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Módulo 14- Defesa Pessoal

Disciplina: Defesa pessoal e uso de algemas e tonfas

Curso de Formação de Agentes Penitenciários 1


Módulo 14- Defesa Pessoal
Disciplina: Defesa Pessoal e uso de Algemas e Tonfas
Módulo 14- Defesa Pessoal

Disciplina: Defesa pessoal e uso de algemas e tonfas

, INTRODUÇÃO

Muitas são as versões, e os questionamentos, a respeito da origem da Defesa Pessoal, ou


sobre qual Arte Marcial originou a Defesa Pessoal.

Segundo alguns estudiosos, “a Defesa Pessoal nasceu da necessidade da sobrevivência do


homem diante das situações de risco”.

Segundo a maioria dos mestres, e alguns historiadores do assunto, a defesa pessoal é


antecessora das artes marciais. As técnicas de luta utilizadas nos vários conflitos da
humanidade, sejam ideológicos, territoriais, ou de qualquer outra etiologia, mostram a defesa
pessoal sem nenhuma definição de estilo ou modalidade e sim definida como a Arte de
Guerra. As escrituras milenares de Sun Tzu, conhecidas como A Arte da Guerra, trazem
ensinamentos para as diversas áreas da vida. A integridade física e a defesa da vida também
estão descritas em suas linhas.

Relatos históricos nos fazem perceber que a Defesa Pessoal, ou a necessidade de alto
defesa, foi a mãe das Artes Marciais, estas, variando em muitos aspectos como, cultura,
religião, características estrutural de um povo etc. Mas em todos os estilos objetiva-se a
garantia da integridade pessoal. Seja utilizadas em guerras, seja por indivíduos pacatos que
pretendem garantir seu direito de paz, mesmo que para isso tenham que se utilizar da força
necessária. Isso nos traz a outra garantia que temos sobre a origem da Defesa Pessoal: ela
foi criada para que pessoas mais fracas, através do conhecimento técnico, possam
superar pessoas mais fortes em um combate ou situação de risco. Como exemplo, temos a
história da origem do Jiu-Jítsu, arte marcial de origem indiana, mas difundida mundialmente
pelo estilo brasileiro da família Gracie. Há cerca de 2500 anos, nascia, ao norte da Índia, o
príncipe SIDDHARTHA GAUTAMA, membro da tribo SAKYA. Homem culto e de grande
inteligência, lançou as bases da religião que traria o seu nome e logo desenvolve-se por toda
a Índia. Dentre seus seguidores – monges de longínquos monastérios obrigados a percorrer
pelo interior da Índia, em longas caminhadas, tendo de se defender contra assaltos de
bandidos que infestavam a região – apareceram aqueles que realmente são os criadores da
luta que permitia sua defesa sem o uso de armas atentatórias à moral de sua religião. Assim
nasceu o JIU-JITSU – com o espírito de defesa que é a sua essência.
A aplicação de leis físicas, tais como “sistema de alavanca, momento de força, equilíbrio,
centro de gravidade e o estudo minucioso dos pontos vitais do corpo humano” propiciou a
seus criadores fazer do JIU-JITSU uma arte científica de luta. Vale salientar que dessa
mesma origem, dessa mesma semente, saíram vários estilos de Autodefesa, como por
exemplo, o Aikido e outras Artes que, como o Judô, que tem em sua essência os princípios
das alavancas e da utilização da força do oponente contra ele mesmo.

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DEFESA PESSOAL POLICIAL

No presente modelo em que vivemos, um Estado Democrático e de Direitos, a instituição


POLÍCIA e seus entes ligados diretamente à Segurança Publica, são de suma importância
para garantia da lei e da ordem. São eles os entes da Segurança publica que detêm, com o
consentimento do Estado, o que estudiosos definem como “o monopólio da violência”, ou
seja, a instituição autorizada pela Nação a utilizar a força necessária para manter a paz em
determinado território, por um determinado momento.

Porém tal poder não pode ser utilizado de forma discricionária, e isso é regido tanto pela
Constituição Federal de 1988, quanto por códigos e leis que procuram regulamentar,
fundamentando as atitudes cabíveis para determinadas situações.

