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Brasileiros, Alerta!

A Imbecilidade Cresce em
Todo o País
GALENO PROCÓPIO M. ALVARENGA
www.galenoalvarenga.com.br

Esse livro faz parte do acervo de publicações do Psiquiatra e Psicólogo


Galeno Alvarenga. Disponibilizamos também a versão impressa, que
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Tags: Comportamento / Condutas, Crenças antigas / Mitos / Superstições,


Doenças Mentais (transtornos), Drogas / Medicamentos / Remédios, Educação e
Conhecimento, Emoções Sentimentos Controle, Estresses Problemas e Adversida-
des, Família e Casamento, Festas populares e Lazeres, Informação Linguagem e
comunicação, Livros Online Grátis, Livros Psicologia, Livros Psiquiatria, Pintura
dos esquizofrênicos, Política: Políticos e Corrupção, Problemas Familiares, Socie-
dade: Valores e Cultura, Uso de Drogas (Consumo)
Galeno Procópio M. Alvarenga

BRASILEIROS, ALERTA!
A IMBECILIDADE CRESCE EM TODO O PAÍS

Belo Horizonte
2009

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Copyright © by GALENO PROCÓPIO M. ALVARENGA

Supervisão Gráfica
Sofia Lopes

Edição Independente do Autor


Galeno Procópio M. Alvarenga

Imagens capa e contracapa


Galeno Procópio M. Alvarenga

Diagramação
Marcos de Oliveira Lara

Capa
Max Guedes (Estagiário)

Revisão
Maria Isabel da Silva Lopes

Impressão
Sografe

Contato c/ o Autor
galenoalvarenga@terra.com.br
www.galenoalvarenga.com.br

Alvarenga, Galeno Procópio de Mendonça


A473 Brasileiros, alerta! A imbecilidade cresce em
todo país / Galeno Procópio de Mendonça
Alvarenga. – Belo Horizonte: Ed. do autor, 2009.
268 p.
ISBN 978-85-907543-9-8

1. Ensaios brasileiros. 2. Estupidez – Ensaios.


I. Título.

CDD: B869.45
CDU: 869.0(81) – 4

Elaborada por:
Maria Aparecida Costa Duarte
CRB/6-1047

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AgradecimentoS

Aos intelectuais terrestres que sonham ser


sábios. O homem é idiota por natureza.
A burrice atinge a todos os animais huma-
nos, uns mais, outros menos, conforme as
áreas do conhecimento.

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SUMÁRIO

UM NOVO PRODUTO À VENDA: O SEMIANALFABETO............... 9


TELEVISÃO E BURRICE...................................................... 17
UM CONTO QUASE DE FADAS............................................. 21
TV E PESQUISAS DE OPINIÕES: VOCÊ DECIDE..................... 27
DUAS CLASSES: CULTOS E INCULTOS................................. 35
SALVE NOSSO GOVERNANTE............................................. 37
A LIBERDADE DOS JOVENS................................................ 39
NOSSA LIBERDADE E OUTROS PODERES............................. 45
COMO ERA VERDE MEU VALE............................................. 49
AS CONSTITUIÇÕES QUE PASSEI NA VIDA........................... 55
INTUIÇÃO, RAZÃO E JULGAMENTO MORAL........................... 61
BICHOS OU SERES HUMANOS?.......................................... 65
COMPUTADOR E FERRADURA............................................. 69
O MODELO DA LATA DE LIXO............................................. 75
REFERENDO: UMA DECISÃO IMPOSSÍVEL............................ 79
A MULTIDÃO SOLITÁRIA.................................................... 83
GUERRA, HERÓIS E INOCÊNCIA......................................... 87
OS MAIORAIS.................................................................. 91
A FABRICAÇÃO DO HOMEM FORA-DE-SÉRIE......................... 99
O QUE DESEJAM AS PESSOAS?........................................ 103
HOMEM: ANIMAL CONTRADITÓRIO................................... 107
A VERDADE DE CADA UM................................................ 113
Afirmações Duvidosas............................................... 117
A Loucura: Fabricação Da Normalidade.................... 121
O Vasto Mundo das Drogas........................................ 127
Médico x Cliente........................................................ 131
AS DOENÇAS E OS JARGÕES MÉDICOS............................. 135

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Confissões De Uma Médica......................................... 139
O DIFÍCIL ENCONTRO:MÉDICO E PACIENTE....................... 145
A Propósito de uma Gripe........................................... 147
TRANSTORNO MÉDICO-PSIQUIÁTRICO OU FICÇÃO?............ 153
LOUCOS X SEM-TETO...................................................... 163
A testemunha do Ponto de Vista Psiquiátrico.......... 169
Duas vertentes.......................................................... 175
Placebo, a Pílula Dourada......................................... 179
AIDS: VOCÊ TEM MEDO DA DOENÇA OU DO DOENTE?........ 183
AIDS: O Pânico está Solto.......................................... 187
COMO CONTROLAR OS ACONTECIMENTOS........................ 191
O PREÇO DE UMA ESCOLHA:ADEUS ÀS ILUSÕES................ 195
DINHEIRO, NOSSA ATUAL DEVOÇÃO................................. 203
SENHORES DO PODER.................................................... 207
OS NARCISISTAS MODERNOS.......................................... 211
OS NOVOS DEUSES........................................................ 215
DISCURSO: O TOQUE SUTIL DOS SONS............................ 217
O QUE SE ESCONDE POR TRÁS DOS SLOGANS?................. 221
QUANDO AS PALAVRAS MENTEM...................................... 227
O CONHECIMENTO E AS DIVERSAS LÍNGUAS..................... 231
UM LUGAR AO SOL......................................................... 237
A MENSAGEM................................................................. 241
VIDENTES: A PROSTITUIÇÃO DAS PALAVRAS..................... 245
adIvinhos: esses desaDAPTADoS................................ 251
FÉ: Um Poderoso Medicamento................................... 255
A SANTA QUE FALA português....................................... 261
O PODER DO BOATO....................................................... 265

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UM NOVO PRODUTO À VENDA:
O SEMIANALFABETO

O analfabeto aos poucos tende a desaparecer e com


ele termina um ciclo da cultura popular. No seu lugar nasce
seu sucessor mais próximo e imediato, um novo indivíduo,
fabricado para ser um consumidor fanático. O analfabeto
está sendo transformado em semianalfabeto, para alguns,
cerca de 90% da população do nosso querido Brasil.
Os dois têm pontos em comum, mas têm suas di-
ferenças. Os primeiros, nossos antepassados, livres do
domínio de seus atuais donos, vivendo mais isolados em
seus grupos - ainda não existia a “aldeia global” - foram
mais criativos, inventaram as ciências e as religiões, as
pinturas, canções, escritas e estabeleceram os valores. Os
semianalfabetos, ao contrário, nada criaram, seguem ca-
bisbaixos seus donos.
Estes, ainda que possam parecer atraentes por fora,
são vazios por dentro. Uma vez promovidos a semialfabe-
tizados, prenderam-se nas redes preparadas pelos que os
ensinaram a ler e a escrever, tornando-os presas fáceis de
serem manipulados pelas classes empresariais que ajuda-
ram a criá-lo e que passaram a ser o tutor desse grupo.

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Hoje o semialfabetizado representa o principal cidadão-al-
vo do comércio, é o homem comum, o medíocre, o fácil de
ser manipulado.
No lugar da cultura popular criada pelos analfabetos,
seu antecessor nada produziu. Não temos e nem teremos
uma cultura do semianalfabeto, vai morrendo a cultura po-
pular, talvez enlaçada com a cultura sofisticada.
O grupo dos semialfabetizados vai, pouco a pouco,
aumentando seu número. Fabricado aos milhares sem cui-
dado ou técnica apurada, dentro do modelo usado na fabri-
cação dos chinelos de liga ou da lata de lixo, eles diferem,
tanto do seu irmão analfabeto livre e mais reflexivo, como
do outro, o culto, o acostumado a ler, construído dura-
mente, um a um, com cuidado e dedicação. Apesar disso,
os semialfabetizados estão alegres, sorriem, mostrando os
dentes claros e brilhantes para seus proprietários. É uma
felicidade ingênua, estranha e servil.
Seus senhores, principalmente os políticos, sempre
bem acompanhados e protegidos pelos empresários, co-
nhecedores do fim dos seus produtos e dos investimen-
tos feitos, manipulam cuidadosamente estes infelizes para
alcançarem seus objetivos. Fornecem-lhes cartilhas para
lerem, textos simples, de fácil compreensão, nada de com-
plicado, propositadamente preparados para eles. Os tex-
tos fáceis, digeríveis na primeira passagem, carregados
de noções falsas, têm como finalidade básica impedi-los
de pensar por si, isto é, de usar suas mentes num progra-
ma de benefício próprio. Mas a presença dos livros, a ida
às aulas, as amizades formadas nas escolas conseguem
diverti-los, bem como mantê-los unidos. Entretanto, dada
a simplicidade do estudo lecionado, na maioria das ve-
zes por pessoas não-sofisticadas, eles se transformam em
pessoas ainda mais incapazes de fazer uso da inteligência
e crítica. Como robôs, aprendem a comportar-se em blo-

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cos, não mais como indivíduos, a pertencer a um certo
partido político e votar num determinado candidato, a se-
guir a religião em moda, a comprar certas mercadorias, a
defender certas ideias desconhecidas, escondidas e nunca
acessíveis a eles.
Estes pseudoalfabetizados foram construídos para se-
guirem os comandos, não para pensarem, jamais refleti-
rem e perguntarem: “o que quero, o que devo fazer com
minha curta vida?“. Orgulhosamente, de modo semelhante
a outros animais, mais abaixo na escala zoológica, como
cães, galos e lagartos, eles buscam o fundamental da vida
animal: alimentar-se, procriar e ter sua toca para lhes dar
segurança contra os predadores, que são, principalmente,
os próprios dirigentes aliados a eles.
Eles vivem quase que exclusivamente o momento
presente, o “aqui e agora”, transmitidos com orgulho, en-
quanto seus proprietários, desejando vender aparelhos e
ideias, planejam o futuro onde eles são os consumidores
cegos. Eles respondem aos estímulos do meio ambien-
te de forma direta, sem intermediação de seu “Eu”, pois
este foi bloqueado, encontra-se enferrujado, incapaz de
ser usado.
Não possuindo planos individuais próprios, estes in-
divíduos agem como certas espécies de animal: formigas,
abelhas, cupins. O indivíduo separado existente dentro
dele, com história própria, foi assimilado pelo grupal, pelo
social, que é valorizado acima de tudo. Todos têm as mes-
mas ideias, os mesmos ideais, os mesmos instrumentais
para chegarem onde supõem querer, as mesmas alegrias
e tristezas, todos seguem os mesmos planos do grupo co-
eso. Não há dissidentes. Num programa de auditório é fá-
cil verificar este comportamento: a pessoa escolhida para
opinar na roleta da sorte, antes de decidir a resposta a es-
colher, sempre ouve o auditório. É a voz do grupo, do qual

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ela faz parte, que decide; o grupo sentencia se ela deve
parar de apostar e ganhar um prêmio menor, ou continuar
e arriscar-se a perder tudo.
Seus ouvidos, estão presos ao auditório, este lhe or-
dena, na ausência do chefe, o que deve fazer. Ela obedece
servilmente, com naturalidade e sorridente, ao comando
externo.
Os semialfabetizados, iguais na conduta, têm, entre-
tanto, diferenças em algumas características, que são exi-
bidas com orgulho, tais como a impressão digital, o CPF,
a rua e o número da residência, o modo de escrever a
primeira letra do seu nome e ainda o modo de pentear o
cabelo e de fazer a macarronada.
Eles não possuem uma mente crítica individual, ba-
seada na sua história pessoal diferente dos seus outros ir-
mãos da mesma espécie. No seu ingênuo modo de pensar,
ignorante da própria ignorância, este indivíduo, confiante
ao se julgar, percebe-se como bem informado e capaz, pois
lê determinadas revistas, por sinal muito instrutivas. Sua
mente pouco trabalhada e quase sem ser usada, permitiu-
lhe decifrar, orgulhosamente, as instruções de manejo de
cartões de banco, de instrumentos do seu trabalho rotinei-
ro, de ligar o aparelho de televisão, de ir aos restauran-
tes e comer com os talheres apropriados, de conhecer as
roupas que estão na moda, de conhecer e viajar para os
lugares “badalados”, de usar a nova cueca lançada, o per-
fume moderno, a nova aplicação bancária e muitas outras
atrações sedutoras do mesmo gênero, que indicam infor-
mações importantes para se viver. Coitado!
Tudo nesse mundo de Deus tem suas vantagens. Proi-
bidos de pensar, os semialfabetizados não se sentem cul-
pados por possuir uma mente quase nula. Estão tranquilos,
talvez não sofram infartos, hipertensão arterial, úlceras e
insônia, como ocorre com seus donos, sempre preocupa-
dos com os sucessos e insucessos dos planos.

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Com pouca ou nenhuma vontade própria, impedidos
de tomar decisões particulares, sem responsabilidade por
suas ações, eles caminham, moribundos, para seu fim.
Descartando o complicado, evitando aprofundar-se nas ta-
refas e soluções que exigem cadeias de raciocínios longas
e tortuosas, eles vivem felizes na sua gaiola de bambu,
onde existe cama, sexo e comida, desfrutando da liberda-
de imaginada e que eles não têm.
Estão sempre esperando alguém: “as autoridades”,
os mais “inteligentes”, os espertos pensarem e resolverem
seus problemas, decidirem por eles. Sabem, como princí-
pio fundamental, que alguém é capaz de pensar melhor
do que eles, por isso estão sempre pedindo ajuda, para
verificar se seu cabelo está bem, se aquele batom recente-
mente lançado realmente é o melhor para ela, se deve fa-
zer aquele curso ou o outro. Como sua autoestima é baixa,
eles amam mais o próximo do que a si mesmos.
Seu amor romântico é imbecil. Para este grupo,
“amar” significa a posse da pessoa amada. Quando estes
indivíduos dizem “eu te amo”, a frase indica ”eu preciso de
você, sem você minha vida será uma desgraça, pois não
tenho mais ninguém para pensar por mim, para ajudar-
me, encostar-me, estou perdido, nada tenho para dar, pre-
ciso receber seu apoio e sua piedade”.
No amor este grupo nada oferece, nada dá, exige do ou-
tro responsabilidade por sua vida, que eles não têm. Mas cha-
mam tudo isto de “amor”, de “gostar” muito do outro. Quando
percebem que não podem receber do amado o apoio dese-
jado, o amor que ele próprio não tem dentro de si, que terá
de dar algo que ele jamais pensou em possuir, este indivíduo
retira-se frustrado por não ter sido amado. Na sua mente ele
amou muito, deu muito de si: deu o nada para o outro.
Este grupo tem como lema fundamental: “É preci-
so aproveitar a vida”. Tal afirmativa significa: distrair-se o

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mais que puder, esquecer que está vivo, que não comanda
suas ações, que não manda na sua vida. Eles precisam se
divertir, continuamente, com as brincadeiras fornecidas e
preparadas pelo mundo externo a ele. Ler o livro mais ven-
dido, ir ao parque no domingo, dançar no baile dos idosos
ou do carnaval, comprar o bilhete da loto, ir ao jogo ou
vê-lo na TV. Estas diversões são organizadas com precisão
matemática pelos senhores do poder, governo e empresá-
rios, de modo a dar tudo certo. As autoridades sabem o
que é melhor para ele, mais do que ele próprio, pois lhe
faltam os instrumentais capazes de fornecer um retrato de
si mesmo, de se autoexaminar com alguma precisão, seu
diagnóstico é sempre dado pelos de fora.
Lamentável e criminosamente sua mente foi lacrada,
muito bem fechada ainda muito cedo, impedindo a invasão
de incômodas ideias capazes de fazerem desmoronar cren-
ças firmes, pilares vindos de longe, infelizmente muitos
deles já podres. Nada de ideias novas, principalmente as
diferentes das costumeiras, das antigas e repetidas pelas
suas sábias mães virtuosas e dignas de crédito. Estes indi-
víduos fogem como podem da intromissão de teorias con-
trárias às suas, que poderiam desmoronar, abruptamente,
tudo o acreditado, destruir para sempre seu frágil sistema
de pensamentos mal arranjados, sua instável estrutura
mental mal elaborada e mal pregada em estruturas tortas,
em princípios duvidosos, muitas vezes mágicos.
Apoiado em fundamentos adquiridos na cultura onde
foi educado, sem dúvidas, o semianalfabeto recusa subme-
ter-se a investigações internas, a reflexões acerca da vali-
dade ou não dos pilares que deram origem ao seu raciocí-
nio. Sua segurança está fora dele, apoia-se nos outros - “o
presidente falou”, “meu chefe me disse”, “li no jornal” - nos
proprietários de suas ideias, ou mesmo nos seus amigos
de infortúnios ludibriados pelas mesmas crenças: - “tenho

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certeza disso, todos nós pensamos assim”. Como ele está
bem acompanhado, pela maioria da população, confiantes
no falso princípio de que a “maioria tem razão”, ou que “a
voz do povo é a voz de Deus”, o semi-analfabeto sente-se
protegido, confortável e até feliz. Não perderá seu precio-
so tempo com bobagens, tais como refletir acerca de si ou
do mundo em que vive. Precisa, sim, divertir-se, assistir à
novela das oito. Semimorto como indivíduo, vivendo ape-
nas como espécie, o semianalfabeto não tem forças para
examinar se sua vida vale a pena ser vivida como está, ou
se deve ser destruída, mudada, para construir outra mais
digna do homem que ele poderá vir a ser.

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TELEVISÃO E BURRICE

Muitos pensam que alguns programas da televisão


tornam as pessoas idiotas. Nada mais errado. A TV jamais
conseguiu transformar um cão, uma pulga, uma pedra ou
até mesmo um cavalo num burro. Também não imbecilizou
quem não a vê. Para que um evento como esse aconteça,
é necessário que certos comportamentos existam nos dois
lados. Sempre há necessidade de um certo compromisso
entre as duas partes envolvidas, para que a consequência
ocorra. Em outras palavras, para que haja o emburreci-
mento do telespectador, é necessário que haja também
uma prontidão, talvez um desejo do telespectador para
facilitar a tarefa da TV. Não é possível o poder ser exercido
através apenas de um lado, isto é, da TV.
Por outro lado, também sempre se acreditou que os
meios de comunicação, principalmente a TV, têm servido
de instrumento de domínio político. Antigamente acusaram
certos livros como perigosos. A idéia do efeito negativo da
TV sobre a mente pressupõe a existência de um telespec-
tador de mente vazia, um folha de papel em branco, à
mercê do poder da TV. Esta ideia é falsa. A “página” que
assiste TV já foi marcada ou rascunhada muito antes.

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Alguns falam que a TV difunde opiniões e anúncios
enganadores e, por isso mesmo, gera uma consciência
falsa.
Os defensores da mente dos telespectadores acre-
ditam que a TV, ao criar um deslumbramento na pessoa,
penetra subtilmente na mente do distraído telespectador e
aí coloca o que quiser. Ora, não é bem assim.
Como é sabido, durante a história do homem, os pais,
a igreja, os professores, os companheiros e outros educa-
dores difundiram condutas, ideias e princípios na mente
dos educandos, desde o nascimento. Muitos desses fun-
damentos, que são falsos, apesar disso continuam a ser
ensinados como certos. São estes princípios que formam
a base da mente que permitem a entrada, a aceitação e a
assimilação das informações vindas de fora, da TV, supos-
tamente novas. Sem esta base adquirida geralmente no
meio familiar e dos companheiros, a informação “nociva”
fatalmente seria rejeitada. Não é fácil para ninguém se li-
vrar de ideias errôneas postas cedo na vida, mesmo quan-
do elas trazem sofrimento para seu possuidor.
A ideia do poder da TV sobre as pessoas utiliza um
fundamento equivocado. Acreditou-se que o ser humano é
passivo, e não ativo, diante dos estímulos do meio, e que
esses atingem uma mente sem nada. Na verdade, nossa
mente filtra e seleciona nossas percepções. Todos teles-
pectadores, sem exceção, têm uma participação ativa na
escolha e na interpretação do que é transmitido. Em ou-
tras palavras, a “vítima”, o telespectador, antes de ligar
o aparelho de TV, já tem sua mente pronta para receber
as informações carregadas de mitos, crendices, desejos e
sonhos. Qualquer pessoa tem ideias e especulações mais
ou menos adequadas acerca do início do mundo, do que as
pessoas estão fazendo aqui, do amor, da justiça, das rela-
ções entre as pessoas, da honestidade, etc.

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Junto a estas diversas suposições, ajuntam-se outras
crenças: dos poderes mágicos dos cristais, duendes, gno-
mos, santos, espíritos, almas de outro mundo e outros ha-
bitantes fantasmagóricos que estão inculcados nas mentes
confusas.
Numa cabeça assim, previamente bem preparada
pela educação, fundamentada numa visão de um mundo
mágico, não fica difícil, para os embusteiros e charlatães,
introduzir novelas e programas de mau gosto, discursos
políticos idiotas, conselhos enganadores, condutas e tra-
tamentos estranhos ou qualquer outro programa absurda-
mente estranho e grosseiro.
As televisões que mostram essas programações tra-
balham de mãos dadas com essas cabeças modeladas pe-
los pais ou outros educadores. Só assim elas são capazes
de assimilar e apreciar as bobagens ali mostradas. A TV,
portanto, nada mais faz do que manter o que foi plantado
antes. Ela nada acrescenta ou modifica à mente da maioria
dos seus usuários. Seus programas são preparados, para
manter como estão, as ideias e ilusões existentes na men-
te do pobre telespectador.
Esses encantamentos são oferecidos não só pelas TVs,
mas também por outros usuários da ingenuidade humana,
dos atraídos pelo mágico. Livros, geralmente os mais ven-
didos, relatam métodos fáceis de viver melhor, horóscopos
nos mostram o futuro, talismãs nos protegem, fórmulas
fáceis são oferecidas para tornarem bonitos os feios, tera-
pias espetaculares são oferecidas para esses consumidores
de sonhos. Ora, no meio de tanta fantasia (burrice), fica
fácil a TV introduzir seus produtos: “o sabor que refresca”,
“torne sua pele natural” e muito mais...

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UM CONTO QUASE DE FADAS

Há mais de um ano minha ajudante largou-me - não


gosto do termo empregada doméstica. Fui obrigado a ar-
rumar uma outra que também não deu certo. Mais outra,
outra mais, e elas foram passando... As idades variavam
de 20 a 30 anos, portanto, todas jovens. Todas, também,
haviam terminado o segundo grau em colégios públicos.
Tinham boa caligrafia, melhor, e muito, do que a minha,
conversavam bem, quase sem erros de concordância gra-
ves e tinham uma boa pronúncia.
Contando com minha grande experiência nesse cam-
po, como curioso e chato, alguns fatos passaram a chamar
minha atenção com respeito a esse grupo. Como a aju-
dante antiga ficou muitos anos na minha casa, eu nada
mais percebia acerca de suas ações e ideias. Tudo passou
a ser esperado e natural. Houve uma tolerância. Acostu-
mamo-nos com os que estão muito perto e, assim, fica-
mos incapazes de observá-los com atenção. É um barulho
continuado, sempre na mesma altura e timbre, sem que a
gente note sua presença. Deixei de ouvir, observar e julgar
minha ex- ajudante. Ela foi, aos poucos, desaparecendo da
minha consciência e, pior, de meu interesse.

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As que foram contratadas, ao contrário, uma a uma,
motivaram-me e excitaram-me: tudo era novidade. Passei
a observar os olhos e o nariz, os cabelos e os penteados,
as frases, o corpo, o andar, o modo de se alimentar, as
crenças, as roupas, os perfumes, os casos – sempre seme-
lhantes com respeito aos namorados - e a família. Interes-
sei-me também pela vida e relações de cada uma delas:
ouvia seus planos e fracassos. Era como se assistisse a um
novo filme, lesse um romance nunca lido. Todo começo
tem seu encanto, como disse o poeta. Toda novidade esti-
mula nossa atenção. Mas, o que começa, acaba...
Animado pela experiência, imaginei trocar de ajudan-
te a cada seis meses, pois, como pensei, assim eu fica-
ria sempre animado com as novidades. Verifiquei, fazendo
diversas análises pormenorizadas e criteriosas, que seis
meses depois, o interesse e a curiosidade começam a di-
minuir. Não sei se esse desinteresse é igual para todos
ou se varia com cada observador e com cada ajudante.
Um amigo meu, que já se casou diversas vezes, contou-
me algo semelhante. Para ele, quando moramos por muito
tempo com uma mesma pessoa – até quando temos um
mesmo amigo por um longo período – não temos mais o
que conversar. Tudo já foi falado, geralmente o mesmo
caso foi reprisado diversas vezes, e, quase sempre, “não
vale a pena ouvir de novo”.
Entretanto, quando arrumamos uma nova compa-
nhia, segundo ele, podemos contar, sem medo de estar
repetindo, quando e onde nascemos, as brigas antigas e
atuais, como é a família, o primeiro emprego, as namora-
das existentes, os cursos, as vitórias e derrotas, etc. Nossa
amiga, namorada ou nova esposa, de modo semelhante,
contaria os casos nunca ouvidos e a conversa ficaria inte-
ressante e poderia durar algum tempo. Achei boa a ideia e
tenho pensado nela.

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Todos nós, à medida que vamos convivendo com
pessoas antes desconhecidas, querendo ou não, passa-
mos a observá-las. Aos poucos, após saber seu nome,
onde nasceu, em que lugar trabalhou, se sabe fazer arroz
solto e bife mal passado, descobrimos, mais devagar, é
claro, que cada uma delas tem certas formas de agir e de
pensar que se repetem, ou seja, apresentam um padrão
que pouco muda, que inclui uma grande parte das ações e
emoções, fáceis de serem detectadas e entendidas.
Em resumo: apresentam uma redundância, sinais
já conhecidos. Assim, elas, como todos nós, apresentam
certas maneiras constantes de interpretar, de se emo-
cionar e de classificar as situações agradáveis e penosas
que enfrentam. Aos poucos aprendemos como cada uma
“joga” o jogo das relações humanas, quais lances são os
mais frequentes, diante de quais situações as diversas jo-
gadas aparecem, as estratégias usadas, as intenções ve-
ladas e as explicitadas, quais são os valores fundamentais
e os termos básicos que dão nascimentos às principais
ideias. Os padrões percebidos, de cada uma delas, são
os mesmos que emergem quando colocamos um obser-
vador, que jamais viu um jogo de xadrez, diante deste.
Ele, ao assistir vários jogos, vai descobrindo que cada
peça possui alguns, e somente alguns, movimentos pos-
síveis, que certas peças são mais importantes que outras,
que uma delas, uma vez perdida, leva o jogo a terminar,
etc. Do mesmo modo, se prestarmos atenção aos pontos-
chaves, às repetições, às reações emocionais diante disso
ou daquilo, nós formamos uma ideia bastante exata do
comportamento da ajudante quanto à economia, amor,
religião, política, às vezes melhor do que a que ela tem
de si mesma.
Observando o tabuleiro de xadrez das ajudantes, ou
mais exatamente, examinando as ajudantes no meu ta-

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buleiro de xadrez, notei que certas jogadas se repetiam,
certas palavras eram mais pronunciadas, certas emoções
mais comuns, certas críticas e elogios eram mais fre-
quentes.
Até aí nada demais, assim pensará o leitor que che-
gou a esse ponto da crônica. Mas fui notando também, e
é isso que quero contar, que todas elas tinham uma vida
mais virtual que real. Vou explicar melhor, pedindo des-
culpas por estar generalizando muito. Todas elas, apesar
da boa saúde mental e física, jamais tiveram poder eco-
nômico alto, status social elevado, beleza tipo Miss Brasil,
ou mesmo tipo Miss Estados Unidos, inteligência e cultura
de chamar a atenção de outros e capacidade de concorrer
a concursos e vestibulares de altíssima dificuldade. Todas
elas faziam parte desse exército que constitui a grande
parte da população do planeta, pessoas simples e dedica-
das e geralmente exploradas.
A maioria - não sei bem se isso é certo - foi empur-
rada pelo grupo do meio, dos colocados no centro, para
a margem da sociedade, quase sem possibilidade de al-
cançar uma posição de respeitabilidade pelos valores da
sociedade em que vivemos: beleza, dinheiro, habilidades
sociais e poder valorizados pela nossa cultura.
Vamos ao que interessa, pois acho que fui longe de-
mais. Todas elas, apesar de estarem colocadas pela popu-
lação mais poderosa e cruel, empurradas pela sociedade
para o extremo inferior, imaginam, segundo minhas ob-
servações, casar-se com rapazes lindos e maravilhosos -
quase príncipes - jovens, ricos, poderosos, de preferência
artistas bastantes conhecidos e que aparecem constante-
mente nas TVs e, engasgados, dão adeusinhos a elas.
Elas foram bem treinadas e colonizadas, muito cedo,
pelas palavras e imagens da mídia, principalmente novelas
e músicas “caipiras”.

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A indústria do espírito as possuiu e as engravidou. E
deu no que deu. A técnica, apontada para o intelecto da
mulher simples, penetrou fundo na mente moldável das
ajudantes desse Brasil, depositando ali, naquele campo
fértil e ingênuo, mercadorias ditas culturais: músicas, pa-
lavras apropriadas com grande conotação emocional (amor
ardente e separação trágica, casamento, família, mãe, jo-
vem, passeio, etc.), formas padronizadas de relacionar-se
com os namorados (tipos e técnicas de dar beijos, trejei-
tos, lugares para passear, transar, roupas da moda, etc.).
Deixei de propósito um espaço especial para os cabe-
los, eles merecem isso. Os cabelos foram eleitos os atribu-
tos físicos preferenciais dessas jovens trabalhadoras. Tor-
naram-se preciosidades para todas as estudadas na minha
amostragem. Elas seguram os cabelos o tempo todo, esses
são jogados para um e outro lado, levados para frente da
testa, depois para trás. As mesmas frases acerca dos cabe-
los são ouvidas: “Preciso clareá-lo um pouco”, “Vou deixar
crescer as pontas”, “Agora vou cortar um pouco, assim fica
mais adaptado ao formato do meu rosto”, “Preciso deixá-lo
conforme a moda que vi na revista desse verão”, “Agora
só uso o xampu X e o condicionador Y, são caros, mas
fantásticos, deixam meu cabelo lindo e solto”. Os cabelos
são arrumados, penteados, pintados, cortados, alongados,
alisados, ondulados, desarrumados, conforme a moda tirâ-
nica das revistas. O pelo do homem primitivo, aos poucos,
tornou-se cabelo, transformando-se na parte mais impor-
tante do corpo, muito mais do que o intelecto.
Gasta-se um tempo imenso com os cabelos: molhar,
ensaboar, condicionar, pintar, enxugar, secar, por rolinhos,
tirá-los, pentear, etc.
Mas tem mais, tirei algumas outras conclusões com
minha pequena amostra: notei que todas ajudantes foram
inoculadas pelos vírus dos amores romanceados, isto é, do

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amor existente nos filmes, novelas e romances adocica-
dos: um amor poderoso, que luta e vence tudo. Lindo! Os
canais de informação desenvolveram, projetaram, invadi-
ram e dominaram todas as áreas culturais clássicas, reli-
giosas, humanistas e, finalmente, destruiu o que restava
das culturas nacional e regionais.
Todas minhas ajudantes nasceram e foram criadas
em pequenas cidades do interior de Minas. Todas, quando
lá moravam, possuíam, além de um nome, uma identida-
de própria e adequada ao meio ambiente que as cercava.
Usavam maneiras de raciocinar, emocionar-se, resolver
problemas e, também, palavras do seu ambiente sociocul-
tural ou do seu ninho. Nas grandes cidades, todas elas se
metamorfosearam, tornaram-se, sem perceberem, mas-
sas sociais. O que fazer? Nada?

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TV E PESQUISAS DE OPINIÕES:
VOCÊ DECIDE

Todos sabem que a compreensão de afirmações sim-


ples exige basicamente uma proposição com um sujeito e
um predicado. O sujeito refere-se a um exemplar específi-
co ou a um ou mais membros de uma categoria (José, no
primeiro caso, um médico ou os médicos, os livros, etc., no
segundo). O predicado pode se referir a uma ação espe-
cífica (atendeu um paciente, apresentou um programa de
auditório), ou a uma relação entre o sujeito e um atributo
dele (é gordo, tem o cabelo preto).
A frase “um ator apresentou um programa” exige mais
dificuldade e também maior tempo para ser assimilada e
compreendida do que “Sílvio Santos apresentou um pro-
grama”. Nesse último caso, há uma ativação de imagens,
noções ou modelos já formados e conhecidos na mente do
ouvinte, portanto mais fáceis de serem ativados. Ficará
mais difícil ainda assimilar a afirmativa: “um gato apre-
sentou um programa”. Tente, meu caro leitor, imaginar o
que essa proposição quer informar. É melhor lembrar de
“Ratinho”. Por isso mesmo é difícil e chato conversar com
intelectuais, pois sua fala dificilmente ativa algum fato já

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experimentado ou visto por nós. O mundo deles não é o
meu, talvez não seja também o seu. Tudo indica que as
afirmações repetidas são mais fáceis de serem julgadas e,
além disso, acreditamos mais nelas, pela repetição, do que
as ouvidas ou lidas pela primeira vez.
A compreensão de uma informação utiliza-se do lido,
ouvido ou experimentado. O estoque de informações exis-
tentes em cada mente servirá de base para se fazer novos
julgamentos, a probabilidade de um acontecimento ocor-
rer, emitir qualquer opinião sobre o assunto X ou Y. Assim,
interpretamos a frase “João é mau”, ou “Maria é simpática”,
em função de modelos ou ideias que possuímos, aprendi-
das anteriormente.
Serão elas que servirão de “processadores” para a in-
formação recebida. Por isso mesmo, fica difícil, ou impos-
sível, assimilarmos uma frase ou imagem: “Hitler e Stalin
amavam as crianças e os pássaros”. Não temos processa-
dores mentais para isso.

Acontecimentos familiares e não-familiares.


A descrição dos eventos que ouvimos, na sua maio-
ria, se constitui de situações familiares e, por isso mesmo,
fáceis de serem entendidas, também fáceis de serem es-
quecidas, como a que servirá de exemplo: “Na noite de
sexta-feira, fui ao restaurante Luar do Inferno. Lá, pedi um
bife com batatas e um copo de vinho. Terminei, veio a con-
ta, paguei e saí”. Todos os fatos são comuns, talvez o nome
do restaurante possa ser novo. Poderiam ter ocorrido fatos
mais excitantes: “encontrei um conhecido..., discutimos...,
ele ficou nervoso, pegou o garfo, avançou, etc.” Nessa úl-
tima descrição, possivelmente, o ouvinte ficará um pouco
mais curioso com a cena mostrada, podendo retê-la um
pouco mais. Além disso, ao ouvir a narrativa, talvez se
lembre de fatos e emoções semelhantes já vividas.

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Uma premissa fundamental para a informação é que
ela deve fornecer para o receptor algum conhecimento que
ele ainda não possuía. Deve, ainda, convencê-lo de ser
verdadeira. Nada mais chato do que ouvir uma “informa-
ção” conhecida:
— “Os atleticanos odeiam os cruzeirenses”, ou seja,
ouvir uma não-informação.
Outro aspecto importante: as pessoas são mais facil-
mente influenciadas por informações que permitem a elas,
sem dificuldade, construírem uma ideia, imagem ou mo-
delo concreto do acontecimento que está sendo descrito.
As ideias ou padrões mais utilizados pelas pessoas consis-
tem em representações mentais de situações, envolvendo
pessoas e acontecimentos particulares e ou concretos. Os
modelos mais utilizados podem ser formados de diversas
maneiras: devido a experiências diretas, por ouvirmos re-
latos de outras pessoas, lendo jornais, revistas, etc. e, por
último, assistindo TVs.
Segundo as estatísticas, um americano médio vê 4
horas de TV por dia. Como foi dito, adquirimos modelos do
mundo de diversos modos, um deles é quando assistirmos
TVs. Portanto, muitas de nossas ideias a respeito da moda,
da conduta sexual, da educação de crianças, acerca da ci-
ência, etc., são formadas através dessa “leitura” fácil e pre-
guiçosa que é a TV. Lamentavelmente, os modelos obser-
vados, aprendidos, incorporados e utilizados pelo indivíduo
nas televisões, frequentemente baseiam-se em comporta-
mentos de pessoas fictícias ou raras, vivendo acontecimen-
tos pouco prováveis e em situações não-comuns. Por tudo
isso, podemos supor que o modo de enxergar e lidar com
o mundo, do americano médio, ao incorporar suas ideias
básicas com os ensinamentos da TV, assenta-se em fun-
damentos falsos ou não-usuais. Desse modo, ele irá com-
preender ou assimilar os fatos concretos e reais do mundo
através de estacas podres e fincadas no lamaçal.

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Como compreendemos os fatos, e nos expressamos
conforme os modelos de condutas existentes e armazena-
dos em nossa mente, e como muitos de nossos modelos
situacionais são formados através de programas de auditó-
rio do Gugu, Leão, Faustão e muitos outros, bem como das
novelas de TV, podemos compreender como anda a mente
do telespectador fanático e como funciona o que tem sido
vulgarmente chamada de “formadora de opiniões”.
Como se sabe, quase a totalidade dos programas de
TV tem como meta o seguinte: um patrocinador, uma au-
diência, muita movimentação e provocação de emoções.
Para que se cumpra esse objetivo, enfatizam-se inúmeras
“ficções” sensacionalistas e teatrais. O ouvinte distraído,
tendo sua mente preparada para assimilar o que está sen-
do exibido, com o programa incorpora, lentamente, es-
sas ideias. Elas penetram sorrateiramente: os costumes, o
modo de se expressar, o jeito teatral, os cabelos, as rou-
pas, os namoros, a forma de beijar e tudo mais visto na
magnífica TV.
Mais tarde, as mesmas TVs, apostando na plasticida-
de da mente já semiformada, imprimem na mente plástica
do telespectador julgamentos e valores para eventos e fa-
tos, parâmetros para julgá-los, executa suas “pesquisas”
de opiniões. Nestas, o telespectador inconsciente, quase
dormindo, é perguntado para “estimar as taxas de crimes
no Brasil”, “quem é mais inteligente, se o homem ou a
mulher”, “quem fez o gol mais bonito”, “quem deverá ser
escalado”, etc.
Ora, o respondedor, como um cão bem ensinado, não
mais rosnando, soltando gotas de saliva, irá responder uti-
lizando-se das “informações” ou “conhecimento” ditado e
inoculado anteriormente pelos senhores do poder e dos pro-
gramas preferidos: jogos, novelas, pegadinhas, etc., isto é,
os mesmos que fazem a “pesquisa de opinião” do povo.

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O leitor deve lembrar que a mente do telespectador ao
assistir a TV já está, na sua maioria, pronta para assimilar
e adotar as infiltrações dos programas. Mais tarde, feliz, o
telespectador e seu repórter preferido comemoram o re-
sultado das pesquisas de “opiniões”. O que o telespectador
responde - nos Ibopes da vida – a perguntas tais como:
“você decide”, “se você é a favor disque...”, “em quem você
votaria se a eleição fosse hoje”, “sua opinião sobre o novo
presidente”, nada mais é do que a opinião mais ouvida,
mais pronunciada pelos atores, locutores mais simpáticos
e bonitos, pelas TVs, jornais e rádios mais ouvidos, vistos,
lidos e queridos e, também, dos companheiros do teles-
pectador que seguem o mesmo tipo de vida.
Vou lhes contar um caso. Há alguns anos, antes da
eleição do F. Collor, numa tarde, eu estava no barbeiro.
Num certo momento do papo, perguntei a ele - um ilustre
senhor de cabelos brancos - em quem iria votar. Ele ficou
sério, compenetrado. Demorou um pouco e, de repente,
dando uma de pensador profundo, respondeu-me num tom
de voz baixo, ao pé do ouvido, quase inaudível: “Doutor,
estão dizendo aí, TVs e rádios, que Collor vai ganhar. Vou
votar nele”. Ele mostrou o discutido acima: o voto no pos-
sível ganhador, segundo os orientados pelos rumores...
As TVs, lançando certo tipo de notícia e não outras, ou
seja, informando algumas áreas e não informando outras
- o modo de falar em público, de alourar os cabelos das
morenas e mulatas, mais recentemente das mais “idosas”,
de se vestir e agir, etc. - levam as pessoas que a veem, a
imaginar que o costume, o lazer, a compra a crédito e os
costumes de modo geral mostrados são os certos para to-
das as pessoas, em todos os lugares. Nada mais absurdo!
Lamentavelmente, muitos só têm a TV como fonte
de informação e amigos que assistem a mesma TV. Nesse
caso as informações só são transmitidas por essas fontes:

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TV, amigos e familiares que assistem os mesmos progra-
mas. Existindo apenas um único professor, a maneira de
pensar, avaliar e concluir desse infeliz telespectador, dian-
te das perguntas feitas nas pesquisas das TVs, fatalmente
será a ensinada nessas “escolas” conforme as receitas e
modas passageiras transmitidas. O telespectador, anima-
do, não percebe que vomita o alimento deteriorado doa-
do pela TV para seu organismo submisso e complacente,
bem preparado para engolir todo e qualquer lixo. Solitá-
rio, cansado e corrompido, mais tarde, deslizando na sua
poltrona desbotada e rasgada, exalta-se satisfeito por ter
“opinado” o que todos opinaram. Sorri por ter contribuído
para a “pesquisa”, principalmente, porque sua avaliação
foi a “certa”, ou seja, estava de acordo com a maioria dos
seus iguais, como disse solenemente meu barbeiro.
Algumas vezes assisti a um programa de TV que fin-
ge ser sério: “O Globo Repórter”. Estava curioso acerca
de certo assunto anunciado. Pude perceber, na área que
conheço um pouco, que inúmeras “informações” forne-
cidas estavam erradas, outras enfatizavam aspectos de
pouca ou nenhuma importância em detrimento de outras
e, muitas vezes, anunciava-se uma “grande e moderna
descoberta da ciência” que eu tinha lido há vinte anos
atrás. Para meu azar, muitos clientes amigos e interes-
sados no meu conhecimento, telefonavam-me ou escre-
viam-me, antes ou depois do programa, para comunicar-
me os “novos dados científicos” que foram transmitidos
em “primeira mão”.
Já recebi de clientes recortes de jornais e de revistas
leigas, descrevendo artigos mal entendidos pelo repórter
articulista. Logicamente, se ele não entendeu o assunto
que lera, jamais poderia escrevê-lo adequadamente. Os
artigos recebidos continham informações confusas e er-
radas acerca de novos tratamentos para a esquizofrenia,

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depressão, ansiedade, doença de pânico, etc... O médi-
co ou o leigo, que imagina aprender através dessa fonte
de informação, estará redondamente enganado e perdido
nesse atoleiro.

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DUAS CLASSES: CULTOS E INCULTOS

A lei proíbe a segregação racial, entretanto a segre-


gação cultural ocorre em todo o mundo e ninguém reclama
contra ela. Poucos a percebem, ou talvez não desejem vê-
la. Assistimos, continuamente, à formação de grupos se-
gregados quanto ao nível e profundidade dos conhecimen-
tos adquiridos. Com este desnível, cada grupo apresenta
sensibilidade diferente quanto aos estímulos e aconteci-
mentos do mundo. A divisão intelectual separa os indi-
víduos de forma semelhante à existente com respeito às
posses materiais.
Para indicar melhor a separação entre as castas, certas
cerimônias são usadas pelos diferentes grupos. Alguns reali-
zam reuniões ou festividades semanais ou mensais, fazendo
uso de roupas especiais, onde apenas entram os “irmãos”,
outros grupos têm sua própria imprensa, jornais e revistas
especializadas, sua linguagem e jargões como a Associação
Médica, a dos Engenheiros, do Banco do Brasil, dos Gays,
das Mulheres Nuas, da Agricultura, etc. Além disso, excur-
sões e passeios são organizados e adaptados para as pesso-
as do grupo. Até as praias do país tem sido divididas confor-
me as classes: média, rica, dos artistas e dos farofeiros.

