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PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU

POLÍTICAS E GESTÃO EM SEGURANÇA PÚBLICA

MOISÉS MATIAS DO NASCIMENTO

POLICIAMENTO COMUNITÁRIO DA POLÍCIA MILITAR


DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO (PMERJ)
EM COMUNIDADES CARENTES

Rio de Janeiro
Fevereiro 2008
2

MOISÉS MATIAS DO NASCIMENTO

POLICIAMENTO COMUNITÁRIO DA POLÍCIA MILITAR


DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO (PMERJ)
EM COMUNIDADES CARENTES

Monografia apresentada à Universidade Estácio de Sá


como requisito parcial para obtenção do título de
especialista em Políticas e Gestão em Segurança
Pública.

Orientadora: Profa. Dra. Helenice Maia

Rio de Janeiro
Fevereiro 2008
3

SUMÁRIO

Introdução ......................................................................................................... 4

Capítulo 1 – Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro ........................... 11

Capítulo 2 – Policiamento Comunitário ........................................................ 20

Capítulo 3 – Comunidades carentes .............................................................. 27

Capítulo 4 - Grupamento de Policiamento em áreas especiais (GPAE) .... 33

Conclusão ........................................................................................................ 38

Referências
4

Introdução

O câncer causa efeitos trágicos no organismo humano. Ocorre que, se a degeneração


das células do corpo for diagnosticada rapidamente, as chances de cura aumentam
consideravelmente. Se fizermos uma analogia com os efeitos da falta de segurança pública
nas regiões metropolitanas do Brasil, podemos dizer que a sociedade só não morreu por
milagre, pois conhecemos o problema e não conseguimos resolvê-lo.
A passividade frente à falta de segurança e de solidariedade do povo com as vítimas
que morrem a cada dia pode ser percebida diante das manifestações contrárias à violência que
se restringem à família das vítimas e inibem protestos incisivos frente aos governos (Federal,
Estadual e Municipal). O resultado é que nos vemos trancados em nossas próprias casas e
condomínios com medo de um perigo iminente, a criminalidade.
Há duas décadas e meia, principalmente nas grandes cidades, vivemos este problema
social. Quando a primeira onda de violência ocorreu em 1979, o então Ministro da Justiça
determinou a realização de um estudo para encontrar respostas. A partir deste fato, vários
outros se sucederam: Comissão Parlamentar de Inquérito no Senado Federal para investigar as
causas de crimes ocorridos (1982); Seqüestro do publicitário Roberto Medina, que resultou o
advento da Lei dos Crimes Hediondos1 (1990); a “onda” de violência policial, que originou
pesquisa para descobrir suas causas, demandada pelo Ministro de Justiça (1997); Tragédia do
ônibus 174 (2000); Seqüestros em grande escala e rebeliões em presídios (2002); Morte do
menino João Hélio dos Anjos, arrastado preso ao carro dirigido por bandidos (2007), entre
outros (Da Silva, 2003).
Para estes acontecimentos e os demais que ocorrem todos os dias, as respostas dos
governantes e políticos são sempre a de que as policias devem se aprimorar, aumentar seu
efetivo, investir em viaturas ou em armamento. Outra resposta dos políticos é a mudança na
legislação criminal. Tais respostas não surtem efeito, pois mesmo sendo criados novos órgãos
policiais (Guarda Municipal, Força Nacional de Segurança Pública, por exemplo) e as penas
de determinados crimes sendo majoradas (Crimes Hediondos – Lei 8.072/90), o problema
parece ter aumentado.
Em âmbito estadual estão as Secretarias de Segurança Pública, compostas pelas
polícias civis e militares, constituídas por policiais que recebem mal, enfrentam bandidos
organizados e bem armados e, geralmente, trabalham com material de péssima qualidade ou

1
Lei nº 8.072, de 25 de julho de 1990 - criou rol dos crimes hediondos. Convém lembrar que o crime de extorsão mediante
seqüestro já existia no Código Penal. Esta lei apenas majorou sua pena e o incluiu como delito sórdido.
5

obsoleto.
A Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ) é o órgão responsável pela
preservação da ordem pública e seu contingente, em regra, trabalha uniformizado, isto é,
facilitar a identificação a agente público perante a população. A ostencividade denota atuação
policial na forma preventiva, contudo o emprego do policial militar, na prática, acaba sendo
mais na repressão de delitos, incursões esporádicas em comunidades carentes.
Ao longo dos anos no Município do Rio de Janeiro, os traficantes começaram, de
forma violenta, a dominar e se organizar em facções dentro de comunidades, o que leva
muitos estudiosos e profissionais da imprensa a afirmarem que existe um “poder paralelo” ao
oficial, cujas regras são ditadas e executadas por marginais.
Em diversas comunidades do Município do Rio de Janeiro, os moradores, principais
vítimas destes traficantes, devem seguir regras de conduta como piscar o farol do carro ao
entrar em uma comunidade; não olhar de frente (encarar) o traficante; não dever dinheiro na
“boca de fumo”; não importunar de qualquer forma a família e a(s) mulher(es) do bandido; e
não delatar a atividade ou o marginal nela envolvido. Apesar de no Brasil só se admitir a pena
de morte em casos de guerra declarada a outro país2, muitas vezes a violação de uma destas
condutas acarreta a imposição desta pena ilegalmente. Conforme registra Zaluar (2002, p. 67)
“os pobres de comunidades carentes são as maiores vítimas de roubos e assassinatos em locais
dominados pelos traficantes e com ausência de policiamento”.
As comunidades carentes, denominadas por favelas, são constituídas por pessoas em
sua maioria pobres com renda familiar inferior a cem dólares. A migração da população rural
em busca de trabalho na cidade é uma das explicações para o crescimento destas comunidades
nas regiões metropolitanas. Outros aspectos também devem ser considerados: as dificuldades
dos governos ao longo dos anos de criarem políticas habitacionais adequadas ao crescimento
da população e das cidades, e o descaso em conter novas invasões ilegais.
Anos de descaso governamental e a falta de instrução educacional dos moradores –
pois eles não sabem como nem porque reivindicar direitos -, gerou nestes locais um perfil de
marginalização em diversos aspectos como serviços públicos, principalmente, os de
policiamento.
Quanto à questão do sistema de policiamento a ser aplicado nas comunidades com
moradores de menor poder aquisitivo, o primeiro pressuposto que deve ser observado é o
respeito aos Direitos Humanos (DH).

2
Artigo 5°, inciso XLVII, alínea “a” da Constituição da República Federativa do Brasil.
6

Os DH, quando admitidos pelo ordenamento jurídico, asseguram uma série de


garantias inerentes ao bem estar do homem, ou seja, vida, saúde, lazer, segurança, integridade
física. Cabe ao poder público assegurá-los a todos no seio social e isso significa salário justo,
saúde e educação de qualidade.
A amplitude dos DH vai além do que é mostrado na televisão: pessoas engravatadas
que aparecem fazendo discursos quando acontece alguma chacina, visitando o local da
tragédia com cara de espanto dizendo: “Vão ser tomadas providências”.
Muitas pessoas, inclusive aquelas diretamente relacionadas à segurança pública,
entendem que respeitar o direito à vida, à integridade física é o mesmo que obstar as ações
policiais, pois estas devem estar ligadas à dureza, firmeza e imposição coercitiva da
autoridade. Tal afirmativa talvez remonte ao período de ditadura em que as polícias militares
eram usadas como órgão repressor do governo. Porém, essas idéias não podem existir no
regime democrático vigente, já que respeitar estes direitos representa a consolidação da
igualdade assegurada pela própria Constituição.
A doutrina dos DH, relativa à proteção da vida e integridade física, tornou-se
importantíssima para a formação, profissionalização e capacitação do policial, sobretudo
aqueles que trabalham em comunidades carentes. É a polícia que tem maior chance de êxito
na diminuição da violação dos DH, porém a polícia brasileira é uma das que mais mata no
mundo. Somente no Estado do Rio de Janeiro, no ano de 1997, morreram 300 civis em
confronto com policiais e em 2003, este número passou para 1195, ou seja, quase
quadruplicou3.
Dados do Instituto de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro (ISP) revelam
que já morreram 694 pessoas em confronto com as polícias Civil e Militar no período relativo
ao primeiro semestre deste ano (2007). Este número representa um aumento de 33,5% em
relação ao mesmo período do ano passado4.
O governo do Estado do Rio de Janeiro defende que o elevado índice de morte de
marginais em confrontos é sinônimo da eficiência da política de segurança, isto é, o “emprego
da força como técnica de resolução de problema” (CNPPC, 2007, p. 48). Entretanto, se
políticas públicas relativas aos direitos fundamentais e sociais fossem realmente
implementadas, o problema seria menor.
A mensuração da eficiência policial é, em primeiro momento, a prevenção de delitos,

3
Dados disponíveis em http://www.redecontraviolencia.org/Artigos/244.html.
4
Polícia do Rio matou 694 pessoas no 1° semestre de ano. Disponível em http://noticias.br.msm.com/brasil/artigo.aspx?cp-
documentid=5600409. Acesso em 19/10/2007.
7

isto é, promoção da ausência do crime e da desordem. Em segundo, quando já temos um


crime consumado, a investigação para descobrir seus autores. Por fim, uma análise macro em
dados e conhecimento (inteligência policial) para a indicação da melhor distribuição do
efetivo na localidade ou até mesmo o cruzamento de dados, no desmantelamento de quadrilha
de marginais. Para isso, faz-se necessário um maior compartilhamento de informações entre
instituições ligadas à segurança pública, registros civis e etc.
A visão do policial deve ser vinculada a sua condição de servidor público incumbido
de proporcionar qualidade de vida à sociedade podendo servir a população de forma
assistencial5.
Para justificar um comportamento violento, o policial brasileiro, principalmente o
carioca, conforme afirmam Machado e Noronha (2002, p. 189) participam “ativamente na
manutenção e reprodução da ordem social”, ou seja, o policial muitas vezes quer se proteger e
não leva em conta sua função de funcionário responsável por fazer cumprir a lei.
Falhando a percepção do policial sobre a importância da preservação dos Direitos
Humanos, o mecanismo a ser usado é o controle que pode ser realizado internamente pela
corregedoria e externamente pelo Poder Judiciário, quando a lei indicar competente. Estas e
aquelas modalidades devem ser aplicadas com efetividade e isenção.
Chevigny (1995) citado por Machado e Noronha (2002, p. 189), explica que:

a falta destes controles contribui para que a violência estrutural se transforme


em agressão direta e interpessoal, gerando formas de vitimização e
insegurança que favorecem a intolerância e servem com álibis para abusos
policiais. Nestes casos, a percepção de perda de controle sobre a
criminalidade faz com que setores da sociedade desenvolvam
comportamentos autoritários, apoiando excessos da polícia contra
responsáveis por delitos grandes ou pequenos.

