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Teologia Medieval:

o Islamismo
Altair Ferraz Neto
© 2020 por Editora e Distribuidora Educacional S.A.
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Ferraz Neto, Altair
F381t Teologia medieval: o islamismo / Altair Ferraz Neto, José Tadeu
de Almeida, Patrícia Graziela Gonçalves. – Londrina: Editora e
Distribuidora Educacional S.A., 2020.
184 p.

ISBN 978-65-86461-51-0

1. Islã. 2. O profeta Muhammad. 3. O Alcorão. I. Almeida, José


Tadeu de. II. Gonçalves, Patrícia Graziela. III. Título.
CDD 297
Jorge Eduardo de Almeida CRB-8/8753

2020
Editora e Distribuidora Educacional S.A.
Avenida Paris, 675 – Parque Residencial João Piza
CEP: 86041-100 — Londrina — PR
e-mail: editora.educacional@kroton.com.br
Homepage: http://www.kroton.com.br/
Sumário

Unidade 1
A Península Arábica antes do profeta Muhammad���������������������������������� 7
Seção 1
As origens do Isl������������������������������������������������������������������������������� 9
Seção 2
Escravismo e crença�������������������������������������������������������������������������23
Seção 3
A importância da Península Arábica���������������������������������������������36

Unidade 2
Muhammad: a vida e a revelação��������������������������������������������������������������51
Seção 1
O profeta e as origens islâmicas������������������������������������������������������52
Seção 2
O Islamismo para além da Península Arábica������������������������������66
Seção 3
Expansão islâmica e a importância do Islã������������������������������������78

Unidade 3
Hijrah (Hégira) e a tomada de Makka Al-Mukarrama (Meca)�������������93
Seção 1
A religião islâmica����������������������������������������������������������������������������95
Seção 2
O Livro Sagrado do Islamismo���������������������������������������������������� 107
Seção 3
O Islamismo e suas influências���������������������������������������������������� 121

Unidade 4
Os cinco pilares do Islão, a Sunnah, os Hadiths e a Shariah��������������� 135
Seção 1
Os cinco pilares básicos���������������������������������������������������������������� 136
Seção 2
Sunnah e o seu papel na Lei Islâmica������������������������������������������ 150
Seção 3
A mesquita e a cultura muçulmana�������������������������������������������� 162
Palavras do autor

B
em-vindo! É um enorme prazer dividir com você o conteúdo da disci-
plina de Teologia Medieval: o Islamismo. Na construção deste livro
você será nosso convidado para conhecer algumas perspectivas gerais
e históricas da formação do Império Árabe-Islâmico, como ponto de partida
na abordagem do Islamismo e também terá informações sobre a religião
islâmica.
É claro que a pretensão didática de um trabalho dessa natureza requer
um apelo histórico cuidadoso e ao mesmo tempo subjetivo. Por esse motivo,
colocamos um caminho como propósito deste livro, que é: entender, em
termos gerais, as particularidades históricas da Península Arábica antes do
aparecimento do Islamismo, a vida do profeta Muhammad e, posterior-
mente, o desenvolvimento histórico em seus aspectos religiosos do Islã.
A partida do livro foca uma narrativa que inicia com o século VI d.C.
e aqui na nomenclatura você vai notar a utilização do nosso calendário, o
cristão, para efeitos puramente didáticos, uma vez que escrevemos no Brasil
e o calendário islâmico apresenta uma cronologia diferente, conforme você
terá a oportunidade de conhecer no decorrer das unidades.
Esperamos suscitar uma reflexão sobre os aspectos políticos, religiosos,
sociais, econômicos e o fundo puramente histórico, para situá-lo no universo
interessante que abrange a expansão islâmica do Império Árabe-Islâmico,
como sugerem alguns autores, e das grandes conquistas e episódios que
envolvem todo processo de expansão islâmica.
Por isso, é com um grande prazer que dividimos algumas informações e
interpretações sobre o islamismo, sem pretensão alguma de esgotar o arcabouço
religioso dessa que é uma das maiores religiões que já conhecemos. No momento
em que escrevemos, mais de 1 bilhão de pessoas seguem sobre os preceitos do
Alcorão e os fundamentos da vida do profeta Muhammad, em uma síntese histó-
rica que unificou socialmente os anseios e as crenças politeístas do passado em
populações e civilizações importantes na história da humanidade.
Assim esperamos, nesse percurso, contar com a sua interpretação e leitura
para conhecer, explorar e dialogar sobre o Islamismo, sempre na perspectiva
distanciada do etnocentrismo, despossuída de juízo de valor e na intenção
pura de conhecer essa importante religião, que se tornou um império entre
os impérios na história até os dias em que escrevemos. Aproveite, aprofunde
seus conhecimentos. O seu autoestudo é o que fará a diferença. Desejamos a
você ótimos estudos!
Unidade 1
Altair Ferraz Neto

A Península Arábica antes do profeta Muhammad

Convite ao estudo
Se hoje você pode contar com a dignidade humana garantida por lei como
própria de um mundo baseado em Direitos Humanos, além de respeito às
diferenças em uma realidade plural e heterogênea, é necessário lembrar que
nem sempre a história nos reservou essa particularidade. É claro que muito
ainda tem que ser feito e construído e, para escrever essas linhas, não esque-
cemos que a própria dignidade humana foi construída sobre uma história de
lutas e guerras. A história dos povos árabes serve muito ao nosso propósito.
A formação do Império Árabe-Islâmico, a partir do século VI, é desafia-
dora. Para nossa unidade, o ponto de partida é uma sociedade de povos
nômades e com múltiplas crenças e deuses, situada geograficamente em uma
península que servia estrategicamente como passagem mercantil, ainda que
transpassada pelo deserto e aridez próprias daquela região. Lembre-se que
estamos ainda incipientes nesse período da história da forma Estado, como
a conhecemos hoje.
É necessária uma observação inicial e conhecer a Península Arábica,
sobretudo em sua formação social, antes de mergulharmos no islamismo, e é
isso que faremos a seguir. Como as fontes e os estudos da maioria bibliográ-
fica sobre o Islã começam por desenvolver a pesquisa a partir do nascimento
de Muhammad, nosso primeiro capítulo tem um desafio ainda maior.
Você conhecerá as características gerais do período que os muçulmanos
chamam de Jahiliyyah, ou a “era da ignorância”, para a sociedade árabe. Ao
contrário do que a expressão pode sugerir, a era da ignorância tem uma
importância fundamental na história do Islã, e por esse dado deve ser
desenvolvida em linhas gerais com as perspectivas ideológicas na Península
Arábica a partir do século VI.
O contexto de formação islâmico a partir das características da penín-
sula, da sociedade e dos povos nômades da Arábia deve ser melhor tratado
nessa abertura da Unidade 1 do nosso livro. Isso se dará pelo aspecto histó-
rico de importante consolidação comercial de Meca e de algumas regiões
da península após o ano 500 do calendário cristão, como síntese dos valores
comerciais e trocas simbólicas entre o semitismo e o sincretismo religioso
presente nas diferentes tribos árabes daquele período.
Em resumo, o convite que fazemos a você nesta unidade segue na busca
pela importância e influência da chamada “era da ignorância” no processo de
formação do Islamismo. Quais as origens dessa importante matriz religiosa
que é hoje o Islamismo? Qual a influência da Jahiliyyah na construção do Islã?
Como uma sociedade do século VI, escravista clássica, construiu os preceitos
de uma das maiores religiões que já conhecemos? Essas questões estarão
presentes nessa unidade e esperamos o seu aproveitamento como material
de fontes históricas e até sociológicas para a compreensão do processo de
formação do Islamismo como religião.
Seção 1

As origens do Islã

Diálogo aberto
Seja bem-vindo ao nosso encontro com a história e formação do
Islamismo. Mais do que um convite, você será levado a conhecer sobre a
história dos povos árabes em consonância com a história do próprio Islã. É
necessário encarar esse desafio de mente aberta e para longe das concepções
que trazemos, uma vez que a compreensão de fenômenos sociais como o
escravismo, presente naquela sociedade, deve ser encarado como produto
histórico daquele período, e a história das religiões também entende esse
grande valor que a humanidade criou e cria para subsistir nesse mundo.
Portanto, o desafio já está colocado no seu contexto de aprendizagem.
Nosso cenário será revelado pela busca de compreender uma sociedade
heterogênea e muito peculiar dos povos do deserto, politeísta, criadora das
próprias leis em constructo com a realidade nômade e comercial do século
VI, especificamente pela posição estratégica da Península Arábica, a partir
do ano 500 d.C.
Um conhecimento histórico conduzirá ao entendimento econômico de
tribos nômades e dos centros comerciais importantes da península, assim
como também conduz à compreensão das relações sociais e políticas que se
estabeleceram naquele período. É claro que a religião islâmica nasce com
um propósito, sem o qual não poderíamos compreender, mais adiante, todo
processo de expansão do Islamismo que se origina como forma de agir
diretamente ligada ao desenvolvimento dos povos árabes.
Por isso, esse estudo e resgate da história dos povos árabes e do desenvolvi-
mento da Península Arábica no século VI, torna-se muito atual. Imaginemos
um contexto de problematização em nossos dias. Um contexto em que você
é professor e trabalha em uma universidade que desenvolve pesquisas na
área teológica. Durante um dia de trabalho, recebeu o convite para ministrar
uma palestra aberta, que envolveria um público de duas mil pessoas. O tema
apontado para sua palestra foi a igualdade religiosa na Península Arábica
do século VI. A sua palestra será transmitida por um canal de televisão e as
pessoas envolvidas aguardam com muito interesse a sua exposição. Durante a
construção e o tempo de estudos para sua apresentação, surge uma pergunta:
como abordar e tratar de igualdade religiosa no século VI, se estamos falando
de uma sociedade politeísta marcada por imensas desigualdades e injustiças
sociais? Não esqueça que, para resolver essa questão, você deve refletir sobre

9
aspectos econômicos, políticos e sociais da Península Arábica do século VI
que, didaticamente, são os conteúdos trabalhados nesta seção do livro.
Esperamos que possa aproveitar essa viagem histórica como agente
protagonista. Protagonista sim, com iniciativa e ponto de partida na igual-
dade religiosa, conhecedor da história e na busca pelo reconhecimento do
Islamismo como uma imensa religião que cumpriu inúmeros papéis histó-
ricos importantes, e com a sua leitura e estudos fazer dessa pesquisa um
ponto de apoio nessa busca.

Não pode faltar

Breve história dos povos árabes


Entender a história da civilização árabe é um desafio importante a seguir.
Sobretudo porque

[…] do mesmo modo que não se julga o indivíduo pela ideia


que de si mesmo faz, tampouco se pode julgar uma tal
época de transformações pela consciência que ela tem de
si mesma. (MARX, 2008, p. 48)

É preciso entender que toda civilização se locomove pelo caminho das


relações sociais, na medida em que o homem, enquanto gênero humano, é
um ser social, portanto, estabelece e exerce a sua natureza coletiva.
Com os povos nômades da Península Arábica não foi diferente.
Estamos falando do século VI da era cristã (utilizando o calendário
cristão pela localidade em que escrevemos e entendendo que a comunidade
islâmica também compreende outra cronologia ligada à história do profeta
Muhammad), quando tribos de beduínos nômades ocupavam a imensa
península sobrevivendo, estabelecendo trocas e comércio, relacionando-se
no que ficou conhecido como “vendetas” e, sobretudo, em conflitos que
estariam diretamente ligados à própria história do Islamismo.
A Península Arábica, antes do aparecimento de Muhammad (impor-
tante lembrar que não há, segundo os islâmicos, uma tradução literal para o
nome do profeta, que conhecemos mais comumente aqui como Maomé), já
apresentava sua própria dinâmica de relações sociais, econômicas e políticas,
importantes para entendermos a formação do Islamismo.
Conhecida pela sua imensa extensão territorial e por ser uma região desér-
tica, a Península Arábica hoje tem sua ligação com a exploração petrolífera

10
e grandes riquezas que contrastam com a desigualdade da atual sociedade.
Como a maior península do mundo, com 3.237.500 km², está posicionada
ligando o continente asiático e africano, e é cercada na costa oeste pelo Mar
Vermelho, a leste pelos Golfos Pérsico e de Omã e ao Sul da península pelo
Mar Arábico. Interessante percepção é a de que todo esse território é ocupado
em sua maior parte por desertos e regiões em que a chuva é suficiente para
permitir o crescimento de uma vegetação, em um clima quente e seco, entre
a formação de espaços onde a água verte do subsolo em meio ao deserto,
formando o que conhecemos como oásis.
Em uma região tão agressiva como habitat, o convívio com a natureza é
sempre desafiador, o que torna a história dos povos árabes rica em experiên-
cias e fenômenos sociais importantes para explicar sobretudo a relação das
diferentes tribos que ali viviam no século VI.
Figura 1.1 | Mapa da Península Arábica

Fonte: Wikimedia commons.

A península guarda uma rica história. Socialmente, a partir do século VI


(ano 500 da era cristã), era possível perceber a presença e particularidade das
tribos que ficaram conhecidas como beduínas e sua importância na transpo-
sição e adaptação às condições de uma península em que quase a sua totali-
dade territorial era composta de regiões desérticas. Nenhuma tribo era igual
à outra. Alguns estudos catalogam mais de 300 tribos nômades e também
aquelas que se situavam nas localidades comerciais mais conhecidas, como
Meca. Relata Albert Hourani em seu livro Uma história dos povos árabes:

11
A maior parte da península Arábica era estepe ou deserto,
com oásis isolados contendo água suficiente para cultivo
regular. Os habitantes falavam vários dialetos do árabe e
seguiam diferentes estilos de vida. Alguns eram nômades
criadores de camelos, carneiros ou cabras, dependendo
dos escassos recursos de água do deserto; eram tradicional-
mente conhecidos como “beduínos”. Outros eram agricul-
tores estabelecidos, cuidando de suas safras ou palmeiras
nos oásis, ou então comerciantes e artesãos em pequenos
vilarejos que sediavam feiras. Outros ainda combinavam
mais de um meio de vida. O equilíbrio entre povos nômades
e sedentários era precário. (HOURANI, 2006, p. 21)

É importante perceber que as diferenças cercavam todos os povos do


deserto em que a prática escravista era comum. Em tribos com diferentes
ethos, a luta pela sobrevivência sempre se colocava na escassez do ambiente,
em diferentes tribos, diferentes crenças, diferentes deuses…
A península estava colocada entre o que outrora fora a civilização bizan-
tina e a civilização persa. Esse contexto fortalece ainda o argumento de disse-
minação do cristianismo e do próprio judaísmo, para citar as religiões de
matriz abraâmica, e coloca a Península Arábica no interior de uma análise
muito complexa de relações.
No plano social, era uma civilização que não podemos resumir em povos
“nômades”; escravista e que vivia do deserto, em sua maioria. Um produto
histórico do seu tempo e com influências de grandes religiões, como citamos,
e que lutava pela sobrevivência em meio a essa própria condição.
Mercadores, artesãos e tribos comerciantes que se estabeleciam não só no
deserto, mas nos centros comerciais principais do século VI, como Meca e
Medina. Era comum o domínio dos povos sedentários, lavradores dos oásis e
que também viviam nas regiões onde a chuva era esparsa, pelos mercadores
e nômades da península.

Embora fossem uma minoria da população, eram os


nômades dos camelos, móveis e armados que, juntamente
com os mercadores das aldeias, dominavam os lavradores
e os artesãos. O ethos característico deles — coragem,
hospitalidade, lealdade à família e orgulho dos ances-
trais — também predominava. Não eram controlados por
um poder de coerção estável, mas liderados por chefes

12
que pertenciam a famílias em torno das quais se reuniam
grupos de seguidores mais ou menos constantes, manifes-
tando sua coesão e lealdade no idioma da ancestralidade
comum: tais grupos são em geral chamados de tribos.
(HOURANI, 2006, p. 21)

Assimile
Na história dos povos árabes um ponto importante está relacionado
ao desenvolvimento de cidades como Meca e Medina. A cidade de
Medina, local de migração do profeta Muhammad quando sai de Meca
já no século VII, no episódio que ficou conhecido como Hégira, não
tinha ainda esse nome e era conhecida como Iatreb. Sobre o paradigma
religioso, essa cidade foi fundamental como ponto de partida na conso-
lidação do Islamismo.

Jahiliyyah: a “era da ignorância” para os islâmicos


O período que desenvolvemos anteriormente é também conhecido como
a era da ignorância pelos islâmicos. Pode-se atribuir a esse fato às diferentes
crenças e deuses, como também a própria condição de vida e conflito pela
heterogênea sociedade árabe no século VI, anteriormente ao aparecimento
do profeta Muhammad na história.
Como a Península Arábica tem proporções continentais, é possível que
as diferentes crenças e tribos não apresentem as mesmas características,
mas o dado marcante nesse constructo de relações é que se ligavam de
alguma maneira, ora comercial, ora religiosa, ora pelo conflito. Até mesmo
o nomadismo, como característica, ligava mercadores e caravanas para uma
finalidade comercial, baseada no entorno dos oásis e na ligação com centros
comerciais como Meca.

O poder dos chefes tribais era exercido a partir dos oásis,


onde mantinham estreitas ligações com os mercadores
que organizavam o comércio através do território contro-
lado pela tribo. Nos oásis, porém, outras famílias podiam
estabelecer um tipo diferente de poder, pela força da
religião A religião dos pastores e dos agricultores parece
não ter tido uma forma clara. Julgava-se que deuses locais,
identificados com objetos no céu, se incorporavam em
pedras, árvores e outras coisas naturais; acreditava-se

13
que bons e maus espíritos corriam o mundo em forma
de animais; adivinhos afirmavam falar com a língua de
um saber sobrenatural. Sugeriu-se, com base em práticas
modernas no sul da Arábia, que eles achavam que os
deuses habitavam um santuário, um haram, um lugar ou
aldeia separados do conflito tribal, que funcionava como
centro de peregrinação, sacrifício, encontro e arbitragem,
e era supervisionado por uma família sob a proteção de
uma tribo vizinha. Essa família podia obter poder ou influ-
ência fazendo hábil uso do prestígio religioso, de seu papel
de árbitro em disputas tribais e de suas oportunidades de
comércio. (HOURANI, 2006, p. 22)

Na troca mercantil entre povos e tribos em uma sociedade escravista em


condições tão adversas, o conflito era algo comum. As rotas comerciais no
século VI eram importantes pontos de conquista pelos nômades da penín-
sula principalmente no centro e ao norte, pelo domínio beduíno.
É comum encontrarmos análises que dividem a Península Arábica entre
as tribos nômades que dominavam a região central e norte do território árabe
e os povos do sul da Península, mais estabelecidos nos regimes de agricultura,
mas com grandes avanços na construção de diques e produção de especiarias
que ficaram muito conhecidas na história. “Além de cereais, os árabes do sul
produziam mirra, incenso e outras especiarias e essências, que constituíam a
sua principal fonte de exportação” (LEWIS, 1990, p. 31).
Segundo alguns autores, é possível interpretar as tribos que viviam no
sul da península, com características monárquicas de base familiar, onde o
regime parece assentar na sucessão. Os reis não possuíam, como nas socie-
dades orientais, o caráter, sobretudo, divino. Como no plano político, não
existia Estado do tipo centralizador nos moldes modernos; é possível que o
desenvolvimento das sociedades do sul da península, estejam conectados à
história dos beduínos nômades de maneira geral.
O politeísmo era presente nessa sociedade de maneira interessante.
Como as diferentes crenças e deuses se colocavam pela heterogênea carac-
terística das diferentes tribos e regiões, esse politeísmo muitas vezes confli-
tuoso deveria ser respeitado no interior dos limites da cidade de Meca,
importante centro comercial do século VI. Em Meca estava localizado o que
hoje os muçulmanos chamam de Caaba, um templo sagrado e que anterior-
mente ao surgimento do Islã era o centro de adoração de uma multiplicidade
de deuses das mais diferentes tribos. Essa questão é central para entender

14
porque os muçulmanos chamam esse período de a era da ignorância. Sobre a
Caaba, trataremos posteriormente.

A religião da Arábia do Sul era politeísta e apresenta analo-


gias, mais de ordem geral do que de pormenor, com as
de outros antigos povos semitas. Os templos constituíam
centros importantes da vida pública e possuíam grandes
riquezas, administradas pelo chefe dos sacerdotes. O
produto das colheitas de especiarias era considerado
sagrado e uma terça parte reservada aos deuses, isto é, aos
sacerdotes. (LEWIS, 1990, p. 32)

Se nos voltarmos para compreender as relações e a história dos povos


e tribos nômades que se estabeleceram ao norte da península, certamente
encontraremos ligação com o domínio de rotas comerciais importantes e que
de certa forma foram fundamentais na consolidação econômica de cidades
como Medina e Meca.

Assimile
A tribo dos coraixitas liga-se diretamente à história de Muhammad.
Sua família pertencia à tribo dos coraixitas, embora não à parte mais
poderosa. Os membros dessa tribo eram mercadores que mantinham
acordos com tribos pastoris em torno de Meca, e também relações com
a Síria e o sudoeste da península. Era a tribo predominante na cidade
importante de Meca no século VI.

“O traço dominante da população do Centro e do Norte da Arábia neste


período crucial que precedeu imediatamente a ascensão do Islão é o do triba-
lismo beduíno” (LEWIS, 1990, p.28). A subsistência dessas tribos dependia
diretamente dos rebanhos, das manadas e dos saques às caravanas que se
aventuravam no deserto intencionando atravessar a Arábia. É por meio dessa
prática que os produtos e mercadorias provenientes de diferentes regiões
chegavam às tribos no interior da península.

Na sociedade beduína a unidade social é constituída pelo


grupo e não pelo indivíduo. Este só tem direitos e obriga-
ções enquanto membro do respectivo grupo. O grupo
mantém-se unido exteriormente pela necessidade de
autodefesa contra as dificuldades e perigos da vida no
deserto, e internamente pelos laços de sangue de descen-

15
dência por linha masculina, que constitui o vínculo social
básico. (LEWIS, 1990, p. 35)

Aqui, parece ser possível uma avaliação político-econômico-social, com


a Jahiliyyah, a era da ignorância, como colocada pelos muçulmanos, pelas
complexas relações que se estabeleceram na Península Arábica antes da
vinda do profeta Muhammad. Essas relações envolvem, no plano econômico,
uma diversificada rede de comércio transarábico, pelas rotas comerciais e o
próprio desenvolvimento comercial de cidades importantes. O papel tribal
no plano das relações políticas, ideológicas e religiosas do período pode ser
verificado pela crença baseada em vários deuses e matrizes ideológicas muito
pertinentes ao desenvolvimento político das tribos que mais conquistavam.
O nomadismo foi fundamental e definitivo para construir a história
árabe. “Foram os elementos fixos e, particularmente, os que viviam e traba-
lhavam nas rotas comerciais transarábicas, quem efetivamente moldaram a
história árabe” (LEWIS, 1990, p. 40).
Esse estilo de vida que se desenvolveu por meio do que descrevemos nas
diferentes regiões da Península Arábica do século VI está associado à era
da ignorância, que seria, na visão islâmica, um período da história em que
os árabes não conheciam a os princípios e a “vontade de Deus”, de um só
Deus: eram politeístas e resolviam suas contendas com “vendetas”, e foi isso
que inspirou e impulsionou o período que mais à frente trataremos, o da
expansão islâmica, após o surgimento e as revelações do profeta Muhammad.

Reflita
A característica do politeísmo nesse período da história representou
um importante papel na formação do Império islâmico mais à frente.
As particularidades são os traços fundamentais desse politeísmo e do
nomadismo na formação da identidade dos povos árabes.

A religião dos nómadas era uma forma de polidemo-


nismo próxima do paganismo dos antigos semitas.
As entidades por eles adoradas eram, na origem, os
habitantes e seres tutelares de lugares específicos,
que viviam nas árvores, nas fontes e especialmente
nas pedras sagradas. Havia alguns deuses no sentido
real, que transcendiam na sua autoridade as fronteiras
dos cultos puramente tribais. (LEWIS, 1990, p. 36)

16
Podemos refletir: de que maneira o politeísmo é tratado em sociedades
complexas como a nossa?

O contexto de formação islâmica


Desenvolver uma narrativa que abrace a compreensão de uma das
maiores religiões do mundo não constitui tarefa simples. Temos de compre-
ender a formação social do período e como viviam. E não só isso: nosso olhar
não deve voltar para o senso comum uma medida de juízo de valor sobre o
que os povos lá atrás convergiam. Você pôde estudar a complexidade social
de diferentes tribos que se locomoviam pelo território da Península Arábica
por volta do ano 500 d.C., assim como a diversidade estabelecida entre os
povos e tribos nas regiões mais ao sul do território.
O que com isso afirmamos é que a análise da sociedade árabe que definirá
o seu percurso e as condições de vida desses povos sem dúvida formatará e
colocará uma característica fundamental na expansão do islamismo a partir
do século VII e a maneira como pensavam, sua ideologia e sua religião.
Esse ponto é a compreensão do que os islâmicos entendem e denominam
como era da ignorância. Esse período foi fundamental na construção de uma
identidade do povo árabe e o que marca transformações externas e internas,
comerciais, religiosas e políticas até o advento do Islamismo.
Portanto, as origens do Islã devem compreender que a fé tribal é resul-
tante, mas também promotora, dessa identidade dos povos árabes, assim
como as sociedades dos oásis, formando essa identidade em uma estrutura
rudimentar de crenças e hábitos políticos em uma espécie de diferença entre
a população nômade e sedentária.

A fé tribal concentrava-se à volta do deus da tribo, geral-


mente simbolizado por urna pedra e, às vezes, por qualquer
outro objeto. Ficava sob a custódia da casa do Sheikh, que
desse modo conquistou um certo prestigio religioso. Deus
e culto constituíam a divisa da identidade tribal e a única
expressão ideológica do sentido de unidade e de coesão da
tribo. A submissão ao culto tribal era expressiva de lealdade
política. A apostasia era equivalente a traição. (LEWIS,
1990, p. 37)

Somam-se a isso as rotas comerciais e a consolidação de centros impor-


tantes ligados ao comércio, como a cidade de Meca e Medina, possibilitando

17
o encontro e a canalização das diferentes formas de agir, trocar e se relacionar
na aspereza da península. A troca mercantil e relações que buscavam a
manutenção da vida de modo direto conduziram ao choque ideológico entre
os diferentes povos que já sofriam influência de grandes impérios.

Exemplificando
Um exemplo da importância das transformações ocorridas no século VI
para a formação do Islamismo pode ser encontrado no modo de vida
de uma parte importante da população da península naquele período.

O oásis era a única exceção a este modo de vida


nómada. Aqui, pequenas comunidades sedentárias
formavam uma organização política rudimentar, e
a família mais importante do oásis estabelecia, em
regra, uma espécie de regime de pequena realeza
sobre os seus habitantes. Por vezes, o soberano do
oásis reivindicava uma vaga suserania sobre as tribos
vizinhas. Algumas vezes também, um dos oásis conse-
guia obter o controlo de um oásis vizinho, dando assim
origem a um efêmero império no deserto. (LEWIS,
1990, p. 37)

Sua forma de agir, política e religiosamente, também tem aportes


materiais e comerciais com o processo que sempre estava encerrado
no ambiente inóspito do deserto, e isso de certa forma identificou e
marcou a construção de um dos maiores impérios que já conhecemos.

Em resumo, é necessário concluir que a Arábia do período que antecede o


aparecimento do Islamismo, não está isolada na sua totalidade dos impérios
existentes até então, bizantino e persa. “Tanto a cultura persa como a cultura
bizantina, nos seus aspectos material e moral, penetraram através de diferentes
canais, muitos deles ligados às rotas comerciais transarábicas” (LEWIS, 1990,
p. 38). Assim, as trocas comerciais e culturais transformaram o caráter das
relações entre os povos nômades e sedentários. O semitismo pagão teve sua
representação na consolidação de centros comerciais e religiosos, como na
cidade de Meca do século VI, e o período da ignorância, segundo a narrativa
islâmica, deve ser analisado por uma ótica que avalie a construção de uma
civilização complexa, como a que vivia na Península Arábica do século VI.

18
Sem medo de errar

Após uma viagem no tempo para compreender as origens históricas do


Islamismo, retornamos ao nosso contexto de aprendizagem contemporâneo.
Imagine que você é professor e trabalha em uma universidade que desen-
volve pesquisas na área teológica. No seu cotidiano de trabalho recebeu
um convite para ministrar uma palestra aberta, que envolveria um público
grande e transmissão por um canal de televisão
O tema apontado para sua palestra foi a igualdade religiosa, e você deve
fazer essa análise de acordo com as origens do Islamismo, lembrando as
características politeístas na Península Arábica do século VI. As pessoas
envolvidas aguardam com muito interesse a sua exposição. Durante a
construção e o tempo de estudos para sua apresentação, surge uma pergunta:
como abordar e tratar de igualdade religiosa no século VI, se estamos falando
de uma sociedade politeísta marcada por imensas desigualdades e injus-
tiças sociais? Não esqueça que para resolver essa questão, você deve refletir
sobre aspectos econômicos, políticos e sociais da Península Arábica daquele
período, conforme você conheceu até aqui.
Na sua palestra, os argumentos devem focar a igualdade religiosa,
lembrando que um dos aspectos da formação do Islamismo foi a forma
complexa com que as diversas tribos se relacionavam na península. Uma
resposta interessante seria a compreensão de que nos centros comerciais que
se desenvolveram no período, tinha que existir um consenso mínimo quanto
à liberdade de crença, e isso existiu nos territórios de Meca, por exemplo.
Uma outra linha de argumentação plausível pode ser adotada como
resposta a essa pergunta. As diferentes tribos, em diversificadas formas de
vida, nômades ou sedentárias, tinham suas crenças em deuses diversos pela
sua condição de vida na península, que estava atrelada à aspereza do deserto
e que levou à sobrevivência em um contexto de lutas com outras tribos.
Mas temos ainda uma outra linha de pensamento e argumentação de
resposta para entender a importância da igualdade religiosa, sobretudo na
sociedade árabe do século VI. Sua diversificada trama social em meio à
grande extensão da península ligava religião e comércio nas rotas comer-
ciais de passagem pelo território. Influências externas penetravam na cultura
árabe, permitindo uma ligação de diferentes crenças na criação de uma
identidade árabe. Esse fato mais tarde será sintetizada pela religião islâmica,
o se verifica, na compreensão muçulmana, por esse período ser conhecido
como a era da ignorância.

19
Os caminhos são variados na compreensão da formação do islamismo,
mas todos eles devem passar pela compreensão do que foi a construção da
sociedade árabe antes da vinda do profeta Muhammad, construção essa que
deve abranger aspectos históricos, econômicos, políticos e religiosos como
ponto de partida.

Faça valer a pena

1. Entre os grandes impérios do norte e os reinos do mar Vermelho, ficavam


terras de uma espécie diferente. A maior parte da península arábica era estepe
ou deserto, com oásis isolados contendo água suficiente para cultivo regular.
Os habitantes falavam vários dialetos do árabe e seguiam diferentes estilos de
vida (HOURANI, 2006.).
A passagem denota características importantes e o espaço geográfico da
Península Arábica no século VI. Agora analise as afirmações a seguir sobre
algumas características sociais das tribos e povos que habitavam a península.
a. Eram em sua maioria povos nômades e com características capita-
listas industriais.
b. Eram povos divididos em tribos nômades e sedentárias com caracte-
rísticas politeístas.
c. Eram povos sedentários das montanhas que não realizavam comércio
e agricultura.
d. Eram povos sociais desprovidos de consciência para viver no deserto,
por isso desenvolveram agricultura.
e. Eram civilizados nos centros urbanos e monoteístas no interior de
Meca e Medina.

2. É possível, em linhas gerais, analisar a população e os traços sociais mais


relevantes dos povos que habitavam o norte e as regiões centrais da Península
Arábica no século VI. Sobre esses traços, analise as afirmativas:
I. O traço dominante da população do centro e do norte da Arábia
nesse período crucial que precedeu imediatamente a ascensão do Islã
é o do tribalismo beduíno.
II. Na sociedade beduína a unidade social é constituída pelo grupo
e não pelo indivíduo. Este só tem direitos e obrigações enquanto
membro do respectivo grupo.

20
III. Os povos pertencentes ao norte e às regiões desérticas da península
desenvolviam agricultura no período das chuvas e se relacionavam
com diversos deuses.
Assinale a alternativa correta da questão:
a. I e II, apenas.
b. II e III, apenas.
c. I e III, apenas.
d. III, apenas.
e. I, II e III.

3.
A religião da Arábia do Sul era politeísta e apresenta analo-
gias, mais de ordem geral do que de pormenor, com as
de outros antigos povos semitas. Os templos constituíam
centros importantes da vida pública e possuíam grandes
riquezas, administradas pelo chefe dos sacerdotes. O
produto das colheitas de especiarias era considerado
sagrado e uma terça parte reservada aos deuses, isto é, aos
sacerdotes. (LEWIS, 1990, p. 25)

A passagem apresentada marca importantes características dos povos árabes


e do que os islâmicos denominam como a era da ignorância na Península
Arábica do século VI d.C. Sobre a Jahiliyyah ou era da ignorância, atribua V
para as afirmativas que são verdadeiras e F para as de conteúdo falso:
( ) Várias tribos, diferentes crenças e deuses, como também a própria
condição de vida e conflito pela heterogênea sociedade árabe no século VI,
anteriormente ao aparecimento na história do profeta Muhammad.
( ) Várias crenças mas em um só Deus. A Jahiliyyah ou era da ignorância
foi o mais importante rito do Islamismo e até hoje é celebrada pela tribo dos
coraixitas, pertencentes à cidade de Meca na Península Arábica.
( ) A era da ignorância foi o período em que o profeta Muhammad sai da
cidade de Meca e se estabelece em Medina, antiga Iatreb, para construir as
bases do Islã, e que até hoje é celebrada pelos muçulmanos no calendário
cristão.

21
Assinale a alternativa com a sequência CORRETA:
a. V – V – V.
b. V – V – F.
c. V – F – F.
d. F – F – V.
e. F – F – F.

22
Seção 2

Escravismo e crença

Diálogo aberto
Caro aluno, a história dos povos árabes tem muito a nos acrescentar em
questões sociais importantes da vida cotidiana. Se somos produtos histó-
ricos, temos muito para aprender com as sociedades escravistas do século VI,
em que é possível entender que diferentes crenças e deuses sempre estiveram
presentes mesmo em condições nas quais o essencial “humano” era conside-
rado, em si, uma ferramenta.
Portanto, falar de uma sociedade como os povos que habitavam a
Península Arábica é, também, compreender que a religião e a crença foram
imensos valores que a humanidade criou para poder subsistir nesse mundo.
Fazendo uma leitura social, é possível compreender que os povos da Arábia,
em 500 d. C., possuíam uma multiplicidade de valores já analisados, como
as características dos beduínos nômades ao norte da península e dos povos
agrícolas do sul.
Não podemos esquecer de que estamos analisando uma sociedade que
considerava o escravismo. Nesse sentido, a maneira de produzir a vida
passava essencialmente por esse tipo de relação e, portanto, é necessário
compreender como essas relações influenciaram de maneira geral o desen-
volvimento dos povos da península em sua relação com o processo de
formação do Islamismo.
Aqui você está convidado a passar por temas como a relação entre escra-
vismo e crença na sociedade árabe do século VI. Também as múltiplas
crenças e deuses que encerram na Caaba a sua importância, assim como a
importância comercial e religiosa de Meca no mesmo período. As cidades e
o comércio no século VI devem ser pensados nesse caminho de considerar a
política, a religião, o comércio e as relações entre os povos árabes.
Para essa finalidade, teremos que exercitar uma questão atual. Imagine
que você faz parte de uma comunidade e é membro da associação de bairro
em uma cidade brasileira. Essa comunidade é muito heterogênea e, no aspecto
religioso, apresenta quase todas as religiões. No lugar onde mora, a comuni-
dade islâmica é muito engajada na solução dos problemas comunitários e
você, como estudioso de Teologia, observou determinados preconceitos com
a crença muçulmana, traduzindo isso na afirmação que escutou em uma das
reuniões da associação de bairro: “esses árabes são todos malucos!”. Você ficou
espantado com a afirmação e resolveu ajudar a esclarecer sobre a formação

23
islâmica, combinando uma reunião e um diálogo com todos os moradores do
bairro em um encontro aberto, com a ajuda da própria comunidade islâmica
local. Sua conversa deve ter de responder duas perguntas iniciais na direção
de romper com esse preconceito: todos os árabes são islâmicos? De onde vem
o Islamismo?
É um desafio e tanto, não é mesmo? Trilharemos, aqui, com o seu
empenho e, mais do que isso, com a sua interpretação a respeito da complexa
rede de relações que se estabeleceu na Península Arábica a partir do século
VI. Ótimos estudos!

Não pode faltar

Escravismo e crença na sociedade árabe do século VI


Para delimitar e entender as relações que envolviam os povos na Península
Arábica no século VI, é necessário abarcar as diferentes esferas da vida social.
Isso porque, nas análises comprometidas com os aspectos da vida religiosa,
temos que levar em conta que a produção material e econômica, na maneira
como vivem os indivíduos daquela sociedade, tem direto impacto e formam
o tecido de relações que conceberá aquela sociedade.
Dito de outra forma, a consolidação e a construção de cidades como
Meca e Medina no século VI resultam de influência direta do comércio que
se estabeleceu na Península Arábica, e que, por sua vez, também é processo
resultante de influências externas de grandes impérios na península, como o
bizantino e o persa. Nos estudos sobre as religiões, essa propensão tem um
caráter central, como: “Deve-se levar em conta na análise do mundo bíblico
que sua literatura foi construída a partir de relações de ordem social, econô-
mica, política e cultural” (ROSSI, 2005, p. 27).
Mas não é só isso. Não podemos definir que o comércio foi o centro dos
fatores de construção do Islamismo e nem é desejável essa interpretação aqui.
O uso recorrente e histórico dos elementos para comprovação do argumento
é o de que, na interação social e econômica dos povos árabes do período em
que descrevemos, na manutenção e produção da própria vida, os indivíduos
estabeleciam também relações determinadas e próprias do seu tempo, e claro
que, com isso, a sua cultura, política e religião. Alguns clássicos métodos
sugerem essa interpretação que descrevemos:

[…] na produção social da própria existência, os homens


entram em relações determinadas, necessárias, indepen-
dentes de sua vontade; essas relações de produção corres-

24
pondem a um grau determinado de desenvolvimento de
suas forças produtivas materiais. (MARX, 2008, p. 46)

Esses aspectos estão diretamente ligados ao modo como as pessoas produ-


ziam e se relacionavam, e não podemos deixar de citar alguns elementos.
Em que sociedade se estabeleceram os preceitos do Islã? Que modo de
produção podemos citar para falar do período de formação do Islamismo,
antes mesmo do aparecimento do profeta Muhammad? Essas questões nos
conduzem a entender uma outra relação: como a religião coaduna e convive
com os aspectos elementares de uma sociedade escravista? Podemos afirmar
que a Península Arábica a partir do ano 500 d.C. era uma sociedade total-
mente escravista?
Nos primeiros seis séculos da era cristã, não podemos esquecer do advento
do Cristianismo e a própria história do Judaísmo nesse cenário, além de sua
importância também para a formação do Islã. A Península Arábica passara,
de maneira socialmente heterogênea, por diferentes fases de construção de
uma identidade árabe, muito ligadas às influências bizantinas e persas. O
Império Bizantino exerceu grande influência, sobretudo nas rotas comerciais
que cortavam o território árabe, e com isso também coloca relações impor-
tantes em outras partes da vida social na península de maneira interessante:

Todas essas mudanças produziram efeito considerável na


península arábica. Após esses fatos, grande número de
estrangeiros chegou à Arábia: colonos, refugiados e outros
grupos de alienígenas se estabeleceram na península,
trazendo consigo novos costumes, artefatos e idéias. Como
resultado do persistente conflito pérsio-bizantino, rotas de
comércio surgiram na Arábia, bem como um movimento
importante de mercadores e mercadorias. Mesmo no
norte, os Estados fronteiriços reapareceram, ligados a seus
patrocinadores imperiais, mas continuando como partes da
família árabe. (LEWIS, 2012, p. 52)

Com todas as influências externas na península, com os conflitos que


existiram entre grandes impérios e o estabelecimento de rotas comerciais
perpassando o território, as diferentes tribos árabes foram formadas. Na
ausência de um Estado do tipo centralizado, o poder político era pendular às
influências externas e comerciais dos impérios, porém, não sem passar por
características importantes do nomadismo das tribos árabes adaptadas ao
clima e ao ambiente, assim como as tribos sedentárias e os povos dos oásis,

25
característica central da variada cultura das tribos que há tempos habitavam a
península e que são importantes elementos para entendermos todo processo
histórico-social de formação do Islamismo.
Figura 1.2 | Península Arábica

Fonte: wikimedia commons.

Na ausência de um Estado central, a consolidação de centros comerciais


era plausível em um modo de produção que unira o sistema de tribos em
aspectos escravistas. O modelo escravista de tipo puro e clássico não pode
ser aplicado aos povos naturais da Península Arábica do século VI, assim
como seus aspectos culturais tribais, suas crenças e seus costumes, que foram
construídos também pela influência dos impérios e das guerras entre bizan-
tinos e persas.
Se levarmos em conta que um modo de produção escravista tem como
principal característica uma economia baseada no escravo, não podemos
afirmar que a Arábia do século VI era em sua totalidade escravista. O que é
comum encontrar nas leituras do período são sociedades que possibilitavam
o domínio sobre escravos. Seja por conquista ou subjugação, na tradição e
luta entre tribos da península e pelas influências externas, existiam escravos.
Nesse ponto, cabe sempre uma questão relevante: como é possível a existência

26
de um modo que permita a escravização e, ao mesmo tempo, religiões e a
crença em deuses que justifiquem esse modelo? Como religião e escravismo
convivem na história?

