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P

Universidade Estadual de Campinas

Instituto de Matemática Estatística e Computação


Científica

José Cícero Calheiros

O cálculo com enfoque geométrico

Campinas

2016
José Cícero Calheiros

O cálculo com enfoque geométrico

Dissertação apresentada ao Instituto de Ma-

temática, Estatística e Computação Cientí-

ca da Universidade Estadual de Campinas

como parte dos requisitos exigidos para a ob-

tenção do título de mestre em matemática

aplicada e computacional.

Orientador(a): Prof. Dr. Edmundo Capelas de Oliveira.

Este exemplar corresponde à versão


final da dissertação defendida pelo
aluno José Cícero Calheiros, e ori-
entada pelo prof. Dr. Edmundo Ca-
pelas de Oliveira.

Campinas

2016
Dissertação de Mestrado Prossional defendida em 15 de fevereiro de 2016 e
aprovada pele Banca Examinadora composta pelos Profs. Drs.

Prof(a). Dr(a). EDMUNDO CAPELAS DE OLIVEIRA


-

Prof(a). Dr(a). DANIEL JULIANO PAMPLONA DA SILVA


-

Prof(a). Dr(a). JAYME VAZ JUNIOR

A ata de defesa com as respectivas assinaturas dos membros

encontra-se no processo de vida acadêmica do aluno.


Dedico este trabalho a minha esposa e lho, a minha irmã, a minha mãe e aos

amigos, com os quais divido essa alegria.


AGRADECIMENTOS

Agradeço a Deus por tudo que ele tem feito por mim até hoje. Também,

agradeço aos meus familiares, amigos, e ao professor Edmundo Capelas de Oliveira por

acreditar no meu trabalho.


Resumo
Este trabalho tem por objetivo abordar geometricamente os conceitos do cál-

culo contextualizado no tempo, começando a partir do primeiro momento em que o con-

ceito de limite torna-se necessário com a resolução dos paradoxos de Zeno, passando pelo

método da Exaustão de Eudoxo, utilizado por Arquimedes para o cálculo da área do

círculo e da área delimitada por um segmento de parábola. Após este estudo prévio,

abordamos o método de Fermat para encontrar máximos e mínimos, a reta tangente a

uma curva e a quadratura das parábolas supreriores de Fermat, uma generalização da qua-

dratura da parábola feita por Arquimedes, e das hipérboles superiores. Generalizamos

estes métodos às curvas representadas por séries de potências. Estudamos o desenvolvi-

mento do cálculo, independentemente, por Newton e Leibniz, e uma breve abordagem do

conceito de cálculo fracionário que surge com a notação de diferencial de Leibniz, e sua

aplicação na resolução do problema da tautócrona. Por m, discutimos os conceitos de

limite e continuidade de uma função que surgem com Cauchy, abordando os conceitos de

derivada e integral a partir destas novas denições, que são, posteriormente, reescritas em

termos de epsilon's e delta's por Weierstrass.


Abstract
The objective of this work is to address the concepts of calculus contextualized

in time, starting from the rst moment the concept of limit becomes necessary to solve

Zeno's paradoxes, passing by the Eudoxus' method of exhaustion, used by Archimedes

to the calculation of the area of the circle and the area enclosed by a parabola. After

this preliminary study, we discuss the Fermat's method to nd maximum and minimum,

the tangent to a curve and the Fermat quadrature of the higher parables, a generali-

zation of the quadrature of the parabola is made by Archimedes and higher hyperbole.

We generalize these methods for curves represented by power series. We study the de-

velopment of calculus, independently, by Newton and Leibniz, and a brief approach to

the concept of fractional calculus that comes up with of Leibniz dierential notation, and

their application in solving the tautochrone problem. Finally, we discuss the concepts of

limit and continuity of a function that arise with Cauchy, addressing the derivative and

integral concepts from these new denitions, which are subsequently rewritten in terms

of epsilon's and delta's by Weierstrass.


Sumário

Introdução 11
1 Conceito intuitivo de limite e integral 13
1.1 Os Paradoxos do movimento de Zeno ............................ 14

1.1.1 Paradoxo da dicotomia: ................................... 15

1.1.2 Paradoxo de Aquiles e a tartaruga: ......................... 17

1.2 O Método da exaustão (princípio de Eudoxo) ................. 21

1.2.1 Quadratura do Círculo (Arquimedes) ....................... 23

1.2.2 Quadratura da Parábola (Arquimedes) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 31

2 Cálculo diferencial e integral: Fermat 37


2.1 O cálculo diferencial de Ferma . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 38
2.1.1 Máximos e mínimos de uma curva . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 38
2.1.2 O Método da tangente . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41
2.1.3 Tangente às parábolas e às hipérboles . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 42

2.1.4 Generalização do método da tangente . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45

2.1.5 O cálculo da tangente implícita ............................ 46

2.1.6 Propriedades da tangente . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 48

2.1.7 Representação de uma curva por série de potência ........... 51

2.2 O cálculo integral: método da quadratura . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 55

2.2.1 A quadratura das parábolas e das hipérboles ................ 56

2.2.2 Propriedades do método da quadratura . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 59


2.2.3 Quadratura de região plana delimitada por duas curvas ...... 64

2.2.4 Cálculo do volume de um sólido de revolução . . . . . . . . . . . . . . . . 66


2.3 O Teorema fundamental do cálculo: Fermat . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 68
3 Cálculo diferencial e integral: Newton 71
3.1 O Método das uxões .......................................... 72

3.2 O método da tangente de Newton ............................... 75

3.3 Séries binomiais ............................................... 80

3.4 Séries innitas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 83

3.5 Quadratura de curvas e a reticação de arcos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 86


4 Cálculo diferencial e integral: Leibniz 92
4.1 As diferenciais dy e dx de Leibniz ............................... 93

4.2 A tangente à curva y = f (x): método de Leibniz . . . . . . . . . . . . . . . . . . 97

4.3 Quadratura de curvas e reticação de arcos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 102

4.4 O teorema fundamental do Cálculo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 106

4.5 Propriedades da integral de Leibniz . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 108

4.6 A integral de ordem superior e a função gama ................... 111

4.6.1 A integral de ordem superior . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 111

4.6.2 A função gama e suas propriedades . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 113

5 Cálculo fracionário 117


5.1 A integral fracionária segundo Riemann-Liouville ................ 118

5.2 A derivada fracionária . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 118

5.2.1 A derivada fracionária segundo Lacroix .................... 118

5.2.2 A derivada fracionária segundo Riemann-Liouville .......... 120

5.3 O problema da tautócrona . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 121

6 Cálculo diferencial e integral: Cauchy e Weierstrass 126


6.1 O conceito de limite e continuidade de Cauchy .................. 127

6.2 O conceito de derivada de Cauchy . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 131

6.3 O conceito de continuidade de Weierstrass ...................... 133

6.4 O conceito de Integral de Cauchy .............................. 135

6.5 O Teorema fundamental do cálculo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 136

Considerações nais 140


Bibliograa 143
11

Introdução

Os conceitos do cálculo diferencial e integral passaram por uma longa traje-

tória. Começando por Arquimedes, passando por diversos matemáticos como Fermat,

Newton, Leibniz, Cauchy e Weierstrass. Os dois últimos foram os responsáveis pela

consolidação teórica do rigor do cálculo, que até então não havia sido feito pelos seus

antecessores.

Neste trabalho abordaremos os conceitos do cálculo diferencial e integral de

forma geométrica, contextualizando estes conceitos no tempo, começando a partir do

primeiro momento em que o conceito de limite se fez necessário com a resolução dos

paradoxos de Zeno (Zenão) (490 a.C. - 430 a.C.). Discutiremos o método da exaustão

de Eudoxo (408 a.C. - 355 a.C.), utilizado por Arquimedes (287a.C. - 212 a.C.) para a

quadratura do círculo e da parábola (cálculo da área delimitada por uma circunferência e

a área delimitada por um segmento de parábola). Em seguida estudaremos o método de

Fermat (1601 - 1665) para encontrar máximos e mínimos, a reta tangente a uma curva e

o método da quadratura das parábolas superiores de Fermat (y = xn ), uma generalização

da quadratura da parábola feita por Arquimedes, e das hipérboles superiores (y = ax−n


para n 6= 1). Veremos que estes método deu origem ao que hoje denominamos cálculo

diferencial e integral. Discutiremos o desenvolvimento do cálculo por Newton (1642 -

1727) e Leibniz (1646 - 1716). E, a partir da notação de derivada de ordem superior de

Leibniz, discutiremos, de forma breve, os conceitos do cálculo fracionário, que surge nesta

mesma época, e sua aplicação na resolução do problema da tautócrona. Demonstraremos

que a curva solução deste problema é uma cilcoide invertida.

Num primeiro momento, admitimos que as curvas, na forma y = f (x), são

todas positivas, isso é necessário para que possamos interpretar geometricamente a integral

como a área delimitada por uma curva, não sendo utilizado diretamente o conceito de

função, sendo feito posteriormente quando estudarmos os conceitos do cálculo a partir do

século XIX. Veremos neste século o surgimento dos conceitos de limite e continuidade,

denidos pelo matemático Augustin Louis Cauchy (1789 - 1857). É a partir do conceito

de limite que o cálculo se torna uma ferramente mais rigorosa e poderosa.

Considerando as denições de limite e continuidade de Cauchy, veremos que o


12

matemático Karl Weierstrass (1815 - 1897) reescreve estes conceitos com a notação de

ε0 s e δ 0 s, a qual estamos acostumados a ver nos livros de cálculo.

É conveniente ressaltar que em todo o texto tomamos o cuidado de explicitar

as passagens matemáticas, bem como discutimos vários exemplos, a m de elucidar e

exemplicar a teoria apresentada.

Iniciamos nosso trabalho com uma abordagem indireta dos conceitos de limite,

derivadas e integrais considerando alguns aspectos históricos como os Paradoxos de Zeno, o

método da exaustão de Eudoxo, o cálculo da área delimitada por um segmento de parábola

e a área do círculo, feitos por Arquimedes. Em seguida, nos dedicaremos ao estudo dos

conceitos do cálculo nos Séculos XVII e XIX, começando com o método para encontrar

máximos e mínimos de Fermat, aplicação deste método na resolução do problema de

encontrar a reta tangente por um ponto de uma curva, e a quadratura das parábolas

superiores de Fermat (y = xn ) e hipérboles superiores y = ax−n para n 6= 1, culminando

no desenvolvimento do cálculo diferencial e integral por Newton e Leibniz.

A partir de Leibniz estudaremos o cálculo com uma nova notação para derivada

e integral, notação esta que encontramos nos livros de cálculo. Abordaremos o conceito

de derivada e integral de ordem superior(n ≥ 2), e assim discutiremos derivada e integral


para um n real com o auxílio da função gama Γ (n). Faremos uma discussão supercial de

um novo conceito de cálculo, o cálculo fracionário, que surge , também, no século XVII.

Adotaremos a denição de derivada de ordem arbitrária segundo Lacroix e Riemann-

Liouville, e de integral de ordem arbitrária segundo Riemann-Liouville .

Resolveremos o problema de determinar a curva na qual o tempo gasto por um

objeto para deslizar, sem atrito, com gravidade uniforme até o ponto mínimo, independe

do ponto de partida (tautócrona) através do cálculo fracionário.

E, por m, faremos uma abordagem dos conceitos de limite e continuidade,

derivada e integral desenvolvidos no século XIX por Cauchy. Faremos uma abordagem

destes conceitos segundo a reformulação dada por Weierstrass. A partir das denições de

Cauchy, discutiremos os conceitos de derivadas e integrais de uma função de uma variável

real, e terminamos abordando geometricamente o teorema do valor médio para integrais

e demonstrando o teorema fundamental do cálculo.

Finalmente, apresentaremos nossas considerações nais.


13

Capítulo 1

Conceitos intuitivos de limite e integral

Neste capítulo abordaremos os conceitos de limite e de integral de modo intui-

tivo, tomando como ponto de partida os paradoxos do movimento de Zeno e o método da

Exaustão de Eudoxo, com o qual discutimos o problema da quadratura do círculo e da

parábola feita por Arquimedes.

Os paradoxos de Zeno, assim como o método da exaustão de Eudoxo, estão

relacionados com os conceitos de sequências e séries, em particular, com os conceitos de

progressão geométrica e a soma dos termos de uma progressão geométrica.

Discutiremos os paradoxos da Dicotomia, e de Aquiles e a tartaruga, assim

como o método da exaustão, utilizando, de forma intuitiva, a noção de limite de uma

sequência e de uma série.

Adotaremos, de forma intuitiva, como grandeza ou valor innitamente pe-

queno aquelas aproximadamente iguais a zero, porém diferentes de zero. Estes valores ou

grandezas são desprezados nas operações de soma ou subtração quando comparados com
1
grandezas relativamente maiores. Por exemplo, o valor , intuitivamente, é considerado
250
1 1
muito pequeno quando fazemos a operação a+ 250
para todo natural a. E, em geral, n
a
para |a| > 1 é um número innitamente pequeno para n innitamente grande. Também

adotaremos como grandeza ou valor innitamente grande aquelas cujo inverso multiplica-

tivo é innitamente pequeno. Também, admitiremos que uma grandeza é innitamente

grande se seu inverso multiplicativo for innitamente pequeno.

Considere uma sequência xn , de primeiro termo x1 6= 0 ( ou x0 6= 0), que


xn
satisfaz a relação = q 6= 0 para todo número natural n. Esta sequência é denominada
xn−1
n−1
de progressão geométrica de razão q . Seu termo geral é dado por xn = x1 q para todo
n
número natural n ≥ 1 (ou xn = x0 q , para todo n ≥ 0).

Assumiremos que a distância entre dois pontos P1 e P2 na reta real (R) é dada

por dP1 P2 = P2 − P1 > 0, onde supomos P2 à direita de P1 na reta real.


14

1.1 Os paradoxos do movimento de Zeno


-

O conceito de limite é o alicerce do cálculo diferencial e integral. Convergência

e divergência de sequências e séries, continuidade, derivada e integral são conceitos inti-

mamente relacionados ao conceito de limite. A ideia deste conceito aparece pela primeira

vez por volta do séc. V a.C. com as discussões dos paradoxos do movimento, formulados

pelo lósofo grego Zeno de Eleia, que são fundamentados em duas grandezas, espaço e

tempo. Os quatro paradoxos são apresentados por Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.) em

sua física [1].

O pensamento de Zeno se fundamenta nos seguintes argumentos lógicos:

• ou tempo e o espaço são innitamente divisíveis.

• ou há um menor elemento (uma unidade) indivisível


de tempo (um instante) e de espaço (um ponto).

Ao admitir a hipótese de que o tempo e o espaço são innitamente divisíveis,

Zeno elabora os paradoxos da dicotomia e, seu análogo, de Aquiles e a tartaruga para

refutar a ideia de movimento.

Paradoxo da dicotomia :

O que se move deve sempre alcançar o ponto médio antes do ponto nal.

Paradoxo de Aquiles e a tartaruga :

O mais lento na corrida jamais será alcançado pelo mais rápido, pois o que

persegue deve sempre começar por atingir o ponto de onde partiu o que foge.

Zeno chega a conclusão de que o movimento é impossível, sobre a hipótese

da divisibilidade innita do tempo e do espaço. O argumento de Zeno se baseia na

impossibilidade de se percorrer uma innidade de distância em um tempo nito. Estes

dois paradoxos são construídos em cima do fato de sempre haver uma distância a ser

percorrida e isso ocorre de maneira innita, logo ambos, o atleta e Aquiles, terão que

percorrer innitas distâncias antes de atingirem o m do percurso, o que é impossível na

razão humana.

A partir de sua conclusão, Zeno admite que há um menor elemento (uma

unidade) indivisível de tempo (um instante) e de espaço (um ponto), então elabora os

paradoxos da echa imóvel e do estádio.

Paradoxo da echa imóvel : A echa em voo repousa , e isto porque  o que se


move sempre está no mesmo agora e no aqui igual a si mesmo, no  não distinguível.

Paradoxo do estádio : Tome-se duas leiras de corpos, cada uma composta por

um número igual de corpos do mesmo tamanho. Estas leiras de corpos irão se cruzar à
15

medida que viajam à mesma velocidade em direções opostas. Ao observar este movimento

concluímos que metade da unidade de tempo é igual a uma unidade de tempo.

E, depois de argumentar sobre estes dois paradoxos, Zeno conclui que o movi-

mento é impossível, considerando a hipótese da existência de uma unidade indivisível de

tempo e espaço. Concluindo, a partir dos quatro paradoxos, que o movimento é apenas

uma ilusão da mente humana.

Discutiremos os dois primeiros paradoxos am de chegar a uma conclusão

contrária a de Zeno.

1.1.1 Paradoxo da dicotomia:


-

O que se move deve sempre alcançar o ponto médio antes do ponto nal.

Um atleta que deseja alcançar o ponto nal Pf de um percurso de uma corrida,

partindo de um ponto inicialPi = P0 , nunca consegue alcançá-lo, uma vez que é necessário
alcançar o ponto médio P1 do segmento Pi Pf . E, antes de alcançar Pf , é necessário atingir

o ponto médio P2 do segmento P1 Pf , e antes de alcançar Pf , é necessário atingir o ponto

médio P3 do segmento P2 Pf , e assim sucessivamente, ad innitum Fig.1.1.

Fig.1.1. Paradoxo da dicotomia.

Seja dPn−1 Pn = Pn −Pn−1 a distância entre o ponto em que o atleta se encontra e


o ponto sucessor. A Fig.1.1 ilustra a situação do movimento. Observe que a distância total
Pn
percorrida pelo atleta é dada pela soma dPk−1 Pk , que é sempre menor que a distância
k=1
total do percurso dPi Pf = d. Ela também nos mostra que a distância dPn Pf = Pf − Pn
n
P
que falta para completar o percurso é dada por dPn Pf = d− dPk−1 Pk para todo n ≥ 1.
k=1
Armamos que para n innitamente grande, a distância dPn Pf torna-se innitamente
Pn
pequena e a soma dPk−1 Pk aproxima-se cada vez mais da distância d.
k=1

De fato, a distância percorrida em cada trecho é a metade da distância percorrida no trecho


dPn−1 Pn
anterior, logo dPn Pn+1 = para todo n ≥ 1. Esta é uma progressão geométrica de
2
d 1 d
primeiro termo igual a dP0 P1 = , razão igual a e termo geral dado por dPn−1 Pn = n .
2 2 2
n
d
P
Logo a distância que falta para o atleta completar o percurso é dada por dPn Pf = d− .
2k
k=1
n
d
P
O somatório pode ser escrito como
2k
k=1
16

n
d 1 1 1 1 1
P  
2k
=d 2
+ 22
+ 23
+ ··· + 2n
=d 1− 2n
.
k=1
n
1 d
 P
Para n innitamente grande, d 1− 2n
→ d, a soma
2k
torna-se muito
k=1
n
P
próxima de d, com isso dPn Pf = d− dPk−1 Pk → 0, torna-se innitamente pequena.
k=1

Mostremos que o ponto Pn tende à Pf .


De fato, seguindo as hipóteses do paradoxo, e supondo o movimento contínuo,

o atleta, para cobrir todo percurso de Pi à Pf , passa pelos pontos médios Pn pertencentes
d
a cada trecho Pn−1 Pf ⊂ Pi Pf , que são descritos pela expressão Pn = Pf − n , uma
2
n
d
= 2dn . Para n
P
vez que dP n P f = d− 2k
innitamente grande P n = Pf , uma vez que
k=1
d
dPn−1 Pn = 2n
→ 0, torna-se innitamente pequeno. Sendo assim, concluímos que o atleta

chega ao ponto nal Pf depois de passar por um número innitamente grande de pontos.

d
Gracamente o comportamento dos pontos Pn = Pf − 2n
é visto na Fig.1.2

abaixo.

d
Fig.1.2. Representação gráca de Pn = P f − 2n
.

d
O gráco da Fig.1.2, assim como a relação Pn = Pf − 2n
, nos mostram que o

atleta percorre toda a distância entre Pi e Pf. Armamos que o tempo gasto pelo atleta

para realizar este percurso e a distância percorrida por ele são nitos.

De fato, seja t1 , o intervalo de tempo que o atleta leva, partindo de Pi , para


alcançar o ponto médio P1 , depois de atingir P1 , ele atinge o ponto médio P2 em um

intervalo de tempo t2 , e depois de atingir P2 , ele atinge o ponto médio P3 em um intervalo

de tempo t3 , e assim por diante.

Admitindo que o percurso de Pf é Pi a feito com uma velocidade constante


D dP Pn
v 6= 0, então a velocidade em cada trecho Pn−1 Pn é dada por v =
t
= n−1 tn
, onde
n
P n
P
D= dPk−1 Pk (distância total percorrida) e t = (tempo total gasto).
k=1 k=1
17

dP P dP P
Dado que v = Dt = n−1 tn
n
, então podemos escrever tn =
n−1 n
v
= 21n vd
= 2dn e D = vt. Disto segue que o tempo total t e a distância total D são dados

dPn−1 Pn
por
n n
d d 1 1 1
P  P 
t= 2k v
= v
1− 2n
e D = vt = d 2k v
=d 1− 2n
.
k=1 k=1

Tomando um n innitamente grande, obtemos

t = vd 1 − 21n → vd


D = d 1 − 21n → d.


d
Logo, o tempo total e a distância total tendem, respectivamente, a
v
e a d, que
são valores conhecidos. Estes resultados mostram que o atleta percorre toda a distância
d
d entre Pi e Pf em um tempo nito igual a
v
, contrariando o argumento de Zeno.

1.1.2 Paradoxo de Aquiles e a tartaruga:

O mais lento na corrida jamais será alcançado pelo mais rápido; pois o que

persegue deve sempre começar por atingir o ponto de onde partiu o que foge.

Suponha que Aquiles inicie a corrida do ponto Pi de uma reta, e no mesmo

instante a tartaruga que se encontra em P1 , a uma distância d de Aquiles. Desta forma,

sendo o espaço e o tempo divisíveis innitamente, Aquiles nunca alcança à tartaruga, pois

quando ele chegar à posição inicial P1 da tartaruga, esta encontra-se mais à frente, numa

outra posição P2 . Quando Aquiles chegar a P2 , a tartaruga não está mais lá, pois avançou
para uma nova posição P3 , e assim sucessivamente, ad innitum. Gracamente, o que

temos é a situação conforme Fig.1.3.

Fig.1.3. Paradoxo de Aquiles e a tartaruga.


18

Consideremos as velocidades constantes vA e vT , de Aquiles e da tartaruga,

respectivamente, tais que vA > vT > 0. Seja t1 = t o intervalo de tempo necessário para

Aquiles percorrer a distância dP0 P1 = d atingindo o ponto P1 , neste mesmo intervalo de

tempo a tartaruga percorre a distância dP 1 P 2 atingindo o ponto P2 , ao atingir o ponto P2


Aquiles leva um tempo t2 para percorrer a distância dP1 P2 , neste mesmo intervalo de tempo
a tartaruga percorre a distância dP 2 P 3 atingindo o ponto P3 , e assim sucessivamente.

Como as velocidades de Aquiles e da tartaruga são constantes, podemos escrevê-

las, respectivamente, como

dP0 P1 dP1 P2 dP2 P3 dPn−1 Pn dPn Pn+1


vA = t1
= t2
= t3
= ··· = tn
= tn+1
dP1 P2 dP2 P3 dP3 P4 dPn Pn+1 dPn+1 Pn+2
vT = t1
= t2
= t3
= ··· = tn
= tn+1

Sejam tn a sequência de intervalos de tempo em que Aquiles e a tartaruga

percorrem cada distância, e dPn Pn+1 a sequência das distâncias entre Aquiles e a tartaruga.

Estas duas sequências são decrescentes, pois dado que vA > vT , então

vT dPn Pn+1
0< vA
= dPn−1 Pn
< 1 ⇒ 0 < dPn Pn+1 < dPn−1 Pn ,
vT tn+1
0< vA
= tn
< 1 ⇒ 0 < tn+1 < tn .
 
vT
Podemos escrever as sequência anteriores como dPn Pn+1 = vA
dPn−1 Pn e
 
vT vT
tn+1 = vA
tn . Estas sequências são progressões geométricas de razão 0 < vA
< 1 e

primeiros termos iguais a, respectivamente, dP0 P1 e t1 = t. O n-ésimo termo de cada


 n  n
vT vT
sequência é dado por dPn Pn+1 =
vA
d e tn+1 =
vA
t, para todo natural n ≥ 0.
Para n innitamente grande a distância dPn Pn+1 entre Aquiles e a tartaruga e

o tempo tn para percorrer esta distância tornam-se innitamente pequenos, uma vez que
 n
vT
vA
→ 0, pois 0 < vvAT < 1.
As distâncias totais percorridas por Aquiles e a tartaruga são dadas por
 0  n  1
vT vT
DA = d + . . . + d vvAT ,
vA
+d vA
 1  2  3  n
DT = d vvAT + d vvAT + d vvAT + . . . + d vvAT .
As somas anteriores são somas dos termos de uma progressão geométrica de
vT
razão 0< vA
< 1, que podem ser escritas como:
 n
vT
vA
DA = d vAv−v
A
T
+d vT −vA
vA
,
 n
vT
vA
DT = d vAv−v
T
T
+d vT −vA
vA
.

1
Dessas duas últimas igualdades concluímos que

DA − d vAv−v
A
T
= DT − d vAv−v
T
T
⇒ DA = DT + d.
 n  n
vT vT
vA vA
1 Podemos escrever DA − d vAv−v
A
=d
vA
e DT − d vAv−v
T
=d
vA
.
T vT −vA T vT −vA
19

Do que foi posto acima, vemos que DA > DT , o que nos leva à conclusão de

que Aquiles em algum momento alcançou a tartaruga.

Tomando n innitamente grande teremos


  v n
 vA vT
 A
vT−vA
→0
vT
 n , então DA = d vAv−v
A
e DT = d vAv−v
T
.
 vA vA
T T

vT −vA
→0
Resta-nos, agora, mostrar que Aquiles alcança a tartaruga em um tempo nito.

O tempo total t que Aquiles leva para alcançar a tartaruga é dado pela soma

de todos os tn , logo
 n 
vT
n  k−1 
P vT vA vA vA
T =t vA
=t vA −vT
+ vT −vA
.
k=1  n
vT
vA vA
Dado um n innitamente grande, o termo
vT −vA
torna-se innitamente pe-
vA t d
queno, logo T = vA −vT
= vA −vT
. Concluímos, assim, que o tempo total gasto por Aquiles

para encontrar a tartaruga em um ponto do percurso é nito.

Podemos escrever as posições de Aquiles e da tartaruga da seguinte forma


n
P
Pn = P0 + vA (posição de Aquiles)
k=1
n
P
Pn+1 = P1 + vT (posição da tartaruga).
k=1

Tomando n innitamente grande, obtemos

vA d
Pn = P0 + vA −vT
vT d vT d vA d
Pn+1 = P1 + vA −vT
= P0 + d + vA −vT
= P0 + vA −vT
= Pn .
d
Como vemos, Aquiles alcança a tartaruga em t= vA −vT
.

Exemplo 1.1: Suponhamos vA = 10m/s, vT = 9m/s e d = 100m. A diferença


entre as velocidades de Aquiles e da tartaruga é de 1m/s, esta velocidade é denominada de

velocidade relativa. Isto signica que Aquiles se aproxima da tartaruga a uma velocidade

de 1m/s. Então para percorrer a distância de 100m de diferença, ele leva

d 100
t= vA −vT
= 10−9
= 100s = 1min 40s.
A conclusão da impossibilidade do movimento nesse paradoxo, feita por Zeno,

utiliza o mesmo argumento do paradoxo da dicotomia. Entretanto, mostramos que é

possível o mais rápido alcançar o mais lento em uma corrida onde o mais lento sai na

frente. Contrariando, mais uma vez, o argumento de Zeno.

Fisicamente, o que temos é uma aproximação com velocidade relativa que é

dada por vA − vT > 0, isto nos indica que, por mais próxima que sejam as velocidades,
d
porém diferentes, o mais rápido irá alcançar o mais lento em um tempo t= vA −vT
, onde

d é a distância inicial entre os dois corredores.


20

A velocidade relativa indica quanto a distância entre dois corredores diminui

(ou aumenta) com o tempo. Do exemplo anterior, a diferença é de 1m/s, ou seja, a cada

segundo a distância inicial entre eles diminui de 1m. É como se o corredor mais lento

permanecesse parado, e o mais rápido zesse o percurso com velocidade de 1m/s, no caso
do exemplo anterior. Podemos ver isso geometricamente conforme Fig.1.4.

Fig.1.4. Gráco das posições entre Aquiles e a tartaruga.

As posições de Aquiles e da tartaruga são dadas por

PA = P0 + vA tn
PT = P1 + vT tn .
Para que Aquiles alcance a tartaruga, devemos ter PA = PT . Esta igualdade
d
se verica para tn = vA −vT
.

De fato, igualando as expressões PA = P0 + vA tn e PT = P1 + vT tn , obtemos

P0 + vA tn = P1 + vT tn
(vA − vT ) tn = P1 − P0
P1 −P0 d
tn = vA −vT
= vA −vT
.

Este resultado é exatamente o mesmo que o encontrado anteriormente. O

gráco nos mostra como a distância entre eles vai diminuindo com o tempo, até que os

dois ocupem a mesma posição.

O entendimento quantitativo em relação à soma de valores positivos, no qual

somando innitos desses valores, esta soma sempre aumenta, e acabará por ultrapassar

qualquer valor positivo dado, tornando-a innita, é o erro cometido por Zeno.

Tanto no caso do paradoxo da dicotomia quanto no de Aquiles e a tartaruga,

as somas dos termos das sequências (séries), da distância e do tempo, tendem a convergir

para um valor nito. O tempo que o corredor leva para percorrer toda a distância d é
d d
nito, e vale t= v
. Aquiles encontra a tartaruga após um tempo nito t= vA −vT
. A
21

diferença entre as velocidades, vA −vT = vrelativa > 0, é denominada de velocidade relativa


de aproximação entre Aquiles e a tartaruga.

O pensamento de Zeno, assim como de muitos lósofos (matemáticos) de sua

época, se explica pelo fato dos conceitos de limite e convergência de sequências e séries

ainda não terem sido desenvolvidos.

O conceito de série aparece pela primeira vez no século III a.C. com Arquime-

des. Ao realizar a quadratura da parábola, Arquimedes chega a série geométrica (soma


1 1
1
innita)
4
+ 42
43
+ . . . + 41n + . . ., mostrando, sem utilizar o conceito de limite, que
+
4
essa soma é igual a [3]. Enquanto o conceito de limite só foi denido pela primeira vez
3
no séc. XVIII por Jean Le Rond d'Alembert (1717 - 1783), que enxergou neste conceito

a importância central para o desenvolvimento do cálculo [4].

1.2 O método da exaustão (princípio de Eudoxo)


-

O cálculo da área (quadratura) de uma gura plana ou de região plana de-

limitada por uma curva, tal como o cálculo do volume (cubatura) delimitado por um

sólido foram os primeiros conceitos do cálculo a serem desenvolvidos. A integral, hoje

abordada nos livros de cálculo, teve sua primeira versão grega por volta do século V a.C.,

desenvolvida pelo astrônomo e matemático grego Eudoxo de Cnido, conhecido hoje como

Método da Exaustão ou Princípio de Eudoxo. Esse método é fundamentado no axioma e

na seguinte proposição.

• Axioma de Eudoxo ou Princípio de Arquimedes:

Magnitudes são ditas ter uma razão entre si, aquelas que multiplicadas

podem exceder uma a outra. [2]

O axioma anterior pode ser escrito como:

• Dados x e ε dois números positivos quaisquer, e seja ε < x. Então existe um

número inteiro positivo n tal que nε > x.

Consideremos as grandezas x>0 e ε > 0, conforme Fig.1.5

Fig.1.5. Representação geométrica das grandezas positivas x e ε.


22

Intuitivamente, podemos observar que existe um número natural n, tal que o

somatório que segue supera o valor de x.


n
P
ε = nε > x para algum número natural n, Fig.1.6.
k=1

Fig.1.6. Axioma de Eudoxo.

• Princípio de Eudoxo (método da exaustão):

Proposição 1: Sendo expostas duas magnitudes desiguais, caso da maior

seja subtraída uma maior que sua metade, da que é deixada, uma maior

do que a metade, e isso acontece sempre, alguma magnitude será dei-

xada, a qual é menor do que a menor magnitude exposta. [2]

De fato, consideremos duas grandezas x > 0 e ε > 0, tais que ε < x .


Podemos construir uma
 sequência de termos positivos xn satisfazendo a desigualdade
n
xn > 12 x−
P
xk−1 para todo número natural n ≥ 1.
k=1

Geometricamente temos a seguinte situação, conforme Fig.1.7.

Fig.1.7. Princípio de Eudoxo.

1
Então existe uma constante
2
< q < 1, tal que para todo número n ≥ 1
podemos escrever
 
n
P
xn = x− xk−1 q , com x0 = 0.
k=1

Da forma como foi construída a sequência xn da Fig.1.7, os termos desta

sequência formam uma progressão geométrica de razão igual a 1−q e primeiro termo

igual a x1 = xq .
23

 n−1
  n−1

P P
De fato, escrevendo xn−1 = x− xk−1 q e xn = x− xk−1 − xn−1 q ,
k=1 k=1
obtemos
n−1
xn−1 P
q
= x− xk−1 . Assim sendo, podemos escrever
k=1
   
xn−1
xn = q
− xn−1 q = xn−1 1q − 1 q = xn−1 (1 − q), o que nos fornece
xn
xn−1
= (1 − q). Desta igualdade segue xn = x1 (1 − q)n−1 , com x1 = xq .
Agora, retirando da grandeza x uma parte x1 maior que sua metade, e do que

sobra uma parte x2 maior que sua metade, e assim por diante, teremos, na etapa n − 1,
cado com uma grandeza igual a
n
xn
= x (1 − q)n−1 .
P
x − x1 − x2 − x3 − · · · − xn−1 = x− xk−1 = q
k=1
1
Como 0 < 1−q < 2
, elevando a n−1 e multiplicando por x, obtemos
n−1 x
x (1 − q) < 2n−1
.

