de uma compreensão total.
Em minha opinião, é a única condiçao com que 0 ana
assumirá o papel de espelho que Freud lhe atr1bur. Esses pacien:
tes verão refletir-se nele sua própria imagem agressrva que con
siderarão primeiro como alheia, depºis a consrderarao e asfs(i)rsn
dominarão as angústias retaliativas que se opunham a que]
sem integradas no conjunto de seu ego, segundo,,a terlrmno çâo
clássica: “0 outro é como eu e eu sou como ele
Ta e, pe
117

(ª-

[Sta

pãoprio

lado, se o sujeito sente intuitivamente que o ob-


jeto é hostil e se retrai, evitará, contudo, mais
do que um conta-
to direto: sua relação será sempre igualmente estreita,
futuro será diametralmente oposto. Em lugar de servrr
de partida, será um motivo de retenção.
mas
de
d re-
_

ia

tçrn 18.143,36
ina

seu
pon o

A transferência não oferecerá entao ao SUJCItO—O o je o ªr-


cisista indispensável para sua segurança. A frustraçao
.
b. [ n
.

afetiva rea ]
.
,

O
.1

.
118—á—_Í— Maurice Bouvet

exasperará as tensões agressivas, o objeto do desejo de introje-


ção será violentamente carregado por ela e as introjeções serão
geradoras de angústia e darão lugar a todas essas
de recusa sádica tão conhecidas. O sentimento
de si mesmo se verá comprometido e as
que
manifestações
o sujeito tem
consequencias da frus—
O ego na neurose obsessiva. Relação de objeto...

Por outro lado, são muito sensíveis a outra frustração, a


do silêncio, e é por isso que, desde o começo, inSisti sobreda
necessidade de lhes dar algo. Bergler, em umAlor—igodestumtz)l
consagrado aos doentes que sofrem as consequenciaseiã qªse
119

tração sobre a coerência do ego se farão sentir, duramente, frustração oral, se apóia na necessrdade, em uma prim
nos do tratamento, de lhes dar muito. Não creio que seja necessaién; 'rio
casos em que existam transtornos manifestos de sua estrutura-
como parece indicar, falar a todo custo, mas penso que
ção, o que por sua vez não fará mais que agravar a incapacida- (ço;
de do sujeito para fazer frente às ter muito cuidado em não desconhecer sua neceSSi ªr?] de
suas projeções aterradoras. de
É necessário sem dúvida contato, não só porque sempre fica em suspenso a eventua i a
que o sujeito possa desenvolver de uma síndrom'é obsessiva sintomática, mas sobretudo porquae
plenamente suas projeções e supera-las, mas
sempre que lhe sobre não há nenhum interesse em deixar que se afundem em fum
uma possibilidade de sentir seu caráter imaginário (e,
como dis- técnica de distância, em que encontrarão o meio de se satisdaze;
se anteriormente, tal possibilidade não é naturalmente
muito gran—
de) e se a contratransferência é percebida tão facilmente, indiretamente com seu intercâmbio com o analista, atenuan ot;
o pe—
rigo de que se oblitere por completo, tão logo como frustrações que se acreditara necessario fazer-lhestsoqªqrnas,
seja
inteiramente satisfatória, e grande. porque então se desenvolveriam essas sessoes monoid.
terá
Enquanto a dosagem da frustração parece colocar proble- quais nada acontece até o dia em que, cansado, orme ic 0
mas sobretudo na medida em que a contratransferência não de dominar essa contratransferência tão compreenswel, mas tãº
tem
nefasta, da qual falei anteriormente. lªenso que. uma ana lStZ
1'
a qualidade desejável por causa de uma relativa
incompreensão
da situação, geradora, por sua vez, de
reações afetivas de opo— concisa e precisa da transferência torna obvio esse inconvertieiíir:ar
sição mais ou menos conscientes no analista, de modo e que sua interpretação justa é o meio mais seguro para
que uma
apreciação insuficientemente exata da significação da transferência todas as dificuldades que espreitam um tratamento. esse ['11%. 0
pode, por outro lado, provocar interpretações falsas Essa é a razão pela qual em um momento eu
msrsftiatmtgec;
que consti-
tuem em si mesmas uma verdadeira frustração,
uma vez que especialmente na detecção precoce das "mani eslâçres
o sujeito tern imediatamente a impressão de
que não é com— homossexuais nos homens e o desejo de castraçao nas mu s,
preendido. manifestações que introduzem os desejosde incorporação em unS
E são essas frustrações,
quer dizer, as frustrações afetivas e outras. Sempre me pareceu conveniente deixar que essa
de incompreensão, as que realmente contam. Nunca fantasias de incorporação se desenvolvessem livremente liurantâ
tive muitas
dificuldades para fazer com que meus pacientes aceitassem um tempo muito longo, procurando levar o su3eito-a dar- ezíiiiio
os
rigores da disciplina analítica em tudo o que se refere plena significação afetiva. Parece que de seu livre exer
ao protoco-
lo do tratamento. Ao contrário, a exatidão ua
com a qual se mantêm resultou uma espécie de amadureCimento pulsmnal, comodse Sma
as disposições definidas no começo dá a e u
esses doentes um sen- expressão verbal e emocionªl permitisse a continuaçao
timento de segurança. O que mais temem é ver
em alguma medida. porque então deixa de ser essa
seu analista ceder ' va blo uea a.
evºlulíâ? (dizimªda crqeio
que é necessário interpreta-las, no
forte que buscam, a relação com ele perde todo personagem
seu sentido e sentido geral da transferência, no momento emAque se'produzeme,
não encontram nele o apoio narcisista
lhes infligiu, apesar das aparências, a
que tanto necessitam. Se sem insistir sistematicamente em sua ambivalenCia. E certp qu
frustração mais grave que são ambivalentes, mas não é menos eVidenteque & carga & etiva
podiam sentir: privá-los de um apoio sólido e intangível.
dominante é de sinal variável segundo as c1rcunstanc1as e que
Fá?—
120 Maurice Bouvet

captar toda a significação de sua carga emocional e para o sujeito


uma experiência crucial que só é plenamente vivida com a
condição de acentuar a significação que têm no momento dado,
por exemplo, em função de uma impressão de frustração.
Em matéria de neurose obsessiva, as palavras de neutralidade
benévola tomam um significado muito especial se se seguiu
atentamente a descrição que procurei fazer das relações de objeto
desses pacientes. Com eles, mais que com outros, é necessário
manter-se neutros, para não assusta-los e lhes dar a oportunidade
de superar plenamente a identificação arcaica,
permitindo-lhes
projeta-la inteiramente sobre o analista e ser também benevolentes
engªge—m»;

,
O ego na neurose obsessiva. Relação de objeto...

e só então se pode falar de uma melhoriareal, as. identificaçõies


genitais residuais se dissociam lentamente e o sUjeito pode ace er
a uma vida verdadeiramente individual que nao seja a expressao
de uma defesa, mas a de um livre exercícro.

Conclusões

Resta-me condensar em algumas linhas as conclusões que


acredito poder tiªfar deste estudo e que, quanto ao mais, formu-
lei a medida que avançava nesta comuniçaçao. .
121

para compreender sempre qual e' seu dilema e ajudá-los a vencê-lo. 1. Do conjunto de trabalhos consagrados a neurose obsessrva nes-
Mas chega um momento em que se deve intensificar essa ses últimos anos se desprende a noção da importanCiaprimor-
ação mediadora cuja função foi atribuída pelo sujeito a seu objeto dial para um dado sujeito, que não pode aceder a outrojipo mais
de identificação (Lacan). Penso que não convém fazê-lo senão evoluído de relações objetais, da “técnica obsesswa , tecnica
que assegura uma relação estável do su1eito com
a partir do momento em que, franqueadas as primeiras os ”objetos.
identificações, o sujeito pensa em imitar as condutas adultas de 2. Do estudo clínico do ego, do ponto de Vista“ da noçao, comu-
seu modelo. Também aqui as interpretações corretas são mente admitida, de sua força ou debilidade em funçao dos cri-
necessárias e suficientes. Não se trata de formular conselhos nem térios práticos de adaptabilidade, se desprende que no decor-
de impor normas; basta analisar nas situações triangulares
novas, rer dessa enfermidade o ego em seu conjunto se encontra
ou vividas de maneira nova, que a evolução das relações de objeto afetado e que as relações objetais, em todos os casos, estao
não pode deixar de produzir as aspirações e os temores damente alteradas.
l'i'rtªfhftueril . ,
dissimulados do sujeito. De minha parte, abstenho-me de fazê— 3. caracterizar tão exatamente quanto me for possrvel .a
lo, por regra geral, enquanto as significações da situação de relação de objeto obsessiva. Procurei demonstrar a necessr—
transferência não estejam completamente esclarecidas e não se dade de mantê-la e a impossibilidade fundamental da realiza-
ção do desejo que a sustenta, e sua estabilizaçao em uma
so—
tenha dado uma evolução prévia, para evitar precisamente
o sujeito aproveite para deslocar o centro de gravidade da
que
' de com romisso: a
1113153; situação?
distância.
.

análise a relações reais, em virtude do qual chegará a manifestar 4. em alguns casos, pode e deve evolurr,'renun-
indiretamente sua transferência evitando a “aproximação” ciando o sujeito progressivamente ao emprego dos meios que
que
teme e para a qual, contudo, tende necessariamente. Creio lhe permitiam manter a distância conveniente entre ele e seu
que
o de amor.
'
o acesso a novas e substanciais relações de objeto de tipo ObJIÍ/itsisti -
adulto é a única garantia contra uma recaída, assim como as nos estados emocionais que acompanham as relaçoes
que se tornaram íntimas entre o sujeito e o objeto que l_l'ldlífan'i
e
relações de tipo obsessivo eram a única garantia contra o
desmoronamento psicótico. Ao se afirmar cada vez mais o o sentido no qual evoluem essas relações, e na resoluçao ina
ego,
ao ir se confirmando incessantemente o sentimento de si, o sujeito do dilema obsessivo com a instauração, nos casos felizes, de uma
pode estabelecer relações de objeto plenas e inteiras, cujo identificação, ponto de partida de novas identificaçoes mais evo-
exercício confirma por sua vez a personalidade em sua plenitude luídas. Relatei a observação que antecede para ilustrar com um
122 123
Maurice Bouvet 0 ego na neurose obsessiva. Relação de objeto...
exemplo clínico a evolução tanto das relações objetais quanto da Duas perguntas deveriam encontrar uma resposta nesste
fórmula pulsional e o estado do ego. _
indicaçoes
.
do tratamen o
.

texto A primeira é a que se refere as


_

.
Por último, apresentei algumas considerações terapêuticas .
de uma Cisao n o
. o

analítico; a outra tem a ver com a poss1bilidade


que se apoiavam precisamente na análise relacional que tentei ssivas.
g rupo das neuroses obse
'
fazer. a primeira, descrevendo os dºis
& . .
.

Tentei dar uma resposta


Gostaria que esta longa exposição fosse mais vivida e mais
original, porque, no fim das contas, o que descrevi não é mais tipos de homossexualidade que encontramos. , de uma
Quanto à segunda, não me parece suscetive ,
1

que uma variação sobre temas que nos são familiares. tão
Há um ponto, contudo, sobre o qual queria chamar a solução de conjunto; como ocorre nos traumatismos; ªcido
de casos particulares. Aqui tambem a consrderaçao o. Épxam
atenção uma vez mais. Tenho a impressão de que considerar
desse ponto de vista geral a estrutura das relações objetais da relacional do problema nos permite uma compreensao mais "é
Se admitimos que o obsessivo oscrla incessantementãeen
neurose pode nos ajudar a compreender o sentido e o alcance ue
do diálogo que esses sujeitos procuram estabelecer conosco. introjeções e projeções angustiantes, nao e facul compãeen (pºis
existem casos nos quais da predommancra de um esse S

Impressionou—me, quando escrevia estas conclusões, encontrar ,. s


nas observações de um analista sobre as indicações da terapêutica mecanismos derivam traços depressivos ou atitudes paranªíãâr
so re
analítica nos obsessivos esta afirmação repetida: que o ou paranóides, do mesmo modo que o que sabemos 08668
formas mistas de perver e
prognóstico é função de sua capacidade de crescer — porque de parcial nos faz compreender as
obsessões ou de toxicomania e obsessões.
fato se trata disso: é necessário 'que cresçam,
quer dizer, que
mudem radicalmente sua maneira de ver o mundo. Mais
que
outros, perturbados somente por sentimentos de culpa que não
são familiares em sua intimidade, sua modalidade, têm de Referências
percorrer um longo caminho, porque a estrutura de suas relações
reais, significativas, é a tal ponto arcaica que não lhes é dada ABRAHAM, Oeuvres comp/êtes. Paris: Payot. 1965—1966.
K.
v. 2.

nenhuma possibilidade de expansão. Como disse Freud: BERGLER, E. A neurose básica.


P.B.P. n. 71.
É provável que seja a relação de ambivalência NACHT, Sacha. O masoquismo. Paris: Payot,
na qual
entrou a pulsão sádica a que torne possível todo o processo; a
ambivalência, que havia permitido a repressão por formação
reativa, é justamente o lugar por onde se opera o retorno do
reprimido. Por isso, o trabalho de repressão na neurose
obsessiva é revelado por uma luta que não pode ter êxito nem
conclusão.
Se jamaisperdermos de vista que, por sua vez, a
agressividade expressa tanto 0 amor como o ódio, que pela
projeção vivem 0 outro como eles são, e que apesar de sua
grande necessidade têm medo desse outro, penso que poderemos
compreende—los melhor e ajudá-los a crescer, dentro dos limites
nos quais não se oponham fatores inatos.
A “RELIGIÃO PARTICULAR”
DO NEURÓTICOZ
NOTAS COMPARATIVAS SOBRE A

OBSESSIVA E A PERVERSÃO
NEURPSE
1:

Flávio Carvalho Ferraz

categorias
Os esquemas comparativos entre as diversas
psicanalítica. As
psicopatológicas são freqíientes na literatura
de aclarar a especificidade
descrições diferenciais têm o poder interfaces. É
de cada campo e, ao mesmo tempo, explorar suas
à ora a neurose
assim que a histeria ora é comparada perversão,
Freud foi o primeiro a
obsessiva, e assim por diante. O próprio
na carta de 24 de
fazê—lo, ainda bastante precocemente, quando,
afirma que a histeria é
janeiro de 1897 a Fliess (Masson, 1986) converter
o “negativo das perversões”,
conclusão que viria a se
em uma das mais conhecidas
máximas da psicopatologia
'

psicanalítica.
da sexualidade”,
Em 1905, nos “Três ensaios sobre a teoria

esta afirmação é refeita. Todavia, já
não é mais apenas a histeria
das perversões. A menção agora é
que figura como o negativo tomadas em seu amplo
feita às neuroses no plural, ou seja,
assim dizer, o negativo das
espectro: “as neuroses são, por Assistimos, pois, a uma
perversões”, diz agora Freud (p. 168).
das outras
generalização que daria margem consideração
a
da
modalidades de psiconeuroses também como negativos
obsessiva.
perversão; ente elas, naturalmente, a neurose
Pois bem, o foco deste trabalho será a comparação de
a perversão,
certos aspectos da neurose obsessiva com
linha de raciocínio proposta
procurando desenvolver uma Chasseguet-
Janine
separadamente por Guy Rosolato (1967)
e
126

Í Flá vio Carvalho Ferraz

Smirgel (1984). Alguns dos aspectos necessários à


da sentença freudiana mencionada

a neurose obsessiva do que na sua

na sua comparação com a neurose obsessiva.


Antes de prosseguirmos nos detalhes desta
todavia, convém lembrar ainda mais uma
Em 1907, no texto “Atos obsessivos e
demonstração
são, a meu ver, mais
claramente encontrados em uma confrontação da
perversão com
comparação com a histeria,
por um conjunto de razões que virão a tona a seguir.
Na carta de 24 de janeiro de 1897 a Fliess, Freud
interesse pelo simbolismo das bruxas, especialmente
ligação com o universo anal. Dizia estar interessado
Malleus Maleficarum'a fim de compreender a
métodos utilizados pelos inquisidores da Idade Média.
confessava estar sonhando com uma “religião demoníaca
primitiva, com ritos praticados em segredo” (p. 228). Ao
assim, seu intento teórico era mostrar que, nas
estamos diante de algo como “um remanescente de
sexual primitivo”, semelhante ao
religião do Oriente semita (Moloch e Astarte). Foi esta
precedia toda a sistematização teórica sobre a
obra, que veio a inspirar. Rosolato (1967) e
na caracterização que fizeram da perversão e,
mostrava
em sua
em ler o
lógica dos

para além disso,

aplicável apenas a uma das ramificações nosográficas das


psiconeuroses. Ele dizia que “a neurose obsessiva
caricatura, ao mesmo tempo cômica e triste, de uma
particular” (p. 123). Ou, como foi dito de modo mais
e abrangente no mesmo trabalho,
considerar a neurose obsessiva

1. O
o
comparação,
passagem de Freud.
práticas religiosas”, ele
deixou uma outra afirmação axiomática, emitida
em estilo
metafórico, e que talvez só não tenha se tornado tão célebre
quanto a primeira por ser uma fórmula menos abrangente,

parece uma

“podemos atrever-nos a

Mal/eus Maleficarum (“Martelo das bruxas”), escrito


Sprenger e publicado em 1484, tornou—se uma obra célebre
demonista. Serviu de instrumento

pactuava (Pessotti, 1994).


E

proceder
perversões,
um culto
que acontecia outrora numa
idéia, que
perversão em sua
Chasseguet—Smirgel

religião
explicativo

correlato patológico da

por Kramer &


da doutrina
para a orientação dos inquisidores, en-
sinando-lhes a detectar os possuídos pelo demônio
ou quem com ele com-
universal” (p. 130).

fama
'

Eº 121)
.
'

nos atos sagrados;,obse '

tambem

(1967)
'
escrupulos

(P- 39).
Pºis

.
'

diabo'” (p. 216).

obsess1va
A

formação de uma religião, descrevendo a neurose


religiosidade individual e a religião como uma

Esta comparação da neurose obsesswa comf


em razao do ce rimonial que se vem - ica tan o

'

daquele que os realiza. Via de regra,


e' ViVida como uma ten taçao perigosa,
' '

sintomas — ações obsessivas


'
'

smtomatologia daque les que' “sofrem de a f e cçoes nervo " ,
mo “ nasEríhraticas
.
'

' '

objetivo é conciliar moções pulsionais antagonicas,


forças que induzem a atos contraditpirios. _
'
cercar-se de medtdas de proteçao. Na neuros e o sess1va
'

rvam-se
' '
“religião particular" do neurotico

sªjam gerais ou particulares. Quer nos rituais riepr'oticoes,f;1rtes



' ”

pela 5 quais o crente exp ressa sua evoç


ambos os casos os cerimoniais obedecem a 1615;

de coma'“enCia (sentimento de cu p a).Alem d om als ,


' em ambos os casos , os atos leva d os a cabo sao
de um sentido Simbolic
' ' '
'
*


'
'

-
_
.

bem, nosso ponto de p arti a serao d ua S afirmações um


tanto emblemáticas que recuperam,

“Parece
'
sentenças freudianas. A primeira

a neurose obsesswa esta p ara uma


A 56%
'

unda
que

,
a

de
'

1984) diz o seguinte.' Se a neurose o b sess iva uma


' ' “
'

perversao
'

'
autoria

brivada', a perversão é, então, o eqUivalente de uma rel i g ,ão do

Ambos os autores, retornando Freud, comparam a 2511115210se

Pªrª fªlªr
'

'
a uma religia
seu oposto. Rosolato'
'
'
obsesswa, a antitese
'
de
'
prºibiçoes

esta

.
'

de
delas'
,
'

' o que expressa a e xperienCia p Síq uma

' parª
"
.
.

certª.
fOl

" o e fazem da pervers ão , .nesse


confronta
'"
a opos1çao entre relig tao e gnose. Ja Chass eguet— mirge
'
d a mesma opOSiçao en tre perversao e neurose

certo modo, pode endereçar—se


'

propriamente dita, supostamente de Deus.


