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Ex-Internas Descrevem

Segredos do Hospicio
GALENO PROCÓPIO M. ALVARENGA
www.galenoalvarenga.com.br

Esse livro faz parte do acervo de publicações do Psiquiatra e Psicólogo


Galeno Alvarenga. Disponibilizamos também a versão impressa, que
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Galeno Procópio M. Alvarenga

Ex-Internas Descrevem
Segredos do Hospicio

BELO HORIZONTE
2009

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Copyright © by GALENO PROCÓPIO M. ALVARENGA

Supervisão Gráfica
Sofia Lopes

Imagens capa e contracapa


Galeno Procópio M. Alvarenga

Diagramação e Capa
Marcos de Oliveira Lara

Revisão
Maria Isabel da Silva Lopes

Impressão
Sografe

Contato c/ o Autor
galenoalvarenga@terra.com.br
www.galenoalvarenga.com.br

Alvarenga, Galeno Procópio de Mendonça


A473 Ex-internas descrevem segredos do hospício /
Galeno Procópio de Mendonça Alvarenga. –
Belo Horizonte: Ed. do autor, 2009.
105 p.
ISBN: 978-85-907543-5-0

1. Literatura brasileira – Romance. I. Título.

CDD: B869.35
CDU: 869.0(81) – 31

Elaborado por:
Maria Aparecida Costa Duarte
CRB/6-1047

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Agradecimentos

Livro dedicado, inicialmente, aos milhares de pacientes


com os quais convivi durante anos no Instituto Raul Soares
em Belo Horizonte. Convivendo diariamente com o sofri-
mento desses internos pude aprender um pouco sobre o ho-
mem perturbado pelo transtorno mental e emocional.
Meus agradecimentos também aos psiquiatras mais ex-
perientes que ali trabalhavam e que serviam de dicionário,
(“pais dos burros”), para as minhas freqüentes perguntas:
Dr. Milton Gomes; Dr. Ivan Ribeiro e Prof. Silvio Cunha,
Diretor do Instituo por diversos anos.
Por último, meus agradecimentos aos funcionários do
Instituto Raul Soares; uma mistura de saudade e tristeza ao
me lembrar de seu árduo e penoso trabalho. Apesar disso, a
maioria dos funcionários expressava uma imensa preocupa-
ção, aceitação e tolerância para com os pacientes, muitas ve-
zes agressivos e perigosos. Palmas para Alzira, Carmozina e
Hercília e muitos outros funcionários.
Um agradecimento especial ao prezado colega e ami-
go de Santa Maria do Itabira, Dr. Domingos Lage, diversas
vezes Diretor do Instituto Raul Soares, que, atendendo pron-
tamente meu pedido, enviou-me diversas fotografias do Ins-
tituto Raul Soares.

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Sei que boa parte de minha personalidade foi desenha-
da durante os estimulantes anos vividos no Instituto Raul So-
ares. Muito Obrigado a todos esses construtores do Galeno
atual.

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SUMÁRIO

Capítulo 1......................................................9
Capítulo 2....................................................15
Capítulo 3....................................................23
Capítulo 4....................................................31
Capítulo 5....................................................41
Capítulo 6....................................................47
Capítulo 7....................................................53
Capítulo 8....................................................59
Capítulo 9....................................................65
Capítulo 10..................................................75
Capítulo 11..................................................89
Capítulo 12..................................................97
Capítulo 13................................................105

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CAPÍTULO 1

Jovens nervosos, vestindo roupas desbotadas e amas-


sadas, de olhares distantes, entravam e saíam diariamente
do pequeno apartamento. Todos tentavam esconder, através
da cabeça inclinada para o chão, seus rostos marcados pela
preguiça, cansaço e tédio. Na rua, diante do apartamento,
formavam-se filas de automóveis conduzidos por motoristas
apressados e apreensivos. Este espetáculo diário, como não
podia deixar de ser, despertou a curiosidade dos vizinhos,
preocupados em ditar as normas de vida aos outros. O que
estaria ocorrendo ali? Era a pergunta que estes faziam.
Corina morava no movimentado apartamento há um
ano e meio. Passou a residir ali desde sua separação de Ar-
thur, seu segundo marido, um influente advogado. No luxu-
oso apartamento, muito bem decorado e confortável, mora-
vam, ainda, seu filho Lucas, com pouco mais de dois anos,
fruto do seu segundo casamento e Eduardo, um rapaz de 19
anos, filho do primeiro casamento.
Formada em Comunicação Social, ela trabalhou por al-
guns anos num jornal da cidade como crítica de artes.

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Galeno Procopio M. Alvarenga

Essa função lhe permitiu conhecer inúmeras pessoas


que trabalhavam não só nas artes em geral, como também na
área política e jurídica. Perdera seu emprego devido ao seu
gênio explosivo, à sua dificuldade de aturar desaforos. De-
sempregada, às vezes publicava artigos como “free-lancer”
em revistas diversas, o que lhe garantia algum dinheiro sufi-
ciente para seu sustento.
Corina, apesar dos seus 41 anos, continuava bela como
sempre fora: alta, magra, cabelos castanhos claros, ligeira-
mente anelados e cortados curtos, lindos olhos caramelados
brilhantes um pouco puxados, lábios grossos e sensuais rode-
ando sua boca rasgada, mostrando seus dentes muito bran-
cos. Possuía um nariz fino e bem feito, ligeiramente arrebi-
tado, indicador de seu temperamento inconstante. Além do
seu porte elegante, Corina cativava todos pela sua desinibi-
ção, cultura, inteligência, charme e, por que não dizer, esper-
teza, o que nunca lhe faltou. Por todas estas qualidades con-
quistou desce cedo, com seu jeito sedutor, todos os homens
que desejou. Talvez todos os homens, mesmo os não muito
interessados na beleza feminina, sentiam-se entusiasmados e
transformados pela sua presença encantadora. Corina, mes-
mo não desejando, despertava o interesse dos homens com
os quais convivia. Parece que suas alegrias mostradas exter-
namente, na verdade escondiam sua tristeza interna em vir-
tude do seu continuado fracasso nas diversas profissões ten-
tadas, na ausência de uma vida conjugal estável e nas poucas
amizades confiáveis que possuía.
Assim é que sua beleza, sagacidade e simpatia, a curto
prazo não foram suficientes para impedir que sua vida cami-
nhasse para um rumo não desejado, causando-lhe enormes
problemas.

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Corina esbarrou em diversos obstáculos, em parte de-


vidos à sua altivez e à confiança exagerada em si mesma. As
barreiras encontradas e não ultrapassadas foram transfor-
mando sua vida alegre e fácil em tristeza, dúvidas, confusões
e dificuldades insolúveis.
A aparente tranquilidade de Corina foi interrompida
bruscamente, numa quarta-feira do mês de abril, a partir de
um simples telefonema dado para a polícia por um vizinho
zeloso, observador e preocupado com a ordem pública e,
principalmente, a conduta dos homens. Este vizinho, ao ob-
servar o movimento exagerado, o vaivém diário das pessoas
que entravam e saíam do apartamento, telefonou à polícia
pedindo providências para esclarecer o que ali ocorria.
Numa manhã ainda escura, quando o sol ainda não ha-
via nascido, diversos policiais chegaram inesperadamente ao
apartamento de Corina, trazendo nas mãos um mandado de
busca e apreensão. Corina e seus filhos ainda dormiam quan-
do foram acordados pela campainha insistente na porta. Ao
abrir, ela foi dominada asperamente pelos policiais truculen-
tos. Foi uma experiência nova em sua vida, jamais tinha sido
tratada dessa maneira: todos os homens sempre foram extre-
mamente gentis com ela.
Assustada com os policiais, mas tentando aparentar
calma, não teve outro recurso do que mostrar todo o apar-
tamento para ser revistado. Para seu desespero e do filho, os
policiais encontraram pacotes de maconha prensada e pape-
lotes de cocaína prontos para serem vendidos. Estava explica-
do o motivo de tantas visitas ao apartamento.
A quantidade apreendida foi enorme: 8 quilos de coca-
ína e 35 quilos de maconha.

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Galeno Procopio M. Alvarenga

Para piorar a situação que já era péssima, Corina, acre-


ditando no seu charme e beleza e também no poder do di-
nheiro, tentou seduzir os policiais. Não deu resultado. Os
policiais, além de não terem aceitado o suborno, seguros do
que faziam, a algemaram e levaram para a prisão, relatando
na ocorrência “apreensão de drogas e tentativa de subor-
no”. Junto com Corina foi preso também seu filho Eduardo,
maior de idade.
Interrogada, Corina declarou à polícia que ela jamais
fez tráfico de drogas. Confessou ainda que, como mãe de
Eduardo, não impediu que este usasse o apartamento para
tais fins. Afirmou que sempre foi contra o uso de drogas e,
muito mais, contra a venda de drogas. Na realidade seu filho
já havia sido detido em outras ocasiões pelos mesmos moti-
vos. Foi esse fato que desencadeou uma série de transforma-
ções na vida de Corina. Além de ser presa, participando de
todas as dificuldades existentes na vida do cárcere, ela teve
seus sofrimentos aumentados em virtude de outros proble-
mas familiares que, nessa ocasião, ocorreram: seu irmão,
contaminado pela AIDS, veio a falecer. Um outro irmão foi
internado com o diagnóstico de diabetes e teve que amputar
uma perna. Além disso, ela própria lutava na justiça contra
seu ex-marido para manter a guarda do filho menor, que cor-
ria o risco de ser entregue ao pai, principalmente após sua
prisão.
Um ditado popular afirma que tanto o bem como o
mal são provisórios, isto é, duram apenas por um certo tem-
po, talvez devido ao hábito. A frequência de um fato parece
levar-nos a tolerar o acontecimento anteriormente conside-
rado insuportável. Assim aconteceu com Corina.

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O desespero e susto inicial com a prisão aos poucos fo-


ram diminuindo, não porque o cárcere fosse um lugar agra-
dável para morar, mas devido ao costume, à adaptação à nova
moradia.
Mal assessorada por advogados amigos, entre os quais
havia antigos namorados e futuros pretendentes interessa-
dos mais em conquistá-la, Corina se viu jogada “às traças”,
abandonada juridicamente. Foi, aos poucos, perdendo sua
linha de defesa, não mais sabendo o que devia fazer. Num
certo momento ela obtinha o desejado, num outro, poucos
dias depois, perdia o conquistado. Esta oscilação, de um lado
para o outro, pedidos para isso e para aquilo, ora ganhando
a liberdade, ora retornando à prisão, foi minando a confian-
ça nela mesma e na justiça. Por fim, para piorar sua vida já
ruim devido às manobras dos advogados apaixonados, mas
incompetentes, Corina foi jogada num manicômio. Para seus
defensores esta seria a melhor solução para as imensas e in-
superáveis dificuldades, a cada dia maiores, para se conseguir
a liberdade pretendida. O plano tolamente elaborado era sua
transferência da prisão para a casa de saúde, onde seria in-
ternada por um pequeno período como doente mental. No
hospital ela deveria se submeter a um “tratamento de saúde”
por estar louca. Uma vez tratada e curada pelos psiquiatras,
receberia alta e também uma sentença favorável da justiça,
isso é, sua liberdade, pois suas ações ilegais tinham sido rea-
lizadas sem sua capacidade plena de imaginar a gravidade do
ato delituoso. Em outras palavras, ela agira erradamente por
estar louca na época. Depois do tratamento, uma vez sadia
e reconhecendo seu erro, prometendo não reincidir, ganha-
ria a liberdade e o processo seria arquivado. Mas como disse,

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os advogados eram inexperientes e incapazes de cuidar da ré


adequadamente e, em lugar de ajudá-la, criaram-lhe mais so-
frimentos.
As soluções jurídicas não eram tão simples como as
imaginadas pelos seus defensores. Corina, uma vez internada
no manicômio, lá permaneceu por quase um ano, abandona-
da, sem tratamento, sem laudos favoráveis, ao contrário do
esperado. Para piorar sua situação depois de um longo tem-
po passado no hospital, em lugar de obter o desejado após
os exames e “tratamentos”, não ganhou a sonhada liberdade,
mas, sim o retorno à prisão para cumprir cinco anos de pena.
Esta só não foi maior devido ao fato do juiz encarregado do
julgamento ter se apaixonado por ela, pois, do contrário, sua
pena seria de 10 anos na Penitenciária Estadual Alice Cor-
reia, a mais temível do Estado. Em resumo, Corina, depois de
quase enlouquecer no Hospital Psiquiátrico São Judas Tadeu,
retornou à prisão. Ela não mais se assustou com este retorno
ao presídio, pois sabia que seria libertada em pouco tempo,
em parte devido ao período já cumprido e em parte devido à
redução da pena por “bom comportamento”.
O que era detestável, passou a ser bom. Ao sair do ma-
nicômio, Corina lamentou sua saída por ter deixado no hos-
pital algumas amigas, entre elas Duca, de quem sempre se
lembraria. Ao abandonar o hospital também deixou sem rea-
lizar alguns projetos interessantes ali iniciados.

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CAPÍTULO 2

Um ano depois do seu retorno à prisão, exatamente


no dia 13 de agosto, depois de haver passado anteriormente
dez meses internada no hospital, Corina recebeu a visita de
Cristina Calixto, uma ex-freira companheira da Casa de Saú-
de São Judas Tadeu. Ao sair do manicômio, Corina, que se
entusiasmou com a recuperação da paciente Duca, como era
chamada, pediu à estranha e séria Cristina para que cuidasse
de sua protegida.
Nessa tarde de agosto de ventos frios e fortes, Cristi-
na, depois de muito adiar, decidiu reencontrar Corina que há
muito não via e para isso dirigiu-se à prisão estadual.
As duas inicialmente conversaram banalidades acerca
do tempo. Depois, mais relaxadas e à vontade, foram relem-
brando fatos alegres e tristes, presenciados e vividos durante
a permanência delas naquela casa de saúde mental.

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Galeno Procopio M. Alvarenga

Corina agora parecia um pouco mais velha, cansada e


gorda, mas ainda mantinha o mesmo desembaraço e lideran-
ça. Assim é que foi ela que iniciou a conversa após as duas se
sentarem, frente a frente, em duas cadeiras duras de madei-
ra, separadas por uma mesa de ferro pintada de branco, na
pequena lanchonete da prisão. Ao lado e em volta da mesa
onde as duas se sentaram, a todo instante policiais gordos e
de olhares inquisidores, ao entrarem para tomar um refrige-
rante ou um café que ali era servido, observavam os presentes
ali reunidos.
- Parece que já se passaram muitos anos... vejo tudo mui-
to distante, enfumaçado, estávamos em junho. Encarcerada na
prisão, mas também aprisionada aos pensamentos anteriores
do tempo não mais existente vivido entre políticos, banquei-
ros, médicos, advogados e juízes, inocentemente continuava a
acreditar no meu prestígio entre os homens, na minha capa-
cidade de sedução e nas minhas supostas virtudes femininas
infalíveis. Mas tudo isso já havia morrido e eu não sabia.
- Arthur, meu ex-marido, estava imune a tudo isso, ele
tinha mais sabedoria e esperteza do que eu. Para piorar, eu
não imaginava que ele fosse tão capaz e eu tão incompetente.
Por ele ser advogado sagaz não foi difícil destruir-me, já que
estava intimamente ligado aos donos do poder. Eu continua-
va sonhando que ele, bem como todos os homens, me amava
e por isso não me esforcei como devia , deixando o proces-
so correr livremente. Achava que tudo seria resolvido com
o tempo, com negociações honestas e amistosas. Os fatos,
ignorando meus desejos e crenças, caminharam para o ou-
tro lado. Ele, sendo inteligente e muitas vezes maquiavélico,
ardilosamente programou um plano para destruir-me.

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Ex-Internas Descrevem Segredos do Hospicio

Oh! Só agora percebo minha inocência. Apesar de es-


tar tudo dando errado, eu continuava acreditando nas mi-
nhas ideias e não nos fatos.
Nos primeiros dias, como ocorre no início de qual-
quer desgraça, recebi a visita e o apoio de vários amigos.
Todos eles, sem se interessar muito pela minha vida, faziam
rápidas visitas de cortesia, teciam considerações superficiais
acerca do meu caso, estimulavam-me e faziam-me acredi-
tar que tudo iria acabar bem, que não devia me preocupar...
Os amigos reforçavam as mesmas falsas crenças idiotas, as
mesmas quimeras que habitavam minha mente, em lugar de
mostrarem meu engano. Por tudo isso eu encontrava neles
um apoio falso, os sonhos existentes na minha mente ino-
cente. Alguns desses amigos ocasionais, os mais ousados,
foram até à delegacia, segundo soube posteriormente, ten-
tar convencer o delegado a mudar o flagrante obtido e rela-
tar outros fatos para permitir minha liberdade. Eu ficava sa-
bendo dessas manobras jurídicas por intermédio de minha
mãe, pois ela visitava-me sempre, e também por amigos.
Mas lamentavelmente o conhecimento dos fatos pro-
cessuais na verdade me abatiam, pois eram quase sempre
negativos. Quando recebia boas notícias, estas rapidamen-
te mudavam para pior. Assim eu ficava animada por alguns
momentos ou dias, para depois regressar no pessimismo
de sempre. Tudo dava errado. Só depois de muitos meses
soube que tudo tinha sido tramado pela mente diabólica de
Arthur, a cabeça que eu não conhecia. Ele, proposital e sub-
tilmente, decidira minar minha autoconfiança, derrotar-me
através da destruição de minha vitalidade, a garra que sem-
pre tive.

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Galeno Procopio M. Alvarenga

Como seu jogo foi indireto, as jogadas vinham como


se não partissem dele, ficava difícil para mim descobri-las.
Arthur coordenava de longe tudo. Lentamente, como fora
planejado, ele ia conseguindo o que desejava. As minhas
aparentes “vitórias” eram de fato derrotas, jogadas suas, en-
godos previamente preparados para aniquilar-me. Tudo foi
arrumado para que eu julgasse, por uns poucos dias, que seria
vencedora e, uma vez animada com o sucesso, com o retorno
da confiança que sempre tive, diminuísse meus esforços e re-
laxasse minha guarda. E foi o que ocorreu. Caí na armadilha
como uma idiota. Tenho ódio de pensar nisso.
Para pôr em prática seu plano, ele contou com ajuda de
diversos meios não muito corretos: da amizade e do suborno
do delegado, de policiais e oficiais de justiça encarregados do
caso, talvez até do juiz. O delegado fingia estar sendo subor-
nado pela minha família para facilitar os relatórios, mas, na
realidade, era Arthur quem dirigia e propunha tudo. A estra-
tégia estabelecida junto à lei era soltar-me e prender-me por
várias vezes até sentir-me impotente diante de tudo, desani-
mada e deprimida.
Agora, um ano depois, acredito que Arthur imaginava
que, desesperada com tudo, eu me suicidasse. Nesse ponto
falhou, mas faltou pouco para que isso acontecesse. Além
disso, todo o dinheiro que me coube com a partilha em vir-
tude de nossa separação, sumiu com os falsos subornos, parte
do seu jogo. Todos os já subornados por ele recebiam minha
ajuda financeira para trabalhar contra mim. Minhas ações,
apesar dos meus gastos, resultaram em nada, o que alegrava
o grupo inimigo e fazia Arthur rir do seu sucesso e da minha
desgraça de estar em suas mãos.

