Você está na página 1de 250

O Presente

e outros contos
GALENO PROCÓPIO M. ALVARENGA
www.galenoalvarenga.com.br

Esse livro faz parte do acervo de publicações do Psiquiatra e Psicólogo


Galeno Alvarenga. Disponibilizamos também a versão impressa, que
pode ser adquirida através do site do autor.

Visite www.galenoalvarenga.com.br e saiba mais sobre:

Publicações do Autor
Transtornos Mentais
Testes Psicológicos
Medicamentos
Galeria de Pinturas de Pacientes
Vídeos / Programas de TV com participação de Galeno Alvarenga
GALENO PROCÓPIO M. ALVARENGA

O Presente
e outros contos

Belo Horizonte - 2009


Copyright © by GALENO PROCÓPIO M. ALVARENGA

Supervisão Gráfica
Sofia Lopes

Edição Independente do Autor


Galeno Procópio M. Alvarenga

Imagens capa e contracapa


Galeno Procópio M. Alvarenga

Diagramação
Marcos de Oliveira Lara

Capa
Max Guedes (Estagiário)

Revisão
Maria Isabel da Silva Lopes

Impressão
Sografe

Contato c/ o Autor
galenoalvarenga@terra.com.br
www.galenoalvarenga.com.br

Alvarenga, Galeno Procópio de Mendonça


A473 O presente e outros contos / Galeno Procópio
de Mendonça Alvarenga. – Belo Horizonte: Ed.
do autor, 2009.
246 p.

ISBN 978-85-907543-4-3

1.Literatura brasileira – Contos I.Título.

CDD: B869.85
CDU: 869.0(81)-82
Elaborado por:
Maria Aparecida Costa Duarte
CRB/6-1047
AgradecimentoS

Ao Toby,
cãozinho de Juliana e Jussara,
pela sua educação, simpatia, meiguice e doçura.
SUMÁRIO

O PRESENTE.......................................................................................................... 9
CONFIDÊNCIAS À MEIA-NOITE...................................................................... 15
AMANHECER SEM FUTURO:
FORTUNATO E FELICIDADE VÃO ÀS COMPRAS...................................... 23
O PACIENTE DO LEITO 33............................................................................... 29
METAMORFOSE.................................................................................................. 39
A DOENÇA DE RONALDO............................................................................... 47
UMA DIFÍCIL DECISÃO..................................................................................... 55
DESABAFO NA MESA DO BAR....................................................................... 61
A FELICIDADE MORA AO LADO..................................................................... 67
Num quarto do hospital......................................................................... 73
A HISTÓRIA TOMOU VIDA PRÓPRIA............................................................ 79
ESQUIZOFRENIA E ELEFANTE......................................................................... 89
PIEDADE: UMA HISTÓRIA SIMPLES............................................................. 95
MEUS CABELOS!.............................................................................................. 101
A INVESTIGAÇÃO DO ÍNDIO SURDO......................................................... 117
O JULGAMENTO FINAL DE CARÍCIO PENA.............................................. 121
O ASSASSINATO DO AMANTE DE REGINA............................................... 127
O ASSALTO......................................................................................................... 161
ÂNGELA............................................................................................................... 167
O DELÍRIO DE JÉSUS...................................................................................... 173
O FELIZ ENCONTRO INDESEJADO.............................................................. 181
DESESPERO DO EXECUTIVO J. S................................................................. 191
INALDA................................................................................................................ 195
A VINGANÇA DE OTÁVIO PARPANTE......................................................... 199
O PASTOR E O BANDIDO.............................................................................. 211
UM HOMEM ÀS AVESSAS............................................................................. 217
CENAS DE FIM DO NAMORO....................................................................... 223
A MORTE DA FUNCIONÁRIA......................................................................... 233
UMA CHEIRADA NO CANGOTE................................................................... 239
O PRESENTE

Júlia chorou e riu de alegria quando sua madrinha, D. Olga,


decidiu presenteá-la com um cãozinho, uma promessa antiga. Não
uma imitação, era um cachorro de verdade. Sua madrinha, que
se encontrava hospitalizada quando Júlia aniversariou, prometera-
lhe, como presente, um cão, logo que pudesse sair à rua. Ela so-
nhava com este dia, que afinal chegou. Mesmo antes de ganhá-lo,
imaginava como iria alimentá-lo, fazê-lo dormir, brincar e, princi-
palmente, mostrar para as amigas seu cãozinho. O vendedor de
cães vendia seus cobiçados bichinhos na feira dos sábados. Os
encantados garotos que por ali passavam, fascinados pelo movi-
mento e latidos dos cães, estacionavam diante desse espetáculo
dos fins de semana. Júlia ia à feira somente para vê-los e, por al-
guns minutos, brincar com estes agitados animaizinhos, carregá-
los e aconchegá-los no seu colo, passar com cuidado e ternura
suas mãos sobre seus pelos macios.
Naquela manhã de sábado, o vendedor de cães, falante como
todo bom vendedor, recebeu os curiosos compradores no seu ca-
nil improvisado, onde Bob, o mais saliente e bonito deles, brinca-
va alegremente com seus companheiros diante de Júlia. O vende-
dor de cães anunciava que só vendia cães sadios e inteligentes e,
naquele dia, entusiasmado com o prenúncio de um bom dia, pois
já vendera três cães naquela manhã, esperava seus atentos e es-
perançosos compradores, diante dos animais indiferentes ao seu
novo proprietário.
10 - O Presente e Outros Contos

Os cães rolavam e brincavam nas caixas, exalando seu mau


cheiro natural. Notando o interesse de Júlia por um deles, um poo-
dle peludo, branco com a cabeça preta, ele o separou, ofereceu-lho
para que ela o carregasse e lhe disse que Bob, - assim ele chamava to-
dos seus cães - era um cachorrinho muito especial. Filho de um cão
com pedigree artista de circo, Bob também aprendera, e com que
rapidez, diversos comportamentos: era capaz de dar a pata dianteira
quando solicitado, fazia xixi no jornal, andava sobre as duas patas
traseiras, pulava obstáculos e, além disso, estava aprendendo a andar
de bicicleta e de patins. Em resumo, Bob era um cachorro “fora-de-
série”, por isso mesmo um pouco mais caro do que os outros. Júlia
ficou entusiasmada por ele, nenhum mais servia, estava escolhido,
só faltava a aprovação da madrinha.
D. Olga, depois de muito pechinchar, mas não atendida, tirou
com dificuldade de sua grande bolsa uma bolsinha, e de dentro
desta, duas notas de R$ 50,00 reais, bem amassadas, preço cobra-
do pelo cão. Júlia abraçou Bob junto a si, radiante e triunfante por
ser, a partir de então, proprietária deste belo, inteligente e ensi-
nado cão. Colocou ali mesmo no seu pescoço uma coleira preta,
comprada do próprio dono dos cães, que combinava muito bem
com seu pelo branco e preto. Sorriu para todos os tristes e inve-
josos meninos postados ao seu lado e caminhou orgulhosa pelas
ruas, exibindo para todos os transeuntes seu novo brinquedo. Nes-
te momento ia imaginando como armaria uma casa para ele, as
rações necessárias, e até, no futuro, uma companheira para ele,
bem como cuidaria dos filhotes que iam nascer. Júlia vivia naquele
dia seu momento mais feliz. Afinal tinha o que sempre quis, o mais
lindo dos cães, um cachorrinho ensinado capaz de morar no seu
pequeno apartamento, sem incomodar seu pai e mãe, pois estes
não viam com bons olhos esse novo hóspede. Que bom!
Ao chegar ao apartamento, Rosinha, a cozinheira, esperava an-
siosa por ela e Bob. Pediu permissão a Júlia para carregá-lo por instan-
tes, pois, quando morava na roça, ela também tivera um cão, não tão
bonito e ensinado como aquele, mas também lindo e bonzinho.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 11

Os pais de Júlia, apesar de descontentes com o fato de ter


que viver com o cão no apartamento, fingiram demonstrar algum
contentamento pela sua chegada. Dr. Mário, seu pai, preferiu nem
olhar para Bob, pois detestava animais em casa. Júlia explicou, para
que seus pais o aceitassem, as virtudes do Bob. Falou entusiasmada
acerca de suas habilidades contadas pelo vendedor, aumentando o
mais que podia o que ouvira.
Naquele fim da tarde de sábado, era servido à família um lan-
che especial: pães diversos, queijos, presuntos, além do café, leite,
chocolate, manteiga e margarina, esta última para o Dr. Mário, que
tivera um infarto e tinha medo de comer muita gordura animal.
Para não atrapalhar esse encontro da família dos fins de semana,
Bob foi delicadamente colocado na sua casinha, comprada ainda
naquela manhã no Mercado Central. Ao lado de sua moradia, bem
junto ao quarto de Rosinha, Júlia colocou sua água e ração, e den-
tro da casinha panos para que ele pudesse dormir mais agasalhado.
Mais afastado ainda, perto do banheiro de Rosinha, foram colo-
cados jornais velhos para que neles Bob fizesse xixi e cocô. Bob
acomodou-se rápido, como cão ensinado que era: entrou na casa
e lá ficou quieto, parecendo gostar de sua nova moradia. Logo de-
pois, adormeceu.
A família lanchou fartamente, junta e feliz, como fazia sem-
pre. Terminada a comilança, começaram as habituais conversas
dos sábados entre os pais, Júlia e seu irmão.
Dirigiram-se à sala de TV, situada no fundo do apartamento,
local mais afastado do barulho dos ônibus que circulavam em fren-
te ao prédio. Júlia, envolvida na conversa, com o sossego e a tran-
quilidade relaxante daqueles momentos, chegou até a esquecer,
por instantes, mais por falta de hábito do que por desinteresse, do
seu querido amigo Bob. Além disso, seu irmão começara com ela a
eterna briga por causa da cadeira mais aconchegante para se assen-
tar, disputa que os dois pareciam sentir falta, quando não ocorria.
De repente Júlia lembrou-se de Bob, ao ouvir um pequeno
barulho que parecia vir da copa, onde a família lanchou.
12 - O Presente e Outros Contos

Correu alegre para vê-lo. Chegando à cozinha, quase des-


maiou com a cena: o belo cachorrinho ensinado estava trepado em
cima da mesa, onde eles tinham lanchado. Comera o presunto e
derrubou as xícaras. Havia restos de vidros pelo chão e a toalha da
mesa estava emporcalhada de leite e manteiga. Júlia correu em sua
direção para pegá-lo, mas não conseguiu. Bob escapou rápido de
suas mãos e de uma só vez pulou, como bom trapezista, para cima
da geladeira, refugiando-se, por momentos, onde se encontrava um
vaso com belas rosas vermelhas. Derrubou-o de uma só vez. Nova
perseguição, cada vez mais intensa, na sala de estar, bem diante de
toda a família, que correu para ajudá-la a agarrar o belo e ensinado
cão. Novo pulo no chão, onde se erguia um vaso chinês com mais
de cem anos de existência e que pertenceu à bisavó de sua mãe.
Com a trombada que Bob deu nele, o vaso despedaçou-se, fazendo
um barulho seco e triste.
O desespero e a impotência estavam estampadas na face dos
familiares. Todos corriam desesperados, tentando segurar Bob. De
camisola branca, Rosinha saiu de seu quarto, onde assistia à novela.
Correu para a sala, xingando os piores nomes feios que conhecia,
alguns que Júlia jamais ouvira em sua casa. Todos tentavam cercar
o animalzinho, que passou a rosnar ameaçadoramente quando era
seguro por instantes. Bob, espantado e acuado, daqui e dali, con-
tinuava sua fuga e por onde passava, destruía o que encontrava:
copos, livros, rádios e outros objetos. Num certo momento, encur-
ralado na sala, pulou para dentro do quarto dos pais de Júlia.
Cercado por todos os cantos, subiu para cima da cama, novo
avanço da tropa em sua perseguição, com várias mãos abertas
prontas para agarrá-lo. Bob mais uma vez escapou do cerco, pulan-
do, como grande artista que era, para cima do criado-mudo. Novo
avanço da infantaria em marcha contra o inimigo. Os caminhos
todos estavam agora fechados, não havia mais saída para Bob, ele
estava derrotado. Mas ainda não foi dessa vez sua prisão, pois, per-
cebendo que estava cercado e seria fatalmente aprisionado, fez sua
última tentativa, tentou escapar de um modo que ninguém imagi-
nava; pulou para sua única saída, a janela aberta do apartamento.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 13

De uma só vez, com este pulo digno de um cão ensinado de


circo, Bob despencou, voando para a morte, do vigésimo andar do
prédio, sob os olhares cheios de ódio, mas também de piedade,
dos perseguidores implacáveis. O pai de Júlia ainda tentou alcançá-
lo, mas em vão, não tanto para salvá-lo, mas para castigá-lo.
Júlia chorou como nunca. Estava com raiva e, ao mesmo tem-
po, triste. Para completar, ganhou uma espinafração do pai, que
gritou cheio de cólera:
— Você nunca mais irá trazer um cachorro para dentro de
casa, nem mesmo um de pano, muito menos os ensinados, esses
são os piores!
Naquela noite Júlia não conseguiu dormir: lembrou durante
toda a noite o dia alegre e triste, bom e mau que tivera. Assustava-
se a todo momento, ouvindo o barulho que ficara preso à sua cabe-
ça: o som terrível e abafado do corpinho de Bob, despedaçando-se
ao bater no cimento duro e quente que rodeava o jardim. Júlia
jurou que nunca mais iria brincar naquele jardim, principalmente
no local onde ele morrera: o caminho que rodeava o jardim carre-
gado de rosas brancas que exalavam, naquele dia, um maravilhoso
perfume. Rosas tão belas como seu cãozinho querido.
CONFIDÊNCIAS À MEIA-NOITE

São nove e meia da noite: o telefone toca insistentemente. Pau-


lo, cinquenta e dois anos, administrador de empresas, olha as horas
no relógio dependurado na parede. Apesar de cansado, após ter
lecionado todo o dia, ele se encontra animado e feliz. Resolve aten-
der o chamado, imaginando: “Quem sabe, é ela.”
— Alô, é Paulo? Aqui é Cícero. Tudo bem?
— Cícero! Como vai? Sua voz sai baixa, demonstrando frustração.
— Mais ou menos. Todo dia, aqui no banco, meu chefe me
aporrinha.
— Nas minhas aulas eu ensinei como lidar com chefes chatos.
Você tem usado o aprendido?
— Claro que sim. Mas com ele não adianta. Tudo que faço, ele
acha ruim.
— Mas não foi despedido, como imaginava. Ainda bem, não acha?
— Certo. Mas vou ser transferido. Até que gostei. E você, como vai?
— Tudo bem. Estou com sorte. Estes dias uma antiga amiga me...
— É? Você se lembra daquela moça que lhe falei? Ela canta no
conjunto em que toco.
— Sim. Lembro-me. Ela agora te largou, canta no coral, não é?
— É... Mas voltou... está impressionada com a técnica. Deu certo!
— É... esta minha amiga... uma amiga dos tempos da facul...
— Eu, agora, é que não sei se a quero de volta ao conjunto. Vou
levando. Paulo, estou azarado. Preciso tocar, mas estou com dor na
mão direita. Fui ao médico e, para ele, eu não devo trabalhar com
os dedos.
— Isso passa... é coisa simples. Você se impressiona com tudo.
16 - O Presente e Outros Contos

Exagera qualquer dor ou mal-estar. A minha amiga morava aqui, há


muitos anos. Ela, ao contrário de você, sempre...
— Você acha que devo tirar licença médica? Conversei com um
amigo ligado ao diretor. Ele acha que devo cuidar de minha saúde em
primeiro lugar. Preciso emagrecer, estou com quinze quilos a mais.
— Puxa! É... precisa mesmo! Se você não for, pode piorar a situa-
ção. E esta, como disse, não anda nada boa. Não é? Essa minha amiga
fez um regime, emagreceu seis quilos. Ela só come verd...
— Preciso emagrecer, sim. Vou começar a fazer ginástica, comer
menos doces: gosto de chocolate. Parei de fumar há três meses.
— É um grande passo. Agora já pode começar a emagrecer. A
minha amiga gosta de alimentos naturais como...
— Se for para o interior, irei me sentir isolado. Nunca fiquei
longe da família. Sempre morei com minha mãe, moro com ela atu-
almente, após a separação com Fofó. Ficamos casados dois anos...
— Viver sozinho tem, também, algumas vantagens. Eu tenho
pouco medo da solidão... chego a gostar dela. Quando essa amiga
me telefonou, comecei a pensar...
— Acho que acabo me acostumando em Lavras. Não acha?
— É evidente. Até logo. Um grande abraço.
Paulo não conseguiu falar nada do que desejava. Seu amigo,
por mais que ele tentasse, não quis escutar seu caso: a amiga, seu
retorno, sua conversa ao telefone. Tudo isso estava lhe atormen-
tando. Tomou um café requentado e pegou uma revista para ler,
mas não conseguiu prestar atenção em nada. Sua mente estava
ocupada com Maria. Pensou em ligar para ela. O telefone tocou
novamente.
— Paulo, tudo bem? Aqui é Dario, seu sobrinho. Estou lhe tele-
fonando para comunicar o nascimento do meu filho, Mário.
— Que bom! Você casou-se? Não sabia, hoje em dia há muito
desses casamentos modernos. Mário é um bonito nome, parece
com o nome...
— Não casei. Estou morando com aquela minha namorada, Clara.
Você a conhece. É aquela que trabalha na Secretaria da Educação.
— Lembro... é uma alta, morena, bonita! Que tal a vida a dois?
Galeno Procópio M. Alvarenga - 17

— Mais ou menos. Sinto-me muito preso. Ela é ciumenta. Por


causa disso, tive que abandonar as outras. Sempre gostei de várias.
— É sempre assim. Se estamos sozinhos, reclamamos, se en-
contramos alguém, não suportamos. Amamos quem não nos ama
e somos amados por quem não amamos. É o nosso destino. Ela pa-
rece ser uma boa moça, deve dar certo. Eu, grande parte de minha
vida, fiquei só. A gente, pouco a pouco, vai se acostumando. Esses
dias, uma antiga amiga telefonou-me. Ela é bonita e...
— A vida a dois é até boa. Não me arrependi. Mas filho, ainda
mais recém-nascido, é um saco. Chora a noite inteira. Não durmo
mais como antes. Fico bocejando no trabalho. Estou precisando
de sua ajuda. Vi em sua casa, no fundo da garagem, uma banheira
velha para dar banho em recém-nascido. Você pode emprestá-la
pra mim? Além disso, preciso que você me indique um pediatra.
Um que cobre barato, pois o dinheiro está curto. Você elogia mui-
to o que cuidou de seus filhos.
— Sim. Tenho, sim. A banheira está estragada, mas ainda pode
ser usada. Esta minha amiga contou uma história interessante e
cômica do seu primeiro filho e do primeiro banho que ela foi dar
numa banheira como...
— Preciso de seus conselhos e experiência para cuidar bem do
meu filho. Ele é do saco roxo. Macho como nós. Espero que seja
paquerador como sempre fui. Ah! Ia esquecendo-me, estou preci-
sando de um empréstimo. Não é uma grande quantia não. Apenas
duzentos reais para pagar algumas despesas extras que tive. Daqui
a uma semana eu te pago. Posso contar com você?
— Acho que sim. Vou procurar a banheira. Por falar em despe-
sa, esta minha amiga gastou uma nota...
— Posso passar aí amanhã para pegar a banheira e o dinheiro?
— Amanhã à noite. Dou aulas durante o dia. Como sabe, moro
só e faço tudo sozinho. Se arrumasse uma companhia, talvez as
coisas ficassem...
— Vou desligar. O pirralho está berrando e minha mulher está
me chamando. Até amanhã.
18 - O Presente e Outros Contos

— Até logo.
Paulo continuava a pensar em sua amiga. Discutia consigo se
devia ou não lhe telefonar. Precisava falar com alguém a respeito
dela. Tinham sido amigos quando jovens. Maria, após estudar em
Belo Horizonte, foi para o Paraná, onde morava sua família. Mais
tarde, casou-se. Separou-se há cinco anos. Paulo a imaginava bo-
nita, alegre e espontânea, como era quando se conheceram. Ela
sempre gostou de ler, frequentar teatro e cinema. Talvez ainda
esteja capaz de aguentar e de manter, por horas, uma conversa
animada. A corrente de pensamentos de Paulo novamente foi in-
terrompida pelo telefone, que volta a tocar.
— Professor Paulo, aqui é sua ex-aluna Fátima. Desculpe-me
incomodá-lo às onze horas da noite. O senhor deve estar cansado...
mas acontece que preciso conversar com alguém como o senhor.
Como sabe, larguei meu marido há quase um ano. A princípio,
fiquei feliz por ficar livre do Haroldo. Entretanto, a cada dia mais,
sinto-me terrivelmente só. É muito ruim para uma mulher não ter
um homem para conversar, sair, jantar fora ou mesmo transar. Es-
tou desesperada. Ontem eu o vi. Ele caminhava junto com uma
mulher. Não sei quem é: sei que é mais feia e mais velha do que eu.
Mulher observa muito as outras. Além disso, é muito magra para
meu gosto. Se for uma namorada, ele escolheu mal. Mas diabo!
Mesmo assim fiquei com ciúmes. O que devo fazer para ficar livre
do fantasma do Haroldo?
— Isto acontece, Fátima. Toda separação é parecida. A pes-
soa, ao se separar, lembra-se das coisas ruins que aconteceram
e, portanto, fica alegre e eufórica. Após um certo tempo, as coi-
sas mudam. Começa a lembrar também dos bons momentos que
passaram juntos. Aí a pessoa fica triste. Eu, como você sabe, sou
separado há seis anos. Creio que já me acostumei um pouco com
a vida longe da ex-mulher e filhos. Mas, outro dia, recebi um tele-
fonema de uma antiga amiga. Ela contou-me...
— É! O senhor compreende mais do que minhas amigas esse tipo de
problema. Tem uma experiência pessoal, sabe como é difícil viver só.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 19

O senhor não sente falta de uma companhia feminina de vez em


quando?
— Claro. Todos sentem. Mas é difícil encontrar a pessoa certa
para cada um. Não é que uma seja melhor do que outra. As pesso-
as são diferentes e temos dificuldades em conviver com diferen-
ças. Eu, pessoalmente, acho difícil. Essa amiga até que parece ter
ideias parecidas com as minhas. Quando ela telefonou-me, conver-
samos...
— Concordo. Já tentei algumas paqueras após o término do meu
casamento. Mas os homens que encontrei não me agradaram. Suas
conversas não me tocaram. Começo a conversar com eles e lembro-
me do Haroldo. Faço imediatamente comparações. Ele é um ho-
mem inteligente, culto, com uma grande cabeça, professor também
como o senhor. Um chato, às vezes. Ah! Você o conhece.
— Sim, conheço. Participei com ele de uma mesa redonda. Ele é
sagaz. Parece-se com a minha amiga. Ela é inteligente e culta. Há...
— É? Também encontrei um ex-namorado. Ele foi meu namora-
do antes de conhecer Haroldo. Gostava demais dele. Naquela épo-
ca, gostava muito do papo dele. Brigamos por nada. Agora foi uma
decepção. Não sei se eu melhorei ou se ele piorou.
— Isto acontece. Antes do Haroldo, você não tinha um crité-
rio tão sofisticado para avaliar pessoas. Qualquer um servia. Agora
fica difícil encontrar um parecido. Comigo aconteceu diferente. Só
hoje é que vejo que esta minha amiga é uma raridade. Comparan-
do-a com diversas que tenho encontrado, percebo que ela...
— Haroldo tem muitos defeitos. Eu sei disso. Todos nós temos
defeitos. Eu também não sou perfeita. Mas eu preferiria morar com
ele, a viver como estou. Não consigo dormir quando penso nele.
E ele era bom também para outras coisas, não era bom só de con-
versa, não.
— Entendo bem seu problema. Estou vivendo algo parecido
com esta amiga. Desde que a reencontrei...
— Professor Paulo, tomei muito seu tempo. Desculpe-me mais
uma vez. Gosto demais do senhor, de suas ideias e conversa. Elas
me fazem tão bem! Depois, quando tiver na fossa outra vez, volto
a lhe telefonar. Boa noite.
20 - O Presente e Outros Contos

— Boa noite. Telefone sempre que precisar. Seus problemas


são muito interessantes, lembram os meus...
— Até a próxima.
Paulo, apesar de tudo, ainda continuava feliz, mas engasgado.
Automaticamente, pega o telefone para discar para Maria. Talvez
ela o escute. Já é meia-noite. “Já é tarde, já deve estar dormindo.
Ela levanta-se cedo para trabalhar”... Paulo desiste.
Ele tentou, o dia inteiro, passar para outras pessoas sua vivên-
cia e alegria. Ninguém se interessou por seu caso. Ninguém o ou-
viu. Cada um queria falar acerca de seus problemas particulares,
dando importância às suas misérias e não às dos outros.
Paulo, impotente diante do seu fracasso em comunicar sua ale-
gria, procura uma última alternativa, um ouvinte mais obediente,
capaz de prestar atenção ao seu relato, sem ter outros interesses.
Tenso, após tomar um rápido banho morno, penteou seus cabelos,
já ralos. Assentou-se comodamente diante do espelho que cobre
toda a parede lateral da sala de visita. Para não ser interrompido,
desligou o telefone. Postado diante do espelho, tendo à mão uma
taça de seu vinho preferido, começou a falar para sua própria ima-
gem refletida no espelho:
— Quando eu ainda era estudante de Administração de Empre-
sas, conheci uma moça linda, alegre e inteligente por quem me
apaixonei. Ela era, antes de tudo, capaz de ouvir-me. Apesar de
nunca brigarmos, caminhamos cada um para seu lado. Não deixa-
mos pistas... vinte anos depois, como por milagre...
Paulo, às vezes sorrindo, às vezes tendo lágrimas nos olhos, con-
tinuou a contar sua história para si mesmo diante do espelho imó-
vel e acolhedor. Do outro lado, sua imagem refletida parecia feliz
e ouvia tudo atenta e seriamente. Cada emoção existente no rosto
de Paulo transmitia igual sentimento na sua representação. Esta não
demonstrava deboche, ironia ou enfado. A atitude simpática da ima-
gem favorecia um relato tranquilo, sem temores. Sua figura refletida
no espelho, ao contrário dos outros ouvintes, respeitava não só a
narração, como as pausas, O reflexo no espelho não interrompeu,
nem uma vez sequer, seu relato, prestava atenção a cada detalhe.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 21

Aos poucos, foi relaxando. Tranquilo e feliz, Paulo pôde con-


tar sua longa história de amor. Uma história vivida por ele, que só
interessava a ele, talvez, quem sabe, também a Maria. Seu relato,
carregado de lembranças alegres, terminou às três horas da madru-
gada daquela quinta-feira abafada. Após ter completado sua histó-
ria, Paulo foi deitar-se e, naquela noite, conseguiu dormir aliviado.
AMANHECER SEM FUTURO:
FORTUNATO E FELICIDADE
VÃO ÀS COMPRAS

Fortunato e Felicidade, casados e sem filhos, ele gerente de


supermercado, ela, caixa de banco, como seus amigos, jamais per-
deram uma liquidação como aquela marcada para acontecer no
fim de semana. Os devotos fiéis, adoradores de mercadorias desne-
cessárias e descartáveis, encurvados, avidamente procuraram nos
encartes dos jornais se inteirar do local e horário da sensacional
liquidação, onde seriam vendidas as novas e as velhas bugigangas
indispensáveis para habitarem nossas casas.
Às nove horas da noite de sábado, o casal saiu de casa e tomou
o ônibus em direção à loja onde ia ser realizada a grande liquidação.
Centenas - ou milhares de pessoas - companheiros de Fortunato e
Felicidade, submissos e obedientes, fazendo parte desse imenso
exército bem treinado de compradores fanáticos e compulsivos,
esperavam, preocupados, ocupar os primeiros lugares da fila, pois
assim teriam maiores chances de alcançar, antes dos outros, os ob-
jetos disputados.
Depois da longa viagem de ônibus, o casal chegou à porta da
loja ainda fechada, onde se descortinava uma enorme fila. Os sortu-
dos que ocupavam os primeiros lugares sorriam satisfeitos perante
os invejosos concorrentes, um tanto desanimados com a diminui-
ção das oportunidades.
24 - O Presente e Outros Contos

Dois a três minutos de atraso poderia ser fatal, tempo necessá-


rio para que as mais cobiçadas ofertas, num piscar de olhos, desapa-
recessem das prateleiras. A porta seria aberta às 6 horas da manhã
de domingo. A publicidade bela e colorida anunciou, por diversos
dias, as ofertas que seriam vendidas a “preços nunca vistos”.
Na madrugada escura e fria, uma chuvinha miúda caía sem
se importar com a multidão solitária formada em torno do prédio.
Tensos, silenciosos, cada um por si, todos esperavam a sirene dar
a partida: os compradores imaginavam as fantásticas compras. De
mãos dadas, do lado de dentro da loja, vendedores rezavam pedin-
do a Deus para que tudo acabasse o mais rápido possível, pois a
tempestade dos desesperados estava perto de desabar a qualquer
momento.
A hora ia se aproximando: 5:00 horas, 5:30 horas. Todos, a
postos e em pé, começam a se preparar para a ação. Às 5:45 horas,
os concorrentes/compradores começam a tirar suas roupas, em se-
guida entregam suas vestimentas e pertences aos funcionários/po-
liciais da empresa ou aos parentes e amigos acompanhantes, pois,
como foi anunciado, todos fariam suas compras despidos. Os ami-
gos, caso tivessem, tomariam conta das roupas e, posteriormente,
serviriam de guardas para as compras efetuadas.
5:48 horas. Centenas de compradores nus, debaixo da chuva,
começam a esquentar as pernas e as mãos na esperança de conse-
guirem agarrar mais objetos no menor tempo possível.
6:00 horas. Finalmente a hora chega: o relógio da matriz, hoje
pouco frequentada, bate demoradamente às 6 horas desse domin-
go triste. Toca a sirene estridente, carregada de energia potencial,
que liberará, em seguida, nos corpos ainda frios, uma imensa quan-
tidade de energia cinética e calórica.
É dada a partida! Começa a competição desenfreada: homens
e mulheres nus expõem, uns para os outros, suas marcas corporais
até então bem escondidas. Hoje tudo será exposto à visitação do
grande público: gorduras caídas, seios e bundas murchas, cicatri-
zes, tatuagens, manchas escuras, vermelhas e purulentas, espinhas,
Galeno Procópio M. Alvarenga - 25

verrugas, rachas e pintos murchos, tristes e desnecessários e sem fun-


ção no momento, pêlos escuros, lisos e eriçados, louros, pretos, pin-
tados, descoloridos e brancos, em profusão. Tudo irreconhecível.
Como cavalos e éguas livres dos cabrestos, rinchando, ho-
mens e mulheres ofegantes movem-se em disparada em direção
ao cocho onde estão expostos os alimentos cobiçados. Mantendo
os olhos fixos e esbugalhados, as mãos duras e esticadas em dire-
ção às prateleiras, cada comprador saboreia, virtualmente, antes de
agarrá-la, a mercadoria sedutora à mostra.
Na arena da imensa loja, aterrorizados e enfurecidos, imagi-
nando não conseguir alcançar a ração sonhada, animais aflitos dis-
putam a carne ainda possível de ser abocanhada. Trava-se uma luta
feroz. Corpos tensos e agitados correm velozmente de um lado a
outro, avançam, recuam, caem, trombam e esfregam-se uns contra
os outros, deixando um rastro de suas sobras. Um odor fétido e
asfixiante se desprende de suas peles cobertas de suor. De suas bo-
cas semiabertas escorrem salivas grossas e espumosas sem tempo
de serem engolidas. De suas bexigas, contraídas pelo desespero,
pingam gotas de urina exalando seu cheiro peculiar. De seus ânus
relaxados pela incomensurável apreensão, escorrem fezes semilí-
quidas e nojentas.
Entretanto, lá dentro, naquele momento, nesse campo de
luta pela sobrevivência, sem asco e sem atração, bumbuns desco-
nhecidos, soltos, moles, que não seduzem e nem agridem, encos-
tam-se e afastam-se indiferentes, presos aos seus donos na busca
pela sonhada e sedutora tigela amarela, da espreguiçadeira para
ver a vida rolar, ou da garrafa térmica colorida agarrada pelo sor-
tudo mais rápido.
Fortunato uiva ao segurar com suas mãos vigorosas um fer-
ro em bom estado. Felicidade berra hilariante diante da posse da
panela, que sobrou na prateleira quase vazia. Prendendo a relíquia
junto ao corpo, ela corre, triunfante, para mostrá-la ao marido. Um
homem magro, de peito escavado, avança sobre Felicidade e puxa
a panela presa entre os seios.
26 - O Presente e Outros Contos

Os dois rolam pelo chão lutando pela posse do troféu. For-


tunato, alertado pelos gemidos conhecidos, ao tentar salvar a pa-
nela de Felicidade, abandona, por instantes, seu precioso ferro,
correndo em auxílio à mulher. Eufórico e agitado ao reconquistar
a panela perdida, ele larga Felicidade ferida no chão. O ferro de
Fortunato, solto de suas mãos, foi seguro rapidamente por uma
mulher sardenta e magra, que foge correndo com ele escondido
entre as coxas gordas e brancas. Fortunato avança como louco so-
bre a mulher que abocanhara seu ferro, derrubando-a e ferindo-a
no nariz. Levanta-se abraçando o ferro em uma das mãos e a panela
na outra, segurando-os contra o peito nu. Tenta, esquecendo que
não está vestido, escondê-los das outras feras predadoras que dese-
jam apoderar-se do seu alimento. Felicidade consegue, após alguns
segundos, levantar-se. De sua boca ferida escorre um sangue ralo,
misturado à saliva que é cuspida no chão imundo. Ela olha com pe-
sar para as prateleiras quase vazias. As mercadorias mágicas estão
chegando ao fim.
Empurrados de todos os lados, alguns caem e uivam, não por
terem sido jogados ao chão, mas sim porque a queda atrasou em
alguns segundos a ida ao alvo sonhado. Pisoteados, blasfemando,
Felicidade e Fortunato olham desolados para o sonhado conjunto
de pratos fundos avermelhados quando esse é pego por um homem
alto de ombros largos, bem em frente dos olhos espantados do ca-
sal, conjunto esse no qual almoçariam junto à família no domingo
de páscoa.
Fortunato soluça, seus olhos, encobertos pelos óculos verme-
lhos que pegara num cesto quase vazio, lacrimejam. Um inimigo en-
furecido abraça Fortunato por trás, dando-lhe uma “gravata”, numa
tentativa de apoderar-se do seu ferro. Jogado ao chão, e depois pi-
soteado, Fortunato vê seus óculos vermelhos se espatifarem, óculos
que iriam substituir sua visão do mundo no próximo verão.
O estoque chega ao fim. Termina a liquidação. Agora só resta
entrar na fila para procurar os guardas que tomaram conta das rou-
pas, dos cartões de crédito e de cheques para fazer o pagamento.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 27

As filas começam a se formar. Termina a festa com os uivos


de alguns que ainda rolam no chão agarrados a restos de papelões
rasgados, manchados de urina, fezes e sangue, mesas, cadeiras e
peças quebradas, copos, xícaras, tigelas, rádios, fios de cabelos e
cabeleiras pisoteadas.
Entretanto, apesar de tudo, a multidão sai da loja esperanço-
sa, alegre e animada. Segundo os anúncios estampados com letras
enormes nas paredes, no próximo ano haverá outra liquidação,
maior ainda do que a agora terminada e, na entressafra, a massa
atenta detectará e consumirá rapidamente todo e qualquer novo
produto lançado. Alguns, na fila, comentam eufóricos os novos
medicamentos lançados, imaginando usá-los logo, antes que desa-
pareçam do mercado ao mostrar sua ineficácia. Uma vez vestidos,
cantarolando, segurando com firmeza o ferro e a panela, Fortunato
e Felicidade, unidos, caminham felizes sob a chuva miúda, satisfei-
tos pelo dever cumprido.
O PACIENTE DO LEITO 33

O paciente do leito 33, aprisionado na cadeira de rodas, foi


arrastado por um enfermeiro sonolento da enfermaria até o anfitea-
tro ainda vazio. Ali ficou esperando o início da reunião clínica, que
seria realizada para discutir seu caso.
A discussão do caso do paciente do leito 33 foi marcada para
ser realizada às 10 horas daquela manhã. Fazia parte das reuniões
semanais das sextas-feiras realizadas no Anfiteatro do Hospital das
Clínicas da Universidade. Ela despertou pouco interesse entre os
estudantes de medicina por ser uma história médica banal, seme-
lhante a muitas outras ali já discutidas. Por isso, os responsáveis
pelo “caso” tiveram dificuldades em persuadir e arrebanhar alunos
e professores para a reunião.
Naquele templo sagrado, seria discutida a doença e o trata-
mento do paciente do leito 33. Entretanto, com frequência, era ali
também que o professor Protásio, inimigo mortal do professor Ter-
tuliano, aproveitava a oportunidade para agredir seu colega e adver-
sário, enquanto externava seus raciocínios clínicos. Muitas vezes,
durante as discussões acaloradas, verdadeiras torcidas organizadas
eram formadas a favor de um ou de outro professor. A apresentação
do “caso do leito 33”, portanto, era mais uma oportunidade para
que o professor Protásio mostrasse, além de seus conhecimentos
de urologia e de sua extraordinária retórica, a incompetência e bur-
rice do adversário.
A sala, por sorte, foi-se enchendo, para alegria dos respon-
sáveis pelo caso. Nas primeiras cadeiras do anfiteatro divisava-se
30 - O Presente e Outros Contos

senhores de fisionomia séria, cabelos grisalhos, ligeiramente obe-


sos, tendo o rosto não só bem barbeado, como também marcado
pelas rugas. Alguns pareciam cansados, outros conversavam anima-
damente esperando o início da sessão. Na parte alta do anfiteatro,
jovens robustos, de roupas soltas, falavam alto, riam e brincavam
entre si, às vezes movimentavam-se pelo salão.
O paciente do leito 33, imobilizado na cadeira de rodas, vestia
o uniforme azul desbotado do hospital, uma roupa larga para seu
corpo macerado. Seus olhos fundos e fixos, embutidos na sua cabe-
ça inclinada para baixo, pareciam examinar a claridade produzida
pelo reflexo da luz que incidia no piso. Seu rosto ossudo e magro
era coberto por uma pele morena-esverdeada, os cabelos pretos,
amassados onde ele se deitara, mostravam alguns poucos fios bran-
cos, suas mãos, penduradas nos braços esqueléticos, exibiam veias
finas, onde corria um sangue descorado e morno.
Instalado na parte mais baixa da sala, de frente para a platéia,
o paciente do leito 33 podia ser observado por todos. Além do mais,
como sua cadeira não era fixa com as outras, o seu corpo podia ser
levado para um lado ou outro da sala. Isso facilitava a aproximação e
o exame dos mais curiosos.
Submetido às pressões daquele mundo estranho, ainda não
bem esclarecido, o paciente do leito 33 tentava compreender a
peça que ali seria representada e da qual ele participaria. Não era
difícil notar o contraste entre ele e os outros, não só quanto às rou-
pas usadas, como também no que diz respeito ao aspecto físico. Os
mais velhos usavam jalecos de mangas compridas, gravatas, sapatos
pretos, conversavam como se trocassem segredos. Os mais jovens
calçavam tênis, vestiam camisas coloridas e aventais de mangas cur-
tas, discutiam animadamente acerca de futebol e de paqueras e, de
repente, davam estrondosas gargalhadas. Algumas moças abraçavam
e beijavam os companheiros. Um rapaz, de gestos delicados, usava
brincos e tinha os olhos pintados. Finalmente a sessão foi aberta. Os
professores começaram a ler e a comentar o caso. Logo depois, o
interrogatório teve início: perguntas e mais perguntas foram feitas.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 31

O paciente do leito 33, automaticamente, ia respondendo aos


inquiridores - perguntas já conhecidas, as mesmas feitas na enfer-
maria, sendo assim não foi difícil respondê-las quase sem pensar.
A partir daquele momento seu “caso” estava sendo alvo de
especulações de famosos mestres da medicina: um caso interes-
sante para alguns, chato para outros, um passatempo para uns e
até mesmo uma obrigação para muitos. Iniciadas as discussões, o
protagonista da representação usou e abusou das contrações fa-
ciais apropriadas para cada frase pronunciada: gesticulou, às vezes,
sorriu. Elevou ou baixou o tom de voz, isto é, exibiu uma técnica
artística elegante e apurada, estudada para bem representar. Era
preciso impressionar os assistentes.
Como um condenado na sala do júri, o paciente do leito 33
assistia às discussões que começavam. Ele submetia-se, angustiado,
àquela pantomima ruidosa, esquisita, que estava sendo encenada.
Por não entender a maioria das palavras ali pronunciadas, ele es-
forçava-se para compreender, pelo menos, as expressões faciais,
os movimentos dos membros, o tom e a altura das vozes, afinal, a
mímica corporal dos faladores. Mas, por mais que tentasse, conti-
nuava não assimilando o significado daqueles sinais diferentes dos
conhecidos por ele. Desse modo, as mensagens transmitidas, agin-
do como corpos estranhos, não eram traduzidas para sua mente
diferente.
Algumas vezes ele tentou compreender o significado dos sor-
risos que, ocasionalmente, recebia de algumas jovens, olhares que
levaram o paciente do leito 33 a lembrar-se dos flertes afetuosos
que recebera de Teresa, quando começou a namorá-la. Mas, naque-
la sala, as moças prontamente davam-lhe as costas e não mais o ob-
servavam. Teresa, ao contrário, o fitava com seus olhos pequenos,
pretos e redondos, por um longo tempo, com doçura, depois eles
se beijavam.
Derrotado, ele procurou interpretar a cena que descortinava-
se naquele teatro do absurdo, através de lembranças antigas, retira-
das com dificuldade de sua mente.
32 - O Presente e Outros Contos

Assim, ele tentou visualizar representações de espetáculos


vistos quando ainda era criança, despertadas e parecidas com o
que assistia no momento. Lenta e penosamente, de sua memória
distante e enfastiada afloraram fatos esparsos: o circo na praça com
os números de marionetes, os palhaços de roupas largas e vozes
fanhosas, os macacos usando óculos e de saiotes, brigas e tapas de
mentira no picadeiro e as canções melosas, monótonas e repetiti-
vas, que saíam dos discos antiquados e rachados da vitrola.
Alguns observadores mais experientes ali presentes sabiam
que as pistas fornecidas pela história do paciente - sinais e sintomas
- às vezes eram deixados de lado, já que o desejo de massacrar o ri-
val podia ser o fator mais forte. Entretanto, a maioria dos presentes,
não percebendo motivos velados, emocionava-se com a oratória
brilhante e a dedicação demonstradas para com o paciente.
As acaloradas discussões cresciam como as tempestades de
verão: inicialmente pingos leves e esparsos, depois chuvas baru-
lhentas. Assim, os ilustres professores, esquecendo por momentos
o paciente, lançavam farpas alimentadas por uma ironia elegante.
Como as discussões complicadas geralmente motivavam mais a
platéia, era comum os professores transformarem problemas sim-
ples em quebra-cabeças complexos. Através desses era mais fácil
escancarar a ignorância do adversário.
As hipóteses e deduções do Dr. Protásio foram magistralmen-
te elaboradas. Ele argumentava sorridente, saboreava cada frase
proferida e, principalmente, sabia onde desejava e precisava che-
gar. Aos poucos, ele foi descortinando seu diagnóstico, seguindo
uma linha de raciocínio sinuoso e complicado, como gostava. O
ponto final da oratória terminou abruptamente, após citações de
artigos estrangeiros recentes.
Foi uma conclusão bela, triunfal e emocionante, demonstran-
do grande erudição. Coube a este professor a decisão final: o pa-
ciente deveria submeter-se a uma cirurgia radical. Ninguém ousou
ir contra sua argumentação. Anotações apressadas foram feitas no
prontuário.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 33

O paciente do leito 33, encurvado, continuava sem entender


o palavrório. Apesar de atordoado, percebia que sua vida estava
nas mãos daqueles doutores agitados e falantes. Enquanto assim
refletia, seu pensamento foi cortado pelo tom de voz áspero do
professor, ao decretar uma sentença inapelável:
— Os testículos e o pênis do paciente devem ser amputados
na próxima semana.
Ninguém foi contra. A reunião precisava terminar: a hora do
almoço aproximava-se. Todos tinham fome e, além disso, os médi-
cos, daqui a pouco, deveriam estar em seus consultórios particu-
lares. Por tudo isso o grupo apressou as conclusões finais, alguns
presentes ainda fizeram pequenos comentários:
— Para mim - disse um - seria melhor tirar apenas o terço su-
perior do pênis, pois este poderá ter alguma utilidade.
— Não - retrucou outro - deverá ser extirpado totalmente,
para evitar um retorno do câncer.
Também um terceiro afirmou: - com 42 anos, para quê um
pênis? Já tem filhos... além disso, o que ganha não dá pra nada.
Desse modo, os médicos decretaram o fim da fria e monóto-
na vida sexual do paciente do leito 33. A sessão estava terminada.
O enfermeiro entrou no salão e empurrou a cadeira de rodas cheia
de grilos em direção à enfermaria fria. Lá, o paciente passaria o fim
de semana. Naquele sepulcro, de paredes nuas e brancas, cada um,
confrontando sua solidão, meditava acerca do sofrimento. Estendi-
do no leito 33 ele rezava, para que ele ou seu vizinho de enferma-
ria, tivesse, pelo menos, uma boa morte.
Acabada a reunião, o almoço alegre e farto, os planos para a
noite, a cerveja gelada, o esporte do fim de semana, a transa com a
namorada, o passeio ao sítio e o esquecimento da vida atribulada.
Segunda-feira: os alunos sorridentes, queimados de sol, re-
gressaram à enfermaria. Era dia de visita aos leitos. Alguns debru-
çavam-se curiosos sobre os órgãos genitais do paciente do leito
33 para observá-los, como se examinassem uma escória, que seria
desprezada ainda naquela semana.
34 - O Presente e Outros Contos

Ninguém percebeu as lágrimas salgadas que jorravam de seus


olhos quase fechados e deslizavam pelo seu rosto envergonhado,
manchando o uniforme azul.
A cirurgia foi perfeita, um sucesso! Foram retirados, como
fora determinado, os testículos e todo o pênis e era o melhor para
a saúde do paciente, conforme a decisão dos professores.
— Mas e agora? Perguntava apreensivo o paciente para si mes-
mo e continuava refletindo: - como conviver com minha mulher,
ou as outras e mesmo meus amigos? Meus planos estão enterrados
para sempre... sinto vergonha de mim mesmo, fiquei aleijado neste
lugar, o mais importante do homem. E agora, o que fazer com este
corpo?
A partir da cirurgia, o paciente do leito 33 somente imaginava
o que não mais poderia realizar: suas aventuras, seu maior e talvez
único prazer. Estava tudo acabado... a vida não tinha mais valor, toda
ela fora construída em torno do orgulho de ser homem. Era melhor
morrer do que viver assim.
Nos dias que se seguiram, o paciente do leito 33 voltou a
sorrir para os médicos e estudantes que vinham vê-lo, para contar-
lhe o sucesso da cirurgia. Já confortado, ele agradecia a ajuda dos
bondosos amigos da medicina.
Numa tarde cinzenta de verão, aproximou-se do leito a sim-
pática enfermeira Lúcia, acompanhada da bonachona assistente
social Clara, cada uma com seus sorrisos costumeiros. Estavam ali
para prepará-lo para deixar o hospital. A cicatriz já se formara no
lugar onde antes habitava um pênis. A enfermeira, carinhosamen-
te, lhe ensinou qual seria a melhor maneira de fazer xixi após a
cirurgia.
— Não é difícil, ela lhe explicou, — é só assentar no vaso ou
agachar no chão, como fazem as mulheres. Entendeu? Não precisa
preocupar-se, é uma pequena mudança, logo irá se acostumar.
As explicações se sucederam. Havia, segundo ela, diversos
outros modos agradáveis de gozar uma boa vida sexual e, com sa-
bedoria de quem conhece, demonstrando até certa excitação ao
Galeno Procópio M. Alvarenga - 35

fazer uso de gestos desenhados com suas mãos brancas e delicadas,


a caridosa enfermeira lhe ensinou novas técnicas de fazer sexo.
Finalmente a alta hospitalar: 12 de dezembro, um calor asfixian-
te, uma viagem na poltrona dura e estreita no velho ônibus, a saudade
de sua casinha em Chaves das Botas. Mas sua mente não abandonava
o terrível pensamento: “Estou sem saída, sou um castrado.”
Antônio dos Santos Filho chegou exausto na rodoviária da ci-
dade. Teresa esperava-o, melancólica por costume. Recebeu-o com
um abraço envergonhado e desconfiado. Os filhos, vendo o pai des-
figurado pela magreza e palidez, choraram amedrontados e se es-
conderam, uns agarrados aos outros, na saia da mãe. Neste instante,
Antônio chorou.
A noite em Chaves das Botas estava quente. Antônio pouco
comeu da sopa de macarrão que Teresa fez com carinho e foi cedo
para o quarto. Deitado, evitou encostar-se em Teresa, que o espera-
va pronta para ser usada. Ele permaneceu mudo ao lado da mulher.
O sono não veio por mais que tentasse. O plano imaginado nos mo-
mentos de solidão renasceu. Impelido pela obsessão que o domina-
va, ele levantou-se, procurando não acordar Teresa. Mas, ao sair do
catre, esbarrou na perna de sua mulher, que gritou espantada:
— O que foi Antônio?
— Nada, mulher, vou ao quintal... mijar...
Antônio caminhou cambaleando para o terreiro escuro,
quente e abafado como ele. As ideias, antes confusas, foram, aos
poucos, ficando mais claras. A coragem aumentava. Sentia inter-
namente uma pressão para agir. O plano elaborado no silêncio do
hospital estava prestes a ser executado. Suava frio, pois, apesar de
tudo, ainda tinha medo. Automaticamente agachou-se para urinar
como fazem as mulheres. Nesse instante relembrou a sessão clíni-
ca, os ensinamentos da enfermeira e da assistente social, de todos
que lutaram tanto para mantê-lo vivo a qualquer preço.
Agora estava livre para agir: desprezava a todos, a tudo. Nada
mais lhe importava. Era preciso concretizar o que imaginara, aca-
bar com tudo aquilo de uma vez por todas.
36 - O Presente e Outros Contos

Trêmulo, lembrou-se dos médicos que lutaram tanto para mantê-


lo vivo. Vacilou por instantes, sentia culpa por decepcioná-los e despre-
zar o que eles tanto valorizavam. Antes de partir em direção à macabra
e terrível ação, Antônio apalpou, pela última vez, a cicatriz formada no
seu corpo desfigurado. Nesse instante, não teve mais dúvidas.
Sua mulher, sem dormir, preocupada com a demora, levan-
tou-se e, após acender uma vela, dirigiu-se ao quintal iluminando
apenas o estreito trilho por onde caminhava. Teresa, amedrontada,
gritou por Antônio, a princípio, timidamente. Nada, nenhuma res-
posta. Ouviu-se somente no sossego da noite o piado de uma coruja
distante. Novo chamado, agora mais estridentemente. O silêncio
parecia ser, a cada instante, mais intenso. Agora ela escutava somen-
te os sons apressados do seu coração aflito e sua própria respiração
ofegante. Mal segurando a vela que estava prestes a se extinguir,
trôpega, ela observava cada vestígio de vida e de esperança encon-
trada. De repente, no escuro, percebeu que algo balançava na pe-
numbra. Paralisada, ergueu um pouco mais sua cabeça, aproximan-
do a chama mais perto do vulto para ver melhor. Quase encostou a
chama no vulto. Nesse instante Teresa soltou um urro, antes de cair
desmaiada, diante do que acabara de ver: no galho da mangueira,
havia um corpo suspenso, não havia mais Antônio.
Dependurado num cipó fino, um pouco acima do chão, ele
parecia mais magro ainda. O laço, ao entrar na carne existente em
volta do seu pescoço, produziu um profundo e feio canal roxo. Sua
fisionomia parecia mais serena do que antes, seu rosto mais belo.
De seu corpo morno, pingos de suor, imitando gotas de orvalho,
desciam preguiçosamente pela sua face e caíam no solo, fertilizan-
do a terra empobrecida. Naquela silenciosa noite de dezembro,
um aroma novo e diferente foi criado: a fusão do odor emanado
da terra, o suor do corpo de Antônio e o perfume adocicado das
mangas maduras.
Antônio parecia sorrir, zombou da vida com a ajuda do frágil
cipó. Sem a sabedoria dos professores da medicina, derrotou, com
simplicidade, as sábias teorias dos doutores ilustres.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 37

Desafiou os que afirmaram saber o que era melhor para ele.


Preferiu morrer a viver curado para sempre e somente alcançou a
liberdade através de sua morte.
METAMORFOSE

Final de férias. Começo de aulas. Naquela manhã, ao abrir os


olhos, percebi que meu corpo se transformara. Ao passar as mãos
pelo meu rosto, notei que este, bem como minhas pernas e braços,
estavam diferentes. Até meus órgãos sexuais não eram mais os que
estava acostumada a ver e tocar. Em pânico, sem rumo, a princípio
procurei não mais me examinar; tinha medo de descobrir coisas
piores. Entretanto, a curiosidade foi mais forte e, medrosamente,
comecei a olhar e a pegar nos novos tecidos que cobriam meu or-
ganismo. Tragicamente, concluí que meu corpo não era mais o da
menina de treze anos que conhecia.
A cabeça pesava. Cambaleando fui até o banheiro, ainda não
me despertara completamente. Apesar do sofrimento que antevia,
senti uma atração pelo espelho. Era preciso examinar-me melhor,
mais uma vez. Quase desmaiando, abri a torneira da pia, apanhei
uma porção de água fria e molhei, demoradamente, meu rosto es-
pantado. Desejava ficar livre, o mais depressa possível, desse pesa-
delo. Diante do lavabo, ainda sem olhar para o espelho, eu pergun-
tava-me: “Como seria vista pelos outros?” Sempre de cabeça baixa,
olhei fixamente para a água que escorria devagar. Sabia que prote-
lava, até onde podia, a revelação final. Mas, o que fazer? Não sabia,
minha mente jamais trabalhara com um problema como esse.
Tentava não fixar meus olhos no velho e conhecido espelho.
Ele, até aquela data, sempre fora calmo e honesto. Ali quieto, de-
pendurado na parede, ele observava-me de longe, pronto, e talvez
até desejando revelar-me a verdade.
40 - O Presente e Outros Contos

Era ele que todas as manhãs examinava-me minuciosamen-


te com seu olhar crítico, justo e severo, às vezes, bondoso. Ja-
mais evitou dialogar comigo inventando desculpas, como, por
exemplo, dizendo que estava ocupado com outra pessoa, ou sem
tempo para mim. Ele sempre estava à minha disposição, bastava
aproximar-me dele.
Era desse espelho amigo que eu recebia os mais diversos pa-
receres: “Hoje você dormiu demais, não devia ter ficado até tarde
vendo aquele filme”, “Você está ótima”, “Que cara mais esquisita.
Está com raiva?” O espelho dava-me conselhos, alguns agradáveis,
outros alarmantes: “Está comendo demais, ficará gorda como uma
elefanta.” Eu ficava radiante quando ele, sorrindo, dizia-me: “Você
hoje está linda! Este penteado fica muito bem em você, conquista-
rá todos os colegas.” Mas ele dava-me outras mensagens, além das
críticas e elogios, dava-me apoio. Algumas vezes ele ficava penali-
zado com meu sofrimento: “Estou com dó de você, mas nada posso
fazer, é preciso acordar, pois já está na hora de ir para a escola.”
Após rodeá-lo por alguns momentos, decidi examinar-me no
espelho pois, apesar do medo, eu confiava nele, ele era honesto.
Queria acabar com a dúvida, receber um diagnóstico final através
daquela entrevista, que acontecia todas as manhãs. Além disso, es-
tava curiosa para ver sua reação diante do meu corpo. Pensando
assim, levantei minha cabeça e olhei, corajosamente, para o espe-
lho. Mas, logo em seguida, estava arrependida do que havia feito.
Vi, para minha tristeza, do outro lado da parede, o que não queria
ver: meu organismo transformado. Eu era outra pessoa mesmo,
não havia mais engano, não estava mais dormindo. O meu amigo
espelho, mais sério do que de costume, apesar de manter sua pru-
dência e serenidade, ficou confuso. Deu-me a impressão de ter fica-
do desapontado por não ter encontrado e dialogado com a pessoa
esperada. Logo após olhar-me, emudeceu. Também, não era para
menos, esperava conversar e emitir um parecer para uma pessoa,
não para aquela desconhecida. Engasgado, meu avaliador não con-
seguiu dar-me nem mesmo o seu habitual bom dia.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 41

Irritada com esse comportamento, pisei duro no chão e saí


dali zangada. Antes, fechei a cara e fiz caretas, as mais feias que co-
nhecia. Ele, por sua vez, demonstrando ódio, devido aos meus mo-
dos grosseiros, fez o mesmo: franziu o cenho, fez caretas tão feias
como as que havia feito e pisou duro no chão. Ele comportou-se de
um modo que jamais tinha presenciado. Por instantes, abandonan-
do a costumeira neutralidade, ele olhou-me com desdém. Dei-lhe
as costas, dizendo palavrões. Será que ele me estranhou?
O que vi no espelho, agindo como um jato de água fria, der-
rubou-me. Agora não mais podia negar a metamorfose: fui transfor-
mada, durante a noite, numa outra pessoa, um ser estranho para
mim mesma. Acordei com um corpo e um raciocínio diferente do
que possuía. Bem que eu andava desconfiada de certos fatos, de
algumas conversas que ouvira, de olhares que, infelizmente, ape-
sar de ter suposto, não decifrei, de enigmas e códigos escondidos.
Como fui idiota!
Desajeitada no meu novo organismo, tentando entender a
transformação e acostumar-me com ela, decidi, após vestir roupas
emprestadas às escondidas, pertencentes ao meu irmão, sair rapi-
damente de casa. Não queria que ninguém me visse daquele modo.
Todos ainda dormiam.
Sem rumo, caminhei em direção ao colégio, era lá o meu des-
tino todas as manhãs, portanto devia ser também o daquele maldi-
to dia. Andei devagar pelas ruas, atrasava minha chegada proposi-
tadamente, mas acabei lá. Diante da porta de entrada esperei um
pouco, escondida atrás de uma árvore. Só entrei no velho prédio,
quando tocou a sineta.
Do mesmo modo que notava que meu corpo estava trans-
formado, percebia que também minha mente estava possuída por
uma nova compreensão, por novos fundamentos lógicos acerca
do mundo e de mim mesma. A nova mente produzia imagens es-
quisitas, concluía de modo não usual. Além disso, não planejava e
organizava os pensamentos de forma objetiva e produtiva, mas, ao
contrário, as imagens apareciam desorganizadas, umas eram liga-
das às outras sem que existissem elos ou razão para isso.
42 - O Presente e Outros Contos

Elas fundiam-se de um modo incompreensível. Entrei na es-


cola usando esses novos óculos, para observar, entender e inter-
pretar as coisas, as pessoas e os fatos.
A escola não era a mesma. Vi fisionomias coloridas, alvas e
cinzentas, todas tinham as faces congeladas, não havia contrações,
nem gestos, pareciam estátuas. Continuei minha marcha sonâmbula,
como nuvens levadas por ventos calmos. Eu penetrava, com leveza
e delicadamente, nos poros dos colegas enfileirados, um ao lado do
outro. O que desejava? Não sabia. Vi alguns rostos esculpidos em me-
lancias, eles fitavam-me. Estariam debochando da minha imagem?
Memórias de ontem, de como era, invadiam minha mente,
comparava-me... não compreendia... tinha saudades. Perdida, solu-
çava diante desse mundo confuso. Continuei minha caminhada, no-
vos grupos. Num, os participantes olhavam-se, noutro eles emitiam
sons que não compreendia: “Seria uma outra língua?”, perguntava-
me sem resposta. Alguns comentavam experiências passadas, mas
sem nada falar, outros estavam nus, tinham uma face triste, alguns
riam, por nada. Chamou-me a atenção uma moça alta e gorda, que
olhava para cima, de boca aberta, parecia que ia engolir alguma
coisa. Ao seu lado, agarrado a ela pela blusa, um rapaz seguia uma
abelha perdida.
Automaticamente, andava sem sair do lugar, estava presa à
metamorfose, não mais conseguia retornar ao passado. Minhas per-
nas não me obedeciam, minha mente não mais sabia dar ordens
para o novo corpo. Pensava em sumir, acabar com tudo aquilo,
com o pesadelo. De repente, minhas pernas moveram-se sem que
eu desejasse e fui levada em direção à sala de aula. Atravessei um
comprido corredor iluminado por lâmpadas amarelo-avermelhadas,
presas na parte mais alta do teto. O corredor estreito, rodeado de
grades altas, pintadas de cinza e roxo, não tinha fim. De cada lado,
mais e mais alunos, centenas, milhares deles. Em certos momentos,
todos pareciam iguais, em outros, transformavam-se. Eles olhavam-
me e examinavam-me. A face de alguns era achatada, muitos não
tinham olhos, mas, mesmo assim, seguiam-me os passos.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 43

Suando frio, com o coração apertado, fui lançada numa sala.