A simples existência de escravos numa sociedade ainda


não significa que possamos falar de um Modo de Produção
Escravista. Também as sociedades tribais e tributárias
conheceram a escravatura. Porém com um diferencial: a
prática da escravidão nessas sociedades não alterava a sua
estrutura econômica. O modo de organizar a sua produção
da vida material não dependia da existência de escravos. O
modo de produção dominante na Grécia clássica, que regia
a complexa articulação de cada economia local e dava o seu
cunho a toda a civilização da cidade-estado, era o escra-
vista. O conjunto do mundo antigo nunca foi marcado pelo
predomínio de trabalho escravo. (ROSSI, 2005, p. 30)

Portanto, nas sociedades árabes do século VI e na sua heterogênea formação


social, o escravismo estava adaptado a condições de domínio e não hegemo-
nicamente como modo de produção, sobretudo, pela característica essencial
dos povos nômades que viviam na península. Isso porque, pelo território e
geografia marcando a vida das tribos no deserto, era mais difícil, com as carac-
terísticas do nomadismo, transportar e manter escravos. Por isso:

Pode-se dizer que somente no período da sedentarização


que a escravidão assumiu proporções relevantes. As
tribos nômades não podiam evidentemente levar consigo
uma quantidade expressiva de escravos. Era muito mais
fácil eliminá-los. Nos tempos antigos o crescimento do
fenômeno da escravatura andava paralelo ao progresso
dos países. Com o advento do comércio, com a criação de
cidades, a construção de palácios, a abertura de estradas e
a fabricação de navios, os escravos aumentam aos milhares
e vêem sua sorte comprometida pelo progresso inexorável
da flecha do tempo. (ROSSI, 2005, p. 32)

As múltiplas crenças e deuses: a Caaba e sua importância


Nesse ponto do nosso estudo, é importante entender de que sociedade e
modo de produção estamos falando, assim como de que maneira esse modo
de produção se constrói como um produto histórico de relações determinadas

27
pela forma como os indivíduos se relacionam, trocam e produzem a vida
objetiva e subjetivamente, e convivem socialmente. Também como os indiví-
duos criam suas próprias representações, dialogam e dominam o ambiente e
também os seus semelhantes.
Essa pluralidade convergia para o estabelecimento de rotas comerciais,
cidades e pontos importantes que foram sendo construídos ao longo dessa
era. Meca foi um dos principais pontos de comércio e também das religiões
da península. No século VI, antes do aparecimento do Islamismo e do nasci-
mento do profeta Muhammad, essa cidade ao mesmo tempo em que se
consolidava como centro de comércio, reservava um espaço que até hoje é
conhecido como Caaba – ou ka’ba, em árabe.
A Caaba representava o centro das diversas religiões em grande parte do
século VI. Nela estavam guardadas representações dos deuses de cada tribo
da Península Árabe e que, reunia na cidade de Meca, inúmeras crenças.
Centro do politeísmo árabe, por sua importância simbólica, após a
formação do Islamismo, e como parte dela, a Caaba representaria, no século
seguinte – após o surgimento de Muhammad –, o centro da crença islâmica,
modificando assim o seu caráter de centro politeísta, já que o Islamismo é
uma das três grandes religiões monoteístas nascidas no Oriente Médio.
De 500 a 600 d.C. esse templo e santuário reuniu as imagens das mais
de trezentas tribos árabes. Sua importância é fundamental para compre-
endermos o próprio processo de formação e concentração das relações de
poder em Meca, a cidade em que ficava esse santuário e que representava
uma espécie de ponto neutro para todas as religiões árabes e o seu comércio.
Figura 1.3 | Caaba

Fonte: wikimedia commons.

28
“Caravanas de toda a Arábia costumavam peregrinar até Meca com o objetivo
de adorar os diversos deuses e essas peregrinações estimulavam o comércio
da cidade” (VICENTINO, 2016, p. 195). Por essa percepção, rotas comerciais
importantes passavam por cidades como Meca e Medina, assim como as influên-
cias externas dos Impérios Bizantino e Sassanida (Persa) adentraram a Península
Arábica pelas principais rotas comerciais no território árabe.

Por volta do século VI, mais de trezentas tribos de origem


semita habitavam a região, incluindo as tribos urbanas que
ocupavam a faixa costeira do mar Vermelho e do sul da
península – área que tinha melhores condições climáticas
e maior fertilidade do solo. Essas tribos concentravam-se
principalmente em Meca, sua principal cidade, e em Iatreb,
mais tarde chamada de Medina. (VICENTINO, 2016, p. 195)

Assimile
Você sabia que em uma das faces do templo da Caaba está a chamada
Pedra Negra? A Pedra Negra é reverenciada pela crença muçulmana
como um recado enviado por Deus (Alá) e que teria sido oferecida por
Alá a Ismael, filho de Abraão, considerado aquele que deu origem ao
povo árabe. Alguns pesquisadores acreditam que a Pedra Negra é um
meteorito que havia caído na região e que fora colocado na Caaba como
forma de representação de Alá. Hoje, a Pedra Negra está encravada em
um dos cantos da Caaba, bem ao centro da grande Mesquita de Meca,
território da Arábia Saudita. No entorno desse santuário há uma área
circular onde os muçulmanos se concentram quando fazem a peregri-
nação a Meca para dar sete voltas em direção ao sol.

A importância da Caaba está na sua representação e junção das várias


crenças e deuses. Quando analisamos o processo de formação do Islamismo,
encontramos um significado da Caaba antes da vinda do profeta e outro
depois das revelações expressas no Alcorão. É preciso entender que o signi-
ficado simbólico da Caaba é também material e está diretamente ligado às
relações comerciais localizadas em Meca como centro comercial e religioso
no século VI, o que torna fundamental a análise do conteúdo histórico da
cidade de Meca.

29
As cidades e o comércio no século VI: a importância comercial e
religiosa de Meca no século VI
É preciso chamar atenção para duas principais interpretações sobre as fontes
de riqueza da população árabe. No século VI, a importância social e econômica
de algumas localidades do território da Península Arábica, como algumas rotas
de comércio e a própria cidade de Meca, orientam as relações e o intercâmbio das
tribos. Dentro dessa afirmação é possível, segundo alguns estudos, perceber na
literatura duas importantes linhas de pensamento sobre a formação de centros
comerciais e religiosos como Medina (antiga Iatreb) e Meca.

Esse retrato de Meca como um pólo comercial relevante, de


onde chegavam as grandes rotas comerciais internacionais e
de onde partiam caravanas importantes para a Síria, o Iêmen
e a Etiópia, foi alvo de uma série de controvérsias sobre a
história do surgimento do Islã. (LANNES, 2013, p. 47)

A primeira interpretação liga o desenvolvimento dos povos árabes e


das cidades como Meca ao comércio de longa distância e às caravanas. A
segunda, passa pela localização da cidade de Meca como estratégica. Ambas
as determinações são passíveis de debate.
Para nós, é importante o resgate histórico de elementos que nos forneçam
compreensão da sociedade árabe a partir do século VI e no processo de
formação do Islã. Portanto, é importante a compreensão de que:

Meca detinha uma importante localização geográfica e que


as grandes rotas comerciais passavam por ela. Além disso,
sua importância residia no fato de ser um crucial ponto de
apoio logístico para as caravanas que compunham essas
rotas comerciais, além de ter um santuário, a Caaba, no
qual os viajantes poderiam fazer as suas orações. (LANNES,
2013, p. 54)

Reflita
Já imaginou a importância da religião e da crença nas diferentes socie-
dades humanas? Em todos os períodos da história das sociedades, a
religião foi um imenso valor criado socialmente, e como tal é possível
que aspectos econômicos, políticos e ideológicos tenham implica-
ções na formação também do Islamismo. Mesmo em uma sociedade

30
heterogênea como a dos povos que habitavam a Península Arábica,
em aspectos politeístas, a religião cumpriu um grande papel. Com isso,
o que o Islamismo e a formação do Islã representaram para os povos
árabes naquele período?

Compreender as relações que envolviam a formação do islamismo é


entender em que contexto foi possível uma sociedade tão heterogênea quanto
a árabe passar de diferentes crenças e deuses para o monoteísmo. Isso só foi
possível com a fundação do Islã. E a formação de uma das maiores religiões
do mundo também vê na vida do profeta Muhammad sua interpretação.
Muhammad cresceu na península na tribo dos coraixitas. Essa tribo
dominava o comércio e as relações políticas na cidade de Meca, que se forta-
lecia como centro político, religioso e comercial.
“No seio de uma família da tribo coraixita nasceu, em 570, aquele que
seria considerado por muitos o grande condutor do povo árabe: Maomé. Aos
40 anos de idade, Maomé passou a difundir uma nova fé” (VICENTINO,
2016, p. 197). E antes mesmo de estabelecer as bases da fé Islâmica, o próprio
profeta também foi produto do seu tempo.

Exemplificando
Podemos recorrer a exemplos importantes na história de fatores sociais
diversos que expliquem o crescimento das cidades e das religiões.
Ainda no período que analisamos podemos citar Constantinopla, que
deslocou o eixo da centralidade capital do Império Romano.
Ao longo da história, a capital do Império Bizantino
recebeu vários nomes: Bizâncio, Constantinopla e
Istambul.
Istambul é hoje a maior cidade da Turquia e preserva
impressionante memória arquitetônica, com museus,
mesquitas, palácios e igrejas. Essas construções
atraem muitos turistas e estudiosos de diversas
partes do mundo. (COTRIM, 2016, p. 137)

Em resumo, é necessária uma conclusão em acordo com o processo histó-


rico que desembocou na formação do Islamismo. Os aspectos sociais, econô-
micos e religiosos das diferentes tribos da Península Arábica, conduziram
a formação de uma religião ao redor do profeta Muhammad que rompe
com o politeísmo dos povos árabes, e esse rompimento aparece na história
como a formação de uma identidade árabe que mais à frente conduzirá todo

31
conteúdo de expansão do Império Árabe-Islâmico. Isso não seria possível
sem a compreensão dos pontos de formação econômica da Península Arábica
no século VI e da consolidação de Meca como principal centro religioso e
comercial da história árabe.

Sem medo de errar

Você descobriu que a formação dos povos árabes tem influência direta no
contexto de construção do Islamismo. Esse contexto é complexo e tem que
levar em conta a maneira como as diferentes tribos e sociedades árabes produ-
ziam e reproduziam sua vida em meio às condições do deserto, dos povos dos
oásis, nômades e sedentários na península de dimensões continentais.
A história nos forneceu elementos para entender que grandes impérios
transitavam e tinham interesses comerciais sobre a Península Arábica. De
um lado o conhecido Império Bizantino e, de outro, os Sassânidas ou Persas
estabeleciam conflitos e reações pelas rotas no interior da península, tanto
quanto o século VI foi marcado pelo Cristianismo.
É um complexo contexto para entendermos a formação do Islã. Centros
comerciais, como a cidade de Meca, fornecem importantes conselhos quando
analisamos as relações na antiga Arábia e, com isso, o estabelecimento do
comércio e as crenças ao redor da Caaba; hoje o templo consagrado pela
religião islâmica, foi antigamente um importante aglutinador das diferenças
religiosas e das crenças de uma sociedade com valores tribais e escravistas.
Não podemos afirmar que os povos árabes no século VI se estruturavam
em um modelo escravista clássico, apesar das características escravistas
encontradas em várias formações sociais do período. A relação tribal e escra-
vista foi um importante elo entre as rotas comerciais na península e o que
consolidou centros importantes como a cidade de Meca.
A religião, as diferentes crenças e deuses, pautaram as relações heterogê-
neas de uma complexa realidade na Península Arábica a partir do ano 500
da era cristã. Ainda hoje vivemos em uma sociedade plural, heterogênea e
com diferentes formas de pensar e se relacionar, incluindo as religiões em
diferentes matrizes.
Por esse motivo você foi convidado a imaginar que faz parte de uma
comunidade e é membro da associação de bairro em uma cidade brasileira.
A nossa situação-problema é atual e entende que essa comunidade é muito
heterogênea e no aspecto religioso, com pessoas que professam quase todas
as religiões. No lugar onde mora, a comunidade islâmica é muito engajada
na solução dos problemas comunitários e você, como estudioso de Teologia,

32
observou determinados preconceitos com a crença muçulmana, traduzidos
na afirmação que escutou em uma das reuniões da associação de bairro:
“esses árabes são todos malucos! ”. Você ficou espantado com a afirmação
e resolveu ajudar esclarecer sobre a formação islâmica, combinando uma
reunião e um diálogo com todos os moradores do bairro em um encontro
aberto, com a ajuda da própria comunidade islâmica local. Sua conversa
deve ter de responder duas perguntas iniciais na direção de romper com esse
preconceito: todos os árabes são islâmicos? De onde vem o Islamismo?
Compreendemos que nem todos os árabes são islâmicos, assim como
hoje, nem todos os muçulmanos são árabes. Essa religião conquistou a sua
história e é hoje uma das maiores do planeta. O respeito às diferenças deve
ser buscado em todas as frentes pelo estudioso de Teologia, e isso fica claro
quando analisamos o processo de formação do Islã.
Diferentes crenças e deuses são encerrados na Caaba, em um templo e
canal de relações na Península Arábica do século VI, e suas relações comer-
ciais, em centros que se consolidam como importantes referenciais do sincre-
tismo religioso e contradições fundamentais.

Faça valer a pena

1.
A simples existência de escravos numa sociedade ainda
não significa que possamos falar de um Modo de Produção
Escravista. Também as sociedades tribais e tributárias
conheceram a escravatura. Porém com um diferencial: a
prática da escravidão nessas sociedades não alterava a sua
estrutura econômica. (ROSSI, 2005, p. 27-36.)

A passagem apresentada demarca teoricamente a leitura sobre o escravismo.


Sobre esse conceito, assinale a alternativa que aponta para a principal carac-
terística do modo de produção escravista:
a. Uma economia baseada no escravo.
b. Uma economia baseada na crença.
c. Uma economia baseada em relações de troca.
d. Uma economia com base na política.
e. Uma economia baseada no modo de vida tribal.

33
2. Sobre a cidade de Meca no século VI da era cristã, julgue as afirmativas a
seguir em V (verdadeiras) ou F (falsas).
( ) Meca detinha uma importante localização geográfica e as grandes rotas
comerciais passavam por ela.
( ) A importância de Meca residia no fato de ser um crucial ponto de apoio
logístico para as caravanas que compunham essas rotas comerciais, além de
ter um santuário.
( ) Meca e Medina dividiam espaço como centro religioso, porque a Caaba,
templo no qual os viajantes poderiam fazer as suas orações, ficava em Medina.
Assinale a alternativa com a sequência correta.
a. V – V – V.
b. V – V – F.
c. V – F – F.
d. F – F – V.
e. F – F – F.

3.
Por volta do século VI, mais de trezentas tribos de origem
semita habitavam a região, incluindo as tribos urbanas que
ocupavam a faixa costeira do mar Vermelho e do sul da
península – área que tinha melhores condições climáticas
e maior fertilidade do solo. Essas tribos concentravam-se
principalmente em Meca, sua principal cidade, e em Iatreb,
mais tarde chamada de Medina. (VICENTINO, 2016, p. 195.)

Com a referência da passagem apresentada, podemos lembrar da impor-


tância da Caaba como centro religioso e que exerceu uma influência signifi-
cativa na formação das cidades como Meca e Medina. Dentro desse assunto e
sobre a Caaba especificamente, analise as afirmativas a seguir:
I. Caravanas de toda a Arábia costumavam peregrinar até Meca com o
objetivo de adorar os diversos deuses na Caaba, e essas peregrinações
estimulavam o comércio da cidade.
II. Todas as rotas comerciais assavam pela Caaba na Península Árabe.
Foi essa a verdadeira motivação do profeta Muhammad sair de Meca
para Medina, porque o templo estava bem ao centro da mesquita em
Iatreb.

34
III. A Caaba representava o centro das diversas religiões em grande parte
do século VI. Nela estavam guardadas representações dos deuses
de cada tribo da Península Árabe e que reunia, na cidade de Meca,
inúmeras crenças.
Considerando o contexto apresentado, é correto o que se afirma em:
a. I e II, apenas.
b. I e III, apenas.
c. II e III, apenas.
d. III, apenas.
e. I, II e III.

35
Seção 3

A importância da Península Arábica

Diálogo aberto
Caro estudante, chegamos ao final de uma etapa de construção dos antece-
dentes históricos do Islamismo. Como é próprio de todo estudo introdutório,
você será convidado, nesta parte, a refletir sobre a sociedade árabe do século
VI d.C., com um olhar nas relações sociais que estabeleceram as bases para
a construção de uma das grandes religiões e um gigantesco império que se
estabeleceu a partir do século VII da era cristã.
Como podemos entender a origem do Islã? Podemos refletir sobre os
elementos que formaram uma grande matriz religiosa entre os séculos VI e
VII? Quais os principais pontos de compreensão da origem do Islamismo?
Todas essas questões têm necessariamente que passar pela compreensão
social. Seja da ação dos indivíduos à compreensão de que a história material
é um ponto de partida, as origens do Islamismo também estão ligadas ao
próprio desenvolvimento social dos povos que habitavam a Península Arábica.
A Península Arábica guarda uma rica história. E para conhecê-la faremos
um exercício de reflexão, imaginando que você é professor de uma faculdade
que tem como tarefa desenvolver um diálogo sobre a formação das diferentes
religiões e principalmente conduzir seus alunos para um entendimento
sócio-histórico de influência dos impérios na formação dos povos árabes
dessa península.
Neste exercício você, como professor, escolhe dividir a turma em grupos
de estudo que apresentarão, como avaliação, seminários, e cada seminário
tratará sobre uma matriz religiosa. Na equipe responsável por desenvolver as
origens do Islamismo surge uma questão interessante: o que, de fato, o surgi-
mento do Islamismo representou para os povos árabes dos séculos VI e VII?
Podemos lembrar que os fatores históricos devem vir acompanhados
pela compreensão econômica, social e política dos povos árabes, e com isso
orientar os seus alunos para refletirem a sociedade na Península Arábica
do século VI, sua formação, relações e desenvolvimento em meio ao dois
grandes impérios dos quais conhecemos na história: o Império Bizantino e
o Persa.
Aqui você verá alguns elementos que delimitaram a construção e início
do Islamismo. Também conhecerá o que influenciou de maneira direta a

36
formação das sociedades árabes, principalmente a partir do ano 500 d.C., e
que será determinante no caminho de expansão do Islã.

Não pode faltar

A importância estratégica da Península na história das civilizações


Qualquer história contada sobre o Islamismo deve passar pela compre-
ensão das relações sociais que formaram as sociedades árabes. Para esse
fim, é necessário que compreendamos, juntos, a história e a importância da
Península Arábica no século VI d.C., antecedente à narrativa histórica do
profeta Muhammad.
Território, sociedade e história podem guiar nosso argumento aqui. É
possível que você tenha encontrado observações sobre a história dos povos
árabes como as que elencamos, porém, é também necessário compreender
que a Península Arábica e seu território, no período de nosso estudo, estava
posicionada no meio de dois grandes impérios conhecidos na história: o
Império Bizantino e o Império Persa. Mas o que esses dois grandes impérios
têm de relevante para a formação dos povos da península em 500 d. C.?
A palavra “bizantino” vem de Bizâncio, uma antiga cidade da Grécia
que, mais tarde, ficou conhecida como Constantinopla, a capital do Império
Romano em sua porção Oriental. Constantinopla foi a capital do Império
Romano no ano de 330 d.C. e teve sua história contada até o ano de 1453 d.C.,
quando foi conquistada pelos turcos, que alteraram seu nome para Istambul.
O Império Bizantino e sua capital Constantinopla ligavam a Europa com a
Ásia e, geograficamente, sua capital exerceu uma influência importante no
comércio e cultura entre as sociedades de dois continentes, e principalmente
na Península Arábica.
Devida à grandiosidade do Império Romano e a proporção de um dos
impérios mais expansionistas que já conhecemos, não é possível deixar de
notar e entender a influência que suas relações exerceram nas sociedades de
então, sobretudo nos povos árabes.

Reflita
Você sabia que as relações sociais dos povos árabes, principalmente as
tribos nômades da Arábia, também influenciaram de maneira significa-
tiva a trajetória do Império Bizantino no século VI?

Os árabes eram mais um empecilho ao comércio do


que uma preocupação militar, mas suas depredações

37
eram cada vez mais ousadas. Ataques de beduínos
à Síria tinham começado sob o governo de seu tio,
e esperava-se de Justino que desse continuidade à
política de pagar a quantia de extorsão para mantê-los
afastados das rotas comerciais e das comunidades de
fronteira do império (LEWIS, 2010, p. 16)

Lembramos que a expansão árabe-islâmica se consolida no século


VII, com a construção do Islã e a história do profeta Muhammad. O
comércio e o domínio de rotas comerciais importantes são centrais
para compreendermos como os povos da península exerciam influência
no território, e podem nos contar sobre e ajudar na compreensão da
formação do Islamismo.

É possível que você já saiba a narrativa da história sobre a conquista do


território bizantino pelo Império Árabe-Islâmico no século VII, mas é um
ponto que ainda será desenvolvido. O importante é perceber como grandes
impérios, de certa maneira, influenciaram a própria formação dos povos
árabes. Constantinopla estava posicionada ligando o Oriente ao Ocidente
e ligava comercial e religiosamente esses dois lados, expandindo também a
influência cristã para a Península Arábica.
Essa cidade conciliou muito bem a representação entre o comércio e
a religião. Sua moeda era aceita em vários lugares e o cristianismo exercia
influência para além do Império Romano. É comum encontrarmos análises
que dizem da importância estratégica dessa cidade, e isso denota uma carac-
terística importante a ser por nós aceita: a de que o comércio e a religião
foram pontos basilares na formação dos impérios, e isso como traço também
de construção do Império Árabe-Islâmico no século VII.

A perseguição aos cristãos foi anulada pelo famoso “Édito


de Milão”, promulgado por seu sucessor Constantino, que
reunificou o Império, mas manteve a divisão administrativa
entre Império ocidental e oriental. Seu reinado foi um marco
em vários sentidos. Fundou uma nova capital, Constanti-
nopla, no estreito do Bósforo, que seria a Nova Roma do
Oriente. Com relação aos cristãos, não apenas autorizou o
culto, mas também o apoiou fortemente, doando terras e
riquezas e retirando, dos templos não cristãos, quase toda
subvenção estatal. (GUARINELLO, 2013, p. 165)

38
Quando passamos para uma análise da civilização persa, no século
VI d.C., temos que lembrar da sua importância expansionista e histórica.
É importante ressaltar que quando falamos de grandes impérios estamos
também marcando uma característica histórica: o expansionismo. A luta
entre os impérios Sassânida e Bizantino movimentou e marcou diretamente
os povos árabes, sobretudo porque no centro dessa luta entre os impérios
estava a Península Arábica.
O Império Sassânida é o último do período pré-islâmico. Como Império
Persa, podemos encontrar na história um conflito direto, principalmente no
século VI d.C., pelo comércio e importância estratégica de alguns pontos no
continente, e cabe lembrar das rotas comerciais na Península Arábica. Isso
é tão importante ao ponto de selar e obrigar um certo entendimento dentro
de uma relativa paz entre os impérios em algumas regiões para permitir o
comércio. As “tribos semitas permaneceram, em sua maior parte, fora do
radar geopolítico das duas superpotências que dominavam o Crescente
Fértil” (GUARINELLO, 2013, p. 2), e esse fator permitiu com que produtos e
mercadorias circulassem e que o comércio fosse intensificado, alicerçando o
crescimento de cidades como Meca.

Assimile
O “crescente fértil”, é a região conhecida como “berço da civilização”.
Leva esse nome porque na história das sociedades humanas foi a região
responsável pelo processo de sedentarização dos povos e sociedades
que desenvolveram agricultura ao redor de rios importantes, como o
rio Nilo e Eufrates.
Hoje o crescente fértil está localizado na região da atual Palestina,
Jordânia, Israel, Líbano, Kuwait e Chipre, além de algumas partes do
Egito, da Síria, do Irã e da Turquia. E uma curiosidade sobre a região é o
seu “formato de lua”, que circunda a Península Arábica, ligando o Mar
Vermelho, o Mediterrâneo e o Golfo Pérsico.

39
Figura 1.4 | Crescente Fértil

Fonte: Wikipédia.

A ideologia islâmica e a síntese dos valores tribais: o contexto político-


-social da Península Arábica
No decorrer do século VI do calendário cristão, o conflito entre os dois
grandes impérios dominantes no Oriente Médio leva essas “superpotências”
(GUARINELLO, 2013) ao desgaste de maneira rápida, e com isso aparecem
relações comerciais e ideológicas muito particulares ao universo árabe. Uma
espécie de identidade árabe surge muito alicerçada pela influência que os
Impérios Sassânida e Bizantino, Romano e Persa exercem na península. E,
mais do que isso, essa identidade dos povos nômades da Península Arábica
se constrói na retração desses impérios, ao mesmo tempo que os árabes
dominam o comércio e se posicionam à margem das guerras desses impérios.

A maioria das tribos do interior da península Arábica, cujas


caravanas que saíam de cidadezinhas de oásis chegavam
até a Jordânia ao norte e até o Iêmen ao sul, conseguiu
escapar de ser sugada pelos imensos furacões imperiais
da região até o final do século VI. Seus membros eram

40
espectadores remotos que desempenhavam, na melhor
das hipóteses, papel marginal no Crescente Fértil. (GUARI-
NELLO, 2013, p. 2)

O contexto político-social da Península Arábica será determinado pelo


esgotamento das duas potências imperiais dominantes no Oriente Médio, e
a ideologia dos povos árabes está imediatamente ligada aos elementos que
condicionarão esse esgotamento, como a crise do Império Romano e o modo
de vida das tribos.
O importante é notar como os aspectos militares são desenhados no
interior das tribos árabes, muito delineados pela influência entre os impérios
e que formata valores essenciais nas relações entre as tribos da Arábia.
Prepara, de uma certa maneira, a interpretação e o protagonismo que as
tribos desempenharão nas conquistas islâmicas no século que estaria por vir.

Com o tempo, essas guerras estafantes possibilitariam


a ascendência militar improvável dos seminômades de
um canto da Arábia. Esse povo ocupou com velocidade
incrível um dos lugares de maior destaque da história —
mas só depois de as duas superpotências da Ásia Menor se
exaurirem em destruição prolongada e mútua. No papel de
espectadoras fascinadas do que foi, de fato, a maior rivali-
dade destrutiva da história, as tribos do coração da Arábia
se viram de posse de um dos bilhetes premiados da história
e se tornaram protagonistas, quase automaticamente, de
uma nova rivalidade. (GUARINELLO, 2013, p. 2)

Política e ideologicamente, os povos que viviam na Península Arábica


na primeira metade do século VI d.C. serão importantes protagonistas
no processo de formação do Islamismo. Isso porque as relações de poder
presentes na heterogênea sociedade dos povos que habitavam a Península
Arábica aparecem pela síntese dos valores tribais, conquistados antes mesmo
do aparecimento do profeta Muhammad.
Isso explica as variadas crenças e deuses. O politeísmo árabe no século VI
só será modificado com a projeção e o surgimento do Islã, cuja base sinte-
tiza pela luta os valores que hoje sustentam uma das maiores religiões que
conhecemos.

41
A ideologia do Islã será construída por alguns elementos importantes:
• A síntese dos valores, modo de vida e crença da heterogênea socie-
dade árabe discriminada entre os povos dos oásis, os nômades e
sedentários.
• A existência do conflito e a influência dos grandes impérios que se
situavam no “gargalo” da Península Arábica.
• A posição estratégica da Península Arábica frente aos Grandes
Impérios, na consolidação de rotas de comércio e o trânsito de
mercadorias.
• Uma sociedade tribal e escravista, que dominava como ninguém a
vida no deserto em suas diferentes regiões.

As caravanas de Meca, carregadas de tâmaras, especiarias,


perfumes e escravos saíam do deserto, para o norte e para
o oeste, até a Palestina judaico-cristã e a Síria cristã, ou
para o sul, até o Iêmen, e para o oeste, atravessando o mar
vermelho até a Etiópia cristã. Uma dessas fileiras de camelos
que passou pela cidade de Bostra (Busra), na fronteira da
Síria, por volta de 582, carregava Muhammad ibn ‘Abd
Allah (Maomé), com 11 ou 12 anos, para fora da Arábia pela
primeira vez, junto ao tio que era seu guardião, Abu Talib.
Bostra era uma cidade grande e agitada, localizada na inter-
seção de cinco rotas comerciais. Sua sé episcopal tinha sido
autorizada pela imperatriz Teodora, simpatizante do monofi-
sismo e a imponente capital de Bostra atestava a devoção
próspera da comunidade. (GUARINELLO, 2013, p. 30)

Preâmbulo do Islamismo: diferentes clãs e tribos


No livro Os Árabes na História, Bernard Lewis expõe que um traço
marcante e que prevalece na população árabe no século VI antes do apare-
cimento do Islã é o do tribalismo nômade. Isso marca principalmente as
sociedades que viviam na porção central e Norte da península e tem uma
importância fundamental em todo processo de construção do Islamismo. “A
principal restrição social à anarquia dominante consistia na vingança pelo
sangue” (LEWIS, 1990, p. 36).

42
Exemplificando
Para explicar o que significa a “vingança pelo sangue”, podemos dizer
que consistia na prática que obrigava e impunha à família, clã ou tribo
exigir pela força a vingança de um homem assassinado. Esse funcio-
namento social estava muito baseado em uma normativa própria das
tribos e a sua religião traduzia esse caráter:

A vida da tribo era regulada pelo direito consuetu-


dinário, a Sunna, ou prática dos antepassados, cuja
autoridade advinha da veneração pelo passado, e
encontrava a sua única sanção na opinião pública. O
Majlis tribal era o seu símbolo formal e único instru-
mento. (LEWIS, 1990, p. 36)

A exigência em casos de assassinato estava na mesma moeda: exigia-se


a morte de um dos membros da tribo em que se cometeu o fato. É bom
lembrar que a religião de cada povo estava diretamente ligada a essa
prática, assim como à prática do escravismo.

O modo tribal e escravista das sociedades árabes era diversificado.


Porém, algo mantinha a unidade das diferentes tribos e clãs, seu funciona-
mento e suas relações. Podemos dizer que a religião, ao mesmo tempo em
que traduzia e sintetizava os valores da tribo, ditava o compasso das relações
e das leis daquela sociedade. “A religião dos nómadas era uma forma de
polidemonismo próxima do paganismo dos antigos semitas” (LEWIS, 1990,
p. 36), o que nos coloca diante de um importante elemento em todo processo
de formação do Islã.
Como o politeísmo das tribos árabes estava ligado aos deuses das mais
variadas formas, ligados ao aspecto regional e local de cada tribo, divindades
das árvores, pedras sagradas, fontes etc., havia uma ligação forte com os laços
familiares. Esse elemento foi o que impulsionou a formação do Islamismo,
sobretudo pela síntese de o Islã fundamentar a crença em um Deus único.

As entidades por eles adoradas eram, na origem, os


habitantes e seres tutelares de lugares específicos, que
viviam nas árvores, nas fontes e especialmente nas
pedras sagradas. Havia alguns deuses no sentido real, que
transcendiam na sua autoridade as fronteiras dos cultos
puramente tribais. (LEWIS, 1990, p. 36)

43
Como o comércio entre as rotas que cruzavam a Península Arábica
traziam relações externas e internas, a crença dos mais variados deuses das
tribos nômades e sedentárias da Arábia estava encerrada na Caaba, que ficava
em Meca. Esse dado revela a condição de importância dessa cidade no século
VI e consolida rotas de importante ligação entre os povos árabes.
Na origem das sociedades árabes, o comércio e a religião formaram
valores que identificariam as relações sociais em uma espécie de identi-
dade árabe. Como a Península Arábica estava colocada em uma gigantesca
rota de ligação entre os continentes, o fator inicial foi a expansão comercial
atrelada ao modo de vida das sociedades que ali viviam, suas crenças, hábitos
e relações.

A fé tribal concentrava-se à volta do deus da tribo, geral-


mente simbolizado por urna pedra e, às vezes, por qualquer
outro objeto. Ficava sob a custódia da casa do Sheikh, que
desse modo conquistou um certo prestígio religioso. Deus
e culto constituíam a divisa da identidade tribal e a única
expressão ideológica do sentido de unidade e de coesão da
tribo. A submissão ao culto tribal era expressiva de lealdade
política. A apostasia era equivalente a traição. (LEWIS,
1990, p. 37)

Os diferentes clãs e tribos da península sintetizaram os valores próprios


de uma identidade árabe que marcara já no final do século VI d.C. os
elementos para uma “revolução” monoteísta. Essa reunião de elementos
conduz, mediante as influências também advindas do Cristianismo e do
Judaísmo, uma espécie de pensamento próprio, principalmente das tribos
que dominavam o comércio nos centros como Meca e Medina no século VI:
os coraixitas. “É impossível compreender a fantástica expansão do Islã sem
estudar as condições históricas concretas em que Maomé e seus seguidores
atuaram.” (DEMANT, 2011, p. 23).

Ao contrário de outras importantes religiões, o surgimento


do Islã tem data e local demarcados: começo do Século VII,
na península Árabe. É bem verdade que o lugar já tinha sido
palco, há séculos, da revolução monoteísta – a fé em um
deus único, introduzida pelo judaísmo e pelo cristianismo
– o que talvez tenha facilitado a recepção da nova crença.
(DEMANT, 2011, p. 23)

44
Resumidamente, o modo de vida dos povos árabes construiu uma forte
religião monoteísta, que sintetizava nas relações das tribos árabes seus
elementos essenciais. O profeta do Islamismo e figura central para compre-
ensão dos aspectos religiosos dessa grande matriz cresceu como mercador
de caravanas na península e sintetizava esses valores sociais. O que nos
guia, então, no estudo, é sempre o conjunto das relações que, em síntese,
são sociais, como descreve o sociólogo: “nada há que não possa ser feito de
forma ‘civilizada’ ou ‘incivilizada’. Daí ser sempre difícil sumariar em algumas
palavras tudo o que se pode descrever como civilização.” (ELIAS, 2011, p. 23).

Sem medo de errar

Agora temos os elementos que podem guiar a solução da nossa situa-


ção-problema. O professor que desenvolve pesquisas no tema tem de levar
em conta o caráter histórico e social que fundamentaram o surgimento do
Islã. Para essa solução, o caso hipotético que levantamos coloca você como
professor de uma faculdade que tem como tarefa desenvolver um diálogo
sobre a formação das diferentes religiões.
Você, ao dividir a turma em grupos que desenvolverão seminários, deixa
cada equipe apontar para uma matriz religiosa e, na perspectiva do grupo
que trabalhará com o Islamismo de maneira específica, comentar sobre o
surgimento do Islã.
Ao desenvolver sobre o surgimento da matriz islâmica, a equipe deve
lembrar que os fatores históricos devem vir acompanhados pela compre-
ensão econômica, social e política dos povos árabes, e com isso, orientar aos
demais para refletirem a sociedade na Península Arábica do século VI d.C.
Uma possível argumentação de resposta é a de que o surgimento
do Islamismo não deve ter como único foco o nascimento do profeta
Muhammad. Até mesmo pela síntese e reunião dos valores presentes nos
povos árabes, o Islamismo transcende o nascimento do profeta e ele mesmo
é a representação desses valores da sociedade árabe. Entenda como “síntese”
a junção de um modo de vida tribal-escravista, com uma forte presença e
influência de dois grandes impérios que a história conheceu: os impérios
Bizantino e Sassânida, Romano e Persa respectivamente.
Para compreender o Islamismo é necessário estudar o período pré-islâ-
mico. Isso porque o modo de vida, o comércio e a influência de duas outras
grandes matrizes religiosas advindas de outros territórios por meio das rotas
de comércio que se estabeleceram na Península Arábica a partir do século VI
abriram caminho para uma “revolução” monoteísta.

45
Em síntese, não podemos demarcar um único elemento para resposta
ao surgimento do Islamismo e cabe ao pesquisador questionar de maneira
sócio-histórica a trajetória que possibilitou a construção de um dos maiores
impérios já conhecidos.

Faça valer a pena

1.
Desde a divisão do Império Romano (395), os imperadores
do Ocidente e os do Oriente encontravam dificuldades para
governar, devido, principalmente, à ameaça das invasões
bárbaras. Somente no século V, durante o governo de Justi-
niano (527--565), o Império Bizantino tornou-se bem estrutu-
rado e se expandiu. Nesse período, forças bizantinas realizaram
campanhas com o propósito de reconquistar territórios que já
haviam pertencido ao Império Romano. (COTRIM, 2016, p. 137)

A passagem apresentada é um ensaio didático sobre a importância do


Império Bizantino. Relembrando a influência desse império na formação do
Islã, avalie as afirmativas a seguir sobre o que os árabes representavam para
os bizantinos no século VI.
I. Os árabes eram mais um empecilho ao comércio do que uma preocu-
pação militar, mas suas depredações eram cada vez mais ousadas.
II. Ataques de beduínos à Síria eram frequentes e esperava-se de Justino
(o imperador) que desse continuidade à política de pagar a quantia
de extorsão para mantê-los afastados das rotas comerciais e das
comunidades de fronteira do império.
III. Os árabes começaram a expansão islâmica pelo Império Bizantino
no século V e conduziram o grande confronto entre os impérios com
a primeira cruzada, no ano 500 d.C.
Considerando o contexto apresentado, é correto o que se afirma em:
a. I e II, apenas.
b. II e III, apenas.
c. I e III, apenas.
d. III, apenas.
e. I, II e III.

46
2. Pensando nas influências externas na Península Arábica do século VI
d. C., percebemos dois grandes impérios: Bizantino e Sassânida. Sobre essa
influência e levando em conta que essas duas “superpotências” eram confli-
tantes em seus interesses, julgue as afirmativas a seguir como (V) Verdadeiras
ou (F) Falsas.
( ) Com o tempo, as guerras estafantes entre os Impérios Romano e Persa
possibilitariam a ascendência militar improvável dos seminômades de um
canto da Arábia. Esse povo ocupou com velocidade incrível um dos lugares
de maior destaque da história — mas só depois de as duas superpotências da
Ásia Menor se exaurirem em destruição prolongada e mútua.
( ) A criação do Islamismo aparece no meio do conflito e da guerra entre os
Impérios Bizantino e Sassânida. Os povos que habitavam a Península Arábica
no século VI d. C. lutaram ao lado dos persas pela conquista de Constanti-
nopla, lugar de nascimento do profeta Muhammad.
( ) A maioria das tribos do interior da Península Arábica, cujas caravanas
que saíam de cidadezinhas de oásis chegavam até a Jordânia ao norte e até
o Iêmen ao sul, conseguiu escapar de ser sugada pelos imensos furacões
imperiais da região até o final do século VI. Seus membros eram espectadores
remotos que desempenhavam, na melhor das hipóteses, papel marginal no
Crescente Fértil.
Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta.
a. V – V – V.
b. V – F – V.
c. V – F – F.
d. F – F – V.
e. F – F – F.

3.
Desde muito cedo que a Arábia constituiu uma rota de
tráfego entre os países do Mediterrâneo e o Extremo
Oriente, e a sua história foi determinada, em larga medida,
pelas vicissitudes do tráfico Leste-Oeste. As comunicações
tanto no interior como através da Arábia foram condicio-
nadas pela configuração geográfica da península, segundo
linhas precisas. (LEWIS, 1990, p. 28)

47
Um traço marcante e que prevalece na população árabe do século VI antes
do aparecimento do Islã é o do tribalismo nômade. Tendo o texto-base como
referência e refletindo sobre as características dos povos árabes, analise as
afirmativas a seguir:
I. A fé tribal concentrava-se à volta do deus da tribo, geralmente
simbolizado por urna pedra e, às vezes, por qualquer outro objeto.
Ficava sob a custódia da casa do Sheikh, que desse modo conquistou
um certo prestígio religioso.
II. Deus e culto constituíam a divisa da identidade tribal e a única
expressão ideológica do sentido de unidade e de coesão da tribo.
A submissão ao culto tribal era expressiva de lealdade política. A
apostasia era equivalente à traição.
III. As entidades adoradas pelas tribos eram, na origem, os habitantes
e seres tutelares de lugares específicos, que viviam nas árvores, nas
fontes e especialmente nas pedras sagradas. Havia alguns deuses no
sentido real, que transcendiam na sua autoridade as fronteiras dos
cultos puramente tribais.
Considerando o contexto apresentado, é correto o que se afirma em:
a. I e II, apenas.
b. I e III, apenas.
c. II e III, apenas.
d. III, apenas.
e. I, II e III.

48
Referências

ARMSTRONG, K. Maomé: uma biografia do profeta. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

AZEVEDO, G. C. História em movimento. São Paulo: Ática, 2013.

COTRIM, G. História global. São Paulo: Saraiva, 2016.

DEMANT, P. O mundo muçulmano. São Paulo: Editora Contexto, 2011.

ELIAS, N. O processo civilizador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2011.

GORENDER, J. O escravismo colonial. 6. ed. São Paulo: Perseu Abramo, 2011.

GORENDER, J. O escravismo colonial. São Paulo: Ática, 1978.

GUARINELLO, N. L. História Antiga. São Paulo: Editora Contexto, 2013.

HOURANI, A. Uma história dos povos árabes. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.

LANNES, S. B. A formação do império Árabe Islâmico: história e interpretações. Tese (douto-


rado) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Economia. Rio de Janeiro, 2013.

LEME, E. C. S. História e historiografia medieval oriental. Curitiba: Intersaberes, 2019.

LEWIS, B. O oriente médio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2012.

LEWIS, B. Os árabes na história. Lisboa: Estampa, 1990.

MARCONI, M. A. Antropologia: Uma introdução. São Paulo: Atlas, 2019.

MARX, K. Contribuição à crítica da economia política. São Paulo: Expressão Popular, 2008.

ROSSI, L. A. S. Modo de produção escravista e a sua influência na percepção da sociedade


judaica no pós-exílio. In: Mirabilia, Campinas, n. 4, jun./dez. 2005, p. 27-36.

VICENTINO, C. Olhares da história: Brasil e mundo. São Paulo: Editora Scipione, 2016.

