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Faculdade de Letras e Ciências Sociais

Departamento de Arqueologia e Antropologia

Licenciatura em Antropologia

Antropologia das Politicas Publicas

Docente: Johane Zonjo

Discente: Stela Gracinda Lidau

4° Ano/2° Semestre

Tema:

Politicas Publicas e Tecnologias de Governação

Maputo, Dezembro de 202

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Índice

Introdução......................................................................................................................3

Governação e Governamentabilidade.............................................................................4

A Arte de governar........................................................................................................6

A medicina social e o hospital como tecnologia de governação...................................8

Conclusão....................................................................................................................12

Referência bibliográfica..............................................................................................14

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Introdução

Este trabalho cinge-se na cadeira de politicas publicas e tem como principal objectivo
debruçar sobre as politicas publicas e tecnologias de governação. Portanto, no arrolar do
trabalho, procuramos mostrar em que consiste os aspectos ligados as tecnologias de
governação, como é o caso do desenvolvimento de tratados que se apresentam como
arte de governar, tipos de governo, o território e seus habitantes, os homens em suas
relações com outras coisas.

Para além destes aspectos acima enunciados, neste trabalho também mostramos as
tecnologias usadas pelo estado para regular a vida da população, trata-se da medicina e
o hospital como tecnologias de governação. Estas tecnologias revelam que o controle da
sociedade sobre os indivíduos começou no corpo, com o corpo e depois operou pela
consciência e ideologia. Assim, o corpo é uma realidade biopolítica investida na política
e socialmente como força de trabalho.

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Governação e Governamentabilidade

Partindo duma perspectiva histórica situada entre XVI até o final do século XVIII
Foucault (1979 [2008]a) apresenta as bases da constituição e aplicação da
governamentabilidade. Assim, nesse período vê-se desenvolver uma série considerável
de tratados que se apresentam como arte de governar, trazendo a definição do governo
do Estado, o que chama de governo em sua forma política. O autor entende que
governar um Estado como estabelecer a economia ao nível geral do Estado, a economia
é uma forma de governo é um campo de intervenção do governo através de uma série de
processos complexos absolutamente capitais o que, portanto, significa governar e ser
governado.

Foucault (1979 [2008]a) diz que existem três tipos de governo, o governo de si mesmo,
que diz respeito à moral; a arte de governar adequadamente uma família, que diz
respeito à economia; a ciência de bem governar o Estado, que diz respeito à política.
Entretanto, apesar desta tipologia, o importante é que as artes de governar postulam uma
continuidade essencial entre elas, pois as teorias da arte de governar procuram
estabelecer uma continuidade, ascendente e descendente. É continuidade ascendente no
sentido em que aquele que quer poder governar o Estado deve primeiro saber se
governar, governar sua família, seus bens, seu património. É continuidade descendente
no sentido em que os pais de família sabem como governar suas famílias, seus bens, seu
património e por sua vez os indivíduos se comportam como devem. Portanto, nos dois
casos o elemento central desta continuidade é o governo da família, também designado
de economia.

Segundo Foucault (1979 [2008]a), o que caracteriza o conjunto dos objectos sobre os
quais se exerce o poder é o fato de ser constituído pelo território e seus habitantes. Pois,
o território pode ser fértil ou estéril, a população densa ou escassa, seus habitantes ricos
ou pobres, activos ou preguiçosos, mas estes elementos são apenas variáveis com
relação ao território, que é o próprio fundamento do principado ou da soberania. Nesta
senda Fonseca et al (2016) explicam que ao mesmo tempo em que o etnógrafo analisa a
tecnologia de poder operada pela polícia, representa um exemplo dos modos como a lei
é um mecanismo de ordenação social que envolve objectos, atores e contextos
organizacionais. Assim, as “tecnologias de segurança” são tecnologias de governo
associadas a modos de controlo regulatório da população que vão além da mera

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disciplina e supervisão, mas antes visam atingir um equilíbrio que permita proteger a
segurança do todo em relação aos perigos internos, em que o indivíduo e as massas são
os dois lados de uma tecnologia política global no âmbito de uma economia política do
conhecimento orientada para a burocratização racional.

