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A gêmea errada – Rebecca Winters

A Gêmea errada
Rebecca Winters

Resumo:

HÁ UMA SURPRESA PARA ELE NA CAMA DE CASAL!

Sílvia Clarke descobre que está grávida – sem marido,


sem trabalho...Mônica, sua irmã, recém-casada, insiste
muito para que ela vá passar um tempo na fazenda de
seu marido, que está viajando a negócios. Mas há um
problema: Max e Sílvia não se conhecem, pois Mônica,
por algum motivo, não contou que tem uma irmã gêmea.

Ao chegar em casa Max Sutherland encontra uma


desconhecida em sua cama! Uma mulher idêntica a sua
esposa. A esposa que desapareceu misteriosamente...

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Capítulo 1

Agora que sabia, Sílvia Clarke tinha que contar a


Philippe imediatamente. Ele viria à Nova York na
semana seguinte, mas ela não podia esperar tanto para
partilhar as novidades –estava com oito semanas de
gravidez. Ele seria pai em fevereiro.

O enjôo que sentia todas as manhãs agora parecia um


milagre, pois compreendia que carregava um filho de
Philippe.

Essa gravidez era a coisa mais maravilhosa que já lhe


acontecera. Logo, teria um filho só seu, uma criança
para abraçar, amar e ensinar. Alguém para dividir a
maravilha da vida consigo. Sete meses pareciam tempo
demais para esperar!

Não importava que o médico estivesse preocupado com


sua pressão alta, ordenando-lhe que ficasse na cama
durante parte do dia. Assim que Philippe soubesse, iria
querer ajudar. Ele entenderia por que ela desistira do
emprego e insistiria para que se casassem sem demora,
para que pudesse tomar conta dela.

Com determinação, discou o número de telefone não


relacionado que conseguira com muito custo do
secretário particular de Philippe, George Tronier, e
esperou que a ligação se completasse.

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-Allo? –respondeu por fim, uma voz desconhecida.


-Por favor, posso falar com Philippe Moreau? –
perguntou Sílvia, em francês fluente.

-Ele não está. Gostaria de falar com madame Moreau?


Cada vez mais ansiosa, Sílvia soltou um suspiro
desanimado.

-Não. Não gostaria de perturbar sua mãe.

-Não, não. Não entendeu. A mãe dele já morreu já faz


cinco anos, que descanse em paz. Eu estava me
referindo à esposa, Delphine.
Esposa?

-Ela está no jardim com a neta mais nova. Se quiser,


chamarei madame ao telefone.

Sílvia começou a suar frio, sentindo a náusea que a


incomodara durante todo o dia se intensificar.

Pensar que ela, Sílvia, era a “outra mulher!” Pensar que


era a “amante”, morando nos Estados Unidos, enquanto
a família dele prosperava no sul da França! Nenhum
estardalhaço, nenhuma confusão, desde que Sílvia não
insistisse em se juntar a ele lá.

-Allo? Ainda está aí? A senhora...

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Interrompendo a criada de Moreau, Sílvia recolocou o


telefone no gancho e se agarrou à borda da cama
enquanto o mundo girava a seu redor.

Incrível. O truque mais velho do mundo, e ela caíra.


Philippe, com seus olhos gauleses cheios de disposição
romântica, sempre insistindo em procura-la, nunca o
contrário. Quantas vezes ele lhe assegurara de que a
levaria a seu chatêau, que um dia a apresentaria à
mãe?

Sílvia apertou a mão contra o coração, tentando aliviar


a dor.
Tinha que conversar com Mônica!

-Por favor, por favor, responda –rezou Sílvia, enquanto


discava o número da irmã gêmea, desrespeitando a
imposição de Mônica de que só se falarem uma vez por
mês.

Após quatro toques, ouviu:


-Não há ninguém no momento. Por favor, deixe seu
recado e alguém retornará sua ligação.
-Que droga!

Sílvia bateu o fone no gancho, o nível de adrenalina


subindo. Se não houvesse engravidado, quem sabia
quanto tempo ainda teria mantido o relacionamento

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antes de exigir de Philippe uma definição? Por quanto


tempo ainda teria dado confiança àquele homem?

Não podia acreditar que o mesmo tipo de traição que


acontecia a centenas, a milhares de mulheres em todo o
mundo todos os dias lhe acontecera também.

