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MORGAN.. O UNICO

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DOUGLAS ERALLDO

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MORGAN. O UNICO

Praia Grande, 2011

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Copyright © 2011 by Douglas Eralldo

Capa : Adriano Siqueira


Revisão: Georgette Silen
Diagramação: D.E.S

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Eralldo, Douglas
Morgan : o único / Douglas Eralldo. -- Praia
Grande, SP : Editora Literata, 2011.

1. Ficção brasileira 2. Ficção de suspense


I. Título.

11-04047 CDD-869.93

Índices para catálogo sistemático:

1. Ficção de suspense : Literatura brasileira


869.93

Todos direitos desta edição reservados à


Editora LITERATA
Rua Jundiaí - Boqueirão - Praia Grande - São Paulo
e-mail: editoraliterata@gmail.com
www.editoraliterata.com.br

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Hodie,

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# MORTE #

Não! Eu não pedi para que isto acontecesse. Mesmo


assim, despertei donde jamais poderia ter despertado. Foi um
sono intranquilo e o despertar mais tenebroso que uma pobre
alma poderia ter. Não era mais o mesmo, mas estava ali, nem
vivo, nem morto... Simplesmente estava ali, desperto!
Mas não falemos ainda deste momento dúbio em que as
emoções se conflitavam entre a alegria de ainda existir e o hor-
ror pela forma como existia. Devo antes falar, sim, um pouco
sobre quem sou eu, ou pelo menos quem eu era. Talvez assim
vocês possam compreender meus pecados e absolver meus er-
ros. Afinal, não somos perfeitos, nem em vida, tampouco na
morte. Que dirá então quando não se pode definir em nenhum
dos dois casos.
Meu nome? Morgan. Os homens tendem a tornar tudo
diminuto, simples, e foi assim que Expedito Morgan Pereira
tornou-se apenas Morgan. E assim fui sendo chamado por pelo

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menos 28 anos de minha vida, até o fatídico dia de minha mor-
te. Depois não mudou muito, apenas acrescentaram um adje-
tivo: Morgan, o único. É assim que sou chamado. Correção, é
assim que me praguejam, é assim que entoam cânticos enquan-
to me perseguem. Nesta hora nunca é agradável ser o único.
Quem eu era? Muitos diriam ninguém. Eu apenas de-
finir-me-ia como um bom homem. Não tinha vícios, era tra-
balhador, embora não fosse rico também não desejava mais do
que tinha. Vivia numa cidadezinha, cujo nome entoa o que
fora seu passado, um Pântano. Não procurem no mapa, ela é
quase invisível, cortada em cruz por duas rodovias que levam
viajantes a todos os lugares que passam por ela sem vê-la. Mas
a cidade esta ali: parada, estagnada. Ela e sua gente.
Mas é um bom lugar para viver se você tem algo para
fazer. O problema é que a maioria não tem e abandonam o
lugarejo, encravado no coração do estado mais ao sul do país, e
vão para a capital, que não fica longe dali, pouco mais de cem
quilômetros. Mas, ao contrário de meus irmãos, preferi ficar
por lá mesmo. Alguém teria de continuar o trabalho do pai e
da mãe no sítio. Que fosse eu.
Acordar cedo para ordenhar duas vacas leiteiras nunca
me fora problema, tampouco encher o fusca, cor de abacate,
com aipim e ir fazer a feira. As reuniões do sindicato haviam
melhorado minha autoestima e com tempo tinha aprendido a
lidar com os preconceitos contra a gente que é do campo. Mes-
mo assim, sabia que a imagem não era a mais aprazível.
Um fusca de cor berrante e um gordinho ao volante.
Sabe, nunca aceitei que me chamassem de gordo. Gordinho até
podia ser, mas gordo era pedir guerra. Pobre Januário. Era vizi-