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Ex-Internas Descrevem Segredos do Hospicio

- É, já vivi uma situação semelhante no colégio onde


era freira - gemeu Cristina - foi terrível, mas acredito que as
freiras tinham menos técnica. Não sei, talvez até mais...
- Aprisionada no seu plano, minha família e eu fomos
nos ligando tolamente aos inimigos, colaborando com eles,
mas imaginando que estávamos a combatê-los. Primeiro foi
o delegado, que recebeu uma bolada para libertar-me. Três
dias depois mais dinheiro, para adiar o processo da guarda
do filho. Por uma semana o menino ficou com a avó materna.
Em seguida, por decisão do juiz, a guarda foi entregue ao pai.
Talvez até um dos meus advogados tenha sido subornado
pelo meu ex-marido. Certa vez ele disse-me que, como o pro-
cesso havia sumido propositadamente por ele com a ajuda do
pessoal da justiça, a sentença iria demorar muitos meses. Mas
fui presa e novamente solta dois dias depois. Eu não entendia
nada diante de tanta desinformação. Minha fé na justiça, meu
ânimo, meu poder e carisma feminino foram sendo destruí-
dos pouco a pouco.
O plano arquitetado não ficou só nisso. A vingança do
meu ex-marido pretendia ir, e foi, mais longe. Sempre surgia
algum fato novo, aparentemente sem importância, que for-
çava o adiamento da sentença. O meu advogado trazia, para
alegrar-me por uns dias, as “boas novas”, promessas de que o
fim desejado estava próximo, mas tudo continuava na mes-
ma. Por insistência do advogado e de policiais que se diziam
amigos, a minha família deu propinas para os jornalistas que
cobriam as páginas policiais dos jornais, para que eles não
noticiassem os fatos ainda não comprovados.
Mas o oposto ocorreu, os jornais e TV noticiaram com
destaque e com fotos a minha entrada algemada na prisão,
bem como minha saída, quando fui solta temporariamente.

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Galeno Procopio M. Alvarenga

Foi Arthur quem pagou, com meu auxílio indireto,


propinas para que as notícias fossem publicadas com des-
taque.
Os desencontros não acabaram aí. Um magistrado do
Supremo tinha sido meu namorado por um determinado pe-
ríodo. Depois brigamos, ele era miserável, não gastava nada
comigo. O processo, por azar meu, caiu em suas mãos. Logo
após uma das vezes em que fui libertada, ele como relator
do recurso ao Supremo proferiu uma dura sentença contra
mim. Na verdade esse magistrado queria ver-me apodrecer
na prisão, se possível para o resto da vida, bem distante dele
para não sujar seu nome íntegro diante da opinião pública.
Ele temia minhas declarações acerca do nosso envolvimento,
apesar de que todos os seus colegas sabiam dessas relações.
Imediatamente após essa sentença, fui novamente conduzi-
da à prisão com o aparato policial de sempre: camburões,
algemas e policiais portando metralhadoras.
Aos poucos, frustrada constantemente, fui ficando de-
sesperançada. Os amigos que inicialmente me procuraram,
desapareceram. Para tentar uma última solução, talvez sui-
cida, minha família, através da orientação dos advogados,
procurou transferir-me da prisão para o manicômio, onde
conheci você, alegando que eu já me havia tratado com um
psiquiatra e que não estava bem da cabeça. Tentaram esta
estratégia para tirar-me, de vez e o mais depressa possível, da
prisão onde eu me encontrava junto com outras presidiárias:
ladras, assassinas, assaltantes de banco e sequestradoras.
- Você sofreu muito, mas será recompensada. Deus, no
céu, assiste a tudo e lhe fará justiça. Eu sei disso, vejo tudo
em meus sonhos... oriento-me por eles.

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Ex-Internas Descrevem Segredos do Hospicio

- Essa solução foi tomada diante da situação cada vez


pior para mim, pois havia rumores de que eu teria de cumprir
uma pena de mais de 10 anos de prisão.
Como todo mundo sabe, tráfico de drogas é conside-
rado crime hediondo. Aconselhada pelo meu advogado, mi-
nha família intercedeu junto a meu antigo psiquiatra para que
esse desse um atestado de doença mental para mim. Dois
dias após a entrada do documento, eu já estava internada,
onde nos encontramos, na Casa de Saúde São Judas Tadeu,
manicômio público administrado pelo governo. Eu saí de um
lugar horrível, a prisão, e caí num outro, talvez pior do que
o anterior. Arthur, como sempre, participou das decisões.
Consultado pelo juiz, seu amigo e colega de turma, se con-
cordava ou não com a minha transferência, ele prontamen-
te aceitou, imaginando que era muito mais fácil destruir-me
num hospital de loucos do que numa prisão, já que nesta eu,
apesar de tudo, sobrevivi. Uma vez internada passei a convi-
ver no manicômio com pacientes estranhos e de mais difícil
convivência do que os presos. Ali fui obrigada a presenciar
situações nunca imaginadas. Talvez tenha sido bom, não sei...
de qualquer modo aprendi muito lá.
- É terrível, Deus me livre, não quero um lugar daque-
le nem para meus inimigos... e tenho alguns deles. Mas tem
também suas vantagens e às vezes tenho saudades de lá.

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CAPÍTULO 3

- Convivi com mulheres agitadas, que agrediam quem


se aproximasse delas. A maioria suja, mal-educada e inculta,
algumas delas era deficientes mentais. Uma delas passava ho-
ras e horas sem se mexer, estacionada no mesmo lugar, não
saía nem para comer ou fazer suas necessidades, que eram
feitas ali mesmo. Não pronunciava uma palavra. Uma outra
ficava o dia todo cantando hinos religiosos nostálgicos, acer-
ca da morte, da vida no paraíso, de pecados, punições e re-
compensas.
Ela, sem olhar para ninguém, tendo seus olhos voltados
para o teto da enfermaria, parecia estar no céu. Uma pacien-
te colocava suas mãos fortes e gordas numa das paredes no
estreito corredor e os dois pés na outra. Espichada e com o
corpo endurecido nessa posição estranha, ia subindo pelas
paredes apertando a palma das mãos numa das paredes e os
pés na outra.
Assim chegava rápida ao teto, observada pelas outras
pacientes, talvez invejando sua façanha de circo.

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Galeno Procopio M. Alvarenga

Lá no alto, firmando-se numa das mãos e soltando a


outra rapidamente, pegava uma mosca que estava pousada
na parede escura. O que ali não faltava era mosquitos. Segu-
rando-a pelas pontas dos dedos polegar e indicador, coloca-
va a mosca na boca e a comia gulosamente. Descia do teto
como subiu. Este ritual se repetia de tempos em tempos, tal-
vez quando a fome específica aumentava.
- Ela ainda está lá, lembro-me dela, tinha os cabelos
anelados e escuros. Seu nome é.... esqueci.
- Zenaide, não é? Interrompeu Cristina.
- Não sei se foi do seu tempo? Tinha uma paciente que
mais parecia um chimpanzé. Era pequena, encurvada, negra,
usava sempre um pequeno boné na cabeça. Pulava e fazia
caretas como fazem os macacos. Não sorria e não falava, sua
expressão facial pouco ou nada mudava.
Às vezes quebrava o silêncio, emitindo assobios mui-
tos finos e ensurdecedores através de um canal formado pela
contração dos seus grandes lábios grossos espichados para a
frente. Dormia encostada no canto do corredor. Corria no
hospital um boato que ela era filha de um tratador de ani-
mais de um circo que cruzou com uma macaca domesticada
que andava de bicicleta. Nunca ninguém soube ao certo a
verdade.
- Puxa! Ali tinha de tudo. Não sei o que comentaram a
nosso respeito.
- Com frequência eram internadas na enfermaria pa-
cientes loucas e altamente agitadas. Estas, uma vez ali che-
gando e libertadas pelas enfermeiras, soltas e sem os efeitos
dos medicamentos, lançavam para todos os lados pontapés,
cuspidas e murros, que atingiam a todas nós.

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Ex-Internas Descrevem Segredos do Hospicio

Apanhei muito no início, aos poucos fui aprendendo a


me defender, ou a fugir, conforme o físico da maníaca.
- Eu - sorriu Cristina - também já levei muitos chutes
e murros dessas pacientes... depois, uma vez curadas, muitas
delas tornavam-se minhas amigas e algumas, ou a maioria,
nunca lembravam o que tinham feito.
- Era difícil dormir num lugar daqueles. À noite, uma
paciente, - às vezes, eram várias - andava de um lado a outro
do enorme e estreito corredor mal-iluminado. Perambulava,
sem dormir um minuto sequer, como se estivesse obrigada a
marchar sem permissão de descansar. Muitas usavam a pri-
vada várias vezes, e após usá-la pareciam ter prazer nos for-
tes estrondos que soavam por toda a enfermaria e que eram
ouvidos à distância, irritando as que desejavam dormir. Em
torno de sete horas da noite as portas da enfermaria se fecha-
vam e diversas pacientes, que haviam passado o dia fazendo
serviços fora da enfermaria, voltavam para dormir.
- Eram as protegidas. Eu, depois de algum tempo, tive
essas regalias. Você também, antes de sair para a pris... tinha
toda liberdade...
- Sim, andava por onde desejava, até na rua. Com a che-
gada dessas internas que trabalhavam fora da enfermaria, o
número aumentava muito e havia uma superlotação na hora
de dormir. Com a enfermaria fechada, a corrente de ar dimi-
nuía e criava-se ali um odor abafado, quente e pútrido, dando
a todos a impressão de estarem habitando uma pocilga mal
lavada. Até hoje sinto este cheiro fétido invadindo minhas
narinas, quando me lembro daquelas noites mal dormidas no
hospital, onde, sem termos o que fazer, nos íamos deitar em
torno das sete horas.

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Galeno Procopio M. Alvarenga

- Era insuportável o fedor, principalmente nos dias


quentes e úmidos. Nessas madrugadas o mau cheiro era ain-
da pior.
- Eu não gostava do cheiro do convento onde permane-
ci parte de minha vida. Lá tudo cheirava a lisofórmio e cre-
olina, a limpeza. Este odor é ainda pior. Para dormir, enfiava
um chumaço de algodão em minhas narinas. Também pouco
adiantava...
- O excesso de pacientes fazia com que algumas delas,
as mais doidas ou as que tinham sido internadas há pouco
tempo, dormissem no chão, espalhadas nos colchões sujos
de resto de fezes, sangue de menstruações e urina. Ali habi-
tavam milhares de gordos percevejos e pulgas, que, devido
ao calor dos corpos quentes, abandonavam seus esconderijos
em busca de alimentação farta. Não havia cobertas ou tra-
vesseiros. As mais lúcidas ou mais fortes e protegidas pelos
médicos ou enfermeiras tinham seus quartos, até escaninhos
para guardar alguns de seus pertences. Muitas passavam todo
o dia espichadas ou encurvadas nas camas e raramente se le-
vantavam do seu nicho.
- Nós conseguimos esse privilégio após algum tempo...
não nos primeiros dias.
- Sim, senão seria pior ainda. Uma das mais protegidas
era a Conceição. Lembra-se dela?
- Quem não se lembra dela? Fizemos até uma festa para ela.
- Conceição, protegida do diretor do hospital, de vez
em quando sofria ataques. Caía no chão contorcendo-se
toda, depois desmaiava. Ela era epiléptica. Sua estatura era
baixa, muito magra, tinha a face cheia de espinhas, cabelos
pretos, lisos e mal cuidados.

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Ex-Internas Descrevem Segredos do Hospicio

Aparentemente era uma mulher sem atrativos. Fica-


va sempre na porta de entrada da enfermaria, sentada o dia
todo num velho tamborete amarelo. Ali, sem se levantar, vi-
giava a todos, qualquer um que entrava ou saía da enferma-
ria era examinado e julgado por ela. Conceição sempre foi
uma beata obstinada e como tal tinha o direito de sair para ir
à missa e mesmo a rezas que se realizavam na igreja próxima
ao São Judas Tadeu. O que ela não suportava era o namorico
das internas com internos ou com funcionários do hospital.
Sempre que alguma de suas inúmeras inimigas fosse vista
conversando com um homem qualquer, ela ia até seu prote-
tor para denunciar a infratora por se comportar indignamen-
te. Todos a odiavam devido às suas denúncias, mas ninguém
ousava fazer nada contra ela devido ao medo do seu poder
junto ao diretor do hospital. Mas tudo foi satisfatoriamente
resolvido com sua alta. Lembra-se dela?
- Chama aquilo de alta? Expulsão! Comemoramos
com bebida e cantos. Naquele dia roubamos um pouco de
álcool do quarto da enfermagem, pedimos à Hercília, aque-
la guarda imensa da noite, um pouco de açúcar, apanhamos
limão capeta no pé junto à enfermaria e não foi difícil água,
assim preparamos uma deliciosa caipiríssima. Foi uma farra,
nunca mais me esquecerei. Foi a primeira vez na vida que
bebi. Mas a comemoração merecia.
- A barriga de Conceição começou a crescer de modo
estranho, a cada dia mais. Ela sempre calada querendo es-
conder o que não podia. Após nove meses tudo ficou escla-
recido.
- Ela, a virgem, guardiã das donzelas do hospital,
estava grávida graças ao Baiano, um guarda do hospital que

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Galeno Procopio M. Alvarenga

sempre estava de cara fechada, séria e era para todos, um ci-


dadão acima de qualquer suspeita. Realmente ele não tinha
cara de conquistador.
- O Baiano, que teve a coragem de andar com Concei-
ção, trabalhava na mesma enfermaria onde estava internado
Sô Costa, o que se envolveu no assassinato do estudante.
Lembra-se? Nesta época eu já era veterana no hospital, co-
mentou Cristina.
- Esta eu anotei no meu caderno. Colecionava casos
ali, pensando em escrever sobre eles no futuro. Ainda penso
nisso, guardei inúmeros fatos ali existentes. Nessa época já
estava recuperada do susto inicial. Penso que foi numa noite
de sexta-feira.
- Não, foi numa quinta-feira, sexta não foi. Tenho mo-
tivos para lembrar. Não me pergunte o porquê.
- O hospital teve um movimento diferente do normal
naquele dia. Sô Costa era alcoólatra e estava internado há
anos no hospital. Era um homem inteligente, que quando
moço havia sido “ponto” de teatro no Rio de Janeiro. Como
tinha uma prodigiosa memória, apesar de continuar a beber
mesmo dentro do hospital, ele era capaz de reter até 15 al-
garismos que lhe eram ditos sem errar. Repetia todos, após
fechar os olhos, como se estivesse lendo na sua mente os al-
garismos que acabara de escutar.
Como era mais inteligente e sagaz do que a maioria
dos funcionários do hospital, Sô Costa foi, lentamente, fa-
zendo trabalhos de datilografia para os residentes, depois
aprendeu a dar injeções, fazer um curativo, redigir um docu-
mento e assim passou a ajudar todos, servindo como “pau-
para-toda-a obra”.

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Esperto, ele adquiriu também poderes especiais, ia e


voltava da rua à hora que desejasse, sem pedir a ninguém. Ele
comprava para mim no Bar Azul, logo que entrei no hospi-
tal e antes das minhas regalias, cigarros e comestíveis. Certos
dias ele bebia mais do que o permitido para os pacientes es-
peciais do hospital. Numa dessas vezes, numa manhã, um es-
tudante de medicina que acabara de entrar para trabalhar ali,
desconhecendo o poder dele junto aos profissionais de saúde
do hospital, inocentemente ordenou que Sô Costa fosse en-
carcerado na enfermaria e proibido de sair desta até segunda
ordem, pois ele estava altamente alcoolizado. Entretanto, já à
tarde, Sô Costa tinha saído para a rua e estava tomando mais
outras pingas no bar da esquina.
O estudante era também um frequentador desse bar.
Geralmente, antes de ir para casa, ele tomava um gostoso leite
com açúcar queimado, que ali era disputado pelos fregueses.
Nesse dia, por sorte sua em virtude de uma dor de barriga, o
estudante foi para sua residência sem passar pelo Bar Azul.
Sô Costa lá estava, bebendo sua pinga na mesa de sempre,
quando entrou um estudante de estatura e corpo parecido
com o estudante de medicina.
Ele levantou-se passo a passo de sua cadeira, sem nada
falar, aproximou-se do estudante, que junto a colegas con-
versava e tomava seu lanche. De repente, diante de todos
os presentes assustados e sem tempo para reagir, Sô Costa
tirou do bolso um pequeno canivete e cravou-o nas costas
do estudante desconhecido que caiu agonizante. Mas tarde
descobriu-se que a vítima, que faleceu, foi confundida com
o estudante de medicina que o havia prendido na enfermaria
naquela manhã.

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Galeno Procopio M. Alvarenga

Percebendo seu erro, ele ainda teve tempo de dar uma


segunda canivetada no seu próprio peito. O estudante mor-
reu sem saber porquê. Sô Costa, preso e em estado grave, foi
levado ao Pronto Socorro onde foi operado ao coração, no
lugar onde o canivete havia entrado. Escapou da morte por
sorte e devido aos esforços dos médicos e quando começou
a melhorar, pulou do quinto andar do hospital, tentando um
suicídio. Mesmo assim, não morreu. Melhorando, cumpriu
pena no próprio hospital, onde nunca mais bebeu. Seu gran-
de amigo e protetor até sua morte por hemorragia cerebral,
foi o Dr. Sílvio, o mesmo médico que ele tentou matar quan-
do assassinou o rapaz inocente.
- A vida tem dessas coisas... coitado do Sô Costa, pa-
gou caro pelo que fez, ficou até morrer internado no hospi-
tal trabalhando vinte e quatro horas por dia, depois teve um
derrame e outro. Mas continuava fumando muito... era um
bom homem, muito religioso, gostava de rezar. Conversáva-
mos muito.