WEBER, M. Sociologia das Religiões. São Paulo: Cone Editora, 2010


Unidade 2
Patrícia Graziela Gonçalves

Muhammad: a vida e a revelação

Convite ao estudo
Prezado aluno, você já conhece as características da Península Arábica,
da sociedade e de seus povos nômades antes do nascimento de Muhammad,
no período que ficou conhecido como Jahiliyyah. Sabe que Meca tinha
uma importância econômica relevante na região devido ao comércio e que
também era ponto de peregrinações religiosas em razão da Caaba e da Pedra
Negra.
Nessa unidade, buscaremos conhecer aspectos relacionados com a vida
Muhammad (Maomé) e a revelação, a formação da religião islâmica e do Islã,
bem como a expansão do Islamismo para além da Península Arábica.
Para tanto, o estudo será divido em três seções. Na Seção 2.1, estuda-
remos as origens do Islamismo por meio da história do Profeta Muhammad,
que teria recebido a revelação do anjo Gabriel no Monte Hira, em Meca e
que, a partir de então, passou a pregar a crença em Alá (Deus), contribuindo
para uma grande transformação política, econômica e religiosa na região.
Na Seção 2.2, o enfoque será dado no Islamismo no contexto pós-morte
de Muhammad, em 632, quando os califas ocuparam seu lugar na liderança
dos muçulmanos. Além disso, analisaremos a expansão do Islamismo para
além da Península Arábica.
Na Seção 2.3, estudaremos as Cruzadas e Califados, bem como o sucesso
e a legitimação das conquistas islâmicas e a consolidação do Império Árabe-
Islâmico. Além disso, especial atenção será dada ao conceito de Jihad, que
pode ter um duplo sentido e que pode ser utilizado pelos extremistas para
provocar a violência e a guerra.
Aproveite e bons estudos!
Seção 1

O profeta e as origens islâmicas

Diálogo aberto
Prezado aluno, vivermos em um país em que a maioria é cristã e, por isso,
nem todos conhecem o Islamismo em profundidade. Por isso, convido você
a descobrir as origens dessa religião e a se despir de alguns preconceitos para
poder entender melhor as suas propostas.
Nas últimas décadas, o mundo islâmico tem ganhado projeção em vários
países ocidentais, devido a ataques terroristas que são noticiados pela mídia.
Com isso, o preconceito e a discriminação contra pessoas da religião islâmica
vêm aumentando, e a imagem que os ocidentais têm dos povos que habitam
o Oriente Médio e dos muçulmanos em geral é de pessoas que cultuam
uma religião que prega que aqueles que não professam a fé islâmica devem
ser destruídos.
Agora coloque-se na seguinte situação: você é líder de uma igreja cristã,
e no mesmo bairro onde fica a sua Igreja também há uma mesquita islâmica.
Em uma tarde, você recebe a visita do Sheik Omar, líder da mesquita, que
convida você e os demais membros da sua igreja para participar de uma festa
que acontecerá na mesquita. Em uma reunião com os membros de sua igreja,
você apresenta o convite feito pelo líder da Mesquita e recebe as seguintes
reações: “Eles são seguidores de Maomé, que é um anticristo! Os muçul-
manos são todos terroristas! Eles acreditam em outro Deus!”
Diante da situação apresentada, como você pode agir perante os
membros de sua igreja para convencê-los a ir à festa na mesquita islâmica?
Como devemos agir em relação às diferenças religiosas? Como acabar com o
preconceito e a discriminação em relação aos muçulmanos?

Não pode faltar

A vida de Muhammad
A vida de Abū al-Qāsim Muḥammad ibn ʿAbd Allāh ibn ʿAbd al-Muṭṭalib
ibn Hāshim – conhecido entre nós como Maomé, mas que chamamos aqui
de Muḥammad – foi objeto de uma série de obras, tanto de louvor como
de críticas violentas ou parciais. No estudo de sua genealogia e juventude,
acabamos por recorrer à tradição justamente pela falta de dados histó-
ricos comprováveis. O estudo das fontes sobre a vida de Muhammad pode

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apoiar-se nas Ahadith, narrativas que se tornaram a tradição muçulmana e
que foram compiladas e revistas entre os séculos VIII e IX do calendário
cristão (MANTRAN, 1977).

Assimile
Hadith significa notícia, informação ou narração. Em termos técnicos,
faz referência a uma narrativa curta ou anedota sobre o profeta, regis-
trando tanto as suas palavras quanto o seu comportamento, obser-
vados por seus companheiros. Logo, um Hadith transmite dados da
Sunnah, pois é o registro do comportamento e das palavras do profeta,
por isso o termo também pode ser traduzido como tradição e talvez daí
haja confusão entre Hadith e Sunnah. No entanto, o Hadith é o registro
por escrito da Sunnah, ou seja, é o seu registro documentado. Sendo um
relato, um Hadith pode ser dividido em duas partes: a primeira é a Isnad
ou cadeia de transmissores, ou seja, é a citação da cadeia de sábios e
transmissores daquele relato, do mais recente até chegar ao profeta
Muhammad, e é considerada pelo Islã como moralmente íntegra; a
segunda parte do Hadith é a Sunnah propriamente dita, documentada.
Nos primeiros tempos do Islã, as primeiras compilações de Ahadith
(plural de Hadith) eram numerosas e foram organizadas segundo o
nome dos transmissores da Isnad; com o passar do tempo, a forma de
organização se modificou e passou a ser dividida por capítulos. Com
essa segunda organização dos Ahadith em temas e capítulos, foram
feitas seis coleções ou compilações por autores persas, que são consi-
deradas moralmente íntegras e autênticas, com grande popularidade
no mundo islâmico (SALGADO, 2013).

De acordo com essa tradição, Muhammad fazia parte da família dos banu
hashim, da tribo dos coraixitas. Nasceu em Meca, na Península Arábica,
provavelmente no ano de 569. Era neto de Abd al-Mottalib, um comerciante
e guardião da fonte de Zemzém – poço localizado em Meca e considerado
sagrado – e que, por herança, tinha um dos cargos principais da peregrinação
à Meca ou distribuição de água aos peregrinos. Abdallah era um dos treze
filhos de Abd al-Mottalib e se casou Amina bint Wahb, com quem teve um
único filho: Muhammad (MANTRAN, 1977).
A data de nascimento de Muhammad ainda suscita alguns debates.
Isso porque a cronologia da sua vida tem como base a data de sua morte:
“segunda feira, 13 rabi, dia primeiro do ano 11 da hégira, correspondente

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a 8 de junho de 632” (MANTRAN, 1977, p. 58). De acordo com as antigas
fontes do Islã, Muhammad teve a revelação aos 40 anos, e depois disso
viveu dez anos em Medina e treze em Meca. Nesse sentido, Muhammad
teria nascido no ano de 569. Entretanto, os pesquisadores situam a data de
seu nascimento no ano da expedição de Abraha – general do exército do
império africano de Axum – contra Meca, ou seja, em 570, no mais tardar
em 571 (MANTRAN, 1977).
Existem muitas lendas sobre a infância e adolescência de Muhammad,
mas alguns fatos podem ser considerados autênticos. Muhammad perdeu
o pai antes mesmo de ter nascido, e a mãe, quando tinha sete anos. A partir
de então passou a ser educado por seu avô, Abd ali-Mottalib, até a morte
dele, pouco tempo depois. Na sequência, foi criado por seu tio Abud Talib,
como a um de seus filhos (dentre os quais Ali, que viria a ser também seu
genro). Na juventude teria feito algumas viagens à Síria, acompanhando
seu tio. Em uma dessas viagens, teria havido o seu encontro com o monge
Bahira – eremita na região de Bosra, ao sul da Síria – que teria identificado
as características ocultas que indicavam o alto destino dele (MANTRAN,
1977).
Quando adulto, já com cerca de 20 anos, Muhammad foi escolhido
por Khadijah, uma viúva rica de Meca, como homem de sua confiança
para acompanhar caravanas à Síria – um país cristão e mais desenvolvido
do que a Arábia naquele contexto. Vale mencionar que no contato com a
Síria, os árabes acabaram por tomar de empréstimo o alfabeto dos cristãos,
ainda que a escrita estivesse restrita exclusivamente às transações comer-
ciais. Isso porque, naquele contexto, “não havia livros escritos em Árabe. As
tradições religiosas eram transmitidas de forma oral e os cristãos e judeus
eram conhecidos como ‘povo do livro’, posto que possuíam as Escrituras”
(RICHARDSON, 2015, p. 11).
Muhammad auferiu bons lucros para Khadijah e, cinco anos mais tarde,
ela o pediu em casamento, o que foi aceito. Juntos, tiveram quatro filhas e
dois filhos. Interessante observar como a tradição atribuiu uma imagem
enaltecedora à Khadijah: esposa dedicada e primeira adepta do Profeta que,
enquanto ela viveu, não teve outra esposa. Khadijah é considerada uma das
“quatro mulheres perfeitas da humanidade, ao lado de Maria, mãe de Jesus,
da esposa de Faraó e da irmã de Moisés.” (MANTRAN, 1977, p. 59).

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Figura 2.1 | Khadijah e Muhammad realizando o primeiro ritual de purificação

Fonte: Wikimedia Commons.

A revelação e o início da pregação


Até a revelação, Muhammad tratou de assuntos comerciais e provavel-
mente fez algumas viagens. Apesar do êxito material e familiar, parece que
continuava insatisfeito. Nesse sentido, dedicou-se a retiros piedosos e a
meditações, sentindo que tinha uma missão profética. Segundo a tradição,
quando tinha cerca de 40 anos, no mês do ramadã, em um retiro espiri-
tual em uma caverna do monte Hira no vale de Meca – prática comum na
Península Arábica –, Muhammad teve uma revelação do anjo Gabriel, que
lhe pediu para recitar um texto – dizer em voz alta, declamar. Muhammad
alegou que não sabia recitar, mas o anjo o abraçou fortemente e as palavras
começaram a sair de sua boca. Essa recitação de Muhammad está na Sura 96
do Alcorão (ARMSTRONG, 2002; MANTRAN, 1977).

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Figura 2.2 | Gravura otomana de 1307 retratando o momento da revelação pelo anjo Gabriel do
Alcorão ao profeta Muhammad

Fonte: Wikimedia Commons.

A visão do anjo Gabriel foi confiada por Muhammad a sua esposa,


Khadijah, que apoiou o marido desde o primeiro momento, acreditando na
missão que ele dizia ter. Inclusive, no período em que Muhammad deixou de
ouvir a voz do anjo, três anos, ela esteve ao seu lado. Nesse período, a missão
de Muhammad foi revelada apenas a pessoas íntimas: sua esposa, seu primo
Ali, seu escravo Zayd, seu futuro sogro Abu Bakr e seu genro Otman. Então,
em 613, a revelação do anjo Gabriel foi comunicada a seus concidadãos, os
coraixitas (MANTRAN, 1977).
A tribo dos coraixitas, à qual Muhammad pertencia, era responsável
pelo sucesso comercial de Meca e tinha orgulho da Caaba, sendo que muitos
acreditavam que era ali o templo de al-Llah, o Deus Supremo dos árabes.
Inclusive, alguns árabes acreditavam que al-Llah era o mesmo Deus dos
judeus e cristãos. Mas se ressentiam de não terem um livro sagrado tal como
aqueles e acreditavam que jamais teriam uma escritura própria. Ademais, os
árabes que mantinham contatos comerciais com os judeus e cristãos tinham
certo sentimento de inferioridade: “era como se Deus os houvesse excluído
de seu plano divino” (ARMSTRONG, 2002, p. 28).
Os primeiros temas da pregação de Muhammad estavam relacionados
com a bondade e o poder de Deus, o criador do homem, a fonte de toda
vida. Aproveitando-se da crença (ainda que vaga) de seus ouvintes em Deus,
Muhammad procurou torná-la mais concreta. Fazia alusão ao juízo final:
o julgamento que resultaria em uma recompensa ou em uma punição. Os

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homens deveriam ser gratos a Deus e adorá-lo. Aquele que não era grato
era comparado ao descrente, tal como o rico orgulhoso seria condenado.
“Portanto, o indivíduo deve purificar-se, praticar atos de generosidade e ser
submisso a Deus.” (MANTRAN, 1977, p. 60).
Essa mensagem de Muhammad foi rejeitada, de início, pela maioria
dos coraixitas. Isso porque nas décadas anteriores o abismo entre os ricos
e os pobres fora acentuado e prevalecia a ideia de que apenas os ricos e
influentes é que tinham importância na sociedade. Mas a revelação pregada
por Muhammad procurava remediar tal situação, construindo novas bases
de solidariedade social ao acentuar o dever de solidariedade e de auxílio
material aos pobres, enfatizando o julgamento no juízo final. A antiga noção
de tazakki (retidão) foi substituída pela de islam (submissão total a Deus)
(MANTRAN, 1977).
Pois bem, a pregação de Muhammad encontrava contradições com o
individualismo que crescia em Meca e com a importância atribuída à riqueza
material em detrimento da honra. Ao contrariar essa primazia, a pregação
de Muhammad tornava os coraixitas pecadores que, inclusive, negavam a
dependência de Deus. Nesse sentido, é inegável o contraste entre a pregação
de Muhammad e os antigos modos árabes de pensar – não à toa ele sofreu
com violenta oposição em Meca (MANTRAN, 1977).

Assimile
Os primeiros convertidos ao Islamismo fora do círculo de Muhammad
foram angariados entre os jovens das famílias e dos clãs de maior
influência em Meca; em seguida, entre os membros dos clãs de menor
importância, muitas vezes jovens; depois, entre indivíduos não perten-
centes aos clãs coraixitas, mas a eles filiados como confederados; final-
mente, entre escravos. Em sua maioria, esses convertidos não tinham
40 anos de idade e pertenciam à classe média; a maior parte foi atraída
pelo conteúdo religioso da mensagem e não por seus aspectos políticos
ou econômicos, pois é esse conteúdo mais importante nas primeiras
revelações (MANTRAN, 1977).

De Meca para Medina: a Hégira


Em um primeiro momento, os coraixitas eram indulgentes e céticos
em relação à pregação de Muhammad, acolhendo-a, portanto, com as
suas ressalvas. Alguns coraixitas fizeram propostas de conciliação com
Muhammad, no sentido de manter as suas atividades, mas elas foram rejei-
tadas pelo Profeta, que entendia que a aceitação comprometeria a missão
recebida de Deus. Além disso, Muhammad passou a condenar os ídolos e

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idolatrias – divindades outras que eram contrárias ao monoteísmo pregado
– e isso atrai a vingança dos habitantes de Meca que tinham a situação econô-
mica que ele atacava. Isso porque a religião politeísta tradicional rendia
receitas financeiras devido às peregrinações. Ademais, os coraixitas não
aceitavam que a revelação tivesse sido feita a um homem que não pertencia a
uma família dominante de Meca (MANTRAN, 1977).

Exemplificando
Para a tradição árabe, Meca era uma cidade sagrada que foi fundada por
Ismael e sua mãe Hagar, deixados por Abraão nesse local no deserto.
Era um centro econômico e religioso, um local de comércio intenso e
de grande peregrinação, que recebia a visita de tribos de várias regiões
da Arábia. Assim como Meca se tornou um centro religioso e comercial
durante o período que denominamos de Idade Média (séculos V a XV),
hoje temos também alguns locais que se tornaram grandes centros de
peregrinações, como temos a cidade de Aparecida, no Estado de São
Paulo, onde está localizado um santuário que recebe a visita de milhões
de devotos de Nossa Senhora de Aparecida todos os anos. Temos
também a Marcha para Jesus, que é um evento internacional que ocorre
anualmente em diversas cidades espalhadas pelo mundo, com a parti-
cipação de milhares de pessoas de várias denominações evangélicas.

A oposição dos coraixitas a Muhammad veio em primeiro lugar, com a


alegação de que ele tinha interesses particulares e vontade de poder. Depois
Muhammad passou a sofrer com sarcasmos e injúrias, que se estendiam a
seus seguidores não apadrinhados. Muhammad foi protegido pelo seu clã
– banu hashim – de quem seu tio, Abud Talib, era líder – apesar de sua não
aderência ao Islã. Por volta de 615, essas perseguições aumentaram e alguns
convertidos chegaram a renegar o Profeta. Inclusive, Muhammad aconse-
lhou os menos fortes a se refugiarem na Abissínia (MANTRAN, 1977).
Com a adesão de Omar ibn al-Khattab (futuro califa), importante perso-
nalidade, o Islã ganhou novo impulso. Nesse meio tempo, a revelação a
Muhammad continuava. Com as práticas dos novos fiéis, eles se distinguiam
dos demais habitantes de Meca, ainda que não organizados em uma comuni-
dade autêntica, apesar da denominação de mumim (fiel) e talvez muslim
(submisso). No entanto, em 619, Muhammad perdeu a esposa, Khadijah, e
seu tio, Abud Talib. O sucessor de seu tio na liderança do clã banu hashim foi
Abu Lahab, um adversário de Muhammad. Nesse momento, as perseguições
aumentaram o número de fiéis parou de crescer (MANTRAN, 1977).

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Diante dessa perseguição, em 622 Muhammad se refugia em Yatreb –
cidade localizada a oeste do que hoje é a Arábia Saudita –, que recebeu depois
o nome de Medina (Cidade do Profeta), onde conseguiu reunir vários segui-
dores e se tornou o seu reduto principal. Vale mencionar que durante as suas
pregações em Meca, Muhammad havia conseguido a conversão de alguns
árabes de Medina, peregrinos, que os convidaram para emigrar para aquela
cidade no sentido de pacificá-la, porque em Medina havia três tribos judias
e duas árabes. As primeiras eram mais ricas; as segundas brigavam entre si e
com as primeiras (RICHARDSON, 2015).
A migração de Muhammad de Meca para Medina é conhecida como
Hégira. Esse foi um fato fundamental para o Islã, uma vez que a hégira marcou
o nascimento da primeira comunidade de crentes (Ummah Islamiyya) que
Muhammad formou em Medina. Foi por esse motivo que o califa Omar
(586-644) escolheu esta data como início do calendário muçulmano. Devido
à contagem feita em função do mês lunar, é difícil calcular manualmente uma
correspondência direta com o calendário gregoriano utilizado pela igreja
cristã no Ocidente (MORAES, 2019).
Em Medina muitas pessoas se converteram ao Islamismo, tornando
Muhammad uma grande liderança religiosa e política. Naquela cidade,
Muhammad instituiu o primeiro local de oração próprio da comunidade: o
masjid (mesquita). Com as forças necessárias, em 630 Muhammad articulou
a conquista de Meca e destruição de vários ídolos do templo, mantendo a
Caaba e a Pedra Negra. A partir daí houve a unificação de vários povos em
torno de uma identidade religiosa, formando uma nova organização política
social de governo teocrático, o que contribuiu para a expansão do islamismo
por toda a Península Arábica (ARMSTRONG, 2002).
No ano de 632, Muhammad encontrava-se doente. Após o retorno
a Medina, depois de uma peregrinação com cerca de 90 mil fiéis a Meca,
Muhammad viu seu quadro de saúde se deteriorar e ficou de cama na casa
de uma de suas esposas, Aysha, morrendo em seus braços. Com a sua morte,
a comunidade por ele criada ficou ameaça de dissolução. Mas Abu Bakr, um
dos primeiros companheiros de Muhammad, conseguiu um acordo com os
grupos que tentavam se dispersar. A partir de então, uma grande disputa
sucessória teve início (MANTRAN, 1977).
Uma sociedade oral e o Alcorão
De acordo com a tradição, Muhammad recebeu o Alcorão pelo anjo
Gabriel e o transmitia aos seus seguidores, que o decoravam e o transmitiam
a outras pessoas oralmente. Interessante ressaltar que a maioria desses árabes
eram analfabetos e, portanto, não tinham condições de escrever a revelação.

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A palavra Alcorão – do árabe Qoran, que significa recitação – designa a
revelação de Deus a Muhammad e pode ser utilizada tanto para se referir
à totalidade do Alcorão quanto a uma parte dele, sendo que até mesmo um
versículo pode ser assim denominado (NASR, 1972).
Nos dias atuais, o Alcorão constitui um único volume com cerca de 114
suras, ou seja, capítulos, que não apresentam a mesma extensão. Desse total,
92 foram revelados em Meca e os outros 22 em Medina. Portanto, a revelação
do Alcorão a Muhammad teve início em 610, perdurando por cerca de 23
anos até a morte do profeta. Foram 13 anos de revelação em Meca e 10 anos
em Medina (NASR, 1972).
A constituição do Alcorão, tal como se apresenta atualmente, passou
por um processo histórico. Na época de Muhammad, o Alcorão

[…] era recitado por ele, apreendido por seus ouvintes


e divulgado entre os que não o ouviam diretamente. Ao
mesmo tempo em que era memorizado, era transcrito em
qualquer objeto a seu alcance: papel, ramos de palmeira,
pergaminho, pedras planas, ossos do ombro de animais etc.
(NASR, 1972, p. 28).

Foram 29 as pessoas que colaboraram na sua escrita, dentre os quais


encontram-se os cinco primeiros califas: Abu Bakr, Omar, Osman, Ali e
Muâ-wia. Ademais, aqueles que sabiam escrever reproduziam o seu texto
para uso particular.
A forma assumida – coleção homogênea, classificada e numerada – não
era visada em princípio. As suras só receberam a estrutura definitiva depois
da morte de Muhammad. Além disso, a ordem das suras no Alcorão não
obedece a um critério cronológico de revelação. Os grupos de textos desen-
volveram-se isoladamente e, pouco a pouco, foram se constituindo em
unidades independentes a partir da adição de outros versículos a partir da
orientação anterior do Profeta. Desse modo, somente com a adição de todos
os versículos nos seus devidos lugares é que o Alcorão pode ser considerado
pronto (NASR, 1972).
A reunião das suras e de seus versículos teve início no ano seguinte ao
da morte de Muhammad (em 632). A ideia dessa reunião – com o intuito
de facilitar o manuseio e a consulta – foi de Omar, que fez a sugestão ao
primeiro califa, Abu Bakr. Omar temia que os chamados “portadores do
Alcorão” – companheiros de Muhammad que eram especialistas na leitura

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do livro e tinham memorizado cada sura em sua forma indicada, provisória
ou definitiva – morressem em eventuais guerras (NASR, 1972).
Mas foi no califado de Otman (644 – 656) que o texto do Alcorão foi
definitivamente estabelecido – em 653, aproximadamente. As suras foram
organizadas de acordo com a sua extensão: as mais extensas, compostas de
versículos de diferentes períodos são colocadas primeiramente; as mais curtas
e mais antigas foram colocadas na sequência (MANTRAN, 1977).
A não adoração da imagem de Muhammad
Segundo o costume dos muçulmanos, Muhammad não pode ser retratado
de forma alguma, para evitar a adoração, o que inclui pinturas, esculturas ou
qualquer outra representação tridimensional. Eles defendem que as imagens
podem incentivar a adoração de ídolos e se baseiam no Alcorão. Embora no
Alcorão não apareça explicitamente que não devemos mostrar imagens de
Muhammad, essa proibição aparece nas Ahadith (MCMANUS, 2015).

Alcorão, Sura 21 – “Os profetas”:


51. E, com efeito, concedêramos, antes, a Abrão sua retidão
– e éramos, dele, Onisciente –
52. Quando disse a seu pai e a seu povo: “Que são estes
ídolos, que estais cultuado?”
53. Disseram: “Encontramos nossos pais adorando-os.”
54. Ele disse: “Com efeito, vós e vossos pais tendes estado
em evidente descaminho.” (NASR, 2015, p. 522)

Episódios ocorridos em vários países demonstram a não aceitação dos


muçulmanos à exposição da imagem do Profeta Muhammad. Por exemplo:
em 2015, o periódico francês Charlie Hebdo foi atacado por extremistas
islâmicos, que assassinaram doze pessoas, após a publicação da edição de
2011, apelidada de Charia Hebdo, que mostrava uma caricatura do profeta
Muhammad. Eles afirmaram que estavam se vingando pelo profeta. Nesse
mesmo ano, um dos museus mais visitados de Londres retirou a obra de um
artista iraniano que retratava a imagem de Muhammad (MCMANUS, 2015).
Mas sempre foi assim? Parece que não. Durante os impérios Mongol
(séculos XIII e XIV) e Otomano (séculos XIII a XVIII), alguns artistas
muçulmanos fizeram representações de Muhammad, e em algumas delas,
produzidas a partir do século XVI, o rosto do Profeta aparece escondido
por tecidos. Tais imagens podem ter sido feitas por inspiração na devoção
desses artistas. No século XIII, essas imagens eram feitas para uso privado,
procurando evitar a idolatria, e ficavam em bibliotecas de pessoas mais ricas
(IMBERT, 2015; MCMANUS, 2015).

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Figura 2.3 | Muhammad nos braços da mãe, ambos com o rosto velado

Fonte: Wikimedia Commons.

Figura 2.4 | O Profeta orando na Caaba, com o rosto velado

Fonte: Wikimedia Commons.

As imagens parecem ter sido toleradas em séculos mais remotos do


Islamismo. Mas elas não poderiam estar presentes nas mesquitas, ou seja,
somente dentro de suas casas os muçulmanos poderiam tê-las ou pendu-
rá-las em locais não sagrados (IMBERT, 2015). Inclusive, hoje em dia
algumas imagens ainda existem em casas iranianas de muçulmanos xiitas,
por exemplo. Mas em relação às representações tridimensionais, a proibição
sempre foi clara (MCMANUS, 2015).

62
Reflita
Será que a não adoração da imagem de Mohammad e a condenação
da idolatria pelos seus seguidores influenciou o Império Bizantino na
questão iconoclasta? Pois bem, sabemos que durante o século VIII, a
questão iconoclasta se tornou central entre os bizantinos, que diver-
giam quanto à possibilidade de representar o sagrado em imagens.
Enquanto no Ocidente existia a possibilidade de representação do
sagrado por meio das imagens, mesmo que não adquirissem a sacrali-
dade, no Oriente surgiram dois grupos: os quebradores de imagens e os
adoradores de imagens. Em 726, o imperador Leão III mandou destruir
todas as imagens que fossem idolatradas, perseguindo os defensores
dos ícones, como os monges. Somente no reinado de Irene (780-790)
esse quadro foi revertido. No Segundo Concílio de Niceia (787) foi resta-
belecido o culto aos ícones. Porém, a querela foi cessada somente no
dia 11 de março de 843 (LOYN, 1997; RUNCIMAN, 1961).

Sem medo de errar

Prezado aluno, na situação-problema que abre essa seção, você é líder


de uma igreja cristã e é convidado, junto com os demais membros da sua
igreja, para uma festa na mesquita que fica no mesmo bairro da sua igreja.
Em uma reunião com os membros de sua igreja, você apresenta o convite
feito pelo líder da mesquita, e recebe as seguintes reações: “Eles são segui-
dores de Maomé, que é um anticristo! Os muçulmanos são todos terroristas!
Eles acreditam em outro Deus!”
Para contornar essas percepções equivocadas dos membros da sua igreja,
apresente a eles alguns dados históricos com o intuito de que compreendam
melhor o “outro” e percebam que essa visão sobre o Islã pode estar equivo-
cada. Com isso, os preconceitos podem ser quebrados e eles passarão a
aceitar e respeitar os islâmicos.
A cultura árabe-islâmica contribuiu para o desenvolvimento de vários
países ocidentais, porém a forma como julgamos essa religião e seus segui-
dores, principalmente em um país de cultura ocidental e de religião predomi-
nantemente cristã, faz com que o islamismo e os muçulmanos sejam tratados
com preconceito e discriminação, muitas vezes vistos como extremistas e
terroristas. Para refletirmos sobre essa situação-problema, apresentamos
as origens do islamismo e de seu fundador para ajudar a desmistificar o
islamismo e seus discípulos.

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Esse resgate histórico que procuramos fazer foi imprescindível para
conhecer e desmistificar a visão do profeta Muhammad (570-632) e a
expansão do islã pelo mundo. Na cidade de Meca, onde predominava a
crença em vários deuses, o surgimento do Islamismo ocorreu por volta de
613, quando Muhammad recebeu a revelação do anjo Gabriel e passou a
difundir suas ideias religiosas. A partir daí, sofreu uma perseguição por ir
contra o politeísmo e teve que mudar-se para Yatreb, que depois se tornou
a cidade de Medina. Esse evento ficou conhecido como Hégira, e designa
o princípio do calendário muçulmano. Após o falecimento de Muhammad,
o Islamismo continuou a avançar por outros territórios, expandindo-se por
várias regiões do mundo e formando um grande império.
Os preconceitos e as discriminações são frutos do não conhecimento sobre
determinado assunto, daí a importância de sempre buscar informações, conhecer
e compreender de forma crítica aquilo que estamos julgando. Percebemos o
crescimento das diversas formas de violência, inclusive por motivações religiosas,
que ocorrem em nossa sociedade. Todos têm o direito de professar aquilo que
acredita, e todos nós devemos respeitar as crenças dos outros.

Faça valer a pena

1.
Inicialmente, Maomé não pretendia fundar uma religião.
Queria simplesmente “despertar” os seus concidadãos,
convencê-los a venerar apenas a Alá, pois eles já o reconhe-
ciam como criador do céu e da Terra, e responsável pela
fertilidade; evocavam-no por ocasião de crises e de grandes
perigos e juravam “por Deus em seus votos mais solenes”.
Alá era, de resto, o senhor da ka´ba (Caaba). Numa das
mais antigas suras, Maomé pede aos membros de sua
própria tribo, os Coraixitas, que “adorem o senhor desta
Casa; ele os alimentou nos dias de fome e libertou-os do
medo”. Contudo, a oposição não demorou a manifestar-se.
(ELIADE, 1984, tomo 3, p. 89)

Com relação ao islamismo, julgue as afirmativas a seguir em (V) Verdadeiras


ou (F) Falsas.
( ) Declamação da religião islâmica, “Só Alá é Deus e Muhammad é o seu profeta”.
( ) É religião politeísta mais antiga do mundo. Surgiu no século VII a.C.,
quando Deus ordenou que Abraão conquistasse a terra prometida.

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( ) Tem como orientação as doutrinas deixadas pelas mensagens de
Siddhartha Gautama, sábio do clã dos Sakya, que existiu no século V a.C.
na Índia.
Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta.
a. V – F – V.
b. V – F – F.
c. V – V – F.
d. F – F – F.
e. F – V – F.

2. Entre os muçulmanos, a hégira marca o começo da expansão do Islã. Foi


a partir da hégira que se iniciou o calendário islâmico. Com isso, o ano 622
da era cristã representa o primeiro ano para os muçulmanos.
A hégira, um dos acontecimentos mais relevantes para os muçulmanos e que
indica o princípio do calendário islâmico, corresponde:
a. Ao grande incêndio da Caaba, em Meca, no ano 615.
b. À revelação de Muhammad, que lhe foi transmitida pelo anjo Gabriel.
c. À migração de Muhammad e seus seguidores de Meca para Medina.
d. À entrada triunfal de Muhammad em Meca em 630.
e. Ao casamento de Muhammad com uma rica viúva, dona de camelos.

3. O Islamismo é uma das religiões mais populares do mundo. É praticado na


África e Ásia, e vem crescendo na América do Norte e na Europa. Atualmente
é considerado a segunda maior religião do mundo, com aproximadamente
dois bilhões de seguidores que estão espalhados pelos cinco continentes.
O Islã, formado pelo Profeta Muhammad, tem como fundamento:
a. A crença em um único Deus, sobre a qual Muhammad sofreu a influ-
ência dos cristãos e judeus.
b. A adoração aos santos, imagens e ídolos.
c. O politeísmo, que seria a fé em vários deuses.
d. A aceitação das vontades de Alá e a negação de uma vida pós-morte.
e. A opinião de que o islamismo é uma fé somente dos povos árabes e
não pode ser seguido por outros povos.

65
Seção 2

O Islamismo para além da Península Arábica

Diálogo aberto
Prezado aluno, você já conhece a história do Profeta Muhammad – que
nos é contada pela tradição, pois as fontes históricas comprováveis são prati-
camente inexistentes –, sabe como essa religião se formou – a partir das
revelações do anjo Gabriel ao Profeta – e conhece a respeito da sua pregação
durante a vida. Em uma região em que predominavam as organizações tribais,
o politeísmo e o comércio como principal atividade econômica, Muhammad
encontrou adversidades quando passou a pregar a existência de um Deus
único e a condenar a idolatria e a soberba dos mais ricos. Ainda assim, deu
origem a uma comunidade que não parou de crescer desde o século VII.
A partir de agora, você é convidado a compreender como ficou essa
comunidade muçulmana após a morte de Muhammad, ocorrida em 632, no
que se refere à sucessão da liderança e a expansão do Islamismo para além
da Península Arábica. Para essa compreensão, vamos partir de uma situa-
ção-problema que nos guiará nessa jornada. Pois bem, Maycon Roberto é
formado em Teologia, atua como líder de uma igreja em sua cidade e devido
à sua notoriedade local, foi convidado por uma ONG para realizar uma
palestra em uma associação de bairro no qual há habitantes muçulmanos
e cristãos. A temática da palestra é a formação do Islã e suas relações como
sociedades cristãs.
Para realizar essa palestra, Maycon Roberto precisa revisitar seus estudos
do curso de Teologia e fazer pesquisas adicionais, tendo em vista que o tema
é complexo e não pode ser abordado de forma parcial, a partir de um olhar de
diferenciação ou preconceito. Ao estruturar a sua palestra, Maycon Roberto
encontrou dificuldades em estabelecer, de imediato, as fases da constituição
do Islã, diante de tantos nomes de califas que sucederam Muhammad no
comando dessa comunidade que se tornou um verdadeiro império.
A primeira coisa que Maycon Roberto se perguntou foi: afinal, quem era
legitimado para assumir o controle da comunidade islâmica? Na sequência,
questionou-se sobre a forma como a historiografia abordou as fases da
expansão islâmica para além da Península Arábica. Ele se lembrava dos
conflitos com os cristãos bizantinos, por exemplo, mas se deparou com
leituras acerca de um tal de Al-Andalus. O que seria isso? Por fim, quais as
contribuições dos muçulmanos para o Ocidente?

66
Pois bem, as perguntas de Maycon Roberto serão as nossas a partir de
agora. Essa palestra precisa ser muito produtiva para todos. Então vamos
juntos nessa jornada de compreensão do Islamismo após a morte do Profeta
Muhammad e da expansão da fé islâmica que levou à formação de um verda-
deiro império.

Não pode faltar

O Islamismo após a morte de Muhammad: califados e expansão


Quando o Profeta Muhammad morreu em 632, a comunidade muçul-
mana – Ummah Islamiyya – ficou em estado de choque. Alguns fiéis até se
recusaram a acreditar que ele havida falecido. Se não fosse por seus cuida-
dosos avisos, as pessoas poderiam tê-lo venerado como uma figura divina,
mas ele deixou bem claro que ele também era humano e estava sujeito às leis
da natureza. Ainda assim, as pessoas tiveram dificuldade em lidar com o fato
de não serem guiadas pela revelação divina (Muhammad havia afirmado que
a recebera de Deus e ninguém mais poderia fazê-lo).
A morte de Muhammad não resultou na dissolução da comunidade
muçulmana incipiente, tendo em vista que seus membros eram, em sua
maioria, crentes sinceros e apegados à fé, atuantes na sua defesa e propagação.
Mas uma questão importantíssima foi levantada: quem seria legitimado para
suceder ao Profeta no comando da comunidade? O problema era que ele não
havia indicado claramente quem deveria sucedê-lo; sequer sugeriu que tipo
de governo deveria prevalecer após sua morte (HOURANI, 2006).
Pois bem, existiam três grupos distintos entre os seguidores de
Muhammad: os primeiros companheiros que haviam feito a hégira com
ele, um grupo interligado por consanguinidade; os homens importantes
de Medina, que tinham feito a aliança com Muhammad e; os membros das
principais famílias de Meca, basicamente de conversão recente. Então os
colaboradores e líderes escolheram Abu Bakr como sucessor do Profeta, e ele
foi chamado de khalifa (califa) (HOURANI, 2006).
Abu Bakr (573-634) era sogro de Muhammad e foi reconhecido como
seu sucessor e novo chefe da comunidade, tanto pelos habitantes de Medina
quanto de Meca, além de outras tribos sedentárias. Entretanto, algumas tribos
beduínas distantes de Medina ou Meca optaram pela secessão, a separação
que ficou conhecida como ridda (apostasia), e passaram a se sentir livres dos
laços morais e políticos que os ligavam a Muhammad, recusando-se apoiar
Abu Bakr (MANTRAN, 1977).

67
Califado Rashidun (632-661)
Abu Bakr foi o primeiro dos quatro califas do que foi chamado de Califado
Rashidun pelos muçulmanos sunitas – também chamado de Califado
Ortodoxo ou os “bem-guiados”. A primeira ação de Abu Bakr como califa foi
enviar uma força expedicionária para a Síria para vingar a derrota da Batalha
de Mu’tah (629), como havia sido planejado pelo Profeta. Essa força não teve
muito sucesso, porém as incursões posteriores foram muito bem-sucedidas.
O intuito era mostrar não apenas que os muçulmanos não haviam esquecido
seus companheiros caídos, mas também declarar que o califado continuaria
o que Muhammad havia começado (MATRAN, 1997; KHAN, 2019).

Assimile
A discussão acerca da sucessão do Profeta Muhammad levou a uma
divisão dentro da comunidade islâmica em dois grupos distintos: os
xiitas e os sunitas. O nome sunita é derivado da frase “Ahl al-Sunnah”, ou
“povo da tradição”. A tradição neste caso refere-se a práticas baseadas
no que o Profeta Muhammad disse, fez, concordou ou condenou. Todos
os muçulmanos são guiados pela Sunnah, mas os sunitas enfatizam sua
primazia. Os xiitas também são guiados pela sabedoria dos descen-
dentes de Maomé, pelo seu genro e primo, Ali. A vida sunita é guiada
por quatro escolas de pensamento jurídico, cada uma se esforçando
para desenvolver aplicações práticas da Sunnah. A maioria dos muçul-
manos no mundo é sunita – as estimativas sugerem que esse número
esteja entre 85% e 90%. No Oriente Médio, os sunitas representam
90% ou mais da população do Egito, Jordânia e Arábia Saudita. Os xiitas
constituem cerca de 10% de todos os muçulmanos (BBC, 2016).

Abu Bakr, seguindo os passos de Muhammad, decidiu direcionar as


energias nascentes dos guerreiros árabes para as terras vizinhas da Síria (sob
os bizantinos) e Iraque (sob o Império Sassânida). As duas superpotências
não apenas esgotaram seus recursos com sua guerra constante, mas o ressen-
timento entre a população alcançou níveis sem precedentes. Assim, quando
os exércitos muçulmanos apareceram em suas fronteiras, os partidários dos
impérios correram para salvar suas vidas enquanto a população local aceitou
de bom grado seus novos senhores (KHAN, 2019).
Após a morte de Abu Bakr, Umar ibn al-Khattab (634-644) se tornou
califa e continuou as campanhas de seu antecessor, ampliando os domínios
muçulmanos para além da Península Arábica, atingindo a Síria, o que hoje
é o Iraque e o Egito. Os sucessos militares do reinado de Umar tendem
ser enfocados pela maioria das histórias escritas sobre ele, mas suas

68
habilidades administrativas superavam facilmente as realizações em campo.
(KHAN, 2019)
Uthman ibn Affa (579-677) foi eleito sucessor de Umar por um conselho
nomeado antes da morte deste. Uthman não era um governante forte e foi
assassinado em sua própria casa por rebeldes, em 656. Sua morte marcou
o ponto de ruptura na história do império islâmico: seu sucessor Ali ibn
Abi Talib (656-661) ficou preso entre lidar com um reino em desintegração
e pessoas insistindo que a justiça fosse servida ao seu antecessor morto
(HOURANI, 2006).
Após o assassinato de Uthman, todos os olhos se voltaram para Ali. Os
companheiros do Profeta não conseguiam pensar em mais ninguém que
tivesse a capacidade e a coragem de pôr um fim à corrupção no governo e
à anarquia na terra e restaurar a paz, a lei e a ordem, abaladas por conflitos
econômicos e sociais e atingidas por uma rápida sucessão de traumas. Ali
era genro e primo de Muhammad e enfrentou oposição, principalmente do
governador da Síria, Muawiya (602-680) (KHAN, 2019).
Califado dos Omíadas (661-750)
Muawiyah era primo de Uthman e se recusou a aceitar algo menos do
que a execução dos agressores de seu parente. Começou a guerra civil, a
Primeira Fitna (656-661), que terminou com o assassinato de Ali nas mãos
de um grupo extremista chamado Kharjitas – ou Carajitas. Muawiyah era
um político astuto e um diplomata forte que preferia suborno à guerra. Ele
convenceu Haçane ibne Ali ibne Abu Talibe (624-670), filho de Ali, que o
sucedeu em Kufa, a abdicar em seu favor em troca de uma alta pensão. A
morte de Haçane em 670, de quem se diz ter sido envenenada por sua esposa,
é frequentemente ligada a ele por historiadores muçulmanos, ao lado de
muitos outros apoiadores de Ali (KHAN, 2020).
O reinado de 20 anos de Muawiyah em Damasco, Síria, foi o mais estável
que os árabes haviam visto desde a morte de Umar, e suas reformas adminis-
trativas foram igualmente excelentes, como o uso de uma rede policial,
guarda-costas pessoais para sua segurança, ministros para administração
local, como Umar havia estabelecido, entre outros. Ele iniciou campanhas
em partes do atual Paquistão e Afeganistão e, no oeste, até a costa atlântica do
Marrocos. Ele conseguiu recuperar territórios perdidos para os bizantinos,
mas a maioria de seus ganhos foi revertida após sua morte, devido a distúr-
bios internos (KHAN, 2020).
Muawiyah e seus sucessores travaram uma guerra incessante contra
o Império Bizantino Cristão e supervisionaram a expansão militar no
norte da África, na Ásia Central, na Península Ibérica e em várias ilhas no

69
Mediterrâneo. Sob os omíadas, o Império Muçulmano cresceu rapidamente
e tornou-se um dos maiores estados unitários da história e um dos poucos
estados a estender o domínio direto em três continentes – África, Europa e
Ásia (ARANTES, 2019).

Exemplificando
Al-Andalus é o termo que os árabes e historiadores usam em prefe-
rência à “Espanha muçulmana” para designar o território da Península
Ibérica dominado por um poder político muçulmano. Era assim que
seus habitantes a chamavam e como o resto do mundo a conhecia nos
tempos medievais. Começou como um poder político no século VII e
continuou até o final do século XV. A sua realidade mutável e gradual-
mente reduzida nos seus limites geográficos (que não devem ser identi-
ficados com a Andaluzia, uma vez que Portugal e a Catalunha foram
incluídos lá, com episódios como as conquistas das potências do norte
da África) basicamente caracterizam Al-Andalus como uma caminhada
(ARENAL, 2008).
A sociedade de Al-Andalus desenvolveu suas próprias características
que a distinguiam de outros componentes do Islã medieval, aos quais,
no entanto, os andaluzes tinham plena consciência de pertencimento e
se sentiam totalmente integrados. Os habitantes de Al-Andalus eram,
antes de tudo, descendentes da população hispano-romana e visigótica
que habitavam a península bem antes da conquista. A essa população
indígena estavam sobrepostos elementos árabes, no início ligados aos
exércitos expedicionários e depois ao poder político dos omíadas e,
principalmente, dos berberes, populações indígenas do norte da África.
Estes últimos foram a contribuição mais constante, dada a proximi-
dade das terras do Magrebe e a estreita relação ao longo da história de
Al-Andalus entre os territórios dos dois lados do estreito. A esses três
componentes principais (hispano-romano, árabe e berbere), devemos
acrescentar a importação de escravos de várias origens, do norte da
península, mas também de outros países europeus. A composição da
população de Al-Andalus era, portanto, múltipla e variada, assim como,
até certo ponto, a composição de seus grupos religiosos, uma vez que
os andaluzes não eram todos muçulmanos (ainda que fossem a maior
parte). Ao lado dessa maioria havia minorias judaicas e cristãs, ambas
profundamente árabes (ARENAL, 2008).