Por hipótese temos ε < x, e pelo Princípio de Arquimedes, existe um natural

n tal que x < nε. Podemos, assim, escrever as seguintes desigualdades

x (1 − q)n−1 < 2n−1


x nε
< 2n−1 < ε, pois n
2n−1
< 1, ou 2n−1 > n para todo número

natural n > 2. Disto seque a Proposição 1.

1.2.1 Quadratura do Círculo (Arquimedes)


-

Um dos três problemas clássicos (duplicação do cubo, trissecção do ângulo)

propostos pelos antigos gregos é o da quadratura do círculo que é descrito como segue:

Construir com régua e compasso em um número nito de passos um

quadrado com a mesma área de um círculo de raio r.


A solução algébrica deste problema pode ser feita da seguinte forma:

Seja a área do círculo dada por πr2 . Tomando um quadrado de lado x sua
2
área é igual a x . Para que essa área seja igual a área de um círculo de raio r, devemos

ter um quadrado de lado x = r π.
O lado do quadrado encontrado é exatamente a média geométrica entre os

valores r2 e π. Entretanto, não é possível a construção com régua e compasso de um

segmento exatamente igual π , uma vez que π é um número transcendente. A demonstração

de que π é um número transcendente foi feita em 1882 pelo matemático alemão Carl-Louis-
Ferdinand von Lindemann (1852 - 1939), mostrando ser impossível resolver o problema

da quadratura do círculo apenas com régua e compasso.

A Proposição 2, que segue, mostra a relação entre a área de um círculo e seu

diâmetro. Com isso, podemos mostrar que a área de um círculo é dada por πr2 .
24

Proposição 2: Círculos estão entre si como os quadrados sobre os diâ-

metros. [2]

2
Admitimos como verdadeira, sem demonstrarmos, a proposição 2. .

Da Proposição 2, segue que a área de um círculo de raio r é proporcional ao

quadrado de lado r.
3
De fato, como

AC1 D12 4r12 r12


AC2
= D22
= 4r22
= r22
AC1 AC2
r12
= r22
=π (escolha da constante igual a π)
AC1 = πr12
AC2 = πr22 .
Arquimedes, tomando um círculo de raio r = 1, calcula uma aproximação de

π, circunscrevendo e inscrevendo polígonos de 6, 12, 24, 48 e 96 lados, encontrando para

este último um valor de π entre 3 + 10


71
e 3 + 17 , ou seja 3, 1408450704 < π < 3, 1428571429.
Arquimedes é o primeiro matemático a demonstrar que a área de um círculo é
Cr
igual ao seu comprimento C (perímetro) vezes o raio sobre dois,
2
, conforme Proposição

3 que segue:

Proposição 3: A área de qualquer círculo é igual a área de um triângulo

retângulo, em que um dos lados sobre o ângulo reto é igual ao raio, e o

outro lado igual a circunferência do círculo. [3]

Arquimedes utiliza a Proposição 1 e dupla redução ao absurdo, que é funda-

mentada na seguinte propriedade:

Dada duas grandezas x e y , uma, e somente uma, das alternativas abaixo pode
ocorrer:

ou x>y ou x<y ou x = y.

Para mostrar que duas grandezas x e y são iguais, Arquimedes supõe por

absurdo que elas são diferentes, ou seja, uma das alternativas x>y ou x<y tem que ser

verdadeira, chegando a um duplo absurdo, concluindo por m que x = y.


Consideremos C o comprimento da circunferência, T = C×r
2
a área do triângulo
C×r
e A a área do círculo. De acordo com a Proposição 3 temos A= 2 .
De fato, caso não seja vericada a igualdade anterior, então ou ocorre A>T
ou ocorre A < T, exclusivamente.

2 Ver demonstração em [2], páginas 528 à 530.


3 Diâmetro da circunferência é 2r.
25

Suponhamos que A>T e sejam as grandezas A − T e A. Como A − T < A,


pelo axioma de Eudoxo, existe um natural n tal que A < n (A − T ).
Tomemos os polígonos regulares Pn , inscritos na circunferência de raio r. Cada

polígono, a partir do primeiro (quadrado inscrito), e construído acrescentando triângulos

isósceles a cada lado. Para isso, tomamos o ponto médio de cada setor circular JAEB e

construímos os triângulos com vértice neste ponto médio e com um dos lados sobre e igual

ao lado do polígono anterior. Deste modo, obteremos polígonos que possuem o dobro de

lados do polígono antecedente, ou seja os polígonos regulares Pn possuem o número de


n+1 2
lados dado por LPn = 2LPn−1 = 2 para todo número natural n ≥ 2, com LP1 = 2 .

Consideremos a sequência de polígonos regulares Pn com 2n+1 lados inscritos

na circunferência de raio r, as áreas APn desses polígonos são menores que a área A do
círculo. E seja Tn = APn −APn−1 , para todo natural n ≥ 1, a soma das áreas dos triângulos

isósceles acrescentados a cada lado do polígono anterior, conforme Fig.1.8, e denamos

AP0 = 0.

Fig.1.8. Polígonos regulares inscritos.

Denotamos por Sn = A − APn a soma das áreas dos setores circulares entre a

circunferência e os polígonos inscritos. Armamos que Sn−1 > Tn > 12 Sn−1 .


De fato, construindo retângulos sobre o arco JAEB na Fig.1.8, obtemos a

Fig.1.9 que segue.

.._
Fig.1.9. Área do retângulo circunscrito no arco AB .
26

e
Cada retângulo ABCD , construído conforme gura anterior, tem área maior
que o setor circular JAEB .
Também é verdade que cada triângulo tem área maior que a
A
metade de cada setor circular, uma vez que AJ > A =
AeABCDE
> JAEB .
AEB 4 AEB 2 2
1 1

Dado A − APn−1 > Tn > A − APn−1 , então existe < q < 1, tal que
2 2

Tn = A − APn−1 q .
4
Da igualdade Tn = APn − APn−1 , obtemos

Pn
APn = Tk
k=1
n
P
Sn = A− Tk
k=1
 n−1

 P
Tn = A − APn−1 q = A− Tk q .
k=1
 n−1

Tn = Aq (1 − q)n−1 ,
P
A sequência Tn = A− Tk q pode ser escrita como
k=1
1
com 0<1−q < 2
e T1 = AP1 = Aq .

 n−1
  n−2

P P
De fato, Tn = A− Tk q = A− Tk − Tn−1 q , que por sua vez é
  k=1 k=1
igual a Tn = Tn−1
q
− T n−1 q = Tn−1 (1 − q) = Aq (1 − q)n−1 para todo número natural
n ≥ 1.
A − T < A,
Sendo pelo princípio de Arquimedes, existe um número natural n
tal que A < n (A − T ).
Agora retiramos de A a grandeza T1 maior que sua metade, e depois T2 , uma
grandeza maior que a metade do que sobra, e assim por diante, obtendo na etapa n − 1
n−1
P
a expressão A− Tk .
k=1
 n−1

P
Da igualdade Tn = A− Tk q , concluímos que:
k=1
n−1
Tn
= A (1 − q)n−1 ,
P
A− Tk = q
e das desigualdades A < n (A − T ) e 0 <
k=1
1
1−q < 2
, obtemos

n−1
Tk = A (1 − q)n−1 < A n(A−T ) n
< 1 (indução)5 .
P
A− 2n−1
< 2n−1
< A−T, pois
2n−1
k=1
n
P n−1
P n−1
P
De APn =
, temos APn−1 = Tk . Desta igualdade e da desigualdade A−
k=1 k=1 k=1
Tk < A − T , concluímos que A − APn−1 < A − T , então APn−1 > T .
n n n n
4 APk−1 = APn − AP0 .
P P  P P
Tk = APk − APk−1 = APk −
k=1 k=1 k=1 k=1
50 <1−q < 1
⇒ 0 < (1 − q)
n−1
< 1
⇒0 < A (1 − q)
n−1
< A
< n(A−T )
< A − T.
2 2n−1 2n−1 2n−1
27

A área de um polígono regular de 2n+1 lados iguais a bn inscrito em uma


2n+1 b n hn pn hn
circunferência de raio r é dada por APn = 2
= 2
, onde bn é o lado o polígono

regular inscrito, pn hn a altura dos 2n+1 triângulos ao


o perímetro desse polígono regular e
n+1
qual o polígono com 2 lados foi dividido. Entretanto, pn < C e hn < r , disto segue que
pn hn
pn hn < Cr, então 2 < Cr 2
, logo APn < T . E, como APn > T , temos uma contradição,

isso ocorreu da hipótese A > T , logo essa suposição é falsa.

Suponhamos A < T, e consideremo os polígonos regulares Pn com 2n+1 lados,

circunscritos a circunferência de raio r, construídos como na Fig.1.10 abaixo:

Fig.1.10. Polígonos regulares circunscritos.

A área APn de um polígono regular de 2n+1 lados iguais a bn e perímetro pn ,


2n+1 bn hn pn hn
circunscrito a uma circunferência de raio r, é dada por APn = 2
= 2
hn
, onde
n+1 n+1
é altura dos 2 triângulos ao qual o polígono com 2 lados foi dividido. E como Pn

está circunscrito na circunferência de raio r, temos que pn > C e hn = r, disto segue que

pn r > Cr, então pn2 r >T = Cr


2
, logo APn > T para todo número natural n ≥ 1.
De APn > T , segue que a área AP1 > T > T − A. Considerando as grandezas

AP1 eT − A, vamos aplicar a Proposição 1, e para isso, consideremos Tn = APn−1 − APn , a


sequência de áreas dos triângulos obtida retirando as áreas do polígono Pn−1 do polígono

Pn , respectivamente, para todo número natural n ≥ 2, com T1 = A = AP1 q . Seja


Sn = APn − A, a área entre os polígonos circunscritos e o círculo de raio r. Da Fig.1.10
1 1
vemos que Tn+1 > Sn . Disto segue que Tn+1 = Sn q = (APn − A) q para algum < q < 1.
2 2

Da relação Tn = APn−1 − APn podemos escrever

T1 = A
T2 = AP1 − AP2
T3 = AP2 − AP3
T4 = AP3 − AP4
T5 = AP4 − AP5
.
.
.

Tn = APn−1 − APn
28

Somando os Tk para 1 ≤ k ≤ n, obtemos


n
P
Tk = A + Ap1 − APn
k=1
n
P
APn = A + AP1 − Tk . Desta igualdade segue que
k=1
n
P
APn = A + AP1 − Tk
k=1
n
P
Também podemos escrever S n = A P1 − Tk .
k=1
 n

P
Do que foi feito anteriormente, temos a igualdade Tn+1 = AP1 − Tk q .
k=1
Desta igualdade, podemos escrever a relação Tn como
 n

P
Tn+1 = AP1 − Tk − Tn q
k=1
 n

P
Tn = AP1 − Tk q
k=1
n
Tn
P
q
= AP1 − Tk
k=1
 
Tn
Tn+1 = q
− Tn q = Tn (1 − q)
Tn+1 = T1 (1 − q)n para todo natural n≥1 e T1 = A.
Agora retirando de AP1 , T1 = A, uma parte maior que sua metade, depois

T2 , uma parte maior que a metade do que sobra, e assim sucessivamente, na etapa n−1
camos com
n
Tn
P
AP1 − Tk = q
= Apn − A.
k=1

Pelo princípio de Arquimedes existe n natural tal que AP1 < n (T − A).
Armamos que APn < T .
n
Tn
= T1 (1 − q)n−1
P
De fato, uma vez que APn − A = AP1 − Tk = q
, temos
k=1
APn − A = A (1 − q)n−1 . De forma análoga, concluímos que

APn − A < T − A, ou seja APn < T . Entretanto, APn > T para todo n ≥ 1.
Desta forma temos um absurdo, e isso ocorreu da hipótese A < T , logo essa suposição é
falsa.

Cr
Não podendo ser A>T e nem A < T, então temos que A=T = 2
.

A demonstração anterior é feita em um número de passos nito, o que deixa de

fora a necessidade de trabalharmos com números innitamente grandes ou innitamente

pequenos. Também observamos que as áreas dos polígonos circunscritos formam uma

sequência decrescente, e dos inscritos crescente.


29

Denotando por An a área dos polígonos circunscritos, por an a dos polígonos

inscritos, e sendo A a área do círculo, temos as seguintes desigualdades:

a1 < a2 < . . . < an < A < An < . . . < A2 < A1 .

Estas desigualdades nos mostram que quanto maior o número de lados dos

polígonos circunscrito e inscrito, mais próximos da área A do círculo estaremos. Intui-


tivamente, dizemos que, para n innitamente grande (n → ∞), as diferenças A − An e
an − A tornam-se innitamente pequenas (tendem a zero), de forma equivalente, temos


A → A
n
.
a → A
n

Vamos ver o que acontece com a diferença An − an para os polígonos circuns-


n+1
critos e inscrito de 2 lados, para isso consideremos a Fig.1.11.

Fig.1.11. Relação entres as áreas An e an .

an hn 2

Os triângulos da Fig.1.11 são semelhantes, logo
An
= r
. Também temos

as seguintes relações

α = 2πn
π

hn = r cos 2n+1
.

Do que foi posto anteriormente, podemos escrever

an π

An
= cos2 2n+1
π

an = An cos2 2n+1
π
 
An − an = An 1 − cos2 2n+1
π

An − an = An sen2 2n+1
.

An é uma sequência limitada, ou seja, A < An < A1 . Assim, temos:

π π π
  
Asen2 2n+1 < .sen
2
2 n+1 An < A1 sen
2
2n+1

π π
 
Asen2 2n+1
2
< An − an < A1 sen 2n+1
30

π
Tomando um número n → ∞ a razão
2n+1
torna-se innitamente pequena,
π
2

então podemos supor que Asen 2n+1
é um número innitamente pequeno (tende a

zero), logo

A n = an .
Mostremos, agora, as seguintes armações:

i) As áreas dos polígonos inscritos e circunscritos tendem a um mesmo valor,


no caso em questão tendem a área A do círculo;

De fato, para o polígono inscrito temos


n
Tn = Aq (1 − q)n−1
P
an = APn = Tk e para todo número natural n ≥ 1.
k=1
Disto segue que
n
Aq (1 − q)k−1 = Aq
P
an = 1−1+q
=A para n → ∞.
k=1
E para os polígonos circunscrito
n
Tn = AP1 q (1 − q)n−1 .
P
An = APn = A + AP1 − Tk e Logo obtemos
k=1
n
AP1 q
AP1 q (1 − q)k−1 = A + AP1 −
P
A n = A + A P1 − 1−1+q
=A para n → ∞.
k=1
ii) O comprimento da circunferência de raio r vale 2πr.
De fato, dado que a área de um círculo de raio r é dada por πr2 , da Proposição
Cr Cr
3, esta mesma área vale
2
, desta forma podemos escrever
2
= πr2 , logo C = 2πr.
iii) O perímetro dos polígonos inscritos e circunscrito tendem ao comprimento
C da circunferência.

De fato, consideremos Pn o perímetro do polígono circunscrito e pn o perímetro


do polígono inscrito.

Para os polígonos inscritos temos

pn hn 2A π
 2
an = 2
= A ⇒ pn = hn
hn = r cos 2n+1
. Como e A = πr , obtemos

2πr π

pn = π
cos( n+1
. Para n → ∞ temos cos 2n+1 → 1 e pn = 2πr.
2
)
Para os polígonos circunscritos, temos

Pn r
An = 2
= A ⇒ Pn = 2πr para n→∞ .

Na seção seguinte abordaremos a quadratura da parábola feita por Arquime-

des. O método empregado por ele para encontrar a área do círculo foi utilizado, também,

para encontrar a área delimitada por um segmento de parábola (quadratura da parábola).

1
Discutiremos como Arquimedes demonstra que a série + 1 + 413 +. . .+ 4n−1
4 42
1
+. . .
4
converge para o valor sem utilizar o conceito de limite, utilizando-se do fato de que a
3
n
T T
+ 13 4n−1 4
P
soma vale T para todo n, evitando, assim, o incomodo da época em
4k−1 3
k=1
trabalhar com innito.
31

1.2.2 Quadratura da Parábola (Arquimedes)


-

Utilizando o mesmo método para o cálculo da área delimitada por uma cir-

cunferência, Arquimedes demonstra que a área sobre um segmento de parábola é igual a


4
da área de um triângulo inscrito nesse segmento, conforme Fig.1.12.
3

Fig.1.12. Área delimitada por um segmento de parábola.

Consideremos a sequência de áreas Tn+1,2n dos triângulos inscritos sobre o

segmento de parábola, onde o primeiro índice, n + 1, indica a etapa em que estamos ins-
n
crevendo o triângulo e o segundo índice, 2 , o número total de triângulos que inscrevemos

nesta etapa, conforme Fig.1.13.

Fig.1.13. Triângulos inscritos num segmento de parábola.

Proposição 4: Seja o ponto D onde a tangente à parábola é paralela a

BC , e T1,1 = T . Então a área do triângulo T2,2 = 18 T1,1 , e em geral, as

áreas acrescidas a cada lado do triângulo anterior satisfazem a relação

Tn+1,2n = 18 Tn,2n−1 [3].

Vamos admitir válida, sem demonstração, a Proposição 4.

D é o ponto onde a reta paralela ao


Seja a construção dada pela Fig.1.14, onde

lado BC tangencia a parábola, e C é o ponto de onde a reta paralela à base AB tangência

a parábola. Procedendo de forma análoga, a construção para os demais segmentos de


32

parábola que surgem, é possível mostrar que, a cada construção, os triângulos construídos

sobre cada lado do segmento de parábola têm a mesma área e são maiores que a metade

da área do segmento de parábola que resta.

Fig.1.14. Construção de triângulos inscritos num segmento de parábola.

Da relação Tn+1,2n = 81 Tn,2n−1 (Proposição 4), com T1,1 = T , obtemos

Tn,2n−1 1 6
Tn+1,2n = 8
= 8n
T , para todo número natural n≥0 .

Cada triângulo inscrito sobre o segmento de parábola dá origem ao dobro do

segmento de parábola anterior, uma vez que o número de lados do polígono inscrito dobra,

assim como o número de triângulos inscritos. Disto segue que a área An acrescentada é
2n 1
dada por An = n T = n T , n ≥ 0. Esta relação nos mostra que a cada etapa a área que
8 4
1 An−1
acrescentamos é da área anterior, ou seja, An = , com A0 = T , para todo n ≥ 1.
4 4
Então a área total acrescentada na etapa n é dada pela soma

n
A0 A0 A0 A0
P
An = A0 + 4
+ 42
+ ... + 4n−1
+ 4n
.
k=0

n−1
Proposição 5: Sejam dadas as sequências an = a1 q , com q 6= 0 e
n
P
a1 6= 0 e sn = ak a soma dos n primeiros termos dessa sequência. Se
k=1
q a1
adicionarmos a sn o termo a , então esta soma será igual a 1−q para
1−q n
todo número natural n.
De fato, a sequência an = a1 q n−1 é uma progressão geométrica de razão q 6= 0
e primeiro termo a1 6= 0. A soma sn pode ser escrita como:

a1 (q n −1)
sn = a1 + a1 q + a1 q 2 + . . . + a1 q n−1 = q−1
.

6O número de triângulos acrescentados na etapa n é o dobro do número de triângulos da etapa n − 1,


ou seja, nTn = 2nTn−1 = 2n .
33

n
Da igualdade anterior, obtemos sn = − a1−q
1q
+ a1
1−q
, que pode ser escrita como
q a1
sn + a
1−q n
= 1−q
, que prova a proposição.

A Proposição 5 nos diz que:

q q q a1
sn + a
1−q n
= sn−1 + a
1−q n−1
= . . . = s2 + a
1−q 2
= 1−q
.

Proposição 6: Seja dada a sequência de áreas An , tal que An−1 = 4An ,.


então a soma

An An
sn + 3
= A0 + A1 + A2 + . . . + An + 3
= 43 A0 .
1
De fato, basta aplicar a Proposição 5 para an = An e q= 4
.

Vamos mostrar que a porção da área delimitada por um segmento de parábola


4
é igual a da área de um triângulo inscrito nesse segmento. Mas antes mostremos que a
3
área de qualquer triângulo, cujo um dos vértices pertence a reta tangente ao segmento de

parábola paralela a base, tem área maior que a metade desse segmento.

Seja a Fig.1.15, os segmentos DE eAB são paralelos (por construção), assim

como os segmentos BE e AD são paralelos a CM , mediana do segmento AB .

Fig.1.15. Relação entre as áreas do segmento de parábola e do triângulo inscrito.

Os triângulos 4ADC e 4ACM da Fig.1.15 são congruentes, assim como os

triângulos 4BCE e 4BCM , logo a área do triângulo inscrito sobre o segmento de parábola

ACB é a metade da área do paralelogramo (ABED , que por sua vez é maior que a metade
da área do segmento de parábola aACB .
Escolhendo o segmento de parábola com base AC e outro com base BC
(Fig.1.5) e construindo um triângulo como feito anteriormente, chegamos a mesma con-

clusão, o que nos mostra que as áreas dos triângulos acrescentados são maiores que a

metade da área do segmento de parábola ao qual foi inscrito. De posse dessa observação,

demonstremos a seguinte proposição:


34

Proposição 7: A área delimitada por uma parábola e uma corda AB é

igual a quatro terço da área do triângulo, que tem a mesma base que o

segmento e a mesma altura. [3]

Fig.1.16. Razão entre as áreas do segmento de parábola e do triângulo.

Vamos considerar ASP a área sobre o segmento de parábola e A = 43 T , onde

T é área do triângulo inscrito no segmento em questão (Fig.1.16). Como cada triângulo,

construído de acordo com a Fig.1.14, tem área maior que a metade do segmento de

parábola ao qual está inscrito, temos que

A0 > 21 ASP
A2 > 21 (ASP − A0 − A1 )
A3 > 21 (ASP − A0 − A1 − A2 )
.
.
.

An > 21 (ASP − A0 − A1 − A3 − . . . − An−1 ).


 n−1

1
P
An > 2 ASP − Ak para todo n ≥ 0, com A0 = ASP q .
k=0
 n−1

1
P
Do resultado anterior, existe
2
< q < 1, tal que An = ASP − Ak q . Esta
k=0
relação pode ser escrita como An = q (1 − q)n ASP .
 n−1

P
De fato, dado que An = ASP − Ak q podemos escrever
k=0
n−1 n−2 n−2
An
P P An−1 P
q
= ASP − Ak = ASP − Ak − An−1 e
q
= ASP − Ak .
k=0 k=0 k=0

Das relações anteriores, obtemos:


 n−2

P
An = ASP − Ak − An−1 q
k=0
 
An−1
An = q
− An−1 q
An = An−1 (1 − q)
35

An = A0 (1 − q)n . Sendo assim, segue a armação.

Vamos supor que ASP > A. Considerando as grandezas ASP − A > 0 e ASP ,
pelo princípio de Arquimedes, existe um natural n, tal que ASP < n (ASP − A).
Agora retiramos de ASP a grandeza A0 , maior que sua metade, depois A1 ,
maior que a metade de ASP − A0 , e assim até a etapa n − 1, cando com a seguinte

expressão:
n−1
Ak = ASP (1 − q)n−1 , e dado que 1−q < 1
(1 − q)n−1 < 1
P
ASP − 2
, obtemos
2n
.
k=0
Desta desigualdade, concluímos que

n−1
n(ASP −A)
Ak = ASP (1 − q)n−1 < ASP
P
ASP − 2n
< 2n
< ASP − A.
k=0
n−1
Ak > A = 43 T .
P
Com isso, temos a seguinte relação Esta desigualdade é
k=0
n−1 n−1
4 An−1
ASP > 43 T .
P P
absurda, uma vez que
3
T = Ak + 3
> Ak . Logo não podemos ter
k=0 k=0

Vamos supor que A > ASP .


 n−1

1
P
Armamos que An > 2 A− Ak .
k=0
n−1
Ak = 43 T − 43 T 1 − 1 4 T
= 43 An .7
P 
De fato, A− 4n
= 3 4n
Desta igualdade segue
k=0
14
que An > A
23 n
= 23 An para todo n ≥ 0.
Assim sendo, podemos escrever a seguinte desigualdade (Proposição 1)

n−1
P
A− Ak < A − ASP
k=0
n−1
P
Ak > ASP .
k=0
n−1
P
A soma Ak é a área de um polígono de n−1 lados inscrito no segmento
k=0
n−1
P
de parábola, logo Ak < ASP . Sendo assim chegamos a um absurdo.
k=0

Como não podemos ter ASP < A e nem A > ASP , concluímos assim que
4
ASP = A = 3
T.
Exemplo 1.2: Um exemplo de uso do método de Arquimedes é o cálculo da
2 32
área sobre a parábola y 2 = x. Está área mede
3
x .
De fato, considere a Fig.1.17

n−1 n−1
7 T T T T
= 43 T 1 − 1
.
P P 
Ak = 4k
=T+ 4 + 42 + ... + 4n−1 4n
k=0 k=0
36

Fig.1.17. Área delimitada pela parábola y 2 = x.

8 4
A área sobre a parábola y2 = x é a metade de
3
(2T ).
√ √ 3
x x x3 x2
T = 2
= 2
= 2
1 4 32 3
A= 23
x = 32 x 2 .

Neste primeiro capítulo tivemos a oportunidade de discutir sobre os primeiros

conceitos do cálculo. Na primeira parte notamos a necessidade de se denir a convergência

de séries e sequências. Esta foi a principal diculdade encontrada pelos matemáticos do

século V a.C. Lidar com somas innitas de termos positivos, intuitivamente nesta época,

levava a uma conclusão errônea sobre o valor que essa soma poderia atingir, como pudemos

ver nos paradoxos da dicotomia e de Aquiles e a tartaruga de Zeno.

Na segunda parte, abordamos o conceito de integral pelo método da exaustão

de Eudoxo. Arquimedes conseguiu se esquivar totalmente da necessidade de se trabalhar

com somas innitas, apenas com o uso do axioma mencionado. Também, conseguiu

encontrar o valor de uma série sem a necessidade de tomar a passagem ao limite. Pudemos

notar que o método empregado por ele é aplicado em um número nito de passos. Esta

primeira abordagem do cálculo integral será retomada no capítulo que segue, mas com

uma nova abordagem.

8 Esta
´x √
área, futuramente, poderá ser calculada pela integral 0
a tdt, [0, x].
37

Capítulo 2

Cálculo diferencial e integral: Fermat

No capítulo anterior tivemos a oportunidade de ver os primeiros conceitos do

cálculo integral através do método da exaustão, utilizado por Arquimedes, para o cálculo

da área delimitada por uma circunferência (quadratura do círculo) e o cálculo da área

delimitada por um segmento de parábola (quadratura da parábola), sem a necessidade de

trabalharmos com o conceito de limite. Retomamos estes cálculos neste capítulo através

dos conceitos do cálculo diferencial e integral desenvolvidos por Pierre de Fermat (1601 -

1665). Veremos que Fermat, intuitivamente, dene as bases teóricas do cálculo diferencial

e integral através dos problemas de encontrar máximos e mínimos, a reta tangente a uma

curva, primeiros conceitos do cálculo de derivadas, e, novamente, retoma à quadratura da

parábola, em particular das parábolas de Fermat da forma y = xn , uma generalização do

método de Arquimedes para quadratura da parábola, e a quadratura das curvas y = ax−n


para todo racional n 6= 1. Estes métodos são a base para o desenvolvimento da teoria do

cálculo conforme proposto, independentemente, por Newton e Leibniz no nal do século

XVII e meados do século XVIII.

Utilizaremos as denições dadas no primeiro capítulo, assim como as seguintes


P
propriedades do somatório e a fatoração de binômios.

n
P
ak = a1 + a2 + a3 + . . . + ak−1 + ak ;
k=1
n
P n
P
αak = α ak , α 6= 0 número real qualquer;
k=1 k=1
n
P n
P n
P
(ak ± bk ) = ak ± bk ;
k=1 k=1 k=1
n
P n
P n
P
(ak+1 − ak ) = ak+1 − ak = an+1 − a1 ;
k=1 k=1 k=1
n P
P m n
P m
P m P
P n
(ak bj ) = ak bj = (bj ak )
k=1j=1 k=1 j=1 j=1k=1

Para a diferença an − b n , utilizaremos a forma simplicada


38

n
an − bn = (a − b) an−1−k bk .
P
k=0

Admitimos, também, que dada uma progressão geométrica xn = xq n−1 e de

primeiro termo diferente de zero e razão 0 < q < 1, então a soma de todos os termos xn
para n→∞ innitamente grande vale

n  
k−1 1
P
Sn = x q =x 1−q
.
k=1

Utilizaremos, também, as seguintes notações para quadratura, com signicado

numérico de área delimitada por uma curva, e a tangente a uma curva y = f (x):

QAxa (y) = QAxa [f (x)] - quadratura de y = f (x) no

intervalo [a; x];

TAx (y) = TAx [f (x)] - tangente em x;

2.1 O cálculo diferencial de Fermat


-

Podemos dizer que o cálculo diferencial teve sua origem com o matemático

francês Pierre de Fermat, quando desenvolveu seu método para encontrar máximos e

mínimos e o cálculo da tangente a uma curva. Este método deu origem ao que chamamos

hoje de derivada, culminando, assim, no que conhecemos por cálculo diferencial.

Discutiremos o método de Fermat para encontrar máximos e mínimos, e em

seguida, o método da tangente de Fermat nesta primeira parte deste capítulo.

2.1.1 Máximos e mínimos de uma curva


Consideremos a Fig.2.1 que segue.

Fig.2.1. Máximos e mínimos, método de Fermat.


39

A Fig.2.1 nos mostra que, nas proximidades dos pontos onde a curva atinge

um valor máximo ou valor mínimo, a diferença f (x + E) − f (x) é innitamente pequena,


ou quase nula para E innitamente pequeno, ou seja, f (x + E) − f (x) ∼
= 0.
Ao observamos os pontos próximos do valor máximo vericamos que a di-

ferença f (x + E) − f (x) ≤ 0, enquanto nos pontos próximos do valor mínimo temos


f (x + E) − f (x) ≥ 0. Disso segue que um dado ponto (x, y) de uma curva na forma
y = f (x) é ponto de máximo, ou de mínimo, se para um E innitamente pequeno,
tivermos, respectivamente:

f (x + E) ≤ f (x),
f (x + E) ≥ f (x).

Para encontrar os valores de máximos ou de mínimos de uma curva na forma

y = f (x), Fermat toma pontos próximos de um ponto x e depois, considerando o quociente


f (x+E)−f (x)
, admitia E = 0, encontrando o ponto x que maximiza ou minimiza a curva.
E

Exemplo 2.1: Mostremos que dos retângulos de perímetro xo p, o que tem

maior área é o quadrado.

De fato, considerando x > 0 e y > 0 os lados do retângulo, dado p = 2 (x + y),


p
então x= 2
− y. A área desse retângulo é dada por

0 < x < p
p 2
− x = −x2 + p2 x, para

A = xy = x 2
.
0 < y < p
2

Consideremos um valor E 6= 0 innitamente pequeno tal que x+E esteja em


p
 
0, 2
, então podemos calcular o valor da área nesse ponto, como segue

A (x + E) = − (x + E)2 + p2 (x + E)
A (x + E) = −x2 − 2xE − E 2 + p2 x + p2 E
p
A (x + E) = −x2 + x − 2xE − E 2 + p2 E
| {z 2 }
A(x)

A (x + E) − A (x) = −2xE − E 2 + p2 E .
Nos pontos onde o valor da área é máximo teremos que A (x + E) − A (x) ∼
= 0,
logo podemos admitir que

−2xE − E 2 + p2 E ∼
= 0. Dividindo toda essa expressão por E 6= 0, obtemos:

−2x − E + p ∼
= 0, ou seja, 2x ∼
= −E + p
.
2 2
p
Em m, admitimos que E é innitamente pequeno, obtemos x= 4
.

p p p p p
Dado que y= 2
−x= 2
− 4 4
= 4
, segue que
. Com isso concluímos x=y=
p
que o retângulo de maior área e perímetro xo é um quadrado de lados .
4
40

Exemplo 2.2: Uma das aplicações do método de Fermat para encontrar máxi-

mos ou mínimos é no problema da trajetória da luz. Para ele a trajetória percorrida por

um feixe de luz, partindo de um ponto A passando por um ponto B, é mínima. Este é

conhecido como princípio do tempo mínimo de Fermat:

A trajetória seguida pela luz viajando de um ponto

a outro é tal que o tempo de viagem é mínimo. Isto

é, a luz percorre a trajetória mais rápida.

Vamos deduzir a chamada lei de Snell, utilizando o método de Fermat para

minimizar o tempo de trajetória de um raio de luz partindo deA até B.


Consideremos a Fig.2.2. Um raio de luz parte de uma fonte luminosa no ponto

A no meio 1 com velocidade v1 , ao passar para o meio 2 sua velocidade passa a ser v2 < v1 ,
atingindo o ponto B neste meio.