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CAPÍTULO 4

- Internava-se muitos alcoólatras no hospital. Quando


ali cheguei falava-se muito a respeito da morte de uma alcoó-
latra diante de todos... você assistiu, Corina.
- Sim, uma boa parte das pacientes assistiram à sua
morte. Foi um outro fato que me marcou, acontecido numa
tarde de quarta-feira, um dia sem movimento no hospital. Eu
estava na portaria quando chegou um carro da polícia tra-
zendo dentro, para ser internada, uma alcoólatra, um moça
nova... tinha os traços finos e belos apesar da desnutrição.
Com dificuldade, pois não andava, ia ser levada de maca para
a enfermaria. Ela veio ao hospital acompanhada de seu irmão,
que não morava com ela e que a encontrou caída na rua. Aí
aconteceu o desastre!
- Quando estavam sendo tomados os dados acerca da
paciente, esta começou a passar mal e sua respiração parou.
Ali mesmo na portaria. Eu segui tudo. Foi um corre-corre dos
diabos, de um lado para o outro, ninguém sabia o que deveria
ser feito, pois faltava competência aos presentes para tratar o
problema. O hospital estava quase vazio de médicos.

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Galeno Procopio M. Alvarenga

Ela foi levada às pressas para uma sala ao lado acom-


panhada pelo irmão confuso e por diversos funcionários do
hospital, todos curiosos acerca do desfecho que teria.
Como D. Alzira, uma enfermeira que já tinha traba-
lhado num hospital de urgência, tinha algum conhecimento
desses casos, tomou a frente diante da apatia dos demais:
- Vamos fazer uma massagem no coração, rápido - gri-
tou D. Alzira.
Ao apertar seu tórax foram expelidos com violência,
para todos os lados, através da boca semiaberta da paciente,
pedaços de pão molhados no café com leite que tomara antes
de ser conduzida ao hospital. Estes se espalharam e gruda-
ram na face e no avental dos que a rodeavam, criando expres-
sões de nojo nos presentes. Outros vieram auxiliar e cada um
dava um palpite:
- Tem que dar bicarbonato, mas não é o que a gente
toma para azia.
- Chame o médico clínico de plantão, rápido, ponha
um aviso no alto-falante.
- É preciso fazer alguma coisa!
- Agora? Não tem clínico no hospital, só tem psiquia-
tras e eles não entendem nada disso.
Enquanto isso a paciente piorava. Massagens no cora-
ção e respiração boca-a-boca foram realizadas pelos menos
enojados pelo quadro que presenciavam. A paciente conti-
nuava inerte na maca.
- Vamos fazer um eletro nela, traga o aparelho!
- Para quê eletro nesse estado?
- Para ver como está seu coração.
- Mas sabemos que parou!

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Ex-Internas Descrevem Segredos do Hospicio

- Quem sabe damos um eletrochoque?


- Você está doida! Vamos acabar de matá-la!
Nesse instante, apesar de todos saberem que não havia
no hospital ninguém capaz de resolver aquela emergência, o
alto falante informou: “Atenção, atenção! Há uma paciente na
sala ao lado da portaria, precisando urgentemente de cuida-
dos de um cardiologista ou clínico geral. Por favor, queiram
se dirigir a esta sala no primeiro andar... Atenção, atenção....”
Alguns começaram a chorar. Uma assistente ficou páli-
da e a sentir tonteiras. Foi levada às pressas para fora da sala
por outras que também aproveitaram para sair. Um assisten-
te, sem saber o que falar, virou-se para o irmão da paciente:
- Mas também... como você traz para aqui sua irmã?
Devia tê-la levado ao Pronto Socorro ou a um hospital onde
são atendidos esses casos.
- Como eu ia saber que ela ia passar mal? Encontrei-a
deitada na rua, dei-lhe um café com pão, pois parecia estar
faminta. Ajudado por policiais, trouxe-a para o hospital pois
informaram-me que aqui ela seria internada.
- É, mas não a devia ter trazido, veja o que está aconte-
cendo...
- Vamos entubá-la, gritou uma enfermeira animada
com sua própria ideia.
- Como se faz isso? Eu não sei, - sussurrou a atendente
que continuava a fazer massagens no tórax da paciente, pos-
sivelmente já morta.
- Para que entubar? - perguntou uma que não tinha ver-
gonha de demonstrar sua ignorância.
- Não sei, não, mas sei que às vezes é necessário, já vi
casos onde foi muito útil a entubação - disse, com a voz quase
inaudível, a que tinha defendido a medida salvadora.

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Galeno Procopio M. Alvarenga

- Devíamos fazer uma traqueostomia! Ela não está res-


pirando...
- Quem irá fazer?
- Deve ter alguém.
Após esforços de todos, pelo menos quanto aos palpi-
tes, alguém decidiu tomar uma medida mais ousada.
- Vamos verificar se ela está ou não viva.
- Boa ideia, gritou uma.
A ex-paciente, agora um defunto, foi examinada. Pro-
curaram um espelhinho para colocar diante de sua boca para
verificar se ainda respirava. Não encontraram nenhum. Com
muito custo conseguiram um pedaço emprestado de uma
paciente, que a tudo assistia assustada e que aproveitou a
ocasião para afastar-se daquele espetáculo tragicômico, com
a desculpa de ir buscar o espelho. As massagens no tórax con-
tinuavam. Com a ajuda do mísero e comprido pedaço de es-
pelho e através da orientação de uma paciente que também
assistia a tudo, abriram os olhos da moribunda, para ver se
havia reflexo. Os teste do espelho e dos olhos foram negati-
vos. Foi dado o parecer final: a paciente estava morta. Nada
mais havia a fazer. Todos saíram da sala lentamente. Médi-
cos psiquiatras, residentes, psicólogas, assistentes sociais,
enfermeiros e pacientes diversos caminharam em silêncio e
de cabeça baixa para fora da sala onde ocorreu o espetáculo.
Alguns choravam copiosamente, lamentando o triste aconte-
cimento.
- Eu não assisti a isso... ainda bem! O fato foi muito co-
mentado.
- Mas o hospital tinha também seus casos menos trági-
cos, até cômicos. Um deles, apesar de negativo para o corpo

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clínico, vazou para todo o hospital. Lembra-se? Este foi na


sexta, tenho certeza.
- Qual?
- O da noite de sexta-feira, 22 de junho, tem quase um
ano, uma noite muito calma, calma demais para as sextas,
ainda mais em que época, a de fogueiras e festas. Até aquele
momento não tinha acontecido nenhuma ocorrência com-
plicada no Hospital São Judas Tadeu. Nos fins de semana o
número de internações crescia com uma frequência elevada
de bêbados, drogados, esquizofrênicos e maníacos agitados.
Fiquei sabendo desse caso através do Dr. Márcio, ele ficou
meu amigo.
- Se ficou! Todo mundo comentava, você ia para sala
dele e ficava lá por muito tempo.
- Ficávamos conversando apenas, nada mais! Pode
acreditar. Ele ficou sabendo de tudo através dela mesma. O
caso foi assim, segundo ouvi:
Distante do hospital tranquilo, Clara, agitada após ter
vestido seu short ultracurto, saiu com os amigos para os pon-
tos de sempre. Em cada local onde parou, fumou, bebeu e
drogou-se como nas outras vezes. No bar, sentada nas cadei-
ras cheirando a frituras, ela bebia e discutia com os amigos
dos fins de semana. Como suas palavras saíam velozmente
de sua boca pequena, uma boca que parecia nunca se abrir,
tornava-se difícil compreender o que Clara pronunciava. En-
tretanto, o que era falado ou entendido tinha pouca impor-
tância, pois os temas eram sempre os mesmos e conhecidos
de todos: o custo de vida, as paqueras, a praia melhor para
viajar durante as férias e os lugares da cidade que tinham uma
melhor cerveja.

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Galeno Procopio M. Alvarenga

Clara era jovem, solteira, talvez até bonita, aparentando


ter trinta anos. Ao terminar o curso superior, conseguiu um
emprego razoável, um trabalho de que não gostava, a não ser
quando recebia o salário, que sempre achava ser pouco.
Seus cabelos loiros avermelhados, grossos e cheios de
pequenas tranças, combinavam com suas roupas coloridas e
extravagantes. Não tinha limites, geralmente falava mais do
que devia, fumava muito e às vezes bebia tanto que não mais
se lembrava do que havia feito.
A noite estava terminando e o cansaço se instalou entre
os amigos do bar. Clara, jovem e forte, continuou sozinha
suas andanças pelos botecos. Ora num, ora noutro, os pile-
ques continuavam. Já bem tarde, quando a manhã se apro-
ximava, ao sair cambaleando de um dos bares foi despertada
por sons animados de tambores, chocalhos, tamborins e pan-
deiros. Estimulada e atraída, caminhou automaticamente em
direção aos sons produzidos por um grupo de rapazes que
cantavam, sambavam e tocavam pelas ruas da cidade ador-
mecida.
Sonolenta e cansada das conversas e pileques, Clara
despertou diante da magia e força dos sons, aproximou-se
do grupo e facilmente se enturmou. Sem inibições, entrou
na dança bamboleante e imediatamente foi aceita com entu-
siasmo pelos componentes do grupo. Sendo a única mulher
presente, os rapazes, após formarem um círculo em torno de
Clara, começaram a gritar e a bater palmas diante de cada ba-
lançar excitante e ritmado do seu bumbum. Cada requebro
de Clara provocava urros que eram ouvidos à distância.
Encantada pelos sons do batuque, encorajada por gri-
tos e palmas, ela sonhava: dançava, pulava e requebrava, ca-

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Ex-Internas Descrevem Segredos do Hospicio

denciada conforme os sons poderosos provocados pelas bati-


das dos tambores e berros da plateia excitada. A cada gingado
dela, mais brados e mais liberdade de ação.
Tudo dominava a mente receptiva de Clara.
Num rebolado mais ousado e violento, seu “short”
apertado rompeu-se de uma só vez, abrindo-se de cima a bai-
xo no seu traseiro. O entusiasmo dos presentes aumentou. A
plateia foi crescendo. Pessoas que voltavam para casa e alguns
moradores da vizinhança aproximaram-se para presenciar o
espetáculo inusitado. Clara, indiferente ao acontecido, pare-
ce que se tornou, com o incidente, ainda mais animada. Os
uivos, à medida que ficavam mais fortes, provocaram nela
mais movimentos ritmados pela orgia que ali se instalara.
Não demorou muito para que Clara, para alegria de
muitos e espanto de poucos, tirasse de uma só vez, a blusa e
restos do “short” rasgado, passando a dançar, em plena praça,
apenas de calcinha e sutiã vermelhos. A animação aumenta-
va, contagiando todos os assistentes daquela festa inespera-
da. Não era sempre que surgia ali um acontecimento como
aquele.
Outros espectadores paravam para ver o espetáculo:
casais que voltavam cansados para casa, homens que se diri-
giam ao trabalho, andarilhos diversos. Moradores insones da
vizinhança diante do barulho largavam suas camas ou TVs e
se debruçavam nas janelas para desfrutarem da cena ousada,
interessante, divertida e “ao vivo”. Alguns poucos, desejosos
de dormir, reclamaram do barulho e ameaçaram chamar a
polícia.
Clara, cada vez mais estimulada, dançando e cantando
alcançou o clímax. Num piscar de olhos, como um furacão

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Galeno Procopio M. Alvarenga

tirou o resto de suas minúsculas e últimas peças vermelhas.


Exclamações de prazer e de apoio dos assistentes foram ouvi-
das a centenas de metros. Os tambores rufavam estrondosa-
mente com batidas superanimadas, enérgicas e rápidas.
Mas “o que é bom dura pouco”. Para tristeza da plateia
alvoroçada, de repente a festa acabou. Chegaram os poli-
ciais.
Clara, sem perceber, continuava sua dança mesmo sem
os sons dos tambores, até que foi paralisada pelos fortes bra-
ços de dois soldados. Através dos gritos de um deles, ela foi
intimada a se vestir imediatamente. Os espectadores pesaro-
sos e frustrados diante da interrupção brusca do prazer goza-
do naquela noite fria de junho, exatamente quando imagina-
vam cenas ainda mais ousadas e interessantes, se dispersaram
tristonhos.
Clara mostrava-se agitada. Embriagada, continuava a
ter uma conduta e conversa estranha, pois, aos berros, exigia
dos policiais seus direitos de cidadã por não ser uma qual-
quer:
- Tenho uma profissão, ouviu?! Não sou uma merda,
não! Solte-me!
Colocada no camburão, cada vez mais seguros de que
se tratava de uma doente mental os policiais decidiram levá-la
para o hospital de loucos. Cinco horas da manhã o camburão
chega à porta do Hospital São Judas Tadeu que, felizmente
continuava, naquela noite de sexta-feira, sem a ocorrência de
nenhum caso complicado. Todos os pacientes estavam cal-
mos, sem exigir cuidados especiais, não houve brigas entre os
internos e, até aquele instante, nenhum louco tinha sido leva-
do às pressas pela polícia ou familiares para ser internado.

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O militar sonolento chegou ao hospital levando Clara


segura pelas suas mãos fortes. Ela saiu do camburão esperne-
ando e gritando:
- Solte-me, solte-me. Idiota! Desgraçado!
O soldado, calmo quanto à sua força, indiferente aos
berros, tocou a campainha. Chegou à porta Mateus, com os
cabelos desarrumados e o rosto inchado:
- O que foi?
- Vim trazer esta louca, está bêbada e drogada...
- Entra... aqui está escuro, deixe-me acender a outra
lâmpada...
- Esta mulher aí - apontando para Clara - estava dan-
çando nua na rua - continuou a falar o policial. - Quando a
agarramos, disse que era uma profissional de valor e não uma
qualquer. É uma louca! Nesse instante, o soldado deu uma
sonora gargalhada.
- Meus Deus! É você, Dra. Clara! -exclamou Mateus
olhando espantado para ela.
- Estou dizendo para esse imbecil, há muito tempo,
quem sou eu. Ele não acreditou... Falei com ele que hoje era
o dia do meu plantão aqui no hospital. Ele não quis me ouvir!
tornou a repetir, irritada.
- Mas você me telefonou, dizendo que não podia tirar o
plantão, pois estava acamada, com TPM, com uma dor terrí-
vel devido a enxaqueca.
- Tomei umas aspirinas, melhorei e saí para tomar uns
ares.
O atendente levou a doutora para dentro do hospital,
despediu-se dos policiais, pedindo-lhes desculpas pelo ocor-
rido. Em seguida medicou a médica com água doce e com

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um resto de café bem forte existente na garrafa térmica. Logo
depois a Dra. Clara vestiu um jaleco e assumiu o plantão da-
quele fim de madrugada fria e calma de junho.
- Puxa! Que vergonha!
- Nada, ela ficou um pouco envergonhada apenas por
um dia ou dois. Depois, entrou na mesma vida de sempre.

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CAPÍTULO 5

- Um dos acontecimentos mais tristes que presenciei no


hospital foram as transferências para Barbacena. Lembra-se?
Conversamos muito acerca disso ainda quando estávamos
internadas. Sei que você falava muito acerca delas... eu não
gosto de lembrar-me, pois já estive na lista para ser transferi-
da. Só não fui por sorte, trocaram meu nome, Cristina, com
um outro, Cristiana, ela foi e eu fiquei. Foi muita sorte.
- Era terrível. Mesmo eu, que sabia que não seria trans-
ferida, sentia-me mal naquele dia e nos seguintes. Era deses-
perador ver aquelas mulheres andando e cantado, cercadas
por guardas do hospital e policiais, caminhando pelos cor-
redores do hospital em direção ao camburão que as levaria
ao trem na estação e, posteriormente talvez para o fim. To-
das tinham medo de serem escolhidas para irem, ou melhor,
para morrerem em Barbacena.
- Exato, a maioria não mais voltava, para muitos a via-
gem era sem retorno.
- O número de pacientes internadas sempre foi, ain-
da deve ser, maior do que a capacidade do hospital e dessas

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muitas eram casos crônicos, isso é, não melhoravam com os


tratamentos. Além disso, muitas pacientes ou não tinham fa-
mília para cuidar delas, ou mesmo tendo estas não mais as
desejavam em casa. Esses fatos levavam o hospital São Judas
Tadeu a ter um excesso de pacientes e precisar de vagas para
internar outros, os chamados casos agudos, pacientes que
respondiam ao tratamento e que possuíam famílias interessa-
das em recebê-los de volta uma vez melhores. Assim é que, de
tempos em tempos, era inventada uma lista dos pacientes que
seriam transferidos para o hospital de Barbacena. A lenda era
que poucos dos que eram transferidos escapavam de morrer
naquela casa de saúde. Uns morriam de disenteria, outros de
desnutrição, alguns ainda faleciam devido ao frio, doenças
infecciosas diversas, agressões físicas, acidentes, etc. Sempre
houve um mito, que corria de boca-em-boca no hospital, que
em Barbacena, após os pacientes adormecerem era servido o
famoso “chá da meia noite”, para se referir a um veneno dado
em forma de chá, fornecido aos pacientes selecionados com
o propósito de matá-los para diminuir a população de doen-
tes e para fornecer cadáveres para os estudantes de medicina
das diversas escolas. Por todas essas histórias, mentiras ou
verdades - isso ninguém sabia acerca do Hospital Colônia de
Barbacena - todos os pacientes, bem como muitos médicos e
funcionários, tinham pavor de ser convocados para compor
a lista temida de transferência para lá. A noite era o dia da
despedida, do último adeus de muitos que tinham vivido até
aquela data na Clínica São Judas Tadeu.
- Que horror!
- A lista era sigilosamente preparada com antecedên-
cia pelos psiquiatras treinados e antigos, ajudados pelos en-

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fermeiros e encarregados da enfermaria onde estavam inter-


nados os pacientes. Um a um os pacientes eram examinados
e os contemplados anotados em folhas de papel que ficavam
com o próprio médico, escondidas no seu bolso, sem o co-
nhecimento de ninguém. Entretanto, muitos pacientes e
mesmos os serviçais, que sempre tinham seus protegidos,
desconfiavam, através de pistas que sempre eram forne-
cidas, e descobriam alguns possíveis pacientes que seriam
transferidos. Durante os dias, ou mesmo as semanas que an-
tecediam o dia tenebroso, o hospital ficava tenso enquanto
a lista era formada. Todos sabiam que a lista era preparada
com alguns critérios, por sinal injustos, pois os selecionados
eram os mais fracos e sem poder algum. Geralmente eram
escolhidos os pacientes que não tinham onde morar, sem fa-
mília, caducos, bobos ou loucos de longa duração. Somente
ocasionalmente completavam a lista alguns pacientes que
por terem um protetor dentro ou fora do hospital eram colo-
cados na lista como vingança, forma de agressão ao seu pro-
tetor. Nesse caso a escolha tinha mais um caráter político.
No hospital sempre moraram durante anos alguns pacientes
protegidos por políticos ou comerciantes influentes. Estes
protetores corrompiam o pessoal detentor do poder no hos-
pital com presentes diversos e, desse modo, o paciente ficava
internado sem ser incomodado ou receber alta. Se o médico
tinha coragem e poder, e era contra o político ou a autorida-
de, o paciente era mandado para Barbacena como forma de
represália e vingança contra o poderoso. E com isso a briga
se formava.
- Isso sempre existiu, poder, contrapoder, pirraças,
vinganças.