O estudo do Uso Progressivo da Força é composto por uma série de princípios e escalas de
atitudes que o Agente Público responsável pela segurança da sociedade deve ter em mente,
de forma quase que automática, para que, em questão de segundos, pensem qual a medida
legal cabível dentro de tal situação de risco.

Fazendo uma breve análise do que seria essa escala gradual do Uso Progressivo da Força,
temos, desde a simples presença do Agente Publico, passando pelo comando verbal,
contenção física,..., armamentos menos letais, até a utilização da força letal, nesse caso
respaldado apenas no que diz o artigo 23 do Código Penal Brasileiro (CPB) em seu inciso II
(legítima defesa).

Na DEFESA PESSOAL POLICIAL, estaremos dentro da escala do Uso Progressivo da Força,


mais precisamente quando for necessário, e possível, o contato direto com o meliante ou
indivíduo a ser contido. Lembrando que os excessos serão cobrados no rigor da lei, (CPB
artigo 129, lesão corporal, em todos os seus incisos e parágrafos).

O CPB, além da legítima defesa (apresentada anteriormente), também apresenta outro


respaldo para o uso da força necessária ou da DEFESA PESSOAL POLICIAL, está em seu
artigo 23, no inciso III (em estrito cumprimento do dever legal ou no exercício regular de
direito).

Um policial, ou um agente publico, bem capacitado, principalmente nesses aspectos, além de


ter maior confiança por parte da sociedade para exercer a segurança publica, também torna-
se mais eficiente na garantia da sua integridade física, na de seus companheiros e na de
terceiros de forma genérica.

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USO PROGRESSIVO DA FORÇA NA DEFESA PESSOAL POLICIAL

A tabela abaixo retrata de forma resumida as situações e medidas cabíveis a ela, valendo
salientar que a percepção e fatores externos podem justificar atitudes fora desse
organograma, já que têm que ser levadas em consideração as incertezas e a não
previsibilidade do cotidiano funcional do Agente de Segurança Publica.

ATITUDE DO MELIANTE AGENTE DE SEGURANÇA PUBLICA


BAIXO RISCO / ALTERADO PRESENÇA (POSICIONAMENTO /POSTURA)
AMEAÇA VERBAL ORDEM / AVISO
RESISTÊNCIA CHAVE DE BRAÇO/ PONTO DE PRESSÃO
AGRESSÃO FÍSICA GOLPES CONTUNDENTES / ARMAS MENOS
LETAIS
ARMA / POTENCIAL LETAL ARMA LETAL / FORÇA LETAL
Tabela I – Uso progressivo da força na Defesa Pessoal Policial

PRINCÍPIOS A SEREM UTILIZADOS NA DEFESA PESSOAL

Princípio da repetição: Deve ser exercitado até se tornar automaticamente perfeito em sua
reação, e mesmo assim continuar com a sua manutenção e treinamentos constantes.

Princípio da dor: A dor é o domínio sobre seu adversário, quanto maior a dor, maior o
domínio. Podemos imobilizá-lo, distraí-lo ou lesioná-lo gravemente tirando-o de combate.

Princípio da adaptação: A técnica se adapta ao adversário. Conhecer os detalhes das


técnicas, suas alavancas e pontos de pressão é fundamental para garantir sua efetividade.

Princípio da mudança: Quando uma técnica não der certo, mude para outra.
Preferencialmente utilizando as barreiras de uma como alavanca para outra.

Princípio da versatilidade: Uma técnica para várias situações, e várias técnicas para uma
situação.

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PRINCIPAIS PONTOS SENSÍVEIS E VITAIS

Figura I – Pontos Vitais

No estudo da ciência de qualquer Arte Marcial, é fundamental o conhecimento de alguns


pontos sensíveis ou vitais do corpo humano. Tal estudo e identificação já é um diferencial de
estilo de uma a outra Arte, ou seja, alguns pontos são conhecidos e explorados para
determinado estilo e completamente ignorados por outros.

Dentre os principais PONTOS SENSÍVEIS (ou VITIAIS), podemos atribuir, de forma não
engessada (rígida) suas utilizações na DEFESA PESSOAL POLICIAL.

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Vale atentar para que alguns pontos não são permitidos em situações de lutas e combates
com regras, mas estses são perfeitamente validos e eficientes quando da DEFESA PESSOAL
POLICIAL, o dedo no olhos e o golpe nos testículos de um homem são exemplos clássicos.