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Para aumentar ainda mais a separação, cada gru-
po processa, assimila e expressa as informações do meio
através de conhecimentos e raciocínios diferentes.
De outro modo, as premissas ou suposições básicas
com que um grupo raciocina, bem como as formas de atri-
buir causalidade aos acontecimentos, diferem frontalmen-
te entre os cultos e incultos.
Um pequeno grupo raciocina seguindo as normas da
lógica formal, já o grande grupo usa e abusa do antro-
pomorfismo, do animismo e do pensamento mágico para
compreender e explicar os acontecimentos. O resultado
prático disso é que os incultos falham mais nas previsões
dos acontecimentos. A “lógica” dos incultos, afastada das
regras tradicionais, extrai conclusões esdrúxulas, liga in-
formações que jamais estiveram associadas, como disse
minha faxineira: “Maria é esperta, porque nasceu em São
Paulo”.
No exercício da profissão médica nota-se facilmente
essa diferença ao examinar um paciente de um grupo e
outro. A maneira de descrever o aparecimento da doença,
sua evolução, bem como os possíveis fatores a ela asso-
ciados, ou seja, suas possíveis “causas”, são descritas de
forma totalmente diversa pelos dois grupos. O “diálogo”,
quando existe, entre essas diferentes “castas”, é quase im-
possível, pois um imenso vão os separa.
Não há projeto para diminuir essa divisão. Tudo indica
que, com o passar do tempo, o espaço entre os dois modos
de pensar tende a aumentar. O prejuízo é imenso para to-
dos. Os fatores, econômico e término de curso “superior”,
não são os únicos responsáveis pela diferença. Existem
pessoas ricas, outras formadas no terceiro grau, que estão
culturalmente segregadas, fazendo parte do imenso grupo
dos analfabetos ou semianalfabetos.

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SALVE NOSSO GOVERNANTE

Há uma grande variedade de intenções e valores, há


diversas culturas e temperamentos. Cada um de nós bus-
ca valores diferentes e, alguns, semelhantes. Nós todos
consideramos ruim sermos obrigados a conviver com de-
terminado valor, caso isso ocorra tendemos a atacar os
valores indesejáveis. Se um homem possuir uma educação
bastante extravagante, falsa e ilusória, ele acreditará num
ou outro valor diferentes dos usuais e aceitos, correndo o
risco de cometer crimes absurdos.
Há ideólogos que acreditam existir uma única forma
de verdade. Conforme essa crença, algumas pessoas es-
peciais sabem as respostas certas para os grandes proble-
mas da humanidade. Por isso, elas devem comandar os
que desconhecem os maravilhosos caminhos a que só eles
têm acesso. Portanto, esses líderes (chefes, ditadores, in-
telectuais), para essa crença, devem ser obedecidos. So-
mente eles sabem como a sociedade deve ser organizada,
como a vida de Maria ou de José deve ser vivida, como
a cultura deve ser desenvolvida. Essa é a antiga crença
platônica dos reis-filósofos, que tinham o direito de dar
ordens aos outros.

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Sempre apareceram pensadores dispostos a defender
que, se os cientistas - ou pessoas cientificamente treina-
das - pudessem ser encarregadas das coisas, o mundo se-
ria imensamente melhorado. Esses faziam ou fazem parte
do grupo escolhido. Antigamente os homens e as mulheres
eram entregues ao sacrifício a uma variedade de deuses,
os antigos donos da verdade única. A era moderna gerou
novos ídolos: os“ismos”da atualidade.
Causar dor, matar o mais fraco, torturar são, em ge-
ral, corretamente condenados. Entretanto, transformam-se
em ações corretas caso essas não sejam feitas em benefi-
cio pessoal, mas sim obedecendo a um conjunto de ideias,
ou seja, aos “ismos”: socialismo, nacionalismo, fascismo,
comunismo, brasileirismo, sanismo, cientificismo, indianis-
mo, crença religiosa fanática, progresso ou leis da história.
A maioria dos revolucionários políticos e religiosos (bem
como alguns médicos) acredita, secreta ou abertamente,
que para criar o mundo melhor e ideal, não precisamos,
nem devemos pensar em Maria e José - simples indivíduos
sem prestígio - mas sim no conjunto, na população ou no
país. Seguindo esse modo de pensar, tudo deve ser feito
para “melhorar” a vida dos homens em geral, portanto, o
cliente. Pedro ou Ilda, devem obedecer aos “sábios”, aos
governantes, médicos e intelectuais, pois eles sabem o que
é bom para nós, muito mais que nós mesmos.

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A LIBERDADE DOS JOVENS

Muito se tem discutido acerca do problema da maior


ou menor liberdade dos jovens. Quando e como devemos
dar-lhes a liberdade e em que grau essa deve ser concedi-
da? O termo emancipação, que se assemelha à libertação,
significa “aquisição da capacidade civil”, ou “libertação do
pátrio poder” ou ainda “conquista de independência”. Ao
falarmos deste tema, forçosamente penetramos num ter-
reno difícil e de grande importância para o ser humano,
que é sua liberdade e esta tem, como seus opostos, o
determinismo e a coação.
Não discutirei as duas posições extremas e radicais,
ou seja, determinismo absoluto ou liberdade total, pois
creio que estes não fazem parte da conduta humana. O
homem carrega pré-determinações absolutas: não pode
voar, trocar de sexo e assim por diante, mas pode al-
cançar uma liberdade relativa como trocar de emprego,
casar ou descasar, ir ao cinema ou ver TV e fingir trocar
de sexo.
A liberdade, ainda que limitada, é conseguida ou
conquistada através da decisão do indivíduo de construir
a si mesmo, de acordo com seus valores. Esta constru-

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ção surge através da ação. O homem não se torna livre
pensando apenas, precisa agir. Ele encontra-se cercado
de grandes dilemas, um deles é o determinado por duas
tendências fundamentais e, em certo sentido, opostas:
1) a autoafirmação, que corresponde à autonomia in-
dividual;
2) a integração, que leva à dependência. Ao mesmo
tempo existe em todos nós – desde o nascimento - uma
força ou tendência no sentido de torná-lo autônomo ou
livre. Essa é adquirida, em grande parte, através da outra
tendência humana, a de estar ligado, integrado, a outros
seres humanos, ou seja, estar dependente e não-livre.
Como escapar ao dilema de buscar a liberdade através
da não-liberdade? O menino aprende a ser livre privando-
se de sua liberdade, preso ao grupo social, geralmente o
de sua família e, mais tarde, dos companheiros, cônjuge,
membros de igreja, etc.
A estabilidade dos organismos individuais e da socie-
dade, assim como seu bem-estar, dependem basicamente
do equilíbrio próprio entre essas duas tendências conflitan-
tes e necessárias ao desenvolvimento. Durante o estado
de “saúde” dos dois sistemas - individual e social – há uma
relativa integração entre eles: uma relativa liberdade in-
dividual e, ao mesmo tempo, um sistema familiar e social
integrado, funcional e estável dinamicamente. Nesse caso,
ambos os sistemas estão satisfeitos.
Durante as crises, ocorre o contrário: ambos os sis-
temas estão em sofrimento - “doentes” - por desequilíbrio
entre suas tendências básicas. Neste caso, ou a família
hipertrofiou a integração em detrimento do crescimento
da individualidade de seus membros, ou o jovem exagerou
sua autonomia, provocando a quebra da integração fami-
liar, num momento de sua vida no qual a ligação ainda era
de vital importância.

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O sistema individual do jovem é extremamente fluido,
dotado de ainda poucos recursos, sendo facilmente contro-
lado por outros sistemas.
Quando o jovem abandona precocemente o sistema
familiar, é comum ligar-se e “nutrir-se” de outros sistemas
ao seu redor, que podem ser melhores ou piores para ele do
que o anterior. O jovem poderá ligar-se ao grupo de escotei-
ros ou ao de assaltantes. Em nossa cultura americanizada,
propagada pelos filmes de Hollywood e por outras influên-
cias, existe uma pressão para que as pessoas se agreguem
em grupos não-familiares, em detrimento de liberdade in-
dividual. Esta “cultura” vai contra a dos nossos antepassa-
dos, na qual a ligação familiar era a buscada e elogiada.
A agregação diminui ou elimina a autonomia individual, a
orientação interna de cada pessoa. Ao mesmo tempo ocorre
a hipertrofia da “boa relação” com o grupo, ou o “bem-estar
grupal”. Culturas diferentes enfatizam diferentes posturas:
maior ênfase no indivíduo, na sua liberdade ou maior im-
portância aos grupos familiares, políticos ou religiosos.
Os valores e as atitudes transmitidos ao jovem pela
própria família funcionam assentados em regras, moldes ou
padrões de conduta que são aceitos como certos. Ensina-se
o que é sério e o que não o é, o que é bom e o que é mau, a
forma apropriada de comer e a inadequada, as formas corre-
tas e incorretas de demonstrar carinho, quais são os amigos
e os que não o são e milhares de modelos semelhantes.
Portanto, nos primeiros anos de vida, a família, que
já possui os seus padrões assimilados, os impõe ao filho. À
medida que o menino cresce, ele vai recebendo outros mo-
delos ou padrões: dos amigos, dos colegas, dos professo-
res, da imprensa, dos partidos políticos, da Igreja, etc. Pou-
co a pouco desenvolve-se o padrão do indivíduo, produto
da organização dada às milhares de experiências vitoriosas
e de fracasso, dos vários modelos recebidos e recriados.

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Aparentemente ocorre uma situação de liberdade,
quando o jovem escolhe uma profissão, um cônjuge ou
um grupo de amigos. Mas, de fato, a “escolha livre” é de-
terminada, em grande parte, pelos modelos recebidos e
incorporados, principalmente dos familiares e companhei-
ros, e também por experiências transmitidas verbalmente
por outras pessoas e nunca experimentadas. Todas essas
informações recebidas, algumas vivenciadas, outras não,
são seguidas com muita fé, quase sem contestação ou crí-
tica. O indivíduo, frequentemente, crê que sua escolha é
livre: que ele se casou com Margarida porque quis, que é
médico por vocação, porque, para ele, a medicina é a me-
lhor profissão e é amigo de Paulo, porque Paulo é muito
“boa gente”. Pura ilusão. A nossa representação do mundo,
incluindo os diferentes modelos, é pobre, contém poucos
dados à nossa disposição. Conhecemos superficialmente,
ou mesmo nada, acerca de outras profissões, assim como
outros modos de vida e desconhecemos modelos de vida
de pessoas estranhas ao nosso convívio.
Além disso, os modelos pouco conhecidos não pode-
riam exercer atração sobre nós, pois geralmente só va-
lorizamos as experiências ditadas pelo modelo por nós
aprendido. O valor que nós imputamos a alguém, a alguma
coisa, ou a alguma atividade, está já constituído e cristali-
zado em torno do fim da adolescência em nossas mentes,
pelos nossos “tapa-olhos”. Assim, munidos desse “radar”,
vamos organizando nossas percepções em torno dos nos-
sos padrões, vamos formando a nossa estrutura mental,
“filtrando” aquilo que não corresponde à nossa hierarquia
de valores que foram inoculados em nossa mente.
“Sou advogado, gosto muito daquela moça, mas ela
não é do meu nível, pois é balconista”. Sou branco, estu-
dante de medicina, não fica bem para mim ir à festa com
Pedro, que é negro, servente de pedreiro, apesar de ele

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ser o melhor do nosso time de futebol”. “Sou professor da
Faculdade de Medicina, não posso frequentar tais lugares
e andar com essa gentinha sem classe, que nem se vestir
sabe”. “Eles são gente simples como nós”, “Só frequento
restaurantes de alto nível, não tolero falta de classe”.
Dificilmente ouvimos uma conversa descontraída ou
um papo informal, onde o preconceito e a visão estreita
do mundo não se revelem e possam ser identificados. Não
só assistimos aos preconceitos contra o negro ou os portu-
gueses, mas a respeito das várias classes e papéis sociais,
de profissões, de sexo, de idade e assim por diante. “Ele é
muito jovem, nada sabe”, ou o seu oposto, “Ela está total-
mente gagá”.
É extremamente difícil sair disso. Só com uma criação
de um modelo neutro, que permitisse a entrada de toda
e qualquer informação, padrão esse que fornecesse para
cada dado recebido um valor que fosse interessante para
seu possuidor.
Portanto, para nos tornarmos mais livres, é preciso
usar menos os “filtros” e menos os “radares”. Usar, sim,
uma “antena parabólica” para captar tudo o que puder-
mos, dando a cada percepção um valor mais abrangente,
aumentando nossa representação ou o nosso macromode-
lo do mundo.
Só assim poderíamos ficar um pouco menos presos
aos grupos de pressões, passaríamos a ser mais orienta-
dos internamente e menos externamente, deixaríamos de
ser seduzidos pelos líderes carismáticos e, dessa forma,
quem sabe, poderíamos ser líderes de nós mesmos.

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NOSSA LIBERDADE E OUTROS PODERES

Coitado do cidadão: aprisionado em si mesmo, sozi-


nho, isolado do exterior por uma pele fina e frágil, cercado
por todos os lados pelos donos do poder espalhados na
natureza física, química, biológica e dos homens.
Nos meus delírios de perseguição, visualizo um comp-
lô, arquitetado por homens tiranos, juntos aos seres vivos
em geral e, também, pelas almas penadas - tudo muito
bem coordenado - visando controlar minha liberdade, bem
como a sua. Não estou exagerando, darei exemplos, todos
eles escolhidos ao acaso. Os não lembrados ficarão por
conta dos leitores.
Não acreditam? Pois vejamos: ora é uma mosca que
vem pousar no meu nariz, ora um cão que me observa,
mostrando seus belos e pontiagudos dentes, pronto para
atacar-me. Mas não fica só nisso, depois é o convite de
formatura que exige minha presença, o telefone que toca
e me obriga a correr, o interfone oferecendo gás, a conta
a pagar, o presente de Natal e de aniversário, o forno que
não mais esquenta e também isso e aquilo. Mas tem tam-
bém a chuva, a enchente, o imposto de renda, o terremoto
lá longe, o trombadinha bem perto. Na rua, o carro dispa-

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rado pronto para matar-me, obriga-me a correr desajeita-
do e envergonhado pela falta de forma, o trânsito que não
flui, a rua esburacada e sem saída, meu time perdendo, o
assaltante roubando meu sossego, às vezes, meu sonho
de tranquilidade, o frio que me obriga a vestir o agasalho
feio e fedendo a mofo, o calor que me faz suar e dormir
mal, o café frio, fraco, fedorento e com formiga no fundo.
Onde buscar, nessa Babel de desgraças, forças ca-
pazes de suportar e orientar minha vida? Deus! Oh Deus!
Onde está minha sonhada liberdade, a escolha individu-
al, meu livrearbítrio? Milhares de outras forças, além das
minhas, me impelem a agir de um modo e de outro, não
como gostaria. Estou aprisionado a tudo isso e muito mais:
a cãibra, o espirro, a tosse, o pedinte e o flanelinha, o som
do vizinho, a gritaria dos meninos do colégio, a fumaça
que me impede de enxergar os objetivos imaginados e
sonhados.
Ao envelhecer, aos poucos ou rapidamente, não sei
mais, vou perdendo a ilusão plantada cedo em minha ca-
beça mole da existência da liberdade, uma ideia inoculada
pela igreja e pela escola, logo que nasci. Cansado de ser
preso à família, ao partido político, à religião, ao time de
futebol, à profissão e a tudo mais, percebo que o aprendi-
do acerca da liberdade era tudo mentira, nascida de uma
ideologia democrática falsa, incoerente: ela me enganou
durante anos.
Onde encontrar a liberdade proclamada e esperada,
que me fazia sentir feliz? “Foi um sonho que findou”, como
diz a letra do poeta. Vejo agora que a liberdade é uma ba-
lela, um conceito belo, como algumas pessoas, mas sem
conteúdo. Imagino, sem melhor ideia, que a inexistente
liberdade foi construída pelo poder cultural para amenizar
nossa infelicidade.Foi fabricada, como várias outras ilusões,
para nos amparar e nos proteger nesse mundo confuso.

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Os poderes que esmagam meu fraco organismo vão
desde a mosca que pousa, sem dar a mínima, de tempos
em tempos, no meu velho e cansado nariz, até os decre-
tos-leis de FHC, de Lula e de outros, que sei que virão.
Mas, além disso, fui, há muito, dominado pelos dog-
mas religiosos, pelas ideologias marxistas, machistas e
democráticas. Mais tarde, aprisionei-me nas teorias cien-
tíficas em voga, pulando de uma a outra sem parar. Corri
como um burro atrás do milho inalcançável, em busca do
“alimento” para minhas dúvidas. Desesperado, sem melhor
orientação interna, esmagado por pressões e decepções,
daqui e dali, agarrei-me, como náufrago desesperado, à
“sabedoria” dos provérbios: “macaco que mexe muito está
querendo chumbo”.
As terríveis forças malignas do poder trabalham para
o mesmo fim e, em bloco, tentam me derrotar. Todas elas
têm um aspecto em comum: mudar meu comportamento,
dirigir minha conduta para um rumo alheio à minha von-
tade. Meu saudoso livrearbítrio, sem dizer adeus, desapa-
receu da minha vida há muitos anos. As forças do não-eu,
em conjunto, lutam contra minha consciência, me impe-
dem de alcançar minhas metas, se é que elas são minhas.
Agora, já não tenho nenhuma certeza.
Aceito a definição de poder como a “capacidade para
produzir determinada ocorrência”, ou “a influência exerci-
da por uma pessoa ou grupo sobre a conduta alheia, atra-
vés de algum meio”. Portanto, para ser exercido o poder,
necessita-se de uma força atuante – a que desencadeia
a ação (a mosca e o governo) – e também de um poder
geralmente passivo ou bastante submisso - adequado para
sofrer a ação (eu, eu, eu). Uma mosca não modificará a
conduta de um boneco ao pousar em seu nariz, o imposto
de renda, com todos os urros do leão, não conseguirá fazer
com que o morto preencha sua declaração de renda.

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Algumas vezes, muito raramente, o poder de um in-
divíduo ou grupo sobre o comportamento do cidadão está
em concordância, ou se identifica, com os objetivos ou
necessidades deste, produzindo uma satisfação dos dois
poderes envolvidos, o ativo e o passivo. Por exemplo, se
você é convidado para ir almoçar na casa de um amigo – o
que modificará o seu comportamento habitual - há a pos-
sibilidade estatística de você, naquele dia, desejar aquele
encontro e até gostar das iguarias e do vinho servido, caso
tenha sorte. Isso acontecendo, os dois participantes do po-
der – a força atuante e a passiva - podem atingir objetivos
comuns: isso raramente acontece.
Além disso, o poder tem possibilidade de ser exerci-
do visando auxiliar uma pessoa, com um fim eticamente
louvável. Convenço minha filha que é bom para ela fre-
quentar a escola, comer determinado alimento, ter certos
hábitos higiênicos, etc. A aceitação de formas básicas de
conduta por parte dela poderá facilitar sua vida, aumentar
seu “poder pessoal” para tolerar e, talvez, driblar o poder
institucional. Mas mesmo esses valores amplos e gerais
podem ser questionados. Posso estar equivocado e isso
minha filha verificará com o tempo e experiência para en-
contrar seu caminho.

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COMO ERA VERDE MEU VALE

A Bíblia fala que Adão e Eva viviam no jardim do Éden


sem trabalhar, comendo frutas do jardim celestial, sem
guerrear e sem atividade sexual, em paz com a vida e os
outros animais; sem roupas e sem se envergonharem disso
(Gênesis 2:25).
Muitos jovens, outros nem tão jovens, anseiam ter a
vida contada na Bíblia. Esses moços ambicionam no futuro,
nada mais, nada menos, do que o retorno ao mundo “bom,
ordenado e belo”, imaginado e sonhado descrito pelo mito
do paraíso.
A rebelião dos jovens, que combate o estabelecido,
explode ocasionalmente, conforme o tempo, o vento e
tempestades passageiras, nas entressafras das suas “re-
voluções”. Não ocorre um questionamento constante dos
costumes por parte da juventude. O mal para a juventude
sonhadora, pura e ingênua, é a sociedade e a vida atual. A
infelicidade, para eles, está ligada à ordem social vigente
formulada pelos seus pais.
Os mais idosos já desistiram, há muito, dessa luta
inglória: transformar a atual sociedade imoral e corrupta
numa decente e ordeira. A juventude sonha e luta, mas

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não de maneira eficaz, para salvar o homem “do mal do
século”, transformar a história humana num conto de fa-
das com um final feliz.
Esses loucos utópicos - deve ser lembrado que todos
nós já vivemos nossa loucura numa certa idade - expres-
sam de vários modos, conforme a época e a cultura, sua
atração pelo paraíso: o uso de roupas grosseiras, des-
botadas e rasgadas de fábrica. Nudez diante dos outros,
principalmente de uma câmera de TV ou de uma máquina
fotográfica. Exibição de coxas ou de seios entre as mu-
lheres, para mostrar o proibido pelas regras dos ordeiros
e conformados. Badernas, gritos, urros e destruição du-
rante jogos, formaturas, shows, missas, sermões e posse
de presidente da república. Colônias de nudistas para ho-
menagear e defender o “naturalismo”, numa praia orna-
mentada pela cultura de massa. Ato sexual nos teatros,
filmes e praças, para combater o moralismo tolo e ineficaz
dos gagás.
Todas essas exibições teatrais, histéricas e mistura-
das a rituais religiosos ou pagãos, provocam, em seus exe-
cutores, uma excitação delirante: orgasmos demorados e
aplausos da grande massa entusiasmada enquanto espera
o retorno à Terra prometida. Os outros seres, surdos aos
berros dos jovens, observam, afastados e incrédulos, o
extraordinário entusiasmo enxertado à simplicidade hila-
riante. Para os jovens, lá, muito longe, no alto, bem aci-
ma de nossas cabeças de homens e da montanha, no céu
azulado e estrelado, anjos decentemente enfeitados da
nudez divina e primitiva, de mãos dadas, cantam e bailam
alegremente, girando em volta do compenetrado, honrado
e sempre vigilante Deus.
Entusiasmados com essa fantasia maravilhosa, em
alguns lares desse mundo afora, pais não muito jovens,
inoculados por essa pregação, passaram a cultivar o ba-

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nho coletivo. Também em algumas praias, como ocorre no
paraíso, desfilam homens, mulheres e crianças despidas.
Rapazes e moças desoladas exibem, diante da natureza
viva, a natureza morta: seios e pênis tristonhos e abando-
nados, órgãos esperando por algum milagre dos que por
ali passeiam.
Semelhante ao mito da nudez e do paraíso, de tem-
pos em tempos nasce o mito dos protestos estudantis cô-
micos. Estes, organizados pelos exploradores, vestidos de
cordeiros explorados, combatem com seus discursos in-
flamados o poder que eles, sem notar, exibem: roupas de
marca, palavras bem escolhidas e reveladoras de erudi-
ção, corte de cabelo moderno e apurado, relógios, brincos
e outras joias de alto custo. Seu poder, exposto através
das informações sem-palavras, mostra claramente existir
uma classe estudantil bem diferente da outra, da desclas-
sificada logo ao nascer. Frequentemente, através de grita-
rias em público, de algumas pedradas medrosas e cuida-
dosas, eles atacam o pobre policial que pertence à classe
que, hipocritamente, os líderes, do lado de cima do limite,
afirmam defender. Esta é a luta deles: alcançar, através de
ações dificílimas, perigosíssimas, carregadas de emoções
intensas, um mundo melhor ainda para eles, ou seja, o
paraíso para um grupo especial e já escolhido.
Durante essas lutas coletivas, desordenadas e cômi-
cas, transformadas em exibição teatral na praça pública,
jovens fantasiados, tendo as caras pintadas com esmero,
com roupas típicas plantadas em desejos inconfessáveis
de cada um, gritam, por instantes, com muita raiva, en-
quanto esperam a hora de ir jantar e beber no restaurante
chique. Ninguém sabe com clareza o que se pretende, a
favor de quê e contra quê se luta.
Todos sabem que há um protesto contra alguma coi-
sa. Rebelam-se, talvez, contra eles mesmos, pelas prer-

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rogativas que uns poucos têm sobre a maioria, pelo poder
que detêm, pela arrogância de um lado e a humildade do
outro. Reclama-se contra o atual em todas as áreas.
Tudo está errado! Exige-se um futuro melhor. Entre-
tanto, o que é este futuro melhor? Nenhum deles sabe,
nem nós, os mais velhos. Tudo é vago, distante demais,
impossível de ser até mesmo imaginado, representado e
muito menos verbalizado, o que eles mais fazem. Nin-
guém consegue definir o que se quer, nem mesmo os lí-
deres dos movimentos. Quase sempre a maioria deles fez
– ou faz - parte e defendeu, com o mesmo vigor, o “outro
lado”, o lado do “estabelecido”, o agora “combatido” com
veemência.
Este mundo imaginário e buscado, principalmente pe-
los jovens sonhadores e rebeldes, é nebuloso. Se não se
conhece o fim desejado, logicamente não será possível sa-
ber o meio para alcançá-lo. Nota-se que eles desejam um
retorno ao mundo antigo, calmo e ordeiro, sem lutas, com
nudez e frutinhas naturais para serem saboreadas ao som
singelo de órgãos celestiais. Entretanto, os jovens são, ao
mesmo tempo, apaixonados pelo mundo natural e atraídos
pelo moderno, pelo desperdício do dinheiro na compra dos
aparelhos de som e imagem ultrassofisticados, pelo uso
das últimas novidades em bebidas e drogas colocadas no
mercado, tudo isso não tão natural assim.
Muitos discursos, artigos e livros dirigidos aos jovens
buscam despertar crenças antigas, plantadas firmemente
pelos pais quando eles eram crianças. Nós todos as temos.
Essas histórias falam acerca de um mundo imaginário or-
deiro, cheio de homens bons e honestos, igualdade e liber-
dade para todos. Infelizmente, isso era uma mentira que
nossos pais ouviram de seus pais e, de boca em boca, a
história, teimosamente, continua a se alastrar. Este mundo
imaginado nunca existiu e nem existirá.

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A juventude que procura alcançar essa utopia ainda
acredita nela, mas, à medida que se torna adulto, o sonho
vai se acabando. Os jovens receiam transformar-se em
adultos, perceberem que o aprendido não é o experimen-
tado. Crescer, para a juventude, significa tornar-se igual
aos pais, assumir seu lugar nessa bagunça total, na farsa
e corrupção desse estranho mundo habitado por anjos e
demônios, metade céu, metade inferno.
Talvez o sonho máximo desse grupo fosse viajar para
o paraíso. Caso o combustível não desse, pelo menos até
Marte, no novo ônibus espacial a ser construído após o úl-
timo acidente, ou, talvez, na nave dos ETs. Para fazer essa
viagem fantástica, “numa boa”, “de repente”, “com certe-
za”, “né”, e junto com toda a patota, todos vestiriam um
uniforme superchique e moderninho. Bem, quando lá che-
gassem, prontamente eles iriam se despir. Após cada um
“ficar” rapidamente com os outros, eles comeriam, abra-
çados, as frutinhas celestiais distribuídas por São Pedro,
dançando e cantando, diante do som “louco” produzido por
uma banda supermoderna e, evidentemente, tendo todos
seus componentes drogados com cogumelos do céu.

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AS CONSTITUIÇÕES QUE PASSEI NA VIDA

Nasci em Itabira de Mato Dentro, sendo o décimo pri-


meiro filho de uma família de doze irmãos. Não participei,
por conseguinte, da criação, elaboração e discussão do que
era certo ou errado: a “Carta Magna” de minha família, a
“lei” do permitido e do proibido, do “bom” e do “mau” - já
há muito havia sido promulgada, não tendo contado com a
minha colaboração. Eu devia respeitá-la, cooperando com
o poder que emanava de meu pai e minha mãe. Por ser
criança, sem condição física, intelectual ou cultural, tinha
de seguir as normas e, se quisesse ser aceito, deveria tra-
balhar para a manutenção delas.
Assim sendo, aprendi que o partido Republicano de
Arthur da Silva Bernardes era o certo, e todos os políticos e
seguidores daquele partido eram homens bons, honestos,
de princípios justos e interessados no bem-estar geral.
Aprendi que devia rezar todas as noites três Ave-Ma-
rias e três Padre-Nossos e, em momentos de maior perigo,
a Salve-Rainha. Devia ir à missa aos domingos, confessar-
me pelo menos uma vez ao ano e rezar algumas Ave-Ma-
rias extras às três horas da tarde da Sexta-Feira Santa,
as quais, uma vez estocadas, seriam de grande valia em

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momentos de grande aflição. Diga-se de passagem, eu as
venho usando atualmente em grande quantidade, pois têm
sido frequentes os meus apuros. Felizmente, daquele esto-
que de preces ainda conto com umas boas reservas.
Aprendi que não devia roubar, mas que furtar frutas
no quintal do vizinho, quando houvesse abundância delas,
era tolerável.
Não devia maltratar certos animais, mas podia matar
galinhas e sapos. Devia matar, sem piedade, escorpiões,
cobras venenosas, marimbondos e mosquitos. Abelhas,
não, louva-a-deus e andorinha, nunca.
Devia obedecer aos pais, aos professores, assim como
ao governo do partido republicano, mas rebelar-me contra
o governo de Vargas ou o de Benedito Valadares, pois eles
eram errados e maus.
Aprendi que, à escola, à missa e ao dentista (não me
lembro se ao médico), eu devia ir limpo e calçado. Fora
daqueles “templos” eu podia - e até devia - andar descalço
para economizar sapatos e usar roupas velhas e estraga-
das pelos mesmos motivos.
Aprendi que, nas refeições, eu podia comer um ovo,
um pedaço pequeno de frango e, no pão, deveria pôr pou-
ca manteiga de um lado só do pão. Nunca era permitido
jogar comida fora, pois outros meninos não tinham o que
comer, logo, isso seria um pecado.
Não devia falar mentiras em hipótese nenhuma. Mas
essa regra começou a ser burlada ainda cedo, depois que,
no grupo “Barão de Macaúbas”, onde estudava, fui obriga-
do pela professora de Religião a retirar a imagem de Cristo
da sala de aula, por não ter ido à missa no domingo e con-
fessado contritamente a minha falta. A partir daí descobri
que era menos penoso ir contra o preceito de minha mãe
- não mentir - do que suportar o castigo de d. Mercês - ex-
pulsar o Cristo da sala de aula quando não fosse à Missa.

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Aprendi que, sendo homem, não podia chorar, fugir a
uma briga, assim como achar outro homem bonito.
Aprendi que eu seria o responsável - e ninguém mais
- por decisões como beber, fumar, sair de casa, “transar”,
escolher uma profissão. O que não podia era ficar sem es-
tudar ou trabalhar.
Tornei-me adolescente convivendo intimamente, num
time de futebol, com quase-favelados (naquela época não
havia ainda favelas): sapateiros, capinadores de rua, “cha-
pas”, serventes, carvoeiros, alcoólatras e até assaltantes
- embora “fichinhas” para a época atual. Seus valores e
sua hierarquia - a sua “constituição” - eram-me estranhos,
mas interessantes, pela novidade. Suas leis eram outras:
defendiam a supremacia do mais forte fisicamente sobre
o mais fraco, a masculinidade do que conseguisse tomar
mais pinga ou transar com um maior número de prostitu-
tas da rua Guaicurus. Eu era obrigado, às vezes, a fazer
algumas concessões às leis desse grupo, outras vezes, às
de minha família. Ao mesmo tempo tinha de associá-las
no meu eu. Não era fácil: quebrei cabeça para conciliar as
duas ordens e sobreviver a ambas. Escapuli desta enrasca-
da não sendo mais fiel a uma do que a outra regra. Iniciei
assim a formação de minha individualidade, fruto dessas
duas escolas às vezes antagônicas, mas com muitos pon-
tos comuns, como só agora percebo.
Estabeleci para mim uma consciência exigente, disci-
plinada e original, que ia impondo objetivos e promovendo
meios de alcançá-los, custasse o que custasse. Tinha que
chegar aonde minha mente determinava. Corajosamente,
entrei no paraíso selvagem da Faculdade de Medicina da
Universidade Federal de Minas Gerais.
Nesse ambiente, que nada tinha a ver com as mesas
de boteco da zona boêmia ou com minha casa, utilizavam-
se palavras venenosas, porém adocicadas, ditas na maio-
ria das vezes com gentileza hipócrita.

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Imperava entre os colegas uma competição doentia,
“cada um por si”: era a lei da selva. As informações sobre
textos e questões de prova eram escondidas a sete chaves
por - e para - alguns “iniciados”.
Os parentes e amigos dos “poderosos”, alguns poucos
escolhidos, eram visível e arrogantemente ajudados, pro-
tegidos e elogiados.
Nós, participantes da maioria sem poder econômico,
de parentesco ou político, éramos rejeitados. Eu não per-
cebia claramente que havia uma luta pelo poder e uma
tentativa dos seus detentores de não dividi-lo, mantendo-
o limitado ao exercício por uma minoria.
Era ideia minha que, se seguisse as leis do bom Cris-
tão de Itabira, eu seria tratado com respeito e dignida-
de na Escola, teria as oportunidades dos outros e talvez
pudesse até ser admirado, já que o hábito de obedecer
a regras de grupos fazia de mim um aluno cooperativo e
ajustado. Mas ali as leis eram muito diferentes e eu é que
não sabia disso.
Achava que estava participando ativamente de movi-
mentos compatíveis com os altos ideais da Faculdade, mas
eu apenas podia votar, ora num, ora noutro candidato, e
eram sempre os mesmos relacionados entre a minoria do-
minante, lutando para preservar ou aumentar os poderes
adquiridos.
Sonhava que os meus interesses seriam defendidos
nas diretorias, mas no fundo eles eram ignorados, pois
conflitavam com os interesses dos líderes. Como disse, as
normas impostas e garantidas pelos detentores do poder,
na Faculdade, diferiam e muito da constituição vigente na
família e das do grupo de companheiros.
Tendo, por fim, entendido isso, penosa e rebeldemen-
te passei a receber, como um golpe na face, as leis dos
médicos.

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1º - Nunca se emocione com o sofrimento de seu pa-
ciente ou da família dele, para não atrapalhar seu trabalho
ou julgamento.
2º - Trate o cliente como paciente. Saúde-o e conver-
se com ele e seus familiares, mantendo distância, pois é
ele quem precisa de você: o poder está em suas mãos.
3º - Forme seu grupo, faça parte das associações de
classe, senão você estará perdido. Os fortes, além de não
o protegerem, poderão destrui-lo.
4º - Use uma expressão, um andar, um vocabulário
típico do médico, identifique-se com a classe, perca a es-
pontaneidade, só assim você será entendido pelos seus
pares e manterá o poder sobre seu cliente, que se sentirá
inferior a você.
5º - Não seja simples: monte um consultório de luxo,
em bairro nobre, de preferência com aparelhos sofistica-
dos, mesmo que inúteis, para impressionar,
6º - Peça vários exames, use o mínimo sua própria
cabeça para não cansá-la e, se possível, faça diagnósticos
complicados para valorizar seu trabalho.
7º - Interne seu paciente psiquiátrico sempre que pu-
der, pois isso dará a você “mais conforto e segurança com
menos trabalho”, talvez, até mais dinheiro e mais poder.
8º - Associe-se a algum grupo teórico, de preferência
entre os psicanalistas, para com eles se sentir protegido
pelo seu poder nos departamentos e diante do público.
Através desse grupo, você poderá até receber clientes dos
mais poderosos, quando estes os tiverem de sobra.
Passou-se o tempo, eu não estava mais muito preso
às leis da antiga família itabirana, nem do grupo de esporte
e farras, mas também não conseguia compreender muito
bem e introjetar as leis da Faculdade de Medicina. E não
consigo até hoje. Tornei-me um solitário rebelde, mas, fe-
lizmente, sempre tive companheiros que também não co-

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mungaram com aquelas diretrizes. Lamentavelmente, um
bom número de médicos seguiu e segue a sério tais leis.
Confuso, inconformado, buscando um sentido, um
poder mais pessoal e não institucional, valores, liberdades
individuais e mais espontaneidade, eu ingressei na Facul-
dade de Filosofia. Ali, nova constituição há muito tinha sido
promulgada. Nova reviravolta, tanto nos meus objetivos de
vida, como nos meios para alcançá-los. Percebi que não há
verdades e certezas eternas: tudo o que havia aprendido
antes como certo, eram mitos, concepções do mundo. Tor-
nei-me um doido. Percebi a subjetividade da objetividade
médica, a defesa constante, por uma parte da classe mé-
dica, de valores duvidosos da nossa sociedade, a hipocri-
sia frequente num discurso médico paternal, protetor, mas
cuja intenção é manter seus próprios valores, segundo os
quais o paciente deve submeter-se como animal ou coisa
ao seu poder. Em resumo, percebi que, na Faculdade de
Medicina e na classe médica, uma boa parte de estudantes
e profissionais defendem e preservam o conformismo e
não as mudanças reais que valorizam o indivíduo como ser
único.
Você também, prezado leitor, que nasceu na família
Silva ou Souza, sabe o que é bom ou mau. Você também
está sujeito a centenas ou milhares dessas leis, sem tê-las
criado.
Elas entraram na sua vida e na sua mente sem serem
criticadas ou analisadas: entraram como transe hipnótico.
Comece a analisá-las: veja se elas o estão ajudando, ou
não, a ver melhor. As que o estão prejudicando-o, jogue-
as fora.

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INTUIÇÃO, RAZÃO E JULGAMENTO MORAL

Nosso juízo moral é dominado por duas ilusões:

1ª) Acreditamos que nosso julgamento moral é ativa-


do pela razão. Isso não é verdade.
2ª) Esperamos, através das discussões intuitivas, al-
terar o modo de pensar do opositor. Isso não acontece.
Segundo o modelo intuitivo (não-racional) o indivíduo ao
ouvir, por exemplo, o relato de um estupro, é dominado
rápida e automaticamente por uma emoção desagradável.
O mal-estar corporal interno, uma vez percebido, produzi-
rá uma avaliação negativa do fato. Apoiado no desconforto
interno, a pessoa capta intuitivamente, sem usar a lógica
ou razão, que o estupro é um ato condenável. Algumas
vezes - nem sempre - após a explosão intuitiva, a pessoa
procura tornar inteligível o problema, explicando-o verbal-
mente.
Nosso cérebro, construtor de modelos avaliadores e
explicativos, só recentemente começou a ser bem estu-
dado. O homem sempre procurou interpretar o meio am-
biente e seu organismo. Durante séculos, as interpreta-
ções mágico-religiosas dominaram as explanações. Mais

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tarde nasceram as ideologias e, também, as ciências. Mas
a conduta moral, sendo um julgamento de valor (princípios
ou normas idealizados), não permite ser verificada atra-
vés de testes empíricos, apenas pelas reflexões filosóficas.
De qualquer forma, o roteiro sagrado e não-sagrado tem
servido de sustentação para captar, selecionar, organizar
e explicar as informações complexas ou simples do meio
ambiente.
Cinco funções têm sido descritas como sendo as mais
importantes para selecionar e interpretar o observado:
sensorial (sensação), dois tipos de cognições, um formal e
outro mítico ou sobrenatural, sentimento (emoção) e intui-
ção (conhecimento obtido sem o uso da razão). Ninguém
usa somente um desses cinco modos de focalizar o even-
to, mas cada pessoa tende a empregar mais uma função
que outra (sensorial, cognitiva, emotiva e intuitiva). O fato
focalizado, por si só, pode ativar o uso de uma função. No
velório posso ser impelido a usar o processo sobrenatural,
ou se tenho dor de barriga, focalizo o sensorial e, também,
o pensamento intuitivo sobre a causa: o possível pastel
comido no boteco.
O cérebro do homem, muito cedo, é marcado por no-
ções intuitivas simples. Dada a potência do nosso B-A-BA
inicial (pré-saber), este aprendizado nunca mais nos aban-
dona. O homem inculto, desprovido de saberes complexos,
percebe, entende e explica os eventos através das noções
adquiridas cedo (pré-saberes), geralmente inadequadas.
Muitas vezes, um mito, uma metáfora ou comparação ser-
ve de base para exibir o entendimento (“Pedro é um cava-
lo. Só fala abobrinhas.”). Este é instrumento limitado para
descrever uma conduta.
Alguns adquiriram um saber, mas a complexidade
desse saber pode sofrer danos ocasionais. O pré-saber
primitivo pode invadir e dominar, com sua simplicidade,

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o saber complexo. Isto ocorre quando a pessoa está fati-
gada, apressada ou com a “cabeça quente”, por exemplo,
dominada por paixões: sexuais, políticas, etc. Resumindo:
nosso julgamento final é uma “salada” contendo intuições
emocionais, pré-saberes e, às vezes, saberes mais profun-
dos e amplos, capazes de criticar e dominar os pré-saberes
inocentes e primitivos.

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BICHOS OU SERES HUMANOS?

Ao lidar com os meninos de rua não devemos esque-


cer que estamos lidando com seres humanos, cujo com-
portamento resulta das exigências do seu organismo bioló-
gico, de sua aprendizagem durante sua vida, dos estímulos
provenientes de seu meio ambiente num determinado mo-
mento, das pressões provocadas pelos grupos dos quais
fazem parte e conforme os modelos que aprenderam de si
e do mundo. Todos estes fatores funcionam juntos, predo-
minando, ora mais um, ora outro.
O que diferencia os “pivetes” não-criminosos dos
“pivetes” criminosos são pequenas diferenças existentes
em cada um dos fatores acima relacionados. Assim, um
adolescente não-criminoso apresenta uma concentração
de serotonina cerebral - um neurotransmissor existente
no cérebro - mais elevada do que o menino criminoso.
Uma criança “normal”, provavelmente, foi criada num lar
mais harmonioso e seus pais eram mais bondosos e com-
preensíveis do que os pais – caso tenha - do menino de
rua. Os pais do adolescente “normal” talvez não tenham
sido alcoólatras ou dependentes de drogas. O cérebro de
um recém-nascido “normal” não sofreu danos pré, peri, ou

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pós-natal como pode ter ocorrido no pivete criminoso. A
maioria dos meninos tem uma ideia do mundo mais realis-
ta do que a do menino de rua, principalmente da conduta
das pessoas.
A família e a sociedade em geral vai, pouco a pouco,
se acomodando e assimilando a carreira do “pivete”, que
ela, em grande parte, ajudou a construir. Acostumamo-nos
com seus pequenos delitos e sua aprendizagem progressi-
va para crimes mais sérios. Aceitamos passivamente, sem
nos alarmar, sua miséria, sua morte precoce nos aciden-
tes de trânsito, nos espancamentos sofridos dos próprios
companheiros ou por grupos de extermínio, suas doenças
graves, sua desnutrição, seu tédio proveniente de sua vida
vazia e sem sentido, sua falta de higiene, o uso de drogas,
sua submissão a estupros e, por fim, sua exploração conti-
nuada pelos que se utilizam deles para a prática de roubos,
de relações sexuais e até mesmo de campanhas políticas.
Lamentamos histericamente seu sofrimento com pa-
lavras semanticamente apropriadas para as emoções ne-
gativas, mas sem que nosso coração ou pulmão mude seu
ritmo normal. Assistimos nas imagens da televisão a seu
sofrimento de animal abandonado, no instante da notícia.
Após a hora marcada para “sofrermos” o problema do pive-
te, diante do noticiário, desligamos a TV e também nosso
cérebro e o ligamos no canal das diversões. Ao exibir essa
conduta de preocupação simulada, expiamos nossa res-
ponsabilidade na participação desse problema social e re-
forçamos a nossa imagem de cidadãos bondosos. Com isso
mantemos um falso equilíbrio e nossa autoestima elevada.
Após o “nosso sofrimento” de hora marcada, saímos
com nossa família saudável e unida para jantar. Passamos
pelo teatro para assistirmos a uma comédia representando
o drama humano. Voltamos para casa para mais um des-
canso, agora das diversões do mundo fictício. Deitamo-nos

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para dormir numa espaçosa cama limpa, macia e confortá-
vel. Recuperamos, desse modo, as energias perdidas pelo
sofrimento do dia anterior.
Dormimos um sono tranquilo e sem culpa, como bons
cristãos que somos. Enquanto dormimos, neste momento,
um pivete pode estar sendo assassinado, acidentado ou
estuprado numa noite fria, indiferente, sonolenta e serena
como nós.