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Galeno Procopio M. Alvarenga

- A lista terrível só era apresentada aos enfermeiros ou


enfermeiras encarregadas de ajudar na remoção às três horas
da manhã, minutos antes da viagem. Apesar do serviço ser
estafante e desagradável, muitas enfermeiras se candidata-
vam a esse penoso trabalho, pois era ganho, além de diárias
que elas não gastavam, um dia de folga a escolher. Uma vez a
lista apresentada, as enfermeiras encarregadas começavam a
caça às pacientes listadas. A partir daí as enfermeiras treina-
das e prontas para toda e qualquer reação, começavam a acor-
dar as escolhidas, que despertavam sem saber o que tinham
que fazer. As roupas azuis do hospital eram abandonadas ali
mesmo no leito e trocadas apressadamente. Os velhos, sujos
e rasgados vestidos, blusas e calcinhas pessoais, que tinham
sido usadas pela paciente antes de entrar no hospital e que
foram guardados nas gavetas dos móveis carcomidos pelas
traças e baratas, novamente eram vestidos. Estas velhas rou-
pas eram armazenadas formando feixes, uma peça enrolada
na outra e amarradas com barbantes amarelos onde era preso
um pedaço de papel rasgado com o nome da proprietária.
Após se vestirem, a maioria já tendo descoberto a razão
daquela troca de vestimentas, as pacientes eram conduzidas
a um grande quarto isolado, vigiado com energia por enfer-
meiras e policiais fardados, que já estavam prontos para o que
desse e viesse. As mais lúcidas pediam em vão, aos gritos e
ajoelhadas, muitas e muitas vezes, para serem libertadas e não
irem. A maioria, diante da impotência contra a realidade indi-
ferente, orava em voz alta na esperança de assim serem ouvi-
das, outras expressavam seu desânimo com lamentos verbais e
gritos de ódio. A maioria chorava e algumas poucas tentavam
de todas as maneiras, sem sucesso, fugir daquele lugar.

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Uma ou outra ameaçava ali mesmo o suicídio, tentando


se enforcar com as próprias mãos, sua única arma naquele
momento. Mas todas as tentativas para escapar daquele plano
bem urdido sempre foram infrutíferas, já que todas as provi-
dências para impedir qualquer falha já tinham sido tomadas
com antecedência. Na hora da partida os pacientes, em fila,
caminhavam vigiados dos dois lados, em direção aos veículos
que iam conduzi-los até a estação de trem.
Assisti a tudo isso, ainda choro quando lembro dessa
violência. Nessas madrugadas frias e tristes, vi as rejeitadas
caminhando ao longo do corredor em direção ao camburão,
essa pequena multidão, o lixo hospitalar, umas agarradas às
outras, rezando e cantando canções típicas da igreja ou cân-
ticos do interior do estado. Jamais esquecerei essa cena, esse
belo, melodioso e assustador coro das condenadas à morte.
Até os policiais, homens geralmente rudes e acostumados a
ver e lidar com o sofrimento alheio sem nada sentirem, ao
assistirem a esse espetáculo de desespero e impotência não
resistiam e choravam diante da caminhada tétrica.
Diante de todos nós se arrastavam as pacientes selecio-
nadas: as que tinham uma saúde física precária, velhas, alei-
jadas e algumas, devido à gravidade de sua doença mental,
incapazes de cuidarem de si. Em Barbacena elas seriam aban-
donadas e fatalmente morreriam. Todos sabiam disso. Acre-
dito que muitos familiares, que tinham abandonado seus en-
tes “queridos”, incapazes de matá-los através de seus próprios
meios, torciam para que alguém fizesse isso por eles. Mesmo
os não-familiares, os que diziam ser protetores desses infe-
lizes, com a transferência deles ficariam livres do incômodo
de ter que telefonar para o hospital pedindo notícias ou ao

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Galeno Procopio M. Alvarenga

médico amigo, ou ainda ter que, numa tarde de domingo, em


lugar de tirar uma soneca, ir até o manicômio fazer-lhe uma
visita. Tudo isso dá trabalho, tudo isso chateia, portanto, com
a morte, esses aborrecimentos felizmente acabam. Talvez por
tudo isso, essa “morte anunciada” continuou por muito tem-
po acompanhada pelo silêncio da população médica e das
autoridades em geral. Para que serve um doente mental sujo,
fedorento, aleijado, velho e criador de casos? Todos fogem
deles, alguns fingem, por um certo tempo, gostar deles e to-
mam um pouco de seu tempo pelo bem deles. Mas este esfor-
ço hercúleo sempre dura pouco...
Geralmente o transporte das pacientes do hospital até a
Estação da Central onde elas seriam embarcadas de trem, era
feito através de um ônibus antigo ou no próprio camburão
policial. Num vagão de terceira classe com poucos assentos,
as pacientes se acomodavam confusas, sonolentas e sem es-
peranças. Muitas delas, deitadas no chão do carro, soluçavam.
No dia seguinte a briga se formava, pois logo cedo alguém
avisava a autoridade que seu desejo não havia sido respeita-
do. Durante dias discutia-se a lista.
- De que escapei por um triz! Também rezei muito na
véspera. Eu sabia que não ia, meus sonhos avisaram-me. Deus
ajudou-me.

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CAPÍTULO 6

- Certa vez um jornalista de prestígio, que possuía um


paciente protegido, ficou indignado com a ida dele para Bar-
bacena e decidiu fazer algumas reportagens acerca do hospi-
tal, criticando tudo que nele havia. Primeiramente ele fingiu
ser um paciente alcoólatra e foi internado no hospital. Depois
de anotar o que desejava, frequentou por mais de uma sema-
na o hospital, entrevistando diversos pacientes. Eu mesma fui
uma das entrevistadas e contei inúmeros casos que presenciei
e outros que tinha escutado. Dias depois os jornais noticiavam
suas reportagens contando horrores do hospital. O escândalo
ganhou as manchetes de todos os jornais e o diretor do hos-
pital foi procurado para explicar as denúncias. Depois de idas
e vindas foi marcada uma visita ao hospital pelos jornalistas e
uma entrevista com o diretor deste, o Professor Herman, um
descendente de alemão, alto, magro, de olhos azuis brilhan-
tes, inteligente e frio nas suas respostas. O Professor Herman
caminhava e falava sempre devagar, parecendo examinar cada
palmo em que pisava e cada palavra emitida.

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Galeno Procopio M. Alvarenga

- Na hora esperada o diretor foi ao encontro dos jor-


nalistas, fotógrafos e cinegrafistas diversos com a calma de
sempre e começou a mostrar o hospital. Eu, como paciente
antiga e conhecida de todos, inclusive de alguns jornalistas
meus ex-colegas, caminhei junto ao grupo. Após ter sido ser-
vido um café aos visitantes no refeitório dos médicos, que era
o único lugar limpo ali existente, as visitas andaram pelo hos-
pital. Durante seu trajeto pelas alas que contornam os lados
da casa de saúde, avistaram alguns pacientes completamente
nus caminhando ou deitados sob um sol escaldante no pátio
de cimento. Os jornalistas, espantados, perguntaram:
- Mas, senhor diretor! Eles não têm roupas para vestir?
Andam como animais!
Herman, com a tranquilidade de sempre, sem mudar o
tom de voz baixo e costumeiro, respondeu com ironia:
- Ora, vocês estão espantados? Apenas aqui e em mais
algumas poucas praias do país, as pessoas podem, sem serem
importunadas, tomar um banho de sol como eles, nuas. Eu
mesmo gostaria de estar ali, sem paletó e gravata.
Caminharam mais um pouco e pararam diante de uma
enfermaria onde se ouviam gritos e uma correria apressada
de enfermeiros. Os repórteres queriam entrar para anotar o
que estava acontecendo. Entretanto, o diretor, cauteloso, lhes
disse sempre com sua voz calma:
- Meus queridos jovens, eu não aconselho vocês a entra-
rem aí. Os loucos dessa enfermaria são os mais perigosos do
hospital, estão aí isolados. Alguns já mataram várias pessoas.
Vocês, sem treinamento, poderão ser atacados, feridos e até
mortos por eles... Eu mesmo tenho medo de ver um paciente
nesse local, só entro acompanhado de guardas bem treinados.

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Todos, amedrontados com essas palavras, rapidamen-


te desistiram de registrar o que estava acontecendo na baru-
lhenta enfermaria. Caminharam alguns passos e um repór-
ter perguntou acerca das condições precárias do Hospital de
Barbacena, da falta de alimentação e do número elevado de
mortos dos que ali eram internados. Com fleuma, o diretor
mostrou um senhor de óculos, cabelos já grisalhos, gordo,
baixo e rosado, que estava sentado no fundo de uma sala, ves-
tido com um terno claro, limpo e muito bem posto:
- Vejam aquele homem ali. Ele acabou de vir de Barba-
cena, está em ótimas condições.
Todos viraram o rosto e fitaram o senhor. Certifica-
ram-se que Barbacena não era tão ruim assim. Mas, de fato,
o senhor que ali estava era um velho psiquiatra aposentado,
muito rico e que jamais ficou um só dia internado.
A visita continuou. Alguns pacientes super protegidos
e que viviam ali há muito tempo, foram mostrados como
exemplos de bom trato. Entre eles estava um velho padre,
que passava a maior parte do tempo andando pelos corre-
dores do hospital e pregando em voz alta e possante, desde
que as pessoas estivessem distantes dele. Ao se aproximarem
dele, abaixava a cabeça e nada mais dizia. Só voltava a pregar
quando as pessoas se afastavam.
O grupo encontrou e conversou também com um pa-
ciente contador de piadas sem graça e com um outro cha-
mado Valdir, que sempre trazia consigo um violão e cantava
versos pornográficos. Este conseguiu tirar risadas dos visi-
tantes e tranquilizá-los por instantes. Depois entrevistaram
Homero, um paciente que passava o dia falando sem parar
apenas em neologismos. Toda a sua conversa era ininteligí-
vel, falavam que ele sofria de uma lesão cerebral.

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Galeno Procopio M. Alvarenga

Pelos corredores passaram antigos pacientes que ti-


nham a liberdade, por bom comportamento, de circular à
vontade: - Piquira, que cuidava da horta e dos porcos, e que
mais tarde foi raptado e levado para uma fazenda do interior
de Minas. Carioca, baixo, cabelo espetado, contador de casos
de mulheres, sempre puxando os “esses” como os moradores
e nativos do Rio de Janeiro. Turco, bonachão, gordo, muito
lento para falar e andar e que contava milhares de vezes a
mesma história de como os turcos inventaram o futebol:
- Cortaram a cabeça de um inimigo e começaram a chu-
tá-la, foi assim que nasceu o futebol, doutor.
Depois de longa caminhada pelo hospital e finalizan-
do com um novo café, os visitantes saíram satisfeitos com o
que viram. No dia seguinte os jornais estamparam, não o que
eles viram, mas o que tinham nas suas mentes antes da visi-
ta, talvez o que eles sempre imaginaram acerca de pacientes
mentais e de hospital. As reportagens usaram os chavões ou
metáforas de sempre: “Hospital São Judas Tadeu, Sucursal
do Inferno”, “O Caminho para a morte”, “Loucos e Assas-
sinos convivem juntos”, “As jaulas do Hospital”, “Pacientes
Nus nos pátios”, etc.
A notícia que mais chamou a atenção dos inteligentes
jornalistas foi a de que havia um atendente que morava no
próprio hospital, encarregado de cuidar do necrotério, e que
havia sido pego tendo relações sexuais com uma defunta.
Essa história sempre foi comentada entre pacientes e médi-
cos do hospital, de tempos em tempos, entretanto parecia ser
apenas uma lenda, jamais alguém presenciou o fato contado.
- Mas também, com aquela cara fina, seus olhos es-
pantados e fixos, seu corpo duro e seu andar arrastado, seus

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tremores nas mãos e nos pés... ele só poderia arrumar uma


morta, as vivas fatalmente correriam dele.
- O que eles não sabiam era que ali dentro, mais escon-
didos, surgiam casos interessantes entre médicos e o pessoal
que trabalhava ali. Todos sabiam que os atestados para diag-
nosticar a causa de morte eram assinados pelo mesmo médi-
co, Dr. Cornélio, que jamais vira ou assistira ao paciente. Este
era seu trabalho. Ele, após encontrar o prontuário em cima
da mesinha onde ficava o porteiro, no saguão de entrada do
hospital, escrevia sempre e assinava, como a causa de morte
do paciente, sem ler nada do que estava escrito na papeleta:
“Síncope cardiorrespiratória”. Ele comentava feliz:
- Todos os que morrem passam por isso, para o coração
e o pulmão.

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CAPÍTULO 7

- Eu gostava muito do dia das visitas. Ganhava alguns


presentes ao levar e ajudar os pacientes a encontrarem suas
famílias. Tinha até um senhor idoso e simpático, que ia lá
mais para me ver do que visitar sua mulher. Gostei muito
dele. Cristina terminou sua frase com um suspiro.
- É, lembro-me dele, você comentava comigo, era um
homem charmoso, moreno e forte. Onde anda ele?
- Sumiu, depois de uma visita nunca mais deu notícias,
logo depois que sua mulher foi transferida para Barbacena.
Penso muito nele ainda.
- As visitas eram às quintas e domingos, na parte da
tarde. O hospital, desde cedo, enchia-se de familiares dos
pacientes, cada um trazendo comidas e agasalhos em suas sa-
colas de supermercado. Os encontros eram geralmente com
muita emoção, às vezes com discussões, queixas e até brigas.
Após as visitas muitos pacientes pioravam e tinham crises
nervosas. Os enfermeiros, que algumas vezes passavam fome,
gostavam desse dia, pois recebiam das visitas algumas miga-
lhas a mais. As visitas, naquele dia, faziam um grande esforço
para agradar seu pai, mãe ou filho internado.

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Foi numa quinta-feira à tarde, num dia movimentado de


visitas, que um médico saiu do hospital e pediu ao plantonista
para que aplicasse um eletrochoque num paciente que deveria
procurá-lo em torno das três horas. Exatamente às três horas
apareceu na portaria um senhor procurando pelo Dr. Porto. O
plantonista, já avisado, foi ao seu encontro.
- Está procurando o Dr. Porto? Ele avisou-me, teve que
sair e pediu-me para ajudá-lo. Entre aqui.
- Sim, vim encontrar-me com ele. O senhor, vestindo
uma calça listrada marrom e uma camisa azul celeste, calçava
uma bota amarela e, envergonhado, quase não abria a boca.
Olhando para o chão entrou atrás de Sérgio, o gentil planto-
nista, até uma sala sombria onde estava uma maca.
Pode deitar-se aí, disse-lhe gentilmente Dr. Sérgio. Vou
lhe ajudar.
Segurando nos braços do senhor, ele ajudou-o a subir
e a deitar na maca. O homem, os olhos espantados e suan-
do muito, nada dizia. O médico imaginou: “é o medo, todos
têm”. Chamou dois enfermeiros fortes e sérios, que chegaram
à sala já carregando um pesado aparelho embutido numa cai-
xa amarelada de madeira. Este aparelho foi aberto e ligado na
tomada elétrica, fazendo com que uma pequena lâmpada se
acendesse. Enquanto isso o homem permanecia deitado na
maca sem nada entender do ritual que se desenrolava dian-
te dele. Em seguida, ligado ao aparelho, foram puxados dois
pequenos condutores elétricos, tendo nas suas extremidades,
duas pequenas placas de metal. O enfermeiro umedeceu um
pedaço de algodão com água da torneira e em seguida o pas-
sou nos dois lados da testa do senhor, que continuava deitado.
Dr. Sérgio foi até ao aparelho e girou um pequeno botão de

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voltagem até 750 miliamperes, girou um outro marcando, 0,5


de segundo. Pediu delicadamente para que o senhor abrisse
sua boca.
Colocou um chumaço de algodão, enrolado num papel
azul do pacote de algodão, de um canto a outro de sua boca
e mandou que ele fechasse firmemente sua mandíbula de
modo a morder o algodão. O senhor, sempre sem entender,
obedecia a tudo. Nesse momento o médico percebeu que o
senhor usava uma dentadura. Após retirar o chumaço de algo-
dão, pediu-lhe que retirasse a dentadura e a colocou em cima
da mesa onde estava o aparelho ligado à rede elétrica. Uma
vez retirada a dentadura, novamente foi colocado o chumaço
e um enfermeiro passou por detrás de sua cabeça, segurando
firmemente no seu queixo, puxando-o para trás. Fez, nesse
momento, um leve sinal de cabeça para o médico, indicando
que estava tudo pronto. Ele colocou as duas pequenas chapas
de metal nos dois lados da fronte do senhor, no local molha-
do, firmando estas com o auxílio de tira de borracha da largu-
ra das placas, apertando-as bem para que tivessem um bom
contato com a pele do senhor.
- Não vai doer nada, ouviu? O paciente, tendo o chuma-
ço de algodão dentro de sua boca fechada, nada pode dizer e
continuava quieto. O Dr. Sérgio voltou ao aparelho, verificou
tudo, mexeu num e noutro botão e pediu ao enfermeiro para
firmar o queixo do senhor. Vendo que tudo estava certo, fez
um último sinal com a cabeça para os enfermeiros e pronto,
apertou um botão preto.
O senhor endureceu por uns trinta segundos todo os
músculos do seu corpo, sua respiração foi interrompida tem-
porariamente.