Foucault (1979 [2008]a), diz que o governo deve se encarregar em suas relações com
coisas que são as riquezas, os recursos, os meios de subsistência, o território em suas
fronteiras, com suas qualidades, clima, seca, fertilidade. Os homens em suas relações
com outras coisas que são os costumes, os hábitos, as formas de agir ou de pensar,
finalmente, os homens em suas relações com outras coisas ainda que podem ser os
acidentes ou as desgraças como a fome, a epidemia, a morte. Governar para o autor é
prestar atenção aos acontecimentos possíveis, às mortes, aos nascimentos, às alianças
com outras famílias; é esta gestão geral que caracteriza o Governo, Portanto, governar é
governar as coisas.

Foucault (1979 [2008]a), governo é uma correta disposição das coisas de que se assume
o encargo para conduzi−las a um fim conveniente. O governo tem uma finalidade que se
opõe à soberania. Para ser um bom soberano, é preciso que tenha uma finalidade: "o
bem comum e a salvação de todos".. O que caracteriza a finalidade da soberania é o
bem comum, geral. A finalidade da soberania é circular, remete ao próprio exercício da
soberania.

Foucault (1979 [2008]a), diz que o governo é definido como uma maneira correta de
dispor as coisas para conduzi-las a um objetivo adequado a cada uma das coisas a
governar. O que implica, em primeiro lugar, uma pluralidade de fins específicos, a
finalidade do governo está nas coisas que ele dirige, deve ser procurada na perfeição, na
intensificação dos processos que ele dirige e os instrumentos do governo.

Foucault (1979 [2008]a), diz que para exercer seu governo; deve ser mais paciente
usando a sabedoria e a diligência. A sabedoria como o conhecimento das coisas, dos
objectivos que deve procurar atingir e da disposição para atingi-os; é este conhecimento
que constituirá a sabedoria do soberano. Diligência: aquilo que faz com que o
governante só deva governar na medida em que se considere e aja como se estivesse ao
serviço dos governados.

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A Arte de governar

Foucault (1979 [2008]a), diz que o esboço da teoria da arte de governar pode-se situar
suas relações com a realidade: em primeiro lugar, a teoria da arte de governar esteve
ligada ao aparecimento dos aparelhos de governo; em segundo lugar, esteve ligada a um
conjunto de análises e de saberes que adquiriram essencialmente o conhecimento do
Estado, em seus diversos elementos, dimensões e nos factores de sua força, a ciência do
Estado; em terceiro lugar, a arte de governar encontra uma primeira forma de
cristalização, ao se organizar em torno do tema de uma razão de Estado. Razão de
Estado entendida no sentido positivo e pleno: o Estado se governa segundo as regras
racionais que lhe são próprias, entretanto, a arte de governo deverá encontrar os
princípios de sua racionalidade naquilo que constitui a realidade específica do Estado.

Foucault (1979 [2008]a), razão de Estado constituiu para o desenvolvimento da arte do


governo uma espécie de obstáculo pelas seguintes razões: 1º por razões históricas no
sentido restrito onde a arte de governar só podia se desenvolver, se pensar, multiplicar
suas dimensões em períodos de expansão, e não em momentos de grandes urgências
militares, políticas e económicas. 2º a arte de governo, foi bloqueada por outras razões,
que dizem respeito a estrutura institucional e mental. Assim, a arte do governo marcou
passo, limitada por duas coisas. Por um lado, um quadro muito vasto, abstracto e rígido:
a soberania, como problema e como instituição, por outro, um modelo bastante estreito,
débil, inconsistente: o da família. Com o Estado e o soberano a arte de governo não
podia encontrar sua dimensão própria.