Esta, como tudo ali, também mudava de forma, tamanho e cor, à
medida que eu olhava. Num certo momento, surgiu do escuro uma
cadeira - parecia sorrir para mim - era a mesma onde assentei-me
durante o ano passado. Foi nela que gravei meu nome antigo, num
cantinho, bem escondido. Aos poucos, o nome, desenhado com
tinta dourada, foi aparecendo, letra por letra e tornou-se mais visí-
vel no encosto da cadeira.
Fiquei sem saber se devia ou não assentar-me nessa cadeira
marcada. Em dúvida, caminhei em direção a um canto escuro, no
fundo da sala, imaginando esconder-me. Esperei tensa o início, não
sabia de quê. Eu refletia: “Que pena hoje ser hoje, como foi bom
ontem, quando me conhecia melhor... tudo era mais fácil, eu sabia
o que fazer. Ou apenas achava que sabia?”
Escondida no canto observava os que entravam. Aos poucos
a sala ficou cheia. Examinava as fisionomias, todas indiferentes
diante daquele ambiente que eu percebia anuviado e deformado.
Comparava-me com eles. Eu era uma caloura naquele mundo estra-
nho. Assentei-me com medo.
O professor, que entrara, retornou à secretaria, pois esquecera
o diário com os nomes dos alunos. Um alívio temporário. Pressentia
que daqui a pouco seria descoberta. Alguns alunos se levantaram
após a saída do professor: abraços, gargalhadas, saudações, brinca-
deiras, gritos, conversas na sala apertada. Três deles, sem que sou-
besse o motivo, caminharam em minha direção. Novo desespero!
E agora? Mas, ao contrário do que imaginara, eles aproximaram-se
e trataram-me com toda naturalidade e amabilidade possível, como
qualquer colega masculino. Por que não notaram? Afinal, quem eu
era para eles, um homem ou uma mulher? E para mim?
A sala de aula estava abafada e quente. Permaneci como se es-
tivesse amarrada à cadeira. Suava, estremecia diante de cada olhar,
de cada movimento. Tampei parte do meu rosto com as mãos,
numa tentativa tola de esconder minha nova identidade, esforçava-
me para mostrar supostos resíduos da menina que abandonara-me.
44 - O Presente e Outros Contos

Entretanto, criticava-me, pois sabia que os sinais identificadores da


adolescente de treze anos não mais existiam. Por sorte, os colegas
não compararam meu organismo atual com o antigo. Eles perce-
biam somente o presente, assim olharam-me como se tudo sempre
tivesse sido desse modo. No burburinho formado, aproximaram-
se mais colegas, alguns deles velhos conhecidos. Estremeci! Agora
irão perceber meus cabelos curtos, meu buço que começava a apa-
recer, minha voz, ora grossa, ora aguda e irritante, minhas novas
roupas e um modo masculino de falar, andar e comportar-se.
— Que pena! Disse-me um dos colegas, olhando-me, enquan-
to procurava um lugar para assentar-se perto de mim. E continuou
- são poucos os rapazes... esse ano não teremos um bom time de
futebol. Sem saber o que falar e receosa da voz que sairia, fingi
concordar:
— Hum, hum.
Eu nunca gostei de futebol, deve ser péssimo levar pontapés
e tombos. Que tolice. Desejava sumir dali, escapar daquela prisão o
mais depressa possível, abandonar este eu que apossou-se de mim,
e retornar ao mundo antigo, com suas regras e padrões que conhe-
cia bem. O eu anterior sabia agir, fazer ou não fazer o que devia,
o que era certo e o que era errado. Nesse organismo, aprisionada
pelo ser estranho que dominava-me, não mais sabia comportar-me.
Assim, perguntava-me: “Devia ou não olhar para minhas colegas
como antes? Devia namorá-las? E diante dos meninos? Nova con-
fusão: “O que fazer? Como antes? Perdi a bússola original, estava
perdida.
Fui treinada, e muito, para conquistar rapazes. Sabia com mi-
núcias todas as técnicas, os diversos truques capazes de transformar
um jovem esperto num bobo. Bastava um certo olhar, um sorriso
especial, o uso de um certo tom de voz... Agora, com tristeza, vejo
que esses ensinamentos não me servem. O que faço com o antigo
modo de pensar? Jogo-o fora? Terei que aprender tudo de novo? A
todo instante era forçada a enfrentar nova situação, para a qual não
tinha conhecimento ou treino. Que azar! Porcaria! Oh meu Deus
todo poderoso, ajude-me a encontrar uma saída!
Galeno Procópio M. Alvarenga - 45

Repentinamente, deparo-me com mais um problema terrível.


Notei que uma menina começou a observar-me, a princípio, discre-
tamente. Por sinal ela era dengosa e engraçadinha, de bom tama-
nho, simpática. Aos poucos descobri que ela queria conquistar-me.
“E agora, o que fazer?” perguntava-me. Que horror! Namorar uma
mulher? Ela foi se aproximando, mais e mais... fingia nada querer,
como distraída. Começou a conversa num tom de voz suave e meló-
dico. Confesso que eu estava envergonhada, pois sentia-me atraída
pela sua maneira de falar. Ela me cativava com seu jeito.
Confusa com a cena, intranquila, descobri que ela fazia uso,
para encenar e representar a conquista, dos mesmos gestos, da mes-
ma técnica que eu empregava em situações semelhantes. Por outro
lado, estava claro como água: ela procurava atrair-me. Perguntou-
me, com voz adocicada, onde morava, onde estudei antes... Era o
papo introdutório para poder ir mais longe: marcar um encontro,
fazer um elogio e tudo mais. Diante de suas intenções cristalinas,
sufocada, sem saber o que fazer, comecei a gaguejar, às vezes fingia
não entender o que dizia, tentava ganhar tempo. Ela, insistente,
sabia o que queria... Olhava-me com ternura, como sempre fiz. Foi
se aproximando, segura de suas pretensões. Eu não visualizava ne-
nhuma saída, seria um escândalo o que estava prestes a acontecer.
Que vergonha!
Alarmada, desejando interromper de qualquer forma aquele
jogo amoroso que se iniciara, imaginei, como último recurso, des-
maiar, na impossibilidade de matar-me, como desejava. A cada ins-
tante ficava mais sobressaltada. Suava frio e, para não cair, agarrei
com firmeza os braços da cadeira, coloquei meus pés no chão. Na-
quele momento estava hipnotizada pelo rosto que habitava aquele
corpo, pelo olhar que fitava-me naquela manhã sem igual.
Num certo momento, quando ela girou o rosto para olhar-me
mais de perto, quase encostando o dela no meu, sua face foi ilumi-
nada por um facho de luz, uma luminosidade ainda fria do sol da
manhã que entrara pela janela da sala. Fui tomada por uma terrível
confusão, assustada com o que deparei: vi, de maneira muito níti-
da, o próprio fantasma ou alma, isso eu não sei.
46 - O Presente e Outros Contos

Acontece que ela, ao atravessar a luz do sol, mostrou com ni-


tidez seu rosto e seu próprio corpo que emergiram do escuro: sua
pele era branca e pálida, salpicada por pequenas sardas. As pistas
afloraram com exatidão, era um rosto, um olhar, um modo de agir
que conhecia muito bem, bem até demais... era o corpo e a manei-
ra de ser que eu havia perdido naquela manhã.
Apavorada, pedi, mais uma vez, a ajuda divina. Sentia ener-
gias desconhecidas e poderosas saindo de um e de outro corpo,
trocas de fluidos, encontros, misturas, construção de um só indi-
víduo. Essa garota calma, que caminhava em minha direção, mei-
ga, serena, quase angelical, que dispersava-se no ar e penetrava no
meu organismo transfigurado, era, nada mais nada menos, do que
eu mesma antes da metamorfose. Era minha imagem especular do
dia anterior, talvez o que restou de mim, da que conhecia. Ela era
meu eu antigo. Apavorada, gritei, gritei o mais que pude, ali mes-
mo na sala de aula, em busca do socorro. Estava completamente
transtornada...
Acredito que mesmo desmaiada, não sei por quanto tempo,
fiquei gritando por ajuda. Quando abri os olhos, ainda gesticula-
va. Diante de mim, nervosos, estavam meus pais debruçados sobre
meu leito, segurando-me, espantados. Minha mãe, aproveitando
uma breve interrupção da respiração, quando procurei mais ar
para dar um novo grito, berrou nos meus ouvidos:
— Acorda, Sônia! Acorda! O que foi, minha filha? O que está
acontecendo?
Eu sonhara... Nunca imaginei que fosse tão difícil virar outra
pessoa, adquirir uma outra identidade, pior ainda, ser uma pessoa
de outro sexo. Como é difícil. Ainda bem que tudo terminou!
Era domingo. Não precisava levantar-me às seis horas da ma-
nhã. Além disso, as férias estavam apenas começando. Um lindo
céu azul, de um azul claro e acolhedor, invadia alegremente meu
quarto de menina, iluminando minha mente e desejando-me bom
dia e boas férias. Eu permanecia sendo a mesma. Como fiquei feliz!
Corri ao espelho para dar a ele a boa notícia. Ele e eu sorrimos ao
mesmo tempo. Estávamos aliviados.
A DOENÇA DE RONALDO

Quatro horas da tarde. Ronaldo havia acabado de atender


um cliente no seu escritório de advocacia. Nesse instante ele sente
uma pontada dolorosa e aguda no seu peito estufado (que nunca
doeu). Amedrontado, telefona rápido para um hospital de urgência
cardíaca. Enquanto telefona, mentalmente pergunta a si mesmo,
angustiado: “Será que dessa vez vou morrer?” Seus pensamentos
pessimistas desfilam na consciência apreensiva. Veste o paletó,
despede-se da secretária sem nada lhe dizer e desce de elevador,
imaginando: “É melhor tomar um táxi, posso morrer na direção do
meu carro. Mente maldita! Só penso coisas ruins.”
Chega ao hospital suando. Espera. Entra na sala de exame.
Perguntas rápidas são feitas. Deita-se na maca, é auscultado. O dou-
tor faz uma cara feia. A enfermeira bonita sorri sem graça. Ronaldo,
sem o desejar, fantasia um encontro com ela em qualquer dia, em
qualquer lugar, para qualquer coisa.
O espectro da morte invade sua mente, faz desaparecer a en-
fermeira que ali habitava por instantes. “Como encontrar? Poderei
cair morto agora mesmo, a morte está chegando... acho que dessa
eu não escapo.”
— Vamos fazer um eletro, depois um eco, talvez um holter.
Depende... é - continua o doutor falando, enquanto olha curioso,
ora os risquinhos do exame, ora a face medrosa de Ronaldo - típico
de enfarte... ondas q r s, é... intervalo. Não há dúvida. Tudo obje-
tivo, real... é caso para internar, operar, safena ou mamária. O cirur-
gião decidirá, três ou quatro... depende... é, depende.
48 - O Presente e Outros Contos

Ronaldo deitado, sem imaginar uma saída, recordava sua vida


passada. Sua vida era simples, vulgar e também terrível. Após uma
vida bastante livre e feliz, decidiu se casar. A esposa, sem razão
alguma, começou a destruir a alegria e a ordem da sua vida. Num
momento, ela tinha ciúmes infundados, em outro, exigia que ele a
cortejasse para demonstrar amor, implicando com coisas insignifi-
cantes, provocando cenas grosseiras diante de todos.
À medida que sua mulher se tornava mais nervosa e briguenta,
mais ele transferia o centro de sua vida para seu trabalho, esforçan-
do-se ao máximo para melhorá-lo cada dia mais, aumentando sua
ambição de ser alguém, algum dia. Em casa, diante dos familiares,
pouco exigia, a comida e o leito. Bastava uma pequena rusga em
casa para que ele se voltasse para o mundo fora do lar, trabalhando
mais e mais. Assim esquecia os dissabores que encontrava à noite
e nos fins de semana.
Apesar de tudo, os filhos foram nascendo e a mulher foi fi-
cando cada vez mais irritada e irritante. Eram poucos os milagrosos
dias de uma atração amorosa, sempre de curtíssima duração. Logo
após esses diminutos períodos de calmaria, ele era rapidamente
lançado à tempestade de ódio continuado que lhe inundava a alma
desajustada, revelando claramente o afastamento existente entre
os dois cônjuges. Ronaldo ia se acostumando a tudo.
Um dos seus objetivos máximos consistia em libertar-se cada
vez mais das contrariedades domésticas e dar a elas uma aparência
inofensiva e decente. Para isso, ficava o mínimo possível com a mu-
lher e quando isso era impossível, procurava ter junto a si e a mu-
lher outras pessoas por perto, mesmos os mais estranhos à família.
Todo o interesse de Ronaldo se concentrou no mundo da advo-
cacia, um trabalho que lhe agradava e o absorvia. Depois de muito es-
forço, conseguiu uma promoção na firma em que trabalhava, o que o
animou por algum tempo. Para mostrar riqueza, incentivado por sua
mulher, decorou sua casa com tudo aquilo que foi considerado “belo”
e “adequado” para pessoas da classe alta e de bem. O casal fazia tudo
para ser considerado como pessoas de certa classe.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 49

A casa de Ronaldo era de fato uma perfeita imitação de deze-


nas de outras casas de Belo Horizonte, umas copiadas das outras.
Entretanto, o casal imaginava-a totalmente original, isto é, única.
Sentindo-se importante, não mais recebeu as pessoas considera-
das pobres, moradoras de outros bairros, pessoas mais simples e
com empregos menos rendosos, chegando mesmo a ter raiva dos
pobres.
Pouco a pouco, e já há bastante tempo, Ronaldo havia co-
meçado a sentir sensações estranhas. Assustado, foi consultar um
famoso médico e professor da universidade. Após longa espera, foi
recebido pelo ilustre doutor cheio de atos teatrais, um ar doutoral
que Ronaldo conhecia bem, pois era essa mesma conduta que ele
usava nas reuniões da empresa onde trabalhava.
Começou a consulta: as perguntas de praxe, a maioria delas
desnecessárias, que forçavam respostas anteriormente já formu-
ladas e totalmente inúteis. Depois de um silêncio como exigia o
roteiro, as batidinhas aqui e ali e a percussão e a auscultação, que
pediam respostas formuladas de antemão e que eram perfeitamen-
te inúteis. Como nas diversas reuniões da empresa, o médico de
um lado, e o paciente de outro, representavam a farsa encenada
diariamente da relação médico-paciente.
O clínico, fingindo estar pensando, dizia: isto e aquilo indi-
cam que o senhor tem isto e aquilo, mas se o exame que irei pedir
- demora uns dias - não confirmar que o senhor tem isto e aquilo,
devemos, sem dúvida, levantar a segunda hipótese de ter isto e
aquilo. Por outro lado, supondo que o senhor sofre disto e daquilo,
então pode-se concluir que as coisas andavam mal para seu lado...
Ronaldo, cabisbaixo, misturava as representações que inva-
diam sua consciência - o exame médico e a vida familiar - e nenhu-
ma delas lhe agradava.
A dor e o mal-estar não diminuíam. Ronaldo foi atrás de outros
médicos, entre eles um homeopata e um acupunturista. Sua mulher,
filhos e filhas, muito ocupadas com a vida social, as reuniões a que
não podiam faltar, não tomaram conhecimento de seus problemas.
50 - O Presente e Outros Contos

Na família ninguém se preocupava com ele. Novas consultas


e novos tratamentos. Ronaldo ia piorando. Tentou voltar à vida que
levou no passado: trabalhar, trabalhar, reorganizar a casa e o escri-
tório. Tudo inútil, não houve melhora. Os colegas, atentos, espe-
ravam sua morte e antes dela já indicavam o seu sucessor. Passou
a usar antidepressivos, ansiolíticos, analgésicos, anti-hipertensivos
e anti-histamínicos. Não houve melhoras. Seu maior e talvez único
amigo era seu cão Dobe. Ronaldo usava todas as maneiras possíveis
para manter esse amigo fiel bem junto dele. Outros médicos foram
consultados e, nos piores dias, alguns foram até sua casa para o
exame, todos usando os mesmos modos, as mesmas técnicas.
Cada médico procurado não se interessava pela vida ou mor-
te de Ronaldo, mas apenas pelo seu coração, pulmão ou estômago.
Lentamente, os familiares e amigos foram ficando irritados com
suas queixas e sua conduta de doente. A doença de Ronaldo os
aborrecia, ela perturbava a felicidade deles. Ronaldo lamentava sua
fraqueza, sua terrível solidão, a crueldade dos ex-amigos e de Deus,
que o abandonara.
“Por que razão cheguei a isso? Para que nasci? Que objetivo
te induz a me fazer sofrer tanto assim?”- Ele se perguntava.
Ronaldo sabia que as respostas não viriam. Lembrou-se de
tempos mais antigos ainda, de sua infância, mas não conseguiu
visualizar mais o menino dentro dele. Tinha virado pó e levado
pelo vento, espalhou-se. Ronaldo foi piorando até o desespero e
a dor final.
Repentinamente, Ronaldo despertou de seus devaneios ao
ouvir a estridente voz de seu médico atual:
— Vou arrumar um apartamento para você. Avise a família.
Seu caso exige cuidados especiais. Precisa ficar aqui em repouso e
sob vigilância médica constante.
— Não tenho família, doutor, moro... vivo sozinho. E abaixou
a voz envergonhado de estar só. A família que tenho foi inventada
por mim para os outros. Todos têm uma família. De tanto inventar,
acabei também acreditando.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 51

Hoje não sei bem se ela existe, ou não. Converso muito co-
migo sobre ela. Não sei se vocês estão me entendendo. Ronaldo
sabia mais a seu respeito do que aquele médico novato. Ele já tinha
ouvido dezenas deles e não esperava mais nada de nenhum.
— Deve ter alguém - objetou o médico sem ouvir sua história
queixosa e desinteressante. — Não pode ficar sozinho, nem andar
sem auxílio, poderá morrer a qualquer hora. Os exames são obje-
tivos, reais, não falham. Hoje ainda faremos outros me certificar.
Entendeu? O já sabido... Acredita em Deus? Reze um pouco, lhe
fará bem... nada melhor nesses casos.
— Sim e não. O meu Deus é o antigo, morreu. Hoje, meu
Deus vive dentro de mim, só cuida dos meus problemas, não de
outras pessoas. Ele só compreende minha linguagem particular.
Nove horas da noite. Ronaldo está no apartamento, espera so-
litário talvez a morte. Chega o médico cansado e um pouco rouco,
ainda com cheiro de cigarro saindo de sua respiração.
— Tudo como imaginei. Amanhã cedo, no mais tardar, à tar-
de, cirurgia.
— Mas, doutor, preciso ir a casa. Não trouxe roupas. Nada!
Nem a escova de dentes. Além disso preciso trocar a água e a comi-
da do meu cão e do ratinho de estimação, eles moram comigo. Não
tem ninguém em casa para ajudá-los. Se não, eles morrem.
— Não. Não convém, seu caso é grave. Você vai salvar os
animais e poderá morrer...
— Mas, doutor... é... o pior é que... nem talão de cheque eu
trouxe, falou rápido.
— Certo, concordou o médico. Já que não tem ninguém, vá
com cuidado, não suba escada, não faça esforço, não fique preocu-
pado. A emoção poderá ser fatal. Você poderá morrer... já lhe disse,
pode ter outro enfarte. Teve sorte de ter escapado desse. A enfer-
meira vai levá-lo até a portaria no carrinho e chamará um táxi.
Ronaldo ora, usa suas palavras próprias só para Ele. Conversa
nos momentos difíceis com seu Deus particular, que não se comu-
nica com mais ninguém... O médico retorna à conversa:
52 - O Presente e Outros Contos

— Terá uma vida normal, ou quase normal... após a ponte. Virá


aqui fazer exercícios, fisioterapia. Já ouviu falar?
— Sim... é...
— Com os safenados, gente como você, todos estão bem,
felizes, pois escaparam, graças a Deus, da morte. Isso é normal
nessa sua idade. Com sua vida sedentária, envelhecido, tudo isso
acontece...
Ronaldo sai humilhado na cadeira de rodas, sem nenhuma es-
perança. Rapidamente, quase correndo, entra no táxi que estava
estacionado diante do hospital. Quando o carro partiu, aos poucos,
foi ficando aliviado por afastar-se daquele lugar lúgubre.
Abriu o portão de seu edifício de três andares e sem elevador.
Subiu a escada de 21 degraus - com “toda a leveza do seu ser” - ale-
gre, degraus que jamais havia contado.
Tirou o paletó e a gravata. Aos poucos tirou todas as roupas.
Vestiu um calção azul velho e confortável e caminhou até o banhei-
ro, fazendo um longo xixi que o aliviou. Foi como se jogasse na
privada sua preocupação. Observou com interesse sua urina ama-
relada desaparecer com a descarga.

Você, leitor, escolhe um dos finais.

Primeiro:
Nesse instante, a dor violenta chegou mais forte do que nun-
ca. Ronaldo contraiu-se todo, tentou agarrar a maçaneta da porta
do banheiro, mas caiu no chão e começou a ter contrações em
todos seus músculos. Assim permaneceu por um a dois minutos.
Depois descansou, sem ter tido tempo de alimentar seu rato e cão,
que o esperavam ansiosos.

Segundo:
Pensativo, ainda sem se decidir, Ronaldo foi até seu pequeno
escritório procurar uma pequena lista de endereços necessários.
Decidiu fazer uma ligação para um antigo amigo cardiologista.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 53

Marca a consulta para às 10 horas da manhã do dia seguinte, ima-


ginando: “A essas horas eu estaria sendo anestesiado, deitado na sala de
cirurgia. Amanhã lá estará um outro, que não sou eu. Ainda bem”.
Chegou ao consultório e minutos depois a porta era aberta.
Ronaldo recebeu abraços, sorrisos e esperanças do ex e, por que
não, do atual amigo.
— Há quanto tempo! Sempre lembro da “república”, de nos-
sas farras, as bebedeiras... Lembra-se?
A conversa continuou alegre, calma, cheia de lembranças
agradáveis, de casos engraçados.
— O que foi? Você foi sempre forte... Aconteceu alguma coisa?
— Senti uma forte dor ontem. Aqui no peito, passou pelo braço...
Ronaldo foi contando.
— Deixe-me ver. Respire fundo, outra vez. Ronaldo, ame-
drontado, segurou a respiração.
— Não escuto nada, nada, de anormal, uma leve taquicardia
talvez. Está nervoso? Lembra-se daquela mulher que você paque-
rava? Encontrei-a, esses dias, ali na Praça Sete, naquele quarteirão
fechado da Carijós. Estava na fila esperando o banco abrir... Tá ve-
lha ! Acho que nós não estamos tão ruins assim... Tem gente que
envelhece mais que outros. Vou fazer um eletro, assim terei mais
segurança de que não existe nada.
— É porque nós nos olhamos todos os dias, vamos nos acos-
tumando com as rugas e com tudo mais.
Uma enfermeira feia entra. Não sorri. Ronaldo a critica inter-
namente: “Antipática”. Ela sai e ele se sente aliviado.
— É... não encontrei nada! Tudo dentro do esperado... devem
ser as emoções, os estresses da vida, a mente... objetivamente nada,
tá tudo bem. Pode voltar e continuar sua vida como antes. Ainda
está trabalhando? Pode também continuar a fazer seus exercícios,
beber sua pinga, ter suas transas. Tudo isso é bom para a saúde...
— Mas estou velho, a quantidade de anos nas costas é grande.
— Nada, o que vale é a qualidade de vida, a forma física. Você
está ótimo.
54 - O Presente e Outros Contos

Ronaldo abraçou seu velho amigo de farras. Despediu-se da


enfermeira feia, sentindo-se culpado de tê-la criticado mentalmen-
te, pois, após o “veredictum” final, ele começou a achá-la bela.
Saiu leve, caminhou pela rua achando a cor azulado do céu
mais bonita, a cidade movimentada e alegre, as faces mostrando
mais felicidade e simpatia.
Em certo momento, parou cheio de planos. Lembrou-se de
sua casa, de seu ratinho. Perguntou-se, um pouco perdido: “Oh!
Por que sou partido? Por que não sou uno, em vez de dois? Por que
o real, o objetivo não se mistura com o espiritual, com o subjetivo?
Por quê? Por que será?
UMA DIFÍCIL DECISÃO

Dr. Sílvio, o dentista de Itazul, demasiadamente ocupado com


os dentes cariados e as dentaduras dos moradores da cidade, apro-
veitava os raros momentos de folga para ir até o bar “Nostalgia” de
Chico Pança, para tomar algumas cervejas. Após tomar as primei-
ras cervejas, tendo esquecido os clientes insistentes, mas calmo,
ele continuava assentado no bar, bebendo até ser procurado por
sua mulher, ou mesmo levado por algum amigo que percebia que
Sílvio não ia conseguir caminhar até sua casa, pois lhe era difícil dar
um ou dois passos.
O casal Sílvio e Carmen não tinha filhos. Ela apresentava, se-
gundo o obstetra, “problemas na trompa”, que a impediam de ser
fecundada. Os dois tentaram diversos tratamentos médicos sem re-
sultado, antes de decidirem, depois de longas discussões, adotar
uma criança. A escolha não foi difícil, pois Dr. Sílvio, um homem
de fácil contato, tinha inúmeras afilhadas espalhadas pelas cidades
e arraiais vizinhos. A escolha, feita por Carmen com o consenti-
mento de Sílvio, recaiu em Sílvia, uma adolescente bonita, como
quase toda a adolescente.
O casal já conhecia Sílvia, que morava com o pai viúvo a al-
guns quilômetros de Itazul, num casebre situado num pequeno
povoado miserável, junto com mais três irmãos. Sílvia, quando foi
entregue ao casal, já tinha completado quinze anos de idade. O
nome dela, ”Sílvia”, lhe fora dado em virtude do nome “Sílvio” do
dentista padrinho e que havia feito, antes dela nascer, dentaduras
para o pai e a mãe dela.
56 - O Presente e Outros Contos

Quando veio morar com Carmen e Dr.Sílvio, Sílvia estava não


só muito magra, pálida e desnutrida, mas também mal cuidada:
cabelos mal cortados, suja, dentes amarelados e cariados, o que
dava uma impressão negativa à primeira vista. Entretanto, com o
passar dos anos, uma vez mais bem alimentada e cuidada, não só
melhorou com respeito à saúde, higiene e cuidados com os cabe-
los, dentes e tudo mais, mas também se transformou numa moça
bonita e atraente, seduzindo os moços da cidade, que inicialmente
não lhe deram a menor importância.
Dr. Sílvio, que antes da vinda da filha adotiva quase não para-
va em casa por absoluta falta de tempo, quando Sílvia veio morar
com ele e sua mulher, principalmente após ela ter ficado mais à
vontade e atraente, conseguiu reservar horários livres para con-
versar e se interessar pela menina, passando a tratá-la com mais
esmero e amizade.
Carmen assistia à amizade e relacionamento do marido com a
filha adotiva com alegria e satisfação, interpretando a aproximação
como parte do amor filial guardado e precisando ser externado.
Além disso, a amizade cada vez maior com Sílvia, afastava o dentis-
ta um pouco dos bares e das cervejas dos fins de tarde, principal-
mente dos fins de semana.
Entretanto, enquanto o amor inicial foi crescendo, foram sur-
gindo entre Dr. Sílvio e Sílvia faíscas de um amor carnal, que se
transformaram com incrível rapidez em chamas, e uma vez mais in-
tensas, deram origem a enormes labaredas. Nessa ocasião, Dr. Sílvio
tinha completado quarenta e cinco anos e Sílvia, dezoito.
Sem que ninguém a princípio notasse, os hábitos de Dr. Sílvio
e Sílvia mudaram. Sempre que Dr. Sílvio percebia que sua mulher
ia sair de casa, ele, arrumando desculpas propositalmente, atrasa-
va sua saída, alegando diversas razões para deixar sua mulher sair
antes dele.
Uma vez sozinhos em casa, Dr. Sílvio e Sílvia conversavam
descontraidamente, riam muito, faziam brincadeiras não feitas dian-
te de Carmen, ouviam e cantarolavam músicas românticas do apare-
lho de som e se tinham mais tempo, bebiam cervejas geladas.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 57

Nessas ocasiões, suas intimidades cognitivas, emocionais e


físicas aumentavam
A amizade e a intimidade entre os dois foram aumentando,
sob os olhares ingênuos e complacentes de Carmen. As conversas
entre os dois, a princípio ingênuas, dominadas por grandes pai-
xões e propensas a se externarem liberadas pela bebida, logo se
transformaram em sorrisos, meiguices, abraços, beijos e também
planos mais bem elaborados para encontros fora da residência.
Cada vez mais animados e apaixonados, como todos os indi-
víduos atingidos pela paixão, muito confiantes em si mesmos, mas
ao mesmo tempo descuidados, apesar da dificuldade existente em
arrumar desculpas para saírem de casa, os dois trabalharam para
atingir esse objetivo.
Sílvia disse a Carmem que, como estava com muita saudade
do pai, viúvo e morando com os filhos, decidira fazer-lhe uma visita.
Uma vez aceita a pequena viagem, no dia seguinte Sílvia dirigiu-se ao
guichê de vendas de passagens e após comprar o bilhete entrou no
ônibus, que partiu logo em seguida para o lugar onde ela nascera.
Ao mesmo tempo e quase no mesmo instante, Dr. Sílvio con-
versou com Carmen, dizendo-lhe que tinha marcado com um fa-
zendeiro ir ver sua fazenda. Comentou ainda que, por ser sábado,
não agendara nenhum cliente para aquele dia. Disse ainda que faria
uma visita à fazenda, pois tinha intenções de ganhar algum dinhei-
ro com a engorda de gado. A fazenda, segundo Dr. Sílvio, não era
longe, por isso ele esperava voltar antes do almoço. Entretanto,
caso atrasasse, seria porque ele almoçaria com o proprietário da
fazenda que ia ver. Em resumo: Carmen não deveria esperá-lo, pois
podia atrasar-se.
Conforme o trato com Sílvia, ela deveria descer do ônibus
num determinado lugar previamente marcado por Dr. Sílvio. Um
ponto onde ele já estaria, pois sendo seu carro mais veloz que o
ônibus, era fácil ultrapassá-lo. E como combinado, assim aconteceu.
Ela desceu do ônibus e ele lá estava dentro do carro, escondido.
Logo ao descer do ônibus, caminhou em sua direção.
58 - O Presente e Outros Contos

Uma vez livres e desembaraçados, após Sílvia ter entrado no


automóvel e dado um grande e afetuoso abraço no Dr. Sílvio, o
casal dirigiu-se para uma pequena pensão na cidade próxima de
onde estavam. Tudo correu sem maiores problemas. Os encontros
iniciais não provocaram desconfiança em ninguém. Os dois esta-
vam eufóricos.
Dr. Sílvio e Sílvia, animados como sempre acontece com to-
dos amantes durante os primeiros encontros, aos poucos perderam
o medo típico dos iniciantes e naturalmente cada vez menos preo-
cupados, foram se arriscando mais. Se no início cada um chegava a
casa algum tempo depois do outro, semanas depois ele começaram
tanto a sair, como a voltar para casa, juntos. Para justificar, inventa-
vam desculpas tolas e esfarrapadas.
Dentro da casa, como sempre acontece, houve grandes mu-
danças. Sílvia não só passou a se cuidar mais, como também foi fican-
do mais segura e expressando mais seu poder nas coisas da casa. Era
comum vê-la falar com o pai adotivo de forma coloquial e mais sedu-
tora. Tudo isso e muito mais foi fornecendo outras pistas de que algo
havia mudado. Por mais que Carmen agisse ingenuamente no início,
com o passar do tempo foi nascendo um processo de desconfiança.
Assim, se por um lado Carmen, uma vez desconfiada de que
algo estava errado, ficou mais atenta para certas condutas que an-
tes nem eram observadas. Dr. Sílvio, por sua vez, começou a “dar
bandeiradas” uma após outra. Algumas noites, sentindo muita falta
de Sílvia, levantava-se com algum cuidado e ia até o quarto onde
dormia sua amada. Outras vezes fazia certos gracejos, demonstran-
do grande intimidade com a filha. Ficava em casa muito mais tem-
po que antes e sempre que possível levava presentes para a filha,
sem fazer o mesmo para sua esposa.
O resultado foi o esperado. Descoberta a traição, as brigas de
sempre, os xingamentos, a expulsão de casa da vítima. Apesar de
tudo, após longas e penosas discussões entre os cônjuges, de co-
mum acordo concordaram que Sílvia iria morar e estudar na capital
às custas do Dr. Sílvio.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 59

Por sua vez Carmen, ferida com a traição e talvez por vin-
gança, seduziu um mulato novo e bonito, entregador do armazém
onde fazia as compras. Animada pela raiva, sentindo-se mais corajo-
sa, trouxe-o para dentro de casa inúmeras vezes durante as ausên-
cias do marido.
A traição de ambos espalhou-se por toda Itazul, pois não havia
como esconder os encontros numa cidade tão pequena. Comentava-
se que Carmen agia daquele modo apenas como revanche. Ela dese-
java que todos da cidade soubessem de sua conduta, mais que um
desejo de conquista ou de amor pelo entregador de mercadorias do
supermercado.
Não faltaram telefonemas anônimos, conversas diretas para o
marido traído, terminando na descoberta feita pelo Dr. Sílvio dos
acontecimentos. Novas brigas e separação do casal. Ao mesmo
tempo ameaças de um e outro lado, mas felizmente sem agressões
e mortes. Não durou muito tempo o desacordo, houve, sim, um
retorno à paz, um armistício selado com cervejadas, adoradas por
ambos. Para comemorar a paz recente entrelaçada de juramentos,
os dois deram uma grande festa e como convidados especiais esta-
vam o entregador do armazém e também Sílvia. Houve ciúmes de
parte a parte, novas brigas e um novo juramento de paz eterna. A
filha, após participar da festa, ficou mais alguns dias morando com
o casal que estava num astral elevado e, em seguida, retornou à
capital.
Posteriormente, passados alguns meses, ocorreu um fato
novo e que teve consequências surpreendentes. Dr. Sílvio, uma vez
indignado e envergonhado devido à traição da esposa e também
amargurado e deprimido pelo afastamento de Sílvia, aumentou a
quantidade da bebida ingerida. Podemos afirmar que ele passava
grande parte do dia acamado. Assim sendo, pouco ia ao consultório
trabalhar, isto é, tratar de um ou outro cliente que o procurava. Por
sua vez, Carmen também não se sentia bem. Ela sempre sofria, mui-
to quando percebia seu marido triste ou adoentado. Assim, os dois
adoeceram depois dessa série de desencontros.
60 - O Presente e Outros Contos

Em decorrência da amizade que cada um dos cônjuges tinha


pelo outro e também do “jogo de cintura” de ambos, surgiu uma
solução inusitada. Depois de conversas e confissões dramáticas,
choros, gritos, abraços e perdões de ambas as partes, os problemas
foram solucionados.
Foi constatado que o casal sofria muito em virtude da ausên-
cia da filha querida e, por outro lado, Sílvia também estava pesaro-
sa por estar afastada deles. Assim, uma primeira decisão, após con-
sultar Sílvia, foi trazê-la de volta. Mas devido ao grande sofrimento
do Dr. Sílvio e como consequência a apatia e tristeza de Carmen
por causa da depressão do marido, os dois decidiram, de comum
acordo, para o bem de toda a família, inclusive de Sílvia, que Dr.
Sílvio poderia, caso quisesse, continuar o mesmo relacionamento
que anteriormente tinha com a filha adotiva.
Entretanto, Carmen impôs uma condição ao marido. Para não
se sentir nem traída, nem diminuída perante os dois bem como
pela população da cidade, ela poderia, se desejasse, participar dos
encontros íntimos do casal Sílvio e Sílvia. Assim seria formado um
“ménage à trois”.
Através de diversas reuniões de alto nível, bastante animadas e
sem agressões, todos os detalhes, bem como o prescrito para cada
um dos participantes, foi cuidadosamente combinado e ajustado.
Dias depois Sílvia retornou ao lar de Dr. Sílvio e Carmen para
o bem e felicidade da família. Hoje os três vivem sob o mesmo teto,
compartilhando das noitadas e feriados prolongados regados a cer-
veja e sexo. Todo o distúrbio se transformou em paz. Tudo, tudo
mesmo, seria realizado dentro de casa, sigilosamente, sem escân-
dalos e sem despertar suspeitas de vizinhos curiosos e invejosos e
principalmente das “más línguas” dos mexeriqueiros de sempre.
DESABAFO NA MESA DO BAR

B — Puxa! Você custou a aparecer... Senta aí. Estou te espe-


rando há meia hora.
A — Ah! Estou meio chateado.
B — Que você vai tomar?
A — Qualquer coisa.
B — Que houve?
A — Briguei com a menina. Troço besta...
B — É por isso que tá chateado? Ora Zé, deixa isso prá lá...
Vamos tomar uma pinga. Isto passa.
A — Não é muito fácil não.
B — Olha, escuta aqui: mulher a gente esquece com mulher.
Eu tô de carro aí.
A — Seu?
B — Meu irmão emprestou o dele. Tenho duas cupinchas lá
no conjunto do IAPI. Dois chuchus. Topam qualquer parada. Pode
perguntar ao Zé Alberto. E não tem hora não. Aquilo lá é meu.
A — É seu?
B — É nosso, não complica. Basta eu telefonar. É programa
certo. A gente podia sair daqui, apanhar as garotas e dar um pulo
lá no Peter’s. Topa?
A — Ah, não sei não...
B — Olha o que te falei: mulher a gente esquece com mulher.
Vamos, Zé! Duas uvas, garanto.
A — Você está confundindo mulher com mulher. Minha na-
morada é minha namorada.
62 - O Presente e Outros Contos

B — Sua não. Foi.


A — Pra mim, continua minha. Não é uma mulher qualquer,
no sentido que você fala. É diferente.
B — Não seja besta, Zé. Não existe mulher diferente. Você é
cismado com esse negócio de mulher diferente. Desde que eu te
conheço você fala em mulher e fica bobo. Você dá cartaz demais
pras suas namoradas.
A — Não é isso não... Eu não gosto é de...
B — É isso, sim! Com aquela do ano passado...
A — Não é não...
B — Foi a mesma coisa. Você brigou e...
A — Não fala besteira. Aquela menina do Sion era outra coisa
completamente diferente... .
B — Deixe eu falar?
A —... diferente. Eu não gostava dela nem...
B — Deixa eu falar?
A — Tá bem. Fala.
B — Escuta aqui, Zé. Você é romântico demais. Você ainda
acredita nesse negócio de levar flor prá namorada, fazer poesia...
É, ou não é?
A — Mas eu sou assim, que que eu vou fazer?
B — Pois é! Você é assim. Aí é que tá a coisa. Isto não dá
camisa a ninguém não, Zé. A gente tem que mostrar uma certa in-
diferença, compreendeu? Você não compreende não, não precisa
compreender. Brigou, não brigou? Então pronto. Não tem nada de
ficar corneado aí não. Sai pra outra. Amanhã, ou melhor, daqui a
três dias, você taca um telefonema pra ela. Ela vem se desmanchan-
do pra você. Você não. Você briga e fica com cara de enterro: “tô
chateado, tô chateado”. Chateado a gente fica, mas não pode dar
bola pra isso. O melhor é beber a sua pinga, que já está esfriando.
A — Acontece que...
B — E fazer o programa com as enxutas do IAPI. Você não
vai se arrepender.
A — Não, João, a coisa não é simples assim. Você não sabe
de nada...
Galeno Procópio M. Alvarenga - 63

B — O que que eu não sei, Zé?


A — Uma porção de coisas. Você não conhece a garota, não
sabe como foi, porque foi, onde... .
B — Tá bem. Então fala. Quero saber.
A — É complicado. Essa menina tinha um namorado. Estu-
dante de Direito. Eu detesto tirar a namorada do outros. Eles namo-
ravam lá perto de casa. Eu tava na janela, via os dois passando da
mãos dadas. A menina é bonita pra burro. Não é um tipo de beleza
não, mas tem uma coisa — você sabe como é. Às vezes eu estava na
janela, ela passava sozinha e dava uma bola danada. Eu ficava meio
assim, não queria olhar...
B — Mas olhava...
A — Nem sempre. Mas acabei olhando sempre.
B — E ela continuava com o outro?
A — Toda noite o cara ia lá. Eu manjava tudo. No dia seguin-
te, ela voltava da aula — ela estuda no Instituto de Educação —
dava uma bola pra mim.
B — E você ficava na janela esperando ela passar?
A — Acostumei. Às cinco horas da tarde ela passava, eu tava
firme na janela.
B — E daí?
A — Um dia, isto foi em Abril, não, Maio, eu estava em casa,
ela telefonou.
B — Ela é que telefonou?
A — Foi. Conversou, conversou. Não quis dar o nome. Mar-
cou um encontro.
B — Você foi!
A — Fui.
B — Você sabia que era ela?
A — Não sabia. Mas suspeitei.
B — Encontrou com ela?
A — Ela não foi.
B — Não foi?
A — Esperei tempo pra burro. Desisti. No dia seguinte, era
um sábado, ela telefonou de novo e deu o nome.
64 - O Presente e Outros Contos

B — Você sabia o nome dela?


A — Já. A empregada da república descobriu pra mim. Deu
uma porção de desculpas, falou que não pôde ir ao encontro, que
não sei o que mais, ah! Disse que tinha visita na casa dela, não po-
dia sair... .
B — Você acreditou?
A — Claro, acreditei.
B — E daí?
A — Marcou outro encontro.
B — E foi?
A — Desta vez foi. Acho que eu já estava apaixonado.
B — Acha?
A — Bem, estava gostando dela. Falei do tal cara de Direito.
Ela disse que tinha brigado com ele.
B — Você ficou satisfeito.
A — Fiquei.
B — Demonstrou isso?
A — Acho que sim. Fiquei alegre, ri muito, fomos tomar um
sorvete. E passamos a nos encontrar seguidamente.
B — Todo dia?
A — Não. Três vezes por semana.
B — Por quê?
A — Ela estuda e eu também.
B — Mas ela estuda de tarde.
A — Começou um curso de inglês no Brasil-Estados Unidos.
B — Foi ela que falou?
A — Foi. Ontem não era dia da gente se encontrar. Mas eu
estava cansado demais para ficar em casa. Fui ao cinema Metrópo-
le. Tinha uma fila enorme. Fui ver esse filme que todo mundo está
falando.
B — Que filme?
A — Esse francês... Como é que chama? É... O Sol por Teste-
munha.
B — Hum! Hum!
Galeno Procópio M. Alvarenga - 65

A — Chego no cinema, vejo a garota com o tal cara.


B — O estudante de Direito?
A — Ele mesmo. Estavam de mãos dadas.
B — Que é que você fez?
A — Tive vontade de... nem sei o quê. Ir falar com os dois, pas-
sar uma esculhambação nela, fazer um escândalo, brigar com o cara
— o cara é até um sujeito magricela, eu podia ter massacrado ele...
B — Mas o que é que você fez?
A — Saí do cinema e fui embora.
B — Ela te viu?
A — Viu. Peguei o ônibus e fui pra casa. Nem dormi direito.
Hoje ela telefonou. Eu não ia atender... acabei atendendo. Falei
com ela o negócio do cinema. Peguei ela meio de surpresa. Deu
umas desculpas, mas eu fiquei chateado e acabei desligando. E vim
pra cá.
B — Acabou, Zé? Pois olha: é exatamente aquilo que eu te
falei: você não sabe mexer com mulher.
A — Não sabe, como?
B — Pois a menina não tava com o cara de Direito e não dava
bola pra você? Como é que você foi confiar numa mulher destas?
Isto até parece coisa de criança!
A — Que é que tem isso? Ela não podia estar gostando mes-
mo de mim?
B — Ora Zé, deixa de ser trouxa. Você não manjou logo que
ela queria era movimento? Chegou a telefonar pra você! Mulher que
anda atrás de homem dá pra desconfiar.
A — Desconfiar, por quê? Quem disse que ela anda atrás de
homem?
B — Você mesmo.
A — Eu não disse isso. Disse que ela telefonou pra mim.
B — Pra mim, mulher que telefona pra homem, tá querendo
homem.
A — Você tem mania de achar que tudo é esquemático...
Ela podia estar gostando de mim.
66 - O Presente e Outros Contos

B — Você é que acreditava nisso.


A — Eu não tinha razão pra não acreditar.
B — Não tinha, porque você sempre foi assim: mulher olha
pra você, você se baba todo. Eu sei por quê.
A — Ora, você sabe demais... Você vive sabendo... você é um
sábio...
B — E sou mesmo! Você tem é complexo de inferioridade,
Zé. Você não tem personalidade nenhuma. Já vai encontrar com a
namorada, esperando as ordens dela. Você é um sujeito tão burro
que acreditou naquela história do Brasil-Estados Unidos...
A — A menina está matriculada lá. Eu verifiquei hoje!
B — Olha aqui, Zé: você não sabe o que é ser homem! Você é
tímido demais. Além disso, eu te conheço. Você nunca topou uma
farra com a gente, se tem mulher no meio. Você duvida da sua mas-
culinidade, Zé. Você não sabe o que é macho, Zé, MACHO! Fica
namorando essas meninas de colégio como fuga. Você quer provar
que é macho, conquistando esses brotinhos imbecis.
A — Olha aqui, João, você já está me enchendo com esse ne-
gócio de macho. Eu nunca falei o que penso de você.
B — Nem me interessa. Eu falo é porque sei. Conheço sua fa-
mília toda, e há muito tempo, quando vocês moravam no interior.
Seus irmãos são assim também, inquietos, não decidem nada, fica
tudo no ”que é que eu vou fazer”...
A — Você está metendo negócio de família no meio, João, e
eu não gosto disto...
A FELICIDADE MORA AO LADO

Após a morte de sua mulher, Sô Nico viveu algum tempo so-


zinho no casarão que fora de seu pai e avó. Cansado do lugar gran-
de demais, que lhe dava muito trabalho, e também em virtude da
casa lhe provocar muitos pensamentos tristes que lhe lembravam
de sua querida Nica, aconselhado por amigos e parentes Sô Nico
alugou um quarto na pensão da rua Direita.
Na nova residência, quase ninguém via Sô Nico, pois ele saía
cedo para seu trabalho e retornando à pensão, ia para seu quarto
e lá ficava lendo algum livro. Sua grande distração era ler, um fato
raro naquela cidade. Com seus quarenta anos, sem filhos, Sô Nico
saía cedo para o trabalho e voltava tarde. Sabiam que ele era for-
mado em alguma coisa, falava-se que em Direito, mas ele jamais
advogara. Era funcionário da prefeitura local.
Sô Nico andava sempre sozinho, não tinha amigos e na repar-
tição não conversava, a não ser com o prefeito, quando era chama-
do para isso. Após a morte da mulher, ele perdeu as relações com
a família, que era quase só a família de sua falecida esposa. A mãe
de Sô Nico morreu de parto quando ele era ainda criança, seu pai,
após a morte da esposa, tornou-se um alcoólatra e morreu um ano
depois. Os outros seus parentes mais próximos, irmãos e sobri-
nhos, moravam em Belém do Pará, dificultando os encontros que,
cada vez mais, se tornavam raros.
Ele saía do trabalho pontualmente às cinco horas da tarde e,
em seguida, andava pelas ruas até se cansar com as roupas com que
tinha ido trabalhar. Num certo dia, devido à morte de um funcio-
68 - O Presente e Outros Contos

nário da prefeitura, esfaqueado por um bêbado, ele chegou mais


cedo ao quarto onde dormia. Sô Felício, proprietário da pensão,
vendo que ele estava no escuro, após bater na porta, ofereceu-lhe
uma nova lâmpada, imaginando que a do quarto estava queimada.
Mas Sô Nico, após agradecer a gentileza, quase sem falar, ges-
ticulando, explicou-lhe que queria descansar um pouco e não ia ler
naquele dia, pois gostava também do escuro. Num certo instante,
uma luz invadiu seu quarto, uma luz vinda do outro lado de sua ja-
nela que estava aberta. Era a luz da casa dos vizinhos, a família dos
Rochas, tornando seu quarto bastante claro.
A família dos Rochas era constituída dos pais e de dois filhos.
Vendo a mãe dos garotos cuidar dos filhos e os ajudar a servir, Sô
Nico ficou preso aos acontecimentos, divertindo-se e gostando do
que via, pois há muito não via uma família se reunir, conversar, sor-
rir e brincar entre eles, enquanto ceavam. Durante o resto da noite,
até que as luzes da sala de jantar da casa vizinha se apagaram, Sô
Nico ficou assentado na cadeira, escondido na sombra que se forma-
va atrás de sua janela aberta, olhando e ouvindo parte das conversas
dos familiares vizinhos, a que ele nunca havia prestado atenção.
Encantado com o que viu, a partir desse dia voltava mais cedo
para casa, deixando, assim, de fazer seus passeios solitários, pois
eles o impediam de observar a cena da ceia da família, que come-
çava em torno das 5:30 horas.
A partir desse dia, todos os fins de tarde Sô Nico ficava no es-
curo, vendo a família reunida. Sô Felício, bisbilhoteiro, perceben-
do que ele ficava no escuro sem fazer o menor barulho no quarto,
vendo através do buraco da porta que ele não dormia, olhou mais
demoradamente, como fazia várias vezes com todos os hóspedes,
através do buraco da fechadura e da própria porta, feita de enco-
menda para esse fim. Assim descobriu o motivo de tanto silêncio.
A partir daí, ele esperava ansioso pelo apagar das luzes para
namorar a dona da casa, sem que ela o visse. Gostava de vê-la servir
o marido, por sinal uma pessoa muito simpática e alegre. Os filhos,
bem educados, pareciam ser muito amigos dos pais.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 69

Pouquíssimas vezes ele presenciou, durante suas observa-


ções, alguma discussão mais acalorada entre seus vizinhos.
O tempo foi passando, aquela família passou a ser parte de
sua vida. À noite ele não mais via TV e nem lia seus preciosos li-
vros, pois participava com fortes emoções em cada conduta de sua
segunda família. Se a dona da casa, Sara, começava a cantar, ele, no
escuro, cantarolava junto com ela a mesma canção. Se uma história
engraçada era contada, mesmo quando ele não a escutava correta-
mente, ele ria junto aos familiares. Uma notícia desagradável que
um deles contava, era sentida por ele até com lágrimas nos olhos.
Uma doença como uma gripe, num dos meninos, o fez sofrer ven-
do a mãe tensa diante da tosse rebelde, dos espirros e da falta de
apetite da criança.
Para participar mais ativamente dos acontecimentos da casa
vizinha, Sô Nico com frequência preparava seu lanche e o levava
para o quarto e somente começava a ingeri-lo quando sua “segun-
da família” iniciasse suas refeições. Nas festas como no Natal, ele
preparava seu vinho e durante as comemorações onde o vinho era
servido, ele se servia e bebia ao mesmo tempo em que os vizinhos
da outra janela degustavam suas bebidas.
Num certo dia, quando tudo era alegria do lado de lá e a família
comemorava um aniversário do filho mais novo, o marido de sua vi-
zinha, ao brindar e cantar o “parabéns para você” começou a tossir,
tornando-se a princípio bastante vermelho e, a seguir, pálido. Nesse
momento, ajudado pelos filhos e pela esposa, ele foi levado até um
sofá que ficava na sala e lá, rodeados pelos familiares, deitou-se.
Sô Nico pode perceber a tensão e desespero dos familiares
à medida que o tempo foi passando. Um médico foi chamado e lá
chegou alguns minutos depois. Este examinou o homem que, nes-
se instante, parecia não se mexer. Examinou uma vez, mais outra e
começou a fazer massagens vigorosas no coração do homem, que
não reagia. Após alguns minutos, o médico se aproximou mais da
mulher e lhe disse algo que a fez chorar junto aos filhos. Ele tinha
morrido.
70 - O Presente e Outros Contos

Do lado de cá, Sô Nico chorou também, apreensivo com aque-


la morte estúpida. Passou a noite toda vendo os preparativos do
velório. O caixão onde fora colocado o senhor ficou na sala, bem
diante de quarto de Sô Nico. Familiares e amigos foram chegando
e reunindo-se, rezando em torno do corpo. Sô Nico, também sem
dormir a noite toda, rezava do lado de cá pela alma bondosa do seu
vizinho, que foi uma companhia para ele por diversas noites.
No dia seguinte não foi trabalhar, alegando uma indisposição
corporal qualquer, não arredando o pé da sua janela. Assistiu a
todas as cerimônias durante a retirada do corpo e depois, ao ser le-
vado ao cemitério e acompanhado por grande parte da população
de Lunópolis.
Automaticamente, um pouco antes do corpo ser retirado de
onde estava para ser levado ao cemitério para ser enterrado, Sô
Nico se aprontou. Nem fez a barba, decidido a sair para acompa-
nhar o enterro que, naquela época, era feito a pé, sendo o caixão
carregado por um grupo de pessoas.
Quando o caixão começou a sair da casa, também ele foi para a
rua e seguiu, como os outros, o enterro. Agora ele pôde ver de perto
sua vizinha Sara, sob a luz do Sol, pois sempre a olhava dentro de
casa sem muita claridade. Ao vê-la bem ao seu lado, mesmo abatida
e com os olhos inchados, ele se apaixonou mais ainda por aquela
mulher tão simpática e atraente.
Sem se apresentar a Sara, caminhou durante todo o cortejo
fúnebre de cabeça baixa, mas sempre procurando olhá-la. No ce-
mitério sentiu um calafrio durante a descida do caixão, pois nesse
momento ele ficou junto a ela, cara-a-cara. Nesse instante ele sen-
tiu um forte impulso em abraçá-la e confortá-la.
Após o sepultamento, grupos de pessoas tristonhas, algu-
mas chorando, desceram o morro onde se situa o cemitério. Sô
Nico acompanhou, como sempre sozinho, os diversos grupos.
Logo adiante dele caminhava Sara, conversando ora com um, ora
com outro. Andando mais depressa alcançou-a e ao passar por ela
olhou-a mais uma vez. Ela, por sua vez, olhou-o por segundos.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 71