Os locais pobres da cidade, que pelo princípio da igualdade deveriam ter o mesmo
policiamento e respeito dado aos moradores de bairros abastados, são constantemente
invadidos por operações policiais. Estas produzem sempre o mesmo resultado: morte de
marginais, policiais e inocentes vítimas de balas perdidas.
Diante deste quadro, é preciso mudar o procedimento e a forma de atuação da polícia.
Devemos pensar em mudar as atitudes relativas à segurança em áreas conflagradas, porque

5
É comum no sistema de policiamento comunitário o uso do policial na solução de problemas não policiais, como por
exemplo, a condução do de uma criança doente até o hospital público ou fazer contato com empresas públicas no caso de
falta de água ou luz.
8

matar e prender não resolve, pois se fosse assim já teríamos resolvido o problema. O pior é
quando a vítima é um morador totalmente isento.
As áreas carentes devem receber as instituições responsáveis pela segurança pública.
Entretanto, o importante é a permanência direta e efetiva do policial no local e,
subseqüentemente, a entrada de serviços públicos pertinentes a todas as esferas de governo
(Federal, Estadual e Municipal). Estes serviços poderiam vincular educação, saúde, esportes e
intercâmbio de oportunidades de emprego. Aliado a isto, com uma polícia comunitária boa e
honesta, ganharíamos a confiança e o apoio da comunidade.
Soares (2007) defende que os governos federais, estaduais e municipais devem firmar
parceria entre si e viabilizar apoios e convênios com a sociedade civil6. Assim todos poderão
dar suas contribuições com projetos educacionais, saúde pública, lazer, esporte, emprego,
cursos profissionalizantes e, logicamente, segurança. Vale ressaltar que, de forma ordenada,
cada um deve saber o seu papel e que realmente estejam atrelados às respectivas áreas de
atuação. Exemplo diagnosticado pela PMERJ (órgão estadual) é que se um local precisa de
iluminação, caberá a Rioluz (órgão municipal) realizar de pronto o serviço.
Um exemplo de integração que merece ser destacado é o projeto Fica Vivo
implementado no Morro das Pedras, em Belo Horizonte, Minas Gerais, no período de agosto a
dezembro de 2002 com o objetivo de reduzir o número de homicídios naquela localidade. Tal
projeto apresentou redução de 17 homicídios para 9 em comparação aos quatro meses
anteriores, ou seja, 47.1% de redução.
Para que este resultado ocorresse, foi criado um grupo de trabalho (Câmara de Gestão
do Problema) que evoluiu para duas formas de intervenção denominadas Grupo de
Mobilização Comunitária e Grupo de Ação Estratégica de Intervenção.
A Prefeitura de Belo Horizonte, setores do comércio, da indústria, Universidade
Federal de Minas Gerais, associações comunitárias, clubes de serviços, Igrejas e entidades não
governamentais formaram o Grupo de Mobilização Comunitária que buscou apoio da
comunidade. Foram usadas campanhas nos meios de comunicação para conscientizar os
jovens sobre o perigo do envolvimento com o tráfico de drogas ilícitas, enfatizando a morte
ou prisão de muitos indivíduos (lideres ou integrantes).
Já o Grupo de Ação Estratégica de Intervenção atuava ocupando a localidade em casos
de ocorrência de homicídio. Assim soava para os traficantes, implicitamente, que matar
alguém dentro da favela representava ocupação e, conseqüentemente, redução considerável da

6
Empresários, organizações não governamentais (ONGs) que podem ministrar curso profissionalizante ou fornecer ou
intermediar empregos para a comunidade.
9

venda de entorpecentes. Foram recrutados para estas ações as Polícias (Civil e Militar,
federal), o Ministério Público e o Poder Judiciário.
Ainda com relação ao grupo de intervenção, este trabalhou na coleta de dados
(identificação de adultos e adolescentes envolvidos); reuniões (juízes e promotores),
objetivando acelerar o exercício de suas atribuições; reuniões de emergência, quando na
ocorrência de homicídios; reuniões quinzenais periódicas; repasse das informações das
polícias para os promotores encarregados de propor as respectivas ações penais; operações
conjuntas entre as polícias para cumprir mandados de prisão; e abrir o leque para a atuação
contra outras atividades criminosas (delitos).
O grande destaque deste projeto mineiro foi à integração dos diversos órgãos
envolvidos. Tal envolvimento é uma das buscas de um programa de policiamento
comunitário, principalmente, no que tangue a afinidade entre a polícia e a comunidade, pois
aquela precisa desta como meio de obter informação sobre criminosos e crimes; já a
comunidade precisa de proteção.
No Rio de Janeiro, um exemplo que esta integração pode ser viável é a Organização
Não Governamental (ONG) denominada Disque Denúncia. No ano de 2006 foram 103.892
denúncias registradas, sendo que 28.757 geraram ações imediatas do poder público. O crime
de tráfico de drogas obteve 33% do total de chamadas, o que indica uma indignação e
predisposição da população em denunciar este ato ilícito7.
Com efeito, surge a pergunta: Por que a população procura o Disque Denuncia ao
invés de procurar diretamente as instituições policiais? Tal vez pela falta de confiança, não
existe, em regra, consolidada uma boa imagem das instituições policiais e de que a denúncia
será realmente apurada.
Também chamado do policiamento cidadão e polícia integrada, o policiamento
comunitário, quando bem aplicado, apresenta este princípio de auto-ajuda, confiança mútua,
abertura e valores compartilhados.
No policiamento comunitário o policial militar é o profissional essencial. Sua
presença, fardado, inibe o cometimento de delitos, indica ao cidadão aonde ela pedirá ajuda e
também funciona como uma espécie de “assistente social”, pois procura estender sua atuação
a questões assistenciais.

7
Ver http://www.disquedenuncia.org.br/imprimir.asp?id=23&cc=4. Acesso em 22/10/2007.
10

Dado o exposto, o objetivo deste trabalho é verificar sistemas de policiamento


comunitário que possam ser inseridos em comunidades do município do Rio de Janeiro e que
poderão contribuir para a melhoria da qualidade de vida de seus moradores.
11

Capítulo 1

Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro

Há quase dois séculos foi assinado pelo próprio Don João VI o documento que
inauguraria a história da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ), conforme
Decreto transcrito na apostila do Curso de Formação de Soldado (CFSD) de 1999:

Sendo de absoluta necessidade prover á segurança, e tranquilidade Pública


desta Cidade, cuja população, e tráfico tem crescido consideravelmente, e se
augmentará todos os dias pela afluência de Negócios inseparável das grandes
Capitães; e havendo mostrado e experiência, que o Estabelecimento de huma
Guarda Militar de Policia he o mais próprio não só para aquelle desejado fim
da boa ordem, e socego Público, mas ainda para osbtar ás danozas
especulações do Contrabando, que nenhuma outro Providência, nem as mais
rigorozas Leis prohibitivas tem podido cohibir: Sou serido Criar huma
Divizão Militar da Guarda Real de Polícia desta Corte, com a possível
semelhança daquella, que com tão conhecidas vantagens Estabeleci em
Lisboa, a qual se organizará na conformidade do Plano, que com este baixa,
assinado pelo Conde de Lilhares, de Meu Conselho de Estado dos Negócios
Estrangeiros, e da Guerra. O conselho Superior Militar o tenha assim
entendido, e o faça executar na parte, que lhe toca. Palácio do Rio de Janeiro
em treze de maio de mil oitocentos e nove.
Com rubrica do príncipe regente.

Este documento representa a formalização do primeiro contingente policial no Estado


do Rio de Janeiro. No dia 13 de maio de 1809 foi instituída a Divisão Militar da Guarda Real
de Polícia (DMGRP) com a função precípua de dar proteção à Família Real Portuguesa e a
aproximadamente 15 mil pessoas vindas de Portugal junto com ela.
Considerada como o primeiro núcleo da atual PMERJ, este destacamento militar
trabalhava armado, em tempo integral, e com uniforme idêntico ao da Guarda Real
Portuguesa. O primeiro comando foi exercido pelo coronel português José Maria Rabelo.
Em 1841, o chefe civil de polícia passou a concentrar todas as iniciativas na área de
segurança, ou seja, a secretaria civil detinha o poder na Corte em relação ao policiamento,
inclusive comandando o destacamento policial militar. A Secretaria contava com vigilância
ostensiva de homens a pé, subdelegados e inspetores de quarteirão. Todas estas medidas
acabaram por inaugurar o atual sistema bipartido estadual, isto é, policia civil e militar. Até
que, em 1871 uma nova reforma voltou a limitar o poder da Secretaria Civil e restituiu a
12

autonomia aos militares.


Saindo dos acontecimentos históricos, a militarização do policiamento até hoje figura
como recurso para garantir a ordem entre os componentes da polícia, geralmente oriundos de
classes pobres e que recebem baixos salários. A busca de melhores serviços na área de
segurança deve passar por aumento de salário, qualificação e flexibilização de modelos
organizacionais. A estrutura militar atual, principalmente no Rio de Janeiro, emperra a
modernização, racionalização e o controle qualitativo dos serviços.
Um dos acontecimentos mais enaltecidos pela própria Polícia Militar do Estado do Rio
de Janeiro foi a sua participação, na época ainda como Corpo de Guarda Municipal
Permanente (CGMP), com 501 homens (73% do efetivo), na Guerra do Brasil contra o
Paraguai (1.865). Tal fato levou a criação da Guarda Urbana (GU), pois a cidade encontrava-
se desprotegida pela retirada compulsória de boa parte do contingente dos Permanentes.
A GU era controlada pelo chefe de polícia e estava incumbida de prevenir pequenos
crimes e desordem. Os seus integrantes deveriam se conhecidos pela moralidade (conduta
irretocável) e ser oriundos dos locais onde realizariam o patrulhamento. As autoridades da
época acreditavam que a proximidade do policial com a comunidade contribuía para a
melhoria da segurança. Assim, esta foi a primeira iniciativa de criação de um policiamento
comunitário legal na cidade, pois sendo o policial do local em que trabalha, pressupõe que
conheça os problemas e os moradores do lugar.
Somente no ano de 1901, com o nome de Brigada de Polícia da Capital Federal,
conforme o Decreto n° 958 de 6 de novembro de 1890, a PMERJ exige o requisito da
alfabetização, idade mínima de 40 anos e prova de capacitação para ascensão profissional dos
praças e oficiais.
O nome Polícia Militar (PM) só veio em 1920. Também neste ano é criada a Escola de
Formação de Oficiais (atual Academia de Polícia Dom João VI), um gigantesco passo para a
profissionalização dos oficiais da corporação, apesar do comandante da PM ainda vir das
fileiras das forças armadas.
Apesar da militarização do patrulhamento urbano advir da época de Dom João VI, nos
anos de 1930 ocorreu formalmente a união dos temas segurança pública e segurança interna.
Nesta data estipulou-se também a subordinação das policias militares frente às forças
armadas.
O artigo 167 da Constituição Federal de 1934 foi o primeiro a definir formalmente as
polícias militares como reserva do Exército, podendo ser mobilizadas pela União para defesa
interna e externa (MUSUMECE; MUNIZ, 2000).
13

