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PARTE A

Avé-Marias
Vocabulário:
Nas nossas ruas, ao anoitecer, 1
caráter sombrio, taciturno;
Há tal soturnidade1, há tal melancolia, 1. Explicite
2
agitação, burburinho;
3
Que as sombras, o bulício2, o Tejo, a maresia a multidão, conjunto de
pessoas pertencentes
Despertam um desejo absurdo de sofrer. às classes sociais mais
desfavorecidas;
4
5 O céu parece baixo e de neblina, operários navais.
O gás extravasado enjoa-nos, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba3
Toldam-se d’uma cor monótona e londrina.

Batem os carros de aluguer, ao fundo,


10 Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,


As edificações somente emadeiradas:
15 Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates4, aos magotes,


De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
20 Ou erro pelos cais a que se atracam botes. Vocabulário:
1- Caráter sombrio; 2- Agitação;
3 - Conjunto de pessoas
E evoco, então, as crónicas navais:
pertencentes às classes sociais
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
mais desfavorecidas; 4 –
Luta Camões no Sul, salvando um livro, a nado! operários navais.
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!
Cesário Verde, Cânticos do Realismo, O livro de Cesário Verde, (coord. Carlos Reis,
introdução e nota biobibliográfica de Helena Carvalhão Buescu), Lisboa, INCM, 2015.

importância do recurso às sensações na caracterização da cidade.

2. Justifique o estado de espírito do sujeito poético, relacionando-o com o conteúdo da


terceira estrofe.
3. Justifique a alusão ao épico português na última estrofe.

PARTE B
1. O propósito do poeta centra-se em três eixos: cantar, em primeiro lugar, os feitos dos navegadores
portugueses (“que passaram além da Taprobana” por “mares nunca de antes navegados”); em
segundo lugar, cantar os feitos dos reis que dilataram a fé e o império (“foram dilatando / A Fé, o
Império”); finalmente, propõe-se imortalizar aqueles que, pelas ações empreendidas e pelos atos
heroicos, garantiram um lugar na História, imortalizando-se (“aqueles que por obras valerosas / Se
vão da lei da Morte libertando).

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2. Nas duas estrofes, o sujeito poético enumera aqueles que, em seu entender, merecem fazer parte da
sua obra: aqueles que ele tenciona louvar, imortalizando-os pelos serviços prestados à Pátria. No
entanto, só no verso 7 da segunda estância o poeta manifesta a sua intenção, através da expressão
“cantando espalharei” (por toda a parte). Porém, faz depender o sucesso do seu propósito de uma
condição, expressa no verso 8, a de possuir engenho e arte suficientes para levar a cabo a sua
resolução, tal é a grandiosidade do valor dos portugueses.

PARTE C
3. As obras “O Sermão de Santo António” e Os Maias, embora distando cerca de dois séculos entre
si, apresentam retratos “crus” das respetivas sociedades em que se inserem e que retratam.
Relativamente à primeira obra, podemos afirmar que António Vieira observou com olhar atento
os comportamentos dos colonos portugueses no Maranhão, representantes de vários estratos
sociais, e expôs o modo como viviam e subjugavam os índios. Através da alegoria e da metáfora,
Vieira, utilizando variedades piscícolas, denunciou defeitos como a arrogância, a prepotência ,
o parasitismo social ou a ambição. Servindo-se, por exemplo, das características dos peixes
Voadores, o pregador condenou aqueles que, por serem diferentes dos demais, são dominados pela
ambição; por outro lado, condenou o parasitismo através da associação dos Pegadores a certo tipo
de humanos.
Já em Os Maias, Eça de Queirós, tomando como referência a aristocracia lisboeta do final do
século XIX, representada naqueles que rodeavam ou se relacionavam com Carlos da Maia, por
exemplo, o banqueiro Cohen ou os condes de Gouvarinho, entre outros, denuncia a mediocridade e
a falta de cultura da elite portuguesa. Tomando como exemplo os episódios do Sarau no Teatro da
Trindade ou da Corrida de Cavalos, Eça denuncia a ignorância, a falta de reflexão e de espírito crítico
e o provincianismo das classes dominantes. Muitos outros aspetos podiam ainda ser referidos,
nomeadamente a corrupção da imprensa ou a persistência num Romantismo ultrapassado.
Para concluir, destaca-se a clarividência destes autores portugueses, de épocas diferentes, mas
que permitiram expor situações ou comportamentos considerados negativos relacionados com
contextos políticos, sociais, culturais ou mesmo morais.
[260 palavras]

Grupo II

1. (B); 2. (A); 3. (C); 4. (A); 5. (B); 6. (D).

7. a. Oração subordinada adverbial temporal.

b. Oração subordinada adverbial concessiva.

Grupo III

Proposta de síntese:
No início do século XV, muitas comunidades viviam isoladas, tendo sido Portugal a desempenhar a
missão de estabelecer pontes entre diversas civilizações, protagonizando, pela primeira vez, o chamado
fenómeno da globalização. Anteriormente, outros povos haviam já expandido o seu território a outras
fronteiras. Porém, estes movimentos tinham-se já extinguido. De qualquer forma, na Eurásia, os
contactos globais eram uma realidade e a aprendizagem que daí resultou teve repercussões na evolução
da Cristandade. Ainda assim, o desconhecimento e as dúvidas em relação ao mundo na sua globalidade
eram muito significativos. Contudo, os europeus haviam de reunir as condições essenciais para
protagonizar a desfragmentação do mundo.
Neste sentido, Afonso IV impulsionou a doutrina expansionista do reino, através da obtenção de
uma bula de Cruzada, mas os acontecimentos nefastos que deflagram, entretanto, na Europa e na

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Península Ibérica impediram a sua concretização. Portugal, porém, foi pioneiro a ultrapassar esta crise e
no início do século XV alargou os seus horizontes com a conquista de Ceuta e a tomada da Madeira e
dos Açores.
[170 palavras]

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