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nho, mas um dia exacerbou no adjetivo gordo e os espetos do
churrasco lhe produziram dois vergões de fora a fora em suas
costas esbranquiçadas. Dizia minha avó, temei os calmos, pois
quando explodem a coisa fica feia. Creio que era mais ou menos
isso que acontecia comigo.
Ficou curioso? Quer saber como eu era? Nada demais.
Uns 105 quilos distribuídos proporcionalmente em 1,70m de
altura. O rosto era redondo e na juventude muitas vezes com-
paravam-no com uma lua cheia. Um nariz achatado, olhos cas-
tanhos e um cabelo gateado cortado sempre baixo, mas que
fosse possível deixar duas mechas uma de cada lado da testa.
Dava para dizer que era um meio termo, nem feio, nem bonito.
Ou seja, alguém comum, incapaz de chamar a atenção. Por isso
mesmo meus olhos admiravam Rebeca de longe.
Morava sobre onze hectares de campo que um dia eu
iria herdar. Tínhamos pequenas plantações de milho, hortali-
ças, e criávamos algumas vaquinhas, cujo leite era vendido na
vizinhança. Também tinham os porcos, de cuja carne provinha
as cédulas de dinheiro na carteira. Era um trabalho duro, mas
não me queixo daqueles tempos. Pelo menos eram bem melho-
res que agora.
À tardinha os três, pai, mãe e filho, tomavam um mate
na área da casa simples, mas bem confortável. A brisa vinda do
dançar dos cinamomos abrandava o calor de um verão que pro-
metia ser intenso, enquanto se planejava as atividades da pro-
priedade. Era meu pai um homem velho, quase sessenta anos,
e que o mal de Parkinson começava a dificultar seus afazeres. E
naquela tardinha, um dia antes da minha morte, ele me disse
que não poderia sair no dia seguinte para entregar as encomen-

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das de aipim.
— Tudo bem pai. Eu vou. Tenho mesmo que fazer al-
gumas coisas na cidade, e passar no sindicato para ver como
andam as coisas. — foi minha resposta.
Lembro daquela noite como se fosse hoje. Fiquei até
mais tarde sentado na varanda. Tinha uma predileção por olhar
o céu. Tão imenso. Tão vasto. E não havia melhor mirante que
minha própria casa construída na parte mais elevada da pro-
priedade. E o céu formava uma gigantesca abóboda azul-escura
que findava nos distantes morros que se perdiam com a noite e
meu olhar vago. O sereno umedecia a tez e os grilos pareciam
iniciar uma sinfonia. A brisa sumira e o tempo parecia estático.
O firmamento parecia não se mover e milhares de cintilantes
estrelas me olhavam enquanto a luz prateada da lua cheia se
apresentava por detrás do mato de eucaliptos a leste da casa.
Sentia-me nostálgico, como se pressentisse acontecimentos.
Dizem que pressentimos a morte. Não creio muito nis-
so, mesmo com tantas coisas estranhas que me aconteceram,
mas aquela noite sentia como se fosse a última. Estava tão es-
tático quanto o firmamento e apenas olhava o horizonte em
despedida. Aquela paisagem sempre foi o que mais amei em
vida, até mesmo mais que a própria Rebeca, e era preciso me
despedir. Levar aquela lembrança para a eternidade. Deu certo.
Nunca mais esqueci aquela noite. Nem mesmo o arrepio gelado
que me acordou do sonho e me fez retirar-me para o quarto.
Estava juntando dinheiro para trocar de carro. Talvez
uma camionete. Mas teria de ir para a cidade de fusca. Não era
longe, cerca de vinte quilômetros. Morava numa região que se
poderia nominar privilegiada. Tínhamos água, luz, e o asfalto

