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De memória:

História das lutas


feministas e LGBTQIA+
em Portugal
título: De memória: História das lutas feministas e LGBTQIA+ em Portugal
conceção e coordenação: Rita Aires, Teresa Teixeira, Rita Grave
organização: Rita Aires, Teresa Teixeira
coleção: interseções DiverGenteS
revisão técnica: Sara Isabel Magalhães, Liliana Rodrigues
revisão de texto: Rita Grave, Matilde Soares
conceção gráfica: Sofia Sá
edição: gentopia - Associação para a Diversidade e Igualdade de Género
1ªedição eletrónica: Porto, Dezembro 2021

© gentopia - Associação para a Diversidade e Igualdade de Género

as ideias expressas não refletem necessariamente as opiniões nem a posição oficial das entidades
financiadoras.

Cofinanciado por: Organismo Intermédio:


De memória:
História das lutas
feministas e LGBTQIA+
em Portugal
Quando decidimos olhar para a história das lutas feministas e LGBTQIA+ em
Portugal e sistematizar datas e factos relevantes, sabemos de antemão que
será um exercício parcial. No duplo sentido dessa parcialidade. Por um lado,
ficam de fora elementos e detalhes importantes, ditando a incompletude do
documento, por outro lado, a recolha dos registos e memórias decorre de
uma certa escolha e tomada de posição. A história que se conta não é com-
pleta e não é neutra. Nunca é.
Neste exercício de contar tantas histórias numa só história, elenca-
mos factos e memórias em termos cronológicos, que optamos por organi-
zar em grandes categorias: Associações e coletivos; Eventos e pessoas; e
Legislação e direito(s). A primeira inclui marcos da construção de coleti-
vos e associações feministas/ LGBTQIA+; a segunda engloba marcos como
publicações de obras emblemáticas, personalidades, perseguições políti-
cas, manifestações e marchas LGBTQIA+/ feministas; a terceira abarca os
principais marcos legislativos definidores de direitos (ou da sua negação),
incluindo-se também a criação de organismos públicos relevantes na con-
cretização destes direitos por parte do Estado. Pode ser encontrada ainda
uma quarta categoria - Internacional - que reúne alguns marcos decorrentes
de lutas LGBTQIA+/ feministas internacionais, que nos ajudam a situar a his-
tória portuguesa destas lutas numa perspetiva global.
A história aqui apresentada contempla ainda narrativas de quem
viveu/construiu alguns desses momentos. Em Uma História entre muitas
outras histórias, Manuela Tavares traz-nos a história da formação da UMAR
no pós 25 de abril e o papel desta associação, ainda presente, na constru-
ção de um feminismo comprometido social e politicamente. Ainda na senda
da história dos movimentos feministas, Fabíola Cardoso, em A árvore Clube
Safo, conta-nos como surgiu o Clube Safo, nos anos 90, numa época em que
o movimento gay e lésbico, e o próprio movimento feminista, eram ainda
incipientes no nosso país. Sérgio Vitorino, em De “loucas intratáveis” a incon-
tornáveis: a marca das Panteras Rosa no movimento lgbt, conduz-nos pela
história de um coletivo que nasce de uma dupla insatisfação: com o movi-
mento lgbt institucional e com a sua intervenção exclusivamente partidária.
Em Momentos do arranque trans, Eduarda Santos conta-nos como o trágico
caso de Gisberta impulsionou a sua entrada na luta trans* e reflete sobre
as dificuldades desta luta dentro dos movimentos feministas e LGBTQIA+. A
partir do casamento entre pessoas do mesmo sexo, Miguel Vale de Almeida
traz-nos em Movimento, movimentos uma importante reflexão sobre os direi-
tos e conquistas do movimento LGBT português. Por fim, António Fernando
Cascais fala-nos de Rexistir numa história LGBTQIA+ que em Portugal se
escreve a vários ritmos, muitas vezes feita de contradições, conflitualidade e
resistência. Repletos de detalhes e de vidas, estes contributos convidam-nos
a conhecer, pelas lentes das suas/seus autoras/es, histórias poucas vezes
contadas ou até esquecidas.
Não podemos esquecer. Porque de memória se faz o caminho das
lutas pela diversidade e pela igualdade. Que o tempo de luta foi ontem, mas
é ainda hoje e amanhã.
Uma História entre muitas outras histórias 46
Manuela Tavares

A árvore Clube Safo 74


Fabíola Neto Cardoso

De “loucas intratáveis” a incontornáveis: a marca 100


das Panteras Rosa no movimento lgbt
Sérgio Vitorino

Momentos do arranque trans 116


Eduarda Alice Santos

Movimento, movimentos 124


Miguel Vale de Almeida

Rexistir 138
António Fernando Cascais
Eventos e Pessoas

Associações e Coletivos

Legislação e Direito(s)

Internacional
12 13

1886 Revisão do Código Penal português


que criminaliza a homossexualidade
determinando a detenção para quem
se entregasse “habitualmente à práti-
ca de vícios contra a natureza”.

1902 No segundo volume da obra “A Vida Sexual”,


a que chama “Pathologia”, Egas Moniz (pré-
mio Nobel da Medicina) defende a visão da
homossexualidade como doença e perversão.
Ideia esta que irá perdurar ao longo do séc. XX
e servir de base à sua criminalização.

1893 A Nova Zelândia é o primeiro


país democrático a reconhecer o
direito ao sufrágio feminino.

1902
Carolina Beatriz Ângelo forma-se em Medi-
cina, especializando-se em Ginecologia dez
anos depois. Torna-se a primeira cirurgiã em
Portugal.

1886
1902
16 17

1909 É constituída como associação a Liga Republicana das


Mulheres Portuguesas (LRMP). Organização e associação
política e feminista apoiada pelo Partido Republicano Por-
tuguês, com os principais temas de ação para as mulheres:
1905 Ana de Castro Osório publica o livro
voto, direito à instrução, ao trabalho e à administração
Às Mulheres Portuguesas.
dos bens, combate à prostituição e à mendicidade infantil.
Integram a associação: Carolina Beatriz Ângelo, Adelaide
Cabete, Maria Benedita Mouzinho de Albuquerque Pinho,
Maria Veleda, Alice Moderno, Beatriz Pinheiro de Lemos,
Elzira Dantas Machado, Virgínia Quaresma, entre outras.

1908 É apresentada a tese denominada “Feminismo”,


de Ana de Castro Osório e Maria Veleda, no
Congresso Nacional do Livre Pensamento, onde
se preconiza o “reconhecimento da absoluta
liberdade da mulher, em relação ao exercício
de todos os direitos individuais, civis, políticos
e profissionais”.
1907 Um grupo de mulheres funda o Grupo
Português dos Estudos Feministas - asso-
ciação liderada pela autora e jornalista
Ana de Castro Osório. Agrega intelec-
tuais, médicas, escritoras, jornalistas e,
sobretudo, professoras, com o objetivo
de difundir os ideais da emancipação fe-
minina. Integram a associação: Carolina 1910
Beatriz Ângelo, Adelaide Cabete, Sofia Lei do Divórcio (Diário do Governo,
Quintino, Maria Veleda, Beatriz Pinheiro, n.º 26, de 4 de novembro). Passa a
entre outras. ser dado tratamento equivalente
à mulher e ao homem, em relação
às causas do divórcio e aos direitos
sobre os/as filhos/as.

1905
18 19

1911 É criada a Associação de Propaganda Feminista (APF), em


Lisboa, por várias ativistas feministas que seguiram a es-
critora portuguesa Ana de Castro Osório, após esta se ter
demitido da presidência da Liga Republicana das Mulheres
Portuguesas (LRMP), no seguimento da sua controversa pro-
posta de legalização do direito de voto para as mulheres da
elite intelectual.

1911
Carolina Beatriz Ângelo, médica e viúva,
é a primeira mulher a usar o direito de
voto em Portugal, nas primeiras eleições
republicanas do país, uma vez que a Cons-
tituição permitia o voto a todas as pessoas
consideradas chefes de família que sou-
bessem ler, não referindo o sexo/género.
1913 Em reação ao episódio do voto exercido por Carolina Beatriz
Ângelo, é alterada a Constituição, vedando expressamente o
voto às mulheres, pela Lei n.º 3, de 3 de julho: “São eleito-
res dos cargos políticos e administrativos todos os cidadãos
portugueses do sexo masculino (...)”.
1911
Incêndio na fábrica da Triangle Shirtwaist
em Nova York a 25 de Março, um dos acon-
tecimentos que estiveram na origem do
Dia Internacional da Mulher.

1911
20 21

1914 É fundado o Conselho Nacional das Mulheres Portu-


guesas - organização feminista dedicada à defesa dos
direitos sociais e políticos das mulheres. Criado como
uma ramificação do International Council of Women, é
fundado por iniciativa do político e escritor Magalhães
Lima e da ativista e médica Adelaide Cabete, sendo esta
nomeada presidente desde o seu início até 1935. Em
1947, o regime do Estado Novo ordena o seu encerra-
mento. Foi a mais importante e duradoura organização
feminista da primeira metade do século XX em Portugal
e a única a perdurar para além do fim da Primeira Guer-
ra Mundial. Presidentes: Adelaide Cabete, Sara Beirão,
Isabel Cohen Von Bonhorst, Maria Lamas; Presidente
honorária: Carolina Michaëlis de Vasconcelos.

1923 Durante a primeira República,


Judith Teixeira publica poe-
mas em que fala do amor e
do erotismo entre mulheres
de modo explícito. Os escrito-
res António Botto e Raul Leal
também abordam explicita-
mente a homossexualidade.
Em 1923, o Governador Civil
de Lisboa faz apreender, para
depois cremar, exemplares de
Decadência de Judith Teixeira,
de Sodoma Divinizada de Raúl
Leal e das Canções de António
Botto.

1914
22 23

1933
É criada a Mitra, que seria o local de internamento para
1924 homossexuais até 1952, quando passa a instituição parap-
siquiátrica.
Primeiro Congresso Feminista e de Educa-
ção, organizado pelo Conselho Nacional
das Mulheres Portuguesas.

1933
Concedido o direito de voto para as juntas de freguesia às
mulheres “solteiras, maiores e emancipadas, com família
própria e reconhecida idoneidade moral e para as câmaras
também a emancipada com curso secundário e superior (...)”
(Decreto-lei n.º 23406, de 27 de dezembro).

1933
A Constituição Política de 1933 estabelece no art.º 5.° a igual-
dade perante a lei e a “(...) negação de qualquer privilégio de
nascimento, nobreza, título nobliárquico, sexo ou condição
social, salvas, quanto à mulher, as diferenças resultantes da
sua natureza e do bem da família (...)”.

1933
Eleição das três primeiras deputadas à Assembleia Nacional,
Maria Guardiola, Domitília de Carvalho e Cândida Parreira.

1924
24 25

1937 É usado pela primeira vez o triângulo


rosa por homens homossexuais nos
campos de concentração nazis.

1937
Aprovado o regulamento da Mocidade Portuguesa Femini-
na (MPF), a cargo da Obra das Mães pela Educação Nacional
(OMEN). De acordo com o texto deste diploma, esta organização
“cultivará nas filiadas a previdência, o trabalho colectivo, o gosto
da vida doméstica e as várias formas do espírito social próprias
do sexo, orientando para o cabal desempenho da missão da mu-
lher na família, no meio a que pertence e na vida do Estado”.

1939 Valentim de Barros, o primeiro bailarino português


a internacionalizar-se, é entregue à PVDE (Polícia de
Vigilância e Defesa do Estado) que o investiga. Há re-
1935 É criada a Associação Feminina gistos das institucionalizações que levam a crer que
Portuguesa para a Paz. o gosto em utilizar “roupa de mulher” e apaixonar-se
por homens contribuíram para o seu internamento
compulsivo no final da década de 1930, no hospital
psiquiátrico Miguel Bombarda. No final da década de
1940, Valentim foi submetido a uma lobotomia pré-
-frontal.

1935
1939
1939
30 31

1951 A Organização Internacional do Trabalho adota a Reco-


mendação sobre Igualdade de Remuneração (entre homens
e mulheres).

1947 O Governador Civil de Lisboa ordena o encerramento do


Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas (CNMP),
afirmando que o Estado confiava à OMEN (Obra das
Mães pela Educação Nacional) o encargo de educar e
orientar as mulheres.

1950 Primeira edição da obra de Maria Lamas, “As


Mulheres do meu País”.

1952
Maria Archer publica “Nada lhe
Será Perdoado”. É considerada
uma escritora de literatura femi-
1947 nina pelo enfoque dado, nas suas
obras, à mulher portuguesa e aos
Comissão de Mulheres do MUD (Movimento
seus problemas familiares e so-
de Unidade Democrática) faz comunicado
ciais.
colocando em causa a lei eleitoral porque
não concede o direito de voto às mulheres.

1952
Encerramento da Associação Fe-
minina para a Paz, por ordem do
Governo.

1947
32 33

1953 Prisão de Maria Lamas e de cerca de 50 pessoas,


quando regressava de Copenhaga, do Congresso
Mundial de Mulheres, promovido pela FDIM (Federa-
ção Democrática Internacional das Mulheres). 1960
O dirigente do Partido Comunista Português
(PCP), Júlio Fogaça, é preso pela PIDE (Polícia
Internacional e de Defesa do Estado), numa
pensão onde estava com o seu companheiro
Américo Joaquim Gonçalves. Pouco depois,
Fogaça é expulso do PCP, sendo publicada
uma nota na revista “O Militante”, alegando
razões de natureza moral e irregularidades
relacionadas com fundos.

1960
A prostituição é proibida e criminalizada, le-
1957 É fundado o Graal (movimento
internacional de mulheres cris- gislação que se manteve até ao final de 1982.
tãs) em Portugal, com Maria
de Lourdes Pintasilgo e Teresa
Santa Clara Gomes.

1962 A pílula contracetiva é comercializada


pela primeira vez em Portugal, mas
apenas para fins terapêuticos.

1953
34 35

1967 Nasce a APF – Associação para o Planeamento


da Família.

1966 O Estado Novo proíbe o livro de Natália Correia,


“Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica”,
vindo a autora a ser condenada a uma pena de três 1967
anos de prisão com pena suspensa.
O Código Civil passa a conceder à mulher au-
torização para dispor do seu vencimento, tal
como para trabalhar sem necessitar de auto-
rização do homem (seja ele marido ou pai),
mas o contrato de trabalho pode ser sempre
denunciado pelo marido. A família é chefiada
pelo marido, a quem compete decidir sobre a
vida conjugal e filhos/as.