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Após esse período inicial de endurecimento muscular,


apareceram fortes contrações provocando flexões nos ante-
braços, sobre seus braços, as coxas, o tronco, contidas ligeira-
mente pelos fortes enfermeiros ali colocados.
Durante mais trinta segundos, ainda sem respirar, o pa-
ciente era só contrações musculares violentas que foram di-
minuindo até terminar. O senhor suava com as contrações e
estava branco como cera, desmaiado, como um morto. Após
mais alguns segundos, a respiração voltou com inspirações
profundas e lentas. Também aos poucos a cor avermelhada
e morena de sua pele queimada pelo sol retornou ao que era
antes da passagem da corrente elétrica, Estando tudo OK, o
aparelho já desligado e guardado, o suor expelido de sua face
foi enxugado na toalha trazida pelo enfermeiro.
Quando tudo estava terminado, nesse mesmo instante
o Dr. Sérgio foi chamado novamente à portaria e pediu a um
enfermeiro que ficasse cuidando do senhor, para que ele não
caísse da maca enquanto estivesse desacordado, o que dura-
ria ainda uns trinta minutos.
Ao chegar à portaria lá estava um outro senhor procu-
rando o Dr. Porto. O Dr. Sérgio ficou um pouco apreensivo,
imaginando o que poderia ter ocorrido.
- Está procurando Dr. Porto? Ele saiu. O que deseja? -
falou um pouco trêmulo.
- Sim, procuro. Ele saiu? Como assim? Ele pediu-me
para vir aqui procurá-lo.
- Para quê? Perguntou Dr. Sérgio já assustado e agora
quase certo de ter cometido um engano.
- Para que ele me aplique um eletrochoque. Eu tomo
eletrochoque três vezes por semana: terças, quintas e sába-
dos, hoje é dia.

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- Eletrochoque? Ah! Sim, como não, entre, por favor.


Não... espere um pouco, um instante só, entendeu?
Dr. Sérgio saiu apressadamente para o local onde per-
manecia deitado e ainda desmaiado o senhor, que, minutos
depois, recuperou a consciência. Ainda um pouco confuso,
o senhor, depois de algum tempo, conseguiu explicar quem
era. Fora ao hospital visitar seu filho que estava internado e
que era cuidado pelo Dr. Porto. Queria encontrá-lo apenas
para saber se podia levá-lo de alta para casa.
- Esta você nunca havia me contado, também casos mé-
dicos são os mais escondidos de todos, comentou Cristina,
sorrindo.

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CAPÍTULO 8

- No início de minha internação o tempo não passava.


Tudo estava ruim. Eu achava tudo insuportável, era detestá-
vel ficar ali deitada num leito estreito e pobre durante todo
o dia. Meu advogado não aparecia para dar notícias. As que
chegavam através de minha mãe, que ia visitar-me sempre aos
domingos, eram pessimistas. Tudo caminhava para que a sen-
tença final fosse contra mim. Ficaria presa por muitos anos e
o filho menor seria entregue, em definitivo, para o ex-marido.
Além disso, meu filho preso comigo estava perdido, a senten-
ça contra ele seria, segundo os prognósticos, pior do que a
minha. Os médicos, contaminados pela minha apatia, pouco
faziam para ajudar-me. Sem ideias para meu caso, maquinal-
mente receitavam calmantes, talvez para acalmar a eles pró-
prios diante de sua impotência, imaginando o pior. Todo esse
mundo diferente, assustador e ameaçador, levou-me a isolar e
a fugir de tudo. Eu, que começara a ser massacrada pela alter-
nância de liberdade e prisão, desanimei de vez diante desses
seres humanos com quem passei a conviver, muito diferentes
dos que até então vivera.

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Galeno Procopio M. Alvarenga

- Vim aqui te ver...


Cristina tentou colocar o assunto que desejava, o moti-
vo que a levou a visitar Corina na prisão e continuou:
- Estava querendo muito lhe falar... - Cristina sempre
esbarrava na sua impotência de abordar o assunto que dese-
java. Com muito esforço, tentou novamente:
- Lembra-se de Duca, sua protegida? - sua voz quase
não saiu ao pronunciar esse nome.
- Desde que você chegou aqui, estou querendo lhe per-
guntar acerca dela. Lembro-me bem da primeira vez que a
vi. Ela acabou me ajudando. Foram estes fatos, exatamente
os relacionados a Duca, que ajudaram a transformar minha
vida. Eu antes estava na pior. Lembro-me bem quando ela ali
foi internada... Foi internada, se me lembro, não, não lembro
a data nem o dia, eu estava tão mal... Ela havia sido manche-
te nos jornais e TVs de todo o país. Possivelmente era uma
débil mental, havia sido aprisionada numa jaula há mais de
dez anos nos fundos do quintal de sua residência pelo seu
próprio pai, devido à sua conduta impossível de ser contro-
lada. Duca não falava, não sorria, ou seja, não se comunicava
com ninguém, por nenhum meio. Urinava e defecava como
fazem os animais, na hora que tinha vontade, diante de todos.
Quando lhe era servida a refeição, qualquer que fosse esta,
ela avançava em direção ao alimento e comia sem parar, até
estourar. Quando a refeição era volumosa, depois de algum
tempo, começava a passar mal e vomitava parte do que havia
ingerido. Pois bem, indiretamente, foi ela, um caso perdido,
uma paciente da qual todos fugiam, a minha salvação. Acho
que estou viva devido a ela.
- Que bom! Eu gostava tanto dela...

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- Eu também. Passei, depois que fizemos amizade, a vi-


ver quase só para ela durante certo tempo.
Estou vendo como se fosse agora, ela chegando na en-
fermaria. Após ter sido internada, Duca foi levada até o leito
que deveria ocupar, localizado ao lado da velha cama de ferro
onde eu passava, solitariamente, meus dias olhando para o
teto, para dentro de mim e encontrando o nada. Nada mes-
mo! Apesar de estar há muito desinteressada de tudo que se
passava ao meu redor, eu saí de minha sonolência, desperta-
da pelos urros e pelo andar de urso da nova interna colocada
ao meu lado. Ela era muito estranha, diferente da maioria das
outras pacientes. Ao olhá-la, tive ódio da indiferença e mes-
mo da repulsa das enfermeiras que a trouxeram. Olhei para
ela e senti o mesmo mal-estar que acabara de perceber nas
outras pessoas e que criticara.
- Ela era muito feia mesmo. Quase desmaiei de medo a
primeira vez que a fitei. E olha que já vi muita gente feia nesse
mundo de Deus. Fixei meus olhos na paciente, sentindo uma
mistura de emoções: medo, piedade e espanto. Enxerguei um
monstro disforme diante de mim. Filetes de saliva grossa sa-
íam preguiçosamente de sua boca disforme, esta gosma de
mau aspecto e cheiro pútrido passava pelo seu queixo e caía
no chão, deixando seu rastro por onde passava. Seus cabelos
pretos engordurados, grossos e desarrumados, caíam sobre
sua minúscula testa formando uma pastinha. Entre estes ca-
belos nasciam tufos branco-amarelados.
Seu nariz, achatado no meio, dava a impressão de ser
uma miniatura de sela de animal. Na sua grande boca, que
permanecia semiaberta a maior parte do tempo, viam-se ape-
nas dois caninos escuros na parte superior. Seu corpo gordo

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parecia um barril torto. Espantada com o que via, permaneci


ainda deitada sem ação.
Virei meu corpo em sua direção para melhor examinar
a nova vizinha. Esta continuava indiferente às minhas obser-
vações e dava seus urros irritantes. Pela primeira vez depois
de ser internada, senti alguma coisa diferente em meu cora-
ção: tive dó dela e fiz uma comparação dela comigo mesma...
Observei-a e vi uma mulher recheada de gordura mole por
todo o corpo e balofa. Olhando sua face de frente, esta pa-
recia torta. Senti inicialmente repugnância ao fitá-la e, após
levantar-me para observá-la mais diretamente, pensei em
fugir dali o mais depressa que pudesse, arrumar um outro
leito, bem distante dela. Fiquei pensando o que deveria fa-
zer. Entretanto, de repente, sem saber porquê, ela chamou a
minha atenção mais do que todos as outras pacientes que ali
estavam há muito tempo... Comecei a sentir por ela atração,
amor. Comecei a compará-la comigo. Enxergava o contraste
existente entre eu e ela: eu ainda me considerava bonita, era
nova, mais inteligente, rica, cheia de possíveis oportunidades
e saúde. Ela, a nova vizinha de enfermaria, feia, envelhecida
e parecendo débil mental, mais isolada do que eu. Neste ins-
tante, diante da comparação, senti-me aliviada e alegre. Co-
mecei a perceber pela primeira vez, que havia esperança para
mim, e quem sabe, talvez para ela.
Tendo os olhos fixos e espantados em Duca, levantei-
me de onde estava, interrompendo por momentos meus pen-
samentos acerca do meu objetivo de provocar minha própria
morte. Essas ideias há algum tempo habitavam e dominavam
minha mente. Sem dizer nada, sabendo que era observada
por todas as companheiras de enfermaria, aproximei-me, a

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princípio um pouco hesitante, da paciente, que não tomou


conhecimento da minha presença.
Ofereci a ela uma maçã retirada debaixo do travesseiro.
Esta foi bruscamente arrancada de minhas mãos e, de uma
só vez, enfiada na sua boca enorme que se abriu totalmente.
Engasgou-se e cuspiu a metade da maçã já mastigada na mi-
nha face sem se assustar com seu ato.
- Então você a agrediu, retrucou Cristina.
- Não! Ocorreu o milagre. Todos que me conheciam,
bem como eu própria, as que assistiam espantados à cena
nunca vista, prepararam-se para ouvir sair de minha boca
uma série de palavrões ou até mesmo agressões físicas e
um afastamento posterior do seu leito. Entretanto, o opos-
to ocorreu. Sem saber por quê, aproximei-me mais de Duca,
ajudando-a partir a maçã e comê-la aos pedaços e não de uma
só vez. Nunca havia feito isso antes ali. Até então minha vida
no hospital tinha sido de ódio, de revolta. Eu pensava sempre
em agredir ou me defender de agressões. Transformei-me,
despertada por sua fraqueza, na pessoa que era antes de ser
presa: uma pessoa gentil, simpática, voltada para os outros e
agradável.
Dentro de mim renasciam prazeres inibidos com os
sofrimentos experimentados. Novamente sentia interesse
por alguém, vontade de ajudar as pessoas. Gostei do que se
passava dentro do meu Eu, do que me preparava para fazer.
Este foi meu primeiro ato no hospital como pessoa, como a
Corina antiga, a minha velha conhecida. Naquele momento
eu renasci. Surgiu dentro de mim um forte desejo de me de-
dicar inteira e continuadamente à minha nova amiga Duca, a
primeira amiga feita no hospital desde que ali fui internada.

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Galeno Procopio M. Alvarenga

- A Duca horrível, sem querer, acabou ajudando você,


comentou Cristina.
- Exato. Em lugar de agredi-la, eu virei-me para ela e
disse: Olhe para mim. Olhe para minha boca. Vou comer um
pedaço da maçã... assim... disse-lhe. Minha voz saiu fraca,
mas convincente e disposta a tudo. Coloquei um pequeno
pedaço na minha própria boca para mostrar-lhe como deve-
ria comer. Duca adiantou seus braços e retirou parte da maçã
que eu ia começar a engolir, colocando-a de uma só vez na
sua enorme boca e deglutindo-a também de uma só vez. Sua
face continuava a mesma, não sorria, não chorava, nada ex-
pressava, parecia um animal irracional.

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CAPÍTULO 9

- Eu sabia que a assistência ali presente, ainda sem saber


o que se passava dentro do meu ser, acostumada com a Co-
rina esfacelada e derrotada, estava sem saber qual direção eu
iria tomar diante de Duca. Eu, que desde que fui internada
tratei todas muito mal, criando entre as internas um pavor de
minhas reações, estava diante dessa pobre doente sendo gen-
til, meiga, caridosa, o oposto do que sempre mostrei naquele
lugar. Agredi continuadamente, desde que cheguei, algumas
mais desinibidas que tentaram se aproximar de mim. Ago-
ra, para decepção de todos, eu busquei nos meus guardados
uma outra maçã e, partindo-a em vários pedaços, fui-os co-
locando, pedaço a pedaço, na sua boca voraz. Aos poucos,
sonorizada pela minha voz, propositadamente suave e doce
como fazia para conquistar os homens, fui acalmando Duca,
que foi comendo toda a maçã. Seu olhar dirigido para o chão,
de fera enjaulada, se transformou em ternura de animal que
começava a confiar no seu dono. Pouco a pouco ela levantou
seus olhos em minha direção, fitando-me com olhos de cade-
la medrosa.

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Galeno Procopio M. Alvarenga

- Que legal!
- Senti uma enorme emoção, uma atração pelo acon-
tecimento como se tivesse vencido uma grande batalha ou,
depois de ter sido derrotada, conquistado um grande amor.
O meu olhar doce e meigo dirigido a Duca, o sabor azedo-
adocicado da maçã, bem como seu perfume refrescante alia-
do à minha voz macia e calma, amansou a fera por minutos.
As enfermeiras e as internas nervosas, que até então assistiam
de longe ao espetáculo, foram se aproximando para ver me-
lhor a peça que estava sendo encenada.
Ninguém sabia como ela iria acabar. A calma existen-
te durou pouco: Duca, sem mais nem menos, voltou ao que
era e virando-se bruscamente em minha direção, deu-me um
violento tapa que acertou minha cabeça e desceu de raspão
sobre minha face, ferindo-a ligeiramente.
- Você virou uma fera!
- Nada, ao contrário do esperado pelas assistentes e
também por mim, não me enfureci. Eu mesma espantei-me
com minha reação. Com calma e segurança contornei seu
corpo, sem xingá-la, passei com a maior suavidade possível
minhas mãos nos seus cabelos engordurados e duros. Este
contato acalmou-a novamente.
- Não tenha medo, disse-lhe. Sou sua amiga, quero aju-
dá-la. A maçã está gostosa? Come, veja como eu como...
Eu sabia que não eram minhas palavras que poderiam
acalmá-la, mas sim meu tom de voz, minha paciência, postu-
ra e olhar. A conversa continuou por algum tempo nesse tom.
A temível paciente foi, aos poucos, ficando mais tranquila e
confiante na sua nova tratadora. Eu, extremamente orgulho-
sa com minha vitória, dei prosseguimento ao meu trabalho.

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Ex-Internas Descrevem Segredos do Hospicio

Senti um desejo, uma pressão interna: tinha que reedu-


car aquela mulher, domar a fera, ganhar esse jogo. Nesse ins-
tante, Duca urinou em cima da cama e a urina escorreu para o
piso. Sem nenhuma inibição, tirou as roupas molhadas e ficou
nua. Todos que assistiam à cena começaram a rir, liberando a
tensão existente e acalmando, por instantes, as internas que
presenciavam minhas ações. Enquanto isso, a paciente perma-
necia indiferente a tudo. O corpo de Duca não era agradável de
ser olhado: gorduras moles caíam por todos os lados dentro de
sua pele branca leitosa. Olhei para o grupo de observadoras,
onde ainda guardava meu antigo olhar de reprovação e ódio.
Todas, de uma só vez, mudaram a fisionomia e ficaram sérias
olhando para o chão. Abandonei a paciente por instantes para
buscar uma enfermeira para vesti-la com roupas secas. Ajuda-
da pela enfermeira e por algumas internas, pacientemente e
com grande dificuldade, conseguimos vesti-la.
- Você a largou ou foi em frente?
- Sou teimosa! Novamente fitei seus olhos tristes e com
voz bem calma e baixa sussurrei:
- Ótimo, assim agora você está bonitinha, precisa ficar
vestida, está fazendo frio. Nós todas aqui somos iguais, por
isso vestimos as mesmas roupas azuis. Não são lindas?
Eu, envolvida intensamente na minha tarefa, na minha
fusão com aquela alma abandonada, não aguentei e deixei es-
correr algumas lágrimas pelo meu rosto. Não senti vergonha
de mostrar minhas emoções para todas. Havia tempos que não
mais chorava. Segurando com firmeza e delicadeza os braços
moles de Duca, ajudei-a a subir e a deitar no seu leito. Esta, sem
mudar a fisionomia, seguiu minhas ordens, mas não deixou de
dar, de tempos em tempos, seus urros agudos e irritantes.

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Galeno Procopio M. Alvarenga

Poucos foram os instantes que seus olhos encontraram


os meus. Nesses momentos, rapidamente, eles se dirigiam
para o vazio.
Mais calma após meu primeiro contato com Duca, fi-
quei imaginando o que me moveu em direção a essa infeliz.
Seria meu tédio? Ou uma oportunidade de mostrar, para mim
mesma, que ainda estava viva, que habitava um resto de bon-
dade em minha alma apodrecida e sofrida e que ela poderia
voltar e dominar o restante de minha mente? Eu sempre fui
teimosa, disposta a perseguir até o fim as metas que decidia
alcançar. Agora decidi ajudar aquela desconhecida custasse
o que custasse. Uma transformação no seu comportamento
passou a ser o meu ideal. Até agora, no hospital, não havia
imaginado fazer nada, o meu sonho até então fora acabar
com minha vida. Queria ganhar uma batalha, já que estava
perdendo, ultimamente, todas elas. Muitas vezes, lembro-
me, decidia realizar um projeto que aparecia na hora, como,
por exemplo, cuidar de um passarinho que havia quebrado
as asas e não podia voar. Uma vez decidida, eu concentrava
todos meus esforços nessa direção e só parava quando o tra-
balho terminava. Com Duca seria a mesma coisa.
- Então foi virando outra pessoa... comentou Cristina.
- A partir desse momento transformei-me em terapeuta
de Duca. Pouco a pouco pude perceber que a terapia era em
duas vias: ao mesmo tempo que eu a ajudava, ela, ou nossa
relação, me transformava numa pessoa muito diferente da
Corina que então estivera internada no hospital. Comecei
a sorrir, tornei-me mais sociável, alegre, conversadeira e até
mesmo amável para com as outras pacientes, que até aquela
data não suportava.