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de uma das partes da cruz que era a cidade. Quinze minutos
eram suficientes para chegar à feira e depois distribuir a merca-
doria pelos mercadinhos.
Para facilitar, havia removido o banco do carona do fus-
ca onde caixas recheadas de aipim e hortaliças tomavam o espa-
ço. Um pouco apertado para alguém do meu tamanho e para
piorar detestava o fusca. Nunca o chamei de carro, apenas de
condução, mas era o xodó de meu pai. Estava louco para me
livrar dele e era como se soubesse: e comigo sempre encrencava
para pegar. Como um peão malvado que espora a montaria eu
pisava o acelerador até o fundo, fazendo o barulhento motor
roncar até partir contra sua vontade.
Mamãe sempre se preocupava quando saíamos pela es-
trada. Tinha seus motivos, pois desde que integraram o trecho
com outros do norte do estado, ela havia quadruplicado o mo-
vimento, principalmente com carretas que transportavam para
o porto. Não é algo animador um fusca entre aqueles monstros
da estrada, cujos senhores sabem de sua força e seu poder e não
estão nem aí para os demais. Porém, às 06h00min o movimen-
to do fluxo estava em minha direção contrária e íamos tranqui-
lamente.
O abacate conhecia cada curva da estrada. Se tirasse as
mãos do volante seria bem capaz dele guiar sozinho, de tantas
vezes que fizemos o mesmo trajeto. Cruzamos pela comunida-
de em que todos se iludiam ao pensar que veriam um castelo,
pelas margens rodeadas de florestas, e sem demora contornava
o trevo que dava acesso ao trecho antigo e que levava à cidade.
Minha morte estava próxima.

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Alguns lugares são místicos. Outros são assombrados.
Creio que essa segunda opção era o caso daquele par de curvas
disposto num mortal S. Estava a uns trezentos metros do trevo
quando o fusca me pedia gentilmente a quarta marcha. Na-
quele mesmo lugar, que já levara tantas vidas, eu também iria
morrer. Muitos diziam que ali a morte tinha construído sua
casa para não ter trabalho de ficar viajando por aí. Eu devia ter
escutado essas crendices e não seria mais uma de suas centenas
de vítimas, que nem mesmo depois do desvio da estrada federal
deixava de cooptar almas.
O trecho estava abandonado de reparos, mas era o mais
rápido de se chegar à cidade. Buracos e elevações eram visí-
veis, mas um fusca acostumado a entrar na lavoura nunca se
assustou em andar por ali. No entanto, o problema foram as
vassouras e a sujeira de suas margens que não me permitiram
que visse o ônibus escolar contornando uma das pernas do S.
Não me restou alternativa. Desviei.
Foi quando o volante abandonou a parceria de anos e o
fusca começou a se perder e a rolar como uma bola de futebol,
fazendo a lata gritar cheia de horror cada vez que colidia com o
asfalto e se perder pelo barranco, espalhando produtos agrícolas
pelo asfalto e pela terra manchada pelo meu sangue. Vi apenas
os primeiros rodopios e o cantar de pneus da freada do escolar.
Depois tudo se apagou a cada ferragem que trespassava meu
corpo rotundo. Eu havia morrido. A escuridão tomara minhas
vistas, onde uma única imagem estava impressa: a paisagem da
noite anterior.
Não vi ou ouvi mais nada. Nem as sirenes da polícia,
nem as da ambulância, que em vão se dirigiram gritando até

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o local. Os olhos esbugalhados de pavor das crianças ao se de-
parem com a morte tão de perto me foi negado, assim como a
tragicômica cena de curiosos saqueando as caixas de hortaliças
e aipim enquanto a funerária recolhia meu corpo depois de ár-
duo trabalho dos bombeiros para me retirar do fusca. A morte
era exatamente como sempre imaginara: um vazio negro, onde
nada mais existia. Nem mesmo eu. No entanto, estava próximo
de fazer novas e tétricas descobertas.
E exatos sete dias após minha morte, na mesma data
em que uma missa de sétimo dia velava por minha alma, é que
a coisa mais estranha que podia acontecer de fato aconteceu.
É na noite do sétimo dia que começa a história de Morgan: o
Único.

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# A RESSUREICAO #

Com tudo o que aconteceu pude ter a certeza de que


sabemos quase nada perante o que nos cerca. Nunca duvidei,
mas não posso negar que temia pela veracidade das teorias de
fé, porém, os fatos que sucederam me fizeram crer pelo menos
uma coisa: além da vida a existência pode persistir, mesmo que
decrépita e horripilante. E eu me transformei em prova disso
tudo. Uma evidência temida e odiada.
Preciso dizer que o que aconteceu pelo período de sete
dias, desde o terceiro rodopio do fusca até a ressurreição, é to-
talmente ignorado por minha lembrança. Um vazio, um buraco
negro que possivelmente tem me negado cômicas lembranças,
como fingidos choros em meu velório, cobradores desconheci-
dos e namoradas tristes, principalmente as meninas com quem
mantinha amizade numa casa noturna. Mas, que seja assim,
por mais que tivesse curiosidade de observar meu enterro, isso
passou. E o que preciso mesmo é contar-lhes como se deu a