1968
Nasce o MDM – Movimento Democrático
de Mulheres.

1969
As mulheres portuguesas passam a
poder transpor a fronteira, sem au-
torização do marido (Decreto-lei
n.º 49317, de 25 de outubro).

1966
36 37

1972
Maria Isabel Barreno publica “A morte da Mãe”. Nele se
desconstroem mitos em torno de uma “mulher – natureza”,
arredada de uma História feita pelos homens.
1970
A Associação para o Planeamento da
Família cria a primeira consulta social
de planeamento familiar, em Lisboa.

1972
A obra “Novas Cartas Portuguesas” é publicada por Ma-
ria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da
Costa. Reflete o pensamento das mulheres e a vivência
das mesmas numa sociedade totalitária, que preconiza a
subjugação das mulheres aos homens. O livro foi apreen-
dido pela censura política e as três autoras acusadas e
levadas a julgamento, num caso que ficará para a história
1970 como o das “Três Marias”. Proibido em Portugal, o livro
É criado um grupo de trabalho para a circulou pelo mundo. O julgamento indignou e mobilizou
participação da mulher na vida econó- movimentos feministas e a opinião pública internacional.
mica e social, sob a direção de Maria de Poucos dias após o 25 de abril de 1974, a 7 de maio, foram
Lourdes Pintasilgo. absolvidas.

1973
A American Psychiatric Association
retira a homossexualidade da lista
das patologias.

1970
1973
40 41

1974
É criado o Movimento de Libertação da Mulher (MLM), grupo que envol-
ve ativistas lésbicas.

1974
Tentativa de lançamento de um movimento de pessoas trabalhadoras
do sexo em Portugal, imediatamente após a revolução democrática.
Um grupo de mais de 400 profissionais do sexo assina um documento
1974 25 de Abril. É derrubada a ditadura em Por- com as suas queixas relativamente às condições de trabalho e de vida.
tugal e instaurado um regime democrático, Apresentam uma forte posição contra o proxenetismo e a exploração
naquela que viria a ser conhecida como a sexual infantil. Pretendem a criação de um sindicato de trabalhadores/
Revolução dos Cravos. as do sexo no país.

1974
É criado o Sindicato do Serviço Doméstico, que nos anos 90 é absorvi-
do pelo Sindicato dos Trabalhadores de Serviços de Portaria, Vigilância,
Limpeza, Domésticas e Actividades Diversas (STAD). A primeira presi-
dente da Direção foi Maria da Conceição Ramos, que reivindicou, junta-
mente com as suas companheiras, a libertação da sua classe.

1974
Após revolução democrática, volta a comemorar-se livremente o Pri-
meiro de Maio, Dia do Trabalhador.

1974
A 13 de maio, o Diário de Lisboa publica o manifesto do Movimento de
Ação Homossexual Revolucionária (MAHR), intitulado “Liberdade para
as minorias sexuais”, impulsionado por António Serzedelo, e com reação
violenta de Galvão Melo, membro do Conselho da Revolução. Decorrem
manifestações no Porto e em Olhão que reclamam esta liberdade.

1974
Pela primeira vez em Portugal as mulheres podem votar (e ser eleitas)
de forma universal e livre (Decreto-Lei n.º 621-A/74, de 15 de novembro).

1974
1974
44 45

1976 Criação da UMAR - União de Mulheres Antifascistas e


Revolucionárias, hoje União de Mulheres Alternativa
e Resposta.

1975 1976
Proclamado o Ano Internacional da Mulher Reportagem “O aborto não é um crime”, no pro-
pela Assembleia Geral da ONU. grama Nome-Mulher na RTP, leva a jornalista
Maria Antónia Palla a julgamento no tribunal da
Boa Hora, sendo absolvida em 1979. O programa
é suspenso. A onda de solidariedade então criada
1975 faz crescer o movimento pela despenalização do
aborto em Portugal.
É lançado o Movimento para a Contracep-
ção e Aborto Livre e Gratuito (MCALG).
1976
Aprovação da Constituição em 1976, que consagra
a igualdade entre mulheres e homens em todos os
1975 domínios da vida.
Publicação do primeiro livro sobre o aborto
- Aborto, direito ao nosso corpo, de Maria 1976
Teresa Horta, Célia Metrass e Helena Sá
Medeiros, ativistas do MLM. Abolido o direito do marido abrir a correspondência
da mulher (Decreto-lei n.º 474/76, de 16 de junho).

1975
Revogadas as disposições penais que redu-
1976
ziam penas, ou isentavam de crimes, os ho-
mens, em virtude das vítimas desses delitos Criação das consultas de planeamento familiar nos
serem as suas mulheres ou filhas (Decreto- centros de saúde materno-infantil, por Despacho
-lei n.º 262/75, de 27 de maio). do Secretário de Estado da Saúde, Albino Aroso.

1975
46

Uma História entre muitas outras histórias


Manuela Tavares
47

Depois de 48 anos de ditadura e obscurantismo, onde a palavra feminismo


era proibida, eis que numa madrugada há muito esperada, surge a liberdade,
naquele dia especial que foi o 25 de abril de 1974.
Dois anos antes, em 1972, um livro interdito em Portugal, percorreu
o mundo e foi adotado por feministas de muitos países como um manifesto
feminista As Novas Cartas Portuguesas.
As vozes das mulheres libertaram-se e elas foram protagonistas de
muitas lutas pelo direito à habitação, a creches, pelo trabalho com direitos,
pelo direito à saúde. Foi deste caudal de lutas que surgiram as mulheres que
formaram a UMAR em 1976.
Muitas histórias de vida destas mulheres nunca foram relatadas e es-
critas, mas elas fazem parte da História.
Foi de uma consciência feminista avançada que surgiram os primei-
ros grupos feministas1 com os quais a UMAR se entrelaçou na longa luta pela
despenalização do aborto em Portugal, tendo sido criada a CNAC- Campa-
nha Nacional pelo Aborto e Contraceção, em 1979.
O MLM (Movimento de Libertação das Mulheres) formado a 7 de maio
de 1974, após a absolvição das três autoras das Novas Cartas Portuguesas,
Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, protago-
nizou a primeira manifestação feminista a 13 de janeiro de 1975, no Parque
Eduardo VII em Lisboa. Infelizmente com pouco sucesso, devido às mentali-
dades machistas, este evento foi invadido por centenas de homens, que vi-
ram neste ato público uma forma de insultar as feministas presentes.
O feminismo, proibido na ditadura, ainda não encontrava a liberdade
para se fazer ouvir, um ano após o 25 de abril.
Não foram fáceis os caminhos para que os feminismos pudessem
_________________________________

1
MLM – Movimento de Libertação das Mulheres, Grupo Autónomo de Mulheres do Porto, Grupo de
Mulheres da Associação Académica de Coimbra, IDM (Informação, Documentação, Mulheres).
48

entrar no vocabulário académico e ativista, o que só veio a acontecer nos


finais da década de 1990, com especial relevância no novo século, em que
o Congresso Feminista 2008 ocupou páginas de jornais e para o qual muito
contribuiu a UMAR com iniciativa política e chamando outras associações a
participar.
A luta pela despenalização do aborto, uma das bandeiras políticas
dos feminismos de segunda vaga, foi muito prolongada em Portugal (cerca
de 3 décadas), concentrando todas as forças feministas nestas batalhas. Por
isso, a luta contra a violência sobre as mulheres tardou em entrar na agenda
política. Só na década de 1990 surgem as primeiras iniciativas públicas de
apoio e acolhimento a mulheres vítimas de violência, enquanto em outros
países as primeiras casas de abrigo surgiram em meados da década de 1970.
A UMAR foi pioneira na reivindicação de casas de abrigo e de centros de
atendimento para mulheres vítimas de violência.
Só após um segundo referendo em 2007, o sim à despenalização do
aborto venceu e em poucos meses a lei foi regulamentada. Finalmente, o
país deu um salto civilizacional, ao permitir no SNS a interrupção de uma
gravidez não desejada.
Outras questões começaram a ser tratadas no novo milénio como a
Paridade Política e a UMAR teve um papel importante distribuindo dentro do
Parlamento um kit para a Igualdade e pressionando os deputados à aprova-
ção da Lei da Paridade, o que veio a acontecer em 2006. Outras associações
tiveram também importante papel, em especial as que integravam o Conse-
lho Consultivo da CIG (Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género)2.
A UMAR tem uma história de 45 anos que se entrelaça com a história
de muitas outras mulheres que a criaram, que lhe foram dando outros con-
tornos, que a transformaram numa verdadeira associação feminista, onde
cabem diversos feminismos de esquerda.
Feminismos comprometidos social e politicamente com a transfor-
mação da sociedade patriarcal, machista, homofóbica, racista, colonialista
em que vivemos. Uma sociedade em que o capital manda mais do que os
direitos humanos e em que as discriminações crescem, apesar das leis que
dizem proteger-nos.

_________________________________

2
Aliança para a Democracia Paritária, Associação de Mulheres Contra a Violência, Graal, Interven-
ção Feminina, Mulheres Século XXI, Associação de Mulheres Juristas, entre outras.
49

A história da UMAR é atravessada pelas lutas pela Igualdade de Gé-


nero, contra a Violência contra as Mulheres, Contra o Assédio Sexual, por
uma Educação para a Igualdade com intervenção regular nas escolas, pelo
Direito ao Trabalho com Direitos contra todo o tipo de discriminações.
Assumimos há uma década a preservação da Memória Histórica dos
Feminismos, que passa pelas histórias de vida de dezenas e dezenas de mu-
lheres de várias regiões do País, registadas no Centro de Documentação e
Arquivo Feminista da UMAR.
Os debates, seminários e conferências em torno desta temática e
de outras como a Mutilação Genital Feminina, o Género e a Idade, Mulhe-
res Imigrantes, Trabalhadoras do Sexo, Empregadas Domésticas, refletindo
as múltiplas discriminações por que passam estas mulheres, têm feito da
UMAR um espaço aberto de debate de ideias.
É este debate de ideias, que pode desenvolver os feminismos em Por-
tugal, onde para além das ações de rua, onde a associação procura estar
sempre envolvida, se discutem propostas a apresentar, como reivindicar e
como contestar aquilo com que não concordamos.
Consideramos ainda, que o trabalho com outros grupos e associações
feministas reforça este caminho de luta, em especial porque muitas jovens
se têm vindo a empenhar nos últimos tempos. Também as feministas negras,
as e os feministas que atuam no campo LGBTQI+, no movimento antirracista,
têm conseguido mostrar que a agenda política feminista tem de ser mais
articulada e alargada.
Dadas as características internacionalistas dos feminismos, tem-se
procurado intervir e tecer solidariedades com as lutas de mulheres em ou-
tros países, assim como participar em iniciativas globais como a Greve Fe-
minista.
Existem preocupações acrescidas face a recuos que podem vir a exis-
tir com o crescimento das forças de extrema-direita. Conquistas alcançadas
podem estar em causa, perante o discurso antifeminista, homofóbico e ra-
cista dessas forças.
Mas como a História nos ensina, existem recuos e avanços neste lon-
go caminho das mulheres pela sua libertação e emancipação.
50 51

1977 É criada a Comissão da Condição


Feminina (CCF).

1977
Um grupo de mulheres entrega ao
Presidente da Assembleia da Repú-
blica, Vasco da Gama Fernandes,
uma petição assinada por 5 mil pes-
soas, exigindo a despenalização do
aborto.

1977
Revisão do Código Civil (Decreto-Lei n.º 496/77, de 25 de novembro): a mulher
casada deixa de ter estatuto de dependência do marido; desaparece a figura
do “chefe de família”, bem como as disposições que atribuem aos homens a
administração dos bens do casal; o governo doméstico deixa de pertencer,
por direito próprio, à mulher; a residência do casal passa a ser decisão de am-
bos os cônjuges (e não apenas do homem); relativamente ao poder paternal,
a mulher deixou de deter apenas uma posição secundária de mera conselhei-
ra para deter poder de decisão pleno em igualdade de circunstâncias com o
marido; marido e mulher podem acrescentar ao seu nome, no momento do
casamento, até dois apelidos do/a outro/a.

1977
52 53

1978 1979
Criação do Grupo Autónomo de Mulheres É criada a CITE - Comissão para a Igualdade no
do Porto - GAMP. Trabalho e no Emprego. Organismo nacional para
a igualdade e não discriminação entre homens e
mulheres no trabalho, no emprego e na formação
profissional.
1978
Criada a bandeira Arco-íris em São Francis- 1979
co, por Gilbert Baker. Originalmente sím-
Campanha Nacional para a Contracepção e Aborto
bolo da Marcha Gay da Liberdade de São
(CNAC) junta várias plataformas e associações de
Francisco de 1978, é adotada como símbo-
mulheres.
lo de todo o movimento LGBT.

1978 1979
Fundada a International Lesbian and Gay Maria de Lourdes Pintasilgo torna-se a primeira e
Association (ILGA). única mulher a desempenhar o cargo de primeira
ministra em Portugal. Chefia o V Governo Consti-
tucional, em funções de julho de 1979 a janeiro de
1980. Foi a segunda mulher a desempenhar o cargo
de primeira-ministra na Europa, dois meses depois
da tomada de posse de Margaret Thatcher no Reino
Unido.

1978
1979
56 57

1981 Ativistas do CHOR desfilam com cartazes na


manifestação do 1º de Maio em Lisboa.

1980 Primeira tentativa visível de ativismo homossexual com o 1982


nascimento do Colectivo de Homossexuais Revolucionários
Formação do Grupo de Mulheres do Porto,
(CHOR), incluindo pessoas como João Grosso, Fernando Cas-
que edita a revista feminista Artemísia em
cais e José Calisto.
1983.

1982
O Centro Nacional de Cultura organiza os
Encontros “Ser (Homo)sexual”. O evento é
organizado por Isabel Leiria, José Calisto e
1980 Helena Vaz da Silva. Participam Afonso de
Criada a “Rede de Mulheres”, com Maria Albuquerque, Natália Correia, Guilherme
de Lourdes Pintasilgo como principal im- de Melo e Guilherme d’Oliveira Martins.
pulsionadora.
1982
Revisão do Código Penal (Decreto-Lei n.º
400/82, de 23 de setembro) descriminaliza
condutas sexuais praticadas por adultos,
1980 como o adultério, o incesto, a prostituição
Portugal ratifica a Convenção sobre a ou a homossexualidade - que figuravam
Eliminação de Todas as Formas de Dis- nos códigos anteriores de 1886 e 1852
criminação contra as Mulheres (CEDAW), como «crimes contra a honestidade» ou
adoptada em 1979 pela Assembleia Geral «crimes contra os costumes». Até então,
das Nações Unidas (Lei n.º 23/80, de 26 de a homossexualidade entre adultos era
julho). punida com medidas de segurança (inter-
namento em manicómio criminal, casa de
trabalho ou colónia agrícola, liberdade vi-
giada, caução de boa conduta e interdição
do exercício de profissão). No entanto, o
mesmo Código Penal cria um novo crime,
o de «Homossexualidade com menores»,
ao que se contrapõem as relações hete-
rossexuais nas mesmas circunstâncias.