.

en tre “ religiao

A história das religiões mostra como f 01 dmc“ para º


cristianismo impor-se perante as seitas gnosticas q ue
'
estas
,
duas
'
co

a
religiao e tra içao ri

cat

" d o d'iabo” — alusao


tambem , a
&
neurose

mpu
.
'

sao, aSSim,Auma forrnadçaocºnjloO


1

.,
a

.,

Sivas
,

-
a força d a pu sao reca ca da

maneiraêolãzsomto
ei ta por

egorias

gnose
s

,
_
o

religitao

- pr enhes

contra a qual o Slljel't o deve

Viv1 as

.
.

.”

grãos—e aS'Íllltílizada”

Ja nine Chassegue t-sm1rgel


.

é
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Sªs”
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lºtªndo
os

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] busca ,
.

que, de
.

.-
,
.

.
.
1
127

.
É

.
_

.
129
128 Flávio Carvalho Ferraz A “religião particular" do neurótico

ob-
remanesciam da tradição grega, entre outras. Freud (1913) diz, ma correlação poderia ser feita entre a perversão e a neurose
em “Totem e tabu”, que “quando o cristianismo pela primeira sessiva.
,
vez penetrou no mundo antigo, defrontou—se com a competição A gnose ou gnosticismo — propõe como posswel algo que
-
da religião de Mitras2 e, durante algum tempo, houve dúvida em é muito tentador: o conhecimento pleno da divindade e o acesso
relação a qual das duas divindades alcançaria a vitória” (p. 182). a mesma. Por esta razão, de acordo com Umberto Eco (1987),
Sabemos por outras fontes que, de fato, muitas barreiras tiveram a gnose não seria uma religião para escravos, como *o
de ser erguidas contra as tendências gnósticas. E, grosso modo, cristianismo, mas para senhores. Os inicrados na gnose sao
Eo
seu correlato no plano ontológico seriam as barreiras contra a detentores de um segredo do qual a massa não compartilha.
sexualidade e a agressão que o homem civilizado e, afortíori, ——
segredo, como tal, confere a quem o detém uma posrçao “de
o neurótico obsessivo — teve de erigir. Trata-se das medidas exceção. Ora, e?:inevitável lembrar aqut de—uma característica
do
protetoras de que Freud (1896) já se dera conta nos “Novos importante da perversão, que é a presunção de detenção
comentários sobre as neuropsicoses de defesa”. segredo do desejo sexual, assegurado pela execuçao ,da cena
perversa da qual os comuns dos mortais normais ),estao
(
Comecemos por examinar a afirmação feita tout court por
afirma Joyce McDougall (1983), “imbmdo da
Rosolato (1967), procurando explorar sua significação e dar—lhe excluídos. Como
uma amplitude um pouco maior. Parece-me que um dos elementos singularidade de sua identidade sexual, o desvrante demonstra
em que se funda tal comparação seria um aspecto essencial da amiúde um sentimento de desdém em relação aos sexos simples ,
gnose, que é o seu caráter de “contestação permanente da Lei, das pessoas que fazem amor à moda antiga — à maneira como o
sem recurso a mediação” (p. 39). Nesse sentido, ela remete ne— fazia o pai desprezado e diminuído” (p. 38). Um pacxente
noite de orgia, que enquanto
cessariamente a recusa (Verleugnung), mecanismo fundante da perverso me dizia, após narrar sua
assrstindo
perversão. Seu oposto, a religião de tradição ritualizada, para ele fazia tudo aquilo eu, provavelmente, estava em casa
constituir—se como tal, cedeu historicamente a proibição, tal como à televisão de pijama.3
O termo gnose significa, literalmente, conhecmtento,
.
sabe-
o obsessivo curvou-se ante o imperativo do recalcamento
(Verdrangung). Rosolato faz ainda uma ilação de caráter evoluti— doria. No sentido do gnosticismo, designa “conhecrmentq eso-
vo, por assim dizer. Apoiado na história das religiões, diz que térico e perfeito da divindade” (Ferreira, 1986). Na tradição do
“uma religião só se afirma depois de ter tido de se libertar das racionalismo grego, gnosis designava () conhecxmento verdadei-
ro do ser, em oposição à simples percepção (aistheszs)
e a CPI-
correntes gnósticas, não sem antes ter sofrido sua atração, ter
nião (doxa) (Eco, 1987). O gnóstico, assim, além de ter a chave
voltado a elas para certas inspirações e para sua evolução” (p. 39).
do contato direto com a divindade, almeja e supõe ter dela um
Certamente, esta é uma proposição desenvolvimental, que situa
a gnose em um plano filológico anterior àquele da estruturação conhecimento pleno. Não inibe sua curiosidade como o religio—
de impoten-
da religião de tradição ritualizada. No plano ontológico, a mes— so cristão, nem é instado a alimentar o sentimento.
De
cia epistêmica diante de um Deus incognoscivel e intocavel.
modo análogo, pode—se dizer que o perverso sabe, e por isso Julga
2. O deus Mitras era representado nas esculturas, sozinho, matando um tou-
conhecer o segredo do prazer sexual, enquanto o neurotico ob-
ro. Isto chamou a atenção de Freud (1913), que vinha pensando que a ci- sessivo duvida e deve se furtar ao contato e ao. prazer. .Não
transferencrais que indi-
vilização teria tido início no assassinato do pai primevo pelo conjunto dos por acaso, são estas mesmas posturas
filhos. Freud deduz, então, que aquelas imagens de Mitras deveriam sim-
bolizar um filho sozinho sacrificando o pai, redimindo assim os irmãos da
co-autoria deste assassinato (p. 182). 3. Of. Ferraz (2002), capítulo 3.
130
Flávio Carvalho Ferraz A "religião particular" do neurotlco
, . 13 1

cam na clínica a presença de uma '


questionamentos e reformas ou nos acasos e veleidades de um a
perversão ou de uma neuro-
se. No primeiro caso deparamo-nos vida aventurosa e fulgurante. (p. 39)
com uma posição de desa-
fio,4 enquanto no segundo encontramos
um su jeito que se Esta descrição do fazer do obsessivo em
espreita diante do “suposto saber” do contrapOSÍjçÉipgãqrp
analista, para usar uma ex- o do perverso lembra—me diretamenteªum texto de ÉrÍuAli
pressão da lavra Iacaniana. Freuá
Na religião católica o pleno saber é tão sucinto quanto interessante, que .e 'l'lpos libidinais .
vedado. Mais que isso: .
postula a existência de três tipos libid'inals puros o —- [tico
a presunção do saber é em si erª-co:
mesma um pecado. Deve-se crer () obsessivo e o narcísico — e três tipos intermediarios o —
na escritura e obedecer às restrições erotílito
impostas por suas leis, mas obsessivo, erótico—narcísico e obsesszvo—narcrsrco — com
sem o saber. Um exemplo prototípico desta qtina O
situação é o mistério de caracterizargo modo como cada um deles atua na
da Santíssima Trindade, culauãro.
que pressupõe um Deus em três pessoas.
Não se trata de algo a ser tipo erótico se'ªcaracteriza por uma dependencra ao
compreendido. Cabe apenas crer e errªnrfiaªe
objeto, isto é, sua principal necessrdade e a ser
curvar-se ao imperativo de abnegação ante exgeri
segundo Santo Agostinho, seria tarefa mais factív
o saber. Afinal, amado; o tipo obsessivo se caracterilz'a dêndª em
el colocar toda pªresgacoçcpãicomo
a água do oceano em um relação ao próprio superego, que o o im uma
buraquinho da areia d a praia do ' ' a ente erpetuador da moral estabelecr .d a, o” ti p o
.
entender o mistério da Santíssima Trindade. que
A gnose, ao ZÉÉÃÍ-iepof fim, 0 mais independente, tanto em
Fé)

contrário, segundo Rosolato, “constitui reltaçªgnqg


uma espécie de estado outro como em relação ao superego. Ele tende a ser VIS
de proliferação, de :ndi ão
fermentação, em que a descoberta, a
revelação, encontram um terreno uma “personalidade” em seu meio,. podendo assumirda c norçma
propício e as condições de líder. É ele que se encontra mais apto a transgre ir
necessárias à invenção que fundamenta o aanto
estético” (p. 39). objeto sagrado ou vigente, tanto no sentido do atoherorco e corajoso, quarcfSiCO nº
Prosseguindo no paralelo e passando das sentido da liberação da destrutrvrdade. Qu seja, o tipo'n
sobre o saber para as hipóteses considerações pode se incluir em um espectro que vai do mais louvave ] herói
sobre a natureza do fazer na
ªº minável criminoso.
'
perversão e na neurose obsessiva, Rosolato lembra
na postura do gnóstico, “o que, tal como mªiis: ,
erótico, parece-me, aproxima-se mais do carartçlrdhãrsl:
. .

perverso encontra-se (...) bem situado térico, enquanto a ação do tigo obÍesZº/qíeqpeerãcpêãediêndª
para as inversões e as revoluções que fazem
progredir as escolhas melha—se ao “proce imen o
culturais”. E prossegue na 533113832
comparação com a neurose obsessiva: .

que fala Rosolato.S O tipo narcísrco, aqur tprpªdlªcçrçtrrqlo


.

Mas ao esforço obsessivo caberá protótipo do sujeito da recusa (do perverso, portan
das pesquisas, o procedimento da
estabelecer o detalhe obem Situa-
Lei e a obediência ritual, a se, tal como descrito por Rosolato para o perverso,
fixação litúrgica e as pressões
que impõem; a estrutura perversa do para as “inversões e revoluçoes No entanto, com () lembrªva
.
sozinha pode perder-se em
transformações contínuas, Freud, este espectro amplo do tipo narc1srço um tam-
contemela
bém amplo gradiente moral. Sua mdependencra em r ç ão ªo
4. Donald Meltzer (1979) refere-se
a esta postura transferencia! como
versão da situação analítica. Já R. Hora cio per-
Etchegoyen (2002), unindo os 5. Jean Laplanche (1988) também reconhece como característicadcilgaogãfnso-
pontos de vista tanto da escola Iacaniana
SIVO a recusa das novas possu'bilidades", por ele compreen
' “
(com referência ao mesmo ar-
tigo de G. Rosolato que menciono aqui)
cia a Meltzer), propõe o conceito
como da kleiniana (com referên- '
'
ao
givefgtase
' ou sem, “ uma manu tençao
de tensoes,
' _
a qualquer p re ç º da hº-
,
de perversão de transferência, descrito visando evitar qualquer sobrecarga, mas tambem -
em paralelo com a neurose de morragia, libidinal" (p. 25). Esta recusa seria um dos aspe quaqu㪠hãa
transferência e com a psicose de trans-
feréncia.
manifestação da morte psíquica no nivel do eu.
132 Flávio Carvalho Ferraz A “religião particular" do neurótico 133

outro e ao próprio superego pode transforma-lo tanto Ocorre que 0 lugar do herói na cultura é reservado para os
em herói
como em criminoso. Portanto, um tipo narcísico intermediário
poucos que atingem condições de liderança. De acordo com

para ele o tipo obsessivo-narcísico — seria mais apto à tarefa Freud (1931), os indivíduos do tipo narcísíco, em razão de sua
da construção da civilização, tal como entendida
em “O mal- independência, não se abrem à intimidação. São líderes que po-
estar na civilização”. dem se colocar acima da norma comum. E o rompimento que
Na descrição destes tipos pode-se entrever a
contribuição operam com o padrão comum de ação se daria por duas vias
que uma teoria da formação do caráter advinda de possíveis: “pela estimulação do desenvolvimento cultural” ou pela
considerações
psrcopatológieas tem a dar para o estudo da ética individual. “danificação do estado de coisas estabelecido”. Daí a conclusão
Curiosamente (mas nem tanto, se de que herói e criminoso se irmanam no caráter transgressor,
pensarmos na sua
contemporaneidade), a filosofia moral de Bergson apresentou formulação queitraz uma indagação sobre a diversidade dos des—
algumas idéias que coincidem com a ética dos tipos libidinaís tinos do narcisismo, que se colocam em um espectro bastante
de Freud, especialmente no contraste existente
entre o tipo amplo. Assim, o tipo narcísico que pode contribuir positivamente
obsessivo e o tipo narcísico. Em “As duas fontes da
moral e da com a civilização não deve ser um tipo narcísico “puro”: há que
religião”, Bergson (1932) faz uma distinção entre a moral estática ceder às considerações morais impostas pelo superego. Por esta
e a moral dinâmica. Para ele, razão então é que, para Freud, trata-se do tipo obsessivo-narcí-
há uma moral estática, que existe de fato, siso.“
em dado momento,
em dada sociedade. Ela fixou—se nos costumes, nas idéias, nas A moral comum e cotidiana de Bergson, que se presta a
instituições; seu caráter de obrigatoriedade reduz-se, em última manutenção do status quo, alinha-se ao tipo libidinal obsessivo
análise, à exigência pela natureza, da vida em comum. de Freud, no qual predomina a ação do superego. Os indivíduos
Há, por
outro lado, uma moral dinâmica, que é impulso, e pertencentes a este grupo pouco criativo foram considerados por
que se liga à
vida em geral, criadora da natureza Freud “os verdadeiros conservadores da civilização”: carregam,
que criou a exigência social.
(p. 210—11)
atreladas fortemente ao superego, as normas civilizatórias e são
Para Bergson, desta forma, a verdadeira consciência dominados pelo temor da consciência. São, deste modo, mais
moral
resrde na moral dinâmica; ela se exprime morais do que propriamente éticos, isto é, pautam-se por um
.

propriamente através
de uma obrigação transcendente e pode ser encontrada código rígido introjetado, deixando ao ego pouca margem de
no herói
e nosanto. O herói, movido pela moral dinâmica, é
um indiví- atuação. E pouco podem dar de si próprios para o
duo 1novador, que reúne condições de desenvolvimento da cultura: são, antes, fiéis reprodutores do
romper com os hábitos
do grupo, criando, assim, novos valores morais. A estado de coisas que encontraram.7
moral estáti-
ca, por sua vez, seria uma moral comum e cotidiana, limitada a
hábitos coletivos socialmente exigidos, sem o caráter de
obriga-
ções transcendentes. Na verdade, ela se reduz à conformidade 6. Patrick J. Mahony (1991). recorrendo à classificação proposta por Freud
em “Tipos libidinais", arrisca situar o Homem dos ratos no padrão eróti-
aos hábitos coletivos ou às necessidades sociais. Seu papel, em co-obsessívo. E isto talvez tenha sido a desgraça do paciente de Freud:
última instância, é o da manutenção do código moral
vigente. Já incapaz de se libertar de seu poderoso superego. permanecia ainda em
a moral dinâmica, entendida como “moral da dívida com objetos do mundo externo (pai e mãe), ou seja, com dever de
ruptura”, opõe-se
amoral conservadora, restrita ao objetivo da manutenção e da obediência interna e externa e sem a independência peculiar ao tipo nar-
císico.
Vigilância do código moral vigente, tal como aquela dos confor-
7. Trato mais detalhadamente desta questão no capítulo 6 (“Ética e caráter”)
mistas de Atenas que se indignavam com as lições de Sócrates.
no meu livro A eternidade da maçã: Freud e a ética.
134 Flávio Carvalho Ferraz 135
A “religião particular" do neurótico