Lado a lado com a raiva e a dor surgiu um sentimento


de vergonha esmagador. Fora ludibriada como inúmeras
outras e agora, como elas, estava grávida, sozinha.
Forçada a encontrar algum tipo de trabalho que pudesse
fazer em casa. Com poucas economias para se sustentar
durante a gravidez, sem mencionar o resto da vida.

Mas uma coisa era absolutamente certa: queria aquele


bebê. Embora não fosse ter um pai, seu filho nunca
sofreria. Gozaria de um infinito amor, de sua parte e
de sua família.

Quando a irmã, Mônica, e a madrasta, Giselle,


soubessem, ficariam muito felizes. E juntariam forças
para ajuda-la a criar seu menininho ou menininha, uma
criança que Philippe nunca conheceria.

Sílvia tinha de dar crédito a George, que, ao ouvir sua


voz, devia ter ficado com dó, sabendo exatamente o
que fazia ao revelar aquele número de telefone.

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Talvez ela não fosse a primeira a se envolver num


relacionamento extraconjugal com o patrão. Talvez
houvesse outra mulher insuspeita na vida de Philippe
naquele exato momento. Nunca saberia. Não queria
saber. Não queria mais nada com ele.

O barulho em seu ouvido se intensificou e o gosto


amargo a impeliu ao banheiro. Novamente. Já passara
por aquilo naquele dia.

Precisava de Mônica. Por que ela não estava em casa?


Quando não havia mais nada no estômago, Sílvia
começou a perambular pelo apartamento minúsculo,
tentando imaginar onde colocaria o berço e toda a
parafernália de que o bebê precisaria. Sem mencionar
como pagaria por todas essas coisas.

O riso histérico repentino transformou-se em lágrimas,


e ela escondeu o rosto nas mãos, soluçando.

Não saberia dizer quanto tempo ficou ali parada antes


de captar as batidas na porta. Não podia ser Philippe,
pois ele sempre telefonava antes de visitá-la no
apartamento.

Sílvia nunca abria a porta, a menos que a pessoa do


outro lado se identificasse. Quanto a vizinhos, vigorava
no prédio a lei informal quanto à sempre telefonar
antes de aparecer. Como o visitante insistisse, ela foi

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de mansinho até a porta e apurou o ouvido, não


querendo denunciar sua presença.

-Rômulo? –chamou uma voz familiar. –Está tão paranóica


quanto antes. Abra. Sei que está aí.

-Remo? –Sílvia gritou a outra metade da senha que ela


e Mônica usavam desde a sétima série, quando
aprenderam sobre os gêmeos famosos de Roma. –Ainda
bem que você veio!

Com mãos trêmulas, liberou as trancas e escancarou a


porta.

-Acabo de ligar para você. Tudo o que consegui foi sua


secretária eletrônica dizendo que não tinha ninguém.
Não acredito que esteja aqui!

Conduziu a irmã para a sala e, entre lágrimas e risos,


as duas se abraçaram com força.

Sílvia balançou a cabeça e agarrou as mãos de Mônica,


ainda encantada por vê-la em carne e osso à sua
frente.

-Como passou pelo portei... –Sílvia parou no meio da


frase. –Claro! Ele pensou que você fosse eu.

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-Peguei você numa hora ruim, não foi? –Mônica não


deixava escapar nada.
Sílvia assentiu, enxugando os olhos.

-Como Max deixou você vir? Ou ele veio à Nova York


com você? Vou conhece-lo finalmente?

-Ele não sabe que estou aqui. Partiu há quase cinco


semanas num caso de proteção de testemunhas que deve
durar uns três meses.

-Que tipo de casamento é esse?

-O tipo que eu e Max queremos. –Mônica sorriu e soltou


Sílvia para que ela pudesse fechar a porta. –Fazemos o
que queremos quando estamos separados, o que nos
convém muito bem.

-Como agüenta isso, Mônica? Eu não poderia viver com


um homem que estivesse em perigo constante.

-Max pode cuidar de si mesmo. É o homem mais


confiante que conheço, e gosta de aventura. É por isso
que só a fazenda não basta, e ele trabalha como agente
também.

Sílvia balançou a cabeça, incrédula. Então sorriu.


Rezara para conversar com a irmã e, como um milagre,
Mônica se materializara.

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-Já faz um ano desde que nos vimos pela última vez!
Sei o que Giselle disse sobre devermos tentar viver
vidas separadas, mas nos falarmos só uma vez por mês
é ridículo, Mônica. Não é bom.