1980
58 59

1984 É criada a Comissão de Mulheres da


UGT (União Geral de Trabalhadores),
que em 1986 passa a OM (Organiza-
ção de Mulheres da UGT).

1984
Maria Teresa Horta publica Ema. A obra explora a sen-
sualidade e o erotismo feminino da mulher.

1984
São aprovadas as leis sobre o Planeamento Familiar e
Educação Sexual (Lei n.º 3/84, de 24 de março), sobre a
Despenalização da IVG em algumas situações (Lei n.º
6/84, de 11 de maio) e Proteção da Maternidade e da
Paternidade (Lei n.º 4/84, de 5 de abril).

1983 Conhece-se o primeiro caso de


VIH diagnosticado em Portugal.
1984
As cirurgias de mudança de sexo tornam-se legais.
Contudo, a Ordem dos Médicos (OM) proíbe os/as
profissionais de realizarem estas cirurgias, já que
considera não ser lícito ou ético fazer intervenções
em “corpos biologicamente saudáveis” (art. 55.º do
Código Deontológico da OM).

1983
60 61

1986
Formação da Liga dos Direitos das Mulheres
(LDM).

1988 1.º Festival Internacional de Filmes Realizados


por Mulheres, no Instituto Franco-Português,
em Lisboa, onde são vistos, pela primeira vez
1986 em Portugal, alguns filmes lésbicos clássicos
como “Desert Hearts”, “Before Stonewall”,
Maria de Lourdes Pintasilgo é candidata a
“Jupon Rouge”, “Anne Trister” ou “November-
presidente da república. É a primeira mulher
mond”.
a fazê-lo em Portugal.

1986
É julgado no Tribunal da Relação de Lisboa
1988
um caso relacionado com transexualidade.
Uma pessoa pretende mudar de nome após É fundada a Associação Espa-
cirurgia de redesignação sexual, mas o tribu- ços – Projetos Alternativos de
nal considera que não é por isso “que se torna Mulheres e Homens.
mulher”, pelo que a autorização é negada.

1987
É criada a APIHM – Associação Portuguesa
de Investigação Histórica sobre as Mulheres.

1986
62 63

1990
É criada a Comissão para a Igualdade e para
os Direitos das Mulheres (CIDM).

1989
É criada a APMJ – Associação Portuguesa de
Mulheres Juristas.
1990
É criada a ANE – Associação Nacional das
Empresárias.

1989
15 anos depois da American Psychiatric Asso-
ciation despatologizar a homossexualidade,
a Portaria n.º 29/89, de 17 de janeiro, elenca
1990
as inaptidões para o serviço militar, classi-
ficando como doença mental os «desvios e É publicada a Organa, a 1ª revista Lésbica
transtornos sexuais: homossexualidade e ou- em Portugal, e criada a primeira linha de
tras perversões sexuais». atendimento para pessoas homossexuais.

1989
64 65

1991 Surge dentro do Partido Socialista Revolucionário


(PSR), um Grupo de Trabalho Homossexual (GTH-PSR),
que manterá atividade regular até 2003. No 1º de
Maio, o GTH-PSR marcha com uma faixa no desfile da
Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses -
Intersindical Nacional (CGTP).

1991
É fundada a APEM – Associação Portuguesa
de Estudos sobre as Mulheres.

1991
Portugal ratifica a Convenção das Nações Unidas para a Supressão do
Tráfico de Pessoas e da Exploração da Prostituição de Outrem, de 1949.
De acordo com esta convenção, a prostituição e o tráfico de pessoas para
a prostituição são incompatíveis com a dignidade e o valor da pessoa
humana e colocam em perigo o bem-estar individual, comunitário e fa-
miliar. Desta forma, Portugal, considera os profissionais do sexo como
vítimas e os proxenetas como criminosos. Em Portugal, a prostituição não
1991 é considerada um crime, mas também não é uma atividade ou profissão
Primeira lei portuguesa que garante apoio regulamentada. Além das leis criminais, não há leis laborais ou tributá-
às mulheres vítimas de violência (Lei n.º rias, ou quaisquer outras leis, relativas à prostituição.
61/91, de 13 de agosto).

1991
A Organização Mundial de Saúde retira a homossexualidade da lista das
patologias.

1991
66 67

1993
É criada a Associação de Mulheres Contra a
Violência (AMCV).

1993
É fundada a “Lilás”, revista lésbica publica-
da até 2002. Um dos objetivos centrais do
Grupo Lilás é levar informação a mulheres
lésbicas nas áreas rurais do país.

1993
João Mouta, pai homossexual, consegue em Tribunal de Família que
lhe seja confiado o poder paternal da filha menor. A mãe recorre da
sentença e, em janeiro de 1996, o Tribunal da Relação retira o exercício
do poder paternal a João Mouta. Em 1999, o Estado Português é con-
denado pelo Tribunal Europeu dos Direitos Humanos, por violação dos
artigos 8º e 14º da Convenção Europeia dos Direitos Humanos.

1993
Um psiquiatra da Carris recusa atendimen-
to a um membro do GTH-PSR, enquanto
este não aceitasse “tratar a sua homosse-
xualidade”, uma “subversão da ordem hu-
mana” e “uma afronta à vida”. A ordem dos
médicos censura a atitude do psiquiatra.

1993
Declaração de Viena para a eliminação de todas as formas de
violência contra as mulheres (Res. 48/104).

1993
68 69

1995 A delegação portuguesa da International Lesbian and Gay Association


(ILGA-Portugal) inicia as suas actividades. É fundada formalmente em
1996.

1995
Um grupo de ativistas homossexuais, com o apoio do GTH-
-PSR, organiza a primeira comemoração pública do dia do
1994 orgulho, na discoteca “Climacz”, em Lisboa, com impacto
É criada a Associaç ã o Mulher Migrante – nos meios de comunicação social. Al Berto lê poemas por
Associação de Estudo, Cooperação e Solida- entre espectáculos de travestismo.
riedade.

1995
1994 A Comissão Nacional de Luta Contra a SIDA lança uma
campanha com o lema “Família: o princípio do fim da
É fundada a AMEP – Associação das Mulheres SIDA”. Os cartazes apresentam uma família heterossexual,
Empresárias em Portugal. branca e tradicional, que afirma a fidelidade como a me-
lhor protecção contra a epidemia.

1995
1994 Mário Viegas, candidato independente da UDP, lança o
O Parlamento Europeu vota favoravelmente manifesto Sou homossexual e estou na política.
a Resolution on Equal Rights for Homose-
xuals and Lesbians in the EC (A4 -0223/96),
reiterando-a no ano seguinte (A4 -0112/97). 1995
Primeiro mestrado em Estudos sobre as Mulheres, na Uni-
versidade Aberta.

1994
70 71

1995 O Código Penal aprovado pelo Decreto-Lei n.º 48/95, de


15 de março, procede à deslocação dos crimes sexuais do
capítulo relativo aos crimes contra valores e interesses da
vida em sociedade para o título dos crimes contra as pes-
soas, onde constituem um capítulo autónomo, sob a epígrafe
«Dos crimes contra a liberdade e autodeterminação sexual»,
abandonando-se a conceção moralista («sentimentos gerais
de moralidade»).
1995
A Ordem dos Médicos muda de posicionamento sobre as
cirurgias de mudança de sexo e autoriza a sua realização,
desde que a pessoa seja diagnosticada como um caso de
“transexualismo” ou “disforia de género” (art. 55.º do Código
Deontológico da OM, 1985).

1995
Realiza-se em Pequim a IV Conferência Mundial Das Nações
Unidas Sobre As Mulheres, onde se aprova a Declaração e
Plataforma de Ação de Pequim, com intenção de garantir
que a perspetiva de igualdade entre mulheres e homens será
refletida em todas as políticas e programas dos países inte-
grantes. Introduz os conceitos de mainstreaming de género e
o de trabalho não remunerado, que inclui o trabalho domés-
tico e o trabalho de cuidado nas famílias e na comunidade.

1995
72 73

1996 É fundado o Clube SAFO, em Aveiro, um grupo lésbico que


pretende romper o isolamento e a discriminação a que
as lésbicas são votadas. Edita desde 1997 o Zona Livre,
um Boletim Lésbico com 60 números publicados até 2007,
a publicação lésbica de maior duração em Portugal. Em
2002, torna-se na primeira associação exclusivamente
lésbica portuguesa.

1996
É criado o portal PortugalGay.pt, o pri-
meiro portal para a comunidade LGBT em
Portugal.

1996
Publicada a revista Korpus, primeira publi-
cação periódica gay, que cobre uma vasta
gama de assuntos de interesse LGBT.

1996
A ILGA -Portugal apresenta uma proposta
de revisão constitucional, adoptada pelo
Partido Ecologista Os Verdes, no senti-
do de adicionar a expressão «orientação
sexual» no n.º 2 do art.º 13.º (Princípio da
Igualdade) da Constituição da República
Portuguesa. Apresentada por aquele parti-
do, a abstenção do PS e os votos contrários
do PSD e do PP impedem a aprovação.

1996
74

A árvore Clube Safo


Fabíola Neto Cardoso
75

O Clube Safo foi o meu primeiro filho, fruto de uma aventura partilhada com
outras mulheres, igualmente corajosas e determinadas, audazes!
Queríamos quebrar a quase total ausência de espaços de e para lésbi-
cas em Portugal, nos idos anos 90, especialmente fora das grandes cidades.
Propusemo-nos a fazer algo, a juntar mulheres; a conhecermo-nos, conver-
sar, criar redes de apoio e partilha de informação. Queríamos contribuir para
mudar um país atrasado no cenário europeu, com um feminismo débil, onde
a palavra lésbica ainda era um tabu. Queríamos ajudar à construção de uma
identidade lésbica positiva, num momento em que a invisibilidade, o silêncio
e o medo ainda eram a dura realidade para quase todas nós.
Atrevemo-nos a dinamizar espaços de partilha, debate e reflexão. Es-
tes encontros mudaram não só a vida de centenas de mulheres que deles
participaram por todo o país, mas também o panorama do incipiente movi-
mento gay e lésbico nacional da época e o próprio movimento feminista no
nosso país.

Raízes
As quatro mulheres que fundaram, à mesa do Sal Poente, em Aveiro, o Clube
Safo, não se teriam conhecido se outras não tivessem já tido a ousadia de
criar coletivos e formas de comunicação para mulheres não hétero em Por-
tugal: a Organa e a Lilás.
Gosto da analogia com as raízes de uma árvore. O que está por baixo,
que sustenta e alimenta. Foi assim com estas duas revistas, que juntaram
dois pequenos grupos de mulheres, nas primeiras tentativas de um movi-
mento lésbico no país. Muito nasceu dessas raízes, nomeadamente o Clube
Safo.
Em 1990 duas mulheres, a Ana e a Mena, atreveram-se a dar uma
primeira pedrada no charco da estagnação absoluta que era Portugal em
relação às questões lésbicas, e avançar com uma primeira publicação, que
se chamava Organa. Esse coletivo bebeu da experiência que elas traziam do
contacto com grupos feministas radicais de outros países europeus e organi-
zou alguns encontros de debate.
Eu tinha 17 anos, a primeira vez que recebi, na posta restante de Cas-
telo Branco, com os joelhos a tremer claro, a chave de entrada para um mun
76

do que desconhecia. Foi num encontro da Organa que conheci pela primeira
vez outras mulheres como eu, lésbicas. Ainda hoje tenho uma enorme grati-
dão com todas as pessoas que possibilitaram essa pequena grande revolu-
ção pessoal. Muito obrigada.
Em 1993 surge, num processo complexo sobre o qual era interessante
falar noutra ocasião, a revista Lilás. Foi através dessas mulheres de Lisboa
que as 4 fundadoras do Clube Safo se cruzaram, em Aveiro. Hestórias de
vovós lésbicas à lareira.

Tronco
Reproduzo o editorial da Zona Livre nº 1, publicada em setembro de 1997: “O
projeto Clube Safo começou a desenvolver-se num café de Aveiro, numa tar-
de fria de janeiro de 1996. A discussão girava em torno da falta de uma cons-
ciência lésbica em Portugal. Do quanto somos obrigadas a viver isoladas.
Falávamos da necessidade de mudar, queríamos fazer coisas. Queríamos
juntar as lésbicas ou, pelo menos, criar condições para que elas próprias,
nós próprias, tivessem a possibilidade de escolher entre a solidão ou uma
vida social sem disfarces. Nasceu o Clube Safo, uma vontade de contribuir
para uma identidade lésbica positiva”.
Alugámos um apartado, em Águeda, para a comunicação do tempo
em que ainda não havia net, nem email. Criámos um logo, que ainda hoje
é usado e pretendia mostrar diversidade e união, proximidade e empatia,
coletivo respeitando a individualidade. Definimos um nome, que fosse iden-
tificativo, mas suficientemente discreto para não assustar. E começámos a
organizar encontros. Primeiro enviando convites a conhecidas e amigas, de-
pois através de um anúncio num jornal de anúncios e na Korpus (revista gay).
A rede foi crescendo e criou-se o esqueleto de funcionamento que manteve
o Clube Safo em ação durante alguns anos.
Todos os meses havia algo para captar o interesse das sócias e a sua
participação. Nos meses ímpares saia a Zona Livre, uma revista fotocopiada,
que começou com meia dúzia de folhas agrafadas e foi crescendo e melho-
rando, com a colaboração de textos, traduções, fotos, desenhos… de muitas
mulheres. Essa publicação, que chegava a casa num envelope A5, levava o
convite para o encontro do mês seguinte e o relato do anterior.
Nos meses pares organizávamos encontros de debate, reflexão e dis-
cussão, espalhados um pouco por todo o país: Porto, Lisboa, Aveiro, Nazaré,
Algarve… sobre temas tão variados como dependências, família, animais,
77

sexualidade… realizávamos também festas, passeios, caminhadas, acampa-


mentos, jogos de futebol, círculos de leitura, concursos… um conjunto muito
diversificado de atividades culturais, recreativas, de autoajuda, de empo-
deramento. Momentos essenciais na construção, não só uma identidade
pessoal lésbica, como também de uma identidade coletiva, que ainda não
existia.
Do pessoal para o social e do social para o político. Num processo
tantas vezes repetido quantas as pessoas novas que nos chegavam e come-
çavam a colaborar. Sem hierarquias, exigências ou recriminações.