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Ex-Internas Descrevem Segredos do Hospicio

Eu sabia que, por haver completado o curso superior


em Comunicação Social, por ser jornalista, conhecer vários
países e ter lido muito, me distanciava culturalmente das ou-
tras internas. A maioria ali não sabia nem ler. Percebia que
em diversos aspectos meus conhecimentos gerais eram mais
volumosos do que o de muitos dos profissionais que traba-
lhavam no hospital: médicos, psicólogas, enfermeiros e assis-
tentes sociais. Ficando mais aberta ao contato, permitindo a
aproximação, consegui amigos entre o corpo médico e outros
profissionais da saúde que ali trabalhavam e estes, notei, me
respeitavam. Esta constatação animou-me e facilitou o que
foi ocorrendo. Não foi difícil começar a ter poder e liderança
no hospital, a princípio na enfermaria onde estava internada
e, mais tarde, em diversos outros lugares do hospital.
- Quando fui internada, você já era dona do hospital,
brincou Cristina.
- Não foi difícil liderar. Todas as manhãs levantava-me
cedo para me aprontar e fazer meu trabalho com Duca. Abra-
çava-a ainda no seu leito como se fosse minha filha, passando
meu calor amigo para o corpo receptivo de Duca. Eu notava
que o contato do meu corpo quente com o dela, acalmava
aquele animal selvagem. Lembrei-me de usar meus dedos fi-
nos e compridos para acariciar os cabelos grossos e duros de
Duca.
Ela olhava-me um pouco desconfiada com este con-
tato, mas, a cada dia, tornava-se mais receptiva, confiante e
tranquila, como um animal que vai confiando, amansando e
aceitando sua relação com o dono. O prazer daquele cafuné
matutino amolecia sua raiva, o medo das agressões sofridas
durante os anos que passou presa na jaula na casa do pai.

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Galeno Procopio M. Alvarenga

O que mais acalmava Duca era o roçar dos meus dedos


nos seus artelhos. Eu, animada com o resultado estampado
na sua face, ia, com cuidado e delicadeza, massageando com
uma leve pressão um por um de seus dedos grossos e disfor-
mes do pé, como era todo seu corpo. Esse ponto crucial e
zona corporal geradora de excitações prazerosas só foi des-
coberto por acaso.
- Não sei como você aguentava.
- Certo dia, quando ela dormia ainda, fui acordá-la
para fazer os exercícios matinais. Seus grandes e grossos pés
estavam colocados fora das cobertas. Coloquei com cuidado
o lençol por cima deles. Mas ao pegar nos seus pés, Duca
acordou. Olhou para mim, pela primeira vez, fixando seus
olhos nos meus por alguns instantes. Senti-me recompensa-
da pelo meu trabalho, ao notar que ela me olhava com ter-
nura. Esperei com ansiedade o nascimento do sorriso, mas
ele ainda não veio. Para meu espanto, Duca, em seguida,
tornou a colocar seus pés para fora do lençol. Com os mes-
mos cuidados coloquei-os novamente debaixo dos lençóis.
Novo olhar meigo da fera e novamente seus pés para fora.
Nesse momento percebi que ela estava brincando comigo
e gostando do que fazia. Era a primeira vez que ela respon-
dia a uma ação harmoniosa e continuadamente. Disse-lhe,
no tom de voz mais meigo e cuidadoso possível, pois tinha
medo de espantá-la e perder meu trabalho: “Gostou do que
fiz? Vou ver se você gosta”!
Por baixo do lençol azulado e manchado, enfiei minhas
mãos e, delicadamente, passei meus dedos por entre seus arte-
lhos, começando com um leve toque a massageá-los um a um.
Todo o corpo de Duca foi perdendo sua contração continuada.

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Ex-Internas Descrevem Segredos do Hospicio

Houve um relaxamento geral, principalmente na sua


face, mostrando calma e aceitação do carinho recebido. Tro-
camos olhares com grande amor e ternura. A partir desse dia,
Duca acordava cedo e esperava, fingindo que estava dormin-
do, a minha aproximação. Deixava propositalmente seus pés
para fora dos lençóis, para que eles fossem colocados para
dentro e depois massageados. O ritual era cumprido com
carinho e tranquilidade. Aos poucos, o tempo de massagem
foi aumentado, de poucos segundos no início para mais de
meia hora. Ali, próximas, nós duas nos olhávamos ternas,
cada uma passava energia positiva para a outra.
- As duas foram melhorando ao mesmo tempo.
- Certo! Eu, bem como todos no hospital, notava mi-
nha transformação, a metamorfose ocorrida à medida que
criava uma nova Duca. Nunca mais fiquei deitada durante
o dia como ocorria anteriormente. Passei a ter o que fazer:
dedicar meu tempo para aquele ser abandonado. Comecei
a me interessar por outros afazeres no hospital, até gostar
daquele lugar, antes horrível. Percebia o ressurgimento de
meus valores antigos. Eu renascia, a felicidade voltava.
- Sorte sua.
- Sim, muita sorte. Depois do ritual que se repetia to-
dos os dias, do despertar de Duca, comecei a ensiná-la a ir
ao banheiro. Para isso, durante semanas, diversas vezes por
dia, eu própria fazia minhas necessidades, mostrando-lhe
cada ato que devia ser cumprido. Sentia que ela estava fican-
do apaixonada por mim, eu servia de modelo ou de espelho
para ela olhar e imitar. Realmente isso foi acontecendo.
Diariamente, durante minhas aulas de higiene, minha
preguiçosa aluna deveria aprender e repetir, diante da pro-

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Galeno Procopio M. Alvarenga

fessora, como tirar as roupas, como ir ao banheiro, limpar-


se, tornar a vestir-se, etc. Foi um aprendizado demorado,
mas agradável. Talvez poucas vezes na sua vida, Tuca tivesse
tomado banho diariamente como passou a fazer. Nós íamos
para o chuveiro e lá, juntas, tomávamos banho. A princípio
fiquei envergonhada por estar nua diante dela, principal-
mente quando ela me examinava, olhando com seus olhos
espantados para meu corpo. Parecia querer tocar-me, mas
isso não aconteceu. Não sei se ela já tinha observado um
corpo de mulher ou o dela próprio.
- Foi muita coragem e dedicação sua.
- Aos poucos ficávamos à vontade, não havia mais ini-
bições e curiosidade, nós já nos conhecíamos. Eu, que me
espantei com seu corpo diferente do meu, olhava-o agora
com naturalidade, comecei a amá-lo, pois havia vida dentro
dele.
Logo que Duca tirava suas roupas e entrava no chu-
veiro, eu, ao seu lado, ensaboava suas costas, seu tronco e, fi-
nalmente, todo o corpo. Duca olhava-me extasiada, imóvel,
espantada com as carícias.
Mas eu esperava um sorriso e ele não vinha, sua face
continuava pouco expressiva. Seu olhar continuava enigmá-
tico para mim. Seria indiferença? Seria a permanência das
cicatrizes criadas pelo mundo cruel no qual vivera até sua
internação? Imaginava, talvez devido aos meus desejos, que
ela mostrava, como fazem os cães, que o afeto era agradável,
mas não era capaz de expressá-lo com palavras ou contra-
ções faciais mais claras.
Os banhos, que se iniciaram com muito medo, foram se
transformando em acontecimentos diários agradáveis.

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Ex-Internas Descrevem Segredos do Hospicio

O contato da água morna e preguiçosa que caía no seu


corpo, o perfume agradável do sabonete e, principalmente,
o contato carinhoso e quente de minhas mãos na sua pele,
começaram a ser exigidos por Duca. Sem nada falar, aproxi-
mava-se de mim, trazendo uma toalha na mão, empurrava-
me, encostando-se nas minhas pernas, até que eu caminhasse
para o banheiro. O difícil, após um certo tempo, passou a ser
tirá-la do banho, só depois de muito tempo decidia sair. Após
ser empurrada todas as manhãs, perguntava-lhe: “
- Está querendo tomar banho?”
Duca olhava-me sem nada dizer. Lembrava-me dos
cães da fazenda do meu pai, olhando-me diante da visão de
um pedaço de carne suculenta, esperando ser jogado para
ser abocanhado. Quando me demorava um pouco mais, por
estar atarefada com outro afazer, ela encostava-se, como fa-
zem os gatos, roçava minha pele por diversas vezes, até eu
abraçá-la e ir em direção ao banheiro. Quando eu a abraçava
um pouco mais apertada, Duca olhava-me desconfiada, algu-
mas vezes afastava-se com medo. Passados uns momentos,
aproximava-se novamente, encostando seu corpo no meu,
jamais abraçando-me.
Animada com as conquistas, imaginei ir bem mais lon-
ge, queria ouvir a voz de Duca, que ninguém jamais tinha es-
cutado. Ela apenas urrava, numa só nota, aiiiiii... aiiiii... Que-
ria também, mais do que tudo, receber dela um abraço que
partisse dela e um sorriso seu. Como a vida da gente muda!
Jamais havia pensado que lutaria tanto para receber um sor-
riso e um abraço de uma idiota. Isso passou a ser um desafio
para mim e eu lutaria, com todas as minhas forças, para alcan-
çar o desejado.

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Galeno Procopio M. Alvarenga

Havia três meses que tínhamos iniciado nosso conta-


to. Os progressos já tinham sido muitos e todos no hospital
elogiavam meu trabalho e a melhora de Duca. Interessante
nossa mudança de valores: o meu processo, que no início
de minha internação era minha preocupação fundamental,
passou para segundo plano. Minha meta atual passou a ser
ajudar Duca e, ao mesmo tempo, construir um novo modo
de viver para mim, que aprendia ao ensinar-lhe. Desejava ter
uma vida mais simples, mais humana, mais ligada às pessoas,
as alegrias pareciam vir desse contato. Aprendia no hospital,
através do sofrimento. Vendo e participando da dor dos ou-
tros, eu tornava-me uma mulher mais amadurecida.

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CAPÍTULO 10

Entusiasmada com os progressos obtidos com “minha


paciente” e com a aproximação das diversas companheiras,
agora sem medo, comecei a participar de vários aconteci-
mentos que mudariam ainda mais minha vida e a rotina an-
teriormente chata do hospital. Primeiro foram as festas. No
hospital, até aquela data, as diversas comemorações ali rea-
lizadas foram elaboradas de modo muito rudimentar, feitas
sob a supervisão de assistentes sociais e psicólogas cansadas
de seu trabalho e executando tudo aquilo para cumprir o ca-
lendário. Contaram-me que as festas de Natal eram organi-
zadas com um presépio simples e distribuição de biscoitos
como presentes. No dia de São João, fazia-se uma fogueira
com alguns galhos de árvores cortadas do próprio pátio, co-
miam batatas doce assadas e na Semana Santa rezava-se uma
missa onde iam algumas internas desanimadas e tristes com
a vida. Outras datas festivas não era comemoradas, nem mes-
mo lembradas no hospital, como o Dia da Independência,
Carnaval, aniversário de Belo Horizonte, etc.

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Galeno Procopio M. Alvarenga

Decidi mudar aquilo. Percebi que era possível fazer ali


diversões e comemorações mais alegres, dinâmicas e tera-
pêuticas para todos. Precisava, para isso, da cooperação de
todos, principalmente das pacientes e também dos funcioná-
rios. Precisava conseguir a permissão dos diretores para en-
trar naquele campo que não era meu. Sabia que isso não seria
fácil, pois, além de ferir ou melindrar pessoas importantes na
direção, quebraria uma rotina e isso sempre era difícil. Como
eu conhecia diversas pessoas capazes de colaborar, como o
pessoal de teatro, música, igreja e outras atividades, o sonho
poderia ser concretizado. Estava animada, mas medrosa com
o resultado, pois meu conhecimento daquele grupo era pe-
queno. Assim organizei e participei de um forró. Havia escu-
tado de uma assistente social que todos os anos eram feitas
festas juninas que, apesar da simplicidade, eram apreciadas
pelos pacientes.
Com a permissão dessa nova amiga, consegui reunir
pessoas e donativos e organizei uma festa para experimentar
minha própria capacidade. Os internos fizeram a fogueira no
pátio. Foram recrutados os pacientes que tocavam violão e
cantavam, improvisaram-se frigideiras para servirem de tam-
borins, tambores onde se guardava água serviram também
como instrumentos, juntos a colheres e violões. Desse modo
foi composta uma pequena orquestra.
Todas as pacientes em fase de recuperação, ou que es-
tivessem já de alta e soubessem tocar algum instrumento, ou
cantar, participaram ativamente desse baile. As enfermeiras e
enfermeiros foram avisados para ficarem vigilantes para evi-
tar qualquer desentendimento ou abuso pela proximidade
entre os homens aguados e as mulheres, do mesmo modo.

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Ex-Internas Descrevem Segredos do Hospicio

Nesse dia, os internos da ala masculina e os da ala femi-


nina se encontraram por umas poucas horas.
Antes, nos dias que antecederam a festa, fizemos uma
grande limpeza no pátio onde o baile seria realizado. Creio
que jamais o pátio tenha sido tão limpo. Dirigi o espetáculo
que se realizou numa noite de quinta. A dança começou com
inibição de ambos os lados. Pouco a pouco os pares foram
se formando. Eu nunca havia visto o que presenciei. Duca
foi levada por mim, mas ficou sem nada fazer num canto do
campo de futebol, ao lado do lugar onde a fogueira foi acesa
e o forró instalado.
Um dos pacientes, um rapaz forte, fisionomia simpática,
típica de lavrador, era o mais sorridente e saliente. Começou
a dançar com uma e com outra, pois era o mais solicitado pela
sua beleza e expansividade. Muito falante e galanteador, con-
quistava todas as outras pacientes. De repente, sem que nin-
guém esperasse e sem que ninguém fizesse nada para impedi-
lo, ele tirou, a princípio, a blusa azul do hospital, apesar do frio
que fazia e em seguida as largas calças que usava. Não estava
de cueca. Ficou completamente nu. O fato causou um reboli-
ço entre as frequentadoras do forró. Por baixo das calças que
foram jogadas no chão, apareceu um enorme pênis, de mais
de trinta centímetros, a princípio tristonho e cabisbaixo.
Houve uma animação geral no baile que já estava para
terminar. As mulheres logo o chamaram de “Mangueira” e
todas, agora, passaram a brigar pela posse daquele objeto
sedutor e enorme. Aos poucos, diante da dança com uma e
outra, aquela coisa adormecida acordou do seu sono. Houve
urros de alegria entre as pacientes entusiasmadas e saudosas
daquilo e entre os homens inveja, pois ninguém ali poderia
imaginar uma disputa com aquele jumento.

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Galeno Procopio M. Alvarenga

Até as enfermeiras mais recatadas ficaram satisfeitas


com a visão daquela bandeira hasteada que era admirada por
todos. Por isso o forró se prolongou até altas horas da noi-
te. Como tudo aquilo era terapia, os dirigentes do forró não
pensaram em interrompê-lo, já que estava cumprindo seus
objetivos e como não houve nada além disso, tudo terminou
em paz.
No dia seguinte, na enfermaria onde eu estava inter-
nada, só se falava no fato anterior. Pela manhã, ainda muito
cedo, as internas, após levantarem-se e tomarem seu lanche,
começaram a se aprontar para disputar, uma com as outras, a
preferência por “Mangueira”. Umas pintavam o rosto, outras
pediam às mais hábeis para cortar seus cabelos ou penteá-
los.
Rapidamente alguém descobriu loções, pó de arroz,
ruge e outros embelezadores, para serem usados para melho-
rar a aparência. Durante muito tempo, até a alta de “Man-
gueira”, a conversa foi acerca do memorável forró daquela
quinta-feira quente. Todas se embelezaram para atrair e con-
quistar Mangueira.
- Ouvi falar dessa festa, ainda não tinha sido internada,
comentou Cristina.
- Eu queria e sabia que podia fazer muito mais. Imagi-
nei fazer uma peça de teatro com os fatos ali presenciados.
Comecei a comentar com internas e os profissionais do hos-
pital acerca disso. Animaram-me nesse objetivo. Sem ainda
ter terminado minha peça teatral, decidi apresentar uma já
pronta e simples. Chamei as interessadas e, para surpresa mi-
nha, apareceram muitas. Tive então que treinar uma e outra
para ver quem tinha mais talento.

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Ex-Internas Descrevem Segredos do Hospicio

Com a ajuda de um amigo, que não era interno, e que


trabalhava como diretor de teatro, decidimos treinar um
grupo de mulheres, umas travestidas de homens, para par-
ticiparem do enredo. Como acabara de ler a peça de Nelson
Rodrigues, “O beijo no Asfalto”, decidimos representar essa
peça que treinamos não mais do que um mês. O tempo não
podia ser grande, pois a maioria das pacientes obtinha alta
logo após ter melhorado, o que dificultava a sua interpreta-
ção. Devido a isso, tínhamos que recrutar pessoas talentosas
mesmo que estivessem ainda em crise, treiná-las durante o
surto, enquanto iam melhorando e, finalmente, fazê-las re-
presentar, antes de receberem alta hospitalar.
A peça encenada, esperada com ansiedade, para minha
frustração não causou interesse ou emoção entre a seleciona-
da plateia de doentes mentais. Poucas entenderam o drama
apresentado: o significado do beijo, a imprensa marrom, o
delegado e seus objetivos, etc. Muitas riram durante a peça,
muito mais devido aos erros cometidos pelos diversos “artis-
tas”: trocas de nomes, esquecimento, invenção, isto é, colo-
cando trechos de conversas existentes dentro e fora do hospi-
tal em lugar das do texto e muitas outras gafes.
Nenhum diretor ou médico se interessou pelo que foi
feito. Um pouco desanimada com o fracasso, decidi lutar
mais ainda para chegar onde queria. Reacendi minha garra e
decidi retornar ao meu plano original, ou seja, a partir de mi-
nhas próprias vivências e anotações que sempre fazia, escre-
ver uma peça acerca de conversas e fatos ali experimentados.
Vividos por todos nós, imaginei que isso poderia trazer mais
emoções e recordações e seria mais fácil de ser assimilado
pelas internas e internos.

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Galeno Procopio M. Alvarenga

Para isso permaneci semanas observando, registran-


do e anotando os fatos que mais me chamavam a atenção,
conversando com diversas pacientes e ouvindo suas opini-
ões e experiências como doentes mentais, fora e dentro do
hospital.
- Você mesma trabalhou nessa peça, foi uma das pri-
meiras a ser recrutada, lembra-se?
- Sim, eu fiz o papel de enfermeira que curava com a
ajuda da mente. Na peça eu sempre tinha sonhos que me
atormentavam e também me orientavam no que devia fazer.
Foi ótimo!
- Resumi tudo, criando diálogos entre as pacientes e
médicos, assistentes sociais, policiais, etc. Nesse meio tem-
po, entusiasmada com o novo trabalho, deixei um pouco
de lado minha amiga Duca, que teve uma recaída, passou a
xingar mais, cuspir e sujar o chão. No fim de um mês tinha
escrito uma pequena peça que foi ensaiada e representada
pelas internas. Nesse momento, meu amigo teatrólogo ficou
entusiasmado, mais do que eu, bem como meu médico e o
diretor do hospital, após lerem o que havia escrito. Todos co-
laboraram com a peça.
Dada a falta de recursos, o cenário utilizado para repre-
sentar a peça foi o próprio hospital, este era o cenário. No
palco foi montada uma pequena entrada de um hospital e,
diante desta, estava uma grande sala improvisada de enfer-
maria. Não foi difícil, dada a sua pobreza, montar esse cená-
rio simples, onde se desenrolava uma história com um en-
redo vivido por todos nós ali internados. Também para os
pacientes que assistiriam à peça, seria mais fácil a compreen-
são dela, pois aproximava-se da realidade vivida.

