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LER CARLOS MATUS ATRAVÉS DA EXPERIÊNCIA BRASILEIRA

Raphael Augusto Fresnedas


Universidade Estadual Paulista – UNESP
Faculdade de Ciências e Letras de Araraquara – FCLAR
Campus: Araraquara
Formado em Ciências Sociais.
Este trabalho não tem orientador.

Palavras-chave: Carlos Matus, Planejamento Tradicional, Política, Planejamento Tradicional


Brasileiro, Releitura, Política e Técnica.

Introdução

A política define os arranjos estruturais de nossa prática social, assim sendo fundamental no devir.
Desse modo, ela tem importância capital e sua negação enquanto práxis foi designada como
idiotice1 pelos antigos e é conhecida atualmente como alienação. Tendo em conta a sua relevância,
o teórico Carlos Matus inseriu-a na discussão sobre o planejamento. Ao fazê-lo, Matus considerou
que toda a prática exercida durante os anos do desenvolvimentismo latino-americano não admitiram
a política como fator em seus planos e, por isso, foram ineficazes. Tal visão, a princípio, justifica-se
no contexto chileno, em que a direita neoliberal conseguiu alcançar suficiente apoio político para
derrubar o nacional-desenvolvimentismo de Allende. Aqui, o nacional-desenvolvimentismo
continuou sendo prática mesmo durante o regime militar. A inovação trazida pelo regime militar
brasileiro foi o pacto excludente formado pela alta burocracia e os empresários. Nesse sentido, não
devemos imaginar que o planejamento tradicional brasileiro é uma imposição puramente técnica
feita sem nenhuma mediação política.

Objetivo

O presente trabalho pretende fazer uma revisão da perspectiva histórica de Matus sobre o
planejamento tradicional, contrapondo-a com a realidade nacional. Nesse sentido, a obra de Matus
não será discutida em sua plenitude, ela receberá um recorte epistemológico limitante. Esse fato não
é prejudicial para a discussão pretendida, pois a crítica feita por Matus é muito pontual e permanece
praticamente inalterada em toda a sua obra.
1
Os gregos utilizavam o termo idiota para todos os cidadãos que não tomavam parte dos
assuntos políticos da Pólis.
Justificativa

Minha pesquisa se encontra em fase embrionária, assim quero que não a considerem como uma
visão acabada. Há muitas obras e comentadores para ler e refletir, enquanto esse longo processo
está em andamento, utilizo-me da Jornap como forma de receber uma contribuição crítica e
construtiva para o desenvolvimento desse projeto. Para além da justificativa da participação nesse
evento, considero que uma contextualização de Carlos Matus seja necessária para os leitores
brasileiros, pois a formação política de nosso país é sui generis. Conseqüentemente, alguns pontos
abordados merecem leitura criteriosa.

Metodologia

A metodologia utilizada é a revisão bibliográfica sobre Welfare State, pacto keynesiano, controle
estatal da economia e política econômica durante a ditadura brasileira. Ela se focou na construção
das práticas keynesianas e em sua superação, observando como a política se comportava dentro
dessa estrutura de poder. Além disso, busca-se um olhar sobre o movimento filosófico e político
legitimador das práticas políticas: é durante esse processo epistemológico que o planejamento ganha
profundidade histórica.

Resultado

A crise de 1929 pôs fim a hegemonia intelectual e política do liberalismo, transformando o Estado
no mais importante agente da economia. A partir de então, ele passou a interferir e guiar a atividade
econômica através de uma mediação política entre capital e trabalho2. Como conseqüência da
racionalização imposta, os planos ganharam destaque e o planejamento se tornou instrumento
fundamental do Estado.