-Concordo. É horrível estar separada de você. –Mônica


pousou a bolsa sobre o sofá.

Sílvia seguiu seu movimento com o olhar, maravilhada


ante a graça e beleza inconsciente da irmã. Apenas por
um momento, entretanto, pareceu-lhe que ela
bamboleara um pouco. Mas devia ser imaginação. Ainda
se sentia um pouco abalada após o acesso de vômito.

-Por que não disse nada antes, Mônica? Estava ansiosa


por visitá-la.

-Você sabe por quê. Giselle disse que mamãe costumava


nos encorajar a ficar juntas demais, a sermos muito
parecidas.
Ela achava que devíamos tentar ser mais independentes.
Sob um aspecto, ela estava certa. Se você e eu não
tivéssemos decidido tirar férias separadas no verão
passado, eu nunca teria conhecido Max, nem você
Philippe.

Talvez eu não tivesse me sentido tão só e abandonada a


ponto de me envolver com o primeiro bonitão que
apareceu, pensou Sílvia, numa percepção súbita.

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Elas se olharam. Mônica quebrou o silêncio primeiro:


-Desculpe se levei a sugestão de Giselle longe demais.
Estou aqui para consertar.

-Eu amo você. –Sílvia se estendeu e abraçou a irmã


novamente.

Mônica correspondeu ao abraço.

-Você é um arraso, Sílvia. Todo esse cabelo ruivo e


olhos verdes. Pernas longas e maravilhosas. Assim como
as minhas. Mas, franchemente, ma chère, você parece,
“como dirrá...” – imitou o sotaque francês. –Tão, tão
horrible. –Ergueu os ombros exageradamente e
afundou-se no sofá.

Sílvia riu, apesar da gravidade de sua situação,


divertindo-se com a habilidade da irmã e respeitando
sua honestidade. Duas mentes como uma. Dois seres
humanos formados da mesma célula.

-Ia dizer a mesma coisa de você, ma chère. Parece que


está tendo um péssimo dia. –Passou para um tom mais
sério. –Por que está parecendo tão esgotada? Tão...
Frágil?

-Tentou pegar um vôo comercial ultimamente, voar pelos


Estados Unidos numa lata de sardinha com um piloto
Kamikaze? –Justificou Mônica, balançando a cabeça,

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fazendo uma nuvem de cabelo ruivo gingar gentilmente


antes de pousar em seus ombros. Nesse movimento,
agarrou-se no braço do sofá tão firmemente que seus
dedos ficaram brancos.
Sílvia deixou de sorrir.

-Vamos. É hora da verdade. O que foi? Está tonta, não


está?

-Meus períodos andam irregulares, do jeito que eram


quando começamos a menstruar. Mal consigo viver
durante a síndrome pré-menstrual. Os remédios
ajudam, mas um dos efeitos é que me deixa um pouco
tonta. Qual é a sua desculpa?

-Acho que é exatamente o oposto. Eu... Eu estou


grávida.
-Oh, Meu Deus!

Mônica olhou para o estômago achatado da irmã. Desde


que voltara do consultório do obstetra, Sílvia passara a
mão pela região uma dezena de vezes, ainda incapaz de
acreditar que uma vida começava a crescer dentro dela.
-Nosso francês atraente do Midi?

-Nosso francês atraente e bem casado.


Mônica endureceu a expressão.
-Que se dane o cara por toda a eternidade. Já contou
a ele? –Mônica estava revoltada.

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-Ia contar, mas ele não estava em casa. Perguntaram


se eu gostaria de falar com madame. A mãe dele?,
Perguntei. Não, não, a criada me disse. Ela já se foi.
Refiro-me à esposa, que está lá fora com a neta
caçula. –Com a voz fraca, Sílvia já não conseguia
controlar os soluços.

-Oh, venha cá. –Mônica estendeu os braços e a irmã se


refugiou neles.

Ficaram assim por um bom tempo, até as lágrimas de


Sílvia secarem.

-Acredita que na semana passada Philippe disse que iria


visitar a mãe viúva em Cap D’Agde, e... E que talvez na
próxima visita ele me levasse, para nós duas nos
conhecermos?

-Sílvia, querida. Sinto tanto.

-Eu devia ter percebido. Ele é mais velho. Muito


sofisticado. Como Louis Jourdan. Lembra-se dele em
Gigi? Nosso filme favorito? Philippe se parece muito
com ele. Fiquei encantada quando ele disse que queria
me ver. Disse que se casara jovem, e que tudo
terminara havia muitos anos. Naturalmente, presumi...