Fig.2.2. Lei de Snell - Princípio de Fermat.

Da geometria da Fig.2.2 temos


q
D2 = (d − x)2 + h22
p
D1 = h21 + x2 e

D1
v1 = v2 = Dt22
t1
e
√ 2 2 √
h +x (d−x)2 +h22
t = t1 + t2 = v11 + v2
(tempo total)

(d−x)
sen(α) =√ x
e sen(β) =√ .
h21 +x2 (d−x)2 +h2 2

Como vemos o tempo t que a luz leva para ir de A a B depende somente de



x. Fazendo t (x + E) − t (x) = 0, onde E 6= 0 innitamente pequeno, obtemos
√ 2 √ √ √ 
h1 +(x+E)2 (d−x−E)2 +h22 h21 +x2 (d−x)2 +h22 ∼
v1
+ v2
− v1
+ v2 =0
√ √  √ √ 
h21 +(x+E)2 − h21 +x2 (d−x−E)2 +h22 − (d−x)2 +h22 ∼
v1
+ v1 =0
   
E √ 2 2x+E √
+ E √ −2(d−x)+E
√ ∼
= 0.
v1 h1 +(x+E)2 + h21 +x2 v2 (d−x−E)2 +h2 2 + (d−x)2 +h2 2
41

1 √ x
− 1 √ (d−x) ∼
= 0,
v1 h21 +x2 v2 (d−x)2 +h2 2

1 √ x ∼
= 1 √ (d−x)
.
v1 h21 +x2 v2 (d−x)2 +h2 2

sen(α)∼
1
v1 = v12 sen(β).
A velocidade da luz depende do meio em que ela se propaga. Esta propriedade

dependo do índice de refração do meio. Quanto maior o índice n de refração, menor é a


c
velocidade da luz, ou seja v= n
, onde c é a velocidade da luz no vácuo. Logo concluímos

que

sen(α)∼
1
v1 = v12 sen(β)
sen(α)∼
n1
c = nc2 sen(β)
n1 sen(α)∼
=n2 sen(β).
Exemplo 2.3: Suponhamos que a temperatura T em graus Celsius ao longo de
um dia, após a meia-noite, seja T (t) = 40 − 4t + 0, 1t2 , 0 ≤ t ≤ 24h, qual a temperatura
mínima atingida neste dia.

Antes de resolvermos o problema, observemos que

T (t) = 0, 1 (400 − 40t + t2 ) = 0, 1 (20 − t)2 .


Utilizando o método de Fermat, obtemos:

T (t + E) = 0, 1 (20 − t − E)2
T (t + E) − T (t) = 0, 1 (20 − t − E)2 − 0, 1 (20 − t)2
T (t + E) − T (t) = −0, 1 (40 − 2t − E) E
T (t+E)−T (t)
E
= −0, 1 (40 − 2t − E)
Igualando a zero, obtemos

40 − 2t − E = 0
2t = 40, que tem como solução t = 20h.
Então, a temperatura será mínima às 20h, e terá o valor de

T (20) = 40 − 4 × 20 + 0, 1 × 202 = 0.o C .

2.1.2 O método da tangente de Fermat


-

Na seção anterior, discutimos como Fermat encontrava máximos e mínimos

de uma curva. Utilizaremos estes argumentos para encontrar a tangente a uma curva

em x, designada por TFx [f (x)]. Começaremos com o cálculo da tangente à parábola


y 2 = x, em seguida calcularemos a tangente às parábolas superiores, y = axn e a tangente
42

às hipérboles superiores, y = ax−n . Por m faremos uma generalização do método de

Fermat para curvas dadas por y = f (x) e aplicações.

Antes de começarmos vamos conhecer o método da tangente de Fermat.

Consideremos uma curva dada por y = f (x), conforme Fig.2.3.

Fig.2.3. Método da tangente de Fermat.

Fermat, para calcular a tangente AC , procede da seguinte forma:

Considera o ponto O (x0 + e, f (x0 + e)), para e innitamente pequeno, de tal

forma que o ponto O esteja innitamente próximo do ponto de tangência C. A partir

de então calcula a subtangente d, projeção da hipotenusa AC sobre o cateto AD do

triângulo retângulo 4ADC , encontrando o ponto (x0 − d, 0). Encontrando a subtangente


f (x0 )
d, a tangente AC é calculada pela relação
d
.

Vamos mostrar primeiro como Fermat calcula d para as parábolas e hipérboles,


e em seguida a generalização deste método para uma curva dada por y = f (x).

2.1.3 Tangente às parábolas e às hipérboles


-

Vamos começar esta seção mostrando como Fermat calcula a tangente à pa-

rábola y 2 = x. Em seguida iremos generalizar este método às parábolas e às hipérboles

superiores para um número racional n. Faremos uma generalização deste método para

curvas dadas por y = f (x), o que nos propiciará realizar o cálculo da tangente implícita
à curva F (x, y) = 0. Discutiremos as propriedades do método da tangente de Fermat,
e terminaremos aplicando este método à aproximações de curvas por séries de potências,

em particular a aproximação da curva cos (x).


Para encontrar a tangente à parábola y 2 = x, Fermat antes encontra a sub-

tangente d, projeção ortogonal da hipotenusa TE sobre o cateto TF, conforme Fig.2.4,

encontrando o ponto T (x0 − d, 0) de interseção da reta tangente com o eixo x. E para

encontrar o coeciente angular (ou inclinação) da reta tangente basta utilizar a relação
y0 −0 y0
x0 −(x0 −d)
= d
.
43

e innitamente pequeno e o ponto O (x0 + e, y1 )


Consideremos a Fig.2.4, dados
←→
da parábola, bem próximo de E (x0 , y0 ). Sejam T E a reta tangente à parábola no ponto

E , T (x, 0) um ponto sobre o eixo x e d = x0 − x a subtangente.

Fig.2.4. Tangente à parábola y 2 = x.

Da geometria da Fig.2.4 obtemos F E = y0 , BO = y1 e BC > BO.


Os triângulos 4ABC e 4AEF são semelhantes, disto segue que

BC d+e d+e
.

y0
= d
, logo
d
BC = y0 Também temos BC > BO = y1 , e sendo os
2
pontos E e O pertencentes à parábola y = x, podemos escrever as seguintes relações
 
y12 x0 +e x0 +e
y02 = x0 e y12 = (x0 + e), que nos leva a
y02
= x0
⇒ y12 = y02 x0
. Da

desigualdade BC > BO = y1 , camos com

2
BC > y12
2  
2 x0 +e
y02 d+e
d
> y0 x0
 2   
d +2de+e2 x+e
d2
> x0

x0 d2 + 2x0 de + x0 e2 > x0 d2 + d2 e
2x0 de + x0 e2 > d2 e (dividindo por de)
x0 x0
d < 2x0 + d
e. O valor máximo se dá quando d = 2x0 + d
e, tomando e
1
innitamente pequeno, obtemos d = 2x0 , disto segue que x = −x0 .
Da Fig.2.4, temos que a reta r : .y − y0 = m (x − x0 ), tangente à parábola

y 2 = x, com y > 0, passa pelos pontos T (−x0 , 0) e E (x0 , y0 ). O coeciente m de

inclinação da reta vale:



y0 x0
m= = = √1 , que é a tangente procurada.
d 2x0 2 x0

O método aplicado por Fermat para o cálculo da tangente à parábola y2 = x


pode ser generalizado para encontrar a tangente às parábolas superiores y = axn e às
hipérboles superiores y = ax−n , com a 6= 0 e n racional.

1 Para chegar a este resultado Fermat admite e = 0 na igualdade d = 2x0 + d e.


x0
44

Mostremos, apenas, para o caso das hipérboles superiores y = ax−n que a


−n−1
tangente (ou a inclinação da reta) é dada por −nax .

De fato, consideremos a Fig.2.5.

Fig.2.5. Tangente à curva y = ax−n .

Da geometria da Fig.2.5 obtemos:

BO = a (x − e)−n , CE = ax−n , AB = d + e e AC = d.
Os triângulos 4ABD e 4ACE são semelhantes, logo temos:

BD AB AB
BD = ax−n d+e

CE
= AC
⇒ BD = CE · AC
. Desta igualdade obtemos
d
.

BD < BO = a (x − e)−n , ax−n d+e < a (x − e)−n .



Como concluímos que
d
Assim sendo, obtemos a seguinte desigualdade:

1 d+e 1
xn d
< (x−e)n

(x − e)n d + e (x − e)n < xn d


[(x − e)n − xn ] d < −e (x − e)n
−e(x−e)n
d< (x−e)n −xn
n
d< n−1 −ex 
(x−e)n−1−k xk
P
−e
k=0

xn
d< n−1 . Desta desigualdade, concluímos que o valor máximo ocorre
(x−e)n−1−k xk
P
k=0
xn
quando d= n−1 . E admitindo e innitamente pequeno, obtemos
(x−e)n−1−k xk
P
k=0

xn
d= n−1
xn−1
P
k=0

xn x
d= nxn−1
= n
.

A reta tangente à hipérbole passa pelos pontos A (x + d, 0) e E (x, ax−n ) , o

coeciente m de inclinação da reta é dado por:

ax−n −0 ax−n −n
m= x−(x+d)
= −d
= − naxx = −nax−n−1 .
45

Para as parábolas superiores y = axn , de forma análoga, encontramos a tan-


n−1
gente dada por nax para todo número racional n.
1
Exemplo 2.4: Utilizando a relação anterior com n = 2
, n = 0 e n = −1,
encontramos, respectivamente
 1
 1 1
TFx ax 2 = 21 ax 2 −1 = 12 ax− 2 = a

2 x
;

TFx (ax0 ) = 0 · ax0−1 = 0 (tangente da curva constante é igual a zero).

TFx (ax−1 ) = −1 · ax−1−1 = −ax−2 .


y0
Exemplo 2.5: Calculemos a equação da reta r : .y − y0 = d
(x − x0 ), tangente
−4
à hipérbole de equação f (x) = 3x no ponto (1, 3).
Tomando a = 3, n = −4, x0 = 1 e y0 = f (1) = 3, obtemos:

TFx=1 (3x−4 ) = −12


y − 3 = −12 (x − 1)
y + 12x − 15 = 0.
Podemos generalizar o método da tangente de Fermat para as curvas dadas

por y = f (x), como veremos na seção que segue.

2.1.4 Generalização do método da tangente


-

Em geral, dada uma curva na forma y = f (x), a reta r : .y − y0 = m (x − x0 ),


tangente à curva no ponto (x0 , y), passando por A = (x0 ± d, 0), tem inclinação dada por
f (x0 +e)−f (x0 )
e
para e innitamente pequeno.

De fato, consideremos a Fig.2.6.

Fig.2.6. Generalização do método da tangente de Fermat.

Admitindo e innitamente pequeno, e considerando

d = AD = x0 −x, CD = y0 = f (x0 ), AB = d+e, BO = f (x0 + e) e BE = y1 .


46

Da geometria da Fig.2.6, os triângulos 4ABE e 4ADC são semelhantes, logo

podemos escrever

BE d+e
f (x)
= d
d+e

BE = f (x0 ) d
.

Como BE < BO = f (x0 + e), da igualdade anterior, obtemos

f (x0 ) d+e

d
< f (x0 + e)
f (x0 ) d + ef (x0 ) < f (x0 + e) d
d [f (x0 + e) − f (x0 )] > f (x0 ) e
f (x0 )
d> f (x0 +e)−f (x0 )
e.
e
O valor mínimo ocorre quando d = f (x0 +e)−f (x0 )
f (x0 ) para e innitamente

pequeno.

A reta r passa pelos pontos A = (x0 − d, 0) e D = (x0 , f (x0 )). O coeciente

de inclinação de r é dado por

yD −yA f (x0 )−0 f (x0 )


m= xD −xA
= x0 −(x0 −d)
= d
.

Concluímos que a tangente à curva y = f (x), no ponto (x0 , y0 ), tem equação

f (x0 +e)−f (x0 )


y − y0 = e
(x − x0 ).

Denotaremos o coeciente de inclinação da reta r, tangente à curva, por


f (x0 +e)−f (x0 )
TFx0 [f (x0 )] = e
(tangente de Fermat).

Movendo o ponto A sobre o eixo x (Fig.2.6), a reta r passa a ser a reta secante

à curva passando pelo ponto C (x0 , y0 ).

Tomando um ponto (x, y) qualquer da curva y = f (x), a tangente é dada por


f (x+e)−f (x)
TFx [f (x)] = e
.

2.1.5 O cálculo da tangente implícita


-
f (x+e)−f (x)
A partir de agora utilizaremos a relação TFx [f (x)] = e
para deno-

tarmos tangente ou coeciente angular (inclinação) da reta tangente à curva no ponto

(x, y).
Uma vantagem da relação anterior é que ela, também, pode ser aplicada às

curvas escritas na forma F (x, y) = 0, com y = f (x), para encontrar o coeciente angular
e a equação da reta tangente à curva y − f (x) = 0 no ponto (x, y). Para encontrarmos
essa tangente fazemos
47

F (x+e,f (x+e))−F (x,y)


e
= 0, com y = f (x).

Exemplo 2.6: Vamos aplicar o método para encontrar a tangente à elipse e à


x2 y2
circunferência de equações F (x, y) = a2
+ b2
−1=0 e F (x, y) = x2 + y 2 − 1 = 0.
y − y0 = m (x − x0 ), tangente à elipse
Primeiramente, consideremos a reta
x2 y2
a2
+ b2
= 1, com a > b, no ponto C (x, y) e seja y = f (x). Tomemos um ponto
O (x + e, f (x + e)) bem próximo do ponto de tangência C , conforme Fig.2.7. A tangente
b2 x
à elipse é dada por TF [F (x, y)] = − 2 .
a y

De fato, seja a Fig.2.7.

Fig.2.7. Tangente à elipse.

x2 y2
Dado que F (x, y) = a2
+ b2
− 1 = 0, temos para o ponto O (x + e, f (x + e))
a igualdade

F (x+e,f (x+e))−F (x,f (x))


e
=0
x2 +2ex+e2 f (x+e)2 2 f (x)2
+ − x2 − 2
a2 b2
e
a b
=0
2ex+e2 f (x+e)2 f (x)2
+ − 2
a2 b2
e
b
=0
2ex+e2 [f (x+e)−f (x)][f (x+e)+f (x)]
ea2
+ eb2
=0
[f (x+e)−f (x)][f (x+e)+f (x)]
eb2
= − 2x+e
a2
f (x+e)−f (x) 2
e
= − ab 2 f (x+e)+f
2x+e
(x)
.

f (x+e)−f (x) 2
Admitindo e innitamente pequeno, obtemos
e
= − ab 2 xy . Disto segue

o resultado.

Particularmente, tomando a = b, temos


2
x2
F (x, y) = a2
+ ay2 −1 = 0 ⇒ x2 +y 2 −a2 = 0, que é a equação da circunferência
de raio a.
f (x+e)−f (x)
A tangente à circunferência no ponto (x, y) é dada por
e
= − xy
Tomando um ponto genérico (x0 , y0 ) da circunferência, obtemos a equação da

reta tangente y − y0 = − xy00 (x − x0 ).


48

Exemplo 2.7: A equação da reta tangente à circunferência x2 + y 2 = R 2 , no

ponto (x0 , f (x0


)), é dada por uma das formas abaixo
p
y + R2 − x20 = − √ x20 2 (x − x0 ) , y0 < 0

R −x0
r:. p .
y − R2 − x0 = − √ x20 2 (x − x0 ) , y > 0
 2
R −x0

De fato, escrevendo a circunferência na forma y = f (x) = ± R2 − x2 .
p
Para y0 = f (x0 ), obtemos y0 = f (x0 ) = ± R2 − x20 . Disto segue o resultado.
√ √ 
Em particular, para a circunferência x2 + y 2 = 3 e o ponto 2, f 2 ,
obtemos:

y + 1 = −√2 x − √2 , y = −1

q √ 2
y0 = ± 3 − 2 = ±1, então r:. .
y − 1 = −√2 x − √2 , y = +1

Exemplo 2.8: O método de Fermat, para encontrar a tangente a uma curva,

foi duramente criticado pelo matemático francês René Descartes (1596 - 1650), que lhe

propôs encontrar a tangente à curva (folium d e Descartes) x3 + y 3 − nxy = 0, para

n > 0. Para encontrar a tangente a esta curva, Fermat a tratou como um curva da forma
F (x, y) = 0, encontrando sua subtangente (projeção da hipotenusa do triângulo retângulo
nx−y 2 d+e

sobre o cateto) d = y 2 para o ponto x + e, y . De posse da subtangente, podemos
x −ny d
f (x+e)−f (x) y x2 −ny
encontrar a tangente fazendo
e
= d = nx−y2 .

2.1.6 Propriedades da tangente


-

Antes de vermos algumas propriedades do método da tangente de Fermat,

denamos a tangente de Fermat de ordem n.


A tangente n−ésima (n número natural) de Fermat em x é dada por:

TFnx [f (x)] = TFx ◦ TFx ◦ TFx . . . ◦ TFx [f (x)]


TF0x [f (x)] = f (x).
Exemplo 2.9: A tangente de ordem dois de y = x2 e a tangente de ordem
4
quatro de y=x são dadas por, respectivamente

TF2x (x2 ) = TFx [TFx (x2 )] = TFx [2x] = 2;


TF4x (x4 ) = TFx ◦ TFx ◦ TFx ◦ TFx (x4 ) = 4!.
Propriedades:

i) A tangente n−ésima de axn é dada por:

TFnx (axn ) = n!a para todo número natural n.


De fato, pelo princípio de indução nita, para n = 1, temos
49

TFx (ax) = a = 1!a.X


Suponhamos que para algum n temos TFnx (axn ) = n!a.
Vamos mostrar que vale para n + 1.
TFn+1
x
(axn+1 ) = TFnx [T (axn+1 )]
TFn+1
x
(axn ) = TFnx [(n + 1) axn ]
TFn+1
x
(axn ) = (n + 1) TFnx [axn ]
| {z }
n!

TFn+1
x
(axn ) = (n + 1) n!a = (n + 1)!a.
ii) TFn+1
x
[(axn )] = 0.
De fato, dado que TFnx [(axn )] = n!a, temos
TFn+1 n
 n n

x
[(ax )] = TFx T F x
[(ax )] = TFx [n!a]
f (x+e)−f (x)
TFn+1
x
[(axn )] = e
= n!a−n!a
e
= 0.
Exemplo 2.10: Como exemplos, mencionamos

TF9x (x9 ) = 9! e TF10x (x9 ) = 0.


iii) Linearidade em relação à multiplicação por constante real e em relação à

soma de curvas:

a) TFx [αf (x)] = αTFx [f (x)] ;

b) TFx [f1 (x) + f2 (x)] = TFx [f1 (x)] + TFx [f1 (x)] .

Vamos demonstrar o item (b), o item (a) é imediato.

Façamos f (x) = f1 (x) + f2 (x), assim sendo a tangente é dada por

f (x+e)−f (x) f1 (x+e)+f2 (x+e)−f1 (x)−f2 (x)


e
= e
f (x+e)−f (x) f1 (x+e)−f1 (x)+f2 (x+e)−f2 (x)
e
= e
f (x+e)−f (x) f1 (x+e)−f1 (x) f2 (x+e)−f2 (x)
e
= e
+ e

TFx [f (x)] = TFx [f1 (x)] + TFx [f2 (x)].


Exemplo 2.11: A tangente à curva f (x) = −x−3 + x7 é dada por

TFx [f (x)] = TFx (−x−3 + x7 )


TFx [f (x)] = TFx (−x−3 ) + TFx (x7 )
TFx [f (x)] = 3x−4 + 7x6 .
v) Regra da cadeia:

Seja dada a curva h (x) = f [y], onde y = g (x). A tangente a esta curva em x
é dada por:
50

TFx [f ◦ g (x)] = TFy {f (y)} TFx [g (x)]


De fato, sejam ex e ey = g (x + ex ) − g (x) innitamente pequenos, escrevendo

h(x+ex )−h(x)
TFx [h (x)] = ex
f [g(x+ex )]−f [g(x)] g(x+ex )−g(x)
TFx [f ◦ g (x)] = g(x+ex )−g(x) ex
f [g(x+ex )]−f [g(x)] f (x+ex )−f (x)
TFx [f ◦ g (x)] = ey ex

TFx [f ◦ g (x)] = TFy {f ◦ g (x)} TFx [g (x)]


TFx [f ◦ g (x)] = TFy [f (y)] TFx [g (x)]
n
Exemplo 2.12: A tangente à curva f (x) = (x2 − x) é calculada escrevendo

f ◦g (x) = y n , onde y = g (x) = x2 −x, e depois aplicando a propriedade anterior, obtemos


TFx [f (y)] = TFy (y n ) TFx (x2 − x)
TFx [f (y)] = ny n−1 (2x − 1)
n−1
TFx [f ◦ g (x)] = n (x2 − x) (2x − 1).
Exemplo 2.13: Agora, seja a curva f (x) = cos (x2 ).
Escrevendo esta curva como f (y) = cos (y), onde y = x2 , encontramos

TFx [cos (x2 )] =−2xsen(x2 ).


De fato, admitindo que a tangente da curva cos(x) é a curva −sen(x) (será

mostrado no Exemplo 2.17), obtemos

TFx [cos (y)] = TFy [cos (y)] TFx [x2 ],


TFx [cos (y)] = −2xsen(y) = −2xsen(x2 ).
iv) Tangente do produto e do quociente de curvas.

a)TFx [f1 (x) f2 (x)] = f2 (x) TFx [f1 (x)] + f1 (x) TFx [f2 (x)];
De fato, consideremos a curva dada por f (x) = f1 (x) f2 (x).
f (x+e)−f (x)
Da relação TFx [f (x)] = e
, obtemos

f1 (x+e)f2 (x+e)−f1 (x)f2 (x)


TFx [f1 (x) f2 (x)] = e
. Somando e subtraindo f1 (x + e) f2 (x)
nesta igualdade, temos

f1 (x+e)f2 (x+e)−f1 (x)f2 (x)+f1 (x+e)f2 (x)−f1 (x+e)f2 (x)


TFx [f1 (x) f2 (x)] = e
f1 (x+e)[f2 (x+e)−f2 (x)]+f2 (x)[f1 (x+e)−f1 (x)]
TFx [f1 (x) f2 (x)] = e

TFx [f1 (x) f2 (x)] = f1 (x + e) f2 (x+e)−f


e
2 (x)
+ f2 (x) f1 (x+e)−f
e
1 (x)

TFx [f1 (x) f2 (x)] = f1 (x) TFx [f2 (x)] + f2 (x) TFx [f1 (x)] (admitimo e=0 na

igualdade anterior).
h i
f1 (x) f2 (x)TFx [f1 (x)]−f1 (x)TFx [f2 (x)]
b) TFx f2 (x)
= [f2 (x)]2
, f2 (x) 6= 0 em x.
51

f1 (x)
Podemos escrever f (x) = f2 (x)
, disto segue que f (x) f2 (x) = f1 (x).
Por (a), obtemos

TFx [f (x) f2 (x)] = f (x) TFx [f2 (x)] + f2 (x) TFx [f (x)]
h i
f1 (x) f1 (x)
TFx [f1 (x)] = f2 (x) TFx [f2 (x)] + f2 (x) TFx f2 (x)
h i
2 f1 (x)
[f2 (x)] TFx f2 (x) = f2 (x) TFx [f1 (x)] − f1 (x) TFx [f2 (x)]
h i
f1 (x) f (x)T [f (x)]−f (x)T [f (x)]
TFx f2 (x) = 2 Fx 1 [f (x)]12 Fx 2
2

Exemplo 2.14: Calculemos a tangente de f (x) = x2 cos (x).


TFx [x2 cos (x)] = x2 TFx [cos (x)] + cos (x) TFx [x2 ]
TFx [x2 cos (x)] = −x2 sen(x) + 2x cos (x).
x2
Exemplo 2.15: Seja a curva a h (x) = x−1
, a tangente a esta curva em x é dada
por

(x−1)TFx (x2 )−x2 TFx (x−1)


 
x2
TFx x−1
= (x−1)2
 
x2 2x(x−1)−x2 x2 −2x
TFx x−1
= (x−1)2
= (x−1)2
.

2.1.7 Representação de uma curva por série de potência


-

As propriedades anteriores nos proporcionam encontrar a tangente a uma curva


n
ak xk . Esta curva é representada por um polinômio de grau n. A
P
na forma pn (x) =
k=0
tangente em x é dada por
n
kak xk−1
P
TFx [pn (x)] =
k=0

De fato, por indução sobre n, obtemos


 n
 n 
ak x k ak TFx xk
P P
TFx = (linearidade)
k=0 k=0
 n
 n
k

kak xk−1 , TFx xk = kxk−1 .
P P
TFx ak x = pois
k=0 k=0

Exemplo 2.16: Consideremos a curva p4 (x) = 1 − 3x2 + 5x3 − 7x4 , a tangente

TFx [p4 (x)] é calculada como segue

TFx [p4 (x)] = TFx (1) − 3TFx (x2 ) + 5TFx (x3 ) − 7TFx (x4 )
TFx [p4 (x)] = x − 3x3 + 5x4 − 7x5 .
Vamos supor que uma curva y = f (x) possa ser aproximada pelo polinômio
n
k
P
pn (x) = ak x de grau n, tal que as tangentes de ordem m em x=0 existam e sejam
k=0
m
iguais, ou seja TF [f (x)]
x
= TFmx [pn (x)], para 0 ≤ m ≤ n.
52

Da hipótese anterior e da linearidade da tangente de Fermat, temos


n
TF0x [f (0)] = f (0) ∼

ak 0k = a0
P
= a0 +
k=1
n 
k ak 0k−1 = a1
P
TFx [f (0)] = a1 +
k=2
n
TF2x [f (0)] ∼

k (k − 1) ak 0k−2 = 2!a2
P
= 2a2 +
k=3
n
TF3x [f (0)] ∼

k (k − 1) (k − 2) ak 0k−3 = 3!a3
P
= 6a2 +
k=4
.
.
.
n
TFnx [f (0)] ∼

k (k − 1) (k − 2) . . . (k − n) ak 0k−n = n!an .
P
= n!an +
k=n

Do que foi posto, os coecientes de pn (x) e a aproximação f (x) ∼


= pn (x) são

dados por

TFn [f (0)]
an = x=0
n!
n Tk [f (0)] k
f (x) ∼ F
P
= x=0
k!
x .
k=0

P TFk [f (0)] k
Este método pode ser estendido a série de potências x , desde
x=0
k!
k=0
que a série convirja no intervalo −r < x < r, onde r > 0 é o raio de convergência da série.

Este argumento nos propicia encontrar a tangente às curvas representadas

por uma série de potência, assim como a área (quadratura) delimitada por esta curva,

aplicando a linearidade do método da tangente e da quadratura de Fermat, este último

ainda a ser discutido neste capítulo.

Veremos, no capítulo seguinte, que Newton trabalha com aproximações de

curvas por séries de potências. Ele foi o primeiro a supor que uma curva dada por

ak xk . Por
P
y = f (x) poderia ser aproximada por uma série de potência da forma
1
√ k=0
exemplo, ele mostra que [5] as curvas y = 2 e y = a 2 + x2 podem ser representadas,
x +1
respectivamente, pelas séries de potências

1
= 1 − x2 + x4 − x6 + x8 − x10 + . . . = (−1)k x2k ;
P
1+x2
k=0
√ x2 x4 x6 5x8 7x10
a2 + x 2 = a + 2a
− 8a3
+ 16a5
− 128a7
+ 256a9
− . . ..
Exemplo 2.17: Mostremos que a curva f (x) = cos (x) pode ser representada

P (−1)n 2n
pela série de potência f (x) = x .
2n!
k=0

Vamos utilizar a seguinte identidade trigonométrica para encontrar a tangente

à curva cos (x) e depois encontrar sua representação por uma série de potência:

cos (a) − cos (b) = −2sen( a+b


2
)sen( a−b
2
).
53

Também utilizaremos as seguintes aproximações para um ângulo α innita-

mente pequeno:

sen(α) ∼

cos (α) ∼
= 1.
Geometricamente, podemos, de forma intuitiva, observar a validade destas

aproximações.

De fato, consideremos a Fig.2.8.

Fig.2.8. Aproximação de sen(α) e cos (α) para α innitamente pequeno.

Da geometria da Fig.2.8 temos que

π
0≤α< 2
 _ 
sen(α) = BC < AB < arco AB = α (AB hipotenusa do triângulo 4ABC ).
_
Fazendo o ponto B se aproximar innitamente do ponto A, o arco AB = α
torna-se innitamente pequeno e

sen(α) ∼
= α;
cos (α) ∼
= 1.
Considerando as observações anteriores, calculemos a tangente de ordem n da

curva cos (x).


Começamos por n = 1.
cos(x+e)−cos(x)
TFx [cos (x)] = e
, usando a identidade do m da página anterior,

temos

TFx [cos (x)] = − 2e sen( 2x+e e



2
)sen 2
.

Como e é innitamente pequeno, temos que sen(


e
) ∼
= e
, e 2x + e ∼
= 2x. Logo
2 2

TFx [cos (x)] = =e2 sen( 2x )e


2 2
54

TFx [cos (x)] = −sen(x).


Para n = 2, temos que

TF2x [cos (x)] = TFx {TFx [cos (x)]}


TF2x [cos (x)] = TFx [−sen(x)]
TF2x [cos (x)] = −TFx [sen(x)]
Agora calculamos a tangente da curva seno admitindo as seguintes igualdades:

π π
 
sen(x)= cos x − 2
e sen x− 2
= − cos (x).
π
 
TFx [sen(x)]= TFx cos x − 2
TFx [sen(x)] = −sen x − π2


TFx [sen(x)]= cos (x).


Logo, temos TF2x [cos (x)] = − cos (x)
Ao calculamos a tangente n-ésima de cos (x) obtemos, com alternância de

sinais:

• cos (x) para n par;

• sen(x) para n ímpar.

Essa curva trigonométrica goza dessa propriedade. Logo podemos escrever

TFnx [cos (x)] = (−1)k−1 sen(x), para n = 2k + 1;


TFnx [cos (x)] = (−1)k−1 cos (x), para n = 2k .
Do que vimos, temos que as tangentes TFnx=0 [cos (0)] para n = 2k + 1 são todas
nulas. Disto podemos calcular TFkx [cos (0)] para k = 2n:
TF0x=0 [cos (0)] = 1;
TF2x=0 [cos (0)] = − cos (0) = −1;
TF4x=0 [cos (0)] = cos (0) = 1;
TF6x=0 [cos (0)] = − cos (0) = −1;
.
.
.

TF2nx=0 [cos (0)] = (−1)n .


.
.
.

Podemos escrever a curva cos (x) como uma série de potência da forma

(−1)n 2n
cos (x) ∼
P
= 2n!
x , que converge para todo número real x.
k=0

P (−1)n 2n
A convergência da série
2n!
x pode ser mostrada pelo teste da razão.
k=0
Não faremos isto aqui, mas esta demonstração pode ser vista em [6].
55

2.2 O cálculo integral: método da quadratura


-

Fermat além de trabalhar com os conceitos do cálculo diferencial, também

trabalhou com os conceitos do cálculo integral retomando à quadratura da parábola feita

por Arquimedes e a quadratura das parábolas superiores y = axn . O método utilizado

por Fermat utiliza retângulos circunscritos às parábolas, cujas bases estão em progressão

geométrica. Além de quadrar estas parábolas, ele quadrou as hipérboles supreiores da


a
forma y= xn
, para n 6= 1. Este método pode ser utilizado no cálculo da área delimitada

por uma curva e no cálculo de área de uma região limitada por duas curvas, volume de

um sólido gerado pela rotação de uma região plana delimitada por duas curvas.

Abordaremos uma aplicação deste método para quadrar curvas expressas na



an xn , e por m a relação entre o método da tangente e o da
P
forma y = f (x) =
k=0
quadratura desenvolvido por Fermat, conhecido como teorema fundamental do cálculo.

Comecemos por denir o que é o método de quadratura de Fermat.

Método de quadratura de Fermat:

Para as curvas dadas por y = f (x), denimos uma sequência de retângulos

de bases bn = xn − xn+1 e alturas hn = yn = f (xn ) e área Rn , circunscritos à curva no

intervalo [0, x], dada por:

Rn = (xn − xn+1 ) f (xn ).


As sequências xn , y n são progressões geométricas de razão q innitamente

próxima de um, denotadas por



 x = xq n−1
 n


x 6= 0 .



y = f (x )
n n

Denimos a área delimitada pela curva y = f (x) como sendo


n
P n
P
QF [f (x)] = Rk = (xk − xk+1 ) f (xk ), para n → ∞ (innitamente grande).
k=1 k=1
Veremos que para as parábolasy = axn Fermat toma a razão 0 < q < 1. E
−n
para as hipérboles superiores y = ax para n 6= 1 ele toma a razão q > 1. Em ambos os

casos a razão q é innitamente próxima de 1.

Denotaremos q → 1 para explicitar que a razão q pode ser tida muito próxima

de 1. Isto será feito depois que realizarmos o somatório com n → ∞. or m, assim como

Fermat, faremos q=1 para encontrar a área nal.

Para que o método possa ser aplicado, a sequência Rn deve ser uma progressão
geométrica de razão 0 < Q < 1, no caso das parábolas, e Q > 1, no caso das hipérboles
superiores.
56

2.2.1 A quadratura das parábolas e das hipérboles


-

Começamos primeiro por aplicar o método da quadratura de Fermat à curva

y = ax , em seguida às curvas y = axn para


2
todo número racional n ≥ 0, e y = ax−n ,
com a 6= 0, para todo número racional n 6= 1.