Na ação do perverso sobre o mundo não haveria o gradiente


uma mudança de moda, banalizava-se o que era um valor
representado pelo intermediário libidinal obsessivo ou erótico, no verdadeiramente humano. Dizia Proust (1981) que, “semelhante
sentido estrito em que estas categorias
aparecem no texto de aos caleidoscópios que giram de tempos em tempos, a sociedade
Freud (1931). As “inversões” e “revoluções” de que fala Rosolato coloca sucessivamente de modo diverso elementos que se
estariam mais para a assunção de um poder comumente só supunham imutáveis e compõe nova figura” (p. 70). Essa
outorgado a divindade do que para a evolução civilizatória de mudança à qual ele se referia (perversão social?) não advinha de
que fala Freud, ou do aperfeiçoamento de um padrão ético, de uma dinâmica crítica de reconsideração dos fatos sob novos
que fala Bergson. A ação de mudança a que se refere Rosolato, paradigmas éticos, mas do cinismo que permitia as alterações na
portanto, parece mais próxima da acepção dada por Nietzsche mais flagrante ausência de sustentação moral. Freud (1931) não
(1887) a esta palavra em uma passagem de “Para a genealogia negligenciou este“ problema, pois o agente da civilização era, pare
da moral”, em que trata exatamente do fenômeno da má ele, o tipo libidinal obsessivo-narcrísico, um sujeito critico capaz
consciência (seria a mesma que assalta o neurótico obsessivo de promover a síntese entre seus valores e a necessidade de ação
como uma espécie de lembrança inconsciente de seu “crime”?). e de mudança.
Para Nietzsche, seriam “a hostilidade, a crueldade, o Passemos agora às considerações sobre a comparação fei-
gosto pela
perseguição, pelo assalto, pela mudança (grifo meu) e pela ta por Janine Chasseguet—Smirgel entre neurose obsessiva e per-
destruição” os elementos que se voltam contra o possuidor de versão, a primeira sendo a “religião privada” do neurótico e a
taisiºªinstintos”, neles dando origem à má consciência, O que é segunda o equivalente de uma “religião do diabo”. Em Rosolato,
incrivelmente parecido com as idéias de Freud sobre a formação
a relação do sujeito com o saber e com o fazer esteve em evi-
e o caráter do superego. '
dência. Este não é o escopo privilegiado de Chasseguet-Smirgel,
O imperativo de “mudança”,
por si mesmo, é inicialmente embora suas considerações também toquem incidentalmente nesta
neutro sob o ponto de vista da ética. Tanto pode ser um questão específica. Vejamos.
aprimoramento da cultura — da construção da civilização, como Chasseguet-Smirgel (1984), como Rosolato, recorre à his—
:“
propõe Freud (1930) em “O mal-estar na civilização” — como tória da religião e à gnose como fundamentos culturais de suas
Hr,
h
(lvl sua destruição. A oposição, considerando-se os tipos libidinais proposições de caráter ontológico para a neurose obsessiva e a
narcrsico e obsessivo, seria entre a possibilidade e a perversão. Assim, ela vê na gnose, a exemplo do que vê na per-
1mpossrbilidade de operar mudanças. Em outra oportunidade versão, “o desejo de roubar o lugar de Deus” (p. 223), impres-
(Ferraz, 2001), tratando deste mesmo problema, propus que a são, aliás, corroborada por Umberto Eco (1987), que nela vê uma
aceitação de “qualquer coisa” como moralmente válida traduz- expressão cultural da condição psicológica de um sujeito (o ho-
se. em uma ideologia do “vale tudo” que anula os fundamentos mem do século II) para o qual “o mundo é fruto de um erro”.
eticos do sujeito, que são partes integrantes de sua própria Considerando—se um fragmento da divindade, o gnóstico pode
identidade. Perder a capacidade de se indignar, de tornar-se retornar ao Deus criador imperfeito e contribuir para corrigir a
perplexo ou de manifestar dúvida moral e' uma operação falha original na criação do mundo. Ele se torna, desta forma,
que acaba
por solapar as identidades subjetiva e cultural das pessoas. Ás uma espécie de “super—homem”, pois a divindade só poderá re-
vezes, os valores podem reduzir—se a pó em nome da futilidade compor 0 seu rompimento original com a sua ajuda.
da moda. Esta forma de conceber a gnose, explicitada por Umberto
Proust já observava a frivolidade mundana
que fazia com Eco, será a própria base de sustentação do argumento de
que algo estivesse sempre mudando na sua França: à guisa de Chasseguet—Smirgel sobre o sentido do ato do perverso. Para
136 Flávio Carvalho Ferraz 137
A “religião particular" do neurótico

demonstrá-lo, é necessário iniciar pelo duplo sentido do a mãe. Ora, o imperativo sadeano, sabe-se, é exatamente a mis-
qualificativo “diabólico” que ela atribui à perversão. tura — a indiferenciação — com vistas à desconsrderaçao da pror-
Foi a partir do século IV que a figura de Lúcifer passou a
bição do incesto, que se estende a recusa de toda e qualquer
freqtientar a tradição cristã. Desde então, tornou-se personagem diferença sexual e geracional.“
recorrente das heresias gnósticas, representando “o mestre e o Aqui nos aproximamos de mais um ponto relevante no
.

modelo dos que se rebelam contra o Criador” (Chasseguet- diferencial entre o neurótico obsessivo e o perverso, que e
Smirgel, 1984, p. 216—7). Ora, o argumento perverso, por seu exatamente a relação que cada um deles mantém com p p'ar
turno, passa pela semelhante ilusão de que ele, o perverso, pode antagônico mistura/separação. As interdições sao, por excelenc1a,
se constituir como um ser auto—engendrado, subjetiva e fundadas no princípio da divisão e da separação, tal como
sexualmente. Este auto-engendramento da sexualidade não é do isolamento na
aparece nitidarri'ente no mecanismo defensrvo
outra coisa senão aquilo que Joyce McDougall (1992), de modo A
neurose obsessiva, ao contrário do que sucede na perversao.
perspicaz, chamou de neo-sexualidade, invenção defensiva que imposição de proibições alimentares na história da religiao pode
tem a finalidade de manter intactos os limites do corpo e protegê—
ter sido, de acordo com Chasseguet-Smirgel, umaluta do
10 contra o retorno do sadismo
primitivo que pode transformar monoteísmo judaico contra o paganismo, luta que, micralmente
o auto—erotismo em auto—agressividade. A solução de ordem externa, teria ganhado contornos mtrapsrqurcos.
perversa ,
Concluindo de modo bastante sintético, nossa autora dira
.
consiste, essencialmente, na erotização desta pulsão mortífera.
Pois bem, voltando a Lúcifer, temos que sua significação
que “a proibição é um reflexo do conflito entre as formas/ma-
desdobra-se em duas direções intercomunicantes: a idealização .triarcais e as formas patriarcais da sociedad-e”.(lp. 218). E as—
da analidade e um encorajamento do orgulho humano na rebel— sim que a mistura da carne com o leite srmbohzaria a fusao entre
dia contra Deus. É a consideração simultânea destas duas faces mãe e filho, com a exclusão do pai. Na neurose obsesswa a
de Lúcifer (ou Satã) que permitirá a Chasseguet—Smirgel demons—
percepção do desejo, submetida ao recalque, conduz a. forrrlla-
trar a oposição entre lei e perversão e, mais que isso, a relação ção oposta de um imperativo de separaçao. Embora 0 lmupu so
,,
essencial entre a perversão e o hybris — violência, excesso, des- sexual tenha uma gênese sádico-anal — e, neste sent—idoínao
d1—

l
l
ll? comedimento, exagero — que era, para os gregos, a própria re— fere do impulso perverso — as técnicas defenswas sao Vigorosa-
presentação do pecado. ,

mente ativadas, dando origem, no plano físico, ao tabu. de tocar,


isolamen-
A evocação do hybris conduz, primeiramente, a uma cujo correlato, no plano psíquico, é o mecanismo do
constatação mais direta, que é a da existência de um ideal de to. Chasseguet-Smirgel prossegue no paralelo “entre a neurose
profanação do sagrado na perversão, que permite, então, concebê- obsessiva e a religião neste quesito, recorrendo as figuras da se-
la como uma “religião do diabo”, tal como na carta de Freud a das do mundo. Conforme
paração na explicação bíblica origens
Fliess de 1897. Em segundo lugar, permite uma exploração consta no livro do Gênesis, Deus criou o mundo dando ordem
semântica do termo que, associado à perversão, desemboca nos de
ao caos que então reinava, em uma operação essencralmente
firmamento
seus sentidos de mistura e hibridação. separação, entre a luz e as trevas, o dia e a norte, o
Na religião judaica, por exemplo, há inúmeras proibições e
restrições ritualizadas, ligadas exatamente ao misturar. “Não co-
zerás o cabrito no leite de sua mãe”, diz & Tora (apud Chasseguet- 8. Era ]ustamente no culto de Astartéia, deusa do amor, da fertilidade e dªs
Smirgel, 1984, p. 218), numa proibição que nossa autora assimila colheitas (citado por Freud na carta a Fliess. juntamente .com o cultç] te
Moloch, como exemplo de “religião do diabo”) que se cozmhava o
fil o e
a interdição edípica que impede a mistura (união) entre
o filho e
no leite de sua mãe.
138 Flávio Carvalho Ferraz 139
A “religião particular" do neurótico

e as aguas e assim por diante. Uma particular


separação foi feita tocar por Chasseguet-Smirgel é o de profanação do sagrado. No
entre as espécies vivas que foram criadas: cada qual passaria a
plano da cultura, o tabu de tocar será quebrado apenas em
se reproduzir a partir de cruzamentos restritos entre
seus exem- ocasiões especiais, sob licença da própria lei, como no caso
plares, ficando impedida a hibridação. Ou, uma vez cruzados prototípico do “banquete totêmico”. É a distensão necessária para
animais de espécies diferentes, a cria (o híbrido) torna-se esté- que se suporte o peso da lei, como justifica Freud tendo em vista
incapaz de reproduzir-se.
'

r1l,
o princípio econômico.
O duplo caráter de Lúcifer manifesta-se no
hybris, portan- O tocar, que assume um caráter impulsivo na perversão,
to, a medida que “o orgulho, o descomedimento, o desejo de
&

rou- é, pois, sujeito a inibições e proibições na neurose obsessiva.


bar o poder de Deus, a hibridação se
expressam na mistura o Transforma-se em tabu. Um paciente perverso que tive9 contava-
desejo de retornar ao caos original de onde jorrará uma nova me de sua espeêial predileção pela prática sexual com mecâni-
realidade” (Chasseguet-Smirgel, 1984, p. 223). Este é o univer—
cos e borracheiros sujos de graxa, com o intuito de ver depois,
so sadeano, revelador da “ideologia” psíquica própria da
são. 'As doutrinas gnósticas não propunham outra coisa senão
perver— em seu próprio corpo e em sua roupa, as marcas de sujeira. Es-
a tas eram lembrança e prova do contato físico entre os corpos.“
abolição da separação entre Deus e o homem, cuja fusão seria a
Já um outro paciente, que apresentava aspectos obsessivos bem
expressão imaginária de um retorno do filho ao interior da mãe
recusando a lei paterna. A religião impõe a lei e pode proibir aquilo claros, sempre que recebia seu carro das mãos de manobristas,
a que o gnóstico se dá o direito. No entanto, ela não pode abolir
costumava passar uma flanela no volante antes de ali encostar
suas mãos, pois sentia repulsa pela “sujeira” que eles ali haviam
odesejo e a tentação, tal como a lei do pai não impede no neu- deixado. O desejo do contato — tocar — homossexual é patente
rotico obsessivo a manifestação inconsciente de desejos pré-ge—
nitais e edípicos. em ambos os casos, mas o ato dele decorrente assume aspec-
A proibição de ver a face de Deus, tos opostos.
expressa na Bíblia en- Freud (1926) associa o mecanismo defensivo do
contra, na própria escritura sagrada, exceções que desvelam o
desejo oculto. Chasseguet-Smirgel (ibid.) aponta uma delas em isolamento, peculiar à neurose obsessiva, ao tabu de tocar, isto
uma passagem da Epístola de São Paulo aos Gálatas, quando é, entrar em contato corporal — seja agressivo ou sensual — com
contrariando o princípio geral daquela proibição no Antigo Tes-, o objeto. Como defesa psíquica, o isolamento impede que idéias
tamento, ele diz que a prática da caridade poderia levar o ho— se toquem. No artigo “A doença sexual: a intolerável invasão”,
mem a ver a face de Deus. Ou, ainda, quando Paulo tenta Pierre Fédida (1991), com muita argúcia, desenvolve esta questão
subordinar a lei à fé e abolir a separação entre criador e criatu— aberta por Freud. Para tanto, corrobora sua impressão de que a
ra, exclamando não ser mais ele mesmo, mas o Cristo que nele
Vive (p. 237). Ora, é exatamente esta tentação Este caso está narrado tanto em meu livro Perversão (Ferraz, 2002) quan-
que e' desenvolvi— 9.
da na gnose, quando a religião cristã levantará to no artigo “A possível clínica da perversão" (Ferraz, 2000b).
seus baluartes
contra ela. 10. Exemplifico o tocar, neste caso, como operação de “profanação", em ra-
Quanto ao tabu de tocar, ele foi largamente explorado zão da história do paciente, que não cabe ser aqui relatada em detalhes.
por Apenas gostaria de marcar o fato de que. na infância, sua mãe o obriga-
Freud (1913) em “Totem e tabu”, inclusive na semelhan'a va a vestir-se de branco quando ele saia para brincar na vila em que mo-
estrutural entre o tabu dos povos primitivos — a proibição de tocªr rava; ela exigia ainda que ele não sujasse sua roupa, que permanecesse
o totem ou de comer o animal-totem sagrado — e o tabu "imaculado". Ao dar relevo ao caráter de “profanação", entretanto, não
particular
do neurótico obsessivo, que eleva certas proibições à posição de quero negligenciar um nível mais regredido do sintoma do paciente per-
lei mcoercível. No domínio da perversão, o sentido verso, expresso pela importância da sensorialidade cutânea (Ahumada,
atribuído ao 1999) no reasseguramento egóico obtido por meio do tocar.
140 “religião particular" do neurótico 141
Flávio Carvalho Ferraz A

neurose obsesswa é um protótipo de todo funcionamento obsessivo é aquele que não uma (acts-our); pelo contrário, ele
humano diante da realidade de uma sexualidade que se vê às voltas vive à margem do ato, dominado pelo processo do pensamento.
com a c1Vilização: Seu “ato” seria, então, um ato psíquico, estruturalmente diferente
do acting-out. Freud (1909) busca caracterizar as estruturas
.Os doentes obsessivos seriam exatamente aqueles que (...)
permitem compreender a maioria das manifestações humanas. Em
obsessivas exatamente pelo “pensar obsessivo”: elas seriam
outros termos, a neurose obsessiva não seria apenas uma “desejos, tentações, impulsos, reflexões, dúvidas, ordens ou
proibições” (p. 223). Portanto, há que se distinguir o estatuto
neurose entre outras, mas sua própria condição de
funcronamento, sua natureza; as teorias que ela comporta na da ação obsessiva do ato perverso.
smtomatologia de seus doentes constituiriam precisamente o O ato propriamente dito, que pressupõe a insuficiência do
ponto de observação de todos os outros fenômenos. (p. 9) processo de pensamento, estaria presente, então, na perversão
e nas formas de psicopatologia afins, em que o caráter impulsivo
Assim, a proibição do tocar que faz parte do instituido
. .
crvrlizatório primordial — ao menos na concepção de Freud“—
.
predomina. Otto Fenichel é um autor que se preocupou com esta
distinção, postulando uma diferença estrutural entre o fenômeno
aparece na neurose obsessiva desvelando o sentido da “doença
da compulsão e o da impulsão. Apesar de o perverso e o
sexual”, vivida como uma “intolerável invasão”. Prossegue obsessivo sentirem—se compelidos a realizar ações, a maneira com
Fed1da: “toda situação com o paciente, devido exatamente a esta
articulação entre o tabu de tocar e a proibição de tocar, implica que experimentam seus impulsos é diferente, e a esta diferença
manifesta entre impulsão e compulsão deve corresponder uma
a capacidade onipotente de tocar pelos pensamentos de invadir
pelos pensamentos” (p. 96).
,
diferença estrutural entre as duas formações psicopatológicas.
Fenichel (1945) afirma que enquanto o neurótico obsessivo

O tocar e, por excelência, ato. E “no princípio foi


o ato” “sente-se forçado a fazer uma coisa que não gosta de fazer, ou
diz Freud (1913, p. 191) em “Totem e tabu”, parodiando o livro
.

seja, é compelido a usar a sua volição contra os seus próprios


do gênesis que diz que “no princípio foi o Verbo”. No processo
crvrlizatório o pensamento ocupa uma parte do funcionamento desejos”, o perverso, por sua vez, “sente-se obrigado a “gostar,
de uma coisa, mesmo contra a sua vontade” (p. 303).
A
humano antes totalizado no ato, assim como na criança parte do No caso da compulsão do neurótico obsessivo, segundo
A
prmcrpio do prazer cede lugar ao princípio de realidade. E no Fenichel, “não se altera o fato de que o ego governa a motilidade,
neurótico, particularmente no obsessivo, completa Freud o
sem se sentir, porém, livre no uso da sua força orientadora, mas
pensamento pode se constituir como um substituto completo,do
tendo de usá-la conforme certo comando estranho de agência
ato._Por esta razão, talvez seja impreciso, sob o ponto de vista mais poderosa, que lhe contradiz o juízo. É obrigado a fazer e a
teorico, designar com o mesmo termo o ato e a ação obsessiva.
pensar, ou a omitir certas coisas, sob pena de
sentir—se ameaçado
Se o pensamento substitui e se contrapõe ao ato, o neurótico
por perigos terríveis” (p. 251). Ora, no caso da impulsão
tal
11. Digo “ao perversa não ocorre uma formação sintomática ruidosa como
menos da concepção de Freud” porque sua idéia de que antes O ato não passa por este trâmite entre as instâncias
do assassrnato do pai primevo somente havia natureza para o ego.
e, portanto aquele
evento instituiu a civilização, recebeu ressalvas consideráveis. Castoriadis psíquicas. Ainda que algum sentimento de culpa possa opor—se
se inclui entre os críticos desta conclusão de Freud, para ele um equívo- ao impulso, este é em geral experimentado como ego-sintônico,
co sob o ponto de vista antropológico. Castoriadis (apud Costa realizado com a expectativa de obtenção de prazer.
1989)
aponta, aSSIm, o que seria um engano central em “Totem e tabu" afirman-
do que' "onde ele (Freud) pensava que havia Chegamos, assim, a um ponto teórico bastante interessan-
natureza, já havia cultura”
Jurandir Freire Costa (1989) corrobora esta visão, acrescentando te que concerne à natureza e à função do sintoma neurótico. Es-
que 'na
horda, “o instituído já estava lá" (p. 65). quematicamente, como acabamos de concluir, o sintoma obses—
Y
142 Flávio Carvalho Ferraz A “religião particular" do neurótico 143

sivo conduz ao desprazer — que pode ser até mesmo extremo — que vinham do quarto dos pais eram fonte de perturbação para
enquanto o sintoma perverso é vivido como prazeroso, até mes- ela. Ora, a função do sintoma — para além do seu sentido — era,
mo como um êxtase de gozo. Mas a economia do sintoma não é entre outras coisas, impedir que os pais mantivessem relaçoes
algo que caiba em um esquema assim tão simples. Vejamos. sexuais. Seu sintoma vai ainda mais longe: não consegumdo
No que concerne à natureza do sintoma, trata—se de uma conciliar o sono, apesar da estrita observância do ritual que
formação de compromisso entre desejo e censura. No caso “O ho- visava a dar-lhe condições para tal, esta moça acaba trocando
mem dos ratos” Freud (1909) reiterava sua fórmula geral do sin- de cama com a mãe e assumindo seu lugar ao lado do pai no
toma neurótico dizendo que os “atos obsessivos verdadeiros (...) leito do casal. Eis, portanto o desejo edípico realizado!
só se tornam possíveis porque constituem uma espécie de É no texto “Inibição, sintoma e ansiedade” que encontrare-
re-
conciliação, na forma de um acordo, entre os dois impulsos an— mos, em Freu'ii (1926), o exame conclusivo deste processo:
tagônicos” (p. 245). Portanto, uma das faces do sintoma será a
Os sintomas que fazem parte dessa neurose (obsessiva) se
da satisfação substitutiva do impulso original que deu origem ao
enquadram, em geral, em dois grupos, cada um tendo uma
próprio sintoma. Por esta razão é que, em uma de suas defini-
tendência oposta. São ou proibições, precauções e expiação —
ções, o sintoma foi considerado o “ato sexual do neurótico”.
isto e, negativos quanto à natureza — ou são, ao contrario,
É assim que, na neurose obsessiva, a defesa acaba
sendo satisfações substitutivas que amiúde aparecem em disfarce
sexualizada e, de modo indireto e disfarçado, coloca-se a serviço simbólico. O grupo defensivo, negativo dos sintomas, é o mais
das gratificações pré-genitais recalcadas. Ainda em “O homem antigo dos dois, mas à medida que a doença se prolonga, as
dos ratos”, Freud diz que .“os atos obsessivos tendem a se satisfações, que zombam de todas as medidas defenstvas, levam
aproximar cada vez mais (...) dos atos infantis de caráter vantagem. A formação de sintomas assinala um triunfo se
masturbatório”, acrescentando que “quanto mais tempo persistir consegue combinar a proibição com a satisfação, de modo—que
o distúrbio, mais evidente isto se torna” (p. 245). Portanto, a o que era originalmente uma ordem defenstva ou prorbiçao
função do sintoma, que seria afastar o ego da realização do desejo adquire também a significância de uma satisfaçao. (p. 135)
proibido, passa a ser a de realização disfarçada daquele mesmo Na neurose obsessiva, portanto, o sintoma cede cada vez
desejo. Ou seja, a força do desejo sexual recalcado transfere-se mais espaço à satisfação substitutiva, “driblando” assim a
para a medida protetora. Ou, de acordo com Fenichel (1945), frustração. Diz Freud (1926) que, se o sintoma representava, em
“as compulsões são obsessões que ainda se sentem como
sua origem, uma restrição para o ego, ele passa arepresentar
impulsos; são também derivados; e a respectiva intensidade
também exprime a intensidade dos impulsos rejeitados” (p. 252). uma satisfação, em razão da tendência do ego a Sintese.“ E
evidente, no entanto, que o sintoma é uma realização s1mboltca
No caso da moça de dezenove anos narrado por Freud
do desejo, privada do caráter francamente sexual (de desçaíga)
(1917) na conferência “O sentido dos sintomas”, a natureza e a
do perverso. Portanto, o resultado final deste processo e um
função do sintoma obsessivo ficam patentes. A paciente
desenvolve um complicado ritual para dormir,12 no qual se inclui ego extremamente restringido, que fica reduzrdo & procurar
satisfação nos sintomas” (p. 141).
a exigência de que a porta do quarto dos pais, bem como a do
No ato obsessivo, a semente da desobediência se oculta sob
seu próprio quarto, permaneçam abertas durante a noite. Os ruídos
a defesa. Na religião de tradição ritualizada este traço, como
12. Não entro nosdetalhes deste curioso ritual, descrito de modo pormenori- lembrança inconsciente de sua etapa gnóstica, tambem esta
zado por Freud na conferência citada. Detenho-me apenas em um dos presente, na figura da tentação. Haja vista o exemplo dado por
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Chasseguet-Smirgel e mencronado
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seus aspectos que é pertinente ao nosso tema.
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144 Flávio Carvalho Ferraz 145
A “religião particular" do neurótico