A emoção foi forte demais para Sô Nico. Animado com aque-


le olhar tão conhecido seu e ao mesmo tempo tão distante, ali,
naquela situação, encorajado aproximou-se dela e cumprimentou-a
educadamente, dando-lhe seus pêsames pela perda.
Como houve uma certa receptividade, Sô Nico ficou em dúvi-
da se ela já o conhecia, ou não, pois dava a impressão, pelo menos
para ele, que ela já era uma velha conhecida e amiga. Por isso, ani-
mado, desceu o resto do morro até chegar à rua principal, decidido
a falar quem ele era:
— Sou seu vizinho. Por um acaso estava à janela, quando pre-
senciei seu marido passando mal.
— Meu vizinho? Ah! Acho que o conheço. Nesse momento
ela o olhou como se o estivesse examinando e continuou:
— Você mora na pensão, trabalha na prefeitura... sim, já o vi
muitas vezes.
A partir desse dia fatídico e de sorte, os dois passaram a con-
versar, a princípio através da bendita janela que os unia, mas aos
poucos Sô Nico, numa tarde de domingo vazio e triste, chegou à
janela quando Sara e os filhos, já recuperados do trauma, se prepa-
ravam para iniciar o lanche. Sara, chegando o mais perto possível
dele através da janela, falou com uma voz sonora e cativante:
— O que você vai fazer agora?
— Nada! Se vocês não se importarem, ficarei aqui olhando
vocês lanchando, se isso não os incomoda.
— Incomoda, sim! Não irá incomodar se você, em lugar de
ficar aí olhando, sair da pensão e vier aqui lanchar conosco.
— Está me convidando?
— Claro!
— Vou me aprontar rápido.
— Sim, nós o esperaremos.
Sô Nico quase desmaiou de alegria. Em pouco mais que cinco
minutos estava pronto para ir ver o que havia esperado há muito
tempo. Antes, pegou em seus guardados um presentinho para Sara,
um belo colar, um presente que ele havia dado para sua mulher um
pouco antes dela falecer e que, infelizmente, nunca fora usado.
72 - O Presente e Outros Contos

A partir desse dia, os dois passaram a se encontrar e sair sem-


pre. Pouco mais de um ano depois, eles se casaram e ele foi morar
na casa da vizinha. Às vezes Sô Nico alugava o quarto da pensão e
lá ficava por algumas horas, enquanto Sara, do outro lado, de vez
em quando o olhava e saudava, sorrindo com a brincadeira que os
fez unir.
Num quarto do hospital

Naquela tarde de terça-feira, após ter sido internado às pres-


sas no Pronto-Socorro, por perder os sentidos em plena fila do ban-
co, estranhei o ambiente sério e repetitivo da enfermaria onde fui
colocado. Lá, tinha por companheiros mais três pacientes, todos
mais jovens que eu: Lacyr, um ciclista, que tinha sido atropelado
por um automóvel, Mário, que fora esfaqueado por um ex-amigo
após se embriagar, e Lúcio, que fora mordido em várias partes do
corpo por um cão, após tentar assaltar uma residência.
Ali quase não havia conversas. Os médicos e as enfermei-
ras, sérios ou indiferentes aos nossos problemas, se dirigiam aos
ali internados como se falassem a uma criança sem poderes e im-
portância. Jamais falavam o que pensavam, tentavam sempre me
enganar afirmando que meu caso era simples e que sairia dali em
poucos dias ou horas. Eu, por outro lado, recebia a notícia com in-
diferença, pois sabia que não iria viver muito, talvez nem voltasse
mais para minha casa: ali ficaria e dali iria direto para o velório. O
medo da morte, que convivera comigo durante minha mocidade,
abandonava-me.
Observo-me deitado no colchão mole: minha barriga escava-
da e inexistente, os ossos aparecendo nas costelas, braços e per-
nas, os músculos minúsculos e flácidos, a pele branca e cheia de
dobras, que não é mais a que conheci antes de adoecer há um ano,
quando tive o primeiro infarto.
Já estava acostumado aos hospitais: a vergonha inicial de exi-
bir meu corpo esquelético e feio aos poucos ia acabando.
74 - O Presente e Outros Contos

Lembrava-me com alguma saudade do pudor existente du-


rante minha primeira internação. Não me emocionei, não mostrei
a menor vergonha quando duas enfermeiras me despiram no pró-
prio leito, me ensaboaram por todo o corpo e rasparam os pelos
do tórax, para que fossem realizados os exames necessários para
examinar meu debilitado coração, que ameaçava uma greve.
O Dr. Aloísio, numa linguagem técnica que começo a deci-
frar, se dirige a uma mulher nova, talvez uma residente, ou, quem
sabe, também sua namorada. Ela olha para meu corpo com repug-
nância, um corpo que ela jamais pensaria em abraçar, como deve
ter feito com o médico que a orienta. Examina-me como se olhasse
substância inerte, um objeto qualquer sem valor e do qual se deve
fugir o mais rápido possível.
Compreendo o asco da bela moça, pois sei que estou mais
morto do que vivo, semimorto por dentro em todos os meus ór-
gãos e, morto para os outros, não mais agrado ou atraio ninguém.
Sou agora uma pessoa que só desagrada, que dá trabalho, um estor-
vo. O corpo vai aos poucos morrendo e junto levaria minha alma,
minhas ideias e minha história, que, como a de todos, rapidamente
seria esquecida, ou seja, morreria também.
Fui colocado, carregado por três ajudantes, em cima da maca
onde seria levado para fazer exames. Dependendo dos aconteci-
mentos, poderia ser levado, antecipadamente, para o necrotério.
Do meu nariz escorriam líquidos produzidos exageradamente e
que não conseguia engolir, minha boca semiaberta buscava um
pouco mais de ar. Enxergava mal, tudo parecia nublado, até as vo-
zes pareciam longe, vozes tristes e agudas que eram pronunciadas
nos corredores, por onde meu corpo inerte e passivo era levado
por auxiliares de enfermagem.
Eu era empurrado na maca para um e outro lado. Espero o
elevador, levam-me. O elevador para, continuo minha ida em dire-
ção ao exame que irá decidir o meu fim, que era altamente incerto:
ficar mais tempo no hospital, ir para o necrotério, ou receber alta
para morrer em casa.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 75

Fico imaginando se o atestado de óbito já tinha ou não sido


redigido, para facilitar minha saída do hospital e, assim, apressar a
entrada de outro moribundo como eu. Vejo um médico de man-
gas arregaçadas lavando as mãos, ele me olha distraído sem coisa
melhor para fazer. Noto que ele está muito distante de mim. Na
parede do serviço de cardiologia, uma batida continuada e chata
do relógio irrita-me. Presto atenção a ele, apesar de aborrecer-me.
Ele bate mais e mais.
Deitado na maca, para desviar minha atenção do relógio, olho
para o teto, procuro uma mancha qualquer, pode ser qualquer de-
feito na pintura, um excremento de barata, camaleão ou um ovo
de aranha: tudo serve para me fazer sair do desespero. Sinto-me
só, abandonado, sem ter onde apoiar-me. Uma mulher nova e um
senhor mais velho conversam entre si. Eu espero minha hora. A mu-
lher aproxima-se, abre meu peito, olha os ossos estufados, a respira-
ção ofegante, a magreza e palidez e não consegue esconder um mal-
estar ao que vê. Parece ameaçar-me, talvez por aborrecê-la com meu
feio e desagradável corpo, justamente naquela linda manhã de sol,
depois dos dias continuados de chuvas. Empurra-me para o meio da
maca. Meu corpo leve obedece aos seus frágeis músculos. Retorna
ao senhor e depois começa a pregar eletrodos em meu corpo, após
untá-lo com uma pasta incolor. Tudo é feito maquinalmente, sem
lembrar que ali se encontra um homem que fez sua história parti-
cular, tem uma vida carregada de experiências. Na sala de exames,
eu sou um objeto desprezível, onde todos desejam despachar-me o
mais rápido possível.
Manda-me ficar mais quieto ainda. Finjo de morto, sinto o
vazio, o nada. Evito pensar no prognóstico, cansado e sonolento,
sinto vontade de correr dali, afastar-me de todos para morrer em
casa, sozinho, longe dos médicos, paramédicos e enfermeiras.
Sem explicar-me por quê, após conversarem entre eles, uma
enfermeira fura-me o braço, uma agulha penetra com vigor e bru-
talidade na veia submissa, que circula sobre as costas de minha
mão inútil. Fico tonto, sinto náusea, zumbidos, as vozes de perto
ficaram longe. Há um silêncio perturbador na sala de exames.
76 - O Presente e Outros Contos

Olham-me com atenção, examinam cada mudança corporal


que meu corpo ainda é capaz de executar para sobreviver ou
desistir.
O medo me domina, o coração dispara. Será a última vez?
Custo a respirar, parece que estou sendo sufocado. Acho que me
mataram dessa vez: erraram a dosagem?
Viro minha cabeça para o sujo do teto, assim tento certificar-
me que ainda não morri. A ideia de morte não me abandona. Mexo
os pés com dificuldade, eles ainda me obedecem. Até quando?
Lembro-me do que li acerca de “membros fantasmas”. Quem sabe
imaginei que movimentei meus pés, mas é apenas uma ideia? En-
fio a unha do dedo indicador na carne do dedo polegar, buscando
algum sinal de vida. Custo a acreditar que os dedos são meus.
Retorno à enfermaria e não vejo o rapaz que foi atropelado.
Será que ele morreu? Não ouso perguntar à enfermeira de cara
fechada que me coloca sozinha, abraçando-me, no meu leito. Ofe-
recem-me comida. Não tenho fome. Molho a boca com uma água
amarga e morna. Divirto-me olhando o teto à procura de alguma
diversão. Vejo uma formiga andando de costas para mim, indife-
rente aos meus sofrimentos.
A luz do sol vai, pouco a pouco, sumindo. Lá fora, pela janela
ainda aberta, noto que a noite chegou e tenta entrar por ela, mas
a luz da lâmpada impede sua penetração. Um vento bate contra
as janelas já fechadas, provocando um continuado barulho chato.
Durmo por uns minutos ou segundos, um sono leve, acordo e
adormeço novamente.
Esse ritmo continua por toda a noite. Escuto ao longe, o baru-
lho dos automóveis, a gritaria dos jovens, as discussões e palavrões
dos bêbados. Mais de perto, bem junto de mim, as lamentações e
gemidos de outros pacientes que à noite são mais percebidas. A
todo instante ouço as campainhas tocando, pedindo socorro às
enfermeiras e médicos da noite. Saltos de sapato pisam duro no
chão liso e encerado do hospital. O relógio da igreja, compassado,
bate de hora em hora o tempo que falta para a alta ou o fim.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 77

Acordado, conto as batidas. São seis horas: o sol, insistente-


mente, tenta penetrar no quarto de janelas fechadas. Os passos au-
mentam no corredor: serventes, cozinheiras, enfermeiras e médi-
cos caminham para um lado e outro. Alguns ainda parecem dormir
enquanto andam. A luz do dia ainda fraca delineia faces cansadas,
tristes e preocupadas.
Através da porta do quarto, sempre aberta, observo os pas-
santes, escuto as tosses, os pacientes vomitando, as batidas leves
nos quartos pagos. Longe, choros convulsivos, passos apressados,
celulares tocando, lá e cá. O relógio da igreja bate cansado às sete
horas de mais um dia que passei ali e ainda não morri. Estou confu-
so, pois não sei se essa foi a primeira ou segunda noite. Para piorar,
confundi a enfermeira com minha namorada e tentei lhe dar um
beijo. Ela riu de mim, demonstrando nojo e dó.
Queria calçar meus chinelos para ir ao banheiro. Não tinha
chinelos e nem podia ir sozinho fazer meu xixi, se é que tinha xixi
para fazer. Após esperar algum tempo, que para mim eram muitas
horas, pois nada me distraia, trouxeram uma bacia que colocaram
embaixo de minha bunda. Uma tigela achatada que, só depois, des-
cobri ter o nome de “marreco”. Não sei mais se urinei ou não, pois
o desconforto era grande demais e a urina muito pouca.
O relógio bate 12 horas, demora mais tempo, não consigo
contar direito. Retorna o silêncio, para a sesta após o almoço que
não quis, só comi a sobremesa, um pedaço de marmelada. O silên-
cio é quebrado, o companheiro de quarto que fora esfaqueado pelo
amigo é levado às pressas do quarto. Acho que também morreu.
O relógio bate outra vez. Tento contar as horas, mas não con-
sigo, pois entra apressadamente o doutor que ainda não sei o nome
e começa a me fazer as perguntas de sempre, o que me estimula
a responder o já decorado. Dormiu bem? E o apetite? Teve febre?
Veio alguém te visitar?
Acho que quando começa a falar, isso o tranquiliza, por isso
custa a parar.
78 - O Presente e Outros Contos

O relógio da igreja continua batendo ao compasso das cam-


painhas colocadas ao pé dos leitos. Estou me acostumando com as
batidas dos sinos, nas portas para entrar e dos saltos de sapato no
assoalho.
Chego à noite com raiva. Um céu escuro promete chuva e tro-
voadas pesadas. Assisto a tudo com absoluta calma. Lembro-me de
quando era criança, do meu medo e das fantasias dos deuses miste-
riosos e zangados que faziam o barulho dos trovões, lançavam fle-
chas incandescentes dos raios. Agora que sei que estou entre a vida
e a morte, as tempestades, relâmpagos e trovoadas são-me indiferen-
tes. A febre abaixou. É sempre assim, ela sobe e desce, até quando?
Ouço gritos lancinantes de criança. Choro sozinho e no es-
curo, lembro-me de meus filhos. Soluços de adultos se seguem aos
choros desesperados da criança. Eles vêm da enfermaria do fundo
do corredor. Escuto sons abafados ao lado de meu leito. Deve ser o
homem que foi mordido por cães, que está chorando.
Tudo é desespero. O que é a vida? Isto que estou vivendo?
Meu pensamento dispara, os quadros vão passando com rapidez.
E o menino, terá morrido? Não mais ouço seus berros. Pergunto à
moça que veio limpar o quarto o que aconteceu com o menino.
Ela me informa que ele melhorou. Mas aqui ninguém diz a verdade,
possivelmente ela, como todos, tenta me tapear para que não me
desespere antes de chegar minha hora.
Imagino que o menino que chorava será enterrado ainda
hoje, ou, talvez, transformado em peça anatômica para ser estu-
dado pelos mais poderosos a ainda saudáveis. Procuro dormir. As
ideias não me deixam e invadem minha cabeça cansada e já no fim.
Tudo é confusão: o menino, a sala de exame, o médico e a sua com-
panheira (seria namorada?), minha mãe, meus filhos, a tempestade,
os amigos que se foram.
Acho que vou me acabar, minha hora está chegando. Vou
devagar penetrar e me diluir nos gemidos e nas pisadas duras, no
cheiro dos medicamentos e dos detergentes, nas pancadas nas por-
tas, no éter das anestesias...
A HISTÓRIA TOMOU VIDA PRÓPRIA

Hilda entrou abatida no consultório. Após assentar-se, foi


logo dizendo num tom de voz triste e pessimista:
— Ontem me aconteceu uma das piores coisas do mundo.
— O quê? Talvez não seja tão ruim assim. Quase tudo, ou
tudo, tem seu lado bom e ruim. Afinal o que houve?
— Estou casada há seis anos, tenho dois filhos e imaginava
que vivia bem com Haroldo, meu marido. Pois bem, ele me disse
ontem, sem mais nem menos, sem nenhum motivo visível, sem
nenhuma raiva da parte dele e sem rodeios, que ia sair de onde
moramos para viver com uma colega da sala dele. Parecia uma brin-
cadeira, mas era sério. Quase perdi os sentidos e fiquei um pouco
abobada. Não falei nada devido à paralisia aguda que me atingiu. O
susto foi enorme e ainda não me largou.
— Mas não existiu nada que você notasse?
— Nada! Nada mesmo. Ele é engenheiro e empresário, mas
está cursando, à noite, um curso de Direito. Com incrível tranqui-
lidade, como se me contasse um acontecimento comum, Haroldo
disse-me que tem um caso com esta moça há algum tempo. Falou
ainda que gostou dela de repente, sem saber por qual razão, revelou
ainda que esta moça é dez anos mais nova que eu. Já decidiram mo-
rar juntos e já comunicaram aos familiares dela. Eles aceitaram sem
restrições. Disse, por fim, que gosta muito de mim e que não vai me
faltar nada. Confessou que está apaixonado por essa moça, que, por
sinal, é muito bonita, assim como eu. Terminou sua fala dizendo que
espera ser mais feliz com essa moça do que está sendo comigo.
80 - O Presente e Outros Contos

— É... esta não é uma boa notícia. Entretanto, como ocorreu


de repente, por um ato impulsivo, como você disse, e sem nenhum
motivo grave, é de se esperar o seu oposto.
— Como? Não entendi!
— A possibilidade dele voltar atrás é grande, agir do mesmo
modo impulsivo e sem calcular, como fez agora. Tudo indica que
esta não foi uma decisão madura ou bem articulada. Parece muito
mais um arroubo emotivo de adolescente...
— Mas já saiu de casa. Arrumou um apartamento perto de
onde eu moro. Segundo ele, ficará mais perto dos filhos, e também
de mim, para ajudar caso necessário. Pior de tudo foi que achei
ruim ele morar perto de mim, mas ao mesmo tempo, gostei dele
morar perto de onde moro.
— É preciso usar a cabeça nesses momentos. A estratégia
dependerá totalmente de saber qual seu desejo, mandar ele para o
inferno ou reconquistá-lo, roubá-lo da inimiga. De modo simples:
você continua gostando dele e ficaria feliz com seu retorno? Ou
está com ódio e não quer nem ouvir a voz dele? A estratégia da de-
cisão será frontalmente oposta conforme sua resposta.
— Sou apaixonado por ele. Acho-o muito bonito, trabalhador,
correto, gosta e trata bem os filhos e me trata bem, inclusive sexual-
mente, pois tem grande atração por mim, mais que eu por ele.
— Tentando adivinhar, imagino que não será difícil fazê-lo
voltar rápido, desde que você não faça besteira.
— Tem mais uma coisa: ele já procurou advogado, pois quer
legalizar a separação de imediato. Parece-me, segundo a advogada
que arrumei, que ele não tentou me passar a perna, vou ficar muito
bem com a divisão dos bens. Ele agiu corretamente, como sempre
foi. Tudo indica que quer fazer tudo de forma honesta.
— Você criou alguma briga com ele depois da conversa acer-
ca da separação?
— Não. Não por falta de vontade, pois tive vontade de xingá-
lo muito. Mas até hoje não discuti nada sobre seus motivos e das
vantagens de não nos separarmos. Devo brigar? Soltar toda minha
raiva e tristeza?
Galeno Procópio M. Alvarenga - 81

— Não! De forma nenhuma! A não ser se você quisesse afastá-


lo definitivamente de você. Ótimo, então. Se você está interessada
nele, querendo que ele volte, o que deve ser feito não é xinga-lo e
sim o oposto.
— Mas é muito difícil não agredi-lo.
— Lembre-se do seu objetivo, conquistá-lo, ou melhor, reto-
má-lo da inimiga. Para cativar alguém é preciso tratá-lo bem. Para
acalmar um cachorro ou burro bravo nada mais eficiente do que
uma boa comida. A “outra” deve estar torcendo para que você
“perca a cabeça”, brigue, xingue, criando o maior caso. Lembre-se
sempre dos desejos dela para afastá-lo de você.
— E a parte legal? Aceito a separação?
— Claro, pois assim você fica financeiramente bem e, além dis-
so, não estará brigando agora e nem futuramente por causa dos bens
e também estará pacificamente fazendo o que ele determinou
— Fujo da família dele?
— Nunca! Aproxima-se ao máximo deles, trate-os o melhor
possível, pois terá aliados e defensores no grupo familiar dele. Ele,
possivelmente, vai ser criticado na própria família. Converse com
seu sogro e sogra cordialmente, lembre-se dos seus aniversários,
faça elogios, etc. Agrade-os. Além disso, ao conversar com seu ex-
marido e com seus pais, concorde com a ação de Haroldo como
natural, coisas de homens apaixonados, usando um tom de voz cal-
mo e adulto. Isso irá assustá-los. Você sendo traída e calma e, além
disso, compreendendo condutas tolas de homens. Essas ações suas
irão colocar Haroldo mais isolado e você mais cercada de pessoas a
seu favor. Em resumo: você, diante de seu marido e da família dele,
represente, teatralize ser uma pessoa madura, calma, tolerante, o
que a outra talvez não seja.
— Acho que serei capaz de agir assim.
— Não brigue, não discuta, aparentemente aceite e arrume
argumentos explícitos para mostrar que você compreende e aceita
como normal o que está acontecendo. Entendeu?
— Sim!
82 - O Presente e Outros Contos

SEMANAS DEPOIS

A cliente entrou no consultório alegre e feliz. Havia se sepa-


rado judicialmente, como ela esperava, e tudo corria bem. Além
disso, ela tinha agido como foi estabelecido e estava muito ligada
à família dele. Os pais de Haroldo constantemente o criticavam e
elogiavam-na. Haroldo estava cada vez mais cismado e preocupado
com a calma e indiferença de Hilda diante dos acontecimentos.
Haroldo, sem entender a calma de Hilda, começava a imaginar
que ela não estrilou por ter alguém. Decidiu vigiá-la mais, para isso
aumentou suas idas no apartamento de Hilda, alegando saudade
dos filhos. Nesses encontros ele não se esquecia de perguntar-lhe
se estava namorando alguém. Hilda respondia um não simulado,
como se fosse mentira.

O NAMORADO DENTISTA FANTASMA

— Hilda, acho que você até se divertiu com o seu modo de


agir com seu ex-marido.
Depois de uma pequena pausa, a conversa continuou:
— Lembra ainda do dentista fantasma, fazendeiro rico, quan-
do a situação estava feia? Esse inexistente galã, que só existiu no
nome, teve um papel real importantíssimo na decisão de Haroldo
para reatar o casamento com você.
— Se me lembro dele... De fato foi uma época difícil em mi-
nha vida, pois havia poucas semanas que meu marido tinha me
largado e arrumado a outra mulher.
— É, foi complicado.
— Eu estava perdida naquela ocasião. A seu conselho, segui
tudo à risca, apesar de não acreditar muito no que você tinha dito.
Resolvi tratar meu marido muito bem, também sua família, ou seja,
meus sogros, e não procurar homem algum na fase crítica.
— Aí ele ficou espantado com a sua não-comoção...
— Para ele eu teria que brigar. Se eu agisse como agi, indica-
Galeno Procópio M. Alvarenga - 83

va que eu possivelmente não estava me importando, porque tam-


bém já tinha alguém.
— Daí foi fácil criar um fantasma na mente dele para encaixar
nas suposições existentes.
— Foi quando apareceu o dentista de Itabira.
— Foi meio sem querer. Viajei para casa de minha tia, pois
estava desesperada sozinha. Lá, um dia, foi a sua casa um primo
que não conhecia e este me foi apresentado.
Um homem simpático, mas que não me interessou, nem eu a
ele. Tomamos um lanche juntos, eu e o resto da família.
— E não o viu mais?
— Isso. Nunca mais. Ele se despediu e pronto, acabou-se. Entre-
tanto, quando cheguei aqui, meu ex-marido foi a minha casa, segun-
do ele para ver meus filhos. Desconfiado da minha suposta calma,
perguntou-me:
— Encontrou alguém lá conhecido? Você ficou mais de uma
semana em Itabira.
Nesse momento, lembrei-me do dentista, pois foi a única
pessoa, fora dos familiares com quem fiquei, que conheci. A figura
dele, já meio apagada, me veio à memória. Nesse momento criei
coragem, pois me sentia muito por baixo e, como se não quisesse
nada, lhe disse:
— Ah... quase ninguém. Os parentes me apresentaram um
dentista, novo e bonito, fazendeiro rico.
Animada com minha fala que saiu sem querer, inventada na
hora e sem esforço, eu continuei. Inicialmente eu ainda não tinha
um objetivo determinado. Entretanto, à medida que inventava a
história e também examinava a expressão de meu ex-marido em
resposta ao que dizia, fui ficando mais animada com minha criação,
conforme a resposta facial de Haroldo. Notava que ele estava en-
ciumado com o fantasma. Assim, fui continuando meu relato.
— O dentista, muito gentil, me convidou para ir à sua fazen-
da. Uma fazenda linda, onde cria gado, acho que milhares de cabe-
ças. Tem também cafezais a perder de vista.
84 - O Presente e Outros Contos

Eu não sabia bem como e o que iria inventar. Notei uma mu-
dança em sua fisionomia ao falar acerca de riqueza e poder, pois
são os pontos centrais para Haroldo. Assim foi nascendo e crescen-
do o fazendeiro rico e o bonito dentista de Itabira.
— Seu ex-marido ficou interessado por muito tempo, não foi?
— Claro. O interesse e desespero dele, vendo-me tomada
pelo dentista fazendeiro, foram crescendo. Animada, fui contando
outros fatos, pormenores que deram mais veracidade à mentira.
Primeiro tive que dar um corpo ao fazendeiro e, para isso, falei
que era um esportista, que havia sido atleta quando mais jovem.
Nessa ocasião ele disputou várias corridas e ganhou diversos prê-
mios. Ao largar o atletismo, continuou a praticar exercícios físicos
e, para isso, construiu uma pequena academia de ginástica em sua
fazenda. Todas as manhãs, após dirigir a retirada de leite, toda ela
feita com aparelhagem supermoderna, ele se dirige à academia e
lá fica malhando por mais de uma hora antes de ir para seu consul-
tório. Ele me contou que trabalha de dentista por lazer.
— Seu marido deve ter ficado inseguro com um grande concor-
rente, pois ele gosta de coisas modernas e de riqueza...
— Criei um forte adversário para ele. Inicialmente com um
belo físico. Meu marido não fica para trás, não. Depois inventei um
gênio para o dentista fantasma.
— Mais extrovertido?
— É... pois o desinibido é mais perigoso, avançado, impulsi-
vo. Não fica bem um tímido e quieto. Descrevi o dentista/fazendei-
ro como falante, galanteador, dançarino e tocador de violão. Além
disso, cantava em festas. Sua voz é forte e agradável de ouvir. Ao
mesmo tempo descrevi o dentista como discreto, capaz de ficar
calado quando necessário. Eu sabia o que meu marido valorizava
e baseada nos seus valores, criei a vida do fantasma, que, segundo
Haroldo, queria me namorar. Seguindo o valorizado por Haroldo,
criei quase um Deus.
— Você foi construindo um personagem que jamais imaginara.
— Construí um dentista fazendeiro rico, elegante, simpático
e bonito. Nós sempre temos em nossas mentes ideias de homens,
Galeno Procópio M. Alvarenga - 85

bonitos e feios, pobres e ricos, simpáticos e antipáticos, grossos e


gentis, e assim por diante. Inventei um com todas as característi-
cas positivas. Certamente eu não conquistaria um tão excepcional
assim. Mas ele atraiu meu marido e até eu comecei a gostar desse
homem formidável.
— Ocorre isso. Apaixonamo-nos ou odiamos certos persona-
gens das novelas.
— O ciúme foi crescendo. Numa manhã ele foi ao meu apar-
tamento, talvez para encontrar o dentista fantasma em minha cama.
Sem nada encontrar, fingindo estar distraído, examinou a conta do
telefone. Quando ele viu que havia um telefonema de Itabira na
conta, ele me perguntou meio sem jeito e envergonhado:
— De quem foi esse telefonema? Do dentista?
Nesses momentos eu, fingindo que tinha dado um fora, lhe
dizia:
— Não, nada disso. É... deve ser de minha tia. Se foi de Itabira.
Ele, culpado de suas conquistas explicitadas claramente, fi-
cava um pouco envergonhado de exigir esta ou aquela conduta
de mim, pois estávamos legal e realmente separados. Portanto, ele
apenas insinuava. Em certa ocasião, quando ia levar meus filhos
para passar o fim de semana no apartamento dele, de propósito
deixei um buquê de flores em cima do banco de trás do carro, de
modo que, quando tocasse o interfone, avisando que os meninos
iam subir, ele, da janela, pudesse ver o buquê. Quando chegou à
janela e o viu, desceu, vindo me cumprimentar e ver mais de perto
as flores. Logo depois, disse:
— Essas flores foram enviadas pelo dentista?
— É... ele gosta muito de flores, respondi prontamente para
manter por mais tempo a vida do fantasma criado.
Se eu esperasse alguém, em algum lugar, ou tivesse que ir mais
depressa para casa, era sempre o dentista o responsável pela minha
conduta. Como qualquer personagem santificada, da macumba, do
“olho gordo”, de uma reza, terço ou crucifixo, todos são capazes
de atuar sobre as pessoas. Em todos os tempos, diversos seres que
86 - O Presente e Outros Contos

nunca tiveram mais realidade que o dentista fazendeiro inspiraram


o ódio ou o amor, o terror ou a esperança, aconselharam crimes,
receberam oferendas como as de Iemanjá, imagens de santos, retra-
tos de ditadores, de musas do carnaval, mulheres de papel nuas da
Playboy. Muitas dessas criações aconselharam crimes, criaram ou
mudaram costumes e leis. O dentista transformou-se em persona-
gem mítica, tornou-se o produto do que foi inventado acerca dele.
O ex-marido de Hilda quis conhecer o dentista, ir até Itabira
para vê-lo, saber por que ela ficou tão caída por ele. Como ela não
falou onde ele morava e qual seu telefone, pois ela não sabia, Harol-
do imaginou que ela o estava escondendo, para que ele, ex-marido,
não o descobrisse e não tomasse quaisquer atitudes para atrapalhar
o namoro deles.
Numerosos julgamentos, aceitos pela maioria das pessoas e
que a história consagrou, são tão bem fundados quanto a crença do
dentista fantasma. Hilda fingiu, num momento de desespero e de
abandono, tê-lo encontrado e simpatizado com ele. Seu ex-marido
passou também a encontrar o dentista nas imediações da casa de
Hilda, rondando o apartamento. Para Haroldo, quando o fazendei-
ro percebeu que ele o estava vigiando, o dentista fugiu apressada-
mente sem olhar para trás.
O telefone celular de Hilda tocou quando ela estava junto ao
ex-marido. Quando ela atendeu, ele se desligou. Logo Haroldo des-
confiou, que ele foi desligado devido a algum código usado pelos
dois devido à presença de Haroldo.
Aos poucos Haroldo já conhecia bem o dentista misterioso,
sabia como era fisicamente e também suas características de perso-
nalidade. Passou a ser acusado de estar atrás dela por ser pedófilo
e estar interessado nos meninos. Desconfiou ainda que na verdade
o dentista fantasma era um chantagista, que desejava tirar dinheiro
de Hilda. Supunha ainda que o mesmo era casado, tinha diversos
filhos, já havia se envolvido com tráfico de drogas, sendo anterior-
mente um viciado.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 87

Certa vez, o carro de Haroldo foi batido quando estava esta-


cionado na porta do apartamento de Hilda. Ele fora buscar os filhos
para passarem o fim de semana juntos. Segundo Haroldo, o respon-
sável foi o fazendeiro. A amante de Haroldo recebeu telefonemas
obscenos ditos por uma voz de homem.
— Deve ser o fazendeiro, comentou Haroldo com Hilda.
— Ele tem uma voz meio rouca, fala rápido? - perguntou
Haroldo.
— Sim, um pouco, respondeu Hilda sem ter outra resposta
melhor.
— Ah, então é ele mesmo que anda telefonando para Marina.
Cada dia mais, Hilda foi se acostumando em descrever o den-
tista virtual e Haroldo desenhando a figura do dentista. Com o pas-
sar dos dias, de tanto falar acerca do dentista fantasma, Hilda foi
ficando em dúvida se ela tinha ou não encontrado o dentista, e se
tinha ou não tido algum relacionamento com o rico fazendeiro: ele
tornou-se um ser real, mais real do que muitas pessoas reais.
Haroldo, cada vez mais receoso de Hilda se apaixonar pelo
dentista fazendeiro, decidiu tomar uma decisão tão drástica como
o rompimento do casamento. Desta vez ele fez o oposto. Timida-
mente começou uma conversa com Hilda, fazendo queixas de Ma-
rina, a sua atual esposa. Em seguida falou de seu arrependimento
de ter acabado estupidamente seu casamento com Hilda. No mes-
mo dia Haroldo voltou a morar com Hilda, já que este era o desejo
de ambos e todo o plano executado visava a volta do ex-marido.
— Bem, agora meu marido voltou e tudo retornou ao normal.
Deu tudo certo.
ESQUIZOFRENIA E ELEFANTE

O diagnóstico não podia ser outro: esquizofrenia. Marta havia


sentido uma tromba de elefante passar pelo seu rosto enquanto
dormitava, numa tarde, dentro de sua própria casa em Águas Tur-
vas. O Dr. Mário, único médico da cidade, apesar de sua pouca
experiência com doentes mentais, não teve dúvida. Era preciso
medicá-la, talvez interná-la para um tratamento sério.
Marta e Mário foram bons amigos quando crianças. Foram
colegas no grupo escolar da pequena cidade onde moravam. O
tempo passou. Mário saiu ainda jovem de Águas Turvas para vir à
capital estudar Medicina e por anos não mais teve notícias de Mar-
ta. Depois de formado, voltou a Águas Turvas, onde começou a cli-
nicar. Fazia de tudo: partos, pequenas cirurgias, tratava as doenças
do coração, câncer e até dos loucos da cidade.
Marta era uma mulher vistosa: alta, longos cabelos negros que
combinavam com seus grandes olhos sempre abertos, sua boca ras-
gada e circundada por grossos lábios. Com o tempo, após casar-se e
ter seus dois filhos, apesar de ter engordado continuava bonita e se-
dutora. Ela não foi feliz no seu casamento. Seu marido, sem profissão
certa, passava parte do dia nos botecos da cidade, bebendo ou jogan-
do baralho. Gustavo voltava sempre tarde para casa e, muitas vezes,
agredia Marta, quando essa não lhe dava dinheiro para beber.
As despesas da casa eram pagas por ela, que lecionava na es-
cola local e, nas horas de folga, fazia quitutes para vender. O casal
morava numa pequena casa, à beira do grande rio da cidade. O
único passeio de Marta, nas suas folgas de domingo, era uma curta
caminhada na pequena praia que se formara na beira do rio. Há
90 - O Presente e Outros Contos

muito não ia a um baile, que ela adorava quando solteira, e não


fazia viagens para fora de sua cidade.
Num fim de tarde, Dr. Mário foi chamado às pressas, para exa-
minar sua amiga Marta. Ela estava, segundo o mensageiro, “louca”.
Cansado e triste com a notícia, depois de um dia estafante, ele ca-
minhou até a residência dela. Ali encontrou seu marido, seus pais,
irmãos, vizinhos e várias pessoas que passavam pela rua quando ela
“enlouquecera”. Todos estavam espantados com sua mudança. Ora
um, ora outro, cada qual ao seu modo, eles seguravam a paciente
pelos braços e pernas, que se debatia em cima de uma velha cama
de casal, tentando se soltar. A família, apavorada com a gravidade
do caso, já havia contratado uma corrida com o taxista da cidade
para levá-la ao manicômio existente na capital.
Dr. Mário, um tanto perplexo e confuso com tantos palpi-
tes, olhou para Marta e, imaginando não ser nada tão grave como
parecia, pediu a todos que se afastassem. Ele iria examiná-la a sós.
Todos tentaram mostrar-lhe o perigo que estava correndo, pois a
“louca” poderia agredi-lo, como já fizera com outros ali presentes.
Uma vez livre dos braços de seus algozes, Marta rapidamente
se acalmou. Dr. Mário disse-lhe firmemente quem era e que estava
ali para ajudá-la. A sós, no quarto com o médico amigo, Marta, em
soluços, foi relatando seus infortúnios: seu trabalho exagerado, o
marido mulherengo, jogador e alcoólatra, suas dificuldades finan-
ceiras para dar de comer à família... Desabafando, aos poucos foi,
não só se acalmando, como também adormecendo, pois havia to-
mado diversos remédios dados pelos parentes e amigos.
Dr. Mário saiu do pequeno quarto triunfante, para decepção
dos presentes. Deu algumas explicações, pediu para deixá-la em
paz e foi-se embora. Poucas vezes Dr. Mário encontrou Marta na
rua após a crise sofrida. Nessas ocasiões, ele alertou-a a respeito do
risco do internamento.
Os meses passaram e Mário não teve notícias de Marta. Uma
tarde de domingo, ele levava seus filhos para ver o circo da cidade,
que ali se instalara, quando avistou Marta.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 91

Ela estava um pouco mais gorda, andava lentamente pelas


ruas, parecia ter o corpo endurecido e a face inexpressiva. Sua
voz, arrastada, custou a sair, quando ele se aproximou dela. Marta
tentou escapar, mas ele a cercou rapidamente e perguntou-lhe o
que havia acontecido:
— Fui internada logo depois daquele dia. Fiquei três meses
no hospital. Voltei há dois meses, estou dando aulas novamente...
Meu corpo está todo duro, estou desanimada com tudo. O que
posso fazer? Tenho que continuar a viver...
Dr. Mário aconselhou-a, ali mesmo na porta do circo, a largar
os medicamentos, pois seu caso não exigia isso. Ela, sem forças,
nada fez em seu benefício.
Uma tarde de quinta-feira, Dr. Mário foi novamente chamado
às pressas para ver sua antiga amiga e paciente. Sofrera mais uma
crise de loucura. Rapidamente, curioso por vê-la, dispensou todos
os pacientes que o esperavam no consultório e foi até sua casa.
Lá encontrou a festa de sempre: parentes, vizinhos e conhe-
cidos segurando-a em cima da cama de casal. Novamente Dr. Mário
dispensou o auxílio destes e ficou com Marta no quarto. Em pou-
cos minutos ela se acalmou e contou o que ocorrera:
— Trabalhei toda esta manhã fazendo os quitutes para vender.
Depois fiz o almoço, dei banho nos meninos e, após alimentá-los,
levei-os à escola. Depois fui dar aulas. Vim cansada para casa. Perto
daqui, ao passar pelo bar, avistei meu marido tranquilo, bêbado,
jogando baralho, rindo, cantando. Cheguei a casa e só encontrei
um resto de arroz e de couve. Fiquei desesperada...
— É... você tem sofrido muito, nesses momentos qualquer
um fica assim.
— Desisti de tudo, não sabia o que fazer, os meninos estavam
com fome. Fui para o meu quarto desesperada com a minha vida.
Queria morrer. Deitei-me com a casa toda escancarada. Acho que
adormeci por minutos, não sei bem. Sei que, de repente, senti uma
tromba de elefante passando na minha face. Dei um pulo da cama
e saí gritando pela casa. Os filhos choraram junto a mim.
92 - O Presente e Outros Contos

— Você teve um sonho e acordou, pois não podia haver um


elefante no seu quarto.
— Claro que não, mas eu senti a tromba passar na minha cara,
tenho certeza de que era uma tromba de elefante.
As explicações do Dr. Mário pouco adiantaram. Ele passou
parte do seu tempo acalmando-a, pois começava a desconfiar que
seu diagnóstico, de que ela não tinha nada, estava errado. Tentou
imaginar uma outra alternativa, um diagnóstico menos grave para
sua amiga. Não conseguiu pensar em outro. Ela continuava a falar
com a convicção de que foi uma tromba de elefante que ela sentiu.
Com pesar, Dr. Mário percebeu que sua amiga estava “louca”
e, ao contrário do que imaginava anteriormente, era preciso fazer
algo mais agressivo. Esquizofrenia? Talvez, quem sabe, histeria, ou
até mesmo, devido ao excesso de medicações que tomara, um qua-
dro orgânico cerebral? De qualquer forma, ele conseguiu acalmá-la
e marcou um encontro em seu consultório no dia seguinte, para
conversarem com mais calma. Pensaria melhor até o dia seguinte
sobre o que fazer diante dessa evidência. Ela não apareceu, como
havia combinado. Depois de alguns dias, Dr. Mário soube que ela foi
novamente internada devido ao seu delírio.
Os dias correram como sempre em Águas Turvas. As festas de
sempre da igreja, a volta do velho circo, alguns poucos casamen-
tos, cavalgadas, bebedeiras, verminoses, disenterias e várias brigas
de rua e chifradas de vacas.
Numa tarde calma, Dr. Mário caminhava pelas ruas da cidade,
em direção à praia que margeia o rio, quando avistou um moleque
conhecido de todos na cidade, “Pão com Linguiça”. Este, paciente-
mente, levava dois elefantes do circo, instalado há poucos dias na
cidade, para tomar um banho no rio. A conversa entre os dois ve-
lhos conhecidos foi interessante e esclarecedora para o Dr. Mário:
— Olá “Pão com Linguiça”, já comeu seu pão com linguiça
hoje?
— Ainda não. Só vou comer após ganhar cinco reais.
— Cinco reais?
Galeno Procópio M. Alvarenga - 93

— Sim, é quanto cobro para levar esses elefantes a tomar


banho no rio.
— Não é muito, não?
— Nada! Isso dá muito trabalho. Os elefantes precisam de
água e o rio fica longe do circo.
— É, de fato...
— É preciso saber lidar com esse bicho, ele é manhoso. Sem-
pre que o circo vem aqui, sou eu quem os levo... só eu sei mexer
com eles.
— Ah, eles gostam de água...
— Gostam muito. Dão um trabalho danado. Frequentemen-
te, eles saem do caminho, entram por uma rua e outra, vão para
o mato.
— Não são inteligentes?
— São burros. Demoro muito tempo para guiá-los até à beira
do rio.
— Compreendo, deve ser difícil mesmo. Um bicho desse ta-
manho... Não tem medo deles?
— Nem um pouco, já me acostumei. Eles são engraçados.
Certa vez um deles fugiu e entrou no quintal de uma casa e foi um
custo trazê-lo de volta para a rua...
— No quintal? onde?
— Foi no ano passado. Quando eles já estavam perto do rio,
acho que ficaram alegres ao ver a água, um deles escapou e entrou
no terreno da professora, na casa de D. Marta, aquela que mora
perto do rio. Ele enfiou a tromba na janela do seu quarto.
— O quê? No quarto de Marta?
— Passou a tromba na cara dela. Ela deu um grito, eu morri
de rir.
— Na cara de Marta, a professora?
— Sim, ninguém sabe disso não. Eu saí correndo com eles,
acho que não fui visto.
— Ah! Até logo, “Pão com Linguiça”, você ajudou-me a deci-
frar um enigma.
94 - O Presente e Outros Contos

— Enigma? O que é isso?


— Nada, toma mais cinco reais.
— Tanto assim! Que bom.
Dr. Mário saiu apressado e procurou Marta. Marcou um en-
contro para o dia seguinte, no seu consultório, para ter uma con-
versa longa com ela. Esta continuava a tomar os medicamentos
para alucinações visuais. A conversa, que durou mais de duas ho-
ras, produziu bons frutos.
Marta chegou a casa e jogou fora todos seus medicamentos.
Procurou, em lugar de um psiquiatra, um advogado e impediu seu
marido de entrar em sua casa, a partir daquela data. Dois meses de-
pois, estava separada. Após esse esclarecimento e das decisões to-
madas, Marta tornou-se uma outra mulher, mais bela, mais segura e
feliz. Em Águas Turvas, não mais se ouviu falar de suas “loucuras”.
PIEDADE: UMA HISTÓRIA SIMPLES

Um pouco abaixo da casa de Dario e Lourdes, moravam Maria


Luíza e seu marido, Mário. Esse casal tinha como empregada uma
moça simples, de voz e cabeça baixa, que era chamada de Piedade.
Desconheço se esse era de fato seu nome verdadeiro, talvez fosse
um antigo apelido. Acho que ela mesma não sabia bem seu nome.
Piedade não conheceu seu pai. Quando tinha apenas dez
anos de idade, foi trabalhar numa fazenda nas vizinhanças dos ter-
renos de Jacinto, o prefeito da cidade. Nesta fazenda, ela foi agre-
dida pela dona da casa, acusada de ter roubado goiabada que esta-
va reservada para a filha que chegava de Miami. Expulsa da casa,
Piedade procurou uma família que vivia nas redondezas e lá ficou
algum tempo, trabalhando desesperadamente em troca de feijão
com canjiquinha e farinha de mandioca.
Mais tarde ela procurou um novo emprego, em outra fazenda,
perto do seu emprego anterior. Apavorada de ser agredida e tachada
de ladra, ela agia com todo o cuidado possível com os patrões. Por
isso, enquanto agradava aos patrões, ela desagradava aos companhei-
ros de trabalho, produzindo ciúme nos outros empregados. Por isso,
foi novamente agredida fisicamente, não por uma só pessoa, mas por
diversas.
Apenas um dos empregados da fazenda, que parecia gostar
dela, não a tratou mal, nem a agrediu. Agradecida, enquanto se pre-
parava para sair desse lugar onde todos os companheiros estavam
contra ela, Piedade se aproximou do rapaz e revelou para ele - o
que era raríssimo nela - seus sentimentos e medos.
96 - O Presente e Outros Contos

Enquanto conversavam, Piedade e o rapaz caminhavam pe-


los campos da fazenda. Ela estava radiante de ter encontrado uma
alma boa entre o grupo inimigo. Para completar sua desgraça o
“bom rapaz”, num certo momento, atacou Piedade numa tentativa
de manter relação sexual com ela.
Mais fraca, fingindo estar aceitando a pressão do rapaz que
era muito mais forte que ela, Piedade ficou quieta, como se esti-
vesse aceitando a relação sexual forçada. Para realizar seu plano,
pediu-lhe que se afastasse um pouco para que ela tirasse sua roupa
sozinha. Uma vez solta, conseguiu correr e entrar num mato mais
espesso e difícil de ser vista. Assim chegou a casa livre do estupro.
Mais tarde, quando o rapaz a encontrou perto de outros trabalha-
dores, ao passar perto dela, ameaçou-a de morte.
Desesperada com a situação, Piedade resolveu procurar em-
prego em outro lugar. Dias depois foi contratada para trabalhar
com D. Maria Luíza e Sô Mário. Desta vez seu serviço era numa
pequena loja, onde eram vendidos botões, agulhas, linhas e outros
artigos semelhantes, além dos serviços da casa do casal.
O movimento da loja era mínimo. Nesta ela era a caixeira,
arrumadeira da loja e da casa, que ficava nos fundos, e também
cozinheira e lavadeira da dona da loja. Poucos dias depois de estar
nesse emprego, Mário, marido de Maria Luíza, morreu de infarto
fulminante.
Neste emprego, Piedade ficou até morrer. Aos poucos ela,
que sempre vivera em fazenda, foi se acostumando com a casa,
com D Maria Luíza e filhos. Às vezes, ela, a patroa e filhos iam até a
fazenda de Maria Luíza. E lá, certa vez, Piedade salvou bravamente
uma filha de Maria Luíza que havia caído de uma ponte e estava se
afogando num riacho muito cheio, após uma grande tempestade.
Durante cinquenta anos, os moradores de Lunópolis inveja-
ram D. Maria Luíza por ter junto dela uma pessoa como sua empre-
gada Piedade, com sua maneira educada e gentil de tratar as filhas
do casal e suportar todas as amarguras vividas por essa família.
Piedade foi uma segunda mãe para os filhos da patroa.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 97

Piedade tinha o rosto magro e encurvado para a frente, a voz


aguda e irritante. Quando completou trinta anos, quase quinze
anos após estar trabalhando com Maria Luíza, as pessoas lhe davam
quarenta anos, e quando chegou aos cinquenta, Piedade era vista
como uma velha. Ela era extremamente silenciosa, cada gesto era
medido e cuidadoso. Lembrava os bonecos de desenho animado
funcionando a corda.
Piedade rezava várias vezes ao dia, com frequência imitando
as práticas usadas por sua patroa. Da missa, pouco ou nada enten-
dia, entretanto jamais deixava de ir.
Pela manhã, invariavelmente, Piedade, após se levantar, olha-
va o crucifixo pendurado nas paredes, ajoelhava-se e rezava durante
vários minutos. Em seguida ia cuidar do café da manhã da família.
Certa vez, ao ir à igreja, ela encontrou Teodoro, o ajudante
do padre. Timidamente este aproximou-se dela e pela primeira
vez após centenas de vezes um ver o outro na igreja, os dois con-
versaram. Animada com o encontro, passou a ir mais vezes à igreja
para ver se encontrava Teodoro. Muito raramente conseguia lhe
dar uma boa tarde, ou falar acerca das chuvas que caíram, do frio
que estava fazendo e da doença da filha dos familiares de Maria
Luíza. Ele passou a ser seu grande amor. Depois de uma grande
ausência da igreja, ela o encontrou novamente na padaria. Seu
coração bateu mais forte de alegria. Durante a conversa com ele,
soube que havia se casado com uma viúva, trinta anos mais velha
que ele, mas que recebia uma boa pensão do falecido marido.
Como Piedade nada gastava com ela mesma, logo os paren-
tes começaram a aparecer para lhe pedir ajuda financeira. Sem
saber recusar nada, custeou os estudos de um irmão, Agnaldo, o
mais novo da família. Ele era um vagabundo que nada fazia, nem
mesmo estudava, pois sempre tirava as piores notas de seu grupo.
Este irmão morreu durante uma briga na zona boêmia da cidade.
Piedade desmaiou quando soube da morte do irmão e foi le-
vada até a farmácia ao lado de onde morava, para receber ajuda do
farmacêutico. Pouco a pouco suas forças foram voltando.
98 - O Presente e Outros Contos

Com a morte de Agnaldo, sua própria mãe começou a ir atrás


dela, junto com um filho adotivo que decidiu criar, para lhe pedir
ajuda para comprar remédio e alimentos.
Após a morte de Mariazinha, filha da patroa de Piedade, D.
Maria Luíza passou a ir “ver” a filha ao cemitério todos os dias,
pontualmente, às sete hora da manhã, a mesma hora da morte da
filha. O cemitério ficava um pouco acima da casa onde moravam.
Piedade animava sua desolada patroa a suportar a vida ingrata.
Passaram os anos, todos iguais e sem outros episódios, a não
ser a repetição das grandes festas: a Páscoa, o Natal, o Dia dos
Mortos, a Assunção de Nossa Senhora, o Dia de-Todos-os Santos
e o da Independência. Ocorriam apenas fatos simples e repetidos
todos os dias, dentro da casa sem movimento. Desse modo, viven-
do isolada do mundo externo e com poucos estímulos dentro de
casa, as categorizações dos fatos eram feitas em virtude de um fato
qualquer que ocorrera. Este fato simples era usado como ponto de
referência: o dia em que entrou um ladrão aqui e roubou o vaso
de flor, aquela flor que nós apanhamos na fazenda, aquele dia que
você escorregou na lama porque choveu muito, o dia que a porta
estragou, o dia que a prima Inalda veio nos visitar...
Todos os pertences da filha foram guardados, muitos sem saí-
rem do lugar, sem serem tocados após a morte da moça: os vestidos
usados em casa e nos aniversários, as bonecas ganhas no Natal e
aniversário, o primeiro missal ganho quando aprendeu a ler. Se al-
guém, desavisado, colocasse as mãos nesses objetos e os tirasse do
lugar, D. Maria Luíza e Piedade perdiam a calma e imediatamente
avançavam sobre a pessoa, arrancando-lhes os objetos mexidos.
Entretanto, um pesar enorme de Piedade era não possuir, ela
mesma, nenhum objeto que pertencera a Mariazinha, guardado
com ela junto às suas coisas. Depois de diversas reclamações mui-
to sutis, D. Maria Luíza deu a Piedade um terço que Mariazinha, ao
morrer, tinha em suas mãos.
Quando Maria Luíza segurou o terço e as duas se olharam,
D. Maria Luíza, muitíssimo emocionada, quase desfaleceu ao abrir
os braços e preparar-se para entregá-lo a Piedade. Esta, trêmula e
Galeno Procópio M. Alvarenga - 99

com o coração disparado, atirou-se nos braços abertos da patroa.


As duas permaneceram abraçadas por diversos minutos, soluçan-
do, lamentando a morte precoce e inexplicável da saudosa e tran-
quila Mariazinha. Beijaram-se, selando uma infelicidade profunda
que dominava suas almas, nivelando-as na dor que inundava seus
corações. Esta foi a primeira vez que as duas se abraçaram, depois
de dezenas de anos morando juntas. Emocionada com o abraço e
o terço ganhos, cresceu mais ainda a bondade solitária do coração
de Piedade para com a patroa.
Tempos depois, Piedade ganhou da vizinha um cãozinho.
Este passou a ser a sua diversão, o seu mundo, o sentido de sua
existência. Mas a alegria foi apagada por uma forte gripe de Pieda-
de. A gripe provocou nela uma surdez grave, em decorrência da
qual passou a falar muito alto. Por outro lado, Maria Luíza também
já estava quase sem nada ouvir, tornando assim mais difícil ainda a
conversa entre as duas. Entretanto, as duas ainda conseguiam ouvir
o latido do cão. Durante uma forte chuva, o animal, que estava na
rua, ficou todo molhado. Piedade, penalizada, colocou-o diante do
fogão a lenha da casa para que esquentasse e secasse. Parece que o
calor exagerado o matou, pois, sem esperar, o cachorro teve uma
convulsão e não mais respirou. Piedade chorou tanto, que a patroa
mandou mumificá-lo. Isso só aconteceu depois de muito esperar e
então, Piedade guardou em seu quarto o cão mumificado. A única
coisa que animava Piedade era a procissão do Corpo de Deus. Ao ir
à igreja, ela sempre contemplava o Espírito Santo e notou que Ele
tinha algo semelhante ao cão mumificado.
Ela foi envelhecendo e enfraquecendo. Além da audição, pas-
sou a enxergar muito pouco. A casa onde morava com a patroa
também ia apodrecendo como suas moradoras. De um lado, as ri-
pas da casa apodreciam, de outro, o pulmão de Piedade indicava
pneumonia.
Quando ela foi piorando, pressentindo sua morte iminente,
pediu para que seu cão fosse colocado na igreja. O padre, perceben-
do o seu estado físico, aceitou o pedido de Piedade. Os vermes já
100 - O Presente e Outros Contos

tinham devorado em parte os enchimentos do cão, quando Piedade


entrou em agonia. Era dia de procissão. Ela cerrou as pálpebras, en-
quanto seus lábios pareciam sorrir. Os movimentos do seu coração
afrouxaram um por um, cada vez mais vagos, mais doces, como gri-
to que desaparece. Ao exalar o último suspiro, Piedade conseguiu
ver, no alto do céu, seu cão enorme esperando sua chegada.
MEUS CABELOS!