Foucault (1979 [2008]a), diz que o desbloqueio da arte de governar se deu ligada á
abundância monetária e ao aumento da produção agrícola através dos processos
circulares. O problema do desbloqueio da arte de governar está em conexão com a
emergência do problema da população. Entretanto, foi através do desenvolvimento da
ciência do governo que a economia pôde centralizar-se em um certo nível de realidade
caracterizado como económico. foi através do desenvolvimento da ciência do governo
que se pôde isolar os problemas específicos da população, graças ao isolamento da
economia, que o problema do governo pôde ser pensado, sistematizado e calculado fora
do quadro jurídico da soberania.

Foucault (1979 [2008]a) diz que a população permitirá desbloquear a arte de governo de
modo que permitirá eliminar definitivamente o modelo da família e centralizar a noção

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de economia em outra coisa ela vai revelar pouco a pouco que a população tem uma
regularidade própria: a população aparecerá como o objectivo final do governo para
melhorar a sorte da população, através de campanhas e técnicas que vão agir
indirectamente sobre ela e que permitirão aumentar. A população será o ponto em torno
do qual se organizará a paciência do soberano, pois, a constituição de um saber de
governo é absolutamente indissociável da constituição de um saber sobre todos os
processos referentes à população e de economia. A economia política pôde se constituir
a partir do momento em que apareceu um novo objecto, a população. Apreendendo a
rede de relações contínuas e múltiplas entre a população, se constituirá a economia
política, e ao mesmo tempo a intervenção no campo da economia e da população.

Nesta linha de pensamento, Hirata e Cardoso (2016) dizem que a constituição dos
dispositivos técnicos pressupõe a reunião de atores heterogéneos que necessitam agir de
forma coordenada. Assim, para que obtenha êxito em seu objectivo, as tecnologias de
governo precisam levar em conta a conduta daqueles que a operam e dos elementos que
a compõem. As tecnologias de governo exigem certa institucionalização social de
instrumentos, técnicas concretas de operacionalização, ferramentas mobilizadas e seus
saberes associados. Portanto, instrumentos, técnicas, ferramentas e saberes são
componentes desses dispositivos com vocação genérica e portador de uma concepção
concreta que buscam regular a relação entre governantes e governados em uma certa
direcção.

Foucault (1979 [2008]a) diz que a partir do momento em que existia uma arte de
governo, com jurídica, institucional, que fundamento de direito se poderia dar á
soberania que caracteriza um Estado. A disciplina neste caso foi tão importante, a ideia
de um novo governo da população torna ainda mais agudo o problema do fundamento
da soberania e ainda mais aguda a necessidade de desenvolver a disciplina. Deve-se
compreender as coisas a partir de um triângulo: soberania−disciplina−gestão
governamental, que tem na população seu alvo principal e nos dispositivos de segurança
seus mecanismos essenciais.

Relativamente a este aspecto, a disciplina, Foucault (1979 [2008]c) diz que a disciplina
é, antes de tudo, a análise do espaço e a individualização pelo espaço, a inserção dos
corpos em um espaço individualizado, classificatório, combinatório. A disciplina exerce
seu controle sobre seu desenvolvimento, é uma técnica de poder que implica uma

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vigilância perpétua e constante dos indivíduos, implica um registro contínuo. Anotação
do indivíduo e transferência da informação de baixo para cima, de modo que, no cume
da pirâmide disciplinar, nenhum detalhe, acontecimento ou elemento disciplinar escape
a esse saber.

Segundo Foucault (1979 [2008]a) a Governamentalização do Estado é um fenómeno


particularmente astucioso, pois a governamentalização do Estado foi o fenómeno que
permitiu ao estado sobreviver. Portanto o Estado, deve ser compreendido a partir das
tácticas gerais da governamentalidade.

A medicina social e o hospital como tecnologia de governação

Ao procurar saber se a medicina moderna, científica é ou não individual Foucault (1979


[2008]b) diz que a medicina moderna é uma medicina social que tem por background
uma certa tecnologia do corpo social e que a medicina é uma prática social que somente
em um de seus aspectos é individualista e valoriza as relações médico−doente. Neste
sentido, com o capitalismo socializou-se um primeiro objeto que foi o corpo enquanto
força de produção, força de trabalho. O controle da sociedade sobre os indivíduos
começou no corpo, com o corpo e depois operou pela consciência e ideologia. Assim, o
corpo é uma realidade bio-política investido na política e socialmente como força de
trabalho.