A Carta Magna de 1946 reafirmou a condição da PM como reserva e também como


auxiliar do exército. Esta Constituição ainda dispôs que o policiamento militar servia para a
manutenção interna da segurança e da ordem de todos os estados da federação, o Distrito
Federal (ainda o Rio de Janeiro) e territórios.
Com a transferência em 21 de abril de 1960 da Capital Federal do Rio de Janeiro para
Brasília, foi criado e Estado da Guanabara para ocupar o local deixado pelo antigo Distrito
Federal. Vejamos a seguir o Mapa mostrando como ficou divisão do território fluminense na
época:

Mapa 1 – Divisão do território em dois estados em 1960

Assim, foi criada a Polícia Militar do Estado da Guanabara (PMEG) como os


remanescentes da antiga polícia do Distrito Federal. No restante do território atuava o Polícia
do Estado do Rio de Janeiro (PERJ).
No ano de 1962 foi criada a Secretaria de Segurança Pública através da Lei Estadual
n° 263/62. Tal legislação determinou que os comandos da Polícia Civil e da PERJ ficariam
subordinados a Secretaria, o que centralizou as ações.
Em 13 de dezembro de 1968, foi confirmada a função ordinária das polícias militares
estaduais de manutenção da ordem e da segurança; e a extraordinária como auxiliares e
reservas do exército. O Exército tinha tanta supremacia que era vedada a equivalência salarial
14

entre os postos das instituições, ou seja, um sargento do exército deveria ganhar mais que o da
Policia Militar Estadual.
Até o final do ano de 1969 o trabalho de policiamento ostensivo da PM era
praticamente inexistente, só ocorria por solicitação de autoridades ou em alguns eventos de
grande porte. A tropa policial era empregada na vigilância de pontos considerados sensíveis
(estações, torres de transmissão de energia, instalações de tratamento de água etc) e no
controle de distúrbios políticos.
O nome atual Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ) surgiu em 15 de
março de 1975 com a fusão do Estado do Rio de Janeiro com o Estado da Guanabara. Com o
citado acontecimento, as duas instituições policiais (PERJ e PMEG) se uniram. A recém
criada PMERJ passou a contar com um efetivo de 29.678 homens.
O primeiro a introduzir na polícia a idéia de servir tanto na solução de problemas
quanto na melhoria da qualidade de vida da população foi o Coronel da PMERJ Carlos
Mazareth Cerqueira em 1980 (OLIVEIRA, 2002). Seus conhecimentos relativos à polícia
comunitária encontravam muitas resistências internas, pois o próprio país ainda se encontrava
em processo de mudança: ditadura para democracia.
No ano de 1983, os comandos da Polícia Militar e Polícia Civil que haviam sido
unificados em 1962 foram separados, conforme o Decreto n° 689/83, fundando assim a
Secretarias de Estado da PM e da Polícia Civil. Tal ato deu maior autonomia às instituições.
Em 1988, a Constituição Federal tratou pela primeira vez do tema segurança pública
em um capítulo à parte, o que marcou sua separação de outros temas como Defesa Interna e
Forças Armadas. O artigo 144, assim dispõe:

A segurança pública, dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, é


exercida para a preservação da ordem pública e da incolumidade das pessoas
e do patrimônio, através dos seguintes órgãos:
I - polícia federal;
II - polícia rodoviária federal;
III - polícia ferroviária federal;
IV - polícias civis;
V - polícias militares e corpos de bombeiros militares.
(...)
§ 5º - às polícias militares cabem a polícia ostensiva e a preservação da
ordem pública; aos corpos de bombeiros militares, além das atribuições
definidas em lei, incumbe a execução de atividades de defesa civil.
§ 6º - As polícias militares e corpos de bombeiros militares, forças auxiliares
e reserva do Exército, subordinam-se, juntamente com as polícias civis, aos
Governadores dos Estados, do Distrito Federal e dos Territórios.
(...)
15

Convém destacar que, o legislador constitucional procurou dar um enfoque de


solidariedade ao tema. Ele determina que segurança pública é “dever do Estado, direito e
responsabilidade de todos”. Isto é, todos devem estar imbuídos, com sua parcela de direito,
responsabilidade e contribuição para diminuir a criminalidade.
A segurança pública, pelo texto constitucional, é preservar o pleno e pacifico
funcionamento das instituições públicas e privadas, bem como procurar manter integro o
patrimônio (os indisponíveis – vida, saúde; e disponíveis – bens móveis e imóveis).
Ainda com relação ao artigo 144 da CF, a PMERJ é dada a função de órgão
responsável pela segurança em âmbito estadual com subordinação direta ao Governador. Seus
integrantes devem apresentar-se uniformizados procurando sempre a preservação da ordem
pública, conforme estipula o parágrafo 5° do citado artigo.
Em 1995 é desfeita a separação ocorrida em 1983. A Polícia Militar e Civil do Estado
voltaram a ter o comando unificado, ou seja, foi criada a Secretaria de Segurança Pública em
que o secretário dita as ações das duas instituições, iniciativa que visa maior integração em
prol da sociedade.
A PMERJ é um órgão quase bicentenário responsável pelo policiamento ostensivo no
Estado. A grande maioria do seu efetivo está concentrada no Município do Rio de Janeiro,
pois na capital está a maioria da população e, conseqüentemente, também o maior número de
problemas relativos à criminalidade.
Suas modalidades de patrulhamento variam entre prevenção, repressão e dissuasão de
delitos. A PMERJ, em regra, trabalha com seu contingente fardado e munido de arma de fogo.
Os policiais militares também prestam assistência ao público fornecendo informações,
orientações e atendimentos nos casos de desastres e emergência.
A ostensividade acaba tornando o Policial Militar o principal protagonista do
policiamento cidadão, pois denota visibilidade perante aos populares e, em conseqüência, a
atuação na prevenção de crimes.
Todo o sistema de comando e responsabilidade da PMERJ está estruturado em dois
pilares: hierarquia e disciplina. O escalonamento de postos, vinculado ao das forças armadas,
com círculos de praças e oficiais (separados), são determinados conforme apresentado no
Quadro 1, a seguir:
16

Quadro 1 – Estrutura hierárquica da PMERJ

POSTOS/GRADUAÇÕES FUNÇÕES
CÍRCULO DE OFICIAIS
CORONEL PM COMANDO, LIDERANÇA,
SUPERIORES TENENTE-CORONEL PM DIREÇÃO E
MAJOR PM PLANEJAMENTO
INTERMEDIÁRIOS CAPITÃO PM GERÊNCIA E
PRIMEIRO-TENENTE PM ADMINISTRAÇÃO; ELOS
SUBALTERNOS DE COMUNICAÇÃO ENTRE
SEGUNDO-TENENTE PM O COMANDO E AS PRAÇAS
ESTÁGIO PROBATÓRIO
ASPIRANTE A OFICIAL PM SUPERVISIONADO
PRAÇAS ESPECIAIS
FORMAÇÃO PARA A
ALUNO-OFICIAL PM CARREIRA
CIRCULO DE PRAÇAS
SUBTENENTE PM EXECUÇÃO DAS
DIRETRIZES
PRIMEIRO-SARGENTO PM ADMINISTRATIVAS E
SEGUNDO-SARGENTO PM OPERACIONAIS.
INSTRUÇÃO,
ADESTRAMENTO E
SUBTENENTES E SARGENTOS
CONTROLE DAS PRAÇAS.
PARTICIPAÇÃO DIRETA
NAS ATIVIDADEs
ROTINEIRAS E ESPECIAIS
DE POLICIAMENTO
TERCEIRO-SARGENTO PM OSTENCIVO
EXECUÇÃO DIRETA DAS
CB PM
TAREFAS NORMAIS E
CABOS E SOLDADOS ESPECIAIS DE
POLICIAMENTO
SOLDADO PM OSTENSIVO
Fonte: MUSUMECE; MUNIZ, 20008

A regra é que o ingresso ao posto de praças e oficiais é distinto. Para ascender ao


quadro de oficiais é preciso prestar vestibular na Universidade Estadual do Rio de Janeiro
(UERJ) e optar pelas vagas da Academia de Polícia Militar (APM). Já para se tornar praça, o
candidato deverá prestar concurso público e fazer o curso no Centro de Formação e
Aperfeiçoamento de Praça ou em algum batalhão pedagógico.
Este processo cria uma distância grande entre os dois círculos (oficiais e praças),
principalmente na questão do oficial vivenciar o problema do praça e este sentir as
dificuldades dos oficiais. O que queremos dizer é que executar ordens e comandar uma tropa
é difícil.

8
As Instituições de Segurança Pública do Rio de Janeiro retiram as informações para a confecção desta tabela no Estatuto
dos Policiais Militares – Lei Estadual n° 443 e 01/07/81, complementada pela L. Est. N° 1.008, de 18/06/1.986. Do quadro
original foi retirada a sub-classificação A, B, C do posto de soldado, pois ela foi extinguida. Assim hoje só existe uma classe
de soldados (MUSUMECE; MUNIZ, 2000, p. 11)
17

Entendemos que deveria haver uma única entrada para carreira de policial militar. O
candidato entraria como soldado e periodicamente poderia fazer concurso para ascender aos
postos mais elevados. Neste caso, o profissional conheceria melhor todas as graduações até
chegar ao posto de coronel. Neste sistema, se bem aplicado, só os melhores comandariam a
PM e com a vantagem de saber as peculiaridades e dificuldades de cada graduação.
Sua estrutura administrativa é dividida em Organizações Policiais Militares (OPMs),
de acordo com o Quadro 2, apresentado em seqüência.