Exemplo 2.18: Consideremos a parábola y = ax2 , com a 6= 0, no intervalo

[0, x] conforme Fig.2.9.

Fig.2.9. Quadratura da parábola y = ax2 .

Sejam xn = xq n−1 os pontos sobre o eixo das abscissas para todo n ≥ 1 e

0 < q < 1 innitamente próximo de 1, tais que x 6= 0. Como a parábola é dada pela
2
equação y = ax , obtemos

n−1
hn = f (xn ) = ax2n = ax2 (q 2 )
bn = xn − xn+1 = x (1 − q) q n−1
n−1
Rn = (1 − q) ax3 (q 3 ) .

A área é dada por


n
QF0x (ax2 ) =
P
Rk
k=1
n
k−1
QF0x (ax2 ) = (1 − q) ax3 (q 3 )
P
, e tomando n → ∞, obtemos
k=1
1
QF0x (ax2 ) = (1 − q) ax3 1−q 3

1
QF0x (ax2 ) = 1+q+q 2
ax3
QF0x (ax2 ) = 31 ax3 , para q → 1. Logo a quadratura da curva y = x2 no intervalo
1 3
[0, x] nos dá x .
3

Vamos realizar uma modicação no método da quadratura de Fermat. Ao invés

de circunscrevermos retângulos à curva, vamos circunscrever trapézios. Essa mudança nos

mostrará, visualmente, uma melhor aproximação da área delimitada pela curva y = ax2 .
57

Exemplo 2.19: Fazendo uma modicação no método de quadratura de Fermat,

podemos, ao invés de retângulos, utilizar trapézios para realizar a quadratura da pará-

bola em questão. A Fig.2.10 ilustra nossa construção. Observe que temos uma melhor

aproximação visual para a área sobre a parábola y = ax2 de [0, x] ao aproximarmos a área
por trapézios.

Fig.2.10. Método de quadratura de Fermat modicado.

Consideremos as mesma hipóteses do método de Fermat, ou seja, os pontos

no eixo das abscissas formam uma progressão geométrica decrescente de razão 0 < q < 1.
(b+B)h
Também sabemos que a área de um trapézio é dada pela fórmula
2
, onde b é a base
menor, B a base maior e h a altura do trapézio.

As bases dos trapézios e as alturas são dadas, respectivamente, por

n−1
Bn = ax2 (q 2 )
n−2
bn−1 = ax2 (q 2 )
hn = xn−1 − xn = x (1 − q) q n−1 .
A área de cada trapézio é calculada como

(Bn +bn−1 )hn


T Pn = 2
n−1 n−1 −4
h i
3 (q 3 ) +(q 3 ) q
T Pn = ax (1 − q) 2
n−1
[ 1+q −4 ]( )q3
T Pn = ax3 (1 − q) 2
n
P
O somatório T Pk nos dá a área limitada pela curva, assim sendo obtemos
k=1
n
QF0x (ax2 ) =
P
T Pk
k=1
n n
(1+q−4 ) P k−1
QF0x (ax2 ) = T Pk = ax3 (1 − q) (q 3 )
P
2
, que tomando n → ∞,
k=1 k=1
nos fornece

(1+q−4 ) 1
QF0x (ax2 ) = ax3 2
(1 − q) 1−q 3
58

1 (1+q−4 ) 3
QF0x (ax2 ) = 1+q+q 2 2
ax = 13 ax3 (q → 1).
Uma generalização do método da quadratura de Fermat pode ser feita para as

parábolas superiores y = axn para todo número racional n ≥ 0.


De fato, procedemos como anteriormente, sejam

xm = xq m−1 , com x1 = x 6= 0, 0 < q < 1 e ym = axn q n(m−1) b, para todo

número natural m.

Rm = (xm − xm+1 ) ym
 (m−1)
Rm = axn+1 (1 − q) q (n+1)
n
QF0x (axn ) =
P
Rk
k=1
n  (k−1)
QF0x (axn ) = axn+1 (1 − q) q (n+1)
P
, para n → ∞, concluímos
k=1

QF0x (axn ) = (1 − q) 1−q1n+1 axn+1


1
QF0x (axn ) = 1+q+q 2 +q 3 +...+q n−1 +q n
axn+1 (q → 1)
1
QF0x (axn ) = n+1 axn+1 . Que fornece a quadratura das curvas y = axn no

intervalo [0, x] para todo racional n ≥ 0.


1
Exemplo 2.20: Seja a curva y = ax 2 , a quadratura desta curva no intervalo
2 2
[0, x] pelo método de Fermat nos dá
3
ax 3 .
1 1
De fato, substituindo n = 2
na igualdade QF (axn ) = n+1
axn+1 , obtemos
 1 1 1+2 3
1 1
QF ax 2 = 1
+1
ax 2 +1 = 1+2 ax 2 = 23 ax 2 .
2 2

Passemos, agora, às hipérboles superiores y = a


xn
(ou y = ax−n ). Vamos

quadrar estas curvas no intervalo [x, +∞], para isto tomamos a sequência de pontos
xm = xq m−1 e ym = xan (qn )1m−1 , com 0 < 1q < 1, obtendo uma sequência de retângulos de
a 1
área Rm dada por Rm = n−1 (q − 1) n−1 m−1 .
x (q )

A quadratura destas curvas nos dá


m  k−1
a a 1
 P
QFx∞ xn
= xn−1
(q − 1) q n−1
, que para m→∞ nos fornece
k=1
 
a a 1

QFx∞ xn
= xn−1
(q − 1) 1
−1
q n−1

q n−1
a a

QFx∞ xn
= xn−1
(q − 1) qn−1 −1
n−1
a a
(q − 1) (q−1)(1+q+q2q+...+qn−3 +qn−2 )

QFx∞ xn
= xn−1
a q n−1 a

QFx∞ = (q → 1)
xn 1 + q + q + . . . + q n−3 + q n−2 xn−1
2
| {z }
n−1−termos.

a 1 a

QFx∞ xn
= n−1 xn−1
. Esta fórmula é válida para n 6= 1.
Exemplo 2.21: Tomemos n = 2, obtendo a Fig.2.11.
59

a
Fig.2.11. Quadratura da hipérbole y= x2
.

a a

Substituindo o valor de n na fórmula anterior, obtemos QFx∞ x2
= x
, que nos

dá área delimitada pela curva y = ax−2 no intervalo [x, ∞].


Concluímos assim que o método de Fermat é aplicável a todas as curvas da

forma y = axn para todo número racional n ≥ 0 e as curvas y = ax−n para todo número

racional n 6= 1, sendo a quadratura destas curvas dadas, respectivamente, por:

n+1
QF0x (axn ) = axn+1 , para todo racional n ≥ 0;
QFx∞ xan = n−1 1 a

, para todo racional n 6= 1.
xn−1
1
Para a hipérbole y= x
, o método da quadratura de Fermat falha, pois a soma

das áreas dos retângulos inscritos cresce innitamente.

a
De fato, dado que y = f (xn ) = xn
, obtemos a sequência

1
Rn = axq n−1 (q − 1) xqn−1
Rn = a (q − 1).
n
a
 P
A área é dada por QF0x x
= Rk , logo
k=1
n
a
 P
QF0x x
= a (q − 1)
k=1
n
a
 P
QF0x x
= a (q − 1) 1→∞ para n → ∞.
k=1

2.2.2 Propriedades do método da quadratura


A primeira propriedade do método de quadratura de Fermat é a linearidade em relação à

multiplicação por constante e à soma.

i) QF (αxn ) = αQF (xn ), α constante real;

ii) QF (a1 xn + a2 xm ) = a1 QF (xn ) + a2 QF (xm ), m · n > 0.


De fato, segue (i) da denição de quadratura de Fermat.

(ii) é demonstrada da seguinte forma.


60

Seja y = f (x) = a1 xn + a2 xm . Supondo válidas as hipóteses do método de

Fermat, podemos escrever

Rk = (xk − xk+1 ) yk
Rk = (xk − xk+1 ) (a1 xnk + a2 xm
k )

Rk = (xk − xk+1 ) a1 xnk + (xk − xk+1 ) a2 xm


k .

A área delimitada pela curva y = f (x) = a1 xn + a2 xm é dada por


n
QF (a1 xn + a2 xm ) =
P
Rj
j=1
n  
QF (a1 xn + a2 xm ) = (xj − xj+1 ) a1 xnj + (xj − xj+1 ) a2 xm
P
j
j=1
n n
QF (a1 xn + a2 xm ) = a1 (xj − xj+1 ) xnj + a2 (xj − xj+1 ) xm
P P
j
j=1 j=1

QF (a1 xn + a2 xm ) = a1 QF (xn ) + a2 QF (xm ).


±n
ak x k .
P
Podemos estender a propriedade (ii) às curvas dadas por y = A
k=0
quadratura destas curvas no dá
 ±n  ±n
1
ak x k a xk+1 , para
P P
QF = k+1 k
k 6= −1
k=0 k=0

É intuitivo, considerando os resultados anteriores, quadrar, pelo método de



an x n .
P
Fermat, uma curva denida por uma série de potência dada por
n=1
1
Exemplo 2.22: Seja a curva denida por y= 1−x
, para −1 < x < 1, podemos

xk .
P
escrever esta curva como y =
k=0

Supondo a convergência da série, podemos quadrá-la pelo método de Fermat,

obtendo
∞  ∞
k 1
xk+1 .
P P
QF0x x = k+1
k=0 k=0

Podemos generalizar o método de quadratura de Fermat à curva dada por

y = f (x), desde que seja possível representarmos esta curva por uma série de potência
∞ T k [f (0)]
xk .
P Fx
da forma
k!
k=0

De fato, suponhamos por hipótese que a curva y = f (x) seja representada pela
∞ T k [f (0)]
xk , a quadratura desta curva nos dá
P Fx
série de potência
k!
k=0
∞ 
P TFkx [f (0)] k
QF0x [f (x)] = QF k!
x
k=0
∞ T k [f (0)] 
xk
P Fx
QF0x [f (x)] = k!
QF (linearidade)
k=0
61


P TFkx [f (0)] xk+1
QF0x [f (x)] = k! k+1
k=0

P TFkx [f (0)] k+1
QF0x [f (x)] = (k+1)!
x .
k=0

Exemplo 2.23: A quadratura da curva sen(x), no intervalo [0, x] é a curva

1 − cos (x).
De fato, sabemos que a curva cos (x) é representada pela série

x2 x4 x6 x8 x2n
• cos (x) = 1 − 2
+ 4!
− 6!
+ 8!
+ . . . + (−1)n 2n!
+ . . .;
Da representação do cos(x) por uma série de potência, podemos encontrar a

representação do sen(x) em série de potência.

De fato, é sabido que TFx [cos (x)] = −sen(x). Aplicando a tangente à série do

cosseno obtemos
 
x2 x4 x6 x8 x2n
TFx [cos (x)] = TFx 1 − 2
+ 4!
− 6!
+ 8!
+ . . . + (−1)n 2n!
+ ... .

Da linearidade de TF , obtemos

x3 x5 x7 x2n−1
−sen(x)= −x + 3!
− 5!
+ 7!
− . . . − (−1)n (2n−1)!
+ ...
x3 x5 x7 x2n−1
sen(x)= x− 3!
+ 5!
− 7!
+ . . . + (−1)n−1 (2n−1)!
+ ...
Da representação em série dada acima, podemos quadrar termo a termo a

curva sen(x), obtendo


h i
x3 x5 x7 x2n−1
QF0x [sen(x)]= QF0x x − 3!
+ 5!
− 7!
+ . . . + (−1)n−1 (2n−1)!
+ ... . Da linea-

ridade de QF , podemos escrever


x2 4 6 2n
QF0x [sen(x)]= − x4! + x6! − . . . − (−1)n−1 x2n! + . . .
2
h 2 4 6 2n
i
QF0x [sen(x)]= − − x2 + x4! − x6! + . . . + (−1)n−1 x2n! + . . . ,
 
x2 x4 x6 n x2n
QF0 [sen(x)]= 1 − 1 − 2 + 4! − 6! + . . . + (−1) 2n! + . . . ,
x

QF0x [sen(x)]= 1 − cos (x).


iii) A quadratura da curva constante y=c no intervalo [0, x], é igual a cx.
De fato, como f (xn ) = c para todo n, temos que Rn = xq n−1 (1 − q) c, disto

segue
n
xq j−1 (1 − q) c
P
QF0x (c) =
j=1
n
q j−1 ,
P
QF0x (c) = cx (1 − q) tomando n → ∞, obtemos
j=1
cx(1−q)
QF0x (c) = 1−q
= cx.
iv) A área delimitada por uma curva no intervalo [a, x] com a≥0 é dada por

uma das formas que segue


62

QFax [f (x)] = QF0x [f (x)] − QF0a [f (x)];


QFax [f (x)] = QFa∞ [f (x)] − QFx∞ [f (x)].
Vamos ver, geometricamente, essa propriedade para curva y = kxn para n≥0
no intervalo [a, x], conforme Fig.2.12.

Fig.2.12. Quadratura das curvas y = kxn no intervalo [a, x].

Da geometria da Fig.2.12, a área no intervalo [0, x] é dada pela soma das áreas
abaixo da curva de 0 à a e de a à x, assim sendo, podemos escrever

QF x0 (kxn ) = QF a0 (kxn ) + QF xa (kxn ), desta igualdade segue que

QF xa (kxn ) = QF x0 (kxn ) − QF a0 (kxn ).


As áreas do lado direito da igualdade anterior, conforme já sabido, são iguais
1 1
a, respectivamente, QF0x (kxn ) = n+1
kxn+1 e QF0a (kxn ) = n+1
kan+1 . Destas podemos

escrever

QFax (kxn ) = QF0x (kxn ) − QF0a (kxn )


1 1 k
QFax (kxn ) = n+1
kxn+1 − n+1
kan+1 = n+1
(xn+1 − an+1 )
Demonstremos para o caso y = kx2 .
Consideremos a seguinte progressão geométrica:

xn = (x − a) q n−1 + a no intervalo [a, x], tal que x1 = x e 0<q<1 e yn = x2n .


Os retângulos circunscritos têm áreas dadas por

2
Rn = (xn−1 − xn ) yn = [(x − a) q n−1 − (x − a) q n ] k [(x − a) q n−1 + a]
2
Rn = k (x − a) (1 − q) q n−1 (x − a)2 q 2(n−1) + 2a (x − a) q n−1 + a2


Rn = k (x − a) (1 − q) (x − a)2 q 3(n−1) + 2a (x − a) q 2(n−1) + a2 q n−1 .


 
63

A área total é calculada pela expressão


 n n n

2 P 3(k−1)
P 2(k−1) 2
P k−1
QFax = k (x − a) (1 − q) (x − a) q + 2a (x − a) q +a q .
k=1 k=1 k=1

Para n → ∞, obtemos os somatórios dentro dos colchetes iguais a, respectiva-


1 1 1
mente, , e . Substituindo, obtemos
1−q 3 1−q 2 1−q
h i
(x−a)3 2a(x−a)2
QFax = k 1+q+q 2
+ 1+q
+ a2 (x − a) (q → 1)
h i
x3 −3x2 a+3xa2 −a3
QFax = k 3
+ a (x2 − 2ax + a2 ) + a2 x − a3
h i
x3 a3
QFax = k 3
− ax2 + a2 x − 3
+ ax2 − 2a2 x + a3 + a2 x − a3
h
x3 a3
i kx3 ka3
QFax = k 3
− 3
= −
3
|{z} 3
|{z}
QF x QF a
0 0

QFax = QF0x − QF0a .


Exemplo 2.24: Tomemos k = 1, a = 2 e x = 3. Então a área sobre a curva
2
y=x no intervalo de [2, 3] é dada por

QF23 (x2 ) = QF03 − QF02


x3 3 x3 2
QF23 (x2 ) = |
3 0
− |
3 0

QF23 (x2 ) = 31 (x3 |30 − x3 |20 )


QF23 (x2 ) = 31 (33 − 23 ) = 19
3
u.a.
O mesmo ocorre para a quadratura das curvas y = kx−n , k 6= 0 e n 6= 1, no

intervalo [a, x], com x > a. A área delimitada pelas hipérboles superiores neste intervalo

é calculada por

QFax (kx−n ) = QFa∞ (kx−n ) − QFx∞ (kx−n )


Vamos utilizar as seguintes notações:

QF [f (x)] = F (x) + c, para c constante, como a quadratura da curva para

todo x.
QFax [f (x)] = F (x) |xa = F (x) − F (a), para a quadratura de uma curva no

intervalo [a, x];


Exemplo 2.25: A área delimitada pela curva y = x5 − 2x3 no intervalo [1, 3] é

dada por:

x6 x4
F (x) = QF (x5 − 2x3 ) = 6
− 2
+c
QF13 [f (x)] = F (x) |31 = F (3) − F (1)
6 4
QF13 [f (x)] = 36 − 32 − 16 − 21


QF13 [f (x)] ∼
= 81.33u.a.
64

Exemplo 2.26: Calculemos a área abaixo da curva y = x−2 , no intervalo [1, 5],
conforme Fig.2.13.

1
Fig.2.13. Área delimitada pela curva y= x2
no intervalo [1, 5].

F (x) = QF (x−2 ) = − x1 + c
QF15 (x−2 ) = F (5) − F (1) = − 51 + 1 = 45 u.a.
Exemplo 2.27: Consideremos a curva y= sen(x). A área delimitada por esta
 π
curva no intervalo 0, 2 é igual a 1u.a.
De fato, como F (x) = QF (sen(x))= − cos (x) + c temos
Q π2 (sen(x))= F π2 − F (0)

F0

Q π2 (sen(x))= − cos π2 + cos (0) = −0 + 1 = 1u.a.



F0

O método de quadratura de Fermat pode ser aplicado ao cálculo de áreas entre

duas curvas e ao cálculo de volume gerado pela rotação de uma região delimitada por duas

curvas, como veremos na seção seguinte.

2.2.3 Quadratura de região plana delimitada por duas curvas


.

Podemos utilizar o método de quadratura de Fermat para calcularmos a área

de uma região delimitada por duas curvas conforme Fig.2.14.

Fig.2.14. Área entre curvas.


65

De fato, sejam f1 (x) ≥ f2 (x) no intervalo [a, x], conforme Fig.2.14, vemos que

esta área é dada por QFax [f1 (x) − f2 (x)] = QFax [f1 (x)] − QFax [f2 (x)].
Aplicando o método de quadratura de Fermat a Fig.2.14, obtemos a Fig.2.15.

Fig.2.15. Quadratura da área entre duas curvas.

A altura de cada retângulo e a base dos retângulos são dadas por:

hn = f1 (xn ) − f2 (xn+1 ) e bn = xn − xn+1 .


Logo, podemos escrever

Rn =(xn − xn+1 ) [f1 (xn ) − f2 (xn+1 )]


Rn =(xn − xn+1 ) f1 (xn ) − (xn − xn+1 ) f2 (xn+1 )
n
P
QFax [f1 (x) − f2 (x)] = Rn
k=1
Pn
QFax [f1 (x) − f2 (x)] = [(xk − xk+1 ) f1 (xk ) − (xk − xk+1 ) f2 (xk+1 )]
k=1
n
X n
X
QFax [f1 (x) − f2 (x)] = (xk − xk+1 ) f1 (xk ) − (xk − xk+1 ) f2 (xk+1 ), que

|k=1 {z } |k=1 {z }
QFax [f1 (x)] QFax [f2 (x)]
para n→∞ nos fornece

QFax [f1 (x) − f2 (x)] = QFax [f1 (x)] − QFax [f2 (x)].
Exemplo 2.28: Vamos calcular a área da região delimitada pelas curvas f1 (x) =

x e f2 (x) = x3 .
Vamos primeiro encontrar o intervalo para a quadratura.

Fazendo x = x3 , obtemos

x = x6
x6 − x = 0
x (x5 − 1) = 0.
66

x=0 ou x = 1.
Os pontos de intersecção das duas curvas são x=0 e x = 1. Assim sendo o

intervalo de quadratura é [0, 1].


A Fig.2.16 representa a região entre as duas curvas.


Fig.2.16. Área entre as curvas f1 (x) = x e f2 (x) = x3 .
h 1i
QF01 [f1 (x)] − QF01 [f2 (x)] = QF01 x 2 − QF01 [x3 ]
3
2x 2 1 x4 1
QF01 [f1 (x)] − QF01 [f2 (x)] = 3 0
| − |
4 0
2 1 5
QF01 [f1 (x)] − QF01 [f2 (x)] = 3
− 4
= 12
u.a.
Exemplo 2.29: Encontremos a área da região delimitada pelas parábolas y = x2
e y = −x2 + 2.
Primeiro encontramos o intervalo que iremos quadrar a região entre as duas

curvas. Para isto, igualamos as duas expressões obtendo a equação

x2 = −x2 + 2
2x2 = 2
x2 = 1
x = ±1.
Aplicando o método de quadratura de Fermat, encontramos
 3
  3
Q −1
F−1
2
[−x + 2] − Q −1
F−1
2
[x ] = − x3 + 2x |−1
−1 − x
3
|−1
−1
10 2
QF−1 2
F−1
2
−1 [−x + 2] − Q −1 [x ] =
3
− 3
= 83 u.a.

2.2.4 Cálculo do volume de um sólido de revolução


.

Também é possível utilizar o método de quadratura de Fermat para calcular

o volume de um sólido de revolução, ou de um sólido gerado pela rotação de uma região

plana delimitada por duas curvas.


67


Exemplo 2.30: Consideremos a curva y = x no intervalo [x0 , x]. Girando

esta curva em torno do eixo x, obtemos a Fig.2.17.

Fig.2.17. Volume do sólido gerado pela rotação em torno do eixo x.


O volume do sólido gerado pela rotação da curva y= x em torno do eixo x
é dado por:
h 2 2i
x −x0
V = QF0x π [f (x)]2 = π

2
u.v.
De fato, o volume do sólido da Fig.2.17 é dado pela soma dos volumes dos

cilindros de base circular de raio rn = xn e altura 4xi = xi − xi+1 , onde os xi0 s são os
termos de uma progressão geométrica de primeiro termo x e razão 0 < q < 1 dados por

xn = (x − x0 ) q n−1 + x0 .
O volume de cada cilindro é dado por

Vn = πrn2 (xn − xn+1 )


Vn = πxn [(x − x0 ) q n−1 − (x − x0 ) q n ]
Vn = π [(x − x0 ) q n−1 + x0 ] (x − x0 ) q n−1 (1 − q)
Vn = π (x − x0 )2 (1 − q) q 2(n−1) + x0 (x − x0 ) (1 − q) q (n−1) .
 

Logo, podemos escrever


n
V = QF0x π [f (x)]2 =
 P
Vk
k=1
n
V = QF0x π [f (x)]2 = π (x − x0 )2 (1 − q) q 2(k−1) + x0 (x − x0 ) (1 − q) q (k−1)
 P  
k=1 
n n
 2 2 P 2(k−1)
P (k−1)
V = QF0x π [f (x)] = π (x − x0 ) (1 − q) q + x0 (x − x0 ) (1 − q) q ,
k=1 k=1
agora fazemos n → ∞, obtendo
h i
V = QF0x π [f (x)]2 = π (x − x0 )2 (1 − q) 1−q
1 1

2 + x 0 (x − x 0 ) (1 − q) 1−q
h i
V = QF0x π [f (x)]2 = π (x − x0 )2 1+q1

+ x0 (x − x0 ) , que para q → 1 nos

68

h 2
i
V = QF0x π [f (x)]2 = π (x−x 0)

2
+ x 0 (x − x 0 )
h 2
i
V = QF0x π [f (x)]2 = π (x−x0 ) +2x 0 (x−x0 )

2
h i
 2 (x−x0 )(x−x0 +2x0 )
V = QF0 π [f (x)] = π
x
2
u.v.
h i
V = QF0x π [f (x)]2 = π (x−x0 )(x+x 0)

2
u.v.
h i
x2 −x20
V = QF0x π [f (x)]2 = π

2
u.v.
De maneira geral, dada uma região S entre as curvas y1 = f1 (x) e y2 = f2 (x),
com y1 ≥ y2 , então o volume do sólido gerado pela rotação de S é dado por:

i) V = QFab π [f1 (x)]2 − π [f2 (x)]2 , com eixo de rotação x no intervalo [a, b];


ii) V = QFcd π [g1 (y)]2 − π [g2 (y)]2 , com eixo de rotação y no intervalo [c, d].


2.3 O teorema fundamental do cálculo: Fermat-


-

Podemos mostrar que o cálculo da tangente a uma curva é o inverso da qua-

dratura da mesma.

Consideremos as parábolas generalizadas de Fermat f (x) = axn , cuja quadra-


1
tura no intervalo [0, x] nos dá a relação F (x) = QF0x [f (x)] = n+1 axn+1 .
Aplicando o método da tangente de Fermat a F (x), obtemos

TFx [F (x)] = TFx QF0x [f (x)]
a
 
TFx QFax [f (x)] = TFx n+1 xn+1
a

TFx QFax [f (x)] = n+1 TFx (xn+1 )
a

TFx QFax [f (x)] = n+1 (n + 1) xn = axn . Enm, segue

TFx QFax [f (x)] = f (x).
n
ak x k .
P
Vamos mostrar essa relação para a curva f (x) =
k=0

A quadratura da curva y = f (x) nos fornece


n
1
a xk+1 .
P
F (x) = QF0x [f (x)] = k+1 k
k=0
A tangente à curva F (x) é calculada como
 n 
 P 1
TFx QF0x [f (x)] = TF a xk+1
k+1 k
k=0
n
1
 P 
TFx QF0x [f (x)] = TF a xk+1
k+1 k
k=0
69

n
1
 P 
TFx QF0x [f (x)] = a T
k+1 k F
xk+1
k=0
n
1
 P
TFx QF0x [f (x)] = a
k+1 k
(k + 1) xk+1−1
k=0
 Pn 
TFx QF0x [f (x)] = ak x k . Disto concluímos que TFx QF0x [f (x)] = f (x).
k=0

Também é verdade que:


 n
 n
k 1
a xk+1
P P
QF0x {TFx [F (x)]} = QF0x ak x = k+1 k
= F (x).
k=0 k=0

Sendo assim, concluimos que são verdadeiras as seguintes igualdades:



f (x) = TFx QF0x [f (x)] ;
f (x) = QF0x {TFx [f (x)]}.
As igualdades acima são válidas para todas as curvas representadas pela série

ak x k .
P
de potência
k=0

De fato, basta tomar n → ∞ na demonstração anterior. Vejamos um exemplo.

Exemplo 2.31: Aplicação do teorema fundamental do cálculo de Fermat para

curvas sen(x) e cos (x). Para isto, consideremos as representações destas curvas por série

de potência, como seguem:

x2 x4 x6 x8 x2n
cos (x) = 1 − 2
+ 4!
− 6!
+ 8!
+ . . . + (−1)n 2n!
+ . . .;
x3 x5 x7 x9 x2n+1
sen(x) =x− 3!
+ 5!
− 7!
+ 9!
+ . . . + (−1)n (2n+1)!
+ . . ..
A quadratura de sen(x) no intervalo [0, x] é dada por:

QF0x [sen(x)]= 1 − cos (x).


Agora vamos quadrar a curva cos (x) no intervalo [0, x].
h i
x2 x4 x6 x2n
QF0x [cos (x)] = QF0x 1 − 2
+ 4!
− 6!
+ . . . + (−1)n 2n!
+ ...
x3 x5 x7 x2n+1
QF0x [cos (x)] = x − 3!
+ 5!
− 7!
+ . . . + (−1)n (2n+1)!
+ ...
QF0x [cos (x)] = .sen(x),
Aplicando o teorema fundamental do cálculo de Fermat, obtemos:

TFx QF0x [cos (x)] = TFx [sen(x)]= cos (x)
TFx {QF0x [sen(x)]}= TFx [1 − cos (x)]
TFx {QF0x [sen(x)]}= .sen(x).

A abordagem dos conceitos do cálculo feita por Fermat é a base da teoria

do cálculo diferencial e integral. Vimos que o método da tangente na essência é o que


70

denominamos hoje de cálculo diferencial. O método de quadratura de curvas, que faz uso

intuitivamente do conceito de limite, é o que denominamos de cálculo integral. Veremos

que os matemáticos subsequentes retomaram esses métodos em suas abordagens sobre o

cálculo.

Pudemos observar que Fermat retoma o uso dos innitésimos, grandezas ainda

obscuras e necessitadas de sentido. Contudo, veremos que seus métodos serão retomados

nos próximos capítulos pelos matemáticos Sir Isaac Newton através dos métodos das

uxões e séries innitas, Leibniz com as diferenciais dx, dy , e o cálculo da integral, por

m, com Cauchy, este utilizando o conceito de limite.


71

Capítulo 3

Cálculo diferencial e integral: Newton

Neste capítulo vamos abordar os conceitos do cálculo diferencial e integral

segundo Newton. Antes da nossa discussão, listemos as novidades propostas por ele:


O método das séries de potências como representação de uma curva e a
k n

generalização do binômio a + x para k e n reais;

• Resolução de equações diferenciais através do uso de séries de potências;

• As regras do cálculo de integrais (quadratura), equivalentes às propriedades

da quadratura de Fermat; quadratura de curvas representadas por uma série de potência

e reticação de arcos (comprimento de arcos);

• O teorema fundamental do cálculo, equivalente ao que vimos com os métodos


de Fermat.

Começaremos pelo método das uxões que denido como segue:

Denição do método das uxões:

• Fluentes: coordenadas da curva em função do tempo x (t), y (t), z (t), etc,

ou simplesmente x, y , z , etc;


Fluxões: taxas de variação (velocidade) dos uentes em função do tempo,
· · · · · ·
denotados por x (t), y (t), z (t), etc, ou simplesmente por x, y , z , etc, cujo a notação atual
dx(t) dy(t) dz(t)
é dada por , , , etc.
dt dt dt

Utilizaremos o método das uxões na resolução dos dois problemas propostos

por Newton:

Problema I: Seja dada a relação F (x, y)= 0 (ou y = F (x)) entre os uentes
·
· · 
y
x e y , encontrar a relação f x, y, x, y = 0 (ou · = f (x, y)) entre as uxões;
x
·
· · 
Problema II: Seja dada a relação f x, y, x, y = 0, ou y· = f (x, y), entre as
x
uxões, encontrar F (x, y) = 0 (ou y = F (x)) a relação entre os uentes x e y .
72

Seguiremos com o método de traçado de tangente de Newton e suas proprie-

dades. Abordaremos a generalização do binômio de Newton e a quadratura do círculo de

raio 1 e da hipérbole retangular. Discutiremos o uso das séries de potências na resolução

do Problema II. Estudaremos o método de quadratura (regras de integração) de Newton

para o cálculo da área delimitada por uma curva, o teorema fundamental do cálculo e

terminaremos com a reticação de arcos (comprimento de curvas).

Adotaremos as seguintes notações para o método da tangente e da quadratura

de Newton:

• TNx - tangente de Newton em x;


• QNax - quadratura de Newton no intervalo [a, x] ou simplesmente QN .

3.1 O método das uxões


-

Newton desenvolve os conceitos do cálculo diferencial (traçado de tangente) e

integral (cálculo de área delimitada por uma curva e a reticação de arcos), segundo o

método das uxões e séries de potências. Esses conceitos têm como base dois problemas,

como descrito do trecho retirado de O método das uxões e séries innitas.

...

I - O comprimento do espaço descrito sendo continuamente determinado

(isto é, em todos os momentos); encontrar a velocidade do movimento,

em qualquer momento proposto;

II - A velocidade do movimento que está sendo continuamente dada;

encontrar o comprimento do espaço descrito em qualquer momento pro-

posto.

..... [5].

Para Newton, as curvas são determinadas pelo movimento contínuo dos pontos

em função do tempo, denominado de uentes, representados pelas quantidades x (t), y (t),


z (t), etc, ou simplesmente x, y , z , etc. E a taxa de variação com que cada uente se movia

no tempo (velocidade), ele denominava de uxões (derivadas) dos uentes, representados


· · · · · ·
pelas quantidades x (t), y (t), z (t), etc, ou simplesmente por x, y , z , etc.

Para o primeiro problema Newton dene uma quantidade innitamente pe-

quena chamada de momento de um uente, denotado por `o'. Vejamos um exemplo.


· · 
Exemplo 3.1: Encontrar a relação f x, y, x, y = 0 entre as uxões dada a

relação F (x, y) = y − x2 entre os uentes.


· ·
Considere xo e yo o momento innitamente pequeno das quantidades uentes
· ·
x e y . E sejam x+ xo e y + yo os aumentos sofridos em um período de tempo innitamente
73

2
pequeno `o', então depois de substituir em F (x, y) = y−x , cancelar os termos em comum
·
e dividir toda a igualdade restante por xo, ele desconsidera as grandezas que ainda contêm

esta parcela, terminando assim por encontrar a relação entre as uxões, como segue.

·
 ·
2
y + yo = x + xo
· ·
 · 2
y + yo = x2 + 2xxo + xo
· ·
 · 2 ·
yo − 2xxo − xo (dividindo tudo por xo)
· · ·
y
· − 2x − xo = 0. Neste ponto, Newton desconsidera a parcela xo por ser
x
innitamente pequena (análogo ao e utilizado por Fermat), restando
·
y
· − 2x = 0
x
· ·
y − 2xx = 0.
· ·
No método utilizado por Newton, a relação xo ou yo, etc, é descrita como a
· ·
multiplicação do momento innitamente pequeno o pelo uxão x ou y , etc.