A história de Teresa é triste, como a maioria das histórias dos


pobres moradores das favelas. Ela nasceu numa madrugada quente
e abafada de 15 de outubro, dia de Santa Terezinha, quase sozinha.
Seu parto não teve médico e nem parteira, pois não houve tempo,
nem dinheiro, nem lembrança, de que sua mãe poderia ser coloca-
da num táxi e levada até uma maternidade.
No parto, a mãe de Teresa foi ajudada por uma vizinha, que
estava sempre cambaleando, devido a diversos comprimidos que
tomava diariamente para dormir, até mesmo durante as manhãs e
tardes. Tendo já completado 80 anos, D. Diná, como era chamada
- ninguém jamais soube seu verdadeiro nome - lutava contra sua
hipertensão, adquirida aos 40 anos. Há dois anos, ela sofrera um
derrame e, por isso mesmo, andava com suas pernas inchadas e
magras, com dificuldade pelas ruelas da favela e mesmo dentro do
pequeno quarto que ocupava. Ao andar, ela arrastava sua perna
direita, de cuja ponta saía seu pé endurecido, avermelhado e caído
para baixo. Desse modo, seu andar dava a impressão de ela estar
foiçando o chão, do lado onde havia o defeito físico. D. Diná, com
seus tremores e rigidez do braço direito, mal conseguia segurar um
simples copo d’água. Quando assim fazia, a água derramava-se, du-
rante cada tremor, sobre o queixo e tronco descarnado e ossudo.
D. Esperança, mãe de Teresa, morava com seus dois filhos
menores, seu marido Eufrásio e Consolação, sua prima, que viera
morar com ela por uns tempos e lá ficou. Toda a família se aglome-
rava num minúsculo quarto de chão de terra, em cujas paredes de
madeira encostavam-se colchões velhos e rasgados.
102 - O Presente e Outros Contos

Espalhados pelo chão viam-se trapos diversos, pratos e colhe-


res sem lavar, sacolas de supermercados, alguns caixotes onde os
seus ocupantes se assentavam para assistir às novelas num velho
aparelho de televisão dado pela patroa onde D. Esperança fazia
faxina, antes de engravidar do terceiro filho.
Teresa nasceu nesse quarto escuro, sujo e desarrumado. Nele,
ratos e baratas passeavam felizes e livres durante as noites quentes
do verão e se escondiam nos buracos por onde saía o esgoto.
Dona Esperança não passou bem durante todo o período em
que esperou Teresa. Cansava-se facilmente, sentia falta de ar e ton-
teiras diante de pequenos esforços. Nesses momentos procurava,
para melhorar seu mal-estar, assentar-se na cama recostada em dois
travesseiros grandes e altos. Consolação, sempre prestativa, era a
sua ajudante constante nessas ocasiões. No dia do parto, ao ouvir
os gritos de socorro de Consolação e de dor de Dona Esperança,
D. Diná veio em sua ajuda, tentando confortá-la com o pouco que
podia oferecer.
O pai de Teresa, sem profissão certa, bebia exageradamente e
nesta noite nem acordou com todo o barulho que foi feito. Conso-
lação, sem experiência e submissa à vontade da velha senhora que
dirigiu o parto, não fez outra coisa que obedecer às ordens dela.
As crianças acordaram com os primeiros gritos, mas adormeceram
em seguida. Nesta noite de alegria pelo nascimento de Teresa, D.
Esperança morreu de hemorragia, que só foi percebida quando a
parturiente já estava morta. Não houve demonstração de grande
sofrimento pelos que assistiram ao desenlace. Parece que os ha-
bitantes da favela estavam acostumados com sofrimentos iguais a
estes, vividos por eles com frequência.
O viúvo não era um marginal, ao contrário, era um homem
bom e até muito honesto. A família, sem recursos, sempre ganhara
dos amigos roupas e alimentos para sobreviver. Mas após a morte
de Esperança, as dificuldades aumentaram, pois era D. Esperança
e Consolação que trabalhavam como faxineiras, ganhando algum
dinheiro para ajudar no sustento da família.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 103

Sem capacidade para administrar a família, Eufrásio, aconse-


lhado pelos parentes, decidiu, sem outra opção, repartir os filhos
Letícia, Paulo e Teresa. Ele aceitou a partilha sem discussões e cada
filho foi morar com uma família e num lugar diferente. Teresa ficou
com sua prima Consolação, que já morava com D. Esperança quan-
do ficou grávida e veio morar na favela para fugir das conversas
maldosas de Capão Dourado. Seu namorado, quando soube que
Consolação estava esperando um filho seu, sumiu e ninguém mais
ouviu falar nele. O filho de Consolação nasceu pesando pouco mais
de um quilo e sem os dois braços. Morreu no dia seguinte, de cau-
sa ignorada. Consolação, sem coragem de retornar a sua casa, foi
ficando por mais algum tempo, ajudando sua prima que esperava o
nascimento de Teresa e era sua grande amiga e confidente.
Consolação era uma moça forte e trabalhadeira. Muito ho-
nesta, em sua terra, Capão Dourado, ela fazia parte do grupo das
Filhas de Maria. Respeitadora das normas religiosas e sociais, fre-
quentadora da igreja, procurava seguir, à risca, os mandamentos
religiosos. Apesar de ser seguidora dos preceitos da Igreja, falhou
com respeito à castidade, pois, atraída pelos rapazes da cidade,
acabou ficando grávida. Consolação, sempre que pôde, trabalhou.
Ela aceitava qualquer serviço. Poucos dias após o parto de D. Es-
perança, Consolação imaginou ter o direito de adotar Teresa, para
compensar a perda do filho, que ela jamais esqueceu.
Para ficar como mãe adotiva de Teresa, Conceição argumen-
tou com Eufrásio, o pai biológico dela, que ninguém melhor que
ela seria capaz de cuidar da recém-nascida e, além disso, seu ins-
tinto maternal estava paralisado temporariamente com a morte de
seu filho que não vingou. Defendendo seu pedido, argumentou
que, para ficar com Teresa, ela arrumaria um emprego fixo - qual-
quer um servia - faria biscates nas horas de folga. Ela imaginava,
desse modo, poder cuidar da menina muito bem, pois, acima de
tudo, a amava muito. Disputando seus direitos com outros can-
didatos à adoção, Conceição exaltava, confiante, sua capacidade
para cuidar de crianças.
104 - O Presente e Outros Contos

O pai de Teresa, que não tinha grande interesse em gastar


tempo cuidando da filha, aceitou prontamente o pedido de Conso-
lação. Eufrásio sentia falta apenas de sua falecida mulher.
Uma vez decidida a partilha dos filhos, Consolação ganhou o
direito de criar Teresa. Cumprindo o compromisso, ela conseguiu
emprego com facilidade numa empresa de limpeza de bancos,
em virtude de sua desinibição e da boa conversa, que transmitia
confiança.
Consolação ainda não havia recebido o primeiro salário quan-
do, acompanhada de Teresa, agora sua filha, já tinha alugado um
novo quartinho na favela. Seus bagulhos foram levados numa velha
carroça, puxada por uma preguiçosa mula. Ali estava tudo a que
teve direito na partilha: um colchão velho e manchado de urina,
uma mesa feita de caixote, um velho rádio de pilhas, um estrado
quebrado, dois lençóis rasgados, uma sandália havaiana, trapos uti-
lizados como fraldas.
Consolação saía de casa às cinco e meia da manhã, para co-
meçar seu árduo trabalho às sete. Largava às duas da tarde e pe-
gava outro, das três às nove da noite. Teresa era cuidada por uma
vizinha da favela, uma espécie de babá, uma preta velha gorda que
vivia assentada, equilibrando-se num pequeno banco, que ela roti-
neiramente carregava consigo. Com seu tamanho e peso - era uma
mulher imensa - ela jamais caiu do banco, apesar de parecer estar
sempre sonolenta e desequilibrada. Esta mulher abocanhava uma
boa parte do salário de Consolação.
Quanto aos outros filhos de Esperança, Paulo, o preferido da
avó materna, foi morar com esta e não teve mais contato com seus
outros irmãos. Letícia, a mais velha, foi morar no interior com a
mãe de Consolação. Esta defendeu o ponto de vista que tinha esse
“direito”, por ter sua filha Consolação, após sua gravidez, ido para
a capital e não mais voltar para Capão Dourado. Sô Eufrásio, aban-
donado e amaldiçoado pela família, permaneceu morando sozinho
e Deus sabe como.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 105

Poucas notícias surgiram acerca de Letícia e de Paulo, mas


muitas foram contadas acerca de Teresa. Esta foi crescendo, forte
e bonita, como havia sido sua mãe. Consolação mostrava-a, com
orgulho, para todos, e sempre a apresentava como se ela fosse sua
filha. Teresa, criada com esmero, cresceu sem grandes problemas,
mas, ao mesmo tempo, sem grandes planos.
Frequentou a escola pública, onde era uma menina bem edu-
cada, capaz de respeitar a professora e outros mais velhos. Ela era,
ao mesmo tempo, uma menina obediente, mas também decidida,
capaz de lutar pelos seus direitos. Andava sempre limpa, simples,
mas demonstrando estar bem cuidada. Apesar de sua simplicidade,
Teresa tinha um trunfo que a destacava ao ser comparada com suas
colegas e amigas, em todos os lugares que frequentava. Na escola,
na favela, nas ruas da cidade, sempre quando saía, todos admira-
vam - as mulheres com certa inveja - seus belos e longos cabelos
pretos, que jamais foram cortados. Só muito raramente eram apa-
radas as pontas. Mesmos quando Teresa pegou piolhos na escola,
sua mãe, em lugar de cortá-los, passou remédios receitados pelo
farmacêutico, e pente fino. Consolação ajudava Teresa a mantê-los
“bonitos e sedosos”, mesmo se tivesse que gastar mais que podia.
Teresa, perto dos quinze anos, e já com namorado, imaginava sua
noite de casamento, quando, no leito de núpcias, soltaria os cabe-
los, sempre trazidos presos, para prazer de seu marido.
Quando completou 15 anos, seus cabelos já atingiam suas
nádegas. Nessa ocasião, namorava Marcelo, há mais de um ano. Ela,
apesar de ser uma pessoa discreta, orgulhava-se dos seus cabelos.
Eram eles que lhe davam motivos para viver. Identificava-se com
eles, percebendo-se bonita, atraente e cobiçada.
Todos imaginavam, um dia, poder pegar naqueles belos cabelos.
Alguns tentavam passar as mãos neles para terem a sensação agradável
do contato maravilhoso com aqueles cabelos negros e ondulados.
Teresa tinha uma testa lisa e saliente, abaixo da qual nasciam
seus pequenos olhos pretos e fundos, que ela geralmente trazia
quase fechados, por não suportar a claridade.
106 - O Presente e Outros Contos

Sua boca rasgada era formada por lábios grossos e vermelhos.


Quando sorria, apareciam seus grandes caninos, que encobriam a
falta de dois molares inferiores. Às vezes, ela prendia seus longos
cabelos com uma fitinha amarela, formando um “rabo de cavalo”
e, na maioria das vezes, os prendia, fazendo uma espécie de coque
atrás da cabeça. Mas sempre, penteados ou soltos, seus cabelos
eram admirados com entusiasmo pelos amigos e inimigos.
Seus quinze anos foram comemorados com festa. Consolação
convidou os amigos de sempre e mais alguns vizinhos selecionados
para um lanche à base de mortadela, pão francês, pinga, pasteis,
Coca-Cola e o infalível bolo de aniversário. Não faltaram retratos da
ocasião, com a participação dos convidados que rodeavam Teresa,
cortando o bolo. Ela chorou de emoção quando foi cantado o “pa-
rabéns para você”. O namorado de sua mãe adotiva, Demócrito,
um admirador antigo de Teresa, empolgado com a festa, discursou
nessa ocasião:
— “Minha gente! Meu povo laborioso. Transcorre hoje o ani-
versário de nossa querida Teresa. Ela é uma pessoa que nós ama-
mos e amaremos por toda nossa vida. Conheci essa formosura com
dez anos, quando a vi saindo da escola e uma ventania esvoaçava
seus maravilhosos cabelos. Ao vê-la, segurando suas saias que se
levantavam com o vento, senti enorme emoção.
— Nessa ocasião, imaginei estar, por um momento, vendo
uma deusa, uma atriz de TV, ou mesmo de cinema. Embriagado de
tanta beleza, hipnotizado pelos seus cabelos, a segui pelas ruas do
bairro. Vim até aqui. Foi ela que me fez vir até esse humilde, mas
hospitaleiro barracão. Aqui, encontrei a felicidade que faltava em
minha vida, Consolação”.
Nessa hora, as palavras de Demócrito foram interrompidas por
palmas e até por choros dos presentes. Ele continuou seu discurso:
— “Nunca mais me afastei dessa família. Hoje quero brindar,
junto a todos vocês, à felicidade e à saúde de Teresa, bem como
da minha querida Consolação. Deus permita que as duas possam
continuar a dar alegria a toda essa gente amiga. Tenho dito”.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 107

Mas as palavras finais de Demócrito não foram ouvidas pela


ingrata natureza. Teresa, que há algum tempo via seu ventre cres-
cer exageradamente, a princípio pensou estar grávida, pois não
teve os cuidados necessários nas suas andanças com Marcelo. Pe-
quenas hemorragias começaram a aparecer e, às vezes, um líquido
espumoso. Suas menstruações não mais vieram. Sua barriga aumen-
tava exageradamente para ser uma simples gravidez. Consolação
não a recriminou, imaginando o neto que viria. Ficou até alegre. A
hemorragia e o líquido espumoso que saíam de sua vagina preocu-
param Teresa.
Esta, por fim, decidiu procurar um balconista na farmácia
da favela, seu grande admirador, para consultá-lo acerca dos seus
males. Este lhe receitou pílulas diversas, dizendo-lhe que aquilo
era devido à gestação e que seu filho deveria nascer cinco meses
depois. Não houve melhoras. Diante do fracasso, procurou orien-
tação através da sessão espírita. Ali lhe disseram que em outra vida
ela foi uma prostituta, contaminou muitas pessoas, pecou muito
nesse mundo e que estava pagando pelos seus pecados. Deveria
orar, pedir auxílio a outros espíritos e esperar sua passagem para a
outra vida, pois só lá descansaria. Aconselhada por outros amigos,
procurou a igreja evangélica. Disseram-lhe que tudo existia por
vontade divina e que ela precisava orar diariamente. Não houve
mudanças no seu estado, ao contrário, piorou, as secreções au-
mentaram.
Desanimada, foi atrás de macumbeiro e teve que tomar, no
início da manhã do dia treze, sangue de bode recém-morto. Tudo
foi feito como foi mandado, entretanto o abdômen continuava seu
crescimento e os líquidos saindo através da vagina. Após muitas
tentativas em vão, resolveu, a conselho do patrão dela, procurar
um posto médico.
Madrugou e se dirigiu à fila para marcar consulta. Depois de
horas, através da ajuda do porteiro do posto, que se impressionou
com seus cabelos e convidou-a para um encontro, ela conseguiu
uma ficha.
108 - O Presente e Outros Contos

Teresa, acostumada a conquistar os homens através de seus


cabelos, achou natural a cantada e marcou o encontro com o ga-
lanteador, sabendo que provavelmente não iria, como aconteceu
inúmeras vezes. Após quatro horas de espera, chegou finalmente
diante do médico, Dr. Sidarta, um médico muito novo, recém-for-
mado, encarregado de atender às parturientes.
Teresa sentiu como se estivesse numa delegacia de polícia:
uma pequena sala, sem móveis, a não ser uma mesa, duas cadeiras,
e uma maca escondida atrás de uma cortina rasgada. O interrogató-
rio começou áspero:
— O que você veio fazer aqui? - perguntou o doutor, num
tom de voz apressado, pronto para despachá-la o mais rápido pos-
sível, para terminar seu longo dia de atendimento.
— Posso sentar-me? - disse Teresa, um pouco envergonhada.
— Claro, esqueci-me de convidá-la para sentar-se, disse o mé-
dico um pouco irritado.
Quando percebeu e focalizou seus lindos cabelos pretos,
continuou:
— Que belos cabelos você tem, gostaria de poder penteá-los.
Está grávida? Quem foi o felizardo?
— Doutor, não vim a um cabeleireiro para pentear-me, e sim
consultar-me, devido à minha gravidez. Eu tenho quem me pen-
teie. Vim para saber o que está acontecendo comigo. Tem saído
muita coisa esquisita nas partes.
— Eu estava brincando, para colocá-la mais à vontade. É o
meu jeito, sabe... Vamos ver, tire suas roupas, vista aquela bata ali
e deite-se nessa maca. Maria, ajude esta mocinha a despir-se.
O exame demorou apenas alguns poucos minutos. Entretan-
to deu para notar que a fisionomia, bem como o tom de voz do
médico, se alteraram após suas observações. Ele, que esperava uma
gravidez comum, não escutou nada, nenhum batimento fetal no
interior do útero. Não mais conseguiu mais disfarçar sua preocupa-
ção com o estado de Teresa.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 109

— Seu caso preocupa-me e exige mais cuidados. Você irá


procurar-me no hospital Madre Aparecida, no sábado de manhã. É
dia de meu plantão e será fácil localizar-me.
— Possivelmente, caso haja vaga, irei interná-la. No sábado, é
comum elas existirem, pois ninguém quer ver pacientes nos fins de
semana. Você ficará internada por uns poucos dias, para que possa-
mos fazer alguns exames e, com isso, um diagnóstico mais correto.
Lá você fará ultrassom, dosagens hormonais diversas, urina, eletro
e dosagem de Beta HCL ou outros que forem necessários. Não se
preocupe, tudo está bem. Você está ótima. Deve vir com sua mãe,
pois, sendo menor de idade, não é responsável pelos seus atos. Pre-
ciso da presença dela para assinar que concorda com as condições
do Hospital. Mais uma coisa, você não terá nenhuma despesa.
— Minha mãe já morreu.
— Você deve morar com alguém! - disse o médico irritado.
Venha com a pessoa responsável por você. Aproveitando sua raiva,
afirmou para provocar-lhe medo:
— Seu caso é grave, você talvez tenha um tumor na barriga,
no seu útero... Você não está grávida! Não dá para fazer um diag-
nóstico correto aqui, nessa espelunca, sem aparelhagem e condi-
ções de um exame mais minucioso. Ainda não sei, ao certo, que
tipo de tumor é. Não deixe de ir, se você não for, poderá morrer
em pouco tempo.
Teresa saiu atordoada da sala, tão confusa que não conseguiu
se despedir do médico. A gravidez, a ideia de um belo menino de
cabelos longos e pretos, sumira com aquelas palavras secas e frias.
Caminhou alguns passos após vestir-se e, antes de chegar à rua,
cambaleou e espatifou-se no cimento molhado pela urina. Alguns,
menos doentes que ela, correram para ampará-la. Carregaram-na e
puseram-na num dos bancos do ambulatório. Do boteco de frente
trouxeram um café ralo e morno e um copo d’água. Pouco a pouco
voltou a si, chorando de desespero diante da nova situação.
Uma senhora presente, condoída do seu estado, fez uma va-
quinha para angariar dinheiro para que ela pudesse ir para casa
110 - O Presente e Outros Contos

de táxi. O motorista, encantado com seus cabelos, também con-


tribuiu, e assim ela foi conduzida até seu barraco. Ainda no táxi,
Teresa conversava consigo mesma: “Um tumor na barriga. Então
não é um menino? Será câncer? Vou morrer? Oh, meu Deus, todo
poderoso! Deve ser mentira dele! Outros falaram que era gravidez,
pecado, mau olhado.”
Teresa deitou-se logo ao chegar e não mais se levantou até
sua madrasta chegar às 10 horas da noite. Contou tudo a ela e as
duas, abraçadas, choraram o resto da noite sem conseguir dormir.
Chegou o sábado terrível, o dia da internação, dos exames, o
dia da sentença, talvez de morte! As duas, em silêncio, cada uma pen-
sando o pior, tomaram o ônibus que as levaria até o hospital. Apesar
do medo, elas não tiveram dificuldade em encontrar o doutor Sidar-
ta, hoje de plantão, e que a havia examinado no posto de saúde.
A vaga foi reservada com presteza, pois além de ser sábado,
o médico imaginava ser um “caso interessante”: talvez tumor da
placenta, ou melhor, Mola hidatiforme. Tratava-se de um caso raro,
em lugar de crescer no útero uma criança, crescia exageradamente
apenas o tecido placentário.
Não se podia dizer que era uma doença muito ruim, pois esse
tumor tinha cura na maior parte dos casos, desde que se fizesse um
tratamento bem cedo, antes que ocorressem metástases, principal-
mente as do cérebro. Nesse caso, a morte era o mais provável. O
oncologista do hospital, avisado do possível diagnóstico, também
se interessou pela paciente e veio vê-la, tratando-a cordialmente,
com educação e cuidado.
Teresa foi internada, como boi no matadouro, para que os
exames fossem realizados. Sua madrasta chorou sem parar, en-
quanto era preenchido o prontuário e os documentos necessários
à internação. Por fim, foi mandada para casa, pois estava atrapa-
lhando o andamento dos serviços. As duas se despediram num
longo abraço.
Nesse momento, Consolação abriu sua sacola e tirou um em-
brulho que deu a Teresa, que ficou emocionada com o presente
Galeno Procópio M. Alvarenga - 111

dado num momento tenso como aquele. Do embrulho, feito para


presente, saiu uma vistosa embalagem de xampu e condicionador
importados, desejados há muito tempo por Teresa.
Agora, diante da gravidade do caso, Consolação reuniu o di-
nheiro necessário para comprar o xampu de ervas vindo dos Esta-
dos Unidos: retirou suas economias da poupança - pouco mais de
dez reais - e pediu adiantado parte do salário na firma.
Os exames, que duraram mais de uma semana, comprovaram
o diagnóstico inicial do Dr. Sidarta, uma dosagem alta de Beta HCL.
Felizmente era um câncer fácil de ser curado naquele estágio ainda
inicial, com quimioterápicos. A equipe médica reuniu-se e transfe-
riu o caso para o setor de Oncologia do Hospital. O Doutor Amin,
chefe da equipe, que já tinha tido uma conversa com Teresa, foi o
encarregado de dar as “boas notícias” à paciente:
— Como vai Teresa? Lembra-se de mim? Estive aqui, quando
você foi internada. Eu sou Dr. Amin. Trabalho aqui. Estudei seu
prontuário, que me foi passado pelo Dr. Sidarta. Seu caso agora
passará a ser cuidado, não mais por ele, mas por nós da oncologia.
Faremos o melhor para colocar você boa.
Teresa até que o achou simpático, limpo, bem barbeado, sé-
rio e com cara de boa gente.
— O que é oncologia? - perguntou confusa, aproveitando o
longo silêncio que ocorrera.
— É a parte da medicina que cuida dos tumores.
— Tumores ou câncer?
— É mais ou menos a mesma coisa. Mas não se preocupe,
pois seu caso tem bom prognóstico e...
— O que é prognóstico?
Dr. Amin, irritado pela interrupção:
— É a mesma coisa que futuro, não, consequência, resultado.
A palavra certa não vinha na sua mente.
Dr. Amin continuou:
— De outro modo, você vai sarar, vai ficar boa, sem nada.
Para isso, você tomará alguns remédios na veia, ou seja, quimiote-
rapia. São necessárias algumas sessões. Elas provocam efeitos ruins
112 - O Presente e Outros Contos

no organismo, mas por pouco tempo. Assim, no início, você po-


derá ter náuseas e vômitos, sentir um mau cheiro nas coisas, ou
mesmo no seu corpo, mas tudo passa.
— O importante é que você vai ficar boa, vai voltar a ser o
que era. Tem mais um pequeno problema! Quando as pessoas to-
mam esse remédio, os cabelos caem, isto é, você vai ficar careca
por umas semanas, mas eles voltam a crescer.
— O quê? Meu cabelo vai cair com o tratamento? Nunca!
Arranje um tratamento no qual o cabelo não caia. Se não tiver,
não faço!
— Não existe! Os existentes não vão te curar. Ele torna a
crescer. Que bobagem, toda essa preocupação... jogar a saúde fora
por causa do cabelo.
Teresa estava desesperada e irritada com a pressão do Dr. Amin.
— Não! Se o cabelo cair eu não trato. Dê-me alta. Eu quero ir
embora o mais depressa possível. Eu quero ir embora!
Não houve meios de convencê-la. Foi tudo em vão. Vieram
freiras simpáticas, padre, pastor, amigos, seu namorado e sua mãe.
Teresa ficou irredutível. Ninguém a convenceu a fazer o tratamen-
to. Sua identidade estava ligada ao seu cabelo, que era a razão de
sua vida. Ela vivia para eles e por causa deles. Sem eles, ela não se-
ria mais Teresa e sim outra pessoa. Jamais ela se imaginou sem seus
maravilhosos cabelos. O jeito foi a alta, assinada pelos médicos,
após escreverem um laudo assinado por Consolação, dizendo que
a paciente saía do hospital sem tratamento.
A conduta de Teresa, realizando apenas consultas médicas
sem aceitar o tratamento indicado, contribuiu para sua piora. O tu-
mor foi crescendo. Aos poucos produziu metástases, inclusive no
cérebro de Teresa. Os médicos contaram a gravidade do seu estado
para Consolação e Demócrito, que choraram durante toda a conversa
com a equipe reunida. Entretanto, Teresa continuava firme na sua ideia
de não tomar nada, não fazer tratamento algum que fizesse cair seus
cabelos. Nenhum argumento a fez mudar de opinião.
Teresa continuou expelindo secreções muco-sanguinolentas,
mas vivendo com seus belos cabelos. Procurou todos os milagreiros
Galeno Procópio M. Alvarenga - 113

possíveis que utilizavam as outras “ciências”, tais como rezas, po-


ções, cristais, homeopatias, isto é, remédios suaves que não faziam
o cabelo cair.
Passaram-se três meses. Teresa foi piorando. Ficou mais magra
ainda, pálida e com uma enorme barriga. Cada vez mais ela passava
a maior parte do tempo deitada.
O seu namorado foi, pouco a pouco, se afastando. Aconselhada
por Consolação e Demócrito, ela voltou ao médico. Foi bem recebida
pelo Dr. Amin, que continuava dirigindo o Serviço de Oncologia do
hospital. Uma vez reinternada, novos exames foram pedidos. Como
se previra, Teresa tinha piorado: o tumor tinha gerado metástases,
inclusive no cérebro.
Os médicos contaram a gravidade do seu estado para Consolação
e Demócrito, que choraram durante toda a conversa com a equipe
reunida. Entretanto, Teresa continuava firme na sua ideia de não tomar
nada, não fazer tratamento algum que fizesse cair seus cabelos. Nada
fazia mudá-la de opinião.
Os médicos foram ficando desesperançados e, ao mesmo
tempo, irritados pela impotência deles diante da teimosia de Te-
resa. Os dias foram passando e Teresa piorando. As rezas não sur-
tiram efeito algum. Ainda havia um resto de esperança de salvá-la,
caso a quimioterapia fosse instituída. Desanimada, a equipe se reu-
niu, numa última tentativa. A reunião acalorada durou horas. Era
preciso achar uma solução para aquela cliente especial. O grupo
discutiu longamente o caso, conhecido no hospital como o caso
da menina dos cabelos longos, para se tentar uma estratégia capaz
de surtir algum efeito. O saber e o orgulho médico estavam sendo
derrotados por uma criança teimosa.
Alguém sugeriu tratá-la à força, pois tinham medo da crítica
da imprensa e da opinião pública, caso ela morresse por falta de
tratamento num caso relativamente fácil. Era um absurdo, um abu-
so, uma criança manhosa e histérica não aceitar, para salvar tempo-
rariamente fios de cabelos, o tratamento instituído por quem sabia
o que está fazendo. Tiveram medo também de forçá-la a aceitar o
tratamento. Mudaram de opinião devido às consequências legais.
114 - O Presente e Outros Contos

Um professor, depois de muito refletir, sugeriu mentir para


ela. E assim foi feito.
Para executar o imaginado, o corpo médico afirmou para Te-
resa que felizmente havia chegado da Alemanha um novo e pode-
roso medicamento, capaz de vencer todos os cânceres existentes,
e este, especialmente, não fazia cair os cabelos. Dr. Amin deu a
boa nova a Teresa, receoso de ela não se convencer de sua men-
tira. Era a sua última tentativa, falar-lhe sobre o “novo remédio”.
Finalmente, após idas e vindas, ela aceitou fazer o tratamento e
tomar o medicamento, ainda que bastante desconfiada.
As sessões começaram logo em seguida. Havia pressa em
iniciar o tratamento. Para evitar que ela descobrisse a queda dos
cabelos, mantiveram-na adormecida, dia após dia, em virtude de
grandes quantidades de sedativos. Dessa forma, era-lhe impossível
verificar ou pensar que seus cabelos tinham caído. Sem cabelos,
sua grande testa aparecia mais realçada, e por trás desta surgiu um
crânio feio, ovalado e comprido. Assim ela permaneceu por várias
semanas. Milagrosamente, o tumor foi regredindo, inclusive o do
cérebro. A equipe médica vibrava de alegria pela vitória. Seu ab-
dômen diminuía de tamanho a cada dia e sua cor melhorava. Con-
solação e Demócrito vinham vê-la, sempre que eram permitidas as
visitas, e choravam de alegria.
Finalmente o tratamento terminou com absoluto sucesso.
Havia mais um problema preocupante. Como ela reagiria quan-
do acordasse e verificasse que estava careca? Os otimistas acre-
ditavam que ela ficaria tão alegre com sua cura, que nem ligaria
para uma calvície provisória. Seguindo o programa estabelecido,
os calmantes foram retirados pouco a pouco e sua consciência foi
voltando. Teresa ainda não se dera conta da perda de seus cabelos.
Foi colocada na sua cabeça uma linda touca branca feita de tricô.
Acontece que, tão logo começou a recuperar-se quando os
sedativos foram diminuindo, ela passou a mão pela cabeça, como
sempre fazia ao acordar. Não sentiu a gostosa sensação de seu
pelo. Amargurada e desesperada, ficou furiosa. Depois, com o pas-
Galeno Procópio M. Alvarenga - 115

sar dos dias, ela ficou sem forças para lutar e sua vida perdeu o
brilho que tinha.
Quando ela perguntou para uma enfermeira o que fora feito
de seus cabelos, esta não lhe deu importância, pois tinha mais coi-
sas a fazer. De fato, os cabelos, à medida que foram caindo, foram
sendo jogados fora.
O dia da alta foi se aproximando. O Dr. Amin, bem como
toda a equipe, orgulhosos pelo belo resultado foram-se despedir
da paciente. Teresa, há alguns dias, mostrava um olhar vago e qua-
se nada falava. A equipe médica, eufórica com o sucesso, não per-
cebeu a expressão de desespero de Teresa.
Diante de todos, ela, antes de se aprontar para deixar o hos-
pital, ainda no leito pediu um espelho para se olhar. Prontamente
uma companheira de enfermaria lhe entregou um pedaço de espe-
lho, o suficiente para que ela não se reconhecesse como Teresa.
Seu maxilar contraiu-se diante de todos.
Duas lágrimas silenciosas desceram suavemente de seu rosto
comprido, abandonando seus pequenos olhos. Os médicos abai-
xaram a face, envergonhados com o que presenciavam. Ao ver sua
cabeça sem cabelos, sua fisionomia, que já estava séria, tornou-se
sombria. Havia pavor na sua face. Os médicos, sem saber o que
fazer, apressaram a despedida. Sorriram confusamente para ela e a
abraçaram. Lentamente foram caminhando para ver outro pacien-
te, na mesma enfermaria.
Teresa poderia sair ainda naquela manhã. Firme, apoiada no
seu ódio, levantou-se, a princípio vagarosamente. Desequilibrou-
se aos primeiros passos e apoiou-se na enfermeira que a auxiliava.
Ganhou forças, através de sua ira, ao passar novamente a mão pelo
crânio e sentir a ausência de cabelos. Firmou-se mais, pouco a
pouco. Agora, já conseguia caminhar sem o auxílio da enfermeira,
pelas suas próprias pernas.
Caminhou mais pela enfermaria. Foi de um canto ao outro,
como se estivesse medindo sua força futura. Suas feições foram
mudando. Foi ficando mais calma e segura quanto aos seus planos.
116 - O Presente e Outros Contos

De repente, passou rápido diante do grupo de médicos que discu-


tiam outro caso clínico, no leito ao lado.
Diante deles e de todos, sem que ninguém pudesse fazer
nada, Teresa apressou seus passos, agora totalmente firmes. Ini-
ciou uma pequena corrida, subiu numa cama colocada embaixo
da janela. Diante dos olhares e da impotência de todos, médicos,
enfermeiras e pacientes, Teresa pulou do vigésimo andar do hos-
pital em direção à morte.
Ninguém fez um comentário.
A INVESTIGAÇÃO DO ÍNDIO SURDO

O índio Jutay foi preso. Brigou, acompanhado por seu sobri-


nho, num boteco da zona boêmia de Itabira. Durante a luta, Jutay
levou um murro na orelha dado por um policial e, como usava um
aparelho para surdez, teve esse quebrado e perdido no campo de
luta. Levado até a delegacia de polícia junto a um advogado do sindi-
cato arrumado por seu sobrinho, ele foi inquirido pelo delegado.
Seu depoimento foi difícil, pois ele pouco ou nada ouvia sem
o aparelho e, sem ouvir, não sabia responder ao que lhe era per-
guntado. Alguém na delegacia lhe deu uma corneta de brinquedo,
para facilitar a transmissão do som para o ouvido. Assim, quando o
delegado falava, Jutay enfiava a ponta da corneta no canal auditivo
e movimentava a parte mais larga desta em direção à voz do advo-
gado ou do delegado. Para piorar, Jutay entendia e falava muito mal
o português, somente falava uma ou outra palavra, mas falava fluen-
temente a língua indígena compreendida somente pelo sobrinho.
Entretanto, esse não compareceu à delegacia na audiência.
Durante a leitura da ocorrência, Jutay segurava a corneta que
era enfiada no ouvido do lado esquerdo, enquanto puxava as ore-
lhas para frente, na vã esperança de captar algum som compreen-
sível. Seus olhos percorriam os soldados, o escrivão, uma mulher
que fazia a limpeza do assoalho e outros que estavam ali sem fazer
nada. Quando o escrivão terminou a leitura da ocorrência, sem
Jutay ter escutado nada, ele agarrou a manga do paletó de seu ad-
vogado, que conhecia pouco sua língua, e com gestos melodramá-
ticos começou a falar agitadamente.
118 - O Presente e Outros Contos

— Que foi que ele disse? - perguntou o delegado ao advogado.


— Disse que há anos recebeu um soco no ouvido esquerdo e, a
partir de então, não escuta mais. Estava usando um aparelho para ou-
vir, mas tomou outro soco agora e perdeu-o.
— Quem foi que o agrediu?
— Um policial na zona boêmia.
— Não vejo conexão alguma entre a surdez e essa causa.
— Exatamente, Excelência. Dr. Alberto parecia querer acres-
centar alguma observação, mas calou-se.
O acusado tornou a agarrar o braço do advogado, vociferan-
do algum palavrão incompreensível. Novamente o delegado pediu
explicações ao advogado.
— Diz que perdeu o aparelho quando tomava uma cachaça
num bar, junto a uma mulher. O policial, que era gigolô da mulher,
não gostou de seus modos. Aí a briga começou e ele pediu-lhe para
providenciar um novo aparelho.
Jutay agitava a sua corneta acústica, como para provar que
não funcionava. O delegado dignou-se levantar os olhos do papel
por um instante e disse:
— Diga-lhe que irei providenciar outro, mas isto fica para
mais tarde.
O advogado aproximou-se do surdo e berrou-lhe ao ouvido:
— Mais tarde! - usando algumas palavras da língua do índio.
— Mais tarde, mais tarde - repetiu Jutay.
— Pergunte-lhe se tem alguma declaração a fazer a respeito
deste processo.
— Quer dizer alguma coisa?
— Sagen? Sagen? Perguntou Jutay nervosamente.
— Quer ver seu sobrinho e quer saber por que ele não está aqui.
— Mas o senhor não lhe explicou por que está sendo proces-
sado? - perguntou o delegado admirado.
— Claro, expliquei-lhe várias vezes.
— O médico perito que examinou o acusado declarou-o men-
talmente são, apenas em estado neurótico excitado - declarou o
delegado Alcebíades.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 119

— Sim. Doutor... - hesitou e depois se decidiu a falar:


— Acho que não se deva interpretar como sinal de insanidade
mental o fato de um indivíduo que, após escapar de uma surra vio-
lenta, um perigo de morte, suplica à justiça que lhe conceda abraçar,
por um instante, o único parente que ele conhece aqui em Itabira.
Após um instante, o delegado perguntou:
— O sobrinho de Jutay vive em... ?
— Trabalha na companhia Vale do Rio Doce, aqui em Itabira.
— Está presente?
— Não, está internado num hospital.
— Dengue?
O advogado acenou que não.
— Que diabo, todo o mundo parece estar atacado de dengue,
comentou o delegado. Fechou a pasta e inclinou-se para trás:
— Fale o defensor público!
Um homem grande e magro começou a falar com uma veloci-
dade incrível, pedindo a condenação de seis meses de detenção e
subsequente envio para sua aldeia. O advogado pediu a palavra.
— Se eu for perseguido por um inimigo em plena rua e, na-
quele momento, passar um ônibus, eu não hesitaria em saltar sobre
o estribo, ainda que isto seja contra o regulamento do tráfego. Mas
pergunto a V. Excelência, teria o motorista direito a processar-me
por desrespeito ao regulamento?
O advogado terminou com essa interrogação, sentou-se e
procurou no bolso dois comprimidos de aspirina que engoliu sem
titubear. Ninguém entendeu sua defesa.
Jutay estava excitadíssimo:
— Tonado, cataca natov?
— Natocava, berrou-lhe na corneta: — Natocava!
— Tonado? - perguntou o acusado, apelando para toda e re-
duzidíssima assistência. Alcebíades, o delegado, tomou uma pose
solene e, vagando o olhar pela sala, declarou:
— Como de costume, repito mais uma vez que, na função de
delegado, estou autorizado a aplicar penas provisórias com o fim de
coibir e sancionar a lei. Lançou um olhar para o réu e continuou:
120 - O Presente e Outros Contos

— Mostro-me compreensivo para o que acabou de dizer o


Dr. Alberto, advogado do réu. Isto é, que as condições internas
de certos estados emocionais provocaram um êxodo em massa e
que nestas circunstâncias seria inumano aplicar sanções. Mas devo
acrescentar que, na minha função de delegado, estou obrigado a
velar pelo respeito à ordem legal, não cabendo à minha alçada dis-
cutir a lei, nem mesmo forçar uma interpretação. Pigarreou, e após
uma pausa deliberada para tirar um cigarro e acendê-lo demorada-
mente, declarou:
— É possível que eu esteja enganado e que causas semelhan-
tes comportem uma apreciação diferente. Espero, outrossim, que
o acusado apele de minha humilde e simples ordem para o juiz,
ou seja, para uma instância superior. Espero também que a corte
suprema se digne esclarecer essa conduta de desrespeito à ordem
pública e oriente a questão em debate.
Jutay parecia desesperado no esforço hercúleo que fizera
para captar algum som, entender alguma coisa. Suas orelhas esta-
vam muito vermelhas, quase roxas. O delegado continuou:
— Por essas razões resolvi enviar o réu para a prisão, até que
ele seja julgado em definitivo por sua Excelência, o juiz ou o de-
sembargador.
No silêncio constrangedor, o réu começou a bradar:
— Tonado, cataca? Os presentes levantaram-se. Estavam en-
cerrados os trabalhos do período da manhã. Mas Jutay recusava-se
a se retirar e ser levado à cela da prisão, vociferava que queria a
todo custo ver o sobrinho. Dois policiais carregaram-no para a sala
contígua, enquanto o homenzinho se debatia e gritava:
— Tonado, cataca? Que fiz eu?
O JULGAMENTO FINAL DE CARÍCIO PENA

Carício Pena morreu. No dia de Natal sentiu-se mal, após ter


comido uma macarronada no Restaurante Popular. Como a macarro-
nada era de graça naquele dia festivo, ele comeu demasiadamente.
Carício chegou ao seu barracão, onde morava só, sentindo
um desagradável peso no estômago:
­— Vou tomar um pouco de bicarbonato... a digestão não está
boa.
Em seguida deitou-se, mas não conseguiu dormir, em virtude
do mal-estar que aumentou. A dor foi aumentando e, num certo
momento, desesperado, começou a gritar. Foi socorrido por uma
vizinha bêbada que, apesar de estar cambaleando, caminhou até o
telefone público e pediu ajuda ao SAMU. Quando o socorro che-
gou, duas horas depois, Carício já estava morto.
Neste mundo de Deus, aqui da Terra, a morte de Carício Pena
não provocou mudança alguma. Se o cachorro de Alice, a vizinha que
ouviu seus gritos e procurou ajuda, tivesse caído morto ali na favela,
sua morte teria chamado mais a atenção dos moradores da redondeza
que a morte de Carício.
Carício viveu na obscuridade e morreu nas trevas. Ele viveu ig-
norado, os seus vizinhos mal sabiam seu primeiro nome. Carício, para
eles, não possuía história, família ou profissão. Viveu sempre sem cha-
mar a atenção das pessoas.
Carício nasceu por acaso. Sua mãe, uma débil mental, foi abu-
sada por um carroceiro marginal. Ela ficou grávida sem saber o que
era gravidez.
122 - O Presente e Outros Contos

Para a mãe de Carício, uma mulher só ficava grávida quando


se casava. Portanto, segundo o princípio dessa moça, ela não esta-
va grávida, pois não havia casado. Em resumo: até os últimos dias
de gravidez, sua mãe não notava e não sabia que ia ter um filho.
A família da mãe de Carício, envergonhada com o ocorri-
do, procurou esconder o fato. Por ser uma família católica rígida,
não se aceitou fazer um aborto, segundo o conselho de alguns
parentes mais próximos. Após discussões diversas, os pais dela
decidiram internar a paciente num hospital psiquiátrico, logo que
ficou visível o crescimento do abdômen. Maria de Lurdes, esse
era seu nome, foi então internada para que ela ficasse escondida
dos parentes e vizinhos e, portanto, para que eles não tivessem
conhecimento da gravidez dela, que representava uma vergonha
terrível para seus pais.
Carício nasceu no dia 19 de março no manicômio São Judas
Tadeu, da cidade de Dores da Esperança, onde sua mãe estava in-
ternada. Imediatamente, conforme negociações da família, Carício
foi doado para uma auxiliar de enfermagem desse hospital.
Por chorar muito desde que nasceu, e por proporcionar des-
pesas extras pesadas para a enfermeira, Joana D’Arc presenteou
Carício a D. Laura, uma aposentada devido a um AVC que lhe di-
ficultou os movimentos corporais do lado esquerdo do corpo. D.
Laura, morando só e com mais tempo para cuidar de um recém-
nascido, aceitou o presente. Joana D’Arc deu à amiga aposentada
R$200,00 para cobrir as despesas iniciais com o menino.
Carício não foi batizado, nem crismado ou registrado. Não
tinha, portanto, certidão de nascimento, carteira de identidade e
CPF. Logo ele não morreu para o governo e estatísticas. Nunca
existiu.
Vivendo agarrado a D. Laura, sua terceira mãe, Carício conhe-
cia cada gesto, cada palavra, cada expressão dela.
— Sei tudo de você, - dizia Carício à sua mãe e continuava:
— sei como vai espirrar amanhã. Até isso eu sei, porque você já
espirrou perto de mim mil vezes ou mais.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 123

Carício queixava-se da falta de interesse, da vida vazia que


tinha.
Assim viviam aqueles dois, que, no fundo, eram boa gente.
Viviam ambos na expectativa de que, algum dia, sucedesse algo
que mudasse totalmente suas vidas tão vazias. Os dias seguiam-se mo-
nótonos, sem que houvesse o que os distraísse. Às vezes, nos feriados,
iam visitar amigos tão pobres de espírito quanto eles, outras vezes os
amigos vinham vê-los e juntos bebiam, cantavam e muitas vezes briga-
vam. Depois vinham de novo dias sempre iguais. Isso tornava a vida
deles insossa e cansativa. Imploravam a Deus que algum dia as coisas
melhorassem.
— Gostaria de ficar contente - dizia Carício a sua mãe ao se
deitar, e continuava: — mas não consigo. Que motivo existe para eu
ficar contente? Procuro e não acho nenhum motivo. Sinto-me sem-
pre mal. Isso é vida? Uns doentes saram, outros morrem. Nós nem
adoecemos, nem morremos, apenas somos obrigados a continuar a
existir.
Carício, sendo um pouco esperto, aprendeu durante alguns
dias que esteve no Grupo Escolar T P, a ler e escrever mal, o que
lhe facilitou conseguir um emprego de entregador de mercadorias
de um armazém. Aos poucos, devido à sua seriedade e conheci-
mento de todos na pequena cidade onde morava, passou a traba-
lhar como balconista e caixa do mesmo armazém.
Jamais deixou de cumprir suas obrigações: chegava sempre
antes das sete horas, quando o armazém abria, entregava sem er-
rar as mercadorias, não discutia com ninguém, sempre dava razão
ao que reclamava, atendia todos educadamente e nunca deu um
troco errado. Certa vez, foi até a casa de uma compradora trocar
duas laranjas que ela havia comprado, por estarem ligeiramente
estragadas, coisa que a compradora não notou. Para isso, com seu
próprio dinheiro, escolheu as melhores possíveis para levá-las até a
casa de D. Marocas e, com muito jeito, conseguiu convencê-la que
as estava trocando, porque, após suas compras, chegaram novos
estoques com laranjas melhores. Acontece que ela havia escolhido
124 - O Presente e Outros Contos

as laranjas estragadas, e ele viu, mas nada fez no momento. Após


ela ter saído do armazém, não conseguiu fazer mais nada diante do
sentimento de culpa que dominou sua mente.
Carício viveu sua insossa vida como vive uma pedra nas ruas
de Itabira entre milhões de outras idênticas. Andando pelas ruas da
cidade, do armazém onde trabalhava à Vila onde morava, nenhuma
impressão de sua identidade ou pegadas foram marcadas. Ele viveu
como uma fumaça leve e pouco densa, que se dissolve rapidamen-
te no ar.
Depois que Carício morreu em outubro, as chuvas de dezem-
bro e janeiro apagaram seu nome, o dia de seu nascimento e de sua
morte escritos na parte mais alta do bloco de tijolos, que identifica-
va a cova rasa onde foi enterrado. Onde havia informações escritas,
surgiu uma mancha acinzentada de mofo. Poucos dias depois de sua
morte, pessoa alguma de sua cidade era capaz de recordar suas fei-
ções, de lembrar algum ato dele. Carício desaparecera totalmente.
Sem parentes e sem herança, viveu e morreu sozinho, pois
sua mãe adotiva morreu quando ele era criança. Carício andava
com o olhar vazio e fundo, as faces encovadas, sua cabeça pendi-
da para baixo, como se carregasse um peso enorme nela. Estava
sempre como se andasse em busca do túmulo. Quando Carício foi
encontrado morto e a vizinha chamou a ambulância, o cantinho na
Vila onde ele morava foi imediatamente invadido por outro mora-
dor, pois eram dezenas os que, como ele, esperavam um lugar para
viver, ou melhor, para morrer. Em resumo: na sua cidade, a morte
de Carício Pena não causou impressão alguma. Carício viveu isola-
do e silenciosamente morreu.
Mas sua história não termina aí. Como irá acontecer com to-
dos nós, ele também foi chamado para o juízo final. Nesse encon-
tro Carício foi julgado, para que Deus decidisse se ele merecia ou
não viver sua segunda vida no Paraíso ou no Inferno,
Carício, portanto, foi interrogado e julgado pelo Senhor, jun-
to ao seu ajudante, São Pedro, e mais promotores e advogados di-
versos. O processo foi iniciado para determinar se ele poderia ou
Galeno Procópio M. Alvarenga - 125

não ocupar um lugar no Mundo Celestial. Como todos que por ali
passam, Carício estava trêmulo diante de tantas autoridades impor-
tantes e da grande plateia que assistiria ao julgamento.
Ele recuperava memórias acerca de sonhos ocorridos na Ter-
ra, sonhos esses que geralmente deram errado.
A leitura dos autos não demorou muito, sua vida fora muito
simples. Depois, o advogado de defesa, constantemente interpe-
lado pelo juiz que pedia maiores detalhes, foi contando a vida de
seu cliente, a sua paciência e resignação, sua bondade, seu sofri-
mento. A plateia começou a bocejar devido à falta de cenas emo-
cionantes nos relatos. Sua história era muito pobre... O advogado,
percebendo o desinteresse dos presentes e também dele próprio,
arrependido de ter aceito uma causa tão simples e sem atrativos, e
esforçando-se para ficar um pouco mais animado, relatou que, cer-
ta vez, o seu cliente salvou um senhor que fora atacado por um boi
bravo que era levado ao matadouro. O senhor, agradecido por esse
gesto de coragem e bondade, o convidou para um casamento em
sua fazenda e, durante a festa, arrumou-lhe um casamento com sua
lavadeira. Mas os fatos em que Carício participava geralmente da-
vam errado. Em outras palavras, Carício era um “pé frio”. O senhor
ficou devendo a um e outro e finalmente perdeu tudo que tinha e
também adoeceu e morreu. A mulher com quem Carício se casou,
após trai-lo com o boiadeiro da fazenda, abandonou-o, deixando
ainda um filho de dezoito anos para ele criar, um filho que não era
dele. O filho, depois da saída da mãe e após arrumar uma amante,
expulsou-o de casa, quando então Carício foi morar no cômodo
imundo na Vila. Entretanto, nunca reclamou nada de ninguém e
nem de sua má sorte. O advogado continuou seus relatos:
— Há dois anos ele foi atropelado por uma carroça, mas, como
sempre, não acusou ninguém, ao contrário, ficou envergonhado
de ter sido atropelado e desculpou o cocheiro por seus erros.
Nesse instante, o poderoso e temível promotor esboçou uma
acusação, pigarreou, tossiu e desistiu de continuar. Calou-se. O ad-
vogado de acusação, por indolência ou pessimismo, faltou à sessão.
126 - O Presente e Outros Contos

Na falta de acusações e diante do silêncio de todos e do can-


saço da plateia desinteressada, ouviu-se então uma voz grave e sua-
ve: era a voz do Senhor Todo-Poderoso.
— Meu filho...
Após um longo silêncio que atingiu a todos, o Senhor repetiu:
— Meu filho, vejo que você nunca fez o mal. Noto que o que
fez foi pouco, mas percebo que você fez conforme sua competên-
cia. O reino do Céu foi feito também para os simples e pobres de
espírito. Por isso tudo, e resumidamente, pois tenho vários outros
julgamentos importantes para fazer e devido à sua conduta sem
pecados, eu lhe ofereço o que você desejar aqui. Pode escolher!
Carício, pasmo, a princípio não acreditou no que ouvia. O Se-
nhor repetiu a pergunta de novo, em vista da ausência da resposta.
— Escolhe o que quiseres, meu filho.
— Bem, se está oferecendo de verdade, se é assim - sorri Ca-
rício Pena, - gostaria de receber diariamente, para almoçar, um pão
quente com bastante manteiga e um prato bem cheio de macarrão.
Os membros do seleto Tribunal, o Senhor e Anjos, autoridades
diversas e assistentes disciplinados, todos abaixaram a cabeça, olhan-
do para o chão. Envergonhados, todos caminharam em direção à
porta de saída. O promotor olhou para Carício e sorriu cheio de pie-
dade. O julgamento estava terminado. Não havia mais nada a fazer.
O ASSASSINATO DO AMANTE DE REGINA

Preso por uns dias, até que fosse assinado o habeas corpus,
por ser réu primário e ter bons antecedentes e residência fixa, o
comerciante Afonso Elias estava transtornado com o acontecido.
Uma vez detido, foi aprisionado na cadeia comum de Lunó-
polis, uma prisão quase sempre vazia, abrigando apenas, no má-
ximo por um a dois dias, homens detidos devido ao excesso de
bebida, briga no bar ou na rua, roubo de galinha durante a noite ou
de laranjas no supermercado e quintais.
O crime de Afonso Elias foi mais sério e teve mais repercus-
são. Quando praticou seu crime, tinha completado 48 anos, era ca-
sado, tinha três filhos, todos homens. Afonso Elias era comerciante
de roupas prontas, vendia também calçados e arreios. Passava gran-
de parte do dia na sua loja, com muito pouco movimento. À noite,
junto aos amigos, jogava “Marimbo”, um jogo simples de baralho,
preferido pelos homens da cidade. As reuniões seguiam um horá-
rio pré-determinado: começavam às 6:30 horas e terminavam às
9:30, todas as noites. As apostas, nesse jogo semifamiliar, eram pe-
quenas. Jamais se teve notícia acerca de um ou outro companheiro
de Afonso Elias ter ganho ou perdido suas economias no jogo.
Durante o jogo, mais que apostar para ganhar dinheiro, ele e
seus costumeiros companheiros discutiam e comentavam os fatos
da cidade, as brigas, os adoentados, os falecidos, quem comprou o
quê e de quem, as mulheres fáceis de serem conquistadas e as que
tinham amantes escondidos, os candidatos a vereadores ou prefei-
to, ou seja, os mexericos da cidade.
128 - O Presente e Outros Contos

Naquele dia fatídico, 19 de fevereiro, ele não compareceu à


reunião de marimbo. À noite, seus companheiros de jogo, condo-
ídos com o ocorrido, não fizeram outra coisa do que comentar e
lamentar, por diversas vezes, o crime do amigo e companheiro de
papos e do divertido jogo.
O crime foi praticado diante de todos, na própria casa onde
Afonso Elias residia, bem na entrada da porta da cozinha que ficava
na parte dos fundos da casa. A residência, situada na parte mais
central da cidade, tinha duas entradas: a principal, onde existia um
pequeno alpendre, e uma pelos fundos, alcançada através de um
beco que lhe dava acesso. Naquele dia, Pedro entrou na casa pelos
fundos, através do beco, com um sorriso ligeiramente sem graça.
Havia alguns dias que Afonso Elias já estava a par de tudo.
Como sempre nas cidades do interior, as pessoas vigiavam
umas às outras. Lá, como sempre ocorre nesses casos, todos comen-
tavam o que ouviram falar, outros o que viram e muitos o que ima-
ginaram. O caso de Regina e Pedro era antigo, conhecido há meses
por quase todas as pessoas da cidade. Talvez o próprio Afonso Elias
também já tivesse conhecimento do que estava ocorrendo, mas por
medo, cautela ou amor à mulher, adiava tomar uma atitude, uma
conduta, que seria drástica segundo os valores e padrões da cidade,
com respeito ao homem cuja mulher o estivesse traindo.
Afonso Elias, como todos os homens até certa época de sua
vida, ainda sem se apaixonar por uma ou outra pessoa, apenas pen-
sava em arrumar um bom negócio para ganhar dinheiro, ali mes-
mo em Lunópolis. Nascido de uma família de árabes que veio para
o Brasil, nasceu em Lunópolis. Acostumado com o lugar, falando
corretamente a língua dos pais e a portuguesa, inclusive com o
sotaque do lugar, nunca teve intenções de largar a terra em que
nasceu e amava. Quando começou a melhorar de vida, passou a
ser considerado, pelos padrões da cidade, como um bom partido,
um homem apto a se casar. Desde criança foi um pouco obeso e
ainda jovem adquiriu uma calvície que foi tomando conta de parte
de sua grande cabeça, quase sem pescoço, dando a impressão de
estar enfiada no seu tórax largo e forte.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 129

Ele caminhava sempre olhando para o chão, dando a impres-


são de estar procurando alguma coisa. Certamente Afonso Elias não
era um jovem considerado bonito e encantador, segundo os pa-
drões das moças de Lunópolis, as que entravam na idade apropria-
da para arrumar um marido, mas sempre segundo as orientações e
prescrições dos pais, principalmente da mãe, pois não ficava bem
para um homem se intrometer em assuntos acerca de casamentos,
mais ainda de filha mulher.
Afonso Elias sabia que não era nenhum galã. Jamais foi elogia-
do por alguém a respeito de sua beleza, elegância, charme, habili-
dade amorosa ou outro atrativo físico valorizado pelas famílias do
lugar. Também não era muito culto, jamais gostou de estudar, com-
pletou apenas o quarto ano do primeiro grau, ou seja, sabia ler e es-
crever e, principalmente, fazer contas. Esse era seu forte: trabalhar
e administrar seus negócios, o que ele sabia fazer e muito bem.
Assim ele cresceu no seu próspero comércio de roupas, cal-
çados e arreios. Foi por razões de seu bom desempenho no comér-
cio, não por sua beleza física, que Regina foi empurrada pela mãe
a flertar e facilitar uma aproximação com Afonso Elias, visando a
um casamento. Primeiro foi nas procissões da cidade, aonde todos
iam, depois nas festas de formatura, cavalgadas e outros encontros
comuns na cidade. Regina, sem sentir nada por ele, foi cumprindo
os mandamentos da mãe. Como devia olhá-lo, cumprimentá-lo, o
que devia ser conversado durante encontros casuais e outros ensi-
namentos mais. Era uma armadilha usada para conquistá-lo, cuida-
dosamente trabalhada, de conhecimento das mulheres da cidade.
Os homens, por sua vez, ignoravam que estavam sendo capturados,
forçados, de modo decente, a se apresentar e fazer um pedido for-
mal aos pais para poder conversar com a “escolhida”, que era, de
fato, a escolhedora. A partir do pedido formal, indicador do início
de um namoro sério, iniciava-se o namoro que quase sempre termi-
nava em casamento. Assim foi feito.
O namoro demorou meses para ser iniciado devido à extrema
timidez por parte de Afonso Elias. Era difícil para ele aproximar-se de
uma moça para namorar, mas seria menos difícil se ela fosse muito
130 - O Presente e Outros Contos

feia. Regina, ao contrário das moças feias e comuns, tornava-se


mais difícil ainda de ser abordada por ser, não só uma moça muito
bonita, mas também por ser filha de um farmacêutico da cidade,
portanto, de um homem importante. Afonso Elias, a princípio,
diante das primeiras investidas dela, nem imaginava ser possível
Regina estar interessada nele. Sabia que não atraía moça alguma
pela sua beleza e, portanto, ela deveria ser cortejada por rapazes
mais elegantes e bonitos que ele.
A moça, por outro lado, obrigada e sem escolhas, seguindo
as instruções familiares, fazia tudo para facilitar a aproximação da
presa indicada, ou seja, do candidato tolerável que tivesse situação
financeira estável, condições de poder cuidar da mulher e dos fi-
lhos que eram esperados nascer após o casamento.
Algumas outras características eram exigidas para que o can-
didato fosse aprovado pela mãe de Regina: uma, a de que ele fosse
classificado pelos avaliadores da cidade como sendo um homem
sério e trabalhador. Outra, a de que fosse filho de boa e respeitá-
vel família, conhecida por todos, de preferência gente do lugar.
Afonso Elias preencheu quase todas as qualidades exigidas. Desse
modo, o namoro, após ser aprovado pela mãe e receber o aval do
pai, começou, pois não havia restrições graves contra a entrada
dele na família de Regina.
Afonso Elias, após a apresentação definitiva aos pais de Regi-
na, tornou-se namorado dela, isto é, o homem escolhido pela mãe
e pai para formar e criar com ela uma nova família. Em seguida ao
primeiro encontro, quando foi formalizado o namoro e os preparati-
vos para noivado e casamento, Afonso Elias, ao voltar para sua casa,
ao encontrar os amigos de ontem, já estava transformado em outro
indivíduo pela seta do amor. Era um “Afonso Elias” diferente do an-
tigo, um paciente contaminado pela “doença maligna” da paixão.
Ao começar o namoro, Afonso Elias transformou-se, de ho-
mem sensato, ordeiro e exigente consigo mesmo e também com
seus subordinados na loja, em um homem desleixado e despreo-
cupado. Deixava para depois seus afazeres, muitas vezes passou a
esquecer o que precisava realizar.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 131