Quadro 2 – Estrutura Administrativa


COMANDANTE GERAL
OPMs EXECUTIVAS
ASSESSORIA COPOM Centro de ESTADO-MAIOR CORREGEDORIA
ESPECIAL Operações GERAL
OPMs SETORIAIS
DEI DGAL
DGS DGF
DIREÇÃO DE DIRETORIA GERAL
DIREÇÃO GERAL DIRETORIA GERAL
ENSINO E DE APOIO
DE SAÚDE DE FINANÇAS
INSTRUÇÃO LOGÍSTICO
OPMs OPERACIONAIS
COMANDO DAS
COMANDO DE COMANDO DE COMANDO DE UNIDADE DE
POLICIAMENTO DA POLICIAMENTO DO POLICIAMENTO DA OPERAÇÕES
CAPITAL (CPC) INTERIOR (CPI) BAIXADA (CPB) ESPECIAIS (Cmdo
UOpE)
BATALHÕES (BPMs) BATALHÕES (BPMs) BATALHÕES (BPMs)
BpChoq, RCECS,
E COMPANHIAS E COMPANHIAS E COMPANHIAS
BPRv, BPFer, BOPE,
INDEPENDENTES INDEPENDENTES INDEPENDENTES
BPFMA, CAPTran
(CIPMs) (CIPMs) (CIPMs)
Fonte: MUSUMECE; MUNIZ, 2000

Analisando os quadros apresentados anteriormente e tomando por base a proposta de


policiamento comunitário no Município do Rio de Janeiro, o que nos interessa são as
Organização Policial Militar Operacional (OPMs Operacionais), mais precisamente o
Comando das Unidades de Operações Especiais (Cmdo UopE), pois estas são responsáveis
pelo projeto de polícia cidadã.
A determinação de instituir um projeto como este deve ter o aval ou até mesmo partir
do próprio Comandante Geral da PMERJ. Este deve supervisionar o projeto quanto aos
resultados, porém não deve minar iniciativas locais, ou seja, deve existir autonomia do
comandante local para dirigir e instruir seus subordinados, além de fazer o “corpo a corpo”
com a comunidade para saber se os mesmos precisam do serviço que está sendo prestado.
Além do mais, quem está mais próximo, via de regra, enxerga melhor, isto é, dar mais
18

poder ao comandante do policiamento comunitário pode diminuir a possibilidade de uma


visão superficial e, em contra partida, ajudar a focar soluções para os problemas.
É bem verdade que as cobranças devem vir acompanhadas do fornecimento de
subsídios (logística) para que o trabalho da PMERJ seja bem desempenhado. Apesar do
policiamento comunitário priorizar o patrulhamento a pé, também se faz necessário o uso de
novas tecnologias para auxiliar e melhorar a qualidade dos serviços. Assim, equipamentos
como computadores, rádios comunicadores, coletes identificadores, sistemas de
monitoramento, veículos, armamentos modernos e adequados, protetores balísticos são muito
importantes (CNPPC, 2007).
Além disso, A PMERJ deve procurar sempre aprimorar o profissionalismo e exigir
maior autonomia quanto a sua maneira de atuar. Para isso é preciso investir em cursos
técnicos e isto só acontecerá com o investimento no homem.
O caminho para o profissional de segurança pública é o máximo de profissionalização
e esta só é alcançada através do estudo continuado, isto é, estar constantemente em sala de
aula ou realizando pesquisa, além de praticar atividades importantes como técnicas de
abordagem e tiro.
Comungamos com o pensamento de que os comandantes da Polícia Militar devem ser
isolados de pressão externas e com mandatos fixos de seus respectivos batalhões. Assim
sofreriam menos influências da mídia ou (e) de autoridades (governadores, prefeitos,
vereadores, deputados e etc.) nos serviços pertinentes à segurança pública. A proposta e
realização de parceria e não pressões ocasionando a exoneração de comandantes.
Para contrapor este quadro, o ingresso ou retirada dos chefes da polícia militar, tanto o
comandante geral da PMERJ como comandantes de batalhões, poderia ocorrer mediante uma
decisão de conselho9 formado por representantes da comunidade, sociedade civil e governo.
Este conselho poderia se reunir periodicamente ou extraordinariamente quando indícios de
improbidade administrativa e crimes graves cometidos por um comandante.
Segurança pública é responsabilidade de todos. Críticas construtivas e sugestões são
válidas, mas o profissional de segurança, pela sua formação e experiência, é o mais indicado
para dizer como vai ser a segurança pública.
Exemplificando, há alguns anos funcionava no município carioca os Polígonos de
Segurança pública, programa hoje extinto, precisava ser aprimorado principalmente quanto às

9
Este conselho poderia se reunir periodicamente (para avaliação do desempenho profissional o comandante) ou
extraordinariamente (nos casos de indícios ou provas improbidade ou ilegalidades). É evidente que neste processo seria
assegurado os princípios constitucionais do contraditório e ampla defesa.
19

acomodações para os policiais que ali trabalhavam. Mas, a idéia de ter um ponto fixo com
uma dupla de policiais 24 horas e com uma viatura era muito boa, pois a população tinha o
conhecimento que naquele local havia um policiamento pronto a atendê-la.
Passando para a questão das comunidades carentes, o Município carioca conta com
vários locais dominados por traficantes fortemente armados. Trata-se de locais em que a
polícia é recebida por um poderio bélico usado em guerras. Para combater estes meliantes não
basta apenas entrar no local desordenadamente e, muitas vezes, imprudentemente.
Para isso, faz necessário usar literalmente a inteligentes. O trabalho de inteligência
policial é fundamental para ações nestes redutos. O levantamento de informações e
investigações pode aumentar consideravelmente o índice de sucesso das operações e diminuir
o índice de mortes.
Na esteira destas possíveis ações pode também atuar membros do ministério público e
do judiciário expedindo mandatos de prisão e outros dispositivos jurídicos como autorização
para interceptações telefônicas. Pode-se usar dados da polícia civil para estudo e
mapeamentos da criminalidade.
A PMERJ basicamente permeia sua atuação no “modelo profissional” de
policiamento. Este modelo teve início na década de 20 nos Estados Unidos, sendo
posteriormente copiado em vários países do mundo. Carecendo de interação como as
sugeridas acima.
O “Modelo Profissional” tem suas idéias relacionadas à aplicação restrita das normas
penais, isto é, tocar a repressão dos delitos; os escalões inferiores são meros executores das
leis e ordens; o topo da cadeia hierárquica centraliza a tomada de decisões; usos de viaturas,
rádio, telefones e, recentemente no Brasil, computadores (GPS) para dar mobilidade,
comunicação e controle; rondas estão sendo substituídas por policiais em automóveis;
chamadas telefônicas (popular 190) como meio de comunicação direta com a população.
Este modelo, que há três décadas predominava em diversos países, vem sendo trocado.
Constatou-se que o investimento nos pontos básicos do “Modelo Profissional” (citados acima)
não surte o efeito desejado. Sendo assim, passou-se a buscar uma maior participação da
comunidade, ou seja, união para um bem comum (DIAS NETO, 2002).
20

Capítulo 2

Policiamento comunitário

Uma reunião para práticas religiosas dentro de uma escola ou em um clube são, em
regra, entendidas como benéficas para seus praticantes. É evidente que no campo da
segurança pública o universo é totalmente diferente, porém a idéia de entrelaçamento
(reunião, união) para o bem individual e coletivo deve acontecer e permanecer.
A busca do diálogo com as comunidades fez com que desde 198910 o legislador
estadual estipulasse a criação dos Conselhos Comunitários de Segurança e, posteriormente, os
Cafés Comunitários. O escopo é reunir lideranças comunitárias e autoridades governamentais
de diversas áreas nos Batalhões da PM para discutir e tentar melhorar vários serviços
públicos, inclusive os relativos à segurança.
Sem dúvida deve existir a interação de diversos setores do governo e da sociedade. A
cidade precisa estar bem iluminada, bem sinalizada, o judiciário deve trabalhar de forma
rápida e correta. É necessário desenvolver políticas eficientes de habitação, transporte,
empregos, acolhimento e ressocialização da população carcerária. Sendo assim, não se pode
atribuir o problema da criminalidade apenas as instituições ligadas com segurança pública.
No sistema bipartido em âmbito estadual, duas polícias, uma investigativa e outra
ostensiva, devem atuar harmoniosamente e com interação rápida também no que se refere ao
policiamento comunitário. Um bom exemplo é o mapeamento de ocorrências feito pela
polícia civil que pode ajudar a direcionar o trabalho da polícia militar.
Moekus e outros (2005, p. 5) definem, de forma mais ampla, que cultura cidadã são
“ações com o fim de conservar e fortalecer alguns comportamentos e mudar outra com duas
finalidades: conseguir por meio pedagógico o cumprimento da lei e/ou impulsionar ações
coletivas para conseguir bens públicos”. O objetivo principal é compartilhar regras mínimas,
baseadas também em costumes para gerar sentido de convivência e de respeito dos lugares
comuns (espaços públicos) e a ciência popular de direitos e deveres.
Esses autores consideram que a grande maioria das cidades latino-americanas “têm
problemas com quantidade e qualidade, a distribuição e o uso dos espaços públicos costumam
incluir-se entre os fatores que geram insegurança e propiciam a violência e delinqüência”

10
Constituição Estadual do Rio de Janeiro, artigo 182 § 2°.
21

(MOEKUS, 2005, p. 30).