apóstolo São Paulo, na epístola aos Gálatas, abre a possibilidade julgo que possamos falar de Santa Teresa dºÁvila como uma
de os homens verem a face de Deus, neurótica obsessiva. Mas cumpre lembrar que, com efeito,
numa tentativa de
subordinar & lei a fé e abolir, assim, o fosso sublimação, formação reativa e recalcamento são “processos
que separa o Criador
da criatura no velho testamento. Chasseguet-Smirgel limítrofes”, segundo Laplanche & Pontalis (1967). Ademais, o
(1984) ai
entrevê “o germe da substituição da efusão pela separação, do uso da natureza dos resultados da dessexualização como critério
sentimento oceânico pela interdição moral. Sabe-se que é & gnose de distinção entre sublimação e formação reativa pode estar
que irá desenvolver esta tendência, ou, sem dúvida, seria melhor impregnado por valores, introduzindo uma variante alheia às
dizer, esta tentação” (p. 237). estritas regras do funcionamento psíquico.
Se o próprio texto sagrado, como Aqui, mais uma vez, é possível recorrer à natureza do
vemos, deixa-nos
entrever esta tendência, outras manifestações culturais forjadas processo psíquico engendrado pela gnose para, de certa maneira,
sob a égide da religião nos dão também demonstrações claras aproxima-la do conhecimento místico em sua conexão com o
deste processo. Um exemplo é o fenômeno da impregnação da êxtase, tal como em Santa Teresa dºÁvila. A atitude mística como
linguagem da mística pela retórica da erótica. A descrição uma possibilidade do conhecimento seria uma espécie de “atalho”
pormenorizada da oração de arrebatamento feita por Santa Teresa rumo a apreensão do objeto pelo sujeito cognoscente. Seu oposto
d”Av1la, doutora da Igreja, traz com requinte as seria o conhecimento científico.14
peculiaridades
do êxtase místico. Ela descreve quatro espécies Foi William James (1890), autor que se preocupou em
ou graus de
oração.l3 Na última delas, que é a oração de arrebatamento Santa compreender a atitude mística, quem fez figurar entre as
Teresa dªAvila (apud Granger, 1969) dizia atingir
uma “alegria características básicas dos estados místicos o seu aspecto de
perfeita e inteiramente pura”, e afirmava que estado de conhecimento, visto que o sujeito que se encontra
sabemos que dela gozamos, embora sem saber nesses estados possui a consciência de estar em contato com
como; e uma revelação que inexiste na experiência comum. Esta
.

sabemos que tal felicidade compreende todos os bens


imagináveis, sem poder, todavia, conceber que felicidade é esta' experiência seria, portanto, essencialmente irracional, tal como
todos os sentidos estão de tal maneira repletos ocupados a magia. Mais uma vez, então, deparamo-nos com um argumento
e
desta alegria que não poderiam aplicar-se ao
que quer que seja
para sustentar o fato de que o conhecimento intuitivo pela gnose
de interior ou exterior. (p. 27) “levava vantagem” sobre o método racional que o cristianismo
buscava empregar na demonstração do sagrado (Eco, 1987).
“impregnação dos sentidos” é uma referência à
(_)Ara,_a A experiência mística se oferece como um substituto da
experienc1a corporal peculiar às sensações orgásticas, quando razão. Enquanto a razão é uma espécie de longo caminho para
ocorre Justamente uma espécie de desvanecimento dos sentidos
se chegar ao conhecimento, a experiência mística representa um
concomitante a uma ruptura com o interior e o exterior. atalho em direção a um êxtase, que poderia, assim, “ensinar”
E evidente que, no caso da oração de arrebatamento, &
pureza muito mais do que aquilo que se aprenderia por meio da
com relação ao fator sexual mantém-se no plano ideal,
mas a
propria sublimação aqui assume o montante de prazer de natureza 14. A mística a que me refiro aqui é, evidentemente, uma mística cristã. No
erotlca que escapa. Falo em sublimação, evidentemente, pois não entanto, os gnósticos eram místicos por excelência, e por isso sempre fo-
ram temidos pelas religiões estabelecidas. Segundo Chasseguet—Smirgel
(1984), “o hybris está presente. de forma latente, no místico. A lei tende
13. Asquatro espécies ou graus de oração são: a oração mental, a oração a desaparecer, para dar lugar ao “sentimento oceânico'. Os exercícios
' de uma
de quietude ou de reco/him ento, a oraçao " e a ora ç ão d e arfe - espirituais visam a apagar os limites entre Deus e o Homem e o Homem,
batamento. desta maneira, torna-se Deus" (p. 236).
""—?
146 Flávio Carvalho Ferraz

investigação racional, limitada por natureza ao paradigma de


racionalidade dado. 0 êxtase é, ao mesmo tempo, conhecimento
e gozo, motivo pelo qual a linguagem que o descreve como
experiência íntima busca metáforas no campo erótico (Ferraz,
2000a).
Voltando ao nosso problema da neurose obsessiva,

nos permitiriam pensar que estaríamos, enfim, diante do ato


(acting), contrariando a distinção proposta entre o ato na
para
encerrar, poderíamos nos indagar se a sexualização da defesa e
a vazão da hostilidade ao objeto verificadas em sua cronificação

perversão e a ação obsessiva. Contudo, penso que não, pois ainda


que o sexual e o hostil extravasem no sintoma, sua manifestação
não é direta, permanecendo simbolizada sob o recalque. E, como
enfatiza Freud (1926), a vida sexual do obsessivo

sintoma.
segue restrita,
sendo o prazer fruído, de um modo prejudicado, pela via do

Quando o terrível “não” se insinuava quase autônomo na


,
.,

«umª;
A

CHASSEGUET-SMIRGEL,
Alegre: Artes
“religião particular” do neurótico

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147

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obsessivo, portanto, aproxima-se da satisfação da hostilidade ou ro: Atheneu, 1981.
das moções pulsionais sádico-anais apenas de modo assintótico. Ferraz, F.C. A eternidade da maçã: Freud e a ética. São Paulo: Escu—
Seu movimento em direção ao ato bem poderia ilustrar o ta, 1994.
paradoxo
de Zenão, segundo o qual há sempre uma outra metade do Andarilhos da imaginação: um estudo sobre os loucos de rua.
caminho a ser percorrida... E é precisamente esta lei do São Paulo: Casa do Psicólogo, 2000a.
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decorrentes da recusa.
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via inventado uma complicada oração, que podia chegar a ter uma hora
FREUD, S. (1896). Novos comentários sobre as neuropsicoses de de-
e meia de duração, porque em uma certa ocasião julgara que algo estra-
nho (um “não") se inseria em suas preces, dando-lhes um sentido fesa. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicologicas Com-
opos—
to. Sua intenção inconsciente, que havia sido reprimida,
escapava, pletas. Rio de Janeiro: Imago, 1972. v. 3.
portanto, por meio daquilo que lhe parecia uma intrusão estranha.
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148 Flá vio Carvalho Ferraz
A “religião particular" do neurótico 149
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PENSANDO A NEUROSE OBSESSIVA A

PARTIR DE “ATOS OBSESSIVOS E


PRÁTICAS RELIGIOSAS”, DE FREUD
(
'A'!

Sérgio de Gouvêa Franco

Introdução

“Atos obsessivos e práticas religiosas” de Freud, foi escrito em


1907 e publicado no mesmo ano em revista dirigida por Bresler e
Vordrobt. Aparentemente o trabalho é uma evolução de suas notas
pessoais de 1905 intituladas “Religião corno neurose Ob — religião
privada” (Gay, 1989, p. 477 e 478). Trata-se da primeira incursão
de Freud no campo da psicologia da religião, assunto que ocuparia
a sua mente em vários outros artigos e livros posteriores. O artigo
é um fundamento importante para o texto “Totem e tabu”, escrito
cinco anos depois, onde aparece uma extensa elaboração sobre as
religiões primitivas.
Além do interesse sobre a psicologia da religião, o artigo revela
pela primeira vez o exame de Freud da neurose obsessival desde o
período de Breuer, cerca de dez anos atrás. Ele tinha tratado da
neurose obsessiva em “As neuropsicoses de defesa” (1894),
“Obsessões e fobias” (1895), “Rascunho K”, uma correspondência
a Fliess de 1895 e “Observações adicionais sobre as neuropsicoses
de defesa”, de 1896. Em “Atos obsessivos e práticas religiosas”

1. Lowenfeld em seu livro Die Psychischen ngngserscheinungen (1904),


informa Strachey, assevera que o termo obsessão foi introduzido por Krafft-
Ebing em 1867 e a expressão neurose obsessiva pelo próprio Freud, em
correspondência a Fliess de 1894. Cf. Freud, 8. Atos obsessivos e práticas
religiosas, p. 109.
152 ' ' de Gouvêa
Sergio a partir de...
Franco Pensando a neurose obsessiva 153

fornece um esboço do mecanismo dos smtomas obsessivos revela isto.


breve ira elaborar tratando de que em emprego da palavra cerimonial aplicada aos obsessivos
seu importante caso “O homem dos O que ele pensa que é novo em seu pensamento é notar que esta
rat ” '
“NZÍaS(lnge),uqmuecefetiã/amente apareceu publicado com o título ligação não é superficial. Portanto, o estudo da neurose obsessiva
pUblicou “Cªráter caso
.e neurose obsessiva”. Antes desse caso ajuda a compreender o pensamento e práticas religiosas.
anal; (1908), onde também discute a Há uma familia de sintomas que marcam a neurose obsessiva,
neurose ObsessÍV elrjotismo epors “do O homem dos ratos”
voltou a sendo que os atos obsessivos mencionados no título do trabalho
escrever sºbre 0 tª.
“Tºtem e tabu” (191317213 especialmente nas seguintes publicações: freudiano são apenas um dentre outros. Há também pensamentos,
“Sobre o caso de uma negiiªcesiãiaâiitr'lffrflsg fÉÍCSSÍVª” (191%), idéias e impulsos obsessivos que nunca se concretizam em atos. De
, “Um ara qualquer forma, estas manifestações, digamos assim, fenomênicas,
1

mit ,
_


dªsolcoâílcfªrêçlrgªªmnzit oªsessao Visual” ( 1916), na conferêndia não são exclusivas'ªda neurose obsessiva nem pode servir para defini-
.
XIXÉIII?

'ro .utorias sobre a psicanálise” (l9l7a), em “As la. A neurose obsessiva é um modo de funcionamento da mente que
transforma ç 66 s d o instinto conforme
anal” (1917b) e nos ca P ft U OS V e VI exemplificado no erotismo não se limita nem se define pela compulsão/obsessão. Freud
1
de “ Inibição, sintoma e
. .

reconhece a dificuldade de chegar a uma definição de neurose


ansiedade” (1926).
O que temos em “ obsessiva: “Não chegamos ao critério distintivo da neurose obsessiva,
obsessrvos e práticas religiosas” é camadas muito profundas”
encontro de duas linh as dAtos 0 que provavelmente se encontra oculto em
e pensamento em Freud: os trabalhos
religião e os trabalhos sobre neurose sºbre (Freud, 1907, p. 109).
obsessiva. Freud Procura Os cerimoniais obsessivos são constituídos de pequenos atos
mostrar se melhanças entre as '
ou restrições de ações que devem ser executados em uma certa
*

Ob sessrvos. O . cerimonias religiosas e os “'t “ªls'

que vamos exami ordem. Aparentemente estes atos não têm sentido, mas o paciente não
obsessiva em Freud a partir de “
religiosas”. O trabalho começa pode renunciar a eles; caso contrário é tomado por grande angústia.
com uma exposição do argumento Parece haver uma lei tácita (ibid., p. 110) que obriga o paciente a
freudiano em “Atos obsessivos e práti
ças religiosas”. Depois procura realizar o ritual. Tudo se passa como se fosse um ato sagrado (ibid.)
localizar o artigo seguindo & evoluç coisas são completamente
respeito da neurose obsessiva. 2Nã0 htªpado pensamento
freudiano a que não pode deixar de ser feito. Algumas
da neurose obsessiva. Não intençao de esgotar o tema vedadas aos pacientes e outras só permitidas após a realização de um
determinado cerimonial. Tanto a compulsão quanto a proibição de
.
se investiga tampouco este conceito
.

autores pós—freudianos. em
certos atos na neurose obsessiva são usualmente imperativos a ser
realizados solitariamente. Por esta razão, a neurose obsessiva pode
passar completamente desapercebida socialmente.
O argumento freudiano
em Neste ponto Freud identifica os cerimoniais neuróticos e os atos
“Atos obse ssrvos
' ' '
e praticas religiosas" religiosos. Há escrúpulo de consciência caso os atos sejam
são
negligenciados, há minúcias na execução. Mas os atos religiosos
Freud com eça asseverando que não foi o
primeiro a perceber públicos e simbólicos, enquanto os atos neuróticos são privados e
da
a li g a
ç ãoe ntre os atos obsess1vos
'
e as práticas religiosas O sem sentido. A neurose obsessiva é tomada como uma caricatura
simples são
religião. Freud se propõe, então, a mostrar que as diferenças
Ele pretende mostrar que os atos obsessivos têm
2. Para uma leitura d e “ Atos obsessivos
e ra' mas religiºsas
'
' ' apenas aparentes.
sim sentido e razão. Cada detalhe tem sentido e tal sentido pode ser

_
evolu'çap do pensamento de Freud sobre reli giao,._
a partir da
conferir o artigo de minha
,

ªutoria Os escritos religiosos de Freud — U ma introdução",


em Wondracek revelado mediante a interpretação psicanalítica. Freud ilustra com
. H. K. (org). O futuro
e a ilusão.
exemplos como os cerimoniais obsessivos podem ser interpretados
154 ' ' de Gouvêa
Sergio Franco a partir de...
Pensando a neurose obsessiva 155

lenClaS mªls .
dO .
divina.
expectativa de punição relacionam-se ao temor da punição
] “
.

O neurótic 0 n &" a . Também aqui há recaídas aos desejos suprimidos, gerando novas
() ]
V É
ações penitenciais ou preventivas mais radicais,
à semelhança da
neurose obsessiva.
Para compreender o sentido dos atos obsessivos, explica Freud,
é importante compreender a descoberta que fizera em
A
& .
lr
eXplCSSH'O Ãe'lllnlellfo de Cuwa lnconscienie,
.

OU fªlª de Ullla interpretação dos sonhos sobre os mecanismos de deslocamento


do
resultam de um deslocamento, da
desejo. Os pormenores desses atos
,
m substituição do elemento real e importante pelo trivial. No campo
religioso, os deslocamentos também ocorrem, quando a experiência
religiosa se torna algo distante dos pensamentos fundamentais
desconhecidos do praticante comum.
obsessivos são comparados “
as orações e invocações inter
Diante destes paralelismos todos Freud encerra seu artigo
como medid as P ret ª d ªs dizendo que a neurose obsessiva pode ser entendida como uma
e defensivas nos religiosos
1protetoras
Aq ui se c e ao centro do degeneração patológica da religião. Por outro lado, a religião poderia
_
.

argumento freudiano. A neuros e E


ObseSSiVª owna gil &
go dentro de si: há sempre a ser pensada como uma neurose obsessiva universal e pública.
impmsº p u ] sro nal, um componente da
. repress" d e
pulsão sexual represaclim
ªº destaca como principal diferença entre as duas manifestações, &

o. natureza sexual dos impulsos que geram a neurose obsessiva e a


primazia da natureza egóica dos impulsos que alimentam a religião:
Diante desses paralelos e analogias podemos atrever-nos a
considerar a neurose obsessiva como correlato patológico da
formação de uma religião, descrevendo a neurose como uma
obsessiva
religiosidade individual e a religião como uma neurose
universal. (ibid., p. 116)

Uma leitura sincrônica de


“Atos obsessivos e práticas religiosas"

Propomos a leitura de “Atos obsessivos e práticas religiosas”


primeiramente seguindo uma lógica interna. 0 artigo
é lido “por
para se tornarem uma soluçao ”
d e compromisso
'
en tre ªs fºrçªs dº internos. Mais à frente em
de“ - dentro”, acompanhando seus movimentos
.
e da repressao do desejo (sintoma)
scj?) mais amplo do
nosso trabalho, vamos lê-lo dentro de um panorama
.
paralelismo ' ' ' '
[Zig/ida rãligiosa pode ser facilmente encontrado
pensa FrCUd A“ .
em á uma su p r essao ” , pensamento de Freud.
de certos im No segundo parágrafo de “Atos obsessivos e práticas
pmsmnªis.
.