Talvez animado com a conquista, eufórico e muito seguro de


si mesmo, passou a se importar menos que antigamente com as
consequências de seus atos.
A preferência e a posterior ligação de uma pessoa com al-
guém podem durar anos, mas é raríssimo. O mais comum é perma-
necer meses, semanas ou dias, mas algumas vezes nossa simpatia
por uma pessoa não ultrapassa algumas horas. O amor de Afonso
Elias por Regina continuou, até mesmo após a morte de Pedro.
Após matar o amante de sua mulher, ele ainda a continuou amando
por um longo tempo.
A partir do encontro na casa dos pais de Regina, onde foi pro-
tocolizado o namoro e casamento futuro, o namorado passou a ser
um homem mais comedido. Deixou de ser o indivíduo livre que era
antes, não só para julgar, como para falar e talvez não fosse tão livre
como era, a partir daquele momento solene, nem mais para pensar
ou imaginar. Agora ele passou a ser um homem “apaixonado”.
A partir desse momento, alegre e triste ao mesmo tempo,
toda e qualquer ideia, julgamento, conduta futura, decisões em
casa ou no trabalho, eram julgadas e avaliadas contando com a pre-
sença mental, a representação de Regina, da família de Regina e da
vida futura que teria com Regina.
De uma hora para outra, Regina, sem o desejar, ao invadir sua
mente, a dominava naturalmente e sem esforço. Ela participava, im-
plicitamente, de todas os comportamentos do namorado: planos,
emoções e pensamentos futuros. Como uma rainha poderosa, ao
contaminar o mundo particular de Afonso Elias, controlou também
as emoções, motivações e cognições deste, bem como as decisões
decorrentes desses fatores. Agora, a mente dele estava dominada pela
nova habitante: Regina influenciava profundamente quase todas, ou
todas, as decisões que ele tomaria a partir daquele momento solene.
Durante o relacionamento inicial de um namoro, a grande
atração é a sensualidade. Entretanto, geralmente, à medida que se
esgota a satisfação com respeito à sensualidade, ao acostumarmo-
nos com a beleza de toda hora e de todo dia e, principalmente,
132 - O Presente e Outros Contos

quando essa diminui mais ainda em virtude das rugas, mudanças


físicas, aumento do peso, manchas corporais, fala exagerada, mui-
tas queixas, encurvamento do tronco e outros transtornos, os dois
apaixonados de antes se defrontam com uma relação nova, muito
diferente da inicial e passada.
Os objetivos, que eram claros no início do relacionamento,
se tornam confusos, pois os dois passam a conviver uma nova li-
gação. Eles não são mais as antigas pessoas, mas sim dois seres
recém-nascidos e ainda desconhecidos, pois o objetivo físico que
predominava, coordenava e dirigia a relação, ao diminuir ou aca-
bar, produz o nascimento de duas pessoas desconhecidas. Uma
vez estando mais distantes os antigos conhecidos, os novos per-
sonagens que emergiram tendem a exibir escancaradamente uma
relação egoísta, estranha de um para o outro. O elo que os unia era
a admiração da beleza e o ganho do prazer, como isso foi perdido,
cada cônjuge continua a querer admirar e gozar algum prazer. En-
tretanto, isso não mais existe, pois a fonte inicial não jorra mais e,
portanto, não é mais possível beber daquela água.
Mais tarde, após o casamento e o nascimento dos filhos que,
com frequência, constituem uma mudança de hábitos, surgem no-
vos pensamentos e emoções, e também novas fontes de prazeres
e tormentos. No caso de Afonso Elias e Regina, nasceram três me-
ninos agitados e pirracentos, cada um deles brigava com os outros
constantemente. Dentro do lar todos estavam ligados à mesma cor-
rente de discussões comuns existentes em todas as famílias fecha-
das, uns envenenando a vida dos outros.
Lamentavelmente nenhum deles tinha, nem procurava ter,
consciência de toda a miséria experimentada. A família se desman-
chava, perdia as amarras que unia seus membros. Estranhamente,
talvez por estarem todos aprisionados para sempre, no mesmo bar-
co, à família, à mesmice de todos os dias, às regras imutáveis.
Cercados para sempre por suas famílias destruídas e emara-
nhadas, assistia-se, servindo de modelo, aos habitantes de Lunópo-
lis alcançarem a idade de cem ou mais anos.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 133

Segundo as regras do lugar, era sagrado seguir à risca as co-


memorações usuais do calendário das famílias da cidade: festas
de aniversário e dos cem anos, bodas de diamante, de ouro e de
prata, reuniões familiares com retratos dos filhos, netos, bisnetos
e tataranetos, noras, genros e outras, as comemorações do Natal,
as visitas aos túmulos nos aniversários de mortes, etc.
Entretanto, diante de tantas comemorações, bem como a es-
pera de outras tantas festas, o homem dos cem anos, o casal das
bodas de ouro, bem como alguns jovens, não percebiam que já
tinham morrido e apodrecido há muitos anos. Transformaram-se
em cadáveres embalsamados, restos do que foram antes de serem
aprisionados na beleza do grupo familiar imutável e admirado pe-
los de fora.
A família de Afonso Elias e Regina estava ocupada demais
para examinar a si mesma, a qualidade de vida que cada um deles
levava, a relação de cada um com o meio em que vivia e com os
outros. Não havia tempo nem curiosidade para isso, pois o tem-
po disponível existente era gasto com ataques contra um familiar
ou amigo, nos outros momentos com defesas e contra-ataques dos
mesmos indivíduos. Todo o trabalho mental era desviado para as
pressões acerca da prisão onde todos estavam encarcerados.
As conversas entre eles - Afonso Elias, Regina, os pais dela, os
pais dele e seus filhos - eram cada vez mais superficiais. Uma vez
reunidos, falavam, contavam casos e mais casos, simples e sem in-
teresse para a vida de cada um: Quincas adoeceu, Donato arrumou
emprego, Cidinha vai se casar, Dorotéia cozinha bem e Longina faz
um extraordinário café com leite..
— Quais são as novas?
— Soube da última? Gabriela ficou grávida.
— Outra vez? Já tem um filho...
— Um, não, dois. Será o terceiro e de pai diferente.
— Sabe que Altair está doente?
— Não sabia, não. O que aconteceu?
— Ouvi falar que é coração.
134 - O Presente e Outros Contos

— Meu filho ontem fez uma composição na escola; foi muito


elogiado, ganhou nota 9.5. Tá todo alegre.
— Quando eu tava na escola, era bom nas composições, mas
D. Edina não gostava de mim, assim não dava essas notas boas.
— Você já comeu o pão com caldo do bar do Bira?
— Não, já ouvi falar que é bom.
— Gostoso e barato.
As conversas, durando uma, duas, três ou mais horas, seguiam
esse padrão. Eram relatos de casos aleatórios. Passavam de um caso
a outro, sem que houvesse a menor ligação entre eles, a não ser a
necessidade do interlocutor de falar até se cansar.
Assim nasciam bate-papos sem fim, pois não tinham objetivos
explícitos. Às vezes surgiam discussões infindáveis, sempre com as
mesmas divergências, os assuntos saltando de um a outro ponto
sem nenhuma ligação aparente: do nascimento do sobrinho à mor-
te do tio, da falcatrua do prefeito à beleza do jardim dos Meiras.
Cada um fala mais alto que o outro, todos censuram todos, tudo era
criticado, pois ninguém sabia nada:
— Ora, isto já se sabe há muito tempo, é sempre assim. Você
disse...
— Mentira! Eu não disse isso!
— Como não disse! Eu ouvi você dizer, você já disse isso
mesmo outras vezes.
— Quer dizer que eu é que estou mentindo?
Desse modo começava a discussão, a horrível discussão de to-
dos os dias, de todos os encontros, repetida inúmeras vezes, usan-
do sempre os mesmos argumentos, provocando sempre as mesmas
emoções desagradáveis. Cada discussão era intercalada por críti-
cas, xingamentos, agressões verbais e ameaças de todos os tipos:
— Não aguento mais, o jeito é me suicidar!
— Mentira! Isso você já falou várias vezes!
— Espere para ver!
— Não tolero mais essas suas ameaças. Eu tenho vontade de te
matar! Isso sim! Ouviu? Te matar!
Galeno Procópio M. Alvarenga - 135

Durante anos, inúmeras discussões acaloradas ocorreram,


isto é, discussões mais emotivas que cognitivas, que nunca leva-
vam a coisa alguma. Após cada disputa, nada, mas nada mesmo, era
acrescentado, não havia o menor crescimento no conhecimento
anterior dos dois envolvidos, ou, em muitos casos, entre os cin-
co envolvidos: Afonso Elias, Regina e os filhos. O conhecimento
obtido através desses questionamentos exaltados após terminarem
devido ao cansaço das partes, era sempre nada, nada mesmo: tudo
ficava com como antes. Afonso Elias e Regina discutiam continua-
damente. Os dois retornavam sempre onde começaram, sem que
houvesse um mínimo desenvolvimento. A briga era inútil, pois
não trazia a menor melhoria de vida para a família dos envolvidos.
Apesar de sua nulidade, essas conversas exaltadas sempre retorna-
vam, minutos, horas ou dias depois. As discussões muito emotivas e
pouco cognitivas funcionavam como um CD estragado: repetiam a
mesma melodia várias vezes. As discussões funcionavam como uma
indústria fossilizada fabricando os mesmos objetos mentais, do mes-
mo modo, pois eles, por serem mal feitos para os novos tempos,
não mais se adaptavam ao mundo para o qual eles estavam sendo
fabricados.
Esses diálogos - ou seriam monólogos? - expressavam não só
uma grande falta de conhecimento dos cônjuges, como também
uma menor habilidade para ter prontas outras estratégias diferen-
tes e eficientes para serem usadas. A maioria das conversas era
acerca de casos já escutados, fatos vividos apenas pelos familiares,
ou seja, um mundinho de cada um, eventos simples e concretos,
percebidos e sentidos, ocorridos com a mãe, pai, sobrinhos, tios,
avós e avôs, primos e vizinhos ou companheiros de trabalho e ou
de diversão.
Os falantes nunca examinavam ou interpretavam o que ti-
nham ouvido ou lido (se por algum motivo estranho um deles les-
se). O fato era contado puro, sem interpretações, sem ligação de
um fato a outro ou outros, para que eles pudessem fornecer uma
compreensão melhor e mais profunda.
136 - O Presente e Outros Contos

Tudo era superficial, liso e pobre. Em resumo, o discutido


não era discutido, era apenas narrado e não interpretado a partir de
ideias que não tinham sido faladas, nada era entendido no sentido
de ser relacionado a outras coisas. Estas eram apenas escutadas e
talvez memorizadas da mesma forma que entraram nos ouvidos. As
conversas, às vezes, eram cômicas:
— Na festa ela foi considerada a mais bonita...
— Não foi a mais bonita, foi escolhida a mais charmosa.
Pouco a pouco a vida de Afonso Elias e de Regina foi se trans-
formando. Ele, anteriormente apaixonado pela Regina linda e den-
gosa, aos poucos não mais podia vê-la, ou mesmo ouvir sua voz ou
escutar seus passos dentro de casa. A bela moça que ele conhe-
cera e pela qual se apaixonara há alguns anos, antes de se casar,
não mais existia. Morrera! Com a nova Regina, a atual, ele brigava
constantemente. Ela era um produto indigesto, detestável, fruto da
construção esquisita feita com a ajuda dele, dela e dos filhos do ca-
sal. Não havia mais esperanças. Entretanto, ele não a largava, estava
irremediavelmente agarrado e dependente dela.
Ela casou-se, porque devia se casar, ou seja, precisava casar,
estava na idade de casar, pois sua família achava que Afonso Elias
e a loja dele eram um bom partido. Ela percebeu, desde o primeiro
momento do namoro, que sentia por Afonso Elias mais aversão que
atração, mais compaixão que amor. Regina não foi atraída por Afonso
Elias, foi dominada pelo arquétipo ou cânone estabelecido na cidade:
“casamento”, uma regra ou prescrição que devia ser seguida por to-
das as mulheres de Lunópolis. Casar, naquela cidade, era uma obriga-
ção que toda moça normal e honesta devia cumprir sem contestar.
O modelo ou protótipo a ser seguido era mais importante que
a escolha da pessoa com a qual ela imaginava viver feliz. Confun-
dindo os objetivos, seguindo uma regra e não uma escolha decor-
rente de um estado emocional favorável e de cognições racionais,
as moças da cidade ficavam felizes provisoriamente ao realizarem
o “casamento” ordenado pela sentença condenatória, por terem
completado uma obrigação social e não um ato individual.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 137

Elas deixavam de lado a questão básica: casar para quê? Ao


contrário, imaginavam que viveriam felizes por terem casado, isto
é, cumprido uma obrigação existente na cidade desde que a meni-
na nascia. Ao mesmo tempo supunha estar realizando uma conduta
que a tornaria normal, igual às outras, a exigida para todas.
— Quando você crescer, com quem vai se casar?
Em Lunópolis, a obrigação da mulher era se casar, enquan-
to a do homem era escolher uma profissão que lhe permitisse ter
uma vida independente. O homem ideal para se casar era escolhido
pelos pais da moça, partindo do princípio, por sinal esquisito, de
considerar e dar prioridade à sabedoria dos pais. Segundo esse para-
digma, aceito por todos sem questionamentos, os pais teriam mais
competência para escolher o candidato mais indicado para casar-se
com sua filha. Conforme esse princípio implicitamente institucio-
nalizado em Lunópolis, “o amor apareceria devido à convivência”,
pois, como se sabe, não escolhemos nossos irmãos, nem nossos pais
e, geralmente, gostamos deles. Entretanto, sabemos também que,
muitas vezes, não gostamos de nossos pais ou de nossos irmãos.
Afonso Elias ia se afastando cada vez mais da casa e da espo-
sa. Passou a ficar durante o dia trabalhando em sua loja e à noite ia
encontrar-se com seu grupo, pessoas como ele, que não toleravam
mais ficar em casa junto à mulher e filhos. Regina, por sua vez,
obrigada por leis não formuladas claramente na cidade acerca de
suas obrigações como o cuidado dos filhos, ficava em casa. Pouco a
pouco, foi se acostumando com a morte precoce de si mesma. Não
alimentava mais entusiasmo ou alegria por nada, tudo era monóto-
no, já conhecido, rotineiro e chato.
Entretanto, nada é eterno. Certo dia, durante uma pesada chu-
va, um estrago na calha e no telhado onde ela morava, fez com
que houvesse infiltração de água em algumas paredes da casa onde
morava a família. Reclamou ao marido o ocorrido, mostrou-lhe as
paredes úmidas e o mofo que começava a aparecer. Ele, sempre
muito atarefado e não mais apaixonado por ela, achou desnecessá-
rio perder seu tempo com um problema tão pequeno.
138 - O Presente e Outros Contos

Após muitas reclamações, quando a tosse e o chiado no peito


dos filhos apareceram devido ao mofo, Afonso Elias decidiu procu-
rar um profissional capaz de consertar a calha, o telhado e pintar o
lugar onde apareceu o mofo.
Num fim de tarde, chamou para isso um jovem claro, de olhos
azuis, simpático e extrovertido. Levou-o até sua casa numa tarde de
sábado, para que ele visse o que era necessário fazer e combinar o
preço do serviço. Ao entrar na sala de jantar, Afonso Elias e Pedro,
nome do rapaz, encontraram Regina assentada numa poltrona. Ela
aparentava ter mais ou menos a mesma idade do profissional contra-
tado. Foi apresentada a ele, que, um pouco distraído, examinando
mais a parede, quase não a observou. Entretanto Regina, carente,
olhou para ele e imediatamente ficou impressionada e seduzida pela
beleza física do moço. Pedro era um rapaz forte, alto, branco, quei-
mado de sol. Tinha o nariz e boca bem formada, cabelos aloirados e
cacheados, ligeiramente compridos. Imediatamente Regina compa-
rou o estranho com o marido: ele era o reverso de Afonso Elias.
Naquela noite, após se deitar ao lado do marido, Regina, sem
conseguir dormir, pensou no rapaz durante toda a noite. Ansiosa,
esperava a segunda-feira, que custava a chegar. Fantasiava, ao mes-
mo tempo sentia culpa de estar imaginando o que não era permi-
tido, o que não devia conceber: estar atraída por Pedro, sendo ela
casada.
A segunda-feira chegou e o jovem e esbelto pedreiro come-
çou o serviço. Regina, inquieta, apesar de se acusar por estar gos-
tando do rapaz, automaticamente arrumava um pretexto ou outro
para lhe falar: ora para examinar uma parte da casa, às vezes para
lhe oferecer um café com bolo que ela mesma tinha feito na hora.
O seu dia, antes vazio e triste, tornou-se alegre e dinâmico, antes
mal-humorada, milagrosamente transformou-se em bem-humora-
da. Com a chegada do pedreiro, revitalizou-se, tornou-se uma outra
mulher, alegre, confiante, disposta e muito diferente do que era.
Com tristeza, percebeu que o serviço contratado, sendo pe-
queno, estava prestes a terminar, por mais que ela interviesse para
que demorasse mais tempo. Planejou, sempre com a consciência
Galeno Procópio M. Alvarenga - 139

pesada acusando-a, esticar um pouco mais o trabalho do pedreiro


e, ardilosamente, convenceu o marido a fazer um pequeno barra-
cão nos fundos da casa que poderia, no futuro, servir como quarto
de despejo, cômodo para a empregada dormir, caso tivesse que
pernoitar em sua casa, por um motivo ou outro e, além disso, po-
deria ser usado como um lugar para as brincadeiras dos filhos e dos
amigos deles.
— Em resumo - completou Regina - o barracão trará mais
conforto para nós todos!
Regina rejuvenescia, voltou a rir, a brincar, a ser gentil e, como
resultado dessa mudança, houve uma acentuada melhora no rela-
cionamento dela com o marido. Este, não muito dado às reflexões,
indiferente e sossegado, sem perceber o que estava acontecendo
na sua frente, não tentava decifrar e compreender os motivos da
repentina mudança de conduta e do humor de sua esposa. Afon-
so Elias, entretanto, sentia maior prazer nos contatos com Regina,
consequentemente ficava mais tempo próximo dela.
A princípio não queria concordar com o pedido de Regina
em construir um barracão nos fundos da casa. Entretanto, reagindo
favorável e inconscientemente, não às palavras dela, mas sim ao
modo simpático e agradável da atual Regina que resgatou memó-
rias e emoções a ela ligadas, dos tempos em que era a namorada
meiga e carinhosa, alegre e amável. Apaixonada, não por Afonso
Elias, mas sim pelo pedreiro, transformava-se numa mulher agradá-
vel e sedutora.
A nova mulher nascida desse encontro inesperado atuava po-
sitivamente, sem querer, em Afonso Elias, que a enxergava como
a Regina antiga, a mulher por quem se apaixonara há anos. Foi
dominado por essas emoções, desencadeadas pelo aparecimento
de memórias antigas e não pelas reflexões, que ele acabou por
concordar com a construção do barracão, sem jamais imaginar as
verdadeiras e escondidas intenções de Regina. Assim, Afonso Elias
concordou, para imensa satisfação de sua mulher.
140 - O Presente e Outros Contos

A construção facilitou ainda mais o contato de Regina com o


jovem pedreiro, mantendo e aumentando a relação já começada.
Foi assim que ela se aproximou mais ainda daquele príncipe en-
cantado, que surgiu das trevas. Outros serviços foram inventados
para que Pedro permanecesse mais tempo trabalhando na casa e
próximo dela.
Regina pensava em Pedro vinte e quatro horas por dia. So-
nhava com ele, imaginava conversas possíveis para o dia seguin-
te, o que fazer para aproximar-se mais dele, que tipo de comestí-
vel, no dia seguinte, iria preparar e oferecer-lhe. Nesses instantes,
perguntava-se: “Será que ele irá gostar dessa carne? Não sei. Vou
perguntar-lhe, disfarçadamente, antes de fazê-la.”
Regina transformava-se. Elegante e charmosa, novamente
notava, cada dia mais, ao caminhar pelas ruas da cidade, que os
homens voltaram a virar a cabeça em sua direção. Alguns mais ou-
sados não deixavam de se expressar, fazendo um elogio ao seu cor-
po, rosto e outros atributos físicos. Tudo isso a alegrava e a entu-
siasmava, aumentava sua autoconfiança em conquistar o desejado,
levando-a a ficar mais animada e revitalizada consigo mesma. Pas-
sando a se cuidar melhor, dava a impressão de ser até mais jovem
que realmente era, readquirindo, em parte, a beleza que possuía
quando começou a namorar Afonso Elias.
O entusiasmo continuado, produzido por fantasias relaciona-
das a Pedro, dominava sua mente antes adormecida. Agitada, temia
deixar escapar condutas, comentários ou gestos diante de conhe-
cidos e parentes, reveladores de sua intenção. Aos poucos, per-
cebendo-se incapaz de carregar sozinha sua avassaladora paixão,
decidiu contar seu problema a uma amiga e parente mais íntima
e também mais livre. Animada por essa amiga, que anteriormente
viveu situações semelhantes, Regina, após contar-lhe tudo e depois
ouvi-la, decidiu tentar uma aproximação física com Pedro, pois até
então o amor era platônico e isso já não fora nada fácil.
Em determinada manhã, seu marido, como sempre, tinha saí-
do para a loja e os filhos, todos três, tinham ido à escola.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 141

Excitada à espera da chegada do pedreiro querido, tendo sua


mente invadida pela imagem dele, apressava-se em descartar o ma-
rido, quando esse se demorava a sair de casa para se dirigir ao tra-
balho. Nessa manhã, após se preparar como nunca visando seduzi-
lo, convidou-o para um lanche na cozinha. Geralmente, quando ele
era convidado por ela para comer alguma coisa, ao aproximar-se
da porta que dava acesso à cozinha, estacionava ali, não passava
da porta, ficava esperando receber das mãos dela uma xícara com
café com leite, às vezes um chocolate acompanhado de pão com
bastante manteiga, queijo e bolo.
Nesse dia Regina armou um plano diferente: convidou-o a
entrar e se assentar num banco que ficava na cozinha. Pedro, en-
vergonhado e desajeitado, a princípio recusou o convite, alegando
estar empoeirado e muito sujo. Regina, confiante, segurou-o pela
mão com força e carinho, e tentando ao mesmo tempo aparen-
tar naturalidade nas ações, puxou-o para dentro da copa. Pedro,
confuso, sem poder e obediente, acabou por se assentar bastante
encabulado no lugar previamente oferecido.
Nessa manhã, Regina havia escolhido, para servi-lo, uma xíca-
ra mais vistosa e bonita. Preparou-lhe, ainda com mais carinho, o
de sempre e por fim procurou se assentar bem perto dele.
Frente a frente com aquele jovem belo que não mais saía de sua
cabeça, e cada vez mais animada com a proximidade, mal respirava
e sentia-se ofegante. Ao conversar sobre o casamento, e fingindo na-
turalidade, segurou por instantes o braço de Pedro. Durante algum
tempo, enquanto falava sobre o assunto que estava sendo ventilado,
manteve suas mãos encostadas e presas no antebraço do rapaz.
Nesse instante Pedro notou que as mãos dela tremiam e su-
avam ligeiramente. Os olhos de Regina brilhavam, do seu corpo
bem talhado emanava um calor e perfume agradável e sedutor.
Pedro, automaticamente, começou a ficar excitado, seu coração
bateu mais rápido, e como ela, transpirava. Regina, por sua vez,
continuava falando. Cada vez mais tenso, Pedro pressentia e viven-
ciava o que começava a acontecer.
142 - O Presente e Outros Contos

Num certo momento, como se fosse sem querer, encostou


seu joelho nas coxas dele. Ele, maquinalmente, as afastou, arre-
dando-as um pouco para o lado. Regina, sorrindo, comentou:
— Não gostou? Então me perdoe. Não vou mais te incomo-
dar. Desculpa-me.
— Bem. Não é isso... - comentou, sem saber o que fazer e falar.
Estava iniciado o contato físico, a represa havia sido aberta, a
água que jorrava era pouca, mas um pequeno canal estava aberto.
O mais difícil e complicado tinha sido iniciado naquela manhã de
sol. Ventos leves e suaves sopravam pela primeira vez naquele céu
limpo e azul.
Para a Regina apaixonada, ficou claro que ela podia continu-
ar suas investidas, o pior já fora feito. Percebia que ele não achara
ruim, apenas ficou sem graça, envergonhado, talvez com medo
de alguém aparecer em casa àquela hora. Mas, sem dúvida, havia
gostado.
Pedro, bastante corado e suando levemente, levantou-se para
ir trabalhar. Após se erguer e dar os primeiros passos em direção à
porta por onde sairia, isto é, ao dar as costas a Regina para entrar
no terreiro da casa, ela rapidamente pôs-se de pé e, depois de ca-
minhar em direção a ele, delicadamente e cheia de calor, segurou-o
por trás, dando-lhe um abraço terno, roçando finalmente seus lá-
bios carnudos e molhados na nuca de Pedro. Assustado e amedron-
tado, arrepiado por todo o corpo, sussurrou:
— Cuidado! Pode aparecer alguém! Seu marido, por exemplo.
— Não! Não tenha medo, está tudo fechado. Ele tem a chave da
porta, mas coloquei a tranca. Assim ele não tem como entrar. Além
disso, nunca vem a casa a essas horas.
— Você é uma mulher corajosa!
— Nem tanto. Você é que me dá coragem.
Nesse instante, ao se soltar do abraço de Regina, Pedro pre-
parava-se para retirar-se e iniciar seu trabalho. Mais à vontade e
repleta de confiança nas suas ações, segura de que podia ir em
frente pois o caminho estava aberto, superexcitada após segurar
Galeno Procópio M. Alvarenga - 143

com suas duas mãos finas e delicadas os dois lados da cabeça do ra-
paz, aproximou seus lábios aos dele, apertando-o contra seus seios
e abraçando-o com todo o calor e vigor possível. Nesse instante,
ela pôde perceber dentro de si uma reação física que nunca tinha
experimentado e então beijou-o demoradamente.
Nesse instante, mais animado e excitado, mas ainda amedron-
tado, Pedro, procurou, após beijá-la, escapar dos abraços de Regina
o mais rápido possível e sair pela porta da cozinha que dava para
o terreiro.
— Não gostou? Então peço mais uma vez perdão. Acho que
fui uma tonta. Não devia ter feito isso.
— Não! Ao contrário. Gostei! É que estou assim, sujo, fico
sujando a senhora. A senhora parece que tomou um banho agora,
está cheirando um cheiro gostoso...
— Verdade? Não está achando ruim? Nesse momento ela
aproximou-se novamente de Pedro, chegando o rosto dela muito
perto do nariz dele, encostando-o em seguida.
— Tá cheirando, a senhora é muito bonita - gaguejou o rapaz.
— Obrigada! Fala a verdade? Que bom! Há anos que ninguém
me fala isso. Mas pare de falar “a senhora”, me chama de Regina.
— É que já me acostumei. Vou tentar. Dava a impressão que
Pedro queria sair dali logo, iniciar seu trabalho, escapar de algum
perigo sério.
Regina deixou-o sair, mas antes pediu-lhe:
— Dê-me mais um beijo antes de ir trabalhar, senão não dei-
xarei você sair...
Pedro, sorrindo e sem graça, a abraçou e lhe deu um grande
beijo que durou alguns minutos. Em seguida, transpirando e res-
pirando fundo, o coração disparado, abriu a porta e saiu camba-
leando pelo terreiro da casa. Regina, encostada na porta, quieta,
olhava para ele, feliz com tudo que havia feito. Estava, sem dúvida,
apaixonada por aquele homem pelo qual ela se transformou, logo
no primeiro dia que o viu. Seus olhos encheram-se de lágrimas à
medida que ele se distanciava de seu olhar.
144 - O Presente e Outros Contos

Mais tarde chegaram seus filhos da escola, esfomeados e, em


seguida, seu marido. O almoço naquele dia estava atrasado, mas
ela, com alegria e felicidade, preparou com rapidez pratos excelen-
tes aprovados por todos.
A partir desse dia, o relacionamento entre eles foi aumen-
tando. Os encontros apaixonados, carregados de abraços e beijos,
tornaram-se o principal e mais importante motivo para suas vidas.
Os encontros, inicialmente superficiais, aconteciam dentro da pró-
pria casa da família. Aos poucos, porém, eles se transformaram em
relações cada vez mais íntimas.
As desculpas para a permanência de Pedro na casa de Regina
foram se esgotando. Era, ora um pequeno conserto num lugar, ora ou-
tro, um telhado estragado, um passeio que precisava ser consertado,
mas, finalmente, o serviço de pedreiro terminou. Nada mais podia ser
inventado para ser feito.
Entretanto, ao terminar todos os serviços possíveis, os dois
já haviam combinado outros locais para se encontrarem e também
qual a estratégia para que os encontros fossem escondidos e difí-
ceis de serem suspeitados. Algumas vezes Regina avisava o marido
que iria fazer uma compra qualquer, numa cidade próxima a Lunó-
polis. Estava à procura de um artigo não existente na cidade, por
isso ela tomaria o ônibus. Ao mesmo tempo combinava com Pedro,
que possuía um fusca, para esperá-la na rodoviária da cidade vizi-
nha, junto a uma loja conhecida dos dois.
Uma vez na cidade, e após descer do ônibus, Regina cami-
nhava em direção à loja onde Pedro a esperava, sempre olhando
para um lado e outro, evitando encontrar-se com um conhecido.
Antes de encontrá-lo, e para justificar sua ida à cidade, passava na
loja onde havia o objeto que ela fora comprar e não existia em
Lunópolis.
Logo que Pedro a visualizava, abria a porta do fusca e rapida-
mente após sua entrada, dava partida no carro em direção ao motel
existente na saída da cidade. Uma vez no motel, os dois lá perma-
neciam, se amando por duas a três horas, o tempo necessário para
Galeno Procópio M. Alvarenga - 145

matar a saudade e também para justificar as compras feitas que


eram levadas com ela no ônibus.
Diversas viagens à cidade vizinha foram marcadas e realizadas.
A cada dia, Regina arrumava uma e outra desculpa para dar ao ma-
rido enganado, evitando criar problemas futuros para ela: era uma
ida às compras, dentista, médico, olhar uma exposição, encontrar
com uma amiga íntima que lá morava e diversas outras. Mas Regina,
como todos os homens, foi se habituando a essa rotina. A princípio,
tomava os cuidados necessários para que seu marido nada desco-
brisse. Assim, se marcasse o médico ou o dentista, ela realmente
ia consultar esses profissionais ou, muitas vezes, na última hora os
desmarcava, pois assim se preparava para o caso do marido, por um
motivo ou outro, a acompanhasse algum dia. Tomando esses cuida-
dos, tudo corria bem, nenhum acontecimento extra aparecera para
atrapalhar os planos dos dois apaixonados. Afonso Elias estava mais
preocupado com as vendas de camisas, calças, sapatos, arreios e
outros objetos. Sua paixão pelo dinheiro foi aumentando, à medida
que diminuía o amor pela sua ex-amada Regina.
Com o passar do tempo, com o hábito, o medo do casal foi
diminuindo. Os dois, para facilitarem os encontros, começaram a
se ver em dias especiais na casa da própria Regina, isto quando
ninguém estava em casa, por exemplo, quando o marido viajava e
levava consigo os filhos para um ou outro passeio. Regina, quando
convidada e instada para acompanhar o marido e filhos, inventava
uma doença, um desânimo existente ou qualquer outra desculpa.
Bastava isso para ela, imediatamente, imaginar e se preparar para
entrar em contato com a primeira e grande paixão de sua vida.
Alguns outros encontros ocorreram em lugares escondidos, como
na mata que circundava a cidade, outros ainda se davam na própria
casa de Pedro.
Quando Regina decidia ir a casa de Pedro, para que tudo des-
se certo e a execução do programado deixasse o mínimo de pistas,
Pedro entrava com seu fusca num beco, que lhe servia de garagem
e existente ao lado da casa.
146 - O Presente e Outros Contos

O fusca era conduzido até o fundo da entrada, um lugar pouco


visível olhado da rua. Uma vez ali, ela entrava no banco de trás do
automóvel e se escondia debaixo de um cobertor. Em seguida os
dois se dirigiam para a casa do amante.
Pedro morava com um irmão. Os pais de Pedro, sendo garim-
peiros, moravam no próprio garimpo. Quando o casal ia se encon-
trar na casa de Pedro, uma moradia modesta situada no alto de um
morro, afastada das principais ruas da cidade, ele pedia ao irmão,
caso este estivesse em casa, para que desse uma saída, combinan-
do com ele a hora aproximada a que poderia voltar, sem causar
problemas para ambos. Após o encontro, que era quase sempre
apressado, ele saía como se estivesse só e ia para um ou outro lu-
gar, antes de levá-la em casa e lá entrar pelo beco, como entrara
quando fora buscá-la.
Cada vez mais enamorados e apaixonados, os dois foram se
preocupando menos em esconder os encontros. Muitas vezes es-
queciam detalhes importantes que poderiam servir de pistas para
a descoberta da conduta escondida do casal, quer nas suas idas aos
motéis, quer na casa de Regina, na casa de Pedro ou nas imedia-
ções das estradas.
Com o passar do tempo, querendo ou não, por diversas ve-
zes foram vistos juntos por uma ou outra pessoa. Não tão devagar
como eles imaginavam, quase toda a cidade de Lunópolis já sabia
que Pedro era amante de Regina, mulher de Afonso Elias.
Dias antes do crime, Afonso Elias, segundo informações da-
das por testemunhas após a prisão dele, em lugar de ir para seu
trabalho, ficou fiscalizando, à distância, usando um velho binóculo,
a casa de Pedro, onde o encontro estaria sendo marcado. Dentro
do carro, Afonso Elias, de longe, pôde assistir, com grande sofri-
mento, à chegada do fusca, à entrada dos dois, bastante à vontade
e, finalmente, umas duas a três horas depois, à sua saída no carro
em que haviam entrado. Nesse instante, sendo seu automóvel mais
possante e estando mais perto de sua casa, não foi difícil para ele
chegar a sua casa primeiro que ela.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 147

Ao entrar, após ter fechado a porta, ficou quieto dentro de


casa, como se nada tivesse acontecido. Afonso Elias, aflito, espera-
va a chegada de Regina.
Ela não demorou a aparecer, vestida com uma roupa simples
para não chamar a atenção. Tinha o ar alegre de quem havia rea-
lizado o que desejava. Mas essa expressão inicial com que entrou
em casa, logo se transformou. Após ter aberto a porta, ao entrar na
sala, enxergou o que ela não esperava: seu marido assentado com
a TV ligada no fim da tarde.
Aparentando calma, ele desviou os olhos da TV, fixando-os
em seu rosto. Nesse momento ela estremeceu, imaginou voltar, sair
pela rua, correndo, mas já era tarde demais. Ela nunca havia pensa-
do encontrá-lo dentro de casa naquele horário. Gaguejando, suan-
do frio, pálida e prestes a desmaiar, ela resmungou, sem encontrar
coisa melhor para falar:
— Chegou cedo! A loja ainda está aberta? Regina tentou ini-
ciar uma conversa, mas não conseguiu esconder que estava assus-
tadíssima com a presença dele.
— É. Decidi vir mais cedo. Estava cansado - afirmou Afonso
Elias, sem saber o que falar e como começar a conversa desejada.
— Está doente? Estou te achando um pouco pálido.
— É... - Afonso Elias ia xingá-la, mas, com muito esforço, con-
seguiu se controlar, perguntando-lhe:
— Saiu? Onde foi?
— É... Sim! Ah! dei umas voltas, fui visitar a Rita. Disseram-
me que ela estava doente, mas já está melhor. Era uma gripe sim-
ples, uma coisa à-toa.
— Podia ter-me esperado, ia junto com você.
— Comigo? Nunca sai comigo. Todas as noites você sai para
encontrar seus amigos, para jogar marimbo.
— Você tem saído muito! Disse Afonso Elias, muito irritado,
pronto para explodir e soltar o que sabia.
— Muito? Por que essa pergunta? Regina estava doida para
que o interrogatório acabasse, já estava quase certa de que ele sa-
bia alguma coisa. Talvez soubesse tudo!
148 - O Presente e Outros Contos

— Por nada, curiosidade. As mulheres de hoje em dia saem


muito.
Não saía da cabeça de Afonso Elias a cena presenciada: sua
mulher entrando na casa de Pedro junto com o amante. Ao mesmo
tempo em que falava, inventando o que expressava, internamente,
em sua mente, reviu o fato terrível e escandaloso que presenciou.
Confuso, Afonso Elias pigarreou e perguntou:
— Onde você foi mais, além da casa de Rita?
— Em lugar mais nenhum.
— Jura?
— Claro! Juro!
— O que você foi fazer lá no Alto das Oliveiras?
— Por que pergunta? Você me viu lá? Apavorada com o que
acabara de ouvir, Regina confirmou o que suspeitava: ela fora vis-
ta entrando na casa de Pedro. Estava perdida. Fez a pergunta, já
sabendo a resposta que seu marido ia dar.
— Vi. Vi você entrar na casa de Pedro. Entrou dando os bra-
ços a ele. Sei que você faz isso há muito tempo. A boca de Afonso
Elias espumava, sua cor mudou, seu corpo estava rígido, imagina-
va esganá-la ali mesmo.
— Ah, sei. Percebendo que estava encurralada, sem nenhu-
ma saída, Regina, desesperada, procurou ainda arrumar uma últi-
ma desculpa. Muito desanimada, sabia antecipadamente que não
funcionaria:
— É. É... após sair da casa de Rita, vindo para casa, vi o fusca de
Pedro. Fiz um sinal para ele parar e acabei entrando no seu carro.
Nesse momento Afonso Elias estava possesso, pois ela, sem
se importar, estava confessando o que ele viu, mas não queria
acreditar.
— Você entrou no carro dele? Diante de todos?
— Não sei se você já escutou alguns mexericos que andam
de boca em boca. Acredito que sim! Algumas pessoas, minhas ami-
gas, me contaram. Corre um boato na cidade, nessa cidade atrasa-
da, que eu sou amante de Pedro.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 149

— Eu também ouvi isso e hoje comprovei. Vi com meus olhos


você descendo do carro e entrando na casa dele. Afonso Elias não
queria contar tudo que sabia naquele momento, mas não aguentou
esperar.
— Estou te falando a verdade, retrucou Regina, interrompen-
do a fala de Afonso Elias
— Falando a verdade? Você é uma mentirosa!
— Não sou de mentir! O que vou contar é a verdade! Após ter
começado a falar, ao arrumar uma saída podre para dar, mas, enfim,
era uma desculpa, tomou mais coragem.
— Não me interessa ouvir. Vi. Vi, ouviu?
— Mas vou lhe contar, pois é a verdade. Como não tinha
como conversar com ele em particular, pois não devia ficar con-
versando com homem em plena rua, pois, dessa maneira, estaria
confirmando o boato que corre, e também como não podia trazê-lo
para conversar dentro de casa, sem alternativa, eu própria pergun-
tei a ele onde nós podíamos conversar sem ser incomodados por
outras pessoas.
— Aí foi para o barracão dele?
— Onde mais poderia ir? Precisava pôr um fim nesses mexe-
ricos injustos. Conversamos durante algum tempo.
— Duas horas, marquei no relógio.
— Não percebi que demorei tanto tempo. Acredito em você.
O tempo necessário para que nós dois, eu e ele, pudéssemos des-
cobrir um meio de não sermos injustiçados com essas afirmações
descabidas.
— Afirmações descabidas?
— Sim, nunca tive nada com ele. Nada mesmo! Eu juro! Já
conversamos algumas vezes, na maioria das vezes, ou melhor, todas
as vezes, as conversas foram sobre os consertos que ele fez aqui em
casa, ora era uma coisa, ora outra.
— Você acha que eu vou acreditar nisso?
— É a verdade verdadeira. Conversamos sobre as fofocas, pois
isso está atrapalhando meu casamento, minha tranquilidade e a de
nossos filhos. Além disso, está atrapalhando a vida dele também,
150 - O Presente e Outros Contos

dificultando sua vida amorosa. Sua namorada comentou o que você


está suspeitando, que eu sou amante dele. Está um inferno!
— E afirma que não é? Todo mundo já sabe!
— Não sou! Nunca fui! Não somos nem muito amigos. Acre-
dite ou não, queria conversar com ele a respeito dos boatos que
têm-me perturbado. Saí até mais para isso e tive a sorte de vê-lo
passar e me ver. Decidimos, para que não surjam mais boatos,
não nos encontrarmos mais. Eu lhe peço, mesmo se precisarmos
de um pedreiro, para fazer qualquer conserto num outro lugar,
para não o chamar a ele. Ele não deve vir! Vamos procurar um ou-
tro, pois só assim poderemos acabar com essas fofocas maldosas.
Temos que fazer tudo para tentar acabar com essas conversas!
Eu conversei com Pedro sobre isso. Disse a ele que não mais irei
chamá-lo, que ele não deve vir mais aqui, pois, caso contrário, as
pessoas voltarão a falar acerca dessa infâmia.
— Com você, não tem mesmo jeito. É uma mentirosa fria!
Nesse momento ele se levantou, caminhou até o banheiro
e jogou um pouco de água no rosto. Achava que nada mais tinha
a fazer naquele momento. Ainda com a face molhada, levantou
a cabeça e olhou para o espelho, não gostando da cara que viu
refletida.
Naquele mesmo instante, Afonso Elias começava a imaginar
outros planos. Não havia mais nada para ser discutido, pois uma
discussão visa compreender um evento complexo. Aquele torna-
ra-se simples. Ao sair do banheiro, após pegar um copo, foi até
a geladeira para pegar o litro de leite. Devagar, olhou fixamente
para o leite branco que saía do furo do pacote, deixando o leite
cair bem devagar de modo a fazer espuma no fundo do copo. Só
interrompeu essa atividade, quando o mesmo estava entornando.
Vagarosamente, enquanto observava, através da janela, um
terreno limpo e vazio, ele foi engolindo o leite sem sentir seu gos-
to. Em seguida voltou ao espelho, examinou novamente sua face e
saiu de casa, cabisbaixo, em direção à casa do amigo Roberto. Lá,
Afonso Elias esperava encontrar mais paz, ao jogar marimbo com
seus companheiros de muitos anos.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 151

Na manhã seguinte foi até sua fazendinha, que ficava a cerca


de cinco quilômetros de sua casa. Após dar as ordens simples e
de todo dia aos seus subordinados, de vistoriar o gado junto ao
seu ajudante direto, caminhou automaticamente até o chiqueiro e
ali, durante algum tempo, ficou observando alguns porcos que se
alimentavam.
Num certo momento, decidido, indicou com o dedo um dos
porcos ao seu empregado, o qual deveria ser pego e levado até o
terreiro, em frente à sede da fazenda. Iria matá-lo, pois estava pre-
cisando de carne e também de um pouco de toucinho.
No terreiro, Afonso Elias tirou da bainha o punhal que sem-
pre trazia consigo e rapidamente, com sua habilidade costumeira,
deu uma certeira punhalada no coração do porco. Minutos depois,
o leitão já estava sendo aberto e limpo, para retirada da carne e
dos órgãos. Afonso Elias lavou com carinho o punhal, olhou-o por
alguns segundos e, finalmente, após algum tempo, guardou-o na
bainha presa à calça.
Sem conseguir pensar em outra coisa, Afonso Elias, dirigindo
seu carro um pouco aleatoriamente, acabou por chegar até a cida-
de de Jaboti, próxima a Lunópolis, possuidora de um comércio e
população maiores. Na cidade procurou uma loja que vendia ar-
mas, uma casa onde, há anos, comprara o punhal. Foi atendido por
um senhor, que parecia ser o proprietário da casa. No momento
não havia outros compradores na loja, a não ser Afonso Elias.
— Bom dia! - Saudou o vendedor.
— Bom dia, falou com dificuldade Afonso Elias.
— Em que posso servi-lo? - perguntou o comerciante de for-
ma educada. A conversa continuou e Afonso Elias explicou ao co-
merciante, com alguma dificuldade, que fora ali comprar uma arma
para dar de presente a um amigo que iria se casar. Não saía de sua
mente a imagem dele, usando uma boa arma, matando Pedro, Re-
gina, e depois se suicidando. Internamente ele enxergava seu ini-
migo morto e ensanguentado, espichado no chão, bem como sua
mulher. Era difícil ver a si mesmo morto.
152 - O Presente e Outros Contos

Com muita calma e detalhes, o comerciante foi mostrando


a Afonso Elias uma e outra arma. O proprietário da casa, pegando
cada arma existente no armário, ia colocando-as em cima do balcão
e, resumidamente, sem demonstrar a mínima emoção, diferente da
angústia de Afonso Elias, comentava:
— Esta aqui, tá vendo? É uma arma bonita, atrai à primeira
vista. Entretanto vem de um fábrica ruim, dá muito defeito. Você
aponta e quando aperta o gatilho, ela pode mascar. Imagine você,
em perigo, atirando numa pessoa e o tiro não saindo.
— É... não daria certo, comentou Afonso Elias, imaginando
estar atirando em Pedro.
— Custa barato, mas eu não a indico.
Já estava parando de falar, quando foi até a prateleira e, após
subir em uma escadinha, tirou outra arma.
— Esta é uma espingarda...
O vendedor carregava a arma com cuidado e após colocá-la
em cima do balcão, prosseguiu:
— Com essa é difícil errar um tiro. O tiro faz um buraco enor-
me por onde sai. É uma excelente arma de caça. Se você estiver
procurando, para dar ao seu amigo, uma arma de caça, esta tem um
bom preço e é excelente. Pode comprar sem susto, mata mesmo
qualquer animal selvagem.
— Estou pensando nisso. Mas pode me mostrar outras? Estou
vendo ali... apontou para uma outra.
— Sim. Existem muitas armas. Cada uma é um pouco dife-
rente, têm serventias diferentes também. Nesse instante, caminha
novamente até a prateleira, procura uma e outra, depois abre uma
gaveta e retira dela um revólver enorme.
— Bonito esse! É muito caro? É bom?
— Veja aqui. Tá vendo? Olhe aqui a marca! É uma Smith e
Wesson, isso é arma para toda a vida. Não dá defeito. Nesse instan-
te, inconscientemente, como se estivesse limpando a poeira que
assentava sobre o belo revólver, passou a palma da mão nela e co-
mentou, sorrindo para o comprador tenso:
Galeno Procópio M. Alvarenga - 153

— Serve para matar uma pessoa com um só tiro, caso você


tenha boa pontaria. Serve também para um duelo, mas parece que
isso não existe mais, mas de qualquer modo, ela servia para isso
nos tempos de nossos avós, pois tem maior rapidez caso o outro
comece a fazer o movimento do dedo ao mesmo tempo. Além dis-
so, serve para assustar seu inimigo, pois só a visão dessa arma ame-
dronta o bandido.
Interrompe por segundos a narrativa e continua:
— Desde que o bandido conheça armas. Tem um bom preço
e eu lhe faço um bom desconto pagando à vista. Você estará bem
servido e não vai se arrepender. Não mais irá precisar de outro re-
vólver e, como todos os proprietários de Smith e Wesson, seu ami-
go não irá dispor dele nunca mais. Será um revólver de estimação.
Nesse momento, Afonso Elias, ao ouvir os comentários do
comerciante, desistiu da ideia de se suicidar. Refletiu que caso fi-
zesse isso, não poderia usufruir, por muito tempo, do prazer de
ter uma arma como aquela. E como ficaria seu comércio? Como
pagar um preço tão alto por um revólver que seria usado durante
um período tão pequeno, pois imaginava realizar seu trabalho com
bastante rapidez. Seria interessante poder apreciar o resultado da
ação provocada por uma arma tão formidável. Diante do silêncio,
o comerciante recomeçou sua conversa:
— Já vendi armas como a Smith e Wesson para maridos que
foram passados para trás por suas mulheres. Mesmo que eu perca as
vendas, acho que não é uma boa forma de resolver um problema.
Certos maridos matam a esposa, a mãe de seus filhos, a mulher que
eles amaram num grau tão alto, que são capazes de destruir suas
próprias vidas por elas, matando-as e indo para a prisão, exatamente
quando surgiram alguns fatos que mostravam que elas, as esposas,
não gostavam mais deles. Já tive alguns fregueses que me contaram
que, na hora do desespero, quando descobriram que foram traídos
pelas suas mulheres, tiveram vontade de esganá-las. Entretanto ou-
tros, enfrentando o mesmo problema, veem isso com a maior natu-
ralidade, como um fato comum que sempre existiu.
154 - O Presente e Outros Contos

Alguns chegaram a pensar que as relações familiares melhora-


ram com a traição de suas mulheres. Como se vê, cada um resolve
esse problema de maneira diferente.
— É... eu vim aqui para comprar uma arma de caça para mim.
Tenho uma fazendinha e às vezes gosto de sair pelo mato para caçar
um gavião que está matando meus pintos. Não gosto de matar rapo-
sas, veados e outros animais desse tipo. Sou um homem de paz.
— Eu também sou assim. Não sou de briga, apesar de vender
as armas para as brigas. Mas, e seu amigo? Você não vai levar uma
arma de presente para ele, como disse no início da conversa?
Nesse instante, Afonso Elias percebeu que estava confuso,
pois, ao explicar o motivo da compra, havia falado que era para dar
um presente ao amigo que se casaria.
— É... sim, para ele, sim! Mas como gosto de caçar, no mo-
mento pensei em comprar, também, uma para mim.
— Ah! Entendi. Vai levar duas armas. Vou lhe mostrar um artigo
de luxo para o que você quer. Servirá para o seu amigo e para você.
Nesse instante o comerciante, saindo de onde estava, cami-
nhou até o cômodo de dentro da loja e voltou com um estojo. Com
cuidado, abriu-o, limpando a poeira com as mãos como fizera com
o revólver. Tirou a espingarda, levantando-a diante dos olhos tris-
tes e indiferentes de Afonso Elias.
— Olhe que beleza! - exclamou o comerciante, segurando
com uma das mãos a bela arma, e prosseguiu: — É uma arma alemã
de excelente qualidade. Com esta arma você mata um gavião em
pleno voo, facilmente, principalmente se tiver um bom ponto de
apoio. Sem apoio, só para os profissionais. Tenho certeza que seu
amigo e você vão gostar. Não sei se estou falando com um profis-
sional?
— Não, não sou profissional. Atiro mal.
— Mas com essa não tem como atirar mal. Nesse momento o
homem detalhou as vantagens da mercadoria que ele vendia. Após
dar o preço e fazer o desconto à vista, como tinha falado, a conver-
sa foi terminando:
Galeno Procópio M. Alvarenga - 155

— Fico com esta. Pode fazer um preço melhor, preciso tam-


bém de munições. Vou levar só uma, faço uma experiência com ela.
Se for boa, compro outra para meu amigo.
— Ah! Sim. Vou lhe vender uma caixa de balas, fazendo 50%
de abatimento na caixa, tá bem? Garanto que você irá adorar essa
arma, como adoramos a mulher amada. Voltará aqui para comprar
outra para dar a seu amigo. Sei que será um belo presente, para
amigo nenhum botar defeito.
— Sim, certo.
O comerciante arrumou um espanador para tirar a poeira na
parte de fora do estojo e, cuidadosamente, embrulhou a arma e a
caixa com 50 munições para aquela arma.
— Um conselho para você e para seu amigo: devem usar sem-
pre boas munições, dessa marca, senão estragarão a arma. Além
disso, limpe-a, quando preciso. Bobagem, sei que você deve saber
isso tão bem como eu.
— Ah, sim. Escolhi essa para fazer um teste. Meu amigo gosta
de armas, ele as conhece bem. Eu também conheço um pouquinho
de armas. Meu pai tem várias delas em casa.
Afonso Elias não sabia o que falar. Estava perdendo tempo.
De fato ele não estava interessado naquela conversa monótona e
falsa. Ele queria sair dali o mais rápido possível. Não foi à loja para
comprar uma arma de caça, pois nem sabia o faria com ela. Com-
prou a arma inutilmente, para despistar seu verdadeiro propósito.
Após pagar em dinheiro o preço combinado, saiu da loja, jogando
com raiva a arma no banco de trás do carro. Em seguida entrou e
pôs o carro a funcionar, voltando para Lunópolis.
Os malditos pensamentos dominavam sua cabeça, ele remoía
suas ideias desencontradas, ainda não estabelecera uma decisão final
a ser tomada. Estava humilhado. Achava que não merecia sofrer tudo
aquilo que estava ocorrendo.
Nos dias seguintes, Afonso Elias não falou mais com Regina.
Saía de casa para trabalhar, como se nada tivesse acontecido. Nervo-
156 - O Presente e Outros Contos

so e envergonhado, evitava atender os fregueses na sua loja, imagi-


nando que todos sabiam da conduta de infidelidade de Regina. Tinha
grande dificuldade de se comportar como antes, não mais conseguia
ser espontâneo, conversar e sorrir amigavelmente. Tudo para ele
passou a ser sério: não era mais o mesmo homem de antes.
Quatro dias após a briga com Regina, quando o relógio da
Igreja batia dez horas da manhã, um amigo de Afonso Elias chegou
à sua loja e chamou-o a um canto. Em voz baixa, disse-lhe:
— Tenho más notícias, quer escutar?
— Sim! Claro!
Afonso Elias estremeceu, vendo a fisionomia preocupada e
grave do amigo.
— Quando caminhava em direção à praça, antes de passar
diante de sua casa, avistei de longe o Pedro entrando lá. A rua esta-
va vazia, eu estava distante, mas conheço o modo dele andar. Pode
ser outro, mas tenho quase certeza que é ele.
— Canalha! Eu vou até lá agora mesmo! Eu pego esse cachorro!
— Quer alguma ajuda? Se quiser eu irei com você.
— Não! Obrigado, isso é assunto meu.
Em seguida, sem falar com mais ninguém, Afonso Elias saiu
da loja, quase correndo em direção a sua casa, distante não mais
que duzentos metros de sua loja.
Ao chegar a casa, com a respiração ofegante, sentiu o coração
disparar. Suas pernas estavam trêmulas. Ele suava. Sem fazer baru-
lho, percebeu, pelo tom das vozes, que Pedro e Regina estavam
conversando em voz baixa, na porta da cozinha. Distraídos pela
conversa, os dois não puderam perceber a aproximação de Afonso
Elias. Pedro, encostado no portal, tendo as costas voltadas para o
terreiro da casa, escutava Regina que, em pé, permanecia dentro
da cozinha de frente para a porta onde ele se encontrava.
Afonso Elias, em vez de entrar pela porta da frente da casa
e ir até a cozinha onde eles estavam, deu uma volta e entrou pelo
beco situado ao lado da casa, a entrada dos fundos por onde Pedro
provavelmente entrara.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 157

Os dois continuaram sussurrando. Afonso Elias, mesmo sen-


do incapaz de decifrar o que eles conversavam, pôde notar que,
em certos momentos, o som aumentava, provocado pelas risadas
contidas que ambos davam por segundos. Em seguida, os cochi-
chos entre os dois retornavam.
Diante das risadas, talvez até nervosas e não de alegria, Afon-
so Elias estremeceu, seu ódio aumentou. Caminhando com extre-
mo cuidado para não fazer barulho, foi-se aproximando da porta
da cozinha onde eles conversavam. Passo a passo, locomovendo-se
através da parte não construída da casa, onde ficava a garagem,
procurava alcançar Pedro pelas costas. Temia encontrá-lo frente a
frente.
Ao chegar aos fundos da casa onde a construção terminava,
contornou-a e foi andando nas pontas dos pés em direção à porta
da cozinha onde os dois estavam. Nesse ponto, Afonso Elias pôde
visualizar o perfil de Pedro de costas, parado na entrada da porta
da cozinha, tendo uma das mãos levantada e apoiada na ombreira
da porta. Agora ele estava a menos de dois metros do pedreiro,
que, ainda sem nada perceber, conversava no mesmo tom de voz
com Regina. Esta, sem se mexer, continuava dentro da cozinha de
frente para onde ele se dirigia.
O coração de Afonso Elias disparou diante do inimigo: estava
pronto para enfrentá-lo. Seus músculos crisparam-se, toda sua raiva
subiu ainda mais ao vê-lo tão próximo. Era insuportável ver os dois,
dentro de sua casa, despreocupados, numa manhã de um dia qual-
quer, conversando e, pior, rindo. Afonso Elias não teve mais forças
para tolerar a cena assistida. Era preciso pôr um fim, de uma vez
por todas, à cena que presenciava bem defronte dele.
Aos poucos foi-se aproximando mais, cuidadosamente. A rai-
va aumentava, chegava ao seu limite máximo. Afonso Elias estava
muito próximo das costas de Pedro, ainda num ponto não visível
para Regina, pois se ocultava atrás da parede anterior à porta. Pe-
dro, parado, conversando, tinha parte da cabeça dentro do cômo-
do da cozinha. Animado com a conversa, nada notava.
158 - O Presente e Outros Contos

Agora Afonso Elias podia ouvir claramente a voz de Pedro e


de Regina, escutando também a respiração de seu inimigo. Neste
momento, ao aproximar-se mais ainda de Pedro, cerca de meio
metro, Afonso Elias enfiou sua mão direita no bolso, retirando da
bainha o punhal com o qual matava seus porcos, uma atividade
na qual ele era bem treinado, fazendo com que nunca errasse um
golpe direto no coração.
Deu mais um pequeno passo, muito devagar. Nesse instante
ele pôde perceber que seus braços, naquele lugar onde estava, al-
cançariam com facilidade as costas de Pedro. Bastava mais um passo
pequeno, para ficar junto às costas do pedreiro. Afonso Elias andou
mais um pouquinho, alcançando e visualizando a totalidade das cos-
tas do amante de sua mulher. O ódio alcançava seu ponto mais alto.
Nesse instante, com toda raiva que carregou por dias, fincou o pu-
nhal nas costas de Pedro, em direção ao seu coração.
Quando Afonso Elias chegou muito perto de Pedro, Regina,
que conversava com ele de dentro da cozinha e de frente para o
terreiro, num relance percebeu, desesperada, a presença e a fisio-
nomia estranha e agressiva do marido, Nesse momento também en-
xergou, em uma das mãos dele, o punhal pronto para ser cravado
nas costas de Pedro. Mas Afonso Elias já decidira o que fazer. Sob
o olhar apavorado de Regina, Afonso Elias completou todo o movi-
mento do braço que começara após a retirada do punhal do bolso.
Paralisada e horrorizada com a cena a que assistia, como um
animal acuado, Regina deu um grito estridente de pavor:
— Pare! Não! Não faça isto! Oh, meu Deus!
O decidido estava completado. Já era tarde. Os gritos foram
em vão. Afonso Elias estava possesso e não ouvia nada, seguia ape-
nas seu impulso sanguinário. Seu organismo não suportava a car-
ga que pesava sobre ele. Precisava livrar-se daquele peso terrível
que dominava sua mente. Não enxergava outra saída, apenas este
estreito caminho, uma solução simples. O sangue esguichou das
costas de Pedro, tingindo de vermelho escuro os braços e roupas
de Afonso Elias.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 159

Logo em seguida, quando o pedreiro começou a cair e girou


um pouco o corpo, uma segunda punhalada foi dada, agora na fren-
te do tórax, no ponto central onde se encontrava seu coração.
Não houve mais nada a fazer, tudo foi muito rápido. Pedro,
tendo os olhos esbugalhados, após girar o corpo começou a cair
sem pronunciar uma só palavra. Espatifou-se, de uma só vez, no
ladrilho da cozinha. Ao cair, ainda tentou instintivamente agarrar-
se, mas sem conseguir, na porta da cozinha que estava semiaberta.
Seu corpo, marcado por dois profundos furos, ao arranhar a porta
deixou um rastro de sangue que saía com força de seu corpo agoni-
zante. A queda do corpo de Pedro, esguichando sangue, provocou
um barulho inesquecível e desagradável. A respiração de Pedro
rapidamente foi se tornando mais difícil e, em poucos segundos,
parou para sempre.
Afonso Elias olhou para aquele corpo furado nas costas e no
peito. Estava disposto a dar muitas outras punhaladas, caso fosse
necessário. Precisava descarregar seu ódio. Entretanto, um pouco
já mais calmo e ciente de sua habilidade, notou que não havia mais
nada a fazer. Estava tudo terminado.
O corpo de Pedro, estendido no chão frio da cozinha, furado
na frente e atrás pelas duas punhaladas mortais desferidas com ódio
pelas mãos hábeis de Afonso Elias, não representava mais perigo e
vergonha. Dos orifícios brotaram jorros de sangue que, preguiço-
sos, se espalharam pelo seu corpo em direção ao piso de cerâmica.
A face espantada do jovem foi a última comunicação dele com o
exterior antes de morrer. Desenhos sinuosos foram sendo criados
pelo sangue que escorria do interior de seu corpo já sem vida.
Tudo não durou mais do que dois ou três segundos: Pedro estava
morto! Não poderia mais ameaçar a paz da família de Afonso Elias!
O drama estava terminado.
Regina, a princípio assombrada, permaneceu por segundos sem
se mexer. Em seguida, vendo o ódio do marido e a arma suja de san-
gue em sua mão, imaginando ser a próxima a ser assassinada, correu
em direção à porta de entrada da casa e, após abri-la, saiu correndo
pela rua gritando por socorro.
160 - O Presente e Outros Contos

Afonso Elias ficou vigiando a vítima por alguns minutos, sem-


pre segurando com sua mão direita o punhal manchado de sangue.
Logo depois, a casa foi-se enchendo de curiosos. Todos os morado-
res de Lunópolis foram verificar o que tinha acontecido. Todos se es-
pantaram com o quadro observado. Ninguém falava nada, o silêncio
era absoluto. Afonso Elias esperou a chegada da polícia, ainda man-
tendo o punhal preso entre seus dedos da mão, olhando impassível
o corpo de Pedro.
Diante dos policiais, Afonso Elias, assustado com tudo que
aconteceu e com seu próprio comportamento inusitado, permane-
ceu quieto, não oferecendo nenhuma resistência diante da ordem
de prisão. De qualquer modo, ele já se acalmara. Poderia dormir
melhor essa noite, mesmo sendo na delegacia da cidade...
O ASSALTO

Domingo: o relógio da igreja bateu quatro horas da tarde.