Durante o período dos omíadas, o árabe se tornou o idioma administra-


tivo, no qual documentos e moedas do estado foram emitidos. Conversões
em massa trouxeram um grande influxo de muçulmanos ao califado.

70
Apesar das disputas pela adesão hereditária, o califado consolidou o poder,
estabelecendo o árabe como idioma oficial e introduzindo uma cunhagem
muçulmana. Mas essa estabilidade terminou por uma série de problemas
(MANTRAN, 1977; ARANTES, 2019).
O califado omíada foi marcado tanto pela expansão territorial quanto
pelos problemas administrativos e culturais que essa expansão criou. Apesar
de algumas exceções notáveis, os omíadas tendiam a favorecer os direitos
das antigas famílias árabes, em particular as suas, sobre os dos muçulmanos
recém-convertidos (mawali). Portanto, eles mantiveram uma concepção
menos universalista do Islã do que muitos de seus rivais (MANTRAN, 1977;
ARANTES, 2019).
Ademais, a complexa rede familiar estabelecida ao longo do tempo
impedia o estabelecimento sólido de uma sucessão no interior do clã, o que
podia ser verificado pelas numerosas lutas entre familiares pelo poder. Além
disso, a luta contra os clãs rivais não findou, o que pode ser comprovado
pelos conflitos ocorridos na Síria, Irã, Iraque e no Magrebe, a região noroeste
da África. Uma dessas oposições resultou na morte de Hussein, filho de Ali,
assassinado por soldados omíadas, o que representou o marco da ruptura
definitiva entre os partidários de Ali e o clã omíada (MANTRAN, 1977;
ARANTES, 2019).

Assimile
O período omíada é considerado o período formativo na arte islâmica. A
principal influência artística veio da antiga tradição naturalista clássica
antiga, que havia prevalecido nas costas orientais do Mediterrâneo. Isso
também foi complementado pelos modos mais formais desenvolvidos
pelos bizantinos e sassânidas, um fator que afetou especialmente a
metalurgia, os têxteis e a representação de motivos animais, vegetais
e figurativos. Com o tempo, no entanto, os artistas desenvolveram
novas técnicas, formas e convenções decorativas que distinguiam seus
trabalhos dos anteriores. Assim, por meio de um processo de adoção,
adaptação e criação, surgiu um novo senso de expressão artística que
se tornou nitidamente de caráter islâmico logo após o fim da dinastia
omíada. Como nas artes, o período omíada também foi crítico no desen-
volvimento da arquitetura islâmica. Enquanto as tradições arquitetô-
nicas anteriores continuavam, os requisitos da nova religião e costumes
dos novos governantes árabes exigiam um uso diferente do espaço. No
caso de edifícios religiosos, os omíadas frequentemente construíam
seus monumentos em locais de importância histórica ou simbólica
(KOMAROFF, 2001).

71
Califado dos Abássidas (750-1258)
Por volta de 750, os abássidas (uma facção árabe que alegava ser descen-
dente do tio do profeta, Abbas) haviam conquistado o apoio do povo de
Khurasan, no Irã. Seu império não estava em um estado para enfrentar uma
revolta em larga escala; seu exército estava exausto depois de anos de guerra,
a economia falida não lhe permitia recrutar mais tropas e os governadores
ineficazes falharam em perceber a gravidade da ameaça abássida até que
fosse tarde demais (KHAN, 2020).
No final de 749, a maioria dos estados do leste exibia os padrões negros
dos abássidas, e as tribos ressentidas que ele subjugara à força também
estavam aliadas a eles. Seu líder enfrentou a maior parte do exército abássida
perto do rio Zab (750), onde seu exército foi derrotado. Ele foi forçado a
fugir para o Egito, pretendendo reunir suas forças das províncias ocidentais,
mas os abássidas o alcançaram e o mataram. O governo omíada terminou e
o primeiro governante abássida Abu Abbas (750-754) foi declarado o novo
califa em Kufa (KHAN, 2020).
Os abássidas não mostraram piedade dos omíadas; todos os membros
do sexo masculino foram mortos, poucos sobreviventes recuaram para seus
esconderijos. As sepulturas omíadas em Damasco foram escavadas e seus
restos foram destruídos e queimados – com exceção de Umar II, cuja sepul-
tura foi poupada por causa de sua reputação. Então os abássidas convidaram
todos os membros sobreviventes para jantar sob o pretexto de reconciliação,
mas quando estavam sentados à mesa, ao sinal do novo califa, os assassinos
entraram na sala e os mataram. Abd al-Rahman I, neto do capaz Hisham,
sobreviveu ao destino horrível de seus parentes, conseguiu escapar dos
abássidas e fez uma jornada perigosa através do império. Desembarcou em
Al Andalus, onde formou o Emirado de Córdoba em 756, que rivalizava com
o reino abássida em elegância e grandeza (KHAN, 2020).
Tomando o nome de um tio do Profeta (ou seja, al-Abbas), os abássidas
buscaram legitimidade para a revolução e seu governo subsequente, enfati-
zando sua linhagem familiar com o Profeta e a suposta transferência de
autoridade para sua linhagem familiar por um descendente de Ali Ibn Abi
Talib. Os defensores da dinastia abássida argumentavam que os abássidas
faziam parte de uma revolução literal, no sentido de que o califado abássida
traria a comunidade islâmica de volta a seus costumes anteriores, como
encontrado durante o tempo do profeta e dos quatro justamente guiados
Califas (HANNE, 2006).
Em vez de governar como dinastia árabe elitista (um crime do qual
acusavam os omíadas), os abássidas procuravam governar de uma maneira

72
mais universal como símbolo de uma comunidade sunita unificada. Para esse
fim, os califas abássidas usavam títulos honoríficos (lagab/pl. Algab) como
al-Mahdi, al-Ma’mun e al-Qadir para denotar suas ligações com Allah, e eles
adotaram o título al-Imam, além dos títulos tradicionais de Califa e coman-
dantes dos fiéis (HANNE, 2006).
Outra mudança do período omíada foi que a cultura persa (política,
literária e pessoal) foi totalmente integrada à sociedade abássida; um
exemplo-chave foi o papel central desempenhado pela família de vizires
persas Barmakid durante o governo abássida. Os estudiosos modernos conti-
nuam a debater a natureza da revolução abássida e do regime abássida poste-
rior, concentrando-se em questões como as origens etnolinguísticas e regio-
nais daqueles que lutaram pela causa abássida (o abna ‘al-dawla); disputas
posteriores sobre o papel dos califas na determinação da crença correta; e a
natureza da política islâmica à luz da perda da autonomia abássida para as
potências regionais e seu pessoal, o que começou mais plenamente no século
X (HANNE, 2006).
Durante as décadas após a revolução, os abássidas consolidaram com
sucesso seu controle e o fortaleceram sobre suas terras. Al-Mansur (754-775)
foi fundamental durante esses primeiros anos de duas maneiras distintas:
removendo quaisquer rivais potenciais ou reais do domínio abássida por
meio de assassinatos diretos e/ou reprimindo revoltas localizadas e fundou
Bagdá como a nova capital do Iraque, um incentivo aos abássidas. Bagdá
logo se tornou o lócus econômico, cultural e intelectual do mundo muçul-
mano, com os califas e seus vizires apadrinhando estudiosos e promovendo
os vastos esforços de tradução que integravam obras do mundo antigo e
arredores, cercando-as com maior consciência islâmica (HANNE, 2006).
Esse florescimento cultural se baseou nos desenvolvimentos anteriores
da teologia e da lei islâmica, e lançou as bases para desenvolvimentos na
filosofia e misticismo islâmicos, além de avanços nas ciências naturais (ótica,
medicina, química). Com o tempo, Bagdá se tornaria um canal de bolsas
de estudo e de intercâmbio de ideias em todas as terras muçulmanas. No
século IX, os abássidas começaram a enfrentar problemas em uma varie-
dade de frentes, os quais prejudicaram sua capacidade de governar efetiva-
mente. Uma guerra civil desastrosa entre dois irmãos, al-Amin (809-813) e
al-Mamun (813-833), durante a sucessão ao califado, destacou as fraquezas
inerentes à base de apoio dos abássidas (HANNE, 2006).
Os califas abássidas começaram a adquirir novas tropas de apoio na forma
de soldados escravos da população turca em suas fronteiras. Para manter a
lealdade desses soldados escravos, al-Mu’tasim (833-842) estabeleceu uma
nova capital, Samarra, ao norte de Bagdá. Os soldados escravos acabariam

73
se voltando contra seus senhores em 861, precipitando o cativeiro mariano
(861-870), e califas abássidas foram colocados no trono e removidos por
facções concorrentes (HANNE, 2006).
Ao longo do restante do século IX e do século X, os abássidas foram
confrontados com recursos cada vez menores (financeiro, apoio a tropas)
e aumentaram a pressão de dinastias independentes em terras anterior-
mente controladas pelos abássidas. Embora os abássidas tenham começado
a recuperar alguma independência de ação durante o final do século XI,
eles nunca recuperariam sua antiga glória. O saque mongol de Bagdá 1258
pôs fim à presença abássida no Iraque. Embora um descendente da família
estabelecesse um Califado das Sombras no Egito que duraria até 1517, eles
eram apenas figuras de proa que estavam distantes de seus ancestrais em
relação ao poder e à autoridade (HANNE, 2006).

Reflita
Quais as contribuições islâmicas para o saber ocidental?
Nos tempos do califado abássida ocorreram grandes avanços no
campo das artes e das ciências. Em 859 foi fundada a primeira univer-
sidade no mundo, a Al-Karaouine, na região do atual Marrocos. No
campo da matemática e da ciência, os sábios islâmicos transmitiram a
tradição de pensadores gregos da Antiguidade, em particular o saber
acumulado em Alexandria, no Egito, e o aprimoraram. A geometria de
Euclides, trigonometria e álgebra sofreram grande desenvolvimento,
no entanto, não foi apenas uma simples transmissão. A contribuição
de sábios como Alhazen, Al-Jayyani, al-Khwarizmi e muitos outros foi
fundamental no desenvolvimento de conceitos a serem incorporados
pela ciência ocidental, como o próprio emprego dos numerais arábicos
e do método científico. O trabalho de Aristóteles, essencial na consti-
tuição da filosofia da baixa Idade Média na Europa, foi transmitido ao
Ocidente por meio de traduções feitas para o árabe. A tradição árabe de
navegação, somada aos estudos matemáticos islâmicos, seria respon-
sável por parcela considerável dos desenvolvimentos náuticos no
Mediterrâneo, inclusive na cartografia e na invenção de instrumentos
náuticos. Muitos campos diversos beberiam do saber islâmico: ótica,
medicina, biologia, química, alquimia, física, astronomia e arquitetura.
(AFSARUDDIN, 2006).

Após todas essas discussões apresentadas, você pôde compreender todo


o processo de sucessão do comando da comunidade islâmica após a morte
do Profeta Muhammad e como a expansão da fé para territórios além da

74
Península Arábica foi responsável pela formação de um verdadeiro Império
Islâmico (Islã) nos séculos que compõem a chamada Idade Média Ocidental.

Sem medo de errar

Na situação-problema que abriu nossas discussões, você foi apresentado


a Maycon Roberto, líder de uma igreja cristã de sua cidade, convidado por
uma ONG a fazer uma palestra em uma associação de bairro no qual há
habitantes muçulmanos e cristãos. A temática da palestra é a formação do Islã
e suas relações como sociedades cristãs. Nas suas pesquisas, Maycon Roberto
se deparou com alguns questionamentos: afinal, quem era legitimado para
assumir o controle da comunidade islâmica? Como a historiografia abordou
as fases da expansão islâmica para além da Península Arábica? O que foi o
Al-Andalus? Quais as contribuições dos muçulmanos para o Ocidente?
Para responder a essas perguntas de Maycon Roberto, que também
são as nossas aqui, é necessário, primeiramente, saber que Muhammad
não designou sucessor, o que levantou uma disputa entre os membros da
comunidade muçulmana então incipiente. Entre os seus seguidores, havia
aqueles que acreditavam que a sucessão deveria ser baseada na tradição, ou
seja, um de seus companheiros, e outros que acreditavam na necessidade de
laços sanguíneos, ou seja, hereditariedade.
A historiografia costuma dividir a expansão islâmica em três momentos
ou califados: Rashidun, Omíadas e Abássidas. O primeiro sucessor de
Muhammad, Abu Bakr, era seu seguidor fiel e um de seus sogros e foi eleito
como califa, ou seja, não era um profeta tal como Muhammad, mas um
líder da comunidade islâmica. Após a morte de Abu Bakr, outros três califas
ocuparam essa liderança: Umar, Uthman e Ali, chamados de “bem-guiados”,
sendo seu califado denominado de Rashidun, com duração entre 632 e 661.
Quando do assassinato de Ali, subiu ao poder Muawiya, primo de Uthman
e governante da Síria, que deu início ao chamado califado dos Omíadas, com
duração entre 661 e 750, cuja administração foi transferida de Medina para
Damasco, na Síria. O árabe foi oficializado como idioma e a administração
dos territórios conquistados acabou se tornando descentralizada. Dentre as
diversas conquistas desse califado, encontram-se o Al-Andalus, região do
que hoje é a Espanha, na Península Ibérica.
Devido a uma série de problemas, inclusive sucessórios e com habitantes
dos locais conquistados, esse califado encontrou seu fim nas mãos dos
abássidas. O califado dos Abássidas foi mais longo, entre 750 e 1258, e se
baseava na descendência de Ali, primo do Profeta Muhammad, como legiti-
mação para o controle do poder do Império que se consolidava. Houve um

75
grande florescimento cultural nesse período e a capital Bagdá foi fundada.
Os abássidas, após a destruição de Bagdá em 1258, não possuíam nada além
do próprio título.
Importante ressaltar que os muçulmanos contribuíram imensamente
para a cultura ocidental a partir do desenvolvimento dos conhecimentos
em diversas áreas, tais como as artes, a arquitetura, a geometria e a filosofia,
entre outras. Inclusive, as traduções das obras de Aristóteles, filósofo da
Antiguidade, foram a base para as análises e reflexões filosóficas no ocidente
medieval, que incluíram a famosa questão dos universais.

Faça valer a pena

1. A morte de Muhammad suscitou uma importante disputa acerca da


sucessão na liderança da incipiente comunidade islâmica. Entre os membros
da comunidade, havia aqueles que defendiam a sucessão baseada na tradição,
e outros, que a defendiam nos laços de sangue.
Sobre a sucessão do Profeta Muhammad, analise as afirmativas que se seguem:
I. Ali, primo e genro de Muhammad, foi logo considerado o sucessor
do Profeta devido os seus lanços de sangue.
II. Abu Bakr, um dos sogros de Muhammad, não aceitou a sua eleição como
primeiro sucessor de Muhammad por não estar convicto da sua fé.
III. Os quatro primeiros califas após a morte de Muhammad foram denomi-
nados de “bem-guiados” e formaram o chamado Califado Rashidun.
Considerando o contexto apresentado, está correto o que se afirma em:
a. I, apenas.
b. II, apenas.
c. III, apenas.
d. I e II, apenas.
e. I, II e III.

2. A dinastia omíada (661-750), foi estabelecida em 661 por Muawiyah, que


havia servido como governador da Síria sob o califado de Rashidun, após a
morte do quarto califa, Ali, em 661. Os omíadas governaram com eficácia
e firmeza a autoridade política do califado. As rebeliões foram esmagadas
com força bruta e nenhuma piedade foi concedida àqueles que provocaram
revoltas.

76
Sobre o califado dos omíadas, analise se as afirmativas que se seguem são
verdadeiras (V) ou falsas (F):
( ) O governo foi transferido de Meca para Damasco, na Síria.
( ) O árabe se tornou o idioma administrativo, no qual documentos e moedas
do estado foram emitidos.
( ) O califado omíada foi marcado tanto pela expansão territorial quanto
pelos problemas administrativos e culturais que essa expansão criou.
( ) O desenvolvimento artístico islâmico foi extremamente limitado no
califado omíada, devido às restrições impostas pelos califas.
Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta:
a. V – V – F – F.
b. F – F – V – F.
c. F – V – V – F.
d. V – F – V – F.
e. F – F – F – V.

3. Os abássidas lideraram uma revolução contra as políticas impopulares da


Omíadas, mas aqueles que esperavam grandes mudanças ficaram desapon-
tados. Sobre o califado dos abássidas, analise as afirmativas que se seguem:
I. Os abássidas mantiveram o controle hereditário do califado,
formando uma nova dinastia.
II. Uma das primeiras e mais importantes mudanças que os abássidas
fizeram foi mover a capital do império islâmico da antiga base de
poder omíada de Damasco para uma nova cidade, Bagdá.
III. Devido a vários califas muito capazes e seus conselheiros, o califado
abássida prosperou no início do século IX, apesar dos grandes
desafios de governar um enorme império multiétnico.
Considerando o contexto apresentado, está correto o que se afirma em:
a. I, apenas.
b. II, apenas.
c. III, apenas.
d. I e II, apenas.
e. I, II e III.

77
Seção 3

Expansão islâmica e a importância do Islã

Diálogo aberto
Prezado aluno, a morte do Profeta Muhammad, em 632, não representou
o fim da incipiente comunidade islâmica. Muito pelo contrário, ela aumentou
paulatinamente nos séculos seguintes. Com a ausência de sucessor com
prévia definição por Muhammad, uma grande discussão teve início acerca
da legitimidade de quem deveria substituí-lo – não como novo Profeta, mas
como líder da comunidade, assumindo o poder político. Surgiu a figura
do califa e dinastias que ocuparam o poder a partir do século VII. Nesse
contexto, a expansão islâmica foi extremamente significativa.
Nesse momento, você é convidado a analisar as razões dessa expansão
e os problemas dela decorrentes, tais como o enfretamento com os cristãos
ocidentais durante as Cruzadas. Mas uma questão importante surgirá nessa
análise: qual o significado de jihad e qual sua relação com essa expansão. Para
a compreensão desses temas, partiremos da seguinte situação-problema:
Jhon Tadeu é um importante pesquisador do Islamismo no Brasil e foi
convidado a participar de uma conferência acadêmica sobre essa religião em
uma importante universidade do país. Você está participando dessa confe-
rência, e o pesquisador inicia a sua fala com a seguinte pergunta: “o que
significa jihad?”. Você sempre ouviu a palavra jihad associada com “guerra
santa”, levanta a mão e responde exatamente isso. Jhon Tadeu direciona a
fala a você e pergunta: “mas qual a origem dessa interpretação da palavra
jihad”? Nesse momento, você se lembra dos ataques terroristas de 2001, nos
Estados Unidos, mas já não tinha tanta certeza assim de esse é o significado
da palavra jihad.
Pois bem, você precisa compreender melhor o que essa palavra designa,
qual é a etimologia e a modificação semântica da palavra ao longo do tempo.
E esse é o objeto de nossas análises a partir de agora.

Não pode faltar

Expansão islâmica e consolidação de um império


Sabemos que com a morte do Profeta Muhammad surgiu a figura do califa
como seu sucessor político, bem como uma grande discussão sobre a legiti-
midade dessa sucessão. Muhammad não escolheu um sucessor e tampouco

78
deixou meios para nomeá-lo. Assim, os conflitos em torno de quem lideraria
a comunidade muçulmana eclodiram, confrontando as diferentes famílias
e clãs que o apoiavam. De início, os califas eram eleitos – assim aconteceu
com os quatro primeiros califas, chamados de “bem-guiados”; mas com os
omíadas, o cargo tornou-se hereditário.
Nos primeiros anos após a morte de Muhammad, após pacificar as insur-
gências internas na Península Arábica, os exércitos muçulmanos árabes
começaram a conquistar rapidamente territórios nos Impérios Bizantino e
Sassânida. Em aproximadamente duas décadas, eles criaram um verdadeiro
império árabe-muçulmano, abrangendo três continentes. Os governantes
muçulmanos árabes não eram puramente motivados pela religião, nem seu
sucesso foi atribuído apenas ao poder do Islã, embora a religião certamente
tenha contribuído. (ARANTES, 2019; MANTRAN, 1977).
A questão que aqui se levanta é a seguinte: como os exércitos muçulmanos
– compostos de beduínos, em número reduzido e sem as tradições militares
dos bizantinos e sassânidas – tiveram sucesso nas conquistas empreendidas
Abu Bakr e Umar no início do Califado Rashidun (632-661). Essa questão
já foi respondida de duas formas: a primeira com fundo religioso, ou seja,
munidos do entusiasmo da fé, os árabes tinham a vontade de levar a religião
para outros territórios; a segunda com fundo materialista, ou seja, a neces-
sidade econômica árabe da comunidade islâmica que ultrapassava os limites
da Península Arábica. No entanto, essas explicações respondem realmente à
pergunta? Parece que não (MANTRAN, 1977).

Assimile
O exército muçulmano era composto, inicialmente, por grupos tribais
árabes – beduínos – principalmente a infantaria e algumas forças de
cavalaria. Gradualmente se transformou, passando a recrutar membros
locais durante suas campanhas. O papel desempenhado pelos mawali
(muçulmanos não árabes, recém-convertidos) como guerreiros berberes
na campanha ocidental para a Espanha e, a leste, persas e turcos, é signi-
ficativo disso. Os exércitos omíadas contavam com o corpo de elite da
Síria e aumentavam o papel da cavalaria e, principalmente, das unidades
de armadura, embora a infantaria fosse predominante. Os primeiros
exércitos abássidas, por outro lado, contavam principalmente com as
forças de grupos persas e, no início do século IX, a cavalaria tornou-se
claramente dominante. A partir do século XI, as técnicas de arco e flecha
a cavalo de origem asiática e turca começaram a desempenhar um papel
importante nos conflitos muçulmanos (SMART; DENNY, 2016)

79
Ora, não era tarefa dos beduínos levar a fé a outros territórios, mas dos
companheiros de Muhammad. Além disso, ainda que os bens espirituais
estivessem acima dos bens materiais e as vitórias iniciais representassem
o êxito dos muçulmanos na tarefa desejada por Muhammad, os beduínos
eram recompensados com uma generosa parcela das conquistas materiais.
Ademais, esses beduínos apresentavam qualidades de união e disciplina e se
beneficiaram de chefes militares brilhantes, aceitando a autoridade destes.
Mas as primeiras vitórias podem ser explicadas também pelo fato de que
nem os bizantinos nem os sassânidas acreditavam em uma investida árabe
e não deram importância às expedições deles. E mais: quando as conquistas
muçulmanas começaram, os bizantinos e sassânidas estavam em conflito há
um século. (MANTRAN, 1977).
É claro que o fator religioso não pode ser desconsiderado, principalmente
porque os beduínos estavam, de certo modo, conscientes de que travavam
uma batalha pela expansão da fé e que, além da promessa de recompensas
materiais, era prometido o paraíso para quem morresse em combate. “Esse
sentimento religioso conferiu ao exército árabe uma coesão suplementar,
que lhe permitiu triunfar sobre adversários que, ao contrário, revelavam a
fraqueza e desunião” (MANTRAN, 1977, p. 80).
Pois bem, nos territórios conquistados, os comandantes muçulmanos
deixaram a estrutura social dos territórios conquistados quase intactos ao
nomear governadores muçulmanos locais e confiar nos sistemas administra-
tivos e financeiros locais. As populações não foram convertidas em massa,
mas com o tempo a frequência das conversões aumentou. As razões para
abraçar o Islã variaram desde o desejo de se aproximar dos novos senhores e
compartilhar seus privilégios, até o reconhecimento ou a crença na natureza
tolerante e sincrética da nova fé. A tolerância, no entanto, só poderia ser
concedida ao “povo do Livro”, ou seja, aquelas pessoas que o Alcorão cita
como tendo recebido escrituras reveladas: judeus e cristãos. Estes não
podiam, em princípio, ser convertidos à força (como poderiam os politeístas
e descrentes) e tinham garantia de proteção e autonomia religiosa contra o
pagamento de um imposto especial. (SMART; DENNY, 2016)
Mas, afinal, foram as conquistas de novos territórios e a conversão de
fiéis as responsáveis pela formação do Império Árabe-Muçulmano? Ou esse
império foi resultado apenas de conflitos violentos dos árabes muçulmanos
com outros povos? Aqui devemos frisar que a expansão e as conversões
aconteceram entre os séculos VII e XII devido a acordos com os líderes das
regiões conquistadas que traziam vantagens político-econômicas e benefí-
cios sociais aos muçulmanos. Assim, embora o expansionismo muçulmano
tenha ocorrido por meio de conflitos violentos, a formação do império não

80
é resultado apenas deles. Ademais, o Islã foi a base para a formulação de
um novo paradigma pacificador, agregador de etnias até então inimigas. Ao
surgir, ele superou sua face meramente religiosa e se constituiu mais como
um novo pacto social proposto aos povos beduínos e sedentários da Arábia
do que somente uma nova religião (DEMANT, 2011)

Reflita
O Islã, como todas as civilizações religiosas, representa um sistema
complexo de valores e ritual, teologia e folclore, lei e fé. Como o judaísmo
e o cristianismo, o Islã é multifacetado, oferecendo uma variedade de
respostas às perguntas e perplexidades da condição humana. Ele não
pode ser encontrado em um único invólucro. Assim como o judaísmo e
o cristianismo raramente têm uma visão única sobre questões de impor-
tância religiosa, sejam elas nas áreas de teologia, ritual ou epistemologia,
bem como as questões mais conhecidas da lei e interpretação, o Islã
também oferece uma variedade de pontos de vista (FIRESTONE, 1999).

A Jihad na expansão islâmica?


É muito comum associarmos a expansão islâmica com a palavra
jihad. No entanto, David Cook (2005), professor associado de religião na
Universidade Rice, no Texas, Estados Unidos, afirma que as conquistas
islâmicas dos séculos VII e VIII só foram classificadas como jihad posterior-
mente, e que não sabemos como os muçulmanos da época as chamavam.
Nessa mesma linha, Youssef Cherem (2009) aponta que as conquistas do
Império Otomano na Europa não eram chamadas de jihad. Apenas na era
dos Estados-Nações e do colonialismo, o jihad assumiria um caráter apolo-
gético e missionário, mesclando-se com doutrinas políticas ocidentais, como
uma espécie de ativismo social e político, às vezes acabando em guerra,
guerrilha ou terrorismo.

Assimile
A palavra árabe jihad deriva da raiz j.h.d., cujo significado é o esfor-
çar-se, empenhar-se. Jihad é um substantivo verbal ou a terceira forma
árabe da raiz jahada, que é definida classicamente como exercer maior
poder, esforços, benefícios finais ou capacidade de alguém em lidar com
um objeto de desaprovação. Esse objeto é frequentemente classificado
na literatura como derivado de uma das três fontes: um inimigo visível,
o diabo e aspectos do próprio eu. Existem, portanto, muitos tipos de
jihad, e a maioria não tem nada a ver com a guerra. “Jihad do coração”,
por exemplo, denota luta contra da pessoa próprias inclinações pecami-

81
nosas, enquanto “jihad da língua” exige falar o bem (FIRESTONE, 1999;
LEWIS, 2004).

Para o grande pesquisador do islã, Bernard Lewis (2004), o termo jihad


foi, por muitas vezes, erroneamente traduzido no Ocidente como “guerra
santa”. A jihad, particularmente no campo religioso e ético, refere-se princi-
palmente à luta humana para promover o que é certo e impedir o que é
errado. No Alcorão, jihad é um termo com múltiplos significados, mas não
há referência direta à guerra. Quando o Profeta Muhammad recebeu revela-
ções do Alcorão em Meca, a ênfase estava na dimensão interna da jihad,
relacionada com a prática de paciência pelos muçulmanos em face das vicis-
situdes da vida e em relação àqueles que lhes desejam mal. Além disso, havia
a jihad por meio dos fundamentos do Alcorão, implicando uma luta verbal e
discursiva contra aqueles que rejeitam a mensagem do Islã. Em Medina, com
as revelações de Muhammad por lá, surgiu uma nova dimensão da jihad:
lutando em legítima defesa contra a agressão dos perseguidores de Meca
(LEWIS; 2004).
De acordo com Asma Afsaruddin (2020), professor do Departamento de
Línguas e Culturas do Oriente Próximo da Universidade de Indiana, Estados
Unidos, na literatura posterior ao Alcorão – compreendendo as Ahadith
(registro dos ditos e ações do Profeta); comentários místicos sobre o Alcorão;
e escritos místicos e edificantes mais gerais – as duas dimensões principais da
jihad foram renomeadas como jihad al-nafs, ou seja, a luta espiritual interna
contra o eu inferior, e jihad al-sayf, ou seja, o combate físico com a espada,
respectivamente. Eles também foram chamados respectivamente de a jihad
maior (al-jihad al-akbar) e jihad menor (al-jihad al-aṣhar). Mas, em árabe, a
guerra ou combate físico são normalmente transmitidas pelas palavras harba
e qital, respectivamente (AFSARUDDIN, 2020).
Na literatura pós-Alcorânica, portanto, a jihad, muitas vezes, assume o
significado de guerrear em nome da comunidade muçulmana ou pelo Islã
ou Deus, a fim de expandir a hegemonia da comunidade muçulmana; aqui,
a jihad obviamente significa conquista. Os intérpretes modernistas às vezes
entendem que a jihad se limita às guerras de defesa; da mesma forma, os
místicos tendem a enfatizar uma jihad interior contra a própria inclinação
para o mal, algumas vezes definida como jihad maior, oposta à jihad menor
da guerra. (FIRESTONE, 2016)
Nas Ahadith, há menção de quatro maneiras principais pelas quais a jihad
pode ser realizada: pelo coração, pela língua, pela mão (ação física antes do
combate armado) e pela espada. Na articulação do direito internacional, os
juristas muçulmanos clássicos estavam preocupados principalmente com

82
questões de segurança do estado e defesa militar dos reinos islâmicos, e,
portanto, concentraram-se principalmente na jihad como um dever militar,
que se tornou o significado predominante na literatura legal e oficial.
(AFSARUDDIN, 2020)
Deve-se notar que o Alcorão proíbe explicitamente o início da guerra
e permite lutar apenas contra agressores reais. Submetendo-se ao realismo
político, no entanto, muitos juristas muçulmanos pré-modernos passaram
a permitir guerras de expansão a fim de estender o domínio muçulmano
sobre reinos não muçulmanos. Alguns chegaram a considerar a recusa de
não muçulmanos em aceitar o Islã como um ato de agressão em si, o que
poderia convidar retaliação militar por parte do governante muçulmano.
(AFSARUDDIN, 2020)
Os juristas deram uma consideração especial àqueles que professavam
crer em uma revelação divina – cristãos e judeus em particular, que são
descritos como “pessoas do Livro” no Alcorão e, portanto, são conside-
rados comunidades a serem protegidas pelo governante muçulmano. Eles
poderiam abraçar o Islã ou pelo menos submeter-se ao domínio islâmico e
pagar um imposto especial (jizyah). Se ambas as opções fossem rejeitadas,
elas seriam combatidas, a menos que houvesse tratados entre essas comuni-
dades e as autoridades muçulmanas (AFSARUDDIN, 2020).
Com o tempo, outros grupos religiosos, incluindo zoroastrianos, hindus
e budistas, também passaram a ser considerados “comunidades protegidas”
e receberam direitos semelhantes aos de cristãos e judeus. A jihad militar
poderia ser proclamada apenas pelo líder legítimo da comunidade muçul-
mana, geralmente o califa. Além disso, os juristas proibiram ataques a civis
e destruição de propriedades, citando declarações do Profeta Muhammad
(AFSARUDDIN, 2020).

Exemplificando
Ao longo da história islâmica, guerras contra não muçulmanos, mesmo
quando motivadas por preocupações políticas e seculares, foram
denominadas jihads para garantir legitimidade religiosa. Essa foi uma
tendência que começou durante o califado omíada (661–750). Nos
tempos modernos, isso também aconteceu nos séculos XVIII e XIX
na África muçulmana ao sul do Saara, onde as conquistas religiosas e
políticas eram vistas como jihads, principalmente a jihad de Usman dan
Fodio, que estabeleceu o califado de Sokoto (1804) no que agora é o
norte da Nigéria. As guerras afegãs do final do século XIX e início do
século XX também foram vistas por muitos participantes como jihads,
primeiro contra a União Soviética e o governo marxista do Afeganistão

83
e depois contra os Estados Unidos. Durante e desde então, extremistas
islâmicos usaram a rubrica da jihad para justificar ataques violentos
contra muçulmanos que eles acusam de apostasia. Em contraste com
esses extremistas, vários pensadores muçulmanos modernos e contem-
porâneos insistem em uma leitura holística do Alcorão, atribuindo
grande importância à restrição da atividade militar do Alcorão à autode-
fesa em resposta à agressão externa (AFSARUDDIN, 2020).

O Islamismo e as Cruzadas
Com a expansão do Islamismo a partir do século VII, surgiram grandes
embates com o Cristianismo, sobretudo pelo espírito militante e aguer-
rido, marcado por intensa religiosidade do muçulmano. Após a morte de
Muhammad, os exércitos muçulmanos conquistaram a Península Arábica, a
Síria, a Palestina, o Império Persa, o Egito e todo o norte da África. Observe-se
que essa região geográfica, sobretudo Síria e Palestina, havia sido cristia-
nizada desde o século II, o que evidencia o quanto o cristianismo perdeu
terreno para o Islamismo, no seu próprio espaço de nascimento e prosperi-
dade. Locais como Antioquia, atual Turquia, Jerusalém (Israel), Alexandria
(Egito) e Cartago, atual Túnis (Tunísia), são lugares quase sagrados para o
Cristianismo. Por volta de 674, os mulçumanos lançaram seus primeiros
ataques a Constantinopla, a capital cristã do império romano do oriente
(WILLIAMS, 2007).
Outro grande golpe no cristianismo foi em 711, quando os mouros,
chefiados por Tarik, atravessaram Gibraltar (Jabal Al Tariq, ou rocha de
Tarik) e invadiram a Península Ibérica, ocupando grande parte do território
espanhol. Fundaram em 756 a cidade de Granada, ao sul da Espanha, e nessa
região permaneceram pelos próximos sete séculos. Um dado importante
sobre os muçulmanos é o que eles foram bastante tolerantes com relação aos
cristãos e aos judeus no que se refere a professar sua fé. Estes, embora preci-
sassem pagar algum tributo, não se obrigavam à conversão, o que redundava
na prosperidade de suas cidades, no incremento da literatura, no desenvol-
vimento da ciência e na filosofia. A arquitetura se destacou, sobretudo pelos
riquíssimos e elaborados arabescos utilizados na sua decoração (MAALOUF,
2007; WILLIAMS, 2007).
A invasão da Península Ibérica e a consequente tomada de territórios
cristãos, teve profundas repercussões para o cristianismo. Convém lembrar
que regiões importantes para a fé cristã foram conquistadas no Oriente, o
que resultou a médio prazo na separação entre as Igrejas Grega e Latina. A
repercussão mais importante foi a mudança de postura em relação ao uso
da força, da adoção da guerra para a resolução dos problemas da Igreja,

84
vide Constantino no quarto século e nos seguintes. (MAALOUF, 2007;
WILLIAMS, 2007)
As Cruzadas foram expedições bélicas europeias ao Oriente Médio,
visando recuperar locais sagrados da Cristandade que estavam nas mãos dos
chamados “infiéis” e que provocaram sangrentos confrontos entre cristãos e
muçulmanos. Pode-se imaginar que as Cruzadas foram uma resposta cristã
à expansão islâmica, na medida em que buscaram recuperar os territórios
importantes para a fé cristã. A primeira Cruzada teve início em 1096 e trouxe
a conquista de Jerusalém em 1099. Essa cruzada chamou-se “Deus vult”
(Deus o quer) e conquistou, além de Jerusalém, o principado de Antioquia e
os condados de Trípoli e Edessa, na longa marcha até a cidade sagrada. Nesse
mesmo período, a Reconquista Cristã da Espanha já estava em andamento,
tendo marcado sua primeira grande vitória em Toledo em 1085 (WILLIAMS,
2007).
Figura 2.5 | Miniatura do Cerco de Jerusalém (1099)

Fonte: Wikimedia Commons.

As cruzadas tiveram a duração de dois séculos. Esse foi um fenômeno


bastante complexo, desencadeado por vários fatores, mas, sobretudo, pela
falta de acesso dos peregrinos aos lugares sagrados para a cristandade, princi-
palmente na Palestina. Assim, quando os turcos nômades dominaram boa
parte da Ásia central até chegar em Jerusalém, em 1079, na Europa rapida-
mente começaram os preparativos para o enfrentamento. Era uma questão
de libertar a terra santa das mãos dos muçulmanos (WILLIAMS, 2007).

85
Ironicamente, a historiografia moderna concentrou-se nas cruzadas
que falharam e praticamente ignoraram as que tiveram sucesso. Nos quatro
séculos entre a queda de Toledo e a queda de Granada (1492), os cristãos
espanhóis substituíram os governantes muçulmanos em toda a Península
Ibérica, embora os muçulmanos permanecessem como minoria sob o
domínio cristão até o início do século XVII. Nos 200 anos desde a queda
de Jerusalém até o final da Oitava Cruzada (1291), os cruzados da Europa
Ocidental não pararam o avanço turco ou estabeleceram uma presença
permanente na Terra Santa. Em 1187, os muçulmanos locais conseguiram
retomar Jerusalém e, assim, conter ambições cristãs permanentemente. Na
época da Quarta Cruzada (1202–04), o movimento das Cruzadas havia se
voltado contra hereges cristãos, como os bizantinos (WILLIAMS, 2007).
Pode-se dizer que as cruzadas fracassaram no seu objetivo de conquistar
a Terra Santa para os cristãos, foram altamente dispendiosas para a nobreza
europeia e tiveram como resultado milhares de mortos. Entretanto, como
em vários aspectos da vida, apesar da catástrofe em números humanos, as
Cruzadas tiveram seus méritos. O principal e inegável é o enriquecimento da
cultura ocidental, pelas trocas e interações que se originaram entre as guerras
ou como fenômeno delas (WILLIAMS, 2007).

Reflita
O preconceito ocidental contra Islã é tão antigo quanto o próprio Islã.
Mesmo antes de Muhammad, a quase inacessível Península Arábica
tornou-se um paraíso para os praticantes de formas heterodoxas do
cristianismo que buscavam refúgio de perseguição pela igreja ortodoxa.
A Igreja, em resposta, considerou a Arábia um terreno fértil de heresias
mesmo antes do início da grande conquista islâmica no sétimo século.
O sucesso inédito da conquista e da grande civilização que surgiu junto
com ela representava a maior ameaça da Europa, política e intelec-
tualmente, por mil anos. Desde a conquista da Espanha, no início do
oitavo século, até o cerco de Viena pelos turcos otomanos em 1683, o
Islã representou uma ameaça à existência física da cristandade. Isso e a
conquista do Islã em todos os campos científicos e intelectuais durante
seu auge na Idade Média causaram uma reação no Ocidente, que
simbolizava o Islã como cruel, mal e/ou incivilizado (FIRESTONE, 1999).

86
Sem medo de errar

Vamos relembrar a situação-problema que abriu nossas análises sobre a


expansão islâmica e a importância do Islã? Você participa de uma conferência
do importante pesquisador brasileiro Jhon Tadeu e foi questionado sobre o
significado da palavra jihad e a sua associação com a “guerra santa”. Desde
11 de setembro de 2001, jihad tornou-se uma palavra familiar e assustadora.
Para resolver essa problemática, é necessário, primeiramente, que você
compreenda que a palavra jihad é um conceito polissêmico, ou seja, com
mais de um significado. Quando os árabes muçulmanos deram início à
expansão islâmica após a morte do Profeta Muhammad, eles não usavam a
palavra jihad para designá-la. Essa expansão, geralmente acompanhada de
conflitos violentos, só foi assim classificada posteriormente.
Você precisa compreender que, convencionalmente, a palavra jihad é
traduzida como “guerra santa”. Mas, em árabe, significa literalmente “esfor-
çar-se” ou “empenhar-se”. Ora, os muçulmanos que se interessam pelo seu
aspecto espiritual rejeitam sua conotação de guerra. Mas fundamentalistas
militantes, por outro lado, insistem em seu significado militar e convidam os
jovens a usar táticas de suicidas contra os infiéis.
Ademais, é importante que você entenda que muitos muçulmanos que
reconhecem a associação da jihad com a conquista a definem como uma
autorização por um representante legítimo da comunidade muçulmana. Mas
a incerteza sobre o conceito de jihad é refletida nos livros e comentários que
pretendem defini-lo, ambos nos mundos muçulmanos e não muçulmanos.
De fato, como a maioria das palavras extraídas de um contexto religioso, a
jihad tem uma longa história e um conjunto complexo de significados.

Faça valer a pena

1. Após a morte do Profeta Muhammad, os seus sucessores no comando


político da comunidade islâmica, em aproximadamente duas décadas,
criaram um verdadeiro império árabe-muçulmano, abrangendo três conti-
nentes. Sobre essa temática, analise as afirmativas que se seguem:
I. Munidos do entusiasmo da fé, os beduínos tinham a vontade única
de levar a religião para outros territórios.
II. Foi somente devido à necessidade econômica que árabes da comuni-
dade islâmica ultrapassavam os limites da Península Arábica.

87
III. A expansão e as conversões aconteceram devido a acordos com os
líderes das regiões conquistadas, que traziam vantagens político-e-
conômicas e benefícios sociais aos muçulmanos.
Considerando o contexto apresentado, está correto o que se afirma em:
a. I, apenas.
b. II, apenas.
c. III, apenas.
d. I e II, apenas.
e. I, II e III.

