Você está na página 1de 4

António Sena da Silva

PROJECTO, MÉTODOS E ATITUDE


In SENA DA SILVA
http://www.montra.gulbenkian.pt/content.aspx?contentid=C1632B53-206B-4A06-AE83-22A9E2F3A2F6&channelid=EDF9395B-0E48-4788-AFB9-
DB4BEA76F7E4&schemaid=F4925399-2C83-4518-84D3-9C84DDCF3706

ISBN 978-972-678-045-8

Um projecto começa sempre por uma pergunta. A essa pergunta, outras perguntas se seguem. O modo como –
sucessivamente – vamos formulando perguntas define uma ATITUDE. Uma ATITUDE é – geralmente – orientada por
uma intenção. Quem diz intenção diz “desígnio” (e quem diz “desígnio” pode dizer “design”...).
A ATITUDE determina o modo como as perguntas vão sendo formuladas, mas o conteúdo das respostas (e a
interpretação que lhe puder ser dada) pode exigir a redefinição da ATITUDE.

O PROJECTO desenvolve-se na sucessão das perguntas e das respostas, das dúvidas, das pro- postas e de algumas
opções. O PROJECTO é sempre a concretização de uma ATITUDE DE SÍN- TESE, que se define após um certo
número de oscilações. Estas oscilações resultam da confrontação de atitudes divergentes assumidas pelas entidades
envolvidas no processo-projecto e também das próprias componentes de cada atitude individual. Componentes de
natureza objectiva (necessidades concretas, condicionamentos quantificáveis) e também numerosos aspectos
subjectivos (aspirações resultantes de características particulares de temperamento, de situação sócio-cultural ou de
outras circunstâncias difíceis de avaliar em termos concretos). O PROCESSO-PROJECTO linear e silogístico será
apenas uma fraude ou um caminho estéril. O PROCESSO-PROJECTO que pretendemos defender exige, geralmente,
um trabalho de grupo vivido intensamente, bem como o recurso consciente ou intui- tivo a alguns esquemas de
MÉTODO.

Começámos por afirmar que um projecto começa por uma pergunta.


Uma pergunta de quem ?
Para comodidade de exposição, temos que arranjar designações abreviadas para cada uma das entidades que
provocam o desenvolvimento de um projecto. Temos uma entidade que precisa de um projecto e temos outra que
dispõe de recursos para o desenvolver e concretizar.
O tipo de estrutura social em que nos inserimos assenta geralmente na troca de serviços por alguma forma de
remuneração. A entidade que precisa do projecto assegura a tal remuneração à entidade que o pode produzir. Assim,
em linguagem corrente, falamos de “cliente” e de “projectista”. O “cliente” é a entidade que “encomenda” e que “paga” ...
Desde já, o vocabulário denuncia o “sistema”: um sistema de “venda” de serviços a quem os pode pagar. Acontece que
– em muitos casos – a entidade que pode pagar não é aquela que irá utilizar o artefacto que se projecta. Vamos referir o
exemplo do artefacto-casa ou prédio de habitação:
Os arquitectos projectam casas que se destinam a alojar pessoas. As pessoas a quem as casas se destinam raramente
intervêm na formulação do programa ou no desenvolvimento do projecto. O jogo de perguntas e respostas a que
aludimos acaba por se referir a coordenadas totalmente alheias aos problemas do utente da habitação. O “cliente” não é
o habitante, mas sim o “investidor”. (Repare-se que a terminologia portuguesa actual é absolutamente franca, pois
ninguém se refere a prédios de habitação, mas sim a prédios de rendimento, ninguém fala de “ordenamento”, mas sim
de loteamento e que todos os projectos de edificação começam pelo “juro do investimento”). Mesmo quando –
eventualmente – o “destinatário-habitante” parece ser considerado, essa consideração diz apenas respeito ao seu
aliciamento através de aspectos exteriores, com o intuito exclusivo de “chamar fregueses”, estimular a emulação ou
sobrevalorizar o produto...
Nas sociedades de tipo capitalista, as coordenadas do dia-a-dia para o trabalho do projectista
de artefactos industriais acham-se subordinadas a quatro aspectos: sobrevalorização do produto, competitividade no
mercado, aliciamento do consumidor e maximização dos lucros. A imagem contemporânea do “designer” insere-se
nestas zonas. Entre o projectista e o destinatário-consumidor existe uma enorme massa de interesses contraditórios, em
que se impõem condicionamentos e pontos de vista quase sempre antagónicos dos interesses efectivos do destinatário
do projecto. Os “homens do management” apenas vêem a maximização dos lucros. Os “homens do marketing” tentam
visualizar os meios para atingir os objectivos dos primeiros. Estes meios incluem a determinação das correntes de gosto
e das zonas de consumo mais lucrativas, a provocação de falsas necessidades ou a imposição de formas insólitas e
“chamativas” que fomentem “modas” que rapidamente se tornem obsoletas e insuportáveis, para que se provoquem
novas aquisições... e assim por diante.
O peso da intervenção de certos técnicos da produção também é considerável. Estes técnicos, por seu turno, são –
muitas vezes – vítimas de ideias preconcebidas acerca de equipamentos e modos de produzir. São, ainda, vulneráveis
às pressões dos vendedores de equipamento industrial ou de materiais, em termos de inovação gratuita no âmbito da
psicose colectiva das sociedades de con- sumo. O projectista arrisca-se normalmente a ter que enfrentar – por parte dos
homens da produ- ção – atitudes conservadoras injustificadas, obstrução, imobilismo, desinteresse, incredulidade ou até
sabotagem... A tudo isto, é necessário responder com compreensão, argúcia, diplomacia, crítica objectiva, capacidade
de integração, sentido de oportunidade e bastante imaginação.