Relatam ainda que para tentar resolver problemas relativos à segurança pública, os
governos sul-americanos costumam aumentar o uso da força e vigilância policial, buscar a
redução da impunidade, criar dispositivos pertinentes à justiça alternativa, promover formas
pacíficas de resolução de conflitos, novos modos de atuação, programa sociais para inclusão
de jovens e população de baixa renda entre outra ações.
O problema das políticas está na formulação de conhecimento relativo a sua eficácia,
ou seja, há falta de estudos que comparem os problemas relacionados ao uso do espaço
público, além da ausência de mensuração de seu impacto e avaliação periódica destas
medidas.
O policiamento cidadão mostrou-se eficiente em números11 (quedas dos índices de
criminalidade) e em depoimentos de profissionais e moradores de localidades onde é aplicado
corretamente.
O Policiamento interativo ressurgiu nas décadas de 70 e 80 na Europa Ocidental e
América do Norte quando diversas instituições policiais destes continentes passaram a mudar
sua estrutura, funcionamento e maneira de lidar com a criminalidade (MESQUITA NETO,
2004).
Nos Estados Unidos a polícia comunitária significou a volta às origens, pois a natureza
da função policial, desde o início, tinha o foco na proteção do cidadão contra os malfeitores,
além de servir como alternativa para combater os diversos casos de corrupção e ilegalidades
na polícia Americana.
Este programa de policiamento tem como princípio a transparência na atuação e nos
resultados. O controle das organizações policiais deveria sair das mãos dos políticos e passar
para as dos administradores da polícia e da sociedade. Assim, a supervisão e controle
formariam o primeiro binômio para o aumento da transparência nas ações policiais.
Na década de 60, se passou a exigir mais controle das atividades das polícias. O estudo
dos diversos tipos de supervisão mostrou que o controle externo desempenhado formalmente
pelos cidadãos é o melhor, pois afastou o corporativismo comum nas investigações internas.
Recentemente, no Brasil, o tema relativo a controle também encontra grande
relevância. Souza e Reis (2005) afirmam que a atividade policial tem a função democrática de
vincular o povo ao Estado, ou seja, fazer que o estado possa promover a proteção de bens

11
Oliveira (2002) indica os resultados positivos no Morro dos Quatro – Espírito Santo (1.997) e no Bairro do Perpétuo
Socorro, Macapá – Amapá (1.998). No primeiro os índices de homicídios caíram 64 %; assaltos, agressões e tentativa de
homicídio, 43%; frutos e roubos, 30%; crimes contra o patrimônio, 24%. Já no Morro do Perpétuo Socorro os registros de
homicídios, furtos, roubos e agressões passaram de 400 para 202 casos mensais.
22

como propriedade, vida, liberdade. Assim, torna-se imprescindível a edição de regras claras
que indiquem limites à atuação dos policiais, controle dos resultados alcançados e efetivação
dos controles já existentes.
De acordo com esses autores, tais controles podem ser internos, externos e mistos. O
controle interno é aquele realizado pela própria instituição, como por exemplo, os serviços
realizados pelas Corregedorias, o Controle Hierárquico, Coordenação Operacional efetuado
pelos líderes ou comandantes e o Controle de Resultados.
Já o controle que é realizado por uma outra entidade de fora para dentro da polícia é
chamado externo. Figuram como controle externo aqueles realizados pelo Poder Judiciário,
Comissões de Direitos Humanos do Poder Legislativo, Imprensa (escrita e televisiva),
inspeção realizada pelo Exército Brasileiro no armamento utilizado pelas Polícias Militares,
Ouvidorias das Polícias e a própria população.
O controle externo realizado pela população é importante para a aplicação do
policiamento comunitário, pois, nesta modalidade busca-se uma maior participação da
comunidade, inclusive quanto à fiscalização dos serviços. Nada mais legítimo do que o
próprio destinatário do serviço ser o responsável pela mensuração de sua eficiência. Porém, a
ampliação deste controle representaria uma melhor interação entre a instituição responsável
(Polícia Militar) e a comunidade, pois a polícia precisa de informações tanto para punir os
maus policiais quanto para ter ciência de atividades ilícitas.
O controle misto é desempenhado tanto no interior como fora da instituição e
denominado o Controle Integrado. Nesta modalidade específica são realizadas reuniões em
que órgãos de defesa social, instituições responsáveis pela segurança pública e representante
dos moradores analisam os sucessos e insucessos quanto aos serviços prestados12.
A evolução de experiências recentes mostrou que o ápice desta transparência ocorre
quando há o perfeito envolvimento entre a comunidade e o policial, isto é, confiança mútua,
abertura, valores compartilhados, interação, discussão contínua e avaliação de desempenho.
Assumir esta postura muitas vezes representa ruptura com um modelo tradicional de
polícia (interventiva e reativa). A teoria do policiamento comunitário tem parâmetros mais
amplos, ou seja, procura atuar na prevenção e resolução dos problemas. Esta mudança,
quando colocada em prática, representa maior afinidade e cumplicidade da polícia com a
população.

12
O tema controle foi inspirado no trabalho de Souza e Reis (2005).
23

O Quadros 3 apresentado a seguir mostra as principais diferenças entre a Polícia


Tradicional e a Polícia Comunitária:

Quadro 3 – Características da Polícia Tradicional e da Polícia Comunitária


POLÍCIA TRADICIONAL POLÍCIA COMUNITÁRIA
A polícia é uma agência governamental responsável, A polícia é o público e o público é a polícia: os
principalmente, pelo cumprimento da lei policiais são aqueles membros da população que são
pagos para dar atenção em tempo integral às
obrigações dos cidadãos.
Na relação entre a polícia e as demais instituições de Na relação como as demais instituições de serviços
serviço público, as prioridades são muitas vezes públicos, a polícia é apenas uma das instituições
conflitantes. governamentais responsáveis para a qualidade de vida
da comunidade
O papel da polícia é preocupar-se com a resolução do O papel da polícia é dar um enfoque mais amplo
crime visando à resolução de problemas, principalmente por
meio da prevenção.
As prioridades são, por exemplo, roubo a banco, A eficácia da polícia é medida pela ausência de crime
homicídios e todos aqueles envolvendo violência. e de desordem.
A polícia se preocupa mais com os incidentes. As prioridades são quaisquer problemas que estejam
afligindo a comunidade.
O que determina a eficiência é o tempo de resposta. A polícia se ocupa mais com os problemas e as
preocupações dos cidadãos.
O profissionalismo policial se caracteriza pelas O que determina a eficácia da polícia é o apoio e
respostas rápidas aos crimes sérios. cooperação do público.
A função dos comandos é prover os regulamentos e as O profissionalismo policial se caracteriza pelo estreito
determinações que devam ser cumpridas pelos relacionamento com a comunidade.
policiais.
As informações mais importantes são aquelas A função do comando é incutir valores institucionais.
relacionadas a certos crimes em particular.
O policial trabalha voltado unicamente para a As informações mais importantes são aquelas
marginalidade de sua área, que representa no máximo relacionadas com as atividades delituosas de
2% da população residente ali aonde "todos são indivíduos ou grupos.
inimigos, marginais ou paisano folgado, até que
provem o contrário".
O policial é o do serviço. O policial trabalha voltado para os 98% da população
de sua área, que são pessoas de bem e trabalhadoras.
Emprego da força como técnica de resolução de O policial emprega a energia e eficiência, dentro da lei,
problemas. na solução dos problemas com a marginalidade, que no
máximo chega a 2% dos moradores de sua localidade
de trabalho.
Prestar contas somente ao seu superior. Os 98% da comunidade devem ser tratados como
cidadãos e clientes da organização policial.
As patrulhas são distribuídas conforme o pico de O policial deve "prestar contas" de seu trabalho ao
ocorrência. superior e à comunidade.
As patrulhas são distribuídas conforme a necessidade
de segurança da comunidade, ou seja, 24 horas por dia.
O policial é da área.

Entre as diferenças, primeiramente, podemos destacar que na polícia tradicional o foco


principal é o cumprimento da lei como forma de reduzir a criminalidade. Já o policiamento
comunitário busca dar maior atenção à comunidade, inclusive nas ações assistenciais, como
por exemplo, no uso de uma viatura para transportar uma pessoa enferma. Esta faceta não
24

impede que o policial efetue, por exemplo, uma prisão legal.


Outro ponto importante é que o modelo comunitário considera que a grande maioria
da comunidade não tem qualquer envolvimento com o tráfico de drogas e outros delitos.
Assim, vincula-se um percentual de 98% dos moradores como pessoas idôneas. A polícia
tradicional acaba tendendo a generalizar todos que moram na comunidade como inimigos em
potencial. Isto gera discriminação que prejudica o trabalho e a imagem da instituição.
É relevante destacar que a transparência dos serviços prestados induz prestação de
contas. O Policiamento Comunitário estende esta prestação à comunidade, a principal
interessada pelo trabalho, pois na Tradicional se restringe aos superiores hierárquicos.
A Tradicional atua basicamente de forma reativa na resolução de conflitos e crimes
tradicionais (roubo, furto, homicídios, tráfico de drogas). O foco da Polícia cidadã é atuar de
forma preventiva, ou seja, proativamente.
O caráter necessariamente preventivo, em que os resultados podem só vir a médio e
longo prazo, pode dificultar a sobrevida do policiamento comunitário. O projeto de Polícia
Cidadã na comunidade Rio das Pedras no Rio de Janeiro é recente e o comandante Major
Rubens Peixoto Junior em entrevista (2007) afirma ter necessitado de um ano para sua
completa implantação.
O Major Peixoto define quatro fases para a implantação, cada uma levando 3 meses: a)
fase de amadurecimento - mostrar o projeto para a comunidade; b) fase de fixação do projeto -
já de posse dos dados levantados e relocação das viaturas e postos; c) fase de implantação da
doutrina e conquistar a confiança da população; e d) fase de readequação - solicitar mais
material, efetivo e viatura.
Quando ocorre um crime de grande repercussão, a sociedade e a mídia exigem uma
pronta resposta do poder público. Medidas legais de identificação e prisão dos culpados são
fundamentais, mas não seria adequado acabar com uma estrutura de policiamento já
implementado.
Contudo, a limitação de recursos humanos também podem dificultar a implementação
e a permanência de patrulha comunitária, pois estas dependem, sobretudo, da presença
ostensiva de policiais a pé na localidade. A falta de homens ou o remanejamento dos
existentes para outros serviços pode dificultar a qualidade e o prosseguimento dos serviços.
O policiamento interativo não pode ser visto como a solução de questões atinentes à
segurança pública. O que importa é ter este policiamento bem aplicado e assimilado por
todos, proporcionando resultados animadores.
25

Oliveira (2002) cita bons exemplos no Brasil quanto à aplicação do policiamento


comunitário:
1 - Morro dos Quatro, Espírito Santo (1997) – O local que era dominado por traficantes e após
cinco anos de implantação da polícia interativa, os índices de homicídios caíram 64 %;
assaltos, agressões e tentativa de homicídio, 43%; frutos e roubos, 30%; crimes contra o
patrimônio, 24%; fora outras conquistas sociais, como por exemplo, a iluminação e
abastecimento de água na comunidade que antes não existia;
2 - Bairro do Perpétuo Socorro, Macapá (1998) – Após três meses de implantação da Polícia
Interativa e de Segurança Social os registros de homicídios, furtos, roubos e agressões
passaram de 400 para 202 casos mensais. O sistema de policiamento comunitário ajudou a
desmanchar e despolarizar as gangues de jovens que se digladiavam nas ruas desta
comunidade;
3 - Jardim Ângela, São Paulo (1998) – Este bairro foi considerado um dos mais violentos do
mundo (1996) pelas Organizações das Nações Unidas. O projeto de polícia cidadã conseguiu
reduzir a criminalidade, mudar a imagem da Policia Militar de SP através de interação com a
comunidade e a sociedade civil.
Conseguir se aproximar da comunidade e ganhar sua confiança pode representar um
aumento considerável de informações para melhor emprego do policial. Exemplificando, se
moradores de uma determinada comunidade sugerem a colocação ou aumento do
policiamento em uma determinada praça e – após a avaliação do profissional de segurança -
suas reivindicações são atendidas ajudaria a incentivar a participação popular.
Quando em andamento, os comandantes do policiamento local devem ter autonomia
para dirigir os serviços policiais na localidade. Da mesma forma que o policial deve interagir
com a comunidade, o comandante deve interagir com subordinados e moradores.
Se a figura do coordenador é importante em qualquer tipo de trabalho, não seria
diferente nesta modalidade de segurança pública. Mesquita Neto (2004) afirma que a figura
do líder (comandante) é importantíssima para a implantação e consolidação do projeto deste
tipo de policiamento.
A centralização da autoridade em nível governamental provoca visão superficial do
problema. Dividir atribuições tornando os comandos subalternos mais autônomos pode ajudar
a focar as necessidades do projeto. O comando do policiamento comunitário da localidade
deve ter capacidade de direção, isto é, monitorar e avaliar o trabalho dos policiais. Mas, é
evidente que deve existir controle dos superiores quanto aos resultados, mas sem influenciar a
ponto de intimidar iniciativas locais.
26