Sérgio escrevia no computador.
— Doutor! Doutor! Fui assaltada. Estou desesperada!
— Assaltada? Como? Onde? Fala, Flor.
— Não aguento nem falar, doutor. Vou assentar-me. Estou
quase desmaiando!
— Sente-se. O que foi? Conta! O que ocorreu?
— Quase me mataram. Estou com o pescoço todo ferido.
— Foi aqui perto?
— Não aguento falar.
— Pivetes? Quem foi?
— Estou nervosa demais.
Flor caminha na sala para um lado e outro. Assenta-se. Respira
fundo. Levanta-se. Passa a mão pelo pescoço, mostrando marcas de
unhas. Enfia os dedos nos cabelos crespos, levantando-os, dando a
impressão de uma vassoura virada.
— Roubaram-me, nem sei quanto! Sessenta reais, não... du-
zentos ou trezentos...
— Como? Saiu de casa para passear com trezentos reais?
— Não. Tinha cinco. O dinheiro que me roubaram, hoje,
deve estar valendo seiscentos reais. Mais ainda com a inflação. Fo-
ram cruzeiros, cruzados, cruzados novos. Nem sei mais!
— Não estou entendendo nada. Como você foi assaltada, arra-
nharam seu pescoço, se você saiu sem dinheiro? Para piorar, você
disse que foi em cruzeiros, cruzados, reais. Que confusão!
162 - O Presente e Outros Contos

— Fui assaltada, sim. Estou com ódio. Vou arrumar um ad-


vogado para cuidar do caso. A mulher disse que eu fiz um abaixo-
assinado contra ela no emprego. Ela saiu do serviço. Ele, sem mo-
tivo, de repente quase me enforcou. Olha meu pescoço: as marcas
das unhas. Está tudo doendo. Arrumaram um táxi para mim. Eu só
tinha dois reais. A Edina ficou lá.
— Não entendi. Quem te assaltou? O que roubaram?
— Doutor, eu já lhe falei que tinha um “pepino” para resol-
ver. Pois é isso. Este é o pepino.
— Mas você foi roubada? Alguém levou seu dinheiro?
— Bem... saí com Edina, minha prima. Tem uma mulher lá no
Palmital, às vezes empresto-lhe dinheiro. Uma vez ou outra.
— Empresta dinheiro? Seiscentos reais?
— É... ou mais. Deve ser uns mil, com a inflação. O senhor sabe
como é... Tudo subiu. Mas ela me paga, desgraçada!
— Mas não foi um homem?
— Foi. Foi o marido dela. Eu nem o conhecia.
— E emprestou dinheiro para ela?
— Coisa antiga. Gente fina, empresto há três anos.
— E nem conhecia o marido de sua amiga de três anos?
— Não! É... conhecia. Trabalha na “Fit” em Contagem.
— Que história confusa. Ainda não entendi nada!
— Eu também não. Estava no bar assentada com meu amigo,
conversando. Ele veio sem falar nada e quase me enforcou. Olha
as marcas das mãos dele. Tá doendo muito. Acho que queria me
matar. Eu disse a ele:
— Vamos conversar direito! Não tenho nada contra ele. O
irmão dele está condenado a vinte e cinco anos. Ouvi dizer que ele
também tem um ou mais processos na justiça. Acho que precisa
urgente de um psiquiatra. Deve estar louco da cabeça.
— Mas como? Por quê? Se você nem o conhecia direito...
— Ele é marido dela. Acho que ele ficou com ciúmes de mim.
Eu estava com Fred, que tem os olhos azuis. Agora eu só gosto de
homem de olhos azuis.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 163

— Outro dia um “intaliano”, que também trabalha na “Fit”,


me cantou. Um homem lindo, doutor. Agora está usando homem
branco gostar de negra. Os brancos não estão gostando de brancas.
As negras são mais quentes.
— A cada hora a história fica mais confusa. Era um assalto e
você nem dinheiro para o táxi tinha. O cara te apertou o pescoço
e você diz que era por ciúme?
— Foi no portão da casa. Ele saiu de repente. Eu estava com
Edina, conversando com a mulher dele... ele veio...
— Você não disse que estava no bar assentada? Que sua pri-
ma estava lá fora? Você gostaria de...
— Não. Eu estava na porta da casa dele. Ele é mais velho,
deve ter uns cinquenta anos. Quem falou que gosto de velho?
— A história de assalto já está mudando para namoro.
— É... quando eu vou lá na casa dela. É, vou muito lá, ficamos
horas conversando. Ele sempre passa de um lado para o outro, só
para me vigiar. Ele anda pela casa e me olha com cara de apaixonado.
Eu penso é que ele está caído por mim. Depois que ele me agarrou
no pescoço, está tudo marcado. Olha aqui, ele me paga, aquele des-
graçado. Ele ficou na cadeira assentado e começou a chorar. Ficou
parado, chorando. Aí, eles chamaram o táxi. O motorista ficou com
dó de mim e só me cobrou os dois reais que tinha.
— Como que ele ficou assentado, se foi na porta da casa? A
cada hora você conta que a cena foi num lugar diferente. O dinhei-
ro perdido, quanto foi?
— Eu sempre emprestei dinheiro para ela, gente boa. É para
ela pagar o barracão onde mora. Mas ela falou que fiz um abaixoas-
sinado no serviço dela.
— Você já falou sobre isso. Você sabe o que é abaixoassina-
do? Como você iria fazer um abaixo-assinado no serviço dela? E
para quê? Onde ela trabalha?
— Não sei, não senhor. Não sei o que é abaixoassinado. Ela
trabalha em casa de família como eu. Mas já foi despedida. Acho
que é uma assinatura. Não é? Ela perguntou-me se eu queria tro-
164 - O Presente e Outros Contos

car a dívida que ela tem comigo, que é de trinta reais, por um che-
que de oitenta reais. Este cheque é de outra pessoa e vai vencer
em janeiro. Eu ficaria com o cheque e daria mais cinquenta reais
para ela. Ela pensa que sou boba. Acha que eu não sei o que é
cheque pré-datado. Todo o dia a televisão fala sobre isso. Que as
pessoas não devem fazer compras a prazo, que os juros estão altos
e que é melhor dar cheques pré-datados para pagar as compras.
Ela quer é me tapear, dando-me um cheque. Ela não me passa a
perna nunca.
— Ela está te devendo trinta reais? Você não falou que tinha
sido assaltada em mais de seiscentos reais?
— Mas, e os juros? Eu lhe emprestei em cruzeiros, reais, não
sei mais, durante a inflação... foi muito dinheiro. Uns cinquenta
reais ou muito mais, até uns mil, não sei bem não. Eu sei é que ela
me deve e tem que me pagar.
— Talvez isto sirva para você aprender, Flor. A gente só
aprende, errando.
— Mas ela é amiga antiga. Ela trabalhava, o marido também.
Ele é paquerador, mas ela também tem um amante que dá dinheiro
para ela. Para isso ela não é boba não.
— Afinal, você os conhece há muito tempo. Gosta dela e em-
presta dinheiro quando ela precisa. Estava na casa deles e ele se
enfureceu. Por quê?
— Já ouvi dizer que ele colocou até detetive para saber com
quem eu ando e aonde vou aos fins de semana. Eu já tinha notado.
Lá na rodoviária, onde passeio aos domingos, um homem sempre
anda me vigiando. Quando fui tomar uma coca-cola, ele conversou
comigo. Até pediu-me um pouco do refrigerante e eu, boba, lhe
dei o resto da lata. Ele disse que a coca-cola estava com gosto de
meus lábios. Acho que o marido de minha amiga é apaixonado por
mim. Ontem fui lá no bairro. Depois fui até a casa dele junto com o
amigo dos olhos azuis. Foi este amigo que chamou o táxi para mim.
Tinha muito tempo que não andava de táxi. O motorista até que
tentou me cantar. Foi muito simpático comigo. No caminho...
Galeno Procópio M. Alvarenga - 165

— Termine a história. Passou para outra, a do motorista.


— É... bem... acho que ele me apertou o pescoço de ciúme.
Tanto que se arrependeu e chorou. Falou que na quinta-feira vem
aqui em casa trazer o dinheiro que sua mulher me deve. Mas que
precisa muito conversar comigo. Estou doida para chegar quinta.
Ele não é de se jogar fora. Será que saio com ele? O que... o que o
senhor acha?
ÂNGELA

Até hoje fico sem saber se o fato aconteceu, ou se foi um


sonho. Eu tinha dezoito anos naquela época. Quando relato essa
história para meus amigos, alguns acham que ela foi inventada, ou-
tros pensam que foi um sonho desses que a gente fica em dúvida se
ocorreu ou não, e outros, mais crédulos, pensam que a pessoa que
apareceu para mim, e que denominei de Ângela, não passa de um
ser de outra galáxia. De minha parte penso que um anjo apareceu
para mim e tanto é assim que não podia ser um ser comum. Foi
o encontro mais emocionante que tive em toda minha vida e que
jamais esquecerei.
Eu era uma pessoa sem rumo, mais ainda do que agora. O
dinheiro era muito pouco. O que eu ganhava na época permitia-
me economizar um pouquinho, com grande esforço, para patroci-
nar minhas viagens e meus casos amorosos. Eu viajava muito, não
grandes viagens, mas idas a diversas cidades do interior de Minas.
Visitava pequenas cidades em que, sem saber bem por quê, deci-
dia permanecer. Alojava-me como podia. Dormia em pensões de
terceira categoria ou na casa de algum conhecido do momento.
Muitas vezes dormia até mesmo em paióis, engenhos ou pequenos
casebres abandonados sem moradores, onde tinha por companhei-
ros escorpiões e sapos.
Alimentava-me com qualquer coisa: frutas da época, quase
sempre de graça, leite, ovos a preço de banana e, às vezes, um
prato feito. Não fumava, mas bebia ocasionalmente. Poucas vezes
tomei um porre violento pra valer.
168 - O Presente e Outros Contos

Na noite em que Ângela apareceu, eu havia bebido muito,


mas mesmo assim acho que estava lúcido.
Havia três dias que chegara a Cidadela, uma cidadezinha do
nordeste de Minas, lugar semelhante a todas as outras pequenas
cidades do país, com seu grupo escolar, igreja, cemitério e mui-
tos botecos, onde se vendia cachaça de pior qualidade, linguiça e
queijo. Eu havia visitado anteriormente essa cidade, há dois anos,
quando me apaixonei violentamente e ali namorei Ângela. Isto
não era novidade, pois sempre me apaixonava pelas minhas na-
moradas.
Ela era uma menina de quinze anos de idade, linda como
deve ser um anjo celestial. Morava com sua mãe, uma beata que
limpava a igreja diariamente para alegrar o padre da cidade. Di-
ziam que Ângela era filha natural de um padre, descendente de
italianos, jovem e bonito, que lá permaneceu por pouco tempo,
tendo abandonado a cidade logo após o seu nascimento. Eu, que
sempre fui discreto, nada perguntei a Ângela acerca desse fato.
Ela era magra, sofrendo de reumatismo infeccioso agudo e tinha,
de tempos em tempos, todo o seu corpo inchado, o que a tornava
ainda mais bela e mais lisa.
Na verdade havia decidido parar em Cidadela para vê-la, pois
era ela a única coisa que me atraía naquela cidade insossa. Soube,
com tristeza e até com sentimento de culpa, que ela havia mor-
rido. No nosso último encontro havia prometido, como sempre
fazia, mesmo sabendo que provavelmente não iria cumprir, que
me casaria com ela. Ela morreu de parada cardíaca devido ao reu-
matismo. Soube que Ângela sofreu muito antes de falecer, devido
à falta de ar e barriga d’água. Nos últimos dias, ela não mais con-
seguia alimentar-se ou dormir. Contaram-me que sempre falava
a meu respeito e tinha esperança do meu retorno, para casar-me
com ela, como eu havia jurado.
Nosso namoro foi curto, no máximo uma semana, pois nun-
ca tolerei ficar muito tempo num só lugar e com uma mesma pes-
soa. Cansava-me rápido.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 169

Em todos os lugares que passava, infalivelmente, namorava


alguém do lugarejo, quase sempre a moça mais bonita do lugar,
não em virtude de meus dotes físicos, mas sim devido a uma perso-
nalidade que confundia as pessoas. Apresentando uma mistura de
timidez e audácia, medo e coragem e, ao mesmo tempo, fortaleza
e destemor, as moças sentiam também por mim dó e proteção. As-
sim é que elas decidiam proteger-me e também conquistar-me para
suas posses devido à minha fraqueza, mas também se sentiam pro-
tegidas pela repentina coragem e espírito aventureiro que emer-
gia, sem mais nem menos. Desse modo as moças eram ao mesmo
tempo mães de um desvalido e filhas de um pai duro, que sabia o
que queria.
Após as aventuras, conversas, passeios, abraços e beijos, en-
tediado, sentia-me como que afogado. Nesses momentos tinha que
partir para procurar outra. Com a nova namorada, repetia-se o que
parecia estar gravado em minha alma. Não dava mais notícias após
a partida, apesar de que sempre pensava seriamente em escrever.
Naquela época eram poucas as cidades que possuíam telefones,
mas estes eram caros e difíceis de ouvir o que se falava.
Naquela noite eu bebi um pouco mais do que o costume.
Pensava muito na morte de Ângela. Deitei-me, decidido a sair da
cidade e percorrer um pouco mais o nordeste, indo até Ipatinga,
pois ainda me sobrava alguma grana. Deitei-me na cama barulhenta,
na velha pensão ao lado de onde parava a jardineira, que trazia os
viajantes. Não havia rodoviária, pois o único veículo que conduzia
passageiros era uma jardineira como dezesseis lugares apertados
que, dia sim, dia não, saía da cidade com destino a Belo Horizonte.
Eram mais de dez horas e a cidade já dormia há muito tempo.
Nessa ocasião o único divertimento da noite era assistir, na rádio
Nacional, a novela “Ciúme”, que terminava às nove horas da noite.
A personagem principal era Nicota, que impedia sua sobrinha de
casar-se com o galã. Depois da novela, apenas os bêbados contu-
mazes da cidade contavam, em voz alta, suas compridas e repetidas
histórias de sempre.
170 - O Presente e Outros Contos

O calor era imenso, terrível mesmo. Para refrescar-me, deixei


a janela aberta, por onde penetrava a claridade da lua cheia. Para
desfrutar da lua e do pouco ar fresco que entrava, tinha que su-
portar os pernilongos que me atacavam impiedosamente, fazendo
uma serenata de uma nota só. No boteco do lado da pensão, um rá-
dio tocava o Raio de Sol, antiga música que era a preferida de meu
pai, uma música que eu não ouvia há tempos. O som péssimo e
rouco, ora era escutado com mais clareza, ora sumia totalmente, o
que me irritava, pois impedia-me de ir seguindo, em minha mente,
os sons da melodia.
Já estava sonolento, tonto e mesmo em transe hipnótico devi-
do à mistura do álcool, música e do calor, agora insuportável. Des-
pertei um pouco mais, ao ouvir um leve e delicado bater na porta
e o som inesquecível de uma doce voz angelical.
— Sou eu, trouxe sua água.
Geralmente evito beber água à noite, para não ter que levan-
tar-me para urinar. Estranhei o ocorrido, apesar de curioso para sa-
ber de quem era aquela voz deliciosamente rouca e sensual e senti
sede. Apesar disso, cumpri minhas determinações internas e, sem
abrir a porta, respondi, com uma voz fingindo aborrecimento, que
não havia pedido água, apesar de estar com sede e com curiosida-
de pela dona da voz.
Do outro lado da porta, ouviu-se a mesma voz, indiferente às
minhas ponderações.
— Sou eu, trouxe sua água.
Senti uma mistura de raiva e curiosidade. Levantei-me. Puxei
com força a velha tramela que segurava a porta, a qual saiu de
minha mão e caiu no chão. Deslumbrado, vi-me diante da mais
bela imagem de toda minha vida. Estava ali parado, diante de mim,
um anjo sem asas, mas estranhamente belo, de feições femininas.
Não fazia barulho ao andar. Tronco erguido, seu corpo roçando no
meu, atravessou o pequeno quarto sob o clarão da lua. Pude distin-
guir seu olhar penetrante e sereno, seus cabelos claros e lisos com
pequenas ondulações, seu vestido leve, branco e transparente, que
Galeno Procópio M. Alvarenga - 171

permitia visualizar com clareza seu belo e magnífico corpo de uma


adolescente de aproximadamente dezoito anos. Seus traços lem-
bravam-me muito os de Ângela, apesar de aparentar ser um pouco
mais corpulenta e mais amadurecida.
Permaneci extasiado, imóvel e confuso como nunca aconte-
cera. Estava sonhando? Meus olhos estavam inteiramente abertos e
eu não havia bebido exageradamente. Quando a figura, rodeando-
me, se aproximou sem que eu nada fizesse ou falasse, deitou-me na
velha e suja cama da pensão. Em seguida, gentilmente, ela deitou-
se ao meu lado, abraçando-me com seus braços compridos, delica-
dos e macios.
Até hoje não me lembro se ela trouxe, ou não, a água. Hip-
notizado por sua silhueta, nada mais percebi. Nada conversamos,
mas garanto que ouvia sua respiração e o seu, ou, quem sabe, o
meu coração bater. Não fizemos barulho. Deitada ao meu lado,
pude perceber sua face sorridente, sem mudança na expressão.
Era um sorriso único, tranquilo. Paralisado, usufruía esse magní-
fico contato, mas ao mesmo tempo sentia medo do que ocorria.
Minha terrível cabeça com frequência processava o que se passava,
impedindo-me de gozar os fatos do momento.
Permaneci inerte por longo tempo, talvez por toda a noite,
sentido seu perfume leve, seu hálito morno que contrastava com o
mau cheiro do quarto. Parte de seu cabelo longo e sedoso cobria
seu belo rosto. O contato era esplêndido. Isto me permitiu, pou-
co a pouco, eliminar as preocupações do dia-a-dia, como a falta
de dinheiro, o medo, meus sentimentos de culpa e até mesmo os
pernilongos, que não foram mais percebidos. Sentia suas mãos e
parte de seu corpo colado ao meu, transmitindo-me uma sensação
incrível, rara e inacreditável.
O véu que cobria seu corpo foi vagarosamente retirado e jo-
gado ao chão. A claridade da lua permitia-me ver seu corpo nunca
antes visto, onde cada pelo tocava-me e acariciava-me. Suas mãos
sedosas e quentes deslizaram sobre meu corpo inerte, dos pés à ca-
beça, tocando-me de leve. Não senti o peso do seu corpo.
172 - O Presente e Outros Contos

Ali ficamos, deitados por algum tempo, não sei quanto, nós
dois respirando o mesmo ar. Sentia o meu ser fundido no dela, for-
mando uma só unidade, conduzindo-me ao Nirvana. Era só prazer.
Havia um profundo silêncio no ar. A lua continuava seu tra-
jeto pelo chão do quarto indiferente à nossa “morte passageira”.
Penso que assim adormeci.
No dia seguinte acordei tarde, suando muito, confuso com o
que acontecera na véspera. Preparei-me para deixar a pensão. Fiz
rapidamente minha mochila e sentia-me absolutamente só. Não vi
nenhum vestígio de vivalma.
Assustei-me quando, ao sair, percebi em cima de um velho
caixote improvisado de criado mudo, ao lado da cama, uma garrafa
cheia de água morna. Despejei um pouco da água de mau gosto
pelo gargalo da garrafa, mitigando minha sede de ressaca da noite
anterior. Foi minha noite de prazer. Lembrei-me de Ângela e tive
saudades.
O DELÍRIO DE JÉSUS

Após a morte de sua mulher, Isaura, a vida de Jésus não foi


mais a mesma. Tendo abandonado, e sendo abandonado pelos fi-
lhos, ele passou a morar sozinho no seu estreito quarto da favela,
ao lado do bar onde bebia diariamente algumas pingas. Seus três
filhos, Iria, Paulo e Lígia, foram entregues aos primeiros candida-
tos que apareceram e nunca mais visitaram o pai, nem mesmo no
Dia dos Pais. Desempregado, cabisbaixo e desanimado de tentar
vencer as barreiras existentes à sua frente, Jésus passava grande
parte do dia perambulando pelas vendas e botecos sujos de sua
cidade, implorando pinga de um ou de outro que, geralmente, não
era negada. Quando a fome apertava, pedia um prato de comida
ora aqui, ora ali, e ia dormir. Seu assunto preferido, quando estava
muito embriagado, era falar acerca da morte da patroa, sua querida
Isaura. Nada comentava acerca dos filhos. Reclamava muito de sua
má sorte, por ter perdido sua mulher:
— Sou um homem sem sorte. Perdi a coisa mais preciosa que
tinha, Isaura. Era ela que lavava minha roupa, fazia minha comida
quentinha, limpava meus chinelos e meu chapéu. Chorando, en-
vergonhado, ele completava suspirando:
— Era capaz de me dar, quando estava de “boa índole”, até
um carinho. Além disso, ela fazia um café com leite que era uma
gostosura... nunca tomei outro igual.
Durante o mês de abril, Jésus, recordando o aniversário da
morte de Isaura, bebeu mais que o costume, e talvez por isso mes-
mo, não conseguiu nem dormir nem comer.
174 - O Presente e Outros Contos

E assim ficou por alguns dias, largado à própria sorte. Para


piorar sua vida e paz, ele começou a ouvir vozes estranhas, muitas
vezes desconhecidas e ameaçadoras. Estas vozes, a princípio, até
o divertiram um pouco, pois o tiravam do total isolamento em que
se encontrava. Através delas, e só delas, ele novamente imaginava
estar entrando em contato com o mundo exterior. Mas, para azar
de Jésus, as vozes, uma vez mais acomodadas e íntimas, passaram
a criticá-lo amargamente. De manhã até à noite, vozes às vezes es-
tridentes e agudas, outras vezes graves e baixas, condenavam aspe-
ramente seu comportamento indigno, sua bebedeira desenfreada,
sua irresponsabilidade, sujeira e vadiagem.
Ele conseguiu, depois de alguns dias, descobrir de quem era
uma das vozes ouvidas. Para seu espanto e decepção, a voz que
mais o amaldiçoava era exatamente a voz de sua ex-mulher Isaura.
Com o correr do tempo, as vozes se tornaram mais difíceis de serem
identificadas. O fantasma de Isaura ameaçava Jésus de interná-lo,
mais uma vez, no hospício. Ele tinha pavor de ser internado, pois
certa vez, por engano, dois dias depois de ser internado e confun-
dido com outro paciente, tomou eletrochoque à força. Nunca mais
esqueceu o sofrimento. Por erro do enfermeiro, o eletrochoque foi
aplicado com pouca voltagem. Por isso ele não perdeu os sentidos
no momento, como era esperado, mas recebeu um choque elétrico
comum, nos dois lados da cabeça. Sentiu uma enorme pancada na
cabeça e repuxões diversos. O médico repreendeu o enfermeiro e,
maquinalmente, sem nada mais comentar, aumentou ao máximo a
voltagem na segunda aplicação. Desta vez ele perdeu os sentidos.
Pior do que essas lembranças, ameaças e críticas, mais peno-
so do que todas elas era ouvir a voz estridente de Isaura, muitas
vezes seguida de boas e sonoras gargalhadas, comentando e debo-
chando do seu pequenino pênis.
— Debaixo de suas calças imundas mora um pintinho muito
miúdo. Para vê-lo e examiná-lo é preciso puxá-lo com uma pinça e
olhá-lo com lente. Vou falar para todos o segredo que guardo... seu
pintinho não serve para nada!
Galeno Procópio M. Alvarenga - 175

Nesses momentos, Jésus, desesperado, xingava todos os no-


mes possíveis e amaldiçoava a mulher que tanto amara. Ficava sem
entender por que, depois de morta, sua mulher vinha infernizar-lhe
a vida. Estas críticas eram extremamente desagradáveis. Amedron-
tado com as vozes e os espíritos que o perseguiam no seu quartinho
e na rua, Jésus, para se defender, passou a andar com uma velha
navalha herdada de seu pai. Muito debilitado, já sem forças, este
era talvez seu último esforço diante da aproximação da hora final.
Colocou a navalha no bolso traseiro da calça e não mais a abando-
nou. Algumas vezes, talvez para conferir a sua coragem, tirava-a e
mostrava-a com orgulho para os bêbados do boteco. Com lágrimas
nos olhos, contava longas histórias acerca do seu pai e como ele
foi bom, lembrando com saudade os velhos tempos, quando era
cuidado por alguém.
— Tenho saudades de meu pai. Era gente boa, olha o que ele
me deu de presente quando minha barba começou a nascer. Certa
vez, ele...
Ocasionalmente, usava a navalha para fazer a barba, após
amolá-la no meio-fio da rua, quando os tremores na mão diminuí-
am e havia ânimo para isso. A situação foi piorando dia após dia.
Jésus, aterrorizado, começou a ouvir outras vozes e também a ver
vultos, fantasmas, bichos e demônios mais estranhos ainda. Pas-
sou a enxergar cavalos voadores roxos, rindo às gargalhadas de
sua cara comprida, semelhante à dos muares. Via demônios, pig-
meus negros dançando diante dele ao som de tambores invisíveis,
iluminados pelo fogo que saía de archotes no alto do céu. Visua-
lizava também sereias muito brancas e esguias, saindo enroladas
da terra, rodopiando e pulando, imitando um balé esquisito. De
repente, formavam-se em torno dele nuvens de borboletas verdes
e mariposas vermelhas que voavam em torno de sua cabeça. De
sua testa saía um facho de luz, como se fosse uma lanterna pre-
sa ao seu corpo, que se assemelhava a um poste. De tempos em
tempos, alguns insetos trombavam ou pousavam em cima da luz
existente em sua face.
176 - O Presente e Outros Contos

Nesses momentos, Jésus, desesperado, dava tapas em si mes-


mo, na esperança de espantá-los ou matá-los.
Na sua tentativa de escapar dos inimigos, homens, animais e
insetos zombadores e que tentavam enlouquecê-lo, Jésus não mais
dormiu no seu quartinho. Passava a noite deitado, tampando os
olhos e os ouvidos com as mãos, no corredor existente ao lado do
boteco que mais frequentava. Escondido ali, imaginava poder tape-
ar os espíritos que o esperavam na sua moradia habitual. Mas sua
tática não funcionou. Todos os seus inimigos descobriram sua farsa
e vieram até onde ele se escondeu e continuaram a persegui-lo.
Certo dia, desesperado com as críticas de Isaura acerca do
seu minúsculo pênis, Jésus imaginou um modo de acabar com todo
aquele sofrimento. Imaginou, conforme seu plano, provocar senti-
mentos de culpa no fantasma de Isaura, como fazia quando ela era
viva. Bastante embriagado, anestesiado pelo álcool, ele não pensou
muito e decidiu, após acordar de uma bruta ressaca, cortar seu
pênis para sempre. Para isso armou-se da velha navalha enferrujada
que trazia consigo. De uma só vez, decepou o que lhe deu ver-
gonha a vida toda e o impediu de procurar outras mulheres. Não
sentiu dor, sentiu, sim, um tremendo alívio.
A partir daquele momento, aquela carne inútil, asquerosa e in-
significante, provocadora de sofrimentos atrozes, não mais lhe per-
tencia, não fazia mais parte de seu corpo, saía de sua imaginação.
Este pedaço de carne imprestável foi jogado no lote vago existente
ao lado do corredor onde dormia, enquanto ainda lhe restava um
pouco de força. Era lá que o espectro de sua esposa o espreitava
e o vigiava o dia inteiro. Ele sabia disso, outras vozes lhe tinham
contado.
Da ferida esbranquiçada e funda jorrou um sangue morno,
vermelho descolorido e ralo. Jésus apertou como pôde o que so-
brou do corte, tentando impedir a saída do pouco sangue existente
no seu corpo esquelético. Aos poucos, foi ficando ainda mais ton-
to. Sem forças, desesperado, só, não lhe restou outra coisa a fazer
a não ser gritar, pedindo socorro.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 177

Os transeuntes que passavam por ali naquele momento, des-


pertados pelo barulho, e sem entender o que viam, tomaram as
providências usuais.
Poucos minutos depois, Jésus estava internado no hospital da
cidade. O cirurgião chamado, preguiçosamente e aborrecido com
esse trabalho, estancou a hemorragia com rapidez e fez uma limpe-
za total da ferida feia que se formara. Também pouco tinha a fazer,
pois o pênis fora totalmente decepado. Além disso, este não fora
encontrado no lote vago, por mais que o procurassem. Um menino
que ali passara logo depois do fato, relatou que viu um cão passar
com uma coisa avermelhada dependurada no focinho. Jésus não
deu nenhuma importância à perda daquele órgão. Por sorte, ele se
recuperou do corte rapidamente.
Após a alta hospitalar, ele não voltou a beber. Vivia agora,
depois desse episódio, de porta em porta, caminhando pelas ruas
da cidade, pedindo aos seus conhecidos comida e roupas. De tem-
pos em tempos era internado no hospital psiquiátrico, devido às
suas maluquices. Agora sua tristeza era constante, mais que antes.
Chorava facilmente, recriminava-se com frequência por seus peca-
dos e erros, por ter sido ruim para os filhos e para a amada Isaura.
Tentou diversas vezes o suicídio, estrangulando-se com suas pró-
prias mãos. Quando tentava se matar, perdia os sentidos e, nesse
momento, recuperava-se prontamente, pois suas mãos não mais
pressionavam seu pescoço, mesmo este sendo frágil e fino.
Passava grande parte do dia deitado nos cantos da rua. À noi-
te dormia debaixo de uma marquise, ao lado da igreja, pois, com
sua internação, seu quartinho foi invadido por outros pedintes e
nunca mais foi devolvido. Jésus, nessa ocasião, acreditava não ter
mais intestinos, pois estes haviam sido comidos pelos gérmenes.
Imaginava ter sido severamente castigado por Deus pela vida des-
regrada que levou.
No dia de Natal, em vez de ganhar presentes, Jésus foi preso.
Momentos antes de ser preso e algemado, Jésus ajoelhou-se, após
tirar toda a roupa do seu corpo magro, rezando piedosamente dian-
te do imenso presépio construído na frente da igreja.
178 - O Presente e Outros Contos

Retirou com extremo cuidado a imagem do menino Jesus, do


tamanho de um homem, colocada no leito simples da manjedoura
e transportou-a, sem estragá-la, para o lugar onde ele sempre dor-
mira, sob a marquise. Em seguida acomodou-se no lugar onde se
encontrava a imagem do menino Jesus. Seu ato inocente escandali-
zou o povo religioso, sério e ordeiro da cidade.
As autoridades discutiram as razões da detenção: “psicose,
acompanhada de delírios e alucinações”, segundo o psiquiatra.
Para o delegado, “perturbação da ordem social” e, conforme o pa-
dre, “profanação de rituais sacros”. Jésus, sem nada entender do
que foi dito a respeito de seu ato, foi detido assim mesmo.
Após ter sido arrancado do leito do presépio onde se acomo-
dara, Jésus foi conduzido ao hospital psiquiátrico. Então, os bon-
dosos e caridosos cidadãos da cidade puderam retornar à tranqui-
lidade habitual.
Nessa bela noite de confraternização dos povos, enquanto
as famílias ricas se reuniam, trocando presentes caros, bebendo
vinho e champanhe, comendo peru, lombo e frios, brindando e
cantando alegremente lindas e ternas canções em nome da igual-
dade, do amor ao próximo e da caridade, Jésus morria, agredido
dentro do hospital onde fora internado, por um outro interno, que
o confundiu com um espírito mau.
A morte foi rápida. O companheiro de infortúnio, munido de
uma velha lata contendo restos endurecidos de cimento jogada no
pátio, abriu a porta do quarto onde ele estava. Bastaram duas pan-
cadas fortes e secas na sua cabeça frágil, para esfacelar o crânio,
enquanto ele jazia no chão frio. Não foi preciso fazer muito esforço
para pôr fim à triste vida de Jésus.
Conduzido à sala silenciosa do necrotério, o corpo de Jésus
atravessou a noite sozinho. Na vizinhança, grupos soltavam fogos,
gritavam e cantavam comemorando o Natal festivo. O que restou
dele, uma cabeça decepada e costurada num corpo, foi enviado à
seção de anatomia da Faculdade de Medicina, Os órgãos, uma vez
limpos e desinfetados, guardados em formol, até bonitos, foram
aproveitados para futuras aulas de Medicina Legal.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 179

Nas aulas, através do corpo inerte de Jésus, professores orgu-


lhosos mostraram conhecimentos: compararam a lesão existente
em seu crânio com outros contendo fraturas provocadas por por-
retes, pedras e tiros. Enquanto isso, os alunos debruçavam-se sobre
os ossos e o examinavam interessados. Uma parte do seu magro
e pálido corpo foi esquartejada nas aulas de anatomia, servindo
para que os calouros pudessem dissecá-lo e identificar músculos,
artérias, veias, tendões e outros órgãos. Constataram, após exames
minuciosos, que tudo estava no lugar certo.
A uma hora dessas, Jésus, provavelmente no céu, deve estar
feliz e orgulhoso por ter servido e interessado aos ocupados jovens
ricos e brincalhões. Eles examinaram e pegaram, por diversas ve-
zes, as várias partes das peças anatômicas que um dia formaram
o corpo vivo de Jésus. Apesar de ter tido uma vida inútil, agora,
depois de morto, despertou a curiosidade e interesse de pessoas
caridosas. Ao se transformar de homem em órgãos, Jésus ensinou
algo de importante ao mundo, através de seu corpo mudo, nu e
sem cabeça.
Estranhamente, nenhum aluno, por curiosidade ou qualquer
outro motivo, perguntou, e também não pensou, quem fora aquele
homem. Ninguém quis saber nada acerca de sua alma, de sua histó-
ria ou seus dramas. Também, para quê? Jésus tomou tempo demais
dos outros, morreu num dia impróprio e, além disso, era um inútil.
Agora, apenas um ex-homem.
O FELIZ ENCONTRO INDESEJADO

Laura chegou a casa cansada, pois havia trabalhado sem parar


desde cedo. Eram seis horas da tarde, seus três filhos, já adultos,
não jantariam hoje em casa. O pai deles, seu ex-marido, aniversa-
riava naquele dia. Ela se separou há cerca de cinco anos, mas não
decidira ainda ter um novo companheiro. As decepções do amor
dominavam sua cabeça. Apesar de um pouco solitária, às vezes ela
se sentia feliz por estar mais livre para fazer o que quisesse. No
caso de Laura, sua liberdade significava não fazer nada. Com a sepa-
ração, ela não ganhara nada de extraordinário na nova vida de sepa-
rada ou de mãe solteira, como ela mesma designava sua situação. O
seu lucro com a separação foi a ausência do sofrimento, portanto
ela deixou de sofrer com as brigas constantes com seu ex-marido.
O resto de sua vida continuava sem sabor, como sempre fora... Ela
aposentou-se há dois anos, cheia de planos de “aproveitar a vida”.
Até aquela data não fizera nada que fosse importante e de que pu-
desse se orgulhar.
“Agora, sim”, afirmava Laura, “irei fazer o que eu quero”. En-
tretanto, os filhos já na universidade, com mais gastos e ainda sem
emprego e, além disso, o pai ganhando pouco, criavam uma série
de dificuldades para lhes dar algum dinheiro, mesmo o estabeleci-
do por lei. Desse modo Laura foi forçada a arrumar um novo em-
prego e era o que estava fazendo. Esforçada, séria, combinava bem
com os desejos dos diretores da firma para explorá-la ao máximo,
dando-lhe, em troca, alguns elogios, sorrisos hipócritas e uns pou-
cos reais.
182 - O Presente e Outros Contos

Hipnotizada com os elogios e sorrisos, Laura se esquecia do


salário, que sempre seria aumentado desde que a situação do país
melhorasse, o que não ia demorar. Ela, paciente como sempre fora,
menos com o marido nos últimos tempos, esperava a mudança
político-econômica do país, para que a firma tivesse mais lucro e
assim decidissem aumentar seu salário e, posteriormente, realizar
seu sonho, até agora adiado.
Naquele início de noite não sentia fome. Tinha-se acostumado
a comer pouco à noite, pois tinha pavor de engordar, mesmo sendo
magra. E sempre, após um dia de muito trabalho, ela perdia o apeti-
te, pois levava para casa as preocupações com os problemas da fir-
ma, que os diretores passavam para ela, para que eles pudessem des-
cansar e viajar tranquilos. Mesmo sem fome, decidiu preparar algo
leve para comer. Ao entrar na cozinha e abrir a geladeira, percebeu
que ali não tinha os ingredientes necessários para se fazer um lanche
mesmo simples, pois faltavam ovos, queijo e presunto para preparar
a omelete imaginada. Decidiu abrir os armários e viu que tudo estava
acabando. Havia pouco óleo, açúcar, café, arroz. Decidiu que era
melhor tomar coragem e ir fazer as compras naquele dia. A decisão,
a princípio não muito convidativa, se concretizou, ao perceber que
bastou a ideia de comer uma omelete, para que sua fome adormeci-
da despertasse. Além disso, com os filhos não estando em casa, seria
mais fácil sair, pois não teria que preparar nada para eles. Pensou no
supermercado, na pizzaria ali existente, e teve vontade de comer, lá
mesmo, antes das compras..
Animada com essas ideias e lembrando que já tinha tempo
que não saía à noite, sem ter o que fazer, tomou a decisão final de
sair, pensando:
“Vai ser um passeio agradável. Saio, faço as compras, como a
pizza e dou um passeio de carro’’.
Foi fácil sair, pois ainda não havia trocado a roupa do traba-
lho. Retocou a sua pintura simples, examinou a face preocupada
com uma pequena olheira que lhe aparecia sempre que estava
cansada.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 183

Não estava mal. Fechou a casa com cuidado, foi até a garagem
e deu partida, após verificar que tudo estava bem. Dirigiu-se ao su-
permercado que não ficava longe do seu apartamento.
O trânsito já estava tranquilo, sem engarrafamentos. Laura sen-
tiu na rua um vento agradável, diferente do calor abafado existente
dentro de seu apartamento após a chuva de verão que caíra naquela
tarde. Sentia-se satisfeita de ter saído, pois desfrutava daquele início
de noite, suave e tranquilo: “Talvez fossem as férias que diminuíram
o movimento”, ia pensando Laura, enquanto dirigia. Nuvens bran-
cas e muito claras recebiam os últimos raios do sol, desenhando
figuras alegres e mutantes no céu. Laura pensava que deveria sair
mais. Estava vivendo em prisão domiciliar e no trabalho. Sua raiva
da rua e dos seus habitantes se transformava em amor.
Observava os tomadores de cerveja dos botecos assentados
em mesas postas nas calçadas, discutindo tudo de importante para
a humanidade, resolvendo, com facilidade, os problemas, que antes
da bebida subir à cabeça, eram insolúveis. Era interessante esse gru-
po e ela sentiu desejo de estar ali entre eles, explicando suas ideias,
que eram interessantes para serem discutidas, acerca do casamen-
to, da criação dos filhos e de Deus. Provavelmente eles a achariam
inteligente e culta. Lembrou-se, numa mistura de alegria, saudade
e desejo, de suas poucas saídas à noite, sem rumo, e sem responsa-
bilidade. Como começou a namorar muito cedo, ficou controlada
pelos desejos e programas do namorado, seu ex-marido. Tirou de
sua mente essas recordações. Vivia, diante dela, percepções mais
agradáveis do que suas lembranças do passado cruel. Estava só, mas
se sentia ligada aos habitantes do fim do dia. Sentia-se presa àquele
povo, mesmo sem o conhecer. Sabia que sua alma misturava-se com
a humanidade. Precisava mudar de vida, sair daquela vida maldita,
escritório, casa, filhos. Lembrou-se, sem querer, dos filhos e assus-
tou-se. “E os filhos?” Sentiu culpa de tê-los esquecido. Tinha filhos e
estes eram tudo para ela. Lutou contra a ideia de que eles a atrapa-
lhavam. Pensava agora firmemente em mudar de vida. Fazia planos,
percebia que não fizera nada do que imaginara antes de separar-se.
184 - O Presente e Outros Contos

“Talvez agora esteja pior que antes. Estou-me sufocando com


o trabalho para não pensar. Não, era horrível a vida com Mário, ele
proibia-me de tudo, era ciumento demais”. Mário sempre descon-
fiou dela com pessoas que nunca tiveram culpa. Tentava tirar isso
de sua mente. Era difícil, sentia-se mal com os pensamentos que
invadiam sua cabeça dividida.
“Ele devia me trair, no seu escritório era uma troca constante
de secretárias. Ele mudava de voz quando falava acerca de Vivia-
ne e mesmo de Dora, que era feia, mas que ele protegia” Essas
considerações não a aliviavam. “Será que ele me traiu? Ele sempre
foi mais ingênuo do que eu em matéria de dissimulação. Mostrava
com transparência suas emoções no tom de voz, na tosse seca e no
olhar que não conseguia fingir ao me fitar. Mário, quando mentia,
olhava um ponto qualquer no espaço e ali se prendia firmemente.
Suas mentiras eram tolas, acerca do preço da camisa que comprara,
que era sempre mais barata do que realmente custara, ou acerca de
quem ele encontrou na rua. Eu fingia que tinha ciúme, para justifi-
car minhas supostas traições.”
“Sou uma mulher estranha. Agora que estou livre, perdi todo
o interesse por algum homem. Durante anos tive medo de me apai-
xonar por alguém... Todos os homens são iguais, mesquinhos, acos-
tumados por suas mães a receber tudo na mão, sem dar nada em
troca, nem ligar para a gente. Todos foram educados erroneamente
e só procuram as mulheres para continuar o caminho ou direção
mal traçada por suas mães superprotetoras. Mário queria tudo para
ele. Desejava que eu fosse sua babá, dando-lhe o café, roupa lavada,
refeições e carinho. Mas os homens são tolos em muitos aspectos.
Apavorados com o trabalho chato, mas simples, de “dona de casa”,
supervalorizam este. Sentem-se impotentes quando sozinhos, sem
sua “mãe” protetora. Correm ansiosos e apressados para os braços
carinhosos e protetores da mãe, sob qualquer pretexto. Ali se aco-
modam e confessam seus infortúnios e a má sorte no casamento e
o arrependimento de tê-la abandonado. A mãe, sempre segura de
si, tendo criado na mente do filho uma ideia de mulher como ela,
Galeno Procópio M. Alvarenga - 185

orgulhosa confirma o lamento do seu amado filho e reafirma que


não faltou aviso seu de que “aquela não era uma mulher para ele”.
Embriagada por esses pensamentos e, por que não dizer,
pela liberdade proporcionada pela noite calma e inspiradora, Lau-
ra passara, há muito, do lugar onde ela teria que se dirigir para
chegar ao supermercado. Mas isso, hoje não a levou a se criticar
pelo esquecimento e distração. Ao contrário, ela se deliciava com o
passeio e com seus pensamentos que lhe agradavam. Muitas vezes
achava-se inteligente e arguta. Gostando de ouvir suas próprias his-
tórias, de seguir, sem forçar, sua imaginação, que, como as nuvens
existentes no céu, na sua mente rapidamente iam se formando e
sendo destruídas, uma após outra, estimuladas por qualquer acon-
tecimento externo. Assim, a simples percepção de um cachorro
que se aproximou do carro, num sinal fechado, foi o bastante para
que sua mente se lembrasse do seu, criado na fazenda de seu pai.
Como ele era apegado a ela. Como sua mãe a criticava de ficar abra-
çando e beijando seu cachorrinho, como ela fazia com seus filhos.
Lembrou-se de como chorou com sua morte e sofrimento, após ter
sido picado por uma cascavel terrível. Via claramente, passando
como um filme, Bob deitado no chão, uivando tristemente, com
um filete de sangue saindo de seu focinho preto e olhando em
desespero para ela, como antevendo sua morte próxima. Sentia-se
confusa pela impotência. Ainda hoje sentia um aperto no coração,
e culpa, por nada ter podido fazer. Olhava-o com piedade, mas
também com repugnância, por seu desfiguramento. Imobilizada,
ao seu lado, assistiu chorando a seus últimos estertores, sua res-
piração desaparecendo pouco a pouco e seus movimentos de dor
diminuindo de intensidade. Laura sentiu lágrimas escorrerem de
seus olhos e enxugou-os com um lenço de papel. Passou a ter ódio
de todas as cobras a partir da morte de Bob.
Ao passar em frente de um barzinho, diante de uma multi-
dão de pessoas, mesas cheias de garrafas de cervejas, salgados,
garçons, pessoas passando por entre as mesas colocadas nas calça-
das, Laura isolou uma única cena, eliminando os outros estímulos:
186 - O Presente e Outros Contos

Um senhor de mais ou menos 70 anos de idade, com um andar um


pouco inseguro, carregando um jornal embaixo do braço. Lem-
brou-se do seu pai.
“Parece meu pai, tirano, bravo, que raramente dava um sorriso
para os familiares. Na rua estava sempre sorridente para todos. Exces-
sivamente desconfiado com o comportamento de suas filhas quanto
à conduta moral. Medo delas se envolverem com seus namorados,
beijá-los, abraçá-los e serem mal-faladas no bairro, onde todos conhe-
ciam todos. Até calças compridas eram proibidas de usar, pois estas
eram vestimentas de prostitutas. Cigarros, bebidas, nem pensar. Mas
enquanto isso, ele próprio bebia e fumava e, com frequência, estava
ligado a mulheres vagabundas de toda espécie e incentivava meus
irmãos a fazerem o mesmo”. Laura lembrava com exatidão como acor-
dou certa noite com os gritos e xingamentos de sua mãe, que o pegou
deitado com Maria, a nossa cozinheira de 17 anos, que havia chegado
há poucas semanas do interior, filha de um capinador de roça.
“Creio que tudo indicava que ele colocou seu Ambrósio para
trabalhar para ele por causa de sua mulher Teresa. Uma mulher feia
e suja, mas que ele visitava com frequência após o almoço, levando
o embornal cheio de rapadura, feijão e canjiquinha para ela, quan-
do íamos à fazenda. A discussão foi violenta e acordou todos nós.
Meu pai xingou minha mãe e ameaçou bater nela, o que já tinha
feito outras vezes e, chamando-a de mentirosa, falou que havia se
levantado de cuecas devido ao calor e, ao ir ao banheiro, passou
diante do quarto de Maria, que parecia chorar. Ele, bondosamente,
apenas a consolava das saudades de casa e do namorado Paulo,
que ficara. Como aos poucos o sono lhe veio forte, sem perceber,
dormira na cama de Maria. Não houve nada do que minha mãe o
acusara. Eu, com meus 10 anos, acreditei em meu pai e revoltei-me
com a atitude de minha mãe. Lembro-me bem de meu pai falando
firme e alto, como sempre fazia, acerca do fato, convencendo a
todos. Talvez até minha mãe ficasse em dúvida.”
Um sinal luminoso fechado limpou de sua mente a figura de
seu pai, que ocupava sua mente, para deixar entrar a luz verme-
lha antipática, tirana, que obrigava os conformistas e educados a
Galeno Procópio M. Alvarenga - 187

pararem seus carros e esperarem a bela e dinâmica cor verde dos


semáforos. Com o seu aparecimento, Laura deu a partida, agora
imaginando mudar de vida, voltar a estudar, ler mais como antes, e
se pudesse, trabalhar menos e por conta própria. Já estava cansada
de patrões, o que tivera toda sua vida. Iria seguir sua cabeça, seu
destino, sem homens em sua vida.
À sua esquerda e em alta velocidade, aproveitando o final de
sinal de passagem livre, surgiu um carro. Laura percebeu que ele
não ia parar e que bateria nela. Acelerou ainda mais para tentar es-
capar da batida, indignada com este motorista, que não respeitou
a lei. Além disso, acabara com suas fantasias exatamente num bom
momento delas.
A batida foi inevitável na parte de trás do carro, obrigando os
dois carros a pararem. Sua traseira foi arrastada e a frente do outro
carro ali ficou agarrada. Laura desceu furiosa com o amassado de
seu carro e pensando já no que teria que economizar para conser-
tar aquilo. Seu carro, tão conservado, comprado com tanto custo,
ali estava, amassado e feio. O causador de tudo foi um Santana
preto, último ano, dirigido por um senhor sério, de boa aparência.
Este, sem pressa, descera do carro. Laura, imaginando que ele po-
deria acusá-la, ainda que tivesse certeza do contrário, foi descendo
e dizendo em tom áspero:
— Como você faz uma coisa destas? Está louco ou bêbado?
O senhor a olhou com os olhos tristes, que ela associou ao
olhar do Bob, ao morrer. Envergonhado, desviando agora o olhar
fixamente para a frente de seu carro preso ao dela, caminhou len-
tamente até lá. Sem nada falar, como que imaginando se ia ou não
aceitar sua culpa, que ele tinha certeza ser dela.
O motorista era um senhor alto, vestindo um terno azul claro,
com uma bela gravata cinza com uns riscos azulados colocada em
cima de uma camisa moderna, clara, com listras cinzas, o que indi-
cava esmero e elegância aliados a um bom gosto. Uma grande cabe-
leira grisalha, um tanto despenteada. Aparentando uns 50 anos de
idade, ou seja, cinco anos mais velho do que Laura.
188 - O Presente e Outros Contos

Com um sotaque estrangeiro e falando um português carre-


gado de termos em castelhano, o senhor começou a falar, ainda
assustado com o ocorrido:
— Perdoa-me, senhora, o culpado sou eu, não estou embria-
gado... Eu pago tudo, sou o culpado, estou é muito confuso.
Laura estranhou a forma educada e simpática do gringo. Ele
estava sendo gentil, sem a mínima agressividade, como ela espera-
va, e tinha um ar confiável, de gente séria.
“Confio ou não neste homem? Ele pode estar tentando me
tapear,” pensou Laura. De qualquer forma ela não mais conseguiu
xingá-lo. Ele convidou-a a sair da rua e encostar o carro, para com-
binar o que fariam. Nova suspeita de Laura: - “É agora que ele vai
escapar. Eu saio, ele vai embora. Chamo, ou não, a perícia?” Con-
fusa e desconfiada, Laura decidiu dar partida no carro e encostar
mais adiante no local combinado. O medo era grande. O gringo
entrou no seu carro, logo após Laura dar partida, e tranquilamente
a seguiu, conforme o combinado. Ela sentiu vergonha de si mesma,
de seus pensamentos.
O senhor desceu do carro, aproximou-se de Laura e apresen-
tou-se:
— Meu nome é Carlos, sou chileno, mas moro no Brasil há al-
guns anos, trabalhando numa firma multinacional. Sou viúvo, pois
minha mulher faleceu há três meses de leucemia, após ter ficado
de cama por mais de três anos. Tenho três filhos adolescentes e
depois da morte da mãe deles, virei mãe e pai”.
Percebia-se claramente sua necessidade de desabafar com a
primeira pessoa que encontrasse e que estivesse disposta a ouvi-lo.
Laura pensava:
“Já desisti das compras e o meu jantar fica para outro dia”.
Não estava achando aborrecido ouvi-lo. Ele continuou sua longa
história, por mais de meia hora, com sua voz triste, olhando com
dificuldade para o rosto de Laura.
— Estou confuso. Vivo culpando-me de não ter cuidado cor-
retamente de minha mulher e agora de meus filhos.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 189

— Trabalho muito e constantemente viajo a negócios. Por


isso não posso dar a assistência em casa como desejo. Na doença
de minha mulher, procurei os melhores médicos. Coloquei, quan-
do ela piorou, uma enfermeira para cuidar dela. Mas eu mesmo
não estava perto, como desejava. No dia de sua morte eu não esta-
va em casa.” - Nesse momento, o senhor chorou.
Laura teve pena dele, ao ver aquele homem musculoso dian-
te dela, contando, emocionado e com lágrimas nos olhos, a morte
de sua esposa, os filhos que não o respeitavam e o dominavam.
Mas ela não deixava de desconfiar dele. “Este gringo está me pas-
sando a perna...”
Foram trocados os endereços, nomes, telefones, assim como
a forma como seria feito o conserto do carro. Carlos deixou que
Laura tivesse a liberdade de escolher a oficina de lanternagem e de
mecânica de sua confiança e, para ajudá-la, deu um endereço de
uma oficina que ele conhecia.
Laura saiu confusa e foi tentar dormir, lembrando-se, sem
cessar, do que ocorreu.
No dia seguinte matou o serviço na parte da manhã para
levar o carro ao conserto. Procurou três oficinas, tomou seus pre-
ços. Por último foi à oficina indicada por Carlos. Ao perceber que
o preço desta era o mais caro, e tendo confiado no lanterneiro,
deixou seu carro ali para o conserto.
Duas semanas depois o carro estava pronto, desamassado, in-
clusive nos lugares de pequenos arranhões antigos, que não foram
consequência da batida com Carlos. Após o serviço, no dia marca-
do, Laura foi buscá-lo. Carlos, mais animado e alegre, a esperava.
Mostrou-lhe o carro, mandou que ela saísse um pouco com ele.
Assentou-se ao seu lado, pedindo-lhe para observar se tudo estava
bem. Não havia nada a reclamar. Carlos entrou no escritório da
oficina, fez o pagamento do que devia e voltou aliviado para perto
de Laura, satisfeito porque tudo estava bem. Laura preparou-se
para despedir-se, mas nesse momento, Carlos, nervoso mas alegre,
lhe fez um convite:
190 - O Presente e Outros Contos

— Você já jantou?” Sem esperar pela resposta continuou:


— Vamos jantar juntos para comemorar o conserto do carro.
Depois daquela batida, minha vida mudou com as nossas conversas
por telefone. Eu pedi ao lanterneiro que apressasse o serviço para
poder encontrá-la mais depressa.
Laura sentiu um calor no rosto, que se espalhou por todo o
corpo, envergonhada e satisfeita com as declarações inesperadas.
Há anos não ouvia uma voz masculina carinhosa, há anos não sen-
tia aquilo. Lembrou-se de sua adolescência e dos primeiros namo-
rados. Entrou no seu carro e dirigiu-se para o restaurante combina-
do, tendo à sua frente Carlos, dando-lhe a direção. Parou, desceu,
sentido-se leve e feliz, e caminharam para uma mesa limpa e acon-
chegante no fundo do restaurante. Enquanto saboreava um fino
vinho chileno, Laura refletia:
“Quantos fatores pequeniníssimos, que podiam não ter acon-
tecido, se ligaram, ao azar, para que esse encontro se realizasse. Di-
versos, como uma demora a mais num semáforo, uma acelerada ou
freada que se fizesse e nós não bateríamos. Milhares de outros fatos
podiam não ter acontecido.” Sua mente acelerou-se com essas ideias
de como pequenos fatos conduzem a uma mudança total em nossas
vidas. Resolveu embebedar-se naquela noite com o vinho. Tendo ao
seu lado seu novo amigo. Carlos pensou: “E eu que podia nem ter
renascido. Nem estar aqui...” Meses depois eles se casaram.
DESESPERO DO EXECUTIVO J. S.