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Os ensaios foram realizados diariamente, sigilosamen-


te, por seis internas selecionadas. Por duas vezes os persona-
gens principais tiveram que ser trocados devido à alta hospi-
talar de uma delas e uma por ter tido uma crise mais violenta
de mania de não conseguir, por mais que lhe fossem dadas
doses cavalares de Haldol e de Lítio, acalmá-la e reintegrá-
la ao grupo. Entretanto, tive sorte. Enquanto todos lamenta-
vam a ausência da personagem principal, uma paciente, uma
ex-comediante foi internada alcoolizada no hospital. Rapi-
damente percebi que ela seria a estrela da peça. Desinibida,
desbocada, falante, agressiva, inteligente e treinada, ela servia
como uma luva para ser a figura principal da peça.
Certos trechos da peça tiveram que ser reescritos devi-
do às dificuldades de encontrar um personagem adequado,
principalmente entre os masculinos. Com muita dificuldade
consegui pessoas capazes de representar. Tanto assim que
um dos personagens, um comerciante, foi representado por
um porteiro antigo no hospital, que era um apaixonado pelo
teatro e que, quando adolescente, teve um pequeno treino
no colégio onde estudou. Convidado, aceitou prontamente,
com orgulho, o papel.
Auxiliada pelo amigo que dirigiu o espetáculo, dessa
vez tomei um pouco mais de cuidado. Conseguiu na impren-
sa uma propaganda do que estava sendo feito e, segundo meu
advogado que me ajudou nisso, serviria como atenuante na
sentença que esperava devido ao meu crime de acusada de
tráfico de drogas.
Todos os jornais e TVs publicaram pequena matéria
acerca do acontecimento da peça “Vinte e Quatro Horas no
Hospital Psiquiátrico”.

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Galeno Procopio M. Alvarenga

Devido a essa divulgação, no hospital houve uma maior


curiosidade acerca do drama escrito.
Afinal chegou o dia esperado com curiosidade e, por
que não, com certa desconfiança. Foi num sábado à tarde o
dia da encenação da peça retratando acontecimentos acerca
da própria vida hospitalar. A sala de conferências do hospital
estava cheia. Nas primeiras cadeiras assentavam-se as autori-
dades: o diretor do hospital, os médicos, residentes, assisten-
tes sociais e convidados especiais como o representante do
secretário de saúde, da associação dos hospitais e curiosos
ligados ao teatro de vanguarda, que esperava uma peça dife-
rente aquele dia.
Assentados mais atrás estavam os pacientes seleciona-
dos para assistirem, homens e mulheres e, no meio deles, os
enfermeiros prontos para tomarem medidas diante de quais-
quer problemas que muitas vezes ocorrem entre os pacientes.
Depois dos discursos de praxe feitos pelo diretor do hospital
e pelo representante do Secretário de Saúde, foram abertas as
cortinas para o início do drama. Nesse dia, eu estava nervosa
e inquieta por trás dos bastidores, quase sem respirar, temen-
do um fracasso dos atores. Tudo começou, felizmente, sem
maiores problemas. Dessa vez erramos menos, os fatos ali re-
presentados foram sínteses e exemplos dos vividos por todos
ali presentes, pacientes e pessoal da saúde e administrativos.
A peça terminou com palmas estrondosas. Por algum tempo
os artistas amadores, bem como o diretor e até eu, foram ova-
cionados pelo público presente. O sucesso foi bem diferente
do ocorrido antes. A paciente que fez o papel principal, mui-
to animada, continuou a falar para o público, que ria das suas
brincadeiras continuadas e até cansativas.

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Apresentei-me mais bem cuidada, arrumei meus cabe-


los, fui maquiada com esmero por uma outra paciente que
era cabeleireira e tinha conhecimentos de maquiagem. Após
o espetáculo, fui cumprimentada pessoalmente pelo diretor
e pelo seu médico assistente. Nesse momento eu chorei de
emoção. Logo que tive uma folga, apesar da noite movimen-
tada, procurei por Duca, mas esta tinha sido levada para a
enfermaria por ter dormido logo no início da peça.
A imprensa deu mais destaque a essa peça, trazendo
inclusive retratos dos quatro personagens que atuaram nela
e comentários elogiosos para o comando do hospital e para
mim, que havia bolado tudo e tomado a frente nesse traba-
lho. Infelizmente quase nada apareceu na TV que havia es-
tado presente e até filmado certas cenas. No dia seguinte ao
espetáculo, o jornal local foi quase todo tomado pelas no-
tícias acerca dos presos que puseram fogo nos colchões da
penitenciária, reclamando contra a proibição dos encontros
amorosos nesta.
No dia seguinte os comentários na enfermaria e entre
as enfermeiras e pacientes foi o teatro e as gozações existen-
tes nesses momentos. Todos estavam eufóricos e as conver-
sas giravam em torno das cenas e dos erros. Recebi elogios de
todos, claro que tinha lá minhas inimigas, que não colabora-
ram e que torciam para que tudo desse errado. Estas ficaram
enciumadas e frustradas com o sucesso. A partir dessa peça,
todas desejavam que eu escrevesse uma outra, para que cada
uma pudesse participar.
Todas achavam que, como no caso da alcoólatra, a his-
tória de vida delas também serviria para que se fizesse uma
peça teatral.

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Galeno Procopio M. Alvarenga

Uma delas chegou até a lembrar de uma melodia que


poderia servir de fundo musical para a peça que representaria
sua vida na roça.

“Tá sentado no pau,
de cabeça pra baixo,
com as asas caídas
gavião de penacho.
Todo mundo tem seu bem
só pobre de mim não tem
ai... gavião de penacho
gavião de penacho...”

Animadas com letras ternas e simples como essa e o


canto desafinado da paciente, diversos palpites foram dados,
exigindo que eu os anotasse. Uma delas queria que fosse
montada uma peça sobre a vida de Cristo, onde ela se vestiria
de Cristo e cantaria: “No céu, no céu, com minha mãe esta-
rei...” a letra lembrada no hospital como a canção que se usa-
va, quando os pacientes eram enviados para Barbacena. Eu
ouvia a todos com bondade, um pouco cansada, mas dispos-
ta e interessada em escutá-los. Pensei no meu próprio drama,
no processo, nas notícias ruins contraditórias e imaginando a
prisão que poderia vir a qualquer momento, caso não conse-
guisse provar minha inocência.
- Eu assisti a tudo isso que você está falando. Foi muito
pesado para você. Não sei como pôde aguentar sem desistir.
- Sabia que também meus desencontros no mundo da-
riam uma peça de rir e de chorar, como me parece só ago-
ra, é a vida de todos nós. Tudo aquilo me divertia, apesar do

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pesadelo não sair da minha mente. Naquela manhã, minha


mãe, que assistiu à peça, conversou comigo e aconselhou-me
a trocar de advogado, pois esse atual nada fazia de concreto e
não lhe dava uma notícia animadora.
Eu passei, após minha conduta de promotora de festas,
teatros e outros eventos no hospital, a ser uma líder ali. Com
isso tinha acesso onde quisesse, inclusive à rua para fazer com-
pras nas vizinhanças do hospital. As outras, que não tinham
essa liberdade, pediam-me, entregando-me seus míseros tro-
cados, para que eu comprasse para elas um maço de cigarros,
balas, refrigerantes, etc. Muitas vezes, sem falar com as com-
panheiras, punha meu próprio dinheiro para poder comprar
o pretendido, pois o que fora dado não dava para pagar o que
fora pedido. Nessas ocasiões eu nada lhes dizia. Sei que mui-
tas imaginavam que eu estivesse ficando com o troco.
Diante de minha liberdade de ida e vinda, passei a fre-
quentar e conversar muito com o diretor, que se tornou meu
amigo e admirador. Eu sei que fazia charme para ele, como
sempre fiz para todo mundo e isso agradava-lhe muito. Tam-
bém frequentava e gostava de ficar na portaria do hospital,
lugar onde havia mais movimento, pois todas as visitas, bem
como os pacientes que entravam e saíam do hospital, por ali
tinham que passar. Além do mais, na portaria ficava um por-
teiro, atendente, às vezes o residente, o que me permitia con-
versar com pessoas diferentes das existentes na enfermaria.
Foi numa dessas idas à portaria que pude perceber e
assistir a uma cena dramática, que me chocou e emocionou
muitíssimo.
Rapidamente passei o que presenciei para o papel com
a ajuda da datilógrafa do hospital. O dia era de relativa cal-

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ma na portaria, quando apareceu um senhor aparentando 50


anos, acompanhado de uma moça com uns 20 anos, uma se-
nhora de cerca de 45 anos e uma outra moça de mais ou me-
nos 23 anos. Após sua chegada na portaria eles foram atendi-
dos por uma atendente de nome Nelma.
Vários médicos psiquiatras atendiam pacientes nos
consultórios ali existentes, na parte da tarde, quando o movi-
mento nas enfermarias era praticamente nulo. Estes psiquia-
tras, sem possibilidade de abrir um consultório particular,
utilizavam-se dos consultórios ali existentes para isso. Quan-
do assisti à cena, antes de escrevê-la, chorei sem parar. Lem-
bro-me, diante da porta segura pelo braço de um senhor, esta
cliente magra, desnutrida, com seus olhos esbugalhados e va-
zios, vestindo um velho vestido de algodão sujo e desbotado.
Com olheiras, dava a impressão de não dormir há dias. Nada
falava e esforçava-se para escapar da mão de um soldado que
a trazia junto com seus pais, possivelmente lavradores.
Eu escrevi sem parar, chorando ao assistir ao quadro
que via e à conversa. Estava cansada e abatida com o que pre-
senciei. Fiquei dias e dias escrevendo e reescrevendo o fato
assistido. Durante esse tempo não tive mais tempo para nin-
guém, a não ser os banhos matinais de Duca. Todas as in-
ternas queriam tomar parte na peça, inclusive funcionários
e médicos do hospital que diziam que seu maior sonho seria
participar de uma peça teatral. Toda essa pressão dificultou
meu trabalho. Com cuidado e diplomacia fui selecionando e
treinando os escolhidos e dispensando os rejeitados.
Lembrando da experiência anterior, quando alguns
“atores” receberam alta e não puderam representar na peça,
dessa vez passei a trabalhar com atores reservas, para a even-

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tualidade de algum não poder atuar. Dessa vez também a


propaganda foi maior, pois todos no hospital comentavam o
fato da portaria e o meu aproveitamento desse evento. Desse
modo a peça, antes de ser encenada, já era comentada e sua
história era discutida.
No dia da apresentação a sala estava repleta, com vários
pacientes assistindo à peça em pé. Até um representante do
governador compareceu para representá-lo. Eu estava eufó-
rica e confiante com o primeiro sucesso. Comandava, junto
com meu amigo, o diretor de teatro, todos os passos necessá-
rios à realização. Após os discursos e elogios iniciais, a peça
foi encenada com poucos erros que nem foram percebidos
pela plateia. Tudo correu bem até seu final.
Quando terminou a representação houve choros e mui-
ta tristeza entre os presentes, até o diretor do hospital, por
duas vezes, tirou disfarçadamente o lenço do bolso e limpou
lágrimas nos olhos. Muitos não conseguiram nem aplaudir
os artistas. Assim é que alguns pacientes mais emocionados
xingaram e ameaçaram agredir o ator, que era o porteiro do
hospital e havia representado o pai da paciente doente e agre-
dida. Foi preciso, nesse instante, a intervenção dos enfermei-
ros. Não faltaram os revoltados que xingaram a mãe que não
quis criar seu filho e o deixou na calçada, quando foi encon-
trado pelo padeiro. Finalmente os ânimos foram serenados
e os atores puderam sair da pequena saleta improvisada que
serviu de camarim e irem para seus leitos na enfermaria.
- Puxa, como você trabalhou! Eu estava presente.

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CAPÍTULO 11

- Eu, mais do que nunca, havia esquecido de tudo: pro-


cesso, de que estava internada num hospital de loucos e que
poderia ter de cumprir anos na prisão. A alegria era imensa
com o sucesso e os parabéns e abraços recebidos. Mas, como
sempre, me lembrei de Duca e logo após o espetáculo fui vê-
la, sem saber como ela reagiu à peça. Como sempre ela dor-
mia profundamente no seu leito, indiferente a tudo. Segundo
a enfermeira, mal o teatro havia começado, ela já havia ador-
mecido. Na manhã seguinte, na enfermaria, a conversa não
foi outra: a peça e seu sucesso. Todos, inclusive os médicos
e outros profissionais, davam parabéns a todos e principal-
mente a mim, pelo que eu estava fazendo em benefício do
hospital. Era interessante para os que ali trabalhavam o hos-
pital receber da imprensa elogios em lugar das costumeiras
críticas. O que só eu sabia, era que quem mais estava sendo
ajudada era eu própria. Com meu trabalho de ajuda, a cada
dia ia reconstruindo a minha vida, o que fazia crescer minha
autoestima que, há meses atrás, estivera lá em baixo.

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Galeno Procopio M. Alvarenga

Minha mãe, que havia assistido à peça, para não per-


turbar meu trabalho evitou dar-me a má notícia de que meu
julgamento havia sido adiado mais uma vez e que, portanto,
ficaria mais um tempo no hospital, até que fosse tomada uma
decisão definitiva: retorno à prisão ou à liberdade. Após os
comentários normais da noite seguinte à encenação da peça,
fui ao encontro de Duca. Olhei para ela com um ligeiro senti-
mento de culpa por tê-la abandonado por uns dias, atarefada
com a peça. Ao chegar perto de Duca falei bem baixo:
- “Como está? Vamos fazer cafuné?”
Duca olhou para mim com desconfiança e não esboçou
o olhar costumeiro.
- Lembro-me desse seu insucesso...
- Durante os dias em que estive mais afastada de Duca,
foi você que cuidou dela. Lembro-me quando você, Cristi-
na, muito educada, relatou-me, com lágrimas nos olhos, que
tinha sido irmã de caridade por mais de vinte anos, havia lar-
gado o hábito há pouco mais de cinco anos. Você, naquela
época, não estava bem da cabeça. Cismava com suas ideias de
perseguição que todos a queriam matá-la por ter sido enviada
por Jesus Cristo à terra para salvar-nos com uma nova religião
comandada por você. Além disso, você dizia também que ti-
nha sempre sonhos e que estes eram ensinamentos e manda-
mentos de como agir, já que era Deus que introduzia esses so-
nhos na sua mente para ajudá-la e ajudar as outras pessoas...
- É. É... continuo a tê-los, gostaria de falar com você a
respeito de um deles, vim aqui um pouco para isso, balbuciou
Cristina com dificuldade.
- Que bobagem! Ainda continua tendo sonhos? Creio
que agora eles são diferentes dos antigos.

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- Sim e não, mais ou menos, há pouco tempo tive um,


agora são menos frequentes...
- Agora você está melhor, afirmou Corina olhando para
Cristina, mesmo notando que esta mostrava-se mais triste e
envelhecida. Cristina abaixou o rosto e olhou para o chão.
Corina continuou:
- Mas de qualquer forma eu senti confiança em você,
bem como em seu modo firme e decidido. Eu percebi que
em você eu podia confiar para ajudar Duca, caso eu saísse
do hospital.
Ocorreu um silêncio prolongado. Corina lembrou-se
do seu primeiro encontro com Cristina: “dos seus cabelos
cortados num corte masculino, bem curtos, do seu nariz
aquilino e um pouco encurvado, como os de papagaios, alia-
do ao seu andar decidido, que fizeram-me perceber que po-
dia confiar nela. Ela era tão forte como eu” -- e retomou a
palavra:
- Lembro-me que você se aproximou de mim logo após
ter começado meu trabalho com Duca e passou a participar
da terapia. Você era quem me ajudava nos banhos. Além
disso rezava junto dela, saía com Duca para caminhar no pá-
tio e ajudava-a a comer. Ela passou a gostar muito de você,
não sei se ainda é assim, você citava muitos trechos da Bíblia
e ditava normas de conduta. Lembro-me que, às vezes, você
era um pouco enérgica, mas isso era bom para ela, para mim
era um sinal de amor a Duca. Dizia ainda que quando saísse
do hospital levaria Duca para morar com você, já que mora-
va só e tinha uma pequena pensão que daria para as duas.
- Não sei se isso se realizou. Estou falando tanto que
não deixo você falar - completou nervosa Corina.