Folhas e flores
Pouco a pouco começámos a divulgar a nossa existência a outros movimen-
tos e associações e a colaborar em iniciativas conjuntas. O nosso compro-
misso com o feminismo e a interseccionalidade era claro, mas tivemos a
certeza de que o nosso trabalho teria de se desenvolver em três campos
interligados: feminismo, lesbianismo e movimento gay e lésbico.
Foi assim que aconteceu a colaboração com a Marcha Mundial das
Mulheres do ano 2000 que reuniu, talvez pela primeira vez em Portugal,
grupos feministas e grupos lésbicos, em trabalho coletivo. Em 2004 parti-
cipámos na vinda do barco das Women on Waves, uma ação essencial para
a vitória do SIM no referendo sobre a legalização da interrupção voluntária
da gravidez e que levou, em 2009, à condenação do estado português pelo
Tribunal Europeu dos Direitos do Homem.
Em julho de 2002 realizaram-se as primeiras Jornadas Lésbicas, em
parceria com o ISPA - Instituto Universitário de Ciências Psicológicas, Sociais
e da Vida, em Lisboa. Este evento gratuito e sem qualquer apoio oficial, jun-
tou especialistas, entidades e associações, nacionais e do estado espanhol.
Foram mais de 300 pessoas que durante 3 dias discutiram temáticas lésbicas,
da saúde à educação, passando pela visibilidade ou direitos. Deste momento
único saiu ainda o primeiro manifesto lésbico português.
A flor mais bonita desta árvore foi, para mim, a da proposta de reali-
zação da primeira Marcha do Orgulho LGBT+. A ideia surgiu no encontro de
19 de fevereiro de 2000, divulgado na Zona Livre nº 15, o tema para deba-
te era “Visibilidade/Invisibilidade em Portugal”. Durante a conversa, tida na
sede da Opus Gay, que nos emprestou o espaço, uma das mulheres presen-
tes afirmou que uma das questões que contribuíam para a invisibilidade das
lésbicas no nosso país era a inexistência de uma Marcha, como as que se
78

realizavam em muitos outros países.


Existia à data apenas o Arraial Pride, uma iniciativa organizada pela
ILGA Portugal, da qual também participávamos, mas que era realizada à
noite, com caráter recreativo e altamente masculinizada. Foi aceite a ne-
cessidade de uma marcha à luz do dia, claramente política, que tirasse do
armário da invisibilidade as nossas reivindicações.
O editorial da Zona Livre nº 16, de março de 2000, esclarece: “No últi-
mo encontro do Clube Safo, em Lisboa, surgiu a ideia de uma grande marcha
em plena luz do dia, em que todos e todas aqueles que queiram participar
possam ir com uma máscara que simbolize as condições a que somos obri-
gados e obrigadas a viver quotidianamente”.
A máscara da invisibilidade, a máscara do silenciamento, a másca-
ra que disfarçava as nossas identidades, foi utilizada na Marcha como um
símbolo da situação de opressão, de insegurança, de confinamento a que a
comunidade LGBT e, em particular, a que as lésbicas em Portugal estavam
sujeitas.
A Primeira marcha do Orgulho LGBT de Lisboa realizou-se no dia 1 de
julho de 2000, convocada por Clube Safo, GTH (Grupo de Trabalho Homos-
sexual do PSR, um dos partidos que deu origem ao Bloco de Esquerda), Opus
Gay (que hoje é o Opus Diversidades), ILGA Portugal e o grupo Lilás (que se
desfez). Foi um sucesso, cujos ecos ainda hoje se sentem.

Frutos
Das flores nascem frutos que contêm sementes. Ainda hoje tenho amigas
que fiz no Clube Safo. Ainda hoje há casais que se formaram no Clube. Há
crianças que nasceram de relações forjadas no Clube.
Vinte anos depois da primeira, continuam a realizar-se por todo o país
Marchas do Orgulho. LGBT’s e aliades, jovens e menos jovens, saem às ruas
das suas localidades a reivindicar o óbvio: nem menos, nem mais, direitos
iguais. De Bragança a Ponta Delgada; de São João da Madeira a Santarém,
vejo em cada nova Marcha um fruto desta grande árvore.
O próprio Clube Safo, após um interregno demasiado longo, está ou-
tra vez vivo. Floresce de novo, das sementes que a terra guardou tantos anos.
Continua a ser a única associação de (defesa dos direitos de) lésbicas no
país. Tenho a certeza de que mantém o potencial de transformar vidas, como
transformou a minha, e contribuir para um país mais livre, mais justo e assim,
mais feliz!!
79
80 81

1997 É criada a Opus Gay, atualmente


Opus Diversidades, ONG pela defesa
dos direitos das pessoas LGBTQIA+.

1997
Nasce a APHM - Associação Portuguesa de Homossexualidade
Masculina, cujo grupo católico viria a formar a RUMOS NOVOS -
Católicas e Católicos LGBT, em 2008.

1997
É criada a APMD – Associação Portuguesa Mulheres e Desporto.

1997
Abre o Centro Comunitário Gay e Lésbico de Lisboa, pelas mãos
da ILGA-Portugal.

1997
Realiza-se a 1ª Marcha VIH sida.

1997
1º Arraial Pride em Lisboa. Participam ILGA Portugal, Clube Safo,
GTH-PSR e bares gays e lésbicos do Príncipe Real.

1997
1º Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa.

1997
82 83

1998
Surge na Associação ILGA-Portugal o Grupo de Mulheres,
e depois outros grupos de interesse, como os Gorduxos, a
LAISH (Linha de Atendimento sobre Homossexualidade), o
Grupo Jovem, o GIRL (Grupo de Intervenção e Reflexão Lés-
bica) e, mais tarde, o GRIP (Grupo de Reflexão e Intervenção
1997 do Porto) e o GRIT (Grupo de Reflexão e Intervenção sobre
É assinado o Tratado de Amesterdão, de que Transsexualidade).
Portugal é signatário, e que, no seu art.º 13º,
recomenda aos Estados-membros que criem
legislação no sentido de eliminar toda e qual- 1998
quer discriminação «em razão do sexo, raça
Durante o 2º Arraial Pride, as associações LGBT divulgam pela
ou origem étnica, religião ou crença, idade ou
primeira vez um manifesto conjunto. Subscrevem o GTH-PSR,
orientação sexual».
ILGA, Opus Gay e ABRAÇO.

1997 1998
É publicado o despacho 13/97 do Ministé- Primeiro referendo sobre a interrupção voluntária da gra-
rio da Administração Interna, que declara a videz. Ganha o “Não” com uma margem mínima (menos de
inaptidão à admissão na Polícia de Seguran- 51%), mas o resultado não é vinculativo, uma vez que votou
ça Pública de «personalidades psicopáticas menos de 32% do eleitorado.
de qualquer tipo, particularmente anormais
sexuais, em particular invertidos».

1998
O art.º 175.º do Código Penal estipula o crime de “actos
homossexuais com adolescentes”.

1997
84 85

1999
O diretor do Instituto Português do Sangue diz ao Diário de Notícias
que os homossexuais estão excluídos da doação de sangue por serem
promíscuos. GTH-PSR e ILGA realizam uma ação junto ao posto-móvel
de doação de sangue em Lisboa, para questionar os critérios precon-
ceituosos que excluem os gays da doação. O responsável do Instituto
1999 Nacional do Sangue garante que os critérios vão ser alterados.
No 3º Arraial Pride é divulgado o manifesto
reivindicativo que integra pela primeira vez
questões relativas a pessoas transexuais e
transgénero. Subscrito por ILGA, GTH-PSR,
Lilás, Clube Safo e Opus Gay.

1999
É aprovado o projeto-lei da Juventude Socialista (JS ) sobre Uniões de
Facto, que exclui casais do mesmo sexo. As associações homossexuais
protestam com uma manifestação à porta do Parlamento. Nas galerias,
várias pessoas voltam ostensivamente as costas aos deputados durante
a votação e são expulsas da sala. ILGA, Clube Safo, Opus Gay, GTH-PSR
1999
e Lilás iniciam uma campanha pública que exige o fim da discriminação
É criado o I Plano Nacional contra a Violên- introduzida pela lei das Uniões de Facto.
cia Doméstica (1999/2002).

1999
A Classificação Nacional das Deficiências, publicada no Diário da
República, inclui o termo «deficiência da função heterossexual»,
classificando explicitamente como pessoa deficiente todo o indivíduo
com uma orientação sexual não-heterossexual. O GTH-PSR e a ILGA
entregam queixa na Provedoria da Justiça. O Bastonário da Ordem
dos Médicos critica publicamente a tabela. Três meses depois esta
acabaria por ser revogada, graças às pressões exercidas pelas asso-
ciações.

1999
86 87

2000
Surge o “Nós”, um auto-designado movimento universitário
1999 Provedor de Justiça declara «constitucionalmente
intoleráveis» as restrições constantes nas tabelas para a liberdade sexual, com origem na Universidade do
de inaptidões do serviço militar e da PSP, em que Porto.
os homossexuais eram considerados «inaptos» para
efeitos de prestação do serviço militar (Portaria nº
29/89, de 17 de janeiro).
2000
É criado o Grupo Oeste Gay (GOG), em Torres Vedras, cujos
principais objectivos são a inclusão de gays residentes da
parte oeste do país na comunidade LGBT.

2000
1999 Surge o Grupo de Intervenção e Reflexão sobre Lesbianismo.

Verdes, BE, PS e PCP apresentam pro-


jetos-lei para resolver a discriminação
introduzida pela lei das Uniões de Facto. 2000
Nasce a REDE – Rede Portuguesa de Jovens para a Igualdade
de Oportunidades entre Mulheres e Homens.

1999 2000
A Assembleia Geral das Nações Unidas É criada a AMUCIP - Associação para o Desenvolvimento das
declara o dia 25 de novembro Dia Interna- Mulheres Ciganas em Portugal.
cional da Eliminação da Violência contra
a Mulher.
2000
Nasce a Marcha Mundial das Mulheres, com a primeira mobili-
zação que reuniu mulheres do mundo todo sob o slogan “2000
razões para marchar contra a pobreza e a violência sexista”.

1999
88 89

2000 2001
1ª Marcha do Orgulho LGBT de Lisboa. Nasce a Mulher Século XXI - Associação de Desenvolvi-
mento e Apoio às Mulheres.

2001
É criada a Fundação Cuidar o Futuro, impulsionada por
2000
Maria de Lourdes Pintasilgo.
Violência contra as mulheres passa a
ser considerada crime público (Lei n.º
7/2000, de 27 de maio). 2001
1ª edição da festa Porto Pride.

2000 2001
É criada a rede pública de casas abrigo
São julgadas por aborto 17 mulheres no Tribunal da Maia.
para mulheres vítimas de violência.
Também a enfermeira parteira, técnico de serviço social e
outras pessoas são constituídas arguidas.

2001
São aprovadas as leis de proteção da economia comum
(Lei n.º 6/2001, de 11 de maio) e das uniões de facto (Lei
n.º 7/2001, de 11 de maio). A lei das uniões de facto reco-
nhece casais de pessoas do mesmo sexo, mas exclui-os da
capacidade de adoptar.

2000
90 91

2002
É fundada na cidade de Coimbra, a
associação “Não te prives” - Grupo de
defesa dos direitos sexuais.

2002
I Jornadas Lésbicas, co-organizadas pelo
Clube Safo e pelo Instituto Superior de
Psicologia Aplicada (ISPA).

2002
Primeiro ramo de doutoramento em
Estudos sobre as Mulheres, na Univer-
sidade Aberta.

2002
92 93

2003 É fundada a rede ex aequo, associação de âmbito nacional


destinada a jovens lésbicas, gays, bissexuais, transgéneros
e simpatizantes entre os 16 e os 30 anos.

2003
Criação da associação @t – Associação para o Estudo e Defesa dos
Direitos à Identidade de Género.

2003
Nasce a AMONET – Associação Portuguesa
de Mulheres Cientistas.

2003
É realizado o 1º Fórum Social Português, no qual participam ativamen-
te as associações LGBT, entrando pela 1ª vez em contacto com muitas
outras organizações sociais. Na sua sequência, a CGTP participa pela
1ª vez na Marcha do Orgulho LGBT em Lisboa.

2003
No 10º Congresso da CGTP é aprovada uma
declaração de princípios e um programa
de acção que inclui, pela primeira vez, as
questões da orientação sexual.

2003
94 95

2003 São julgadas 7 mulheres no Tribunal de Aveiro,


acusadas de terem abortado.

2003
Revisão do Código do Trabalho (Lei n.º 99/2003, de 27 de agosto)
como reflexo da Diretiva Europeia 2000/78/EC, que prevê a punição
da discriminação no trabalho e no emprego com base na orientação
sexual, mas a atribuição inequívoca do ónus da prova às entidades
empregadoras. Apesar de o Código de Trabalho introduzir o prin-
cípio da não-discriminação pela orientação sexual, as associações
LGBT apoiam a convocação da Greve Geral de 10 de dezembro con-
tra o Código de Trabalho, uma vez que este paralelamente destruía
as garantias de defesa dos/as trabalhadores/as face às mesmas si-
tuações de discriminação.

2003
O Parlamento aprova uma nova Lei de Adoção (Lei n.º 31/2003, de 22
de agosto): o Bloco de Esquerda havia proposto a inclusão dos casais
do mesmo sexo mas tal não foi aprovado.

2003
96 97

2004 É fundado o grupo Panteras Rosa – Frente de Combate à


LesBiGayTransfobia.

2004
É criada a Plataforma Portuguesa para os
Direitos das Mulheres.

2004
É criada a Comissão para a Igualdade
entre Mulheres e Homens da CGTP.

2004
No âmbito da VI Revisão Constitucional
(Lei Constitucional n.º 1/2004, de 24 de
julho), é aprovada a alteração ao art.º 13º
da Constituição da República Portuguesa
(Princípio da Igualdade) que passa a in-
cluir a orientação sexual como factor de
não-discriminação.