.“
nÉtiitretanto, na religiao os impulsos suprimidos nÉUISÉS
_

entidade
apenªs de ureza sexual, mas egóicos. O Sªº religiosas”, Freud se refere à neurose obsessiva como “uma
sentimento de culpª e a clínica especial, que comumente se denomina...” (p. 109). Parece
156
Sérgio de Gouvêa Franco Pensando a
.
neurose obsessnva a partir de. "
.
157

que sua proposta de uma nova denominação


tinha ganhado aceitação generalizada.
clínica, feita há dez anos, desejo infantil que permanece. Daí a necessidade de caâtªgçzrfcrããtz
Mas Freud não ' importante notar nesse textoeque p
parece satisfeito ª ºUlPª- O que'ea
*

com uma leitura muito fenomênica, f '[a . .


muito sintomática, de sua é feita de uma repressão defic1ente e imperei
proposta de “uma nova entidade clínica”. Ele “Acurºªeleoãssãsgelece clara entre neurose
obsessiva não pode ser confundida explica que a neurose ql“ ' uma diferença 338552221;
com as obsessões observadas. ' " e' mais
'
e ficiente, o que l
Uma coisa é o caráter
'
histeria a repressao
ilriztiíniziitzllío ,
obsessivo, ou seja, uma marca forte e
.

e menos inibido. Na neurose ºbsãssgíldâãã㪪iª


&

definitiva da personalidade,
que pode estar em várias formas de ameaça do retomo do recalcado com um grandçi isp1
padecimentos psíquicos. Outra coisa é o a m is São que apºio
obsessiva que é um funcionamento que chama de neurose para impedir tal retorno. Os atos obsesswos na
específico da psique com maior '
para impedir es te retomo.
'
ou menor ocorrência de obsessões.
Freud combate, portanto, ;,
apropriação vulgarizante de sua terminologia. A uma
psiquiatria pode tomar
seus termos, mas não deve fazê-lo fora das
seus termos têm com todo o arranjo da
relações complexas que Uma leitura diacrônica de

teoria. A neurose obsessiva obsessivos e práticas religiosas
_

não pode ser identificada ou reduzida “Atos


aos traços obsessivos?
Freud faz uma relação clara
entre os atos obsessivos e a ' '
hecer os
angústia, antecipando tema Uma boa leitura de Freud sempre implica rÍCOiIiIrGUd
que irá aparecer muito mais tarde em
“Inibição, sintoma e ansiedade”. A renúncia dos '
movimentos internos e a evoluçao de seu pensameígS o. não
atos obsessivos gera e que vem
pode ser bem lido sem se reconhecer o que vemtacrii
O
uma angústia intolerável. Aqui temos
um conceito importante na '
sem reconh ecer o sen i o reSSignificante
psicanálise que e' a idéia de
que a angústia só se resolve no ato. Mas dºpºls em seu Pensª mento, , .
s seus escritos. O q ue vem antes e lido e
'
os atos obsessivos não são realmente qli e ele empresta ao
ações humanas livres quanto
.

te retado pelo que vem depms, a cronologia vai para frentee


.
.
Vªl
_

—-
a ação humana pode ser
livre, são atos sintomáticos. Os atos mªl trrriís É o que procuramos fazer agora. Vamos rir o artigo
obsessivos são neste sentido um msi ºbseSSiva
arremedo de ato, uma substituição gªe Freud. na evolução dos seus estudos sobre aneuro-s
patológica do ato humano livre. De
qualquer forma, para não se cair .
a intençao de localizar
em uma coisa meramente descritiva e Não há a intenção de ser exaustivo, mas apenas
necessário ver quais os “ do '
sentidos os atos obsessivos têm o artigo na evoluçao pensamento freudiaii o.
para o paciente.
Encontramos em “Atos obsessivos “Atos obsessivos e práticas religiosas per teme _ de
ª um períºdo
e práticas religiosas” de uma a trauma e a
maneira muito clara a etiologia sexual da “ o qual a teoria já superou ou reinterpretou nççêio
sintomatologia neurótica é uma manifestação
neurose obsessiva. A ' '
noçao de seduça o como pensadas nas primeiras
' '
e a or ªções teóricas .

infantil. Trata—se da repressão de


e retomo da vida sexual Vamos acompanhar esta passagem na obra dedPrend-
certas pulsões parciais da pulsão Nos escritos sobre a neurose obsesswa o Sécmo XIX,
FreUd
sexual que retornam e
que o paciente percebe como '
eu ro Sicose
ameaça. Como o obsessivo não discrimina a tentação e associa esta a histeria: são duas formas diferentes (fe Zociªãão
diferença entre desejar de defesa. Em ambos os casos ocorre uma 18 da
e realizar o desejo, ele se sente ,
culpado (inconscientemente) , com o propOSito
.
de
.
es q uecer
por este cons ciência produzida pelo neurotico
Como se consrdera
' '
impotente esolver um
a o penoso
1

cognflito
.
pªra; a Z sofrer A
o neurótico procura esquecer o que
.
3. Roberto Mazzuca afirma e&
que em Freud a neurose obsessiva deve não mªis se
re reseiitação é enfraquecida e isolada de mo Fazer
vista ligada: 1)a uma semiologia. ser d
uma descrição de fenômenos, 2)
etiologia, com mecanismos específicos a uma asgociar outras idéias. Surge um problema:
a com o afeto
e 3) a uma terapêutica, ou oqueão
seja ' ' '
se move para o
º ex eitapªr”ao agora 1in es? Na histeria, es ta exci
'
' aç
o bsesswa , o
.

Na neurose
.

corp o meio do sintoma converswo.


158 ' ' de Gouvêa
Sergio Franco a partir de... 159
Pensando a neurose obsessiva

de defesa”, Freud
“Observações adicionais sobre as neuropsicoses
escreve:
trabalho]
Esta seção [referindo-se a seção sobre histeria do
é dominada por um erro que desde então tenho repetidamente
sabia
reconhecido e corrigido. Naquela época, eu ainda não
sobre sua infância
distinguir entre as fantasias de meus pacientes
reais. Em consequência disso, atribui ao fator
e suas recordações
etiológico da sedução uma importância e
universalidade que ele
não possui. (p. 168)
s seu afeto,
tornado livre, texto
" ' '
ue não sao Entre os esc'ºr'itos iniciais da psicanálise no século XIX e o
" mesmas e graças q mcom anv' ' da
a essa “falsa ligação”, tais repfese e” "em de 1907 estão A interpretação dos sonhos (1900), “Psicopatologia
.
.
se transfo;m am em ”fªçº“
representações obsessivas . (p 58 - 9) vida cotidiana” (1901), “Três ensaios sobre a teoria da
sexualidade”
.

com o inconsciente” (l905b).


Em “Ob servaçoes "
adic'ionais
'
sobre as neurºpswºsºs' (l905a) e “Os chistes e sua relação
defesa ” , de 1896, ha, um de A teoria mudou muito. Já não há um trauma e um ato específico na
avanço na teoria que Prºcurª CIUCidar sexualidade
carater traumático da ori º infância. Agora a etiologia da neurose tem a ver com a
e pulsões
com experiências infant' como um todo e seus desenvolvimentos, com os estágios
O tra uma se constrtur' '
parciais da sexualidade, com o complexo de Édipo. O que está
na teoria em dois tempos
infantis natureza
.

sexual ” ' ' ' Ha _uma experiência reprimido são desejos sexuais de,
(I;—pe
nao tem Significado sexual para a c riança — o parcialmente
tem p o . a um segundo primeiro edípica.
momento na puberdade
É importante ficar claro que o texto de 1907 não vai apresentar
todas as consequencias para a formulação da neurose obsessiva
início do
advindas das novas teorias apresentadas nestes livros do
ii século XX. Estas consequências só vão aparecer plenamente em
grandes textos posteriores sobre a neurose obsessiva, especialmente
1909 e “Totem e tabu”
o historial sobre “O homem dos ratos”, de
de 1913a. Estes textos sim procuram extrair todas as consequências
da
'
neurose obsessrva ” desse ' da superação da teoria do trauma e sedução para compreensão
a
llVI'O, Freud do neurótico obsessivo
d _
dºs . neurose obsessiva. A problemática da relação
.
All aparece uma Zeígrmªçªª? Slntºmªs ºbSºSSÍVºS . de Édipo é desenvolvida.
definição que P osterio “nente dlSCUUdª
' ' com o pai dentro do panorama do complexo
O amor e o ódio ao pai, a ambivalência, a culpa, a dúvida
,
clinico de “O homem dos ratos”'
_
&
nº Cªsº são
obsessiva.
A "ªtulezª dª apresentados como marcas fundamentais da neurose
Hemose ObSCSSIVa pode Sel
Vamos seguir mais um pouco o desenvolvimento do pensamento
lOllllulª SllllpleS. AS ldelªs explessª "unia
obsessivªs S ao, invariavelmente,
acusações transformadas que reemer .
auto— freudiano quanto à neurose obsessiva para ver isto.
sempre se
giram do recalcamento e que
relacionam com algum at o sexual Em “O homem dos ratos”, Freud deixa claro que a neurose
na infancia. (p. 169) praticado com prazer obsessiva é “apenas um dialeto da linguagem histérica” (1909,
mais difícil de entender e tratar
O texto de l 907 e' p. 140). Um dialeto que considera
dada a intensa dissimulação de saúde do obsessivo. O historial um
um avanço em relação à teoria da é
E sedução e
desde o capítulo
grande esforço para atualizar o seu pensamento
160 Sérgio de Gouvêa Franco a partir de...
Pensando a neurose obsessiva 161

“Natureza e o mecanismo da neurose obsessiva” de &


u S
“Observações () e Va.I e
adicionais sobre as neuropsicoses de defesa”. Trabalhando
entender seu paciente, Freud procura mostrar para
como ele, ao mesmo p
tempo, luta contra o pai e se identifica com ele. Os “delírios
obsessivos” só podem ser superados quando a
repressão de impulsos
cruéis e anais podem ser ao menos em
parte levantada. As proibições
e compulsões então se aliviam. Nas considerações teóricas
deixa clara
a dimensão ambivalente do neurótico obsessivo r
em relação ao seu pai: p
Sua hesitação entre a dama a
quem amava e a outra jovem
pode ser reduzida a um conflito entre a influência de
seu pai e o
amor que sentia pela dama, em outras palavras, a uma escolha
conflitiva entre seu pai e seu objeto sexual... Em toda
a sua vida Conclusão
fora ele inequivocamente vítima de um conflito de
amor e ódio tan-
to em relação à sua dama como em
relação a seu pai. (ibid., p. 205)
Em “Totem e tabu” de 1913a, as ilações freudianas
sobre a ..
-

,
-
. -
-

relação com o pai e a fraternidade são importantes


para entender e a 9

compor o complexo de Édipo. No livro aparecem o tema do horror


ao incesto, da onipotência do pensamento e as
comparações entre a
vida psíquica do selvagem e dos neuróticos. Por
fim, o livro
apresenta um Édipo histórico que se soma ao individual
para explicar
a origem das religiões. !

O livro prossegue tratando o temor do IIEUd Eliallllllª Ilas :Ilanças CS [IEIÇCS da ª“ idªde llnaglnatl ª'
incesto. Afirma que o CCI" & Cllagag ªdultª.
que está claro e patente nos selvagens está oculto no inconsciente do SUgEIE quª “D Indice lníªnnl ternas Lu" FatalElc
neurótico. A analogia se dá nas seguintes linhas: tabu e
o a neurose
obsessiva coletiva enquanto a neurose é o tabu individual.
O
paralelismo pode ser visto: na ausência de motivos
para as proibições, na pSlLªllallSE. ElthUI
na fixação das proibições em virtude de necessidades [Balldíldã 1 &CIL" Surge "Ill blllõlllm CCI" Íun'ug
internas, na
facilidade de deslocamento das proibições,
no contágio dos objetos
proibidos e na existência de ritos que nascem das IICUd(192D) tlnha 1" esugadc :S III::ELIHSIHJS da htlncªdEltíl
proibições. Mas o de uul ano e Inelº(p' 25 8 '
ponto mais importante de semelhança é a análise da ambivalência 113 Jsgc d:] Zílllõtil EX" ”Ina Ctlªnªa
afetiva. O tabu e ao mesmo tempo o desejado
atraente e o temido. l' tt
Freud situa na origem da humanidade um p .
complexo de Édipo real,
um parricfdio original, cuja cicatriz será
carregada por toda a história
posterior. As similaridades de “Totem e tabu” com “Atos
obsessivos
e práticas religiosas” são evidentes. '
mente as
Em “lnibições, sintomas e ansredade , Freud discute ampla
' "
4.
No texto “A disposição a neurose obsessiva” de relações entre a neurose. os sintomas a angustia.
l913b é onde _e
e Dºnald Winnicºtt
vamos encontrar claramente a aplicação das 5. Muito mais tarde nesse século, o psrcanalista mg I_S
noções de transformaria esse binômio em nome de seu livro da maturl'd a de.
Winnicott . ,

desenvolvimento libidinal dos “Três ensaios...” à


noção de neurose D. W. 0 brincar e a realidade.
162 Sérgio de Gouvêa Franco Pensando a neurose obsessiva a partir de... 163

psicanálise inglesa chama-se O gesto espontâneo: São os gestos (1905a). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: Edição
espontâneos que apontam para uma vida menos obsessiva, menos Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janet-
compulsiva, mais livre e mais confiante, uma forma de viver que se ro: Imago, 1996. v. VII.
aproxima da brincadeira. Uma intuição também de Freud (1908):
Como adulto, [a criança] pode refletir sobre a intensa
seriedade com que realizava seus jogos na infância, equiparando
_ (1905b)..Os chistes e sua relação com o inconsciente. Edição
Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janei-
ro: Imago, 1996. v. VIII.
suas ocupações do presente, aparentemente tão sérias, aos seus
jogos de criança, pode livrar-se da pesada carga imposta pela vida __ (1907). Atos obsessivos e práticas religiosas. In: Edição Standard
Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago,
e conquistar o intenso prazer proporcionado pelo humor. (p. 136) 1996. v. DC. .*

(1908). Caigáter e erotismo anal. In: Edição Standard Brasileira


das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. IX.
Referências (1908[1907]). Escritores criativos e devaneios. In: Edição Stan-
dard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Ima—
ANZIEU, D. El cuerpo de la obra. Ensayos psicoanalíticos sobre el go, 1996. v. IX.

_
trabajo
creador. Trad. A. Marquet. México: Siglo Veintiuno, 1993. (1909). Notas sobre um caso de neurose obsessiva. In: Edição
ASSOCIAÇÃO Psicanalítica de Porto Alegre. A neurose obsessiva. Revista Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janei-
da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, n. 17, novembro, 1999. ro: Imago, 1996. v. X.
FRANCO,-S. G. Os escritos religiosos de Freud — Uma introdução. In: (1913a).'Totem e tabu. In: Edição Standard Brasileira das Obras
WONDRACEK, K. H. K. (org.). Ofuturo e a ilusão — Um embate
com Freud Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. XIII.
sobre psicanálise e religião. Petrópolis: Vozes, 2003. (1913b). A disposição à neurose obsessiva. In: Edição Standard
FREUD, Sigmund. Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago,
Completas de S. Freud. Comentários de J. Strachey, em colaboração com 1996. v. XII.
A. Freud e traduzido sob a direção de J. Salomão. Rio de Janeiro: Imago, (1914). Sobre o caso de uma neurose infantil. In: Edição Standard
1996. Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago,
(1894). As neuropsicoses de defesa. In: Edição Standard Brasi- 1996. v. XIII.
leira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996. (1915-1916), Um paralelo mitológico com uma obsessão visual. In:
v. III.
Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de
(1895). Obsessões e fobias. Edição Standard Brasileira das Janeiro: Imago, 1996. v. XIV.
Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. III. (1917a). Conferência XVIII das Conferências introdutórias sobre
(1896). Observações adicionais sobre as neuropsicoses de defe— psicanálise. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas
sa. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. XIII.
Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. III.
(1917b). As transformações do instinto exemplificadas no erotis-
(1900). interpretação dos sonhos. Edição Standard Brasilei-
A mo anal. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Com-
ra das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. V. pletas. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. XVII.
(1901). Psicopatologia da vida cotidiana. In: Edição Standard Além do princípio de prazer. In: Edição Standard Brasi—
Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago,
___das(1920).
Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
leira
1996. v. VI. v. XVIII.
164 Sérgio de Gouvêa Franco

(l926[1925]). Inibição, sintoma e ansiedade. ln: Edição Standard


Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago,
1996. v. XX.
NEUROSE OBSESSIVA E HISTERIA:
GAY, Peter. Freud — Uma vida para o nosso tempo. Trad. D. Bottmann.
São Paulo: Companhia das Letras, 1989. SUAS RELAÇÓES EM FREUD
MAZZUCA, R. et all. Curso de psicopatologia Neurose obsesiva. Bue—
V:
nos Aires: Tekné, 1987. (Psicoanalisis y Psicopatologia). E A PARTIR DE FREUD*
RICOEUR, P. Da interpretação: ensaio sobre Freud. Trad. H. Japiassu. Rio ESTUDO CLÍNICO, CRÍTICO E ESTRUTURAL
de Janeiro: Imago, 1977. (Logoteca). «
%!

WINNICO'IT, D. W. 0 brincar e a realidade. Trad. J . O. de Aguiar Abreu


e V. Nobre. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
0 gesto espontâneo. Trad. L. C. Borges. São Paulo: Martins Fon- André Green
tes, 1990. (Psicologia e Pedagogia).

O objetivo deste trabalho é posicionar e tentar resolver a


'
seguinte questão:
_
Em que, por que e até que ponto e'justificável dividir os
valores do campo psicanalítico em histéricos e obsessivos?
O exame dessa questão implica a consideração de dois
problemas distintos:
wow,“;

,.

]. A oposição entre neurose obsessiva e histeria;


mamas—.,
2. A oposição entre neurose obsessiva, historia e as outras
entidades clínicas.
Consideraremos sucessivamente:
“4

War“-à.

I. O campo psicanalítico freudiano;


II. A oposição neurose obsessiva—histeria em Freud;
III.O campo psicanalítico pós-freudiano e a nova situação da
oposição neurose obsessiva-histeria;
IV. As estruturas histérica e obsessiva.