É logo no momento da primeira pergunta e no modo como essa pergunta é formulada que se definem os aspectos mais
importantes da atitude do projectista diante do problema que lhe é apresentado. É a partir daí que irá desenvolver-se o
processo de pergunta-resposta-crítica-proposta-análise-opção que constitui o método do projecto.
“O projecto” pode ter por objectivo a edificação de uma casa, pode destinar-se à produção industrial de algum bem de
equipamento, pode ser o planeamento de uma região agrícola ou de uma dependência de habitação, pode ser a
elaboração de um sistema de análise de actividades, pode ser a visualização de uma mensagem verbal... O
PROGRAMA, A DEFINIÇÃO DE OBJECTIVOS E MEIOS, as perguntas e as res- postas, as atitudes e os projectos,
aquilo que se faz e aquilo que se utiliza, o modo como se utiliza aquilo que se produz... tudo isso constitui testemunho
da estrutura social em que se inserem as intervenções do projectista, testemunho das imposições das classes
dominantes, testemunho eventual das aspirações condicionadas das classes dominadas... mas também pode ser
instrumento nas mãos do projectista esclarecido para fazer mudar alguma coisa no sentido daquilo que ele julga mais
justo.
É necessário conjugar um método de projectar correcto e eficaz com uma atitude social esclarecida. É necessário ter
presentes as realidades sociais que dão sentido a cada intervenção profissional. Há que procurar entender os
problemas, descodificar imagens feitas que nos são apresentadas como aspirações, encontrar uma maneira coerente
de estar no mundo. Para o profissional que projecta o núcleo urbano, a locomotiva ou a chávena de chá, é necessário
não esquecer que não há objectos indiferentes! A forma que dermos às nossas cidades, aos nossos instrumentos de
trabalho, ao nosso equipamento lúdico ou de aprendizagem, será sempre testemunho da nossa atitude de aceitação, de
concordância, de indiferença, de compromisso, de desvio, de recusa ou de agressão, em relação ao sistema em que
vivemos e trabalhamos.
O profissional lúcido e senhor de um método tanto pode servir devotadamente um sistema em que acredita, como
sabotar habilmente um sistema que não aceita, como contribuir para transformar – por infiltração deliberada – um
sistema defeituoso num sentido construtivo... como, ainda, provocar ou acelerar a destruição de uma estrutura que
considere irrecuperável... ou abandonar o ofício, pegar numa arma e tornar-se guerrilheiro! O que não é admissível é a
“venda” irresponsável de serviços, a inconsciência dos exercícios fúteis, a leviandade na adopção de “clichés” de
soluções estranhas à realidade dos problemas que há para resolver, o recurso à imitação e à inovação gratuita, a
aceitação de falsos-problemas e de falsas-regras-de-jogo, a credulidade preguiçosa na sabedoria alheia...
No desenvolvimento de um projecto, cada grupo tem de encontrar o seu método. Cada grupo e cada homem tem “os
seus tempos próprios” para a alternância dos períodos de análise e de especulação, os métodos de registo de ideias, os
momentos que dão lugar às contribuições criativas, o reconhecimento dos meios capazes de provocar respostas, o
aperfeiçoamento da disci- plina natural que torna mais produtivo o trabalho, os estímulos e os impedimentos...
Um grupo de profissionais individualmente muito qualificado pode produzir trabalho medíocre. Outro grupo, com
qualificações individuais inferiores pode produzir trabalho exce- lente, eventualmente muito acima daquilo que
corresponderia à qualificação média dos compo- nentes do grupo.
Qualquer destes exemplos é bastante comum. O trabalho de projecto é – essencialmente – um trabalho de grupo. É um
problema de comple- mentaridade de contribuições. O grupo – no seu conjunto – deve constituir um sistema condutor de
fraca resistência, onde as correntes de ideias circulem livremente, interactuando, dando lu- gar a correntes secundárias
que irão reforçar a corrente principal.
Nos primeiros contactos entre “o projectista” e “o cliente”, podem ter lugar alguns equívocos perigosos. O equívoco mais
frequente consiste na substituição de um problema por uma imagem de solução. Isto é: “o cliente” encomenda ao “pro-
jectista” determinado objecto em termos de uma “imagem” que ele julga constituir resposta para um problema que,
afinal, não chegou sequer a formular... A imagem pode ser a fotografia de uma casa, de uma frigideira, de uma