2004
98 99

2004
Novo caso levado a tribunal relacionado
com a mudança de nome depois de cirur-
gia de pessoa trans*. Desta vez o tribunal
decide que, depois do processo cirúrgico,
se pode mudar o nome.

2004
São julgadas 2 mulheres e a enfermeira par-
teira, em Setúbal, pela prática de aborto.

2004
As Panteras Rosa fazem uma das suas pri-
meiras ações públicas, junto à fachada do
Instituto Português do Sangue em Lisboa,
sobre a discriminação de dadores gay.

2004
Portugal impede o navio Borndiep de atracar,
que ficou conhecido como o “Navio do Abor-
to”, onde estava planeado realizarem-se a
bordo reuniões, seminários e ateliers a favor
da despenalização da interrupção voluntária
da gravidez. Em 2009, o Tribunal Europeu dos
Direitos Humanos (TEDH) viria a condenar
Portugal por ter proibido a entrada, nas suas
águas territoriais, de um navio fretado por
organizações favoráveis à despenalização
do aborto.

2004
100

De “loucas intratáveis” a incontornáveis:


a marca das Panteras Rosa no movimento lgbt
Sérgio Vitorino
101

As Panteras Rosa (PR) começaram como grupo de Lisboa, maioritariamen-


te lésbico, mas também gay e trans. O grupo torna-se mais misto ainda em
2004/05, e alarga-se ao Porto, Coimbra, Viseu (2005/06). Mesmo então, nun-
ca passou de umas 20 pessoas: a influência superior à dimensão. As PR não
foram um, mas vários grupos de pessoas, que chegavam e partiam, e se fo-
ram apropriando delas para objetivos distintos em cada período. Algumas,
mantiveram-se e explicam 17 anos de continuidade, inusitados para um gru-
po informal.
Nasceram de uma dupla insatisfação: com o movimento lgbt institu-
cional e com a intervenção exclusivamente partidária. Embora nem todo o
grupo fundador tivesse experiência ativista prévia, uma parte vivera ainda,
nos anos 90, o Grupo de Trabalho Homossexual do Partido Socialista Re-
volucionário (GTH-PSR). Mas o PSR diluiu-se no recém-criado BE, e o GTH
num “grupo be-lgbt” que não resistiu à incomodidade do partido (apesar das
aparências), que à época tendia a silenciar o tema em períodos de campanha
eleitoral.
Várias pessoas estavam desiludidas com as primeiras experiências
associativas. A rede ex-aequo, fundada em 2003, negava-se a assumir “posi-
ções políticas”. Outras pessoas, como eu, tinham passado pela Ilga-Portugal.
A Ilga não tomava posição sobre questões que não considerava “lgbt” (ex.
primeiro referendo à despenalização da IVG, 1998); limitava-se a reivindica-
ções legais; recusava criticar publicamente certas instituições (como quan-
do a CML desterrou o Arraial para o Parque de Monsanto ou quis impedir
a Marcha na Av. da Liberdade). Existiam conceções distintas: ou se queria
construir movimento (múltiplo e diverso), ou uma única organização com
tentação hegemónica. Havia há muito um desejo de organização horizontal,
sem direções. No entanto, a criação das PR foi precipitada pela necessidade
de intervir num caso de discriminação.
As PR nasceram em ação a 22 de janeiro de 2004, antes sequer de se
formularem e apresentarem como coletivo. Como primeira ação pública, o
grupo inicial tenta – sem sucesso – bloquear um bulldozer com os seus cor-
pos, sendo agredido por polícias municipais. Em causa, a denúncia de que um
casal lésbico – Liliana e Salete – havia sido excluído (não reconhecido como
agregado familiar) pelo Município no realojamento de um bairro social em
Lisboa, e o anúncio de demolição da casa que ainda habitava. Antevendo a
recusa da Ilga em confrontar a CML (da qual dependiam as suas instalações),
102

acrescia o preconceito de classe contra duas mulheres pobres, sem teto ou


meios de subsistência. Tal como, anos mais tarde (2006/07), Teresa e Helena,
que tentaram vencer a luta pelo casamento por via jurídica: a ação política a
não dispensar o apoio material imediato, pessoas precárias ajudando como
podiam outras pessoas precárias, na ausência do apoio associativo. Restava
a criação de um novo coletivo.
As PR ambicionavam intensificar o conflito com o heterossexismo
para acelerar a mudança social e legal. A sua primeira ação seguia uma es-
tratégia já consciente de, respondendo a casos concretos de discriminação,
“virar” o foco da perceção social, das vidas lgbt para a discriminação que as
atingia. Visibilizar a fobia. Mudar o discurso dominante nos meios de comu-
nicação social (ainda em modo “os homossexuais (sic), esses bichos raros”).
Logo entre 2004/05, as PR intervêm – publicamente ou conforme a confi-
dencialidade dos casos – em múltiplas situações de discriminação/violência:
estudantes vítimas de perseguição por direções escolares, violência domés-
tica, discriminação laboral ou em processos de guarda parental, expulsão
de jovens de casa, exclusão das Forças Armadas, e agressões (policiais
incluídas), como a perseguição a homens gays em Viseu, que nos levou a
propor – e a realizar na cidade, com outras organizações nacionais e locais
– a manifestação nacional STOP Homofobia.
Por sua vez, o recurso à ação direta refletia uma versatilidade no uso
de diferentes meios de luta, dos institucionais ou jurídicos, aos mais provo-
cadores ou mesmo ilegais. “Leis homofóbicas, desobedecer-lhes é legítimo”,
teorizávamos. A “vandalização” da fachada do Instituto Português do San-
gue (exclusão de dadores homossexuais masculinos), a “invasão” de esta-
belecimentos comerciais (onde tinha havido discriminação) ou um “beijaço”
público em Lisboa (contra agressões) são algumas das primeiras ações em
2004. Já em 2005, um “termómetro da homofobia” expõe reações fóbicas
nas ruas de Lisboa, e uma colagem de cartazes noturna decora o ponto de
partida, na manhã seguinte, de uma manifestação de extrema-direita “anti-
-lóbi gay”.
Qualquer tema era um tema “felino”, mesmo os que outros setores do
movimento resistiam a incluir, dizendo “não são lgbt”. Os de liberdade sexual
e direitos sexuais e reprodutivos, como a despenalização da IVG (à qual se
entregam na totalidade no segundo referendo) ou os direitos de profissionais
do sexo. Mas também poliamor, capacitismo, anti-guerra, saúde, educação,
habitação, proteção social. Estreiam presença lgbt no 25 de Abril, mobilizam
103

para momentos unitários como greves gerais e o 1º de Maio, ou ações dos


movimentos feminista ou antirracista. Inspiradas na antiga black panther
Angela Davis, as suas práticas e alianças dir-se-iam, hoje, “interseccionais” e
de “autocuidado radical”; fincam pé na independência e autonomia do movi-
mento social, extravasam fronteiras entre lutas. Uma década depois, embre-
nham-se nas mobilizações e acampadas contra as políticas de austeridade
do período da troika.
As PR distinguem-se também no posicionamento ideológico: radicais
– “vão à raiz dos problemas” – de esquerda (s), crítica social ampla, anticapi-
talista, antifascista. “Chocam” sem pedir desculpa: os seus slogans – “melhor
vir-me que reproduzir-me”, “as mulheres são assim, os homens são assado,
este é o sistema do género formatado”, “prazer anal contra o capital”, “ma-
cho latino, pénis pequenino” ou “homem verdadeiro leva no pandeiro” (os 2
últimos revistos como politicamente problemáticos e abandonados) – geram
exigências de expulsão das PR de Marchas do Orgulho. Campanhas como
a que, em 3 dias, anulou a publicidade “Orgulho Hetero” de uma marca de
cerveja (2007), causam indignação nos setores integracionistas.
As PR recusam silenciar-se e redobram a crítica “para dentro”. Dizem-
-se “queer” – termo ainda não generalizado/despolitizado – como sinónimo
do movimento radical. Priorizam temas/setores invisibilizados e minoritá-
rios no movimento. Recusam a mercantilização, a fobia internalizada e as
discriminações internas à comunidade (transfobia, misoginia, racismo…). Cri-
ticam homofobias e “neutralidades” de casas ou eventos comerciais “lgbt”.
Rejeitam calar temas (como o do vih) e o “essencialismo estratégico à por-
tuguesa” (ocultar a diversidade identitária e de modos de vida, e afunilar a
agenda diversa, adiando lutas como a trans, em nome da luta exclusiva pelo
casamento). Em 2009/10, pressionam a rejeição do apoio da Embaixada de
Israel pelo Festival Queer Lx. Respondem à crítica com a pluralidade num
movimento social diverso, que o processo de aprovação do matrimónio igua-
litário tornará óbvia.
Ao negociar com o PS um “casamento sem adopção”, com a inclusão
inédita de uma cláusula discriminatória na lei de adoção, a Ilga quer forçar
um adiar “tático” do tema adoção/homoparentalidade. Mas está isolada.
Isso fica evidente numa reunião nacional do movimento lgbt (2009) convoca-
da pelas PR, que lança as bases do Movimento Pela Igualdade. A Ilga prota-
goniza-o apenas para o asfixiar logo após a petição e apresentação iniciais.
As PR denunciam a confusão de papéis entre partidos e movimento social e,
104

até à aprovação da lei (2010), aliam-se aos grupos lésbicos na visibilização


de realidades homoparentais. Críticas da instituição matrimónio, partilham
a reivindicação igualitária, mas com uma ‘nuance’: o direito a decidir (ou não)
casar.
No contexto português, as PR estiveram à frente do seu tempo, gra-
ças a internacionalização intensa. Daí, a consciencialização precoce sobre
solidariedade internacional e fenómenos com expressão ainda ténue em
Portugal, como o crescer da pressão comercial ou da extrema-direita. O
contacto com as PR de Paris (Les Panthères Roses), e outros movimentos ra-
dicais, já vem pelo menos de 2001, da mobilização anti-G8 em Génova e da
ida anual (até 2007) às UEEH, em França. Aqui, conhecem ativistas intersexo,
grupos trans consolidados, os movimentos emergentes – depois, maioritaria-
mente reprimidos – do leste europeu, Magrebe ou Médio Oriente, e reforçam
laços com outros coletivos radicais europeus. A partir de 2007, serão estas
redes internacionais a base inicial da campanha STP 2012 – Stop Patologiza-
ção Trans – que, a partir de Barcelona, se tornará mundial. Nesse ano, tam-
bém estão num dos primeiros Orgulhos Críticos alternativos à mercantiliza-
ção da marcha oficial em Madrid.
O tema “despatologização” não lhes era novo. Em 2005, a entrada no
grupo de Stef, ativista e homem trans, inicia nas PR uma formação “trans” in-
tensa. Já falam de “despsiquiatrização” e organizam ações. Mesmo a maioria
do reduzido número de ativistas trans da altura, inicialmente não entende.
Mas é o ativismo institucional que mais resiste: a autodeterminação das pes-
soas trans, ou a ideia de que estas – não os médicos - são as suas próprias
peritas parecem inconcebíveis. Dizem-nos que estamos “loucas”, que quere-
mos “pessoas enganadas empurradas para cirurgias”, que pessoas trans não
podem alterar documentos de identificação sem aval médico, nem tomar
hormonas sem “teste da vida real” (psiquiatrização forçada e prolongada)
para “provar que são mesmo trans”.
As PR insistem: ganham ativistas e coletivos para a causa, atraem
uma nova geração de ativistas trans. A partir de 2008/09, a campanha faz
caminho em Portugal, estabelecendo as bases da visão e da lei atuais. De-
pois, como quase sempre, as “loucas” posições das PR acabam assumidas
por todo o movimento. Em alguns casos, muito depois: a Ilga leva 10 anos a
despatologizar o discurso e aceita imposições do corpo médico que limita-
rão os avanços conseguidos na primeira “lei de identidade de género” (2011).
Adiando para 2018 a lei atual, realmente despatologizante.
105

Isto, apesar do assassinato de Gisberta Salce Júnior, em 2006, que


muda para sempre a luta trans, mas é uma viragem arrancada a ferros (na
década seguinte, as PR dedicam-lhe quase toda a sua atividade). Ainda nada
se sabia, cronistas apressam-se a afirmar que o crime não teve nada a ver
com “a orientação sexual” (a confusão com identidade de género era total).
Os coletivos lgb (“t”?) hesitam, resumem a reação a um comunicado. Já co-
nhecida a identidade de Gisberta, a Ilga hesita em falar de crime de ódio,
depois insiste em “homofobia”, pois “transfobia ninguém entende”. Sucedem-
-se tentativas – mediáticas, judiciais, políticas, da igreja – de culpar e desu-
manizar Gisberta, omitir a sua identidade, negar as causas de morte. As PR
denunciam-nas, e a setores anti-lgbt que usam o caso para o seu discurso
securitário.
Com as ativistas trans Jó Bernardo, Lara Crespo, Eduarda Santos, as
PR apontam o dedo à secundarização trans no movimento, à (des)proteção
de menores, à exclusão social. Confrontam jornalistas que escrevem “Gis-
berto” e “um travesti”, até a maioria a passar a nomear no género correto.
Convocam mobilizações internacionais, mantêm o caso nos media. Exigem
medidas de combate à transfobia e a lei de identidade de género, iniciam
equipas de rua para apoio nas zonas de prostituição trans do Porto e Lisboa,
denunciam novos crimes. Contestam a sentença judicial. Propõem uma Mar-
cha no Porto, como em 2010 integrarão a primeira em Coimbra. É o fim da
exclusividade e caráter “nacional” da Marcha do Orgulho de Lisboa (MOL).
Reside nas marchas um dos contributos principais das PR para o atual
perfil político, e cada vez mais descentralizado, do movimento lgbti+. Desde
logo em Lisboa, defendendo – da Ilga, que em 2005 chega a propor o fim da
MOL – o caráter interassociativo, a presença de coletivos informais, o perfil
político e não só festivo, a necessidade de critérios sobre presença empre-
sarial. Durante quase uma década, a Ilga usa a sua relação privilegiada com
o PS para reservar ao seu Arraial Pride (do qual excluíra crescentemente os
restantes coletivos) qualquer relação institucional com a CML. Pelo que as
PR integram os coletivos que separam Marcha e Arraial em 2009 – a primeira
deixa de terminar no segundo, ou de se realizar no mesmo dia, permitindo
finalmente o seu crescimento.
Quod erat demonstrandum: muitas vezes consideradas “intratáveis”,
as PR agregaram e construíram o movimento, e marcaram a sua definição
política. O tempo deu-lhes – e dará ainda – razão na generalidade dos deba-
tes políticos e estratégicos que travaram.
108 109

2005
Viseu assiste a violentos ataques homofóbicos. Organiza-se a primeira
manifestação nacional contra a homofobia, que contou com mais de 300
pessoas que ocuparam as ruas de Viseu numa manifestação destinada a
2005 condenar as agressões dirigidas a homossexuais naquela cidade.
O Partido Nacional Renovador convoca
uma manifestação contra o “lobby gay”,
associando erradamente a homossexuali-
dade à pedofilia. Em resposta, as Panteras
Rosa, Clube Safo e Não te prives, distribuem
pela cidade de Lisboa cartazes anti-nazis.
2005
O namoro entre duas jovens alunas gera polémica na Escola Secundária
António Sérgio, de Gaia. Ambas são repreendidas pelo conselho executivo
da Escola, por manifestações de homossexualidade, o que leva a Associa-
2005 ção de Estudantes da Escola a contestar essa posição.
Primeiro Congresso Internacional de Es-
tudos Gay, Lésbicos e Queer “Culturas,
Visibilidades, Identidades”

2005
No Dia Internacional Contra a Violência sobre os Trabalhadores do
Sexo, no Porto, mais de 20 trabalhadores do sexo decidem lançar um
2005 movimento com o objectivo de criar um sindicato ou associação pro-
fissional, como melhor forma de defesa dos seus direitos.
O Tribunal Constitucional pronuncia-se
no sentido da inconstitucionalidade do
art.º 175º do Código Penal. Vários decre-
tos-lei emendam os instrumentos legais
relativos à segurança social e à saúde
de modo a reconhecerem os direitos dos
casais do mesmo sexo em união de facto a
beneficiarem da mesma cobertura que os
heterossexuais.
2005
Estabelece-se o Dia Internacional de Luta Contra a Homofobia, 17 de
maio.