Na resolução do segundo problema, Newton utiliza, em alguns casos, um mé-

todo de solução particular, mas utilizava séries de potências como método geral de reso-

lução.

Veremos mais adiante, por exemplo, que para encontrar a solução da equação
y y
diferencial y 0 − a−x − 1 = 0, Newton representa a−x
como uma série de potência e a partir

de então construía uma tabela, encontrando a solução do problema por aproximações

sucessivas.

Exemplo 3.2: Tomemos, como exemplo [5], a curva representada pela equação

F (x, y) = x3 − ax2 + axy − y 3 = 0.


Para encontrar a relação entre as uxões vamos montar uma tabela com a

seguinte regra:

ˆ Os termos que possuem somente um dos uentes x ou y cam de

lados opostos da tabela;

ˆ Os termos mistos cam em ambos os lados da tabela;

ˆ Multiplicamos cada termo pela razão entre o uxão e o uente,


·
nx
multiplicado pela dimensão (expoente n do uente), ou seja,
x
;

ˆ Por m, somamos os resultado obtidos, encontrando a relação


· · 
f x, y, x, y = 0 entre as uxões.

Seguindo os passos anteriores, chegamos à seguinte tabela


74

x3 −ax2 + axy −y 3 + axy


|{z} |{z}
misto. misto.
· · · · ·
3x 2x x 3y y
× x x x y y
· 2 · · · 2 ·
3xx −2axx +axy −3yy +axy
· · · · ·
Soma 3xx2 −2axx +axy −3yy 2 +axy

Tabela 1. Método de Newton para, uentes e uxões - Problema I.

A relação procurada é dada por


· ·  · · · · ·
f x, y, x, y = 3xx2 − 2axx + axy − 3yy 2 + axy = 0. Esta relação pode ser

escrita como:
·
y 3x2 −2ax+ay
· = f (x, y) = 3y 2 −ax
.
x

Um método de resolução particular para resolver o Problema II, empregado

por Newton, é baseado no método utilizado no exemplo anterior. Para encontrar a relação

entre os uentes, dada a relação entre as uxões, ele procede de maneira inversa ao feito

anteriormente.

Exemplo 3.3: Partindo da relação entre as uxões procedemos de maneira

inversa (seguimos a mesma regra anterior para a construção da tabela, com uma pequena
· ·
modicação, escolhemos somente um dos termos +axy ou +axy colocado somente em

um dos lados da tabela) para voltar à relação anterior entre os uentes, realizando a

multiplicação pelo inverso dos termos da segunda linha, como segue:


· ·  · · · · ·
f x, y, x, y = 3xx2 − 2axx + axy − 3yy 2 + axy = 0

· · · ·
3xx2 −2axx +axy −3yy 2
x x x y
× · · · ·
3x 2x x 3y
3
Soma x −ax2 +axy −y 3

Tabela 2. Método de Newton modicado - Problema II.

O resultado é a relação entre os uentes x e y


F (x, y) = x3 − ax2 + axy − y 3 = 0.
Modicamos a tabela dada por Newton para não termos a necessidade de

descartar termos repetidos na solução.

Newton descreve esse tipo de solução como um caso particular, uma vez que

nem sempre é possível encontrar a relação entre os uentes dada a relação entre as u-

xões pelo método descrito anteriormente. Esta observação é feita por Newton, conforme

passagem retirada do livro O método das uxões e séries innitas


75

...o problema [isto é, o segundo problema] não pode ser sempre solucio-

nado por esse artifício. No entanto, adiciono que após se obter a relação

entre os uentes por esse método e se podemos retornar pelo Problema

I para a equação proposta que envolve as uxões, então o trabalho está

correto; caso contrário, não ... [5].

Exemplo 3.4: Newton considera o problema de encontrar a relação entre os


· ·  · · ·
uentes dada a relação entre as uxões f x, y, x, y = xx − xy + ay = 0.

Seguindo os passos da Tabela 2, encontramos a relação entre os uentes

F (x, y) = 21 x2 − xy + ay = 0.
E fácil vericar que esta relação está incorreta, como descrito por Newton na

observação anterior, pois, de fato, procedendo como feito na Tabela 1, obtemos como

resposta a relação entre as uxões


· ·  · · · ·
f x, y, x, y = xx − xy − yx + ay = 0, que difere da relação original do termo
·
−yx.

3.2 O método da tangente de Newton


-

Consideremos a Fig.3.1. [5], com A (0, 0).

Fig.3.1. Método da tangente de Newton.

Admitindo Bd innitamente pequeno, ou seja, a abscissa do ponto em B se

move para b um espaço innitamente pequeno. Então a ordenada em D sofre um acréscimo


·
innitamente pequeno cd. Consideremos AB = x, Bb = xo (acréscimo innitesimal em x
· ·
ou momento do uxão x ), BD = y = f (x) e cd = yo (acréscimo innitesimal em y ou
·
momento do uxão y ). Da Fig.3.1 temos que os triângulos 4T BD e 4Dcd são semelhantes,
TB · ·
logo vale a relação
Bb
= BD
cd
. Substituindo Bb = xo, cd = yo e BD = y = f (x) na
·
relação anterior, obtemos T B = x· f (x). Esta igualdade nos dá a relação entre as uxões
y
y
e a subtangente à curva ED (semelhante ao método de Fermat). Para encontrarmos a
BD f (x)
tangente TD em D, fazemos TD = TB
= TB
e T B = d, que nos dá a relação
76

·
y f (x)
TD = · = d
.
x

Esta expressão é análoga aquela encontrada pelo método da tangente de Fer-

mat. Vamos denotar, esta tangente, como sendo a tangente de Newton no ponto x por
·
y
TNx [f (x)] =· .
x
Exemplo 3.5: A tangente à parábola y 2 = x, pelo método de Newton, é dada

por
√ y
·
1
TNx ( x) = · = √
2 x
, y>0 e x > 0.
x
2
De fato, escrevendo a curva como F (x, y) = y − x = 0, obtemos para o ponto
· ·
 · ·

x + xo e y + yo, F x + xo, y + yo = 0. Da igualdade anterior segue que
 2 
· ·

y + yo − x + xo = 0
·
 · 2 ·
y 2 + 2y yo + yo − x − xo = 0
·
 · 2 · ·
y 2 − x + 2y yo + yo − xo = 0. Dividindo tudo por xo, obtemos
| {z }
0
· · · ·
2y y· + y· yo − 1 = 0, que é igual a
y
· = 1
· .
x x x 2y+yo
·
Para yo innitamente pequeno obtemos
·
y 1 1 √
· = 2y
= √
2 x
, y= x, para x > 0.
x
y 1 √ ·
Com isso, mostramos que · = 2 x . Este resultado nos mostra a
√ TNx ( x) =
x
equivalência entre os métodos de Newton e de Fermat.

O método da tangente de Newton é equivalente ao método da tangente de

Fermat e pode ser escrito como


·
 
·
y f x+xo −f (x) ·
TD = · = · . Esta relação é a mesma, a não ser pelo uso de xo no
x xo
lugar de e, que é encontrada no método de Fermat.

De fato, consideremos a Fig3.2.

Fig.3.2. Tangente à curva y = f (x).


77

·
 ·

Da geometria da Fig.3.2, escrevemos y + yo = f x + xo , e por semelhança

dos triângulos 4T CA e 4T BD , obtemos


·
 
· f x+xo
d+xo
= f (x)
d
 ·
 ·
d.f x + xo = d.f (x) + xo.f (x)
·
xo
d=  · f (x).
f x+xo −f (x)
·
E como d = y x· , podemos escrever
y
·
y y
· = d
x
·
 
·
y f x+xo −f (x)
· = · y
x xo·f (x)
·
 
·
y f x+xo −f (x)
· = · , uma vez que y = f (x).
x xo

Todas as propriedades demonstradas no método de Fermat são válidas no

método das uxões de Newton. Também é válido o cálculo da tangente a uma curva pelo

método implícito, como feito no método de Fermat, utilizando a relação

· ·
  
F x+xo,f x+xo −F (x,y)
· .
xo

Exemplo 3.6: Seja y = f (x) e consideremos a curva dada por

F (x, y) = x3 − ax2 + axy − y 3 = 0 [5].


· ·
  
F x+xo,f x+xo −F (x,y)
Fazemos · = 0, obtemos a relação
xo
 ·
3  ·
2  ·
  ·
  ·

x+xo −a x+xo +a x+xo f x+xo −f 3 x+xo x3 −ax2 +axf (x)−f 3 (x)
− · − · = 0.
xo xo
·
Após realizar todos os cálculos, simplicar e dividir por xo, obtemos
·
 
· f x+xo −f (x) 2
y
· = · = −3x−3y+2ax−ay
2 +ax .
x xo

Exemplo 3.7: Um outro exemplo, que trabalhamos no capítulo anterior, é o

cálculo da tangente ao folium de Descartes. Este cálculo, também, pode ser feito pelo

método da tangente de Newton, como segue:

Seja a curva

F (x, y) = x3 + y 3 − 3nxy = 0 (folium de Descartes).

· ·
Vamos calcular a relação entre as uxões x e y, para tanto, consideremos o

momento o(acréscimo innitesimal em x e y ), assim sendo, os acréscimos nos uentes x


· ·
e y são dados por x + xo e y + yo. Substituindo estes valores na equação, obtemos:
 ·
3  · 3
  ·
 ·

x + xo + y + oy − 3n x + xo y + yo = 0
78

 · 2  · 3
·
 · 2  · 3
3 2 3 2·
x + 3x (t) xo + 3x xo + xo + y + 3y yo + 3y yo + yo − 3nxy −
· · · ·
3nxyo − 3nxoy − 3nxyo2 = 0
·
 · 2  · 3 ·
 · 2  · 3
x3 + y 3 − 3nxy + 3x2 xo + 3x xo + xo + 3y 2 yo + 3y yo + yo −
| {z }
0
· · · ·
3nxyo − 3nxoy − 3nxyo2 = 0
·
 · 2  · 3 ·
 · 2  · 3 · · · ·
3x2 xo+3x xo + xo +3y 2 yo+3y yo + yo −3nxyo−3nxoy −3nxyo2 = 0.

Dividindo tudo por o, obtemos

· ·2 ·3 · ·2 ·3 · · · ·
3x2 x + 3xx o + x o2 + 3y 2 y + 3y y o + y o2 − 3nxy − 3nxy − 3nxyo = 0.
Admitindo o innitamente pequeno, camos com

· · · ·
3x2 x + 3y 2 y − 3nxy − 3nxy = 0
·
y 3ny−3x2 ny−x2
· = 3y 2 −3nx
= y 2 −nx
.
x
1
Este resultado é exatamente o mesmo encontrado pelo método de Fermat.

Exemplo 3.8: Podemos retornar à equação do folium de Descartes como segue.

· · ·
3x2 x −3nxy +3y 2 y
x x y
× · · ·
3x x 3y
3
Soma x −3nxy +y 3

Tabela 3. Método de Newton - Problema II.

Calculemos a tangente à curva dada por y = xn com n ∈ N.


Escrevemos a curva na forma F (x, y) = y − xn = 0 e sejam os acréscimos
· ·
innitesimais xo e yo, disto segue que
 · ·
 ·
 ·
n
F x + xo, y + yo = y + yo − x + xo = 0
·
 ·
n
xn + yo − x + xo = 0
n−1 k 
· · P n−1−k  ·
yo − xo x x + xo = 0.
k=0
· · ·
Dividindo por −xo e admitindo xo innitamente pequeno, obtemos x+ xo = x.
Assim sendo, podemos escrever a soma entre parênteses como:

· n−1
y
xn−1
P
· −
x k=0
·
y
· − nxn−1 = 0
x
·
y
· = nxn−1 .
x

1 Relação denida pelo método de Fermat ny−x2


y 2 −nx .
f (x+e)−f (x)
e =
79

O resultado anterior é mais facilmente encontrada como feito na Tabela 1.

De fato

xn −y
· ·
nx y
× x y
n−1 · ·
nx x −y
· ·
Soma nxn−1 x −y

Tabela 4. Cálculo da tangente pelo método de Newton.

·
y
Encontrando · = nxn−1 .
x
n
xk ,
P
Do que foi feito anteriormente, concluímos que dada a curva y= então
k=0
· n
y
kxk−1 .
P
a tangente TNx [f (x)] = · é dada por TNx [f (x)] =
x k=0
· · ·
De fato, para os acréscimos innitesimais xo e yo, obtemos, substituindo x+ xo
· n
xk = 0
P
e y + yo em F (x, y) = y−
k=0

· n 
P ·
k
y + yo− x + xo =0
k=0
n n  · k
 ·
xk −
P P
x + ox + yo = 0
k=0  k=0
n    ·
· k
k
P
x − x + ox + yo = 0 (linearidade)
k=0
n  k−1
i 
· · P · P k−1−i
yo = xo x x + xo
k=0
k−1 i=0
· n P k−1−i  ·
i 
y P
· = x x + xo
x k=0 i=0
· n
y
kxk−1 .
P
· = O que demonstra a armação.
x k=0
p
Assim como no método da tangente de Fermat, a tangente à curva y = xq ,
p−q
p
com p e q 6= 0 inteiros, pelo método de Newton é dada por
q
x q .

2
Exemplo 3.9: Seja a curva y = x3 . A tangente a esta curva é dada por
 2
 1
TNx x 3 = 23 x− 3 (p = 2 e q = 3).
Podemos inferir que para se calcular a tangente a uma curva representada por

an xn basta fazermos
P
uma série de potência da forma y =
n=0
 ∞
 ∞
n
nxn−1 .
P P
TNx x =
n=0 n=0

Newton supõe verdadeira esta armação, como veremos na próxima seção, ao


k n

estudarmos as curvas binomiais a + x para n não natural.
80

3.3 Séries binomiais


-
n
Comecemos esta seção com a quadratura das curvas dadas pelo binômio (1 − x2 )
para n natural, tal que 1 ≤ n ≤ 4, obtendo nas quatro primeiras curvas os seguintes re-

sultados

QN0x (1 − x2 ) = x − 31 x3
h i
2
QN0x (1 − x2 ) = x − 23 x3 + 15 x5
h i
3
QN0x (1 − x2 ) = x − 33 x3 + 35 x5 − 71 x7
h i
4
QN0x (1 − x2 ) = x − 43 x3 + 65 x5 − 74 x7 + 19 x9 .
Assim, como Newton, observamos que o primeiro termo de cada quadratura

é igual a x e os segundos termos para cada 1≤n≤4 estão em progressão aritmética.

Vamos um pouco mais além, vamos acrescentar a quadratura de mais duas curvas, como

segue:
h i
2 5
Q N0x (1 − x ) = x − 35 x3 + 10 5
5
x − 10 7
7
x + 59 x9 − 1 11
11
x
h i
6
QN0x (1 − x2 ) = x − 63 x3 + 15 5
5
x − 20 7
7
x + 15 9
9
x − 6 11
11
x + 1 13
13
x .
Observem que os terceiros termos estão em progressão aritmética de segunda

ordem, os quartos em uma progressão aritmética de terceira ordem, e assim sucessiva-

mente.

Consideremos a Tabela 5 que segue:

n 
1 − x2 − 31 x3 + 15 x5 − 71 x7 + 19 x9 1 11 1 13 1 15 1 17

QN0x x − 11 x + 13 x − 15 x + 17 x
Coeciente an a1 a2 a3 a4 a5 a6 a7 a8 a9
0
1− x2 1 0 0 0 0 0 0 0 0
2 1

1−x 1 1 0 0 0 0 0 0 0
2
1− t2 1 2 1 0 0 0 0 0 0
2 3

1−x 1 3 3 1 0 0 0 0 0
4
1− t2 1 4 6 4 1 0 0 0 0
2 5

1−x 1 5 10 10 5 1 0 0 0
2 6

1−x 1 6 15 20 15 6 1 0 0
7
1− x2 1 7 21 35 35 21 7 1 0
2 8

1−x 1 8 28 56 70 56 28 8 1
n
Tabela 5. Quadratura das curvas (1 − x2 ) para 0 ≤ n ≤ 8.
81

Cada coeciente ak da Tabela 5 é dado por


!
n n! n(n−1)(n−2)(n−3)...(n−k+1)
ak = = k!(n−k)!
= k!
, para todo k ≥ 0.
k
Em geral podemos escrever:
!
n n
n x2k+1
(−1)k

QN0x (1 − x2 )
P
= 2k+1
.
k=0 k
 n
Aplicando TNx a QN0x (1 − x2 ) , obtemos
!
n n
n 
(−1)k x2k .
 
TNx QN0x (1 − x2 )
P
=
k=0 k
n
Esta relação é o bem conhecido desenvolvimento do binômio de Newton (1 − x2 )
para n natural.

n
Os coecientes no desenvolvimento de (1 − x2 ) são dados, também, por ak .
Agora, da relação acima, temos que valem as igualdades que seguem
  

n
n n
  (−1)k x2k ; n.natural;

(1 − x2 ) =
 P



 k=0 k
 

2 n
∞ n
  (−1)k x2k ; n.real.ou.complexo.
 P
(1 − x ) =




 k=0 k
No primeiro desenvolvimento
! a soma termina no termo de índice n, pois quando
n
k ≥n+1 temos = 0.
n+1
De fato, para k = n + 1, podemos escrever
!
n
an+1 = = n(n−1)(n−2)(n−3)...(n−n−1+1)
(n+1)!
= 0.
n+1
O mesmo não ocorre quando n não é um número natural.

p
Exemplicando, de fato, para n= q
, temos:
!
p
q ( pq −1)( pq −2)( pq −3)...( pq −k+1)
ak = = k!
.
k
 
p
Para k número natural,
q
−k+1 =6 0 para qualquer k, logo teremos inni-

tos termos no desenvolvimento do binômio:


!
p ∞ p
k q
(1 − x2 ) = ak (−1) x2k ,
P
q
para ak = .
k=0 k
Exemplo 3.10: Tomando um número inteiro n < 0 temos que a curva dada por
k n

a+x é representada por uma série innita.
82

!
n n(n−1)(n−2)(n−3)...(n−k+1)
De fato, ak = = k!
. Este coeciente cresce inni-
k
tamente, uma vez que a diferença nunca se anula para n < 0, pois (n − k) < 0 para todo

número natural k.
Exemplo 3.11: Mostremos que o binômio (1 + x)−1 pode ser representado por

(−1)k xk .
P
uma série dada por
k=0

De fato, utilizando o binômio de Newton, obtemos:


!
−1 −1(−1−1)(−1−2)(−1−3)...(−1−k+1)
ak = = k!
,
k
!
−1 −1(−2)(−3)(−4)(−5)...(−k)
ak = = k!
= (−1)k k!
k!
= (−1)k .
k

(1 + x)−1 = (−1)k xk .
P
Disto segue que a série binomial de
k=0

Newton, a partir de observações feitas referente a Tabela 5, representa as

curvas dadas que seguem por uma série de potência, e então procede com a quadratura
1 1
do círculo (1 − x2 ) 2 e da hipérbole (1 + x2 ) 2 .
Para a circunferência x2 + y 2 = 1, a série que o representa é dada por:
1
(1 − x2 ) = 1 − 21 x2 − 18 x4 −
2 1 6
16
x + ...
Encontrando os termos a5 e a6 do desenvolvimento anterior obtemos
!
n n(n−1)(n−2)(n−3)
1
(− 12 )(− 32 )(− 52 ) 5
a5 = = 4!
= 2
4.3.2.1
= − 128 ;
4
!
n n(n−1)(n−2)(n−3)(n−4)
1
2 (− 12 )(− 32 )(− 25 )(− 72 ) 7
a6 = = 5!
= 5.4.3.2.1
= 256
;
5
Os seis primeiros termos da série são

1 − 21 x2 − 81 x4 − 1 6
16
x − 5
128
x8 − 7
256
x10 − ...
O termo geral desta série é dado por
1
(− 12 )(− 32 )(− 52 )(− 72 )...( 3−2k
2 )
ak = 2
k!
(−1)k x2k .
Com isso, podemos representar a circunferência de raio um como

1 1
(− 12 )(− 32 )(− 52 )(− 72 )...( 3−2k
2 )
(1 − x2 ) 2 = 1+ (−1)k x2k .
P 2
k!
k=1

Para a hipérbole retangular x2 − y 2 = 1, temos


∞ 1
− 12 − 32 − 52 − 72 3−2k
1 ( )( )( )( )...( )
(1 + x2 ) 2 = 1+ x2k
P 2 2
k!
k=1

Exemplo 3.12: Para a primeira série, podemos encontrar uma aproximação,

ou uma representação para π por uma série de potência.


83

De fato, sabemos que a área de um círculo é dada por πR2 (Capítulo 1 -

Arquimedes). Para o círculo de raio 1, a área vale π. Quadrando o círculo no intervalo

[0, 1] obtemos
∞ 1
(− 12 )(− 23 )(− 52 )(− 72 )...( 3−2k
2 )
h 1
i
π
= QN01 (1 − x2 ) 2 = 1+ (−1)k 1
P 2
, que nos
4 k! 2k+1
k=1
dá uma representação por série para o valor de π.
Calculemos o valor de π utilizando uma aproximação com oito termos:

7

1
(− 12 )(− 23 )(− 25 )(− 72 )...( 3−2k
2 )
π
(−1)k 1
P 2
4 = 1+ k! 2k+1
k=1

π∼
= 4 1 − 61 − 1 1 5 7 21 33

40
− 112
− 1152
− 2816
− 13312
− 30720
= 3.1597.

3.4 Séries innitas


-

Problema II, proposto por Newton é encontrar a relação F (x, y) = 0, dada a


O
· ·

relação f x, y, x, y = 0, que é equivalente à resolução de equações diferenciais, e análogo

ao cálculo da integral.

Exemplo 3.13: Vejamos como Newton resolve este segundo problema utilizando

as séries de potências. Para isto consideremos a relação entre as uxões [5]


· ·  · · · · ·
f x, y, x, y = ay − yx − xa + xx − xy = 0, que pode ser reduzida a

·
y a−x+y y
f (x, y) = · = a−x
=1+ a−x
.
x

A partir de então ele divide sucessivamente y por a−x, obtendo a representação


em série para f (x, y)
·
y y y yx yx2 yx3 yx4
· =1+ a−x
=1+ a
+ a2
+ a3
+ a4
+ a5
+ ...
x
·
y
Newton resolve essa equação fazendo aproximações sucessivas para · , obtendo
x
a seguinte tabela

L1 1 1 * * * * * *
y x x2 x3 x4 x5
L2 a
*
a 2a2 2a3 2a4 2a5
...
xy x2 x3 x4 x5
L3 a2
* *
a2 2a3 2a4 2a5
...
x2 y x3 x4 x5
L4 a3
* * *
a3 2a4 2a5
...
x3 y x4 x5
L5 a4
* * * *
a4 2a5
...
x4 y x5
L6 a5
* * * * *
a5
...
·
y 3x2 2x3 4 5
+ xa + 5x + 3x
P
· 1 + 2a2 + a3 2a4 a5
...
x
2 x3 x4 x5 x6
y x + x2a + 2a2 + 2a3 + 2a4 + 2a 5 ...

Tabela 6 Método geral de Newton de resolução do Problema II.


84

Para encontrarmos a solução do problema, somamos as linhas da tabela, en-


·
y
contrando uma relação entre · na forma de série de potências dada por
x
·
y x 3x2 2x3 5x5 3x6
· =1+ a
+ 2a2
+ a3
+ 2a4
+ a5
. . ..
x
·
y
De posse da representação acima para· , Newton procede com a solução do
x
Problema II seguindo os passos da Tabela 1, encontrando a solução que segue:

x2 x3 x4 x5 x6
• y =x+ 2a
+ 2a2
+ 2a3
+ 2a4
+ 2a5
. . ..
x2
Podemos reescrever a solução anterior como y =x+ 2(a−x)
.

x2 x2 x3 x4 x5 x6
De fato, colocando
2
em evidência na série
2a
+ 2a2
+ 2a3
+ 2a4
+ 2a5
. . .,
obtemos
 
x2 1 x x2 x3 x4
y =x+ 2 a
+ a2
+ a3
+ a4
+ a5
... .

O que temos dentro dos parenteses é a soma innita dos termos de uma pro-
1
x 1 1
gressão geométrica de razão
a
e primeiro temor igual a , que é igual a
a
a
1− x
= a−x
, para
a
x
−1 < a
< 1. Disto, podemos escrever

x2 1 x2

y =x+ 2 a−x
=x+ 2(a−x)
. Que é a solução encontrada por Newton.

·
y y
A solução geral da equação diferencial · =1+ a−x
é dada por:
x
x2 c
• y =x+ 2(a−x)
+ a−x
.

De fato, como o método da tangente de Newton é equivalente ao método de

Fermat, podemos resolver essa equação diferencial aplicando a propriedade da tangente

do produto de duas funções, como segue

y
TFx (y) = 1 + a−x
.

Multiplicamos essa igualdade por a−x para x 6= a, obtendo a relação

(a − x) TFx (y) − y = a − x.
Como TFX (a − x) = −1, podemos escrever a igualdade

(a − x) TFx (y) − yTFX (a − x) = a − x, que pode ser escrita, pela propriedade

da tangente do produto, como

TFx [y (a − x)] = a − x.
Aplicando a quadratura e o teorema fundamental do cálculo de Fermat, temos

QF {TFx [y (a − x)]} = QF (a − x)
x2
y (a − x) = ax − 2
+ c.
ax x2 c
y= a−x
− 2(a−x)
+ a−x
2ax−x2 c 2ax−2x2 +x2 c
y= 2(a−x)
+ a−x
= 2(a−x)
+ a−x
85

2x(a−x) x2 c
y= 2(a−x)
+ 2(a−x)
+ a−x
x2 c
y =x+ 2(a−x)
+ a−x
x2 c
Desta igualdade, segue que y =x+ 2(a−x)
+ a−x
é a solução geral da equação
·
y y
diferencial · =1+ a−x
.
x

Obtemos uma solução que difere da encontrada por Newton somente para

c 6= 0.
·
y
Newton resolve a equação diferencial · = f (x, y) por um processo dividido em
x
duas partes:

·
y
Encontrar a representação de · = f (x, y) por uma série de potência
x
aplicando algumas regras de construção;

Feito o passo anterior, agora procedemos como feito no caso da solução


x
particular, descrito na Tabela 2, ou seja, multiplicamos por · , onde n
nx
é a dimensão (grau) de x ao multiplicarmos por cada potência presente

de x.
Exemplo 3.14: Encontremos a solução da equação
·
y x 3x2 2x3 5x5 3x6
· =1+ a
+ 2a2
+ a3
+ 2a4
+ a5
. . ..
x

Seguindo os passos descritos anteriormente, temos

· · · · 2 · 3 · 5 · 6
y = x + x xa + x 3x
2a2
+ x 2x
a3
+ x 5x
2a4
+ x 3x
a5
...
y ·
De posse da igualdade acima, multiplicamos · e cada termo da série por, y por
y
x x x x x x
respectivamente, · ; · ; · ; · ; · ; · ; . . ., obtendo a solução procurada
2x 3x 4x 5x 6x 7x
x2 x3 x4 x5 x6
y =x+ 2a
+ 2a2
+ 2a3
+ 2a4
+ 2a5
. . ..
Exemplo 3.15: Vamos utilizar o método da série de potência de Newton para

resolver a equação diferencial

· ·
y − x (1 + y) = 0.
· · · ·
y x y x 1
Escrevendo a equação na forma · ou · obtemos · = 1 +y ou · = 1+y
.
x y x y
Utilizando essa última representação a equação pode ser escrita como
·
x
· = 1
1+y
= 1 − y + y 2 − y 3 + y 4 − y 5 + . . . + (−1)n y n + . . .
y

Reescrevendo esta equação, obtemos

· · · · · · · · ·
1
x = y 1+y = y − yy + yy 2 − yy 3 + yy 4 − yy 5 + . . . + (−1)n yy n + . . ..
Multiplicando, como feito anteriormente, cada lado desta igualdade, respecti-
x y y y y y y
vamente, por · e · ; · ; · ; · ; · ; · ; . . ., a solução procurada é dada pela série
x 2y 3y 4y 5y 6y 7y
y2 y3 y4 y5 y6 y7 y n+1
x=y− 2
+ 3
− 4
− 5
+ 6
− 7
+ . . . + (−1)n n+1
+ . . ..
86

Esta é a série de potência da curva ln (1 + y), logo temos que x = ln (1 + y),


x
que invertendo fornece a solução y =e − 1.
Ao representarmos uma dada curva y = f (x) por uma série de potência,

devemos tomar o cuidado de garantir a convergência da série. Por exemplo, sabemos que
1 2 2 4 5
a curva dada por y = 1−x pode ser representada pela série 1 + x + x + x + x + x + . . .
1
desde que −1 < x < 1. O mesmo ocorre para as curvas 1+x e ln (1 + x). Newton tinha

essa preocupação, mas apenas se dedicou ao uso das séries, sem demonstrar a convergência

das mesmas.

Para ilustrarmos a necessidade da convergência da série de potência, conside-


xn+1 −1
remos 1 + x + x2 + x2 + x4 + x5 + . . . + xn . Esta série tem como soma
1−x
. Tomando

n innitamente grande (n → ∞), esta soma é dada por



 1 , −1 < x < 1
1−x
.
n+1
 x −1 → ∞, x > 1.ou.x < −1
1−x

Não é nosso propósito abordar convergência de séries de potências, entretanto,

pode-se provar a convergência das séries de potências das funções, mencionadas anterior-

mente, pelo critério da razão.

3.5 Quadratura de curvas e a reticação de arcos


-

Abordaremos os conceitos de quadratura de Newton para o cálculo da área

delimitada por uma curva e a reticação de arcos. No primeiro caso, Newton descreve

três regras (análogas ao método de quadratura de Fermat), enquanto na reticação de


· · ·
arcos, Newton relaciona o uxão s do comprimento de arco com as uxões x e y através
q r  · 2
· ·2 ·2 s
·
y
da igualdade s (t) = x (t) + y (t) ou · = 1+ · .
x x

m
Regra I: Se ax n = y , então a área delimitada por esta curva é dada por
m+n
m
m+n
ax n ;
Regra II: Se y = y1 + y2 , então a área delimitada por esta curva é dada

pela soma das áreas de cada curva yi = fi (x) (i = 1; .2);



an xn , então a área delimitada por esta curva é
P
Regra III: Se y =
n=0
dada pelas regras anteriores.

m
A Regra I falha no caso em que
n
= −1, ou, de forma equivalente m = −n,
m
pois teremos algo da forma
0
ax0 = ∞. Nos demais casos (m 6= −n) a regra funciona

como no método de quadratura de Fermat. Observe que esta regra é exatamente a que foi

encontrada pelo método de quadratura de Fermat. Também, observamos que as outras


87

duas são consequências da primeira, guardadas as devidas hipóteses do método de Fermat,

podemos demonstrar suas validades pelo método de Fermat.

A Regra II é verdadeira se as áreas forem nitas. Por exemplo, se tivermos


m
a curva y = ax−1 + bx n , a segunda regra não pode ser aplicada, pois teríamos como
m+n
1 m
resultado uma área dada por
0
ax0 + m+n
bx n .
Poderíamos representar a curva ax−1 = a
x
por uma série de potência deslocada

da origem, e assim realizar a quadratura com a Regra II .


Entretanto, a Regra III pode ser aplicada a qualquer curva que possa ser

representada por uma série de potência. Como exemplos desta regra, Newton toma as
a2

curvas y= b+x
e y= a + x2 , que são representadas, respectivamente, pelas séries


a2 xn
(−1)n
P
bn+1
+ ...
n=0

P 1
(− 12 )(− 32 )(− 52 )(− 72 )...( 3−2n
2 ) x2n
a+ 2
n! a2n−1
− . . ..
n=1

As áreas são dadas pelas séries:


  ∞
a2 1 a2 xn+1
(−1)n
P
QN0x b+x
= n+1 bn+1
+ . . .;
n=0
√  ∞
P 1
(− 21 )(− 32 )(− 25 )(− 72 )...( 3−2n
2 ) 1 x2n+1
QN0x a + x2 = ax+ 2
n! 2n+1 a2n−1
− ...
n=1

Junto com as três regras descritas anteriormente, Newton propõe algumas

curvas. Por exemplo, para a Regra II ele toma a curva y = x2 +x−2 . Se utilizarmos a regra

sem nenhuma restrição, obteremos como resultado a área dada por F (x) = 13 x3 − x−1 .
Entretanto, como observado por Newton [4], quando tomamos x bem próximo de zero, a

área, assim como a curva que deu origem a esta, tornam-se innitas, assim como para x
innitamente grande. Neste caso só podemos encontrar a área em um intervalo [a, b], com
a 6= 0 e b 6= 0. Para realizarmos estes cálculos, Newton indica o seguinte procedimento:

Calculamos a área QN0b (x2 ) sob a curva y1 = x2 no intervalo [0, b] e a


−2 −2
área QNb∞ (x ) sob a curva y2 = x no intervalo [b, ∞];
Calculamos a área QN0a (x2 ) sob a curva y 1 = x2 no intervalo [0, a] e a
−2 −2
área QNa∞ (x ) sob a curva y2 = x no intervalo [a, ∞].

A área QNab (x2 + x−2 ) y = y1 + y2 no


sob a curva intervalo [a, b] é dada por

QN0b (x2 ) − QNb∞ (x−2 ) − QN0a (x2 ) − QNa∞ (x−2 ) .