Como é explicado na apresentação da coordenação como parte da formação das


tecnologias de governo Hirata e Cardoso (2016) que as tecnologias de governação
implicam as práticas múltiplas e complexas de um poder que se exerce de forma
distribuída e capilarizada, perpassando tanto “dominantes” quanto “dominados”. No
âmbito do Estado, as tecnologias de governo são maneiras de orientar as relações entre
o executivo administrativo e os sujeitos administrados por intermédio de componentes
sociotécnicos. Assim, a medicina social faz parte destas tecnologias de governação que
que implicam múltiplas praticas de um poder distribuído e capilarizado.

Foucault (1979 [2008]b) diz que pode-se reconstituir três etapas na formação da
medicina social: a medicina de Estado, medicina urbana e a medicina da força de
trabalho. Neste sentido diz o autor que a ciência do Estado, isto é a medicina de estado
pode−se agrupar duas coisas por um lado, um conhecimento que tem por objecto o

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Estado, incluindo os recursos naturais de uma sociedade, o estado de sua população, e o
funcionamento geral de seu aparelho político. Por outro lado, a ciência do estado
significa o conjunto dos procedimentos pelos quais o Estado extraiu e acumulou
conhecimentos para melhor assegurar seu funcionamento.

Foucault (1979 [2008]b) diz que desde o final do século XVI e começo do século XVII
todas as nações do mundo europeu se preocuparam com o estado de saúde de sua
população em um clima político, económico e científico característico do período
dominado pelo mercantilismo. Entretanto, a única preocupação sanitária do Estado era o
estabelecimento de tabelas de natalidade e mortalidade, índice da saúde da população e
da preocupação em aumentar a população, sem entretanto, nenhuma intervenção
efectiva ou organizada para elevar o seu nível de saúde.

Assim como explica Fonseca et al (2016) que as tecnologias de governação são neste
sentido os objetos tais como saberes científicos, diagnósticos médicos, cadastros de
gestores públicos, burocracias policiais, regulamentos territórios, políticas de segurança,
formas de coordenação organizacional. Entretanto, pela etnografia das diversas
mediações que operam na construção, implementação e recepção de políticas de
intervenção é possível observar como as políticas são transformadas na prática pelos
diversos atores que compõem o cenário. No processo, fica claro o carácter produtivo das
tecnologias que, entre seus diversos efeitos, criam novas normatividades e modos de
actuação política.

Foucault (1979 [2008]b) diz que a polícia médica consistia em: 1º um sistema muito
mais completo de observação da morbidade do que os simples quadros de nascimento e
morte. 2º um fenómeno importante de normalização da prática e do saber médicos, a
medicina e o médico são, portanto, o primeiro objecto da normalização. 3º uma
organização administrativa para controlar a actividade dos médicos. 4º a criação de
funcionários médicos nomeados pelo governo com responsabilidade sobre uma região,
seu domínio de poder ou de exercício da autoridade de seu saber. Portanto, o médico
aparece como administrador de saúde. Assim, tem-se uma série de fenómenos novos
que caracterizam a medicina de Estado que tem por objecto o próprio corpo dos
indivíduos enquanto constituem globalmente o Estado: é a força estatal, a força do
Estado em seus conflitos, económicos, políticos.

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Relativamente a medicina urbana Foucault (1979 [2008]b) diz que com o
desenvolvimento das estruturas urbanas se desenvolve, a medicina social. Quando se
colocou o problema da unificação do poder urbano, sentiu−se necessidade de constituir
a cidade como unidade, de organizar o corpo urbano de modo coerente, homogéneo,
dependendo de um poder único e bem regulamentado. Pois, a cidade se torna um
importante lugar de mercado que unifica as relações comerciais, politicas. Daí a
necessidade de um poder político capaz de esquadrinhar esta população urbana. Assim,
o pânico urbano é característico do cuidado, da inquietude político−sanitária que se
forma à medida em que se desenvolve o tecido urbano lançando modelo médico e
político.