2005
2005
112 113

2006 Um casal de lésbicas, Teresa e Helena, dirigem-se à con-


servatória do Registo Civil em Lisboa para se casarem.
No mesmo dia, o Bloco de Esquerda apresenta um Pro-
jecto de Lei para a alteração do Código Civil, permitindo
2006
o casamento entre pessoas do mesmo sexo, seguindo-se Gisberta Salce Júnior, mulher trans em condição de sem-abrigo, a
projetos da JS e dos Verdes. A recusa da Conservatória viver no Porto, é barbaramente agredida e torturada até à morte
leva-as a interpor recurso no Tribunal da Relação e, em por um grupo de adolescentes à guarda da instituição de acolhi-
2007, apelam ao Tribunal Constitucional, onde perdem. mento católica Oficina de S. José. Os menores são condenados
A ILGA-Portugal entrega no Parlamento uma petição por maus tratos a penas entre os 11 e os 13 meses de interna-
pela igualdade no acesso ao casamento civil, que reco- mento - o Ministério Público deixa cair a acusação de homicídio
lhe mais de 7000 assinaturas. por a autópsia não comprovar que as lesões causaram a morte
(como diria o juiz no julgamento ao determinar que ela morreu
por afogamento: “A culpa foi da água”).

2006
1ª Marcha do Orgulho LGBT do Porto. Impulsionada pelo assassi-
nato de Gisberta, contou com o lema “Um presente sem violência,
um futuro sem diferença”.

2006
Aprovada a Lei da Paridade, que estabelece que as listas para a
Assembleia da República, para o Parlamento Europeu e para as
autarquias locais são compostas de modo a assegurar a represen-
tação mínima de 33% de cada um dos sexos/géneros, com os votos
a favor do BE e do PS e os votos contra do PCP, do PSD e do CDS (Lei
Orgânica n.º 3/2006, de 21 de agosto).

2006
A lei n.º 32/2006, de 26 de julho, que regulamenta a Procriação
Medicamente Assistida, exclui essa possibilidade para mulheres
solteiras e casais de lésbicas, dizendo explicitamente que só os
casais casados não separados ou em união de facto de sexo dife-
rentes podem beneficiar das técnicas previstas na lei.

2006
2006
116

Momentos do arranque trans


Eduarda Alice Santos
117

A luta Trans tem sido constante desde o século passado. Aliás, tem sido cons-
tante desde a denominada pré-história como o demonstram recentes desco-
bertas arqueológicas na europa.
Em Portugal foi desde o 25 de Abril de 1974 que as pessoas trans pas-
saram de perseguidas pelo regime a activistas pelos direitos humanos, onde
eles (os seus direitos) se incluem.
Mas não foi sem percalços. A minha entrada nessa luta foi impulsio-
nada pelo trágico caso de Gisberta. Não vou descrever aqui o sucedido pois
é sobejamente conhecido e facilmente se encontra na net.
Quando aconteceu o Portugal trans foi acolhido de surpresa. No meu
blog da época escrevi um curto comentário e fui talvez a primeira pessoa em
Portugal a catalogar o caso como transfóbico:

“Desta vez em nossa casa, aqui no pacato Portugal, de onde líamos


muitas e variadas notícias sobre casos similares, mas sempre “lá
fora”. Pois bem, o “état de grace” acabou. Tal como com as torres gé-
meas nos EUA, também aqui se acabou com o mito que estas coisas
só acontecem aos outros. Desta feita, tocou-nos a nós. Gi, uma tran-
sexual brasileira que habitava no Porto e que foi das pioneiras dos
espectáculos de travesti, foi violentamente assassinada, com requin-
tes de malvadez, por um grupo de adolescentes. Pedradas, murros
e sabe-se lá que mais. A partir de agora, já não basta lutar contra a
homofobia, a transfobia fez a sua entrada. Que a Gi descanse em paz.”

Com efeito, através das redes sociais da época (principalmente através de


email) gerou-se uma discussão, na qual participei, bastante assanhada por
vezes, entre os que defendiam que tinha sido um ataque homofóbico e os
que defendiam que tinha sido transfóbico. Durou vários dias e apesar da
118

oposição continuada das “majors” LGBT, que defendiam a tese da homofobia,


a população trans e os seus aliados nunca recuaram, até que uma declara-
ção de um dos jovens que tinham atacado a Gis, que “odiava homens com
mamas” rapidamente acabou com a discussão.
Este ataque a uma trans motivou também a primeira manifestação
pública trans na Assembleia da República. Convocada pelas Panteras Rosa
para o dia 8 de junho à tarde, a manifestação contou com a presença de vá-
rios dirigentes de grupos/associações LGBT e como presenças trans… 3: eu, a
Jó Bernardo e a Lara Crespo. No total não estariam mais de 20 ou 30 pessoas.
De manhã, Lara Crespo ainda foi à SIC notícias dar uma curta entrevista em
representação da @t sobre o assassinato de Gisberta.
Foi uma revelação a (muito) pouca afluência que os assuntos trans
atraem, até mesmo dentro da comunidade trans. Muito diferente das manifs
quando da aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo, e muito
revelador da atenção de que tais assuntos são alvo. Hoje em dia já aparecem
mais pessoas trans a dar a cara sem medos, mas na época éramos nós e uma
ou outra quando precisavam de testemunhos para um qualquer artigo de
jornal. Muita coisa havia a fazer se se queria avançar com a luta trans.
As poucas que se dedicaram ao ativismo compreenderam que para
serem ouvidas teriam de fazer barulho, muito barulho. E isso foi sendo feito
nas redes sociais e em tertúlias, discussões, debates por esse país fora, quer
dizer, nas cidades onde existiam mais activistas como Porto, Coimbra e Lis-
boa com capacidade de organização e fundos de maneio.
O pouco interesse nos assuntos trans também se pode ver em algu-
mas atitudes que as “majors” LGBT têm tido ao longo dos tempos. Por exem-
plo, na altura em que a orientação sexual entrou para o artª 13º na Constitui-
ção da República Portuguesa, houve negociações entre representantes do
PS, na altura no governo, e a ILGA Portugal, sendo que a proposta apresenta-
da tinha a orientação sexual e a identidade de género para entrarem no dito
artigo. Mas ficou decidido que a orientação sexual entraria sem problemas
se pusessem de lado a identidade de género, algo que a ILGA aceitou sem
problemas. E o facto é que passados estes anos todos a identidade de género
ainda não se encontra incluída no referido artigo.
Também durante a luta pela despatologização, com inúmeros deba-
tes públicos inclusivamente alguns com a comunidade médica, apesar da
forte oposição, lentamente essa oposição foi cedendo à argumentação por
nós apresentada e uma a uma as associações LGBT e/ou apoiantes mudaram
119

a sua posição de oposição para uma de apoio, sendo que a ILGA foi a última
a mudar o que até aí tinha sido uma posição patologizante.
Mas graças ao apoio de alguns partidos de esquerda e centro, já ti-
vemos duas leis de identidade e género aprovadas, sendo que em muitos
aspectos estamos muito à frente de muitos outros países supostamente mais
avançados.
E aqui tem de se mencionar o Bloco de Esquerda que tem sido o im-
pulsionador das leis dentro do parlamento, tendo organizado pela primeira
vez em Portugal duas audições parlamentares de pessoas trans para apro-
fundarem o conhecimento sobre a realidade trans, as várias vivências e ne-
cessidades para serem apreendidas e incluídas nas propostas de lei apre-
sentadas.
No entanto a discriminação teima em não desaparecer, aparecendo
mesmo entre pessoas onde tal não seria expectável.
Com efeito, no seio do feminismo, uma nova classe ressurgiu com al-
guma força, pelo menos com a força suficiente para aparecerem nos media.
Refiro-me às TERFs (Transgender Exclusionary Radical Feminists) que, apro-
veitando velhas formas de discriminação, recusam o estatuto de mulheres
às trans.
Este ressurgimento (e digo ressurgimento porque considero que sem-
pre existiram só que seriam uma minoria dentro do feminismo) tem muito a
ver com alguns apoios de peso (mediático) que obtiveram, como por exem-
plo J. K. Rowling, a célebre autora dos livros de Harry Potter, que também
nega que mulheres trans sejam mulheres.
Esgrimindo argumentos que há muito se julgavam ultrapassados,
têm conseguido cisões entre muitos movimentos feministas com previsí-
veis consequências de diminuição da capacidade de mobilização desses
movimentos.
Felizmente não têm alcançado sucesso dentro do movimento
LGBTQI+ sendo ostracizadas pela sua posição transfóbica.
E para se ir acabando com a discriminação terá forçosamente de ha-
ver aulas sobre estas temáticas, de forma a que os instruendos apreendam
que ser-se LGBTQI+ é tão natural como não o ser. Desde os primórdios da
humanidade que caminhamos lado a lado, pois somos todos humanos. E
numa época em que se fala tanto de diversidade, que tem de se aceitar a
diversidade humana, parece que essa aceitação termina quando se chega à
diversidade sexual. A luta continua.
120 121

2007 É criada a SERES – Associação de mulheres infetadas 2008


e afetadas pelo VIH.
Decorre em Lisboa o Congresso Feminista 2008, 80 anos depois
do segundo Congresso Feminista e da Educação.

2007 2008
É criada a CIG - Comissão para a Cidada- Bloco de Esquerda organiza as primeiras Jornadas contra a
nia e a Igualdade de Género. Homofobia.

2007 2008
Segundo referendo sobre a interrupção A Marcha do Orgulho LGBT de Lisboa realiza-se pela primeira
voluntária da gravidez. Vence o “Sim”, com vez com a participação activa na sua organização de associa-
59,25% dos votos, mas o resultado volta a ções não-LGBT: SOS Racismo, Associação para o Planeamento
não ser vinculativo (vota menos de 44% da Família e Médicos Pela Escolha. No final, uma mensagem do
do eleitorado). A Assembleia da República secretário-geral da CGTP é lida aos participantes.
procede à alteração da legislação, com a
lei da exclusão da ilicitude nos casos de
interrupção voluntária da gravidez (Lei n.º
16/2007, de 17 de abril).
2008
Decorre audição parlamentar de apreciação da petição a favor
do casamento das pessoas do mesmo sexo, e são votados os
2007 projectos de lei do Bloco de Esquerda e do Partido Ecologista Os
Verdes sobre o mesmo assunto. Reprovação pelos votos contra
Lei n.º 59/2007, de 4 de setembro. Esta
do PS, do PSD e do PP.
alteração ao Código Penal consagra a
orientação sexual como fator de agrava-
mento da pena por crime de homicídio
qualificado (art.º 132.º). A orientação se-
2008
xual é também acrescentada como crité- Lei n.º 27/2008, de 30 de junho, para a Concessão de Asilo ou
rio do crime de discriminação sexual (art.º Proteção Subsidiária, estabelece, para efeitos de apreciação
240.º). Elimina ainda a orientação sexual de «Motivos da perseguição», a pertença a um grupo social es-
como fator de agravamento da pena para pecífico, podendo incluir um grupo baseado na identidade de
crimes de abuso sexual de menores. género ou numa característica comum de orientação sexual.

2007
122 123

2009
1ª Marcha do Orgulho LGBT de Coimbra.

2009 2010
Profissionais do sexo juntam-se à manifes- Nasce a Associação de Mulheres Cabo-verdianas
tação do May Day, no Dia Internacional dos na Diáspora em Portugal (AMCDP).
Trabalhadores, o 1º de Maio, em Lisboa.

2009 2010
É lançado o Movimento pela Igualdade, que É criada a Associação Mén Non – Associação das
recolhe, para o seu lançamento mediático, Mulheres de São Tomé e Príncipe em Portugal.
1000 assinaturas de personalidades da vida
social, política, artística e cultural, apelando
à aprovação da igualdade de acesso ao casa-
mento civil. 2010
É aprovada no parlamento a Lei n.º 9/2010, de
31 de maio, que permite o casamento civil entre
2009
pessoas do mesmo sexo, com os votos do PS, Blo-
Lei n.º 60/2009, de 6 de agosto, estabelece o co de Esquerda, PCP e Verdes e os votos contra
regime de aplicação da educação sexual em do PSD e CDS. Depois dos Países Baixos, Espanha,
meio escolar, nomeadamente com a finali- Bélgica, África do Sul, Canadá, Noruega e Suécia,
dade de eliminar comportamentos baseados Portugal é o oitavo país a permitir o casamento
na discriminação sexual ou na violência em entre pessoas do mesmo sexo, mas excluindo a
função do sexo ou orientação sexual. adoção por parte destes casais.