 

De fato, vamos aplicar a quadratura no intervalo [a, b], obtendo assim uma

função F (x) tal que a área requerida é dada por F (b) − F (a). Disso segue que podemos

escrever essa área como QNab (x2 + x−2 ) = 31 b3 − 1b − 13 a3 + a1 .


88

Observando que QN0b (x2 ) − QNb∞ (x−2 ) = 31 b3 − 1b , também é verdade que


QN0a (x2 ) − QNa∞ (x−2 ) = 31 a3 − a1 , podemos escrever a quadratura da curva y = x2 + x−2
−2 −2 −2
2 2
 2

como QN b (x + x ) = QN b (x ) − QN ∞ (x ) − QN a (x ) − QNa∞ (x ) .
a 0 b 0

Tomando o intervalo [1, 2], obtemos a área igual a

QN12 (x2 + x−2 ) = 8


3
− 12 − 13 + 1 = 17
6
u.a.
Newton não desenvolve um método próprio, mas apenas descreve regras para

que possam ser realizadas as quadraturas de diversas curvas.

A demonstração da Regra I pode ser feita como segue (um pouco diferente da

forma como Newton descreve a sua demonstração em [5]).

Considere z área AABD


\ delimitada pela curva y = f (x), Fig.3.3.

Fig.3.3. Quadratura da curva y = f (x) - Regra I de Newton.

n+m
n
Suponhamos z = m+n
ax n com a 6= 0 e seja o um acréscimo innitamente

pequeno em AB . Da Fig.3.3 obtemos as seguintes relações:

AeBβHK = ov , acréscimo de área; AAβδ ∼ \ +Ae


d = AABD = z+ov ; Aβ = x+o.
BβHK

n n+m
n
n
Reescrevendo z =
m+n
ax n como z n = m+n a xm+n . Esta última relação
pode ser escrita como

n
n
z n = kxm+n , onde k= m+n
a .

Substituindo z por z + ov e x por x+o na igualdade anterior, e utilizando o

binômio de Newton, chegamos à seguinte relação

(z + ov)n = k (x + o)n+m
! !
n n n+m n+m
z n−i (ov)i = k xn+m−j oj .
P P
Para i e j iguais a 0 e 1,
i=0 i j=0 j
obtemos os seguintes termos
89

  
 n n
  z n−i (ov)i

z n + nz n−1 (ov) +

 P




 i=2 i

.

  

 n+m n+m
 xn+m−i (o)i

kxn+m + kxn+m−1 o+
 P

 

 j=2 i
Substituindo esses termos na igualdade original e cancelando zn e kxn+m , pois

são iguais, e depois dividindo cada termo por o e desprezando os termos que ainda são

multiplicados por o, obtemos a igualdade

n n+m
nv zz = (m + n) kx x .

Da relação z n = kxm+n , obtemos, por simplicação, a igualdade

(m+n) z
v= n x
.

n+m m
n
Substituindo z= m+n
ax n obtemos a curva dada por v = ax n .
O resultado anterior foi demonstrado pelo método da quadratura de Fermat.

Ele nos mostra a relação entre o traçado da reta tangente a uma curva e o cálculo da área

delimitada pela mesma. Esta relação cará mais clara fazendo os cálculos pelo método
· ·
das uxões. Observe que se colocarmos no lugar de `o', xo (momento do uente x) e zo
· ·
(momento do uente z ), obteremos os aumentos nos uentes dados por x + xo e z + zo.
n+m
n
Substituindo, como feito anteriormente, nos lugares de z e de x na relação z = m+n
ax n ,
· n
z
obtemos · = ax m . Esta é uma relação entre as uxões, ou seja, diretamente relacionada
x
a resolução do Problema 1 proposto por Newton. Para voltarmos à relação dada entre os

uentes, sabendo a relação anterior, procedemos como no caso particular de solução do

Prolema 2, como segue:


· n · · n
z
· = ax m como z = axx m . Feito isto, proce-
Primeiro escrevemos a relação
x
·z x · n
demos como descrito na Tabela 2, fazemos z · e a n · xx m , obtendo a relação entre os
z ( m +1)x
n+m
n
uentes dada por z = ax m .
(m+n)

O que mostramos, através de um exemplo, assim como feito na primeira parte

deste capítulo com Fermat, foi que os dois problemas propostos por Newton se relacionam

da seguinte forma:
·
· · 
y
F (x, y) = 0 ou y = F (x) é a solução de f x, y, x, y = 0 ou · = f (x);
x
·
y
· = f (x, y) é a tangente à curva F (x, y) = 0 ou y = f (x).
x

Esta relação nada mais é que o teorema fundamental do cálculo, que podemos
·
escrever como F (x) = QN y· = QN {TN [F (x)]}, ou ainda na forma
x
·
h  · i
y
· = TN QN y· = TN {QN [f (x)]}.
x x
90

Ainda não possuímos ferramentas matemáticas sucientes para demonstrar de

forma rigorosa o teorema fundamental do cálculo, mas intuitivamente podemos utilizá-lo

nas curvas que estamos trabalhando, uma vez que é válida essa relação, tanto pelo método

de Fermat, como pelo de Newton, como já vimos.

O cálculo de integrais pode ser utilizado como método de quadratura (cálculo

de área), tanto como para reticação de arcos. Estes dois problemas são reduzidos por

Newton ao problema de encontrar a relação entre os uentes, dada a relação entre as

uxões. E como sabemos nem sempre é possível encontrar a curva solução do Problema

2. Veremos que o uso de séries de potências é uma ferramenta fundamental para se

encontrar a curva solução na forma de série.

Consideremos a curva y = F (x), onde y = y (t)


x = x (t), são uentes no e

tempo. Seja s (t) o comprimento de arco (ou comprimento da curva y = F (x)) percorrido

pelo ponto P = (x (t) , y (t)) em um determinado intervalo de tempo [t0 , t]. Podemos
·
interpretar o uxão s (t) como sendo a velocidade com que o ponto P se move de t0 à t,

Fig.3.4.

Fig.3.4. Reticação de arcos.

· · ·
Sejam x (t)o, y (t)o e s (t)o os momentos das uxões. Do triângulo retângulo

em destaque, obtemos
h· i2 h · i2 h · i2
s (t) o = x (t) o + y (t) o .
· 2
Dividindo por x (t) o , camos com a relação

r
·
  · 2
s y
· = 1+ · .
x x

Dessa relação encontramos que o comprimento de arco é dado por


"r #
h·i  · 2
s y
s = QNab · = QNab 1+ · .
x x

Exemplo 3.16: Calculemos o comprimento de arco, pelo método de quadratura


x2
de Newton, da curva y= 2
de 0 à x. Obtemos
91

√ 
s = QN0x 1 + x2
∞ 1
(− 12 )(− 23 )(− 52 )(− 72 )...( 3−2k
2 ) 1
x2k+1 .
P 2
s = x+ k! 2k+1
k=0

Para x = 1, o comprimento do arco s é dado pela série


∞ 1 − 1 − 3 − 5 − 7 ... 3−2k
2 ( 2 )( 2 )( 2 )( 2 ) ( 2 ) 1
P
s = 1+ k! 2k+1
.
k=0

Consideremos agora a circunferência dada de forma paramétrica por x (t) =


cos (t) e y (t) =sen(t), para 0 ≤ t ≤ 2π .
Encontremos o comprimento de arco s sabendo a relação entre as uxões
q
· ·2 ·2
s (t) = x (t) + y (t), para 0 ≤ t ≤ 2π .
· ·
x (t) = .−sen(t) e y (t) = cos (t)
·2
s (t) = .sen2 (t) + cos2 (t) = 1
· · ·
s
Assim sendo, temos a relação entre · = 1, ou s = t. Utilizando o método de
t
solução particular, temos que o comprimento de arco s é igual a 2π , que é exatamente o

comprimento C = 2πr da circunferência de raio r = 1.

Concluímos este capítulo com um resumo das contribuições de Newton para o

desenvolvimento do cálculo.

Vimos que Newton trabalhou os conceitos do cálculo formulando regras e pro-

cedimentos sistemáticos para ter um maior alcance nas soluções gerais dos problemas

encontrados no uso das grandezas innitesimais do seu tempo. Também percebemos que

muitas dessas regras já haviam sido estabelecidas anteriormente por outros matemáti-

cos. Entretanto, Newton, com essas regras, tornou possível a reformulação de todos os

problemas abordados em sua época.

Uma novidade proposta por Newton foi o uso das séries de potências que

propiciou um aumento na classe de curvas quadráveis pelos métodos já abordados. Um

exemplo é a aplicação do uso de séries na quadratura de curvas assim como na reticação

de arcos, e o uso destas séries na resolução do Problema 2 proposto por ele. Também

estabeleceu a ideia da relação inversa entre encontrar a tangente a uma curva e o cálculo

da área delimitada por ela, conhecido hoje como teorema fundamental do cálculo.
92

Capítulo 4

Cálculo diferencial e integral: Leibniz

O cálculo a partir de Leibniz toma uma nova cara. Com uma notação mais

adequada, Leibniz desenvolve os conceitos do cálculo tomando como ponto de partida

uma grandeza innitamente pequena, denominada de diferencial de uma variável. Esta

diferencial innitamente pequena é dada pela diferença entre dois valores consecutivos

innitamente próximos. A notação utilizada por ele para determinar uma diferencial é

dx, dy, etc, onde a letra d é o operador diferencial. Para a quadratura de uma curva, ou

área delimitada por uma curva (integral), Leibniz tomava a soma das áreas de retângulos

de bases dx = |xn − xn−1 | e alturas iguais às ordenadas yn da curva, ou seja, ele dene a

diferencial da área delimitada pela curva como dA = yn dx.


x, y , z , etc, é dada por dx = dxn = xn −xn−1
A diferencial (d) de uma grandeza

ou dy = dyn = yn −yn−1 . Se y = F (x), denimos dx = const., ou seja, as abscissas formam

uma progressão aritmética de razão dx.

Discutiremos os conceitos do cálculo neste capítulo, assim como feito nos ca-
dy

pítulos anteriores, com uma nova notação para a denição de tangente (razão entre
´ dx
as diferenciais) e de integral (um s alongado para indicar soma das diferenciais de
´
áreas). Abordaremos a relação entre a diferencial d e a integral , uma nova notação

para o teorema fundamental do cálculo. Estudaremos os conceitos de derivada e integral


dn y
de ordem superior. Utilizaremos a notação de Leibniz para a derivada de ordem su-
dxn
perior, para n natural, e deniremos o operador integral de ordem superior como sendo
n
´x
I [f (x)] = |I ◦ I ◦{z. . . ◦ I} [f (x)] para o operador integral I = 0 f (t) dt.
n
Iniciaremos nossas discussões a partir da denição de diferencial de uma gran-

deza, demonstrando suas propriedades operacionais, passando pelo método da tangente e

o método de quadratura de Leibniz. Discutiremos, mais uma vez, o teorema fundamental

do cálculo e sua aplicação ao método de integração por partes e ao cálculo de áreas e vo-

lumes delimitados por curvas. E por m, faremos uma prévia sobre o cálculo fracionário,

a ser discutido no capítulo seguinte, com a introdução da integral e derivada de ordem n.


93

´∞
Discutiremos as propriedades da função gama Γ (α) = 0
xα−1 e−x dx para α ≥ 0 ∈ R.

4.1 As diferenciais dy e dx de Leibniz


-

A base dos conceitos do cálculo de Leibniz é sustentada nas grandezas inni-

tamente pequenas dy e dx, denominadas por Leibniz de diferenciais. Estas grandezas são

denidas no lugar do `E' de Fermat e do momento innitamente pequeno `o' de Newton.

Em relação às operações de soma e subtração com grandezas nitas admitimos,

como feito no Capítulo 1, que x ± dx ∼


= x e y ± dy ∼
= y, para x e y nitos. E no que

diz respeito a razão entre estas duas diferenciais, e a soma ou subtração delas, podemos

compará-las, visto que ambas podem ser consideradas da mesma ordem de grandeza.
dy
Então, fazem sentido as relações
dx
e adx + bdy , para quaisquer grandezas a e b nitas. E
dy
mais, geometricamente podemos considerar a razão como sendo o mesmo que a razão
dx
·
y f (x+e)−f (x)
· entre as uxões de Newton, e a tangente de Fermat e
, conforme Fig.4.1.
x

Fig.4.1. Diferenciais de Leibniz.

A reta que contém o segmento de reta innitamente pequeno ds pode ser

tomada como a reta tangente à curva em x, cujo o coeciente angular é dado pela razão
dy
. A partir de agora chamaremos esta razão de derivada no ponto x0 da curva y = f (x)
dx
dy
e escreveremos | . Por exemplo, a reta tangente à curva y = f (x) no ponto x = x0 é
dx x0
dy
dada por y − f (x0 ) = | (x − x0 ).
dx x=x0

Também podemos tirar da gura acima que a diferencial


q ds se relaciona com

as diferenciais dx e dy pela igualdade ds = (dx)2 + (dy)2 , relação análoga a dada por

Newton [5]. Esta notação nos sugere uma aproximação da curva por pequenos segmentos

de reta ds, a soma de todos os ds0 s se aproxima cada vez mais do comprimento da curva

em um intervalo [a, x], que é exatamente a reticação de curvas denida por Newton,

apenas com uma outra notação.

Prosseguiremos com o estudo do cálculo de Leibniz, começando com as demons-

trações das propriedades operacionais para o operador diferencial d. Para isto, considere-

mos um número natural n e x = xn = xn−1 + dx, a sequência das abscissas equidistantes,


94

e y = yn = F (xn ) a sequência das ordenadas de uma curva na forma y = F (x) ou


F (x, y) = 0. Denimos as diferencias dx = dxn = xn − xn−1 e dy = dyn = yn − yn−1 , e ad-
mitimos que x = xn ∼= xn−1 e y = yn ∼= yn−1 , ou seja, as coordenadas estão innitamente
próximas, disto seguem as seguintes propriedades:

1. Se y = F (x) = a = const., então dy = 0. De fato,

yn = F (xn ) = a
yn−1 = F (xn−1 ) = a
dy = yn − yn−1 = a − a = 0.
2. Linearidade: d (ay + bx) = ady + bdx.
d (ay + bx) = ayn + bxn − (ayn−1 + bxn−1 )
d (ay + bx) = a (yn − yn−1 ) + b (xn − xn−1 )
d (ay + bx) = ady + bdx.
3. Produto: d (y · x) = ydx + xdy .
d (y · x) = yn · xn − yn−1 · xn−1
d (y · x) = yn · xn − yn−1 · xn−1 + xn−1 · yn − xn−1 · yn
d (y · x) = yn (xn − xn−1 ) + xn−1 (yn − yn−1 ) = ydx + xdy
| {z } | {z }
dx dy

4. Seja dx = const. e d2 x = d (dx), então d2 (x) = 0.


dx = xn − xn−1 = xn−1 − xn−2 = . . . = x1 − x0
d (dx) = dx − dx = 0.
1
= − x12 dx

5. Inverso multiplicativo: d x
para todo x 6= 0. Para vermos isto
1
escrevemos y= x
.

xy = 1
d (xy) = d (1)
ydx + xdy = 0
xdy = −ydx
xd x1 = − x1 dx


d x1 = − x12 dx.

y xdy−ydx

6. Quociente: d = .
x x2

Fazendo ux = y e da propriedade (3) obtemos o resultado desejado;

7. d (xn ) = nxn−1 dx, para todo natural n ≥ 1;


De fato, por indução sobre n obtemos
95

Para n=1 e n=2


d (x) = dx
d (x2 ) = d (x · x) = xdx + xdx X
d (x2 ) = 2xdx.
Hipótese de indução: Suponhamos que para algum n vale d (xn ) = nxn−1 dx;
Tese: d (xn+1 ) = (n + 1) xn dx. Logo para todo número natural n temos

d (xn ) = nxn−1 dx.


xn+1 = xn · x
d (xn · x) = xn dx + xd (xn )
d (xn+1 ) = xn dx + nx · xn−1 dxx
d (xn+1 ) = (n + 1) xn dx X. Assim sendo, ca provado que vale para todo

natural n ≥ 1.
8. d (x−n ) = −nx−n−1 dx.
Seja y = x−n
yxn = 1, Aplicamos as propriedades (1), (3) e (7)

d (x−n ) = −nx−n−1 dx
 p p−q
9. d x q = pq x q dx para todos os números p e q 6= 0 inteiros.

p
De fato, tomando y = xq , então y q = xp
qy q−1 dy = pxp−1 dx (propriedade 6)

p−1
dy = pq xyq−1 dx
 p p−1 p−q
d x q = pq xp− pq dx = pq x q dx.
x
dF (u)
10. Sejam y = F (u) uma curva composta e u = f (x), então vale dy = du
du.
Em particular se u(x) = x, temos dy = dFdx(x) dx.
De fato, podemos escrever

dy = F (un ) − F (un−1 )
du = un − un−1
F (un )−F (un−1 )
dy = (un −un−1 )
(un − un−1 )
dF (u)
dy = du
du.
96

11. Denimos a diferencial de ordem n como

dn (y) = d
| ◦ d ◦ d{z◦ . . . ◦ d} (y).
n.vezes

A diferencial de ordem n, com n natural, da curva y = xk , é dada por

dn xk = k (k − 1) (k − 2) . . . (k − n + 1) xk−n (dx)n


E para k=n temos dn (xn ) = n! (dx)n e dn+1 (xn ) = 0.


De fato, basta aplicar indução sobre n.
12. Sejam yn = f (xn ) e y0 = f (x0 ), então dado dy = yn − yn−1 , temos que o
Pn
somatório de dy = yn − y0 = f (x) − f (x0 ).
k=1

Isto ocorre do fato de


n
P n
P
dy = (yk − yk−1 )
k=1 k=1
n
P n
P n
P
dy = yk − yk−1
k=1 k=1 k=1
n
P n−1
P n−1
P
dy = yn − y0 + yk − yk
k=1 k=1 k=1
n
P
dy = yn − y0 .
k=1

Vamos, agora, aplicar algumas dessas propriedades nos exemplos que seguem.

Exemplo 4.1: Seja y1 = F (x + α) e y2 = F (αx), então:

dF (x+α)
i) dy1 = dx
dx;
ii) dy2 = α dFdx
(xα)
dx.

De fato, basta aplicar a propriedade 10 com u1 (x) = α + x e u2 (x) = αx.


2

Exemplo 4.2: Consideremos a curva y = x (ou y = x) para x > 0. Aplicando
1
o operador diferencial d a esta curva, obtemos dy = √ dx.
2 x

De fato,

d (y 2 ) = dx
2ydy = dx
1
dy = 2y
dx
1
dy = √
2 x
dx
Exemplo 4.3: Seja y = x6 − 5x4 + 3x2 + 5, então

d4 (y) = d4 (x6 − 5x4 + 3x2 + 5)


d4 (y) = d4 (x6 ) − 5d4 (x4 ) + 3d4 (x2 ) + d4 (5)
97

d4 (y) = 6 · 5 · 4 · 3x2 dx4 − 5 · 4 · 3 · 2 · 1dx4 + 0 + 0


d4 (y) = (360x2 − 120) dx4 .
Passemos, agora, a discutir o método da tangente de Leibniz.

4.2 A tangente à curva y = f (x): método de Leibniz


-

Consideremos a Fig.4.2.

Fig.4.2. Método da tangente à curva y = f (x) de Leibniz.

Análogo ao que foi feito por Fermat e Newton, a tangente à curva y = f (x) é
dy f (x+dx)−f (x)
dada por
dx
= dx
, que é equivalente à tangente de Fermat e de Newton.

De fato, da semelhança dos triângulos 4ABC e 4AED , obtemos

y1 f (x)
t+dx
= t
t+dx
y1 = t
f (x)
Também temos que

y1 > f (x + dx)
t+dx
t
f (x) > f (x + dx)
t
f (x) > t+dx
f (x + dx).
Desta desigualdade concluímos que y = f (x) tem valor mínimo quando

t
f (x) = t+dx
f (x + dx)
dx
t= f (x+dx)−f (x)
f (x).
A tangente à curva y = f (x) é dada por

f (x) f (x+dx)−f (x)


AC = t
= dx

Como f (x + dx) = f (x) + dy , obtemos que


98

f (x+dx)−f (x) y+dy−y dy


AC = dx
= dx
= dx
, logo são válidas as igualdades

f (x) dy f (x+dx)−f (x)


AC = t
= dx
= dx
.

Esta igualdade pode ser escrita como

dy df (x) f (x+dx)−f (x)


dx
= dx
= dx
.

dy df (x) f (x+dx)−f (x)


Denotemos de derivada de uma curva a razão
dx
= dx
= dx
que nos

dá o coeciente angular (tangente), ou inclinação, da reta tangente à curva y = f (x) em

x0 . A equação da reta tangente é dada por

dy
y − y0 = |
dx x=x0
(x − x0 ).
Exemplo 4.4: Para encontrar a tangente ao folium de Descartes pelo método

de Leibniz, aplicamos a diferencial d a curva x3 + y 3 − 3nxy = 0, obtendo

3x2 dx + 3y 2 dy − 3nydx − 3nxdy = 0


(3x2 − 3ny) dx + (3y 2 − 3nx) dy = 0
(3y 2 − 3nx) dy = − (3x2 − 3ny) dx
dy 2
−3ny
dx
= − 3x
3y 2 −3nx
dy −x2 +ny
dx
= y 2 −nx
.

Exemplo 4.5: As derivadas das curvas y = .sen(θ) e x = cos (θ) são dadas por

d
sen(θ) = cos (θ)

d

cos (θ) = −sen(θ).
De fato, consideremos a circunferência de raio 1 conforme Fig.4.3.

dx dy
Fig.4.3. Cálculo de e .
dθ dθ

π
de onde segue x = cos (θ) e y = .sen(θ) para 0<θ< 2
.

Da geometria da Fig.4.3 temos

dy
y = .sen(θ) > 0, x = cos (θ) > 0 e
dx
<0
dy > 0, dx < 0, dθ = dθn = θn − θn−1 = const. > 0.
Aplicando a diferencial d na curva x2 + y 2 = 1 obtemos
99

xdx + ydy = 0
Consideremos a diferencial do arco ds = dθ, e da Fig.4.3 segue que

(dθ)2 = (dx)2 + (dy)2


Da igualdade xdx + ydy = 0, obtemos

dx = − xy dy
y2
(dx)2 = (dy)2
x2
 2 2
(dθ)2 = x +y
x2
(dy)2
|dy| = |x| |dθ|
dy = xdθ
dsen(θ) = cos (θ) dθ
d
sen(θ) = cos (θ).

De forma análoga, obtemos
dx
= |y|

dx = −ydθ
dx = −sen(θ) dθ
d

cos (θ) = −sen(θ).
Exemplo 4.6: De posse do resultado anterior, podemos calcular as tangentes

(ou derivadas) das curvas trigonométricas

tan (θ)
sec (θ) = 1/ cos (θ)
cossec(θ) = 1/sen(θ).
d(tan(θ))
Por exemplo

= sec2 (θ).
De fato, dado que tangente é denida como a razão entre o seno e o cosseno.

Denotando y1 =sen(θ) y2 = cos (θ),


e obtemos, aplicando a propriedade (6), a diferencial
 
d [tan (θ)] = d yy12
y2 d(y1 )−y1 d(y2 )
d [tan (θ)] = y22

Calculando d (y1 ) e d (y2 ) obtemos

dy1 = d[sen(θ)]= cos (θ) dθ


dy2 = d [cos (θ)] = −sen(θ) dθ.
Das igualdades anteriores, obtemos
100

y2 d (y1 ) − y1 d (y2 ) = cos (θ) cos (θ) dθ−sen(θ)[−sen(θ)dθ]


y2 d (y1 ) − y1 d (y2 ) = [cos2 (θ) +sen2 (θ)]dθ
y2 d (y1 ) − y1 d (y2 ) = dθ
y2 d(y1 )−y1 d(y2 )
Substituindo em d [tan (θ)] = y22
, camos com

d[tan(θ)] 1

= cos2 (θ)
= sec2 (θ).
Com esta nova abordagem da tangente a uma curva, vemos que os cálculos

se tornam mais simples quando utilizamos as diferenciais de Leibniz e suas propriedades.

Por exemplo, para encontrarmos a tangente à curva dada por y = x−n basta aplicarmos a
dy −n−1
propriedade (7), encontrando facilmente
dx
= −nx . Entretanto ainda não é suciente

para o cálculo da tangente de uma curva em geral, por exemplo, ainda não temos como
x
calcular a tangente à curva dada por y1 = ln
  (x) ou y2 = e . Para calcularmos a diferencial

d [ln (x)] = ln (xn ) − ln (xn−1 ) = ln xxn−1


n
necessitamos de uma hipótese a respeito da

curva ln (1 + x) que ainda não demonstramos. Esta hipótese é da representação desta

curva pela série


P (−1)k+1 k x2 x3 x4 x5
k
x =x− 2
+ 3
− 4
+ 5
+ . . ..
k=0

Exemplo 4.7: Suponhamos que seja verdade a igualdade anterior para


 x no

xn
intervalo ]−1, 1[. Podemos substituir xn = xn−1 + dx na igualdade d [ln (x)] = ln xn−1
,
 
dx dx
obtendo d [ln (x)] = ln 1 + xn−1
. Fazendo x = xn−1
na representação por série de

ln (1 + x), obtemos
∞  k
dx
P (−1)k+1 dx
d [ln (x)] = xn−1
+ k xn−1
k=2
 k
dx dx
Para k ≥ 2 os termos
xn−1
são estritamente menores que o termo
xn−1
,

visto que dx é innitamente pequeno. Disto podemos admitir que o somatório


∞  k
P (−1)k+1 dx dx
pode ser desprezado, quando comparado com . Logo,
k xn−1 xn−1
k=2
podemos escrever

dx
d [ln (x)] = xn−1
d[ln(x)] 1 1
dx
= xn−1
= x
.

d[ln(x)] 1
Exemplo 4.8: Tomando como hipótese que
dx
= x
, podemos encontrar as

derivadas das curvas y =ex e y =e−x como segue:

A curva y =e−x pode ser escrita como

ln y = lne−x = −x.
Aplicando a diferencial em ambos os lados, obtemos

d (ln y) = d (−x)
101

1
y
dy = −dx
dy
dx
= −y .
d −x
dx
e = −e−x .
De forma análoga, encontramos, para a curva y =ex
d(ex )
dx
=ex .
Para encontrar máximos e mínimos de uma curva, assim como Fermat, Leibniz
dy
impunha que
dx
= 0.
Exemplo 4.9: Encontremos o valor mínimo atingido pela curva y = x2 − 4x.
dy = d (x2 − 4x) = 0
dy = (2x − 4) dx = 0
dy
dx
= 2x − 4 = 0, que nos dá x = 2.
Para este valor temos y = f (2) = 4 − 8 = −4.
Exemplo 4.10: Vamos mostrar, mais uma vez, que o retângulo de área máxima

que tem perímetro p = const. é um quadrado, procedemos da seguinte maneira:

Sejam x e y os lados desse retângulo. A área é dada por

p p
A = x · y, e como x+y = 2
, temos y= 2
− x.
Substituindo, encontramos a expressão para a área que é escrita como

A (x) = p2 x − x2 .
Calculando dA (x) obtemos
dA (x) = p2 − 2x dx.


dA(x) p p p
dx
= 2
− 2x. Igualando esta expressão a zero obtemos x= 4
e y= 4
. Logo

o retângulo pedido é um quadrado.

p dA
Observemos que para
4
x<
a tangente é positiva, ou seja,
dx
> 0, logo A (x)
p dA
é crescente, e para x > a tangente é negativa, ou seja, < 0, logo A (x) é decrescente.
4 dx
p dA
E no ponto x = temos = 0. Disto segue que
4 dx
p
+ dx < A p4
 
A 4

A p4 − dx < A p4
 

x = p4 , A p4 é máxima.

102

4.3 Quadratura de curvas e reticação de arcos


-

Assim como os símbolos de diferenciais dx, dy, etc, criadas por Leibniz, temos
´
também o símbolo de integral ` ', que o mesmo criou, para denotar somatório. Esse

símbolo de integral satisfaz as seguintes propriedades

´ ´ ´
Propriedade 1: (x + y) = x + y ;
´ ´
Propriedade 2: αy = α y , para α = constante.
Para o cálculo da área delimitada por uma curva (quadratura), Leibniz seguiu

o mesmo critério de Fermat, porém ao invés de utilizar retângulos com base na forma

de uma progressão geométrica decrescente, ele tomava retângulos de base constante e

innitamente pequena igual a dx e altura igual a y = yn , obtendo uma área innitamente


pequena, ou a diferencial da área, denotada por dA = ydx, como mostra a Fig.4.4.

Fig.4.4. Método da Quadratura de Leibniz.

Cada retângulo tem área dada por ydx. A soma de todos os retângulos, de
´x ´x
0 à x, nos dá uma aproximação da área A = 0 ydx, ou A = 0 f (x) dx, onde y é a
ordenada da curva que delimita a área no intervalo [0, x]. De forma análoga, podemos

calcular a área delimitada pela curva y = f (x), no intervalo [x0 , x], pela integral denida
´x
x0
f (x) dx.
´
Tomando A = ydx, pela denição de diferencial, temos que a
´
dA = d ydx
dA = ydx.
Podemos escrever a relação anterior como

dA d
´
dx
= dx
ydx
dA
dx
= y.
Exemplo 4.11: Suponhamos que a área abaixo de uma curva, no intervalo [0, x],
k
´
seja dada por A=x . Sendo A= ydx, encontremos a curva y = f (x) que delimita esta
área.
103

A diferencial da área é dada por


 ´
dA = d xk , como dA = d ydx = ydx, temos

k

ydx = d x
ydx = kxk−1 dx
y = kxk−1 .
Então a curva que delimita uma área igual a xk é dada por y = f (x) = kxk−1 .
´
Exemplo 4.12: Agora, seja a curva y = x2 , e seja a área A = ydx, então
´
A= x2 dx
dA = x2 dx
dA − x2 dx = 0
Podemos escrever

3x2 dx
x2 dx = 3

x2 dx = 31 (3x2 dx), da propriedade 7, obtemos

x2 dx = 13 d (x3 ).
Da igualdade acima, temos

dA − 13 d (x3 ) = 0, da propriedade 2,
d A − 13 x3 = 0, pela propriedade 1,


A − 13 x3 = k , k constante

A = 31 x3 + k .
Disto concluímos que a área é dada por

A = 31 x3 + k .
Se tomarmos a área no intervalo [0, x], teremos

A = 31 x3 .
Em geral, dada a área A (x) = F (x), e seja a diferencial de área dada por
dA (x) = ydx, para encontrarmos a curva y = f (x), cuja a área sob esta curva é dada
por F (x), calculamos a diferencial da área e igualamos a área do retângulo de base dx e

altura y .

Seja a diferencial de área, ou retângulo, de área igual a yn dx e a seguinte soma


n
P n
P ´x
yn dx = f (xn ) dx. Tomando essa soma igual a integral x0 f (xn ) dx, temos que a
k=0 k=0 ´x
área abaixo da curva no intervalo [x0 , x] é dada por A (x) − A (x0 ) = f (xn ) dx.
x0
104

Geralmente, dada A (x), a área delimitada por uma curva no intervalo [x0 , x]
e dA (x) = A (xn ) − A (xn−1 ) = yn dx, então a área abaixo da curva no intervalo [x0 , x] é
´x
calculada como
x0
f (xn ) dx = A (x) − A (x0 ).
De fato, seja a Fig.4.5.

Fig.4.5. A integral de Leibniz.

Seja A (x) a área sob a curva y = f (x). Tomemos a diferencial de área

dA (x) = A (xn ) − A (xn−1 ) = yn dx. Aplicando o somatório de ambos os lados

desta igualdade, podemos escrever


n
P n
P n
P
[A (xk ) − A (xk−1 )] = A (xk ) − A (xk−1 )
k=1 k=1 k=1
n−1
P n
P
A (xn ) + A (xk ) − A0 − A (xk−1 )
k=1 k=2
n
P
[A (xk ) − A (xk−1 )] = A (xn ) − A (x0 )
k=1
n
P
A (xn ) − A (x0 ) = yk dx.
k=1
´
Utilizando o símbolo de integral no lugar do somatório, e xn = x, obtemos

a igualdade
´x
A (x) − A (x0 ) = x0
f (x) dx.
Este resultado nos mostra que existe uma curva F (x) = A (x), tal que
´x
F (x) = F (x0 ) + x0
f (x) dx.
´
Agora vamos supor que desejamos calcular a integral f (x) dx, a chamada

integral indenita. A curva obtida é dada por

´
f (x) dx = F (x) + constante.

Esta igualdade nos dá uma família de curvas como solução da integral.


105

A integral também é uma ferramenta que nos proporciona calcular o compri-

mento de uma curva no intervalo [x0, x]. Geometricamente, o que temos é a soma das

diferenciais ds do comprimento da curva.

2 32
Exemplo 4.13: Sejam a curva y = 3
x , denida para todo x > 0, e ds o

diferencial do comprimento da curva. A curva denida no intervalo


h i [0, x] tem comprimento
3
2 2
igual a
3
(x + 1) −
2
3
u.c.
De fato,
 
2 32
dy = d 3
x
3 1
dy = 3
2
· 23 x 2 −1 dx = x 2 dx.
A diferencial do comprimento da curva s, ds, é dado por
q
ds = (dx)2 + (dy)2 .
1
dy = x 2 dx em ds, obtemos
Substituindo
r  1 2 √
2
ds = (dx) + x 2 dx = 1 + xdx.

Uma vantagem da notação de Leibniz é poder realizar a substituição de variá-

veis e de diferenciais.