Pontos sensíveis e sua utilização na DEFESA PESSOAL POLICIAL

1. Cana do nariz e base do nariz- Golpes traumáticos diretos; saídas de agarramentos


quando os braços estiverem soltos; saídas de gravatas laterais; retirada de agressor
em contato contra terceiros; etc..
2. Olhos - Golpes traumáticos diretos; saídas de agarramentos quando os braços
estiverem soltos; saídas de gravatas laterais e pelas costas; retirada de agressor em
contato contra terceiros; etc..
3. Queixo – Golpes traumáticos cruzados, muito eficientes para desnorteamento
momentâneo do infrator.
4. Carótidas – Estrangulamentos e condução; podem levar o indivíduo a óbito.
5. Traqueia – Saídas de agarramentos quando os braços estiverem soltos, e assim como
as carótidas, é agredida para estrangulamentos, e nunca deve ser usada em golpes
traumáticos, pois também podem levar o indivíduo a óbito.
6. Plexo solar – Golpes traumáticos diretos, muito eficientes para desnorteamento
momentâneo do infrator.
7. Articulações – Ombro, cotovelo e punho, muito utilizadas para desarmes, conduções
e projeções ao solo. No domínio para utilização das algemas. As do joelho e pés,
focadas para chutes e contenções no solo.

DIAGNÓTICO DA CENA CRÍTICA.


Uma boa técnica de Defesa Pessoal, bem como da DEFESA PESSOAL POLICIAL, se
inicia através do estudo, rápido e preciso da “CENA CRÍTICA”. Esta nada mais é do
que tudo que envolve um conflito entre o(s) meliante(s) e o indivíduo a ser agredido
injustamente. Esse diagnóstico, ou análise, tem que ser definido, dentro das
possibilidades, o mais breve e completo.

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Devem ser avaliados, em questão de segundos:

1. Quantos meliantes estão presentes no conflito;


2. Quais as intenções do(s) meliantes (assalto, briga, etc.);
3. Quais as armas envolvidas no conflito (arma de fogo, objetos perfuro cortante,
intimidação pelo porte físico, etc.);
4. Qual o estado do criminoso (nervoso, calmo, sobre efeitos de drogas, etc.);
5. Qual sua situação no conflito (distância entre você e ele(s), conhecimento
técnico, o que você tem a oferecer (assalto: dinheiro, celular, etc.), se está só,
etc.);
6. Qual o modus operandi da criminalidade que está “em moda”;
7. Oportunidade de fuga e de socorro;
8. O tempo a ser usado para efetuar a reação, se possível e necessário.

P.S.: O chamado “EFEITO SUPRESA” ocorre quando não se possibilita o estudo mínimo da
“CENA CRÍTICA”, fragilizando, e muito, a eficácia da DEFESA PESSOAL POLICIAL.

CONCLUSÃO

Não podemos definir um bom treinamento, visando à obtenção de uma boa técnica de
defesa pessoal, se não treinarmos, além de repetições exaustivas de inúmeras
técnicas, os fatores perceptivos do meio e do estado psicológico.

A defesa pessoal é estar 100% preparado para o inesperado. É antecipação antes de


mais nada. Mesmo quando um oponente o ataca, seu objetivo e intenção é acertá-lo.
Quando você defende a agressão e rebota esse ataque, sua ação foi anterior ao
resultado desejado por seu indivíduo. Mesmo depois do ataque, uma defesa pessoal
bem empregada vai se antecipar ao resultado da agressão, fazendo-a assim perder
seu sentido e seus fins.

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BIBLIOGRAFIA

 CRUZ, Alexandre; ABRAHÃO, J.R.R.; CAVALCANTI, Pedro Carlos; NAKAYAMA,


Ricardo – Defesa Pessoal Comentada para Profissionais de Segurança Privada.
 TZU, Sun – A Arte da Guerra
 GURGEL, Fábio – Manual do Jiu-Jitsu- SP- 2002
 GRECO, Rogério – Atividade Policial- RJ- 2009
 CÓDIGO PENAL BRASILEIRO –Decreto Lei nº 2.848, de 7 de Dezembro de 1940

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