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COMPUTADOR E FERRADURA

O homem pós-moderno deixa a luz feérica dos labo-


ratórios de cibernética, energia nuclear e genética, onde
recompõe a vida, e à noite vai procurar a luz bruxuleante
dos templos de pai-de-santo, cartomantes, gurus, opera-
dores de pêndulo, onde humildemente busca forças para
viver e resolver seus conflitos.
A cada monumental templo erigido em nome da ci-
ência, surgem dezenas de outros dedicados às mais estra-
nhas ideias sobrenaturais. Cada um acha que a sua ideia
é a melhor, após, naturalmente, ter experimentado várias
delas. A confusão é tão grande, as pessoas estão tão per-
didas em busca de um mundo mítico e mágico, que em
Paris apareceu um feiticeiro africano, que conseguiu reunir
os dois mundos numa só idéia: passou a vender coca-cola
benta. O homem pós-moderno é, pois, aquele que toma
coca-cola benta, enquanto opera o seu computador de úl-
tima geração.
Essa confusão mental, digamos assim, ocorre no
mundo inteiro. Os jornais e as listas telefônicas america-
nas estampam em suas páginas milhares de anúncios de
cartomantes, videntes e outros autorrevelados, interpreta-

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dores desses estranhos sinais de comunicação existentes
nas linhas das mãos, nos olhos, no ar, nas cartas etc., para
uma possível comunicação com o mundo sobrenatural.
Calcula-se que na Inglaterra mais de 10 mil profissio-
nais dessa área trabalham em tempo integral. Na China,
os dragões saltam dos livros vermelhos para a imaginação
do povo e terror das crianças.
Conta-se que um jornalista ocidental comentou com
um chinês que iria escrever um artigo sobre dragões. O
chinês disse que a revolução havia acabado com essas
ideias.
— Mas é um dragão de penas brancas.
— Mas todo mundo sabe que os dragões não têm penas.
É isso: todo mundo sabe, e provavelmente tem cer-
teza, que sua crença, religião, seja lá o que for, é a única
certa, a que está mais apoiada em dados e mais, já teve o
seu modelo colocado para estudos em um computador não
menos maluco.
O mau-olhado é universal: os franceses fazem o si-
nal da cruz quando ouvem falar em “regard méchant”, os
italianos têm horror do “mal ochio”, que deve ser evitado,
custe o que custar. Em todas as ilhas britânicas, inclusive
naquela em que mora a rainha, uma ferradura é o principal
instrumento capaz de afastar o mau-olhado. Uma pessoa
pode adoecer, uma planta definhar e o gado morrer devido
ao mau-olhado. Todo mundo sabe disso.
Há uma grande diferença entre as crenças pós-mo-
dernas e as líricas que povoaram nossa mente e tornaram
nossa infância mais agradável e rica em sonhos. Criou-
se hoje uma simbologia mística complexa, construída pelo
marketing, utilizando-se da ingenuidade inata ou construí-
da pela propaganda, apoiada no mito do fim do mundo, na
busca de momentos mágicos, de um orgasmo mais exci-
tante, de benefícios extraordinários da alimentação natural

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ou de um “mundo melhor” com alucinógenos. Cada grupo
organiza-se de acordo com suas atitudes, formando uma
seita que sempre é a correta, pois é uma crença e estas
são sempre certas, com muita fé.
Há uma florescente indústria de “alimentação natu-
ral” onde se defende, com unhas e dentes, a necessidade
dos vegetais serem cultivados sem adubos ou agrotóxicos.
Isso é, puros e virgens como deve ser o homem íntegro.
Há também o puro mel obtido de abelhas treinadas que
não se aproximam de flores envenenadas. A “comida na-
tural” começa a ser um negócio que é olhado com bons
olhos pelos banqueiros. Eles nunca se enganaram. Nunca
mesmo.
Misturam-se símbolos de alto e baixo nível numa ba-
gunça total: crucifixos, ferraduras, pé-de-coelho, trevo de
quatro folhas, amuleto, dentes e diversos outros, confun-
dindo a orientação e a cabeça de qualquer “crioulo doido”.
Cada ferramenta ou símbolo “protege” o indivíduo daquilo
que ele teme, dando-lhe uma pseudossegurança e sentido
para a vida sem sentido.
Isso faz lembrar o grande movimento hippie dos anos
60. Cabelos grandes, jeans, tênis e alguma sujeira era o
máximo de contestação ao “sistema”. A recusa em usar
outros tipos de roupas, acreditavam eles, era uma maneira
de protestar contra o desvairado consumo da época. Pois
bem, os hippies mais espertos se aliaram a não menos
espertos industriais e hoje temos a moda “jovem” venden-
do e muito: ela envolve milhões de dólares. Figurinistas,
cabeleireiros, perfumistas e outros profissionais não tarda-
ram a entrar no negócio e todos viveram felizes até surgir
uma nova moda, a unissex, que fatura de outra maneira.
Dizem até que a moda unissex foi criada pela conjunção de
heterossexuais não muito convictos e homossexuais ainda
não-assumidos.

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A eliminação da individualidade e solidão está sendo
conseguida através do uso de roupas, de penteados, de
discursos e até de fragrâncias, por um mesmo grupo, que
imagina com isso estar protegido e seguro.
Livros estranhos sobre as mais estranhas ideias têm
a mesma tiragem dos livros sobre computação. Calcula-se
que um manual de operação de pêndulo vendeu mais de
100 mil exemplares em pouco mais de um ano. Tome-se
que a tiragem básica no Brasil é de 10 mil exemplares e cal-
cule o sucesso dos ensinamentos para as ideias místicas.
Revistas místicas de ufologia, comida natural, sexolo-
gia e outras coisas do mesmo gênero são compradas pelo
mesmo leitor que leva as de rock, programação básica e
vídeo. Em alguns países já é possível comprar as antigas
e puras receitas de bruxas em fitas, CDs e DVDs. É o pro-
gresso da ciência.
Os roqueiros gostam principalmente dos conjuntos de
“heavy metal”. Esses são autores e donos de gestos que,
em outras épocas, os levariam diretamente para as foguei-
ras. Hoje eles causam o delírio de multidões de jovens,
alegria para os felizes produtores.
Não se sabe realmente o que é mais demoníaco, se
os gestos ou a estrutura publicitária montada em cima do
assunto, criando a necessidade de pertencer aos grupos.
A pessoa deposita no guru a mesma confiança, ou
mais, que a que é descrita no resultado de sua tomografia
computadorizada. Por via das dúvidas, consulta-se os dois:
primeiro o guru, depois o clínico, mergulha-se no mais mo-
derno arsenal quimioterápico e, caso escape, sai dizendo
maravilhas acerca do guru.
Isso não é de se espantar. Um arsenal de palavras,
sem definição muito clara, tem sido usada por quase todo
o mundo. Mental é uma delas, tem poderes mágicos e coi-
sas do tipo “melhore sua vida mental”, “controle mental

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em cinco lições”, “controle sua mente”, são amplamente
usadas. Democracia, comunismo, modelo, maduro, ca-
rência afetiva, feminismo, liberdade são outras palavras
mágicas que todos expressam sem saber realmente qual
é o significado delas e cada um, na verdade, cria o seu
entendimento particular. Os embusteiros pós-modernos as
usam a toda hora com os significados que lhes interessam.
Oriente é outra palavra que eletriza as pessoas. De lá po-
dem vir chips ou filosofia, tanto faz, há consumo para as
duas coisas.
O mesmo olhar embevecido com que o técnico olha
essa maravilha da ciência que é o chip, mais tarde será
utilizado para o guru, dono de frases que serão vendidas
aos milhares em livros distribuídos por todo o país. Produ-
tor de chips e gurus têm possibilidades iguais de obterem
o mesmo lucro.
Fazer filtros de amor, beber poções mágicas que nos-
sos pais-de-santo carinhosamente chamam de “garra-
fadas”, não exclui o uso da técnica, a vida moderna, a
pesquisa científica e o ensino universitário. Na verdade a
ciência também não escapa às superstições. As explicações
da ciência vão até certo ponto, a partir do qual nascem as
crenças, metáforas ou mitos para fornecer a compreensão
dos fatos onde nenhuma explicação plausível é conheci-
da – nem possível – como, por exemplo, os conceitos de
“energia mental” da psicanálise, a representação gráfica
do átomo, o vetor como força física e assim por diante.
As religiões e pseudociências, não sendo testáveis e
tendo por base premissas logicamente interligadas, so-
mente logicamente, não permitem contestação na sua
composição mística. A tentativa de analisar estes fatos
pelo ponto de vista científico costuma acabar em tragédia:
o pesquisador pode virar guru.

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O MODELO DA LATA DE LIXO

Todos vocês conhecem a “lata de lixo” mas prova-


velmente não conhecem o “Modelo da Lata de Lixo”, um
termo criado por alguns cientistas desocupados. Eles falam
que em qualquer sociedade sempre se encontram pessoas
que discutem e brigam por certas ideias, as mesmas de
sempre, anos após anos.
Conforme os criadores do Modelo da Lata de Lixo, ao
se iniciar uma discussão em mesas redondas, programas
de TVs e rádios, sempre aparecem, em todos eles, certos
problemas que são os mesmos, várias vezes repetidos, os
quais dominam a atenção de todos no debate. Eis alguns
exemplos desses assuntos que “enchem” os programas,
bem como a fala dos debatedores: “Precisamos estudar
melhor os discos voadores”, “Com o imposto único o País
irá retomar o crescimento”, “Devemos combater as drogas
a qualquer preço”, “Nosso problema é a infância desassis-
tida”, “O problema do Brasil é a fome”, “Precisamos acabar
com a impunidade do país”, “O mal é o aumento do desem-
prego”, “Devemos aumentar o lazer”, etc. O leitor lembrará
de muitos outros problemas importantes para serem dis-
cutidos com ardor.

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Como é difícil pensar e trabalhar com muitas ideias ao
mesmo tempo. Sendo muitas delas contraditórias, ao ado-
tar o modelo da “Lata de Lixo”, as discussões, bem como
os problemas, se tornam simples e fáceis de serem resol-
vidos. Através desse modelo, todos os grandes problemas
são facilmente equacionados na mente de seu defensor e,
mais ainda, sua vida. Mesmo quando o argumento não se
encaixa no discutido, os debatedores, seguros e tranquilos,
lutam tenazmente pela importância das brilhantes ideias.
Este modelo é construído da seguinte maneira: ao
nascer, a criança começa a adquirir um sentido do “bom”
e do “mau”, do “certo” e do “errado”, inicialmente através
da observação da conduta dos companheiros mais velhos,
quando ainda não aprendeu a linguagem e, muito menos, o
raciocínio lógico. Um pouco mais tarde, são aprendidos os
valores e condutas, principalmente com o grupo de amigos
e com os “ensinamentos” da mídia. Durante a puberdade
e a adolescência, o aprendizado de valores será através
da imitação dos companheiros de grupo. Para alguns, esse
é o período mais importante e crítico para a aquisição de
julgamentos do “certo” e “errado”. Depois, seus juízos de
valor vão se fixando cada vez mais através das reações
cordiais ou hostis com pessoas importantes para o com-
portamento do agente.
Alguns dos valores defendidos com ardor, uma vez as-
similados e armazenados, passam a fazer parte dos objeti-
vos que devem ser seguidos e dos julgamentos realizados
pelo indivíduo. São eles que fornecem o sentido para a vida
de cada um. Muitos dos “tem de ser”, “devo agir” e “tinha”,
que proferimos constantemente para nós mesmos e para
os outros, nem são normas de conduta definitiva, nem são
universais, isto é, para todas as culturas. Os valores são
apenas objetivos individuais, temporários, seguidos por
uns, rejeitados e amaldiçoados por outros, variando con-

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forme as diferentes culturas e subculturas, podendo tam-
bém ser adotados como meios para outros fins. Por isso, os
valores podem, e devem ser, de fato, questionados.
Como temos diversos “professores”, cada um deles
com uma opinião própria, aprendemos valores-fins e meios
antagônicos. Assim, de um lado, como objetivo, aprende-
mos que devemos respeitar a professora, por outro lado,
avaliamos que é agradável conversar na sala de aula sobre
a nova namorada com o amigo. Aprendemos que devemos
ser honestos, mas também que precisamos passar de ano
e, como não estudamos, temos que colar. Ao escolhermos
uma conduta contendo, ao mesmo tempo, valores defen-
didos opostos, podemos, às vezes, ficar confusos. Assim,
agrada-nos fumar, mas desejamos ter boa saúde, não que-
remos ser obesos, mas a carne gordurosa está uma delí-
cia. Queremos viajar, mas precisamos trabalhar mais ainda
– o que não nos agrada - para ter um dinheiro sobrando,
desejamos a vida com uma companheira compreensível
e carinhosa, mas detestamos as limitações impostas pela
vida a dois ou a três.
Alguns valores podem tomar conta de nossos objeti-
vos ou meios a vida inteira, como nos exemplos: aos de-
zoito anos Pedro decide ser engenheiro e torna-se enge-
nheiro até a morte, José decide casar-se aos 28 anos com
Marta, a mulher dos seus sonhos. Poderá ficar para o resto
da vida preso a ela e aos filhos nascidos.
Diante de tantas alternativas, pergunta-se:
“Que caminho devo tomar?” Muitos só enxergam e
têm interesse e certeza da existência de um só objetivo
e caminho para se chegar a ele, sendo essa preocupação
solitária que passa a coordenar, dirigir e a fornecer signifi-
cados para a vida. Os que fazem parte desse grupo podem
passar a vida fazendo campanhas contra o aborto. Outros
se preocupam com o controle do armamento nuclear.

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Alguns lutam a favor do estudo da homeopatia nas
Faculdades de Medicina. Outros lutam em prol da vida das
cobras. Para esses, o voto deve ser dado nas eleições para
o candidato que defender esse ou aquele problema parti-
cular: basta um deles, desde que se encaixe no “Modelo da
Lata de Lixo”. Adotando essa posição, o mundo fica fácil de
ser entendido, explicado e manuseado.
Felizmente, para a felicidade de todos, algumas vezes
um problema pode ser resolvido sem atrapalhar o outro. É
possível tapar os buracos da Rua da Esperança fazendo, ao
mesmo tempo, um mata-burro na Rua dos Sofredores e,
também, prender os ladrões de galinha do Lambari. Coro-
ando tantas obras, criam-se mais impostos e, como conse-
quência, aumenta-se os salários dos nobres e digníssimos
deputados.

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REFERENDO: UMA DECISÃO IMPOSSÍVEL

Devemos ser a favor ou contra o uso de armas, a fa-


vor ou contra a pena de morte? E do aborto? De internar
ou não o paciente psiquiátrico? Manter ou dissolver o mal-
dito casamento? Eis alguns exemplos de dúvidas que nos
perseguem, quanto à escolha de um valor ou outro.
Um anarquista polêmico defendia a igualdade acima
de tudo. Para ele as universidades deviam ser fechadas
porque formam pessoas desiguais, homens superiores,
comparados aos não-estudiosos. Da mesma forma, um
mundo de perfeita justiça não é compatível com a mise-
ricórdia. A lei exige a pena conforme o delito, a ética reli-
giosa defende o perdão. A defesa de um valor vai contra o
outro. Existirá apenas um certo?
A liberdade procurada por todos não convive bem
com a igualdade. Se José é livre para fazer o desejado,
ele, sendo mais forte que Gervásio, pode, usando sua li-
berdade, agredir seu desafeto. Se defendemos a igualda-
de, não devemos ultrapassar outras pessoas quanto aos
bens materiais (propriedades, dinheiro), nem com respeito
aos bens intelectuais, espirituais, artísticos (conhecimen-
to, perícia, governo, arte). Se ultrapassamos os outros,
nos tornamos desiguais.

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A felicidade e o conhecimento podem ser ou não com-
patíveis. Alguns pensavam que o conhecimento sempre li-
bera e salva o homem e aprisiona o ignorante.
Nem sempre ele libera: se fico sabendo que sou por-
tador de um câncer incurável – um conhecimento - não me
torno mais feliz e mais livre.
Admiramos a criatividade, o nascimento livre das
ideias e obras de arte. Entretanto, essa liberdade não é
compatível com a capacidade de planejamento cuidadoso
e eficaz, sem o qual não pode ser criada nenhuma vida
organizada e segura.
Ter uma companhia amiga é uma meta cobiçada por
todos. Mas são essas companhias – rotuladas de agradá-
veis – as principais fontes de futuras dores, da perda da
querida liberdade e do sossego. Os cônjuges brigam entre
si, batem, exploram um ou outro. Os amigos matam, tra-
em, mentem. Os colegas podem ser egoístas, competitivos
e agressivos. Se estamos livres dos sofrimentos das rela-
ções, não gozamos os prazeres do amor.
Armado e desarmado, liberdade e igualdade, criativi-
dade e segurança, felicidade e conhecimento, misericórdia e
justiça, solidão e amizade: esses são valores procurados por
todos, mas são incompatíveis entre si. Quando somos obri-
gados a escolher, sempre iremos sofrer perdas, às vezes,
trágicas. Esse outro lado da escolha deve ser aceito com
naturalidade, pois, no momento, escolhemos um valor que
parece ser mais importante. Estudar Medicina ou Direito?
A ideia do mundo perfeito, onde só as boas coisas
podem ser realizadas, não existe. A escolha de um certo
valor impedirá gozar o prazer possuído pelo valor descar-
tado. Há sempre ganho de um lado e perda de outro. Não
existe projeto de vida ideal pelo qual deveríamos sacrificar
nossa vida: não há “vida perfeita”. Essa quimera jamais
será atingida.

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Não podemos nem imaginá-la, pois, se observo o lado
bom, também vejo o ruim, sempre são dois lados da mes-
ma moeda.

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A MULTIDÃO SOLITÁRIA

Se você não é a favor dessa ideia, lute pela contrária.


Assim como os policiais devem combater os criminosos,
alguém deve combater os policiais. É preciso proteger as
árvores, mas é preciso, também, ter mais empregos e in-
dústrias. Os fiscais devem fiscalizar os preços e nós temos
que fiscalizar os fiscais. Devemos ir ao teatro e ao futebol.
Mas, e o aborto? Ah! Devemos combatê-lo com rigor, mas
precisamos proteger a liberdade e os direitos das mulheres
de terem ou não filhos. Como agir?
Cada um acha que seu problema é o mais importante.
O envolvimento com esses “ideais” fornece ao organismo
um bem-estar, pois aumenta os estoques empobrecidos
pelas frustrações de substâncias químicas como a sero-
tonina, dopamina, noradrenalina, oxitocina, endorfinas e
outros neuropéptides mais, todas substâncias importantes
para nosso bem-estar. Devem diminuir os impostos que me
atingem e aumentar os dos outros. Precisamos proteger os
animais. Coitado deles! Na primeira oportunidade o defen-
sor dessa ideia esmaga uma formiga trabalhadora e séria,
aniquila um inocente pernilongo-fêmea que necessita de
um pouco de sangue para que sua espécie não desapareça

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e pisa, sem dó nem piedade, numa barata que passeia cal-
mamente à noite, na cozinha, em busca de uma paquera
ou de um jantar de migalhas abandonadas. Combate-se
com veemência a matança das raposas que comem as ma-
gras galinhas do lavrador faminto. Tudo são valores! O que
será melhor: comer abóboras ou assistir à ópera, manter
as florestas ou aumentar empregos?
Essas tomadas de posição por algo têm uma impor-
tante função social. Precisamos dessas discussões e deve-
mos tomar parte nelas. Qualquer movimento social seja
real ou fictício, importante ou não, agradável ou aversivo,
sábio ou idiota, liberta, ainda que por momentos, o indi-
víduo de seu vazio, de sua depressão, ou melhor, de sua
desesperança e desamparo com esse mundo confuso. É
preciso estar envolvido! O povo procura, fora de si, uma
“causa” para ser seguida, por isso são sempre bem-vindas
ações governamentais ou não-governamentais para “dis-
trair o povo”, para promover estoques das benditas subs-
tâncias químicas que nos põem alegres e animados, cheios
de esperança com respeito a qualquer bobagem. Tudo ser-
ve para aliviar o povo do seu desengano, sofrimento e,
principalmente, da ausência de objetivos próprios.
Mas para conseguirmos um alívio mais eficaz do té-
dio, precisamos ter companheiros, alguém que tenha a
mesma fé, acredite e lute pelos mesmos valores. Ligados
a uma causa comum, os seres humanos se sentem sa-
tisfeitos, seguros e, quase sempre, entusiasmados com a
própria alienação, bem como a dos amigos. Uma multi-
dão perdida, uma vez reunida sob o mesmo guardachuva
conceitual, descobre, irmanada, um sentido imaginário e
atraente para participar, de braços dados, de qualquer jor-
nada. Agarrados uns aos outros, como crianças amedron-
tadas se prendem à saia da mãe, esses indivíduos realizam
seus sonhos e esquecem, provisoriamente, da miserável e

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chata vida do dia-a-dia. Amparados em bandeiras podres,
protegidos por venerar os mesmos objetivos duvidosos,
excitados e sem refletir, eles planejam, estabelecem e dão
sentido a um programa de vida sem sentido.
Passam a ter uma “ideal” para lutar, brigar e até morrer.
Quem ainda não entrou para um grupo desses, não
se aflija. Existem vagas em diversos clubes: entre rápido
para o fã Clube de Carmen Miranda, colecione “souvenirs”
deixados por James Dean, Michael Jackson, participe dos
estudos dos Objetos Não-Identificados, frequente o clube
dos machões ou das feministas, compre depressa ingres-
sos para o maravilhoso “show” do cantor X, o curso para
“Ser Feliz” do Professor Z. Na ausência de tudo disso, faça
parte do clube dos amigos de qualquer coisa. O nome não
importa. Se este não for seu caso, para o bem de sua saú-
de mental, comece a comprar. Compre qualquer coisa: um
lápis colorido, um Papai Noel, uma boneca, uma cafeteira,
uma camisa do seu time ou uma arca enorme para guardar
tudo. É tempo de festa. O importante é o entusiasmo por
algo e, talvez, quanto mais ridículo e estranho, maior efei-
to terá na produção de energia, de prazer e de alegria de
viver. Esse é o mundo sonhado pelo homem moderno que
está em construção. Ou será em desconstrução?

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GUERRA, HERÓIS E INOCÊNCIA

Os povos sempre produziram bobos, heróis e trapa-


ceiros. Talvez precisemos deles. Os bobos servem para nos
divertir, os heróis nos fornecem direção e segurança para
as dúvidas e os trapaceiros nos fazem acreditar, por alguns
momentos, em dias melhores. Uma distinção precisa entre
eles não é fácil, pois as três características se misturam
e se completam. Todos trabalham com o povo: o herói
precisa de um público para admirá-lo ou adorá-lo, o bobo
necessita de risadas da plateia, e o trapaceiro aproveita a
ingenuidade e crendice de suas vítimas.
De tempos em tempos, como ocorre agora, os heróis
(ou seriam trapaceiros?) ocupam os espaços dos jornais.
Eles inoculam nas mentes inocentes, através de discursos
virulentos, estimulantes para o tédio do povo. Sua fala,
desprovida de argumentos, inclui, preferencialmente, sons
com forte teor emocional, frases grandiosas, expressas de
forma direta, simples e vaga, escondendo a complexidade
dos temas discutidos.
Palavras oportunas, em grande quantidade, são dis-
paradas contra a mente de fanáticos admiradores. Sob o
efeito do discurso, cada um em seu canto, interrompe suas

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reflexões pessoais sobre as eternas desigualdades e injusti-
ças sociais, esquece sua insuportável solidão, sua vida sem
atrativos e sem perspectivas de mudança. O discurso do
guru, milagrosamente, lhe revela alguma razão para viver.
O líder, consciente da submissão, fraqueza e aturdi-
mento dos liderados, injeta, pouco a pouco, em suas men-
tes macias, a figura do inimigo fantasma. Revelado o ini-
migo comum, mesmo sendo cada um muito diferente do
outro, os desgarrados se unem.
As palavras do líder, lançadas com sabedoria e pre-
cisão matemática, produtos de refinadas pesquisas das
agências de propaganda, atingem a mente atordoada do
guerreiro em potencial, sendo que a provocação do ódio
concentra-se, inicialmente, num nome. É difícil odiar um
povo, pois esse, além de não ter personalidade, não pode
ser visto. O combatente virtual só sente e entende o con-
creto. Termos usados para expressarmos nossa raiva de
todo dia, são utilizados para identificar o inimigo: demô-
nio, bandido, louco, ditador, agora, terrorista. Uma vez se-
lecionado o monstro, estende-se a agressão para o povo
da mesma raça.
Doutrinados pelo ódio ao inimigo comum, os conver-
tidos se sentem encantados, aliviados e felizes por esta-
rem defendendo uma causa justa e grandiosa. Extasiados,
sentem nascer, no seu íntimo, um vigor e prazer sublime,
nunca antes vivido, fruto de sua conversão a um “xiismo”
qualquer. Assim, milhões de fanáticos, ligados por uma
ideia comum, partem para o ritual da guerra. Nesse ponto,
os objetivos escusos do líder passam a ser os mesmos dos
seguidores, mais importantes que suas vidas.
Estranhamente, e como é estranha a mente huma-
na!, esses jovens convertidos, antes desorientados, agora
se sentem seguros e tranquilos. Suas intermináveis e dolo-
rosas dúvidas: “o que fazer?”, ou “para onde ir?” terminam

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com a adesão à guerra. Na mente dos humildes seguidores
despertam sonhos muito antigos de glória e de poder, ina-
tingíveis pelos caminhos normais de sua vida. Entretanto,
ao se identificar com os discursos do líder, o soldado ima-
gina-se importante, conhecido e poderoso.
Claro que ele não será famoso como foi John Smith,
por exemplo, Mas ficará famoso por ter morrido como sol-
dado do regimento importante, de um país importante. Ele
imagina ser um dia famoso e forte como é seu guia idola-
trado, fantasia dias melhores, paz e felicidade. Começa a
sonhar com seu retorno triunfal, seu nome na imprensa,
garotas belas e carinhosas ao seu redor, numa praia en-
solarada, como sempre viu nos filmes sobre os heróis de
guerras anteriores.
Os que já foram enganados outras vezes por diversos
governantes, esperam mais fatos e menos boatos para se
decidirem. Este grupo sabe que as suas experiências são
altamente diferentes das vividas pelos seus superiores. Os
sons que eles pronunciam são os mesmos que todos nós
pronunciamos, mas essas palavras iguais (“guerra”, “inimi-
go”, “ditador”, “terrorista”, “incapaz de governar o povo”, “li-
berdade”, “democracia” e outras), expressam experiências
muito diferentes, referem-se a mundos totalmente diversos.
Sadam Hussein foi “Deus” para boa parte do povo iraquia-
no, Bush foi apoiado pela maioria do Congresso e por gran-
de parte do povo americano nas votações. Nós, brasileiros,
já elegemos Jânio, a nossa Câmara já aprovou, sem votos
contra, o governo de Costa e Silva, Médici e outros. Stalin
foi herói na Rússia e Hitler, na Alemanha. Com o passar dos
anos, com mais informações e menor número de versões, a
história poderá ser transformada em novas verdades.
Já assistimos a esse “filme” e já conhecemos o per-
dedor - o povo dos dois lados - e os vencedores, os gover-
nantes de algumas nações e certos empresários que, como
sempre, aproveitam a situação. Essa é a sua atividade.

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Infelizmente os heróis ou trapaceiros voltaram, dis-
cursando como sempre, conduzindo para a guerra, ou para
diversos caminhos estranhos aos nossos, um rebanho de
jovens inocentes. Seriam os tolos?
Vidas e vidas continuam sendo eliminadas, sem ao
menos perguntar aos crentes seus valores e objetivos. Im-
põem-nos, em troca do nada, expelindo palavras vazias,
seus objetivos sórdidos. De tempos em tempos, uma mul-
tidão de ovelhas puras e mansas caminha, antes da hora,
para o outro mundo, conduzida por pastores incapazes,
imbecis ou loucos.

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OS MAIORAIS

Alguns sujeitos têm mais sorte que outros: são per-


cebidos pela população como possuidores de característi-
cas muito “superiores” às normais, por isso são chamados
de “gênios”, “santos”, “heróis”, artistas excepcionais, cra-
ques tipo Pelé ou Ronaldinho ou “grandes bandidos” como
o “Fernandinho” e o “Bandido da Luz Vermelha”. Esses in-
divíduos não se transformaram apenas em bons médicos,
excelentes atletas ou artistas, eles se transformaram em
mitos. Chamo a atenção do leitor, pois uma coisa é dife-
rente da outra.
Alguns indivíduos abandonaram sua “humanidade”,
isto é, as mazelas e singularidades positivas e negativas
próprias dos homens, sofreram uma metamorfose, deixa-
ram a pele humana e passaram a usar vestimentas glorio-
sas dos maiorais, tornaram-se “heróis”, “santos” ou “mal-
feitores” extraordinários.
Faço uma pergunta para mim mesmo: O que faz com
que um determinado indivíduo, aos poucos, deixe de ser
homem e torne-se mito? O que leva uma pessoa a receber
uma categorização de tão alto nível? Não estou falando de
uma habilidade comum como “ter um bom ouvido”, uma

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“bela voz” ou uma boa memória. E muito mais: por que
o processo de cristalização dessas honrarias ou acusações
se deu em torno daquele determinado indivíduo e não de
outro qualquer? De modo concreto: por que Santo Antônio
tornou-se santo numa certa época e não antes ou depois e,
além disso, santo casamenteiro, S. Judas Tadeu metamor-
foseou-se em protetor das “causas perdidas”, Fernandinho
Beira-Mar, virou um perigosíssimo bandido?
Frustro o leitor. Não tenho respostas, tenho especu-
lações. Talvez certos indivíduos sejam possuidores de de-
terminados aspectos físicos, intelectuais ou morais, que se
adaptam melhor a uma história mítica pré-existente, bem
conhecida, contada repetidamente. Um certo modo de ser,
de olhar, andar, bem como as roupas usadas, etc., facilita-
riam uma melhor assimilação conforme o modelo de “Cin-
derela”, enquanto outro se assemelha mais ao estereótipo
de “demônio”.
Todos nós, muito cedo, ouvimos, emocionados, his-
tórias míticas ou lendas, contadas pelos nossos pais, avós,
professoras, entre elas: Gata Borralheira, Chapeuzinho
Vermelho, Robin Hood, Gúliver. Por outro lado, também os
jornais, filmes e TVs nos informaram acerca de bandidos
espetaculares e craques fora-de-série. Pode ocorrer que,
mais tarde, ao observarmos certas condutas, determina-
mos e selecionamos certos aspectos da pessoa e, após en-
fatizá-las, identificamos os atributos com as características
armazenadas em nossa mente do mito: “Oh! É a própria
Gata Borralheira!”, “Esse é outro Pelé!”, “É outro bandido
da mala”. Com as pistas e as noções memorizadas da lenda
aprendida, associamos alguns fatos percebidos do indivíduo
alvo. Os fatos selecionados e enfatizados, muitas vezes, são
características quase ou nada significativas, seja no aspec-
to físico, seja na conduta do indivíduo observado para que
seja dado o rótulo final de gênio ou de santo. De posse das

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ideias da lenda armazenadas em nossa memória, assimi-
lamos o cidadão focalizado e passamos a classificá-lo disso
ou daquilo. Não sei se essa explicação tem algo de verda-
deiro, mas é um palpite meu nesse momento.
Mas vamos um pouco além dessa ideia, pois já penso
ser ela simples demais, até um pouco boba. Talvez ganhe
mais sua atenção com as novas suposições que acabei de
ter. Na maioria das vezes, o rótulo colocado é percebi-
do pelo “rotulador” como tal, ou seja, como rótulo. Nesse
caso, o “rotulador” reconhece claramente que o rotulado
não é o personagem do mito. Exemplificando: a pessoa
sabe que o símbolo por ele usado ao chamar determinada
mulher de “Gata Borralheira” não representa a realidade,
pois ela é, de fato, a lavadeira Teresa.
Entretanto, algumas vezes ficamos confusos e pode-
mos confundir as ideias estocadas em nossa mente com
respeito ao mito com a pessoa identificada e, posterior-
mente, rotulada. Nesse caso, passamos a acreditar que
Teresa é a “Gata Borralheira” e não a lavadeira. Não se
assustem, isso não é tão raro assim. É bastante comum.
Isso torna a coisa complicada. Passamos a denominar e,
logicamente, a enxergar ou tratar a pessoa rotulada con-
forme o rótulo usado: gênio, herói, santo, milagreiro, etc.
Assim, passamos a acreditar totalmente na nossa catego-
rização, no rótulo usado, deixando de lado o exame ou as
observações possíveis de serem realizadas.
Vamos imaginar, como exemplo, a afirmativa: “Mi-
nha mãe foi uma santa”. Se repetimos isso diversas vezes,
contando para os outros e para nós mesmos, aos poucos,
para nós, ela se torna “santa”. Entretanto, ela jamais agiu
conforme as determinações dos candidatos a santos, mas
passamos a acreditar nas nossas ideias, que eram inicial-
mente meras suposições e, numa época, sabíamos que es-
távamos conjeturando. Aos poucos, com segurança, sem

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dúvida, passamos a acreditar na nossa ideia delirante, que
nossa mãe, sem dúvida nenhuma, foi mesmo uma santa,
não a do pau oco.
Nesse caso, falamos que houve uma transformação
do real para o ideal. Como afirmou o “gênio” Pascal: “Aja
como se acreditasse; reze, ajoelhe-se e você acreditará, a
fé chegará por si”. Você poderá lembrar de outros rótulos:
burro, bonito, inteligente, esperto, molenga, educado.
Vamos a outro exemplo: por mais que a pessoa de-
monstre que ela é gente como a gente, como ocorreu com
Maria da Silva que tem diarreia, menstruações dolorosas,
alimenta e defeca, age, muitas vezes, burramente, como
todos nós, passamos a imaginá-la como santa, sábia ou
uma perigosa bandida, isso não importa. Ela passa a ser
classificada como muito diferente de nós. Num grau se-
melhante e muito frequente, não sei bem se pequeno ou
grande, a rotulação inadequada ocorre quando amamos ou
odiamos alguém. Embevecido, arrebatado pelo desejo e
paixões avassaladoras, Amadeu visualiza e categoriza sua
amada, não como ela é de fato: com sua perna fina e as
coxas grossas, um ombro mais alto do que outro, a testa
cheia de rugas. Ele a enxerga, sim, conforme os mitos que
possui acerca da beleza e elegância e, inconscientemente,
como afirmou Pascal, passa a enquadrá-la: “um corpo es-
belto, uma testa lisa e sedosa, olhos brilhantes e sedutores
e uma sagacidade de espantar, um amor de mulher”. A
“sabedoria” popular tem um provérbio para resumir tudo
isso de forma mais simples e mais exata do que escrevi:
“Quem ama o feio, bonito lhe parece”.
Portanto, algumas pessoas se transformam em mito
para um indivíduo - como exemplifiquei acima - outros,
para um grupo, país ou para grande parte da população,
como ocorreu com a Irmã Teresa de Calcutá. Esta, como
consta na sua história, viveu parte de sua vida como uma

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santa, mas não toda a vida. Sei que é difícil ir contra esse
estereótipo para os seguidores do catolicismo. Alguns lei-
tores não gostaram, franziram a testa reprovando minhas
especulações. Mas essa afirmação encaixa-se no exemplo
geral do que estou descrevendo: uma transformação ou
um estereótipo mítico de uma pessoa que viveu, até uma
época de sua vida, como todos nós.
Podemos dizer, de uma outra maneira, que a popu-
lação absorveu a pessoa indicada, que ela se encaixou no
assimilador mítico pré-existente (mito do herói, do rei jus-
to, do fora-da-lei, do nobre, do santo, do sábio etc.) como
pessoa mítica, isto é, possuidora de características excep-
cionais anteriormente já descritas para outras figuras mi-
tológicas. Esse encaixe do indivíduo ao mito do herói, san-
to ou demônio, apareceu muito cedo na imaginação dos
homens.
Uma vez iniciada a construção do mito, ou seja, a
transformação de um homem normal num mítico excep-
cional, esta edificação continua através de sua vida. A par-
tir do seu reconhecimento como homem extraordinário,
seus novos feitos ou condutas, geralmente semelhantes
às de todos nós, passam a ser vistas de forma deformada
pelo novo estereótipo existente. A conduta do ser mítico é
observada e julgada com os novos óculos usados, o novo
prisma deformador da realidade, de acordo com o rótu-
lo recebido: santo, herói, malfeitor, um amor de mulher,
super-honesto ou outro qualquer.
Nomeado herói, santo, craque, grande artista, os es-
forços são feitos para que ex-candidato à figura mitológica,
uma vez empossado no cargo, se estabilize, ou seja, não
retorne à sua normalidade anterior, a de um homem medí-
ocre como são os homens comuns como eu e você, leitor.
Dessa forma, os fatos ocorridos anteriormente - antes da
pessoa ter se tornado uma “figura mítica”, a “santa” ou o

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“herói” - passam a ser examinados de maneira deformada.
Procuramos dar aos fatos comuns uma conotação “santi-
ficada”, “heróica”, para se adaptar ao novo status atingi-
do. Ele não é mais um homem qualquer, logo, não mais
pode ser examinado como tal, ele agora é Chico Xavier,
um santo, um homem extraordinário, boníssimo. Não po-
deremos mais enxergar nele as características humanas
que todos possuímos, pois ele é um ser diferente, só pode
ser examinado, observado e avaliado conforme o molde
mítico existente na mente dos observadores. Sentimo-nos
mal, sentimos asco, se usarmos nosso assimilador mental
normal para examinar Moisés, Chico Xavier, Madre Tereza,
Freud, nosso pai, mãe e, logicamente, nossa querida na-
morada atual, pois depois ela se transforma numa pessoa
semelhante às outras...
Temos a tendência de manter inalterável um determi-
nado modelo que temos das pessoas com as quais lidamos.
Assim, por exemplo, se gosto de uma pessoa, procuro atos
seus que comprovem minha hipótese, inclusive os fatos
que aconteceram antes de conhecê-la. Por outro lado, não
percebo, não aceito ou não acredito nos eventos que ne-
gam as crenças existentes em minha mente. Se odiar, uso
o raciocínio oposto.
Muitas vezes, após aceitarmos por muito tempo algum
indivíduo como super-homem (herói, bandido, etc.) damos
uma rasteira no seu prestígio, destruímos sua santidade
ou heroísmo, transformando-o num homem normal.
Isso tem ocorrido entre os grandes estadistas e, mes-
mo entre os santos, alguns foram destituídos do status que
gozavam.
O candidato a covarde ou herói, demônio ou santo,
dando tudo certo, não surgindo nenhum acidente de per-
curso, se transforma em mito e passa a ser admirado como
tal. Mas não devemos nos esquecer do essencial: fomos

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nós, os “rotuladores”, que o construímos, para isso usamos
mais os símbolos de histórias míticas anteriores, e menos
a realidade observada.

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A FABRICAÇÃO DO HOMEM FORA-DE-SÉRIE

Nossa cultura tem poucas fórmulas para usar como


receitas para fabricar os nossos atuais super-homens: he-
róis, santos e outros fora-de-série. A mente humana, es-
gotada, interrompeu sua fábrica criativa de novos padrões
capazes de transformar um homem comum num mítico.
Sem outra alternativa, só nos resta aplicarmos o modelo
antigo existente num ou noutro candidato a esse posto tão
cobiçado. Para que os candidatos possam se adequar aos
modelos e símbolos pré-existentes dos antigos mitos é pre-
ciso que eles exibam modos de agir e de pensar sugerindo
figuras míticas conhecidas. Quais seriam as características
necessárias para que um indivíduo, até certa época igual a
todos os outros homens, passe a ser percebido, observado
e finalmente rotulado de gênio, herói ou santo?
Sabemos que o fantástico sempre esteve presente na
vida do candidato a mito. O incrível dominou a vida dos
santos, do nascimento à morte, seu azar e ao mesmo tem-
po sua capacidade imensa de suportar provações terríveis
sem abandonar seus objetivos. Ouvimos inúmeras histó-
rias acerca dos cavaleiros que realizaram façanhas sobre-
humanas na política, religião, esporte, proezas jamais rea-
lizadas por nós, pobres mortais de segunda classe.

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Um outro fator necessário à fabricação do mito tem
sido seu nascimento e sua morte diferentes da dos outros
homens.
Histórias incríveis têm sido contadas para descrever o
nascimento da figura mítica, enquanto outros relatos asso-
ciam a morte do mito às grandes catástrofes.
Uma associação da morte do herói com as desgraças
sociais leva a população a imaginar uma ligação de causa-
lidade entre os dois fatos. Na mente de seus adoradores,
a morte do herói passa a ser “causa” dos sofrimentos do
povo, gerando o raciocínio de que, caso ele estivesse vivo,
os acontecimentos tomariam um rumo diferente. “A partir
da morte de minha amada não fui mais o mesmo homem”.
Os heróis ou santos não morrem como nós. As histórias
nos mostram que a maioria dos super-homens teve morte
trágica. Não fica bem para um ser excepcional ter uma
morte devida a um nó nas tripas ou um engasgo com um
naco de carne. A morte desastrosa sempre estimulou a
mente popular, para lembrar e venerar mais e mais seu
herói predileto por algum tempo. Os mais velhos recordam
alguns de nossos mitos e suas mortes: João Pessoa, Getú-
lio Vargas, Juscelino Kubitschek e outros.
O processo de cristalização de personagens míticas
não se restringe a governantes. Como exemplo de mitos
não-governantes podemos citar: Padre Eustáquio e Ayr-
ton Senna. Mas, além desses heróis, o molde mítico pode
adaptar-se também a outros tipos, os chamados heróis-
marginais ou vilões populares: Robin Hood, Escadinha,
Mariel Mariscot, Fernandinho Beira-Mar, Lúcio Flávio, Hus-
sein, Bush e outros.
A sabedoria também é um fator importante na feitura
do mito. Não se pode conceber um santo ou um herói burro.
Um Ulisses da Odisséia, ou o Guimarães, Einstein, Churchill
ou Lenine, foram considerados, todos, muito inteligentes.