2.
De uma ideologia imperialista árabe de conquista nos
primeiros séculos do islã, o conceito de jihad passa a um
momento mais universalista de consolidação, expansão
e defesa da fé e de sua comunidade, agregando, por fim,
conceitos políticos advindos do contato com o ocidente:
jihad como luta anticolonial e/ou nacionalista e, final-
mente, como guerrilha, terrorismo, luta moral, modo de
vida e disciplina espiritual. (CHEREM, 2009, p.83)

Acerca da jihad, analise as afirmativas que se seguem:


I. A palavra jihad assumiu diferentes significados ao longo da história
do Islã. Originalmente designava esforço e dizia respeito, sobretudo,
à batalha interna que o fiel deveria travar para resistir às tentações
mundanas e se manter fiel ao caminho correto mostrado pelos
ensinamentos divinos.
II. No presente, a palavra jihad está muito associada à ideia de “guerra
santa”, mas originalmente não tinha essa conotação e não era usada
para identificar contextos de conflito armado entre o Islã e seus
inimigos.
III. O significado atual de jihad é resultado de uma construção histó-
rica, relacionada aos acontecimentos no mundo árabe-muçulmano
durante o século XX, em um contexto de defesa contra a pressão
ocidental.
Considerando o contexto apresentado, está correto o que se afirma em:

88
a. I, apenas.
b. II, apenas.
c. III, apenas.
d. I e II, apenas.
e. I, II e III.

3. De acordo com o medievalista Jacques Le Goff (2007), as Cruzadas produ-


ziram alguns paradoxos: os cristãos, originalmente pacíficos, promoveram
a violência, enquanto os mulçumanos, originalmente guerreiros, em suas
conquistas territoriais, praticavam a tolerância; o cristianismo promoveu a
guerra santa e foi ameaçado por ela; houve uma tentativa inicial de reuni-
ficação com os cristãos do Oriente bizantino, mas as Cruzadas selaram os
conflitos; a guerra de libertação da Palestina se transformaram em uma
perseguição aos hereges.
Sobre as Cruzadas e o Islamismo, analise as afirmativas que se seguem:
I. As Cruzadas foram uma resposta cristã à expansão islâmica, na
medida em que buscaram recuperar os territórios importantes para
a fé cristã.
II. A primeira Cruzada resultou na conquista definitiva de Jerusalém
pelos cristãos ocidentais em 1099, permanecendo sob seu domínio
até os dias atuais.
III. Um dos méritos das Cruzadas foi o enriquecimento da cultura
ocidental, pelas trocas e interações que se originaram entre as
guerras, ou como fenômeno delas.
Considerando o contexto apresentado, está correto o que se afirma em:
a. I, apenas.
b. II, apenas.
c. III, apenas.
d. I e III, apenas.
e. I, II e III.

89
Referências

AFSARUDDIN, A. Caliphate and Imamate. In: MERI, J. W. (Org.). Medieval and islamic civili-
zation: an encyclopedia. V. 1 (A-K). Nova Iorque: Taylor & Francis Group, 2006.

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Unidade 3
Altair Ferraz Neto

Hijrah (Hégira) e a tomada de Makka Al-


Mukarrama (Meca)

Convite ao estudo
Esta unidade começa com uma proposta audaciosa sobre a religião
islâmica. A audácia está em conhecer vários elementos que fundamentam o
Islamismo, dado que é um desafio até mesmo para os muçulmanos. Por isso,
é necessário esclarecer que, aqui, nossa pretensão não é uma análise, não
é um balanço e não é o levantamento crítico do Islã, mas sim trazer como
conteúdo uma narrativa sobre os preceitos do Islamismo como religião, além
do seu significado.
Nós temos um limite claro: apenas conhecer. Dissemos “apenas” porque
a narrativa por si só já constitui um desafio. Nosso esforço é na direção de
entendermos o Alcorão como livro sagrado do Islamismo, sua representação,
as Suratas, os mecanismos que compõem e estruturam do livro sagrado e que
condizem com a atitude islâmica em sua conduta.
É possível e perfeitamente compreensível que não apanhemos todos os
elementos dessa religião que movimentou o planeta, assim como é evidente
a grandiosidade do seu conteúdo. Por isso, caro aluno, nosso compromisso
é importante. A fé islâmica não pode ser compreendida fora do contexto
que fundamentou essa religião, e traremos para a seção de fechamento a
crença do Islamismo e suas influências, também pensando em conhecer o
Islã no Brasil.
É um caminho e tanto! O que nos coloca diante de um dilema sempre
plausível de interpretação e distanciamento das “preconcepções” julgadoras.
Estamos frente a desenvolver um estudo sobre um dos textos considerados
mais sagrados pelo mundo e, principalmente, por fundamentar a fé de mais
de um bilhão de pessoas.
Esperamos que você desenvolva uma reflexão acerca do Islamismo que
passe pelo ideário teológico, principalmente como estudiosos comprome-
tidos com o conhecimento dos preceitos da religião islâmica, sua compre-
ensão e reflexão sobre as influências do Islamismo, sua importância e o signi-
ficado do Alcorão como livro sagrado.
Essa finalidade nos permite uma interrogação motivadora: como
conhecer uma das maiores religiões do mundo sem desafiar ou questionar os
seus preceitos? Convidamos você a dividir conosco um espaço de conversa
sobre essa religião de um só Alláh.
Seção 1

A religião islâmica

Diálogo aberto
O que significa Islã? Essa pergunta será o guia para a interpretação e a
narrativa nesse momento. Portanto, seja bem-vindo a este momento, no
qual compilaremos e procuraremos sintetizar o significado do Islamismo em
seus preceitos. “Islã” significa aquele que é submisso a Deus. Uma submissão
voluntária a um Deus único e que é revelado pelo profeta aos homens como
uma mensagem, derivado da palavra Salam, que significa paz, em árabe.
Já sabemos que a religião islâmica nasceu quando da revelação do livro
sagrado do Alcorão pelo anjo Gabriel ao profeta Muhammad. Essa grande
matriz religiosa tem uma rica história, e os seus seguidores são chamados
de muçulmanos. Para o Islamismo, muitos profetas enviados eram da
descendência de Abraão, como seus dois filhos Isaque e Ismael, junto
com Jacó (Israel), José, Davi, Salomão, Moisés e Jesus, para falarmos em
termos mais conhecidos. Assim, consolida-se como uma grande religião de
matriz abraâmica.
Imaginemos, portanto, uma situação em que você, como pai ou mãe de
uma família de três filhos, matriculou seu caçula de sete anos em uma das
escolas da cidade. No meio do ano letivo, recebeu uma ligação da diretora
e da equipe pedagógica da escola, para uma conversa com as crianças onde
seu filho estuda. A equipe da escola e a diretora souberam que você é um
estudioso de Teologia e, por esse motivo, resolveram lhe convidar para
essa conversa com toda a escola, sobre a religião islâmica e a importância
das revelações para o Islã. Mas, afinal, quem são os muçulmanos? É o que
perguntam as crianças logo no início da conversa.
As respostas para essa e outras questões que se colocarão no exercício
de compreensão do Islamismo passarão, inevitavelmente, pelo entendimento
do Islã como religião, na consolidação do Islamismo como matriz religiosa
abraâmica e principalmente por alguns preceitos de compreensão das revela-
ções e vida do profeta Muhammad.
A consolidação do Islamismo tem muito a nos ensinar. E, como uma via
de mão dupla, a nossa compreensão abraça um leque maior: o de igualdade
religiosa e o do respeito entre as diferentes crenças, o que acreditamos ser a
via de acesso para relações sociais baseadas na tolerância e entendimento.

95
Não pode faltar

O que significa Islã?


Aquele que é submisso ou submissa a Deus. Assim começa a compre-
ensão do termo Islã como um processo voluntário de seguir a um único
Deus. O termo, em sua origem, deriva da palavra Salam, ou o de paz, na
língua árabe. Os preceitos dessa religião estão muito baseados na compre-
ensão dos profetas que sinalizam as mensagens de Deus na Terra. Por isso,
falar do Islamismo é uma tarefa complexa na medida de cada interpretação
das mensagens de Deus. A vida do profeta Muhammad foi estudada anterior-
mente e o que levantamos aqui é o ponto de partida dos preceitos que se
erguem a partir das revelações ao profeta.
Para entender o Islã é necessário compreender o monoteísmo e,
assim, o significado desse monoteísmo para o povo islâmico, que não
é único historicamente, mas, que para nossa narrativa, é passível de
compreensão atual. O monoteísmo Islâmico nega todo tipo de divin-
dade além de Alá (Deus).
Na história dos povos árabes, o politeísmo ocupava um lugar importante
quando analisamos o século VI e, com isso, a tradição de uma crença que
encerrava na Caaba o panteão de várias crenças e deuses. O surgimento do
Islã marca uma virada importante na história da Península Arábica, tanto
quanto religião e quanto Estado de uma maneira política, o que denota a
própria expansão do Império Árabe-Islâmico.
Podemos perceber que o monoteísmo, para os muçulmanos, não está
diretamente ligado ao processo de desenvolvimento das outras matrizes
religiosas como o Cristianismo e o Judaísmo, na medida em que o Islã, para
os muçulmanos, já estava presente na narrativa abraâmica. É comum encon-
trar elementos no pensamento islâmico que conduzam ao entendimento de
que o Islã já existia na história das religiões e no contexto dos personagens
bíblicos e do Alcorão.

Exemplificando
Para exemplificar o que marcamos nesse espaço, preferimos uma
narrativa de contexto que leve em conta o que está sendo colocado em
rede e sites sobre o mundo islâmico. Lembramos que nosso caso não é
opinativo, mas considera as variadas informações apregoadas sobre o
assunto, como o exemplo a seguir:

96
É suficiente dizer que o caminho do Islã é o mesmo
do profeta Abraão, porque tanto a Bíblia quanto o
Alcorão retratam Abraão como um exemplo proemi-
nente de alguém que se submeteu completamente
a Deus e dirigiu adoração a Ele somente e ninguém
mais, e sem quaisquer intermediários. Quando isso é
entendido, fica claro que o Islã tem a mensagem mais
contínua e universal do que qualquer outra religião,
porque todos os profetas e mensageiros foram
“muçulmanos”, ou seja, aqueles que se submeteram
à vontade de Deus, e eles pregaram o “Islã”, ou seja,
a submissão à vontade de Deus Todo-Poderoso ao
adorá-Lo exclusivamente e obedecer Seus manda-
mentos. (ABDULSALAM, 2009, [s.p.])

Portanto, não podemos perder de foco a diferença entre a história do


Islamismo com a sua narrativa religiosa, sobretudo porque o Império Árabe-
Islâmico e sua expansão no século VII são exemplos claros do caráter político
que tomou a história árabe e do próprio Islã. Ou seja, religiosamente, essa
matriz tem sua própria forma de crença, muito baseada no contexto das
revelações do profeta Muhammad, na escrita do Alcorão e na expansão do
século VII da era cristã. E, politicamente, a consolidação de um império
fazendo frente a grandes conquistas territoriais, políticas e econômicas para
além da Península Arábica.
Mas o monoteísmo islâmico foi um importante elemento que conduziu a fé
islâmica. O termo Islã é uma palavra árabe que significa literalmente submissão
a Deus, e os muçulmanos são aqueles que por livre vontade e disposição se
submetem à adoração de um só Deus, vivendo de acordo com suas palavras.
No livro O mundo muçulmano, Peter Demant descreve: “[…] o mundo
muçulmano abrange, nos dias de hoje, cerca de 1,3 bilhões de seres humanos, um
quinto da humanidade com a qual precisamos inevitavelmente repensar a convi-
vência” (DEMANT, 2011, p. 299). Isso denota a importância de se compreender
a crença e o significado do Islã. Para essa compreensão é necessário entender que
o monoteísmo islâmico está diretamente ligado aos seus preceitos ideológicos
e isso não é tarefa de simples apreensão, na medida em que a história do Islã se
entrelaça com as conquistas e o desenvolvimento religioso.
Por isso, falar de Islamismo é entender que o seu significado está em
conexão com os seus preceitos que dizem ser o profeta Muhammad, o
enviado de Deus aos homens, assim como as figuras de vários outros profetas.
Para os muçulmanos, os profetas enviados estavam diretamente ligados à

97
descendência de Abraão, seus filhos Isaque e Ismael, assim como Moisés e
o próprio Jesus. Portanto, a complexidade de uma narrativa não abraça todo
conteúdo e significado dos profetas para o Islamismo.
Segundo a crença islâmica, cada profeta foi enviado para o mundo dos
homens quando a humanidade se desviara de seu caminho e da verdadeira
religião de um único Deus, e caberia então seguir os mandamentos de Deus
na voz das revelações dos profetas. Muhammad está para o Islamismo como
elemento dessas revelações e, mais que isso, figura central no processo de
consolidação do Islã na história das civilizações orientais e ocidentais.

Reflita
É encontrável nos preceitos islâmicos a narrativa histórica dos profetas que,
analogamente, também são referências em outras narrativas religiosas
como o Judaísmo e o Cristianismo. Porém, a figura de Muhammad exerce
a centralidade pela importância atribuída à “revelação”.

Quando Maomé começou a pregar a Palavra em Meca,


toda a Arábia encontrava-se num estado de desunião
crônica. Cada uma das numerosas tribos beduínas da
península era uma lei à parte, estando constantemente
em guerra contra outros grupos. Para os árabes, a união
parecia impossível, e isso significava que eram incapazes
de fundar uma comunidade política que lhes permitisse
ocupar seu lugar no mundo. (ARMSTRONG, 2001, p. 38)

Neste sentido, compreender o significado do Islã se dá em duas principais


vertentes, histórica e religiosa, não necessariamente excludentes, mas nem
sempre complementares, e que marcam dentro disso o seu conteúdo socio-
lógico. Para nós é suficiente compreendermos que, para o mundo muçul-
mano, não se segue uma “nova” religião, mas uma religião que há tempos traz
aos homens o seu significado. Resumidamente, o significado de Islã extra-
pola o horizonte puramente religioso sobre o assunto, marcando um espaço
importante na história das civilizações e na contemporaneidade em termos
absolutos em uma das maiores religiões monoteístas que já existiu.

Muhammad no monte Hira e a consolidação do Islã


Os muçulmanos não adoram a imagem do profeta Muhammad e sim
se voltam às mensagens de Alá. Muhammad seria, então, o mensageiro de
Alá para os homens e isso fica evidente pela centralidade das revelações para

98
o Islamismo. O livro sagrado do Islamismo fora escrito posteriormente às
revelações, na medida em que devemos considerar o caráter oral da socie-
dade árabe no século VII, quando a escrita era considerada nobre aos que
exerciam “conhecimento” em meio àquela sociedade.
Mostrar a imagem de Muhammad é considerado uma ofensa para o Islã.
Isso requer o entendimento de que o próprio Islamismo deve estar presente
na atitude muçulmana e no seguir a um único Deus, como é próprio do
monoteísmo islâmico.
Para o Islamismo a figura de Jesus Cristo é muito respeitada, assim
como a de Maria, sua mãe. Cristo, no entanto, não seria o filho de Deus na
terra, mas um dos profetas carregadores da mensagem de Deus. O primeiro
dos profetas teria sito Adão, e o último o próprio Muhammad; por isso, o
monoteísmo islâmico apregoa no Alcorão os mandamentos e a lei final de
seus preceitos, o que todo muçulmano deve seguir.

Como religião, o islã é, sob todos os aspectos, muito


mais próximo da tradição judaico-cristã que de qualquer
uma das grandes religiões da Ásia, como o hinduísmo,
o budismo ou o confucionismo. O judaísmo e o islã têm
em comum a crença em uma lei divina que regula todos
os aspectos da atividade humana, incluindo até mesmo a
comida e a bebida. Cristãos e muçulmanos partilham um
mesmo triunfalismo. Em contraste com as outras religiões,
incluindo o judaísmo, acreditam que são os únicos afortu-
nados a receber e guardar a mensagem final de Deus para
a humanidade, sendo sua obrigação levá-la ao resto do
mundo. Comparadas com as mais antigas religiões orien-
tais, todas as três religiões do Oriente Médio – judaísmo,
cristianismo e islamismo – estão intimamente relacionadas
e aparecem, de fato, como variantes da mesma tradição
religiosa. (LEWIS, 2004, p. 17)

A citação do monte Hira na história se passa pelo local onde as revelações


foram trazidas para o profeta. Muhammad se refugiava para orações nesse
monte que ficou muito conhecido pela primeira revelação, fato o qual os
muçulmanos chamam de “noite do decreto”. Essa primeira revelação, consi-
derada central para os muçulmanos, marca o surgimento do Islamismo pelas
mãos do profeta, por volta do ano 610 da era cristã, e marca o início de um
império importante na história das civilizações.

99
Assimile
É importante compreendermos as características religiosas do
Islamismo à luz dos episódios narrados na história. A primeira revelação
no monte Hira, os anos de vida e a trajetória de Muhammad que marcam
a construção do Islamismo:

Por volta do ano 610, durante o mês do ramadã, um


mercador árabe da cidade de Meca, no Hedjaz, teve
uma experiência que, em última instância, transfor-
maria a história do mundo. Todos os anos, Muhammad
ibn Abdallah fazia um retir]o espiritual com a mulher
e a família numa caverna do monte Hira, no vale de
Meca. Essa era então uma prática comum na península
arábica: Maomé passaria o mês em oração e distribuiria
esmolas e comida aos pobres que fossem visitá-lo
durante o período sagrado. (ARMSTRONG, 2001, p. 37)

Para entendermos a consolidação do Islã neste caminho, temos que


compreender alguns argumentos que diferenciam Islã em sua terminologia
atual, porque alguns estudos apontam para esse dado da seguinte forma:

O termo Islã é usado para definir determinadas áreas


geográficas e civilizacionais, como a Península Arábica ou o
chamado Oriente Médio, onde a religião Islâmica é predo-
minante. Na verdade, se a palavra Árabe se refere a um
povo específico, Oriente Médio diz respeito a uma região
geográfica em particular e Islã, como vimos, a uma religião.
Toda essa confusão tem origem no caráter total do Islã,
que é mais do que um simples corpo de crenças, mas algo
que influencia e determina (ou pelo menos pretende deter-
minar) toda vida social e mesmo as esferas da economia, da
política e das relações internacionais. (DEMANT, 2011, p.16)

Por isso, falar do Islamismo é entender que essa religião transcende seu
aporte histórico e sua consolidação para além da Península Arábica e está
diretamente ligada à biografia do profeta Muhammad, sua historiografia e
principalmente as relações sociais que culminaram nessa grande religião. O
Islã, propriamente, consolida-se após as revelações de Muhammad no monte
Hira, e seu legado transcende aos anos de escrita do Alcorão.

100
Não há como negar que a consolidação do Islamismo tem sua matriz na
vida de Muhammad e suas revelações, por esse motivo, é preciso compreender
que as condições objetivas estavam colocadas, “porque a humanidade não se
propõe nunca senão os problemas que ela pode resolver, pois, aprofundando
a análise, ver-se-á sempre que o próprio problema só se apresenta quando
as condições materiais para resolvê-lo existem ou estão em vias de existir”
(MARX, 2008, p. 48) e o Islamismo tem explicações históricas diretamente
ligadas à vida do profeta Muhammad.
O que podemos entender com esse dado? Que, objetivamente,
Muhammad era tido como comerciante bem-sucedido, integrante do clã
hashimita, o Banu Hashim, linhagem respeitável que fazia parte da tribo dos
coraixitas dominante em Meca, uma inserção que permitiu a ele transitar
entre vários elementos da sociedade árabe no século VII. Essa movimentação
está diretamente ligada à personalidade e à vida de Muhammad, que pode ser
descrita como alguns estudos apresentam:

Na época, Maomé tinha cerca de 25 anos, altura mediana


e constituição física atarracada, de acordo com algumas
descrições, com cabelos castanhos avermelhados
compridos, e uma barba emaranhada que emoldurava a
cabeça grande e redonda. Dizem que suas passadas eram
largas e gingadas, e que seus olhos escuros e penetrantes
e a voz grave e cativante faziam com que fosse notado
pelas pessoas que, de outra maneira, não dariam atenção
a alguém como ele, de importância social e material indis-
tinta. (LEWIS, 2010, p. 30-31)

Uma religião abraâmica


O próprio desenvolvimento do Islã envolve várias etapas, as quais
não podem ser entendidas sem a recorrência à vida de Muhammad e
ao conteúdo dos preceitos religiosos. Sua matriz de religião abraâmica
envolve entender que muitos profetas enviados eram da descendência de
Abraão, como seus dois filhos Isaque e Ismael, junto com Jacó (Israel),
José, Davi, Salomão, Moisés e Jesus, entre outros portadores da mensagem
do Deus único (Alá).
Abraão, na história das religiões, é um personagem central nas análises
e nas narrativas. A maioria das leituras parte da figura bíblica que Abraão
representa, e essa história é contada a partir do momento em que ele aceita
ao chamado de Deus, deixa para trás sua pátria e vai em busca daquilo que o

101
Senhor destina a ele. “Deixando tudo, só tem diante de si um único horizonte:
a terra que o Senhor lhe promete” (PERONDI, 2013, p. 330).

Abraão é o pai da fé e é ele que dá início à grande aventura da


inserção de Deus na história humana, por isso adquire uma
dimensão diferente, tornando-se modelo dos chamados.
Ao mesmo tempo, é como se o texto bíblico estivesse nos
fazendo o mesmo convite, quaisquer que sejam o tempo
histórico e lugar em que nos encontramos: “Sai da tua
terra!”. É o convite de Deus para a grande aventura da fé,
mesmo nestes tempos sombrios. (PERONDI, 2013, p. 329)

Para o Islamismo, as mensagens contam a sua história. As revelações


e a palavra de Deus só poderiam ter sido traduzidas por meio de pessoas
iluminadas, como a figura dos profetas. Esses personagens deixaram de
lado a adoração de todas as outras divindades para seguirem a Deus,
e é aí que a história do Islamismo começa sua trajetória. No contexto
de observação dos profetas, Abraão exerce um ponto de partida da
história da religião islâmica. Os muçulmanos são os que acreditam
nessa mensagem dos profetas e o monoteísmo, marca, portanto, a raiz
do Islamismo enquanto religião.

A nova religião desenvolvida por Maomé é de doutrina


monoteísta, com submissão total a Alá. Essa doutrina do
monoteísmo não é originária da Arábia, mas derivada do
modelo judaico-cristão. A primeira atitude de Maomé em
relação à difusão da doutrina foi fazer duras críticas aos
cultos e propagar iminentes catástrofes e reivindicações
sociais, o que irritou a classe aristocrata de Meca. Portanto,
ele teve que enfrentar a perseguição na cidade de Meca.
(ANDRADE, 2019, p. 113.)

É possível que a história do Islã surpreenda pela sua formação social em


face à construção do grande Império Árabe-Islâmico, porém, o que podemos
retirar do seu conteúdo histórico é o ideário monoteísta ligado às concep-
ções, trajetória e vida dos profetas portadores da mensagem de Deus para
os muçulmanos, dado que começa pela compreensão de Abraão e é revelado
com a formação e vida do profeta Muhammad.

102
Sem medo de errar

O Islamismo e sua história estão em uma permanente construção. O que


podemos entender nos séculos do Islã é que a mensagem que os profetas,
como portadores da voz de Deus aos homens, estenderam e passaram, por
meio das concepções religiosas, incluem Muhammad o profeta do Islã.
No século VI d.C. uma crença constrói um império. Na atualidade, é uma
religião que está entre as maiores do planeta em termos de seguidores. O Islã
representa a crença monoteísta e deve ser interpretada também sociologica-
mente. Qual é o real significado do Islã?
A real submissão a Deus para os muçulmanos – derivada da paz, como
quer o próprio termo Salam em árabe – nos diz muito dos preceitos do
Islamismo. Não há como negar que a religião islâmica foi um imenso valor
que os povos árabes criaram para que pudessem subsistir nas condições em
que viviam. No entanto, precisamos entender que socialmente o Islamismo
alcançou algo mais, e que pela crença e vida do profeta Muhammad, estende
seus valores séculos depois.
Voltemos à situação-problema: você tem três filhos e matriculou seu
caçula de sete anos em uma das escolas da cidade.
Durante o período escolar, recebeu uma ligação da diretora e da equipe
pedagógica da escola onde seu filho estuda, pedindo que conversasse e expli-
casse um pouco mais sobre o Islamismo. A equipe da escola e a diretora
souberam que você é um estudioso de Teologia e, por esse motivo, resol-
veram lhe convidar para essa conversa com os pequenos e com toda a escola
sobre a religião Islâmica, a importância das revelações para o Islã e o que de
fato significa Islã. “O que é muçulmano?”, perguntam as crianças logo no
início da conversa. Você logo inicia sua fala fazendo um resgate histórico
da construção do Islamismo, falando da vida do profeta Muhammad e das
revelações que iniciaram o Islamismo.
Muçulmano, portanto, quer dizer submisso ou submissa a Deus, a partir
da crença em um só Deus (Alá), e Muhammad é portador dessa mensagem,
que de uma certa forma aproximaria Deus dos homens. As revelações que
mais adiante formatariam o Alcorão como livro sagrado foram colocadas
ao profeta Muhammad pelo próprio anjo Gabriel, segundo a tradição
islâmica professa.
Hoje, séculos depois da formação do Islamismo, as revelações repre-
sentam de uma certa forma o núcleo da concepção do Islã, que diz que o
objetivo de todas as mensagens deixadas é a intenção de levar as pessoas a
Deus, o mesmo Deus de Abraão e outros profetas.

103
Faça valer a pena

1.
A figura de Maomé foi um divisor de águas para o processo
histórico dos árabes. Nós conhecemos seus ensinamentos
pelos capítulos (Suras) do Alcorão (o selo dos livros
monoteístas, como a Torá e a Bíblia) e das hadiths. Maomé
(também chamado selo dos profetas monoteístas) nasceu
em 571 na tribo dos coraixitas. (LEME, 2019, p. 88)

A figura e a representação do profeta Muhammad para o Islamismo é central


nas concepções e preceitos que constroem o Islã. Sabendo disso dentro dos
estudos da unidade e do significado do Islã, julgue as afirmativas a seguir em
(V) Verdadeiras ou (F) Falsas.
( ) Para os muçulmanos, os profetas enviados estavam diretamente ligados
à descendência de Abraão, seus filhos Isaque e Ismael, assim como Moisés e
o próprio Jesus.
( ) “Islã” significa e representa o politeísmo árabe. Na origem dos povos
árabes, o islã representa a crença de todos os deuses da Caaba.
( ) O mundo muçulmano abrange, nos dias de hoje, cerca de 1,3 bilhões de
seres humanos, um quinto da humanidade, com quem precisamos inevita-
velmente repensar a convivência.
Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta
a. V – V – V.
b. V – F – V.
c. V – F – F.
d. F – F – V.
e. F – F – F.

2. Sabemos que a religião islâmica nasceu quando da revelação do livro


sagrado do Alcorão pelo anjo Gabriel ao profeta Muhammad. Essa grande
matriz religiosa tem uma rica história. Seus seguidores são chamados
de muçulmanos, que significa “aquele ou aquela que é submisso a Deus”.
Sabendo da origem do Islamismo e do seu significado, avalie as seguintes
asserções e a relação proposta entre elas.

104
I. O termo Islã é usado para definir determinadas áreas geográficas
e civilizacionais, como a Península Arábica ou o chamado Oriente
Médio, onde a religião islâmica é predominante. Na verdade, se a
palavra “árabe” se refere a um povo específico, Oriente Médio diz
respeito a uma região geográfica em particular, e Islã, como vimos,
a uma religião.
PORQUE
II. Toda essa confusão tem origem no caráter total do Islã, que é mais do
que um simples corpo de crenças, mas algo que influencia e deter-
mina (ou pelo menos pretende determinar) toda vida social e mesmo
as esferas da economia, da política e das relações internacionais.
A respeito dessas asserções, assinale a alternativa correta.
a. As asserções I e II são proposições verdadeiras, mas a II não justifica a I.
b. As asserções I e II são proposições verdadeiras e a II justifica a I.
c. A asserção I é uma proposição verdadeira e a II, falsa.
d. A asserção I é uma proposição falsa e a II, verdadeira.
e. As asserções I e II são proposições falsas.

3.
Em termos espaciais, o domínio do islã estende-se do
Marrocos à Indonésia, do Cazaquistão ao Senegal. Tempo-
ralmente, retrocede a mais de 14 séculos, ao advento e à
missão do profeta Maomé na Arábia, no século VII d.C.,
quando criou a comunidade e o Estado islâmicos. No período
que historiadores europeus vêem como um negro interlúdio
entre o declínio da civilização antiga – Grécia e Roma – e o
surgimento da moderna, ou seja, da Europa, o islã era a civili-
zação que liderava o mundo, marcada por seus grandes e
poderosos reinos, pela riqueza e variedade da indústria e do
comércio, por suas ciências e artes engenhosas e criativas.
Muito mais que a cristandade, o islã foi o estágio interme-
diário entre o antigo Oriente e o moderno Ocidente, para o
qual contribuiu de modo significativo. (LEWIS, 2004, p. 17)

Sabendo das características históricas do Islamismo, analise as afirma-


tivas a seguir:

105
I. Como religião, o Islã é, sob todos os aspectos, muito mais próximo
da tradição judaico-cristã que de qualquer uma das grandes religiões
da Ásia, como o hinduísmo, o budismo ou o confucionismo. O
judaísmo e o islã têm em comum a crença em uma lei divina que
regula todos os aspectos da atividade humana, incluindo até mesmo
a comida e a bebida.
II. Comparadas com as mais antigas religiões orientais, todas as três
religiões do Oriente Médio – judaísmo, cristianismo e islamismo –
estão intimamente relacionadas e aparecem, de fato, como variantes
da mesma tradição religiosa.
III. Cristãos e muçulmanos partilham um mesmo triunfalismo. Em
contraste com as outras religiões, incluindo o judaísmo, acreditam que
são os únicos afortunados a receber e guardar a mensagem final de Deus
para a humanidade, sendo sua obrigação levá-la ao resto do mundo.
Considerando o contexto apresentado, é correto o que se afirma em:
a. I e II, apenas.
b. I e III, apenas.
c. II e III, apenas.
d. III, apenas.
e. I, II e III.

106
Seção 2

O Livro Sagrado do Islamismo

Diálogo aberto
Façamos uma reflexão em um ponto importante do Islã. A mensagem
de Deus fora enviada aos homens pelo anjo Gabriel; mensagem essa que
foi passada ao profeta Muhammad por meio de versos recitados. Assim,
toda origem do Islamismo começa a partir do que é conhecido pelo mundo
muçulmano como “revelação”.
Guardadas as devidas distinções históricas, precisamos, como ponto de
partida em nosso estudo, entender como a escrita do Alcorão, o livro sagrado
do Islamismo, foi construída. Isso é importante porque sua compreensão
exige fazer um caminho para remontar como em uma sociedade de traços
notadamente orais – a escrita era algo importante e raro, e os que sabiam
escrever tinham privilégios –, foi possível a transmissão das mensagens mais
importantes do Islã.
Lembremos que estamos falando dos séculos VI e VII, se considerarmos
o calendário cristão. Portanto, na origem dos povos árabes acontece a impor-
tante passagem de uma sociedade com características de religiosidade polite-
ísta para uma heterogênea sociedade notadamente monoteísta. Na origem
dessa transformação está o Alcorão.
Podemos fazer um exercício de compreensão. Imagine que você, ao
passar em frente a uma Mesquita, tem a curiosidade de conhecer o universo
e os preceitos islâmicos. Logo na entrada é bem recebido por um muçul-
mano, que fala com você de maneira cordial. Observando que ele carrega o
Alcorão em suas mãos, de imediato você se apresenta como um estudante
de Teologia, dizendo que gostaria de manusear o livro. Imediatamente, o
cordial muçulmano pergunta: “você sabe o que esse livro significa para nós,
muçulmanos? ” Em uma alusão à prática muçulmana e ao respeito com o
livro sagrado do Islamismo, você deve responder essa questão com o que
aprendeu sobre o significado do Alcorão em nossos estudos.
É possível que você utilize o que conheceu sobre o Islamismo para desen-
volver argumentos de compreensão do que o mundo muçulmano propõe
como “livro sagrado”. Mas, mais do que isso, devemos entender e refletir no
verdadeiro significado de relações que esse instrumento tem para o Islã, para
o mundo islâmico e para toda comunidade muçulmana.

107
Com a sua atitude de pesquisador, convidamos você a mergulharem no
universo islâmico, de maneira a abordar os conteúdos como uma narrativa
do assunto, sem pretensão etnocêntrica e com base, principalmente, no apoio
sociológico do tema.

Não pode faltar

O Alcorão sagrado e o processo de socialização


Você já sabe definir o que significa processo de socialização? É muito
comum, em situações cotidianas, encontramos pessoas dizendo: “você tem
que socializar mais! ” ou “tem que ser mais sociável!”, como se socialização
fosse algo de que pudéssemos estar relativamente fora ou como se ela fosse
uma opção. O fato é que ninguém vive fora da sociedade. O fato de vivermos
à margem de alguns fenômenos sociais não nos permite afirmar que estamos
fora dela, uma vez que aí reside o fator fundamental de nossa conduta social.
Somo seres sociais na essência.
Esse conceito pode ajudar na compreensão de um outro, que para nós é
fundamental aqui: o conceito de civilização. Segundo Norbert Elias, “’civili-
zação’ descreve um processo ou, pelo menos, seu resultado. Diz respeito
a algo que está em movimento constante, movendo-se incessantemente. ”
(ELIAS, 2011, p. 24)

O conceito de “civilização” refere-se a uma grande varie-


dade de fatos: ao nível da tecnologia, ao tipo de maneiras,
ao desenvolvimento dos conhecimentos científicos, às
ideias religiosas e aos costumes. Pode se referir ao tipo de
habitações ou à maneira como homens e mulheres vivem
juntos, à forma de punição determinada pelo sistema
judiciário ou ao modo como são preparados os alimentos.
Rigorosamente falando, nada há que não possa ser feito
de forma “civilizada” ou “incivilizada”. Daí ser sempre
difícil sumariar em algumas palavras tudo o que se pode
descrever como civilização. (ELIAS, 2011, p. 23)

Assimile
Para a Sociologia, a “socialização” é um conceito fundamental. No
processo de interação social, a socialização passa pela forma como
transmitimos os valores e todo arcabouço social por meio dessas
relações, que na essência são sociais. Para Norbert Elias, as civiliza-

108
ções devem considerar esse conceito como um construto que torna
possível compreender o complexo conceito de civilização. Para o autor,
a história contada a partir de referências europeias como elementos
centrais deixa de considerar alguns elementos essenciais que deslocam
a compreensão geral das complexas sociedades humanas.

Mas se examinamos o que realmente constitui a


função geral do conceito de civilização, e que quali-
dade comum leva todas essas várias atitudes e ativi-
dades humanas a serem descritas como civilizadas,
partimos de uma descoberta muito simples: este
conceito expressa a consciência que o Ocidente
tem de si mesmo. Poderíamos até dizer: a consci-
ência nacional. Ele resume tudo em que a sociedade
ocidental dos últimos dois ou três séculos se julga
superior a sociedades mais antigas ou a sociedades
contemporâneas “mais primitivas”. Com essa palavra,
a sociedade ocidental procura descrever o que lhe
constitui o caráter especial e aquilo de que se orgulha:
o nível de sua tecnologia, a natureza de suas maneiras,
o desenvolvimento de sua cultura científica ou visão
do mundo, e muito mais. (ELIAS, 2011, p. 23)

Essa essência social permite uma reflexão sobre a religiosidade nas civili-
zações, e um dado importante a perceber do ponto de vista da ciência, como
demonstra Émile Durkheim em seu livro intitulado As formas elementares da
vida religiosa, a própria religiosidade também faz parte desse construto social.

Dizemos de um sistema religioso, que ele é o mais primi-


tivo que nos é dado observar, quando ele preenche as duas
condições seguintes: em primeiro lugar, que se encontra
em sociedades cuja organização não é ultrapassada por
nenhuma outra em simplicidade; é preciso, além disso, que
seja possível explica-lo sem fazer intervir nenhum modelo
tomado de uma religião anterior (DURKHEIM, 2003, p. 5)

Toda essa conversa científica sobre o processo de socialização e civili-


zação vem para que possamos compreendê-los como conceitos. Eles
permitem explicar como, pela transmissão de normas, regras, hábitos,

109
condutas sociais, as sociedades são construídas em seus elementos mais
importantes: as relações sociais.
Existem concepções que dizem que o Alcorão – ou como podemos
encontrar em algumas traduções, “Corão” –, foi escrito após a morte do
profeta Muhammad, entendendo que os versos não foram escritos por ele
de “próprio punho”, mas que o livro mais sagrado do Islamismo fora codifi-
cado e sistematizado por meio de portadores da escrita, com o direto apoio
e palavra dos que conviveram com o profeta nos primeiros momentos. Essa
escrita é resultante das mensagens enviadas pelo próprio Alá, segundo a
tradição islâmica. Também não podemos estabelecer a comparação com
o aspecto bíblico por esse motivo. Para o mundo islâmico, o Alcorão é a
própria palavra de Deus (Alá), o único intermediário nessa relação sagrada,
fora o profeta Muhammad.
Para o Islamismo, o Alcorão é mais do que um livro sagrado. A preser-
vação do seu conteúdo é mais do que a essência dos escritos que foram
deixados de inúmeras formas e das mais variadas fontes. Essas diferentes
formas de escrita do Alcorão já existiam e foram deixados como relatos pelos
que seguiam o próprio profeta e o Alcorão, como o mundo muçulmano
preconiza hoje, de forma a sintetizar – em um único livro – todos os versos
recitados ao profeta como mensagem de Deus aos homens, após a sua morte.
Uma das maiores crenças do Islã é na autenticidade e veracidade das mensa-
gens presentes no livro, considerado um dos textos mais sagrados do mundo.
A civilização árabe era uma no século VI e mudou radicalmente a partir
do século VII. Com configurações extremante diferentes, a Península Arábica
e a fundação do Islamismo têm como marco o Alcorão e, principalmente, a
revelação das mensagens.

Reflita
Você sabia que, segundo alguns pesquisadores, o domínio islâmico
durou cerca de 14 séculos, perdendo essa dominância apenas nos
últimos três séculos?

Em termos espaciais, o domínio do islã estende-se


do Marrocos à Indonésia, do Cazaquistão ao Senegal.
Temporalmente, retrocede a mais de 14 séculos, ao
advento e à missão do profeta Maomé na Arábia, no
século VII d.C., quando criou a comunidade e o Estado
islâmicos. No período que historiadores europeus
vêem como um negro interlúdio entre o declínio
da civilização antiga – Grécia e Roma – e o surgi-

110
mento da moderna, ou seja, da Europa, o islã era a
civilização que liderava o mundo, marcada por seus
grandes e poderosos reinos, pela riqueza e varie-
dade da indústria e do comércio, por suas ciências
e artes engenhosas e criativas. Muito mais que a
cristandade, o islã foi o estágio intermediário entre
o antigo Oriente e o moderno Ocidente, para o qual
contribuiu de modo significativo. Durante os últimos
três séculos, contudo, o mundo islâmico perdeu sua
dominância e liderança e ficou para trás do moderno
Ocidente e também do Oriente rapidamente moder-
nizado. (LEWIS, 2011, p. 17)

Até chegarmos à escrita do Alcorão, é preciso notar que o monoteísmo


árabe, de maneira direta, não surge da noite para o dia. Os anos de escrita
do Alcorão após a morte do profeta Muhammad são precedidos pela trans-
formação da península e pela história de vida também de Muhammad, como
afirmam alguns estudiosos. Isso principalmente porque a configuração de uma
sociedade heterogênea, como viviam os povos árabes no século VI, só poderia
ser modificada e sucedida por outra mediante uma ruptura de transformação
que reunisse os ideais dessa sociedade, como representava a figura do profeta.
Por esse motivo é que o Islamismo e a religião do Islã estão diretamente
baseados no Alcorão e na Sunnah, os atributos e todos os ensinamentos e
mensagens deixados pelo profeta Muhammad. A vida do profeta está umbili-
calmente ligada ao Alcorão, como livro sagrado, que é para os muçulmanos
a essência do Islã. Os preceitos religiosos da Sunnah demonstram essa parti-
cularidade que, da perspectiva islâmica, coloca Muhammad no conjunto dos
profetas e mensageiros enviados aos homens por Deus.
O “divino” e o “sagrado” se misturam na biografia de Muhammad, porém
é preciso cautela com as concepções estritamente religiosas em considerar a
história com a particularidade dos preceitos religiosos, sobretudo porque o
Islamismo representou um divisor no marco histórico das sociedades árabes.

Exemplificando
A Sunnah pode ser explicada pelos preceitos islâmicos da seguinte maneira:

O termo Sunnah vem da palavra raiz sanna, que signi-


fica pavimentar o caminho ou facilitar a passagem
em um caminho de modo que se torne um meio

111
comumente seguido por todos que vierem depois.
Assim, a palavra Sunnah pode ser usada para descrever
uma rua, estrada ou caminho no qual viajam pessoas,
animais e carros. Adicionalmente, pode-se aplicar
a um modo profético, ou seja, a lei que trouxeram
e ensinaram como explicação ou clarificação de um
livro divinamente revelado. Normalmente o modo
profético inclui referências a seus ditos, ações, carac-
terísticas físicas ou traços de caráter. Do ponto de
vista islâmico, a Sunnah se refere a qualquer coisa
narrada ou relacionada ao profeta Muhammad, que
a misericórdia e bênçãos de Deus estejam sobre
ele, traçados autenticamente a ele em relação à sua
fala, ações, características e aprovações silenciosas…
(ISLAAM.NET, 2014, [s.p.])