Os valores, muitas vezes contraditórios, contidos nas ações


e nas ideias das pessoas que nos são simpáticas — nosso grupo
de referência — são pouco a pouco assimilados e fixados em nos-
sa mente, passando a constituir nosso sistema de crença. Nossa
conduta, no dia-a-dia, é uma procura das metas que satisfazem,
a curto ou a longo prazo, valores existentes nesse sistema. Na
ilusão de que nossos valores são os certos, tentamos convencer
nossos semelhantes a segui-los.
Pensando em valores, lembrei-me do meu amigo J. S. e do
seu desabafo quando nos encontramos, numa segunda-feira, na
porta do Banco do Brasil, na Faculdade de Medicina, encontro
que durou mais do que eu esperava.
J. S., hoje com 57 anos, é um homem rico, dono de lojas
de tecidos em BH, aposentado do Banco do Brasil, bem casado
e com cinco filhos, que não lhe dão trabalho. Nascido e criado
em Poço dos Perdões, chegou a BH com 18 anos incompletos, ao
receber a advertência de seu pai:
— Está na hora do filho homem largar a família e viver por
conta própria.
Seus primeiros dias aqui foram de penúria, tendo passado
até fome: entregou marmitas, vendeu jornais, lavou carros. E con-
ta, rindo:
— Até gigolô já fui, num período pior... mas por pouco tempo...
Pouco a pouco sua sorte foi mudando: entrou como ser-
vente do banco, passou para contínuo, caixa, gerente e assim foi
192 - O Presente e Outros Contos

subindo. O que nunca lhe faltou foi inteligência, persistência e


coragem, e esta ele possui até demais.
Começou a ganhar dinheiro, economizou, empregou o que
guardava com sabedoria e casou-se com sua colega de trabalho,
que também era poupadora. E tudo foi dando certo.
Esse início de vida, entretanto, não foi tão ruim como pare-
ce. J. S. “era feliz e não sabia”, como me contou:
— Era um homem que sabia o que queria, e, quando tinha
dúvidas, estas eram simples e fáceis de solucionar, tais como: sair
ou não sair certa noite, colocar os filhos num ou noutro colégio,
bater ou não neles para educá-los. É, nessa época eu decidia qua-
se tudo sozinho ou, no máximo, com a colaboração, apenas, de
minha mulher.
Ao abrir as primeiras lojas, junto com os filhos, começaram
as incertezas e seu desespero atual. A princípio, num tom de voz
calmo e seguro, contou-me que, à medida que foi enriquecendo,
conheceu muito mais pessoas. Participou de encontro de casais e
mais tarde coordenou alguns encontros. Entrou para a Associação
Comercial, tornando-se um dos diretores. Aceitou, com orgulho,
o convite para fazer parte do Lyons Clube e, mais tarde, do Ro-
tary. Tornou-se membro da diretoria da Associação Atlética do
Banco do Brasil, frequentando inúmeras reuniões, clubes e festas
promovidas por seus diversos amigos e colegas. Hoje, J. S. per-
tence a mais de vinte diferentes grupos de associações, estando
ligado a mais de uma centena de pessoas.
Em todos os grupos existem indivíduos que acreditam que
certas condutas são corretas e, desse modo, pressionam J. S. a se-
gui-las. Convenceram-no a vestir certas roupas, antes nunca ima-
ginadas, a morar noutro bairro, a frequentar uma igreja diferente,
a ir a certas reuniões e não a outras.
Quando jovem, J. S. não pedia nem permitia que dessem
palpites em sua vida. Naquela época ele conversava mais consigo
mesmo, um pouco com os amigos do banco e, ocasionalmente,
com a sua mulher. Agora, envolvido e comprometido com todas
Galeno Procópio M. Alvarenga - 193

essas pessoas de opiniões diferentes, J. S. confundia-se ao tomar


as mais simples decisões. As sugestões sobre o que fazer, diante
de qualquer fato trivial, vindas de todos os lados, sufocavam-no.
Ele, gesticulando, deixou escapar tal irritação, indicando que algo
grave estava acontecendo:
— Eu não sabia mais se podia ou não beber cachaça, ou se
devia beber somente uísque, qual bairro seria apropriado para
morar de acordo com o meu status - eu nem sabia bem qual era
meu status - onde deveria passar as férias. Aconselharam-me a
comprar uma casa em Guarapari, isso faz muitos anos. Depois
disseram-me que lá não era um bom lugar para pessoas do meu
porte, e acabei vendendo a de Guarapari e comprando uma outra
em Cabo Frio. Mais tarde foi a vez de Búzios, e agora andam falan-
do que o chique é passar as férias em Fernando de Noronha ou na
Europa. Não entendo mais nada.
— É, a vida é difícil, - respondi sem saber o que dizer.
— Mudei, para adaptar-me aos grupos, o meu modo de an-
dar, de falar, de comer, de pentear, enfim, de tudo, tudo mesmo!
J. S. deu uma respirada funda, limpou o suor do rosto com as cos-
tas da mão e continuou seu desabafo:
— Comecei a comer comidas desconhecidas e ruins de gos-
to: escargot, strudel, fondue, tournedos, em lugar de feijão com
arroz, bife e batatas fritas. Aconselharam-me um analista, um fa-
moso da zona sul. Uma vez por semana deito-me num divã e falo
para o teto tudo que me vem à cabeça, todas as minhas intimi-
dades, ditas para um homem barbado... não sei para quê. Critica-
do de um lado e do outro, acabei modificando minhas técnicas
sexuais aprendidas na zona boêmia de B H. Ensinaram-me novas
maneiras, mais modernas, baseadas nas ideias do casal Master e
Johnson, do Relatório Hite, de Albert Ellis, Alex Confort e muitos
outros, dezenas deles. E agora...
A respiração de J. S. estava ofegante. Ele não mais controla-
va seus pensamentos, que saíam aos borbotões. Pressenti que a
sua confissão alcançava o clímax. Ele deu um suspiro profundo,
194 - O Presente e Outros Contos

pigarreou, limpou, mais uma vez o suor que escorria pela sua tes-
ta e prosseguiu com sua confissão:
— Agora... essa está me enlouquecendo. Sugeriram-me que
deixe minha mulher - não é a amante, não - é minha esposa, a mãe
dos meus filhos, transar com outro homem. Argumentam que isso
é avançado e moderno, que só os machistas vão contra isso, por
desejarem ser donos das mulheres.
J. S., nesse momento, abaixou a cabeça, seus olhos brilhan-
tes fixaram um ponto do chão e assim permaneceu por um longo
tempo. Eu, sem saber o que falar, permanecia quieto no meu can-
to, identificando-me com seu desespero e suas dúvidas, que são
as de todos nós. Controlava-me, como podia, para não dar mais
um palpite em sua vida já tão cheia de opiniões.
Ele estava aprisionado num mundo de valores desencontra-
dos, introduzidos sutil e lentamente. J. S. não conseguia conciliar
na sua mente valores tão diversos, alguns oriundos do interior de
Minas e outros adquiridos das novelas e dos intelectuais de van-
guarda. Eles não se misturavam.
J. S. fitava-me, implorando mais um conselho:
— O que eu vou fazer? Estou sem saída!
Ele olha para mim triste e envergonhado por ter falado tan-
to, mais do que seu normal, de ter sido fraco conforme seu siste-
ma de crenças. Suspirando fundo, desabafou, despedindo-se:
— Tenho pensado até no suicídio. Sinto que não sou mais o
mesmo. Não me reconheço. Deixei de ser o J. S. que conhecia e
não sou mais ninguém. Penso, às vezes, em reconstruir tudo, mas
faltam-me forças e liberdade para isso, pois os amigos, sempre
vigilantes, não deixam. Gostaria de voltar a ser o que era, largar
tudo que criei após minha mocidade, pôr fogo no dinheiro maldi-
to, abandonar os clubes e as associações, bem como os políticos,
igrejas e amigos.
Assim, teria mais tempo de conversar comigo mesmo, como
antigamente, livre de toda essa gente maldita, com seus palpites
sobre tudo! Até logo...
INALDA

Caminhava sem rumo, alegria e ideias, pelo centro da cidade,


após mais um dia vazio. Não havia produzido nada. As ruas estavam
cheias de pessoas cansadas e apressadas, que se dirigiam para o
repouso da noite. Suas fisionomias eram tristonhas. Todos sabiam
que, no dia seguinte, fariam o mesmo trajeto, o mesmo serviço até
a chegada do dia da aposentadoria. Respirava um ar poluído da
tarde abafada e quente.
Saio do meu entorpecimento ao me deparar, de repente, com
um grupo de pessoas que rodeavam alguém que acabara de ser
atropelado. Indiferente, acostumado e embrutecido por essas situ-
ações tão frequentes, fiz uma volta para continuar minha caminha-
da, percebendo a inutilidade de qualquer gesto meu. Entretanto,
curioso e como que atraído pelas desgraças, lanço um olhar por
baixo dos braços de um dos “voyeurs” e, sem grande emoção, per-
cebo, estendida na rua, ensanguentada, com uma expressão de dor
e vergonha, minha antiga amiga Inalda. Estava feia. Fiquei paralisa-
do, sem saber qual ação tomaria. Ela agora nada mais significava em
minha vida, há muitos anos não nos víamos.
Tinha tido ocasionalmente algumas notícias suas através de
um seu companheiro da secretaria, onde ela era atendente escritu-
rária. Ouvia sempre entediado os relatos a seu respeito. Nossas vi-
das, durante alguns anos, correram juntas, agora nada mais tinham
em comum. Praticamente moramos juntos, logo após eu ter termi-
nado a universidade, quando ela, com os seus 17 anos, despontava
linda, alegre, brejeira.
196 - O Presente e Outros Contos

Sua pele morena exalava um perfume que me excitava. Ela


era provocante, totalmente irresponsável, mas, sobretudo, cativan-
te e sedutora.
Eu, sério e compenetrado, imaginava, naquela época, poder
salvar todos, principalmente as mulheres bonitas. Tentei inutilmen-
te convertê-la para os caminhos que julgava serem os corretos. Ela
ria bondosamente da minha inocência. Apesar de ser cinco anos
mais nova, julgava-me complacentemente, pois era muito mais ex-
periente do que eu na arte de viver, conquistar e amar. Eu só vim
a saber disso anos mais tarde. Hoje sinto vergonha da minha igno-
rância. Nesse instante lembrei-me dela viva. Visualizei particular-
mente uma noite, após ter jantado no Hospital onde tirava plantões
e escutei sua voz rouca, do outro lado do telefone, ligeiramente
apressada a me dizer:
— Eu vou aí te ver. Você pode me esperar? Eu tenho que ir rápi-
do. Acabei de me casar. Saí da festa e vim lhe telefonar. Estou indo...
— Mas como? Você se casou? Com quem? Ela não me respondeu.
Confirmei o encontro para onde morava. Sempre fui atraí-
do por situações estranhas, por pessoas complicadas e diferentes.
Inalda era uma delas. Detestava o comum e o normal. As situações
iguais às outras nunca me atraíram. Para que entramos nelas, se já
sabemos como vão terminar?
Inalda chegou rápido num táxi. Estava vestida de branco,
bem penteada e maquiada. Eu não sabia como começar a conver-
sa, mas ela sorriu, para colocar-me à vontade. Foi logo dando boas
gargalhadas e achando graça na minha confusão. Deu-me um gran-
de abraço e confirmou o seu casamento naquele início de noite.
Estava tranquila como sempre. Não havia com o que se preocupar,
pois não teria problema. Voltaria daqui a pouco e veio para me dar
um “alô”. Daria para seu marido uma explicação qualquer. Como
ele estava apaixonado por ela, ele aceitaria, exteriormente, qual-
quer desculpa.
Eu discuti com Inalda diversas maneiras para ela explicar ao
marido e tentar escapar de seu possível aborrecimento. Ela ouviu-
me desinteressada pois, melhor do que eu, era perita nisso.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 197

Não ficamos juntos mais do que uma hora. Tomou um táxi e


partiu. Eu não dormi mais naquela noite, preocupado com o que
poderia lhe acontecer. E também com sua possível perda, com
receio de ela abandonar a alegria, que só ela sabia transmitir e mo-
dificar minha mente solitária e cinzenta.
Tornei a vê-la outras vezes. Sentia que as ligações iam en-
fraquecendo e perdendo o vigor. Uma vez tendo terminado meu
curso superior, interessava-me por arranjar emprego, fazer novas
amizades. Ela perdia um pouco sua juventude e, junto com ela,
sua alegria e bom humor. Pouco a pouco adquiria o tédio, a irrita-
bilidade e cacoetes dos que perderam a juventude, dos que come-
çaram a ficar sem planos. Nós não éramos mais os mesmos, pouco
a pouco o antigo par que convivia bem e alegremente, já não era
o mesmo, o par atual não mais reconhecia o antigo.
Num domingo de carnaval, encontramo-nos por acaso na
avenida. Caminhamos juntos, lembramos coisas antigas. Mas os
sorrisos atuais eram bem diferentes dos de alguns anos antes. Can-
sados da caminhada e talvez da solidão a dois que se estabelecera
por falta de assunto que nos ligasse no presente, acabamos por
nos deitar nos jardins da Igreja São José. Lá ficamos e chegamos a
adormecer. Percebíamos, com algum sofrimento, o pouco de co-
mum que agora tínhamos, o aumento do fosso entre nós.
Nossos caminhos se distanciavam a cada dia. Ela já tinha se
separado. Tinha dois filhos, que eram criados pela sua mãe. Tra-
balhava na secretaria, num emprego que pouco lhe rendia em di-
nheiro ou prazer. Seus sonhos de ser, um dia, porta-estandarte,
ou mesmo dançarina de cabaré, se acabaram, pois já estava velha
para aquilo. Ela ainda era bonita, mas sua alma era agora pessi-
mista, mais do que a minha. No último encontro, notava, com
frequência, seus olhos mais brilhantes, cheios de lágrimas, que ela
tentava disfarçar, limpando-as com as costas da mão. Não tivemos
coragem de estabelecer planos para novos encontros. Ambos per-
cebíamos a distância aumentando entre nós. Alguns sulcos leves já
se desenhavam no seu rosto moreno.
198 - O Presente e Outros Contos

Não mais ouvi as suas gargalhadas roucas e longas, não mais


percebia sua irreverência para tudo e para todos. Agora nascia uma
mulher chata, pessimista, temerosa a respeito de tudo: dinheiro,
desemprego, solidão e futuro. Percebia, com profunda tristeza, que
minha Inalda morrera, não era em nada a do passado. Tornou-se
queixosa, resmungona, amarga, exigente e amedrontada. Amargu-
rado, sabia que não mais a desejava. Ela, que antes me atraía, agora
me incomodava. Ao mesmo tempo, recriminava-me amargamente
ao criticar uma pessoa que amei e que não mais existia. Sentia-me
impiedoso e crítico demais para com um ser humano que sofria. Eu
padecia pelo contato com sua presença morta.
Chegou a ambulância. Não me aproximei, envergonhado de
alguém poder adivinhar as nossas ligações, minhas emoções do
momento e os meus pensamentos. Tinha agora certeza de que era
ela. Não sei se ela estava já morta ou apenas desmaiada. Inalda
parecia sorrir, suas faces transformaram-se, novamente. Senti nas-
cer, por alguns momentos, sua beleza anterior e senti saudades
da antiga Inalda, desejos de tentar uma aproximação e de, juntos,
voltarmos ao passado.
Naquele momento, ela nada percebia. Devia sofrer. Seu cor-
po inerte transportou-me ao mundo dos sonhos, dos nossos pri-
meiros encontros, quando ela acreditava, talvez como agora, des-
maiada, que no mundo tudo seria fácil de ser feito, de que não
havia necessidade de planejar nada. No mundo de Inalda as coisas
se arrumariam por si mesmas, não precisavam ser administradas.
Ela era poderosa por ser bonita, jovem, alegre e inteligente, e isso
nunca iria desaparecer. Tudo um sonho dos jovens. Agora, deitada
na maca, ela devia estar voltando para o passado. Um passado onde
ela foi feliz por estar enganada acerca da vida. Só enganada teve,
em sua pobre vida, chances de ser alguém.
Não tive mais notícias suas. Passei por diversas vezes pelo lo-
cal do acidente, tentei visualizar o seu belo rosto desmaiado. Foi
tudo inútil, ela não mais aparecia como antes.
A VINGANÇA DE OTÁVIO PARPANTE

Otávio Parpante, como era comumente chamado, era um le-


nhador muito forte, que articulava umas poucas palavras e quase
não escutava, a não ser quando gritavam no seu ouvido. O apelido
“Parpante” foi criado para descrever seu modo de andar, que dava
a impressão de que ele parecia estar apalpando tudo por onde an-
dava, com seus pés abertos para os lados.
Poucos meses após ter sido dispensado de seus serviços na
fazenda do Sô Quincas, onde cortava árvores para fazer carvão,
ele, através de seu ex-patrão, conseguiu um lugar para dormir e ao
mesmo tempo trabalhar, na casa de D. Amélia.
D. Amélia morava numa bela casa na rua Direita da cidade,
logo acima da igreja, de modo que, muitas vezes sem sair de sua
casa, ela podia ouvir muito bem os sermões do padre Leão. Havia,
atrás da casa de D. Amélia, um enorme terreno onde foram plan-
tados pés de mangas, jabuticabas, goiabas, banana e outras frutas.
Mais para o fundo do terreno, mais perto do rio que passava pela
cidade, D. Amélia criava porcos e galinhas para o gasto da família.
Seu marido havia morrido há alguns anos, seus cinco filhos, já
casados, moravam todos em volta da casa da matriarca que era visitada,
a todo instante, por eles e pelos netos, para contar uma coisa ou outra,
pedir um conselho, ou talvez para aproximar-se dela e, assim, sentirem
segurança, uma proteção que só ela sabia dar às pessoas. Como o ser-
viço das ajudantes, cozinheira e arrumadeira, estava grande demais,
ela contratou Otávio Parpante para ajudá-las, principalmente quanto à
limpeza do terreiro e o cuidado com as galinhas e porcos.
200 - O Presente e Outros Contos

Otávio Parpante fazia tudo de modo obsessivo. Não tolerava


uma enxada colocada no lugar “errado”, isso é, fora do lugar de-
terminado por ele ou por sua patroa, uma mulher forte que sabia
o que queria e quase nunca voltava atrás em suas decisões. Otávio
Parpante, tendo sua lógica própria, exigia que o lugar de guardar
o milho deveria ser antes do lugar de guardar o fubá, pois este
último é feito pelo primeiro. As enxadas deveriam ser penduradas
numa espécie de cabide com a lâmina colocada para cima e todas
elas dependuradas sem que os cabos delas encostassem no chão.
Se alguém tirasse um dos objetos guardados por ele, e os pusesse
fora do lugar determinado pela sua ordem obsessiva, ele não só
se desesperava, como também ameaçava a pessoa de agredi-la, ou
mesmo matá-la. Apesar de sua enorme força física, e por isso mes-
mo temido por todos quanto a esse aspecto, ele jamais dera o me-
nor problema para D. Amélia com respeito a esse comportamento.
Suas agressões eram sempre uma cara fechada e resmungos conti-
nuados, uma conduta que, às vezes, durava um dia ou mais.
Parpante dormia num cômodo, junto ao galinheiro e chiquei-
ro, onde eram guardados os mantimentos necessários - milho, fubá,
etc., - que serviam de alimento para as galinhas e os porcos. Junto
ao cômodo onde ele dormia, havia uma bica por onde corria uma
água cristalina transportada através de um pequeno rego, que co-
meçava na nascente existente no próprio terreiro da casa. No cô-
modo que ocupava não havia banheiro, entretanto, como o terreno
terminava num rio que passava nos fundos dele, D. Amélia mandou
construir um pequeno cômodo, cujo piso era furado de modo cir-
cular, permitindo, assim, fazer as necessidades nesse lugar, as quais
iriam cair na água do rio que passava abaixo. Esse estreito banheiro
havia sido construído quando ela fez uma reforma na sua casa e era
para ser usado pelos operários que ali trabalhavam, pois nenhum
deles jamais tinha acesso às privadas usadas pelos patrões.
Mas Parpante não gostava desse banheiro, ele se sentia mal,
ao olhar, pisando no piso, as águas passando e em movimento con-
tinuado lá em baixo.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 201

Assim, em vez de usar o banheiro improvisado mandado cons-


truir por D. Amélia em cima do rio, Otávio Parpante preferia fazer
suas necessidades no próprio terreiro, isto é, dentro da pocilga ou
do galinheiro, de modo tal que, logo depois, os seus dejetos eram
prontamente ingeridos pelos porcos ou pelas galinhas, diminuindo
o gasto que teria com milho e outras substâncias nutritivas.
Parpante trabalhou com D. Amélia alguns meses sem dar o
menor problema: não amolava ninguém, fazia seu serviço como
ordenado pela patroa, que tolerava bem suas regras fixas e rígi-
das. Quase sem falar, levantava-se muito cedo e trabalhava até o
sol se pôr.
Todas as tardes, invariavelmente, ao terminar seu trabalho,
calado e sem fazer o menor ruído, ele se assentava numa pequena
pedra que foi ali deixada durante a construção e ficava esperando o
jantar. Maria, a cozinheira, sabia quando ele devia estar esperando
e, também, do que ele gostava mais - canjiquinha, angu, quiabo,
mandioca, costelinha e couve - preparava seu prato e o levava. Ele
comia com as mãos, não usava talheres, por mais que sua patroa
tentasse ensiná-lo a usá-los. Após jantar um prato enorme que lhe
era servido pela cozinheira, sem que Parpante pedisse ou reclamas-
se nada, ele deixava o prato em cima da pedra e ia embora, sem
nada falar, direto para seu quarto. Cheio de manias, em lugar de
usar a lâmpada que lá já tinha sido instalada, usava um lampião Ala-
dim de querosene, até o sono vir, após rezar diversos terços. Não
gostava de rádio e não sabia ler, apesar de guardar com especial
cuidado um missal, ganho de um amigo de infância que frequentou
o catecismo por algum tempo.
Às vezes, preocupado com um pintinho ou um porquinho,
à noite, levava-os para seu quarto, pois assim poderia cuidar me-
lhor deles. Segundo ele, devido às chuvas, ventos fortes e frio, os
pobres animais poderiam sofrer muito e até morrer, o que o fazia
sofrer demasiadamente.
Certa vez cuidou de um pinto encontrado quase morto no
galinheiro, durante sua visita noturna antes de se deitar.
202 - O Presente e Outros Contos

Levando-o para o quarto, agasalhando-o e alimentando-o qua-


se a noite inteira, o pinto foi melhorando pouco a pouco. Como
a melhora do pinto foi lenta, tornaram-se necessários cuidados
especiais durante alguns dias e noites. O trabalhou compensou.
Desse pinto moribundo surgiu uma franga bela e formosa, alta-
mente presa ao seu tratador. Parpante, a cada dia foi ficando mais
encantado com a franguinha que despontava e se tornava grande
amiga dele. Como foi criada por ele desde que nasceu, passou a
acompanhá-lo por todos os lugares onde ele ia. Para Parpante, essa
foi uma experiência agradabilíssima. Era-lhe pesaroso deixá-la lon-
ge dele. Seu coração batia apertado quando ele a largava dentro
do galinheiro, abandonada por ele e sujeita a ser agredida por uma
ou outra galinha mais poderosa. Mas, com alegria, tirava a franga
do galinheiro e soltava-a, deixando-a acompanhá-lo onde ele ia por
todo o grande terreiro.
Ao anoitecer, depois de irem juntos jantar, os dois, ele na
frente e ela atrás, iam para o quarto de ferramentas onde ele dor-
mia junto à franga, na sua imunda cama, os dois cobertos pelo
mesmo cobertor.
Aos poucos a franguinha foi se tornando adulta, isto é, foi
virando galinha, e nesse estágio de seu desenvolvimento, o galo
metido e arrogante do galinheiro começou a olhar para ela com
olhos sedutores. Era mais uma possível esposa para aumentar seu
harém. Assim Cocota, como era chamada, cada dia se aproximava
mais do galo intrometido.
A princípio, Parpante não ligou, ou talvez não imaginasse
que ela pudesse ser infiel, já que ele lhe dispensava um grande
amor e cuidado. Mas os fatos não ocorreram como ele imaginava.
Num certo dia, com o passar do tempo, aproximando-se o período
de vida adulta e da franga botar, falou mais alto o poder biológico.
Após Parpante ter jogado o milho para a alimentação das aves, o
galo intrometido e indiferente às ligações amorosas existente en-
tre os dois, iniciou seu trabalho de macho com sua nova parceira
Cocota, até então uma franguinha bonita e virgem.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 203

Parpante ficou indignado ao presenciar a cena que temia. Ini-


cialmente ele correu atrás do galo, afastando-o de sua amada, mas
sem conseguir pegá-lo, desistiu irritado. Nessa noite, imaginando
poder reconquistar sua amada, ele resmungou por toda a noite jun-
to a Cocota, que o ouvia seriamente e talvez se desculpando pela
sua conduta indecorosa, fruto dos instintos e hormônios que che-
gavam alheios à sua vontade. Vendo a seriedade de Cocota, decidiu
perdoá-la por aquela traição feita na presença dele, despudorada-
mente. Mas dias depois ele presenciou outros carinhos dispensa-
dos pelo galo à galinha predileta de Parpante. Ele sentiu como que
uma facada no peito. Definitivamente, havia perdido o amor de sua
galinha de estimação. Naquela tarde, durante o jantar, Cocota não
o acompanhou até a porta da cozinha, para receber parte de seu
jantar, antes deles irem dormir juntos.
— Parpante - perguntou Maria - cadê a Cocota?
Nesse momento, Parpante, assustado, resmungou quase sem
voz:
— Ela não quis vir. Está adoentada.
— Oh! Coitada. Leva um pouco de canjiquinha, pois ela gos-
ta tanto.
Nesse fim de tarde, Parpante quase não jantou e jogou na
terra, em vez de levar parte da comida que ele deixou no prato.
Em seguida foi para seu quarto. No dia seguinte Parpante, após ter
enterrado Cocota, informou à patroa que a galinha havia morrido
de uma doença que ele não conhecia.
Tudo continuou como antes, apenas Otávio Parpante, duran-
te dias, não dormiu direito, pouco se alimentava, e durante alguns
dias não falou uma palavra com ninguém.
Nesse ínterim, uma das cozinheiras mais antigas de D. Amélia,
há tempos sofrendo do coração, após ter sido internada no hospital
da cidade, morreu de uma pneumonia que pegou no próprio hospital.
No seu lugar entrou uma moça morena, de coxas fortes e belas, muito
sorridente e desinibida. Logo no primeiro dia de serviço, ao servir o
jantar a Parpante, ela foi logo brincando e conversando com ele.
204 - O Presente e Outros Contos

— Não te conhecia, conheço todo mundo aqui na cidade.


— Saio pouco, resmungou tristonho, pensando na Cocota.
— Mas você é forte, bonito e novo. Não arruma nem uma
namorada?
— Não. Ele custou a falar, pegou o prato de comida e come-
çou a comer. Mas o apetite era pouco. Só se lembrava que daí a
pouco iria para sua cama, sem a presença de Cocota. Ficou mudo.
— Esquisito: você não gosta de falar? Eu falo muito. Mas vou
fazer você falar. Sou boa nisso.
Parpante, sem se despedir, foi embora chorando. Antes de ir
para seu quarto foi até onde havia enterrado Cocota. Pensou em
abrir a cova, para vê-la uma última vez. Desistiu, mas antes de entrar
no seu quarto catou algumas pedras, as mais bonitas que encontrou,
e colocou-as em torno do lugar onde Cocota descansava para sem-
pre. Depois de ter enfeitado o jazigo onde fora enterrada, ajoelhou-
se e rezou algumas Ave-Marias diante do túmulo de sua amada.
Com o passar do tempo, porém, os sonhos tecidos por Par-
pante com respeito a Cocota, foram ficando mais fracos. Não que
eles desaparecessem, pois sempre, todas as noites, lembrava-se de
Cocota e do carinho e simpatia com que ela se aconchegava em
torno de seus braços e ouvia seus elogios.
Alzira, a alegre e desinibida nova cozinheira que entrou no
lugar de Maria, muito conversadeira, aos poucos conquistou o
amor de Parpante. Todas as tardes, durante seu jantar, Alzira, além
de preparar as iguarias que ele mais gostava, assentava-se ao seu
lado, enquanto ele jantava. Ela conversava sem parar. Às vezes,
chegava mesmo a pegar em seus braços ou mãos, de modo muito
natural, pois fazia parte dessas pessoas que, para contar alguma
coisa, tinha que pegar no outro. Isso provocava um estremeci-
mento em Parpante, fazendo com que ele perdesse o sono nesses
dias. Mais excitado ainda ficava, quando Alzira, após o jantar, o
acompanhava até seu quarto e, assentada ao seu lado, na cama
onde dormia, conversava de tudo, enquanto ele a escutava com
os olhos vidrados.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 205

A partir desses fatos, foi-se esquecendo em definitivo de Co-


cota, tirando as pedras que havia colocado em torno de onde havia
enterrado a franga. Chegou mesmo a plantar um pé de milho em
cima da cova onde a enterrara. Enquanto uma ia desaparecendo de
sua memória, Alzira ia nascendo.
D. Amélia, astuta e observadora, notou a mudança ocorrida
na conduta de Parpante, após a contratação de Alzira. Ela percebeu
que, a todo o momento, ele arrumava um motivo para ver a moça,
pois era para ele um sofrimento estar longe dela por muito tempo.
Ao arrumar, sem parar, uma e outra desculpa para vê-la, ele passou
a produzir muito pouco, pois deixava tudo para depois e, além dis-
so, não deixava sua amiga trabalhar.
Em virtude disso tudo que estava acontecendo, D. Amélia de-
cidiu, após custosos e habilidosos arranjos políticos, no que ela era
perita, arrumar um casamento para Alzira com um rapaz dono de
uma banca de revistas e jornais, que só tinha um defeito: era um
tremendo beberrão, conhecido por todos na cidade.
D. Amélia, antecipadamente, para evitar uma tragédia, ou
seja, que Parpante fosse atrás do vendedor de revistas e, quem
sabe, até tentasse matá-lo, falou com ele que Alzira, bem como o
vendedor, bebiam muito. Além disso, ela pediu aos dois que simu-
lassem, diante dele, uma cena onde os dois estivessem bebendo
pinga, que na realidade era água misturada a laranjada. Acontece
que Parpante tinha pavor ao álcool, bem como detestava quem
fizesse uso de pinga, cerveja ou outra bebida semelhante.
A partir desse dia, quando ela fingiu que bebia diante dele, a
pedido da patroa, nunca mais aproximou-se dela. O prato de suas
refeições era colocado por ela em cima da pedra, sem que trocas-
sem uma só palavra. Novamente ele entrou em desespero, tornan-
do-se ainda mais calado e sombrio.
O choque foi tão grande que Parpante, apesar dos seus es-
forços, quase nada rendia, permanecendo uma grande parte do
tempo dentro de seu quarto, rezando o terço. Sua patroa, apesar de
se sentir culpada do seu estado, já pensava em despedi-lo, quando
aconteceu um novo evento que mudou a situação.
206 - O Presente e Outros Contos

Durante uma enchente no rio que cortava o fundo do lote


onde ele trabalhava e morava, Parpante, sombrio e pensando sem
parar em Alzira, viu um cãozinho sendo levado pela correnteza, fa-
zendo um esforço enorme para se salvar. Parpante, que olhava para
o rio sem pensar em nada mais que Alzira, viu o cão desesperado. A
princípio não prestou atenção ao cão, olhava, sem ver. Num certo
momento, focalizou mais o fato. Neste instante caminhou resoluto
em direção ao rio, e após entrar na água, procurou agarrar o cão
que se debatia desesperadamente sem resultado. Não foi difícil sal-
var o cãozinho, que foi, em seguida, levada para seu quarto.
Uma vez salvo o cachorro, que na verdade era uma cadela
branca de pintas pretas pelo corpo, por estar muito molhada, pare-
cia ainda menor do que era. Tremendo de frio e de medo, a cade-
linha aceitou, prazerosamente, o contato com o tórax imenso de
Parpante. Era um fim de tarde, assim, condoído após sentir-se bem
com o contato da cadela, ele decidiu, sem falar nada com sua pa-
troa, levá-la para dentro de seu cômodo. Na primeira noite, por es-
tar ainda molhada, ele colocou a cadela, para aquecê-la, dentro de
um balaio de milho, enrolando-a com sacos vazios que ali estavam.
Antes abriu uma canastra velha e quebrada, onde guardava suas
roupas, e de lá retirou um pedaço de pão que deu para a cadela,
que o devorou de uma vez.
Aconteceu o esperado: ele afeiçoou-se exageradamente à ca-
dela, que recebeu o nome de Mélia. Sua patroa até que gostou da
cadela, apesar de não ter gostado do nome, entretanto, já conhe-
cendo seu dono, prevendo coisas piores, pediu a ele que a desse
para alguém que de fato pudesse cuidar dela de foram adequada.
Assim, contra a vontade dele, ela foi dada para um sobrinho de D.
Amélia. Entretanto, dois dias depois a cadela, que havia sumido da
casa do sobrinho, retornou para junto de Parpante. Nova conversa
séria de D. Amélia contra a permanência da cadela em casa, pois
não só aumentavam as despesas, como a cadela, que não se afasta-
va de Parpante, não o deixava trabalhar, além do inconveniente da
quantidade de pulgas que passaram a infestar seu quarto.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 207

Certo dia, ao passar perto de Parpante, D. Amélia parou


para avisá-lo que a cadela precisava ficar presa ou ir embora. A
cachorra, após rosnar, deu uma pequena mordida no tornozelo
da patroa, o que bastou para que ela tomasse uma decisão final:
— Ela não fica mais aqui. Será dada ou vendida hoje ainda.
Em seguida, após conversar com o filho, D. Amélia pediu-lhe que
levasse a cadela.
Logo após ser levada e sumir, Parpante gritou, chorando dias
e dias. Desesperado pela solidão, ele largou o serviço e saiu - o que
não era seu costume - pelas ruas da cidade, à procura da cadela.
Nesse período ele não só emagreceu, como também não dormia,
além de chorar constantemente, o que indicava seu sofrimento.
Certo dia, andando e olhando para todos os lados, Parpante
encontrou Mélia. Foi um encontro emocionante, de abraços e
beijos por um longo tempo. Entrando pelos fundos, carregando
a cadela bem escondida, Parpante a levou para seu quarto e a
colocou dentro do balaio vazio de milho. Em seguida foi esperar
seu jantar e, nesse dia, disse que iria jantar no quarto, pois não
queria ficar exposto ao vento frio que soprava naquele início de
inverno.
Mas dois dias depois, D. Amélia descobriu a cadela ao ouvir
seus latidos conhecidos e foi pessoalmente até onde ele estava
no quarto, exigindo que ele lhe entregasse a cadela, para que ela
fosse dada a alguém. Parpante, segurando em seus braços podero-
sos a pequena cadela, resistiu e afirmou que não a entregaria para
ninguém. Sem muito conversar, D. Amélia procurou ajuda entre
os policiais da cidade e do médico do posto. Um grupo de cinco
homens, ao chegar à casa de D Amélia, após diversas tentativas
infrutíferas de negociação para que Parpante entregasse o animal,
decidiram tomá-la à força. Para isso, após tremenda luta dos cinco
contra um, um dos soldados, o mais forte do grupo, deu-lhe uma
“gravata” por trás, bem apertada, até que ele perdesse os senti-
dos, enquanto os outros o seguravam e tiravam Mélia, apavorada,
dos seus braços.
208 - O Presente e Outros Contos

O médico aproveitou a oportunidade para lhe aplicar um cal-


mante na veia, que o fez dormir de imediato. Assim conseguiram
sequestrar a cadela Mélia. Mas pouco depois, ainda com os poli-
ciais e o médico dentro do quarto, ainda grogue, retomou a consci-
ência, derrotado e calmo. Vendo que tudo estava perdido, decidiu
fazer uma última proposta com lágrimas nos olhos, o que comoveu
até aos soldados:
— Tá certo... eu levo-a embora, levo-a para onde a peguei,
para o rio.
— Mas ela vai nadar e sair, respondeu um dos soldados, que
continuou:
— O rio está vazio, está fácil sair.
— Não. Antes, eu mato ela. Nesse momento ele não conse-
guiu falar mais nada, pois soluçava de um modo tal que sua voz
não saía.
Por sugestão de um policial mais acostumado a essas coisas,
foi proposto que Parpante enforcasse a cadela com uma corda,
antes de jogá-la ao rio.
Dominado pelo grupo, pelo desespero, pela tonteira da in-
jeção e sem outra alternativa, prometeu matá-la, enforcando-a e
jogando-a no rio. Teve por testemunhas todos os presentes, inclu-
sive a patroa e Alzira, a cozinheira, por quem era apaixonado. An-
tes pediu licença para vestir o terno preto, que tinha sido ganho
e guardado para quando morresse. Após se vestir, preparado para
o ritual e acompanhado pelo grupo, caminhou para o fundo do
terreno, onde passava o rio, com a cadela amarrada num fio de
luz, pois ninguém conseguiu arrumar uma corda bem adaptada ao
proposto.
Antes de apertar o fio em torno do pescoço, fez um último
pedido: dar a última refeição à cadela. O pedido, após ser discuti-
do, com alguns contra, outros a favor, foi aceito. Assim, com algu-
ma demora enquanto o grupo esperava, Alzira foi até a cozinha e
preparou um angu com pedaços de carne picada, a comida favorita
da cadela. Ainda quente, a comida foi trazida.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 209

Parpante, para evitar queimar a boca da cadela, pediu ao gru-


po para que esperasse a comida esfriar. Para isso ele foi mexendo
o angu com carne, enquanto ia provando e comendo parte do ali-
mento. Certo de que a comida já esfriara, ele deu, com carinho e
cuidado, diante de todos, o angu com carne. A cadela, talvez assus-
tada com tantos olhares, mistura de dó e angústia, apenas provou
o último alimento.
Em seguida, apanhou pedras de um certo tamanho e foi as
amarrando no fio que numa das pontas circundava o pescoço da
cadela. O grupo formado pelos cinco soldados, o médico, D. Amé-
lia e Alzira, em silêncio assistiam à complicada e demorada amar-
ração feita por Parpante, como se seguisse um ritual já feito por
diversas vezes. Ouvia-se apenas o barulho das águas do rio e os
grunhidos ocasionais da cadela, tendo um laço no pescoço e presa
com tantas pedras amarradas na outra parte do fio.
— Tudo pronto - falou Parpante com sua voz estranha. Todos
estavam impacientes, desejosos de acabar com aquele martírio. Al-
zira começou a chorar e pediu para que não fizessem aquilo. D.
Amélia, apenas, após balançar a cabeça negativamente, falou:
— Joga!
Ao cair na água, não se ouviu nada, nem o latido agudo e cos-
tumeiro de Mélia. Parecia que ninguém ali escutava nada, nem o
baque pesado na água do corpo e das pedras, tudo amarrado junto.
Rapidamente foram sumindo Mélia e as pedras. Depois instalou-se
um silêncio total, ninguém falava nada, todos olhavam para o local
onde Mélia foi jogada.
O grupo ainda ficou por alguns minutos diante do rio, olhan-
do para as pequenas ondas que corriam lentas e indiferentes ao
drama daquelas cabeças. Um a um, de cabeça baixa, foram dando
as costas para o rio onde a cadela havia sido enterrada para sempre
e, em silêncio, caminharam em direção à casa.
A noite começava, uma noite mais calma que as outras. Lá no
fundo, as ondas continuavam a correr como dantes. Chocavam-se
entre si e quebravam-se, como se nada tivesse acontecido.
210 - O Presente e Outros Contos

A partir desse dia, Parpante não conversou mais com ninguém,


não saiu mais de casa. Todas as tardes ficava olhando para o lugar onde
Mélia fora jogada, esperando talvez que ela voltasse, como havia vol-
tado antes.
Uma tarde, enquanto ele olhava para o rio, D. Amélia apro-
ximou-se, sentindo-se culpada do lamentável estado de Parpante.
Junto a ela, dentro de um pequeno carrinho, estava seu neto de seis
meses que tomava um pouco do sol de fim da tarde. Após tirá-lo do
berço, mostrou-lhe o rio, as ondas e o barulho monótono e triste
das águas que corriam à sua frente. Às vezes ela imitava, enchendo
de ar sua própria boca, o barulho do rio. Nesse momento Alzira a
chamou para ver se a goiabada que ela estava fazendo já estava no
ponto para ser colocada em formas.
Condoída com o silêncio e a dor de Parpante, desejando que
seu neto tomasse mais um pouco de sol, ela colocou o menino no
carrinho e pediu-lhe para que tomasse conta dele, enquanto ela ia
ver o doce.
— Ele te fará companhia - falou rindo para Parpante.
Poucos minutos depois ela voltou. Ao chegar perto do ber-
ço, D. Amélia começou a gritar desesperada com o que assistia,
sem poder fazer nada. Parpante, após tirar o menino do carrinho,
apertou seu pescoço com mãos possantes, até certificar-se que ele
estava morto. O menino não chegou nem mesmo a chorar. O es-
trangulamento foi rápido e brutal. Em seguida, Parpante atirou o
menino já morto ao rio, no mesmo lugar onde jogara a cadela. As
ondas passaram indiferentes por cima do corpo inerte do menino,
como passaram por cima do corpo de Mélia.
O PASTOR E O BANDIDO

Um criminoso, ladrão, assassino, traficante de drogas, se-


questrador e outras ações semelhantes, cansado e entediado com
a vida que levava de fora-da-lei, após ter completado sessenta anos,
resolveu se recuperar. O marginal estava arrependido do que fize-
ra e, para regenerar-se, saiu à procura da ajuda de um pastor de
almas, cuja idade já havia ultrapassado os setenta anos.
O velho e decadente pastor, atraído e animado com o grande
desafio, aceitou o convite de transformar o criminoso em homem
honrado. O bandido, de fato, desejava mudar de vida, embora não
pela convicção de que a vida de não delinquente era a certa e a
melhor. Na verdade ele decidiu mudar de mau para bom, porque
a sua capacidade criminosa havia diminuído. Ele não era mais o há-
bil e corajoso bandido, pois estava desanimado, cansado e menos
capaz. Em outras palavras, ele queria mudar por haver perdido o
entusiasmo e a confiança na perfeição dos seus crimes.
A cada dia, ele passara a se julgar mais incapaz na arte de
roubar, matar ou de ludibriar as pessoas. Ele estava, portanto, de-
siludido com seu difícil trabalho e, por isso, irritado com o que
estava fazendo, talvez agora por incompetência, decidiu passar a
fazer o contrário do que fizera antes.
Ainda um pouco indeciso quanto à opção imaginada, para se
certificar da correção de sua decisão - abandonar o crime e mudar
de profissão - ele, antes de procurar o pastor para receber ajuda,
entregou-se de corpo e alma ao crime pesado: sequestros, assaltos,
roubos de bancos e de mercadorias e tudo quanto fosse crime. De-
212 - O Presente e Outros Contos

sejava testar sua hipótese de que não aguentava mais continuar a


ser um bandido. Após ter trabalhado febrilmente durante três me-
ses, dia e noite, como um marginal profissional, Fernando Beira-
Rio teve sua suposição confirmada: ele não suportava mais viver
como bandido. Precisava, antes de morrer, mudar radicalmente de
profissão. Talvez pudesse viver feliz, fazendo o oposto do viven-
ciado nesses três meses de desafio. Assim, ele estava convicto de
que desejava fazer o bem às pessoas.
Diante do pastor de almas Horácio, o procurado, ao iniciar-
se a conversa Fernando sentiu-se mais tranquilo ao descrever al-
gumas de suas proezas, selecionando, para contar, algumas pou-
cas e sem muita importância: pequenos roubos e assaltos. Ainda
acostumado ao antigo modo de viver, Fernando automaticamente
imaginou, durante seus primeiros encontros, ainda que não tives-
se ido lá para isso, tentar levar o pastor a se aliar a ele em alguma
empreitada grande e mais perfeita do que seus assaltos agora mal
planejados, que deram poucos e fracos resultados. Nas primeiras
conversas com Horácio, Fernando imaginava também poder rou-
bar algo do pastor, ali mesmo na igreja ou na casa deste, quando
tivesse maior intimidade com ele.
Mas suas ideias de tentar tirar alguma coisa do pastor, nessa
fase de transição em que vivia, deram em nada. Primeiro, porque
a simpatia e carinho do pastor para com ele desarmaram algum
plano inconsciente de Fernando e, segundo, porque o pastor era
um viúvo sem filhos e sem bens nenhuns, nada tendo para ser
roubado. Matá-lo não acrescentaria nada aos antigos planos de
Fernando.
Durante as visitas à favela onde morava e onde conversa-
va com seus companheiros sobre seus dramas, como o possível
abandono da criminalidade, seus atuais encontros com o pastor
de almas Horácio e também sua indecisão acerca do caminho que
tomaria, Fernando, aos poucos, começou a sentir um grande asco
por toda aquela vida experimentada, por tudo aquilo que havia
feito e que dera identidade à sua pessoa.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 213

No mundo em que vivera, todos mentiam e tentavam trapa-


cear, era um contra os outros, o mais esperto devia “passar a per-
na” nos outros menos capazes. Fernando começou a imaginar para
ele um mundo diferente, um ambiente semelhante ao vivido pelo
pastor e pelos amigos e aliados deste.
A princípio, nos primeiros contatos, o pastor ficou espantado
com o que ouviu durante a entrevista: estava diante de um crimino-
so profissional. Fernando não era um qualquer, não era um “pé de
chinelo”, era um perito, um criminoso capacitado e inteligente.
— Ah! Reverendo, aquilo não é viver, é um verdadeiro infer-
no. Estou sempre em perigo, sou diferente do homem que trabalha
ou estuda, paga impostos, respeita a Lei, o dever, luta pelo Bem
contra o Mal. Sou uma ovelha desgarrada.
O pastor percebeu que Fernando conhecia bem as leis do certo
e do errado, era um sábio em matérias penais e as possíveis punições e
também algumas doenças como o mal que a droga — álcool, cocaína,
crack e outras — causava às pessoas, como ela destruía os jovens.
Fernando continuou:
— Quero aprender a praticar a virtude... não sei como agir
nesse sentido. Renuncio ao meu grupo e aos outros que agem
como eu, para sempre!
O problema principal de Fernando apresentado ao pastor,
que conhecia bem todas leis relacionadas à sua atividade, era di-
ferenciar claramente o Bem do Mal. A princípio isso pareceu fácil
para o pastor. Durante dois anos o marginal leu e discutiu com o
pastor todos os livros indicados por ele. Comparou-os e fez algumas
descobertas a ponto de chegar a criar, com sua excelente inteligên-
cia, novos esquemas comportamentais e cognitivos. Entretanto, ao
contrário do que esperava, a cada dia mais nervoso, Fernando foi
percebendo que ainda não havia encontrado a resposta desejada.
— Não suporto contradições, li o último livro que você me
emprestou - declarou irritado Fernando. E continuou:
— Seus livros estão cheios de contradições, como sempre foi
minha vida na favela e no crime.
214 - O Presente e Outros Contos

O pastor sentiu-se irritado ao perceber que o criminoso, em


lugar de aceitar as crenças expressas nos livros e nas conversas, criti-
cava os ensinamentos fornecidos com muita fé e carinho. Quase gri-
tando com Horácio, Fernando continuou suas críticas asperamente:
— Se por um lado tudo é proibido, de outro, tudo é permiti-
do. Para um livro uma coisa é boa, para o outro ela é má. Assim, os
pastores se dizem neutros e capazes de perdoar, entretanto, eles
se irritam, têm suas preferências, não toleram certas posições, ou
seja, são como todos nós somos, como os meus ex-amigos são.
Nervoso, o pastor criticou Fernando duramente, mas imedia-
tamente este, cada vez mais irritado, retrucou:
— Estou à procura de uma resposta que me possa guiar ou
servir para sempre, para todos os casos da vida. Busco uma “ver-
dade” que não encerre em si nenhuma contradição, isto é, que
seja clara, transparente, possa me dirigir para um objetivo que me
dê tranquilidade. Estou cheio de orientações contraditórias, sem-
pre vivi com elas. Apaixonado pelo bem, apaixonado pela causa
do Bem puro, Fernando continuou seu discurso inflamado com o
velho pastor, cansado e aborrecido, já meio desanimado daquele
religioso querelante.
— Para mim é difícil, em virtude de minha natureza, praticar
o Bem. Vim aqui para isso, aprender a praticar o Bem, abandonar o
Mal. Para isso preciso saber o que é o Bem e o que é o Mal. Apenas
isso. Creio que isso não é pedir muito.
Mas nada tornava Fernando seguro acerca da diferença entre
o Bem e o Mal: os livros, as idas à igreja, as conversas e exemplos.
Pouco a pouco, por mais que o bandido se esforçasse para colocar
em prática as ações baseadas nos ensinamentos, elas sempre davam
errado e traziam novas dúvidas. Eram explicadas e novas noções
discutidas, incentivadas pelo pastor Horácio para serem postas em
prática. Mas tudo continuava a dar errado. Fernando agia seguindo
à risca o ensinado: ao pé da letra. Quando o pastor lhe ensinou a
dar sua camisa a um pobre, ele dava a camisa, mas nunca o pão ou
qualquer outra coisa, pois essas outras coisas não foram faladas.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 215

Quando lhe foi ensinado a dar a outra face, caso levasse um tapa
no rosto, ele partia para a agressão ao receber um golpe na cabeça
ou no braço, isto é, se não fosse na face, como fora ensinado sim-
bolicamente.
Horácio, diante dos fracassos do aluno, decidiu ensiná-lo de
forma diferente, transmitindo-lhe as ideias gerais e só posterior-
mente as ações específicas.
— Não te oponhas ao mal: essa é uma lei importante, disse o
psicólogo um pouco desanimado com o aluno.
O marginal ficou assustado com o ensinado nas conversas
posteriores. Mas, teimoso, afastou-se do pastor para iniciar suas ati-
vidades concretas e no campo. Dois meses depois, Fernando retor-
nou à igreja para conversar com o pastor. Estava mais magro e cada
vez mais desiludido. Com pesar, contou ao pastor que, passando
por uma rua, viu uma mulher ser assaltada e morta. Quem a matou,
para assaltá-la, era um ex-conhecido seu, fraco e medroso. Ele teve
grande desejo de impedir o que o bandido estava fazendo. Não se-
ria difícil. Achou tudo terrível. Entretanto, para seguir o ensinado,
ele nada fez, pois lhe fora dito para “não ir contra o mal”.
Horácio, já tendo perdido a fé nos seus ensinamentos, deu
uma outra lição para Fernando.
— Fique quieto a partir de agora, de olhos fechados e ou-
vidos tampados. Dias depois, Fernando voltou todo marcado de
picadas de mosquitos, contou que ele ficou quieto, pois, segundo
as instruções, ele não deveria fazer nada.
Por momentos o pastor quase entrou em desespero, quase
perdeu a paciência. Pediu a Fernando que nada mais fizesse. Teria
umas férias por alguns dias. Enquanto isso, ele iria pensar que es-
tratégia tomaria para salvar sua ovelha desgarrada. Filosofando, o
velho pastor disse-lhe em tom de sermão:
— O bem possui tantas formas! Há inúmeras verdades que se
cruzam, entrechocam-se, batem-se umas contra outras. Parece que
se contradizem, mas na realidade não é assim. Qual é a verdade ver-
dadeira? Ou, se todas são verdade, como distingui-las e encontrar a
que possa servir melhor?
216 - O Presente e Outros Contos

Essas declarações, aparentemente para preencher o tempo,


enlouqueceram o bandido.
— Contradições por toda parte! Murmurou irritadíssimo Fer-
nando. Não tolero contradições! Assim prefiro continuar sendo um
bandido.
Os anos foram passando, o pastor, cada vez mais velho, pas-
sava grande parte de seu tempo lendo e escrevendo, pensando em
auxiliar, após sua morte, seu querido e obediente aluno. À medida
que ensinava a arte de bem viver ao seu discípulo, percebeu tam-
bém a dificuldade que era separar o Bem do Mal. Assim, uma gran-
de parte do que ele havia escrito para seu aluno, foi rasgado num
momento de incredulidade.
Fernando encontrou as páginas escritas por seu mestre joga-
das num cesto, ajuntou-as para poder lê-las e procurou mais uma
vez o pastor para discutir os assuntos ventilados nas páginas jo-
gadas no lixo. Encontrou o pastor deitado e se preparando para
morrer, mas antes ele queria ver a cidade onde morava, do alto
da montanha que cercava o povoado. Fernando o levou até lá. Ao
chegar ao cume, o pastor morreu.
Desolado, colocou os papéis rasgados numa certa ordem e
começou a ler um por um. Não encontrou nenhuma regra geral,
nenhuma prescrição sem exceção. O pastor Horácio tinha marca-
do, minuciosamente, o que Fernando deveria fazer a cada dia até a
morte dele, mas sempre tudo podia ser uma coisa ou outra, como
nos exemplos: não matar, mas em certos casos, matar; não desejar
a mulher do próximo, mas às vezes, devia desejar; não mentir, mas
se for preciso, mentir, etc.
Fernando, desolado por não ter encontrado o caminho certo,
imaginou que talvez o pastor estivesse disfarçado e fosse o próprio
bandido principal. Assim Fernando continuou sua vida, até morrer
anos depois. Aos poucos, foi se acostumando à vida dos não-crimi-
nosos e ora matava, ora não, ora roubava, ora não. Certos dias ele
se sentia até alegre e feliz. Todo o fim de semana ia para o alto da
montanha e lá ficava por três dias sem se mexer, pensando.
UM HOMEM ÀS AVESSAS