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Incorporado à sabedoria, o homem-mito necessita ser sa-
gaz e esperto, além de possuir a bravura e audácia, como
tem sido descrita pelos admiradores de Hitler e Stalin.
Precisa ainda ter uma força extraordinária, como Hér-
cules, Atlas, e também, se possível, poderes imensos que
possibilitam ligações com outros deuses excepcionais, ou
mesmo sobrenaturais: Lao-Tsé, Buda, Confúcio e Maomé,
entre outros.
Alguns homens que foram transformados em mitos
assimilaram, ao mesmo tempo, diversos estereótipos míti-
cos, eles se encaixaram entre os “plurimitos” ou “supermi-
tos”. Esses felizardos, inicialmente, tiveram um nascimen-
to fantástico, depois, uma sabedoria superior ao homem
comum, além disso, possuíam a esperteza dos fora-de-
série e ligações poderosas com forças do bem ou do mal.
Tinham ainda, para esnobar, uma força física extraordi-
nária e feitos impossíveis para os normais. Um exemplo
desse supermito é o de Ulisses, o da Odisséia de Homero,
retratado há mais de 2.000 anos. Este mito encarna as pe-
ripécias sensacionais de um herói capaz de causar inveja a
qualquer candidato a aprendiz de semideus ou de deus.
Lamentavelmente, muitos supermitos e mitos, da
mesma forma que se tornaram homens percebidos como
superiores, rapidamente se transformaram em antimitos.
O povo, ora elege um homem a santo ou guerreiro, ora o
destrói, tão rapidamente como o construiu. O mito anterior
torna-se um covarde, demônio ou idiota. A história nos
mostra como a ascensão de diversos ídolos mundiais teve
uma duração efêmera: Hitler, Stalin, Mussolini, Getúlio
Vargas e Collor são alguns exemplos. Muitos – nem todos -
anos depois de atingirem o status de mitos, passaram a ter
dores de barriga, câncer, doença de Alzheimer, adoeceram
e morreram, confusos, esqueléticos, fracos e submissos,
como possivelmente acontecerá a todos nós.

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O QUE DESEJAM AS PESSOAS?

Muitas pessoas desejam não ser obesas, nem cheirar


mal, ter filhos lindos e saudáveis, ter boa saúde, belos
dentes e um sorriso bonito. Ter dinheiro, boas roupas, um
carro possante, uma casa sem barulho, segura e confor-
tável. Estar cercadas de amigos e familiares, não serem
feias, amar e serem amadas, possuir coisas valiosas, ter
sucesso na profissão e no casamento. Terem uma autoes-
tima alta, não serem passadas para trás, fazerem viagens
maravilhosas e, por fim, terem uma boa velhice e uma
morte digna.
Mas as pessoas não se preocupam se seu desejo,
uma vez realizado, será bom ou não para elas. Nossos
desejos estão presos a valores e estes são transmitidos na
infância, aprendidos sem critério do meio social ou surgem
como reações ao ambiente. As crenças, desejos e os valo-
res passam de uma pessoa à outra, geralmente na infância
e adolescência, através do contato e aprendizagem com
indivíduos “dignos de crédito”.
Cada pessoa, dependendo do seu sistema de valores,
de suas premissas básicas, defende com ardor seus dese-
jos. Assim, o “hedonista” valoriza e quer “levar vantagem

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em tudo”, busca o prazer e foge do sofrimento. O prático,
adepto da ética utilitária, dá prioridade ao útil. Os seguido-
res da ética social afirmarão seguros: “tudo que melhore as
condições sociais dos homens deve ser procurado em pri-
meiro lugar”. Os fiéis da ética religiosa evitam os pecados
e procuram a conduta virtuosa revelada e prescrita pela
religião seguida. Para os “naturalistas”, adeptos da ética
do organismo, o bom é ter uma mente sã junto ao corpo
forte, bonito e saudável e, assim, devemos fazer exercícios
físicos, comer frutas e legumes, evitar bebidas alcoólicas,
drogas e o fumo. Os relativistas, em dúvida, pensam: “o
critério do que é bom e mau depende do indivíduo e da
situação onde se dá o fato, tudo é relativo”.
Os artistas, seguidores dos valores estéticos, exal-
tam o belo e o sublime e rejeitam o feio e o ridículo. O
justiceiro, defensor incansável dos valores do que é certo,
luta, com as leis ou as armas, pela justiça e punição dos
“culpados”. Os adeptos da política discursam em defesa
do poder, do governo e, por fim, os lógicos lutarão pela
verdade, a certeza e abominam o raciocínio incongruente
ou falso. Existem outros valores defendidos com “unhas e
dentes” pelos seus partidários. Todo homem valoriza mais
alguma coisa do que outra e pensa que os valores do ou-
tro, quando diferentes dos seus, são mesquinhos, idiotas
e absurdos.
Não existem valores objetivos. Não se pode falar que
isto é melhor do que aquilo, ou é “melhor” comer chuchu
do que dançar”. Não se pode comparar uma coisa com a
outra, quando não há parâmetro para isso. Não há nada
que seja bom para todos e mau para todos. Os governan-
tes sofrem por isso. Os moradores da rua Maria de Souza
acham que a prefeitura deveria, prioritariamente, calçá-la,
mas a comunidade do Bairro Esperança pensa ser “absur-
do” não existir uma linha de ônibus para servir a região.

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Um grupo acha que as árvores devem ser cortadas para a
construção de uma fábrica, pois esta gerará mais empre-
gos em Santana da Misericórdia. Mas outros fazem abaixo-
assinado contra o corte, pois este irá perturbar o equilíbrio
ecológico.
As nossas instituições sociais não possuem uma ma-
neira fácil ou mágica de tratar os valores antagônicos e
múltiplos, como se descreveu acima. Precisamos de em-
pregos e de um bom meio ambiente. As discussões acerca
do melhor, para um ou para todos, continuarão eterna-
mente, para alegria dos defensores de qualquer uma des-
sas ideias.

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HOMEM: ANIMAL CONTRADITÓRIO

O homem é um animal “fora de série”, estranho e de-


sadaptado. Somos isolados, mas vivemos altamente liga-
dos uns aos outros. Temos uma parte da mente que pensa,
às vezes com alguma lógica, e ao mesmo tempo, uma outra
parte da cabeça presa ao organismo - glândulas, órgãos,
músculos – reage instintiva e automaticamente aos estí-
mulos, portanto, somos irracionais em diversas ocasiões.
Às vezes somos bondosos, oferecemos muito de nós mes-
mos em benefício de nosso irmão, em outros, o assalta-
mos, o estupramos ou o matamos. Oscilamos, passando de
um modo de viver cheio de alegria, esperança e fé, para o
mais completo desespero e ódio. Buscamos ansiosamente
a ajuda médica por pequenos problemas de saúde e, mui-
tas vezes, menosprezando a própria vida, nos suicidamos.
Trabalhamos duramente para conseguirmos recur-
sos visando obter casa, comida e segurança. Entretanto,
ao atingirmos o desejado, passamos a comer exagerada-
mente, acumulamos dinheiro desnecessário e arriscamos
nossa vida em atividades perigosas como lazer. Fazemos
guerras, para conseguirmos a paz. Lutamos contra os po-
derosos e quando estamos no poder, quase sempre atu-

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amos de todas as formas, no sentido de eliminar os de
menor poder. Criticamos violentamente os torturadores
e, na primeira oportunidade, passamos a agir como eles.
Buscamos de todas as formas possíveis uma companhia,
e quando a conquistamos, a achamos aborrecida e vamos
atrás de outra.
Censuramos a censura, quando ela é extirpada, cada
grupo ideológico reclama seu retorno. Como equilibrar-se
numa “zorra” dessas? Esses pensamentos me ocorreram
ao lembrar-me de Cícero.
Conheço-o há longos anos, acho mesmo que desde
criança. O nosso convívio sempre foi muito íntimo e isso
permitiu obter muitas informações a seu respeito, como, até
mesmo, elaborar algumas teorias acerca de sua vida. Apesar
dessa proximidade, na maior parte das vezes eu não o en-
tendo e, quando suponho compreendê-lo, vejo que falhei.
Cícero é um pesquisador sério da natureza. Lê muito,
presta atenção a tudo e armazenou, ao longo dos anos,
vastos conhecimentos científicos e históricos do mundo e
do homem. Entretanto seu “radar” é muito abrangente e
pouco seletivo. Desse modo ele captou também crenças
infundadas, superstições diversas, ideias religiosas emiti-
das por qualquer seita moderna e, além disso, aceita inú-
meras “verdades” do senso comum. A cabeça do Cícero
virou uma verdadeira salada, contendo informações de-
sordenadas, contraditórias e pouco plausíveis. Todas elas
seguidas e defendidas com o mesmo vigor e entusiasmo. O
resultado tem sido drástico. Diante de tantas informações
niveladas em termos de valor, algumas sérias, outras nem
tanto, ele foi arrastado para uma profissão que lhe é im-
própria, escolheu amigos inadequados ou incompetentes,
casou-se com uma mulher que não lhe assentava e criou
seus filhos na falsa esperança que boas intenções são su-
ficientes para conduzir a uma boa educação.

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Mas Cícero é um homem bravo, valente e teimoso.
Ele continua confiante no “mapa” desajustado e confuso
existente em sua mente e vai em frente.
É claro que o “território” onde ele está pisando é bas-
tante diferente do “mapa” existente em sua representação
mental. Portanto, quando ele está deitado em sua cama,
pensando que tudo vai bem, ao levantar-se e ao agir, ele é
obrigado a perceber que o “mapa” que representa seu mun-
do é um, o mundo real é outro. Assim, meu grande amigo,
frequentemente lamenta-se para si ou para os outros: “Sou
um desastrado, um sem sorte, tudo que tento dá errado”.
O modelo que construiu de si mesmo e do mundo,
nesse caso, foi acrescido de mais uma crendice: “Sou um
sem sorte”. Assim Cícero gasta parte de seu precioso tem-
po lastimando-se, utilizando pouco seus recursos e poten-
cialidades. Por tudo isso, ele fracassa em diversas ativi-
dades, perde a oportunidade de obter várias satisfações e
exibe ressentimento e infelicidade.
Cícero não se emenda, pois, por mais que ele transgri-
da as leis da natureza e da sociedade, ele não modifica seu
modo de pensar e agir, isto é, não aprende com a experiên-
cia vivida. Ele é, como disse, um sujeito contraditório, em
certas ocasiões Cícero só cuida de si. Nessas ocasiões, ao
ser importunado, agride, xinga ou, no mínimo, não ajuda
ninguém. Outras vezes, porém, gasta seu tempo, que é cur-
to, ajudando, ouvindo lamentações aborrecidas dos outros,
até mesmo de pessoas que mal conhece ou que sabe que
não gostam dele. Durante essa fase, ele empresta dinheiro,
procura emprego e aconselha pacientemente os pedintes.
A maneira de pensar de Cícero também é estranha.
Ele é economista, seu raciocínio é lógico, tanto no serviço
como nos aspectos de sua vida relacionados à sua área de
trabalho. Eu diria até que “lá” ele pensa matematicamen-
te. Não há imprecisão ou ideias preconceituosas.

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De cada premissa elaborada, sempre bem postada,
ele deduz conclusões com proposições que não contêm ne-
nhuma dúvida, exibindo clareza de pensamento produzido
por uma razão lúcida e expresso sem palavras ambíguas.
Pois bem, o racional Cícero, ao abordar outros pro-
blemas humanos fora do seu domínio estrito, se lambuza
todo. Quando abordava os temas do dia-a-dia, na políti-
ca ele é brizolista, em religião, ele abraçou as ideias do
Boff, no amor... bem não posso revelar, e até no futebol,
onde sua paixão é o Atlético, ele se torna, de repente, um
perfeito animal irracional. Toda sua bela lógica mental é
transformada em palpites, preconceitos, desejos, fé cega,
superstições, incoerências uma após outras, deduções
apressadas, hipóteses duvidosas e não comprovadas e as-
sim por diante, de modo a envergonhar qualquer tratado
elementar de lógica. Nesses momentos, o Cícero torna-se
outro ser, um não humano, carregado de emoção, impulsi-
vo, não sabendo mais argumentar e nem ouvir argumen-
tos de seu opositor. Levanta a voz, enfurece-se, desafia, às
vezes parte até para as “vias de fato”.
Eu, que já conheço essas reações, o perdoo. Mas é
comum ele brigar até comigo, grande amigo seu, quando
se torna irracional. Depois, mais tarde, arrependido, ele re-
torna com a sua outra mente e eu o aceito como sempre.
Cícero não me surpreende só nesses aspectos. Olho-o
com tristeza, lamentando comigo mesmo como pode uma
pessoa que tem uma bela inteligência, experiência, crítica
e cultura ser tão preso às regras, sem nunca duvidar delas,
agindo como um cordeiro às suas imposições.
Levanta-se sempre à mesma hora, vai para o serviço,
pelo mesmo caminho, nunca falta a este, chega no mesmo
horário, deixa o carro no mesmo lugar. Repete no trabalho,
maquinal e automaticamente, as mesmas atividades, os
mesmos gestos, sorrisos, expressões e conversas, usando

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frases apropriadas para cada pessoa. Nada é criado, nada
é diferente. Parece haver dentro dele um medo à esponta-
neidade, um pavor em ser diferente, um culto à mesmice.
Seu “computador mental” é dominado no serviço, no lazer,
em tudo, uma programação repetitiva e monótona. Mas, já
disse que o Cícero espanta-me.
Surpreendo-me com ele, em nossas tertúlias ocasio-
nais, principalmente após alguns cervejas bem geladas,
que descem devagar. Nesses momentos aparece um novo
programa no seu “computador mental”. Cícero torna-se
um indivíduo prático, criativo e com propósitos individuais.
Critica com sabedoria e elegância todos os modelos huma-
nos existentes que paralisam o ser humano.
Sob o efeito do álcool ele cresce, abandona o auto-
matismo, começa a filosofar, critica as “verdades” que ele,
no trabalho, segue sem pensar, defende a necessidade do
crescimento do indivíduo como meta principal para qual-
quer ser humano cuja missão fundamental seria atualizar-
se. Põe em dúvida diversos valores geralmente seguidos
inconscientemente pela multidão solitária e sem rumo.
Nesse momento, ele traça planos, chegando até a executar
alguns deles nos dias seguintes.
O novo Cícero defende a necessidade de nos liber-
tarmos dos preconceitos e das superstições, de seguirmos
objetivos mais humanos e mais produtivos.
Entusiasmado, acredita que dentro de nós há recur-
sos, energia, força e coragem suficiente para transformar
esse mundo injusto e massacrante, num mundo melhor.
Esses arroubos são, porém, rapidamente amortecidos...
Fico confuso: jamais entendi Cícero. Entretanto, após
pensar um pouco, descobri que ele se parece comigo e
também com todos vocês, meus caros leitores, com os
seres humanos...

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A VERDADE DE CADA UM

A conduta do homem é determinada pelo que ele pen-


sa, acredita, representa e prevê. Através do trabalho cog-
nitivo, ele tenta construir para si um mundo significativo e,
para isso, ele classifica e ordena uma multidão de fatos, de
objetos e de pessoas, que julga conhecer em detalhes.
Os acontecimentos estão constantemente ocorrendo
em torno de nós e são ordenados de acordo com diferen-
tes concepções ou interpretações. Somos nós, conforme
nosso próprio modelo mental, que organizamos, em nosso
pensamento, certos acontecimentos e não outros, enfati-
zando alguns deles, valorizando uns mais do que os de-
mais e criando assim sentido para fatos não organizados
e sem significado. Nunca chegamos a captar a verdade
“verdadeira”, pois ela é realmente criada de acordo com o
momento que estamos vivendo, adequada àquela situação
particular.
Com frequência, acreditamos estar de posse da verda-
de ao percebermos certa relação prática e funcional entre os
nossos desejos e esperanças e os resultados aparentes de
nossas ações. Ao estabelecermos apenas uma concepção da
realidade caótica, eliminamos várias outras interpretações

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possíveis, e ficamos convencidos ser a nossa análise a única
aceitável ou correta. Vejamos alguns exemplos: um garoto
residindo na zona rural criou um modelo de diversão a partir
de uma bola, um cão e algumas brincadeiras existentes em
sua cidade. Um dia ele veio passear em BH e visitou um par-
que de diversões. Provavelmente ficou boquiaberto, confuso
ao ver tanto brinquedo desconhecido.
Ora, o “deslumbramento” seria o oposto caso o menino
estivesse acostumado a visitar a Disney World. Um segun-
do exemplo: uma adolescente de 15 anos conquista o seu
primeiro namorado, um imberbe de 16 anos. Fica encanta-
da com suas declarações de amor, com sua técnica eficiente
de abraçá-la e beijá-la. Posteriormente, conhece um rapaz
treinado nessa arte com esmero. A mocinha passa a ter um
novo modelo, uma nova “verdade” do que seria um “bom”
namorado e reformulará o seu julgamento inicial.
O amigo leitor poderá lembrar-se de vários exemplos
pessoais: suas preferências culinárias antigas e as de hoje.
Suas escolhas passadas e as atuais quanto a música, pas-
seios, política, literatura, programas de TV, futebol, etc. A
sua concepção do mundo, com a idade tornou-se diferen-
te, seu “mapa mental”, ainda que vivendo num “território”
muito semelhante ao antigo, não é mais o mesmo. Ago-
ra, possuindo novos valores, você percebe acontecimentos
não antes notados, representa fatos ao seu redor de ma-
neira diferente. “Enxerga” o mundo com outros “olhos”.
Muitos se contentam com uma “verdade” única, se
agarram a ela e nunca a abandonam, evitando, a qualquer
preço, o seu questionamento e, também, a dúvida e a in-
certeza que outras ideias poderiam trazer. Esses fanáticos
querem manter, a todo custo, uma segurança impossível
de ser conseguida nos seres humanos.
As primeiras “verdades” com as quais convivemos
não são concepções nossas, mas sim dos nossos educa-

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dores: pais, professores, companheiros e outros. Elas nos
são transmitidas, na maioria das vezes, de maneira sim-
ples, ingênua e até mesmo tola.
Uma vez inculcadas essas “verdades”, elas nos darão
uma representação do mundo semelhante à dos nossos
educadores. As novas informações que nos chegam poste-
riormente, com frequência vêm fortalecer as ideias primiti-
vas, pois o comum é convivermos com pessoas que pensam
de modo semelhante ao nosso, lermos livros previamente
censurados e assim por diante. Psicologicamente é mais fácil
manter as verdades iniciais, pois assim não temos que re-
pensar, jogar por terra crenças queridas e familiares, o que
nos obrigaria a reformular nossa conduta ao criarmos novos
modelos mentais. Não é fácil trocar a verdade “minha mãe
sempre me amou”, por “minha mãe, que frequentemente
me odiava” ou “minha namorada só se encontra comigo”
pela nova concepção “minha namorada está me traindo com
outro”. Muitas vezes, apesar de todas as evidências, con-
tinuamos a adotar a crença inicial. Quase sempre só com
algum sofrimento, até mesmo com algum sentimento de
culpa, é que conseguimos mudar as “verdades” iniciais,
principalmente quando as novas são totalmente diferentes
das antigas.
O homem é um inventor de verdades, um concep-
tualizador de acontecimentos, um representador de uma
realidade que ele nem sabe quanto de real ela tem. E como
se dá essa invenção? Por capricho, raciocínio ou pressão
dos fatos? Ainda não possuo essa verdade, mas gostaria
muito de tê-la.

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Afirmações Duvidosas

A psiquiatria incorporou e se desfez de muitas verda-


des, hoje criticadas, como a caça e queima às bruxas, o
mesmerismo, a malarioterapia, o eletrochoque, a insulino-
terapia, a lobotomia e várias psicoterapias não-científicas,
entre elas a psicanálise.
A lista não termina aqui. Cada um desses modelos
teve sua época com o nascimento, crescimento e esplen-
dor, seus seguidores fervorosos, entre médicos, psicólogos
e também entre os clientes e o público. Há pouco tempo
surgiram mais duas novas verdades, como sempre aceitas
como panaceias pelos seus adeptos: a neurolinguística e a
psiquiatria biológica. Daqui a dez ou talvez vinte anos, no
máximo, possivelmente acharemos graça em algumas de
suas afirmações. É só esperar o tempo passar.
Durante a minha adolescência ouvi um professor afir-
mar, em sala de aula, que a masturbação causava, entre
outros males, a tuberculose, o reumatismo e a loucura.
Mais tarde ouvi na escola de Medicina um professor afirmar
que nós devíamos, ao examinar um paciente, pensar “si-
filiticamente”, pois a sífilis imitava todas as enfermidades
possíveis. Nós todos acreditávamos nessas afirmações.

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Os médicos, de tempos em tempos, enunciam supo-
sições aceitas como verdades, tanto entre alguns cientis-
tas como também entre a população. Muitas dessas de-
clarações hipotéticas – anunciadas como verdades eternas
- têm duração efêmera, outras permanecem vigorando por
um período mais longo.
Alguns desses profetas, mais geniais e corajosos, ga-
nham notoriedade nacional, internacional e entre a popu-
lação. Esses inovadores, ao ganharem maior poder entre
o público e nas academias, entusiasmam-se passando a
emitir julgamentos ou opiniões nos mais diversos campos
do conhecimento humano, acreditando numa falácia: se
são bons num setor, serão bons também nos outros. Os
anunciantes se utilizam muito dessa generalização, colo-
cam na TV uma personalidade famosa sugerindo o uso de
um produto do qual ela nada entende.
Olhando sob este prisma, o aparecimento desses “gê-
nios” tem sido frequentemente danoso para a humanidade,
às vezes uma tragédia para o conhecimento, pois ficamos
presos a conhecimentos errados por anos e anos, como “A
Terra é o centro do Universo”, “O Sol é o centro do Univer-
so”, “Nossa galáxia é o centro do Universo”, “Não existem
outras terras além das da Europa”, “Só podemos estudar
as ciências físicas e biológicas, as psicológicas não, essas
nos são reveladas”.
As afirmações morais ou científicas, devido ao prestígio
do “inventor”, ficam difíceis ou impossíveis de serem critica-
das: ninguém se atreve a ir contra as ideias do gênio criador,
pois esse é intocável. Por tudo isso, uma vez lançadas as
“profecias” do sábio, o conhecimento naquela área é obscu-
recido, penetra-se numa era negra da história do pensamen-
to humano, devido ao poder da barreira simbólica intrans-
ponível, que impede o nascimento de novas e produtivas
ideias. Um exemplo ainda vivo é o das ideias freudianas.

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Essas dominaram mentes diversas, por anos, impedin-
do o crescimento do conhecimento acerca do ser humano.
Morre hoje “sem foguetes e sem bilhetes”, não deixa
sementes capazes de produzir nada útil para o crescimen-
to da psicologia. As hipóteses ou teorias equivocadas dos
sábios só desaparecerão com a morte dos autores delas e,
principalmente, de seus fiéis seguidores.
No início do século XIX, ganhou notoriedade nos Es-
tados Unidos um professor de Psiquiatria, Benjamin Rush.
Usando de seu poder, passou a ditar normas morais para a
população americana. Sua principal pregação foi a respeito
da masturbação. Para o Dr. Rush, pai da psiquiatria ame-
ricana, a masturbação, por ser um mal terrível, devia ser
combatida a qualquer preço.
Seu prestígio reuniu seguidores. Teses foram escritas
condenando o terrível mal, tratamentos estranhos foram
recomendados: vários clitóris foram decepados, algumas
mãos amarradas para proteger e impedir as vítimas de
caírem na tentação e tornarem-se “doentes”.
Esse professor afirmou durante suas conferências e
artigos: “a masturbação provoca fraqueza do sêmen, im-
potência, disúria, ataxia motora, fraqueza pulmonar, dis-
pepsia, redução da visão, vertigem, epilepsia, hipocondria,
perda de memória, imbecilidade e morte”. Pinel, o grande
psiquiatra, não ficou para atrás, tendo afirmado acerca do
mesmo assunto: “A masturbação leva à ninfomania”.
Esquirol, outro famoso médico, completou: “A mas-
turbação é reconhecida em todos os países como sendo
uma causa comum de insanidade”.
Em 1854 foi publicado um editorial no New Orleans
Medical Surgical Journal que dizia, entre outras coisas: “Em
minha opinião, nem a peste, nem a guerra, nem a varíola,
nem uma multidão de males semelhantes foram mais de-
sastrosos para a humanidade do que o hábito da masturba-
ção: é o elemento destrutivo da sociedade civilizada”.

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Encontrei em minha biblioteca com relíquias de livros
selecionados por meu pai um discurso proferido em 1927
por um famoso professor da medicina brasileira. Em res-
peito a ele, deixo de citar seu nome. Esse trabalho foi im-
presso e distribuído pelo governo brasileiro aos colégios
“em virtude do seu alto valor educacional”, recomendado
para ser lido em sala de aula. Eis alguns trechos do famo-
so discurso: “O álcool é o maior agente de degeneração
da raça; a todos ataca e a todos degenera; é a família
alcoólica dos beberrões, com os seus epilépticos, imbecis,
loucos, deformados e monstros. A beberronia dos pais pro-
longa-se nos filhos através do óvulo: pais bêbados, filhos
beberrazes, netos criminosos... nem ao menos é um tóxi-
co elegante, só ao alcance das bolsas fortes dos ricos; ao
contrário, é o vício deselegante propiciado ao pobre pelo
seu ínfimo preço”.
Não estou aqui fazendo críticas à inteligência desses
senhores, ao seu pioneirismo e coragem. Nós devemos
muito a eles e sem sombra de dúvida todos foram perso-
nalidades marcantes, líderes em suas áreas e altamente
capazes. Humildemente, com todo o respeito, quero dizer
que creio que eles foram longe demais ao afirmar a respei-
to de valores e as escolhas de cada um. Suponho que cada
cidadão tem o direito de escolher seu caminho, desde que
respeite os outros.
Os que apreciam a bebida e os masturbadores não
foram respeitados por esses insignes mestres.

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A Loucura:
Fabricação Da Normalidade

Em 1509 Erasmo de Rotterdam publicou o livro “Elo-


gio à Loucura”. Suas ideias, muitas delas ainda atuais,
constituem críticas ao chamado bom senso, ao comporta-
mento racional, à sisudez do indivíduo “quadrado” e bem
adaptado, em oposição à “loucura” que seria a esponta-
neidade, a liberdade de expressão e ação e das emoções.
Para ele a loucura seria inata, enquanto que o “normal”
seria imposto e não humano.
Os chamados “loucos”, até o século XV viviam de ma-
neira harmoniosa com a população de “sadios”. Estes cul-
tivavam a tolerância e as peculiaridades ou idiossincrasias
de cada cidadão, que eram aceitas e respeitadas como
adequadas à sua natureza singular. Esse relacionamento
harmonioso entre os chamados “normais” e os “não-nor-
mais” ocorre ainda, com frequência, nas pequenas cida-
des do interior do Brasil.
O conceito de loucura, condição própria de cada pes-
soa, a partir do fim do feudalismo - início de burguesia
- começou a ser modificado quando apareceu um novo
modelo daquilo que seria aceito como sendo a natureza

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humana. Esse novo padrão teórico acerca do homem era,
não só mais restritivo - menos tolerante com as diferenças
individuais - como, também, mais prescritivo. As pessoas,
para não serem taxadas de loucas, deveriam se compor-
tar, talvez até pensar de acordo com o novo padrão “insti-
tuído e correto” de conduta.
A recém-criada “natureza humana”, fabricada pela
sabedoria burguesa, enfatizava as qualidades da virtude,
contenção, parcimônia e razão, que eram exigidas a todo
e qualquer preço. A partir da nova tese defendida, a lou-
cura foi encurralada e criticada conforme o novo padrão
de normalidade das pessoas.
As sociedades começaram a estreitar os seus limi-
tes de normalidade, passando a rotular o “louco” e “não-
louco”, o “são” e o “patológico”, o “normal” e o “anormal”,
como extremos intocáveis de uma escala de medida do
certo e do errado, onde um comportamento era valoriza-
do, o outro não.
A partir dessa constituição, novas regras de conduta
passaram a ser exigidas, somente algumas aceitas como
corretas. Em lugar de trabalhar para viver, o indivíduo
passou a viver para trabalhar. A definição do normal, que
antes se apoiava muito na maneira de ser do indivíduo
singular a ser avaliado, passou a ser estabelecido, utili-
zando-se um modelo supraindividual, criado não mais das
necessidades ou interesses de cada uma pessoa, mas sim
das necessidades do conjunto abstrato: economia e traba-
lho colocado a serviço da produção.
Esse novo critério decretou o fim do singular, ao ge-
neralizar o indivíduo. Tornou-se errado ou anormal ser
particular. Só o geral seria normal e o que sair do padrão
será considerado “doente mental”. Mas nem todos concor-
daram com essas regras, alguns se rebelaram, surgindo
um novo problema: “Como conter os insubordinados em

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um estado que se dizia liberal e cheio de humanismo”?
Anteriormente os revoltados e rebeldes eram lançados à
fogueira, mas essa prática não é mais tolerada.
Na nova sociedade nós, os bondosos, racionais e vir-
tuosos deveríamos ser capazes de compreender e tratar
os “loucos”. Nasceram assim as instituições encarregadas
de cuidar deles, ou seja, de coletar o lixo humano produ-
zido e rejeitado pela sociedade burguesa. Nasce então a
figura ilustre do psiquiatra, juntamente com a criação dos
hospitais destinados a proteger os “normais” do perigoso
contágio dos loucos.
Esse modelo do homem moderno, criado em torno
do séc. XV, forçou a eliminação de um sentimento sempre
existente na mente de grande parte dos homens dessa
época, ou seja, a permissão da liberdade individual. Para
a nova ideologia implantada, a liberdade individual é in-
compatível com a subordinação a uma atividade, seja de
trabalho ou seja de lazer, altamente vigiada, lógica, ditada
de fora. Essa coação, até aquela época, só existia nas pri-
sões. O novo conceito de natureza humana, estranhamen-
te, construiu o corolário: somos “livres” ao nos subordi-
narmos às ideias do Estado, dos empregadores, religiosos
ou de qualquer outro grupo poderoso.
Foram criadas para manter a ordem estabelecida,
visando o normal, leis que exigiam a obediência às nor-
mas, cujo objetivo era proteger as classes dominantes.
Os mendigos, vagabundos, os ociosos e “loucos” de qual-
quer espécie passaram a ser tratados como eram antes o
marginais: banidos da sociedade. As instituições, frutos
dessas ideias - casas de correção e de trabalho, hospitais
em geral - teriam como função principal limpar as cidades
da “sujeira” desses desajustados.
Os “hospitais” foram destinados a receberem os gru-
pos de “marginais” da sociedade sadia – os diferentes –

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um lugar onde, na maioria das vezes, não pisavam os
médicos, só iam para visitas ocasionais.
A direção dos hospitais, entregue às irmãs de ca-
ridade, tratava coercivamente os enfermos através das
orações, penitências e práticas adaptadas ao ensinado.
A medicina daquela época precisava construir ou mesmo
inventar explicações para suas ações irracionais, que se
diziam alicerçadas em bases lógicas e humanísticas. Foi
criada então a “psiquiatria científica”. Esta “descobriu” si-
nais e sintomas nas pessoas, indicadores de doença men-
tal. Esses, na maioria das vezes, eram preconceitos ou
delírios dos psiquiatras da época, tendo como “pano de
fundo” a moral vigente. Eis alguns exemplos dessa “psi-
quiatria científica”: “A loucura está localizada nos vasos
sanguíneos”, “A oposição à revolução americana é uma
forma de doença mental e o apoio uma forma de terapia”,
“Sanidade mental é a aptidão para julgar as coisas como
os demais julgam e possuir hábitos regulares e insanidade
é um distanciamento com relação a isso”, “Conformismo
social equivale à saúde mental e inconformismo corres-
ponde à doença”.
A maneira de pensar e de agir em desacordo com a
forma tradicional passou a ser a principal característica da
nova doença mental, sendo diagnosticada através de vá-
rios dispositivos que mediam a maneira normal e coletiva
de se comportar, necessária à manutenção e crescimento
da burguesia e da harmonia social.
Portanto, os primeiros psiquiatras eram muito mais
“reformadores sociais evangélicos”, pregadores de uma
ética puritana para todos, do que médicos, preocupados
com o bem-estar de seus pacientes.
A cura ocorria quando o paciente aceitava e se com-
portava de acordo com as normas sociais pregadas pelo
médico assistente.

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Infelizmente, esses comportamentos “moralistas e
normalistas” ainda são vistos com alguma frequência em
nosso meio.
Os clientes, muitas vezes, são julgados, inicialmen-
te pelos familiares, posteriormente pelo psiquiatra, como
possuidor de uma conduta normal ou anormal, conforme
os padrões e valores percebidos e usados pele grupo dos
examinadores num certo momento. O cliente pode ser re-
preendido, tratado sem o desejar, ou “preso” no hospital,
por não tolerar ou não conseguir conviver numa sociedade
que tem como valores fundamentais o trabalho, a produ-
ção e o consumo.
Curvando-se à pressão externa que exigia mão-de-
obra barata, trabalhadores braçais foram usados, em pro-
fusão, para atender às necessidades dos sub-empregos
oferecidos: a psiquiatria, atenta às necessidades dos em-
pregadores, procurou acelerar os processos de “cura”, vi-
sando o retorno ao trabalho dos candidatos o mais rápido
possível.
O psiquiatra, ingenuamente, passou a ser agente da
“normalização” quando a sociedade lhe outorgou o poder
de examinar, julgar condutas e impor um tratamento após
seu veredicto, em nome de um suposto bem-estar geral e
social da coletividade e da manutenção da ordem pública
estabelecida.
Nasceu assim a relação não-recíproca com a tutela
regulamentada conforme a crença: o tutor é o competen-
te, o tutelado é o incapaz e irresponsável. Os tratamentos
prescritos em grande parte tinham como objetivo principal
a integração e o conformismo social. A implementação da
psiquiatria preventiva, como ocorre com outros campos de
saúde, tornou possível a ação dos especialistas antes do
aparecimento da “doença mental”, ao descobrir sintomas e
sinais nos suspeitos.

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Desse modo, como é sabido, em certos locais e oca-
siões, os “sãos” passaram a examinar populações inteiras,
tendo à mão o mandado de “busca e apreensão” para os
“anormais” detectados.
Felizmente, nos últimos anos, um grande número de
psiquiatras vem questionando, duvidando e desmitificando
milhares de afirmações e dezenas de teorias criadas por
alguns “gênios” da psiquiatria, baseadas, muito mais, em
verdades reveladas ou em pressões sociais, do que em ob-
servações científicas bem sistematizadas e críticas.
Uma por uma, essas “verdades” vêm sendo discuti-
das, não substituídas por “novas verdades” dogmáticas,
mas analisadas, através da dúvida constante e equilibrada.
O novo caminho traçado é o abandono definitivo de cren-
ças eternas, baseadas na autoridade iluminada, no seu
prestígio, na sua sabedoria acima de qualquer suspeita.

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O Vasto Mundo das Drogas

Vivemos em um mundo de drogas. Drogas para todas


as idades e para todos os gostos. Algumas são chamadas
lícitas e outras ilícitas. Algumas são proibidas: seu uso e
porte são qualificadas de contravenção. Outras são per-
mitidas e difundidas até pelos pais e pelos meios de co-
municação. Seu uso é, muitas vezes, valorizado. Por sua
vez, certas drogas são conceituadas e permitidas pelos
médicos e Conselhos de Medicina.
Algumas drogas, como as colas e os solventes, são
usadas preferencialmente pelas crianças desamparadas, os
pivetes, outras são mais comuns entre os jovens de condi-
ção econômica variada - xaropes, maconha e cogumelos. Al-
gumas são usadas principalmente pelas mulheres da classe
média e alta com objetivo de perder alguns quilinhos, como
os anorexígenos. Certas drogas são mais consumidas pelos
adultos jovens, de poder econômico alto - cocaína, LSD,
heroína. Algumas toneladas de drogas são largamente uti-
lizadas por adultos e idosos pertencentes às mais diversas
classes sociais, para permitir-lhes dormir ou suportar este
mundo confuso: tranquilizantes, soníferos e analgésicos.
Finalmente, as drogas mais difundidas e consumidas, pos-

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sivelmente mais “democratizadas”, já que são usadas uni-
versalmente por todos: cafeína, álcool e tabaco. Ninguém
escapa de pelo menos inalar a fumaça do cigarro do vizinho,
beber um cafezinho ou um copo de cerveja ou licor.
Não sei, e duvido que alguém saiba, as razões de
preferências tão diversas, das diferentes posições e atitu-
des da sociedade a favor de uma e contra outras.
Para tentar aclarar minha mente recorri a certos con-
ceitos básicos: os de abuso e dependência da substância,
e aqueles relacionados como consequência: tolerância e
síndrome de abstinência.
Antecipadamente confesso ao leitor que os resulta-
dos não foram animadores, pois continuei sem entender
este comportamento humano, ou seja, o uso de drogas
diferentes por diferentes indivíduos, a permissão de umas
e a proibição de outras, e o consumo universal de muitos.
Encontrei em um manual de diagnóstico em psiquiatria a
definição procurada, que foi a seguinte:
Abuso de drogas: “Uso habitual de agentes quími-
cos apesar das consequências danosas, que dependem das
propriedades farmacológicas e toxicológicas das drogas, da
personalidade do usuário, das necessidades nas quais ele
vive, e do grau no qual ele negligencia sua saúde individual
e bem-estar através da diferença e perda econômica”.
Existe abuso da droga quando seu uso ultrapassa os
30 dias e existe tolerância quando se necessita de mais dro-
ga para obter-se os efeitos desejados: daí o aumento das
dosagens e a instalação dos quadros tóxicos. Por último,
ocorre a síndrome de abstinência quando, ao reduzir-se a
droga, ou quando ocorre a sua interrupção, seguem-se dis-
túrbios fisiológicos e psicológicos, geralmente transitórios.
Ora, a maioria das drogas proibidas, assim como as per-
mitidas - cafeína, nicotina, álcool, sedativos etc. - aí se en-
quadram, o que nos leva a pensar que esse não é o motivo da

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classificação usada, assim como das proibições e permissões
legais, de exigência de um ou de outro receituário médico, ou
de incentivo familiar para se beber café ou cerveja e fumar,
pois todas elas são semelhantes. Deve haver algo mais.
Alguns teóricos combatem certas drogas simples-
mente afirmando que elas “causam prazer”, e os indiví-
duos consumidores delas abandonariam outras atividades
caso elas fossem liberadas. Ora, isso é uma forma muito
simplista de explicar um comportamento tão complexo. O
cigarro, as bebidas, o café e mesmo os tranquilizantes -
todos nós temos um médico amigo ou parente que forne-
ce gratuitamente as receitas - são facilmente adquiridos e
nem por isso são consumidos exageradamente por todos:
apenas uma minoria é prejudicada. Se utilizarmos o con-
ceito de prazer deveremos proibir os alimentos saborosos
e a torcida do Atlético, impedir o jogador de jogar cartas
ou futebol e abolir até mesmo as relações sexuais, pois
tudo isso causa prazer e também dependência pelo menos
psíquica, talvez física.
Vamos a um outro argumento. Parece que certos in-
divíduos, por motivos biológicos - genéticos - são mais
propensos do que outros a ficarem “presos”, dependen-
tes da droga, a levarem ao exagero um modo de vida em
detrimento de outro. Seriam os indivíduos de “alto risco”,
os prováveis toxicômanos. Mas acredito que esses seriam,
também, os mais sujeitos a se tornarem viciados em café,
comida, jogos, cigarros, sexo ou até mesmo no trabalho
sem pausa nem sentido. Deveríamos condená-los, por
causa de um “defeito biológico”?
No outro extremo do biológico vêm as “explicações
sociais”. A própria sociedade induz o consumo de drogas
através de vários meios: de um lado, a propaganda gene-
ralizada, de outro, a incapacidade para abolir várias de suas
doenças e para dirimir conflitos, injustiças e preconceitos.

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Anuncia-se um belo carro, uma bela “gata”, mas não
se fornecem ao consumidor os meios da sua aquisição e
conquista. Costuma-se, com frequência, considerar o “ou-
tro”, o vizinho ou o parente, como o responsável por indu-
zir os mais jovens ao uso da droga.
Uma outra explicação é a da psicologia. O indivíduo
usa café, álcool, tabaco, maconha, doce, cocaína, cerve-
ja, heroína, até sexo, para ficar “diferente” de seu esta-
do “normal”. Com isso, a pessoa se sente mais animada,
agressiva, expansiva e extrovertida ou introvertida. Em re-
sumo, a droga seria usada como automedicação.
Todas essas explicações contêm, provavelmente, algo
de verdade e, também, de mito. Não estou, neste artigo,
defendendo o uso das chamadas drogas proibidas ou exor-
tando ao uso delas, nem também, indo ao outro extremo,
de combatê-las ferozmente. Assim como não defendo o
abuso de tabaco, café, cerveja e comida, não combato,
como se fosse a pior coisa do mundo, o seu uso. Acredito
que qualquer pessoa que esteja bem consigo mesma e
que tenha algum propósito de “nível mais elevado”, isto
é, objetivos individuais claramente definidos, nunca será
presa e dependente das drogas, seja das lícitas, seja das
ilícitas.
O mundo contraditório e confuso das drogas permi-
te a produção, de um lado, dos defensores ferozes das
chamadas drogas proibidas, quase sempre com objetivos
pecuniários. De outro lado, a de combatentes impiedosos,
que disso se utilizam para criar liderança e poder. Esses
últimos, ao combatê-las, fazem disso sua “droga” e aliviam
sua ira ao sentenciar os “errados” e “marginais”, enquanto
eles, os acusadores, se sentem como os anjos puros, habi-
tantes diferenciados deste paraíso chamado Terra.

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Médico x Cliente

A imprensa noticia, novamente, reclamações de pa-


cientes ou dos seus familiares acerca do mau atendimento
médico. As disputas se restringem, quase sempre, ao que
ocorre no último elo de uma cadeia que se iniciou há anos,
já que a enfermidade, exibida no momento da consulta,
espelha um conjunto de fatos ocorridos na história de cada
paciente, os quais, em geral, não tiveram a participação do
médico que o assiste naquele instante.
São milhares os acontecimentos responsáveis pelo
atual sofrimento do cliente: alguns devido ao acaso, ou-
tros facilitados pela conduta do próprio doente, como, por
exemplo, o uso que fez de bebidas alcoólicas, de cigar-
ros e medicamentos, seus hábitos alimentares, seu tipo de
trabalho e de lazer, outras doenças sofridas, tratamentos
impropriamente realizados anteriores à consulta presente.
Mas não fica só nisso, há outros aspectos importantes: o
mundo poluído de bactérias, vírus, fungos, monóxido de
carbono, a estrutura biológica frágil do cliente, sua carga
genética peculiar. Tudo isso, ao longo dos anos, facilitou ou
desencadeou a eclosão da doença atual.