Faz-se necessário afirmar que o desenvolvimento do Policiamento Cidadão não


representa uma ruptura com a polícia não comunitária; o policiamento comunitário deve estar
pronto para qualquer tipo de ação, inclusive aquelas em que precisa usar a força. O que
precisa ser mudado é o planejamento, que deve ser voltado para os moradores da comunidade,
ou seja, o foco principal deve ser o contato e a segurança do morador.
José Vicente em entrevista a Oliveira (2002), relata que apenas uma polícia interada e
sorridente para os moradores não diminui a criminalidade. Para ele, é “preciso ter estratégias
de organização, de obtenção de informações, de trabalho com essas informações – levantado
dados como tipo de crime por área, perfil do criminoso, entre outros – para poder ajustar o
meu policiamento aos problemas dessa área” (p. 20).
A polícia comunitária deve ser revestida de características de humanidade para com o
seu público, além de pleno profissionalismo. Sendo assim, fornecer apenas números
telefônicos ou instalações de referência para a população não resolve o problema. É preciso
um trabalho sistemático, planejado e detalhado.
É preciso desvincular a polícia de uma força pública sempre coercitiva no seio social.
Uma instituição policial é acima de tudo uma prestadora de serviços públicos que deve
sempre procurar a eficiência, conforme define o Artigo 37 da Constituição Federal (1988).
Para isto, faz-se necessário ganhar a confiança da população. A figura do policial
costuma ficar desde cedo internalizada na consciência das pessoas, já que indica um
contrapeso a nossa liberdade. Contudo, é preciso mudar a percepção de medo, muitos vezes
vinculada à figura do policial, pois, a verdadeira associação deve se relacionar a proteção e
amizade.
Esta busca deve ser perseguida com maior ardor nas comunidades carentes, pois elas
são as que mais necessitam de uma boa polícia e os moradores idôneos destes locais ainda se
manterem receosos quanto a atuação das instituições policiais devido a chacinas, como por
exemplo a de Vigário Geral, e os diversos casos de “balas perdidas”.
27

Capítulo 3

Comunidades carentes

Não há como falar em comunidades carentes sem antes falar nos cortiços que no
século XIX eram considerados como o reduto de vagabundos, marginais e origem de doenças
pelas classes dominantes do Município do Rio de Janeiro.
Para tentar resolver o problema, o legislador da época tratou de proibir a construção de
novas moradias similares e determinar a destruição daquelas que existiam. Posteriormente, de
1902 a 1906, corroborando com esta tendência de livrar o Município de habitações anti-
sanitárias, o prefeito Pereira Passos começou a promover a derrubada dos cortiços.
O prefeito Barata Ribeiro, que continuou com o “bota abaixo”, tratou de derrubar o
mais conhecido dos cortiços: o “Cabeça de Porco”. Contudo, após a derrubada, o prefeito
permitiu a retirada de restos de madeiras dos escombros e como uma das proprietárias do
recém derrubado imóvel detinha lotes de terra no Morro da Providência, alojou alguns dos
seus antigos inquilinos em barracos construídos com as madeiras dos destroços. Assim,
começa a história da primeira favela carioca.
Com a chegada ao Morro da Providência dos soldados vindos da Guerra de Canudos,
o local passou a chamar Morro da Favella (1887), em referência a um arbusto comum do local
onde ocorreram os combates. Ao ver o local ou ao construir suas precárias moradias, os
soldados de alguma forma o associaram ao local da guerra.
Em 1907, o Morro da Favella foi parcialmente saneado na tentativa de dar maior
salubridade aos moradores. Viu-se uma preocupação das autoridades, liderados por Osvaldo
Cruz, de dar uma melhor perspectiva de vida aos moradores quanto ao asseio.
Com o passar dos anos, o combate aos pobres saiu dos cortiços e passou para o Morro
da Favela. Contudo, “a partir da década de 1920 é que a expansão das favelas tronar-se-ia
multidirecional e incontrolável” (ABREU, 1998, p. 38). Ou seja, o município passou a contar
com diversas comunidades carentes em morros do Centro, Zonas Norte e Sul.
O Plano Agache, de 1930, tinha o propósito de solucionar o problema das favelas
através do trabalho dos moradores nas indústrias. A idéia era construir cidades-satélites junto
às zonas industrializadas do Município do Rio de Janeiro, o que também resolveria o
problema da falta de mão de obra nas fábricas.
28

Inspirado neste Plano, o Código de Obras (Decreto 6000) proibiu o surgimento de


novas favelas e indicou a construção de moradias populares chamadas “habitações
proletárias”.
Outra iniciativa governamental foi à criação do Parque Proletariados, provisórios
locais em que moradores de favelas ficariam enquanto seus barracos de madeira eram
destruídos e construídas novas moradias de alvenaria. Assim, em 1941, o poder público
conseguiu acabar com quatro favelas com a construção de três parques proletariados
provisórios na Gávea, Caju e Praia do Pepino. Porém, o que era pra ser provisório acabou se
tornando definitivo, pois as favelas não foram urbanizadas e os moradores transferidos
acabaram ficando por lá mesmo. Mais tarde, estes três Parques foram também considerados
favelas.
Com o crescimento assustador da população e a falta de política habitacional que
atendesse de forma abrangente e eficiente os moradores de baixa renda, o censo de 1948
registrou 105 locais considerados favelas na cidade e a população que vivia nestes locais
chegava 138.387. Em 1950 este número passou para 169.000.
O Instituto de Aposentadorias e Pensões (IAPs) e a Fundação Casa Popular foram
políticas formais para tentar atenuar o problema. O primeiro foi mais expressivo na sua
atuação, pois atingiu o percentual 26% das moradias construídas na cidade. Porém, a
exigência de ter um emprego formal para adquirir o imóvel empurrou o atendimento da
população pobre. Assim, a favela ainda continuou figurando como um meio mais fácil de
moradia.
Em um período posterior ao Estado Novo, a favela ganhou mais projeção, pois
existiam duas preocupações: a primeira delas estava relacionada a uma possível invasão
comunista, ou seja, que os favelados assimilassem as idéias comunistas, o que poderia
representar um iminente atentado contra a ordem predominante. O outro fato que interessava
era a questão do voto dos moradores favelados. A população aumentava a cada ano e,
conseqüentemente, representava bons colégios de eleitores.
Pela suposta iminência do socialismo, foi criada a Fundação Leão XIII através de uma
parceria da Igreja Católica com a Prefeitura. A fundação destinava-se ao desenvolvimento da
promoção humana da população favelada. Com o passar dos anos, a Leão XIII acabou
funcionando mesmo como ajuda à burocracia estatal, por exemplo, no fornecimento de
energia elétrica aos moradores da comunidade, pois esta instituição fazia o cadastramento dos
moradores.
Na presidência de Dutra (1945 a 1950) foi realizada a Comissão Interministerial, que
29

tinha a incumbência de propor soluções para as favelas. A Comissão acabou ratificando o


Código de Obras de 1937. O trabalho dos ministros só trouxe uma novidade: a obrigação das
indústrias e condomínios criarem casa para seus funcionários. O próprio presidente Dutra
acreditava que o problema das favelas só se resolveria em longo prazo com políticas sociais
eficientes.
Com a vitória de Getúlio Vargas em 1950, os trabalhadores e sindicalistas
encontraram uma liberdade nunca vista para expor suas idéias. Foi então que começaram a
surgir, em 1954, as primeiras associações políticas nas favelas, incluindo a União dos
Trabalhadores Favelados (UTF). Na época, havia movimentos de particulares para reaver suas
terras ocupadas por moradores de baixa renda. Onde hoje fica situado o Morro do Borel foi
criada uma associação com o objetivo de defender na justiça as ações de reintegração de terra
promovidas pela empresa Borel Meuren Ltda.
A Igreja Católica mais uma vez preocupada com o comunismo, inclusive de uma
possível união da UTF com este, articulou o projeto da Cruzada São Sebastião. A idéia inicial
da Cruzada era reintegrar o favelado a seu entorno, ou seja, à parte civilizada e limpa da
cidade. Contudo, a chegada de verba federal destinada à construção de um conjunto de 10
blocos no Leblon fez com que este estágio não acontecesse. Assim, até hoje se vê este projeto
quando se passa neste bairro da zona sul do Rio de Janeiro.
No ano de 1959, quando o Rio de Janeiro ainda figurava como Capital de República,
foi criada a Coligação dos Trabalhadores do Distrito Federal que tinha como propósito um
trabalho assistencial com as comunidades. Começa, então, uma desvinculação do nome
“favela” - que sempre foi relacionada à marginalização e sujeira - para locais que precisam de
alguma ajuda governamental para se desenvolver.
O número de moradores favelados já estava em 335.063 no censo de 1960, o que
representava pouco mais de 10% da população carioca. O que realmente impressionava eram
os índices de crescimento da população favelada e não faveladas. Esta crescia 3,3% ao ano;
enquanto aquela crescia 7,6%, isto é, mais que o dobro.
O Serviço Especial de Recuperação de Favelas e Habitações anti-higiênicas
(SERFHA) criado na década de 1950 propôs a união de 75 comunidades carentes através de
suas associações de moradores para melhorar questões físicas das localidades. Assim, em
1961, com o apoio total do poder público, esta iniciativa tomou corpo. Porém, o que parecia
uma atitude eminentemente democrática acabou virando um meio das associações
manipularem os moradores para interesses partidários.
30