O movimento de racionalização se deu em âmbito mundial, alcançando países muito diversos,


desde ditaduras latino-americanas até democracias ocidentais. Por partir destes para aqueles, Carlos
Matus via o processo na América Latina como uma importação não seletiva de um instrumento de
políticas públicas. Assim, não construíamos uma solução baseada em nossas necessidades, apenas
importávamos padrões do norte. Tal leitura não se aplica a realidade brasileira, pois o projeto
brasileiro foi construído por meio de uma aliança política entre os empresários e a alta burocracia
estatal, que se utilizava do poder do Estado para coagir qualquer opositor. Nesse sentido, podemos

2
O Estado oriundo da crise de 1929 recebe a denominação Welfare- State, pois consegue
incorporar as demandas sociais do trabalhador e os anseios econômicos da burguesia, fazendo
uma adaptação de ambos para uma realidade capitalista que vise o lucro sem se esquecer de
melhorar a qualidade de vida das pessoas.
apontar semelhanças entre o intervencionismo brasileiro e as políticas keynesianas, porém não seria
correta a proposição de que o país estava sendo guiado por um instrumental incompatível com a sua
realidade3. Como conseqüência dessa conclusão, podemos refutar outra crítica de Carlos Matus: a
que o planejamento tradicional estava à margem do jogo político4.

Por fim, Matus alega que o planejamento tradicional era ineficiente e ineficaz. Tal afirmação não se
sustenta na realidade brasileira, pois os PND I e II foram os responsáveis por modernizar a
economia, construindo um parque industrial extremamente diversificado e forte. Ocorre que em tal
processo, a modernização não pretendia mudar a estrutura distributiva nacional. Logo, a
modernização conservadora foi eficiente e eficaz em todos os seus objetivos políticos5.

Conclusão

A diferente trajetória política dos regimes totalitários da América Latina transforma uma fase
coletiva em experiência particular, isso impossibilita a construção de uma estrutura conjunta de
compreensão. Assim, a percepção dos fenômenos regionais deve receber uma revisão.
Conseqüentemente, os intelectuais responsáveis por essas teorias abrangentes passam por uma
contextualização e uma nova releitura.

Referências Bibliográficas

Diniz, Eli. Empresariado e Estratégias de Desenvolvimento. Lua Nova – Revista de Cultura


Política, n55, São Paulo: 2002.

Huertas, Franco. O Método PES: Entrevista com Carlos Matus. São Paulo: Fundap, 1997.

3
A condição chilena é muito diferente, pois o Chile sofreu uma forte intervenção em sua
política interna na década de 1970. Ambos os grupos internos estavam buscando apoio
internacional para a legitimação de seu projeto nacional. Assim, a visão de Matus é
compreendida ao defrontar-se com a realidade na qual ele vivenciou: um país dividido, onde
seus grupos internos buscaram auxílio internacional. Apesar disso, é necessário ver que
mesmo o planejamento tradicional, de origem cepalino, de Allende não pode ser visto de
maneira simplista. Segundo Matus, Allende propôs um plano sem apoio político necessário para
implantar-se, mas ao contrário, o plano proposto era factível e, por isso, sofreu uma
intervenção dos E.U.A.
4
No Brasil, a configuração política presente no período da implantação do nacional-
desenvolvimentismo se volta exclusivamente para atender os setores empresariais. Ao
contrário do que ocorre nas democracias ocidentais da época, o Estado reprime as demandas
dos trabalhadores, colocando o projeto desenvolvimentista acima de todas as políticas sociais.
Como resultado, a política era feita a portas fechadas, entre altos burocratas e empresários.
5
Uma das principais críticas ao governo militar é a persistência da estrutura social brasileira,
mas essa visão se esquece que o regime não tinha como objetivo a transformação do sistema
distributivo.
LEAL, S. M. R. A outra face da crise do Estado de Bem-Estar Social: neo-liberalismo e o novo
movimento da sociedade do trabalho. Campinas: Unicamp, 1990.

Offe, Claus. Problemas Estruturais do Estado Capitalista. Edições Tempo Brasileiro, Rio de
Janeiro: 1984.

Matus, Carlos. O Plano como aposta. In:


http://portal.saude.gov.br/portal/arquivos/pdf/plano_como_aposta-matus.pdf