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Em resumo, nas reclamações não são levados em con-
ta os diversos aspectos que antecederam a atual consulta
geradora da discórdia. Possivelmente todos nós mantemos
ideias irracionais a respeito da nossa vida e do mundo em
que vivemos e carregamos ilusões acerca de possuir uma
saúde física e mental eterna. Em outras palavras, fantasia-
mos para nós a imortalidade. Também alimentamos sonhos
com referência às uniões ou vínculos com os outros ho-
mens e imaginamos que essas ligações nos darão proteção
contra os problemas do dia-a-dia. Por último, acreditamos
que, ao criarmos explicações científicas, filosóficas ou reli-
giosas para o mundo caótico em que vivemos, estaremos a
salvo de sofrimentos, já que pela teoria estabelecida pode-
remos encontrar as causas do nosso sofrimento, que, por
sua vez, nos levarão a maneiras seguras de eliminá-las.
Mas de fato, ao enfrentar uma realidade confusa, sem
leis, ou seja, vivendo num mundo que não pactua com as
nossas fantasias, o homem tenta, a todo custo, encontrar
algumas regras para sistematizar e assim administrar da
melhor maneira possível a sua vida. Entretanto, quase sem-
pre, o modelo da realidade ao qual ele se apega é inexato.
Se sua vida flui normalmente, sem tropeços, o indi-
víduo não chega a perceber que o seu “mapa” da realida-
de não está representado corretamente, nem retrata com
precisão o “território” onde sua vida se desenrola. Nos mo-
mentos críticos, porém, como no caso de uma doença gra-
ve ou de morte, de repente a pessoa se defronta com um
mundo diferente daquele que havia criado em sua mente.
Surgem, geralmente, nestes instantes, o pânico e o deses-
pero, pois os planos e técnicas existentes para solucionar
os problemas se mostraram ineficientes. Nesses momen-
tos, tentando se defender de qualquer maneira, o homem
lança mão das soluções mágicas ou das ideias ilusórias que
havia elaborado. Busca a tábua da salvação: o médico e

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a sua ciência, que se enquadram muito bem naquele falso
modelo de mundo. Não são raros os médicos que fingem
ser o Salvador para todas desgraças e sofrimentos...
Quase sempre as ciências médicas possuem teorias
um pouco melhores acerca das doenças e dos seus tra-
tamentos do que o paciente. Muitos clientes imaginam o
médico como o “prestidigitador” que eles procuram, um
ser capaz de rapidamente descobrir as “causas” da doen-
ça, dar explicações para esta e encontrar maneiras fáceis
e simples de exterminá-la.
E é nesses momentos agudos que os médicos - al-
guns mais bem dotados, preparados e equipados, outros
menos - são chamados para examinar o paciente. O cliente
em desespero agarra-se ao salvador, acreditando convic-
tamente possuir ele poderes divinos para tirá-lo da crise
e afastá-lo da morte. Todos nós sabemos, porém, que a
melhor medicina do mundo, equipada com os aparelhos
mais sofisticados, contando com os médicos da melhor es-
tirpe intelectual e científica, erra, falha e tem dúvidas ao
receber pacientes graves com certas enfermidades. Assim
é natural que muitos deles morram.
Aqui, como alhures, as moléstias costumam ser obs-
curas, difíceis e muitas vezes impossíveis de serem diag-
nosticadas e tratadas, como gostaríamos que fossem.
Pouca ou nenhuma certeza temos acerca da teoria das do-
enças, de sua evolução, de suas causas e tratamentos.
Possuímos, na maioria das vezes, hipóteses, trabalhamos
com elas, constantemente incertos e inseguros quanto aos
diagnósticos e tratamentos. Aprendemos muito com nos-
sas tentativas e acertos e também com nossos erros. O co-
nhecimento de boa percentagem das doenças ainda é uma
incógnita para os pesquisadores sérios, não o sendo para
os mal informados, os limitados, os que só enxergam a pe-
riferia da realidade, julgando tudo muito simples e fácil.

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As doenças fazem parte de nossas vidas: vida e morte
andam juntas. Toda a decepção com a crueldade e indife-
rença do mundo, percebida pelo cliente ou pelos familiares
diante da doença, volta-se frequentemente com violên-
cia contra o médico, que encarna, por alguns momentos
durante a enfermidade, a figura mágica do Salvador. Nos
momentos de desespero e dor, o médico representa para
o paciente o próprio Deus, o que, como sabemos, lamen-
tavelmente não é verdade.

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AS DOENÇAS
E OS JARGÕES MÉDICOS

A linguagem médica, desenvolvida do pensamento


mágico, acha-se ainda presa às ideias e práticas ancoradas
no fantástico. Sua linguagem carrega vestígios de seres e
situações encarnando o “grande poder”. No modelo, seres
sobrenaturais evocados através de rituais (rezas, danças,
penitências, confissões), têm o poder de provocar as mu-
danças desejadas, físicas ou psicológicas. Estamos mar-
cados por “energias” psicológicas, “fluidos” milagrosos, os
“maus-olhados”. O médico pode curar, representando tan-
to o cientista como o bruxo, servindo-se de um diagnóstico
preciso ou, se quiser, lançando mão de preces e receitas
milagrosas (placebos).
Para muitos, uma doença diagnosticada é uma doen-
ça quase curada, usando o método científico ou o mágico.
Dar um rótulo às causas, ao conjunto de sinais e sintomas,
envolve classificação e promove e orienta o prognóstico e,
finalmente, indica a terapia. Mas o diagnóstico dado, às ve-
zes prejudica. O nome “febre” e “diarreia” podem sinalizar
coisas simples, o rótulo de “AIDS”, levar ao desespero.

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O termo usado para o diagnóstico, misturado às in-
formações sutis e escondidas, fornecerá a diferença: “gas-
trite” (fácil de curar) e “cirrose hepática” (morte). Certos
nomes carregam mensagens metafóricas, outros não. Go-
norreia e hanseníase de um lado, hipertensão e artrose de
outro. O rótulo de doença mental estigmatiza, o infarto e
a diabetes, não.
Quando um tumor está em discussão, o temor gira em
torno da palavra-chave “benigno” ou “maligno”. Os residen-
tes do Hospital das Clínicas pronunciavam “CA”, e não “cân-
cer”. Olhavam para o chão, sempre num tom de voz baixo
e grave, demonstrando alto respeito pela doença “maldita”.
As palavras nascem e morrem, transformam-se, adqui-
rem novos significados. O termo “digestivo” virou “diges-
tório”, “pedinte”, passou a ser “excluído” e “negro”, agora é
“afroamericano”. A palavra “melancolia” foi desprestigiada.
Diagnósticos surgem do nada: “Doenças do Pânico”, “An-
siedade Pós-Estresse”.
Outros mudam de nome: “perverso”, da psicanálise,
virou “psicopata”, mais tarde, “sociopata”, agora é “Per-
sonalidade antissocial. “Neurastenia” desapareceu no Oci-
dente, permanece deprimida na China. “Doenças”, (ou
seriam só nomes?), enterradas há anos como “Síndrome
da Fadiga Crônica” (síndrome pós-viral), bem como “Fi-
bromialgia”, renascem. A sífilis e gonorreia, irritadas com
o desprestígio, ameaçam voltar. A simpática histeria, go-
zadora de grande prestígio, se dissipou, apesar de seus
protestos espalhafatosos.
Os jargões médicos variam conforme o profissional e
a especialidade e, ainda, a nacionalidade e raça. Na França
há mais diagnósticos acerca do fígado, na Alemanha, de
doenças cardíacas e os britânicos enfatizam o estômago e
intestinos. Os conceitos e diagnósticos da psiquiatria são
ficções. Eles estão contaminados por ideologias, não se

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apoiam em observações “reais”. Uma nova classificação
está sendo imaginada, a atual não apresenta um único
diagnóstico separando o “normal” do “doente”. Além dis-
so, os diagnósticos se acham interligados, não há como
diferenciá-los corretamente. Os diagnósticos são nomes e
nomes, apenas nomes.

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Confissões De Uma Médica

Há dias, no meu consultório, atendi uma médica recém-


formada. Soluçando, contou-me sua “tragédia” pela qual me
interessei. Com seu consentimento, publico o relato.
“Formei-me em medicina! Alegria geral! Agora pre-
ciso ganhar o pão de cada dia com meu suor, se possível
sem lágrimas. Mas onde e como?
Comecei a clinicar. Chegam os pacientes, despejados
de todos os cantos, a maioria escorre das favelas. Na ma-
drugada fria, enfileirados, eles imploram, piedosamente, a
bendita consulta. Esta, uma vez conseguida, é realizada,
muitas vezes de modo superficial e apressado. Todos en-
tram no templo encantado dominados por uma imensa fé e
sonham com os milagres da fantástica medicina moderna.
Chega o momento do exame, agora eles são enca-
minhados para o altar onde será iniciado o interrogatório.
Conforme determina o ritual, inicialmente é preciso que
o doente se mostre humilde diante da divindade: venere
o sacerdote vaidoso e compenetrado que o espera. Após
obedecer a esse mandamento, ele será considerado mere-
cedor de ajuda futura. Cabe ao paciente executar o deter-
minado. Não lhe será permitido questionar, pois perguntas

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aborrecem, tomam tempo, indicam desconfiança e mago-
am o sensível médico. Ali imperam leis veladas: o clínico
ordena, o cliente não pode opinar, ele deve submeter-se à
vontade do protetor. Sem entender o padrão rígido exis-
tente e a linguagem usada, os clientes procuram, muitas
vezes sem serem ouvidos, explicar seus males.
Começa a consulta: encurvado, enrolado em farrapos,
submisso, o paciente contempla o chão. Sua face magra e
pálida mostra sinais de feridas não cicatrizadas. Do fundo
de sua garganta apertada ecoam, penosamente, cânticos
melancólicos que descrevem sofrimentos. Defronto-me
com seres humanos envelhecidos pela dor. Imagino, com
pesar e dificuldade, que um dia eles foram crianças sau-
dáveis e alegres e sonharam ser alguém. Hoje, derrotados
e excluídos, jamais alcançarão a profissão, as relações so-
ciais e o respeito valorizado pela nossa cultura. No consul-
tório médico e em outros campos sagrados, essas sombras
são tratadas como animais sem dono, ervas daninhas que
só incomodam. Miseravelmente sozinhos, sem proteção,
eles ainda teimam em viver e implorar.
Esse encontro bate e fere minha face jovem. Tento
mostrar uma fortaleza que não possuo. Assentada no meu
trono, sou a soberana e represento a farsa da assistência
médica ao indigente, papel que forçaram-me a interpre-
tar com uma sabedoria e um poder fingido. Contenho-me
para não gritar por socorro, dizer-lhes que também preciso
de “médicos” para ajudar-me a suportar as incertezas, as
perdas, a juventude que se vai, a responsabilidade que
caiu pesada demais sobre mim e, pior ainda, possuir a
consciência de tudo isso.
Não inventei a doença, nem a pobreza, muito menos
a discriminação social ou a morte. Portanto, não posso ser
responsável por essas mazelas. Não teci o estranho cami-
nho desenhado pela natureza - ou sei lá o quê - que cons-

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truiu de modo tão desigual e injusto cada um de nós, bem
como a nossa posição na sociedade.
Sei que enquanto estou provisoriamente do lado de
cá, atuo como um pararraios, sempre aberto, tentando
consertar os desencontros dessas vidas. Ouço súplicas,
esbarro na penúria extrema, sinto o cheiro nauseabundo
de feridas incuráveis, sou jogada e me perco no labirin-
to sem saída do cliente. Despreparada para conviver com
esse caos, obrigada a representar este papel, tenho que
extrair de minha mente inocente e conturbada, receitas
milagrosas para aliviar todos e tudo. Não possuo essas
drogas como muitos fantasiam.
Mas, na verdade, sinto-me confortável nesse encon-
tro venerável. Gosto de fingir de deusa, mesmo sendo
uma deusinha mixuruca. Sei que é pecado pensar assim.
Encanta-me fingir que sou o ente poderoso e sobrenatural
criado pela mente da sociedade. No delírio compartilhado,
eu sou o ser superior que extermina o sofrimento. Esta-
mos, eu e o paciente, aprisionados na mesma estrutura,
somos enganados e enganamos, mas necessitamos, para
viver, conservar essa quimera. Isso é um direito nosso, tal-
vez nossa única liberdade: sonhar, sonhar, sonhar...”

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O DIFÍCIL ENCONTRO:
MÉDICO E PACIENTE

A terminologia médica fornece um bom exemplo das


múltiplas funções que a linguagem tem a desempenhar.
Por um lado ela é técnica, permitindo aos médicos compre-
ender e explicar a doença, mas também serve de comuni-
cação entre os pacientes, dentro e fora da sala de espera.
Entretanto, muitas vezes há uma não-comunicação entre
o médico e o paciente.
Essa linguagem, apesar de buscar ser, ao mesmo
tempo neutra e objetiva acerca do conhecimento científico,
do lado do cliente e mesmo do médico encontra-se emara-
nhada de noções sociais, culturais, econômicas, religiosas
e prescrições e aspirações terapêuticas e morais: “Você
precisa tomar esse remédio!”; “Deve usar camisinha”;
“Tem que agradecer a Deus por ter operado.”. Notam-se,
pelos exemplos, os “tem”; “deve” e “precisa”. Na maior
parte das vezes a linguagem médica é dogmática e auto-
ritária, metamorfoseada, na sua aparência, como sendo
democrática e liberal, “boa para o cliente”...
Na consulta, sentindo uma dor ou uma emoção ruim,
o cliente desesperançado busca em vão o termo certo que

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esteja em harmonia com o observado. Ele quer informar
não só a natureza, bem como a intensidade do que está
sentindo, às vezes até a causa de seus males. Ele deseja
transmitir o ponto exato onde se localiza a dor, explicar
quando ela vem e desaparece, aumenta e diminui.
Tudo isso é difícil de transmitir, ainda mais num tempo
exíguo e diante do rosto, quase sempre austero e autori-
tário, do médico. O que fazer? Coitado do cliente, obrigado
pelas circunstâncias da doença precisou recorrer ao mé-
dico. Coitado do médico, empurrado pelos fatos da vida,
entrou numa área de incertezas, passou a conviver com
o sofrimento e o desespero. A tarefa de ambos é, talvez,
impossível.
A linguagem para nomear as emoções desagradáveis
e agradáveis não é nem objetiva, nem capaz de estimar a
intensidade delas. O cliente, na sua vã tentativa de trans-
mitir seu sofrimento, procura relacioná-la a alguma entida-
de (teoria, hipótese) mais ampla: funcionamento anormal
dos intestinos, uma deficiência alimentar, um transtorno
geral do organismo, uma gripe ou uma espinhela caída.
Outras vezes, tenta explicar a doença fazendo uso de me-
táforas ou de imagens semelhantes: “Tá doendo pra chu-
chu”; “É uma dor ardida”; “A cabeça vai estourar!”; “Tenho
um medo terrível!”; “Fiquei fraco da ideia.”; “Não tenho
força para mover uma palha.”
Esse modo de ser, de um e outro lado, não tem culpa-
do. Tudo decorre de um tempo longínquo do sábio-rei Pla-
tônico, da aristocracia que imperava. Os médicos sonham
com o merecimento moral, casta e sacerdócio, apesar da
realidade mostrar o desprestígio e desrespeito. O médico
é agredido, até fisicamente, pelo “cliente” desesperado –
seria paciente?
Ele culpa o personagem central dessa tragicomédia,
onde o Atlas (médico), representa o papel de curador ge-

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ral da miséria humana (pobreza, ignorância, desemprego,
família esfacelada, educação defeituosa).
O médico moderno, como os pais modernos, acredi-
tam no seu poder divino, ainda imaginam um status que
não mais existe, um lugar ao sol, de um Sol que já desa-
pareceu no horizonte há muitos anos.

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A Propósito de uma Gripe

Todos nós já tivemos uma gripe. Conforme a gravi-


dade dela faltamos ao serviço, ou deixamos de fazer uma
viagem que havíamos planejado. Cada pessoa avalia sua
gripe à sua maneira quanto à gravidade, escolhendo os
melhores meios de tratá-la. Uns buscam a orientação da
mãe, outros, do amigo, alguns vão à procura do médico.
Após ouvirmos nossos conselheiros, tomamos chás,
medicamentos, repousamos e, às vezes, até mudamos al-
guns dos nossos hábitos. O que ocorreu nesse indivíduo
que aqui chamaremos de Marta? Inicialmente, no sistema
ou organismo de Marta originou-se uma ação de uma ma-
téria - ou energia por sua interação com o meio em que
vive ou, em outras palavras, adquiriu um vírus que, ao pe-
netrar no seu organismo, que se encontrava em estado de
equilíbrio com seu meio, tirou-o de sua estabilidade, ou de
sua saúde, e colocou-o em um modo de viver disfuncional,
ou seja, doente. Entretanto, Marta é um sistema individua-
lizado, formado por vários subsistemas e fazendo parte de
um sistema mais amplo formado por seu meio ambiente.
Além disso, Marta é um sistema aberto que troca, isto
é, recebe e fornece energia com sistemas vizinhos como

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a sua família, seus amigos e seu meio social. Além disso,
cada subsistema do organismo de Marta, o respiratório,
cardíaco, mental, nervoso, etc., está em constante inte-
ração, através de trocas que causam alterações diversas,
dentro de um estado dinâmico de equilíbrio.
O vírus da gripe, ao penetrar no sistema corporal de
Marta, desencadeia uma série de disfunções, desequilíbrios
ou “doenças”.
No caso de Marta, o vírus atingiu inicialmente o seu
subsistema respiratório na sua parte celular. Ela sente dor
na laringe e falta de ar. Pouco a pouco os subsistemas
vão-se afetando mutuamente. Marta começa a sentir náu-
seas, dores nas pernas, taquicardia, visão ruim, a cabeça
confusa, sua pele fica avermelhada e assim por diante,
atingindo, em grau maior ou menor todo o sistema, isto
é, todo o organismo da coitada. Nesse caso falamos que
Marta adoeceu.
Diante de um problema clínico como esse, o médico
tenta agir no sistema paciente-meio, buscando produzir
uma transição de um estado de doença para um estado de
saúde, quase sempre com uma série de estados interme-
diários que, com frequência, são para o paciente piores do
que os sintomas da própria doença, como, por exemplo,
realizar uma cirurgia para extirpar um tumor indolor. Po-
rém o azar de Marta não acaba aí. A potência do vírus da
gripe, por si só, é geralmente pequena. Mas ele provocou
o funcionamento de uma série de outros sistemas que pas-
saram a causar enormes danos.
Analogicamente, assim como um sinal luminoso que
possui baixa quantidade de energia, ao tornar-se verde
faz fluir dezenas ou centenas de veículos no trânsito (uma
alta quantidade de energia). O vírus também pode pro-
vocar distúrbios de alta proporção. Marta encontrava-se
gripada exatamente no dia de uma prova final. Não se saiu

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bem nos exames, pois sua cabeça não funcionou adequa-
damente e, por isso, ela perdeu o ano.
A gripe modificou sua atuação no sistema escola/so-
cial, causando-lhe enormes perdas neste sistema.
Marta não vive sozinha, ela tem família, colegas, vi-
zinhos e mora em uma cidade. Marta, como sistema aber-
to que é, não só tem todas as partes do seu organismo
interligadas e interrelacionadas, mas também todas elas
funcionam em harmonia com sua estrutura, de acordo com
seus objetivos. Ela interage igualmente com os sistemas
vizinhos, tais como o sistema-familiar, o sistema-colégio
e outros mais à sua volta, recebendo e enviando agentes
de mudanças ou, em outras palavras, trocando matéria-
energia.
Marta, além de ser um ser biológico, é também um
ser psicossocial. Da mesma maneira que sua estrutura bio-
lógica conduz seu organismo a ter certas funções e não
outras, seu sistema mental, adquirido através de educa-
ção, aprendizagens diversas, cultura, valores, se organiza
num todo, que estabelece sua estrutura mental peculiar e
esta, de maneira harmoniosa, busca a sua preservação,
assim como procura atingir os objetivos ditados por ela. O
sistema mental de Marta desenvolveu-se pouco a pouco,
criando assim uma ideia de si mesma. Como ser diferen-
ciado dos outros, constantemente ela luta para que seu
sistema mental não se misture exageradamente com os
sistemas vizinhos. Se acontecer, ela poderá desaparecer
ou dissolver-se como sistema individualizado, esvaindo-se
nos outros.
Ao mesmo tempo que o modelo de si e do mundo vai
se formando no indivíduo, servindo-lhe de guia para suas
ações, a pessoa necessita dos outros para manter-se em
equilíbrio consigo e com o meio, ao receber conhecimento,
reconhecimento, proteção, crítica, etc.

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Comumente a ideia ou “mapa” que uma pessoa tem
a seu respeito e do mundo é muito diferente da idéia ou
“mapa” que os outros fazem dela e de sua realidade. Mar-
ta criou um “mapa” de si como se estivesse muito doente,
ela tanto imaginou, tanto representou para si a ideia de
doença grave, que essa influenciou e transformou o sis-
tema mental até mesmo do médico que a atendeu. Ele
passou a achá-la bastante doente, tanto assim que deci-
diu interná-la num hospital, dada a “gravidade do caso”.
Portanto, houve um equilíbrio no sistema Marta-médico,
os dois passaram a ter a mesma ideia. Marta, de acordo
com sua estrutura mental ou seus propósitos, “necessita-
va” ficar doente, o médico “necessitava” de pacientes para
representar o papel de médico.
A doença de Marta, inicialmente orgânica, agora já
o é também psicológica e social. Marta, do consultório vai
submeter-se a exames laboratoriais, RX e, finalmente, é
internada. No hospital, Marta se descompensou, pois foi-
lhe muito difícil adaptar-se nesse sistema estranho e às
vezes sinistro, exatamente num momento difícil de sua
vida. Ela, que já estava doente, adoeceu ainda mais.
Além disso, seu ponto de apoio, que era a família,
teve seu contato diminuído e muito, para que o sistema
hospitalar pudesse funcionar a contento, em detrimento
do primeiro, ou seja, da família. Diante desses problemas
a mais, Marta piorou. À medida que ia se desequilibrando,
o sistema-Marta equilibrava o sistema-hospitalar, pois este
último só existe em função do paciente.
Esta maneira de conceituar a “doença” mostra a com-
plexidade que é um ser humano doente, não somente com
respeito a uma descrição dos vários sistemas orgânicos en-
volvidos, mas também com respeito à maneira e à execução
do tratamento e mesmo onde irá ser feito, quais os riscos para
os diversos sistemas do indivíduo (psicológico e social).

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O sistema Marta agora coloca em funcionamento
vários outros sistemas à sua volta e com eles interage.
Transforma e é transformada por eles. Uma doença maior
e mais complicada começa a aparecer. Era uma simples
gripe, aos poucos atinge outras áreas, passando a ser um
distúrbio complexo, abrangendo os sistemas orgânico-psi-
cológico-social interrelacionados. Todos eles foram atin-
gidos e se desequilibraram. O tratamento não consistirá
mais em curar uma gripe, mas, sim, fazer com que todos
os sistemas comprometidos voltem ao equilíbrio anterior.
O distúrbio inicial pequeno pode gerar, em outros sis-
temas, distúrbios de muito maior gravidade e intensidade.
A doença inicial de Marta, gripe, poderá provocar em sua
mãe uma reação emocional intensa, provocando-lhe insô-
nia, diarreia, ansiedade. Este distúrbio, por sua vez, pode-
rá atuar na avó de Marta e esta poderá ter um infarte. A
cadeia pode-se estender para outras pessoas e, uma vez
formada, tende a permanecer, ou seja, encapsular, resistir
às mudanças. Quando as transformações permanecem por
um tempo longo, elas ficam incorporadas ao sistema, man-
tendo um equilíbrio disfuncional (doentio). Daí a dificuldade
encontrada pelos médicos frente ao paciente crônico.
Portanto, uma “doencinha” à-toa, pode tornar-se,
com a participação de outros sistemas, uma doença inca-
pacitante. São comuns afirmações como “depois daquele
tombo não fui mais o mesmo homem” ou, “eu virei outra
mulher após a ligadura das trompas”.
A ação do médico, algumas vezes de proteção para
com o paciente, pode protelar, ou mesmo impedir a cura,
de acordo com esta teoria. A ligação do sistema médico-
paciente pode se tornar tão forte para o cliente, que ela se
torna o objetivo primordial da pessoa. O indivíduo passa
a se considerar um doente, acostuma-se com essa ideia
e a partir de então fica aprisionado no sistema de saúde,

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como doente. Os clínicos de maior experiência sabem que,
com alguns pacientes, para ajudá-los ou curá-los, têm que
abandoná-los. Em outras palavras, para permitir que uma
paciente possa retornar a um nível satisfatório de vida, é
necessário que o médico corte a ligação médico-paciente,
anteriormente necessária para a recuperação da mesma,
agora prejudicial, isto é, está lhe causando uma outra do-
ença, num outro sistema. Qualquer pessoa que estiver
muito presa a um sistema, terá dificuldades em se envol-
ver ou buscar outras opções no seu mundo.
Lamentavelmente, para alguns, “ser-doente no mun-
do” passou a constituir o objetivo supremo do viver, o ato
mais significativo de uma vida insignificante. Para esses, é
menos ruim ser doente do que não ser nada.

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TRANSTORNO MÉDICO-
PSIQUIÁTRICO OU FICÇÃO?

Numa manhã quente de quarta-feira atendi em meu


consultório um rapaz de quinze anos. Este, segundo seus
pais, há cerca de um ano começou a ficar “esquisito”. Seu
comportamento tornou-se diferente do que era na escola e
em casa, não mais conseguindo estudar ou se divertir como
antes. Começou a falar coisas desconexas e, às vezes, a
fazer perguntas estranhas, dormindo mal, não terminando
o que começava, tendo ações incompreensíveis como cho-
rar e, de repente, muitas vezes, ficando agitado.
Eu, como psiquiatra, examinei o paciente de acordo
com o que aprendi como médico, ou seja, olhando um as-
pecto do universo comportamental: a conduta diferente
das usuais. Examinei-o com minha “luneta” médica, fo-
calizei certas características do comportamento e deixei
de lado milhares de outras. Orientado por pistas que in-
tencionalmente procurava – conforme as teorias que me
vieram à mente - rotulei o rapaz de “doente mental”, mais
especificamente portador de um transtorno denominado
“esquizofrenia hebefrênica”.

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Na entrevista com os pais, esses contaram-me, en-
tre outros fatos, que uma psicóloga lhes disse que o ra-
paz era “normal”, que ele nada tinha de “errado” em sua
conduta.
Fica a pergunta: Como eu e a psicóloga “enxerga-
mos” e categorizamos um “mesmo evento” de forma tão
diferente?
Uma conduta desajustada pode ser percebida de di-
versas formas por diferentes observadores, inclusive pelo
observador possuidor do transtorno. Existem várias ma-
neiras de classificar um fenômeno psicossocial, diferentes
modos de perceber as relações entre um fato e outro que
emergem da conduta da pessoa. Cada maneira de simbo-
lizar tem seus seguidores.
A cultura fornece, a cada um dos seus membros, re-
ferências variadas capazes de assimilar o evento dos mais
diversos modos. Na maneira de ver do psiquiatra, isto é,
a conduta vista como fenômeno médico, as variantes do
comportamento são analisadas, apoiadas em determina-
dos pressupostos aceitos como “realidades” entre o modo
de ver médico: o indivíduo está sofrendo e está agindo
disfuncionalmente, isto é, em desacordo ao esperado pelo
grupo sociocultural do qual faz parte.
Para explicar ou entender qualquer conduta “normal”
ou “anormal”, o “rotulador”, profissional ou amador, terá
que utilizar-se de um certo padrão (esquema ou modelo)
que, uma vez ligado ao fenômeno observado, fornecer-
lhe-á um significado ou uma compreensão. Este modelo
forçosamente terá que existir previamente na mente do
rotulador, fazer parte de seu conhecimento, não só estar
armazenado na sua memória, mas, principalmente, estar
disponível, consciente no momento, pronto para ser usa-
do. A não existência do conhecimento que servirá de base
para ser checado com o fenômeno, fornecendo-lhe a com-

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preensão, também, a não exibição à consciência, impedirá
a associação do conhecimento anterior assimilador com o
fato que está sendo observado para ser entendido.
Para que uma pessoa se sinta mais segura com res-
peito às suas interpretações é necessário que, pelo me-
nos parte de seu grupo de referência, profissional ou cul-
tural, defenda e siga os mesmos pressupostos teóricos,
ou seja, tenha os mesmos conhecimentos assimiladores.
Ora, como sou médico, sigo as ideias compartilhadas pela
maioria da comunidade científica médica psiquiatra, pois
identifico-me com elas.
Voltando ao paciente: foi apoiado nesses meus “ócu-
los”, que são os usados pelo grupo do qual faço parte,
que examinei a conduta do rapaz, comparando-a, primei-
ramente, com a conduta “normal” – um paradigma vago
acerca de um grupo, o dos adolescentes masculinos. Pos-
teriormente confrontei seu próprio comportamento ante-
rior, de acordo com o relato dos pais, com a conduta atual
diante de mim e conforme os relatos. Para o modelo que
me esforço para seguir, o médico-psicológico, este rapaz,
aqui denominado de “cliente”, distanciava-se dos padrões
mencionados, não só dos adolescentes, como também de
sua própria conduta anterior.
Uma vez constatada a existência de anomalias na
conduta - sintomas e sinais próprios de um desvio com-
portamental - foi procurado, no subsistema de conheci-
mento médico-psiquiátrico, um conceito – aqui chamado
de “diagnóstico”, conforme a classificação internacional
de doenças mentais - capaz de englobar essas condutas
“anormais” do rapaz de maneira simplificada, fácil de ser
comunicada para mim mesmo ou para outros. Foi então
utilizado um símbolo verbal simples, unificador, uma abs-
tração dos fatos concretos observados no paciente ou in-
feridos através dos relatos dos familiares.

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A classificação, estabelecida por um grupo de psiquia-
tras ilustres de todo o mundo, serve como orientação para
o estabelecimento dos diagnósticos psiquiátricos para fins
oficiais, de pesquisa e para orientar o tratamento, inclusive
para verificar, conforme a evolução do paciente, se ele está
mais próximo do “certo”, ou do “errado”.
Normalmente o observador que percebe ou examina
a conduta, nesse caso particular um médico assistindo a
um paciente, acredita que o observado é “real”. Essa cren-
ça apoia-se em pressupostos encaixados na doutrina do
realismo filosófico: o que observo com meus órgãos dos
sentidos tem existência fora da minha mente, tal como
percebo. Sabemos que esta postura recebe, com muita ra-
zão, severas críticas de outras escolas filosóficas. Todas as
nossas percepções são guiadas ou dirigidas pelas ideias ou
premissas que estão armazenadas em nossa mente. Ora,
essas ideias básicas ou princípios são geralmente adquiri-
dos muito cedo. Uma vez armazenadas, essas idéias bási-
cas não são lembradas como foram adquiridas e também
não temos acesso a elas diretamente, como através da
introspecção ou de reflexões.
Sabe-se que uma grande parte de nossos pressu-
postos, valores morais, etc. são adquiridos, para alguns,
antes dos três anos, para outros, os julgamentos morais
seriam aprendidos na adolescência. Agimos automatica-
mente usando esses pressupostos- chaves, sem conseguir
criticá-los através de nossos esforços conscientes. Entre-
tanto, são dessas premissas-conceitos não-visíveis que
extraímos nossas associações entre os fatos - funcionam
como elos teóricos encarregados de reunir os eventos que
observo ou que desejo compreender.
Desse modo, o percebido passa a formar um conjunto
harmônico e estruturado, fornecendo ao observador algum
sentido para ele, que é dado pelo elo dos pressupostos.

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Portanto, em resumo: não se podem extrair conclu-
sões, sem existirem premissas. Nosso raciocínio funciona
após ter recebido um conjunto adequado de informações
iniciais, ou seja, de princípios. De posse de certas premis-
sas, os “eventos observados” são interpretados – ligados
uns aos outros - sempre através dos pressupostos básicos
que utilizamos. Desse modo é formada uma “rede” onde ou-
tros dados podem, ou não, fazer parte. Portanto, a razão é
totalmente instrumental – trabalha através dos fundamen-
tos aceitos - ela não nos dá garantia de estarmos certos ou
errados, bem como não indica onde vamos chegar. Podemos
supor que certas experiências perceptivas são diretamente
acessíveis a um observador. Entretanto, as proposições de
observações, unindo os perceptos, nunca são percebidas,
elas existem – já foram “plantadas” em nossa mente antes
da observação. Devemos ter consciência de que percebe-
mos as “coisas”, ou os “fatos”, sempre nos apoiando nelas.
Nós, os psiquiatras, na impossibilidade de termos um
instrumental mais sofisticado para observarmos, continua-
mos a usar esse expediente para fazer nossos diagnósticos
clínicos, isto é, a linguagem do dia-a-dia para os fatos e a
classificação das doença mentais.
Não temos outro mais confiável até agora, esses são
nossos instrumentos de observação. Essa ferramenta in-
terpretativa, formulada por um grupo de psiquiatras, cor-
rigida de tempos em tempos, parece-me menos defeituosa
do que se cada um, em cada momento, usasse sua própria
ferramenta, carregada de “pré-conceitos” científicos, acre-
ditando, com muita fé, que está tendo “percepções ima-
culadas”, crença comum existente no “realismo ingênuo”.
Não temos outra saída.
Para a “luneta” ou observações do psiquiatra, os vá-
rios modos de agir do rapaz são denominados sintomas e
sinais, exibidos pelo paciente, e que têm sua origem na

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psique (cérebro/mente) da pessoa. Nessa localizam-se os
fatores determinantes responsáveis pelas anomalias com-
portamentais percebidas: tipo de conduta observada, pro-
cessos fisiológicos associados e somatizações, mudanças
na cognição, na emoção e na conduta simbólica e, além
disso, inventamos certos fatores que chamamos de “tra-
ços” como determinantes, desde cedo, por certo tipo de
comportamento.
Entretanto, há observadores não-médicos que usam
“óculos” diferentes dos psiquiatras. Eles têm outras premis-
sas básicas, usam outras lentes. Esses não só observarão
condutas diferentes, como também enfatizarão algumas
delas como mais importantes – prioritárias - para manter
sua ideia do mundo ou da sua cosmologia. Fatalmente não
darão importância às outras condutas ou outros fatos que
são “valorizados” pelo psiquiatra. Para alguns psicólogos,
certos religiosos e espíritas, o que o psiquiatra denomina
de “transtorno psiquiátrico” pode não ser uma disfunção
mental e não ter nada a ver com o cérebro/mente. Eles
entendem e explicam o transtorno mental descrito por nós
conforme as teorias orientadoras subjacentes existentes
em suas mentes. Raciocinarão com conceitos e teorias bas-
tante diferentes das usadas pelos médico acerca do fato, de
sua evolução e, principalmente, das possíveis “causas” de-
sencadeadoras do fenômeno que está sendo examinado.
Por fim, esses valorizarão a conduta de forma diver-
sa do psiquiatra. O que para esse é uma “doença”, para o
espírita ou religioso pode ser, por exemplo, uma “posses-
são”, um “encosto” ou até mesmo uma “revelação”. Uma
psicóloga pode chamar esse quadro de “carência afetiva”,
“problemas de adolescente”, “ego fraco” ou outro nome
semelhante. Além disso, não devemos nos esquecer que
observamos um “cliente”, ou qualquer outro nome que se
queira dar, num certo momento, diante de um determina-

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do observador e, como sabemos, a conduta das pessoas
muda conforme o ambiente, nesse caso em função das
informações ou condutas do observador.
As pessoas possuem estruturas psíquicas ou cerebrais
que promovem ações intencionais/racionais. Certos trans-
tornos, mudanças ou lesões nessas estruturas provocarão
mudanças nas ações. Em outras palavras, as modificações
nas estruturas físicas/biológicas, causadas por mutações
genéticas, danos no tecido cerebral, distúrbios nas subs-
tâncias químicas que aí circulam (neurotransmissores, hor-
mônios e péptides), além das mudanças internas causadas
por problemas externos do meio ambiente, principalmente
o relacionado aos contatos com pessoas, irão se manifes-
tar em mudanças comportamentais da pessoa, que pode
caracterizar o que é chamado de transtorno psiquiátrico.
Sua base, essencialmente biológica, está ancorada na his-
tória evolucionária e no genoma das espécies. Entretanto,
o transtorno pode e, geralmente reflete, os efeitos indire-
tos ou indesejáveis do meio ambiente sobre o indivíduo
psicossocial. O ser humano, preso às suas características
biológicas, age e reage ao meio social, promovendo con-
tinuadamente sua adaptação aos significados ou valores
desse meio.
Há, portanto, bases sociobiológicas para os trans-
tornos psiquiátricos. A teoria social fornece as influências
nascidas da cultura e dos sistemas sociais que possibilitam
o aparecimento, bem como sua forma, dos diferentes ti-
pos de transtornos psiquiátricos. Muitas pesquisas nessas
áreas têm se concentrado na pobreza, na classe social,
nos estressores sociais, no apoio social e diversas outras
influências culturais. Todas têm suas razões.
Um sistema social global é constituído de diversos
subsistemas como o legal/governamental, religioso/moral,
familiar/comunal, acadêmico/médico, crenças/costumes,

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etc. Existindo diversos modos de examinar a conduta,
esta, uma vez desviada, pode levar os diferentes rotula-
dores a emitir classificações, conceitos e conclusões tam-
bém diferentes, dependendo do subsistema utilizado para
dar significado ao comportamento. O psiquiatra, estando
ligado primordialmente ao subsistema médico, usará uma
conceituação que a comunidade médica adota. Entretanto,
sendo ele gente como o cliente e outras pessoas, - deve
ser lembrado -, está ligado também a outros subsistemas,
muitas vezes mais aprisionados nesses últimos do que no
sistema médico.
Todos esses subsistemas constituem padrões ou es-
quemas de referência para comparar e avaliar a conduta
da pessoa a ser examinada. Os diversos esquemas de re-
ferência de cada subsistema examinarão aspectos diferen-
tes da conduta, usarão conceitos e teorias diversas, valori-
zarão mais certos atributos, isto é, operam em termos de
convenções distintivas. Assim é que uma pessoa P pode,
num certo meio social, vir a ser diagnosticada como an-
tissocial, informalmente rotulada de diferente, desviante,
infradotada ou doente.
Isto indica que P, a partir de um esquema de referên-
cia, recebeu uma identidade social formal como resultado
de sua incorporação num certo subsistema social adotado
por um grupo de pessoas. Este mesmo “cliente”, se exa-
minado através de um outro padrão ou subsistema, e uma
vez interpretada por ele, poderá ser denominada de crimi-
nosa (subsistema legal/governamental), poderá também
ser rotulada de “santa”, “vidente” ou “médium”, etc. Tudo
dependerá das convenções existentes na base de referên-
cia adotada e usada no momento da incorporação, por cada
examinador de conduta. Em resumo, um mesmo indivíduo
P poderá ser rotulado de criminoso, doente mental, sadio,
santo e estranho e outros rótulos, até de “normal”.

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São frequentes os conflitos entre os diversos modos
de rotular dos subsistemas. Geralmente um rotulador não
conhece o esquema usado pelo outro para rotular e, por
isso, acha que ele está errado. O próprio rotulador geral-
mente não conhece as premissas implícitas no seu racio-
cínio e que estão sendo usadas para incorporar um certo
indivíduo num subsistema sociocultural. Cada sistema pos-
sui não só ontologias diversas, como também epistemolo-
gias variadas conduzindo a ela.
O subsistema médico clássico, como outros subsiste-
mas, opera com pressuposições teóricas subjacentes dife-
rentes das dos outros. Assim, ao examinar uma conduta,
poderíamos perguntar: - Que fatores levam uma pessoa a
ter o comportamento que ela está apresentando? Se ela
é rotulada de “doente mental”, estamos raciocinando com
hipóteses ou explicações biológicas e desenvolvimentalis-
tas para entender o transtorno.
Para o adepto do subsistema religioso, as explicações
emergem de teorias místicas ou mágico-religiosas e, fi-
nalmente, o esquema legal/governamental examinará as
ações do rotulado que não se enquadram no que está es-
tabelecido pela lei.
A nossa sociedade ou governo, por diversas “razões”,
tem priorizado o esquema de referência científica, neste
caso o modelo médico e não os “alternativos” como o má-
gico-religioso. Entretanto, os outros subsistemas contami-
nam o pensamento de todos nós, inclusive dos médicos,
psicólogos, juízes, autoridades, etc. O nosso presidente,
ao tomar posse, indicou um médico para ser o Ministro da
Saúde. Entretanto, preso a outros esquemas, usou fitinhas
de N. S. do Bonfim no pulso para “protegê-lo” contra maus
prognósticos e submeteu-se à acupuntura para suas dores
lombares. Uma mistura de crenças e de paradigmas con-
flitantes.

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A cultura continua a utilizar-se de premissas, conceitos
e teorias das doenças e da saúde provenientes de diversas
origens, algumas com ideias opostas. Ao categorizarmos
um comportamento desviante, misturamos ideologias va-
riadas acerca das doenças, fatores naturais e sobrenaturais,
considerações morais, socioecológicas, sociossituacionais,
como anomalias, excentricidades, criminalidade, santida-
de, pecado e feitiçaria. Todas se entrelaçam na mente do
indivíduo e não raras vezes nas teorias complexas do pró-
prio médico, formando um todo compacto.

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LOUCOS X SEM-TETO

Resta-nos esperar um pouco para assistirmos à trans-


formação de uma multidão de “loucos” em um exército de
sem-teto (sem-casa, ou, mais vulgarmente, pedidores de
esmolas). Muitos dos loucos “soltos” – ou seriam aban-
donados? – pelos seus “defensores”, depois de um certo
tempo irão morrer de inanição, outros serão queimados,
atropelados ou assassinados pelos seus próprios compa-
nheiros ou inimigos, nas ruas ou nos barracões inabitáveis
e também em “abrigos para velhos e loucos”. Os que es-
caparem desse morticínio morrerão de cirrose, hepatite,
tuberculose e pneumonia assentada na desnutrição, alco-
olismo e outras drogas.
Compreenda melhor a verdadeira história da “Liber-
tação dos Loucos”. Em 1900, o número dos pacientes men-
tais internados nos hospitais psiquiátricos americanos era
de 150.000. Este número cresceu para 445.000, em 1940.
Em 1955, dobrou para 819.000 (citado por John Q. La Font,
1994). ������������������������������������������������
Os gastos ocorridos com esta população preocupa-
ram o governo americano. Era preciso armar, rapidamente,
uma estratégia capaz de diminuir essas despesas e, ao
mesmo tempo, agradar à opinião pública.

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Nos anos sessenta o quebracabeça foi maquiavelica-
mente solucionado. A estratégia foi inteligentemente mon-
tada. Sempre todos criticaram a assistência médica dada
ao paciente mental nos hospitais psiquiátricos. Na época
da criação da brilhante ideia para economizar gastos pú-
blicos, grandes nomes da psiquiatria mundial como Laing,
Szasz, Gofman faziam, com toda razão, pesadas críticas ao
internamento desnecessário e à péssima assistência psi-
quiátrica hospitalar.
Mas como tirar os pacientes do hospital sem ferir a
opinião pública? A ideia para esse dilema foi magistral e
simples. Criou-se uma lei proibindo o internamento invo-
luntário. A partir daí, todas as internações tornaram-se
mais difíceis de serem concretizadas. Além disso, os pa-
cientes internados podiam escolher, a partir da promulga-
ção da lei, em continuar ou não hospitalizados.
O povo apoiou com entusiasmo a lei. O povo jamais
conhece a fundo as intenções reais e implícitas dos gover-
nantes, pois os discursos explicitados, em sua maioria ou
totalidade, têm sido usados para esconder o que não pode
ser mostrado. O movimento que tirou o louco do hospital e
o despejou na rua como lixo, recebeu o eufêmico nome de
“movimento em defesa da liberdade dos indivíduos estig-
matizados e desprotegidos socialmente”.
O resultado da reforma foi rápido e eficiente como
desejavam os governantes preocupados com as despe-
sas, jamais com a qualidade de vida do paciente psiqui-
átrico. O número de internados nos USA caiu para menos
de 200.000. Suas famílias, quando existiam, não tinham
capacidade nem competência para tê-los em casa. Os pa-
cientes, uma vez “libertados” e sem apoio familiar, foram
transferidos dos péssimos hospitais psiquiátricos para as
ruas selvagens das grandes cidades ou abrigos miseráveis
e sem assistência médico-psiquiátrica.