paisagem rural ou urbana ou de determinada máquina, recortada de uma revista ou marcada na página de um livro.
Pode ser também uma descrição verbal ou escrita, por vezes até quantificada em metros lineares, quadrados e
cúbicos...
Neste caso, a primeira intervenção do projectista-interlocutor deverá consistir na descodificação dos sinais/imagens,
através de uma série de perguntas e de aferição de interpretações que permitam definir de um modo relativamente claro
e coerente os objectivos ou as aspirações que levaram o cliente a solicitar a intervenção do projectista.
Esta fase deverá conduzir à “tradução” da “imagem-solução” para os termos de um problema a resolver.
O PROBLEMA desenvolve-se em termos de objectivos a atingir e de recursos disponíveis. Uma fase inicial comum
consiste na recolha de informação que pode abranger a comparação objectiva de soluções adoptadas para problemas
semelhantes. Esta fase é também particular- mente perigosa! Perigosa como pretexto para adiar o comprometimento do
projectista no projecto. Perigosa no desvio eventual em relação aos objectivos (para adaptar o programa a uma
“imagem de solução” aliciante). Perigosa pela anquilose criativa que pode resultar de uma informação indigesta,
excessiva e desordenada. E também pouco produtiva, pois há que considerar a dificuldade de retenção de informação
que não corresponde a interrogações prévias e concretamente formuladas.
Embora muito dependente da natureza do trabalho e das mais diversas circunstâncias, podemos sugerir uma
recomendação saudável para a fase seguinte à definição do “problema”. Antes de pro- curar informação, tentar
encontrar respostas livres, imaginativas e diversificadas para o problema, mesmo em termos de imagem... com
incursões em vários sentidos, mesmo contraditórios, sem cons- trangimentos em relação a este ou aquele aspecto de
viabilidade ou exequibilidade imediata.
Este procedimento permite tirar muito maior partido de uma fase subsequente de recolha de in- formação, uma vez que
esta aparecerá como um conjunto de respostas às interrogações e dificul- dades surgidas nas tentativas de solução.
Não só a capacidade de retenção e de entendimento ficará muito alargada, como terá já lugar uma atitude crítica
indispensável ao desenvolvimento posterior do projecto.
É evidente que esta fase de “brain-storming” (individual ou colectivo) deve ser criteriosamente limitada em tempo,
devendo, oportunamente, dar lugar a opções realistas que serão depois objecto de concretização através de estudos
gráficos e numéricos, modelos e ensaios adequados à natu- reza do projecto.
De acordo com as características do “arte-facto” que se pretende produzir, tanto pode acontecer que a ideia de solução
permite imediatamente a realização de um modelo em tamanho natural, como pode acontecer que sejam exigidos
numerosos e complexos estudos preliminares.
No decorrer do trabalho de projecto, podem ter lugar muitas situações de impasse ou a persistência de soluções
defeituosas (quer no plano formal quer no plano funcional). Estas situações
resultam, muitas vezes, de maneiras imperfeitas de equacionar problemas ou até de problemas falsamente formulados
desde o início.
É sempre útil, no decorrer de qualquer projecto, reformular várias vezes os primeiros objectivos, para aferirmos os meios
que foram utilizados e a validade das propostas e das opções que fomos acumulando.
Tudo isto sem deixar de ter presente a necessidade de “optar” e obedecer a disciplinas de “prazos”, que impeçam a
especulação anárquica e improdutiva, as discussões académicas, os projectos que nunca se acabam...
O “volta-atrás” metódico e disciplinado é útil e necessário quando não prejudica o comprometimento total dos
projectistas no projecto.
Desde a primeira pergunta até ao dia-a-dia dos objectos na vida dos homens, podemos chamar às fases do nosso
trabalho os nomes que quisermos: estudo prévio, recolha e discussão de informação, anteprojecto, projecto, modelo,
projecto de execução, protótipo, série experimental, planeamento de produção, etc. De qualquer modo, o objecto a que
demos forma (a cidade ou a colher de pau) passa a pertencer ao mundo em que vivemos e é o testemunho da nossa
ATITUDE em relação a esse mundo.

Janeiro de 1975
TXT ORIGINAL IN Lisboa: INII – Instituto Nacional de Investigação, Núcleo de Design Industrial, 1977, pp. 1-7.