*
Publicado originalmente na Revue Française de Psychanalyse, n. 5/6,
1964. Tradução de Saulo Krieger.
166 André Green Neurose obsessiva e histeria 167

1
— O campo psicanalítico freudiano lª) Que nos estados de crise aguda a análise quase não tem
utilidade, pois todo o interesse do ego direciona-se então para a
Definir os limites e o objeto desse campo é, de certa forma, dolorosa realidade, escapando à análise que revolve por detrás
fazer a história do pensamento freudiano. dessa fachada para descobrir as influências antigas.
No começo, nas cartas a Fliess, fica claro que esse campo
não está delimitado por ocasião da elaboração dos primeiros 2ª) Sabe-se que, na situação analítica, entramos em rela-
trabalhos de Freud. Se por um lado não se é indiferente ao espírito ção com o ego do sujeito a fim de reduzir os elementos indomados
de descoberta, que traz à luz as intuições mais notáveis da de seu id, isto é, de integrar o ego na síntese. Nos psicóticos,
neurastenia, da neurose da angústia, da histeria, das obsessões, esse trabalho de fusão estaria fadado ao fracasso, o que nos per-
da melancolia ou da paranóia, ainda não há efetivamente no mite estabelecà como um primeiro ponto: o ego com 0 qual po-
pensamento de Freud um campo psicanalítico próprio, mas demos realizar semelhante pacto deve ser sempre um ego normal.
somente entidades que se definem e adquirem coerência pela Mas esse ego normal, tal como a própria normalidade, não é mais
descoberta de seus liames recíprocos mais profundos. Além que uma ficção ideal, ao passo que o ego anormal, aquele que
disso, o campo psicanalítico de forma alguma se limita aos não se presta a nossos propósitos, lamentavelmente não é um.
fenômenos patológicos como demonstram A interpretação dos Todo indivíduo normal não é mais que relativamente normal; seu
sonhos, “A psicopatologia da vida cotidiana” e “A palavra do ego, de alguma forma, aproxima—se mais ou menos do psicóti-
espírito em suas relações com o inconsciente”, obras escritas co. É o grau de afastamento da proximidade de uma ou da ou-
entre 1899 e 1905. ' tra extremidade dessa série que nos fornece uma medida
O campo psicanalítico foi criando forma progressivamente provisória da “modificação do ego”, que é tão difícil de precisar
a partir dos estudos clínicos, inicialmente pelos “Estudos sobre (53 V)—'

a histeria" (1893-1895), mas sobretudo com a “Análise de Dora” A passagem que sucede a essa citação exerce um papel
em 1901, coincidindo com a descoberta da transferência. A muito importante nos mecanismos de defesa que são a preocu—
transferência funda a experiência psicanalítica, seu objeto, seu pação sempre crescente da parte final da obra freudiana em seus
l
ii
lil“?

lª campo. aspectos clínicos. A partir de “Inibição, sintoma e angústia”


Freud jamais escreveu de maneira explícita sobre as (1926), essa questão é amplamente colocada, e mesmo a partir
indicações da cura psicanalítica, mas pode-se deduzir seu de “O ego e o id” (1923). Essas variáveis influenciando no re-
pensamento a respeito, por meio de certos escritos. Em seu artigo sultado da cura manifestam-se não só na constituição do Eu, mas
da fase final de sua obra, “Análise terminável e interminável” também nas modalidades transferenciais: análise da transferên-
(1937), ou melhor, finita e infinita, Freud faz com que intervenha cia e análise do ego aproximam—se de maneira singular (ê VI).2
na apreciação da fonte da análise a força das pulsões e a Uma vez que Freud classificará as resistências, estaremos
modificação do ego, ou, ainda, a parte da constituição e dos tentados a confundir certas tipologias transferenciais com certas
acontecimentos (traumas). Nesse estágio da reflexão de Freud, tipologias neuróticas. Por exemplo, as noções de viscosidade
tal supõe o problema resolvido. Trata-se das dificuldades inerentes libidinal (resistência a mudanças), mobilidade libidinal
aos pacientes que já estão no interior do campo psicanalítico, e
não da discriminação entre os que devem entrar nele e os que 1. A partir da tradução para o francês de Anne Berman, Revue française de
permanecem aquém ou além da abordagem analítica. Em algumas Psychanalyse, XI, 1939.
2. Uma vez que Freud ressalta o caráter relativo da distinção entre o ego e
passagens, no entanto, ele assinala: o id.
wçg

168 André Green Neurose obsessiva e histeria 159

(variabilidade de investimentos), desaparecimento da plasticidade Faz-se exceção as relações da perversão com a pulsão de
(dificuldade em evoluir) farão pensar, para o segundo e terceiro morte (masoquismo) e com a bissexualidade normal (homosse—
aspectos, nas estruturas histero-fóbicas e obsessivas. De fato, xualidade), que têm como prolongamentos a normalidade e a
a análise conduz em Freud, nesse artigo, a oposição Eros-Tanatos neurose.
e à irredutibilidade do complexo de castração. Enfim, como analítico
2) Pode-se concluir, por dedução, que o campo
elemento último e não negligenciável dessa apreciação do campo
compreenderá para Freud:
psicanalítico, tem-se o papel intenso desempenhado pela º As neuroses de transferência: histeria de conversão, fobia e
_

contratransferência, testemunho do desejo do analista (% V).


neurose obsessiva;
Essa menção à “Análise terminável e interminável” (finita
e infinita) foi necessária para fixar os limites do campo.
' Certas “modificações do ego”, as inibições, as formações do
caráter cujzi posição 6 entrevista em “Inibição, sintoma e
1) O campo psicanalítico exclui, pois: angústia”, e às quais se faz alusão em “Análise terminável e
' os estados de crise: as neuroses traumáticas e as neuroses interminável”.
atuais; De um modo geral, o papel do ego é posto adiante por
º as psicoses: maníaco-depressivas (pelo que precede), paranóia, Freud; as modificações do ego determinam a estruturação dos
esquizofrenia. mecanismos de defesa, mesmo parecendo pouco legítimo reduzir
Isso está de acordo com nossa proposição segundo a qual o papel do ego a essa estruturação (o que Freud não faz).
é a transferência que funda a experiência psicanalítica. Freud A forma da transferência e posta em relação com fatores

sempre insistiu'na ausência de transferência das neuroses qualitativos e quantitativos, e reconhece—se uma vez mais a
narcísicas. Os corretivos modernos deixam a questão aberta. De importância no pensamento de Freud do ponto de Vista
forma alguma se pode ter como certo, ainda que se o diga, que econômico. A contratransferência do analista desempenha um
a relação com o psicótico seja a de transferência. importante papel na cura do paciente. * .

O problema da perversão deve ser igualmente examinado Como então concluir, com relação à nossa oposrçao,
à parte por duas razões: neurose obsessiva — histeria? Uma observação se impõe: ela
a) A indicação de análise é raramente posicionada sobre a ressalta o caráter coerente e estruturado das neuroses de
estrutura perversa como tal. É sabido que o perverso autêntico transferência, que é oposto ao caráter fluido, indeciso, inabarcavel
não chega até o analista. São os avatares do desejo perverso, dos dados originados do ego e dos vícios de estrutura da libido,
um “indício de neurotização”, que conduzem até o analista.3 funcionando como variações individuais, obscurecendo a
inteligibilidade dos quadros clínicos e modificando sua
b) As descobertas sobre as perversões referem—se menos
ao desejo perverso do que à hipótese da perversidade polimorfa acessibilidade a terapêutica.
da criança no quadro da evolução libidinal ou das modificações
do ego no perverso, como a Spaltung (clivagem) descrita por
Freud em seu artigo da fase final Die !chspaltung im der Abwher
II —A oposição entre neurose obsessiva
Vorgang (1938). e histeria em Freud

Essa oposição segue ao longo da obra freudianajustamente


3. Disso tem-se uma dentre numerosas provas na resposta dirigida por
Freud à mãe de um homossexual que lhe pedia tomar o filho em tratamento, após “Estudos sobre a histeria” e praticamente até “Inibição,
relatada por Jones no tomo III de sua obra La vie et I'oeuvre de Freud. sintoma e angústia”, ou seja, entre 1893 e 1926.
170 André Green Neurose obsessiva e histeria 171

A) Um primeiro grupo de trabalhos, entre 1893 e 1896 , “as primícias da concepção do objeto perdido”, e mesmo a
compreende: primeira individualização da força pulsante que agirá na raiz da
a) “As psiconeuroses de defesa” (1894, SE, v. III, p. 43); demanda delegada pelas representações, que assumirá uma forma
b) “Obsessões e fobias” (1895, n. 3, p. 33); no conceito posterior de pulsão.
c) ͪAs psiconeuroses de defesa” (carta a Fliess, de primeiro de
3) A dupla infância e puberdade confere ao trauma sua
Janeiro de 1896) (1956, p. 129);
forma bifásica. O papel revelador da puberdade é posto em
d) Novas observações sobre as psiconeuroses de defesa (1896,
evidência pela primeira vez. A reativação minima vem do exterior,
SE, v. III, p. 162).4
pondo—se em relação com os rebentos do acontecimento
traumático, desencadeia a neurose pelo efeito econômico da
a) Um certo numero de noções comuns advém desses estudos
elevação do nível pulsional próprio a esse período.
.1) Sobre o plano etiológico: esses trabalhos refletem as 4) Esse processo institui uma categoria de causalidade
.
primeiras preocupações de Freud quanto a etiologia das neuroses psíquica especial ligada à esfera do relembrar no desejo.
e a defesa da concepção traumática.
5) Essa categoria cria uma classe nosográfica especial: as
Assim, neurose obsessiva e histeria diferenciar-se-ão
psiconeuroses de defesa, que, na época, compreenderão as
segundo:
neuroses e as psicoses5 (paranóia, melancolia, psicoses
' a data do trauma (na neurose obsessiva ela é anterior à alucinatórias crônicas). Essa classe nosográfica especial
da histeria);
distinguir—se-á das neuroses atuais (neurose de ansiedade e
_. o tipo do trauma (ativo na neurose obssessiva, passivo neurastenia) em que dominam os efeitos de retenção, de
na histeria). Freud já faz notar que na neurose obsessiva o
acumulação energética de libido por contenção, idéia que
trauma é de natureza agressiva e perversa: trata—se de um prazer persistirá em Freud até “Inibição, sintoma e angústia”, e na
obtido numa experiência sexual precoce mais ou menos tingida
verdade jamais será refutada por ele, devendo apenas ter seu
de agressividade. E por um traço suplementar
que o recobrimento alcance limitado. Assim, pois, o conceito de defesa inaugura a
dos traumas na neurose obsessiva distingue-a da histeria:
um noção de conflito entre o ego e o núcleo inconsciente; é então
lll trauma passivo recobre e precede o trauma ativo determinante.
essencial lembrar nessa ocasião que, quaisquer que forem as
1 rw

2) Sobre o plano tópico e dinâmico, Freud torna preciso deteminações externas no efeito inicial do traumatismo, ou na
o papel patogênico do trauma na situação de infância. A reativação que está na origem do desencadeamento da neurose,
prematuração confere a essa patogenia um valor particular. As a natureza desse conflito é a de ser intrapsíquico.
cpnseqiiências do trauma não se limitam a seu efeito imediato e
tem um papel constitutivo, pois é na sequência deste
que se há
de criar, dirá Freud, um núcleo psíquico de natureza particular:
Esse núcleo psíquico será como o lugar da outra
cena — a
expressão ainda não é empregada e só o será em A interpretação
dos sonhos. Podemos reencontrar aqui o 5. A denominação que Freud lhes dá, “psiconeuroses de defesa”, explica-
que se pode chamar
se pelo fato de que os sintomas são, em tais casos, defesas bem-suce-
didas. Deve-se notar que a noção de bem-sucedido não é aqui apreciada
4. Para esta primeira parte, escolhemos os textos que valorizam sobretudo
por sua relação com um critério adaptativo, mas tão-somente em função
o desejo de Freud de descrever e definir os mecanismos da capacidade das formações sintomáticas de impedir os conteúdos do
presentes nas
duas neuroses em termos correlativos. '
inconsciente de atingir a consciência.
1 72 Neurose obsessiva e histeria 173
André Green

b) As diferenças entre histeria, neurose obsessiva e fobia tarde ao superego). Além disso, Freud, a partir desse momento,
nos primeiros trabalhos observará a tendência para a multiplicação das defesas e para a
criação de novos sintomas num sentido evolutivo.
1) A histeria — As características clínicas da histeria são
Mas o traço dominante para caracterizar a neurose
extraídas de “Estudos sobre a histeria” (1893- 1895) e dos artigos
obsessiva é a distinção entre a idéia e o estado emotivo.
acima citados. O sintoma histérico é um sintoma de defesa.
Enquanto a idéia será submetida à mudança, o estado emotivo
Trata-se, para o sujeito, de fazer com que a idéia não aconteça”,
permanecerá o mesmo. Esse estado emotivo, diz Freud, é
de enfraquecê— la, sendo essa a tarefa da conversão. “Na histeria,
justificado por sua relação com o trauma. Na neurose obsessiva
a idéia incompatível torna-se inofensiva pelo fato de que sua soma assiste-se à sua perpetuação, intervindo tão—somente a
de excitação e' transformada em. algo de somático. Por isso.
modificação da idéia. A conjunção entre a idéia não disfarçada e
desejo propor o nome de conversão”6 (1953, v. III, p. 49). o estado emotivo permite reconstituir o trauma sexual primitivo.
Há, pois, na histeria, uma obrigação de descarga e uma via Entretanto, uma segunda característica aparece como
aberta em direção à liquidação da tensão, diferentemente da própria a neurose obsessiva, qual seja a de um desenrolar
obsessão. De qualquer forma, essa descarga esvazia a idéia temporal caracteristico polifásico que fará dessa a mais típica
intolerável, ela a esgota de tal modo que não possa mais agir, das neuroses de defesa.
pelo menos é o que quer o sujeito histérico. Esse, no entanto, No primeiro tempo surgem experiências traumáticas,
obtém satisfação à sua maneira em sua mutação, pois ela inicialmente passivas, em seguida ativas, estas sendo as mais
conserva, ainda que modificado, seu estatuto significante. E importantes, onde Freud já realça o teor perverso do trauma. Em .

preciso notar, pelo estado instável da distribuição energética, a outra parte ele dirá que esse ato sexual tem muitas vezes um
plasticidade das conversões. O método catártico é uma caráter agressivo.
retransmutação da excitação, do campo físico ao campo mental. Num segundo tempo, depois de uma decomposição da
Reencontramos aqui a noção de somatização ou de complacência experiência e seu esquecimento, uma circunstância à distância
somática bem diferente, pois, daquela que posteriormente será provoca a reativação da experiência traumática inicial e desperta
descrita com o nome de fenômenos psicossomáticos. O estancar a reprovação que a acompanha com o estabelecimento de uma
no “domínio intermediário” da mobilidade libidinal preserva um defesa recebida em forma de um sintoma primário de defesa, a
estatuto significante que permanece decifrável. se exprimir em forma de compromisso de uma escrupulosidade
2) A neurose obsessiva — É a melhor dentre as estudadas excessiva ou de uma tendência para o remorso como traço de
por Freud, sobretudo nas “Novas observações sobre as psico- caráter geral. A criação dessa forma de compromisso é necessária
neuroses de defesa” (1896). Seu caráter essencial deve-se ao fato à manutenção da saúde, por meio desses primeiros tipos de
de a capacidade de conversão não se operar aqui. O sujeito se sintomas que, para dizer a verdade, ainda não estão aí
encontra diante de uma impossibilidade de liquidação e de muta- completamente. Num terceiro tempo, assistiremos ao retorno do
ção da idéia difícil que se manifestará na forma disfarçada de reprimido. Esta é a verdadeira obsessão; aqui a defesa trabalhará
censuras (onde já se percebe o papel que Freud atribuirá mais plenamente em sua ação de separar a idéia do estado emotivo
com a substituição de uma idéia por outra. Assistimos aqui a um
duplo deslocamento, em que o presente substitui o passado e o
6. Os outros artigos de Freud dessa época que fora dedicados à histeria não não-sexual substitui o sexual mantendo—se o estado emotivo de
fazem mais do que repetir o essencial das descobertas dos Studien. Con-
ferir particularmente: “Les mécanismes psychiques de reprovação, o do desprazer. Em suas Cartas a Fliess, Freud dirá:
phénoménes “A obsessão resulta de um compromisso exato do ponto de vista
hystériques" (SE., v. III, p. 25)e “L'étiologie de l' hystéríe" (SE., v. III, p. 191).
174 Neurose obsessiva e histeria 175
André Green

do afeto e da categoria, porém deformado por seu deslocamento histérico à prodigiosa conservação de lembranças do obsessivo.
cronológico e pela escolha analítica do substituto”. Dois tipos Essa representação-limite opera um deslocamento para uma re-
de obsessões serão essencialmente reprimidas. As que se apóiam presentação conexa (é o cavalo de ansiedade do pequeno Hans)
no conteúdo da ação reprimida e as que aparecem na forma da que fixa a fobia & situação intermediária. Contudo, se lhe é per-
censura. Enfim, num quarto e último tempo, ver—se-á aparecer mitida certa mobilidade, ela não conhece as astúcias e as acro-
a criação de medidas protetoras. São as defesas secundárias que bacias do deslocamento obsessivo.
posteriormente se farão conhecidas com nome de compulsões, B) O segundo grupo de trabalhos, de Dora ao segundo tópico
rituais, verificações, que terão triunfado sobre a idéia obsessiva,
mas que se tornarão elas próprias obsessivas. Nessa segunda etapa do pensamento freudiano, é necessário
A noção de contigiiidade encontra-se aflui manifestamente distinguir alguns passos intermediários.
em causa, a de contaminação por contato assim como na histe— ] . Dora e O homem dos ratos
ria se pode dizer que se viu o nascimento de uma formação cria-
a) Dora (1901) —Freud não se encontra para a histeria na
da por similitude, é o “como se” do sintoma corporal cujo
mesma posição que para a neurose obsessiva. Com efeito, por
estabelecimentoé concomitante à ruptura dos liames de signifi—
detrás dela há a importante experiência dos Studien. O reencontro
cação pela passagem a um outro registro.
com Dora é a ocasião para novas descobertas. Inicialmente é
3) A fobia — Sua definição provém do artigo de Freud de ;
essencial ressaltar que o fundo da neurose histérica de Dora e
1895. O afeto, diz Freud, é sempre a ansiedade, sua origem é uma história de amor, uma história em que o papel de Eros está
traumática e sexual. E conclui: afobia e' a manifestação psíqui- ' em primeiro plano.
'

ca da neurose de angústia. Pode—se, pois, dizer que a fobia re- Algumas das descobertas anteriores são aqui reconduzrdas
.