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Os dados mostram que nos USA houve um cresci-
mento assustador dos sem-tetos após a vigência dessa lei.
Estes aumentaram para 500.000 a 600.000 indivíduos.
Outras estatísticas falam de 3.000.000 deles. Desses,
segundo as estatísticas, 90% são doentes mentais graves:
esquizofrênicos, alcoólatras, deprimidos, dependentes de
drogas, epilépticos, demenciados (caduquice) e débeis
mentais.
Por outro lado, a população ficou à mercê de possí-
veis ataques de alguns desses ex-pacientes. Há tempos, o
New York Times publicou uma reportagem relatando cri-
mes no metrô de Nova Iorque. As vítimas, usuários do
metrô, foram atiradas debaixo dos trens. Dos dez assas-
sinatos relatados, nove foram praticados por esquizofrêni-
cos delirantes e que nunca tinham visto suas vítimas. Um
outro estudo feito na Suécia mostrou que 20% das mu-
lheres sem-teto morreram durante os três anos da pes-
quisa, sendo que algumas delas foram assassinadas pelos
próprios companheiros. Essa taxa de mortalidade é doze
vezes maior do que as ocorridas com uma amostra de mu-
lheres de mesma idade.
Em resumo: os “loucos”, nos Estados Unidos, se trans-
formaram em sem-teto. A ideologia capitalista, desde sua
origem, não tolera cidadãos que não produzam trabalho.
Os primeiros “hospitais” eram depósitos de “vagabundos”,
destinados a afastá-los dos “sãos” trabalhadores. O gover-
no capitalista esvaziou os hospitais, lançando os pacientes
na rua e sem dono, abandonando-os à sua própria sorte.
Surpreendentemente, vemos ativistas dos partidos
chamados de “progressistas” como os principais defen-
sores dessa covarde trapaça. Aproveita-se da insensatez
provisória ou perene dos doentes mentais, prometendo-
lhes a liberdade inexistente. Foram, de fato, jogados no
inferno das ruas, sem comida e sem lugar para dormir.

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De forma ilógica falam do direito do cidadão, inclusive do
direito à assistência médica, mas, com a alta hospitalar é-
lhes negado esse direito.
Todos sabem - os políticos interessados em economizar
fingem não saber - que este tipo de indivíduo não consegue
distinguir e escolher o que é o melhor para ele próprio, uma
conduta que faz parte de sua própria doença. O Estado,
apoiado por diversos políticos e pelo povo ingênuo, atuando
como o bandido ou marginal, passa o “conto do vigário” no
incauto e desprotegido paciente, lucrando com a ingenuida-
de de sua vítima e, estranhamente, recebe as honras e os
aplausos da galera por estar “libertando os loucos”.
A história ocorrida nos USA, que está sendo reformu-
lada, foi copiada em Minas. Lá nos Estados Unidos consta-
tou-se que a “caridade” para com o paciente, de fato, foi
sua desgraça. A lei foi modificada para a adoção de uma
“Jurisprudência Terapêutica”. Segundo esta, o alvo passa
a ser o melhor para a saúde do paciente, isto é, o interna-
mento ou tratamento pode e deve ser involuntário, desde
que beneficie o paciente.
Vamos matar muitos “loucos” para acordarmos e
aprendermos a lição. É possível, desde que pensemos, an-
tecipar acontecimentos ilógicos antes de sua ocorrência.
Posso, ao perceber que a escada está quebrada, trocá-la
antes de minha queda. De qualquer modo, com o dinhei-
ro economizado devido à “liberdade” dos “loucos inúteis”,
com a diminuição dos gastos com a saúde desses pacientes
sem voz e sem prestígio social, torna-se possível aumentar
os salários dos nobres vereadores, deputados, senadores e
outros protegidos. E os políticos continuarão a ser os gran-
des defensores dos desassistidos.
Talvez o governo e os políticos tenham razão: o me-
lhor – ou menos ruim - para os “loucos” abandonados é ter
uma morte rápida.

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Torna-se difícil fazer uma escolha entre viver num
péssimo hospital psiquiátrico ou morrer bêbado, drogado,
doente e agredido numa rua escura e sem saída.

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A testemunha do Ponto de Vista
Psiquiátrico

Nenhuma testemunha, por mais que jure dizer a ver-


dade, somente a verdade, o fará, pois sua “verdade” é
um conjunto de conceitos, preconceitos, julgamentos, in-
ferências, interpretações, percepções e fantasias mal ou
bem elaboradas. Sabe-se que ninguém tem condições de
fazer uma descrição imparcial e objetiva de um fato, mes-
mo de evento simples: um atropelamento por um veículo.
Cada uma das testemunhas é diferente quanto à idade,
sexo, inteligência, capacidade de percepção, raciocínio,
julgamento e maior ou menor tendência à fantasia. Conse-
quentemente, cada uma terá uma história, ou melhor, uma
versão do acidente.
Assim, se o atropelamento foi cometido por um mo-
torista de táxi e a testemunha não gostar deste profissio-
nal, ela poderá ter “enxergado” uma expressão de raiva no
rosto do motorista. Um bom observador poderá perceber
no rosto do motorista, por exemplo, a pupila dilatada, os
lábios contraídos, tremores nas mãos, a palidez, a respira-
ção e voz entrecortada, mas jamais observará “ódio”, pois
esse não é percebido e sim construído ou imaginado pelo

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observador, ou seja, o “ódio” será sua interpretação ou jul-
gamento de certos fatos que ele percebeu. Provavelmente
todos os depoimentos são carregados de julgamentos ou
interpretações.
Um testemunhará que o motorista estava “voando”,
uma outra, simpática aos taxistas, afirmará que o pedestre
não teve o “devido cuidado” ao atravessar a rua, e acres-
centará: ”é muito difícil dirigir no centro da cidade”.
Há outras hipóteses: uma, ao assistir ao acidente,
colocará a culpa no guarda de trânsito – caso não gos-
te deles. Outras ainda poderão culpar o governo, o calor
ou o frio, conforme a temperatura do dia. Portanto, todos
irão elaborar hipóteses pessoais para o que acabaram de
ver, escutar e, principalmente, sentir. Assim agem todas as
testemunhas: de casamento, de briga de marido e mulher,
de acidente de trânsito ou de assassinato.
A “descrição” é, de fato, um julgamento intuitivo, au-
tomático, interpretações concebidas por cada um de nós
após sentirmos emoções diante do fato presenciado. Nunca
é uma descrição dos fatos puros observados. Isso só acon-
tece, em algum grau, com os cientistas nos laboratórios de
pesquisas. A testemunha relata a composição que elabo-
rou ou fantasiou, aproveitando um ou outro fato, deixando
de lado diversos outros que não interessam ao descrito.
Em resumo, elas fazem julgamentos do que sentiram, não
do que viram, em harmonia com o que pensam de si e do
mundo. A nossa mente seleciona e retém eventos do mun-
do conforme nossos valores ou atitudes.
Numa pesquisa, meninos de uma escola americana fo-
ram separados em duas classes: uma com preconceitos con-
tra o negro, outra formada de alunos sem preconceitos. Para
os dois grupos foi lida uma história relatando fatos favoráveis
e desfavoráveis ao negro. Semanas após a leitura pediu-se
aos alunos que relatassem o que lembravam da história.

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O primeiro grupo - o que tinha preconceito – lembra-
va apenas de fatos desfavoráveis aos negros.
O segundo grupo, sem preconceitos, lembrou-se tan-
to de fatos favoráveis quanto desfavoráveis.
Voltando ao acidente de trânsito, o foco de atenção
das testemunhas, no momento anterior ao acidente, pos-
sivelmente era, como sempre, dirigido aos seus interesses
do momento: um olhava a vitrine, outro refletia sobre a
briga que teve com a esposa, um terceiro lia manchetes na
banca de jornais, uma cuidava de crianças, etc. De repen-
te, a paz foi quebrada por um estrondo ou visão inespera-
da. A atenção do pedestre/testemunha é mudada brusca-
mente devido ao estímulo visual ou auditivo.
Mesmo se a pessoa observou a colisão no momento
exato em que a vítima foi atirada ao chão, ela não poderá
dar um relato preciso do fato, pois ela não tem o treinamen-
to adequado para observar acidentes, crimes ou brigas. Um
policial habilidoso, ao presenciar um acidente, poderá ver,
possivelmente melhor do que um nervoso passante sem
treino. Mas mesmo este policial terá sua observação limi-
tada, posto que naquele instante verá um acontecimento
complexo, com diversos fatos antecedentes e consequen-
tes. Por exemplo, ao presenciar um acidente, o policial ou
a testemunha não sabem se a vítima sentiu um mal súbito,
se queria matar-se ou, até mesmo, a posição do carro nos
instantes que antecederam a colisão. O conjunto de fatores
que levou o carro a colidir não é conhecido.
Nossa mente tende a dar uma organização lógica e
compreensível a qualquer fato. Ora, como falta treino, no
caso de observação de acidente, e também conceitos orga-
nizadores mais científicos acerca do fato - menos populares
– para obter uma objetividade maior, sabemos que qualquer
indivíduo percebe, organiza e transforma os acontecimen-
tos conforme o modelo mental existente em sua mente.

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Desse modo, em lugar de descrever um fato observa-
do, a testemunha relata um fato transformado, encaixan-
do-o no seu sistema representacional já há muito organiza-
do pelas experiências e aprendizagens anteriores. Ele dará
pouco valor a fatos que não se enquadram às suas crenças
e ideais básicos, por outro lado acentuará os que refor-
çam as ideias básicas. Se ocorresse o contrário, as pessoas
iriam se modificar a todo momento e isso não ocorre.
Há uma experiência clássica, que realizei por diver-
sas vezes na Faculdade de Medicina da UFMG. Ela consiste
em apresentar a um aluno um quadro contendo uma cena
dentro de um ônibus com vários personagens. Um deles é
um homem de cor branca portando uma navalha levantada
em direção ao rosto de um homem negro. Pede-se ao alu-
no que está vendo a cena que faça uma descrição da mes-
ma para um segundo aluno, que vai escutar o relato sem
ter visto a imagem. Esse segundo aluno depois descreve o
que “ouviu” para um terceiro aluno, que entra na sala até
alcançar sete alunos. Com frequência, em certo momento
do relato, algum aluno transforma o ouvido: descreve a
navalha na mão do homem negro e não do branco como
estava sendo descrita. Assim, o escutado é transformado
pela cognição ou representação pré-existente, quem ataca
é o negro, não o branco.
Em resumo, o mundo que observamos é modificado
pelo nosso “assimilador” mental. Os fatos serão sempre
percebidos e organizados conforme os valores e ideais que
cada um tem no momento.
Se a testemunha não gosta de taxistas, nem de cabe-
ludo, e por azar o motorista encaixa-se nessas característi-
cas, possivelmente ele será incriminado pelo observador.
Um acidente, um crime ou um divórcio são proces-
sos dinâmicos, confusos e complexos. Uma testemunha, ao
observar ou ouvir, “congela” a imagem percebida domina-

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da pela emoção provocada: essa orientará o relato. Ora, o
pequeno segmento do acidente memorizado, ditado pelas
suas intuições e emoções, não dará nunca a ideia do todo.
É atribuída a José Maria de Alkmim a frase “o impor-
tante não é o fato, mas a versão”. Ele sabia o que dizia,
pois o fato, a partir do momento seguinte ao acontecimen-
to, passará a existir apenas na memória dos espectadores,
cada um com a sua versão. Após o acidente encerrou-se
o fato. A partir daí nascem as versões e essas passarão a
existir nos processos, nas histórias e na vida das teste-
munhas. Se a vítima morre, parte do fato real é enterrado
com ela.

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Duas vertentes

Duas revistas americanas, a “New York”, há vários


anos, dezembro de 89, e a “Newsweek”, março de 1990,
estamparam na capa fotos e desenhos de um novo anti-
depressivo, o cloridrato de fluoxetina, lançado no Brasil
também há bastante tempo, bem como nos Estados Uni-
dos. Ambas as revistas discutem, em suas reportagens, a
batalha que se trava entre os chamados psicoterapeutas e
os psiquiatras referente à prescrição de drogas para seus
pacientes. O que se nota, através das reportagens, é uma
modificação nos hábitos e na maneira de pensar dos psico-
terapeutas. Baseados na crença de que as prescrições para
os clientes teriam um efeito simbólico negativo sobre a
psicoterapia, eles não receitavam medicamentos para seus
pacientes. Agora passaram a recomendá-los.
A luta, que é antiga, se acirrou a partir do livro publi-
cado pelos professores americanos Paul Wender e Donald
Klein, em 1981, com o título “Mind, Mood and Medicine”.
Nele é descrito o caso de uma cliente que, após ser tratada
durante vários anos através de diferentes formas de psi-
coterapias, e não tendo conseguido os resultados espera-
dos, melhorou consideravelmente ao usar antidepressivos.

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A paciente apresentava a síndrome do pânico. Estava lan-
çada para o mundo uma ideia revolucionária da possibili-
dade de se tratarem certos distúrbios emocionais através
de medicações. Até então a única forma de tratamento
utilizada para esses casos era a psicoterapia.
A descoberta de novas medicações e a divulgação e o
uso de novas técnicas psicoterápicas destruíram o domínio
exercido, durante décadas, pela psicanálise.
Esta forma de tratamento, ou melhor, esta técnica psi-
coterápica tornou-se tão divulgada entre a população que
ela passou a ser sinônimo, para muitos, de psicoterapia.
Atualmente existem catalogadas mais de mil teorias psico-
terápicas diferentes. Algumas são, há muito, empregadas
no Brasil, como a Psicoterapia Centrada no Cliente, Terapia
Transacional, Terapia Comportamental, Terapia Jungiana,
Gestalt, Neurolinguística, Terapia Racional Emotiva, Tera-
pia Cognitiva Comportamental e outras.
A poeira ainda não baixou nos Estados Unidos, mas
começou a levantar-se aqui no Brasil. Durante muitos anos
a psicoterapia de base analítica dominou os departamen-
tos das escolas médicas, de psicologia, de sociologia e de
antropologia e também uma grande parte das revistas so-
bre o comportamento humano. A psicanálise sutilmente
penetrou e dominou a imprensa leiga, assim como as ar-
tes e a literatura, determinando a formação de uma opi-
nião pública altamente favorável a ela. Nos departamentos
das universidades, onde a psicanálise dominava, os que
ousaram duvidar de suas suposições, ou eram afastados
de suas funções, quando as tinham, ou nunca alcançavam
cargos de direção. A psicanálise tornou-se, para muitos
dos seus antigos seguidores, algo semelhante a uma reli-
gião. As suas premissas não podiam ser contestadas, mas
tão-somente discutidas, para serem compreendidas pelos
iniciados nas “verdades” reveladas e não observadas.

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Alguns curiosos discordavam publicamente da teoria
psicanalítica, entre eles Sir Peter Medawar, prêmio Nobel
de Medicina, que declarou: “Considerada em sua totalida-
de, a psicanálise não funciona, ela é um produto acabado,
é como um dinossauro ou um Zepelin; nenhuma teoria
melhor poderá ser erigida sobre suas ruínas, as quais per-
manecerão para sempre como uma das mais tristes e es-
tranhas marcas na história do pensamento do século XX”.
Existe atualmente o perigo de caminharmos para o
outro extremo, o risco desses entusiasmados neuroquími-
cos passarem a tratar todos os seus pacientes de modo se-
melhante ao do internista que trata uma úlcera, ou de um
fanático psicoterapeuta ao imaginar que a teoria por ele
seguida é a única certa e verdadeira e, desse modo, cair na
mesma crença sustentada pelos psicanalistas de ontem.
Os psicólogos americanos que, aqui como lá, não po-
dem receitar, lutam para conseguir esse privilégio restrito
a médicos e dentistas. Parece que a luta entre os gru-
pos vai durar muito tempo. Quem perde com a disputa é
a própria psiquiatria, pelo radicalismo, sempre perigoso,
principalmente na área científica, e também os clientes,
que ao se filiarem a um grupo ou a outro, perdem muitas
vezes a oportunidade de se beneficiar com os tratamentos
do grupo adversário. De qualquer modo, pouco a pouco os
psiquiatras aceitam o inevitável, isto é, surgimento de di-
ferentes técnicas psicoterápicas adequadas para diferentes
tipos de pacientes e de terapeutas, e o uso de medicamen-
tos para curar algumas vezes ou, pelo menos, junto com
as psicoterapias, ajudar a curar diversas doenças mentais
e emocionais.

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Placebo, a Pílula Dourada

Certos médicos gostam muito de receitar drogas no-


vas, a última novidade ou descoberta do laboratório. Eles
tem plena razão, pois no meio médico circula uma afirma-
ção: “deve-se tratar o maior número de pacientes com as
novas drogas, enquanto elas ainda têm o poder de curar”.
Sabe-se que, após algum tempo de uso, várias dessas
drogas espetaculares foram desmitificadas e tornaram-se
somente placebos, ou seja, substâncias sem a ação farma-
cológica.
Para verificar se uma droga tem ou não propriedades
farmacológicas, os pesquisadores testam-na, comparando-
a com um falso tratamento, isto é, com um placebo. Este
é preparado preenchendo todas as características externas
da droga a ser testada. Também o grupo de pacientes que
recebem a droga e os que recebem apenas o placebo deve
ser semelhante tanto em idade, como quanto à ”doença”,
à cultura, etc. Os pacientes, as enfermeiras e os médicos
que aplicam as duas “drogas” não sabem qual é a inerte
e qual é a droga a ser testada. Apenas o coordenador da
pesquisa conhece esses dados.

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Tem sido verificado que os placebos tendem a ser
mais eficazes, se custam mais caro, se muitos amigos e
conhecidos já o usaram com “sucesso”, se são amargos
ou se, em algum sentido, apresentam dificuldade de se-
rem usados. As injeções inertes têm mais efeito do que os
comprimidos sem ação.
Pois bem, normalmente os sintomas da maioria das
doenças são favoravelmente afetados também pelos pla-
cebos, isto é, pelo não-remédio.
Eles são altamente eficientes para melhorar as an-
siedades, depressões, dores, enjoos, insônias, psicoses,
neuroses, alergias diversas, artrites, distúrbios gastroin-
testinais, doenças da menopausa, verrugas, impotência,
acne, obesidade e muitos outros problemas médicos. Não
fique muito entusiasmado com essa “panaceia”. Ela é mui-
to eficiente para curar os sintomas e não a reversão ou
suspensão de condições degenerativas.
Os remédios receitados pelos curandeiros e pelos
médicos até o século XIX eram certamente placebos, já
que mesmo aqueles medicamentos, com propriedades far-
macológicas hoje bem conhecidas e comprovadas, eram
utilizados em doses inadequadas ou para vários males em
que a sua ação terapêutica era nula. Os antigos médi-
cos e curandeiros indicaram e realizaram, entre outros, os
seguintes tratamentos: panos quentes aplicados à pele,
varas magnéticas, elixir de longa vida e, para curar impo-
tência, bebidas contendo o sangue dos fortes, perfurações
da pele com agulhas especiais, inalações de vapores ou
de fumaças, etc. As poções, os unguentos e as cápsulas
preparadas pelos curadores podiam conter quase tudo:
fezes ou urinas humanas ou de outros animais, metais
diversos como o cobre (usado também para ser colocado
em contato com a pele), pós de besouro e de serpentes,
gorduras de eunucos e de porcos não castrados, testí-

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culos e diversas ervas. Todos esses tratamentos tiveram
algum sucesso, em certos épocas, realizados por algum
terapeuta.
Os doentes mentais se submetiam a alguns trata-
mentos mais bárbaros: odores desagradáveis, sons altís-
simos, exposição a situações de perigo (cova das serpen-
tes), aplicação de vesicatórios na cabeça, camisa de força,
duchas frias, segregação social, coma insulínico, eletro-
choque e, mais recentemente, a lobotomia.
Os clientes e seus familiares eram explorados pelos
diversos “sábios” da época, que cobravam às vezes fortu-
nas pelos tratamentos efetuados. Esses eram feitos, mui-
tas vezes, com remédios não revelados, fabricados secre-
tamente pelo curador, exigindo um grande tempo de uso,
bem como muitos recursos e esforços do paciente, além
de serem perigosos, desagradáveis e até mesmo sinistros.
Ora, como a maioria dos tratamentos que ocorreram na
medicina pré-científica - ainda muito usados - não apre-
sentava o menor efeito orgânico direto sobre a condição
a ser tratada, conclui-se que grande parte das curas foi
alcançada com o uso de placebos.
O placebo continua com sua ação poderosa na me-
dicina moderna. Podemos afirmar que toda ação terapêu-
tica medicamentosa, psicoterápica ou mesmo cirúrgica,
envolve, em maior ou menor grau, efeitos de placebo que
dependerá do carisma do médico, da fé do cliente e como
o ritual mítico foi encenado. O médico, querendo ou não,
sabendo ou não, fará uso de efeitos placebos em seus
tratamentos.
Entre as diversas pressões sofridas pelos médicos no
seu dia-a-dia, principalmente se trabalha em instituições
onde o número de clientes é enorme e o tempo curto, é a
exercida pela indústria farmacêutica quanto à promoção
de seus produtos.

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As estratégias são várias, indo desde a propaganda
cara a cara, passando por promoção de encontros, revistas
especializadas muito bem impressas, até o financiamento
de congressos, ajuda material e financeira para pesquisa
dos medicamentos da firma e distribuição de amostras.
Essa indústria, de parceria com o ensino médico,
criou o conceito de que tratar de alguém é dar-lhe algum
medicamento. Essa ideia contamina a população, que hoje
pensa do mesmo modo. Criou-se com isso, ao lado do mé-
dico, do paciente e da indústria farmacêutica, uma redução
no campo de visão da doença, com percepção apenas dos
seus aspectos biológicos, e pouca ou nenhuma preocupa-
ção com os ângulos psicológicos, sociais e culturais.
A indústria farmacêutica, seguindo os outros merca-
dos de produção e consumo, lança periodicamente novi-
dades em medicamentos, com a ideia, para o consumidor
e alguns médicos, de um suposto progresso ou avanço de
medicina. Os novos medicamentos são avidamente recei-
tados e consumidos pelas mentes confusas, assim como
se usa a nova cueca, o novo sabão em pó ou o novo perfu-
me. O bom médico, na avaliação de alguns, deve estar em
dia com as novas e maravilhosas drogas que acabaram de
sair do forno. Como toda moda, as propriedades extraor-
dinárias da nova droga quase sempre desaparecem com o
tempo. O cliente, esquecendo que foi ludibriado ao ser tra-
tado possivelmente por um placebo, curado pela fé retorna
ao seu médico, caçador da mais moderna descoberta, e
consome feliz, novamente, o último lançamento, a última
panaceia, o placebo dourado, num ritual hipocondríaco.

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AIDS:
VOCÊ TEM MEDO DA DOENÇA
OU DO DOENTE?

Há dias, durante cerca de três horas, fiz uma viagem


de ônibus para o interior de Minas. O ônibus, cheio de
passageiros assentados, carregava também alguns em pé.
De tempos em tempos, o veículo parava na estrada para
pegar ou descer viajantes. Nessas ocasiões, por vezes va-
gava um novo assento no ônibus. Era comum ver o passa-
geiro em pé continuar nessa posição alguns minutos, antes
de decidir se assentar no lugar disponível.
É curioso observar que a maioria das pessoas prefere
não se assentar numa cadeira ainda “quente”. Segundo a
crença, essa pode transmitir doenças. Pesquisas mostra-
ram mais do que isso: a maioria das pessoas tem aversão
a usar camisas, blusas, meias, sapatos, escova de den-
tes, pentes, sabonetes que pertenceram a um estranho e,
principalmente, utilizar-se de uma privada estranha ao seu
bem conhecido e amado bumbum.
Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos, com a
participação de 260 estudantes americanos, mostrou uma

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aversão estranha e não esperada. As perguntas e as res-
postas foram muito semelhantes às abaixo:
— Você seria capaz de usar um blusão que pertenceu
a um aidético?
— Acho que não.
— E se esse aidético for um homossexual?
— Pior ainda, de modo nenhum!
— E se o blusão tivesse sido usado por um homem
que perdeu uma perna num acidente de carro?
— É... acho que não o usaria.
— Vestiria um blusão que pertenceu a um assassino?
— Não... nem pensar.
Outras perguntas foram feitas como “Como você se
sentiria usando um blusão novo?” Em seguida, perguntou-
se acerca do uso do blusão usado por um homem sadio,
por um tuberculoso e um aidético-hemofílico. As mesmas
perguntas foram feitas ao grupo de estudantes america-
nos com respeito a dormir na cama e dirigir um carro usa-
do por esse grupo de indivíduos.
Os resultados encontrados são interessantes: houve
um elevado índice de medo de “contágio”, mesmo quando
o blusão, cama e carro haviam pertencido a um homem
saudável, em 33% dos entrevistados. Uma surpresa: na
pesquisa, 50% dos entrevistados não usariam um objeto
pertencente a um indivíduo que perdera uma perna num
acidente. Seria medo do azar?
Outros estudos relatam que tem sido difícil vender
ou alugar casa onde anteriormente morou um aidético.
Também tem sido verificado que os pais relutavam em
matricular o filho numa escola frequentada por um aluno
com AIDS. Uma pesquisa mostrou que 32% dos entre-
vistados acreditam que a AIDS pode ser transmitida pelo
banho de banheira e 35% que pode ser adquirida ao doar
sangue.

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A aversão pessoal é um sintoma de inúmeros trans-
tornos mentais, na qual se inclui a personalidade “evitan-
te” (pessoa facilmente ferida pelas críticas, que foge de
atividades sociais, evita falar ou comer em público, etc.).
A aversão ao contágio é uma resposta comum em pessoas
consideradas “normais” e poucos são os defensores dos
direitos dos aidéticos que seriam capazes de vestir uma
roupa que foi usada por esse grupo e, muito menos, por
um aidético homossexual. Por quê?
Sabe-se que o medo do contato com pessoas, doentes
ou não, implica mais do que o simples medo de contrair uma
doença. Uma explicação frequente das causas das doenças
é a cultural-religiosa. Para essa interpretação, apanha-se
uma doença em virtude de transgressões morais ou peca-
dos. Por trás dessa crença há uma suposição da existência
de um “mundo justo”, sugerindo um castigo e desvaloriza-
ção moral da vítima dos azares físicos ou moléstias. Para
esses, o atingido pelo infortúnio deve “merecer” o ocorrido
como punição por algo errado que ele deve ter feito.
O descrito acima intuitivamente nos soa esquisito.
Mas, sem estranharmos, observamos uma conduta oposta:
a todo o momento assistimos fãs de artistas, esportistas,
políticos, religiosos e outros famosos sonhando em possuir
e vestir a camisa e cueca que pertenceu a Ronaldinho e
outros, de tomar um banho com o sabonete usado pelo
cãozinho de Xuxa, ou usar sua calcinha e sutiã, de dormir
na cama que pertenceu, ou, se possível, com o “próprio”
deus idolatrado, de viajar no carro de alguém famoso, em
resumo: tudo que poderá produzir associações suposta-
mente “positivas”.
Acredito que é a emoção intuitiva, positiva ou negati-
va que sentimos para um ou outro indivíduo, que promove
os pensamentos favoráveis e desfavoráveis que surgem
para justificar o sentido pelo nosso organismo.

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De outro modo, não são os pensamentos “lógicos”
que dão origem aos julgamentos feitos – vestir ou não
o blusão - mas sim as emoções presas em julgamentos
cristalizados que são detonadas automática e inconscien-
temente contra ou a favor de determinadas categorias de
pessoas diante da presença do fato exibido.
Vocês sabem que existe uma ilusão de autoengrande-
cimento pessoal devido a ligações não significativas, sub-
jetivas tolas, como ficar feliz por morar no mesmo prédio
ou bairro onde reside uma pessoa famosa, usar a mesma
marca de auto, o mesmo corte de cabelo, chinelos, óculos
etc., semelhantes ao do nosso ídolo. Alguns ficam felizes
até em virtude de associações tênues, como ter nascido no
mesmo dia e mês em que nasceu seu deusinho passagei-
ro. Esse é o ser humano, chamado, por alguns, de animal
superior e racional.

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AIDS: O Pânico está Solto

O medo da AIDS tem-se tornado, talvez, uma doença


mais grave que a própria AIDS. Um novo tipo de pacientes
começa a ser identificado nas salas de espera dos clínicos e
dos psiquiatras: aquele que busca desesperadamente uma
ajuda, acreditando estar contaminado pela AIDS. Nesse
padrão se enquadra o que limita sua atividade sexual com
medo de apanhar a doença e o que não limita. Ambos, em
pânico, procuram os médicos e se dispõem a submeterem-
se a exames.
Um paciente de 45 anos imaginava suicidar-se de-
pois de ter mantido relações sexuais com uma amiga. Esse
paciente, casado, perfeitamente ajustado até então, co-
meçou a fazer exames médicos e, como nenhum era real-
mente conclusivo, foi fazendo outros, até se ver numa ci-
randa sem fim. Ele não pertencia a nenhum grupo de risco,
nem sua amiga, uma recatada e pura funcionária pública.
A cada exame, que respondia negativamente aos seus te-
mores, ele exigia outros mais sofisticados. Enquanto isso,
incomodava-o uma persistente diarreia - o início de seu
medo. Era uma diarreia de origem emocional, como mais
tarde ficou demonstrado.

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No Brasil, entre outros, foi registrado um caso doloro-
so: um homem suspeitando - apenas suspeitando - de que
estivesse com AIDS, matou a mulher, os filhos e suicidou-
se. A autopsia mostrou que não passava de um medo in-
fundado. Ele não tinha a doença.
O medo de uma doença e outros estados emocionais
atingem, primariamente, o espírito e, secundariamente, o
corpo e as relações sociais.
A literatura médica é repleta de casos de pessoas que
morreram por medo do câncer ou da solidão. Entre os ca-
sais unidos há anos, não é raro um cônjuge morrer pouco
depois da morte do primeiro.
O leigo “explica” fácil e rapidamente a realidade, lon-
ge dos fatos: “A diarreia foi devida a uma laranja chupa-
da”, “A loucura dele é castigo divino”. A tuberculose, que
em épocas passadas não era bem conhecida quanto à cau-
sa, teve o seu período mítico áureo. As mais diversas “teo-
rias” foram elaboradas, sendo cada uma fruto dos desejos,
crenças, experiências e dramas de seus criadores. À me-
dida que se conheceu melhor essa doença, os novos fatos
impiedosamente jogaram por terra, destruindo as belas
fantasias de seus autores.
A AIDS ainda está no apogeu, ainda recebe hipóteses
variadas, a maioria repleta de fantasias. Sendo pouco co-
nhecida, ela dá margem à criatividade de cada um de seus
explicadores. O discurso de cada um tem pretendido co-
nhecer a realidade, organizá-la, impor normas de conduta,
segregar pessoas, proteger, etc. As lacunas do desconheci-
do, muito frequentes, são preenchidas “com os delírios” e
propósitos de cada um ou de cada grupo, conforme a con-
cepção de mundo do indivíduo que vai explicá-lo. É possível
ouvir, ditas com seriedade, frases do tipo: “AIDS é obra da
engenharia genética”, “É um castigo para a liberdade sexual
exagerada” e “Os portadores de AIDS devem ser esteriliza-
dos e, ao mesmo tempo, eliminar a sua potência sexual”.

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O fruto de todas essas fantasias, mitos e histórias
mal contadas é o pânico diante do pouco conhecido, assim
como foi a tuberculose, a lepra e a peste negra.
Possivelmente, à medida que os fatos se forem tor-
nando conhecidos, ficará o medo sensato e objetivo da
doença, não mais o horror que está tomando conta dos
amantes, até de alguns médicos e profissionais ligados à
área de saúde.

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COMO CONTROLAR OS ACONTECIMENTOS

Enquanto alguns obstinados tentam, a todo custo,


controlar o meio rebelde, outros, mais conformados e plá-
cidos, deixam as “águas rolarem” e uns poucos procuram,
propositadamente, confusões e nelas se instalam, satisfei-
tos e confortáveis.
Muitos desejam, alguns imploram ao bondoso Deus:
“Que bom seria se pudesse mudar a cabeça do patrão,
para que ele não me demita”, ou “fazer com que minha
namorada não me abandone”, “iluminar a cabeça do nosso
Presidente, para que ele nos deixe dormir em paz.”
A maioria imagina que o controle vem apenas de
fora. Esses supõem que os amigos e parentes, ou mesmo
os políticos, deviam ajudá-los a conseguir o que eles não
alcançaram e, muitas vezes, nem tentaram.
Na velhice descobre-se - é preciso viver muito – a
duras custas, que certos meios são difíceis, outros impos-
síveis de serem controlados. Aprende-se que nada se pode
fazer diante de alguns problemas, como a violência dos
outros, não a nossa, a corrupção, a chatura do discurso
político, o trânsito caótico, o acidente, a miséria do povo e
a ignorância.

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Sabe-se que algumas mudanças podem ser realiza-
das e várias delas dependem de nossa ação. Entretanto,
nem sempre temos energia e vontade para lutarmos por
essas alterações, assim, posso pretender ser médico, mas
não quero gastar meu tempo estudando.
Em alguns casos pode existir o desejo e a energia,
mas pode faltar a competência necessária: gostaria de ser
corredor, mas tenho o pé torto. Por fim, posso ser compe-
tente, ter vontade e energia, mas tenho uma autoestima
baixa, ou seja, não acredito na minha capacidade. Tudo
isso dificulta “chegar lá”.
Ao nascermos, tomamos as primeiras medidas, por
sinal grosseiras, para controlar o meio ingrato. O recém-
nascido, se está com fome, chora, e alguém pode milagro-
samente aparecer para lhe dar o leite. Se está com frio,
chora e novamente o protetor o aquece. Com o choro, o
desconforto é controlado e o bem-estar retorna. Muitos
adultos continuam usando essa técnica.
Mais tarde aparecem estratégias mais sofisticadas
para controlar o meio e a si próprio. Se estamos querendo
um doce e o pedimos à nossa mãe, ela pode impor certas
condições. A criança deseja brincar com o vizinho, a mãe
não concorda, pois está na hora do almoço. Neste nes-
se caso a criança pode chorar, pedir mais, gritar, tentar
manipulá-la ou negociar a ida, em último caso poderá até
mesmo fugir de casa e ir morar com o vizinho.
Na adolescência e na vida adulta, não só o meio en-
frentado, mas também as técnicas para conseguir o dese-
jado, tornam-se mais complexas e difíceis. O jovem quer
ter um bom emprego, por conseguinte, casa e comida. Mas
para isso terá que frequentar, por anos, a escola, estudar
muito e deixar de lado diversões atraentes.
Na velhice, inferiorizado e estigmatizado, não mais
acreditando no choro, sem forças, o idoso só pode implorar

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para receber ajuda do meio, já que sua capacidade para
modificá-lo é mínima e, para piorar, muitos estão doentes.
Portanto, durante nossa jornada aqui na Terra os
desencontros são muitos, as frustrações amargas. Mas é
preciso seguir em frente até o ato final. E assim vamos,
ora desequilibrados, ora supostamente firmes. Aos pou-
cos, cada um, cambaleando, vai construindo seu caminho
particular, imaginando medidas eficazes para restabelecer
o “elo perdido”, a segurança sonhada. Mas basta surgir
uma peninha de equilíbrio, um tempinho de calmaria e
paz, para novamente esse animal surpreendente inven-
tar novos caminhos, diferentes planos, ações e buscas e,
consequentemente, novas desarmonias com o ambiente e
consigo próprio.
Assim é o homem: age, ao mesmo tempo evitando
as dissonâncias internas e externas e, ao mesmo tempo,
provocando-as. Este é seu destino, precisa das desordens,
do caos. Ele planeja constantemente situações de risco, o
que o amedronta: este é o alimento de sua mente. Muitos
imaginam alcançar a felicidade caso consigam a paz cons-
tante. Ledo engano. Precisamos, para crescermos, relacio-
narmo-nos com os obstáculos, com as dificuldades, pois
são as incongruências os nossos nutrientes mentais. São
eles que nos fazem crescer. Sem eles seríamos idiotas.

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O PREÇO DE UMA ESCOLHA:
ADEUS ÀS ILUSÕES

Todos nós sonhamos com a possibilidade, por sinal


impossível, de transformar alguns fatos já vividos em ou-
tros. De outro modo, imaginamos desviver o vivido. Essa
mágica não se realiza. Cada um lembra, amargamente,
que podia ter estudado mais para aquele exame, não de-
via ter tratado tão mal aquela namorada encantadora,
há muito devia ter mandado para o inferno o “amigo da
onça” explorador, ter tido mais cuidado ao dirigir, evitan-
do o acidente provocador das dores do joelho. Pensamos:
“Se tivesse agido de outro modo, estaria, possivelmente,
vivendo mais feliz do que estou”. Talvez sim, talvez não.
Quantos e quantos aborrecimentos podiam ter sido evi-
tados. Em resumo: muitas decisões tomadas ontem com
muita fé, hoje, em hipótese alguma seriam realizadas.
O povo fala: “ninguém é perfeito”, portanto, todos
nós, sem exceção, demos nossos tropeços durante nossa
passagem pela vida terrena. Segundo as estatísticas nesse
assunto, quase todas ou todas as pessoas sentem-se ter-
rivelmente arrependidas de terem abandonado os estudos
muito cedo, queixam-se de que ninguém nada fez para

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dissuadi-los disso. Outros lamentam um casamento preco-
ce, que estragou todos os outros planos.
Há, ainda, os que se arrependeram de ter mantido
uma amizade por muitos anos, quando o melhor teria sido
mandar “para o inferno” o “amigo/inimigo” de longa data,
e outros ainda, por fim, amaldiçoam a hora fatídica do trá-
gico encontro que resultou numa gravidez e no nascimento
de um filho nascido num momento terrível, jogando por
terra as belas fantasias da juventude.
A psicologia costuma chamar esse arrependimento de
“pensamento contrafactual”, isto é, nosso desejo de mudar
os fatos que lamentavelmente aconteceram no passado e
não podem ser modificados.
Como o mundo caminha independentemente do que
desejamos, um pequeno, simples e tolo fato não-pensado,
não-desejado e nem necessário pode ocorrer. Tragicamen-
te, esse fato que não precisava existir pode mudar para
sempre nossas vidas. Um “escorregão numa casca de ba-
nana” pode dar origem a um novo e árduo caminho, sem
que nada mais possa ser feito, destruindo para sempre a
trajetória delineada, carregada de emoções positivas que
habitavam o organismo num tempo longínquo que passou.
Quanta saudade!
Pensando nos meus escorregões, nas minhas “burra-
das” malucas pela vida afora, lembrei-me do encontro oca-
sional que tive com o Sócrates. Esse meu amigo de infância
tinha uma vida traçada para ser boa. Era disposto, alegre,
bonito e rico. Mas “estou lamentando antes da hora”. Sócra-
tes conheceu a filha do aposentado da esquina, em virtu-
de de pequenas coincidências, a princípio sem importância.
Pouco a pouco, esse conhecimento, que não precisava ter
ocorrido o levou a um caminho, é...bem! Vou lhes contar:
Eu caminhava a mando do cardiologista - fazia mi-
nhas caminhadas para melhorar a pressão e observar a

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multidão - quando encontrei Sócrates. Achei-o envelheci-
do. Sempre achamos o outro mais acabado do que nós.
Penso que essa avaliação ocorre porque vemos todos
os dias nosso rosto e corpo no espelho e não vemos o do
nosso amigo sumido.
Fomos colegas no colégio do bairro e do futebol da
várzea. Nem eu, nem ele, fomos craques, nem de futebol,
nem dos estudos. Estudávamos para passar de ano e jogá-
vamos para nos divertir. Entretanto, não éramos os piores
da sala nem do time. Um dia, um dia como qualquer outro,
sem nada de especial, nem chovia, nem ventava, o azul do
céu de abril começava a escurecer, o Sol se punha, tran-
quilo. Sócrates ainda era jovem, muito jovem, como era o
narrador dessa tragicomédia.
Estava esquecendo: ele era um dos poucos do grupo
que a família tinha algum dinheiro. Falava-se, entre nós,
que seu pai era grande fazendeiro no norte de Minas. Nas
nossas conversas não se comentava a vida e os segredos
familiares de e para ninguém. Essa regra - não havia proi-
bições explícitas – era acatada e respeitada por todos, não
podia ser burlada.
Voltando ao Sócrates: ele, quando ainda era um gina-
siano - para quem não sabe, “ginasiano” era quem cursava
os quatro últimos anos do atual primeiro grau - foi fisgado
pela filha do aposentado. Lucélia, uma bela morena, ou
mulata, isso não importa, era de “fechar o comércio”. Até
aquela data, ela era inacessível aos jovens imberbes e de-
sajeitados, mas nem por isso deixava de ser desejada por
todos os jovens que transitavam em torno de sua casa.
Dentro do nosso maniqueísta e acanhado campo per-
ceptual de julgamento da conduta feminina, existiam, ra-
dicalmente opostos, dois tipos de mulheres: de um lado,
as santas ou virgens-santas que serviam para se casar, de
outro, as desinibidas e livres demais que podiam ter algu-
mas outras serventias.

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Até então, não havia meio-termo. Mas apareceu Lu-
célia. Nenhum de nós pensava em aproximar-se dela para
namorá-la, não porque a rejeitássemos, mas sim devido à
nossa incapacidade física e financeira, ou pior do que isso,
em virtude de nossa inabilidade, da falta de coragem, pois
não conhecíamos as estratégias e as táticas necessárias
para mantermos uma conversa e um relacionamento ade-
quado com uma mulher daquele “pedigree”, capaz de fa-
zer todos os homens virarem seus rostos em sua direção,
quando passava pela rua. A presença de Lucélia derrubou
nossa regra simples para julgar as mulheres em dois gru-
pos opostos. Ela era um dos únicos e raros artigos que
conhecíamos fora-de-série, pois não era, segundo nossa
classificação, nem para casar, nem para um programa com
pessoas como as do nosso grupo. Amedrontados, muito
antes de darmos o primeiro passo em sua direção, já ante-
víamos o fracasso caso ousássemos conquistá-la. O nosso
treino era pouquíssimo, a nossa única e, por sinal, péssi-
ma experiência, era muito pequena: “mulheres de rua”,
mulheres de “terceira classe”, segundo nossa classificação
sócio-religiosa da época, isto é, prostitutas, semiprostitu-
tas ou candidatas a tal.
Enxergávamos Lucélia através desses óculos embaça-
dos e de lentes não-flexíveis, de maneira confusa: éramos
superatraídos por ela e também tínhamos pavor de nos apro-
ximarmos. Assim, ao mesmo tempo, sonhávamos em estar
juntos e afastados dela. Tentar ou não tentar. Mas pior que
tudo: Lucélia era inacessível para nossas posses. Tínhamos
o delírio em nossas mentes, mas a realidade era outra.
Num fim de tarde, ficamos surpresos ou espantados,
não sei bem, quando vimos Sócrates de mãos dadas com
Lucélia, passando na nossa frente sorridente e orgulhoso
da conquista. Não dava para entender. O seu comporta-
mento gerou em todos nós uma imensa inveja misturada

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com raiva. Pensei inicialmente que devia ser um encontro
casual, sem consequências, milagrosamente dentro do pa-
drão existente no grupo. Mas fiquei intrigado, imaginando
como foi que ele conseguira ganhar a tão distante Lucélia,
uma conquista que ninguém do grupo tinha conseguido,
nem imaginado.
Mas as pequenas diferenças foram, pouco a pouco,
provocando as grandes diferenças na vida do Sócrates.
Muito lentamente ele ia se transformando, à medida que
sua paixão por Lucélia aumentava. Primeiramente Sócrates
abandonou os encontros com os companheiros, mais tarde
largou o futebol, depois, os estudos. A cada dia mais, sua
vida girava exclusivamente em torno dela. Lucélia também
ficou diferente do que era. Deixou de ser a jovem livre e
alegre de outros tempos, a que saía com os “bacanas” de
terno e gravata, os que a buscavam em seus carros, de
fato carros simples. Tornou-se uma donzela séria, reca-
tada. Ao abandonar os “grã-finos”, somente saía com Só-
crates. Nós, de boca aberta, olhávamos e suspirávamos,
seduzidos e raivosos, ao ver o casal passar.
Após um curto período de dedicação exclusiva e de
muita paixão, Sócrates deu mais um ligeiro escorregão,
provavelmente não-desejado e não-programado. Um pe-
queno fato, sem os cuidados necessários, transformou, de
vez, a vida do Sócrates e produziu uma diferença ainda
maior. O fosso entre o antigo e o atual aumentou.
O inevitável ocorreu: Lucélia foi deflorada, nome dado
na época a certas minúcias do sexo. Em outras palavras,
Sócrates “fez mal” a Lucélia. Naquele tempo, diferente dos
tempos modernos, o costume obrigava o suposto autor a ca-
sar-se com sua “vítima”. À “boca pequena” falava-se que ele
havia caído no conto da gravidez indesejada, ou melhor, os
componentes do grupo tinham dúvida quanto ao autor real
da gravidez. Talvez tivéssemos inventado isso de inveja.