Convivi durante muitos anos com Jerônimo Duarte. Mesmo


sem nunca tê-lo conhecido ou entendido bem, nós éramos amigos.
Jerônimo era um homem comprido, usava frequentemente um terno
surrado, mas sempre limpo, largo, azul-celeste, que escondia sua ma-
greza extrema, dando a impressão de um boneco feito de espiga de
milho coberto por um guardanapo. Seus olhos empapuçados, como
olhos de sapo, estavam incrustados num rosto ossudo sem músculos
e gordura. Para esconder sua magreza, deixou crescer uma barba
rala, grisalha, sempre mal-aparada. Solteirão, morava desde rapaz so-
zinho num barracão de três cômodos, onde tudo era desordem. Sua
cama parecia que nunca fora arrumada. Ele mesmo dizia:
— Para que arrumá-la, se depois, ao deitar, ela terá que ser
desfeita?
As pulgas ainda restavam do tempo em que ele criava um
cachorrinho, que morreu de pneumonia e que servia para “espan-
tar os ladrões”, que porventura lá quisessem entrar. Na realidade,
a única coisa de valor ali existente era uma jabuticabeira que, de
ano em ano, florescia em abundância e cujos frutos sempre colhia
e dava aos mais chegados. Creio que, orgulhoso de seu presente,
tinha mais prazer em presentear do que em chupar as jabuticabas.
Quando as pulgas o picavam exageradamente, tinha uma técnica
infalível contra elas e que ele contava rindo:
— Levanto-me cuidadosamente, tiro o pijama e saio nu para o
sofá da sala, visto outra roupa e lá durmo, pois as pulgas ficam presas
à roupa anterior e, desse modo, eu as tapeio.
218 - O Presente e Outros Contos

Jerônimo tinha uma maneira peculiar de pensar que me atraía,


mesmo quando não concordava com ele. Eu sempre me excitei
com pessoas extravagantes, bem diferentes das demais. Jerônimo
era uma delas. Assustei-me naquela manhã ao abrir o jornal e ler a
notícia de sua morte. Não havia convite para missa, apenas uma
notícia seca, com o título: ”Aposentado encontrado morto.”
“O aposentado Jerônimo Duarte, 54 anos, solteiro, natural de
Ubá, foi encontrado morto no barracão onde residia. Seu corpo,
dependurado numa corda, já se encontrava em estado de putre-
fação. A polícia acredita que o aposentado foi vítima de suicídio,
porém não descarta a possibilidade de latrocínio.”
Não tinha parentes próximos, não era ligado intimamente a
ninguém, estava aposentado da Secretaria de Educação. Durante
35 anos trabalhara na biblioteca, o que lhe permitiu ler livros e
jornais, conseguindo um conhecimento fora do comum e singular,
pois não tivera mestre para orientá-lo num único caminho. Assim
ele aprendeu de tudo, e seguia, sem preconceitos, puramente o
que lhe interessava. Exatamente por isso, ele pensava de maneira
diferente da usual. Certa vez Jerônimo foi atropelado e levado para
o hospital, tendo comentado, sorrindo, após sair do coma.
— Como é bom ficar no hospital, aqui tenho de tudo, alimen-
tação, cuidados, gente amiga, enfermeiras bonitas e tratamento.
Além do mais, sem gastar um tostão. Nunca tive isso na minha
vida. Por que será que não conseguimos receber amor e carinho
das pessoas, sem estarmos à beira da morte? Comecei a melhorar e
começaram e me tratar “com casca e tudo”. Preciso ser atropelado
outra vez, ou adoecer gravemente, de tempos em tempos, para
poder, desse modo, usufruir da bondade humana.
Ao contrário da maioria das pessoas, gostava de um dia escu-
ro, chuvoso, frio e úmido.
— Que delícia o dia hoje! - dizia ele.
— Essa chuvinha transmite-me paz. Não tem sol e assim pos-
so olhar para o céu sem arder os olhos. Acabou-se a maldita poeira
que me faz tossir e, chovendo, posso ficar em casa sem sair e sem
sentir dúvida se devo ou não ir para à rua.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 219

Jerônimo nunca matara pulgas ou escorpiões. Quando en-


contrava escorpiões nos entulhos, junto à jabuticabeira, ele apenas
cortava o seu ferrão e deixava-os vivos. Ele acreditava na sabedoria
de um Deus que criou tudo o que aqui habitava para algum fim
desconhecido para ele. Com essas ideias, defendia a manutenção
do sistema de vida, de pulgas, escorpiões, aranhas e outros bichos.
O único animal que ele matava era sapo, pois ele tinha pavor deles.
Lembro-me de que, quando ameaçava a guerra no Golfo Pér-
sico, ele comentava numa roda onde todos criticavam a guerra e
Sadam Hussein:
— Precisamos delas, o mundo está super-habitado. Se não
morrerem alguns, não teremos comida para todos, o que já anda
faltando. Os antigos matavam os meninos, de tempos em tempos,
para diminuir a população. Alguns povos usavam matar os irmãos
mais novos, quando faltava comida. Por que não a guerra para fazer
o mesmo? De um lado o governo faz as suas campanhas para dimi-
nuir a mortalidade infantil, com isso aumenta o número de crianças
que não morrem. A medicina, com suas técnicas, impede de mor-
rerem pessoas menos capazes e que morreriam, caso não tivessem
cuidados especiais durante toda sua vida. Assim, com mais “bocas”
para comer, vestir, trabalhar, morar, procriar, estudar, etc., o go-
verno não aguenta. Portanto, com as guerras tudo volta ao normal,
ou seja, os que escaparam da mortalidade infantil, das doenças ou
deformidades que antes matariam, talvez morram nas guerras. Es-
tes, se não morrerem nas guerras, morrerão dos assassinatos, dos
acidentes de trânsito e assim se fecha o círculo. Além do mais,
muitos dos que morrem nas guerras são pessoas agressivas, san-
guinárias e se lá não fossem matar, matariam ou morreriam aqui.
Talvez nós fôssemos as suas vítimas. Alguns outros estão desejosos
de morrer, por não suportarem esse mundo. Na guerra estes re-
alizarão, de forma sublime, esse seu desejo e serão chamados de
heróis e não de suicidas.
Certa feita, surgiu uma acalorada discussão acerca de um fa-
moso crime, em que um cidadão havia assassinado a própria esposa.
220 - O Presente e Outros Contos

A maioria atacava o criminoso, taxando-o de covarde, estúpido e


outros nomes. Quando todos comentavam, com a mesma ideia o
crime, Jerônimo saiu-se com essa:
— Se fosse jurado, eu o absolveria. Nunca me casei, mas
creio que é muito difícil para um casal criar filhos. Imaginem ficar
a educação por conta de apenas um dos cônjuges. Deve ser muito
penoso, assim o assassino sofrerá mais ficando fora da cadeia, do
que dentro dela. Esta será a sua punição. Além do mais, tenho
dó dele. Agora ele é viúvo. Perdeu sua mulher repentinamente
de forma brutal, não importa quem foi o autor da morte. A perda
de um cônjuge deve deixar desnorteado e confuso o assassino,
como ocorre com os que perdem suas mulheres. Nunca matei
nem minhas pulgas, pois vivo bem com o mundo. Mas creio que,
quem mata aquela que um dia escolheu entre diversas outras,
para morar junto, deve ter sofrido e continua sofrendo muito.
Que castigo maior podemos impor a uma pessoa do que matar a
pessoa que ele tem como mais ligada a si? Qual de vocês viveria
em paz, se lhe matassem seu filho? Viver solto com apenas sua
consciência é uma terrível punição. Quem mata um filho, ou uma
esposa, mata a si mesmo, e o assassino, ao matar, decreta a sua
própria morte e seu castigo. Não precisamos castigá-lo mais do
que ele próprio já se castigou.
A conversa acabou nesse instante. Ele, apesar de solteiro,
tinha suas paqueras ocasionais, sendo um “free lancer”, como
ele mesmo se denominava. Nunca se prendia a ninguém, nem a
nenhuma ideia. Ao contrário da maioria, quando ficava sabendo
que sua namorada estava saindo com outro, ele comentava feliz
da vida:
— Minha namorada arrumou um novo parceiro. Que bom
para ela e para mim! Para ela, por estar junto de uma nova pessoa
de quem gosta mais do que da antiga, para mim, por saber que
ela tem atrativos que agradam a outros e assim fico mais seguro
da boa escolha que fiz. Imagine só, deve ser horrível ter uma na-
morada que ninguém quer, uma não cobiçada.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 221

— Ela pensa que eu não sei, mas não tem certeza. Assim fico
livre para fazer o mesmo, sem ter o maldito sentimento de culpa
que sempre me perseguiu. Além do mais, ela, tendo outro, não me
amolará com tanta insistência quando eu não quiser encontrá-la,
pois terá um substituto para os momentos de minhas folgas. Sendo
assim, poderei fazer outras coisas em qualquer dia, sem preocupar-
me com ela. Sabendo que ela anda com outro, sei que ela estará fe-
liz, assim se encontrará comigo de bom humor e me tratará melhor
por causa de sua culpa e por ter dó de mim por ser bobo.
Procurei me inteirar acerca de sua morte, pois sua vida sem-
pre me interessou. Fiquei sabendo que havia se suicidado no pró-
prio barracão onde morava. Fui por várias vezes lá, procurando
alguém ou documentos, para compreender o seu “tresloucado ges-
to”. Depois de várias vezes sem encontrar ninguém, numa manhã
avistei seu primo, que viera retirar seus pertences para doá-los e
entregar o barracão, que era alugado. Este era de pouca conversa
e só com muito custo contou-me o que ocorrera. Mostrou-me um
bilhete escrito antes do seu suicídio. Fiquei sabendo então que Je-
rônimo havia ganhado na loto 35.000 reais e isto o perturbou sen-
sivelmente. Passou a ter medo de sair e ser assaltado. Imaginou que
todas as suas paqueras queriam morar com ele para se aproveitar
do dinheiro ganho. Começou a ter insônia, não comprava mais co-
mida pronta como antes, pois imaginava que seria envenenado nos
restaurantes. Pouco a pouco, não recebia mais ninguém. Imaginou
até que seu coração havia parado de bater e que seus intestinos
estavam podres e cheios de vermes e já começavam a comê-lo. Nos
últimos tempos - contou seu primo - ninguém mais entrava em sua
casa que ficava fechada com fortes correntes..
Após alguns dias de completo silêncio, os vizinhos, após o terem
chamado por diversas vezes e não obtendo resposta, chamaram a po-
lícia. Esta, após arrombar a porta, encontrou seu corpo, já podre, de-
pendurado no cano da privada. Num canto do banheiro, havia cinzas e
pedaços de notas mal queimadas, que sobraram da incineração do seu
prêmio da loto e que serviu para matá-lo.
222 - O Presente e Outros Contos

O bilhete deixado e que, com a permissão do seu primo transcre-


vo abaixo, dizia:
“A vida para mim chegou ao fim. Conclamo todos a fazer o
mesmo. O mundo nunca serviu para ser vivido. Alguns teimam em
viver, a maioria faz tudo para “passar o tempo”. Tratamos as pes-
soas bem hipocritamente, somente quando estamos bem e com
sobra de coisas. Nos momentos difíceis, nos digladiamos, matamos
e assaltamos uns aos outros. Morro feliz de estar livre desse mundo
complicado, impossível de ser vivido em paz e harmonia e, pior
agora, quando todos querem me ver morto. Faço as vontades dos
inimigos.
Deixo as minhas quinquilharias para os ricos, para que eles
também possam ter a felicidade de se assentar num banco quebra-
do, de vestir uma roupa velha e confortável, de andar com um chi-
nelo largo, sujo, feio, velho. De largarem por alguns momentos os
valores que eles tanto amam, se agarram e se acham presos. Enfim
para que os ricos, de quem eu tenho tanto dó, possam experimen-
tar algumas poucas alegrias vividas pelos pobres. Alegrias talvez
mais humanas e agradáveis.
Queimei o dinheiro que havia recebido, todo ele. Destruiu mi-
nha felicidade e minha paz de homem comum e pobre. Deixei ape-
nas 1.000,00 reais numa caixa de sapatos, para ser entregue a Arlete,
em pagamento de uma dívida. Antes de ganhar o prêmio ela havia
me emprestado a quantia de 900,00 reais. O restante é o juro.
Estão querendo acabar comigo, homens, espíritos e também
algumas poucas bactérias nocivas. Passo à frente, destruindo-me
antes dessas forças terríveis.
Abraços aos que ainda ficam. Nos encontraremos daqui a al-
gum tempo.
Adeus,
Jerônimo”
CENAS DE FIM DO NAMORO

Há cinco anos atrás, durante o casamento de Pedro, primo pri-


meiro e amigo de José, ele conheceu Maria.
Durante a cerimônia religiosa José assentou-se nervoso no banco,
enquanto esperava o início desta, sem notar que uma moça elegante,
morena clara, aparentando ter no máximo 35 anos, estava ao seu lado.
Sem saber o que fazer, preso ao banco, ele ora olhava para um lado, ora
para outro, fingindo estar procurando alguém. Na verdade estava só,
com seus 45 anos, pois havia se separado de sua mulher há pouco mais
de seis meses. Num certo momento, ao virar-se para o lado de Maria,
esta o olhou nos olhos e começou uma conversa desajeitada:
— Você é irmão de Pedro? Parece-se tanto com ele.
— Não. Respondeu José, quase sem pensar e ainda sem se inte-
ressar pela vizinha de banco. Sou primo e muito amigo, muito amigo
mesmo. Ele continuou:
— Você é amiga dele?
— Não, sou amiga da noiva, de Carmen. Fomos colegas de
escola, estudei Veterinária, quando era mais nova.
Cheguei a terminar o curso.
— Então é veterinária?
— Não. Não exerço a profissão. Trabalho no Banco do Bra-
sil, vim para Belo Horizonte há pouco mais de um mês, estava em
Varginha.
A conversa começou e continuou até a cerimônia acabar. Ela
também era separada, tinha um filho de 13 anos que ora morava
com ela, ora com o ex-marido. José, entusiasmado, começou a lhe
224 - O Presente e Outros Contos

contar sua vida de casado, sua separação, seus filhos que nunca nas-
ceram pois sua ex-mulher desistiu de tentar após ter três abortos.
A partir desse dia os encontros se tornaram frequentes e, a
princípio, como sempre acontece, com muito entusiasmo. Os dois
tinham conversas animadas, planos diversos para viagens juntas,
festas, cinema, jantares e tudo o mais, que foi realizado logo nos
primeiros encontros. Financeiramente não havia problemas, ela
ganhava razoavelmente, ele, como funcionário da Receita Federal,
também tinha, além do salário bom, recebido um pequena soma
após a morte do pai que era viúvo. Também não tinha que dar pen-
são à ex-mulher, pois esta também era funcionária da mesma seção
onde ele ainda trabalhava.
Inicialmente, como sempre, os encontros eram quase diários,
alegres e animados. As conversas duravam horas, havia entre eles
uma concordância quase total. Tinham a mesma postura política,
isso é, contra o governo. Criticavam todas as religiões, apesar de
praticarem, sem consciência, os preceitos delas todas, pois ambos
tinham postura social e ética rígida e de acordo com os preceitos
da maioria ou de todas as religiões. Os dois tiveram uma educação
semelhante, pertenciam à mesma classe média, eram livres para
pensar e criticar tudo, sem grandes emoções e devoção aos ideais
defendidos, ou estavam talvez aprisionados à mesma ideologia po-
lítica de não seguir nada.
Por tudo isso, no começo tudo era encantamento. Não havia
imposições, não havia ciúmes de nenhuma parte, nada precisava
ser negociado, pois tudo era aceito como uma escolha de cada um,
na maior parte das vezes até havia uma concordância de valores.
Mas o tempo foi passando e estragando, como sempre, a
maioria das concordâncias. Pouco a pouco, tudo foi sendo destru-
ído. Primeiro foi o desinteresse, e talvez a irritação de Pedro, pelas
conversas de Maria acerca de como o filho dela crescia e ela acha-
va uma beleza. Muito bem educado, conquistaria inúmeras garotas
inteligentes e bonitas. Por outro lado, José notava que o rapazinho
não era muito dado a conquistas amorosas femininas, era mais para
gay e sua mãe fingia que não via ou não notava.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 225

Por outro lado, José notou que Maria jamais gastava um ní-
quel com as despesas que os dois faziam. Ela sempre esquecia o
talão de cheques, fazia de conta que estava distraída ou mesmo
pedia para que ele pagasse, pois, com mais calma, ela lhe paga-
ria depois e ele não via nunca a cor do dinheiro. Em seguida ele
começou a achar Maria suja e desleixada, porca mesmo, pois não
só custava a tomar banho, como vestia a mesma blusa, suja e fe-
dorenta, por várias vezes. Para encobrir o mau cheiro, usava um
perfume que provocava espirros em Pedro, e que, naturalmente
devido ao cheiro forte, ofuscava o mau odor que exalava de seu
corpo sem banho.
Aos poucos, José ia descobrindo outros aspectos negativos
em Maria. Notou que ela jamais tomava iniciativa em qualquer coi-
sa como para uma saída, decidir a hora de ir se deitar, de levantar-
se da mesa para preparar a refeição, lavar uma vasilha ou qualquer
outra coisa. Era sempre ele que tomava a iniciativa, enquanto ela
permanecia assentada e conversando calmamente. Tudo que de-
veria ou precisava ser feito partia dele, até trocar de canal quando
os dois estavam vendo TV.
José foi perdendo as ilusões iniciais diante da realidade dos
fatos concretos e não de suas expectativas, frutos de seus desejos
idealizados.
Depois de esperá-la por vários minutos na cozinha, onde iam
preparar o almoço, foi até o quarto onde ela dormia.
Como de costume, lá estava ela, deitada na cama, às 4 horas
da tarde, com sua revista preferida na mão. Tinha se levantado às
11 horas e ainda não havia trocado a camisola. No quarto, havia
diversas calcinhas, sutiãs, meias, blusas e saias, espalhadas em cima
da cama e no chão do quarto onde havia dormido.
Maria engordava a cada dia. As discussões, antes ausentes,
começaram e foram aumentando.
— Você viu as horas? Já são quatro horas. Você podia fazer o
arroz, enquanto faço a omelete e frito uns bifes.
— Certo, vou lavar o arroz.
— Não! Esse arroz não precisar ser lavado.
226 - O Presente e Outros Contos

— Você acha que não sei fazer arroz?


— Claro que não sabe. Nem café. Pelo menos até hoje você
nunca fez nenhum.
— Você nunca me pediu..
— Precisava pedir! Ora! Não é assim que se faz arroz. Deixe!
Eu mesmo faço! Não precisa sujar tanta vasilha para fazer uma coi-
sa tão simples e fácil.
— Eu lavo depois...
— Lava? Lava nada! Deixa tudo para mim! Fica assentada,
conversando, se deixar fica a tarde toda. Só se levanta depois que
percebe que eu já lavei e guardei tudo. É sempre assim.
— Oh! Estou cheia. Chega, faça tudo então...
A situação aumentou a gravidade, prestes a estourar, quando
Maria, talvez percebendo a teia, antes firmemente formada, mas
agora começando a se romper, decidiu se mudar de cidade e, após
algumas tentativas, conseguiu uma transferência para Juiz de Fora.
Com isso, ambos ficaram menos tensos e imaginaram poder reati-
var o amor que começava a se deteriorar.
Mas o afastamento pouco adiantou, pois não conseguiu con-
sertar o que estava apodrecendo aos poucos. Novos problemas:
agora ciúmes, mais brigas, pirraças, cada um provocando o outro
exatamente nos seus pontos fracos. O que era detestado, e que
ambos se vangloriavam de não possuir, agora fazia parte de suas
relações: discussões ridículas, continuadas, por nada, emergiram.
— Gosto muito de futebol, principalmente na TV.
— Detesto, como pode? Idiotas ficarem disputando quem
manda uma bola para o “fundo das redes”? Jamais pensei de você
fosse gostar de futebol. Sempre te julguei um homem inteligente...
— Visto dessa maneira, talvez você tenha razão. Mas há ma-
neiras menos idiotas de se ver um esporte, há outros modos menos
simples e tolos de examinar um jogo qualquer, como o de futebol,
diferente do seu modo de enxergá-lo.
— Para os homens talvez. Nós, mulheres, não gostamos. Vocês,
do sexo forte e inteligentes, sim.
— Muitas gostam, que diferença faz?
Galeno Procópio M. Alvarenga - 227

— Ora, as mulheres sempre tiveram mais senso crítico, foram


mais minuciosas do que homens. Não vê nos botecos, um mundo
de marmanjos bebendo e conversando os mesmos assuntos, sem-
pre repetindo: conquistas amorosas e futebol.
— Você hoje não está bem, aliás está sempre reclamando de
tudo. Devia se tratar.
— Eu? Estou ótima, você é que está ruim. Anda irritado por
nada. Você se acha o máximo, suas ideias são sempre as certas,
tudo que você fala é dogma.
— É... - desanimado. Não tem mesmo jeito. Tá tudo perdido.
As brigas e separações começaram a se tornar mais frequen-
tes, os telefonemas que eram quase diários, diminuíram. Pouco a
pouco foi aumentando a invenção de desculpas para escapar de
um ou outro encontro, quer nos fins de semana, quer nos feriados
prolongados. Todo e qualquer assunto foi, aos poucos, servindo
como um grave motivo de discórdia.
Até que certo dia:
— Está tudo acabado! Não dá mais. Não te aguento!
— Mas, por quê? Não fiz nada!
— Não fez? Como? Não vê que, sem parar, você age de modo
indiferente ao que gosto e quero?
— Mas faço tudo para te agradar.
— Então você é uma idiota, pois nunca notou que me desagrada.
— Desagrado, porque você não gosta de nada. Quanto mais
te agrado, mais você me agride.
— Você me agride com seus agrados. Eles, por si só, são
agressões. Se eu faço uma coisa que não te agrada, mas uso o nome
“agradar”, isso não muda o fato ruim.
— Imaginei ser o que faço, o que você queria que eu fizesse.
— Por mais que eu tivesse falado, te criticando? Parece que o
que foi dito, você não ouviu, ou não entendeu. Acho mesmo que
você é incapaz de perceber os desejos e valores do outro.
— Mas eu sempre te amei. E muito.
— Como? Imagine se não me amasse. Se eu amo alguém, o
228 - O Presente e Outros Contos

fator inicial para isso é entender quem é a pessoa que eu amo, para,
só assim, ajudá-la, ou facilitar o que ela deseja alcançar.
— É o que eu faço. Estou sempre preocupada com você, que-
rendo ajudá-lo.
— Oh... eu quero ficar sozinho e ler, você se aproxima e per-
gunta: “Benzinho, está calado hoje. Está triste?
— Mas eu penso que, se uma pessoa está numa casa com a
outra, elas deviam estar juntas.
— Se possível, abraçadas, o dia inteiro?
— Não precisa de tanto. Mas juntas, conversando.
— Não devíamos então dormir, pois nessa hora estamos sós.
Nem ir ao banheiro, a não ser acompanhados do nosso grande
amor.
— Não precisa ir tão longe. Você sabe que não estou falando
isso.
— Você não admite eu fazer sozinho uma coisa que gosto,
como assistir a um jogo de futebol ou ler um jornal, o que você
detesta.
— Eu gosto também, não tanto como você.
— Então, por que fica fazendo perguntas o tempo todo: “O
repórter hoje veio com uma roupa mais bonita”, ou “aquele joga-
dor tem uma perna forte, mais que aquele outro”.
— Mas fica chato assistir sem falar nada.
— Mas será possível que eu não posso gostar de assistir sem
fazer comentários?
— É muito esquisito isso. Pelo menos para mim.
— Mas para mim esquisito é não aceitar um modo de vida do
outro, não cooperar com ele, ou, no mínimo, deixar que a outra
pessoa faça alguma coisa que ela goste.
— Mas nunca fui contra nada que você faz. Nunca fui contra
você ser dentista, ter um consultório na Savassi.
— Mas é contra eu trabalhar sábado pela manhã, ficar até
mais tarde um dia ou outro, atender um telefonema de um cliente
mais necessitado ou até mais chato.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 229

— Mas, nesses casos, eu estou tentando te ajudar a viver


melhor.
— Ora, você não entende mesmo! Não entende que eu gosto
de viver dessa maneira!
— Mas esta é uma maneira errada. Eu faço tudo isso por amor
a você.
— Amor, para mim, é ajudar a pessoa a fazer o que faz para
ela viver bem. Se você vai contra o que quero, você está me abor-
recendo, me impedindo de atingir o que desejo.
— Que absurdo! Tudo voltado para o seu bem. Para mim isso
é um ato egoísta seu, não voltado para mim, mas para você próprio.

O último encontro

— Na minha opinião, a comida feita na panela de ferro ou de


alumínio, na panela comum ou na de pedra, tem o mesmo gosto.
Se fizermos um teste, sem que a pessoa saiba onde foi preparada a
iguaria, ninguém acertaria.
— De modo algum. O arroz, feijão, qualquer comida na panela
de pedra é mais saborosa. Você não entende disso.
— Ora, entendo sim! Eu comi a vida inteira, desde que nasci.
Além disso, não sou tão novo assim.
— Isso não basta. Pode comer a vida toda e não entender nada
acerca de iguarias boas e más. Deve ser seu caso.
— Para que uma comida mais saborosa? Para comer mais?
Você já está gorda, gorda demais. Está querendo engordar mais
ainda, caso sua hipótese seja a certa, isto é, a comida da panela de
pedra é mais saborosa. Se sua suposição é correta, você irá comer
mais e, naturalmente, engordar mais ainda do que está.
— Isso é problema meu! Gosto, gosto muito de comer. Sim!
Ninguém tem nada a ver com isso!
— Pensei que estivesse preocupada com o corpo, com o ex-
cesso de banha pelo corpo afora.
— Já fui magrinha e graciosa, hoje sou gorda. As roupas de que
gosto não me servem mais, meu corpo não entra nelas.
230 - O Presente e Outros Contos

— E tem saudades desse corpo. Deve ter sido mais bonito.


— Você mesmo o conheceu. Muitos homens, não só você
não, gostaram do meu corpo.
— Mas sempre foi meio gordinha...
— Nem um pouco, agora sim. Gosto de comer. Fique ciente:
quando arrumar um homem pelo qual eu passe a me interessar,
poderei fazer um regime, até uma plástica, e tentar voltar ao peso
antigo.
— Isso não será fácil.
— O quê? Fazer um regime e plástica?
— Não! Arrumar um homem que possa se interessar por
você.
— Eu sei que meu corpo jamais será o que foi, tenho que gos-
tar muito dele como é. O seu também não está essas coisas, não.
Macaco, olha teu rabo.
Nesse momento, a moça de bordo avisou Maria que o ônibus
estava saindo para o aeroporto..
Os dois, ex-namorados, brigavam entediados, sem mais ne-
nhuma ligação afetiva boa entre eles. A ligação agora era de brigas,
cumprir, ali, naquele momento, a cena final de um romance. O
momento enfadonho e descolorido. Chegara o momento da des-
pedida. José respirou fundo, a fala final e esperada para ele emitir
estava próxima.
Não havia mais interesse dela, tudo parecia ter se acabado.
Para terminar a conversa, ele comentou, derrotado:
— Você tem razão, já disse para muitos gordos: comam, co-
mam mais, se você gosta é de comer, para quê fazer regime? Cada
qual busca seus prazeres singulares, aquilo que mais lhe interessa. Se
isso é prazeroso, por que não fazer?
— Como mesmo, até o dia que encontrar alguém que me faça
mudar de opinião, alguém por quem de fato eu me interesse!
— Vamos entrar, tornou a falar a moça loira do ônibus.
— Boa viagem, falou sem grande entusiasmo José.
— Obrigada, até outro dia
— Adeus...
Galeno Procópio M. Alvarenga - 231

Maria entrou no ônibus pisando duro com seus noventa qui-


los, José caminhou para o outro lado. Os dois sabiam que aquele
seria o último encontro.
A MORTE DA FUNCIONÁRIA

Chovia. Já eram quase nove horas da manhã, mas o dia ainda


estava escuro. Diferente das outras manhãs, nesta eu não precisei
ir trabalhar e, por isso mesmo, levantei-me mais tarde. Mas acostu-
mado, há anos, a levantar-me às seis e meia, não mais dormi depois
desse horário, por mais que tentasse. Fui até à janela e olhei a rua
observando os que passavam. Na verdade olhar a rua sempre me
fascinou. Resolvi, com um certo cuidado para não ser observado
e denunciado pelos vizinhos, contemplar a chuva miúda que caía
quase sem fazer barulho. Lá estava a cansada cozinheira carregan-
do o pão e o leite para o vizinho de frente, que se levantava sempre
tarde. Pelo pequeno orifício que havia feito na persiana, continua-
va minhas observações e minhas especulações acerca da vida dos
que por ali residiam. Mas minha cabeça hoje estava longe, mais
precisamente em D. Fininha.
Dona Maria Josefina De La Fiori Giorni ou, mais simplesmen-
te, D. Fininha como era conhecida e carinhosamente chamada.
Após trabalhar por mais de 40 anos na Faculdade de Medicina, des-
de seus 18 anos de idade, morrera ontem. Ela morava com Deus
e seu gato, num apertado apartamento, nas vizinhanças da escola.
De sua clausura ela saía todas as manhãs, no mesmo horário, de
banho tomado, para ir trabalhar. Magra, de pele muito clara, tendo
um rosto sem expressão e fino onde era espalhado, em exagero, pó
de arroz Lady. De suas pernas finas e mal feitas nascia um quadril
quase achatado por todos os lados. Seu tórax era liso, sem busto,
devido a uma displasia mamária.
234 - O Presente e Outros Contos

Sem nunca ter feito exercícios, sem caminhar, sua nádegas


eram caídas e quase não eram percebidas.
Caminhava para a Faculdade sempre no mesmo passo, ape-
sar de ter sido assaltada diversas vezes nesse trajeto de casa para o
trabalho. Isso não mais a assustava, pois o que ela perdia em cada
roubo era muito pouco, pois nada possuía de valor. Sua vida não
valia de fato grande coisa para a quase totalidade dos habitantes de
BH. Poucos a conheciam e, mesmos estes, só se lembravam dela
quando precisavam de seus favores na Faculdade. Talvez nenhum
aluno, professor ou outro funcionário qualquer iria chorar ou la-
mentar sua ausência. Possivelmente somente sua velha cadeira sen-
tisse sua falta, pois era nela que D. Fininha descansava, todos os
dias, o seu traseiro murcho, enrugado e exausto de viver.
Os companheiros de repartição não a odiavam, mas também
não ligavam para sua existência. Ela era uma figura grotesca. Estava
sempre falando, agitada e confusa. Tinha sempre algo para se quei-
xar. Facilmente esquecia o que estava fazendo, ou falando, quando
começava a tagarelar sobre seus infortúnios e a especular sobre a
vida e suas dificuldades. Dava a impressão, nos últimos anos, de
uma velha boneca de cordas que tivera seu mecanismo estragado,
repetindo as mesmas coisas. Muitas vezes ela era grosseira, arro-
gante e parecia sentir prazer em frustrar as pessoas que iam buscar
sua ajuda, principalmente os mais medrosos. Eram estes os que ela
mais maltratava. Entretanto, era capaz, logo depois, de ir atrás da
pessoa para ajudá-la, arrependida de ter sido tão má. Tinha raiva,
inveja e medo dos fortes e capazes.
Nos últimos dias D. Fininha já não mais falava como antes. Sua
voz monótona não expressava mais emoções, não mais sorria, não
mais chorava. Sua vida atual não mais comportava decepções ou
alegrias. Parecia que ela já antecipava seu fim, sua mente já havia
morrido antes do seu corpo. Seu rosto, ultimamente indiferente,
fez desaparecer os traços femininos restantes que possuía. A velhi-
ce unifica os sexos, não pela troca destes, mas pela criação de um
sexo neutro, que se parece com ambos, entretanto não é nenhum.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 235

Distinguiam-se, na sua face assexuada, dois velhos brincos


cor-de-rosa e no rosto as manchas mal espalhadas do mesmo pó de
arroz que usou por toda sua vida. Seus últimos fios de cabelos, to-
dos brancos, eram cuidadosamente arrumados, numa tentativa vã
de encobrir o seu couro cabeludo branco, oval e liso. Na sua face
áspera e rugosa, teimosamente apareciam alguns malditos fios de
cabelo que D. Fininha conservava, com ódio de terem crescido no
lugar inadequado
No serviço, seus subordinados faziam todos os rituais neces-
sários e usuais para garantirem a boa relação do serviço público.
Além dos sorrisos, gentilezas, festinhas de aniversários inesperadas
e preparadas com antecedência, com o tradicional bolo e velinhas,
guaraná e tudo o mais. D, Fininha odiava Coca Cola. Tudo isso,
para dar-lhe, como manda o estatuto, uma demonstração de apre-
ço e a ilusão de que ela ainda comandava a repartição.
D. Fininha, adormecida no tempo, não percebia seu isolamen-
to e a sua ausência do poder. De fato as decisões e comunicações
importantes junto aos superiores já há muito eram comandadas
por Glorinha, uma bela morena de cintura delgada, tipo “mignon”,
lábios carnudos e sensuais. Era sedutora como ninguém, com suas
coxas grossas e roliças e sua alegria juvenil. Foi notada pelo Dr.
Martins quando era atendente no hospital. Ele, bacharel em eco-
nomia e chefe da repartição, mal-casado, escolheu Glorinha como
sua nova amante e tornou-se seu protetor sem nenhuma discrição.
Desde então D. Fininha transformou-se num zero à esquerda na
direção dos problemas da repartição, mas nada percebia ou, por
cansaço, fingia não perceber.
Eu estava ali parado diante da janela, pensativo, tendo como
fundo a chuva branda e chata. Meu olhar olhava para o vazio, para
o nada, para D. Fininha. Inspecionava dentro de mim o espectro
de D. Fininha desfilando em minhas recordações. Estava triste,
lembrando sua vida quase inútil, que se acabara sem nunca ter se
afirmado como gente. O seu poder, que nunca foi grande e com a
idade pouco a pouco foi acabando, hoje dava o último ar da graça,
sua última ordem.
236 - O Presente e Outros Contos

Hoje os seus companheiros de repartição não trabalhariam.


Sua morte, automaticamente, decretou uma folga no serviço, em
plena terça-feira de 23 de outubro, para seus companheiros, in-
diferentes à sua vida e muito mais desligados com respeito à sua
morte. Cada um ocupado com seus próprios e grandes problemas
pessoais, com valores provisórios mais importantes, aproveitariam
a folga para fazer outras coisas, mais excitantes do que ir ao enter-
ro de D. Fininha para lhe dar o “último adeus”. A estas horas ela já
deve estar dentro de um caixão, talvez ajudada por alguma vizinha
bondosa, com uma vida infeliz e vazia, que se identificou com ela.
Alguém que seguiu o mesmo rastro, vazio e sem opções, de D. Fini-
nha e que, com sua morte, viu neste espelho o mesmo fim desta.
Possivelmente ninguém chorará sua morte. Ela já havia faleci-
do para a maioria ou para todos há muito tempo. Ninguém sentirá
sua falta. Ela já não tinha o que dar aos outros, pois perdera sua ca-
pacidade de transmitir gentileza, poder, sabedoria e beleza. Apenas
recebia, nesses seus últimos dias, piedade ou indiferença. Estamos
ligados às pessoas por transmitirmos algo: poder, beleza, dinheiro,
inteligência, sedução ou “serviços gerais”. Ela, não tendo mais nada
para dar, foi perdendo suas ligações afetivas. Não possuía beleza, di-
nheiro, cultura e inteligência para ser notada. Nunca foi prestativa,
capaz de cativar algum explorador do seu poder, não possuía poder
político ou físico capaz de aproximar ou amedrontar alguém. Por
fim, ela nunca foi perita em fazer quitutes ou jantares saborosos,
capazes de mobilizar os amigos da boa cozinha.
D. Fininha viveu e morreu como uma mulher medíocre. Nessa
cidade de numerosos estímulos e interesses e com alta rotatividade
de novidades, D. Fininha estava “fora do mercado” há muito. Era
antiquada, tanto no corpo como na mente. Seus casos, os mesmos
repetidos e conhecidos por todos, suas roupas, tanto os vestidos ve-
lhos como os novos, eram iguais. Dentro deles, fazia-os parecer ve-
lhos. Sua conversa era sem brilho, onde o final da história aparecia
no início e perdia a graça. Sua voz grossa e metálica, típica das mu-
lheres velhas que fumaram, aborrecia e provocava dor nos ouvidos.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 237

Por trás de todo um declínio, ela apresentava-se arrogante.


Julgava-se sempre como dona da verdade. Seus conhecimentos
adquiridos na adolescência, na Escola Normal dirigida por freiras,
eram, com frequência, repetidos para explicar o início do mundo,
a vida sexual, a política e os direitos do cidadão, Por dois anos D,
Fininha lecionou geografia e história no interior, antes de vir tra-
balhar na Faculdade após um desfecho infeliz do seu noivado com
um militar. Nunca quis comentar os motivos do rompimento, mas,
com frequência, comentava com ódio a falta de caráter e vergo-
nha de todos os militares.
Tenho que ir ao enterro, devo-lhe um favor. Sou um homem
que sempre me lembro dos tratamentos ruins e bons que recebi,
e nunca me esqueci do meu primeiro dia de trabalho. Nesse dia
ela foi gentil e carinhosa para comigo. Eu desconhecia o que devia
fazer. Logo depois, como sempre acontecia, fui tratado com casca
e tudo. Ela apoiava os fracos e incapazes e detestava os que luta-
vam por algo melhor. Acreditava que deveríamos aceitar a nossa
inferioridade.
Vou um pouco mais cedo para o velório. Ela deve estar sozi-
nha. Não sei se tinha parentes. Diziam que três de seus irmãos já
haviam falecido e tinha apenas uma irmã viva, que era fazendeira
rica no Sul de Minas e que as duas não combinavam. Ela jamais
falara algo a este respeito. Creio que nunca teve outro namorado
após o desfecho do seu noivado. Talvez, não sendo mais virgem,
desistisse de arrumar um novo namorado e passar pela vergonha
de ser repudiada por ele após a descoberta. É possível que ela não
tivesse tido nem um amante passageiro, ou profissional de feria-
dos, fins de semana ou mesmo de carnaval.
Na repartição comentava-se, de tempos em tempos, que D.
Fininha tivera um grande amor, aqui mesmo na Faculdade, após
o término de seu noivado. O seu grande amor teria sido um famo-
so cirurgião e professor da Faculdade que, durante uma crise forte
de depressão, havia se suicidado. Ela era só, vivia com seu gato de
estimação, sua companhia nos momentos de solidão, mas provavel-
mente este não lhe era fiel, pois haveria alguma gata em sua vida.
238 - O Presente e Outros Contos

Preciso aprontar-me. Faço ou não a barba? Sem fazê-la, dou a


impressão de luto e tristeza. Devo ir ou não? Para quê? Apenas para
cumprir uma obrigação social? Mas eu já cumpri tantas em minha
vida. Mais uma farsa para o cadáver de D. Fininha acrescentar em
sua biografia, que também sempre foi uma farsa, a última encena-
ção de uma peça bufa. Eu até que não a odiava, mas nunca a amei.
Ela era insossa como a maior parte das velhas que viveram como
ela, sozinhas, sem filhos, sem casamento, sem transas e que nunca
aprenderam a produzir poder de qualquer espécie. A chuva miúda
continuava por toda a manhã. Acho que irei despedir-me de D. Fi-
ninha. Despedir-me do nada.
UMA CHEIRADA NO CANGOTE

Rita, interessada e esperançosa em conquistar Tiago, decidiu


procurar o médico para tentar emagrecer um pouco, pois, cada
vez mais, seu peso aumentava. Envergonhada em pedir uma orien-
tação para o que desejava, ela marcou uma consulta com o primei-
ro médico disponível que ela encontrou naquela manhã no posto
de saúde, onde os médicos, todos eles, eram seus conhecidos, pois
foram contratados por seu pai, prefeito que era.
Trabalhando no posto de saúde da prefeitura de Liberdade do
Oeste, Dr. Olavo Sousa e Silva de Aquino era conhecido por uma
extraordinária e rara habilidade. Ao chegar em sua sala no próprio
hospital onde trabalhava, algumas vezes, ele virava-se para a se-
cretária quieta e datilografando alguns exames, após dar seu bom
dia. De repente, empinando a narina, dava uma ou duas fungadas e
afirmava categoricamente:
— A menstruação chegou! Sei disso!
— Eu? Perguntava espantada a secretária e continuava.
— Por que a pergunta?
— Pergunta não! Afirmação. Eu sei que você está menstrua-
da. Senti o cheiro!
— São coisas íntimas, doutor. De fato, ela chegou ontem.
Histórias como essas eram repetidas no hospital onde Dr.
Olavo trabalhava. Certo dia, ao sair de sua sala viu passar, logo após
abrir a porta, Cleide, uma moça muito simples e tímida que traba-
lhava na portaria do Centro de Saúde. Olavo, após sentir o cheiro
que exalava de seu corpo, andou mais depressa até que a alcançou.
240 - O Presente e Outros Contos

Segurando-a amistosamente pelo braço, olhou para Cleide, após sua


puxada de respiração pelas narinas e, sorridente, perguntou-lhe:
— Quando vai ser o casamento?
— Que casamento? Perguntou assustada.
— Ora, não minta! Sei que está namorando. Quando vai ser
o casório?
— Mas, que horror! Arrumei um namorado ontem à noite.
Como sabe?
— Conheço seu cheiro de moça solitária. Hoje ele está dife-
rente, de pessoa que está amando, que está ligada. Não é?
Assim vivia Dr.Olavo Aquino fazendo das suas com seu nariz
fora-de-série. Naquela manhã ele foi procurado pela filha do pre-
feito. Rita chegou sem graça, como sempre fora, e, envergonhada,
começou sua conversa:
— Dr. Olavo, todos falam aqui em Liberdade do Oeste que o
senhor é um grande conhecedor de doenças através do cheiro. Não
é isso mesmo?
— É... tenho um bom olfato. Sei disso.
— Olfato? Falaram que é cheiro dos bons, que é mais que olfato.
— É tudo a mesma coisa. O que é que tem?
— Eu tô querendo emagrecer, acho que estou um pouco gorda...
— Um pouquinho só. Respondeu Dr. Olavo, por educação
e dó. Na cidade sua fama era de gorducha. Nesse momento, ele
voltou a falar:
— Gostaria muito de ajudá-la, mas sou dermatologista e pou-
co entendo disso. Vou lhe indicar um colega...
— Eu sei que o senhor é dermatologista. Já marquei consulta
com endocrinologista. Acontece que vim aqui por outro motivo,
por causa de um cheiro que tenho sentido, um cheiro muito es-
quisito que sinto de uns tempos para cá. Parece que sai de minhas
costas, ou melhor, do meu pescoço, bem aí atrás, no cangote.
— Deixe-me ver, ou melhor, sentir. Por enquanto não perce-
bi nada... Ah... agora senti. Este cheiro é comum. Já sei... ele vem
da cabeça, do cabelo.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 241

Este foi fácil, é o cheiro da tinta do cabelo, todas as tintas


têm um odor esquisito, umas mais. A que você usa...
— Não é só do cabelo, é um outro cheiro, Dr. Olavo. Este
cheiro eu já conheço há muito tempo. Vê se consegue sentir o
outro cheiro.
— Vou dar uma cheirada melhor, mais de perto. Onde é
mesmo, em que lugar você sente?
— Bem aí atrás, no cangote.
O Doutor Olavo se aproximou mais de Rita. Pediu-lhe que
indicasse com as pontas dos dedos onde era. Uma vez mostrado,
o cheiro, segundo a paciente, vinha da nuca. Dr. Olavo, já bem de
perto da paciente para sentir melhor o cheiro, levantou o cabelo
de Rita atrás da nuca, a região de onde vinha o mesmo.
— Estou sentindo primeiro um cheiro da tinta. Você deve
ter pintado seu cabelo ontem, ou hoje, pois o cheiro é forte.
— Pintei ontem à tarde, quando vou ao médico eu me apron-
to toda. Antes de vir tomei um banho...
Devagar, para sentir melhor o odor reclamado pela paciente,
o Dr. Olavo fechou os olhos, levantou mais ainda, com as pontas
dos dedos, os cabelos de Rita, para que estes não o impedissem
de sentir o cheiro da nuca. Em seguida, tendo os olhos totalmente
fechados, concentrou-se, segurando com a mão direita os cabelos
da paciente e levantando-os. Ele aproximou seu nariz até a nuca
dela e inspirou bem fundo todo o ar que dali exalava. Lamentavel-
mente não sentiu nada. Estava envergonhado do fracasso, um fato
raro para ele. Mas não desistiu. Mais uma vez ele expeliu, o mais
que pôde, o ar de seus pulmões. Em seguida, sempre de olhos fe-
chados, encostou a ponta do nariz na nuca de Rita e inspirou tudo
o que podia, por alguns segundos.
Quando Dr. Olavo tocava a ponta fria do nariz na nuca de
Rita e inspirou com força, ela, ao sentir cócegas, tremeu todo o
corpo e, ao mesmo tempo, sem querer, soltou uma risadinha com-
primida e histérica. Exatamente no momento que tudo isso acon-
tecia, ou seja, quando o nariz do doutor roçava delicadamente os
242 - O Presente e Outros Contos

pelos finos da nuca da cliente, durante sua inspiração profunda e,


além disso, de olhos fechados enquanto Rita sorria acanhada, apre-
sentando um tremelique nervoso, uma enfermeira entrou na sala à
procura do Dr. Olavo para dar-lhe um recado de sua mulher.
Assustada com o que presenciou, sem graça e desajeitada,
a enfermeira deu meia volta e, rapidamente para não assustá-los,
fechou a porta por onde tinha entrado, sem nada falar acerca dos
motivos que a levaram ao seu consultório. Dr. Olavo e Rita, enver-
gonhados e sem graça, se afastaram o mais depressa possível.
Confuso com o incidente, Dr. Olavo, em seguida, pediu licen-
ça a Rita para se afastar um pouco do consultório, pois precisava
falar urgentemente com quem viera procurá-lo.
Atravessou o corredor quase correndo, atrás da enfermeira que
já tinha desaparecido. Não a encontrando de imediato, foi direto à sala
de enfermagem, pois ela deveria estar lá esperando por algum cha-
mado ou preparando medicamentos e aparelhos que seriam usados
em seguida. Lá chegando, ofegante e nervoso, aproximou-se de Ofélia
que, por sua vez, evitou olhar para o médico, pois ainda estava enver-
gonhada com o que viu. Apesar do observado, Ofélia não havia con-
tado para pessoa alguma a cena vista e também não pretendia contar
para ninguém o acontecido. É claro que ela, internamente, estava re-
preendendo a conduta do médico farejador e ainda mais a filha do pre-
feito. Ao chegar à sala, Dr. Olavo, nervoso, foi logo falando para Ofélia,
diante de mais duas profissionais que também se encontravam lá:
— Não sei o que você está pensando de mim? Perguntou...
— Eu? Nada! Nada mesmo! falou Ofélia num tom de voz que
demonstrava que ela preferia não conversar sobre o que viu na sala
do ambulatório.
— Acontece, Ofélia, que eu não estava fazendo o que você
pensou...
— Eu não pensei nada!
— Eu estava examinando a cliente.
— Examinando? Na minha terra eles dão um outro nome
para isso.
Galeno Procópio M. Alvarenga - 243

— Rita havia se queixado de um cheiro esquisito na nuca...


A seguir, Dr. Olavo contou com detalhes a Ofélia o aconte-
cido. A história contada foi ouvida ainda pelas pessoas que já esta-
vam na sala e também por outras que lá chegaram, enquanto ele
falava rindo dele mesmo, muito envergonhado. Terminado o rela-
to, despediu-se e voltou à sala de exame para continuar a atender
Rita. Nesse instante, pediu-lhe mil desculpas pelo ocorrido e pelo
atraso involuntário.
Os dias passaram. Dr. Olavo, sendo um obsessivo, não tirava
da cabeça o fato desagradável presenciado pela enfermeira e, para
piorar ,com Rita, filha do prefeito. Diante da preocupação continu-
ada, Dr. Olavo, automaticamente e sem querer, em toda as oportu-
nidades possíveis contava o desagradável acontecimento ocorrido
entre ele e a filha do prefeito. Seu relato era contado para seus
colegas médicos, enfermeiras e auxiliares e, também, para amigos
e outras pessoas pouco conhecidas.
Certo dia contou o caso, com todos os detalhes, para sua mu-
lher. Esta, ao ouvir dele a história, comentou que já tinha sido infor-
mada do acontecido. Contou-lhe ainda que ficou sabendo do fato
através de uma vizinha, que trabalhava também no posto médico.
Antônia, mulher do Dr. Olavo, tinha evitado discutir o assunto com
seu marido, mas estava possessa com o ocorrido e envergonhada
de sua conduta inconveniente.
— Vem contar para mim essa mentira. Eu já sabia disso há
alguns dias.
— Você já sabia? Como?
— Ouvi de mais de uma pessoa. O caso já está falado. Vocês,
homens, são sem-vergonha e bobos. Fazem uma bobagem dessas
e, além disso, ficam expondo sua vítima para os outros. Se fosse
uma mulher que fizesse isso, ela não contaria para ninguém. Vocês
fazem a sacanagem e contam pra todo mundo.
— Mas eu não fiz nada de mais. Estava fazendo um exame.
— Que exame, que nada! Vem me contar essa lorota...
244 - O Presente e Outros Contos

Não adiantou o Dr. Olavo lhe explicar inúmeras vezes. Sua


mulher sempre achava que ele estava mentindo. Percebendo que
até sua mulher não acreditava no fato contado por ele, Dr. Olavo,
em lugar de desistir de falar sobre esse lastimável assunto, passou a
falar mais ainda sobre ele, numa tentativa de mudar a interpretação
dos ouvintes.
Aos poucos toda a cidade ficou sabendo da consulta do Dr.
Olavo com Rita. Ele falava e falava sobre o caso, ora era numa reu-
nião dos médicos do ambulatório, ora numa roda de amigos duran-
te um casamento, ou até numa aula que deu para os alunos do co-
légio da cidade. Sempre, obsessivamente, repetia a mesma história
entre ele e a cliente.
Numa tarde de sexta-feira, seu chefe no ambulatório o cha-
mou para uma conversa reservada. Dr. Olavo entrou sorridente no
gabinete do diretor. Entretanto, ao entrar na sala, notou a fisiono-
mia tensa do chefe. Enquanto Dr. Olavo se mostrava alegre e cal-
mo, pois imaginou ser uma promoção ou algum elogio, o chefe do
ambulatório quase não levantou a cabeça para cumprimentá-lo.
Ao observar que o rosto do chefe demonstrava gravidade e
tensão, Dr. Olavo estremeceu. Convidando-o, secamente, para as-
sentar-se, o chefe foi direto ao assunto:
— Chamei-o aqui em virtudes de alguns acontecimentos gra-
ves e sérios de que o senhor é protagonista, ou seja, é o principal
envolvido e acusado. O senhor, além de macular a atividade médi-
ca em geral, apresentou uma conduta condenável do ponto de vis-
ta ético. Também essa conduta desabonadora não ocorreu dentro
de seu domicílio, nas ruas da cidade, ou nos prostíbulos.
— De que se trata? Perguntou Dr. Olavo, assustadíssimo, já
imaginando a que ponto chegou um fato tão simples.
— Deixe-me falar. Ponha-se no seu lugar. O que você fez, foi
feito aqui, na Instituição onde você trabalha. É uma vergonha!
— O que fiz? Perguntou Dr. Olavo ao Dr. Oscar, o médico
antigo, agora chefiando o serviço. O Dr. Oscar era conhecido por
ser bondoso, calmo, mas, ao mesmo tempo, exigente com respeito
à conduta ética médica. Assim ele continuou:
Galeno Procópio M. Alvarenga - 245

— O que o senhor fez durante uma consulta foi grave, por


sorte sua e também nossa, a cliente molestada pelo senhor, por
sinal filha de nosso digníssimo prefeito, não deu queixa formal na
justiça ou na polícia, como podia acontecer. Caso ela assim o fi-
zesse, queixando-se a seu próprio pai, tal fato, dada sua gravidade,
poderia lhe causar a cassação do registro médico.
Nesse instante, Dr. Olavo, sem ainda compreender tudo, es-
tremeceu e, quase sem voz, falou humildemente:
— Dr. Oscar, que fiz eu? Não fiz nada! Afirmo, juro! O que
fiz? Meus Deus!
Nesse momento, desesperado, Dr. Olavo tentou, mais uma
vez sem resultado, contar toda a história ocorrida quando a enfer-
meira entrou na sala de exame. Dr. Oscar, seu chefe, impediu-o de
contar, pois já tinha escutado a história várias vezes. Não queria,
de forma alguma, ouvi-la mais uma vez. Interrompendo o Dr. Ola-
vo, seu chefe continuou a falar:
— O senhor cometeu duas faltas graves: a primeira delas foi
o que o senhor fez com a cliente: um caso de abuso sexual com
uma cliente indefesa e ainda dentro de um consultório médico.
Seu segundo erro, depois desse primeiro caso horroroso, na minha
opinião talvez tenha sido uma transgressão mais grave e lamentável
ainda. Ocorre que a segunda falta grave que o senhor cometeu,
esta ainda não acabou, o senhor continua a executá-la.
— Doutor! Eu não fiz nada de mais! Escute-me, por favor.
— Não! Chega! Não fez nada? Como se atreve a dizer isso?
Após esse fato desabonador para nossa reputação, o senhor tem
contado para todos: colegas, amigos e inimigos, sua façanha. Rela-
ta, com minúcias, para emocionar os ouvintes, que estava exami-
nando a filha do prefeito, quando fechou os olhos e, assim, come-
çou a cheirar, talvez lamber, o cangote dela.
Isso é vergonhoso para o senhor, como médico. É vergonho-
so para nossa classe e nossa instituição. O senhor foi mais além,
agora. Depois de ter tido essa conduta desabonadora, vangloria-se
de tê-la realizado.
246 - O Presente e Outros Contos

Conta para todos, em voz eloquente, que a filha do prefeito,


quando você aproximou dela seu nariz e boca, roçando possivel-
mente a língua na nuca dela um pouco antes da enfermeira entrar
na sala, quase teve, ou talvez tenha tido, um orgasmo de tanto
prazer obtido com o contato físico.
— Nunca contei o fato desse jeito. Eu fui explicar o ocorrido,
que foi trágico, e no entanto...
— Todas as pessoas do hospital sabem, tim-tim por tim-tim,
acerca do que o senhor fez: médicos, enfermeiras, psicólogos, para-
médicos de modo geral. Agora a coisa piorou e por isso assinei sua
demissão do serviço, a pedido do prefeito.
— Demissão? Como piorou? Aconteceu uma vez...
— Piorou e muito. Agora os porteiros já sabem, as faxineiras,
a farmacêutica e muito mais pessoas. Sua fama de cheirador de can-
gotes alastrou-se tanto, que os clientes ficaram sabendo. Assim é
que seu novo nome entre os pacientes é o do médico cheirador de
cangotes. Muitos falam: “Dizem que o médico cheirador de cango-
tes é muito competente”, enquanto outros falam: “Consultar com o
cheirador de cangotes, de forma alguma. Deus me livre, imagine só,
se ele resolver, durante o exame, cheirar outras partes”.
— Tudo isso é um absurdo, vou contar para o senhor...
— Não! De modo algum! Não sou moralista. Cada pessoa tem
o direito de agir de um modo ou outro, mas a consulta médica tem
suas regras clínicas e éticas. Mas, pior do que tudo isso que fez na
consulta, é o que está ainda fazendo após o fato recriminável.
— Dr. Oscar, tenho tentado explicar...
— Explicar? Tem espalhado para todas as pessoas sua ca-
pacidade de excitar as mulheres, cheirando e lambendo as suas
nucas. Está fazendo sua propaganda, afirmando para todos que é
um “exímio cheirador de cangotes”. Pode sair!
Galeno Procópio M. Alvarenga - 247
248 - O Presente e Outros Contos
Galeno Procópio M. Alvarenga - 249
250 - O Presente e Outros Contos

Você também pode gostar