Na relação ds = 1 + xdx podemos fazer a substituição u = x + 1, logo a

diferencial dx = du. Disto segue que


√ √
ds = 1 + xdx = udu e 1 ≤ u ≤ x + 1
´ ´ x+1 √ 3
h 3
i
s = ds = 1 udu = 23 u 2 |x+1
1 = 2
3
(x + 1) 2 − 2 u.c.
3

Exemplo 4.14: Mostremos que o comprimento de uma circunferência de raio a


é dado por C = 2πa.
Considere a equação da circunferência na forma paramétrica

x = a cos (θ) e y = asen(θ), para 0 ≤ θ ≤ 2π .

Fig.4.6. Comprimento da circunferência de raio a.


106

A diferencial do arco de circunferência é dada por


q
ds = (dx)2 + (dy)2
dx = −asen(θ)
dy = a cos (θ)
ds2 = [a2 sen2 (θ) + a2 cos2 (θ)]dθ2
ds2 = a2 [sen2 θ + cos2 (θ)]dθ2 .
ds2 = a2 dθ2 .
ds = adθ, pois a>0 e dθ > 0.
O comprimento total do arco é dado pela integral
´ ´ 2π
s= ds = 0
adθ = aθ|2π
0 = 2πa.

4.4 O teorema fundamental do cálculo


-

A relação entre o traçado da tangente (cálculo de derivada) e o cálculo da área

delimitada por uma curva são operações inversas, como visto nos dois capítulos anteriores.

Com a notação empregada por Leibniz esta relação se torna mais visível. Por exemplo,
´
sendo a área delimitada por uma curva dada pela integral F (x) = f (x) dx, a diferencial
´
desta área é dada por dF (x) = d f (x) dx = f (x) dx. Esta igualdade pode ser escrita
dF (x) d
´
como
dx
= f (x) dx = f (x). Isto nos mostra que se a área é dada pela curva F (x),
dx
então a derivada de F (x) é a curva que delimita a área F (x). Agora considere a área

sobre a curva da Fig.4.7, seja dF (x) = F (xn ) − F (xn−1 ) = f (xn ) dx a diferencial da área

delimitada pela curva y = f (x) no intervalo [x0, x], então a área total neste intervalo é

dada por
´x
F (x) − F (x0 ) = x0
f (x) dx.

Fig.4.7. Teorema fundamental do cálculo.


107

n
P n
P
De fato, a soma [F (xk ) − F (xk−1 )] = f (xk ) dx nos dá uma aproximação
k=1 k=1
da área delimitada pela curva da Fig.4.7, que admitindo dx innitamente pequeno, esta

aproximação ca mais precisa. O somatório da esquerda é igual a F (x) − F (x0 ) e o da


´x
direita é a integral
x0
f (x) dx. Juntando esta conclusão com a anterior, temos o teorema
fundamental do cálculo de Leibniz:

´x
i) F (x) = F (x0 ) + x0 f (x) dx, a área limitada
Dado

pela curva y = f (x) no intervalo [x0 , x], então a curva


´
y é dada por dFdx(x) = dx
d
f (x) dx = f (x).
ii) Em contra partida, seja a curva y = f (x), a área
limitada por esta curva no intervalo [x0 , x] é dada pela
´x
curva F (x) = F (x0 ) + f (x) dx.
x0

Exemplo 4.15: Uma aplicação direta do teorema fundamental do cálculo é no

método de integração por partes.

Da propriedade (3) temos que dadas as curvas y1 = u (x) e y2 = v (x), então

d (uv) = udv + vdu.


Integrando esta igualdade, obtemos
´b ´b ´b
a
d (uv) = a
udv + a
vdu.
´b
a
d (uv) = uv|ba , disto segue que
´b ´b
a
udv = uv|ba − a
vdu.
´π
Exemplo 4.16: Calculemos a integral
0
2
xsen(x) dx por partes.

Sejam

u = x, então du = dx,
dv =sen(x) dx, logo
´ ´
dv = sen(x)dx
v = − cos (x).
´b ´b
Substituindo na integral
a
udv = uv|ba − a
vdu, obtemos
´π π ´π
0
2
xsen(x) dx= uv|02 − 2
0
vdu
´π π ´π
0
2
xsen(x) dx= −x cos (x) |02 + 0
2
cos (x) dx
´π π

0
2
xsen(x) dx= 0+sen(x) |02
´π
xsen(x) dx =sen π2 −sen(0) = 1 − 0 = 1.

2
0
108

4.5 Propriedades da integral de Leibniz


-
´x
Seja o intervalo [x0 , x] e dado um ponto x1 ∈ [x0 , x], a integral
x0
f (x) dx
pode ser calculada como:
´x ´ x1 ´x
x0
f (x) dx = x0
f (x) dx + x1
f (x) dx.
Geometricamente, estamos dizendo que a área total delimitada pela curva

y = f (x) no intervalo [x0 , x] pode ser calculada dividindo o intervalo em dois intervalos

[x0 , x1 ] e [x1 , x], tais que se [x0 , x] = [x0 , x1 ] ∪ [x1 , x], então a área é dada por
´ x1 ´x
x0
f (x) dx + x1
f (x) dx.

De fato, pelo teorema fundamental do cálculo, temos:


´x
F (x1 ) − F (x0 ) = x01 f (x) dx
´x
F (x) − F (x1 ) = x1 f (x) dx
Somando estas duas igualdade, obtemos
´x ´x
F (x1 ) − F (x0 ) + F (x) − F (x1 ) = x01 f (x) dx + x1 f (x) dx
´x ´x
F (x) − F (x0 ) = x01 f (x) dx + x1 f (x) dx
´x ´x ´x
F (x) − F (x0 ) = x01 f (x) dx + x1 f (x) dx = x0 f (x) dx. Desta igualdade

segue a propriedade.

Exemplo 4.17: Consideremos a Fig.4.8.

Fig.4.8. Cálculo da área no intervalo [x0 , x] = [x0 , x1 ] ∪ [x1 , x2 ] ∪ [x2 , x].

´ x1 ´ x2 ´x
AT = x0
f (x) dx − x1
f (x) dx + x2
f (x) dx é a área total delimitada pela

curva y = f (x).
109

De fato, da Fig.4.8, temos que a área A2 < 0, logo para esta área temos que
−A2 > 0. A área total é a soma AT = A1 − A2 + A3 . Esta área pode ser calculada

integrando a curva no intervalo [x0 , x] = [x0 , x1 ] ∪ [x1 , x2 ] ∪ [x2 , x].

Em cada intervalo temos


´ x1 ´ x2 ´x
A1 = x0
f (x) dx, A2 = x1
f (x) dx e A3 = x2
f (x) dx.
Das igualdades acima segue que a área no intervalo [x0 , x] é dada pela expressão
´ x1 ´ x2 ´x
AT = x0
f (x) dx − x1
f (x) dx + x2
f (x) dx.
Exemplo 4.18: Calculemos a área delimitada pela curva y = x3 no intervalo

[−1, +1]. A integral neste intervalo é nula.


´ +1 x4 +1 1 1
De fato, integrando, obtemos
−1
x3 dx = |
4 −1
= 4
− 4
= 0?
O que ocorreu neste exemplo foi que a curva é simétrica em relação a origem,

e a área delimitada pela curva y = x3 no intervalo [−1, 0] é igual a área no intervalo [0, 1],
porém a primeira tem valor negativo. Isso nos faz reetir que não podemos calcular a área

diretamente pelo teorema fundamental do cálculo neste caso, visto que a curva é y≤0
para x ∈ [−1, 0]. Quando isto ocorre, utilizamos a propriedade anterior para um ponto

x1 onde a curva intercepta o eixo das abscissas e calculamos as áreas separadamente e

depois a soma dos valores absolutos das integrais encontrada nos dará a área total.

No caso do exemplo y = x3 no intervalo [−1, +1], tomamos os intervalos [−1, 0]


e [0, +1]e calculamos as integrais
´0 1
´ +1 3
−1
x 3
dx = − 4
e
0
x dx = 14 . A área pedida é igual a:
´0 ´ +1
− −1 x3 dx + 0 x3 dx = − − 14 + 14 = 12


1
Exemplo 4.19: O volume de um cone é dado por
3
πr2 h.
De fato, consideremos a Fig.4.9.

Fig.4.9. Volume do cone.

Consideremos a diferencial do volume dv = πx2 dy , uma vez que o volume


y
do cilindro innitesimal é dado pela área do círculo de raio x = vezes a altura dy .
a
Aplicando o teorema fundamental do cálculo, obtemos
110

´ ´h 2
v= dv = 0
π ay2 dy
1
v= 3a2
πy 3 |h0
1
v= 3a2
πh3 .
h
Como y = ax e a= r
(coeciente angular), temos

1 r2
v= 3 h2
πh3 = 31 πr2 h.
Em geral, para se calcular o volume de um sólido de revolução, obtido pela

rotação de uma curva em torno do eixo x ou y, basta aplicar uma das fórmulas que

seguem:
´d
1) v= c
π [x (y)]2 dy , se o eixo de rotação for o eixo y.

Fig.4.10. Volume do sólido gerado pela rotação em torno de y.

No caso em que o eixo de rotação é o eixo x, temos a seguinte situação conforme


Fig.4.11.
´b
2) v= a
π [f (x)]2 dx, se o eixo de rotação for o eixo x;

Fig.4.11. Volume do sólido gerado pela rotação em torno de x.


111

Em geral, dada uma região, conforme Fig.4.12.

Fig.4.12. Região S entre as curvas.

O volume do sólido gerado pela rotação da região S delimitada pelas curvas

y1 = f (x) ey2 = g (x) é dado por:


´d 
π [x2 (y2 )]2 − [x1 (y1 )]2 dy , se o eixo de rotação for o eixo y .

3) v =
c
´b 
π [f (x)]2 − [g (x)]2 dx, se o eixo de rotação for o eixo x.

4) v =
a

4.6 A integral de ordem superior e a função gama


-

4.6.1 A integral de ordem superior


-
´x
Seja o operador integral denido por I [f (x)] = 0
f (t) dt, a integral de ordem
n pode ser escrita como:
´x´x ´x ´x
I n [f (x)] = 0 0
...
0
f (t) dt . . . dtdt = 1
(n−1)! 0
(x − t)n−1 f (t) dt .

2
´x´x
De fato, seja I [f (x)] = f (t) dtdt, disto segue que
0 0
´ x ´ x 
I 2 [f (x)] = 0 0 f (t) dt dt, que integrando por partes nos leva a
´x
u = 0 f (t) dt, du = f (t) dt.
dv = dt, v = t
´x
I 2 [f (x)] = v · u|x0 − 0 vdu
´x ´x
I 2 [f (x)] = t · 0 f (t) dt|x0 − 0 tf (t) dt
´x ´x
I 2 [f (x)] = x · 0 f (t) dt − 0 tf (t) dt
´x
I 2 [f (x)] = 0 (x − t) f (t) dt
3
´x´x´x
F açamos o mesmo para I [f (x)] = f (t) dtdtdt que pode ser escrita
0 0 0
como
112

I 3 [f (x)] = I {I 2 [f (x)]}
´ x ´ x 
I 3 [f (x)] = 0 0 (x − t) f (t) dt dt
De forma análoga, temos
´x
u = 0 f (t) dt, du = f (t) dt
2
dv = (x − t) dt, v = xt − t2
´x
I 3 [f (x)] = v · u|x0 − 0 vdu
 ´ ´x 
2 x 2
I 3 [f (x)] = xt − t2 0 f (t) dt|x0 − 0 xt − t2 f (t) dt,
2 ´x ´x 2

I 3 [f (x)] = x2 0 f (t) dt − 0 xt − t2 f (t) dt,
´xh 2  2
i
I 3 [f (x)] = 0 x2 − xt − t2 f (t) dt,

3
´ x h x2 t2
i
I [f (x)] = 0 2 − xt + 2 f (t) dt,
´x
I 3 [f (x)] = 12 0 [x2 − 2xt + t2 ] f (t) dt,
´x
I 3 [f (x)] = 2!1 0 (x − t)2 f (t) dt,
4
´x´x´x´x
Seja I [f (x)] = f (t) dtdtdtdt, que pode ser escrita como
0 0 0 0
´ x ´x
I 4 [f (x)] = I {I 3 [f (x)]} = 0 21 0 (x − t)2 f (t) dt dt


Integrando por partes, obtemos


´x
u= 0
f (t) dt, du = f (t) dt
3
dv = (x − t)2 dt, v = x2 t − xt2 + t3
´x
I 4 [f (x)] = v.u|x0 − 0 vdu
h ´ ´x  i
3 x t3
I 4 [f (x)] = 12 x2 t − xt2 + t3 0 (x − t)2 f (t) dt|x0 − 0 x2 t − xt2 + 3
f (t) dt
h ´ ´x 2  i
4 1 x3 x 2 x 2 t3
I [f (x)] = 2 3 0 (x − t) f (t) dt|0 − 0 x t − xt + 3 f (t) dt
1
´x 3
I 4 [f (x)] = 2.3 0
(x − 3x2 t + 3xt2 − t3 ) f (t) dt,
´x
I 4 [f (x)] = 61 0 (x − t)3 f (t) dt
´x
I 4 [f (x)] = 3!1 0 (x − t)3 f (t) dt.
Do que foi feito acima, podemos mostrar por indução que para todo natural

n≥0 valem as expressões

I 0 [f (x)] = f (x)
´x
I n [f (x)] = 1
(n−1)! 0
(x − t)n−1 f (t) dt.
113

4.6.2 A função gama e suas propriedades


-

Consideraremos a função gama denida como [13]

´∞
Γ (α) = 0
xα−1 e−x dx para α ≥ 0 ∈ R.

Da denição anterior temos


´∞
Γ (1) = 0
x0 e−x dx = 1.
De fato,
´∞
Γ (1) = 0
x0 e−x dx = −e−x |∞
0 = 1

Propriedade 1:

Γ (α + 1) = αΓ (α).

De fato, como
´∞
Γ (α + 1) = 0
xα e−x dx
Usando integração por partes, temos

u = xα , du = αxα−1 dx
dv =e−x dx, v = −e−x .
Substituindo na integral temos
´∞
Γ (α + 1) = u · v|a0 − vdu 0
´∞
Γ (α + 1) = −xα ·e−x |a0 + α 0 xα−1 e−x dx
Para x=0 ou x = a → ∞,−xα ·e−x → 0
´∞
Γ (α + 1) =α 0
xα−1 e−x dx = αΓ (α)
Propriedade 2:

Γ (n + 1) = n!.

Segue do resultado anterior que, para α=n natural,

Γ (n + 1) = nΓ (n) = n (n − 1) Γ (n − 1) = . . . = n!Γ (1) = n!.


A propriedade (2) nos mostra uma nova forma de denirmos fatorial de um
!
n
número inteiro. Por exemplo, podemos denir o número binomial como
k
!
n n! Γ (n+1)
= k!(n−k)!
= Γ (k+1)Γ (n−k+1)
.
k
114

Propriedade 3:

Γ (−n + 1) → ∞.

De fato, da Propriedade 2 podemos escrever Γ (α + 1) = αΓ (α). Desta igual-

dade segue

Γ (α+1)
Γ (α) = α
Γ (α+2)
Γ (x) = α(α+1)
Γ (α+3)
Γ (x) = α(α+1)(α+2)
. .
. .
. .
Γ (α+n)
Γ (x) = α(α+1)(α+2)...(α+n−1)

A função gama para α = −n + 1 para todo número natural n≥1 tem valor

∞, ou seja Γ (−n + 1) = ∞.
Para α = 0, este fato pode, também, ser demonstrado escrevendo
´∞ ´1 ´∞
Γ (0) = 0 x−1 e−0 dx = 0 x−1 e−0 dx+ 1 x−1 e−0 dx
´ ∞ −1 ´1 ´1
0
x dx > 0 x−1 dx, como 0 x−1 dx = ln 1 − ln 0 = ∞, temos
Γ (0) → ∞.
1
Vamos calcular o valor da função gama para α= 2
.
´∞ 1
1
x 2 −1 e−x dx

Γ 2
= 0
1
´∞
√1 ex dx

Γ 2
= 0 x

Fazendo u= x, logo x = u2
dx
2du = √
x
.

1
 ´∞ −u2

Retornando a integral, obtemos Γ 2
= 0
e du = π.
1
Utilizando o fato de Γ (α + 1) = αΓ (α), temos que para α= 2
, os valores de

Γ (α + n) para n natural podem ser encontrados fazendo:



1 π
= 12 Γ 1
 
Γ 1+ 2 2
= 2

Γ 2 + 12 = 3
1 + 21 = 3 4 π
 
2
Γ

Γ 3 + 21 = 5
2 + 21 = 3.58 π
 
2
Γ
 3.5.7√π
Γ 4 + 21 = 7 1

2
Γ 3 + 2
= 16
 3.5.7.9√π
Γ 5 + 12 = 9 1

2
Γ 4 + 2
= 32

3.5.7.9.11 π
Γ 6 + 21 = 11 1
 
2
Γ 5 + 2
= 64
.
.
.

1
 1.3.5.7.9.11.13.....(2n−1) π
Γ n+ 2
= 2n
115

Para todo naturaln ≥ 1, esta igualdade pode ser demonstrada por indução.

Por exemplo, na passagem n + 1 obtemos

Γ 1 + n + 12 = n + 12 Γ n + 12
  

Γ 1 + n + 21 = 1.3.5.7.9.11.13.....(2n−1)(2n+1) π

n+1 .
2

Dado que Γ (n) = (n − 1)!, então todo número natural n a integral de ordem

n pode ser escrita como


´x
I n [f (x)] = 1
Γ (n) 0
(x − t)n−1 f (t) dt.
Exemplo 4.20: Consideremos a curva f (x) = x2 . A integral de ordem 5 é dada
´x
5 2
por I [x ] =
1
Γ (5) 0
(x − t)4 t2 dt.
Introduzindo a mudança de variável u = x − t, x ≤ u ≤ 0, obtemos −du = dt,
2 2 2
t=x−u e t = x − 2xu + u . Substituindo na integral, podemos escrever
´0
1
I 5 [x2 ] = − (5−1)! x
(u)4 (x2 − 2xu + u2 ) du,
´0
I 5 [x2 ] = − 4!1 x (x2 u4 − 2xu5 + u6 ) du.
 2 5 
5 2 1 x u 2xu6 u7
I [x ] = − 4! − + |0x
 7 5 7 6 7 7 7
I 5 (x2 ) = 4!1 x5 − x3 + x7 = 4!3.5.7 x

x7
I 5 [x2 ] = 7.5.3.4.3.2.1
.

x7
I 5 [x2 ] = 2520
.

Exemplo 4.21: Com a notação da integral de ordem superior, podemos calcular


1
a integral para n= 2
da curva y = x2 .
´x
De fato, substituindo n= 1
2
na integral I n [f (x)] = 1
Γ (n) 0
(x − t)n−1 f (t) dt,
obtemos
1 ´x 1
I 2 (x2 ) = Γ(
1
1 (x − t)− 2 t2 dt
2 ) 0

Substituindo x − t = u, temos

−2du = √ 1 dt, t 2 = x − u2 e 0≤u≤ x.
x−t

Substituindo na integral, camos com


1 ´ √x 2
I 2 (x2 ) = √2π 0 (x − u2 ) du
1
 3
 √
u5 x
I 2 (x2 ) = √2π x2 u − 2xu
3
+ 5
|0 ,
 √ √ √ 
1 2x2 x x2 x
I2 = √2 x2 x − +
π 3 5

1 16x2 x 5
I2 = √2 √ = 32
√ x2
π 15 π 15 π

Em resumo, de todos os matemáticos abordados até este momento, Leibniz foi

o que empregou uma notação mais concisa, que perdura até hoje. Esta notação tornou os
116

cálculos relacionados ao método da tangente a uma curva e o da quadratura de uma curva

mais fáceis e curtos. Também propiciou um maior entendimento a respeito do teorema

fundamental do cálculo, como pudemos ver anteriormente.

As diferenciais dx, dy , etc, tornaram os cálculos muito mais claros, e mais


´
rápidos. A notação de integral para o somatório, fez com que o cálculo da área delimi-

tada por uma curva se tornasse mais simples. Devido a esta notação, pudemos discutir

de forma mais objetiva o teorema fundamental do cálculo. Isto foi possibilitado pelas

propriedades operatórias das diferenciais.

Seguiremos nossas discussões abordando o conceito de cálculo fracionário, que

surgiu devido a notação de derivada de ordem superior de Leibniz. Tivemos uma prévia

sobre o assunto, ao discutirmos integrais de ordem arbitrária.


117

Capítulo 5

Cálculo fracionário

O conceito de cálculo fracionário surge com a notação de diferencial de ordem

superior denida por Leibniz. Em 1695, em uma carta endereçada a Leibniz, o Marquês
dn y
de St. Mesme (L'Hospital), fez um questionamento sobre o signicado de dn y ≡ dxn
para

n fracionário, como por exemplo n = 21 . Leibniz, sem muito rigor, arma:


1 √
Segue que d 2 x = x x : x . Este é um aparente paradoxo do qual um dia

importantes aplicações serão obtidas.

Abordaremos o cálculo fracionário utilizando as denições de derivada fraci-

onária segundo Lacroix e Riemann-Liouville, e integral fracionária apenas no sentido de

Riemann-Liouville. Admitiremos, também, válida a lei dos expoentes de Lagrange para a

derivada e integral.

Lei dos expoentes de Lagrange:

dk dy y dn+k y
Derivada:
dxk
· xn
= dxn+k
;

Integral: I n · I k = I n+k .

Terminaremos nossa discussão com a resolução do seguinte problema:

Determinar a curva na qual o tempo gasto por um ob-

jeto para deslizar, sem atrito, com gravidade uniforme

até o ponto mínimo, independe do ponto de partida

(tautócrona, ou curva isocrônica).

Discutiremos este problema tomando como ponto de partida a solução encon-

trada por Niels Henrik Abel (1802-1829). Abel utiliza a conservação da energia mecânica,
1
obtendo uma equação integral que nos leva à integral fracionária de ordem . Resol-
2
veremos esta integral utilizando as denições de integral e derivada fracionária segundo

Riemann-Liouville, encontrando, de forma simples, a solução do problema da tautócrona.


118

Encontraremos, depois de resolvido o problema da tautócrona, a equação que

descreve a curva na forma s (α) = (x (α) , y (α)), mostrando que a mesma é uma cilcoide

descrita pelas equações paramétricas

x (α) = r[α+sen(α)];
y (α) = r [1 − cos (α)].

5.1 A integral fracionária segundo Riemann-Liouville


-

Vimos, anteriormente, que a integral de ordem n, para todo n natural, é dada

por

´x
I n [f (x)] = 1
(n−1)! 0
(x − t)n−1 f (t) dt.

Vamos reescrever esta integral da seguinte forma, introduzindo a função gama

´x
I n [f (x)] = 1
Γ (n)! 0
(x − t)n−1 f (t) dt .

A integral fracionária de ordem n = α para qualquer α racional segundo

Riemann-Liouville é dada por

´x
I α [f (x)] = 1
Γ (α)! 0
(x − t)α−1 f (t) dt .

5.2 A derivada fracionária


-

Existem várias maneiras de se introduzir o conceito de derivada de ordem não

inteira [14]. Aqui, para nosso propósito, mencionamos apenas a derivada de ordem não

inteira conforme proposta por Lacroix e por Riemann-Liouville.

5.2.1 A derivada fracionária segundo Lacroix


-

O matemático Lacroix [7], desejando obter a derivada de ordem fracionária do

polinômio y = xn para n 6= 0, antes calculou a derivada de ordem k inteiro de y = xn ,


obtendo

dk (xn ) = n (n − 1) . . . (n − k + 1) xn−k dxk


dk n!
dxk
(xn ) = (n−k)!
xn−k .
119

Como a função gama para números inteiros é dada por Γ (n + 1) = n!, podemos
escrever a derivada k−ésima como

dk Γ (n+1)
dxk
(xn ) = Γ (n−k+1)
xn−k ..
Procedendo como feito por Lacroix, a derivada de ordem k inteiro da curva

y = x−n para todo n natural é dada por

dk
dxk
(x−n ) = (−1)k Γ (n+k) −n−k
Γ (n)
x [9].

De fato, diferenciando k vezes y = x−n , obtemos

dk (x−n ) = −n (−n − 1) . . . (−n − k + 1) x−n−k dxk


dk (x−n ) = (−1)k n (n + 1) . . . (n + k − 1) x−n−k dxk
dk
dxk
(x−n ) = (−1)k (n + k − 1) . . . (n + 1) n.x−n−k
dk
dxk
(x−n ) = (−1)k Γ (n+k) −n−k
Γ (n)
x .

1
Exemplo 5.1: A derivada fracionária de ordem
2
de y = x0 = 1 utilizando as

duas expressões anteriores tem valores distintos..

De fato, seguindo a denição de Lacroix para n = 0, temos


1
d2 Γ (1) − 1
1 (x0 ) = x 2 = √ 1√ 6= 0 [8].
dx 2 Γ ( 12 ) π x

Tomando a segunda relação, obtemos


1
Γ ( 12 ) − 1
d2
1 (x−0 ) = (−1)0 Γ (0)
x 2 =0 [9], pois Γ (0) → ∞.
dx 2
1
Do que foi feito acima, concluímos que a derivada de ordem de uma curva
2
constante não existe para x=0 segundo a denição de Lacroix, e mais, é diferente de

zero para todo x em R. Já no segundo caso, essa mesma derivada é nula para todo x em

R. Esta é a diferença entre a derivada de ordem inteira e a fracionária de uma curva (ou

função) constante talvez seja um dos motivos pelo qual não tenhamos uma denição única

do que vem a ser a derivada de ordem fracionária. Não iremos discutir esse assunto, pois

o mesmo demandaria um maior aprofundamento, o que fugiria ao foco do nosso trabalho.

1
Exemplo 5.2: Vamos encontrar a derivada de ordem
2
da curva y = x.
1
d2 Γ (1+1) 1
1 (x) = Γ (1− 21 +1)
x1− 2
dx 2
1
d2 1 1
1 (x) = 1 x
Γ (1+ 2 )
2
dx 2
1
d2 √
1 (x) = √2 x.
dx 2 π
1
Exemplo 5.3: Tomemos a curva y = x2 . A derivada fracionária de ordem
2
1
d2 8 3
desta curva, segundo a denição de Lacroix, é dada por 1 (x2 ) = √
3 π
x2 .
dx 2

De fato, tomando a denição de derivada fracionária de Lacroix, obtemos


120

1
d2 Γ (1+2) 1
1 (x2 ) = Γ (2− 12 +1)
x2− 2
dx 2

Γ (3) = 2

3 π
Γ 2 − 21 + 1 = Γ 2 + 21 =
 
4
1
d2 2 3
1 (x2 ) = 3

π x2 .
dx 2 4
1
d2 8 3
1 (x2 ) = √
3 π
x 2 . O que prova a armação.
dx 2

5.2.2 A derivada fracionária segundo Riemann-Liouville


-

A denição de derivada fracionária no sentido de Riemann-Liouville tem como

base a lei dos expoentes de Lagrange. Ela estabelece que a derivada de ordem fracionária

é igual a derivada de ordem inteira n da integral fracionária I n−α .

Dα f (x) = Dn [I n−α f (x)] para n = JαK + 1, onde JαK ≤ α é a parte

inteira de α ∈ R.

Exemplo 5.4: Utilizando a denição de Riemann-Liouville vamos calcular a


1
derivada fracionária de ordem
2
de y = x2 .
1
A integral fracionária de ordem
2
de y = x2 é dada por

√ 5
1 16x2 x 16x
I 2 (x2 ) = √
15 π
= 2
√ .
15 π

Dα f (x) = Dn [I n−α f (x)]


1
α= 2
q1y
n= +1=1
2
1
h 1
i h 1 i
D 2 (x2 ) = D1 I 1− 2 (x2 ) = D1 I 2 (x2 )
´x
 
1 1
1 1 2
D f (x) = D Γ 1 0 (x − t) t dt
2 2
(2)
´x
 
1 1
2 d 1 2
D 2 (x ) = dx Γ 1 0 (x − t) 2 t dt
(2)
h 5 i 5
1 2 −1
D (x ) = dx 15 2π = 52 16x
2
2 d 16x
√ √
15 π
1 8 3
D 2 (x2 ) = √
3 π
x2 .
O resultado encontrado pela denição de derivada fracionária de Riemann-

Liouville é o mesmo que o encontrado pela denição de Lacroix.

Um problema ainda a solucionar é a questão da derivada de uma constante.

Tanto pela denição de Lacroix como a de Riemann-Liouville a derivada fracionária da

curva y = const. não se anula. Este é um dilema, como descreveu Willian Center.
121

O dilema imposto por estas duas equações ca reduzido ao entendi-


dα 0
mento exato do quê signica
dxα
x . Quando esta questão for respondida
teremos automaticamente a solução do suposto dilema. [7].

Na próxima seção abordaremos uma aplicação do cálculo fracionário. Uti-

lizaremos o fato da derivada de uma constante não ser nula, isto nos faz pensar que,

dependendo do problema abordado, podemos supor que a derivada fracionária de uma

constante não seja nula.

5.3 O problema da tautócrona


-

Uma das aplicações do cálculo fracionário é a resolução do problema da tau-

tócrona que segue, conforme encontrada por Niels Henrik Abel (1802-1829).

Determinar a curva na qual o tempo gasto por um ob-

jeto para deslizar, sem atrito, com gravidade uniforme

até o ponto mínimo, independe do ponto de partida

(tautócrona, ou curva isocrônica).

Considere a Fig.5.1.

Fig.5.1. Curva tautócrona.

A partícula desce, sem atrito, se movendo devido somente a força gravitacional,


ds ds dy
e atinge o ponto mais baixo da trajetória com velocidade v = dt
= dy dt
, uma vez

que s (y (t) , x (t)) é o comprimento da curva. Como feito por Abel, vamos utilizar a

conservação da energia mecânica para resolver este problema.

Em y0 a energia mecânica é dada por EM1 = mgy0 , e no ponto mais baixo da


mv 2
trajetória (mínimo) a energia mecânica é dada por EM2 = + mgy . Pelo princípio da
2
conservação da energia, obtemos.

mv 2
2
+ mgy = mgy0
mv 2
2
= mg (y0 − y)
122

v 2 = 2g (y0 − y)
√ 1
v = ± 2g (y0 − y) 2
ds dy
√ 1

dy dt
= ± 2g (y0 − y) 2 .
ds
dy
dt = ± √ 1 dy
2g(y0 −y) 2
1
 
dt = ± √12g (y0 − y)− 2 ds
dy
dy .
Como a altura e a distância diminuem, tomamos o sinal negativo da equação

diferencial acima, cando com


1
 
dt = − √12g (y0 − y)− 2 ds
dy
dy .
Integrando em relação a y no intervalo y0 à 0, temos
´0 1
 
t = − √12g y0
(y0 − y)− 2 ds
dy
dy .
√ √
π
Ao multiplicarmos a integral por √ = Γ π1 , camos com a seguinte integral
π (2)
´0

   
1
t= √
π
− Γ 11 (y0 − y)− 2 ds
dy
2g (2) y0 dy

´ y0

   
π 1 − 12 ds
t= √
2g Γ ( 12 ) 0
(y0 − y) dy
dy .

1
A última integral é a integral de Riemann-Liouville com α= 2
, ou seja,
√ h 1
 i
π ds
t= √
2g
I2 dy
.

Como, por hipótese, t não depende de y, podemos considerá-lo constante.


1
Aplicando a derivada fracionária de ordem , em ambos os lados da igualdade anterior,
2
podemos escrever

1 1
n√ h 1
 io
π ds
D 2 (t) = D 2 √
2g
I2 dy

1
√ n 1 h 1  io
π ds
t · D 2 (y 0 ) = √2g D 2 I 2 dy
√ n 1 h 1  io
π
√ t√ = √ ds
D 2 I 2 dy
π y 2g

π
√ t√ = √ ds
π y 2g dy

t 2g
ds = √ dy .
π y

2t 2g √
Integrando essa última igualdade, concluímos que s= π
y que é a equação
da tautócrona.

1
h 1
 i
ds
Na passagem de D 2 I 2
dy
, utilizamos a lei dos expoentes de Lagrange

para integrais fracionárias da seguinte forma:


´x
Seja I α [f (x)] = 1
Γ (α)! 0
(x − t)α−1 f (t) dt, então
123

Dα {I α [f (x)]} = Dn {I n−α I α [f (x)]}, pela lei dos expoentes de Lagrange para


integrais podemos escrever

I n−α I α = I n−α+α = I n . Disto segue que

Dα {I α [f (x)]} = Dn {I n [f (x)]} = f (x).