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ressurreição, embora tenha dúvidas se esse termo é o mais apro-
priado.
Antes, uma breve teoria. A única que sou capaz de for-
jar em minha nova e frágil consciência. Em meus pensamen-
tos, mesmo não encontrando, puxo por alguma coisa de muito
ruim que tenha feito. Um pecado tão imenso que fez com que
os anjos não viessem a conduzir minha alma aos portões de
São Pedro, e tão repugnante que nem mesmo os barqueiros
se dispuseram a conduzir-me aos porões do inferno. Só algo
desse gênero poderia ter me deixado na pior das situações. Um
meio termo entre estar vivo e ao mesmo tempo ser um morto
putrefato. Ou teria sido eu tão insignificante em vida que anjos
e barqueiros não perceberam que os esperava, fosse para me
jubilar no paraíso ou para pagar pelos erros sob as chicotadas
de Lúcifer? Sem a lembrança deles, fiquei imerso em profundas
trevas onde apenas a escuridão e o silêncio existiam.
Mas ao sétimo dia tudo começou a mudar. As Trevas
começaram a dar lugar a uma nova e horripilante forma a qual
jamais pensei que fosse ser possível existir. Não sei precisar o
exato momento que, mesmo débil, a consciência voltou a lam-
pejar em esparsos e curtos flashes. Era como se estivesse prestes
a acordar de uma longa noite de sono, aos poucos e preguiço-
samente, sempre postergando um pouco mais o momento. As
sombras das trevas continuavam a me cobrir, mas a sensação de
despertar era, a cada espasmo, mais nítida.
Os flashes de consciência tornaram-se então maiores.
Foi quando o silêncio foi quebrado por ruídos enervantes e
frenéticos, que embora abafados, davam a sensação de algo sen-
do ruído. Era uma efervescência de sons, como se replicassem

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um milhão de formigas picotando as folhas carregadas a um
formigueiro. Um som angustiante, mesmo que naquele mo-
mento não fizesse a mínima ideia de onde me encontrava. Logo
descobriria que aquele nefasto ruído provinha dos vermes que
corroíam minhas apodrecidas carnes.
Estava dentro de um caixão. Um ostentoso caixão, em-
bora não o visse. Não sentia dor, nem ao menos cócegas, e na
verdade o tato é um dos sentidos a nos abandonar neste estado
de meio termo que me encontro. Era como estar anestesiado
numa cadeira de dentista. Você não sente a maldita broca ras-
par seu dente, mas ouve perfeitamente o som aterrorizante dos
dentes sendo violados. Era desta forma que os vermes desfila-
vam por meu corpo que jazia inerte, num repouso prestes a ser
cancelado.
Em um novo flash, ainda mais longo, numa espécie de
parto, onde as contrações cada vez são mais constantes em in-
tervalos menores de tempo, senti que meus olhos se abriram.
Não viram nada. Absolutamente nada, mas se abriram, e o nada
coberto por um negro denso por alguns instantes foi substitu-
ído pelo turvo amarronzado de um invólucro claustrofóbico,
onde jazia. Já sem a tão propalada paz, impressa nas lápides.
Não havia mais volta. A ressurreição estava em pleno
processo e a cada novo flash a visão era menos turva e mais as-
sustadora. Num desses flashes pude ver o tom de carvalho im-
presso na madeira, os vincos e até mesmo um pontal negro do
sapato que me fora presenteado para aquela específica situação.
Mas a consciência inconsciente ainda não permitia saber o que
se passava naquela penumbra sufocante que me cercava. Faltava
muito pouco para emergir das profundezas de um túmulo no