Diante deste modelo medico e político Foucault (1979 [2008]b) diz que o poder
político da medicina consiste em distribuir os indivíduos uns ao lado dos outros,
isolá−los, individualizá−los, vigiá−los um a um, constatar o estado de saúde de cada
um, ver se está vivo ou morto e fixar, assim, a sociedade em um espaço esquadrinhado,
dividido, inspeccionado, percorrido por um olhar permanente e controlado por um
registo, tanto quanto possível completo, de todos os fenómenos. A análise minuciosa da
cidade, a análise individualizante, o registro permanente tornam-se um modelo militar, a
medicina urbana com seus métodos de vigilância, de hospitalização, é um
aperfeiçoamento do esquema político-médico.

Segundo Foucault (1979 [2008]b) a medicina urbana tem três grandes objetivos: O
primeiro objetivo é a análise das regiões de amontoamento, de confusão e de perigo no
espaço urbano. O segundo é o controle e o estabelecimento de uma boa circulação da
água e do ar. O terceiro objecto é a organização de distribuições e sequências.

Foucault (1979 [2008]b) diz que a medicalização da cidade, é importante por várias
razões: 1º por intermédio da medicina social urbana, a prática médica se põe
diretamente em contato com ciências extra-médicas, fundamentalmente a química. A
inserção da medicina no funcionamento geral do discurso e do saber científico se fez
através da socialização da medicina, devido ao estabelecimento de uma medicina
coletiva, social, urbana. 2º A medicina urbana é uma medicina das coisas: ar, água,
decomposições, fermentos; uma medicina das condições de vida e do meio de
existência. A medicina passou da análise do meio à dos efeitos do meio sobre o
organismo e finalmente à análise do próprio organismo. 3º Com a medicina urbana

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aparece uma noção de salubridade. Salubridade é o estado das coisas, do meio e seus
elementos constitutivos, que permitem a melhor saúde possível.

Foucault (1979 [2008]b) diz que a medicina da força de trabalho foi último alvo da
medicina social, que foram objectos da medicalização. Portanto, existem várias razões
para isso: uma é de ordem quantitativa, o pobre funcionava no interior da cidade como
uma condição da existência urbana, faziam parte da instrumentalização dá vida urbana.
Por razões politicas, meios de dispensa e a cólera de 1832, o pobre apareceu como
perigo. A ideia de uma assistência controlada, quanto um controle pelo qual as classes
ricas ou seus representantes no governo asseguram a saúde das classes pobres e, por
conseguinte, a protecção das classes ricas.

Foucault (1979 [2008]c) diz que o hospital era uma instituição de assistência aos pobres.
Instituição de assistência, como também de separação e exclusão. A medicina era
profundamente individualista, a experiência hospitalar estava excluída da formação
ritual do médico, entretanto, nada na prática médica permitia a organização de um saber
hospitalar, como também nada na organização do hospital permitia intervenção da
medicina. Quer dizer que estas tecnologias eram compartimentos estanques onde cada
área funcionava de acordo com seus princípios.

Entretanto como explica Foucault (1979 [2008]c) que o primeiro factor da


transformação foi a anulação dos efeitos negativos do hospital. Procurou-se
primeiramente purifica-lo dos efeitos nocivos, da desordem que ele acarretava, pois o
hospital também é um lugar de ordem económica. Surge, portanto, uma reorganização
administrativa e política, um novo esquadrinhamento do poder no espaço do hospital.
Fez-se a reorganização do hospital a partir de uma tecnologia política: a disciplina.
Poder disciplinar foi aperfeiçoado como uma nova técnica de gestão dos homens.