A Sura e a organização
No ano de 610 do calendário cristão ocorreu a primeira “revelação”. A
revelação dos primeiros versos do que mais tarde viria a solidificar o livro
sagrado do Alcorão fora relatado ao profeta Muhammad em vinte e dois anos
posteriores, e seria o pilar da religião islâmica.
Cada capítulo do Alcorão é definido como Sura, também conhecido
como Surata. Cada Surata, por sua vez, é composta por sinais ou versículos,
que traduzem a mensagem de Alá para os homens de maneira direta. Essa
narrativa está de acordo com os preceitos islâmicos e com a Sunnah, dos
exemplos de conduta relacionados à vida e biografia do profeta Muhammad.
Portanto, a construção do Islamismo como religião tem essa base própria
na vida e nas revelações de Muhammad, como versam algumas narrativas
que, da perspectiva científica nos estudos do assunto, parecem interessantes
e ilustram bem os relatos históricos:

A revelação de Deus veio como um raio. O ano do calendário


cristão era 610 – o mesmo ano em que Focas, o usurpador
insensato, foi assassinado e o Império Romano Oriental
emergiu de um longo pesadelo de governo equivocado e
caos. Maomé estava em seu 40º ano de vida. Era o mês de
Ramadã, possivelmente a noite do dia 26 ou 27 – “a noite do
destino”. A força o tomou e o comprimiu três vezes. “Recite

112
em nome do Senhor, aquele que cria!” Ordenou um anjo,
que Maomé identificou muito depois como Gabriel (Jibril),
de modo repentino e eletrizante. “Ele cria um homem de
um coágulo de sangue”, “Recite!”, ressoou a voz. “O Senhor
é o mais generoso, que com a pena ensinou ao homem
o que ele não sabia.” Maomé estava em pé, mas caiu de
joelhos e, como Ibn Ishaq registrou, relatou: “Saí me arras-
tando, com os ombros tremendo. Procurei Cadija e disse:
‘Cubra-me! Cubra-me!’”. Sem ter muita certeza a respeito
da verdade da mensagem e do imperativo apavorante que
ele precisava aceitar, ele quase perdeu sua sanidade mental
de tanto desespero. (LEWIS, 2010, p. 34)

Assimile
Você sabia que segundo fontes islâmicas e traduções específicas sobre
a Sura – ou Suratas –, as traduções e significados podem ser observados
como etapas para se conhecer a mensagem de Alá no Alcorão?

A forma alterada do substantivo feminino surah, que


significa degrau, fase, e, por analogia, cada um dos
capítulos do Alcorão, por meio dos quais se ascende
a Deus. Cada sura é composta de āyāt, sinais ou versí-
culos, de número variado, onde transluz a infinita
sabedoria divina. O título das suras, segundo uma
tradição oriental, prende-se mais a uma de suas
palavras que, propriamente, ao conteúdo geral da
sura. (NASR, [s.d.], p. 1)

No ano de 632 d. C. morre o profeta Muhammad. Começa, então, uma


nova era para o Islã, que acomete os anos de expansão islâmica para além da
Península Arábica, dado que pode ser observado com a própria expansão
do Império Árabe-Islâmico. A formação e a expansão do Império Islâmico
começa logo após a morte de Muhammad, “conquistada Meca, o Império
Islâmico começava a se formar, conduzido pelo poder dos califas, como eram
chamados os líderes árabes, ao mesmo tempo chefes religiosos e políticos. ”
(VICENTINO, 2016, p. 195).

Saiba mais
Segundo historiadores:

113
Após a morte de Maomé, em 632, o esforço de
expansão religiosa prosseguiu. Esse empenho
é chamado no islamismo de jihad, que significa
‘dedicação’ e ‘luta’ para alcançar a fé perfeita na
própria consciência e na daqueles que ainda não a
conhecem. A palavra também foi interpretada como
“guerra santa” contra os inimigos do islã. (VICENTINO,
2016, p. 195)

A sistematização do livro sagrado obriga o descarte de todas as outras fontes,


na tentativa de preservar de maneira mais “pura” o sentido e a integridade das
mensagens deixadas pelo profeta. Existem estudos que revelam que a escrita do
livro e das mensagens traduzidas e reunidas em uma só fonte foi devido à neces-
sidade de se preservar a memória do Islã, sobretudo pelos conflitos que ocorriam
tanto no interior do Islã como com outras matrizes religiosas e ideológicas. Sobre
isso, verifique a afirmação de um dos estudiosos no assunto:

Apenas um ano após a morte do Profeta sentiu-se a necessi-


dade de se recolher esses documentos espalhados numa só
coleção maneável, fácil de se consultar e na qual as partes
de cada capítulo se ligassem conforme a ordem já fixada
nas memórias e sem uma solução de continuidade. Essa
ideia foi sugerida por Omar ao primeiro califa Abu Bakr após
a batalha de Iamâmah contra o falso profeta Mussailama,
batalha esta em que foram mortos centenas de muçulmanos
incluindo setenta “portadores do Alcorão”. Temendo-se uma
diminuição progressiva do número desses “portadores” pelas
eventuais guerras, os dirigentes ensejaram, dessa forma,
a colocação da totalidade da fonte escrita em segurança e
também a aprovação da forma desse documento reunido pela
autoridade dos leitores existentes e de todos os companheiros
do Profeta, os quais separadamente sabiam, cada um, deter-
minadas partes do Alcorão. (NASR, 1972, p. 29)

O livro do Alcorão apresenta, logo em seu início, a característica principal


do Islã: o monoteísmo. O impacto que esse elemento teria nas demais crenças,
tanto na Península Árabe quanto na formação do Islamismo até à escrita do
livro sagrado, é perceptível já na sua abertura:

114
Em nome de Allah, O Misericordioso, O Misericordiador,
Louvor a Allah, O Senhor dos mundos. O Misericordioso,
O Misericordiador. O Soberano do Dia do Juízo! Só a Ti
adoramos e só de Ti imploramos ajuda. Guia-nos à senda
reta, À senda dos que agraciaste; não à dos incursos em Tua
ira nem à dos descaminhados. (NARS, [s.d.], p. 1-2)

Resumidamente, para o mundo islâmico é um livro que propõe ensina-


mentos de como se agir na vida, sintetizando uma transformação impor-
tante na história medieval, que coloca o Império Árabe-Islâmico no mapa
como um dos maiores impérios e sociedades, assim como uma das maiores
religiões do planeta, levando em conta o período em que escrevemos.

O Alcorão e a Torá: algumas semelhanças


O livro sagrado do Islã foi concebido mediante ao que ficou conhecido
como “revelação”. Isso é, também, muito explicado e tem como base a religião
e a fé islâmicas. Os muçulmanos acreditam que o Alcorão é o último livro
sagrado deixado para a humanidade e que de uma certa maneira “anularia” os
livros anteriores, fazendo valer a mensagem revelada ao profeta Muhammad.
Mas fatores históricos que remontam a história do Alcorão direcionam a nossa
análise para afirmação de que a escrita do livro em relação a outros textos
sagrados aponta para um processo de intensas transformações e conflitos,
como a própria necessidade de deixar o texto “escrito” pode apontar. No texto
do professor Helmi Nasr, O Alcorão, sua história e sua origem, encontramos
linhas de um estudo interessante sobre a memória do livro e de como ele foi
concebido em seus aspectos históricos, sociais e como foi fisicamente escrito.

Tal não era o Alcorão do tempo do Profeta. Seu texto


permanece rigorosamente o mesmo, mas o seu aspecto
é totalmente diverso. Primeiramente, não havia o que
se chama de volume, pois o Alcorão foi revelado sob a
forma de fragmentos que variavam a partir de um capítulo
completo até um versículo e, às vezes, parte de um versí-
culo. Cada fragmento revelado ao Profeta era recitado por
ele, apreendido pelos seus ouvintes e divulgado entre os
que não o ouviam diretamente. Ao mesmo tempo em que
cada fragmento era memorizado, era também transcrito
em qualquer objeto ao alcance dos escribas: papel, ramos
de palmeira, pergaminho, pedras planas, ossos do ombro
de animais, etc. (NASR, 1972, p. 28)

115
Para o Islamismo, as mensagens e os livros anteriores sofreram alterações
que desviaram o conteúdo próprio da mensagem de Deus aos homens, e a
própria humanidade teria se afastado da mensagem do “Deus único”. Nesse
sentido, a necessidade do Alcorão sagrado se colocaria como uma mensagem
para todos, não somente para o mundo islâmico e árabe, porque ela perma-
neceria intacta até hoje.

Exemplificando
No Alcorão podemos encontrar a divisão em 114 Suratas, que são
subdivididas em versículos e sinais da mensagem de Alá, cada qual
com seu devido tamanho e tema, que transmitem as mensagens.
Como expressão de conduta aos homens, as mensagens do Alcorão são
diversas e podem revelar a essência do pensamento e da fé islâmica,
com uma variada mensagem de temas, como podemos verificar na
Surata 103 “do Tempo” – Sūratu Al-Asr.

Pelo tempo! Por certo, o ser humano está em


perdição, exceto os que creem e fazem as boas
obras e se recomendam, mutuamente, a verdade, e
se recomendam, mutuamente, a paciência. (NARS,
2020, p.707)

Neste momento, algumas analogias com a Torá – documento e mensagem


judaica – são perceptíveis e, em sua principal formatação, a tradição oral é
o elemento central para o ensinamento de como cumprir a tradição escrita.
É possível perceber como a dinâmica social de transmissão do pensamento
religioso e da fé, mesmo em sentidos diferentes e variados de suas crenças,
são passados por meio de relações sociais.
“Torá”, significa “ensinamento” em hebraico, e documentalmente
está ligada, na dimensão religiosa, aos cinco primeiros livros bíblicos – o
pentateuco –, textos do antigo testamento. As revelações têm como agente
principal a figura de Moisés e o que ele representa para o judaísmo, tendo
grande relevância na fé judaica como profeta.
É importante perceber que a Torá também é a representação e revelação
da mensagem de Deus aos homens, e nessa tradição, que também tem
matriz abraâmica, suas escrituras são baseadas em revelações feitas direta-
mente por Deus a Moisés.

116
Mishnah Torah (Repetição da Torá) é a transmissão da Lei
Oral. Composta no Egito e na Idade Média, em ca.1176-
1178, o material foi compilado por Moshe Bem Maimô-
nides, o Rambam. Todos os mandamentos dados a Moisés
no Sinai vieram acompanhados da explicação oral, pois é
dito: “E eu te darei as tábuas de pedra, e a Torá e o manda-
mento”. […] A Torá é a sagrada escritura, e os mandamentos
contidos nela, sua explicação oral. Além disso, o Eterno
ordenou observar a Torá pela palavra do mandamento;
assim, são esses mandamentos que são chamados de Torá
Oral. Na Mishnah, estão as mitzvot positivas, que são as
ordenanças que devem ser cumpridas pelos judeus, e as
mitzvot negativas, que não devem ser feitas. (SARDE NETO,
2019, p. 146)

Nesse documento estão reveladas informações sobre a criação do mundo


e da humanidade, o pacto entre Deus e Abraão, o episódio da libertação
dos judeus e do povo hebreu, eventos em que Moisés foi esse instrumento
e principal profeta. Existem duas formas: a mensagem escrita e a mensagem
oral. A oralidade está em conexão com os ensinamentos da Torá escrita.
Resumidamente, as semelhanças entre os diferentes documentos – a Torá
e o Alcorão –, e principalmente, entre as tradições em diferentes contextos
religiosos, demonstram que socialmente a fé e a religião são importantes
valores dos quais a humanidade se valeu para conseguir subsistir na história
e no devir histórico, tendo cumprido um importante papel no interior de
grandes matrizes religiosas.

Sem medo de errar

Na situação-problema apresentada, uma questão que poderia se verificar


na prática uma compreensão do Islamismo e de sua principal fonte: o
Alcorão. O livro sagrado da religião islâmica propõe mensagens que servem
para guiar a conduta humana, na percepção religiosa do Islã.
Na situação hipotética apresentada, você, como teólogo, deve estabe-
lecer um diálogo com as concepções do Islamismo e da crença islâmica no
Alcorão. Ao adentrar uma mesquita para conhecer um pouco mais a fundo
a religião islâmica, você é interpelado por um simpático muçulmano que
carrega o livro. Quando perguntado se conhece os preceitos do Islamismo,
você demonstra interesse em conhecer e deve estabelecer um diálogo de
referência sobre o seu conhecimento do chamado livro sagrado do Islã.

117
Nesse caso, a conversa deve ser estabelecida na direção do respeito
religioso, e você, como teólogo, deve se afastar de uma possível visão etnocên-
trica sobre as mensagens do Alcorão. Deve, primeiro, perguntar sobre e
conhecer a importância do Alcorão para o mundo islâmico. Em seguida, é
preciso entender que, como o Alcorão, outras mensagens e outros profetas
existiram para essa religião, e que o Islamismo tem a crença no livro sagrado
como uma última mensagem deixada por Deus aos homens pelo portador
dessas palavras, que foi Muhammad.
Em vida, Muhammad recebeu as mensagens em forma de “revelações”
que, mais tarde, após a sua morte em 632 d.C., viriam a ser sistematizadas
em um único livro, que significaria o mais próximo e fidedigno texto das
próprias revelações do profeta.
Em resumo, os conhecimentos sobre a religião islâmica devem sustentar
seu diálogo, sempre na direção da compreensão ideológica do papel que as
representações exercem dentro do Islã. Não podemos esquecer que estamos
diante de uma grande matriz religiosa no mundo e que o seu conhecimento
pode ajudar nas diferentes concepções acerca da igualdade e tolerância
religiosa em tempos atuais.
Portanto, devemos entender essa religião pelo seu conteúdo central
citado no Alcorão e conhecer, com isso, os preceitos da religião islâmica.
Compreender e refletir sobre as influências do Islamismo no mundo atual,
exige, sobretudo, refletir sobre a importância e o significado do Alcorão
como livro sagrado da fé islâmica.

Faça valer a pena

1. Segundo Norbert Elias, no seu livro O processo civilizador, “’civilização’


descreve um processo ou, pelo menos, seu resultado. Diz respeito a algo que está
em movimento constante, movendo-se incessantemente.” (ELIAS, 2011, p. 24).
Dentro da perspectiva desse autor, analise as afirmativas a seguir atribuindo “V”
para as que são verdadeiras e “F” para as de conteúdo falso.
( ) O conceito de “civilização” refere-se a uma grande variedade de fatos: ao
nível da tecnologia, ao tipo de maneiras, ao desenvolvimento dos conhecimentos
científicos, às ideias religiosas e aos costumes.
( ) “Civilização” pode se referir ao tipo de habitações ou à maneira como homens
e mulheres vivem juntos, à forma de punição determinada pelo sistema judici-
ário ou ao modo como são preparados os alimentos.

118
( ) Com rigor, nada há que não possa ser feito de forma “civilizada” ou “incivi-
lizada”. Daí ser sempre difícil sumariar em algumas palavras tudo o que se pode
descrever como civilização.
Assinale a alternativa com a sequência correta:
a. V – V – V.
b. V – V – F.
c. V – F – F.
d. F – F – V.
e. F – F – F.

2. Sobre a expansão islâmica relacionada aos anos das “revelações” pelo


profeta Muhammad, analise as asserções a seguir e a relação entre elas, tendo
como característica a importância do Islã.
I. Enquanto a Europa e o teor dos estudos apontam para a queda das
antigas civilizações, o Islã já estava em cena construindo as bases de
um importante império que liderava o mundo e notadamente pela
variada gama de avanços no comércio, na ciência e também nas artes.
PORQUE
II. Muito mais que a cristandade, o islã foi o estágio intermediário entre o
antigo Oriente e o moderno Ocidente, para o qual contribuiu de modo
significativo. Durante os últimos três séculos, contudo, o mundo
islâmico perdeu sua dominância e liderança e ficou para trás do
moderno Ocidente e também do Oriente rapidamente modernizado.
Pelo contexto levantado, assinale a alternativa correta.
a. As asserções I e II são proposições verdadeiras, mas a II não justifica a I.
b. As asserções I e II são proposições verdadeiras e a II justifica a I.
c. A asserção I é uma proposição verdadeira e a II, falsa.
d. A asserção I é uma proposição falsa e a II, verdadeira.
e. As asserções I e II são proposições falsas.

3. Sobre o conteúdo do termo Sura (ou Surata) e seu significado para o


Islamismo, sobretudo fazendo uma análise do Alcorão, analise as afirma-
tivas a seguir:

119
I. Sura ou Surata é a forma alterada do substantivo feminino surah, que
significa degrau, fase, fazendo analogia a cada um dos capítulos do
Alcorão, por meio dos quais se ascende a Deus, na concepção islâmica.
II. Surata é a expressão de síntese de todos os livros sagrados que têm
como matriz as religiões abraâmicas. Não é possível definir o seu
significado para os preceitos islâmicos.
III. Cada sura é composta de āyāt, sinais ou versículos, de número
variado, pelos quais transluz a infinita sabedoria divina, de acordo
com o Islã. O título das suras, segundo uma tradição oriental,
prende-se mais a uma de suas palavras do que propriamente ao seu
conteúdo geral.
Considerando o contexto apresentado, é correto o que se afirma em:
a. I e II, apenas.
b. II e III, apenas.
c. I e III, apenas.
d. III, apenas.
e. I, II e III.

120
Seção 3

O Islamismo e suas influências

Diálogo aberto
Caro estudante de Teologia, você já compreendeu de maneira ampla
alguns preceitos do Islã. Neste ponto, o seu conhecimento dos preceitos da
religião islâmica será fundamental. Para estudar e conhecer sobre as influ-
ências do Islamismo no Brasil, será necessário um prévio entendimento da
importância e o significado dos pilares que fundamentam a religião islâmica,
para então entender as divisões do Islã e as crenças do Islamismo.
É claro que o objetivo geral é explorar o conhecimento em vez de construir
uma fundamentação crítica aos preceitos de qualquer valor religioso. Por esse
motivo, convidamos você para um exercício didático que, de certa maneira,
passe pelo seu cotidiano.
Suponhamos que você, como estudante e teólogo, passe pela seguinte
situação: em uma reunião de condomínio, você percebe que a maioria dos
moradores tem um olhar curioso em relação aos novos vizinhos muçul-
manos. A questão é levantada de maneira pejorativa entre os condôminos,
que abordam o assunto do uso de roupas no ambiente das piscinas. Você
percebe que esse tema causa desconforto à família muçulmana e se propõe a
ajudar: dá as boas-vindas aos novos vizinhos e os convida para uma conversa
entre os condôminos para explicar, informar e esclarecer sobre a importância
do Islã, além de responder a uma pergunta importante: qual é a influência
que o Islamismo exerceu no Brasil e qual a sua importância?
Para resolver essa situação-problema, você deve buscar estudos que
dialoguem com os preceitos da religião islâmica e sua influência no Brasil
conforme verá na seção e, sobretudo, partir de uma compreensão que afaste
os preconceitos em todas as suas formas, tomando como ponto de partida
alguns estudiosos como na afirmação de Karen Armstrong; “O islã é uma fé
prática e realista que vê a inteligência humana e a inspiração divina traba-
lhando harmoniosamente lado a lado” (ARMSTRONG, 2001, p. 200).

Não pode faltar

As divisões do Islã
Essas linhas seguem uma intencionalidade válida. Entendemos a impor-
tância de afastar o preconceito contra o Islã. O século XXI aparece carregado

121
de estigmas religiosos que perpassam o ambiente social, que passa a ser
globalizado – para alguns estudiosos, “mundializado” –, e a plataforma de
uma sociedade centrada no capitalismo assume formas nunca imaginadas.
Se pudéssemos parafrasear o sociólogo polonês Bauman, “Não há terra
nula, não há espaço em branco no mapa mental, não há terra nem povo desco-
nhecidos, muito menos incognoscíveis” (BAUMAN, 2007, p. 11), saberíamos
compreender a importância do paradigma de igualdade religiosa. Por esse
motivo, não há, socialmente, saída para uma concepção de mundo estabele-
cida na redoma dos cercados e muros religiosos, assim como o homem – aqui
entendido como a espécie humana – exerce a sua vida em sociedade.
A religião islâmica é portadora de uma realidade que cerca quase um
quinto da população mundial, e no relato de Karen Armstrong podemos
perceber como o mundo muçulmano pode ser portador de uma mensagem
no caminho de uma construção religiosa pautada no respeito humano.

Escrevi o livro porque lamentava que o retrato de Maomé,


apresentado por Rushdie, era o único que a maioria dos
ocidentais teria possibilidade de ver. Embora eu pudesse
entender o que Rushdie tentou fazer no seu romance,
pareceu-me importante que a verdadeira história do Profeta
também se tornasse acessível, porque ele foi um dos homens
mais notáveis que já existiram. Foi muito difícil encontrar
um editor, pois muitos pressupunham que os muçulmanos
se sentiriam ofendidos por uma infiel como eu ter a ousadia
de escrever sobre o Profeta, e que, se publicasse o livro, eu
logo teria de me esconder, como Rushdie. Mas no fim fiquei
profundamente comovida pela calorosa e generosa acolhida
que os muçulmanos deram ao meu livro nestes tempos
difíceis. Na verdade, os muçulmanos e muitos islamistas
importantes foram as primeiras pessoas a me considerar
com seriedade e a acreditar que sou algo mais que uma
freira desertora que gosta de criar problemas. Nesses dez
anos, parece-me que a islamofobia endêmica do Ocidente
começou a ceder. O velho preconceito pode brotar de tempo
em tempo, mas cada vez mais as pessoas parecem mais bem
preparadas para conceder aos muçulmanos o benefício da
dúvida. (ARMSTRONG, 2001, p. 7)

As mais variadas fontes dos preconceitos contra o Islamismo seguem


atreladas a alguns episódios históricos que nem de longe abarcam a crença e

122
a realidade do Islã, além de se ligarem a uma incompreensão das divisões no
interior do Islamismo. Sobre as divisões existentes no Islã, podemos falar aqui.
Você conseguiu, desenvolver até aqui, uma compreensão dos preceitos
islâmicos que estão diretamente ligadas às mensagens e a vida do profeta
Muhammad e em sua trajetória como portador da mensagem de Alá. Dentro
disso, verificamos que após a morte do profeta, um legado importante
compôs a história de expansão do Império Árabe-Islâmico, dado que é muito
conhecido na história geral.

Assimile
Inicialmente é comum encontrarmos na literatura didática sobre o
Islamismo a seguinte narrativa sobre as divisões do Islã:

Outra divisão, ocorrida logo após a morte de Maomé,


foi de ordem religiosa, com a formação de duas seitas
principais: a dos sunitas e a dos xiitas. Os sunitas,
que baseavam sua crença no Suna, livro de preceitos
estabelecidos por Maomé, defendiam a livre escolha
dos chefes políticos pela comunidade de crentes. Os
xiitas (“seguidores de Ali”, genro de Maomé), por
sua vez, argumentavam que a autoridade política
e religiosa deveria concentrar-se nas mãos de uma
única pessoa que descendesse do profeta Maomé,
exercendo o poder de maneira absoluta. Não
admitiam outra fonte de ensinamento doutrinário
que não fosse o Corão. (VICENTINO, 2016, p. 196)

Para conhecer o Islã e o legado islâmico é necessário compreender a


divisão fundamental que perpassa o bojo das relações e concepções religiosas
do próprio Islã. Essa divisão é relativamente conhecida por muitos estudiosos,
e é comum a explicação dessa tese pelos conhecedores do assunto: passa pela
divisão islâmica entre os sunitas e os xiitas.
Cabe lembrar que o nosso objetivo não transita de forma tendencial a
nenhuma das concepções apresentadas. Seguimos o que a literatura propõe e
falaremos somente até esse ponto, sem preconcepções e prejulgamentos em
qualquer uma das condutas no interior do Islamismo.
O xiismo e o sunismo são vertentes do Islã, orientações teológicas e
modos de pensamento, remetendo aos aspectos religiosos e políticos. Porém,

123
a crença no profeta e na mensagem como eixo central do Islã permanecem na
estrutura ideológica principal dessas duas vertentes do Islã.
Essa divisão, para quem quer conhecer a religião islâmica, é estabelecida
após a morte do profeta Muhammad a partir de 632 do calendário grego-
riano, e se dirige ao aspecto sucessório das determinações que o Islamismo
tomaria a partir dali. Os xiitas seguem na compreensão de que a liderança
do Islã após o profeta Muhammad deveria ser de Ali, primo e genro de
Muhammad, com laços sanguíneos estabelecidos na sucessão.
Para a vertente sunita, o sucessor do profeta deveria ser Abu Bakr, pela
sua trajetória próxima do profeta; inclusive porque o acompanhou na Hégira
(fuga de Meca para Medina). A partir dessa questão sucessória, houve uma
grande divisão no Islã e que é compreendida até hoje. Lembramos que o
sunismo só vai se estabelecer entre os séculos VIII e IX do calendário cristão.

Reflita
O Islã é plural. Não porque em seu aspecto teológico as vertentes se
diferem, mas sobretudo, porque as formas, valores e hábitos relacio-
nados aos seus aspectos religiosos são plurais. A riqueza do Islã está na
construção de seus valores e na conduta relacionada a mensagem que
apregoa e menos nos seus aspectos políticos, ainda que a sucessão das
relações do profeta Muhammad tenha revelado as próprias vertentes.

As duas vertentes seguem as mensagens e acreditam nos preceitos do


profeta e nas principais concepções do Islã. As diferenças estão estabele-
cidas em aspectos políticos, principalmente após a morte de Muhammad, na
medida em que as bases do Islã estavam estabelecidas no entorno das revela-
ções da mensagem. Não podemos esquecer que a matriz de uma religião
abraâmica também é um eixo central que corrobora no mundo islâmico a
existência de profetas e das mensagens trazidas aos homens.

As crenças do Islamismo e a influência do Islã


Você pode perceber que falar sobre a religião islâmica é uma tarefa desafia-
dora. Por esse motivo ressaltamos que aqui pretendemos conduzir uma
narrativa observadora, que se despossui de qualquer visão pretensamente
etnocêntrica. Isso não significa dizer que nos neutralizamos totalmente nas
observações, mas que procuramos, de uma maneira científica, uma narra-
tiva que menos “obscureça” a história dessa grande matriz religiosa. Dito
isso, é complementar a ideia de que concordamos com a essência do pensa-
mento islâmico, que defende a ideia de que não fazemos parte do mundo

124
muçulmano, como querem os preceitos mais importantes do Islã, na medida
que aqui o leitor encontrará apenas apontamentos do que é e como se estru-
tura o Islamismo de maneira ampla.
No interior das crenças do Islã, podemos encontrar diferentes interpreta-
ções acerca de seus preceitos, porém, tendo como denominador comum aos
preceitos muçulmanos o monoteísmo, assim como epicentro e valor central
da mensagem de Alá.
Consoante ao valor central do Islã está a máxima de que o muçulmano
é aquele que, ciente da sua liberdade, abraça e aceita os preceitos do Islã,
estabelecendo por conduta própria a sua submissão a Deus. A partir desse
ponto, a fé islâmica imprime a sua submissão como medida da ação e a
ação muçulmana como medida da fé, ou seja, o Islã não é a aceitação pura e
racional dos preceitos, mas as ações alinhadas com a fé indicam o verdadeiro
muçulmano ou muçulmana pela sua própria conduta.

Exemplificando
Avançando um pouco mais no Islã, na conduta muçulmana pelos islâmicos:

A fé, tal como é defendida no Islã, não se resume


a uma aceitação puramente racional ou verbal da
verdade, tampouco se limita ao cumprimento de rituais
externos. O Islã nos ensina que a fé é a própria fonte
e essência da vida. A fé é a conduta, e a conduta é a
fé. O Profeta Mohammad (S.A.A.S) a definiu dizendo:
‘Deus não aceita a fé que não se expressa em ações e
não aceita as ações que não sejam consoantes com a
fé’. Portanto, crer, segundo o Islã, é conformar nossos
conceitos e padrões aos conceitos e padrões de Deus;
buscar sinceramente seguir o que Deus ordena e
afastar-se do que Deus proíbe. A medida de nossa fé é a
medida de nossa obediência. (AL KHAZRAJI, 2014, p. 7)

A influência islâmica se estabelece pela transmissão de seus valores. O Islã


desempenhou um imenso papel na história dos povos árabes e se estendeu,
a partir dali, para escala planetária. Como a história não é feita de modelos,
o Islã também não pode ser entendido dessa forma. Isso quer dizer que, seus
pontos fundamentais, pilares e preceitos não são automáticos à doutrina
religiosa e estão intimamente ligados ao processo de identidade muçulmana.

125
Essa identidade se construiu com a história do Islã, como seu principal
valor, e o Islamismo está nessa conduta. Os rituais e a prática então exercem
o papel agregados e de transmissão para as gerações futuras.

Certos atos ou rituais desempenhavam um papel especial


na manutenção do senso de filiação a uma comunidade.
Eram obrigatórios para todos os muçulmanos capazes de
observá-los, e criaram um elo não apenas entre os que os
praticavam juntos, mas entre sucessivas gerações. A idéia
de uma silsila, uma cadeia de testemunhas que se estendia
do Profeta até o fim do mundo, passando a verdade por
transmissão direta de uma geração para outra, foi de
grande importância na cultura islâmica; num certo sentido,
essa cadeia formava a verdadeira história da humani-
dade, por trás da ascensão e queda de dinastias e povos.
(HOURANI, 2001, p. 156)

Figura 3.1 | Devoção

Fonte: Pixabay.

De uma certa maneira, as crenças do Islamismo e sua influência histó-


rica exerceram esse elo entre as gerações que se apropriaram da religiosidade
como aspecto político e ideológico das ações e condutas dos diferentes povos
árabes e para além deles.

126
Por meio dos preceitos e pilares do Islã, podemos perceber como o mundo
muçulmano particulariza as relações sociais pela crença, e esses valores estão
sobretudo relacionados ao tempo histórico ao qual se referem. Ou seja: o
Islã permanece na história ligado à própria conduta social que é sustentada
e alimentada pelos pilares fundamentados principalmente na “mensagem”,
como querem alguns estudiosos do assunto:

Esses atos ou rituais eram comumente conhecidos como os


“Pilares do Islã”. O primeiro deles era o shahada, o teste-
munho de que “só há um Deus, e Maomé é o Seu Profeta”.
O dar esse testemunho era o ato formal pelo qual uma
pessoa se tornava muçulmana, e era repetido diariamente
nas preces rituais. Continha em essência os artigos de fé
pelos quais os muçulmanos se distinguiam dos descrentes
e dos politeístas, e também dos judeus e dos cristãos, que
se incluíam na mesma tradição de monoteísmo: que só
há um Deus, que Ele revelou Sua Vontade à humanidade
através de uma linha de profetas, e que Maomé é o Profeta
em que a linha culmina e termina, “o Selo dos profetas”.
Uma afirmação ritual desse credo básico devia ser feita
diariamente na prece ritual, salat, o segundo dos Pilares.
(HOURANI, 2001, p. 157)

Islamismo no Brasil
A trajetória do Islamismo no Brasil segue no encalço da diversidade
religiosa. É necessário, então, servir-se do argumento de que o último censo,
de 2010, é base para esta seção, e isso não será limitador para uma rápida
análise histórico-sociológica do Islã no Brasil.
Você vai perceber que imediatamente falamos dos indivíduos, das
relações e dos sujeitos sociais que construíram a trajetória do Islamismo no
país e, com isso, do arcabouço social em que esses indivíduos estão situados,
tanto histórica como economicamente.
Para entender essa história, podemos começar dizendo que há relatos
de alguns pesquisadores que lembram existirem muçulmanos já no período
colonial brasileiro, e que eles alteravam seus nomes para lidar com o
confronto e a natureza cristã que aqui imperou.

A presença islâmica no Brasil data do descobrimento do


país, ainda no século XVI. Muçulmanos fizeram parte da

127
tripulação das caravelas que aqui chegaram com Pedro
Álvares Cabral, mas por conta das perseguições da Inqui-
sição foram obrigados a se converter e mudar de nomes,
dificultando a localização de registros históricos da
presença deles. (CASTRO; VILELA, 2019, p. 171)

Na história da sociedade brasileira, os traços do Islã estão intimamente


ligados à chegada dos negros africanos escravos que, de origem religiosa
muçulmana, estabeleceram importantes bases para o Islamismo na história
brasileira. Esse fator foi fundamental para a presença de hábitos e valores
muçulmanos no país que se consolidou ao redor do cristianismo, e as
matrizes religiosas que aqui se formaram estão ligadas a esse passado escra-
vista no período colonial.

Oriundos da África Ocidental, foram direcionados funda-


mentalmente para o estado da Bahia. Em 1835, influen-
ciados pelo ideário islâmico do direito da autodefesa, condu-
ziram a famosa “Revolta dos Malês”, evento cuja reper-
cussão chegou ao exterior. Durante horas, Salvador ficou
sob controle dos insurgentes. Uma vez controlada a rebelião,
seus participantes foram punidos com castigos físicos, a
extradição para a África, ou mesmo a morte (Reis, 2003).
A partir deste momento, o Estado passou a ver a religião
islâmica como algo a ser controlado e temido, e deu-se início
a uma diáspora dos muçulmanos para outras regiões do país
como o interior de Alagoas e as capitais de Pernambuco e Rio
de Janeiro. (CASTRO; VILELA, 2019, p. 172)

Não há como negar que as relações muçulmanas no Brasil foram forte-


mente influenciadas por outras religiões, e isso inclui o catolicismo. Esse
contexto socioideológico de diferentes matrizes religiosas existentes no
Brasil permitiu a própria coexistência religiosa na diversidade, na plurali-
dade e no exercício étnico relacionado ao contexto de diferentes povos que
aqui se encontraram. Porém, carrega um passado que deixa marcas e traços
de extrema opressão, desigualdade e profundas cicatrizes de um modelo
escravocrata nunca visto no mundo, dado que não nos permite hoje afirmar
e defender a “democracia” racial, principalmente.
Nos séculos XX e XXI é possível notar que a literatura aponta para a
compreensão do Islamismo no Brasil a partir da chegada de imigrantes.

128
“Uma nova fase da presença islâmica no país tem início com a chegada dos
imigrantes de origem síria e libanesa” (CASTRO; VILELA, 2019, p. 173).
Em um estudo socioeconômico da presença dos muçulmanos no Brasil,
é possível compreender que, na passagem do século XIX para o século XX,
a história do Império Otomano citava o que hoje conhecemos como a Síria
e o Líbano e, com isso, explicava a imigração para várias regiões do mundo,
incluindo Brasil.

Os muçulmanos passaram a chegar em maior número


após a queda do Império Otomano, em 1918, e o domínio
do Líbano pela França, principalmente por conta do trata-
mento preferencial que os cristãos começaram a receber
naquele país. A posterior expansão sionista, assim como
a guerra no Líbano, deflagrada em 1975, também contri-
buíram para o incremento da chegada de muçulmanos ao
Brasil. (CASTRO; VILELA, 2019, p. 174)

Já no século XXI escrevemos com os dados do censo de 2010. Esses


dados nos permitem entender um pouco mais sobre a atual conjuntura do
Islamismo e dos muçulmanos no país – segundo a pesquisa, em 2010 há
35.166 muçulmanos no Brasil (o que representa um percentual de 0,02%
do total da população residente no país). Pode parecer inexpressivo frente
a outras religiões que coexistem no Brasil, porém também marca a presença
e a história dessa matriz religiosa que se configura uma das maiores do
mundo, reafirmando o nosso próprio argumento de que a fé islâmica não
está nos números.
Para nossa finalidade didática, não conseguiremos abraçar aqui todas as
nacionalidades que povoaram o universo dos imigrantes que aqui no Brasil
trouxeram suas origens muçulmanas. Resumidamente concluímos que o
Islamismo no Brasil perpassa a própria história da sociedade brasileira pela
sua medida plural, de uma sociedade com diferentes matrizes religiosas e,
sobretudo, pela mistura de culturas, como na passagem de Antônio Cândido,
que diz em um dos seus clássicos: “o contato torna possível a passagem dos
elementos heterogêneos de um grupo a outro” (CANDIDO, 2010, p. 98).

Sem medo de errar

A complexidade de relações que formaram a religião islâmica só pode ser


compreendida com um entendimento de que essas relações são históricas
e diretamente ligadas aos preceitos do Islã, como quer a trajetória a cerca

129
do profeta Muhammad. Desde a sua formação, a linha sucessória do profeta
leva o Islamismo para perto do domínio político nas relações no interior de
sua formação. A partir da morte do profeta, você pôde verificar que o Islã se
divide ideologicamente e em algumas práticas na essência entre os sunitas
e os xiitas. Essa divisão nada tem em comum com o radicalismo, mas está
ligada às raízes sucessórias do profeta Muhammad.
Quando essa divisão é esclarecida, também são os preceitos e os pilares
do Islã consolidados ao redor da compreensão de que o que move o
Islamismo é a mensagem deixada pelo profeta e a ação do verdadeiro muçul-
mano virtuoso e daquele que segue o monoteísmo islâmico. O Islã já estava
presente na formação dos homens, e você pôde perceber que a fé islâmica
ultrapassou fronteiras históricas.
Considerando que vivemos no Brasil e a conjuntura em que escrevemos,
a influência islâmica é marcante sobretudo no aspecto religioso de uma das
maiores religiões do mundo. Precisamos entender e lidar com as diferenças,
sempre considerando a verdadeira essência da diversidade. O Brasil é um
país plural e heterogêneo, apresenta características próprias de um lugar
do planeta em que culturas diferentes ocuparam espaços importantes na
construção da sociedade e, por isso, compreender o Islamismo é tarefa
importante para o estudioso e teólogo.
Imaginemos a nossa situação-problema do início da seção. Você
se depara, no condomínio onde mora, com uma inusitada questão. Os
novos moradores são muçulmanos, recém-chegados ao Brasil, e em uma
das reuniões de condomínio ocorre um constrangimento por parte dos
moradores, que desavisadamente abordam a questão do uso de roupas no
ambiente da piscina. Você, como estudioso de Teologia, vê-se compelido a
orientar os moradores sobre o Islã, e de maneira bastante diplomática explica
que a importância do Islamismo também explica parte da história e formação
da sociedade brasileira já nos primeiros tempos coloniais.
Você também deve abordar a diversidade religiosa e explicar que por
meio do Islã essa diversidade se constrói no bojo de relações de um passado
escravista e opressor no país, e que a religião nada tem de radicalismo, como
querem as plataformas ideológicas apregoadas em senso comum.

Faça valer a pena

1. No interior da compreensão histórica da divisão ocorrida no Islamismo


após a vida do profeta Muhammad, analise as asserções a seguir e a relação
entre elas:

130
I. Uma divisão, ocorrida logo após a morte do profeta Muhammad,
com a formação de duas vertentes principais: a dos Sunitas e a
dos Xiitas. Os sunitas, que baseavam sua crença no Suna, livro de
preceitos estabelecidos pelo próprio profeta, defendiam a livre
escolha dos chefes políticos pela comunidade de crentes.
PORQUE
II. Os xiitas (“seguidores de Ali”, genro de Maomé), por sua vez, argumen-
tavam que a autoridade política e religiosa deveria concentrar-se nas
mãos de uma única pessoa que descendesse do profeta e que detivesse
toda centralidade do Islã. A sua particularidade com relação aos
Sunitas é que somente o Alcorão poderia ser fonte de ensinamentos.
A respeito dessas asserções, assinale a alternativa correta.
a. As asserções I e II são proposições verdadeiras, mas a II não justifica a I.
b. As asserções I e II são proposições verdadeiras e a II justifica a I.
c. A asserção I é uma proposição verdadeira e a II, falsa.
d. A asserção I é uma proposição falsa e a II, verdadeira
e. As asserções I e II são proposições falsas.

2. O Islamismo pode ser observado pelos seus preceitos, que são históricos
e procuram sempre observar a mensagem deixada pelo profeta Muhammad.
Sabendo disso, analise as afirmativas a seguir, atribuindo “V” para as que são
verdadeiras e “F” para as de conteúdo falso, sobre um dos primeiros pilares
do Islã.

( ) Os “Pilares do Islã” se denominam pelos rituais e ações. O primeiro


deles ficou conhecido como shahada, o testemunho de que “só há um Deus,
e Muhammad é o seu Profeta”.

( ) O testemunho se consolidava no ato de se tornar muçulmano, tinha de


ser repetido diariamente nas preces e rituais. Continha em essência os artigos
da fé pelos quais os muçulmanos se distinguiam dos demais descrentes e dos
politeístas fundamentalmente

( ) O testemunho de que só há um Deus e que Muhammad é o profeta só


está presente no quinto “Pilar” do Islã. Por esse motivo o Alcorão foi escrito
em linhas gerais e abrangentes.

131
Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta.
a. V – V – V.
b. V – V – F.
c. V – F – F.
d. F – F – V.
e. F – F – F.

3. Em estudo socioeconômico da presença dos muçulmanos no Brasil, é


possível compreender que na passagem do século XIX para o século XX
algumas características sobressaem. Observando esses elementos históricos
analise as afirmativas a seguir:
I. Com a queda do Império Otomano é que se percebe, sensivelmente,
a chegada dos muçulmanos ao Brasil. No início do Século XX, com o
domínio do Líbano pela França, eles chegam aqui por conta do trata-
mento preferencial que os cristãos começaram a receber naquele país.
II. Os muçulmanos nunca conseguiram chegar à costa brasileira. Os
dados socioeconômicos não apontam para a presença muçulmana
no Brasil, sobretudo porque sua presença foi inexpressiva.
III. Alguns elementos consolidam a entrada muçulmana ao Brasil: a
expansão sionista, a guerra no Líbano, deflagrada em 1975, são
elementos que devem ser considerados.
Considerando o contexto apresentado, é correto o que se afirma em:
a. I e II, apenas.
b. III, apenas.
c. II e III, apenas.
d. I e III, apenas.
e. I, II e III.

132
Referências
ABDULSALAM, M. O que é o Islã? (Parte 2 de 4): as origens do Islã. The Religion of Islam,
2 mar. 2009. Disponível em: https://www.islamreligion.com/pt/articles/5/o-que-e-o-isla-parte-
-2-de-4/. Acesso em: 17 dez. 2019.

AL-KHAZRAJI, X. T. H. Islamismo. São Paulo: Belaletra, 2014.

ANDRADE, J. Relações ecumênicas e inter-religiosas: construindo uma ponte entre as


religiões. Curitiba: Intersaberes, 2019.