2009
124

Movimento, movimentos
Miguel Vale de Almeida
125

Devido ao contexto político e social – a ditadura com valores patriarcais e


um processo revolucionário e de democratização com prioridades em torno
dos direitos políticos e das questões de classe – o movimento social de lés-
bicas, gays e trans não só começou tarde em Portugal, por comparação com
contextos equiparáveis, como não passou pela fase da afirmação cultural
identitária ou de “libertação”.
Na realidade, ele viria a consolidar-se e, sobretudo, a ganhar desta-
que durante e após a crise da sida. Então, sim, acompanhou outros contextos
mais avançados na política LGBT, a saber, a passagem de uma política de
libertação e afirmação para uma política de demanda de direitos legais e
cívicos, sobretudo em torno das formas de conjugalidade e família.
A crise da sida havia demonstrado não só a existência de formas de
solidariedade diferentes das normativas, como havia demonstrado a neces-
sidade de reconhecimento de relações baseadas na invenção, na escolha, no
afeto e na solidariedade na exclusão. Uma das estratégias encontradas para
promover esses direitos foi a da exigência da inclusão em formas já existen-
tes mas reservadas a relações heterossexuais.
Em suma, tratava-se de enfranchisement, à semelhança do direito
das mulheres ao voto, do fim de formas legais de segregação racial ou mes-
mo, ainda mais no passado, do reconhecimento de cidadania política a gru-
pos de status excluídos da polis em função, por exemplo, da literacia ou da
ausência de propriedade.
O movimento LGBT português optou também por esta estratégia, so-
bretudo depois da influência dos desenvolvimentos em Espanha em 2005,
126

com a aprovação do casamento igualitário. Em Portugal tal viria a ser con-


sagrado em lei em 2010, depois de longo debate público, mas, sobretudo,
depois de o movimento ter conseguido convencer um dos grandes partidos
do centro do arco da governação, o PS. Sem isso a questão teria ficado acan-
tonada à esquerda do PS, sem possibilidade de ser vertida em realidade e
(como demonstrado por alguns debates internos no movimento LGBT) pro-
vavelmente refém de questionamentos mais radicais (certamente produti-
vos do ponto de vista teórico crítico) sobre a natureza patriarcal da institui-
ção do casamento em si.
Com recuo histórico, pode-se dizer que a estratégia de foco no ca-
samento apostou numa conceção liberal, mas no sentido mais profundo e
positivo da palavra, que remete para a tradição euro-americana dos direitos
cívicos, em que segmentos excluídos vão progressivamente exigindo a inte-
gração, e complementado-se numa conceção social-democrata de igualda-
de de oportunidades.
Todavia, o debate e, depois, a legalização do casamento igualitário,
revelou afinal potencial para questionar mais radicalmente as estruturas so-
ciais, assim como revelou onde se concentravam as principais resistências
de cariz homofóbico e sexista. A tentativa de remeter o casamento para o
campo religioso foi rapidamente derrotada, em grande medida demonstran-
do como a sociedade havia incorporado a distinção entre religioso e civil.
A tentativa de “dar outro nome” aos casamentos entre pessoas do mesmo
sexo, ou de se ficar pelas uniões de facto ou civis, revelou de certo modo a
derrota dos opositores, que assim tornaram clara a dimensão simbólica de
“casamento”.
Por outro lado, a recusa de aprovar, ao mesmo tempo que o casa-
mento igualitário, a adoção por casais do mesmo sexo, revelou os limites da
aceitação da agenda LGBT por parte do campo político do centro do arco da
governação (no caso, o PS) e as estruturas profundas de homofobia, que sem-
pre constroem um fantasma em torno das crianças (como é agora tão claro
em contextos como a Rússia, a Hungria ou o Brasil). A questão da adoção
viria a ser resolvida com a Geringonça, e ainda assistiríamos a resistências,
de cariz sexista e transfóbico, no que diz respeito a mulheres e trans, respe-
tivamente na procriação medicamente assistida por casais de mulheres ou
mulheres sozinhas e na despatologização – e suas consequências legais - da
transexualidade e do transgenderismo.
Todos estes direitos e conquistas tiveram o seu início na questão do
casamento igualitário (o qual, por sua vez, beneficiou do clima social e cul-
tural criado pela grande transformação na área do género que foi a despe-
nalização da IVG). Revelou ser não uma forma de integracionismo, mas antes
uma mola de transformação das mentalidades, apesar do muito que há por
fazer e do muito que há por reinventar: no movimento LGBT, que não pode
parar nos reconhecimentos legais; no estado, que deve vigiar e assegurar a
aplicação das leis, bem como promover o combate à homofobia; e em no-
vos movimentos, vidas e práticas, como as genericamente designadas como
queer, que vão surgindo e que já não se identificam com os movimentos so-
ciais e políticos do século XX.
128 129

2011 É criada a Rede sobre Trabalho Sexual, com profis-


sionais do sexo, projetos que intervêm com estes/as
profissionais e investigadores/as. Esta rede defende os
direitos das/os trabalhadoras/es do sexo e promove a
ideia de que “trabalho sexual é trabalho”, sendo ativa
na articulação das suas opiniões para a mídia.

2011
Lei n.º 7/2011, de 15 de março, cria o procedimento de mudança
do marcador de sexo e de nome próprio no registo civil. É exigido
um relatório médico assinado por pelo menos dois/duas profissio-
nais, que comprove o diagnóstico de perturbação de identidade de
género. Uma lista da Ordem dos Médicos, que contém os/as profis-
sionais autorizados/as a intervir nestes processos, limita o acesso a
este direito e dificulta a mudança de nome.

2011
Inauguração do Checkpointlx, centro de rastreio comunitário do VIH
para homens que têm sexo com homens (HSH), em Lisboa. É o pri-
meiro em Portugal dirigido especificamente a HSH.

2011
130 131

2013
2012 Surge o grupo ativista Exército de Dumbledore, que
1ª Marcha pelos direitos LGBT de Braga.
realiza a sua primeira ação no metro de Lisboa, com
afixação de cartazes contra a homofobia e a homo-
normatividade, dentro das carruagens. 2013
Surge a associação Braga Fora do Armário,
após a 1ª Marcha.

2013
Resolução da Assembleia da República n.º
4/2013 aprova a Convenção do Conselho
da Europa para a Prevenção e o Combate à
2012 Violência contra as Mulheres e a Violência
Doméstica, adoptada em Istambul, a 11 de
1ª Marcha do Orgulho LGBT de Ponta
maio de 2011.
Delgada.

2013
Lei n.º 19/2013, de 21 de fevereiro, alteração
ao Código Penal, consagra a identidade de gé-
nero como fator de agravamento da pena por
crime de homicídio qualificado (art.º 132.º) e
como critério de discriminação para efeitos do
crime de discriminação e incitamento ao ódio
e à violência (art.º 240.º).

2012
132 133

2015
2015 A API - Ação Pela Identidade constitui-se
É criada a Associação Plano i - Associação para a Igualdade e Inclusão.
como associação de pessoas trans e inter-
sexo.
2015
Governo cria a Secretaria de Estado para a Cidadania e Igualdade sob a
tutela do Ministério da Presidência e da Modernização Administrativa.

2015
Pela primeira vez, há um bloco trans na Marcha do Orgulho LGBT de
Lisboa.

2015
Primeiro programa de Doutoramento em Estudos Feministas, da Fa-
culdade de Letras da Universidade de Coimbra em colaboração com o
Centro de Estudos Sociais.

2015
Parlamento chumba projetos de lei do Bloco de Esquerda e do PS para
alargar a Procriação Medicamente Assistida (PMA) a todas as mulheres,
2014 Surge a Lóbula, coletivo de intervenção eliminando restrições em função do estado civil e orientação sexual.
cultural e política de linha trans*, queer & Votam contra o PSD, PCP e CDS, com quatro votos favoráveis do PSD.
feminista.

2015
O Bloco de Esquerda promove uma audição na Assembleia da Repú-
blica, “Pessoas Trans e Intersexo: que reconhecimento e que novos
direitos?”.

2015
Aprovada a adoção por casais homossexuais. O texto junta os projetos
de lei do PS, Bloco de Esquerda, Verdes e PAN e é aprovado com os votos
contra das bancadas do PSD e do CDS. O PS, Bloco de Esquerda, PCP,
Verdes e PAN votam a favor, tal como 17 deputados do PSD.

2014
134 135

2016
O Presidente da República Cavaco Silva
veta a lei de adoção por casais homosse-
xuais e a alteração à lei do aborto, mas o
Parlamento confirma as leis, que são reen-
viadas para Belém.

2016
Decreto Regulamentar n.º 6/2016, de 29 de dezembro, regulamenta a
procriação medicamente assistida (PMA), garantindo o acesso de todas
as mulheres à PMA.

2016
Lei n.º 2/2016, de 29 de fevereiro, elimina as
discriminações no acesso à adoção, apadri-
nhamento civil e demais relações jurídicas
familiares.

2016
Norma n.º 009/2016, de 19 de setembro, da Direção-Geral da Saúde,
faz desaparecer qualquer referência à categoria “homens que têm
sexo com homens”, até então suficiente para a exclusão automática
na doação de sangue. Apesar disso persistem os episódios de dis-
criminação, que conduzirão a alterações da norma para clarificar
proibição da discriminação.

2016
136 137

2017 Associação Quebrar o Silêncio - Apoio a homens e


rapazes vítimas de abuso sexual.

2017
É criada a Associação Mulheres na
Arquitectura.

2017
É criado o Grupo de Partilha D’a
Vida, em Braga, para apoio e a par-
tilha de informação a Trabalhadorxs
do Sexo.

2017
Abre o Centro Gis - Centro de Res-
postas à população LGBTI, em Ma-
tosinhos, pela mão da Associação
Plano i.

2017
1ª Marcha do Orgulho LGBT de Vila
Real e da Madeira.

2017
138

Rexistir
António Fernando Cascais
139

Em Portugal, nem a resistência clandestina nem a oposição tolerada ao Es-


tado Novo incluía qualquer agenda de direitos LGBTQIA e fenómenos tão
determinantes como o Maio de 68 francês e o Stonewall 1969 passam com-
pletamente despercebidos. O surgimento do associativismo não teria sido
formalmente possível sem a instauração do regime democrático, com o 25
de Abril de 1974, mas este, ao contrário de o propiciar, contribuiu para o dis-
suadir. A declaração persecutória do muito conservador general Galvão de
Melo é apenas a ponta visível do iceberg da cultura política homofóbica de
todos os quadrantes partidários, inclusive daqueles que menos hostis deve-
riam ser, à esquerda do espectro político. É sobretudo a ausência de condi-
ções genéricas de sobrevivência que explica a efemeridade das primeiras
tentativas organizativas. O ideário predominantemente antifascista e anti-
capitalista tendia a desqualificar como burguesa e decadente a subcultura
gay e lésbica que prosperava, por outro lado, muito ligada ao circuito de
bares e aos espetáculos de transformismo. Com raízes na esfera colonial an-
tes de 1974, esta estava, por seu lado, completamente dissociada, se não era
mesmo avessa, à organização associativista. Data da viragem das décadas
de setenta para oitenta uma interessantíssima cinematografia gay que nela
se insere, mas que só muitos anos depois seria redescoberta. O primeiro de-
bate público sobre as homossexualidades – os Encontros Ser (Homo)sexual,
organizados pelo Centro Nacional de Cultura – ocorre em 1982, por ocasião
da promulgação do novo Código Penal despenalizador. As figuras públicas
de António Variações, que encarna o primeiro grande ícone gay, e de Gui-
lherme de Melo, primeiro sujeito visível da existência de uma agenda ho-
mossexual, constituem referências reconhecíveis para uma comunidade que
ia ganhando alguns espaços urbanos. As condições básicas da sociogénese
140

do movimento LGBTQIA só se encontram reunidas, porém, com a adesão do


país à União Europeia e ao seu adquirido jurídico-político, mas também só-
cio-económico, com a chamada “normalização democrática”, e sobretudo
com o combate à emergente epidemia de SIDA, no qual militantes gay se
envolveram, antes de tomarem a iniciativa de criar as primeiras associações,
à cabeça das quais a ILGA-Portugal (com ramificações como a Rede ex-æ-
quo). Ela tinha sido precedida pela criação do Grupo de Trabalho Homosse-
xual no seio do Partido Socialista Revolucionário, que haveria de evoluir
para as Panteras Rosa – Frente de Combate à LesBiGayTransFobia, o que re-
gista a inflexão pró-gay e lésbica daquele ideário outrora hostil. A necessi-
dade sentida pelas mulheres lésbicas de uma representatividade autónoma
e específica estará na origem da fundação do Clube Safo, ao passo que uma
exigência de demarcação da ILGA-Portugal e das suas assumidas dependên-
cias institucionais terão explicado a génese da Opus Gay. A “Não te prives”
– Grupo de Defesa dos Direitos Sexuais desafiou com duradouro êxito a he-
gemonia lisboeta do movimento. À volta destas organizações porventura
mais representativas, floresceu durante algum tempo um considerável nú-
mero de outras de menor longevidade e dimensão, por vezes regional ou
setorial, que exprimem a voluntariedade e a criatividade dos tempos – não
se enumeram por razões de extensão, que não por exclusão cirúrgica. O ad-
quirido absoluto e absolutamente inestimável do associativismo LGBTQIA
em Portugal foi – é – a constituição de um sujeito cívico que pôs termo à
homofobia omnipresente e unânime e à invisibilidade e objetificação sem
contraditório, antes prevalecentes, fazendo desaparecer de vez aberrações
tão gritantes como os debates mediáticos sobre homossexualidade em que
os próprios primavam pela ausência no meio de assembleias de supostos
peritos científicos, jurídicos e religiosos: não falavam, eram falados. O asso-
ciativismo deu rosto e corpo a uma resistência em que ele se afirma como
interlocutor com uma agenda reivindicativa própria à qual, não fora a sua
afirmação na esfera pública, a classe política nunca teria dado atenção. A
visibilidade do associativismo tem os seus expoentes: na Marcha do Orgulho
(agora multiplicada regionalmente e uma verdadeira apoteose em 2019!) e
no Arraial Pride, no pólo político; no Festival de Cinema Queer Lisboa, no
pólo cultural; e na presença constante nos meios de comunicação e nas re-
des sociais, bem assim como na criação de programas de rádio e de blogs,
portais e sites (demasiado numerosos para listar, mas onde avultam o Vidas
Alternativas / Opus Diversidades e o PortugalGay) no pólo mediático. Por
141