presentará o caminho recorrente do representante da pulsão para como a complacência somática que prolonga o efeito da
reencontrar avia do domínio psíquico. Ela é diferente da histe- conversão, a interversão do afeto que substitui o desejo pelo
ria por não ser liquidada pela descarga energética há na fobia
——
desgosto, o papel das amnésias que criam essa discontinuidade
uma recusa em cessar, por assim dizer — e diferente da obses- no discurso psíquico. Sobretudo, é preciso relevar três fatos
são pelo fato de não ser perpetuada pela censura, 0 que é como essenciais descobertos por Freud nessa ocasião:
uma recusa em perdurar. Isso explica essa característica essen— º a transferência, e certamente não é casual o desvelamento
cial que foi esquecida pela maior parte dos autores desde Freud, desse conceito fundamental na questão do desejo de uma
a do limite movente da fobia. Há na fobia a criação de uma zona histérica;
opaca, mas também a criação de um tipo particular de signifi- ' significação dos sintomas histéricos são fantasmas
a
cante, uma “representação limite”, dirá Freud numa carta a Fliess, encarnados; o corolário será aqui, de certa forma, a passagem
da qual se concebe que ela pode se modificar, isto e', acentuan- para o ato na histérica: “Assim ela põe em ação uma parte
do-se a regressão, mudar de natureza (obsessionalização). Na raiz importante de suas lembranças e de suas fantasias em vez de
da histeria assistimos a uma subjugação do ego, que suporta pas- reproduzi—las na cura” (Freud, 1954, p. 89);
sivamente o trauma sexual ou os efeitos de seu ressurgimento, º o complexo de Édipo e sobretudo o papel da bissexualidade
esse pavor cria uma lacuna no psiquismo que não existe na ob— no interior desse complexo, fator primordial da identificação
sessão onde se viu que emergiam ansiedades e censuras cons- do histérico.
cientes, ressaltando a ausência de solução de continuidade entre b) O homem dos ratos (1909) — Aqui, a posição de Freud
0 trauma e seus efeitos. Isso opõe os lapsos da memória do com relação ao problema marca uma mudança de tom. Deixa de
176 André Green Neurose obsessiva e histeria 177

existir, com relação ao enigma da neurose obsessiva, a atitude substituído pela ação, e um pensamento enquanto estado pre-
conquistadora dos artigos de 1894, 1895 e 1896 e, de fato, a liminar ao ato aparece com uma força compulsional no lugar do
neurose obsessiva aparece-lhe infinitamente mais complicada do ato substitutivo. (ibid., p. 259)
que ele havia pensado. As razões dessa complicação são por ele Esse processo provoca uma sexualização do pensamento.
examinadas. Semanticamente, a deformação elíptica aparece aqui Em conclusão,
como obra de modo maior. Essa constatação é importante a
medida que denuncia pela primeira vez com acuidade as nessas neuroses, os traços característicos que as distinguem
armadilhas do obsessivo, que o conduzem na constituição de sua da histeria devem ser amarrados, no meu entender, não na vida
instintual, mas nas relações psicológicas.“
neurose, não a essa estrutura lacunar e descontínua da histeria,
mas a uma disjunção das relações de causalidade7 pelo efeito de Que concluir desse estado da teoria até o segundo tópico?
todo—poderoso do pensamento. Essas considerações fazem com ' Que a histeria aparece como domínio privilegiado do Eros, da
que Freud fale da obsessão e seu parentesco com o delírio, transferência, dos sentimentos positivos da Édipo e da
atribuindo—lhe a qualidade de uma organização “arcaica”. O todo- bissexualidade.
poderoso do pensamento nos desejos do obsessivo e' ressaltado ' Que o sintoma cria uma lacuna, mergulha na encarnação
no sentido de que tal pensamento situa o obsessivo no registro somática (conversão) e exprime—se numa linguagem metafórica.
daquilo que posteriormente encontrará seu lugar na obra ' Que o pensamento é atraído pelas formas imaginárias — as
freudiana com o nome de Tanatos: fantasias, por meio da identificação.
os obsessivos em todo conflito estão à espreita da morte da ' Que a obsessão se revelará como o domínio privilegiado de
pessoa que lhes importa, no mais das vezes de uma pessoa ama- Tanatos, o dos sentimentos negativos do Édipo.
da, seja um de seus país, um rival, um dos objetos de amor en- ' Que o sintoma obsessivo é um conteúdo inconsciente
tre os quais hesitam. deformado pelo deslocamento do conteúdo primitivo.
O conflito amor-ódio e a ambivalência que o marca expri— ' Que ele ocasiona um refluxo do ato em direção ao pensamento,
mem-se com uma força que o toma sensível à nossa investigação: que esse refluxo transfere consigo as cargas libidinais que
operam a sexualização do pensamento.
Uma separação por demais precoce dos contrários na “ida-
de pré—histórica” da infância, acompanhada do recalcamento de
um dos dois sentimentos, do hábito do ódio, parece ser a con-
dição dessa “constelação” tão estranha da vida amorosa. (ibid.,
8. Essa observação de Freud é bastante estranha se se levar em conta o
fato de que a etiologia sexual das neuroses tem para ele o valor de um
p.253)
conceito fundamental. Na verdade, achamos que é preciso ver a
Nessa fase do pensamento de Freud, a regressão pulsional prefiguração do que Freud desenvolverá mais tarde em sua obra sobre
dinâmica ainda não está formulada, ao passo que a regressão a neurose obsessiva, a saber: a) o papel dinâmico do desenvolvimento
do Ego antes daquele da evolução da libido (predisposição para a neu-
tópica encontra—se largamente desenvolvida, pois Freud dirá que: rose obsessiva); b) topicamente, o fato de que a instância do Ego desem-
além do mais, graças a uma espécie de regressão, os atos pre— penha um papel mais importante na neurose obsessiva do que na histeria,
esta que se traduzirá nos prolongamentos ulteriores da obra freudiana
paratórios substituem as decisões definitivas,o pensamento é pela importância atribuída ao Ideal do Ego e do Superego. Vê—se a solu-
ção elegante pela qual Freud, sem renegar nada do que havia pensado,
7. Freud também descobre aqui uma organização Iacunar, mas diferente da- resolverá esse problema pelo lugar que ele atribuirá ao Superego, mas
quela da histeria. O sujeito intercala um intervalo entre a situação pato- isso à medida que o Superego tenha ele próprio sofrido a regressão pul-
gênica e a obsessão, preenchendo-o, de certa forma, por generalização. sional que afeta o Id.
178 André Green Neurose obsessiva e histeria 179

' Que a progressão parece se fazer por contato gradativo, fazendo fantasias e sua função é servir de substituto, de gratificação
prevalecer nele uma linguagem metonímica. auto-erótica submetendo-se ao destino de recalcamento e
' Que o pensamento é dominado pelo que posteriormente se obedecendo ao processo temporal habitual do mecanismo
tornará preciso no pensamento freudiano com o nome de inconsciente: recalcamento, fracasso do recalcamento, retorno
Narcisismo (o caráter todo-poderoso do pensamento). do recalcado. A fantasia fundamental redutora de todas as
fantasias manifestas é o coito, em que se pode distinguir mais
2. Antes da Metapsicologia
especialmente em sua forma de ataque histérico uma relação
Em 1908, aparece o artigo de Freud intitulado “Fantasias sexual em que a mulher adota uma posição fálica.
histéricas e sua relação com a bissexualidade”. O conflito entre as pulsões de conservação (introduzidas
Ele estabelece aqui o liame entre os sonhos despertos, as fanta— nessa ocasião)ªe as pulsões sexuais faz—se objeto de estudo dos
sias conscientes e inconscientes, & masturbação e os sintomas histé— “Problemas psicogênicos da visão” (1910, SE, v. IX, p. 209).
ricos. O pensamento ou a idéia intolerável em relação com o trauma Com a neurose obsessiva Freud descobriu () liame entre os
que estava na raiz do sintoma é complementada mais do que subs- atos obsessivos e práticas religiosas (1907, SE, v. IX, p. 115) e
tituída pelas fantasias (a condensação de muitas dentre elas). O sin— o papel do erotismo anal (1908, SE, v. IX, p. 167). No primeiro
toma é seu substituto por “retorno associativo”, ele é a expressão desses dois artigos, Freud descreve admiravelmente a dialética
de um desejo, mediatizado pela fantasia inconsciente, nas formas
_

,A
do que depois passará a diferenciar com os termos ego e supe-
de um compromisso entre tendências opostas dentre as quais pelo rego, especialmente na satisfação extraída dos sintomas. “Uma
neurose obsessiva”, ele escreve, “apresenta um travestimento
z___

menos Uma é sempre sexual, e em relação com a bissexualidade.


Pouco depois, Freud escreve “Algumas observações gerais meio cômico, meio trágico, de uma religião privada.” E em 1913
sobre ataques histéricos” (1909, SE, v. IX, p. 229). Freud dedica à neurose obsessiva um de seus artigos princeps:
Esse artigo representa a última palavra de Freud sobre a “A disposição a neurose obsessiva”9 (SE, v. XII, p. 311), no qual
questão. Parece que serão poucas as oportunidades de seguir são abordadas & questão da fixação e a da regressão. A fixação
mais adiante na exploração da histeria. O significado desse tra- na neurose obsessiva depende de um estado intermediário entre
balho é que “esses ataques nada mais são do que fantasias pro- o auto-erotismo e o amor objetal, aquele em que as pulsões en-
jetadas, traduzindo uma atividade motriz, e representados em contram-se já fundidas, em que o ego faz a escolha por um ob-
pantomima” (SE, v. IX, p. 159). Essas fantasias sofrem as mes- jeto distinto, sem que no entanto se possa falar de um primado
mas deformações que o sonho, desse modo sendo passíveis de das zonas genitais. Essa estrutura particular explicará em certa
análise tanto quanto o sonho. medida a predominância do ódio, da passividade e das pulsões
A análise dessas fantasias revela a prevalecência dos parciais no desejo do obsessivo. Mas, sobretudo, essa forma de
mecanismos de condensação, dos fenômenos de identificação fixação só adquire seu valor distintivo à medida que o ego, oposto
às pulsões sexuais, estiver aqui adiantado na evolução paralela
múltipla, da inversão antagonista e da inversão da seqiiência de
acontecimentos. Essa dupla inversão afeta, pois, em seu valor dessas. É digno de nota que Freud mais tarde voltará atrás nes-
de contra-investimento, termos sincrônicos e diacrônicos. O sa afirmação, atenuando seu valor patogênico em “Inibição, sin—
desencadeamento desses ataques se faz segundo mecanismos toma e angústia”. Nesse estado, entretanto, o “defeito” genital
diversos, seja associatiiiaxnlente (pelo representante da pulsão) seja
9. Não mencionamos “Totem e tabu" (1913), em que a neurose obsessiva é
organicamente pela elevação do nível do investimento, seja pela bastante aprofundada, porém de um ponto de partida mais antropológico
busca de benefícios primários ou secundários. A etiologia dessas do que clínico.
180 André Green Neurose obsessiva e histeria 181

que deixa o lugar normalmente ocupado pela genitalidade vago se ele deixasse esse assunto suspenso. No entanto, em “O ego e
para as pulsões por nós citadas, é uma simples carência por au— o id” (SE, v. XIX, p. 48) encontramos passagens importantes
sência, que em nada prejulga a apreciação do valor das forças no que diz respeito à neurose obsessiva, cujo estudo foi um dos
do que está ausente e de seu ou seus substitutos. mais convincentes motivos para modificar a primeira teoria das
3. A Metapsicologia (1915-1917) pulsões e o primeiro tópico, e para incitar Freud a revisar seu
sistema a fim de torná-lo apto a resolver os problemas postos
A metapsicologia é O último estágio antes da modificação
pela clínica. A regressão pulsional deixava aparecer seus efeitos
profunda do segundo tópico freudiano, e como tal nos oferece na formação dos sintomas, mas a experiência força agora a
a possibilidade de um exame recapitulativo das posições freu- constatar que a; atitude do ego desempenha um papel determinante
dianas sobre as distinções clínicas estruturais presentes na fobia,
na evolução da análise; esse obedece a um sentimento de
na histeria de conversão e na neurose obsessiva. É por ocasião culpabilidade inconsciente contrapondo, dc modo radical, a
da aproximação por comparação com o destino da carga afeti-
progressão da cura, fazendo nela prevalecer a compulsão para a
va que Freud é levado a precisar essas distinções (SE, v. XIV,
repetição. É nesses argumentos clínicos que a pulsão de morte
p. 141, 159).
encontra em parte sua justificação. Mas, como dissemos, é com
Na fobia, constata—se uma substituição de uma represen—
“Inibição, sintoma e angústia”, que o balanço clínico definitivo
tação por outra e um fracasso da economia em desprazer (an— da obra freudiana sobre as neuroses de transferência será
siedade).
estabelecido.
Na histeria de conversão, o representante da pulsão escapa
à consciência orientando-se para o corpo, e por condensação dá ] . Algumas observações gerais devem ser feitas antes de
lugar a uma formação substitutiva, mas, ao contrário da fobia, a abordar as diferenças entre as estruturas
economia em desprazer chega a um resultado eficaz (a bela
Como já mencionamos anteriormente, o campo analítico tal
indiferença dos histéricos). Entretanto, esse resultado não é
inteiramente satisfatório, e O indivíduo é por vezes obrigado a como aparece em “Inibição, sintoma e angústia” pode
criar novos sintomas de conversão ou a constituir outros tipos compreender outros valores além das neuroses de transferência,
de sintomas, como as fobias. como por exemplo as inibições. Ora, a inibição e' vista aqui
Na neurose obsessiva, a regressão domina, o sadismo fica essencialmente como uma restrição das funções do ego pela
em primeiro plano. Por um lado os representantes da pulsão e erogeneização excessiva e pela necessidade de evitar um conflito
dos afetos desaparecem sob o efeito da formação reacional; por com o id ou com o superego (SE, v. XX, p. 96).
O recalcamento primitivo é concebido sob a dependência
outro, assiste—se à constituição desse sintoma primário de defesa
que acima já mencionamos. A economia em desprazer fracassa essencial de fatores econômicos. Ele sobrevém a sequência do
aqui totalmente uma vez que o afeto reaparece e o representante transbordamento, experimentado pelo ego nascente ou imaturo,
da pulsão é apenas deslocado. pelas excitações externas e pelas forças pulsionais que excedem
quantitativamente as possibilidades de tolerância do ego (ibid.,
C) As modificações do segundo tópico: “Inibição, sintoma e
p. 94).
angústia” O ego representa a parte organizada do id na seqiiência
Entre a “Metapsicol gia” e “Inibição, sintoma , angústia”, do acionar do recalcamento. Mas aí se tem uma noção
Freud parece estar p o preocupado com a questão das relações fundamental, estabelecida por Freud, na qual não se atentou desde
recíprocas entre a histeria, a fobia e a neurose obsessiva, como então: o ego encontra-se ao mesmo tempo ligado e separado do
182 André Green Neurose obsessiva e histeria 183

id. Esse conceito faz do ego um órgão de conjunção-disjunção se contexto, qual e' o significado da castração oral? — pergunta
(na terminologia de J. Lacan), menos do que um órgão de Freud.
integração. A autonomia do id continuará a representar o que De resto, trata—se simplesmente de uma questão de subs—
exerce pressão sobre o ego e que permanece, no dizer de Freud, tituição do representante psíquico por uma forma de expressão
“uma organização”. Ele (o ego) “está fundado na manutenção de regressiva ou é questão de uma degradação autenticamente re-
um livre comércio e na possibilidade de influências recíprocas gressiva da pulsão em orientação genital no id? Não é de forma
entre suas partes” (ibid., p. 98), ao contrário do id, que está, alguma fácil ter certeza disso. (ibid., p. 105)
este sim, isolado. O ego busca então englobar os sintomas. O O ego então desencadeia a regressão em caráter defensivo
ato de labor que dá origem ao sintoma representa tal tentativa, suprimindo a oposição dos componentes do sentimento, que são
na qual, conforme a clínica nos ensina, uma adaptação recíproca todos veiculados por uma pulsão em sentido contrário, por meio
do sintoma e do ego acaba por se estabelecer. A melhor prova da regressão.
disso é dada pela constituição das vantagens narcísicas Freud faz a comparação entre João e o Russo (0 homem
conferidas, por exemplo, pelos sistemas obsessivos e paranóicos. dos lobos), o que parece lhe atravancar em sua tentativa teórica,
O ego alia-se então às resistências, não sendo simplesmente pois ele minimiza a estrutura pré—psicótica do Homem dos lobos.
vítima dessas resistências, mas sim seu promotor em sua função, O Russo e um caso-limite, de evidência total, mas Freud parece
mistificante ainda que jamais abandonada com relação ao id. nada querer saber a seu respeito.
“Porque o sintoma, sendo o verdadeiro substituto e o rebento O exame dos diferentes tipos de medo, dos quais a fobia
da moção reprimida, desempenha o papel dessa última. Ele renova nos cºnfere exemplos, leva Freud a identificar um dado'estrutural
continuamente sua busca de satisfação, desse modo obrigando que não só é dado pela experiência, mas impõe—se como tendo
o ego a, por sua vez, dar o sinal do desprazer e pôr-se numa valor de conceito, e é a situação da castração, que aparece aqui
posição defensiva“ (ibid., p. 100). como o critério à luz do qual os outros tipos de ansiedade
2. Distinção entre fobia, histeria e neurose obsessiva poderão ser compreendidos.
A histeria de conversão — Sua frequência encontra—se
lt, Elas formam o essencial dos capítulos IV, V, VI, VII e do
hill consideravelmente reduzida de 1894 a 1926; mesmo Freud
adendo A, a, da obra. dedica-lhe apenas alguns comentários nos quais ele na verdade
A fobia. — A fobia é uma tentativa de resolver o conflito de nada traz de novo no que diz respeito às elaborações da
ambivalência. Tratar-se-á aqui menos de um representante da metapsicologia.
pulsão, de um significante que é preciso abafar, e mais de um Ele simplesmente observa a tendência do ego a se
dos dois componentes dos sentimentos com relação ao pai.10 Essa desembaraçar, a dessolidarizar-se do afeto concentrado na parte
solução é encontrada cercando-se a situação de um dos elemen— atingida pelo sintoma. Em todo caso não há aqui luta do ego, e
tos do par de pulsões conflituais, dirigindo-a a outra pessoa, a o sintoma só reaparece à medida que a situação conflituosa é
um objeto substituto, sendo esse o sentido do antigo desloca- reanimada, e isso quando é atingida a parte do corpo cercada
mento. Mas essa projeção faz retornar a idéia de uma retorsão, pelo conflito. Não é difícil perceber que a fobia (histeria da
o medo de ser agredido pelo objeto do desejo de agressão. Nes- ansiedade) avançou progressivamente sobre a histeria de
conversão.
10. Sentimentos mediatiãªadosjpor representantes, bem entendido, mas a ên- A neurose obsessiva — O traço fundamental distintivo é a
fase, desde a segunda teoria das pulsões, é colocada na luta das pul-
sões no antagonismo de sua ação unificadora ou separadora. regressão. Não se trata de uma regressão tópica, operada pelo
Neurose obsessiva e histeria 185
184 André Green

ego, mas de uma regressão no tocante à organização libidinal, a intermediação dos sintomas para deixar filtrar a satisfação, mas
acronada defensivamente. O reprimido parece ser o vencedor da é forte porque sua notável tenacidade indica que ele está ligado
luta. O ego e o superego colaboram na formação dos sintomas: à consciência e à realidade, as quais, ao contrário do que ocorre
A organização genital da libido revela-se fraca ou insufi- no caso da psicose, ele não abandona.
cientemente resistente, de modo que quando o ego empreende Dois procedimentos mostrarão essa tenacidade de manei—
esforços defensivos, a primeira coisa que ele consegue fazer é ra essencial: o isolamento que operará incessantemente a sepa-
rejeitar a organização genital (da fase fálica) em todo ou em parte ração do significante e do afeto, e a anulação retroativa pela re-
no nível anterior sádico—anal. (ibid., p. 113) petição e pela abolição da ação, mas com a conservação dos da-
Isso não mais se deve, como Freud pensava outrora, a um dos do real.
O pensarfiento obsessivo permanece tributário do tabu do
a

fator temporal, que seria o do desenvolvimento precoce do ego


com relação às pulsões: contato, tal como Freud já havia observado em seu artigo “Atos
obsessivos e práticas religiosas”, e aqui será sempre a relação
Quanto à explicação metapsicológica da regressão, estou de contigiiidade que deverá predominar. Mas na verdade o dado
inclinado a encontra-la numa “defusão de pulsões” num desa-
essencial permanece a proibição do contato. A eventual passa-
pego aos componentes eróticos que, com a instalação do está-
gio genital, reuniram os investimentos destrutivos que gem à psicose (mencionada por Freud a partir de “As psiconeu—
pertencem à fase sádica. (ibid., p. 114) roses de defesa”) acontecerá se ele sobrevir por esgotamento
progressivo.
Na neurose obsessiva assiste-se a uma tirania do superego,
_