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Unidade 4
José Tadeu de Almeida

Os cinco pilares do Islão, a Sunnah, os Hadiths e


a Shariah

Convite ao estudo
No Ocidente, onde estamos inseridos, sempre que uma pessoa ouve os
termos “islâmico”, “muçulmanos” ou “Alcorão”, pode acabar fazendo um
paralelismo com as guerras do Oriente Médio, as ações de grupos radicais
e as tensões constantes entre palestinos e israelenses, entre outras situações
adversas que, de um modo geral, não correspondem ao conteúdo doutrinário
do Islã, tal como originariamente concebido por Maomé, o Profeta, no século
VII d.C. De fato, essas associações são inválidas, uma vez que implicam uma
generalização de conflitos que não estão diretamente relacionados ao corpo
principal da doutrina islâmica, mas sim a elementos particulares que geram
interpretações diferenciadas e dão margem a importantes conflitos
Desse modo, o ato de pensar o islamismo, em nossa sociedade, pode
ser entendido como uma forma de resistência cultural e de busca pelo
conhecimento a respeito dessa corrente doutrinária e de suas caracterís-
ticas, ajudando você, prezado aluno, a entender melhor essa manifestação
religiosa que consolida o tronco abraâmico, juntamente com o Judaísmo e
o Cristianismo. A crença dos islâmicos em relação à sua descendência de
Ismael, filho de Abraão com sua serva Agar, atribui aos muçulmanos uma
linhagem privilegiada, por meio da qual profetas se manifestaram antes de
Maomé ao apontarem para a verdadeira religião, na qual a divindade (Allah)
se faz presente.
Em um cenário de profundas transformações políticas e sociais, pensar o
islamismo permite compreender as formas de ação e visões de mundo de uma
parcela importante da população mundial. Essa prática de reflexão é bastante
contemporânea e viável para as necessidades humanas e profissionais de
qualquer indivíduo, e será realizada mais detalhadamente ao longo desta
unidade, em conexão com as competências apontadas para esta disciplina.
Seção 1

Os cinco pilares básicos

Diálogo aberto
Todas as segundas-feiras pela manhã, em uma igreja católica no bairro da
Mooca, na Zona Leste da cidade de São Paulo, um grupo de pessoas aparece
com alimentos, roupas e outros objetos para doação aos moradores de rua
que frequentam diariamente aquele espaço, em busca de algum alívio, ainda
que provisório, para a sua situação de vulnerabilidade. Alguns desses indiví-
duos que trazem doações usam kufis, bonés sem abas que permitem perceber
que aquelas pessoas pertencem à religião islâmica.
O padre dessa paróquia, muito conhecido por sua atuação junto à
população de rua da cidade, sempre acolhe essas pessoas e lhes agradece pela
ajuda que vêm prestando no atendimento (completamente voluntário) aos
chamados “irmãos de rua” que passam todas as manhãs por sua comunidade
para um momento de convivência. Esse grupo de muçulmanos é liderado
pelo sheik de uma mesquita que também está localizada na Zona Leste da
capital paulista.
Embora a maior parte das pessoas não esteja acostumada a conviver
com islâmicos na população brasileira, em todo o país este grupo formava
uma comunidade com 27 mil membros, de acordo com o censo de 2010
(CASTRO, 2014). No interior do país, a maior concentração de seguidores
do islã está em Foz do Iguaçu (PR), com cerca de seis mil pessoas.
Embora seja numericamente pequena entre a população brasileira,
a população islâmica ao redor do mundo comporta cerca de 2 bilhões de
pessoas, o que indica a necessidade de um estudo mais amplo sobre esta
religião no âmbito da Teologia contemporânea. Nesse sentido, entender
a doutrina islâmica é algo mais do que apenas compreender conceitos e
assimilar conteúdos relativos a livros sagrados.
É preciso, efetivamente, entender de que modo essa doutrina atua sobre
a vida, o cotidiano e as formas de reprodução social das pessoas, condicio-
nando comportamentos que convergem para os pilares da fé na tradição
islâmica. Esses pilares, ligados à oração, à caridade e ao jejum, interagem de
modo a fornecer uma cosmovisão, isto é, uma construção teológica a respeito
da realidade e da criação da ordem natural em que vivemos.
O exame dos pilares da fé, portanto, permitirá que você compreenda de
que modo a religião islâmica estrutura as formas de vida de seus adeptos,

136
elaborando concepções e visões doutrinárias que zelam pela vida comum,
pelas formas de compreensão do mundo e pelos preceitos religiosos contidos
na doutrina, obtida pela via da revelação, bem como pela tradição milenar
desses povos. Neste sentido, resgatando o caso apresentado no começo desta
seção e os seus conhecimentos sobre o tema, pode-se pensar em um questio-
namento: qual a lógica de um grupo de muçulmanos auxiliar no trabalho
de um padre católico? Não há tensão direta entre essas matrizes religiosas?
Quais os elementos doutrinários que determinam uma ação social de um
muçulmano, e quais os seus efeitos no âmbito de sua espiritualidade?

Não pode faltar

Quando procuramos avançar no conhecimento a respeito da doutrina e


concepções relativas aos povos islâmicos, é possível observar uma série de
prescrições religiosas, rituais, normas de culto e elementos que articulam o
modo de vida desses povos. O crescimento da civilização islâmica baseou-se
em práticas de fé que são visíveis até os dias atuais, criando elementos de
culto a partir de sua doutrina, que conformam os padrões de desenvolvi-
mento espiritual e material de seus seguidores. Assim, nesta seção você
conhecerá um pouco mais a respeito desses padrões e dimensões da religio-
sidade islâmica, em particular, em torno dos Pilares da Fé relacionados ao
islamismo e aos hábitos que caracterizam a vivência devota da religião.
Esses pilares são apresentados a partir das seguintes práticas de fé: o credo
ou testemunho; a oração; a prática da caridade; o jejum ritual; e a peregri-
nação a Meca. Nesta seção, vamos discutir estes pilares, conectando-os
com a doutrina expressa nos livros sagrados e tradições islâmicas, a partir
do Alcorão e da Sunnah, que contêm os escritos e observações do Profeta a
respeito de diferentes temas de natureza social e cultural para esses povos.
Como você sabe, o islã é uma doutrina revelada, isto é, baseia-se em
ensinamentos obtidos por meio de inspiração divina, e que foram compi-
lados em um livro específico, o Alcorão. Nele, o Profeta (Maomé) elaborou
todas as orientações da divindade a respeito dos modos de viver a fé e obter
a salvação individual. Assim, a partir do estudo de cada um desses pilares,
torna-se possível entender a cosmovisão islâmica, isto é, a concepção dessa
doutrina acerca do mundo, da ordem natural e dos modos de vida do ser
humano, justificando sua existência a partir de sua relação com o Sagrado.
Podemos, então, iniciar o nosso estudo dos Pilares da Fé a partir do teste-
munho. Essa dimensão menciona o credo islâmico, ou seja, a confissão que
todo fiel deve realizar para demonstrar, de forma clara, consciente e coletiva, a
sua crença nos ensinamentos do islamismo e suas derivações diretas. O islã não

137
exige um batismo, como os cristãos, tal qual uma cerimônia pública na qual
a pessoa seja admitida entre os adeptos de uma religião. Na verdade, apenas
esse testemunho (conhecido como Shahada) é condição suficiente para que o
indivíduo seja reconhecido socialmente como um seguidor do Profeta.
Sua fórmula principal é dada por: “lā ‘ilaha ‘illāl-lāh an Muhammadur
rasūlu llāhi”. Essa fórmula, vertida para o português, pode ser tradu-
zida como “Não existe outro Deus senão Allah, e Maomé é o seu Profeta”.
Observe, portanto, que Maomé é compreendido como o Profeta; na verdade,
o último deles (e o maior) a portar a revelação divina, haja visto que seus
antecessores – dentre os quais destacam-se Noé, Abraão, Moisés, João Batista
e Jesus Cristo – teriam sido profetas em seu tempo, porém não codificaram a
verdadeira doutrina do islã.
Essa fórmula, concebida como uma profissão de fé, deve ser repetida
pelos fiéis diariamente, como uma confissão da sua crença, nos diferentes
momentos de oração. Ao ser proclamada a partir dos minaretes (torres)
das mesquitas, consiste como um chamado à prática religiosa, sendo ainda
encontrada nas paredes das mesquitas.
A Shahada deve ser pronunciada ao recém-nascido e ao ouvido da pessoa
prestes a morrer, de modo que todo seu ciclo de vida e morte seja abran-
gido pela crença no Deus único e em seu Mensageiro. Trata-se, assim, de um
ponto fundamental para entender a doutrina islâmica e as suas práticas.
Figura 4.1 | Bandeira da Arábia Saudita contendo a Shahada

Fonte: Shutterstock.

A Shahada consiste, portanto, em uma síntese da religiosidade islâmica, e


deve entrecruzar todos os elementos da vida do indivíduo, da manhã à noite.
No entanto, os adeptos do Islã definem que ela não deve ser apenas repetida,
como uma fórmula desprovida de significado. É preciso, na verdade, que o
sujeito assuma essa crença, interiorizando-a a partir de três preceitos básicos:

138
• A crença principal em Allah como a divindade verdadeira, e a única
que é merecedora de culto, adoração e devoção.
• Crer no fato de todas as coisas presentes neste mundo e em outros
terem sido criadas por Allah, que é o senhor da vida e da morte de
todos os indivíduos.
• A visão de que Allah é a síntese da perfeição, de modo que ele não
tem limitações ou mesmo pode ser concebido a partir de atributos
humanos, que poderiam defini-lo como um pai ou um irmão; Allah é
apenas Senhor e divino.
A partir da profissão da Shahada, derivam todas as práticas de culto e
orações dos povos muçulmanos, que serão apresentadas com maior destaque
na próxima seção.

Oração e doação
A partir do momento que o seguidor do Islã admite sua fé e sua crença e
a professa livremente por meio da Shahada, torna-se necessário observar um
conjunto de atos e posturas em seu cotidiano, que permitirão a esse seguidor
considerar-se como parte de um povo, absorvendo seus usos e tradições. A
oração e a caridade formam, portanto, outros dois Pilares da Fé, aos quais a
religião islâmica apega-se no sentido de entender e conceber a vida religiosa
e a dimensão espiritual.
A oração, nesse sentido, pode ser entendida como algo mais do que uma
simples prática de fé: é um momento de união entre todos os adeptos dessa
doutrina, que, voltados para Meca, prestam culto a Allah, dizendo preces
por cinco vezes ao dia. A oração, conhecida como Sallah, é um momento de
culto que pode ser realizado em qualquer lugar, e demonstra, pelo gesto de
ajoelhar-se com o rosto no chão, a submissão do homem. Essas orações podem
ser espontâneas, como preces pessoais a Allah, mas devem principalmente
seguir os rituais prescritos pela doutrina. Elas devem, ainda, ser sempre rezadas
em árabe, e são devem obedecer às seguintes estruturas e horários (que podem
variar de cidade para cidade, em função da localização geográfica):
• Fajr: ocorre ao alvorecer, isto é, antes do nascer do sol (em São Paulo,
às 04h41, no dia 21 de fevereiro de 2020, data da produção deste
material).
• Dhuhr: ocorre quando o sol está em seu ponto máximo, em torno do
meio-dia (12h21, no mesmo dia e local).

139
• Asr: é a prece da tarde, a ser feita entre o meio-dia e o pôr do sol
(especificamente, às 15h48 em São Paulo).
• Maghrib: diz respeito à prece do pôr do sol (às 18h43).
• Isha: é a prece noturna, que deve ser rezada antes da meia-noite (de
preferência, às 19h56 do dia mencionado, em São Paulo).

Assimile
O calendário islâmico é um calendário lunar, ou seja, segue as fases da
lua como referência para a marcação dos dias. Assim, um ano apresenta
doze meses (que se iniciam na primeira lua crescente) com 29 ou 30
dias. O fato de os anos lunares serem mais curtos que os anos solares
(do nosso calendário gregoriano, por exemplo) faz com que haja uma
diferença entre a contagem de anos do calendário islâmico que, em
2020, está no ano 1.440 da Hégira (a peregrinação de Maomé, que
ocorreu em 632 d.C, ou seja, há 1.388 anos).

Nesses momentos, o fiel precisa preparar-se adequadamente, higienizando-se


conforme os rituais, de preferência em uma casa de banho (conhecida como
hammam) geralmente próxima à mesquita. Caso não possa rezar na mesquita,
o indivíduo pode fazê-lo em qualquer lugar, mesmo sem a higiene prescrita.
Basta que ele se incline na direção de Meca, normalmente sobre um tapete e uma
esteira, e com gestos afirme sua adesão e crença a Allah e aos costumes islâmicos.
Nas mesquitas, a oração é precedida de um chamado: assim como as
igrejas católicas têm sinos para chamar o povo ao culto, os muçulmanos
recorrem à voz do muezim, um homem que proclama do alto dos minaretes
o convite à oração: Allah é Grande/não há outro Deus senão Allah/e Maomé
é seu Profeta./Vinde para a oração, vinde para a salvação/Allah é Grande /
não há outro Deus senão Allah.
A prática da caridade é outro pilar da fé na doutrina islâmica. Ela pode
ser praticada por meio de atos para com as pessoas (palavras de incentivo,
gestos concretos), mas principalmente por meio da doação de parte dos
rendimentos do indivíduo. Nesse caso, a doutrina determina que o indivíduo
deve trabalhar para agregar para si tudo aquilo que for necessário à satisfação
de suas necessidades básicas. Do valor restante (observando-se o referen-
cial equivalente a 85g de ouro), que deverá ser direcionado a algum investi-
mento, deve-se separar 2,5% do montante para ser doada como esmola. Essa
contribuição é conhecida como zakat e tem o objetivo de auxiliar os outros
muçulmanos (que formam a umma, a grande comunidade islâmica), prefe-
rencialmente entre os membros locais.

140
Exemplificando
Se o valor da sobra da renda anual de uma pessoa tem o valor igual
a 250g de ouro (equivalente a R$ 230,00 por grama em fevereiro de
2020), logo, sua renda para investimento é igual a 230 × 250 = 57.500.
Deste valor, solicita-se que ele separe 2,5% para o zakat, isto é, um
montante igual a 2,5% × 57.500 = R$ 1.437,50.

O objetivo dessa contribuição reside, portanto, em atender às necessi-


dades dos pobres, dos que se dedicam à causa da arrecadação e outras causas
importantes, tais como a libertação daqueles muçulmanos que estão presos
por dívida ou escravizados em países estrangeiros. Assim, deve-se entender
a ação não como um gesto caridoso, que venha de uma motivação interior e
seja basicamente voluntário, mas como um dever inspirado por Allah e que
deve ser cumprido como exigência básica para a salvação, no dia do Juízo.

Reflita
A prática da doação (zakat) destina-se a criar uma cultura de caridade
que se coloca como obrigatória ao indivíduo que professa a fé islâmica.
Neste sentido, podemos pensar: essa prática em um país islâmico não
pode converter-se em um efetivo instrumento de distribuição de renda
e ação social, ou deve ser entendida apenas como um gesto de caridade?

Observe, por fim, que a zakat se coloca como tarefa ao muçulmano, sendo
que, de acordo com suas possibilidades, ele deve esforçar-se para doar além
do limite estipulado, reduzindo o impulso da avareza (acumular em prejuízo
de outros) e do apego demasiado a bens materiais.

Jejum
Entre os muçulmanos, o jejum (saum) assume um caráter de retiro, de
reflexão interior, pela qual o homem procura meditar acerca das verdades
reveladas no Alcorão. Mais que isso, o jejum ajuda o homem a assumir uma
postura de autocontrole e de paciência em relação aos elementos da vida
comum: ao jejuar, o homem modera seus instintos para aguardar um momento
melhor para saciá-los. Por fim, o jejum é compreendido como uma oportuni-
dade de ação piedosa, de acordo com o terceiro pilar: ao abster-se do alimento,
o muçulmano reflete a respeito da fome e da sede e de que modo elas afetam as
pessoas, tornando-se, assim, mais sensível à causa do apoio aos necessitados.

141
Em geral, todos os muçulmanos, jovens e adultos, devem jejuar, e as
crianças são incentivadas a fazê-lo também, caso sintam-se dispostas para
isso. As restrições envolvem não apenas a comida, mas a bebida, o uso do
fumo e a prática sexual. São dispensados do jejum, no entanto, os viajantes,
os doentes, as crianças e as mulheres grávidas ou em fase de amamentação; a
estes recomenda-se que realizem o jejum em outro momento, quando possível.
O jejum deve durar o período compreendido entre o nascer do sol e pôr
do sol, sendo que ao final do dia as pessoas devem alimentar-se normal-
mente, inclusive, com festividade, pois o Alcorão determina que as pessoas
devem prezar pelo bem-estar e não pela mortificação constante, geradora
de desconfortos importantes. Vale destacar, por fim, que o jejum é prescrito
durante o mês do Ramadã, recordando as primeiras revelações recebidas
por Maomé. Nesse período, é necessário manter o jejum durante todo o
mês. Por fim, vale recordar que os muçulmanos, assim como os judeus, não
consomem carne de porco.

Peregrinação a Meca
O quinto pilar da fé na doutrina islâmica é a peregrinação ao santuário
mais tradicional do Islã, a Kaaba, na cidade de Meca (Arábia Saudita). No
entanto, para entender este procedimento, é preciso relembrar um pouco
da importância da Kaaba para a doutrina islâmica. Teria sido ali, segundo a
tradição, que Adão e Eva prestaram culto a Allah após sua queda do Jardim
do Éden. Posteriormente, Abraão teria buscado erguer um altar nesse local,
que foi sinalizado por Allah com a queda de um meteorito, a Pedra Negra
(Al-Hajar Al-Aswad). Essa pedra está incrustada em uma das quinas da
Kaaba, a construção em forma de cubo que se localiza em Meca.
Figura 4.2 | Muçulmanos ao redor da Kaaba (Meca)

Fonte: Shutterstock.

142
Todo muçulmano que já tiver atingido a puberdade, goze de boa saúde
e tenha condições financeiras (sem endividar-se além de suas posses) deve
realizar, ao menos uma vez na vida, a peregrinação a Meca. Essa peregri-
nação deve ser feita entre o 8º e o 13º dias do mês de Dhu-al-Hijja, que é o
último mês do calendário islâmico (em 2020, entre os dias 28 de julho e 2 de
agosto). A peregrinação nesses dias é conhecida como Hajj, e é a mais impor-
tante dos costumes religiosos islâmicos. Vale destacar que essa viagem pode
ser feita em outros momentos, porém não conta com a mesma importância
espiritual dessa grande peregrinação, sendo então conhecida como Umrah.
São prescritos alguns rituais e práticas nesta peregrinação, a saber:
• Vestir-se com roupas rituais (sandálias sem costura e uma túnica
composta por duas peças de algodão), relembrando que todos os
homens são iguais no islã.
• Circundar a Kaaba por sete vezes no sentido anti-horário.
• Subir o monte Arafat e ali permanecer durante um dia em meditação
sobre o fim do homem e sua adesão aos ensinamentos islâmicos.
• Realizar o sacrifício de um animal em lembrança ao sacrifício reali-
zado por Abraão.
• Percorrer por sete vezes a distância entre as colinas Al-Safah e
Al-Marwah (distantes cerca de 400m entre si), recordando a busca de
Agar, mãe de Ismael, por água no deserto (até que Allah lhe conce-
desse água do poço de Zamzam, que funciona até hoje).
• Dirigir-se a Mina, próxima a Meca, e ali realizar o ritual de
“Apedrejamento do Diabo”, arremessando sete pequenas pedras em
três pilares (recordando as pedras que Abraão lançou contra o diabo
para afastá-lo, quando este tentava fazê-lo desistir de oferecer Ismael
em sacrifício a Deus).

Assimile
A Bíblia cristã afirma que o filho que seria sacrificado por Abraão, a
pedido de Deus, seria Isaac; no Alcorão, porém, o filho a ser sacrificado
seria Ismael, o qual, após ser levado ao deserto por sua mãe Agar, iria se
tornar o fundador da linhagem da qual descendem os muçulmanos, de
acordo com a tradição islâmica.

Como é possível observar, a estrutura religiosa islâmica apresenta rituais


elaborados, cuja finalidade reside em despertar a consciência do adepto

143
para a divindade, recuperando tradições antigas e que estão codificadas nos
textos religiosos inspirados pela ação divina (Alcorão) ou que remetem a
atos históricos do Profeta. Deste modo, compreender esses rituais implica
entender um pouco mais a respeito dos modos de vida e de compreensão
do universo a partir da sociedade muçulmana, dissolvendo preconceitos e
opiniões baseadas em uma visão superficial a respeito das características
dessa doutrina no tempo atual.

Sem medo de errar

A situação-problema proposta para esta seção mencionava um caso


real, que ocorre na cidade de São Paulo. Nesse caso, muçulmanos unem-se
a católicos para prestar um serviço assistencial a pessoas em situação de rua
todas as segundas pela manhã, no pátio de uma igreja católica na Zona Leste da
capital. Essa situação, a princípio, pareceria estranha a um observador comum,
que tem em mente apenas as imagens de igrejas destruídas pelo Estado Islâmico
e cristãos atirando contra muçulmanos em diversas regiões no Oriente Médio.
De fato, a convergência das religiões abraâmicas em torno do tema da
caridade gera oportunidades efetivas de superação dessa aparente rivalidade
e disputa. De fato, cristãos e muçulmanos destroem-se mutuamente desde
o século VII, quando o islã passou a se difundir para além da Península
Arábica e, duzentos anos depois, conquistava a Espanha e o sul da França,
em um território centralizado que ia desde os Pirineus (na Península Ibérica)
até o vale do Rio Indo, na Ásia.
No entanto, após as guerras de conquista – as Cruzadas –, as guerras
contemporâneas e mesmo havendo ainda disputas importantes em regiões
como a Síria e o Iraque, é preciso observar que a prática islâmica da caridade
e da ação social é um instrumento de fé, mais do que apenas uma boa ação
opcional: o homem, para o islã, deve abrir mão de um pouco de si para
socorrer um igual em situação de necessidade, pois todos são membros de
uma comunidade maior, a umma, que reúne todos os islâmicos em um senti-
mento de irmandade.
Tal recomendação, relativa à caridade, estende-se ainda para outros
povos a serem abrangidos por ações diretas de apoio, ainda que a prioridade
seja dada aos que seguem a doutrina do Profeta. Vale dizer que a convivência
pacífica entre essas matrizes de culto, no Brasil, acaba por favorecer ações
comuns que sejam voltadas à promoção do bem-estar social e da qualidade
de vida entre os povos.
Retomando, assim, os contextos de aprendizagem e seus resultados, você
pôde perceber a importância da caridade como fator de salvação, por meio

144
do zakat e seu papel para a espiritualidade individual. Ao observar os pilares
da fé, desde o testemunho individual (Shahada) que abrange todas as etapas
da vida do indivíduo até a peregrinação a Meca por ocasião do Hajj, a vida
do muçulmano está permeada de rituais e momentos específicos por meio
dos quais ele entra em contato com a divindade suprema, o ser criador e
único Deus, o qual foi revelado às nações por meio da ação de Maomé. Nesse
sentido, a observância estrita dos cinco pilares diz respeito não apenas à
experiência religiosa e seus benefícios diretos, mas também funciona como
instrumento de distribuição de renda, geração de riqueza a ser socialmente
aplicada, bem como fator de promoção espiritual e elevação interior, a partir
do culto estabelecido em torno de Meca, com todas as suas representações.
Desse modo, pensar os Cinco Pilares da Fé implica entender formas
de convívio entre islâmicos e não islâmicos a partir de suas práticas e seus
efeitos sociais.

Avançando na prática

O Haj: aspectos da religiosidade islâmica no


caminho da salvação

As peculiaridades da religiosidade islâmica implicam, no Ocidente, a


necessidade de um processo de compreensão e convivência mútua em torno
do bem-estar comum. Nesse sentido, coloque-se no lugar de um gerente
de Recursos Humanos que deve observar, em prol da convivência mencio-
nada, as prescrições comuns a um colaborador, recém-contratado, que segue
fielmente os preceitos da fé islâmica. Assim sendo, enumere algumas medidas
que precisarão ser tomadas pela empresa em relação a esse colaborador, de
acordo com seus conhecimentos apreendidos na seção.

Resolução da situação-problema
É necessário que os colaboradores da empresa compreendam as neces-
sidades específicas do colaborador que segue os preceitos da religiosidade
islâmica. Como seguidor das regras do Alcorão e das tradições do povo
muçulmano, esse colaborador manterá jejum no período compreendido
pelo Ramadã, abstendo-se de alimentação durante o horário comercial;
deverá interromper sua jornada laboral em alguns momentos para as orações
(salah) que devem ser realizadas segundo o ritual (inclinações, preces em
árabe etc.). O mesmo colaborador também não consumirá carne de porco,

145
de modo que o ambiente organizacional deverá prever esses padrões e neces-
sidades específicas.

Faça valer a pena

1.
Ao adentrar a Mesquita pude observar uma arquitetura
própria e uma imensa cúpula no teto dava amplitude e
fazia com que o espaço parecesse ainda maior. No salão
poucas cadeiras, mas um grande espaço acarpetado,
tendo em vista as prostrações feitas durante a reza e que
os muçulmanos rezam em tapetes. Foi necessário deixar
os sapatos na entrada, requisito para todos, mas que se
mostrava pertinente diante dos armários para guardá-los e
pela limpeza do chão. Parte do salão era dividido por esses
armários, à direita dele era o espaço destinado à reza das
mulheres e a esquerda, dos homens. Em meio às luminá-
rias que caiam do alto do teto, pode-se ver a presença de
lâmpadas de LED. As paredes eram claras, em tom de bege
e branco, não tinham nenhuma imagem, apenas alguns
quadros com escrita árabe. Humildemente, diante do
grande salão, um púlpito de madeira, utilizado mais tarde
para realizar o culto.

Fomos recebidos pelo presidente da Mesquita com uma


palestra muito esclarecedora para os leigos do Islã como
eu. Foram apresentados seus pilares de fé, o que carac-
teriza um muçulmano, assim como, seus deveres básicos.
Essas informações foram essenciais para compreender
os muçulmanos, seu modo de vida e comportamentos.
(CUNHA; BARBOSA; SCORSOLINI-COMIN, 2018, p. 219)

As prescrições da fé islâmica condicionam padrões de comportamento e


ações específicas que permitem entender a sua espiritualidade no âmbito
da vida comum.
Desse modo, o conceito islâmico de saum, que é um dos cinco pilares da fé,
diz respeito à (ao):
a. Contribuição que os muçulmanos devem realizar em função de
seus rendimentos.

146
b. Padrão de jejum em momentos específicos do calendário islâmico.
c. Ritual de orações a ser realizado sistematicamente ao longo dos
dias do ano.
d. Testemunho de fé que é considerado elemento de aceitação à
doutrina islâmica.
e. Peregrinação que deve ser realizada a Meca durante a vida do indivíduo.

2.
Compreender a R/E (religião/espiritualidade) viven-
ciada por cada um é fazer um resgate histórico e cultural
que pode auxiliar na construção do sentido, permitindo
uma construção social da sua relação com a fé. No caso
da experiência de Meca, me foi necessário compreender
minimamente o Islã, seus pilares de fundamentação e
deveres, para atingir a compreensão da importância que
mobiliza tanta gente. (CUNHA; BARBOSA; SCORSOLINI-
-COMIN, 2018, p. 221, destaque nosso)

Os pilares da fé são regras espirituais que determinam ações e posturas


importantes na vida material dos povos islâmicos.
Considerando o costume de zakat, analise as seguintes afirmações:
I. Trata-se da prática ritual do jejum islâmico, que deve ser efetuada no
período do Ramadã, seguindo-se à peregrinação anual a Meca.
II. Esse costume diz respeito à necessidade de o muçulmano contribuir
financeiramente com o bem-estar de seu povo e de sua comunidade local.
III. De acordo com o hábito de zakat, o muçulmano é obrigado a contri-
buir para a umma, desde que tenha condições suficientes para isto.
A partir do conteúdo apresentado, pode-se dizer que é correto o que se
afirma em:
a. I, apenas.
b. II, apenas.
c. III, apenas.
d. I e II, apenas.
e. II e III, apenas.

147
3.
Estudar o campo da R/E (religião/espiritualidade) exige
abertura e alteridade, muitas vezes o profissional pode
ser descaracterizado enquanto cientista por falar sobre
esse mundo, onde parece não haver lugar na formação
profissional para esse assunto, muitas vezes hostili-
zados e tidos como rivais. Nesse sentido, avanços já são
encontrados e, paulatinamente, as pesquisas nacionais
retratam a presença dessa hostilidade e dificuldade,
mas incrementam o repertório de estudos mostrando
possibilidades de atuação aos profissionais. […] Sabe-se
que não foi possível apresentar uma grande visão de
mundo, de sentimentos, atitudes, comportamentos
e ações que representam a totalidade dessa comuni-
dade religiosa, muito menos pensar em generalizações.
Mas o convite de Allah foi irresistível e sensibiliza para
uma abertura ao Islã, da importância que a religião
imprime na individualidade e na sociedade e da nossa
responsabilidade de sermos sensíveis para percebê-la
e abordá-la. (CUNHA; BARBOSA; SCORSOLINI-COMIN,
2018, p. 224, destaque nosso)

As especificidades da religiosidade islâmica precisam ser consideradas a


partir de seus efeitos sobre a cultura e a sociedade muçulmana, com implica-
ções importantes à vida material e comum das populações.
Assim sendo, de acordo com seus conhecimentos sobre o tema e com a leitura
do texto-base, avalie as opções que se seguem e assinale a correta:
a. A prescrição da Shahada implica uma condição na qual o iniciado ao
islã pode, por meio de um ritual de batismo, ser admitido às mesquitas
e outros espaços de oração.
b. De acordo com o conceito de umma, é dever do muçulmano realizar
peregrinações a Meca a fim de cumprir os preceitos religiosos do
período do Hajj.
c. A concepção que denomina o povo islâmico tal como uma comuni-
dade universal torna obrigatório que seus adeptos mantenham o
costume da zakat como um pilar da fé.

148
d. As ações de oração cotidiana (saum) fazem com que o seguidor do
islã reforce seus laços com o grupo, tornando-se membro de um
clã unificado.
e. As prescrições de Ramadã determinam que o indivíduo se mantenha
em estado de jejum e abstinência constantes, que se encerram apenas
no instante da peregrinação a Meca.

149
Seção 2

Sunnah e o seu papel na Lei Islâmica

Diálogo aberto
Prezado aluno, seja bem-vindo ao estudo desta seção relacionada à
doutrina islâmica. Neste momento, vamos focalizar um ponto fundamental
da teologia islâmica, apontando seus elementos principais e desdobramentos
sociais a partir de um estudo sobre o livro sagrado do islã, o Alcorão, e sua
relação com outras fontes inspiradas da doutrina, que foram codificados em
um conjunto conhecido como Sunnah. Por meio da Sunnah, os islâmicos
estabeleceram, a partir das ações de seu Profeta, Maomé, uma série de
costumes que evoluíram para a criação de legislações e normas de ação que
caracterizam não apenas a vida espiritual do muçulmano, mas também as
suas regras de vida material e de convivência em sociedade.
Esses conceitos levam a uma interpretação particular do sistema legal
segundo a doutrina islâmica, e que está estabelecida no Alcorão, a Sunnah
e outros escritos secundários e posteriores. Esse sistema é conhecido como
shariah. Talvez você, aluno, ao deparar-se com esse conceito, imediata-
mente se lembre do uso da burca por mulheres afegãs (vestes que cobrem o
corpo todo, incluindo a região dos olhos, com pequenas redes). Em outros
países, como a Arábia Saudita, é preconizado o uso do niqab, que é um véu
que cobre todo o rosto, com exceção dos olhos. De acordo com a doutrina
islâmica, a mulher deve preservar-se e vestir-se com modéstia, situação essa
que abre espaço para interpretações distintas que condicionam as formas de
vida social desses povos.
Assim, é preciso que você evolua na compreensão dos temas ligados ao
islamismo, estruturando seu conhecimento a respeito de suas principais
linhas teológicas.
Para isso, podemos pensar na seguinte situação-problema: alguns países,
como a França e o Sri Lanka, proibiram o uso do véu pelas mulheres muçul-
manas. No caso do Sri Lanka, tratou-se de uma medida de segurança, na
sequência dos atentados de 2019 que mataram centenas de pessoas. Na
França, e em outros países europeus, o uso do véu foi proibido em espaços
públicos, apesar dos protestos da comunidade islâmica nessa direção. O uso
do véu, como observamos há pouco, pode ser entendido a partir do versículo
31 da 24ª Surata do Alcorão:

150
Dize às fiéis que recatem os seus olhares, conservem os
seus pudores e não mostrem os seus atrativos, além dos
que (normalmente) aparecem; que cubram o colo com seus
véus e não mostrem os seus atrativos, a não ser aos seus
esposos, seus pais, seus sogros, seus filhos, seus enteados,
seus irmãos, seus sobrinhos, às mulheres suas servas, seus
criados isentas das necessidades sexuais, ou às crianças
que não discernem a nudez das mulheres; que não agitem
os seus pés, para que não chamem à atenção sobre seus
atrativos ocultos. Ó fiéis, voltai-vos todos, arrependidos, a
Deus, a fim de que vos salveis! (ALCORÃO, 24ª Surata, v. 31)

Desse modo, considere que você, um teólogo especializado em discus-


sões sobre o diálogo inter-religioso, depara-se com as seguintes questões
apresentadas pela comunidade: nos países ocidentais, a lei religiosa, baseada
na doutrina, deve submeter-se à lei nacional, baseada nos costumes próprios
da civilização? Em outras palavras, qual o limite à ação do Estado sobre
elementos do costume de uma expressão religiosa, estabelecidos há séculos a
partir de sua doutrina revelada?

Não pode faltar

Sunnah
Ao darmos prosseguimento aos nossos estudos a respeito da doutrina
islâmica e seus elementos principais, será possível perceber a existência de
uma série de relatos e estudos, que foram codificados e materializados em
uma literatura específica, ao longo dos últimos quatorze séculos.
Naturalmente, sempre que pensamos em escritos islâmicos vem à mente o
Alcorão, que se constitui como o livro principal dessa doutrina e que contém
as verdades reveladas por Allah. Essa recordação, tipicamente ocidental,
acaba por colocar em segundo plano outros textos igualmente importantes na
expressão religiosa islâmica: ainda que não tenham sido diretamente revelados
pela divindade, segundo a interpretação muçulmana esses escritos contêm uma
série de orientações a serem seguidas pelos seguidores da religião, integrando
tradições a hábitos e regras que devem ser observadas pelos fiéis.
A compilação desses escritos gerou o conjunto de livros que abarca os
relatos históricos, descrições lendárias e normas legais relacionadas à vida
de Maomé. Durante o período em que ele realizou a sua missão profética

151
na Península Arábica (pouco mais de vinte anos), seus atos, gestos, ações e
interpretações a respeito da vida material e espiritual dos muçulmanos foram
sendo colhidas em uma série de instruções que correspondem ao “caminho
trilhado” pelo Profeta – essa expressão é traduzida em árabe como Sunnah.
Esses escritos consolidam uma tradição a respeito da vida do Profeta e os
seus atos e formam uma regra de vida, uma linha de ação a ser seguida pelos
muçulmanos; não se trata, vale destacar, de uma doutrina apresentada direta-
mente pela divindade, tal como o Alcorão. Mais efetivamente, são registros
históricos que constituem um núcleo moral, com regras cujas interpretações
abrangem diretamente os aspectos da vida comum.

Assimile
A Sunnah apresenta tradições importantes, que foram consagradas
como referenciais de comportamento na história islâmica. Há, no
Judaísmo, uma versão desse conjunto conhecida como Talmude, que
registra opiniões e recomendações de rabinos da antiguidade sobre
temas importantes de sua fé.

Podemos, assim, entender a Sunnah como uma fonte de jurisprudência


e lei, que se submete à doutrina revelada no Alcorão e apresenta os meios
de que Maomé lançou mão para atingir o seu objetivo maior, a expansão do
Islã e o seu ensino para os primeiros seguidores. A partir da Sunnah, enten-
dem-se e registram-se os atos relacionados à vida do Profeta, suas afirmações
diretas, formas de vida, referências biográficas e opiniões por ele omitidas em
relação ao islã, à sociedade e à observância da religião. Ainda que seja consi-
derada secundária ao Alcorão, trata-se de um escrito de igual relevância, pois
apresenta não o conteúdo doutrinário da fé, mas a forma encontrada por
Maomé para dar continuidade à sua missão e ao ensino da doutrina islâmica.
Figura 4.3 | Contextualização esquemática da doutrina islâmica

Sunnah Alcorão
(costumes) (revelação)

Doutrina
do Islã

Fonte: adaptada de Gaardner, Hellern e Notaker (2000).

152
Nesse ponto é conveniente apontar dois outros conceitos, quais sejam, o
hadith e a fiqh. Em muitos casos, a hadith é confundida com a Sunnah, como
uma espécie de conjunto de normas e interpretações. No entanto, há algumas
diferenças importantes entre esses dois instrumentos. A hadith corresponde
às narrativas e histórias relacionadas ao Profeta, que foram mencionadas
por ele em sua missão. Essas narrativas contêm ações e situações vividas por
Maomé nos anos em que exerceu o seu profetismo, recomendando posturas
e gestos a serem adotados pelo povo.
Assim, a hadith remete àquilo que foi feito, e que se consagrou como
ensinamento no Islã. A Sunnah, por sua vez, representa a tradição e os fatos
relacionados a Maomé, indicando ações que devem ser feitas pelo muçul-
mano, justificando-as a partir da doutrina.
A fiqh, por sua vez, pode ser entendida, por uma explicação ocidental,
como sendo a jurisprudência do Islã. Isto é, na fiqh registram-se as opiniões
e sentenças emitidas por estudiosos da doutrina islâmica ao longo de sua
história; e embora esses ensinamentos correlacionem-se ao Alcorão e à
Sunnah, não são considerados como revelados, mas como interpretações
desse conteúdo de doutrina.
Podemos, então, criar uma primeira síntese: o Islã, enquanto doutrina, é
composto do Alcorão e da Sunnah. Por sua vez, quando a hadith é agregada
a estes escritos, cria-se a Shariah, a lei islâmica, a qual fundamenta os direitos
do homem a partir da religião, nos escritos islâmicos e na fiqh, que estuda as
fontes doutrinárias da lei ao longo do tempo, estruturando normas políticas,
econômicas, morais e sociais.

Reflita
Quando mencionamos o conceito de shariah, em um primeiro momento
pensa-se nos atos de extremistas religiosos ou nas punições severas a infra-
tores da lei em países árabes. Você, como estudante, sabe, no entanto, que
a lei determina atos importantes, como a caridade (zakat) como referência
de fé. Assim, baseando-se em seus conhecimentos acumulados até o
momento, você considera adequado mencionar a doutrina islâmica apenas
sob pressupostos de extremismo e atos violentos?

Perceba que as correntes interpretativas da doutrina, a partir do Alcorão,


acabam remetendo para uma cosmovisão religiosa, isto é, uma interpretação
da vida que é fundamentada na fé e na compreensão do mundo a partir das
linhas mestras da religião.

153
A relação entre Sunnah e Revelação
Como discutimos na seção anterior, a Sunnah apresenta uma série de
situações relacionadas à vida e às obras de Maomé e sua respectiva expansão,
criando a civilização islâmica que se expandiu vertiginosamente entre os
séculos VII e IX d.C. Vimos, ainda, que o Alcorão é o ponto de partida da
doutrina islâmica, como base e elemento fundamental. No Alcorão está
a revelação divina ao Profeta, por meio do anjo Gabriel, que transmitia a
doutrina a Maomé em diferentes momentos, durante a sua estada em Medina,
e novamente em Meca, após a sua peregrinação pelo deserto.
No entanto, seria incorreto mencionar, de acordo com o ensinamento
islâmico, que a Sunnah não consiste em uma doutrina revelada: mencio-
namos na seção anterior que apenas o Alcorão foi diretamente revelado ao
Profeta por Allah. No entanto, a Sunnah apresenta, de acordo com a doutrina
islâmica, uma inspiração divina, pois detalha as leis do Alcorão, demonstra a
importância de suas práticas e confirma, em diferentes situações, as opiniões
e gestos de Maomé em torno de temas específicos. Assim, a Sunnah também
consiste em uma doutrina inspirada, e pode-se dizer, revelada, pois apresenta
normas que orientam a vida do fiel e seus gestos de piedade.

Exemplificando
A própria liturgia relacionada a essas duas fontes apresenta diferenças:
a Sunnah é recitada, embora o Alcorão seja formalmente recitado,
como num ato de adoração a Allah. Você observará esse contexto se,
em algum momento, frequentar um serviço religioso islâmico.

Ao explicar as fontes da doutrina inspirada, a Sunnah demonstra a forma


de entender o Alcorão e segui-lo, criando as bases da lei islâmica em suas
características. Nesse caso, o Alcorão sobrepõe-se aos demais textos, pois
é expressamente compreendido como a palavra divina transmitida aos
homens. Recorda o Alcorão, na segunda surata, versículo 231: “Não zombeis
dos versículos de Deus e recordai-vos das Suas mercês para convosco e de
quanto vos revelou no Livro, com sabedoria, mediante o qual vos exorta.
Temei a Deus e sabei que Deus é Onisciente.”
O próprio conceito de sabedoria, desse modo, qualifica a Sunnah como
tendo origem divina, pois expressa um grau de compreensão que ultrapassa
a inteligência humana e somente poderá ser compreendido na perspectiva
da fé e da doutrina. Assim, a Sunnah, ao apresentar as opiniões do Profeta,
demonstra o que ele ensinou por meio da revelação, que apoiava suas ações e

154
as corrigia caso fosse necessário. Na próxima seção, discutiremos um pouco
mais a respeito dessas relações de Revelação pela doutrina islâmica.