Vamos mostrar que a equação que descreve a curva s, solução do problema da

tautócrona, é dada parametricamente por

x (α) = r[α+sen(α)];
y (α) = r [1 − cos (α)].
Como ponto de partida, consideremos a relação entre a diferencial da curva s
e as diferencias das ordenadas x e y, que é dada por

(ds)2 = (dx)2 + (dy)2 .



t 2g
Da relação ds = √ dy , obtemos
π y
2gt2
(ds)2 = πy
(dy)2 .
Substituindo em (ds)2 = (dx)2 + (dy)2 , podemos escrever

2gt2
πy
(dy)2 = (dx)2 + (dy)2 . Esta relação pode ser reescrita como

2gt2 dy 2 dy 2
 
πy dx
= 1 + dx
2gt2 dy 2 dy 2
 
πy dx
− dx
=1
 2 
2gt dy 2

πy
− 1 dx =1
q 2
2gt2 dy
πy
− 1 dx = 1. Fazendo k = 2gt
π
, podemos escrever
q
k
y
− 1dy = dx.
q
k−y
y
dy = dx.
A equação diferencial acima pode ser resolvida introduzindo a substituição

y = k sen2 (θ) = k [1 − cos2 (θ)]. Disto segue que

dy = 2k sen(θ) cos (θ) dθ


p
dy = 2k 1 − cos2 (θ) cos (θ) dθ
q q
k−y k−k(1−cos2 (θ))
p
y
dy = 2
k(1−cos (θ))
2k 1 − cos2 (θ) cos (θ) dθ
q √
k−y 1−(1−cos2 (θ)) p
y
dy = 2k √ 1 − cos2 (θ) cos (θ) dθ
1−cos2 (θ)
q
k−y
y
dy = 2k cos2 (θ) dθ
q   q
k−y 1 cos(2θ) k−y
y
dy = 2k 2
+ 2
dθ . Substituindo em
y
dy = dx, obtemos
124

 
1 cos(2θ)
dx = 2k 2
+ 2
dθ. Integrando esta equação

´ ´h 1 cos(2θ)
i
dx = 2k 2
+ 2

x (θ) = k2 [2θ+sen(2θ)].
k
Como y = k [1 − cos2 (θ)], concluímos que y (θ) = 2
[1 − cos (2θ)].
k gt2
Tomando 2θ = α e
2
= r, para r= π
, obtemos as equações paramétricas

x (α) = r[α+sen(α)];
y (α) = r [1 − cos (α)].

A curva solução do problema da tautócrona é uma cilcoide.

De fato, consideremos a Fig.5.2, a cilcoide é a curva descrita por um ponto de

uma circunferência que roda, sem deslizar, ao longo de uma reta.

Fig.5.2. Parametrização da cilcoide.

A curva descrita pelo ponto P (x, y) quando a circunferência roda sobre o eixo
x, no sentido horário, é parametrizada por

x (α) = rα + rsen(α) e y = r − r cos (α). Esta duas igualdades podem ser

reescritas como

x (α) = r[α+sen(α)];
y (α) = r [1 − cos (α)].

A curva se repete a cada período de 2π , e é representada conforme Fig.5.3.

Fig.5.3. Representação da cilcoide.


125

Em resumo, pudemos discutir, de forma breve, o cálculo fracionário tomando

como ponto de partida a integral fracionária de Riemann-Liouville, em seguida abordamos

a derivada fracionária segundo Riemann-Liouville e Lacroix. Discutimos uma aplicação no

problema da tautócrona, dando uma justicativa do uso da lei dos expoentes de Lagrange,

e por m, mostramos que a curva solução do problema da tautócrona é uma cilcoide.

Terminamos aqui nossas discussões do cálculo utilizando o conceito de limite

de forma intuitiva. No próximo capítulo abordaremos os mesmos conceitos através da

denição de limite, que era o que faltava para o cálculo ser uma ferramenta matemática

rigorosa.
126

Capítulo 6

Cálculo diferencial e integral: Cauchy e Weierstrass

A partir deste capítulo abordaremos os conceitos do cálculo tomando como

ponto de partida o conceito de limite e continuidade de uma função.

Admitiremos que as curvas serão representadas por expressões analíticas em

função de x, y = f (x) denotará y como função de x. Quando essa expressão


ou seja,

determina um único valor de y em função de x, denimos esta expressão analítica como

função. O domínio de uma curva são os valores de x, tais que existe y = f (x), e o ponto

(x, f (x)) são os pontos pertencentes a curva .


Enm, vamos considerar as seguintes denições:

Uma função de uma variável real é uma relação denotada por f : .A ⊂ R → R,


tal que, para cada valor x em A ⊂ R, existe um único valor y em R satisfazendo y = f (x);

O gráco de uma função é o conjunto dos pontos (x, y), com y = f (x), deno-

tado por

G [f (x)] = {(x, y) ∈ A × R/x ∈ A.e.y = f (x)}


Nossas discussões serão pautadas na abordagem do cálculo segundo os mate-

máticos Augustin-Louis Cauchy (1789 - 1857) e Karl Weierstrass (1815 - 1897). Cauchy

é responsável pela organização e o rigor que o cálculo necessitava, enquanto Weierstrass

é responsável pela reescrita destes conceitos através do uso de ε0 s e δ 0 s.


Cauchy fundamenta os conceitos do cálculo através da denição de limite. Ao

invés de tomar grandezas innitamente pequenas (como visto anteriormente), ele as dene

em termo de limite. Em seus livros Cours d' analyse de l'École Polytechnique, de 1821,

Résumé des leçons sur le calcul innitésima l, de 1823 e Leçons sur le calcul diérentiel,

de 1829, Cauchy apresenta as bases dos fundamentos do cálculo, estabelecendo o caráter

que conhecemos hoje nos livros didáticos.

Discutiremos os conceitos do cálculo neste capítulo a partir da denição de

limite e de grandezas innitamente pequenas. Em seguida, utilizando o conceito de limite,


127

abordaremos o conceito de continuidade de uma função (curva) e a derivada (tangente a

uma curva). Discutiremos a denição de integral através do limite de uma soma, faremos

uma abordagem geométrica do teorema do valor médio para integrais. Terminaremos com

a abordagem do teorema fundamental do cálculo e sua demonstração através do conceito

de limite.

As propriedades de todos os métodos de cálculo da tangente a uma curva,

assim como os métodos de quadratura, estudados até aqui, continuam válidas nessa nova

abordagem do cálculo.

6.1 O conceito de limite e continuidade de Cauchy


-

As grandezas innitamente pequenas (innitésimos) tomam um novo signi-

cado com Augustin-Louis Cauchy (1789 - 1857).

Comecemos este capítulo com a seguinte denição de limite.

Chamamos quantidade variável aquela que consideramos capaz de as-

sumir diversos valores diferentes sucessivamente. Por outro lado, cha-

mamos quantidade constante aquela que admite um valor xo e deter-

minado. Quando os valores sucessivamente atribuídos a uma variável

aproximam-se indenidamente de um valor xo, de modo que eles -

nalmente diram deste valor tão pouco quanto quisermos, esse último é

chamado o limite de todos os outros... [10]

Ao escrever ...quantidade variável aquela que consideramos capaz de assumir

diversos valores diferentes sucessivamente..., Cauchy quer dizer valores admitidos por

uma função y = f (x) para cada xn dado. Desta observação, podemos escrever a denição

anterior como:

Sejam y = f (x), f (xn ) valores sucessivos de f (x) e L (valor xo). Se dado

ε>0 qualquer, tivermos f (xn ) − L < ε, então lim f (xn ) = L.


xn →x0

A denição de Cauchy não deixa claro como a variável se aproxima do valor

xo L, disso podemos supor que y pode se aproximar tanto por vaçores menores, como

por valores maiores que L, para cada valor x = xn que for atribuído a y = f (x) quando

xn se aproxima de x tanto pela direita, como pela esquerda .

Exemplo 6.1: Calculemos, segundo a denição de Cauchy, o limite para xn → 1


da função
 
x2 −x
f (x) = 2 x−1
.
128

Observemos que para x = 1 a função f não está denida. Entretanto, para


1
xn = 1 ± n
6= 1, podemos escrever f da seguinte forma
 
x2n −xn
f (xn ) = 2 xn −1
.
 
xn −1
f (xn ) = 2xn xn −1
= 2xn .
1
Ao aplicarmos a denição de Cauchy, considerando δ = n
> 0 para n ≥ 1
natural, x0 = 1 e xn = 1 ± δ , obtemos os valores f (xn ) sucessivos para n → ∞ dados por
f (1 ± δ) = 2 (1 ± δ)
f 1 ± n1 = 2 ± n2 .


Tomando o limite para n → ∞, temos x → 1 e


1
= lim f 1 ± n1 = lim 2 ± n2 = 2.
 
lim f 1 ± n
x→1 n→∞ n→∞
3
Do que foi feito acima, temos que L = 2. Disto segue que dado ε= n
, temos
1

que f 1± n
− L < ε.
1 2

De fato, sendo f 1± n
=2± n
, obtemos

1 2
− 2 = ± n2 < 3

f 1± n
−2=2± n n

Geometricamente, a denição de limite, conforme proposta por Cauchy, pode

ser descrita conforme Fig.6.1

Fig.6.1. Limite de y = f (x) para x ± ε → x.

Esta denição de limite é muito semelhante a que conhecemos hoje nos livros

de cálculo. Veremos, na seção seguinte, que esta denição é reescrita em termos de ε0 s e


0
δ s.
Para uma grandeza innitamente pequena, Cauchy a dene da seguinte forma:

Dizemos que uma quantidade variável torna-se innitamente pequena,

quando o seu valor numérico diminui indenidamente, de forma a con-

vergir para o limite zero. [10]


129

A denição anterior nos diz que uma quantidade variável innitamente pequena
1
α ocorre quando o valor de α tende a zero, ou seja, admitindo α= n
, obtemos

lim α = 0.
n→∞

A continuidade de uma função é denida por Cauchy como segue:

Seja f (x) uma função da variável x, e vamos supor que a cada valor de
x intermédio entre dois limites indicados, esta função constantemente

admite um valor único e nito. Se, a partir de um valor de x entre estes


limites é atribuído um aumento innitesimal α, a própria função vai
sofrer um acréscimo dado pela diferença f (x + α) − f (x), que dependerá

ao mesmo tempo da nova variável α e do valor de x. Dito isto, a função

f (x) será, entre os dois limites atribuídos à variável x, função contínua


desta variável, se para cada valor de x intermediário entre estes limites,

o valor numérico da diferença f (x + α) − f (x) diminui indenidamente

com o de α. Em outras palavras, a função f (x) permanecerá contínua

em relação à x entre os limites indicados, se, dentro desses limites, um

aumento innitamente pequeno na variável sempre produz um aumento

innitamente pequeno na própria função. [10]

Para exemplicar, Cauchy toma a função sen(x) para mostrar que esta função
α α
 
é contínua, uma vez que sen(x + α) −sen(x) = 2sen 2
cos x + 2
depende tanto de x
α

quanto da nova variável α, e decresce innitamente com o valor de α, pois sen decresce
2
1
innitamente com este valor .

Geometricamente temos a seguinte situação, conforme Fig.6.2.

Fig.6.2. Continuidade de uma curva.

A expressão entre dois limites, utilizada por Cauchy, pode ser interpretada

como valores de x no intervalo ]x − α, x + α[ .

1 Desenvolva e depois some sen(x + α) =sen x + α α


e sen (x) = sen x + α α
.
     
2 + 2 2 − 2
130

Podemos escrever a denição de continuidade como segue:

Uma função f (x) (ou curva representada por y = f (x)) é continua

em um ponto x0 se para qualquer α 6= 0, tendendo a zero, tivermos

f (x0 + α) − f (x0 ) convergindo a zero com o valor de α.


Ou de forma equivalente

lim [f (x0 + α) − f (x0 )] = 0 ou lim f (x0 + α) = f (x0 ) .


α→0 α→0

x2 + 1; x<0
Exemplo 6.2: A função f (x) =
−x + 1; x ≥ 0
é contínua para todo x no domínio de f , uma vez que dado α 6= 0 innitamente pequeno

obtemos

 lim (x + α)2 + 1 − [x2 + 1] ;
 
x+α<0
α→0
lim [f (x + α) − f (x)] =
α→0  lim [− (x + α) + 1 − (−x + 1)] ; x + α ≥ 0
α→0

 lim [2xα + α2 ] ; x + α < 0
α→0
lim [f (x + α) − f (x)] = .
α→0  lim [−α] ; x+α≥0
α→0

0; x < 0
lim [f (x + α) − f (x)] = . Disto segue que a função f é contínua
α→0 0; x ≥ 0
para todo x no domínio de f .
Da denição de continuidade dada anteriormente, segue que uma função f (x)
é descontinua em um ponto x0 se

lim [f (x0 + α) − f (x0 )] 6= 0 ou lim f (x0 + α) 6= f (x0 ).


α→0 α→0

x2 + 1; x < 0
Exemplo 6.3: Dada a função f (x) = ,
−x − 1; x ≥ 0
ela é descontínua em x = 0.
De fato, dado α 6= 0 innitamente pequeno, temos

 lim (α2 + 2) = 2; α < 0
α→0
lim [f (0 + α) − f (0)] = ,
α→0  lim (−α) = 0; α≥0
α→0
que é diferente de zero para α → 0− tendendo a zero por valores negativos.

Exemplo 6.4: Demonstremos que a curva f (x) = sen(x) é contínua para todo

x em R.
De fato, dado α 6= 0 innitamente pequeno, temos

lim [f (x + α) − f (x)] = lim [sen(x + α) −sen(x)]


α→0 α→0
131

α α
 
lim [f (x + α) − f (x)] = lim 2sen 2
cos x + 2
.
α→0 α→0
lim [f (x + α) − f (x)] =2sen(0) cos (x) = 0, uma vez que sen(0) = 0.
α→0
Geometricamente, podemos dizer que uma curva (ou função) é contínua em um

intervalo [a, b] se um ponto P desta curva puder se movimentar sobre ela neste intervalo

sem que haja interrupção do seu movimento, Fig.6.3.

Fig.6.3. Continuidade de uma função.

6.2 O conceito de derivada de Cauchy


-

A derivada de uma função, na denição de Cauchy, é denida através do

conceito de limite, como segue.

Se a função y = f (x) for contínua entre dois limites dados da variável

x, então, para qualquer valor de x dentro destes limites, um aumento

innitamente pequeno da variável produzirá um aumento innitamente

pequeno da própria função. Portanto, se dissermos que 4x = i, os

dois termos da razão das diferenças serão quantidades innitamente

pequenas.

4y f (x+i)−f (x)
4x
= i

Mas, enquanto esses dois termos aproximar-se-ão indenidamente de

zero, sua razão pode convergir para algum outro limite positivo ou ne-

gativo. Esse limite, quando existir, tem um valor denido para cada

valor especíco de x, mas varia com x. Indicamos essa dependência

chamando a nova função de função derivada, designando-a pelo uso de

um apóstrofo na notação: y' ou f 0 (x). [11]

A razão anterior é equivalente as razões encontradas nos métodos de Fermat,

de Newton e de Leibniz. A denição de derivada de Cauchy é equivalente a tangente dos

métodos anteriores, sendo denida como o limite com 4x → 0


132

4y
f 0 (x) = lim = lim f (x+i)−f (x)
.
4x→0 4x i→0 i

A denição de derivada de Cauchy pode ser interpretada geometricamente

como a inclinação da reta tangente a curva no ponto x, conforme Fig.6.4.

Fig.6.4. Representação geométrica da derivada de Cauchy.

Exemplo 6.5: A denição de derivada de Cauchy supõe que a função f (x) seja
contínua. Mas essa hipótese não é válida para todas as funções, por exemplo a função

f (x) = |x| é contínua em todo seu domínio, mas não tem derivada em x = 0.

−x, x ≥ 0,
De fato, para todo x ∈R, f (x) =
−x, x < 0.
f (x+i)−f (x)
Tomando o limite da razão
i
para i → 0, obtemos

lim −x+i−x = lim− i = 1, x ≥ 0,
i i
lim f (x+i)−f
i
(x)
= i→0 i→0
i→0 lim −x−i+x = lim − i = −1, x < 0.
i→0 i i i→0
f (x+i)−f (x)
Disto segue que o lim
i
não existe, logo a função contínua f (x) = |x|
i→0
não possui derivada na origem.

Exemplo 6.6: Seja a função f (x) = x2 . A derivada desta função é igual a

tangente de Fermat, de Newton e de Leibniz no ponto x.


De fato, o método da tangente dos três matemáticos mencionados acima são

equivalentes. A tangente à curva f (x) = x2 nos três casos é igual a 2x.


Apliquemos a denição de derivada de Cauchy a função f (x) = x2 , obtemos
2 2
f 0 (x) = lim f (x+i)−f
i
(x)
= lim (x+i)i −x
i→0 i→0

f 0 (x) = lim f (x+i)−f


i
(x)
= lim i(2x+i)
i
i→0 i→0
0
f (x) = lim f (x+i)−f
i
(x)
= lim2x + i = 2x.
i→0 i→0

Este é o mesmo valor encontrado pelos métodos de Fermat, de Newton e de

Leibniz.
133

6.3 O conceito de continuidade de Weierstrass


-

A denição de continuidade de Cauchy é utilizada nos dias atuais com o uso


0 0
de εs e δ s. Esta nova interpretação tornou mais claras as expressões vagas, tais como, 

diminui indenidamente, aumento innitesimal e innitamente pequeno, empregadas

por Cauchy em sua denição. Essa nova escrita foi formulada pelo matemático Karl

Weierstrass (1815 - 1897).

Uma função f (x) é contínua em um ponto x0 se, para qualquer x na


vizinhança de x0 , e para qualquer número positivo arbitrariamente

pequeno ε, é possível encontrar uma vizinhança de f (x0 ) de tal forma

que, para todos os valores nesta vizinhança, a diferença

|f (x) − f (x0 )| < ε sempre que |x − x0 | < δ . [12]

A denição de continuidade de Weierstrass nos diz que dado uma vizinhança

na imagem de uma função em um ponto x0 , ou seja, |f (x) − f (x0 )| < ε, é possível


encontrar uma vizinhança no domínio, ou seja, |x − x0 | < δ , então a função (ou curva)
y = f (x) x0 . Em termos de intervalo, dizemos que todos os valores
é contínua no ponto

no intervalo ]f (x0 ) − ε, f (x0 ) + ε[ são imagem de um, e somente um, ponto x no intervalo

]x0 − δ, x0 + δ[.
Geometricamente temos, Fig.6.5.

Fig.6.5. Denição de continuidade de Weierstrass.


 x−1 ; x 6= ±1,
2
Exemplo 6.7: Consideremos a função f (x) = x −1
1; x = 1.
2

Esta função é contínua no ponto x = 1.


Seja dado ε > 0 arbitrariamente pequeno, tome δ = ε, tal que |x − 1| < δ ,
então temos |f (x) − f (1)| < ε.
De fato,
134

1 2−x−1 |1−x|
|f (x) − f (1)| = xx−1
2 −1 − 1
2
=
x+1
− 1
2
= 2(x+1) = 2|(x+1)|
< δ
2|x+1|
< δ.
Uma forma mais fácil de mostrarmos que f (x) é contínua no ponto x=1 é

utilizando a seguinte denição, equivalente a de Weierstrass.

Uma função f (x) é contínua em x = x0 se, e somente se,

lim [f (x) − f (x0 )] = 0 ou lim f (x) = f (x0 )


x→x0 x→x0

x−1 1 1
 
De fato, lim f (x) = lim x2 −1
= lim x+1
= 2
= f (1).
x→1 x→1 x→1

Caso uma função não seja contínua em um ponto x = x0 do seu domínio, então

ela é dita descontínua. Isto ocorre quando

lim [f (x) − f (x0 )] 6= 0, ou lim f (x) 6= f (x0 ).


x→x0 x→x0

 1 ; x 6= 1
Exemplo 6.8: A função f (x) = x−1 é descontínua em x = 1.
0; x=1
1 1 1
De fato, seja dado ε= n
, temos que |f (x) − f (1)| = |x−1|
. Tome δ=ε= n
,

então:

1 1
|x − 1| < n
⇒ |x−1|
> n ⇒ |f (x) − f (1)| > n. Disto segue que |x − 1| < δ ⇒
|f (x) − f (1)| > ε.
1

Observe que lim f (x) = lim x−1
→ ±∞, então lim f (x) 6= f (1) = 0.
x→1 x→1 x→1

Exemplo 6.9: Dada a função f (x) = x2 − 2x, mostremos que esta função é

contínua em R, e em seguida mostremos que limite lim f (x) = f (2) = 0.


x→2

Utilizando a denição equivalente de continuidade, obtemos para x0 qualquer

lim [f (x) − f (x0 )] = lim (x2 − 2x − x20 + 2x0 )


x→x0 x0 →x0

lim [f (x) − f (x0 )] = lim (x − x0 ) (x + x0 − 2)


x→x0 x0 →x0

lim [f (x) − f (x0 )] = 0.


x→x0

Concluímos, assim, que a função f (x) = x2 − 2x é contínua para todo x0 em

R. Disto segue que

lim f (x) = lim f (x0 ).


x→x0 x→x0

Em particular, tomando x0 = 0, obtemos o resultado desejado.

Considerando x − x0 = α na denição de continuidade escrita por Weierstrass

obtemos a denição de continuidade dada por Cauchy, como segue:

De fato, seja x − x0 = α , obtemos x = x0 + α . Desta igualdade segue que

lim [f (x) − f (x0 )] = lim [f (x0 + α) − f (x0 )] = 0.


x→x0 α→0
135

6.4 O conceito de Integral de Cauchy


-

Cauchy dene integral em termos de limite, com segue.


n
P ´x
lim (xk − xk−1 ) f (xk−1 ) = x0
f (x) dx.
n→∞k=1

A denição acima é equivalente à denição de Fermat, diferente apenas no uso

do conceito de limite e no fato da base dos retângulos serem constantes, h = xn+1 − xn .


Geometricamente temos, Fig.6.6.

Fig.6.6. Integral de Cauchy.

O intervalo [x0 , x] é dividido em n intervalos de comprimento h, tomando

n → ∞, a partição ca mais renada, e a soma das áreas dos retângulos mais próxima da

área delimitada pela curva no intervalo dado.

2
Exemplo 6.10: Seja a função f (x) = ax . A integral no intervalo [0, x] dessa
´x 2 n
(xk − xk−1 ) ax2k−1
P
função é dada por
0
at dt = lim
n→∞ k=0

Da denição de integral de Cauchy, temos

x
h = xn − xn−1 , xn = xn−1 + h, x = nh e h= n
.

´x 2 n
P x
 x 2

0
at dt = lim n
a (k − 1) n
n→∞ k=0

´x 3
n
at2 dt = lim ax nx3 (k − 1)2
P
0 n→∞ k=0

A somatória acima vale


n
(k − 1)2 = (n−1)(n)(2n−1)
P
6
k=0
´x 3
0
at2 dt = lim a nx3 (n−1)(n)(2n−1)
6
n→∞
´x 2 ax3

2n3 −n2 −2n+1

at dt = lim 3
0 n→∞ 6 n
´x 2 ax3 1 2 1
 2ax3 ax3
0
at dt = lim 6
2 − n
− n 2 + n
= 6
= 3
.
n→∞
136

6.5 O Teorema fundamental do cálculo


-

Vamos demonstrar o teorema fundamental do cálculo utilizando o conceito de

limite, antes admitiremos o seguinte resultado.

Teorema do valor médio para integrais:

Seja a função f contínua no intervalo [x0 , x1 ], então

existe um ξ ∈ [x0 , x1 ] , tal que


´ x1
x0
f (x) dx = f (ξ) 4x
4x = x1 − x0 .

E mais, sendo f contínua no intervalo [x0 , x1 ], então existem ξ1 e ξ2 ∈ [x0 , x1 ]


tais que:
´ x1
f (ξ1 ) 4x < x0
f (x) dx, conforme Fig.6.7,

Fig.6.7. Área menor que a área delimitada pela curva.

Suponha que o ponto se mova sobre a curva, também é verdade que existe um

ξ2 ∈ [x0 , x1 ], tal que:


´ x1
x0
f (x) dx < f (ξ2 ) 4x, conforme Fig.6.8,

Fig.6.8 Área maior que a área delimitada pela curva.


137

Observemos que movendo o ponto (ξi , f (ξi )) para ξi ∈ [x0 , x1 ] e mantendo a


base dos retângulos igual a x1 − x 0 , temos que a área f (ξi ) (x1 − x0 ) delimita a área
abaixo da curva y = f (x) no intervalo [x0 , x1 ], ou seja, vale a desigualdade que segue,

onde f (ξm ) e f (ξn ) são os valores máximos e mínimos, respectivamente, atingidos por

y = f (x) para ξm e ξn no intervalo [x0 , x1 ].


´x
f (ξn ) 4x < x01 f (x) dx < f (ξm ) 4x.
É intuitivo acreditar que existe, pela continuidade de f (x), um ponto ξ ∈
´x
[x0 , x1 ], tal que, x01 f (x) dx = f (ξ) 4x, conforme Fig.6.9.

Fig.6.9. Área igual a área delimitada pela curva.

d
´x
A partir do resultado anterior, podemos mostrar que
dx x0
f (t) dt = f (x).
De fato, consideremos a Fig.6.10.

Fig.6.10. Teorema fundamental do cálculo.

Do que foi feito anteriormente, segue o seguinte resultado:

Seja o intervalo [x, x + 4x]. Pelo teorema do valor médio para integrais e da

Fig.6.10, temos que:


´ x+4x
x
f (t) dt = f (ξ) 4x, para ξ ∈ [x, x + 4x].
´x
Seja F (x) = f (t) dt. Desta igualdade, podemos escrever
x0
´ x+4x
F (x + 4x) = x0 f (t) dt.
Fazendo a diferença F (x + 4x) − F (x), obtemos,
138

´ x+4x ´x
F (x + 4x) − F (x) = x0
f (t) dt − x0
f (t) dt.
Do fato de x [x0 , x + 4x],
estar no intervalo podemos escrever
´ x+4x ´x ´ x+4x
x0
f (t) dt = x0 f (t) dt + x f (t) dt.
Substituindo na igualdade anterior, obtemos
´x ´ x+4x ´x
F (x + 4x) − F (x) = x0
f (t) dt + x
f (t) dt − x0
f (t) dt
´ x+4x
F (x + 4x) − F (x) = x f (t) dt.
´ x+4x
Como
x
f (t) dt = f (ξ) 4x, para ξ ∈ [x, x + 4x], segue que
´ x+4x
F (x + 4x) − F (x) = x f (t) dt = f (ξ) 4x.
F (x+4x)−F (x)
Dividindo por 4x, obtemos
4x
= f (ξ).
Tomando o limite com 4x → 0, podemos escrever

F (x+4x)−F (x)
lim 4x
= lim f (ξ)
4x→0 4x→0

ξ→x com 4x → 0, o que nos fornece

F (x+4x)−F (x)
lim 4x
= f (x), que pode ser escrito como
4x→0
dF (x) d
´x
• dx
= dx x0
f (t) dt = f (x).
Do que foi feito anteriormente, temos que

´ x1
x0
f (t) dt = F (x1 ) − F (x0 ).
´x
De fato, dado que F (x) = x0
f (t) dt, obtemos
´ x1
F (x1 ) = x0
f (t) dt
´ x0
F (x0 ) = x0
f (t) dt = 0 (denição de integral).

Subtraindo as duas igualdades anteriores, podemos escrever


´ x1
x0
f (t) dt = F (x1 ) − F (x0 ).

Em resumo, neste último capítulo abordamos os conceitos do cálculo a partir

da denição de limite. Esta denição veio para tomar o lugar das grandezas innitamente

pequenas, dando sentido a estas e as teorias desenvolvidas pelos matemáticos anteriores.

A partir de Cauchy e Weierstrass, o cálculo se torna uma ferramente rigorosa.

Suas abordagens a respeito dos conceitos de derivadas e integrais, a partir do conceito de

limite, tornaram as teorias estudadas neste trabalho nos primeiros capítulos aceitáveis,

visto que se trocarmos as grandezas innitesimais, usadas por Fermat, Newton e Leibniz,

pela denição de limite de Cauchy, o que faríamos nada mais é que, ao invés de desprezar

estas grandezas, tomar o limite quando elas tendem a zero. Por exemplo, no método

de quadratura de Fermat quando zemos a razão q innitamente próxima de um, o que


139

tomamos na verdade é o limite quando esta razão tende a um. Vale o mesmo para o

método da tangente de Fermat e dos demais matemáticos.

Por m, podemos concluir armando que Cauchy e Weierstras zeram pelo

cálculo o que Euclides fez pela matemática de sua época.


140

Considerações nais

Neste trabalho, através dos matemáticos Arquimedes, Fermat, Newton, Leib-

niz, Cauchy e Weierstrass, discutimos os conceitos do cálculo seguindo a ordem histórica

em que ele foi desenvolvido. Abordando geometricamente os conceitos de integral, deri-

vada, limite e continuidade.

Vimos que o cálculo surge de problemas geométricos como a quadratura do

círculo e da parábola (Arquimedes), o problema geométrico do traçado de tangentes, o

cálculo de máximos e mínimos, o cálculo da área delimitada por uma curva pelo método

da exaustão e de retângulos circunscritos ou inscritos a uma curva.

Percebemos a necessidade da elaboração do conceito de limite, que substitui o

argumento dos innitésimos (grandezas innitamente pequenas).

Nosso trabalho focou na construção geométrica dos problemas do cálculo, como

vimos no Capítulo 1 com os paradoxos de Zeno e o método da exaustão de Exudoxo,

utilizado por Arquimedes, e no Capítulo 2 com Fermat. Nos Capítulos 3 e 4 vimos

um tratamento algébrico dado por Newton e Leibniz ao conceito de derivada e integral.

Pudemos conhecer um pouco do método de cada um, e interpretamos estes métodos de

forma geométrica.

Estendemos o método de Fermat a outras curvas, além das parábolas e hipér-

boles superiores de Fermat, através da representação por série de potências. Percebemos

como estes conceitos deram origem ao que hoje conhecemos como cálculo diferencial e

integral. Fermat basicamente deu, aos matemáticos subsequentes, as ferramentes neces-

sárias para trabalharem os conceitos do cálculo. Estes conceitos foram discutidos no

Capítulo 3, com o método das uxões de Newton, que é equivalente ao método de Fermat

para encontrar a tangente a uma curva, e as regras de quadratura descritas por Newton.

Em ambos os casos, os conceitos de tangente e de quadratura não tiveram uma notação

adequada, o que ocorreu somente com Leibniz, como vimos no Capítulo 4.

Com a notação para a diferencial de uma grandeza dy , dx, dz , etc, foi possível

realizar os cálculos, em relação a encontrar a tangente a uma curva, de forma mais simples,

o que não havia ocorrido nos capítulos anteriores. Isso se deve ao fato de serem verdadeiras

as propriedades operacionais referentes aos cálculos com as diferenciais de Leibniz.


141

Em relação aos métodos de quadratura e tangentes, Leibniz foi mais feliz ao

empregar as notações de diferenciais e somatórios através do operador diferencial d e


´
integral . Devido a notação empregada no Capítulo 4, tivemos um maior entendimento

a respeito do teorema fundamental do cálculo, uma vez que o operador diferencial d é o


´
inverso do operador integral .

A notação de diferencial de ordem superior, empregada por Leibiniz, faz surgir

um novo conceito de derivada, a derivada de ordem fracionária, que veio para tentar
dn
explicar o signicado do operador
dxn
para n racional, disto surge o conceito de cálculo

fracionário. Tivemos a oportunidade de discutir, de forma supercial, esta teoria através

das denições de derivada fracionária de Lacroix e Riemann-Liouville, e a denição de

integral fracionária de Riemann-Liouville. Terminando, nossa discussão, com a resolução

dada por Abel para o problema da curva tautócrona, mostrando que a solução encontrada

é uma curva cilcoide.

Discutimos a teoria do cálculo nos cinco primeiros capítulos, tomando como

base as grandezas innitamente pequenas, ou as diferenciais innitamente pequenas de

Leibniz. Esta era a grande diculdade da aceitação do cálculo até o m do século XVIII

e meados do século XIX.

Por m, concluímos nosso trabalho discutindo os conceitos do cálculo desen-

volvidos no século XIX por Cauchy e Weierstrass. Vimos que neste século deu-se a conso-

lidação dos conceitos de derivada e integral a partir da denição de limite e continuidade

de uma função. A partir de então toda a falta de rigor, devido ao uso constante das

grandezas innitamente pequenas, pode ser desfeita com o conceito de limite. Este novo

conceito do cálculo tornou as operações realizadas anteriormente válidas e consistentes.

Nesta parte do trabalho abordamos a demonstração do teorema fundamental do cálculo

de forma geométrica utilizando a denição de derivada de Cauchy.

Ressaltamos, ainda, as seguintes contribuições, dadas nesse trabalho por nós,

no que diz respeito aos conceitos do cálculo desenvolvidos no séc. XVII:

• Generalizações do método da tangente de Fermat, de Newton e de Leibniz,

e suas propriedades, equivalentes as propriedades da derivada de uma função;

• A equivalência entre os métodos da tangente de Fermat, de Newton e de

Leibniz;

• Aplicação do método da tangente de Fermat para encontrar uma aproxima-

ção em série de potências de uma curva dada por y = f (x);


• Propriedades do método de quadratura de Fermat, e sua aplicação na qua-

dratura de curvas representadas por série de potências;

• Uma nova abordagem do método de quadratura de Fermat utilizando trapé-


zios circunscrito, e não retângulos como feito por ele;
142

• Aplicação do método de quadratura de Fermat no cálculo da área de uma

região plana delimitada entre duas curvas e do volume de um sólido gerado pela rotação

desta região em torno de um dos eixos coordenados;

• Uma abordagem inicial do teorema fundamental do cálculo (relação entre o

método da tangente e o da quadratura de Fermat);

• Resolução de uma equação diferencial utilizando os métodos da tangente e

de quadratura de Fermat.

Podemos concluir armando que o cálculo diferencial e integral se baseia em

três pilares, a saber:

1. Denição de limite (substituindo os innitésimos);

2. O cálculo da tangente a uma curva (derivada);

3. O cálculo da área (quadratura) delimitada por uma

curva, ou comprimento de arco (integral).


143

Bibliograa
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