outro lado, a representatividade do associativismo evidencia os seus limites,


não tanto nos sucessivos combates reivindicativos por si iniciados e bem-su-
cedidos, como sobretudo pelo facto de culminar na campanha vitoriosa pelo
reconhecimento legal do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Ela só
foi possível pela conjunção de um elemento associativo, de um elemento
jurídico e de um elemento político cujos protagonistas tinham ligações fami-
liares e partidárias entre si, o Partido Socialista, todas cooptadas pela agen-
da política deste, seguindo o modelo do “triângulo de veludo” próprio dos
países do sul europeu, o qual lança sobre o associativismo um espectro de
menorização. É este modelo que explica que uma lei própria do amadureci-
mento do associativismo em países com fortes tradições dele tenha surgido
de forma tão precoce em Portugal onde aquele era recente. O facto de a lei
do casamento acabar por ficar associada ao início da grave crise económica
e funcionar de algum modo como compensação para o recuo generalizado
das conquistas sociais da democracia não deixa de ensombrar esta derradei-
ra flor da Revolução dos Cravos. O associativismo passa a partir daí por uma
última inflexão, num sentido progressivamente assistencialista-sindical, por
assim dizer, e setorial, como é o caso do reconhecimento das pessoas trans-
género, de que há que registar, porém, a perene e justa queixa de incom-
preensão e menosprezo no seio do movimento. Entretanto, desenvolveu-se
paralelamente a ele uma importantíssima imprensa LGBTQIA onde se con-
tam pelo menos vinte e oito (!) publicações periódicas, umas mais efémeras
do que outras, mas que no seu conjunto constituem um repositório notável
do que as “multitudes queer” portuguesas foram sendo ao longo do tempo. A
sua linhagem é hoje continuada sobretudo nas redes sociais e as pontes en-
tre as organizações políticas e as expressões da cultura queer na literatura,
nas artes plásticas, na música, nas artes interpretativas e performativas, são
eles que as estabelecem de um modo que o associativismo praticamente
nunca fêz. O que, finalmente, está em vias de se escrever é uma história des-
te património LGBTQIA, indispensável para que as gerações da comunidade
não se sucedam como espectros que de cada vez têm de recomeçar do zero
por ignorarem reciprocamente quanto cada uma fez. Outra é a relação entre
o associativismo e a academia, cuja reflexividade o primeiro praticamente
não aproveita e que, por outro lado, se confronta com uma tenaz resistência
das instituições universitárias ao seu necessário mainstreaming, a despeito
do crescimento exponencial do interesse pela pesquisa nos estudos gay, lés-
bicos e queer, com a proliferação de projetos de investigação financiados,
142

teses de mestrado e doutoramento, e um caudal de literatura especializada.


As universidades não estão sós, porém, porque a extrema dificuldade da so-
ciedade portuguesa em reconhecer o papel crucial do movimento LGBTQIA
na sua democratização como um todo – a sua universalidade – se faz sentir
sobretudo nas instituições (escolares, médicas, jurídicas, religiosas…) que
persistem em recusar ser confrontadas com as suas próprias homo-lesbo-
-trans-fobia, racismo, xenofobia, misoginia. Longe de terem sido definitiva-
mente superadas, elas em grande medida apenas se remeteram ao armário,
como comprovam a contrario casos absolutamente excecionais como o as-
sassinato de Gisberta. Eis porque continuam a rarear as figuras públicas ca-
pazes de pagar o preço da revelação, demarcando-se, além disso, do asso-
ciativismo sem o qual não a teriam ousado. Já presente no imediato pós-25
de Abril, essa demarcação emerge novamente com a versão nacional do
chamado homonacionalismo e o surgimento de pessoas afetas a forças de
extrema-direita, com uma natureza parasitária relativamente ao associati-
vismo. O facto não deixa de repercutir, ainda que de forma desviada, a ten-
são interna ao movimento LGBTQIA, antiga mas nunca realmente fechada,
entre assimilacionismo e separatismo. Se a integração social se apresenta
como o móbil último do combate contra a discriminação, a marginalização e
a estigmatização, o assimilacionismo nunca propõe uma alteração radical
do sistema social e económico e, no caso português em que este deriva per-
versamente no sentido da fusão entre Estado e sociedade, ele torna-se pa-
tente no relacionamento de tipo corporativista que a associação ILGA-Portu-
gal mantém com o partido de governo, o Partido Socialista. No pólo oposto,
o separatismo tende a propugnar a mudança do sistema sócio-económico
capitalista como condição sine qua non de uma verdadeira emancipação
LGBTQIA, radicalizando os seus grupos ou setores que vão sendo negligen-
ciados ou até excluídos do processo de integração e agravando a conflitua-
lidade interseccional de uma comunidade de facto muito diversa interna-
mente. Inicialmente polarizado sobretudo nas Panteras Rosa, o separatismo
tem recentemente sido a bandeira de uma jovem geração ativista que tenta
abrir caminho à sua autopromoção na academia tomando como alvo a gera-
ção fundadora do associativismo. Acusando o que entende ser o assimilacio-
nismo gay e lésbico desta última, ela interpreta o programa queer como dra-
matização, por assim dizer “malditista”, da postura pós-identitária e
não-binária dos não-integrados e inassimiláveis, deixando em aberto a ques-
tão de saber em que é que consiste uma política sem sujeito(s). E não se po-
143

dem ignorar os risco de atirar setores da comunidade para os braços do ho-


monacionalismo: em especial, as tentativas desastradas de transpor um
programa interseccional anti-racista de modelo norte-americano para a
realidade portuguesa sem a filtrar pelo nosso passado colonial e a correção
política distorcida que se apressa a acusar de islamofobia etnocêntrica qual-
quer crítica à homo-lesbo-transfobia dos fundamentalismo islâmico que é
branqueada a pretexto do respeito pelas suas idiossincrasias. A história LGB-
TQIA portuguesa é assim polirrítmica, contraditória e não linear, com várias
linhas evolutivas paralelas que ora se entrecruzam, ora se entrechocam, e
comporta, inclusivamente, as formas de resistência ao ativismo. Ao fazer a
sua própria história, o associativismo não pode alhear-se metodologicamen-
te das formas de homo-lesbo-trans-fobia que o comprometem a partir das
mesmas comunidades de que é a vanguarda representativa. Comparativa-
mente com a maioria dos países do mundo, Portugal não está nada mal po-
sicionado no cumprimento da grande maioria dos catorze objetivos da luta
pela igualdade de direitos definidos na recente Declaração de Øresund. Mui-
to mais do que aquilo que falta adquirir no plano jurídico-político, o que
compromete a sua efetivação prática continuam a ser os nossos sempre me-
díocres indicadores sociais, económicos e culturais, exponencialmente agra-
vados com a crise económica e as clamorosas desigualdades no acesso a
toda a espécie de bens, serviços e oportunidades. Elas tanto pioram as pers-
petivas das gerações mais jovens se libertarem da dependência da tradicio-
nal família-providência frequentemente homofóbica, e bem assim da preca-
riedade laboral que se generaliza, como as da geração que com o
envelhecimento se vê compelida a regressar ao armário para evitar o risco
de desproteção.
144 145

2018 É criada a gentopia - Associação para a Diversidade e


Igualdade de Género.

2018
É criada a Associação Contra o Femicídio.

2018
1ª Marcha do Orgulho LGBT de Bragança,
de Guimarães, de Viseu e de Faro.

2018
Com a aprovação da ENIND – Estratégia Nacional Igualdade e Não
Discriminação – Portugal + Igual (2018-2030), Portugal passa a ter um
plano autónomo intitulado “Plano de Ação de combate à discrimina-
ção em razão da Orientação sexual, Identidade e Expressão de género
e Características sexuais”.

2018
A Lei n.º 38/2018, de 7 de agosto, estabe-
lece o direito e proíbe qualquer discrimi-
nação em função do exercício do direito
à identidade de género e expressão de
género e do direito à proteção das carac-
terísticas sexuais.

2018
146 147

2020 1ª Marcha do Orgulho LGBT de Amarante e


Santarém.

2019 2021
Nasce o Movimento dos Trabalhadores do 1ª Marcha do Orgulho LGBT de São João
Sexo (MTS), coletivo de representação e de da Madeira e de Leiria.
luta pelos direitos laborais de trabalhado-
res do sexo, que defende a descriminaliza-
2021
ção e o reconhecimento do trabalho sexual.
O Tribunal Constitucional declara incons-
titucionais os n.ºs 1 e 3 do art.º 12º da Lei
2019 n.º 38/2018, de 7 de agosto, por violação
da reserva de competência legislativa da
Primeira greve feminista nacional, organi-
Assembleia da República em matéria de
zada pela rede 8 de Março.
direitos, liberdade e garantias, o que acar-
reta a subsequente inconstitucionalidade
do Despacho n.º 7247/2019, de 16 de agos-
to. Esta decisão não implica a inconstitu-
2019 cionalidade da Lei n.º 38/2018, e o direito
1ª Marcha do Orgulho LGBT de Barcelos e fundamental à autodeterminação da iden-
Aveiro. tidade de género e expressão de género e
à proteção das características sexuais de
cada pessoa mantém-se intocável, tendo
por fundamento primeiro o disposto no
2019 art.º 26.º, n.º 1, da Constituição Portuguesa.
Despacho n.º 7247/2019, estabelece as me-
didas administrativas para implementação 2021
do previsto no n.º 1 do art.º 12.º da Lei n.º
A Assembleia da República aprova por
38/2018, de 7 de agosto.
unanimidade a proibição da discrimi-
nação na doação de sangue em função
da orientação sexual. A atualização da
Norma n.º 009/2016 reforça os princípios
da não-discriminação durante a triagem
clínica.

2019
149

Esta publicação foi desde início um exercício incerto, de avanços, recuos,


reformulações e adições… como esta história de lutas que vivemos e conti-
nuamos a viver.
Esta publicação que estará sempre incompleta como é algo que se
faz a olhar para trás, sem guião, de memória.
E de memória escreveram-se também textos a várias mãos como retratos,
estórias que merecem ser contadas e recontadas para preservar o que de
facto são… memórias.
Nada é mais importante para viver bem o futuro do que conhecer o
nosso passado. Fazer e ter memória é essencial para avançar. E este trabalho
propõe-se exatamente a ser ponto de encontro, sem julgamentos, sobre a
história, e de reencontros com memórias e discursos sobre lutas feministas
e LGBTQIA+.
Esta publicação é, assim, uma proposta aberta, em constante cons-
trução e (des)atualização. Uma publicação que se compõe por eventos e
momentos, mas sobretudo de memórias coletivas das gentes que estiveram
presentes, que impulsionaram, que saíram à rua, que deram de si por um
futuro melhor.
E se no Portugal do século XXI muito parece ter sido alcançado, so-
bretudo legalmente, não podemos deixar de relembrar que a história se faz
de avanços e recuos, de muitas batalhas e sofrimentos para alcançar peque-
nas vitórias. Vitórias essas por vezes tão voláteis e efémeras.
Esta publicação pretende exatamente concretizar estes marcos da
história de tantos portugueses e portuguesas, atribuindo-lhe o peso de um
percurso que não pode ser negado ou posto em causa. Visibilizando estórias
e vivências comuns de cidadãos e cidadãs, por um mundo onde enaltecer a
diversidade e suplantar as diferenças nos permite ser mais iguais.
É por isso que apresentamos este ensaio modesto sobre esta memó-
ria coletiva que, como puderam perceber e experienciar, avança contra ven-
tos e marés, mas avança.
Neste 2021, fazemos então apenas uma pausa para tomar novo fô-
lego que nos permita criar sempre novas memórias, e assim, ir mais longe,
mais alto e mais adiante...
151

Literatura consultada

Almeida, M. V. (2010). O contexto LGBT em Portugal. in C. Nogueira & J. M. Oliveira


(Eds.) Estudo sobre a discriminação em função da orientação sexual e da identidade
de género (pp. 45-92). Lisboa: Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género

Brandão, A. M., & Machado, T. C. (2015). Organa: The first Portuguese lesbian maga-
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Cascais, F. (2006). Diferentes como só nós. O associativismo GLBT português em três


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Fontes das imagens

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6. Valentim de Barros
© Mário Novais, fotografias sem data, https://www.flickr.com/search/?user_
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7. Maria Lamas
https://comunidadeculturaearte.com/os-testemunhos-de-irene-lisboa-e-de-maria-
-lamas-num-portugal-oprimido/

8. Natália Correia
http://www.blogletras.com/2016/10/natalia-correia-um-sopro-de-liberdade.html
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9. Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno


https://comunidadeculturaearte.com/as-tres-marias-o-antes-o-depois-e-o-impacto-
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10. 25 de Abril de 1974, retrato caído de Marcello Caetano


© Alfredo Cunha, https://www.flickr.com/photos/vfutscher/13979779672/in/photos-
tream/

11. 1º de Maio de 1974


© Gerald Bloncourt, https://www.abrilabril.pt/origens-e-actualidade-do-1o-de-
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12. Entrega da petição de exige a despenalização do aborto, 1977


https://expresso.pt/sociedade/2016-12-28-Morreu-Lia-Viegas

13. Maria de Lourdes Pintasilgo


https://expresso.pt/politica/2015-08-12-Ramalho-Eanes-conta-porque-nomeou-Pin-
tasilgo-para-primeira-ministra-ha-36-anos

14. Mário Viegas


https://sol.sapo.pt/artigo/537998/mario-viegas-ai-que-tao-cedo-se-finou-ai-que-fal-
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15. Boletim lésbico Zona Livre


Arquivo Fabíola Cardoso, Clube Safo

16. sem título


Arquivo Fabíola Cardoso, Clube Safo

17. Cartaz Jornadas Lésbicas


Arquivo Fabíola Cardoso, Clube Safo

18. Beijaço - Ação Panteras Rosa, Parque Eduardo VII, Lisboa, 2004
© Arquivo Panteras Rosa

19. Eu fiz um aborto - Ação Panteras Rosa, Baixa de Lisboa, 2004


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20. Instituto Português do Sangue - Ação Panteras Rosa, 2004


Cláudia Damas © Arquivo Panteras Rosa

21. Stop Homofobia, Viseu - Manifestação unitária, 2005


Cláudia Damas © Arquivo Panteras Rosa

22. Gisberta Salce Júnior


https://gerador.eu/rua-gisberta-salce-junior-dar-a-historia-o-que-nao-se-deu-a-vi-
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23. Lara Crespo e Eduarda Santos


Arquivo Eduarda Santos

24. Lara Crespo e Eduarda Santos, 16ª Marcha do Orgulho LGBT em Lisboa, 2015
Arquivo Eduarda Santos
i n t e r s e ç õ e s D i v e rG e n t e S

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