A Revelação Informativa e Afirmativa


A doutrina islâmica demonstra que a inspiração para a codificação do
Alcorão se deu a partir da revelação divina. Quando Allah transmite, por inter-
médio do arcanjo Gabriel, as orientações e sinais que constituiriam a cosmo-
visão islâmica a Maomé, tem-se que o Profeta era responsável pela organização,
transcrição e transmissão desses ensinamentos, que contêm a Palavra divina
(no Alcorão) e a sabedoria dos atos, gestos e pensamentos (Sunnah).
Assim, podemos compreender, a partir do conjunto doutrinário do islã,
que as opiniões e pensamentos do Profeta não remetem a pensamentos
humanos, banais e corriqueiros; remetem, no entanto, à própria revelação
divina, ao que Allah lhe transmitiu. Desse modo, as ações de Maomé seriam
confirmadas e apoiadas pela revelação, ou por ela seriam corrigidas, colocan-
do-o novamente em um caminho orientado pela verdade.
Assim, é possível entender essas revelações a partir de duas perspectivas,
quais sejam: a Revelação Informativa e a Revelação Afirmativa.
A Revelação Informativa tem um caráter solene (embora ambas remetam
à origem em Allah), haja visto que é entendida como uma informação que
Allah transmitiria ao Profeta por meio de algum recurso (revelações diretas
por locução interior ou por mensageiros como Gabriel). Nesse caso, a
verdade é repassada ao Profeta diretamente, como uma inspiração que deve
ser traduzida de modo a ser compreendida pelos fiéis. É uma “via de mão
única”: surge a partir da inspiração divina e assim é recebida pelo Profeta
para ser transmitida.
Vale destacar, no entanto, que a Revelação Informativa também poderia
verificar-se por meio da ação do povo e dos fiéis em relação a Maomé: no
momento em que este não tinha a resposta para algum problema a respeito
do qual fosse consultado, o Profeta aguardaria até o momento em que a divin-
dade se manifestasse e emitisse um juízo sobre aquele assunto. Ao ser consul-
tado a respeito da partilha de bens em herança, por exemplo, Maomé recebe
uma revelação, a qual consta no versículo 11 da 4ª Surata do Alcorão, enfati-
zando que os filhos homens devem receber uma porção dobrada da herança
em relação às filhas mulheres (sem retirá-las do seu direito à herança), entre
outras observações relacionadas ao tema.
Por outro lado, a Revelação Afirmativa tem um caráter eminentemente
reativo: ela se manifesta a fim de conformar, ou negar, as ações e pensamentos

155
do profeta acerca de um determinado assunto. Se, por meio de uma ação,
o Profeta exercesse um julgamento considerado correto, a ação divina seria
exercida no sentido de confirmar essa ação; mas, em caso de incorreção,
essa mesma revelação teria o propósito de reorientar o Profeta em relação à
verdade, retirando dele a possibilidade de erros doutrinários a serem trans-
mitidos aos fiéis.
Por consequência, no momento em que o Profeta aprovava ou desapro-
vava uma ação, ainda que tacitamente (isto é, sem emitir um juízo), enten-
dia-se que a ação era correta, pois estava expressando a vontade de Allah, que
não os estava condenando por aquele gesto.
Figura 4.4 | Fontes da Revelação segundo o Islã

Revelação Informativa

• Ação direta da divindade.


• É traduzida pelo Profeta.
• Pode responder a problemas dos fiéis.
• Constitui o núcleo da fé.

Revelação Afirmativa

• Confirma ou corrige ações e pensamentos do Profeta.


• Ações corretas são validadas pela divindade.
• Ações incorretas são corrigidas.
• Foco: manutenção constante da verdade em Maomé.
Fonte: Armstrong (2002, p. 70-85).

Observe, portanto, que a Revelação obedece a um único ponto de partida,


a divindade, ainda que apresente motivações e elementos diferentes, mas que
convergem a uma única finalidade: criar uma linha doutrinária que expresse
a religiosidade do Islã e oriente a vida de seus seguidores.

A diferença entre Sunnah e o Alcorão


Podemos, neste momento, realizar uma síntese interpretativa a respeito
dos livros inspirados na doutrina islâmica, entendendo-os a partir de suas
expressões legais, culturais e religiosas: a Sunnah remete a todos os fluxos de

156
pensamento, ações e atitudes relacionadas ao Profeta, que vieram a partir de
Allah e são por ele revelados, para além do Alcorão. Nesse caso, entendemos
o Alcorão como uma fonte doutrinária revelada, entregue pelo anjo Gabriel e
que se estabelece sobre quaisquer outros escritos e interpretações, como uma
verdade autêntica e incontestável na doutrina islâmica.
O Alcorão remete, portanto, a uma dimensão dogmática do Islã, dada
a origem divina desse conjunto de observações, e mais que isso: esse livro
menciona alguns dos rituais e orações que fazem parte da vida do muçulmano
como parte de seus pilares da fé, apresentando ainda algumas observações histó-
ricas relativas a civilizações que antecederam a formação da sociedade islâmica.
A Sunnah oferece um elemento complementar ao Alcorão, estabele-
cendo uma dimensão objetiva, prática, dos elementos apresentados no Livro,
como afirmações, ações ou entendimentos a respeito de diferentes assuntos
fundamentais para a religiosidade islâmica, tais como as orações diárias e
a prática do tributo de caridade, o zakat, cuja implementação constitui-se
como preceito fundamental na realidade islâmica.

Sem medo de errar

Na situação-problema apontada inicialmente, você, como teólogo, foi


abordado pela sociedade local para discutir e apresentar pontos de vista
relacionados ao problema das proibições públicas ao uso de elementos
relacionados à tradição islâmica em alguns países, sobretudo europeus.
De fato, nações na Europa e na Ásia implementaram essas medidas na
década de 2010 por motivos de segurança e para evitar posturas de discri-
minação religiosa. No entanto, elas foram duramente contestadas pela
população islâmica desses lugares e ao redor do mundo. Diante desse
conteúdo, seria possível efetuar um questionamento a respeito dos limites e
do alcance dos Estados no sentido de criar legislações que interfiram direta-
mente em posturas e costumes relacionadas à fé e à cosmovisão religiosa de
um povo. Tal legislação seria válida a partir dessa perspectiva?
Como você pode perceber, há diferentes respostas possíveis que você,
enquanto teólogo e estudioso da área, pode apresentar para este questionamento,
de modo que não é possível apontar uma que seja mais correta que as demais.
Podemos pensar em algumas pistas que auxiliarão você na discussão relativa a
essa temática. Logo, é possível apontar ao menos duas linhas para reflexão.
A primeira delas confirmará e ratificará essas medidas, pois dizem respeito
a ações tomadas por Estados soberanos a serviço dos interesses de seu povo

157
e de sua segurança, ensejando uma superação de costumes religiosos para a
promoção do interesse comum.
Uma outra possibilidade, no entanto, pode mencionar que o Estado
não é competente para legislar em assuntos de matéria privada, aos quais
competem os costumes religiosos que condicionam o comportamento das
pessoas. Pela reflexão proposta em seu material de aprendizagem, você pôde
perceber que, acima de tudo, o islã categoriza hábitos e ações que devem ser
adotadas pelos muçulmanos a partir da doutrina recebida por Maomé pela
via da revelação. Desse modo, o seguimento ideal das medidas é conside-
rado um ato justo e viabilizador da salvação individual. Quando um Estado
intervém diretamente nessa ordem, poderá estar buscando romper padrões
culturais e religiosos historicamente estabelecidos em torno de um conjunto
de aplicativos sociais e espirituais.

Avançando na prática

Charlie Hebdo: tradição e doutrina em xeque no


fundamentalismo religioso

O jornal francês Charlie Hebdo publicou, entre os anos de 2006 e 2015,


uma série de charges e ilustrações que foram consideradas ultrajantes
pelos islâmicos. Entre ameaças, pequenos ataques, protestos e fechamento
de repartições francesas em países islâmicos, a “queda de braço” entre a
população islâmica e o jornal manteve-se como caso de polícia, até que em
janeiro de 2015 extremistas invadiram a sede do jornal e fuzilaram vários
profissionais que ali trabalhavam, além de dois policiais que faziam a guarda
do entorno. Uma jornalista, no entanto, foi poupada sob o argumento que
os invasores não matavam mulheres em nome da doutrina islâmica; mas ela
deveria renunciar ao seu trabalho, “aderir à religião, ler o Alcorão e usar um
véu” (RICHARDS, 2015, [s.p.]).
Nesse contexto, podemos questionar: o que pode ser percebido nesse ato
em termos de doutrina e tradição islâmica? E de que modo essa tradição
pode afetar as relações sociais?

Resolução da situação-problema
De acordo com a proposta da discussão dessa situação-problema,
podemos também observar alguns pontos importantes. O primeiro deles

158
menciona o fator político-extremista na ação dos invasores do jornal. O
caráter fundamentalista do seu ato está estruturado na solicitação/ordem
feita à mulher, que se convertesse ao islã e adotasse os costumes deter-
minados pelo Alcorão e pela Sunnah para que sua vida fosse poupada.
Observe, portanto, de que modo a doutrina perpassa as relações
sociais, mesmo as mais extremas e que resultam em atos de violência.
Naturalmente, é preciso lembrar que a mensagem do Alcorão tem uma
natureza pacifista, embora interpretações mais radicais possam induzir
atos moral e legalmente reprováveis.

Faça valer a pena

1.
Todo ano, Maomé se retirava para uma caverna numa
montanha nos arredores de Meca, onde meditava. Esse
também era o hábito dos monges e eremitas cristãos […]
Ao completar quarenta anos, Maomé teve uma revelação
na caverna. O anjo Gabriel de repente lhe apareceu com
um pergaminho e ordenou a ele que o lesse. (GAARDNER;
HELLERN; NOTAKER, 2000, p. 120)

A doutrina islâmica estabeleceu o seu referencial teórico sobre diferentes


textos e itens cuja sacralidade confere uma importante justificação à cosmo-
visão dessa religião.
Deste modo, considerando o conteúdo apresentado, é correto mencionar que
o conceito de fiqh diz respeito à (ao):
a. Interpretação da doutrina islâmica por diferentes estudiosos e
teólogos ligados a essa religião, criando jurisprudências específicas.
b. Processo de codificação e interpretação de mensagem divina a partir
de Maomé, criador da doutrina islâmica.
c. Elaboração dos atos e feitos históricos do Profeta, criados por seu
sucessor direto, o Califa Omar.
d. Texto sagrado dos islâmicos, recebido por revelação divina com
natureza afirmativa, legislando sobre a vida material do homem.
e. Esboço teórico da hadith, o conjunto legal de biografias e escritos
proféticos de Maomé, criados no século VII d.C.

159
2.
Em árabe, a palavra recitar tem a mesma raiz que Curan,
que significa ‘ler’ ou ‘ler alto’. O Corão é o livro sagrado dos
muçulmanos e reúne as revelações de Maomé. Assim, os
muçulmanos, do mesmo modo que os judeus e os cristãos,
passaram a ter um texto sagrado. (GAARDNER; HELLERN;
NOTAKER, 2000, p. 120)

Os textos sagrados do islã são elementos multiplicadores de sua


doutrina, estabelecendo referenciais teológicos fundamentais para a
construção de sua cosmovisão.
Nesse sentido, a partir das dimensões apontadas pelo texto-base, avalie as
opções que se seguem e assinale a correta:
a. A adoção do Alcorão como doutrina revelada a Maomé, o Profeta,
faz com esse texto apresente, de acordo com a teologia islâmica,
elementos inconsistentes que são corrigidos pela Sunnah.
b. A criação da fiqh teve por objetivo organizar os discursos de Maomé
a respeito da nova expressão religiosa, construindo, assim, novos
objetos de culto.
c. Os muçulmanos admitem que a Sunnah é um texto criado por homens,
logo, sua inspiração divina pode ser diretamente questionada.
d. A revelação dos textos do Alcorão a Maomé era realizada por meio de
sua observação dos fatos comuns do homem, elaborando interpreta-
ções sobre eles.
e. Por meio da Sunnah é possível compreender a contextualização
histórica e o fundamento teológico institucional da doutrina islâmica,
estabelecida a partir dos atos de Maomé.

3.
Maomé respondeu [ao anjo Gabriel] que não sabia ler, e
o anjo disse: Recita em nome do teu Senhor, que criou,
criou o homem a partir de coágulos de sangue. Recita!
Teu Senhor é o mais generoso, que pela pena ensinou
ao homem o que ele não sabia. (GAARDNER; HELLERN;
NOTAKER, 2000, p.130)

160
A compreensão sobre os textos islâmicos, que codificam sua doutrina, ajuda
o pesquisador a entender importantes relações políticas, culturais e sociais,
estabelecidas em uma perspectiva histórica.
Assim sendo, mediante os elementos apontados pelo texto-base, analise as
seguintes afirmações:
I. A revelação informativa constituía-se como um processo no qual
a divindade manifestava-se ao Profeta para transmitir o conteúdo
doutrinário principal do Islã.
II. A Sunnah foi elaborada como parte de um conjunto de revelações
informativas que registrava o pensamento de Allah a respeito dos
pecados da humanidade.
III. Por meio de uma revelação afirmativa, a divindade manifestava
consentimento ou desaprovação a quaisquer atos realizados pelo
Profeta em sua missão.
Está correto o conteúdo que se afirma em:
a. II, apenas.
b. III, apenas.
c. I e III, apenas.
d. I e II, apenas.
e. II e III, apenas.

161
Seção 3

A mesquita e a cultura muçulmana

Diálogo aberto
Caro aluno, seja bem-vindo a este espaço no qual vamos discutir, de
forma pormenorizada, algumas expressões religiosas relacionadas ao
Islamismo, procurando entender, ainda, de que modo estas expressões inter-
ferem, de forma menos ou mais intensa, nas relações entre povos e socie-
dades. A realidade brasileira, vale dizer, é permeada por um processo impor-
tante de tolerância religiosa, que viabiliza espaços de diálogo e convergências
em torno de metas comuns de fraternidade entre povos. Assim, a discussão
proposta nesta seção vai enfatizar os elementos de culto que definem uma
parte importante da identidade dos muçulmanos, ou seja, que formam uma
relação de pertencimento a esta doutrina e a esta religião. Estes elementos
são observados na forma de símbolos religiosos e outras práticas sociais e
de culto que definem os padrões e relações sociais e culturais do Islã entre
muçulmanos e, em particular, com as demais civilizações.
Neste sentido, podemos efetuar uma contextualização, entendendo
melhor os nossos objetivos de aprendizagem e suas características, para o
apoio à compreensão efetiva dos pontos desta disciplina: espera-se que
você se torne capaz de compreender, ao final desta seção, a importância dos
eventos religiosos, sua origem histórica e suas manifestações sociais e cultu-
rais na sociedade islâmica. Torna-se, assim, possível entender de que modo
estes eventos, e mesmo o processo de passagem do tempo para os islâmicos,
é capaz de definir relações sociais que podem dizer respeito à sua vida profis-
sional, por meio de situações de convivência e outras relações econômicas e
sociais inerentes à realidade contemporânea.
Deste modo, sabendo-se da necessidade de uma compreensão ampla dos
temas aqui propostos, é possível passar a alguns questionamentos iniciais:
de que modo entende-se a importância do jejum na cultura e na religião
islâmica? Como se divide o tempo para os muçulmanos? Quais as datas mais
relevantes a serem observadas? E qual a conexão religiosa presente nestas
datas em relação ao ano islâmico?
A partir destas questões e do contexto de aprendizagem proposto para
a seção, considere a seguinte situação-problema: você é um profissional
que trabalha em uma empresa do setor petroquímico que estabelece vários
contratos profissionais com agentes e empresas dos países do Oriente Médio,
ainda que estes profissionais estejam alocados no Brasil, em escritórios filiais

162
ou operando empresas próprias, ligadas a organizações maiores pertencentes
a pessoas de nações árabes.
A cultura ocidental, da qual os costumes brasileiros são derivados,
costuma efetuar a celebração de contratos e outros acordos por meio de
eventos sociais, mais ou menos reservados, como almoços, cafés e outros
itens desta natureza.
Neste sentido, no momento em que você se coloca no papel de um profis-
sional que está interessado no seu desenvolvimento pessoal e da empresa em
que você trabalha, é possível questionar, em uma perspectiva bastante prática e
objetiva: de que modo alinhar o interesse financeiro de uma empresa (e os seus
próprios objetivos profissionais) e as expressões religiosas da sociedade islâmica?
Em outras palavras, que formas de ação devem ser observadas à luz da
religião islâmica, a fim de respeitar os seus costumes sem perder de vista um
processo empresarial ou uma ação profissional?

Não pode faltar

O calendário islâmico
Cada sociedade ou civilização possui maneiras próprias de organizar e
contabilizar a sua relação espaço/tempo. Ou seja, estas populações realizam
cálculos e procedimentos por meio dos quais podem ser separadas datas
específicas e especiais em relação ao seu desenvolvimento histórico, suas
características gerais, processos de expansão, entre outras situações.
Neste sentido, é importante observar que estas datas, ou eventos, assumem
uma conotação social importante, pois são momentos de integração da
população em torno de causas comuns, sejam elas cívicas ou religiosas. De
forma geral, esta é a função básica de um calendário: organizar não apenas a
divisão dos dias ou do tempo em si, mas recordar e fixar eventos históricos
e guardar sua relação com o cotidiano da sociedade por meio de situações
especiais, como comemorações, feriados religiosos etc. (GAARDER, 2000).
No Ocidente, o calendário de maior presença e influência em nossas
relações sociais é o calendário gregoriano, criado na Europa ao final do
século XVI, e adotado por todas as nações do mundo – mesmo para aquelas
que não o seguem oficialmente. Em países onde a maioria da população é
muçulmana, porém, é utilizada outra forma de calcular o tempo, qual seja, o
calendário islâmico.
Este calendário é elaborado na forma de um calendário lunar, ou seja,
registra o fluxo do tempo a partir das diferentes fases da lua, separadas em

163
períodos de vinte e nove ou trinta dias durante um período de doze meses.
Deste modo, o calendário islâmico apresenta uma duração inferior ao calen-
dário gregoriano: apenas 354 ou 355 dias, de acordo com a sucessão de fases
da Lua. Vale mencionar, por fim, que os meses deste calendário são iniciados
sempre com a fase da Lua Nova (HOURANI, 2006).

Exemplificando
Um calendário lunar segue as fases da lua que podem ser observadas
a olho nu. Assim, os meses não seguirão as estações solares, como no
caso do calendário gregoriano. A média dos meses lunares é de 29,5
dias, por isto os meses são divididos a intervalos de 29 ou 30 dias. Como
profissional, você deverá estar atento a estas diferentes relações de
tempo ao realizar quaisquer ações que envolvam o trato com os segui-
dores desta doutrina.

Assim como o calendário gregoriano é definido a partir de uma


data-chave – o nascimento de Cristo, o qual é marcado pelo ano 1 d.C. –,
o calendário islâmico é calculado a partir da Hégira – a fuga de Maomé
para Medina, a fim de escapar da hostilidade da população e da perseguição
religiosa das lideranças pagãs da cidade de Meca, que era o centro de difusão
da nova doutrina. De acordo com os cálculos dos muçulmanos, este fato
ocorreu no mês de julho do ano 622 da era cristã. Assim, o ano da Hégira
também é denominado o ano inicial deste calendário. No tempo atual (2020
da era cristã), o calendário islâmico é calculado como o ano 1441 da Hégira
(GAARDER, 2000).

Assimile
Se calcularmos a passagem dos anos da Hégira a partir do calendário
gregoriano, observaremos uma imprecisão: sabendo que a fuga de
Maomé ocorreu em 622 d.C, tem-se que em 2020 d.C. teriam se passado
apenas 1398 anos. Entretanto, as diferenças entre dias do calendário
islâmico e o calendário cristão (que possui dez a doze dias a mais, por
ano) foram amplificando esta diferença, de modo que, a cada trinta e
seis anos aproximadamente, o calendário gregoriano avança um ano
mais em relação ao calendário islâmico.

Os meses do calendário, divididos em doze períodos, marcam diferentes


eventos importantes na história islâmica, dos quais pode-se destacar
(BEM-VINDOS ..., 2019):

164
• Mês 1 – Muharram – é o primeiro mês do calendário, portanto, é
seguido de comemorações alusivas a esta passagem de etapa entre os
diferentes anos. Neste mês, são realizados festivais que comemoram,
em particular, a travessia do Mar Vermelho por Moisés e seus segui-
dores, fugindo à perseguição do faraó (é preciso lembrar que o
islamismo absorveu elementos da doutrina judaica, como a existência
de Abraão e Moisés, por exemplo). Em 2020, no calendário grego-
riano, este mês é observado entre os dias 20 de agosto e 18 de setembro.
• Mês 2 – Sáfar – Neste mês, são relembrados eventos como a Batalha
de Naravan (que ocorreu após a morte de Maomé, como resultado de
divisões internas que levaram a uma guerra civil entre islâmicos). Os
muçulmanos xiitas comemoram, ainda, a morte de Maomé, no dia 28
deste mês.
• Mês 3 – Rabi al-Awwal – é marcado pelo evento do Mulude (dia
12), isto é, o nascimento do Profeta. Diferentes correntes, como os
wahabitas (presentes em particular na Arábia Saudita) rejeitam a
comemoração deste dia, haja visto que Maomé afirmou no Alcorão
ser apenas um servo de Allah, e não uma encarnação divina como
Jesus Cristo – o “filho de Maria”, ao qual os cristãos “exagerariam” ao
qualificá-lo como filho unigênito de Deus. No entanto, muitos muçul-
manos comemoram esta data com desfiles, orações e fogos.
• Mês 7 – Rajab – é o mês que comemora a ascensão ao céu por
Maomé, no dia 27 deste mês, de acordo com antigas tradições muçul-
manas (observe, portanto, que há uma diferença em relação aos
xiitas, que comemoram este evento no mês de Sáfar). Relembra-se,
neste mês ainda, a morte de Abraão, considerado um profeta na
religião muçulmana.
• Mês 8 – Sha’aban – trata-se do mês no qual os muçulmanos relem-
bram o evento conhecido como Shab-e-Barat, também conhecido
como “Noite do Perdão” , noite em que, segundo a tradição islâmica,
Allah escreve o destino de todos os homens ao longo do ano seguinte,
de acordo com os feitos e faltas cometidos no passado. Assim, os
islâmicos jejuam e realizam preces pedindo perdão a Allah a fim de
receberem bênçãos. O dia seguinte é considerado feriado, para que
os muçulmanos possam ficar em oração por toda a noite. Por fim,
neste dia visitam-se os túmulos dos entes queridos, rezando-se pela
sua paz e repouso eterno (em semelhança com o dia de Finados no
calendário cristão). Este feriado ocorre dezesseis dias antes do início
do Ramadan, comemorado no mês seguinte.

165
• Mês 9 – Ramadan – é um mês considerado sagrado pelos muçul-
manos, pois a revelação do Alcorão teria ocorrido neste mês. São
efetuados jejuns rituais e preces de acordo com a liturgia própria deste
tempo, como analisaremos nas seções seguintes.
• Mês 10 – Shawwal – é marcado pelo fim do Ramadan, em seu primeiro
dia, em um evento denominado Eid al-Fitr, que será apresentado
também posteriormente.
• Mês 11 – Dhu’l – Qa’dah – é um mês associado pelos muçulmanos
ao repouso, em um período de pacificação de conflitos e guerras
religiosas e políticas.
• Mês 12 – Dhu al-Hija – é também considerado como um mês sagrado,
finalizando o ano de acordo com o calendário islâmico. Neste mês, é
recomendada a peregrinação a Meca (Haj), que é considerada um dos
Cinco Pilares do Islã.
Por fim, é importante recordar os feriados mais relevantes do Islã: o Eid
al-Fitr, já mencionado, e o Eid-al-Adha, que é a Festa do Sacrifício, realizada
após o Haj, no mês de Dhu al-Hija. Nesta data, relembra-se a disposição de
Ibrahim (Abraão) em sacrificar seu próprio filho, Ismael. Esta festa ocorre
após o Ramadan de modo que coincida temporalmente com o Haj. São
trocados presentes e realizados sacrifícios de acordo com as tradições de cada
país, sendo que a carne do sacrifício deve ser consumida entre familiares
(um terço), vizinhos (um terço) e os pobres da comunidade (um terço),
demonstrando a relação fraternal entre os membros da Umma, a comuni-
dade islâmica (HOURANI, 2006).

Ramadan
O período do Ramadan corresponde a todo um mês, no qual os muçul-
manos realizam jejuns rituais, orações e praticam a caridade, de acordo com
os chamados “Pilares do Islã”, que são elementos organizadores da sua fé e
dos seus costumes religiosos. Como observamos anteriormente, o mês do
Ramadan corresponde ao nono mês no calendário islâmico. O Alcorão deter-
mina categoricamente a necessidade de observação deste período, conforme
o versículo 185 da 2ª Surata:

O mês de Ramadan foi o mês em que foi revelado o Alcorão,


orientação para a humanidade e vidência de orientação e
Discernimento. Por conseguinte, quem de vós presenciar o
novilúnio deste mês deverá jejuar; porém, quem se achar

166
enfermo ou em viagem jejuará, depois, o mesmo número
de dias. Deus vos deseja a comodidade e não a dificuldade,
mas cumpri o número (de dias), e glorificai a Deus por
ter-vos orientado, a fim de que (Lhe) agradeçais.

Ao seguir as fases da Lua, não há uma data específica para comemorar


o período, tal como acontece nos feriados civis e religiosos no Brasil, por
exemplo: o Ramadan segue a movimentação da Lua e seus dias são definidos
ano a ano. Em 2020, por exemplo, este período se estendeu entre os dias
24 de Abril e 13 de Maio no calendário gregoriano. Em 2021, no entanto,
este período deve ser compreendido entre os dias 13 de Abril e 12 de Maio
(BEM-VINDOS..., 2019).
Durante este período, são realizadas diferentes celebrações alusivas ao mês,
das quais é importante, para o momento, mencionar (HOURANI, 2006):
• Laylat Al Qadr: também conhecida como “Noite do Destino”, é uma
celebração na qual relembra-se o momento em que o Alcorão começa
a ser revelado ao Profeta, em Meca (mais precisamente no Monte
Hira), por ação direta do arcanjo Gabriel. Esta noite, entre os dias
26 e 27 do mês de Ramadan, é dedicada a orações e à recitação dos
textos do Alcorão. A 97ª Surata demonstra, em seus cinco versículos,
a importância desta celebração no calendário islâmico:

Em nome de Deus, o Clemente, o Misericordioso.


Sabei que o revelamos (o Alcorão), na Noite do Decreto. E
o que te fará entender o que é a Noite do Decreto? A Noite
do Decreto é melhor do que mil meses. Nela descem os
anjos e o Espírito (Anjo Gabriel), com a anuência do seu
Senhor, para executar todas as Suas ordens. (Ela) é paz, até
ao romper da aurora!

A noite de Laylat Al Qadr é considerada a mais importante dentro do


islamismo, crendo-se ainda que os pedidos realizados neste momento serão
atendidos por Deus.
Eid-al-Fitr: é a data relacionada ao término do jejum prescrito para o mês
de Ramadan, correspondendo ao início da fase da Lua Nova, que dá início
ao mês de Shawwal. Neste dia, há um feriado no qual os muçulmanos devem
praticar a caridade e comemorar o evento com roupas novas, orações, festas
e banquetes importantes (HOURANI, 2006).

167
No entanto, é preciso recordar que estes banquetes encerram um período
de mortificação e jejuns, conforme discutiremos na próxima seção.

Os jejuns no Ramadan
A obrigatoriedade do jejum, para os muçulmanos, é prevista como o
segundo dos Cinco Pilares da Fé. Trata-se de um período no qual o muçul-
mano deve efetuar uma revisão importante de sua fé, praticar a caridade e,
em especial, jejuar, de acordo com os princípios do Alcorão. Trata-se de um
preceito de adoção obrigatória para todos os muçulmanos considerados
aptos, isto é, que alcançaram a puberdade (ARMSTRONG, 2002).
Vale destacar que todos estão sujeitos ao jejum, com exceção dos
enfermos, idosos, portadores de doenças crônicas, gestantes e mulheres
em período de amamentação. Por fim, as mulheres que estejam em fase de
menstruação também estão dispensadas de jejuar.
No caso do jejum islâmico, prevê-se uma abstinência mais ampla do que
simplesmente alimentar-se. Entende-se, neste sentido, que o jejum é algo
mais que uma simples prática de mortificação dos sentidos, mas um processo
no qual todos os elementos da vida do indivíduo devem ser repensados,
reforçando a sua dimensão espiritual. São prescritas, portanto, orientações
de abstinência de comida, bebida e relações sexuais entre o amanhecer e o
pôr-do-sol, ao longo do mês de Ramadan.
Além disso, é necessário mortificar o espírito, evitando atos, pensamentos
e palavras que possam ser qualificadas como más. Deve-se, ainda, procurar
mais os espaços da mesquita e praticar as orações diárias (cinco, acrescidas
de uma oração especial, a Taraweeh, uma oração noturna ordenada pela
Sunnah). Deve-se, por fim, buscar a caridade e a generosidade, bem como a
recitação do Alcorão, ao longo de todo o mês (HOURANI, 2006).

Reflita
Os adeptos de diferentes religiões praticam o jejum de forma ritual, ou
seja, para pedir o perdão dos pecados e realizar orações e preces por
meio da mortificação dos sentidos, renunciando a prazeres e gostos da
vida para alcançar elevação espiritual. E você? Dentro de suas concepções
de vida, acredita que abster-se do consumo de algo que lhe agrade, ou
que necessite, como o alimento, pode ser uma via de elevação espiritual?

As práticas rituais de refeição que remetem ao mês de Ramadan são


as seguintes:

168
• Su-Hoor: é uma refeição substitutiva do café da manhã, a partir da
qual inicia-se o momento de jejum, ainda de madrugada, antes do
alvorecer. Esta refeição é compreendida como uma bênção direta de
Allah, conforme o ensinamento do Alcorão.
• Iftar: é a refeição ritual do fim do dia de jejum, que termina assim que
inicia-se o por-do-sol. Neste momento, o islâmico deve encerrar o
seu jejum, com orações apropriadas a este momento. Reúnem-se os
familiares para celebrar e visitar outras pessoas em um processo de
festejos, refeições coletivas e orações.

Os símbolos muçulmanos
Por fim, podemos tratar um pouco mais a respeito de algumas simbolo-
gias comuns à doutrina islâmica. No entanto, antes de realizar esta discussão
de forma aprofundada, é conveniente falar um pouco mais a respeito destes
elementos e de sua representação no contexto das religiões. Um símbolo
consiste em um elemento de agregação: a expressão é derivada do grego
symballein, ou seja, “agregar”: trata-se de um objeto ou elemento que poderá
ser utilizado para complementar um artigo de fé.
Estes símbolos, portanto, não são apenas emblemas, mas são sinais da
presença do sagrado entre os indivíduos, dando-lhes o sentimento de perten-
cimento a uma determinada fé ou crença. Os símbolos religiosos apresentam,
portanto, este propósito unificador, ao estruturarem a relação entre o mundo
dos homens e a sua dimensão espiritual, reforçando a ligação com os preceitos
religiosos ou estruturando formas de crença individuais que convergem para
a sua expressão social, isto é, à demonstração externa da dimensão subjetiva
dos indivíduos (GAARDER, 2000).
Os muçulmanos, a rigor, não contam com símbolos específicos de expressão
da fé. O Alcorão, tampouco as tradições compiladas pela hadith, fazem menção
à criação de símbolos religiosos e elementos de expressão de culto.
No entanto, algumas imagens e elementos foram progressivamente
agregados à identidade religiosa do Islã, configurando-se como símbolos
de expressão e relevância, inclusive no mundo ocidental. Vamos, agora,
apresentar alguns destes símbolos (IQARA ISLAM, [s.d.]):
Estrela e Crescente: este é o elemento mais associado ao Islã, como
elemento definidor da doutrina. No entanto, como mencionamos, não há uma
definição teológica ou baseada no Alcorão para determinar a sua existência.
Na verdade, o Crescente era parte da bandeira do Império Otomano, tendo
surgido alguns séculos após a morte do Profeta. Pode ser entendido como

169
um sinal da expansão dos muçulmanos pelo mundo, como a Lua que tende
a continuar a crescer.
A estrela, por sua vez, evoca o Paraíso, de modo que o símbolo apresenta
a importância da expansão do Islã para a promoção da salvação individual.
Assim, este sinal acabou se tornando elemento preferencial na estruturação
da identidade muçulmana. Instituições de ajuda, como o Crescente Vermelho
(equivalente à Cruz Vermelha dos países ocidentais) utilizam este símbolo
como demonstrativo de sua identificação muçulmana.
Figura 4.5 | Crescente e estrela em uma mesquita

Fonte: Shutterstock.

Shahadatain: é um símbolo muito conhecido em relação ao Islã:


trata-se da representação pictórica da Shahadah, a declaração de fé
muçulmana que todo indivíduo deve realizar a fim de afirmar sua fé,
como um dos Pilares do Islã. Este juramento vem acompanhado de uma
espada, como você pode observar:
Figura 4.6 | Representação da Shahadatain

Fonte: Shutterstock .

170
Rub el Hizb – é também conhecida como a Estrela de Oito Pontas, e é
utilizada para marcar as divisões do Alcorão. Pode ser acompanhada por um
círculo central ou estar vazia; é bastante utilizada na pintura de mesquitas,
como elemento religioso que evoca a recitação do Livro Sagrado.
Cores: em geral, a cor associada ao Islã é o verde, mencionado no
Alcorão como a tonalidade que os islâmicos usariam suas roupas no Paraíso:
“Reclinadas em coxins, cobertos com pano verde e formosas almofadas”, de
acordo com a 55ª Surata, versículo 64.
Da mesma forma, vários países islâmicos utilizam cores relacionadas à
dimensão política atual. Estas cores são o branco, o vermelho e o preto e o
verde, recordando a expansão do Islã ao redor de diferentes etnias, em um
processo cultural, político e social denominado Pan-Arabismo. Bandeiras
como a da Síria e do Iraque apresentam estes elementos pictóricos.
De todo modo, é importante concluir esta seção mencionando o fato do
Islã não conter símbolos oficiais. Vale destacar, neste sentido, que a própria
representação pictórica do Profeta não é recomendada, e pode ser mesmo
considerada ultrajante, gerando crises importantes, tal como o ataque ao
semanário parisiense Charlie Hebdo, em 2015.
Ao longo da história, Maomé foi representado com um pano sobre a face,
para evitar a idolatria, que é frontalmente condenada pelos islâmicos desde
os tempos iniciais desta religião, quando o Profeta destruiu as casas de culto
que existiam em Meca, tendo preservado apenas a Caaba e seu elemento
principal, a Pedra Negra (HOURANI, 2006).

Sem medo de errar

Recordando o que apresentamos na seção Praticar para Aprender


(Diálogo Aberto), você foi convidado a refletir um pouco mais a respeito das
relações profissionais e protocolos de ação que você deve estabelecer com
agentes e empresas oriundas de países árabes ou, de alguma forma, ligados
à expressão religiosa de matriz islâmica. Na verdade, você foi instigado a
realizar uma reflexão mais ampla a respeito dos padrões de culto, normas
sociais e de convivência dos muçulmanos a partir de sua matriz religiosa
no Alcorão. Com efeito, a religião islâmica apresenta algumas relações
importantes entre os eventos religiosos, as datas de seu calendário e práticas
que devem ser observadas, determinando situações sociais, econômicas e,
especialmente, empresariais, no espaço ocidental.
Diante desta contextualização, foi efetuado um questionamento: de que
forma você, enquanto profissional, deve articular suas relações sociais e

171
empresariais para contemplar estes costumes e padrões religiosos islâmicos,
incorporando-os ao seu cotidiano e às suas ações no mercado de trabalho?
Naturalmente, haverá inúmeros elementos que poderão ser mencionados.
Vamos contemplar, aqui, apenas os aspectos mais importantes que você
poderá realizar ou mesmo liderar em seus procedimentos e ações na reali-
dade de uma organização empresarial. A partir dos conteúdos destacados
na seção, é possível destacar a necessidade de observar as datas religiosas
importantes do calendário islâmico, pontuados por feriados nos quais os
muçulmanos passam o dia a jejuar e oferecer orações. O mês de Ramadan,
por exemplo, deverá ser observado com cautela por você, agente profis-
sional: é incorreto servir refeições ao longo do dia, embora seja adequado
realizar alguma forma de jantar comemorativo e, mais ainda, efetuar trocas
de presentes ao final do período. Deve-se observar se os muçulmanos com
quem você travará contato e terá uma atenção profissional mais ampla estão
realizando algum tipo de jejum, e de que forma isto pode ser trabalhado,
de forma coesa e respeitosa, a fim de garantir um alinhamento entre ações
empresariais e fatores religiosos fundamentais para a constituição da identi-
dade social da Umma, a comunidade islâmica.

Avançando na prática

Símbolos islâmicos: aplicações sociais na


realidade ocidental

Neste momento, você é convidado a desenvolver raciocínios alternativos em


torno dos temas discutidos ao longo desta unidade. O propósito deste novo case
é auxiliá-lo a consolidar sua compreensão a respeito dos elementos da cultura
islâmica que permeiam suas relações sociais, alinhadas pelo sentimento religioso.
Neste sentido, considere que você é um professor na área de Teologia,
que leciona em uma faculdade de uma capital brasileira. Seu curso tem uma
proposta ecumênica, ou seja, pretende integrar diferentes matrizes religiosas
em torno de uma única expressão de estudo, possibilitando, assim, construir
sínteses interpretativas ao redor de temas comuns a diferentes religiões.
Deste modo, você, aluno/professor, deseja realizar alguma ação efetiva no
sentido de introduzir seus alunos nos elementos mais importantes da cultura
islâmica. Para isso, elabore uma proposta de celebração que poderá ser reali-
zada, com o apoio de lideranças islâmicas de sua cidade ou região, a fim de
viabilizar um conhecimento mais amplo dos seus alunos sobre a doutrina
e os elementos de culto da religião islâmica. Em particular, considere os

172
eventos religiosos que costumam ocorrer no mês de Ramadan, e os símbolos
comuns a esta religião.

Resolução da situação-problema
O aluno deverá resgatar os elementos da seção que versaram a respeito
dos principais instrumentos de culto e símbolos religiosos na doutrina
islâmica. Deste modo, pode-se passar a diferentes abordagens práticas como,
por exemplo, a celebração de um jantar ritual (Iftar) no qual celebra-se o fim
do dia de jejum e se fazem preces e súplicas a Allah. Esta proposta pode ser
complementada com o uso de símbolos comuns à fé islâmica, como o uso de
itens na cor verde e a inserção de símbolos, como a estrela de oito pontas e o
crescente, os quais, embora não tenham sido descritos no Alcorão, remetem
intensamente aos aspectos básicos desta fé.
Pode-se também pensar na possibilidade de abordagens alternativas,
como a participação no festival de Eid-al-Fitr, que consolida o fim do mês
de Ramadan e os jejuns relacionados. Pode-se neste momento integrar as
comemorações e realizar a troca de presentes relacionada a este momento.

Faça valer a pena

1.
A palavra Islã, em árabe, significa submissão, estando
etimologicamente relacionada à palavra salaam, paz. O
muçulmano é aquele que se submete a Allah, revelado
através das palavras do profeta Muhammad (Maomé). [...]
Portanto, as palavras muçulmano e Islã não apresentam
definições exclusivas e devem ser consideradas categorias
linguísticas identificadoras de grupos sociais, disputadas
por diferentes etnias. Deste modo, seu entendimento
resulta de um contexto histórico e político específico.
(NEUMANN, 2006, p. 762)

O islamismo desenvolveu a recordação de datas específicas, relativas ao seu


calendário, que relembram eventos religiosos considerados sagrados em sua
doutrina. Essas datas evocam orações e momentos relativos a cada ação de
culto. Um exemplo desse processo é o conceito de Taraweeh.
Desse modo, considerando o conteúdo apresentado, é correto mencionar
que o conceito diz respeito à (ao):

173
Assinale a alternativa que completa a frase.
a. Oração noturna realizada no período do Ramadan, após o término
do jejum diário.
b. Primeiro mês do calendário islâmico, representando um período de
renovação.
c. Dia de orações relacionado à morte de Maomé, que remete ao perdão
dos pecados.
d. Aplicação de bens e serviços para a comunidade muçulmana, em um
gesto de caridade.
e. Peregrinação que todo muçulmano deve fazer a Meca por ocasião do
festival do Haj.

2.
Convém ter em linha de conta que os muçulmanos são
agentes com vontade própria e não meros receptáculos
passivos da agência ocidental. Mais: o islão é intrinse-
camente expansionista e, por isso, tem uma lógica de
proselitismo [...] O Império Otomano, por exemplo, foi um
actor de primeira grandeza na Europa durante séculos.
(RAPOSO, 2009, p. 4)

Os símbolos religiosos devem ser analisados, no islamismo, a partir dos


preceitos do Alcorão, determinando regras específicas para estes elementos.
Nesse sentido, a partir das dimensões apontadas pelo texto-base, avalie as
opções que se seguem e assinale a correta.
a. A cor vermelha, mencionada como a cor do Paraíso no Alcorão, é
destacada como um símbolo religioso desta doutrina.
b. A Lua Minguante é associada ao islamismo como parte de sua
doutrina de expansão da fé, submetendo os outros povos.
c. A adoção de representações pictográficas de Maomé é incentivada na
literatura islâmica, de modo a fixar sua imagem como parte de um
processo de difusão do conhecimento sobre o Islã.
d. O Rub el Hizb adquire um formato estelar que ajuda a compreender
as dimensões do Alcorão, atuando como um símbolo religioso que
conecta o fiel à sua doutrina.

174
e. A Shahadatain é um símbolo que apresenta a importância do jejum
e da caridade como Pilares do Islã, em uma junção teológica que
expressa diferentes formas de culto.

3.
No Ocidente, um dos grandes vícios epistemológicos é
aquele que concebe as acções dos muçulmanos como
meras reacções, ou seja, o muçulmano é quase sempre
visto como um ser passivo que apenas reage a uma acção –
normalmente negativa – do Ocidente; o muçulmano pode
reagir de forma pacífica ou violenta, mas é sempre uma
reacção a jusante da nascente. E a nascente é sempre o
Ocidente. (RAPOSO, 2009, p. 4)

A interpretação do islamismo, em suas características, demanda a construção


de sínteses sobre os seus elementos religiosos e suas aplicações sociais.
Assim sendo, mediante os elementos apontados pelo texto-base, analise as
seguintes afirmações:
I. Na comemoração de Laylat Al Qadr, os islâmicos comemoram o
fim do período de jejuns que caracteriza o mês de Ramadan, com
comemorações e festas.
II. A noite de Eid al-Fitr recorda o processo inicial de criação do islã, a
partir da apresentação dos ensinamentos do Alcorão a Maomé.
III. O calendário islâmico, com doze meses e que segue as fases da lua, é calcu-
lado a partir da Hégira, um evento-chave na história desta civilização.
Está correto o que se afirma em (assinale a alternativa correta):
a. I, apenas.
b. II, apenas.
c. III, apenas.
d. I e II, apenas.
e. II e III, apenas.

175
Referências

ALCORÃO sagrado. Versão portuguesa diretamente do árabe por Samir El H São Paulo:
Tangará, 1975. Disponível em: https://alcorao.com.br/. Acesso em: 3 abr. 2020.

ARMSTRONG, K. Maomé: uma biografia do profeta. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

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