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A partir de mais esse pequeno fato, a boa vida de
Sócrates foi decepada para sempre. Ele, que nunca havia
trabalhado, passou a fazê-lo. Ele, que sempre tinha algum
dinheirinho sobrando no bolso para comprar um doce ou
ir ao cinema, teve que economizar. Os fatos negativos,
como bolas de neve, se acumularam. Sem alternativas,
diante de sérias dificuldades financeiras, Sócrates mudou-
se da pensão razoável onde morava, para o fundo do bar-
raco existente na casa do sogro. Era lá onde funcionava
um pequeno depósito de lenha. Era apenas um quartinho
apertado para dormir. O banheiro situava-se fora do quar-
to e não havia cozinha, nem sala.
Sócrates passava parte do dia cuidando da esposa,
que estava grávida, pois logo no início da gravidez Lucélia
foi despedida do emprego de vendedora das Lojas Ca-
nadenses. Dia sim, dia não, enquanto sua sogra cuidava
dela, Sócrates vendia para vizinhos e pessoas amigas do-
ces fabricados por ele durante o dia e, à noite, trabalhava
de porteiro da Associação Comercial.
Tentou voltar aos estudos, mas faltou dinheiro para
as mensalidades e também tempo para frequentar a esco-
la e, por isso, abandonou o colégio para sempre.
Foi deixando de lado, progressivamente, outras me-
tas anteriormente planejadas como fazendo parte de seu
futuro, frutos de sonhos de criança e dos incentivos do
pai: ser advogado na área criminal, ser famoso, rico, par-
ticipar de júris com criminosos conhecidos, aparecer nas
notícias dos jornais, ter diversas mulheres apaixonadas
por ele.
O mundo imaginado e esperado foi sendo tomado por
um mundo frio, monótono e sem sabor.
Sócrates foi sendo esmagado pelas pressões dos fa-
tos vindos de todos os lados: despesas com o leite, rou-
pas, médicos e remédios. Outros filhos foram nascendo,

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crescendo, dando mais e mais trabalho. Ora era um que
tinha dor de barriga, ora outro tinha tosse, um terceiro
dor de ouvidos. Uma boa parte do tempo eles choravam,
de dia ou de noite, de fome ou de desconforto, algumas
poucas vezes sorriam, pedindo colo ou companhia.
Nessa guerra inglória de partos continuados, abor-
tos espontâneos, gritarias infernais dos diabinhos, Lucélia
foi se desfigurando. Inferiorizada, começava a não mais
chamar a atenção dos homens nas poucas vezes que saía
de casa. Sócrates, cabisbaixo, examinava-a. Recordando,
comparava a Lucélia atual, gorda e encurvada, a que esta-
va viva à sua frente dando sopinha ao filho, com a jovem
bela e alegre do retrato, colocado em cima da prateleira
do guardalouça, a do dia do casamento. Deprimida, des-
confiada, irritada, gastava o que não podia com os filhos
agitados e magros, com o alcoolismo do pai e a hiperten-
são da mãe.
Sócrates transformou-se num escravo das exigências
do cotidiano, dedicado integralmente às soluções para os
entraves constantes da vida familiar.
Não mais lhe sobrava tempo, nem mesmo capacida-
de, para pensar acerca de si mesmo, do que fazer em seu
próprio benefício. O mundo imaginado durante sua juven-
tude ficava cada vez mais distante, com menor importância
para ele. Uma vez ou outra, ocasionalmente, estimulado
por uma notícia no jornal ou o encontro com um ex-com-
panheiro, ele lembrava-se de algumas cenas do passado,
longínquas, antigas e envelhecidas como sua cabeça atual.
Lá, muito longe, o jovem alegre parecia tão feliz. Agora
transformou-se noutro, um trabalhador em tempo integral
para manter-se naquela miserável prisão iniciada na noite
fatídica. Os sonhos viraram fumaça, dispersaram-se: Só-
crates foi levado para um outro mundo. O caminho, antes
claro e perto, distanciou-se, estreitou-se, ficou embaçado.

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Naquela tarde sombria, abandonei minha caminhada
para escutar o desabafo de Sócrates. Morando sozinho, eu
tinha enorme dificuldade para entender uma pessoa pre-
sa a uma família. Ao ouvi-lo com paciência, simpatia e
até piedade, relatar, com uma voz embargada, seu drama
melancólico, eu me lembrava dos tempos que não voltam
mais, dos meus tropeços parecidos com o dele, dessa vida
da qual sempre tive medo. Escutava suas amarguras, sua
nova história de vida, uma vida para mim inútil e sem
rumo. Imaginei que talvez, bem escondida - ele não me
confessou isso - sua vontade era de nunca ter feito tudo
aquilo.
Entretanto, como bom observador, pude notar, ao me
despedir, uma certa satisfação e alegria no seu semblante.
Imaginei que, apesar de tudo, das dificuldades com que vi-
via, ele estava desejando chegar em casa, pois lá ele tinha
proteção e segurança.
Daqui a pouco ele teria ao seu lado seus filhos e sua
mulher para recebê-lo e com eles passaria a noite.
Nós nos despedimos friamente. Eu estava sem graça.
Voltei para casa pensativo. Sabia que estava livre de tudo
aquilo que ouvira. Entretanto, estava confuso: retornava
para meu lar, um lugar onde não havia ninguém para me
aborrecer, onde gozava de completa liberdade, entretan-
to na minha casa não havia ninguém, ninguém, ninguém
mesmo. Somente eu para me receber, conversar e apoiar.

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DINHEIRO, NOSSA ATUAL DEVOÇÃO

É preciso gastar menos: estamos numa “economia


de guerra”. Acabaram-se os nossos míseros reais. Nada de
gastos com revistas e livros. Ideias novas são supérfluas,
pois já temos as velhas que nos bastam. O nosso cérebro
necessita apenas de glicose para manter-se vivo sem en-
trar em coma, assim ele poderá assistir e apreciar essa
tragicomédia econômica que ora nos apresenta.
Assistimos, impotentes, à ascensão ao poder de um
novo grupo de profissionais, os economistas. Essa nova eli-
te, ao tomar consciência do seu poder, passou a ditar nor-
mas acerca de salários, empregos, horários e tudo mais.
Por que não dizer, de nossas vidas?
Os sábios profetas da economia são muitos. Os jornais
e as TVs divulgam a todo momento suas profecias e eles,
sem nada cobrar, aconselham-nos a economizar mais, para
o sucesso do modelo capitalista “trabalho e produção”. Os
economistas conhecem melhor do que nós mesmos o que
se deve fazer com o nosso dinheiro, como por exemplo:
onde guardá-lo, quando tirá-lo, em que lugar devemos
passar nossas férias e se devemos ir de avião, ônibus ou a
pé a Itabira ou a Tóquio. Quando devemos nos aposentar

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ou resgatar o Pis e Pasep, a maneira de alugar um imóvel,
quando vender ou comprar ouro e dólar e até se devemos
abandonar a profissão de engenheiro, trocando-a pela de
florista. Ninguém precisa pensar, menos ainda refletir, pois
existem “gênios” que pensam por nós, todos especialistas
nisso ou naquilo.
Vivemos a época de ouro da economia. A cada dia,
ou talvez a cada hora, são entrevistados luminares nessa
ciência e estes descrevem, cada um a seu modo, a situ-
ação econômica do País, indicando, de maneira segura, o
que deve ser feito para tirar-nos da miséria, da dívida e
do caos.
Infelizmente, os ministros, assim como os ex-secre-
tários de Estado, só conhecem as soluções econômicas
adequadas para o País quando largam os cargos, nunca
durante o exercício de suas atividades. Economistas diver-
sos, candidatos a cargos no governo, professores, PhDs
diversos e até alguns amadores iniciados no assunto criti-
cam a política econômica com sabedoria.
O dinheiro agora é o nosso rei e talvez o nosso Deus,
pois foi promovido pelos fabricantes da cultura, de “meio”
a “fim”. O dinheiro que era um instrumento utilizado para
se alcançar algum objetivo, tornou-se atual sistema de va-
lores sociais, o próprio alvo a ser atingido.
Os subprodutos do dinheiro, como os salários, gastos,
etc., comandam atualmente nossas ações e intenções. Nós
nos preocupamos muito com o prejuízo financeiro de um
acidente e pouco, ou quase nada, com o sofrimento das
pessoas envolvidas. Mortes de indivíduos são analisadas
muitas vezes com respeito ao seguro a ser recebido ou à
economia ocorrida com sua morte. Algumas religiões são
fundadas em busca de dinheiro, filhos matam os pais para
receber a herança e alguns se suicidam porque suas fortu-
nas estão se esvaindo. Assistimos a esse espetáculo com

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naturalidade, sem espantar-nos, pois estamos julgando os
fatos com os mesmos modelos conceituais dos protagonis-
tas das ações.
O valor instrumental do dinheiro está ganhando a luta
contra todos os outros valores humanos. Poucos atualmen-
te são capazes de apreciar outros valores - uma boa bebida
ou comida, um passeio, uma visita - sem imaginar o custo
em dinheiro de cada uma dessas ações. Talvez, pior ainda,
a maioria das pessoas não consiga bater um bom papo ou
amar alguém sem contabilizar os gastos ocorridos durante
esse tempo e que poderiam ser convertidos em produção e
dinheiro, como manda o modelo econômico vigente.
Prezado leitor, como psiquiatra que sou, tenho como
obsessão a tendência a dar conselhos, e aqui aproveito a
oportunidade para opinar contra os conselhos dados por
alguns economistas.
1) Ao tomar o seu café sinta o seu paladar, calor e
aroma e não pense no preço do pó, da água, da energia e
da mão-de-obra.
2) Ao abraçar e beijar o seu amado, ao acariciar os
seus cabelos, sinta as sensações provenientes do seu rosto,
lábios ou das suas mãos e, pelo menos naquele instante,
não pense no dinheiro que está sendo gasto com o batom
que desaparece ou com o penteado desfeito, pois, caso
tudo dê certo, o que é o esperado, você terá outros ganhos
e prazeres, que são para alguns poucos seres humanos
mais importantes que o dinheiro guardado no cofre.

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SENHORES DO PODER

Certas propagandas sedutoras conseguem fazer com


que boa parte da população saia de casa para ver um de-
terminado filme, abandone tudo para assistir a uma no-
vela, tome banho com um certo sabonete durante anos e
vista uma calça desconfortável, ou engula um fortifican-
te sem precisar dele. Não é difícil constatar que certas
crenças, introduzidas em nossa mente, comandam o nosso
comportamento.
Alguns homens, por diversos motivos, forçam outros
a pensarem de acordo com seus princípios e suas regras.
Frequentemente, ideias propostas pelos poderosos se es-
palham e são incorporadas por um grande número de pes-
soas, que passam a viver sob o comando dessas crenças,
na ilusão de que não há nada melhor para se fazer.
Acreditamos e copiamos muito as supostas preferên-
cias de pessoas conhecidas, principalmente se são pessoas
de prestígio. Assim passamos a usar uma certa bateria em
nosso carro, pois o famoso piloto disse que ela é a melhor,
jogamos na loteria, pois o jogador de futebol nos incen-
tivou a comprar o bilhete, passamos a morar num certo
bairro, pois o grupo com o qual nos identificamos e ao qual
almejamos pertencer, ali reside.

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Todos nós já sofremos desenganos por aceitar a cren-
ça embutida no ditado popular “a voz do povo é a voz de
Deus”. E sabemos muito bem, que uma conduta utilizada
por muitos não fornece necessariamente informações cor-
retas e garantidas acerca de uma realidade, da mesma for-
ma que um julgamento com o qual a maioria das pessoas
está de acordo, nem sempre é digno de confiança e nem
ser aceito sem objeções ou dúvidas.
Todos nós temos certo receio de pensar de modo di-
ferente de nossos companheiros e isso nos leva a emitir
opiniões quase sempre semelhantes às do nosso grupo.
Para complicar nossa submissão às ideias coletivas, há
uma tendência universal em ridicularizar os pontos de vis-
ta divergentes, ou pensamentos singulares, que são consi-
derados pilhéria, sinal de burrice e até indício de loucura.
Uma vez expostas às pressões grupais, as pessoas
tendem a pensar e a dar opiniões de maneira convergente,
isto é, iguais à de todos. Num clima desses torna-se difícil
o aparecimento de novas ideias e novas decisões. Assim o
grupo tende a ficar em paz, mas estagnado. Com triste-
za lembramos do apoio dado por quase toda a população
brasileira ao então candidato à presidência do país, Jânio
Quadros, e outros semelhantes. O famigerado plano cru-
zado também foi amplamente louvado e deu no que deu...
e não é difícil para nós lembrarmos situações semelhantes
mais recentes.
Quem controla ou dirige essas oscilações de opiniões
dos grupos ou das populações? Não é difícil perceber, se
abrirmos os olhos, que alguns poucos, usando nomes, dis-
farces, truques e slogans sugestivos, são o sedutores crô-
nicos da população. Eles controlam nosso comportamento
e até nosso modo de pensar.
De uns tempos para cá um novo grupo vem ganhando
notoriedade e poder sobre as nossas ações: os tecnocratas.

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Este grupo é formado por alguns senhores sisudos, espe-
cialistas em técnicas e processos diversos.
Eles falam de um modo diferente do nosso e entram
em contato com a população através de ordens dadas em
forma de portarias e pacotes.
Os tecnocratas não bolem apenas na nossa poupan-
ça, seu campo é vasto. Através de investigações sigilo-
sas incriminaram alguns banqueiros, colocando-nos contra
eles. Até aí nada demais. Depois foi a vez de empresários
diversos, logo após atingiram os trabalhadores ligados à
economia informal. Mais tarde viraram-se contra alguns
médicos do serviço público e agora, numa grande jogada,
acionaram suas garras para atingir milhares de funcioná-
rios públicos federais.
Quem será o próximo a ser atingido, ninguém pode
adivinhar, mas suponho que seremos todos nós. Muitos
escaparam, mas possivelmente por pouco tempo. Os tec-
nocratas conhecem, mais do que ninguém, o nosso ponto
vulnerável ou pelo menos a nossa intenção muito escon-
dida de, a qualquer momento, fazer uma trapaça contra o
honesto governo. Os tecnocratas são nossos senhores e
deles podemos esperar apenas misericórdia.

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OS NARCISISTAS MODERNOS

Conta-nos o mito que quando a ninfa Eco, terrivel-


mente apaixonada por Narciso, correu para junto dele para
abraçá-lo, este, repelindo-a, lhe disse: “Afasta-te, prefiro
morrer a te deixar possuir-me”. Narciso, tendo desprezado
todas as ninfas como havia repelido a ninfa Eco, não ama-
va ninguém. Porém, um dia, a deusa da vingança cedeu
a um pedido de uma ninfa mal-amada fazendo com que
Narciso se apaixonasse por si mesmo.
Narciso, uma vez sob o encanto da deusa, foi sedu-
zido por sua própria beleza ao ver sua imagem refletida
na água. Enfeitiçado, todas as vezes que Narciso tentava
abraçar e beijar sua própria imagem, esta desaparecia na
água. A lenda termina com a morte de Narciso consumido
pela sua paixão.
Esta é a história do antigo Narciso. Os narcisistas mo-
dernos agem diferentemente. Eles cresceram em número,
tanto assim que a Classificação Internacional de Doenças
Mentais (CID 10) reservou um lugar especial para eles:
“Transtorno da Personalidade Narcisista”.
Veja como ele foi descrito no CID 10: “o indivíduo
apresenta um sentimento grandiloquente de sua própria

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importância ou do seu caráter excepcional; preocupação
com fantasias de êxito ilimitado; necessidade exibicionista
de atenção e de admiração constantes; respostas caracte-
rísticas às ameaças à sua autoestima; e perturbações no
relacionamento interpessoal, como sentimento de “ter di-
reito” a exploração inter-pessoal e ausência de empatia”.
O leitor atento identificará, entre amigos e inimigos,
artistas, atletas, políticos e outros, os novos narcisistas.
As realizações dos narcisistas tendem a ser valoriza-
das irrealisticamente nas áreas de poder, riqueza, fama e
beleza. O narcisista tenta de fato alcançar tais objetivos,
mas isso é feito de modo forçado e destituído de prazer,
com uma ambição que não pode ser satisfeita. No Brasil
eles são encontrados nas favelas, prisões, mansões e, com
alguma frequência, nos palácios. A forma da expressão de
orgulho por si mesmo é que varia de acordo com o grupo
social ao qual o narcisista pertence.
A artista de TV narcisista, feia, inculta e burra fala acer-
ca de sua beleza, de seus dotes literários, de suas idéias po-
líticas e do seu comportamento sexual. Recebemos deles,
gratuitamente, lições do seu modo particular de encarar a
realidade, que é tida, orgulhosamente, como certa.
O narcisista supõe ser ele capaz de fazer e pensar
adequadamente a respeito de tudo. Se ele foi bom letrista
de música, poderá ser um bom ministro, se foi professor,
poderá desempenhar bem o papel de governante, se é pi-
loto, poderá ser bom garoto propaganda, se é político, lo-
gicamente, poderá ser..., sei lá, qualquer coisa!
Na plateia, certo público cativo bate palmas, urra
deslumbrado e entusiasmado com as proezas de seu ídolo.
Entretanto, outros se irritam, xingam e jogam pedras ao
se sentirem impotentes diante de seu poder.
A maioria, entediada, percebe a fragilidade do narci-
sista escondida por trás de sua máscara arrogante e prepo-

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tente e, indiferente às suas palavras vazias, espera, alguns
até oram, para que um dia cada narcisista siga o exemplo
do antigo Narciso do mito e acabe consumido pela sua
paixão e não mais tome nosso precioso tempo com suas
chatices e gabarolices.

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OS NOVOS DEUSES

O Deus primeiro e único não tem cara fechada, não


sorri, não tem iate, não tem salário, não agride e nem tem
voz. Os novos deuses falam, gesticulam, transam, namoram
até pessoas do outro sexo, alguns cantam, outros jogam e
outros correm velozmente. Muitos ganham por mês mais
do que um operário ganha em toda sua vida de trabalho.
Todos os deuses são lindos, maravilhosos, ricos e jo-
vens, conforme a avaliação dos seus seguidores. Eles são
adorados pelos seus fiéis seguidores, intocáveis e respei-
tados pela mídia, governo e população em geral. Os no-
vos deuses são, graças a Deus, efêmeros. Somente alguns
permanecem reinando por um tempo mais longo.
Cada um dos deuses tem suas peculiaridades, entre-
tanto eles apresentam uma estrutura comum que os iguala
e os identifica como produtos de uma sociedade esquisita.
Assim é que eles sempre falam acerca de contratos novos,
do próximo adversário que deve ser respeitado no campo,
sobre os novos lançamentos, as novas representações nos
palcos ou nas TVs, onde a atual é sempre superior às ante-
riores e mais adaptadas à sua personalidade. Outros falam
sobre seu novo disco.

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Mas há algo mais ainda que os une. Todos, sem ex-
ceção, adoram contar a sua vida. Estas são geralmente
lindas, sofridas, cheia de coisas interessantes. Eles todos,
diferentes dos outros moradores desse mundo, alcança-
ram a fama através de “muito esforço e trabalho duro”. To-
dos, bondosamente, ensinam o que aprenderam aos seus
admiradores.
Expressam seus valores e normas de vida para a po-
pulação e sobretudo sempre com alta sabedoria e segu-
rança. Ora o discurso é acerca do seu casamento exem-
plar, ora da melhor maneira de transar e o melhor local
para isso. Nunca faltam instruções minuciosas a respeito
de como alcançar a felicidade, viver uma boa vida, con-
quistar amigos, ter fortunas e a melhor religião a ser se-
guida. Em resumo, eles sabem mais do que nós mesmos o
que devemos fazer para sermos felizes.
A maioria da população escuta atentamente cada fra-
se de seus deuses, se compraz e se embriaga na sua sa-
bedoria fácil. Os novos deuses não precisam estudar para
conhecer, pois, privilegiados e iluminados que são, torna-
ram-se sábios através de revelações milagrosas.
Eles são procurados, entrevistados, observados e se-
guidos continuamente. Os adoradores dos deuses sabem
tudo acerca deles. Comentam emocionados a troca da na-
morada, que sempre é uma deusa ou deus, seu novo con-
trato, sua doença, seu filho que nasceu e assim por diante.
Todas as notícias sobre os deuses são lidas ou escutadas
com mais interesse do que as noticias chatas e conhecidas
que ocorrem dentro de nossa própria família, como o de-
semprego do pai, a morte do irmão, a separação do avô.

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DISCURSO:
O TOQUE SUTIL DOS SONS

Os políticos - bem como outros manipuladores de


opiniões - nas campanhas eleitorais sempre abusaram de
discursos carregados de termos com forte carga emocio-
nal, introduzidos em frases grandiosas, expressos de uma
maneira direta, simples e, sobretudo, superficial. Para que
um vocábulo no discurso tenha o poder de operar milagres
é preciso que seja uma palavra de natureza especial, dife-
rente das pronunciadas todos os dias. Ela precisa ser uma
palavra que não somente designa a coisa, mas que seja
sentida como sendo a própria coisa expressa.
Esta palavra mágica deve atingir as fantasias do elei-
tor distraído, propor soluções fáceis, rápidas e simples – in-
tuitivas - ainda que equivocadas, para resolver problemas
humanos difíceis, custosos ou impossíveis. As fantasias,
utopias ou crendices populares são estimuladas pelo dis-
curso do político, transformadas em projetos possíveis de
serem executados.
Mas, por outro lado, o discurso político, semelhante
às ideias descritas pelos diversos mitos, exorta a manu-
tenção do existente. Os políticos, junto a companheiros

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pertencentes às mesmas castas, lutam por conservar a
mente do povo às escuras. O discurso político, defendendo
as ideias convergentes, tem como lema: “Nunca examine
se seu modo de pensar é, ou não, correto”.
O povo é aplaudido caso saiba de cor o hino nacional,
trabalhe muito sem reclamar, não faça greves, guarde di-
nheiro na poupança, participe ativamente de partidos polí-
ticos, principalmente votando e apoiando seus candidatos,
contribua para todas as campanhas de ajuda aos necessi-
tados, seja um bom soldado na guerra ou na paz, trate com
respeito os poderosos, frequente assiduamente a igreja,
mantenha amizades sólidas com certas pessoas, cuide de
sua saúde e da família conforme mandam os padrões, não
desperdice (nem água e nem energia elétrica), respeite
as autoridades e a lei, procure certo tipo de conforto e de
lazer no lugar e momento adequado para ele. Tudo como
ensinam os antigos mitos e o catecismo paroquial.
Assim, como estamos presos aos nossos genes que
nos impedem de ser outro animal diferente do que somos,
e de escapar das características específicas que herdamos,
também, desde nosso nascimento, fomos aprisionados nas
normas de conduta, de relacionar e de pensar ditadas pela
cultura, ou seja, construídas antes de nascermos pelos que
nos antecederam. Amarrados pelo resto de nossa vida a
essas duas vertentes, colaboramos inocentemente para a
conservação do modelo encontrado e impresso em nos-
sa mente, imaginando-o como certo e melhor. Na maioria
dos casos, sem consciência disto, não exercitamos nossa
criatividade para escaparmos ou, pelo menos, tentarmos
escapar, ou ainda avaliar este padrão.
Pois bem, o discurso político desperta, para conservar,
muitas metas controvertidas dos nossos antepassados. Es-
timula a mente sonolenta dos eleitores com palavras be-
las, sonoras e vagas, o reservatório onde dormem crenças,

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sonhos, medos e esperanças armazenadas durante anos,
na maioria das vezes ilusórias. O político apresenta-se ao
eleitor como um intermediário capaz de conduzi-lo, com
mestria, para a travessia fantástica, partindo de sua vida
atual e conhecida, mas também chata, difícil e injusta,
para chegar à vida paradisíaca, tranquila, feliz e, sobretu-
do, muito, muito longínqua.
As eleições terminam e tudo fica como sempre este-
ve. A quimera afundou-se na realidade indiferente, fria e
sem alma. Alguns poucos dominam muitos, para o bem-
estar dos de sempre, conforme rezam os diversos mitos do
poder, cumprindo assim a profecia.
Os discursos não param após as eleições, eles conti-
nuam, mesmo nas entressafras, mas nestas servem para
justificar as contradições existentes nos mitos citados du-
rante os discursos proferidos nos palanques eleitorais.

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O QUE SE ESCONDE
POR TRÁS DOS SLOGANS?

“Fome zero”, “Eu te amo”, “O principal no relaciona-


mento familiar é o amor e a compreensão”, “Tudo pelo so-
cial”. Frequentemente, pensamos, falamos e escrevemos
dessa maneira. Muitos são capazes de discutir acalorada-
mente sobre as ideias contidas nessas frases, defenden-
do-as ou atacando-as. Mas, afinal, o que elas afirmam?
Creio que ninguém saberá com precisão o que signi-
ficam. Para cada um de nós, as palavras “amor”, “ódio”,
“compreensão”, “social” e outras, terão significados dife-
rentes. Além disso, uma situação altamente complexa,
como a qualidade de vida familiar, não poderia ser atribuí-
da apenas a dois fatores, onde as palavras mágicas “amor”
e “compreensão” tornam-se explicações causais pelo bem-
estar ou não da família. É raro questionarmos o nosso in-
terlocutor, ou nós mesmos, acerca do sentido, dimensão e
significado das palavras que estão sendo utilizadas.
O psicólogo Kurt Lewin escreveu, entre outros, o arti-
go “O modo de pensar Aristotélico versus o modo de pen-
sar Galileico”. Nesse, ele critica a linguagem da Psicologia
e da Psiquiatria quanto à descrição de um fato, uma ma-

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neira que, infelizmente, continua. Para esse autor, o modo
Aristotélico de se expressar, próprio da linguagem comum,
descreve uma pessoa como “rica” ou “pobre”, “bonita” ou
“feia”, “gorda” ou “magra” e assim por diante. Já a maneira
Galileica, ao descrever os mesmos fatos, é mais precisa.
Assim, em lugar de afirmar que o dia esteve quente,
cita a temperatura alcançada de 32ºC, que João pesa 100
quilos para indicar porque está dizendo que ele é gordo.
A linguagem da Psicologia e da Psiquiatria é muito
semelhante à popular, até mesmo nos artigos chamados
“científicos” destas especialidades. Não é raro encontrar-
mos, entre os psicólogos, afirmações como as seguintes:
“Maria é uma moça carente”, “Marta é perversa”, “Álvaro
está deprimido”, “Alfredo é esquizofrênico, mas seu irmão
Carlos é normal”. O leitor certamente se lembrará de cen-
tenas de outros exemplos semelhantes.
Discussões acaloradas, que terminam, às vezes, em
brigas, ocorrem em assembleias, programas de TVs, sala
de aula, etc., devido ao uso dessa linguagem. Nessas, em
virtude da indefinição dos conceitos causadores da discus-
são, nunca se chega, nem se poderia chegar, a um acordo.
Se os conceitos utilizados nas disputas fossem mais bem
definidos, as discussões provavelmente não ocorreriam.
Fica difícil discutir, por exemplo, “violência”, pois esse ter-
mo tem conotações e denotações muito diferentes para
diferentes modos de pensar.
Com frequência, utilizamos a linguagem de dois mo-
dos diferentes: para representar nossa experiência pes-
soal ou para comunicar nosso modelo ou representação
acerca do assunto. Assim, discutem-se fatos diferentes,
causados por fatores diferentes, utilizando um único vo-
cábulo. Que experiência e que representação do mundo
cada um dos que enunciam a palavra “violência” estaria
querendo expressar? O “mapa” utilizado foi um só para
designar “territórios” diversos.

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Usam-se, a todo o momento, palavras que têm o mes-
mo som ou grafia, mas com significados, conotações e de-
notações as mais diversas.
O que pretende dizer alguém que usa as frases: “Tudo
pelo social”, “Defenderemos a nossa soberania”, “Fome zero”
(seria no Palácio da Alvorada ou na residência do presiden-
te?). Todas são frases usadas para se obter um efeito emo-
cional, mágico ou hipnotizador, sem importância para o real.
Cada cidadão que as ouve, receberá e entenderá uma comu-
nicação diferente conforme a emoção que lhe foi inoculada.
Atrás de uma palavra ou frase nem sempre está um
objeto concreto. Palavras não são coisas, são representa-
ções e ligações entre coisas. Não resolveremos os nossos
problemas de comunicação empregando palavras mágicas,
procurando sinônimos das mesmas, gritando-as diante dos
altofalantes. Muita gritaria, às vezes, acalma e deixa de
lado as ações possíveis para dar soluções para os proble-
mas existentes. Antes de acreditar ou não em uma palavra
ou seguir a ideia que ela parece traduzir, precisamos pri-
meiramente descobrir seu significado, pois o símbolo nem
sempre traduz a coisa simbolizada.
Quando um hipnotizador diz a alguém: “agora você
se sentirá melhor, mais disposto e terá mais forças para
enfrentar seus problemas”, cada hipnotizado entenderá a
comunicação de acordo com suas experiências particulares
ou memória autobiográfica. As frases citadas no início e ao
longo desse texto despertarão em cada leitor certas fanta-
sias e sentimentos próprios. A maioria das frases do nosso
dia-a-dia, por serem altamente genéricas, atingem todos e
acerca de quase tudo e, ao mesmo tempo, de quase nada.
Por exemplo, uma frase muito repetida: “Devemos fazer
tudo pelo social”.
Os termos empregados são vagos, abrangentes ao
extremo, ou seja, estamos diante de uma linguagem su-

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perficial. O que é “tudo” e “social” para cada um dos leito-
res ou ouvintes?
Alguns, usando agora uma linguagem menos super-
ficial, poderão pensar que a ideia fala acerca de possíveis
aumentos de salários, de menor inflação ou mais saúde.
Para outros, a mesma frase poderá suscitar ideias opostas:
menores salários, maiores taxas de inflação e mais doen-
tes. Os desejos e aspirações de cada um ditarão o tipo de
ideia que poderá surgir pelo uso do termo vago. Este modo
de comunicar pode ser chamado de “mágico” no sentido de
que, não comunicando nada, fornece suposições para cada
cabeça.
Como hipnotizador, os emissores da mensagem con-
seguem dizer tudo e não dizer nada ao mesmo tempo, sem
que haja meios de desmenti-la, pois o enunciado não pos-
sibilita a comprovação. Os políticos, pregadores fanáticos,
psicólogos que escrevem sobre autoajuda, curandeiros de
modo geral, são useiros e vezeiros em pronunciamentos
desse tipo. Ao recebermos uma comunicação, expressa em
linguagem superficial e “Aristotélica”, ficamos sem refe-
rências, como ocorreu com o homem que corria atrás de
outro, conforme a historinha “Sócrates” de N. O. Scarpi.
Um homem, gritando, corre atrás de outro que foge:
— Assassino! Assassino!.
Pergunta Sócrates ao homem que grita.
— Um assassino! Que vem a ser um assassino?
— Pergunta idiota! Um assassino é um sujeito que
mata.
— Então, um açougueiro?
— Cretino! Quero dizer um homem que mata outro
homem.
— Seria, portanto, um soldado?
— Não, um homem que mata outro homem em tem-
pos de paz.

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— Compreendo, um carrasco.
— Eu quero dizer um homem que mata outro homem
em casa dele.
— Ah! Entendi! Um médico?
Confuso, o perseguidor desistiu da perseguição.

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QUANDO AS PALAVRAS MENTEM
“Quando os humanos tomam os seus mitos e as suas ideias
pela realidade, tendem a crer que os mitos e as suas ideias
são o próprio mundo.” Edgar Morin

Esse autor, com essa frase nos alerta acerca do poder


das palavras, da força que têm esses sons mágicos provo-
cadores de ações impulsivas, carregadas de ódio, alegria,
tristeza ou medo. Sabemos, também, que através de pala-
vras adequadas despertamos ou criamos crenças, valores,
fantasias e desejos adormecidos que habitam nossas al-
mas. O condutor de massas, o líder carismático e o grande
pregador sempre usaram e abusaram das “palavras opor-
tunas”, no momento certo. Somos, num certo grau, dóceis
e fracos, sujeitos às manipulações continuadas dos mais
espertos.
Em todos os tempos um grupo dominou o outro para
seu benefício. Assim é que na maioria das culturas os ho-
mens jovens e brancos, sadios, ricos, saudáveis, inteligen-
tes e cultos, exploraram as mulheres, os velhos, os negros,
os pobres, os doentes, os deficientes mentais e os incultos.
Este é o nosso destino: obedecer, sem refletir e sem o de-
sejar, à vontade dos mais sagazes e com maior poder.

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Os comerciantes seduzem o cidadão-alvo com pro-
messas de férias maravilhosas, juventude e beleza eterna,
hálito perfumado, frescor no corpo, cabelos sedosos e bri-
lhantes, alegria irradiante ou tola, lábios sensuais, bustos
e bumbuns belos e firmes.
Para quem? Para uma população sem dinheiro, de
idosos, desnutridos, feios, banguelas, nanicos, carecas,
despeitados e desbundados.
Já os políticos, usando as palavras adequadas e como-
ventes, seguindo o padrão da propaganda, oferecem-nos a
justiça social, os empregos com salários altos para todos,
a assistência médica de alto padrão, a proteção à criança
abandonada e ao idoso, uma justiça digna para os grupos
marginalizados, uma alimentação abundante e barata.
Em resumo, tudo o que é desejado por todos nós. Para
quem? Para uma maioria que nunca imaginou poder alcan-
çar tais coisas, compostas dos sem-casa, pivetes, negros e
brancos pobres, mulheres desempregadas ou com subem-
pregos, crianças, analfabetos, deficientes mentais, etc., ou
seja, pessoas sem oportunidades e estigmatizadas social-
mente. Vivemos, ainda, sonhando com o paraíso perdido.
Os conhecidos manipuladores do povo, nos seus dis-
cursos esforçam-se como podem para estimular e conser-
var as crenças existentes entre a população, as normas
vigentes, as prescrições de conduta e, por que não, a ig-
norância popular. O poder de uns se assenta, exatamente,
às custas de crenças supersticiosas, na irracionalidade do
povo que o impede de sair do seu estado de indigente de
conhecimento e de crítica.
Mesmos os políticos chamados de mais “avançados”
ou da esquerda, cegados pela tradição, defendem no pro-
grama de governo a melhoria dos empregos, salários, as-
sistência à saúde, etc., mas nunca uma mudança do modo
de pensar mais profundo do operário e do lavrador.

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Quando se fala em melhoria do ensino, trata-se ape-
nas de melhorar a capacidade de compreensão da leitura
de instruções para que o operário saiba utilizar melhor o
maquinário da empresa, para aumentar a produção, a lei-
tura de revistas e jornais que precisam ser vendidos, de
propagandas diversas e, deste modo, haja mais consumo
com mais lucro para as empresas.

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O CONHECIMENTO
E AS DIVERSAS LÍNGUAS

Alimentadas pelo modo de pensar dominante exis-


tente em cada época, constantemente nascem novas pa-
lavras. Uma manifestação verbal importante socialmente
produzida num local populoso poderá influenciar outras
regiões e grupos.
Assistimos constantemente ao aparecimento de mo-
dos diferentes de nomear fatos e situações, apropriados
a cada geração, grupo ou sociedade. Essas maneiras de
classificar são simbolizadas ou expressas em linguagens
diferentes, variando conforme a idade, o sexo, o grupo
social e cultural, a profissão, o lugar, a época e outras va-
riáveis.
Pode-se afirmar que cada indivíduo tem seu vocabu-
lário próprio, usa mais certas palavras e não outras, enfa-
tiza mais certos aspectos da realidade e pouco, ou nada,
outros. Notamos que há uma grande diferença entre a fala
do presidente e a do ministro, do clérigo, advogado, mé-
dico, futebolista, sem-teto, idoso, jovem, trombadinha,
prostituta, bandido e político.

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Por outro lado, cada um de nós altera seu modo de
falar conforme atua diante de uma ou outra situação, na
hora da briga ou do amor, perante os filhos, pais, médicos,
clientes, amigos, inimigos, torcedores, amante. Em cada
uma dessas ocasiões, fazemos uso de linguagens diferen-
tes, pulamos de uma para outra, automaticamente, sem
esforço e inconscientemente. Algumas vezes não entende-
mos a linguagem de um grupo ou de outro.
As linguagens referidas acima (do presidente, bandido,
futebolista e outras) coexistem, se expressam e se mistu-
ram. Todos os modos de nomear coisas e eventos sobrevive-
ram em grupos diversos e separados e germinaram, durante
certos períodos, na vida sociocultural de um grupo deter-
minado. As palavras que ainda vivem, as que resistiram ao
tempo ainda dominam a mente de seus possuidores em ra-
zão de sua utilidade, do contrário teriam desaparecido.
Os vários discursos, indo do professor universitário ao
analfabeto, do servente ao presidente, nasceram e germi-
naram da existência simultânea de modos antagônicos de
viver quanto às ideologias, aspectos socioeconômicos, reli-
giões diversas, várias profissões, sexo, idade. Em resumo:
de diferentes grupos com objetivos e condutas variadas.
Convivem ao mesmo tempo, de forma harmoniosa e con-
flituosa, modos de falar antigos e modernos, onde alguns
terão vida longa, outros, curta. Algumas palavras são mais
potentes, tomam o lugar de outras mais frágeis, que, às
vezes, desaparecem para sempre. Outras renascem com
força total após anos de hibernação. Durante as lutas de
palavras contra palavras, despontam acasalamentos que
geram novas palavras ou novas formas de manifestações
de ideias sociais, misturas de uma e de outra, ou de di-
versas delas. Das crias são conservadas, em maior quan-
tidade, os “genes” das dominantes e poderosas e podem
desaparecer os genes mais fracos.

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As palavras, como os seres vivos, nascem, crescem e
morrem. Algumas resistem mais, como insetos, estando mais
bem adaptadas ao meio, habitam a mente, em todas as épo-
cas, de todos os grupos socioculturais. Não são extermina-
das, por mais que haja grupos contrários à sua proliferação.
Cada linguagem, nascida de um grupo sociocultural
específico, ingrediente do bolo total existente, se distingue
das outras. Cada língua, fiel à suas convicções e princípios
orientadores, enfatiza um ou outro aspecto: uma prioriza a
função, a outra, o tema, outra, ainda, a religião ou o social.
Algumas poucas são dramáticas.
Apesar da existência de diversas linguagens, quase
todas convivem entre si, apesar de que uma ou outra pode
ser obstáculo ao crescimento ou manutenção da outra. Por
exemplo: o Brasil tem sido invadido pela linguagem e, li-
gado a ela, pelos costumes próprios dos nativos da língua
inglesa. Também percebe-se a invasão de conceitos e ter-
mos da linguagem de uma área no território de outras:
“Precisamos fazer um diagnóstico melhor da nossa econo-
mia”, “Só fazendo uma cirurgia radical iremos acabar com
a violência”, “Para curar esse câncer, há necessidade de
processos invasivos, pois assim iremos exterminar a do-
ença”. Os exemplos, relacionados ao uso de termos de de-
terminada linguagem de um grupo (médicos, na economia
e na violência, da guerra, na medicina etc.) são inúmeros,
viajando na boca de todos nós de forma automática. Usa-
mos sem parar uma linguagem híbrida, tudo naturalmente
sem esforço. Aos poucos, alguns termos podem ir mudan-
do de habitat, passando, por exemplo, da linguagem mé-
dica para a popular: “O país está esquizofrênico”.
Um aspecto importante para a sobrevivência longa de
uma palavra é a de que o discurso onde ela habita, precisa,
para viver ou sobreviver, apoiar-se fora dele, isto é, uma
linguagem não pode ser gerada e desenvolvida do nada.

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Ela precisa alimentar-se de objetos observáveis, os
que atingem nossos sentidos, muito próximos ou muito
afastados. A linguagem não resiste à falta de objeto, sem
este ela forçosamente desaparece.
Quando assistimos às conversas dos intelectuais
- que fogem dessa orientação - não percebemos no seu
“bate-papo” nada além de uma teia vazia: palavras e mais
palavras sem referenciais, nuas, impossíveis de serem
compreendidas. Trata-se de um tipo de linguagem da qual
nada sabemos, pois ela não nos informa nem sua posição
social, nem as intenções, nem a época, nem o destino,
nem nada. Os intelectuais, estando acima das “coisas re-
ais”, discursam sobre o nada. Estudar o discurso em si
mesmo, ignorando sua orientação externa, é tão absurdo
como estudar o sofrimento mental sem examinar como
esse foi desenvolvido, bem como o contexto que facilitou
ou dificultou o aparecimento dele.
A língua não trabalha com palavras neutras ou sem
emoções, como os psicanalistas acreditavam. Não existe
uma palavra válida e eficiente que não pertence a ninguém,
a nenhuma época e nenhuma idade, etc. Um termo só so-
breviverá e funcionará caso seja contaminado pelas inten-
ções, prazeres, sofrimentos e objetivos implícitos – rara-
mente explícitos - de uma pessoa ou grupo sociocultural.
Um lavrador iletrado, residindo pra lá dos confins da
Cidade de Nossa Senhora do Socorro, ingenuamente mer-
gulhado em uma existência imaginada como imutável e
inabalável, vive, apesar de tudo, num meio contendo vá-
rios sistemas linguísticos interagindo e em constante mu-
dança.
Ele deve cantar suas modinhas caipiras numa forma
poética e emocional, reza a Deus numa linguagem apro-
priada à sua religião, fala de um modo coloquial e espon-
tâneo com seus familiares e amigos íntimos, ou seja, numa

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terceira língua. Quando colher e vender seu feijão e milho
usará a linguagem comercial, quando casar, diante das au-
toridades da cidade, ele usará uma outra língua: a oficial,
do cartório.
Para cada ato desses, pressupõe-se linguagens e ter-
mos diferentes, porém estas línguas não estão ordenadas
hierarquicamente na consciência do lavrador. Ele usa ora
uma, ora outra. A cada instante, automaticamente, troca
de língua. Cada linguagem usada nasceu e cresceu em ni-
nhos diferentes. O lavrador, possivelmente nunca procurou,
nem mesmo imaginou, examinar uma linguagem usada -
bem como o mundo descrito ou interpretado por ela - com
a lente da outra. Por exemplo, examinar a linguagem usada
no cotidiano e familiar com os “olhos” da linguagem da ora-
ção ou da canção. Ele não deve imaginar que se fizesse isso
- examinasse um dos mundos vividos com as “lentes” da
outra linguagem - o “mundo” olhado não seria o conhecido,
seria outro, talvez muito diferente do lido com a linguagem
inicial. Ele enxergaria novos mundos.
A linguagem e o mundo da oração, a linguagem e o
mundo da canção, do trabalho e comércio, dos costumes,
a linguagem específica e o mundo da administração rural, a
moderna e o mundo do trabalhador braçal que chega em casa
para descansar. Todas essas linguagens descrevem mundos
determinados, usam certas palavras apropriadas para aque-
le mundinho, os descortinados por cada uma delas.
Cedo ou tarde, cada um desses mundos, dependendo
do poder ou vigor da linguagem, poderá perder seu esta-
do de equilíbrio sereno e amorfo. Muitos mundos, antes
estáveis, que foram imaginados firmes e eternos, quando
examinados sob o prisma complacente e tolerante da lín-
gua-mãe, de sua própria linguagem tendenciosa e toleran-
te, desabaram, olhados sob outros óculos, mais neutros e
impiedosos.