Chega o período de ditadura militar em 1964 e os favelados passam a rever, agora com
maior intensidade, a ameaça de serem despejados de suas moradias pelos detentores de títulos
de propriedade de terra que reivindicam seus imóveis. Vários líderes de associações são
presos, torturados ou mortos. A luta agora é contra o iminente despejo e um governo ditador.
Os programas de remoção de favelas foram aplicados em três governos no Estado do
Rio de Janeiro13, atingindo 80 comunidades e que representa 139.218 moradores. Apesar
destes números, as favelas continuaram a crescer consideravelmente a ponto que no período
de 1968 a 1973 o Rio teve aumento de 74% no número de novas favelas e 36,5% de
majoração nos índices de favelados.
As políticas de remoção perderam força. Em 1974, as favelas começaram a ser
parcialmente urbanizadas. Este quadro foi prosseguindo nos anos 80, inclusive com
fornecimento de alguns serviços públicos, e ganhou força maior com o período de
democratização da política que se consolidou com a Constituição Federal de 1988.
O grande fator para a transformação das favelas em reduto da violência foi à instalação
do tráfico de drogas ilícitas. Este começou timidamente no início do século XX (LEITE;
OLIVEIRA, 2005) e no final dos anos 70, o Brasil já figurava como rota internacional dos
grandes cartéis internacionais, como por exemplo, o de Cali sediado na Colômbia. Estes
usavam o Brasil para o envio de cocaína para a América do Norte, Europa e África do Sul
onde o comércio era intenso e lucrativo.
No inicio dos anos 80 o comércio de drogas no interior das favelas ainda era pequeno
e tímido. O primeiro ato para que a atividade se tornasse lucrativa foi a associação dos
traficantes cariocas como os cartéis, pois o país não produz cocaína pura.
Posteriormente, em meados dos anos 80, houve reestruturação do mercado varejista.
Este novo modelo se diferenciou pela concentração da venda no interior das favelas, preparo
da droga pura (mistura para render mais) em escala, uso da violência para intimidar
moradores e manter a hierarquia e disciplina dentro do grupo (DOWDNEY, 2002). O
resultado de tudo isso foi um aumento de 140% do número de homicídios relacionados a
drogas e disputas de pontos de venda entre 1979 e 2000.
Há nestes territórios pobres segregação sócio-espacial, pois o acesso a serviços
públicos de qualidade são deficientes e direitos que são respeitados nas cidades muitas vezes
são desrespeitados, como por exemplo, a inviolabilidade de domicílio.
Ações de terror dos traficantes que ali atuam criam um código de silêncio que nenhum

13
Lacerda (1962 – 1964); Negrão de Lima (1966 – 1970); Chagas Freitas (1971 – 1974).
31

morador se atreve a quebrar, ou seja, acabam reforçando a submissão da grande maioria dos
moradores que moram nestas comunidades.
O grande negócio das diversas quadrilhas instaladas nas favelas cariocas está na
tomada de territórios dominados por quadrilhas rivais. Estas investidas criam um clima de
terror entre os moradores e instituições ligadas diretamente à segurança pública. Para conter
as investidas da polícia e dos grupos rivais, o sistema de vigilância dos pontos de venda de
drogas ilícitas envolve o emprego de diversos marginais fortemente armados.
O difícil acesso – pois, a grande maioria das favelas são tomadas por labirintos ou/e
morros com pontos de observação dos acessos que são usados pelos marginais para monitorar
- acaba por ajudar a consolidar estes territórios como áreas de risco para a polícia e para os
pretensos adversários que desejarem a tomada do local.
Diante de todos estes fatores, estes locais acabam sendo excluídos do todo social, a
ponto da presença do poder público só ocorrer quando há incursões policiais. Na prática, as
comunidades carentes do Rio de Janeiro são restringidas no que diz respeito à cidadania.
Figurar como perigo (violência) no consciente ou/e inconsciente da população, acaba
gerando preconceito contra os moradores das favelas, principalmente daquelas que foram
palco de chacinas de repercução mundial, como por exemplo, Vigário Geral.
Todo este quadro vem incentivando moradores a ter simpatia pelos bandidos e, por
conseguinte, as leis formais do país são cada vez menos aplicadas. O poder judiciário não é
visto como o caminho viável para resolver problemas, ou seja, um pilar fundamental da
democracia não é usado pelo morador de baixa renda.
O governo legitima a atual política de segurança pública, qual sejam as guerras que
são realizadas no interior das favelas, com desprezo aos que não são bandidos. Parece que o
estigma dos pretensos bandidos é uma regra nas ações policiais.
Porém, não seria melhor o trabalho com informação – levantamento investigativo,
inclusive com ajuda de outros órgãos públicos, como por exemplo, o judiciário e ministério
público – o que acarretaria estratégias claras quanto ao emprego dos recursos e ações a serem
tomadas?
Os combates acabam gerando casos de corrupção e abusos policiais, extermínios de
bandidos e suspeitos, desrespeito a direitos civis e vários casos de balas perdidas.
Os episódios criminais, principalmente homicídios, ocorridos no interior das favelas
recebem tratamento diferente dos ocorridos no restante da cidade, principalmente se o fato
ocorrer na zona sul carioca e a(s) família(s) da(s) vítima(s) forem influentes. Leite e Oliveira
(2005, p. 19) consideram que
32

É bem diverso o destaque que lhes confere a mídia, a indignação e a


postulação por justiça que despertam, a solidariedade às vítimas e/ou
familiares que envolvem, o compromisso e empenho dos poderes públicos
com a apuração e punição dos responsáveis que acarretam as mobilizações
sociais e suscitam.

Este panorama de exclusão só será combatido quando o morador de comunidades


carentes passarem a gozar de cidadania plena, ou seja, tiver plenitude nos direitos e nas
obrigações.
A polícia cidadã contribui para o alcance deste fim, posto que tem o seu foco principal
na prestação de bons serviços policiais aos cidadãos e também acaba contribuindo para a
inserção destes em serviços como saúde, iluminação, entre outros.
Seguindo esta tendência, a PMERJ desenvolve o programa de polícia comunitária que
atua em algumas comunidades do estado.
33

Capítulo 4

Grupamento de Policiamento em Áreas Especiais (GPAE)

O Grupamento de Policiamento em Áreas Especiais (GPAE), voltada para o


desenvolvimento dos princípios do policiamento comunitário, está vinculado ao Comando de
Policiamento em Áreas Especiais (CPAE), conforme resolução da Secretaria de Segurança
Pública (SSP) n° 698 de 06 de julho de 2004. Já o CPAE está subordinado ao Cmdo UoPE.
A Resolução da SSP estabeleceu, no art. 1° parágrafo 2°, que os GPAE gozarão de
autonomia operacional e administrativa. Tal prerrogativa encontra-se em consonância com a
liberdade de atuação que os comandantes locais devem ter. Contudo, os resultados de projeto
devem ser avaliados tanto pela comunidade quanto aos comandos superiores.
A mesma resolução em seu artigo 5° define que “caberá ao Comando-Geral da Polícia
Militar editar ato definido o local do aquartelamento, norma, atribuições, forma operacional
de emprego, distribuição de pessoal, viaturas, equipamentos e materiais destinados ao CPAE e
ao GPAE”.
O dispositivo vai de encontro à autonomia operacional citada no artigo 1° parágrafo
2°, porque as “normas, atribuições, forma operacional de emprego” são de responsabilidade
do Comando Geral quando deveria ser do próprio GPAE.
Também é atribuição de Comando-Geral da corporação a determinação do local do
aquartelamento onde ficará baseado o GPAE. Na prática, em regra, as bases dos GPAE são
localizadas em imóveis dentro da comunidade14.
A grande maioria das favelas cariocas são dominadas por facções criminosas que
vendem drogas ilícitas e impõe a “lei do silêncio” perante os moradores através de ostentação
de armas de guerra e assassinatos dos delatores, popularmente chamados de “X9”.
A implantação de um programa de policiamento comunitário nestes locais encontra
dificuldade, pois os traficantes conhecem bem o local, estão fortemente armados, dominam os
moradores através de uma “ditadura do terror”. Ainda contribui para este quadro a questão da
má remuneração e o despreparo dos policiais.
Um dos fatores que contribui para o êxito em um programa de polícia cidadã é a
aproximação do morador com a polícia e vice-versa. Na maioria dos locais dominados por

14
Uma exceção a regra é o GPAE – Rio da Pedras/Gardênia Azul.
34

marginais em que foi implantado o GPAE a integração com o morador não ocorre, posto que,
apesar do programa contar com policiamento 24 horas, os moradores ainda sentem medo de
se aproximar e sofrer algum tipo de represália. Em contrapartida, os moradores generalizam a
classe policial de maneira pejorativa e, muitas vezes, tem mais confiança no poder de
proteção do traficante dentro da comunidade.
Hoje no Estado do Rio de Janeiro o programa GPAE encontra-se em andamento no
Morro Pavão/Pavãozinho (área do 2° BPM - Botafogo); Morro do Borel (6° BPM – Tijuca);
Morro da Providência (5° BPM – Centro) Morro do Cavalão (12° BPM – Niterói); Vila
Cruzeiro (16° BPM - Olaria); e Rio das Pedras/Gardênia Azul (18º BPM - Jacarepaguá).
Em Botafogo, na comunidade do Morro de Pavão e Pavãozinho, o GPAE conta com
apoio do Projeto Criança Esperança, que fornece cursos e atividades esportivas para as
crianças e adolescentes da comunidade.
O GPAE – Rio das Pedras/Gardênia Azul foi criado pela Secretaria de Segurança de
Rio de Janeiro (SESEG) pela Resolução n° 38 de 11 de maio de 2007. No território
fluminense, a SESEG é comanda por um secretário que recebe o auxilio do comandante de
PMERJ e da Polícia Civil. Primeiramente, na época em que o programa de polícia cidadã foi
implantado a área encontrava-se pacificada, ou seja, sem o domínio de traficantes. Este fato
facilitou a presença do policial fardado no interior da comunidade sem que sofresse qualquer
tipo de represália mais violenta.
A comunidade do Rio das Pedras e Gardênia Azul conta com aproximadamente 110
mil habitantes que, antes do projeto, eram atendidos por uma única rádio patrulha. Com a
chegada do Policiamento Comunitário este número passou para dois trailers e dez viaturas, ou
seja, um aumento significativo. No início, este aumento repentino causou certo espanto aos
moradores. Porém, com o passar do tempo os policiais passaram a combater os pequenos e
grandes delitos, como por exemplo, roubos e furtos, conforme revela em entrevista informal,
o Comandante do Policiamento Major da Polícia Militar, Rubens Castro Peixoto. Este
comandante informa que o policiamento atende basicamente aos serviços não policiais, como
por exemplo, auxiliando os moradores no caso de falta de água, luz e socorro a moradores
quando enfermos. Este serviço é efetuado por dois trailers que funcionam 24 horas.
Existem postos fixos de policiamento espalhados em pontos estratégicos da
comunidade com a finalidade de evitar possíveis delitos. Estes pontos acabam também
servindo de referência para os moradores da presença policial15.