Antes de dar por terminadas & neurose obsessiva, a histeria


que cria a diferença fundamental entre a obsessão e a histeria. de conversão e as fobias na referida obra, é preciso que façamos
Na obsessão o recalcamento não e' mais que uma das
algumas observações sobre os contra-investimentos, que devem
defesas, na histeria a defesa limita—se ao recalcamento. A demandar os comentários de Freud.
consequencia dessa distinção é que na neurose obsessiva A resistência, como o investimento, necessita um dispêndio
assistimos a uma luta em dois frontes. O superego é intolerante
e se comporta como se o recalcamento não ocorresse. O permanente, que é aquele figurado no contra—investimento. O
contra-investimento representa uma alteração do ego. Fazemos
ll"
recalcado, o id, é igualmente intolerante e exige satisfação de uma
forma cada vez mais imperiosa. A produção de novos sintomas aqui referência ao ego não no sentido de órgão de adaptação,
corresponde a uma demanda de libertação com relação ao mas no de mediador de satisfações pulsionais e de exigências do
superego. A única via de satisfação que permanece aberta é a superego. O tipo mais claro de contra—investimento é a formação
satisfação masoquista, que enfim ridiculariza o superego por sua reacional da neurose obsessiva. Também na histeria são acionadas
sexualização. Essa constatação deriva das conclusões do exame formações reacionais. Isso quer dizer que nenhuma diferença os
de “O problema econômico do masoquismo” (1924), em que separa? O caráter da formação reacional na neurose obsessiva é
Freud escreveu que o masoquismo ressexualiza a moral. A geral, ao passo que ele permanece particular para o objeto do
formação dos sintomas na neurose obsessiva corresponde a uma amor na histeria, não se difundindo na histeria: na neurose
tentativa que opera o retorno masoquista a uma posição obsessiva o contra—investimento é dirigido para o interior, e, na
transicional ja ' a em “As pulsões e seus destinos” (1915). histeria, para o exterior.
O que dizer, para fechar este capítulo acerca da estrutura Freud conclui que não existe um liame entre o recalcamento
do ego e da discussão tantas vezes empreendida sobre sua força e o contra-investimento externo, e entre a regressão e o contra-
ou sua fraqueza? O ego é fraco se se pensa que lhe é necessária investimento interno. A mais forte das resistências é a compulsão
186 Neurose obsessiva e histeria 187
André Green

à repetição que é o modo de manifestação da pulsão de


morte, seus precursores, na forma da separação dasfezes e da
do que provém a necessidade da “translaboração”" no trabalho separação do seio. Incorreríamos em erro ao conclurr demasmdo
analítico. rapidamente pela adoção de um ponto dez/ista estritamente
3. Conclusão sobre “Inibição, sintoma e angústia” genético. A castração apóia-se nas expertencraslanteriores,
estruturando—as a posteriori (nachtrãglich), isto e', msermdo-as
O mais surpreendente na evolução do pensamento freudiano num conjunto semântico que lhes confere um valor recrproco.
em matéria de interpretação clínica é, em “Inibição, sintoma e Assim o conceito de castração manterá seu valor estrutural,
angústia”, o caráter fundamentalmente reestruturador das ino— formador à medida que aparece como o mais exemplar para
vações trazidas pelo segundo tópico e pela segunda teoria das representar as outras formas de separação, mas isso não quer
pulsões. Afirmou-se falsamente muitas vezes, que a introdução dizer que o coriceito de castração terá exatamente o mesmo valor
da pulsão de morte corresponderia a uma atitude puramente es- em todas as entidades clínicas. E bastante evidente, por exemplo,
peculativa em Freud. Ao contrário, e Freud o assinalará enfati- que no caso das neuroses narcísicas, a noção de perda do objeto
camente em “O mal-estar na civilização” (SE, v. XXI, p. 108) a precederá, por assim dizer, a castração, que em contrapartida
introdução da segunda teoria das pulsões parece-lhe absolutamen- talvez seja o melhor meio de esclarece-la.
te indispensável para a conservação tanto da coerência da dou-
trina metapsicológica quanto da interpretação das estruturas
clínicas. As pulsões com as quais temos que ver são o mais das
III — O campo psicanalítico pós-freudiano e a nova situação da
vezes uma mistura de pulsões em igual medida eróticas e agres—
oposição neurose obsessiva—histeria
sivas, e também primordialmente originárias. Mas aqui assisti—
mos outra constatação importante: uma reconsideração do
estatuto da ansiedade de castração no complexo de Édipo, tor- Para Freud, o campo psicanalítico caracteriza-se: .

nada necessária pelas concepções recentemente introduzidas 1) Por uma modificação do estatuto das entidades clinicas;
por
Rank sobre o trauma do nascimento. Freud, por sua vez, tam- 2) por uma extensão de seus limites.
bém chega a pôr em pauta o problema da castração, uma vez
A) O novo estatuto das entidades clínicas
que ele reconhece na neurose obsessiva uma ansiedade de um
tipo particular, que é a do superego. Ademais, ele observa como As modificações são produzidas sob a influência, por um
o problema do histérico é o da perda do amor. lado, de uma exploração mais agressiva do ego pelos estudos de
Assim, a ansiedade de castração encontra—se inserida numa A. Freud, Reich, Federn, Fenichel, Nunberg, Bergler, Hartmann,
série que comporta a perda do objeto (o luto), a perda do Kris, Loewenstein, Eissler, Nacht, Bouvet, e da teoria do
amor,
a própria castração e a ansiedade do superego. Vemos
que o fator fundamento neurótico das psicoses (concepção de Melanie Klein
comum que une os diferentes termos da série é o risco de e seus alunos).
separação (a falta, na terminologia de ]. Lacan), e a castração
Estudos sobre 0 ego histérico e obsesszvo
só aparecerá
7% uma das formas dessa separação. Ela tem
1.

Já durante o tempo de vida de Freud, & contribuição. de


Reich para o caráter havia testemunhado um desejo dedefimr
11. Tradução para o francês translaboration proposta por J. P. Valabrega, de mais completamente as diferenças entre o ego histerico e o
Dúrcharbeiten, termo também traduzido para o francês como
perlaboration (J. Laplanche). obsessivo, sendo seguido nessa direção por Federn e Fenichel.
188 André Green Neurose obsesswa
.
e histeria
. . 1%

As formas mais recentes e


próximas da clínica dessa ção do ego. Então, na verdade, não mais se trata do ego freué
questão tem sido o objeto do trabalho de Maurice Bouvet
“La relation d,objet”, trabalho
sobre diano, daquele dos estados de dependênCia do ego ou do ego q'Ltlo
que em si já havia dado seqtiência está em questão em “Inibição, sintoma e angustia , mas mu1
a um estudo aprofundado sobre o
ego do obsessivo. A obra mais do ego tal como é entendido por Federn ou Nunbergl...
de Maurice Bouvet é bastante conhecida
pelos leitores france- De qualquer maneira, parece-nos importante ressa tarscc:uS
ses.l2 Só devemos ressaltar
que a perspectiva em que se posi-
ciona Bouvet deve ser situada num traços que pertencem a esse novo ego e que “cm;“;
esforço de “clínica total”, e
portanto de um modo necessariamente confusional, de aspecto sintético. Na realidade, não e exagero nenhunL iz eq ue
uma clí- até o presente momento nos têm faltado estudos so ()
nica que se esforça em “ultrapassar” lre Gang“;
o ponto de vista estrita- iter
mente analítico13 para tentar chegar a uma visão sintética. apesar da importância que lhe e atribu1da pela-
Bouvet procura dizer da relação do
O que
psicanalítica. íAo que parece, tais est-lidos pao po dem
objeto deve ser, de algum absolutamente se bastar, nem de uma posiçao genetica ngrrlih d e
modo e ao mesmo tempo, válido
para o sintoma, para o traço uma tipológica caracterial, como em geral e o caso nos tra a os
do caráter, para o tipo de defesa e
para o tipo de transferência.
Assim, o ego histero—fóbico e o recentes. Somente uma abordagem estrutural do ego nfos
ego obsessivo opor—se-ão pon-
to por ponto. permitirá seguir adiante com o problema, e tal abordagem Ol
O ego histero-fábico é fugidio ao definitivamente a de Freud nos textos aCima Citados.
conflito, definindo-se pela
labilidade de seus investimentos, pela
erotização superficial desses 2. A subjacência psicótica das neuroses
e pela facilidade das identificações, ao
passo que o ego obsessivo
pode ser melhor descrito por manter—se no conflito, É preciso situar sua' origem.-Como, toda modificaçao no
pela maestria
e pela constância dos investimentos,
pela relação à distância. De campo da análise, ela se deve a razoes praticas e teoricas.
modo correspondente, as resistências ao Na prática, a dificuldade crescente nos tratamentos e nos
experimentar demais qut
marcam o ego histero-fóbico assim como as do levou a supor que os problemas fundamentais, as
estrufili
ras
demais afetam o ego obsessivo. Na compreender
situação de transferência, basais descritas por Freud devessem ser elas mesmas rc em 0
as resistências de transferência far-se-ão mais
freqiientes do que de estruturas mais profundamente regressxvas e das quais a
no histero—fóbico, ao passo que a resistência à
transferência
' ”
n'o havia se dado conta.
»“
prevalecerá no obsessivo. teonzzgãcpoãto de vista teórico, as concepções de Melanie Klein
. .

O corroborar entre essas não se limitam à aquisição de um renome no campo em quedsq;


oposições no interior das estru-
turas genitais e pré-genitais (essas últimas aplicação é a menos discutida (as pSicoses). Elas se Íelstep eno
podendo compreen—
der a histeria, as fobias, a neurose ao todo do campo psicanalítico, causando notavelin exao
obsessiva, as perversões e
as psicoses) te temunha um desejo de redistribuir
os valores do pensamento de numerosos autores de meios pSicanaliticos
campo psrcanalítico a partir da estrutura do ego. geralmente hostis à obra kleiniana.
Isso pode parecer autorizado pelas referências “ ' .
Esse fundamento psicótico da neurose nao implica que, e m
lientadas em “Análise terminável e interminável”, por nós sa—
mas não o é se todos os autores, a neurose seja enxertada sobre estruturas
não for acompanhado de uma modificação relacionadas às psicoses, como é o caso nas concepções pessoais
profunda na concep-
de Melanie Klein. Mas um kleinismo espalhou-se, mais ou
menos
12. Conferir “La relation
d'objet”, Revue fr. Psych, t. XXIV, p. 723. “L'oeuvre ordenado pelos autores que retiveram de Melanie Kl—eintalgiiizzs1
de
aspectos, recusando o conjunto de sua concepçao e;;mo
M.
Bouvet”, Rev. fr. de Psych, t. XXIV, 1960, p. 687.
13. No sentido literal.
completa e trazendo certo número de modificaçoes ao ap
190 André Green Neurose obsessiva e histeria 191

metapsicológico freudiano. Pode-se imaginar que o resultado seja essa fixação em nada difere de uma fixação nos estágios
muitas vezes como o de um molde mal talhado.'4 primitivos em que o ego ainda é vítima de sua imaturidade. Sua
a) O ego, bode expiatório — As modificações do ego e de conseqiiência está na não-aquisição do sentido (e nao do
seu sistema defensivo dominam a literatura psicanalítica, mas na princípio) da Realidade.
maior parte das vezes em desserviço dela e para desencargo do .
d) As coordenadas freudianas, que constituem as diferen-
_

analista. O ego torna-se cada vez mais fraco, inconsistente, fluido, tes peças cuja articulação chega à metapsrcologia, sejam elas,
mal delimitado, incapaz de síntese e de ação, incapaz de um dentre outras, as da libido, da agressividade, do masoquismo, do
choque com o real, infantil. narcisismo, da bissexualidade, dos três princípios de Prazer, Rea—
b) A ansiedade como condição de infantilismo e de lidade e Nirvana, são cada vez mais atenuadas em favor de uma
arcaísmo — A ansiedade não é mais, como na teoria freudiana, concepção adaptativa da vida psíquica, em que toda alteraçao
um sinal de alarme, mantendo o valor do termo de sinal todo o relacionada a um modelo pré—estabelecido — que é necessariamente
seu alcance no quadro das organizações do sentido. Está o critério de adaptação à Realidade — é o resultado de uma re-
essencialmente ligada à condição de infantilismo e de arcafsmo gressão global, sem que haja necessariamente a distinção entre os
do ego. É preciso ver aqui uma repercussão indiscutível da tese diferentes tipos de regressão descritos por Freud: regressao to-
de Rank modificada. Se o trauma do nascimento não desempenha pica, temporal, dinâmica, regressão das pulsões, regressao do ego.
o mesmo papel específico que Rank lhe atribui, pelo menos o e) As entidades clínicas fusionam-se entre sr e perdem seus
ego ainda está, assim como a ansiedade que lhe subjaz, na contornos e sua coerência por fragmentar-se secundariamente
dependência de condições muito próximas da condição de numa série de constelações relativas a uma problemática estrita—
imaturidade em que ele esteve no nascimento. Nesse sentido, mente individual, da qual não emerge nenhuma estrutura geral.
quanto mais forte é a ansiedade, mais ela é o indício de uma Dois exemplos ilustrarão de maneira particular as
regressão a estágios recuados do desenvolvimento. modificações da metapsicologia, e esses exemplos estao
c) Afixação — Ela é cada vez menos libidinal, e cada vez diretamente ligados à nossa proposta. São precrsamente as
mais ligada a dados em relação com a agressividade, esta sendo concepções da histeria oral e da neurose obsessiva como dejfesa
em si própria o resultado da frustração externa. Mas muitas vezes contra a psicose. Não e' por acaso que encontramos as raizes
dessas duas concepções num trabalho de Melanie Klein sobre as
14. Conferir, d relações entre a neurose obsessiva e os primeiros estagios da
'outras, as concepções de Fairbairn, as de Guntrip e J.
O. Wisd m (conferir em particular o recente trabalho deste último: “A
'
formação do superego (1928).
Methodological Approach to the Problem of Hysteria", Int. J. of I) A histeria oral
Psychological, XLII, 1961, p. 224), na Grã-Bretanha. Nos Estados Unidos,
o liame com o kleinismo é mais frouxo, mas sua influência é perceptível Melanie Klein retoma a análise feita dois anos antes por
em certos autores, como por exemplo E. Jacobson, Bychowski e Peto. Na
Freud em “Inibição, sintoma e angústia”, sobre a comparação
França. o difícil é não descobrir uma influência semelhante, apesar dos
protestos de antlkleinlsmo em autores tão diversos como Bouvet, Marty, entre a fobia do pequeno Hans e a do Homem dos lobos. Melanie
Fain, Luquet, Lebovici e Diatkíne, J. Kestember, Racamier. O “kleinismo” Klein explorará a fraqueza da argumentação de Freud, tendo ele,
desses autores não é a única referência e encontra-se o mais das ve- como já assinalamos, minimizado a estrutura pré—psrcótica de O
zes fundido a outras influências na liga definitiva, mas sua presença con- homem dos lobos”. Onze anos separam “Inibição, srntoma e
fere ao conjunto um colorido muito particular. Bem entendido, essa
constatação, de nossa parte, não traz nenhum julgamento de valor, mas angústia” de “Análise terminável e interminável”, e a atenção por
assinala os inconvenientes de todo o ecletismo, ainda que praticado em elas despertada nesse período é atribuída por Freud às alteraçoes
nome de uma maior fidelidade à clínica. do ego. Ela está, pois, “com a faca e o QUEIJO na mao ao
192 193
André Green Neurose obsessiva e histeria
'
'
defender a hipotese '
das raizes se
funções adaptativas do ego. Mas não é o analista que aqui
'
psrcóticas da neuros º, "
Cªso sºb re o qual se apóia é, Jª que O
na ex pressão de Freud, a história ensinaria o investimento desse
chama ajulgar? Porque que o nos
de .uma neurose infantil. Mas
não u ma neurose de adulto,
como sinal seria a visão genital do conteúdo decifrado pelo sentido da
seria necessário. de
conversão. Estamos aqui na presença de um deslizamento
Tem-se a' evrdentemente
'
alvo subjaz pela pulsão foi
um abuso a ext ra Pºlar, sentido frequente, no qual o
1

como ela que


o faz, para defender
esse conceito da origem oral das
fobias, substituído pela referência a um estágio genital caracterizado pelo
uma vez que ISSO Significa
. . . .

ão
aplicar esse nome a uma manifesta— tipo “evoluído” da relação de objeto, o que a cada vez permite
que nao pertence realmente ao dro clínico das fobias, e dizer que se tem o sentimento de não se encontrar frente aos
im mutto mais ao dos casos-limite qua
É.

e d estruturas pré—psicóti- ditos característicos, que se está na presença de uma situação


C as .15 Mas
de histeria oral as
'
o concerto de fato,
tanto mais passíxgel de se reatar, de direito se não o for
.

nao menos se estenderá


nesse campo.
à pré-genitalidade.
Grunberger (1952) dedicou um estudo ao conflito oral no
posições de Bouvet, que afirma
omando como exemplo as histeria. Fazendo a distinção entre a regressão do histérico e a
das fobias, ao passo
serem pré-genitais a maior
parte do melancólico segundo os critérios de Abraham (introjeção
nível da
fobia
que Mallet (1956) em seus trabalhos
abordará a implicação o r sobre parcial ou total do objeto) ele não menos o situa no
a,
certas fobias de uma regressão regressão do histérico à fase oral. A marca da oralidade nas
lrbidínal que ele considera serin segundo
Da mesma forma, Bou
o, na verdade, pseudofobias. expressões da genitalidade explicar-se-á pelo argumento
o qual uma manifestação pulsional traz a marca
das impressões
Na
pulsionais das fases que o precederam e de suas fixações.
mesma perspectiva, a introjeção é mais valorizada que
a
identificação, que só desempenha um papel de importância