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Cada grupo de palavras nos leva a formar imagens de
um contexto, no qual elas nasceram e viveram. Portanto,
todas as palavras são povoadas por intenções e emoções,
nelas são inevitáveis as harmonias e as desarmonias de
gênero, de orientações, de idade, de indivíduos diferentes.
A palavra pronunciada, ou escrita, numa conversa
ou discussão é, ao mesmo tempo, uma palavra emitida
por uma determinada pessoa, e também ideias, conceitos
ou lógicas emprestadas de outros. Não foram criadas por
seu possuidor, já existiam quando ele nasceu. Ela se torna
“própria” quando o falante a povoa com sua intenção, com
seu acento particular - caso o tenha - quando ele a domina
através do seu discurso, tornando-a familiar ao dar sua
orientação semântica e expressiva particular.
Alguns falam sem pôr um acento ou linguagem “pró-
pria”, como se estivessem distantes do falado. A fala ecoa
de modo estranho, pois as linguagens usadas não foram
assimiladas, ficam “entre aspas”, foram decoradas.
A visão do mundo de uma geração, se formulada em
palavras, torna-se necessariamente uma prisão para a gera-
ção seguinte ou as seguintes. Cada geração deve exigir sua
própria linguagem, nascida de uma época e numa cultura.

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UM LUGAR AO SOL

O nascimento, o crescimento e a divulgação de al-


guns novos termos que são lançados no mercado da fala
diária, muitas vezes se espalham ao sabor do vento: “Com
certeza”, “Virgem Maria”, “Bumbum”, “Aí”, “Nossa!”, “Na
verdade”, “De repente”, “Quer dizer”, “Né”, são apenas al-
guns exemplos. Uma grande parte dessas expressões de-
notam exclamações, emoções, outras são apenas ruídos
inofensivos sem utilidade informativa.
Do mesmo modo, de tempos em tempos todos nós
anotamos em nossa memória, no computador ou agen-
das, novos nomes e endereços de um e outro indivíduo
que, temporariamente, foi batizado como “excelente me-
cânico”, “grande conquistador”, “canalha”, “ótimo médico”,
“craque”, “língua ferina”, “perigoso bandido”, “próspero
fazendeiro”, “comerciante esperto”, “linda mulher”. Essas
classificações, geralmente, têm uma vida curta.
Não se conhece bem o processo da produção de novas
palavras, bem como a “descoberta” de características ex-
cepcionais de determinada pessoa. Portanto, não sabemos
como nasce, nem por que isso acontece e também a ma-
neira como o sucesso ou desprestígio do indivíduo se espa-
lha nas mentes dos seus admiradores ou críticos ferinos.

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Num caso ou noutro, o indivíduo se transforma num
exemplar que será elogiado ou criticado, uma amostra ou
modelo que facilitará a comparação de um indivíduo ao
outro, seja semelhante, seja frontalmente oposto.
Cada um de nós defende e briga em defesa de nossos
argumentos: um afirma ser Edgard o melhor e mais ho-
nesto mecânico já encontrado e, ao mesmo tempo, critica-
mos, emocionados, o profissional defendido pelo amigo.
Nota-se que certos estereótipos (rótulos, denomina-
ções ou lugares-comuns fixos) encaixam-se bem em torno
de um determinado indivíduo, mas não em outro e, mui-
tas vezes, esse encaixe tem o apoio de grupos maiores,
de uma comunidade, ou até de um país ou de quase toda
a população mundial: “Madre Teresa de Calcutá foi uma
santa”, “Bush é um demônio!”. Soa estranho e mesmo in-
tolerável para nossa mente pensar ou imaginar o oposto:
“Madre Teresa é um demônio”, “Bush é um santo”. Estas
últimas afirmações nos provocam um arrepio, enquanto
as primeiras fluem bem, são facilmente assimiladas, sem
causar o malestar anterior.
Conforme o ambiente sociocultural existente e vigo-
rando numa época, certos conceitos e modelos ficam mais
fáceis de serem atribuídos a alguém, classificando o indi-
víduo de um certo modo e não de outro. Essas suposições,
muitas vezes palpites, podem permitir o desenvolvimento,
crescimento e reprodução das atribuições das pessoas ro-
tuladas, ou seja, elas ficam encarceradas nos conceitos
emitidos a respeito delas, tudo dependendo do ninho social
onde os conceitos foram plantados ou lançados. Para que
ocorra o crescimento de um conceito, torna-se necessário
que haja “fertilizantes’’ adequados, um terreno propício,
para o conceito “pegar” e “decolar”.
O lançamento, a instalação, a fixação e propagação
de uma ideia para classificar a conduta de determinada
pessoa, boa ou má, às vezes é lenta, outras, rápida.

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O rótulo “João é muito inteligente”, uma vez acei-
to torna-se para seus usuários uma verdade insofismável,
autoevidente e “acima de qualquer suspeita”, jamais ima-
ginada no seu oposto.
A partir da rotulação, os homens e as mulheres clas-
sificados passam a ser tratados pelos conhecidos, amigos
ou inimigos, conforme o rótulo recebido. Se o indivíduo é
denominado “engraçado”, “palhaço”, “grande contador de
anedotas” e mesmo “filho da mãe”, uma vez acreditando na
rotulação, aprisionado à categorização, ele irá se esforçar
como pode para desempenhar, no carnaval ou no velório,
o personagem designado pelo roteiro. Já assisti, muitas
vezes, colegas de sala de aula rotulados de “engraçados”
representarem, de tempos em tempos, conforme os fatos
existentes, o papel exigido pela turma, inventando sempre
que possível uma “graça” qualquer, mesmo uma graça sem
graça, pois, do contrário frustrariam a plateia e poderiam
perder o conceito recebido, passando a ser um qualquer,
um João Ninguém, como os colegas não classificados de
alguma coisa. Da mesma forma, se a pessoa recebe a clas-
sificação e os comentários necessários dos observadores
de que é “bonita”, “elegante’, “inteligente”, “bom de cama”,
“burro”, etc., deverá desempenhar esse papel nas ocasi-
ões esperadas, não poderá ser “bom de cama” durante a
discussão filosófica na qual deveria representar o papel de
“inteligente”.
Uma vez rotulado, forçado a agir como tal devido a
pressões externas e internas, o antigo cidadão, Carlos ou
Diva, desaparece. Assim vai se formando o novo ator, o
transformado no rótulo, passando a agir de acordo com
o novo conceito: “Aninha é bonita”, “Dirce é inteligente”,
“Pedro é um crápula”.

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A MENSAGEM

Anastácio é um dos donos de uma barraca de frutas


do mercado municipal, onde compro bananas. Ao me ver
naquele sábado, foi logo dizendo, quase gritando:
— Acabei de conhecer uma moça notável. É bonita,
inteligente, estudiosa, grã-fina e agradável... Com essa eu
me caso!
Fiquei pensando acerca do que ouvi, tentando deci-
frar o significado de sua frase. Sabia que Anastácio sempre
tirava conclusões apressadas, quando iniciava um namoro.
Nessa hora, misturava os desejos com a realidade. Não
conseguia formar uma ideia da namorada de Anastácio.
Acho que nem ele nem eu, conseguíamos retratar adequa-
damente os atributos que ele julgava ter notado. Não sei
como ele chegou a essas conclusões. Apoiado na sua des-
crição, comecei a imaginar como seria essa mulher... ”ela
era notável... o que tem uma moça para ser notável? Tal-
vez muito alta ou gorda, ou muito magra, ou nada disso”.
Continuei a imaginar a namorada de Anastácio. “ele
julgou-a bonita: lembrei-me, quem ama o feio, bonito lhe
parece... Como seria seu corpo, face, olhos, nariz, cabelos
e dentes?”

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Enquanto escolhia as bananas, pensava comigo mes-
mo. “Vivemos num mundo simbólico, onde certas coisas
representam outras. Assim, dois pedaços de madeira reu-
nidos de uma certa forma, que chamamos de cruz, podem
simbolizar ou representar religiões diversas. Talvez a na-
morada de Anastácio tenha olhos azuis e cabelos louros,
sendo a beleza, para ele, representada por esses traços.
Mas lembrei-me que esse tipo de beleza foi o adquiri-
do por mim, ao assistir a filmes americanos.
Voltei a refletir: “Frequentemente inferimos certas
coisas de outras, isto é, criamos uma afirmação a respeito
de uma situação que nos é desconhecida, a partir de uma
conhecida. Ao sentirmos uma dor no peito, inferimos – de
um modo mais simples – imaginamos que estamos tendo
um enfarto. Do mesmo modo, quando a mulher ciumenta
encontra uma mancha de batom na roupa do marido, ela
supõe ou infere que ele a traiu. Quem sabe a namorada de
Anastácio teria lido o Pequeno Príncipe, gostasse de poesia
e isso o levou a supor ser ela muito inteligente?” Com to-
das essas dúvidas eu continuava a não enxergar a moça.
Prossegui, teimoso que sou, a fazer perguntas ao meu
amigo e fui descobrindo fatos acerca de sua namorada. Fi-
quei sabendo ter ela 20 anos, estuda à noite num colégio
estadual, cursa a 6ª série e já foi reprovada por duas ou
três vezes. Não entendi bem essa parte. Como já sabia
que Anastácio havia parado de estudar na 3 ª série, após
perder o ano diversas vezes, inferi: “Ah! Por isso ele pensa
que sua namorada é muito estudiosa... Perguntando mais,
fiquei sabendo que a namorada de Anastácio lhe disse que,
muitas vezes, ela ficava horas e horas assentada diante
dos livros abertos à sua frente, estudando seguidamen-
te. Ele aceitou ao pé da letra essas afirmações, acreditou
no que ela disse ter observado e inferido a respeito de si
mesma.

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Procurei ir mais a fundo, tentando imaginar como
Anastácio chegou às conclusões acerca da “agradabilida-
de” existente em sua namorada. Descobri que nas noites
dos fins de semana, ela lhe preparava um deliciosos min-
gau de fubá, quentinho, misturado com pedaços de queijo,
igual ao que fazia sua mãe lá em Divinolância, onde ele
nasceu e foi criado antes de vir para B. H. tentar a sorte.
Então era isso: ela era agradável porque lhe servia mingau
de fubá com queijo mineiro.
Restava examinar os motivos que o levaram a inter-
pretá-la como grã-fina. Isso foi mais difícil. Descobri que
ela trabalha como arrumadeira numa residência na Savas-
si, isto mesmo, na zona Sul da cidade. E tem mais, usa
botas quando sai para passear no Parque Municipal e na
Estação Rodoviária. Sua patroa tem uma loja, o patrão,
que é um advogado famoso, possui uma Mercedes. Ela
já andou nela quando foram à fazenda. No ano passado,
o casal foi à Europa passear e levar alguns dólares para
depositar na Suíça. Rosária, este é o nome da namorada
de Anastácio, não foi com eles, como era seu desejo. Sen-
do de confiança, teve de ficar tomando conta da casa. Na
volta, ela ganhou de presente dos patrões, uma escova de
dentes, por sinal muito linda, um pente, um dentifrício, e
ainda uma marmita arrumadinha, contendo uma deliciosa
comida. Coitados, ficaram enjoados e não comeram nada.
Guardei, enquanto pensava, minhas bananas catur-
ras. Paguei a Anastácio o que lhe devia e desejei-lhe, como
é de praxe no Mercado, um bom fim de semana. Caminhei
um pouco tonto, desiludido com nossa conversa incom-
preensível. Em nenhum momento consegui formar uma
imagem clara de Rosária, por mais que tentasse. O relato
ouvido a seu respeito, contada pelo namorado apaixonado,
não me forneceu nenhum fato acerca de seu nariz, boca,
olhos, corpo em geral. Não conseguia enxergá-la pois, du-

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rante o bate-papo havia escutado apenas inferências, jul-
gamentos, comunicados de comunicados e interpretações
superficiais.
De repente, ao parar diante do ponto dos abacaxis,
ao dar a primeira dentada num pedaço, descobri, de um
estalo, a mensagem que Anastácio tentou transmitir-me
em vão e que eu não compreendi devido à minha burrice
nesses assuntos.
Ele procurou comunicar-me, através de sua descrição
do namoro com Rosária, que ele estava apaixonado, nada
mais! Eu, tolamente, fiquei tentando decifrar, de maneira
complicada, a mensagem simples contida em suas pala-
vras, em vez de sentir as emoções expressas. Eu sempre
faço isso: procuro um sentido complexo quando existem
outros muito mais simples...

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VIDENTES:
A PROSTITUIÇÃO DAS PALAVRAS

Ouvi, atentamente, na TV, uma “numeróloga” des-


crever as características comportamentais exibidas pelas
pessoas, conforme o dia do mês em que nasceram. Pro-
curei verificar se os relatos feitos para todos os indivíduos
serviriam para mim. O resultado da “pesquisa” mostrou
que a vidente acertou mais do que eu imaginava. Todas as
descrições feitas para os nascidos em todos os dias do mês
deram certas para mim.
Creio que as previsões feitas estão certas, também,
para todos os leitores. Passo para vocês as afirmações da
vidente, para que as comparem com suas próprias previ-
sões: “os nascidos entre os dias 1 e 5 são teimosos, mas
flexíveis para os que sabem agir com eles. Os nascidos en-
tre os dias 6 e 10 têm um grande amor às crianças mas, às
vezes, perdem a paciência com essas. Os nascidos entre
os dias 11 e 16 são trabalhadores e persistentes, quan-
do desejam alcançar seus objetivos. Os nascidos entre os
dias 17 e 21 não gastam dinheiro facilmente, somente com
pessoas ou coisas importantes para eles. Os nascidos en-
tre os dias 22 e 25 apaixonam-se rapidamente, mas aban-

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donam cedo suas paixões, quando frustrados. Os nascidos
entre os dias 26 e 31 são desconfiados e selecionam com
cuidado seus amigos”.
Creio que todos os indivíduos encontrarão fatos, na
sua história de vida, capazes de “provar” estas profecias.
Mas se se esforçarem um pouco mais, descobrirão, tam-
bém, eventos desconfirmando as previsões.
Há pesquisas mostrando que as pessoas tendem a
procurar fatos que comprovam suas hipóteses e só muito
raramente buscam os eventos que as desconfirmam. As-
sim, se não gosto de Maria, a observo, selecionando sua
conduta negativa, visando “provar” que tinha razão. Se
afirmo que os bons vendedores são extrovertidos, selecio-
no esses para minha loja e não experimento os introverti-
dos para verificar a possibilidade de minha hipótese estar
errada.
Os políticos, cartomantes, videntes e outros profissio-
nais do mesmo ramo, que advinham com precisão o que
ocorrerá no futuro, jamais cometeram erros ao realizarem
suas previsões. As afirmações desses indivíduos são va-
gas, permitindo a entrada dos mais diversos fatos na inter-
pretação para “provar” as previsões.
Quando um comentário sobre qualquer fato é muito
geral como: “um dia vai chover em algum lugar da Ter-
ra”, ele não precisaria ser falado, por ser uma conclusão
conhecida por todos. A fala que explica o geral, ou tudo,
não pode ser negada. Quando um adivinho, usando búzios
ou cartas, declara: “No próximo ano morrerá um político
influente”, qualquer político que morrer irá se enquadrar
na previsão, pois sempre algum político morre durante o
ano e ele é influente para alguém. Afirmações como: “Ha-
verá grandes mudanças no governo brasileiro”, “Um artista
morrerá de AIDS” ou “A economia brasileira sofrerá aba-
los”, situam-se nesse tipo de afirmações desnecessárias.

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Elas são abrangentes e, ao examiná-las, automaticamente
selecionamos determinados fatos ocorridos que se encai-
xam na previsão.
Ao observarmos as declarações da maioria das pes-
soas notamos que essas nada esclarecem, explicam ou
acrescentam ao já sabido ou esperado. Falar que: “nos-
so sistema de saúde está falido”, “o povo está passando
fome”, “o brasileiro gosta de levar vantagem em tudo” e
“o brasileiro deixa tudo para última hora” afirma algo que
sempre ocorre, em algum lugar, num certo momento, com
algumas pessoas. Mas também poderíamos arrumar amos-
tragens que “não deixa nada para a última hora”, “não leva
vantagem em nada”, ”tem um sistema de saúde do primei-
ro mundo” e “muitos brasileiros comem exageradamente”.
Portanto, essas afirmações são inúteis.
As pessoas, ao se expressarem desse modo, não exa-
minaram fatos para extrair conclusões. Elas aprenderam
a conclusão pronta, não sabendo que fatos foram sele-
cionados para contribuir para tal afirmação. Também não
observaram outros aspectos da situação que poderiam ter
importância, como: Qual sistema de saúde encontra-se fa-
lido? Seriam “todos os sistemas de saúde”, inclusive os
que atendem as elites? A metáfora “falido”, que significado
adquirirá junto ao contexto “sistema de saúde”? Caso a
afirmação fosse confirmada, o que seria impossível, ain-
da continuaríamos em dúvida e perguntaríamos: “Quais e
quantas foram as medidas usadas para se chegar a essa
conclusão e que tipos de erros elas podem conter?
Do mesmo modo: Quais brasileiros, quantas crianças
e adultos, deixam tudo para a última hora? As mulheres
também? Quais? E o que seria “última hora”? No dia do
vencimento, um dia antes, na última hora, minuto, etc.?
Mas as dificuldades não terminam aí. As palavras
não são simplesmente símbolos que colocamos em coisas,

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pessoas ou em fatos para identificá-las. Muitos dos vocá-
bulos usados só adquirem significados no contexto onde
são usados. Nesse caso, para que possamos decifrar seu
significado, necessariamente devemos examinar sua rela-
ção com outros conceitos já assimilados e entendidos. Es-
ses mais antigos na mente do indivíduo servirão de apoio
à compreensão. A palavra, uma vez ancorada em outros
conceitos aceitos e compreendidos, poderá nos fornecer
um significado pleno e será assimilada pelo leitor ou ou-
vinte.
Entretanto, a maioria das palavras do dia-a-dia, da
linguagem popular, são usadas nos mais diversos contex-
tos, ligando-se aos mais diversos temas e, em cada um
deles, o termo tem um significado diferente. Por isso mes-
mo falamos que as palavras usadas na linguagem popular
são, com frequência, ambíguas, isto é, apresentam signi-
ficados diversos, conforme a frase usada. Elas “nasceram”
de várias fontes e em cada uma delas adquiriram signifi-
cados múltiplos.
Consequentemente, afirmações como “levar vanta-
gem em tudo”, ou “deixar tudo para última hora” produ-
zem confusões no ouvinte e discussões sem fim: podem
ser “provadas” e “negadas”, dependendo dos argumen-
tos utilizados. Afirmações como essas não explicitaram a
origem das palavras-chaves como “levar”, “vantagens” e
“tudo”, bem como suas ligações a outros conhecimentos
aceitos. Só desse modo essas frases poderiam ter algum
sentido preciso.
Examinemos algumas frases contendo a palavra
“amor”. Este termo, por sinal muito repetido, evoca boas
e más recordações, adquirindo significados distintos con-
forme os contextos onde está colocado.
Assim, ouvimos e fingimos entender frases como:
“No amor o importante é a sinceridade”, “Matou por amor”,

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“A química do amor”, “Maria é um amor de pessoa”, ‘O
amor é sublime”, “As dores do amor”, “Fazer amor”; Um
amor de casa”, “Morreu por amor”, “Os pais devem educar
os filhos com amor”, “É preciso ter mais amor à humani-
dade”, “Se tivermos mais amor, tudo será resolvido”, etc.
Através dessa pequena amostra o leitor poderá ob-
servar que a palavra, ou o signo “amor”, foi usada em
diversos contextos, cada um muito diferente do outro. Fi-
caríamos confusos caso tentássemos decifrar o significado
de “amor”, existente na frase “Morreu por amor”, através
do significado que ela adquiriu na frase “Fazer amor”. Nas
ciências sérias, seus conceitos principais ou “construtos”
são definidos com extremo cuidado, aceitos pelos que os
usam, e sempre ligados, direta ou indiretamente, a fatos
existentes no mundo empírico.
Aqui pergunto: Qual ideia teria um leitor que nun-
ca tivesse visto a palavra “amor”, ao examinar esta lis-
ta de afirmações? Ora, os diversos contextos no qual a
palavra foi colocada, onde ela está presa, fez com que o
som ou imagem “amor” adquirisse significados totalmente
diferentes. Na maioria das vezes seu sentido é difícil de
ser entendido por quem emitiu ou por quem recebeu a
informação. A maioria das palavras de uso diário caem no
mesma dificuldade de entendimento. A palavra “over” em
inglês, tem mais de 90 significados diferentes. Essa com-
plexidade de sentidos facilita a vida do charlatão, do pre-
gador desonesto, do vigarista, de muitas psicoterapias, de
advogados diversos e dos políticos.
Esses profissionais da palavra, através de uma ver-
borreia algumas vezes ininteligível, desligada de fatos,
usam com mestria, palavras produtoras de fantasias e
emoções, dependendo do ouvinte. Com isso esses falan-
tes conseguem ludibriar os inocentes clientes, o devoto
incauto ou o fiel eleitor e vendem as ilusões desejadas.

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Quando o manipulador de pessoas emite os belos
sons: “família”, “educação”, “saúde”, “colégio”, “lazer”, “ri-
queza”, “amor”, “democracia”, “liberdade”, estas palavras
são interpretadas e sentidas pelas pessoas que as ouvem
de acordo com a experiência e os sonhos de cada um. Elas
comovem os que as ouvem. Mas os que as pronunciam,
vivem geralmente em mundos diferentes dos seus ouvin-
tes, compartilhando experiências diferentes. Cria-se uma
comunicação próxima do zero: os vocábulos trocados são
os mesmos, é certo, mas cada um os representa, em sua
mente, ajustados ao seu mundo. Aprendemos, erronea-
mente, que para ser entendido basta falar o mesmo idioma
ou as mesmas palavras. Não é bem assim...

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adIvinhos: esses desaDAPTADoS

Os videntes, bem como os que trabalham com búzios,


cartas, tarô, horóscopos, mapa astral e outros semelhan-
tes, ao tentarem predizer o futuro do país, do artista ou do
político, de fato só poderão observar os “mapas” mentais
que habitam suas próprias mentes. Esses leitores miste-
riosos “leem” apenas seus próprios pensamentos e não os
dos outros. Não há outra possibilidade. Alguns, sem malí-
cia, outros, nem tanto, descrevem para o consulente ávido
por profecias a “realidade” interna contida em sua mente,
como se fossem eventos que irão acontecer.
Ninguém pode refletir ou descrever o que não se en-
contra armazenado em sua própria mente, sua “memória
autobiográfica”. Apesar desse fato simples, eu só falo o
que aprendi, só consigo discutir ou resolver questões que
tenho em mente e que conheço. Estranhamente, os diver-
sos videntes atribuem suas visões a acontecimentos ex-
ternos, até o momento da revelação desconhecidos para o
vidente e o cliente.
O grande paradoxo dos videntes e outros semelhantes
é que eles jamais conseguiram prever seus próprios desti-
nos, sair de sua ignorância a respeito de sua incapacidade
para fazer o que dizem: eles ignoram a própria ignorância.

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Há uma verdade lógica impossível de ser negada:
nada do que existe fora de nossa mente pode ser obser-
vado, percebido, examinado ou discutido em si. Tudo que
conhecemos encontra-se intermediado pela nossa mente.
Não existe objetividade nem nas ciências chamadas
“exatas”. Tudo o que é olhado, escutado, cheirado, etc.,
sempre o será por uma cabeça que já possui algum co-
nhecimento ao nascer (inato) e, após o nascimento, cada
um tem seu aprendizado singular. O conhecimento antigo
forçosamente servirá de suporte ao novo que vai sendo
edificado. Não pode ser de outro modo.
Cada um de nós tem uma história que é humana: vi-
veu e experimentou certas situações, leu ou escutou algo,
interessa-lhe observar determinados aspectos do mundo,
somente esses, num certo momento. Qualquer observa-
dor de fatos apresenta sempre limitações: características
como a idade, sexo, maior ou menor conhecimento, a ado-
ção de certa filosofia de vida, o viver um instante particu-
lar, etc. Tudo isso, e muito mais, irá fatalmente modificar a
percepção e interpretação do fato ou as relações que estão
sendo examinadas.
Sempre, sem exceção, todos nós, ao examinarmos
um evento, lançamos nele nossos desejos, noções gerais
ou falta de conhecimento acerca do fato, de modo que o
observado mistura-se às nossas crenças. Nós nunca atin-
gimos os fatos. Sempre damos nossas versões acerca dele
ou, de outro modo, trabalhamos, examinamos e interpre-
tamos apenas as representações criadas ou construídas
acerca dos eventos, um simulacro ou amostra do evento,
uma história reconstruída, modificada e contada acerca do
fato para e por alguém. Que pena!
Muitas vezes recebemos informações de segunda,
terceira ou quarta mão. Construímos as nossas versões
dos fatos e estas sempre devem corresponder às nossas

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crenças subjacentes, aos nossos desejos, ao grupo social
onde somos aceitos e do qual fazemos parte.
As versões são frequentemente carregadas de mitos,
hipóteses e deduções antigas, aprendidas cedo e, além dis-
so, muito longe da realidade. Assim é que todos nós cons-
truímos nossos mitos particulares. Na maioria dos nossos
raciocínios não examinamos os métodos que usamos para
chegar às conclusões obtidas e, muito menos, não exami-
namos as contradições possíveis de existir no nosso pró-
prio raciocínio.
Parece-me que os videntes fazem parte do grupo dos
seres humanos. Talvez não! Não sei bem. Eles, caso es-
tejam certos, ao observarem e raciocinarem, como nós,
selecionam certos fatos, acentuam alguns aspectos, eli-
minam e generalizam outros para construírem suas ideias
conforme seus planos e intenções. Além disso, como todos
nós, ao examinarem um acontecimento não valorizam e
não selecionam aspectos do fato que não interessam às
hipóteses que formulam e que poderiam contradizer as ex-
pressas no momento. O resto... vocês decidem.

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FÉ: Um Poderoso Medicamento

Uma visão retrospectiva na história da medicina nos


conduz a uma constatação no mínimo estranha ou insólita:
grande parte dos pacientes que consultaram os médicos,
em épocas passadas, foi ludibriada.
Isso ocorreu não por má-fé dos seus clínicos, mas
sim em virtude de que os procedimentos físicos e medica-
mentos usados em grande parte dos casos não possuíam
qualquer efeito farmacológico esperado sobre a condição
que era tratada. Posso afirmar, sem muito medo de errar,
que a grande maioria dos médicos do passado ajudaram os
clientes muito mais através de técnicas psicológicas intuiti-
vas, do que em virtude dos chás, poções, ervas, sangrias,
incisões, xaropes, catárticos, sacrifícios em animais e em
seres humanos, fumigações, enemas, vomitórios, penitên-
cias e outras técnicas largamente utilizadas no passado.
As “causas” das doenças para a medicina pré-cien-
tífica eram bem mais simples do que as atuais. Às vezes
a “doença” era causada por um distúrbio ocorrido com os
elementos básicos da natureza e, logicamente, do orga-
nismo - terra, água, fogo e ar – esses, teriam que ser
restaurados. Outras vezes, a doença era proveniente de

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uma possessão demoníaca e o tratamento indicado era o
exorcismo do malfeitor. A possessão era combatida, e ain-
da o é, com bons resultados, através de orações e rezas,
danças e cânticos, numa variedade de rituais. Quando o
demônio era poderoso, a técnica era a de passá-lo para
uma outra pessoa.
Outras doenças surgiam devido ao “mau- olhado” ou
eram colocadas” por pessoas poderosas e más.
Assistimos atualmente a uma descrença na medici-
na tradicional, ao mesmo tempo um retorno às medicinas
chamadas alternativas e às técnicas antigas. Essas têm,
como sempre tiveram, a sua clientela fiel, agora em cresci-
mento. Uma boa parte dos dirigentes dessas “clínicas” são
leigos mas, a cada dia mais, médicos formados por escolas
tradicionais engrossam a fileira dos “curadores mágicos”.
Cada grupo dá sua explicação “científica” do meca-
nismo das doenças, sua etiopatogenia - assim como das
causas - sua etiologia e explicam a lógica e a razão dos
tratamentos instituídos. Todos têm algum sucesso. Para
alguns a leitura das mãos permitirá um perfeito diagnósti-
co e prognóstico da doença e do doente, ou até revelará a
doença ainda não ocorrida mas que acontecerá - é a me-
dicina palmar preventiva. Para uma outra “medicina”, toda
e qualquer doença é mostrada, apenas para mentes espe-
ciais, através dos globos oculares. Os olhos, sendo o “es-
pelho da alma”, fornecem indícios evidentes e insofismá-
veis das doenças orgânicas e mentais. Alguns “consultam”
através das cartas ou dos búzios, outros pelos horóscopos
- até por correspondência - e outros ainda, simplesmente
adivinham o que o paciente apresenta através do seu po-
der de vidente, como os sensitivos e os paranormais.
Todos esses grupos, junto aos médicos, exercem a
ajuda aos doentes, necessitados e carentes, cada um acre-
ditando mais e mais em suas próprias técnicas e pouco ou
nada nas dos adversários.

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Eu, com a minha medicinazinha simples e acanhada,
com pouco, ou melhor, sem nenhuma certeza, fico perple-
xo com tanta fé e verdades ditas com tanta empolgação
e segurança. Sei, assim como você, leitor, que todas elas
“curam”. Uma boa parte dos pacientes volta à normalida-
de após qualquer um tratamento. Cada grupo de clientes,
convicto da capacidade do seu “curador”, seja ele médico
ou não, defende, elogia, prova e preconiza para os seus
amigos, o tratamento usado. A situação é semelhante à
dos pacientes que se submetem por muitos anos ao tra-
tamento psicoanalítico e que percebem o seu terapeuta
como o mais capaz, sábio, mais eficiente e inteligente.
Da minha parte, particularmente, sou um tanto São
Tomé, “ver, para crer” é uma de minhas regras favoritas.
Tanto assim que em minhas aulas na Faculdade de Medi-
cina da UFMG já fiz comparecer umbandistas, espíritas,
cartomantes, professores de I Ching e diversos outros
profissionais da saúde física e mental que expõem suas
ideias, as quais são debatidas com os estudantes. Julgo
estar aprendendo muito.
Nesse ponto desejo lhes contar uma experiência pes-
soal e que era aqui guardada sigilosamente. Há anos pas-
sava férias em Santa Maria de Itabira, com duas filhas,
uma delas com 16 anos naquela época e que sofrera um
corte, em uma das mãos, produzido por um caco de vidro
de uma garrafa quebrada acidentalmente. Já havia me-
ses que o fato ocorrera e ela se queixava de que a dor na
mão não passava e que além disso tinha dificuldades para
executar movimentos normais. A outra, com 8 anos, apre-
sentava uma inflamação palpebral, rebelde a tratamentos
normais, aos quais já havíamos recorrido.
Seu oftalmologista informou-me que o melhor seria
lancetar e limpar o tumor e, por ser uma região delica-
da, seria prudente dar-lhe anestesia geral. Por precaução,
adiei a pequena cirurgia.

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Em uma tarde, quando trafegava na cidade em meu
jeep, combinamos fazer uma entrevista com um famoso
“curandeiro” local, autor de várias curas fabulosas. Munido
com a minha filmadora nos dirigimos para a entrevista. A
gravação foi permitida pelo curandeiro, ficando marcada
para uma hora mais tarde, pois ele desejava, antes, to-
mar um bom banho e se aprontar. A entrevista, que durou
cerca de uma hora e meia, está ainda gravada e recen-
temente revi o tape. Correu tudo a contento, com várias
explicações e demonstrações orais do meu companheiro
de atividade - ouvir e ajudar pessoas que estão sofrendo.
No final pedi ao renomado profissional que fizesse algo de
prático e real para ajudar as minhas filhas que, um pouco
espantadas, mas seriamente, assistiam a toda a explana-
ção. Prontamente ele atendeu meu pedido, gastando não
mais do que três minutos para realizar a cura solicitada,
utilizando-se de algumas rezas desconexas, às vezes inau-
díveis, tendo sempre à mão o seu terço, feito de contas
de “lágrimas de Nossa Senhora”. Inicialmente seu alvo foi
a mão esquerda da filha mais velha e, logo após, acres-
centando algumas rezas a mais, dirigiu sua intervenção ao
olho direito da mais nova.
Pois bem, ficamos mais uma semana em Santa Maria.
Após cinco dias, no máximo, as duas estavam curadas e
não tiveram recidivas. É evidente que a ocorrência me fez
pensar. Lembrei-me de Hipócrates: “as nossas naturezas
são os médicos de nossas doenças”.
Lembrei-me também de um professor, quando cur-
sava a Faculdade. Em suas inteligentes aulas repetia, fre-
quentemente, que uma grande parte das doenças são au-
tocuráveis, isto é, nosso organismo, com sua misteriosa
sabedoria e defesa elimina o mal e a disfunção sem ajuda
externa. Falava sempre acerca da expressão “ilusão tera-
pêutica”, o caso de uma cura espontânea e que se supõe

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ser devida a qualquer prática exercida ou medicamento
usado. Lembro-me de seus exemplos: os diferentes remé-
dios são receitados como eficientes na cura de gastrites
ou de úlceras. Entretanto sabe-se que essas doenças me-
lhoram ou desaparecem, e também voltam, em virtude de
diversos fatores. Muitas vezes, o pesquisador menos avi-
sado atribui ao seu remédio milagroso a responsabilidade
pelo êxito.
Você, prezado leitor, que acredita na cura pela fé,
perdoe-me por raciocinar da maneira acima descrita, dian-
te de tanta evidência. Ao andar buscando construir meu
caminho, talvez tenha traçado um caminho diverso do seu,
mas nunca antagônico, talvez com mais semelhança do
que se possa imaginar.

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A SANTA QUE FALA português

Uma antiga história, de origem provavelmente hindu,


conta que um cego perguntou a um sábio o significado de
“branco”.
— Branco é uma cor, como por exemplo, a neve, que
é branca, disse-lhe o homem.
— Eu compreendo, disse o cego. Ela é fria e úmida.
— Não! Não! Ela não tem que ser úmida e fria. Ela é
semelhante à pele do rato albino.
— Então macia, uma cor coberta de penugens? Per-
gunta o cego.
— Não! Não necessita ser macia: porcelana é branca
também.
— Talvez o branco seja uma cor dura e lisa, comple-
tou o cego.
O homem, nesse ponto, perdeu a paciência e desistiu
de dar explicações.
Esta história ilustra a dificuldade, ou impossibilidade,
de comunicação entre duas pessoas que não tiveram ex-
periências comuns. Talvez este seja um dos grandes pro-
blemas do nosso tempo.

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Assisti certa vez a uma mesa redonda, reunindo jor-
nalistas e juízes, quando se discutiu o poder judiciário visto
pelos jornalistas. A discussão era principalmente sobre a
dificuldade existente entre as linguagens dos juízes e a dos
jornalistas. Segundo deduzi, um grupo não compreende o
outro. De parte a parte surgiram argumentos acalorados,
mas tudo dentro do mais alto nível. Durante as discussões
um dos presentes argumentou: “Não vejo necessidade de
modificar a linguagem de ninguém: todos nós falamos por-
tuguês”.
Nada mais errado. Talvez seja mais fácil um juiz ale-
mão entender um juiz brasileiro, mesmo que ele nunca
tenha falado nossa língua, desde que tenha à mão um bom
dicionário, do que um brasileiro comum entender a lingua-
gem dos magistrados. O exemplo pode ser estendido para
todas as áreas do conhecimento humano. O vocabulário de
qualquer área é especializado. Os fatos e acontecimentos
são codificados dentro de cada área e organizados de uma
certa maneira, onde cada signo tem uma enorme riqueza
de informações, conforme o estudo e observações dos pe-
ritos da área. Os mesmos sons, ou códigos, nada signifi-
cam para os não-versados.
Todos sabemos ligar uma aparelho de TV, entretan-
to um técnico em consertos saberá mais alguma coisa, já
que seu modelo do aparelho é mais rico, mais abrangente
e melhor coordenado em sua mente. Mas o engenheiro,
projetor de aparelhos de TV, terá um mapa ainda mais
detalhado, organizado e rico sobre uma televisão, do que
o técnico em consertos. Nas outras atividades o mesmo
ocorre.
As palavras têm um significado especial para nós, por-
que tivemos experiências melhores ou piores, mais simples
ou mais complexas com elas. Ao olharmos o dicionário,
vamos encontrar apenas outras palavras, que significam

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coisas semelhantes, mas jamais a vivência ou experiência.
Esta é crucial para o entendimento. Para obtermos expe-
riência precisamos de tempo, talvez a vida toda, além da
posse de algum talento na área onde investimos.
Podemos, dessas reflexões, questionar, ao ler nos
jornais notícias de que um lavrador, um empresário, uma
beata, estão recebendo mensagens de Nossa Senhora ou
de um ET.
Como será que ela comunicou-se com eles? Como o
cego? Será que a Santa aprendeu português e conseguiu
captar nossas experiências culturais e sociais deste final
do século XX?
Imagino que ela ficará bastante confusa ao ouvir as
mensagens carregadas de problemas atuais do nosso mun-
do, diferentes das vividas por ela numa época X ou Y de
sua história e, além de tudo, formulada em outra língua.
Mas, de qualquer modo, sempre há leitores interessados
nesse assunto fantástico, extraordinário. Quem não tem?

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O PODER DO BOATO

Na segunda feira, Frederico entrou na seção e, viran-


do-se para a colega Inês, num tom de voz mais baixo que
o normal, comentou admirado:
— Você sabe da última? Assaltaram o chefe às 6:30
da manhã de sábado. Ele estava com Raquel, aquela nova
secretária. E acrescentou: - Os dois juntos numa hora des-
sas... só podiam estar vindo de algum motel. Você não
acha?
Estava criado o boato. A ”informação” preenchia to-
dos os ingredientes necessários para seu nascimento e di-
vulgação: o tema interessava ao grupo que o assimilava e
transmitia e, além disso, ninguém podia saber com certeza
o que os dois estavam fazendo, isto é, a informação era
ambígua. Também o assunto “sexo” sempre atraiu e exci-
tou as pessoas e uma informação acerca dos dois interes-
sava ao grupo: o chefe era antipatizado por ser exigente
e moralista, enquanto a secretária era invejada e odiada
pela beleza e exuberância de seus dotes físicos e pelas
regalias gozadas no serviço. O boato se caracteriza, quase
sempre, por ter uma afirmação que não pode ser negada,
nem confirmada.

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Os políticos são vítimas frequentes desse tipo de
“informação”. Chegam-nos aos nossos ouvidos cochichos
como: “Ouvi dizer que Q está transando, fora de casa, com
a M”, “Você sabe que W bate frequentemente em sua mu-
lher”, “O T enxuga feito um gambá, não consegue nem
tirar a roupa do corpo”, “Faz anos que P faz uso de cocaína,
só fala em público sob o efeito do pó”.
A imprensa também costuma criar e divulgar boatos.
Algumas revistas se mantêm quase que exclusivamente
divulgando as fofocas sobre a vida dos artistas.
Certos temas são mais férteis à geração de boatos.
Entre eles podemos citar os crimes estranhos, bárbaros
ou de origem sexual, as curas milagrosas, os escândalos
sociais, as disputas eleitorais agressivas e as guerras. Uma
boa parte das notícias que aparecem nas colunas sociais
são rumores, que dão prazer tanto àqueles “que são notí-
cias” como àqueles que não são.
O boato age, muitas vezes, como estimulante mental
como muitas drogas usadas. Tenho uma amiga perita em
“acordar” grupos. Presenciei em uma reunião sua habilidade:
a conversa corria morna e lenta, as pausas alongavam-se.
Percebendo o desânimo dos convidados, ela fez uso do remé-
dio milagroso. Com voz baixa e lenta, como manda o figuri-
no, começou a falar, ao mesmo tempo que olhava para um e
outro do grupo. Este, que a conhecia bem, percebeu, através
dos gestos teatrais, que algo de interessante estava pronto
para vir à tona. Sônia iniciou, falando espaçadamente:
— Não sei se vocês conhecem a Terezinha, uma que
mora no apartamento 13.001, no meu prédio, casada com
aquele homem moreno, bonitão. Ela tem dois ou três fi-
lhos. Ouvi dizer, de fonte fidedigna, que ela largou o mari-
do e já se casou de novo.
Nesse ponto ela interrompeu a narração, observou
sorrateiramente a expressão facial de cada um, decepcio-

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nados, já que o “furo” não era tão sensacional. Ela, usando
de seu traquejo de excelente transmissora de boatos, cria-
va a frustração propositadamente. Esperou alguns instan-
tes e completou a informação:
— Sabem com quem ela se casou? Não sabem? Com
a Ruth, uma loira, baixa, feiinha, telefonista da firma do
ex-marido.
Nesse instante o grupo despertou, o boato começa-
va a agir. Todos, excitados, pediam mais detalhes, ou, no
mínimo, a repetição do que acabavam de escutar. Sônia
continuava a história, calmamente, sabendo que estava
vitoriosa:
— Isso mesmo, atualmente as duas estão morando
juntas, lá em Lagoa Santa, há dois meses, numa casa de
campo... Terezinha sempre gostou de ecologia. Segundo
soube, as duas estão arrependidas de não terem tomado
a decisão há mais tempo. Quem está incontrolável é o Ar-
thur, seu marido.
A partir daí, todos falavam ao mesmo tempo: uns
pediam minúcias do caso, outros tinham algo semelhante
para contar. Outros ainda tomavam partido, defendendo ou
atacando a conduta dos envolvidos, quando o marido era
acusado de ser um “banana”, permitindo que sua mulher,
uma sem-vergonha, o largasse com os filhos. Cada um se
identificava rapidamente com os personagens, projetando
neles seus recalques, frustrações e outras mazelas.
Assisti a tudo sem dizer nada. Tive a sorte de levar
Sônia em casa, pois ela estava sem condução. Rimos jun-
tos do efeito de sua fofoca e fiz alguns comentários. En-
tretanto, para meu espanto, ela me disse que o caso fora
criado na hora. Exultante com o sucesso obtido, contou-
me para finalizar:
— Já inventei várias histórias parecidas: não é difícil.
Não existe a moradora do 13.001, nem o apartamento.

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Os personagens foram descritos de maneira vaga, que diz
tudo e não diz nada. Usei uma linguagem superficial, com
poucos detalhes. Com eles grande parte das pessoas se
identificam.
Esse tema provoca fantasias, emoções e desejos.
Despertei na mente de cada um deles seus próprios bo-
atos, mentiras, lendas, mitos e dramas particulares. Eles
excitaram-se, não com minha história, mas sim com suas
histórias particulares. Essa é sempre mais excitante.

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