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coração do cemitério da família Morgan.
Não são tão comuns nas cidades maiores, mas num lu-
gar como aquele ainda existia os cemitérios familiares; se bem
que o dos Morgan servia de ultimo descanso para todos os
mortos das duas comunidades mais próximas e há anos não
se poderia dizer que apenas os Morgan jaziam ali. O cemitério
ficava entre a comunidade onde vivia o defunto em questão e
a de Monte Castelo, nome advindo de um combatente brasi-
leiro na segunda guerra mundial e sua participação na Batalha
de Monte Castelo, na Itália. Por isso muitos se enganavam ao
imaginar encontrar algum castelo.
O terreno sagrado existia há pelo menos uns duzentos
anos, quando apenas os Morgan habitavam vastidões de terras,
que foram sendo repartidas e colonizadas por viajantes de ou-
tros lugares, até erguerem-se as duas comunidades mais antigas
até mesmo que o centro da cidade, que prosperara rapidamen-
te. A estrada velha dava acesso ao lugar, que longe do tráfego
dos caminhões que passaram a usar o novo trajeto propiciaram
o silêncio merecido dos mortos.
As sombras da noite eram sonorizadas pelas corujas que
se aninhavam pelos eucaliptos ao fundo do cemitério. Os tú-
mulos, alguns mal cuidados, eram tomados por liquens e des-
truídos pelo tempo com suas chuvas e ventos, e se constituíam
apenas um traço na penumbra daquele sétimo dia. O vento,
mais forte que o habitual, fazia levantarem-se redemoinhos re-
voltosos da poeira da estrada vicinal que levava às propriedades
mais afastadas. Um cenário perturbador para o que estava pres-
tes a acontecer.
No coração da vasta caixa de madeira, que deveria ser

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meu invólucro eterno, no último flash, o derradeiro, o da cons-
tatação da anormalidade a que sucumbia um corpo abando-
nado, revelaram-se os sentidos mais aguçados de minha nova
condição: o olfato e a força. Mas aguardem apenas um momen-
to para que lhes fale como se manifestaram demoniacamente
tais sentidos, pois antes acho importante dizer-lhes algo sobre
o que sempre mais temi em minha vida.
Mais do que a própria morte, o medo de ser sepultado
ainda com vida sempre perturbou meus pensamentos de tal
forma que, por inúmeras vezes, cogitei herdar de outras vidas
traumas de tal situação. Irmã Lourdes, que na verdade era mi-
nha tia, e que estudava espiritismo e forças místicas, em vá-
rias oportunidades me disse ser realmente possível que fossem
lembranças de um fato acontecido em outras passagens minhas
sobre a terra. Tais pensamentos me perturbavam de tal forma
que sempre vinha saber de fatos suspeitos, como mortos exu-
mados que estavam em posição diferente quando do sepulcro.
Naquela noite, algo muito semelhante aconteceu comigo.
Como disse, o olfato é um dos sentidos que se multipli-
caram em minha nova condição, enquanto outros praticamen-
te desapareceram. E para um olfato aguçado despertar invadido
pelo cheiro de podridão de suas próprias carnes é aterrorizante
e sufocador. Sufocador? Sim, naquele último flash engolia cada
partícula ínfima de ar com a voracidade de quem, há sete dias,
não sentia o oxigênio inundar suas vísceras. Mas o ar retido por
dias no caixão era insuficiente para minha ânsia de respirar, e
foi aí que inconscientemente fiz uso de uma nova e valorizada
característica: a força.
A madeira firme sucumbia como isopor aos socos fre-

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néticos e logo a terra começou a ser sugada para o interior do
caixão. Mas, como um tatu, meus membros abriam caminho
nervosamente, sabendo que sobre mim haveria o que tanto pre-
cisava naquele momento: oxigênio. Em poucos minutos um
braço decrépito eclodia da terra fugindo do mundo submerso
dos mortos. Naquela noite. Exatos sete dias depois de minha
morte uma coruja piou, para testemunhar o novo e tenebroso
Ser que se revelava sob a terra.
Um zumbi nascia para o mundo. Nem morto, nem
vivo, mas estava ali, naquela nova e inesperada situação. Sem
saber o que fazer, ou o que era, ressurgi com meus vermes para
um novo mundo. A figura horripilante que me tornara, com o
corpo já liberto, tinha uma única vontade: gritar!

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