Entretanto, diz Foucault (1979 [2008]c) que foi a introdução dos mecanismos
disciplinares no espaço confuso do hospital que possibilitou sua medicalização. A
formação de uma medicina hospitalar deve-se, por um lado, à disciplinarização do
espaço hospitalar, e, por outro, â transformação do saber e da prática médicas. É,
portanto, o ajuste desses dois processos, deslocamento da intervenção médica e
disciplinarização do espaço hospitalar, que está na origem do hospital médico. Esses
dois fenómenos, distintos em sua origem, vão poder se ajustar com o aparecimento de
uma disciplina hospitalar que terá por função assegurar o esquadrinhamento, a

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vigilância, a disciplinarização do mundo confuso do doente e da doença, como também
transformar as condições do meio em que os doentes são colocados.

Foucault (1979 [2008]c) diz que é no interior da medicina do espaço urbano que deve
ser calculada a localização do hospital. O hospital é um meio de intervenção sobre o
doente. A arquitectura do hospital deve ser factor e instrumento de cura. A arquitectura
hospitalar é um instrumento de cura de mesmo estatuto que um regime alimentar, uma
sangria ou um gesto médico. O espaço hospitalar é medicalízado em sua função e em
seus efeitos. A partir do momento em que o hospital é concebido como um instrumento
de cura e a distribuição do espaço torna−se um instrumento terapêutico, o médico passa
a ser o principal responsável pela organização hospitalar.

Foucault (1979 [2008]c) diz que a formação normativa de um médico deve passar pelo
hospital. Além de ser um lugar de cura, este é também lugar de formação de médicos. A
clínica aparece como dimensão essencial do hospital. Com a disciplinarização do espaço
hospitalar que permite curar, como também registar, formar e acumular saber, a
medicina se dá como objecto de observação um imenso domínio, limitado, de um lado,
pelo indivíduo e, de outro, pela população. Entretanto, o indivíduo e a população são
dados simultaneamente como objectos de saber e alvos de intervenção da medicina,
graças à tecnologia hospitalar.

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Conclusão

Depois da compilação deste trabalho conclui que a economia é uma forma de governo é
um campo de intervenção do governo através de uma série de processos complexos
absolutamente capitais. E que existem três tipos de governo que apesar desta tipologia,
o importante é que as artes de governar postulam uma continuidade essencial entre elas.
Pois, o que caracteriza o conjunto dos objectos sobre os quais se exerce o poder é o fato
de ser constituído pelo território e seus habitantes.

Conclui também que as “tecnologias de segurança” são tecnologias de governo


associadas a modos de controlo regulatório da população que vão além da mera
disciplina e supervisão, mas antes visam atingir um equilíbrio que permita proteger a
segurança do todo em relação aos perigos internos, em que o indivíduo e as massas são
os dois lados de uma tecnologia política global no âmbito de uma economia política do
conhecimento orientada para a burocratização racional. O governo é uma correta
disposição das coisas de que se assume o encargo para conduzi−las a um fim
conveniente, o governo é definido como uma maneira correta de dispor as coisas para
conduzi-las a um objectivo adequado a cada uma das coisas a governar. Portanto, o
indivíduo e a população são dados simultaneamente como objectos de saber e alvos de
intervenção da medicina, graças à tecnologia hospitalar.

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Referência bibliográfica

Fonseca, Cláudia; Jardim, Denise F.; Schuch, Patrice; Machado, Helena. 2016.
“Apresentação” Horizontes Antropológicos 22 (46): 9-34

Hirata, Daniel; Cardoso, Bruno. 2016. “Coordenação como tecnologia de governo”


Horizontes Antropológicos 22 (46): 97-130

Foucault, Michel. 1979 [2008]a. “Governamentalidade” In Microfísica do Poder. São


Paulo: Edições Graal. pp. 277-293.

Foucault, Michel. 1979 [2008]b. “O nascimento da medicina social” In Microfísica do


Poder. São Paulo: Edições Graal. pp. 46-56.

Foucault, Michel. 1979 [2008]c. “O nascimento do hospital” In Microfísica do Poder.


São Paulo: Edições Graal. pp. 57-64.

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