15
Trecho parafraseado da entrevista concedida pelo Maj Rubens Peixoto Junior, comandante do GPAE – Rio das Pedras, dia
09 de novembro de 2007.
35

Uma das características do policiamento comunitário é a transparência na atuação


policial e a avaliação de resultados. Quando há o perfeito envolvimento entre a comunidade e
o policial, isto é, confiança mútua, abertura, valores compartilhados geralmente ocorre o
sucesso pela queda dos índices de criminalidade.
O Major Peixoto revela ter contato com todas as lideranças comunitárias da favela Rio
das Pedras e Gardênia Azul, o que facilita a aproximação com os moradores. Seus
subordinados também têm contato com os moradores em função de estarem sempre prontos
para a prestação de serviços policiais ou meramente assistenciais.
O organograma administrativo do GPAE – Rio das Pedras é apresentado em seguida:

COMANDANTE

SUBCOMANDANTE

SEÇÃO DE OPERAÇÕES
COMUNITÁRIAS SEÇÃO DE APOIO ADMINISTRATIVO

SUBSEÇÃO DE PLANEJAMENTO
E INSTRUÇÃO

EQUIPE DE OPERAÇÕES
COMUNITÁRIAS

Fonte: Plano de atuação do GPAE – Rio das Pedras (2007, p. 3)

Ocupada por dois oficiais, as funções de comandante e subcomandante são


importantes para o programa, posto que a elas são incumbidas o direcionamento da tropa e as
decisões relativas as ações proativas, buscando a prevenção de delitos e a consolidação dos
princípios da polícia cidadã. O subcomandante auxilia o comandante e responde pelo
programa na ausência deste.
A seção de apoio administrativo é incumbida de fornecer auxílio à tropa nas questões
relativas a férias, licenças, escalas de serviços, requerimentos e obtenção de outros direitos.
A seção de operações comunitárias se divide em subseção de planejamento e instrução
e equipe de operações comunitárias. A primeira é responsável por planejar a atuação
ostensivo-preventiva e difundir perante a tropa o conteúdo doutrinário. Já a segunda atua na
36

atividade fim, ou seja, é o policial que atua nos dois trailers e nas viaturas que ficam baseadas
na comunidade em pontos estratégicos.
O comandante do GPAE – Rio das Pedras/Gardênia Azul, Major Peixoto também
declara que com a implantação deste grupamento, o policiamento passou a ficar mais visível,
o que provocou o recebimento de vários e-mail elogiando a segurança pública no local.
Merece destaque o tempo mínimo de 1 ano para que o projeto fique definitivamente
implantado. Conforme as palavras do próprio Peixoto (2007):

Os três primeiros meses é de amadurecimento, mostrar o projeto como é. Os


três meses seguintes são os níveis de fixação do projeto já com os dados
levantados, com parâmetros, tal... relocação das viaturas. Mas três meses pra
você implantar a doutrina finalmente e conquistar a confiança da
comunidade (...) e a quarta fase, que vai ser a fase de readequação, ou seja,
onde eu vou solicitar mais material, mais efetivo, mais viatura16

A consolidação do projeto de policiamento cidadão ocorre a médio ou longo prazo, ou


seja, necessita de tempo.
Quanto às facilidades para implantação do GPAE – Rio das Pedras/Gardênia Azul, o
Major Peixoto, que comanda o projeto desde o início, revela que:

A grande facilidade é que o comandante geral atual... ele sempre trabalhou


com polícia comunitária, desde o início dos anos 80... Então ele tinha
conhecimento do que era a doutrina, tinha conhecimento da necessidade que
era a implantar o GPAE aqui e já tinha feito o estudo, ele mesmo, em 2004.
Ele só teve o trabalho de escolher a pessoa pra colocar. Ele me escolheu (...)
Outra facilidade foi ele ter viabilizado as verbas principais.

Tais fatos comprovam a necessidade das iniciativas das patentes mais superiores17 – e
neste caso tinha também o respaldo político – para viabilizar a execução do projeto.
Outro fato importante que deve ser destacado é a necessidade da disponibilidade
financeira.
O projeto GPAE – Rio das Pedras/Gardênia Azul conta com um efetivo de 143
policiais, todos voluntários e com algum tipo de curso18 relativo à polícia comunitária. Tais
fatos facilitam a difusão da doutrina.

16
Entrevista concedida pelo Major Rubens Peixoto Junior, comandante do GPAE – Rio das Pedras, dia 09 de novembro de
2007.
17
Na data da entrevista (09/11/2007) o Comandante da Polícia Militar era o Coronel Ubiratan Ângelo.
18
O Major Peixoto citou o Estágio de Adaptação Prático Pedagógico em Áreas Especiais (art. 7 da Resolução da SSP n° 698
de 06 de julho de 2004); Curso de Aprimoramento de Prática Policial Cidadã (ministrado em parceria com a ONG Viva
Rio); Curso de Promotor de Polícia Comunitária; Curso de Multiplicador de Polícia Comunitária (somente o comandante
detém este curso).
37

Segundo o Major Peixoto, o programa tem sua forma de atuação resumida em 5


pilares: (1) Dois postos de atendimento assistencial - trailers que prestam atendendo 24 horas
em assuntos não policiais; (2) Postos fixos de policiamento – viaturas localizadas nas
extremidades da comunidade que atuam de maneira preventiva e servem como referência da
presença policial; (3) Aproximação com as comunidades – aproximação com as lideranças
comunitárias tanto na comunidade de Rio das Pedras quanto em Gardênia Azul; (4)
Qualificação dos policiais – todos os policiais têm algum tipo de curso de promoção de
polícia cidadã; e (5) Ouvir e sentir a resposta da comunidade quanto a trabalho que esta sendo
realizado.
O comandante comenta ainda que “a polícia interativa só se estabelece quando o poder
estatal e a comunidade local conseguem interagir de modo a resolver os problemas locais”.
Para ele a comunidade agora conhece o policial pelo nome e sabe o quartel aonde o mesmo
trabalha. Isto contribui para o sucesso do programa.
38

Conclusão

Primeiramente, como detentora do dever constitucional do patrulhar ostensivamente o


estado, a PMERJ deve centrar suas ações na prevenção dos delitos e atendimento ao cidadão
como meio de obter confiança e respaldo popular.
Para isso, o ideal é o investimento em formação continuada dos profissionais para que
eles possam aprimorar seus conhecimentos relativos a temas como a lei de crimes hediondos,
de tortura, de abuso de autoridade, dos juizados especiais criminais.
Conhecimento sobre regulamentos institucionais e temas relacionados como
população carcerária e seus custos para o estado, criminalidade nas favelas, índices da
violência no Rio de Janeiro, políticas de cotas nas universidades também poderiam figurar
nestas reciclagens. Sem falar na prática de tiro e abordagens de pessoas, veículos e
edificações.
Também se faz necessário conscientizar a população de que a segurança pública
também depende da sua participação e que órgãos responsáveis diretamente pela segurança
pública são apenas mais um em um sistema complexo. Fatores como uma boa iluminação
pública, praças pública que oferecem lazer, educação de qualidade aliada a práticas
esportivas, oportunidades de emprego, entre outras.
Quando o caso exigir confronto, a PM deve procurar atuar de forma integrada com
outras instituições (Ministério Público, Polícia Civil, Judiciário) e como inteligência
(informações) para minimizar recursos de pessoal e material.
As ações baseadas na inteligência policial devem focar indivíduos, locais e situações
favoráveis para a captura dos criminosos. Na prática, o objetivo principal é que a proporção
de erros seja menor, ou seja, diminuição no número de mortes, principalmente dos policiais e
pessoas inocentes.
Destaca-se na filosofia do policiamento comunitário a visão mais restrita de quem é
realmente marginal dentro da comunidade. O percentual que se trabalha é de que 98% dos
moradores são idôneos e não têm envolvimento com a criminalidade e apenas 2% são
marginais. Tal princípio pode evitar a chamada “marginalização da pobreza”.
Historicamente, os moradores favelados sempre foram excluídos no que tange a
cidadania plena (receber direitos e contrair obrigações). Trata-se de um processo de exclusão
em que são negadas várias garantias básicas.
39

Atualmente, a PM muitas vezes é a única instituição presente, mesmo que apenas em


momentos de incursões, no interior destas comunidades. Agindo com retidão, legalidade e
seguindo os princípios do policiamento cidadão, esta instituição pode contribuir para uma
melhor qualidade de vida.
Constata-se que a política de segurança pública estadual baseada em incursões em
áreas conflagradas deve continuar, pois o tráfico nestes locais precisa ser combatido. Porém
este trabalho (incursão) deve ser baseado especificamente na inteligência.
Após as incursões, as polícias (civil e militar), outras instituições públicas (saúde,
educação, lazer, entre outras) e, porque não privadas (fornecendo cursos e atividades
pedagógicas), devem permanecer no local. Nesta ocupação a doutrina a ser aplicada pela PM
é o da polícia cidadã.
Os policiais que participam das ocupações permanentes devem ser treinados com os
princípios do policiamento comunitário e bem remunerados. Eles deverão ser assistidos com
equipamentos de segurança e escalas de serviços compatíveis.
A presença do policial fardado no interior da comunidade deve ser constante para que
se tenha êxito no fim da “ditadura do terror” imposta pelos traficantes, além de facilitar a
entrada ou consolidação de instituições prestadoras de serviços públicos e privados.
Louvável é a iniciativa do GPAE – Rio das Pedras/Gardênia Azul no que tange a
manter todo o seu efetivo com algum tipo de treinamento relativo à doutrina comunitária. A
manutenção do aprendizado faz-se necessário para reavivar as idéias, inclusive com outros
cursos, como por exemplo, de direitos humanos.
Este trabalho de pesquisa careceu de dados estatísticos que serviriam para aferir os
resultados antes e depois a implantação do projeto na comunidade Rio das Pedras e Gardênia
Azul. Entretanto, as fontes que se comprometeram em fornecê-los vieram a postergar o envio
das informações.
É verdade que outras comunidades também agraciadas com o projeto GPAE também
poderiam ser estudadas, o que contribuiria para a pesquisa e, conseqüentemente, o
conhecimento das atividades policiais realizadas nestes locais. A dificuldade em adquirir
material e estabelecer contacto com pessoas que pudessem fornecer estas informações
impossibilitou a execução desta tarefa.
40

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