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- Não, que isso pode falar, depois falarei e lhe contarei


tudo... preciso ter mais coragem, você precisa desabafar.
- Uma manhã, eu e você, Cristina, fomos tomar e dar o
costumeiro banho em Duca.
- Lembra-se? Quando fui acordar Duca, ela já estava
acordada, esperando-nos com seus olhos muito abertos e
curiosos. Dei-lhe bom dia como fazia sempre, passei minhas
mãos nos seus cabelos duros e espetados, quando você che-
gou. Lembro-me como hoje, Cristina. Nós saudamos Duca
sem que obtivéssemos resposta. Apoiada nos meus braços e
seus, Duca caminhou para o banho, aflita para ser massage-
ada com a água morna do chuveiro. Entramos no banho e
começamos nossa tarefa. Naquele dia eu estava triste, pois
recebera notícias de que a sentença sairia nos próximos dias
e que era possível que eu fosse transferida do hospital para a
penitenciária, o que eu não mais desejava, pois sabia que não
só um, mas todos ali, principalmente Duca, sentiriam minha
falta. Começamos a ensaboá-la, principiando pelos cabelos
e rosto. Mas um pouco do sabão entrou nos seus olhos, que
quase não se fechavam e ela começou a limpá-los com as
mãos. Estas, que também estavam ensaboadas, pioraram suas
dores. De repente Duca, olhando para mim, falou com sua
voz até então capaz apenas de gritar:
- Ai, tá doendo, merda!
- Nós duas, eu e você ao mesmo tempo, demos um grito
de alegria e nos abraçamos. Duca nunca entendeu a nossa
alegria.
- Cristina! Ela falou!
- É, pela primeira vez.
- Comemoramos o fato com todas as outras internas,

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que foram atrás dela querendo ouvir sua voz. Eu, entusiasma-
da com o fato, cheguei a esquecer de meus problemas com a
justiça por uns momentos.
Duca, espantada com a nossa euforia e sem compreen-
der, ficou com medo e nada falou por mais alguns dias.
Entretanto, pouco a pouco, Duca foi voltando a falar.
No início, a maioria das vezes era para expressar raiva,
para xingar nomes feios, o que ela sempre ouviu de todos que
cuidaram dela. Ela respondia, como os animais, às agressões
sofridas. Mas aos poucos, ensinada por nós, principalmen-
te por você, Cristina, que já havia sido professora no colégio
onde foi freira, o seu vocabulário foi aumentando.
Os progressos foram muitos com Duca. Ela começou
a comer com os talheres, a princípio com uma colher e de-
pois com o garfo, passou a tomar seu banho sozinha, mas eu
sempre tinha que passar minhas mãos em suas costas, não
mais urinou nas roupas e andava asseada. Um dia levantei-me
triste, quase não dormi devido às notícias trazidas pela minha
mãe na tarde do dia anterior, de que tudo indicava, segundo
meu advogado, de que teria que sair do hospital e deveria ser
transferida para a prisão para cumprir minha pena. Quando
saí do meu leito, ao contrário dos dias anteriores, nem olhei
para Duca, pois tinha meus olhos inchados de tanto chorar à
noite e lágrimas corriam sobre minha face. Desviei meus olhos
para o lado oposto onde ela estava esperando-me. De repen-
te ela levantou-se, sem minha ajuda, aproximou-se de mim e
pela primeira vez desde sua entrada no hospital, abriu seus
enormes braços e abraçou-me ternamente. Chorei como nun-
ca. Não sei se ela havia percebido meu sofrimento. Sei apenas
que ficamos, diante das outras internas espantadas, abraçadas

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por alguns minutos, nós duas chorando, uma nos braços da


outra. Nesse momento, dei-lhe um beijo carinhoso no rosto
molhado pelas lágrimas que desciam dos nossos olhos.
Senti uma fusão e proteção nos braços de Duca. As ou-
tras internas, após a nossa separação, aproximaram-se para
abraçá-la. Entretanto, com exceção de você, ela recusou to-
dos os contatos.
Todas saíram da enfermaria frustradas e algumas a xin-
gando de metida. Nós duas ficamos orgulhosas do nosso feito.
Cada dia que passava as notícias eram piores para mim.
Minha mãe informou-me que o dinheiro estava se esgotando.
O delegado exigiu mais dinheiro, dessa vez R$ 10.000,00 para
protelar um pouco mais o envio do processo à justiça. Caso
a sentença fosse negativa, a minha transferência do hospital
para a prisão seria imediata. O oficial de justiça a cada dia exi-
gia mais dinheiro para “segurar” os documentos que deve-
riam ser entregues. O advogado, procurando fazer suspense e
alegando a dificuldade da defesa e a necessidade de “molhar
as mãos” de algumas autoridades, também exigia mais dinhei-
ro. O que podia ser vendido já fora e as esperanças estavam se
acabando. Voltei a passar algumas horas novamente no leito.
O esforço era grande para fazer ou pensar em algo diferente
do que o meu processo. Percebia que agora eu era cuidada por
você e talvez por Duca, que segurava minhas mãos, geralmente
quase não falando nada, enquanto eu ficava deitada. Ela ficava
horas e horas sem arredar do meu leito como um cão fiel a seu
dono. Pensava no que seria dela caso eu tivesse que ir para a
prisão e ter que abandoná-la. Numa tarde em que sentia-me
totalmente abatida e desanimada com tudo, pedi a você para
tomar meu lugar, caso fosse transferida para a prisão.

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- Esse dia não me sai da cabeça.


- A partir daquele dia percebi que sairia dali e comecei
a prepará-la para minha falta, tinha que entregá-la a uma pes-
soa capaz de cuidar dela. E essa pessoa não podia ser outra se-
não você. Recordo que disse para Duca que teria que ir para
outro hospital e que depois eu iria visitá-la onde ela estivesse.
Penso muito nela, quero, logo que tiver minha liberdade, ir
vê-la. Será que ela ainda se lembrará de mim? A partir desse
dia você, Cristina, começou a cuidar de Duca.

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CAPÍTULO 12

- Lembro-me bem - continuou Corina - que numa noi-


te de quarta-feira fui chamada pela enfermeira, já quando es-
tava deitada esperando o sono chegar, ou melhor, a insônia,
que havia muito tempo dominava-me.
- Corina, apronte-se, a polícia está te esperando, veio
uma ordem para você ir para a penitenciária, disse a enfer-
meira pronta para me levar.
- Olhei desolada para Duca, que dormia profunda-
mente. Não tive coragem de acordá-la, dei-lhe com cuidado
um carinhoso abraço de despedida e um beijo em sua testa.
Fui até ao seu leito, Cristina, e por alguns minutos ficamos
abraçadas, chorando juntas. A enfermeira que me esperava
impacientemente, desejando acabar com aquela cena que a
emocionava também, gritou com voz rouca:
- Venha, a polícia te espera!
- Cristina, balbuciei, cuide de Duca...
- Corina, pode deixar, farei tudo o que for possível para
vê-la feliz. Ela viverá feliz comigo, respondeu Cristina solu-
çando.

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- Está em suas mãos, confio em você, disse-lhe, quase


sem conseguir pronunciar as palavras. Lá fora vários carros
da polícia esperavam-me. Passei pela portaria e o médico as-
sinou a minha transferência com as mãos trêmulas e nada
disse, mantendo os olhos fixos no chão. Ao cruzar a portaria
em direção à rua fui algemada e jogada com gozações dos for-
tes policiais para dentro do camburão. A noite estava escura,
fria e chuvosa. As sirenes do carro policial, seguido por diver-
sos outros, foram ligadas e espalharam, por todos os cantos,
seu barulho desagradável. Eu, sentada com as mãos presas,
chorava desolada.
Nesse ponto Corina interrompeu sua narração durante
alguns segundos. Cristina, que fora ali para contar para ela o
ocorrido, adiou até agora seu relato. Com uma voz difícil de
sair, começou a falar:
- Corina, jamais vivi um dia tão ruim em minha vida!
O dia seguinte no hospital foi como de luto. O silêncio era
aterrador. Duca acordou e olhou para o seu leito vazio, já que
ele ainda não havia sido ocupado por outra paciente. Esperou
quieta por minutos e nada de você, eu não sabia o que fazer
e evitava falar para não chorar mais ainda. Aproximei-me de
sua cama para tentar levá-la ao banho. Ela recusou, xingando-
me com todos os nomes possíveis e gesticulando desordena-
damente. Sem sair do leito, começou a urinar e a defecar em
suas próprias roupas. Uma caneca de café com leite lhe foi
servida e foi jogada na cara da enfermeira que a trouxe. Ali
ela permaneceu sem sair. Naquele dia eu, paralisada pela sua
recaída, não sabia o que fazer.
A partir daquela data Duca foi piorando, à medida que
percebia que você havia desaparecido.

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Não sei o que ela pensava, é difícil saber. Ficava, ou dei-


tada no leito, ou, quando se levantava deste, era para xingar,
gritar sons altos incompreensíveis e estridentes, agudos, des-
conexos, como os animais que perdem a mãe e se percebem
sós. Não chorava. Não mais comeu e foi definhando, sendo
que num mês havia perdido oito quilos. Pouco ou nada dor-
mia. Às vezes saía de seu leito, quebrando o que tivesse a sua
frente, jogava, sem direção, os diversos objetos que estavam
ao seu alcance. Eu, sem coisa melhor para fazer, orava, pedin-
do a Deus uma luz, uma ajuda, qualquer que fosse, naque-
le momento terrível. Tentava protegê-la, como prometera a
mim mesma e a você.
De tempos em tempos ela, que não mais recebia remé-
dios fortes, voltou a receber grandes doses da injeção ”sos-
sega- leão”. Essas, ao invés de melhorá-la, tornavam-na mais
confusa e agressiva com todos os que tentavam ajudá-la. Sua
fisionomia foi se tornando triste e irada, como o de um ani-
mal selvagem enjaulado, desejando a todo custo fugir do ca-
tiveiro, matar quem estivesse à sua frente.
Fui ficando desesperada pela inutilidade de meus es-
forços e pela impotência para reverter o quadro que piorava
a cada dia. Aos poucos meus diversos protetores foram me
abandonando, pois nada era conseguido de positivo. Não tive
outro recurso a não ser lançar mãos de meios mágicos, orar,
como última tentativa, para mudar o que estava acontecen-
do. Em pouco tempo, com sua piora, não mais permitia que
eu me aproximasse dela como antigamente. Comecei a orar
cada vez mais, pedindo uma saída, um caminho para Duca,
para mim. Era o que mais queria naquele momento e eu sabia
que Deus, que jamais me abandonara, iria ajudar-me.

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Galeno Procopio M. Alvarenga

Depois de algum tempo parece que ele me ouviu. Não


sei, acho que sim.
- Que bom! Então ela melhorou novamente? Já estava
pensando que ela voltou ao que era! Comentou Corina, aflita.
- Certa noite, uma das poucas noites que consegui dor-
mir um pouco, tive um sonho fúnebre, nem sei bem se estava,
ou não, dormindo. Você sabe que sempre tive sonhos e mui-
tas vezes em toda minha vida, orientei-me por eles. No sonho,
era um fim de tarde, eu vi Duca caminhando de mãos dadas
comigo, através de um caminho branco como leite, ladeado,
de um lado e do outro por um longo jardim florido com rosas
púrpuras e crisântemos. Passeávamos em silêncio, lentamen-
te, em direção a um pedestal colocado à nossa frente.
O ar puro daquela tarde tranquila e morna estava per-
fumado pelo cheiro das flores. Um sol vermelho se punha
no horizonte, criando uma enorme sombra desenhada pelo
pedestal. Ao lado deste, desenhavam-se raios luminosos for-
mando longas lanças de fogo. Nuvens muito brancas atraves-
sadas por estes pontos luminosos formavam diversos grupos
espectrais de coloridos diferentes. Os caminhos que iam se
abrindo entre os jardins nos levavam para o alto, para esses
fantasmas coloridos existentes nas nuvens no céu, próximo ao
sol que agonizava lentamente até se pôr totalmente e a noite
chegar. Nesse momento começamos a conversar a seu respei-
to, felizes, esperando te encontrar no interior das nuvens aver-
melhadas. Quando o dia morreu e nasceu a noite, lá no alto
eu avistei Duca, ao mesmo tempo que ela caminhava ao meu
lado. Assustei-me com a minha visão: Duca estava dependura-
da num laço formado por trapos de um lençol de leito, numa
das nuvens agora enegrecidas pela noite que chegava.

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Ex-Internas Descrevem Segredos do Hospicio

Percebia claramente que ela estava morta, mas ela sor-


ria, sorria para mim e para ela própria que caminhava em sua
direção. A que caminhava estava serena, como que esperan-
do o previsto, o seu descanso. A Duca que caminhava tirou
a outra do meio das nuvens, tampou a ferida com uma po-
mada que foi colocada no sulco profundo e roxo, formado
em torno de seu pescoço. Em seguida abraçou com carinho
seu corpo balofo e disforme. Duca, mantendo sua fisionomia
calma, balbuciou:
- Obrigada, meu Deus, eu preciso despedir-me dessa
vida e voltar para minha morada, para a outra vida... a eterna,
lá viverei melhor, já paguei aqui o que tinha que pagar. Deus
todo poderoso, minha hora chegou...
Nesse momento acordei assustada com o sonho. Fui
correndo até a cama de Duca e olhei rápido para ela. Ela es-
tava acordada. Voltou seu rosto para minha face esboçando o
mesmo sorriso que eu tinha enxergado no sonho que acabara
de ter e que nunca tinha observado nela. Fiquei pensativa,
talvez por horas. Olhei o relógio, eram três horas. Pensando
em Deus, na sua misericórdia, na ajuda tão implorada e espe-
rada por mim, acreditei estar diante de um aviso vindo lá de
cima, para que eu cumprisse o que já fora determinado por
poderes acima do meu. Fixando meus pensamentos na men-
sagem divina, no pedido de seres mais poderosos do que nós,
comecei a imaginar como deveria cumprir o mandamento.
Tornei a agradecer a Deus por ter me ouvido. Pensei no sofri-
mento continuado de Duca, na ausência de solução na Terra,
da impossibilidade de fazermos, nós, mortais, algo por ela.
Vi que estava diante de forças sobrenaturais e que deve-
ria cooperar com elas.

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Galeno Procopio M. Alvarenga

Assim pensando, permaneci ainda mais alguns minutos


diante do olhar de Duca, que permanecia sem nada pronunciar.
Minha cabeça fervia. Eu perguntava-me: “Qual o significado do
sonho? O que devo fazer para agradar a Deus-todo- poderoso?”
Orei ainda mais. Precisava fazer algo antes da manhã
chegar, do sol nascer. Estava tensa. Tinha que ser naquela
noite. O aviso era claro. Duca permanecia ali, diante de mim,
imóvel, fitando-me como se esperasse algo ou implorasse por
uma ação minha que não vinha. Andei para um lado e para o
outro, sem tirar os olhos de Duca. À medida que caminhava,
ia balbuciando desconexamente algumas orações. Aos pou-
cos, senti-me como sendo incorporada por forças e poderes
mais potentes do que minha própria vontade. Já tinha senti-
do isso antes, quando esfacelei meu gato predileto e um pe-
queno coelho que criava, para ofertá-los ao Senhor. O que
mais amava na vida foi doado para quem merece mais do que
eu. Devia fazer o mesmo agora!
Ganhando a cada minuto mais forças, fui me aproxi-
mando do leito de Duca. Tirei seu cobertor, puxei seu lençol
branco e, de uma só vez, o rasguei com minhas mãos fortes,
agora mais fortes ainda, tirando dele algumas tiras. Reuni es-
tas formando uma pequena corda, o necessário para envol-
ver todo o pescoço de nossa amada amiga. Uma vez a corda
tecida, com a ajuda dessa “Teresa” feita às pressas, a testei,
puxando de um lado ao outro, para ver sua resistência. Isso
deu origem a um som peculiar de corda esticada. Verifiquei
que ela estava firme.
Num ritual macabro, aproximei-me com calma de
Duca, passando com cuidado, para não machucá-la, a “Tere-
sa” em torno do seu pescoço.

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Ex-Internas Descrevem Segredos do Hospicio

Com carinho virei-a de bruços, despedindo-me quan-


do ela torceu o pescoço e olhou-me pela última vez, dando-
me um leve sorriso, que há muito não via em sua face. Duca
permanecia agora quieta, deitada, tendo sua face voltada para
seu travesseiro. Ela parecia adivinhar e desejar que tudo aqui-
lo terminasse rápido, para que ela pudesse sair desse mundo
de sofrimentos e retornar para o paraíso, de onde ela veio um
dia. Ao enfiar ainda mais sua cabeça no velho e sujo traves-
seiro do seu leito, percebi que de seus pequenos olhos escor-
riam lágrimas coloridas e brilhantes como os pontos aver-
melhados vistos no sonho daquela madrugada. Compreendi
que aquele sinal brilhante era um indicador divino para que
eu continuasse minha ação.
Eu orava incessante e nervosamente, enquanto segu-
rava, com cada uma das mãos, as duas pontas do laços que
havia feito e que tinham contornado o pescoço de Duca. Res-
pirando fundo larguei, por instantes, umas das pontas deste e
abaixando-me, beijei ternamente o rosto de Duca, passando
minhas mãos com carinho sobre seu pescoço. Era chegado o
momento. Então enchi meus pulmões de ar, como que an-
tevendo a falta deste para ela. Contraindo os músculos de
ambos os braços fui apertando o laço, enquanto orava para
Cristo, todo-poderoso. Duca teve apenas uma leve convulsão
e estremecimento generalizado. Ela não gritou, deu um leve
gemido, muito baixo, que acordou apenas a companheira que
dormia na cama ao lado, mas esta dormiu logo em seguida.
Agradeci a Deus com uma breve oração a força que Ele me
deu para um ato tão penoso de ser realizado, o dever cumprido
em louvor ao Senhor, o bem proporcionado à pessoa a quem
mais eu havia me dedicado e amado em toda minha vida.

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Galeno Procopio M. Alvarenga

Retirei o laço, fui até meus guardados e retirei deles um


creme para pele, um que você deixou para mim, ótimo por
sinal.
Passei, massageando, o creme no sulco arroxeado que
se formou no lugar do laço. Como por milagre, este foi de-
saparecendo pouco a pouco. Em seguida, conforme o ritual
sonhado, cobri o lugar onde a corda havia apertado o pesco-
ço de Duca. Fui até o banheiro, pois sentia náusea diante do
meu esforço. Vomitei durante alguns minutos. Joguei o laço
no vaso e dei a descarga e novamente guardei o creme no
escaninho improvisado debaixo de minha cama. Em seguida
deitei-me e fiquei esperando o dia clarear, certa de que havia
cumprido o dever de uma serva do Senhor. No dia seguin-
te, com a ajuda divina, nada ocorreu. Ninguém comentou a
morte de Duca, ninguém se interessou em descobrir o mo-
tivo de sua morte. O diretor, cansado da imprensa, expediu
um atestado de morte por suicídio. O assunto morreu logo,
como ela.

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CAPÍTULO 13

A conversa entre Corina e Cristina terminou nesse


ponto. Corina não conseguiu falar mais nada. Calou-se e cho-
rou copiosamente ao ouvir o fim do relato. As duas, nesse
instante, se abraçaram, abafadas com as lembranças, e assim
ficaram por minutos.
Sem nada falar, Cristina levantou-se e saiu apressada-
mente, passando pela porta da sala onde outros presos con-
versavam distraídos. Cristina nunca mais foi à prisão, pois sua
história terminou naquele momento. Saiu aliviada da visita e
esta noite, novamente depois de muitos meses, dormiria em
paz: havia confessado o que precisava. Corina correu para
sua cama, para deitar-se rápido antes que desmaiasse.
As imagens de Duca não abandonaram mais a mente
inquieta de Corina.

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