-Não se culpe –interrompeu Mônica. –Você é uma mulher


adorável, bonita e desejável. Ele não a merece.

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Sílvia fungou.
-Concordo.
-Vai contar-lhe sobre o bebê?

-Não. Decidi não contar. Acha que estou sendo má?

-Não. Tomou a decisão certa, maninha –provocou


Mônica, gentil, lembrando que, segundo a mãe, ela
nascera primeiro, por diferença de quinze minutos.
Portanto, considerava-se protetora de Sílvia. –Philippe
não merece saber de uma criança que ele nunca teve
intenção de gerar ou reconhecer.

-O que me deixa zangada é que conversamos sobre o


futuro, sobre crianças. Ele não havia proposto ainda,
mas eu tinha certeza de que o faria. –Sua voz ficou
mais trêmula.

-Onde está o crétin agora?

Sílvia adorava quando a irmã praguejava em francês.


Mesmo agora, sorriu.

-Provavelmente na cama de outra mulher –resmungou,


cínica.
-Provavelmente.

-Não a da esposa –disseram em uníssono, exatamente


como fizeram inúmeras vezes durante a vida, os

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pensamentos em tão perfeita sintonia que era quase


assustador.

De repente, estavam gargalhando, a reação atuando


como uma catarse necessária.

Mas quando a alegria cedeu, Mônica ficou totalmente


séria.
-Foi ao médico?

Sílvia assentiu.
-Na hora do almoço.

E por isso que estava tentando falar com você.


A irmã estreitou o olhar.

-Conte-me tudo. Vamos. Vá falando.

-Oh, Mônica... As coisas não poderiam ser piores. –


Aliviada por poder extravasar os medos para alguém que
a amava incondicionalmente, Sílvia contou o que o
médico disse, não omitindo nada. –Não sei o que vou
fazer. Ele explicou que, se eu não quisesse perder esse
bebê, deveria ficar de cama durante parte do dia até
que o perigo passasse.
O que significa que tenho de largar meu emprego de
intérprete e arranjar algum trabalho para fazer em
casa. Não sei por onde começar.

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-Isso é fácil. Vai sair deste apartamento e voar para a


fazenda amanhã.
-Não, Mônica. Não posso fazer isso.

-Não seja egoísta. Estamos nisso juntas. Tenho capital


investido em meu próprio sobrinho ou sobrinha. Quem
sabe? Talvez esteja esperando gêmeos. Mamãe não
sabia até nascermos.

Sílvia quase desmaiou ante a idéia, enquanto a irmã


prosseguia”.

-Além disso, não tem escolha, não quando há risco para


você e para o bebê.

Sílvia também sabia ser teimosa.


-Não é problema seu.

-Vai ficar aí sentada e me dizer que não faria a mesma


coisa por mim se estivesse no seu lugar? Max ganha
bem. Desde o nosso casamento, não tive de me
preocupar com dinheiro.

-É esse o ponto. Tem um marido para ajudar. Eu não.


-Nem eu –disparou Mônica. –Não estou falando sobre
uma estada de nove meses.

-Então, de que está falando?

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-Você precisa organizar suas idéias, para tomar uma


decisão sobre o resto de sua vida. Não pode fazer isso
neste apartamento do tamanho de um selo postal,
preocupada com dinheiro e trabalho!
O que estou sugerindo é que fique na fazenda por
algumas semanas. Deixe nossa caseira, ida, mima-la, e,
sem tempo definido. Vai encontrar a solução com a qual
ambas possamos viver. Que tal?

Sílvia franziu o cenho.

-Parece maravilhoso, exceto por você estar falando


como se não fosse estar lá.
-Não estarei.

-Mônica...

-Vou para a Europa por algumas semanas. Estou


preocupada com Giselle, então decidi ir vê-la enquanto
Max está fora.

-Também estou preocupada com ela. Gostaria de poder


ir com você... –resmungou Sílvia. Ainda sentia falta das
longas conversas com a madrasta, uma francesa
maravilhosa com quem o pai se casara vários anos após
a morte da mãe delas, de câncer.
Infelizmente, tudo mudara novamente quando o pai
sofrera um ataque cardíaco fulminante e Giselle se
unira a Paul Beliveau. –Ela não me escreve há semanas.

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-Deve ter sido um choque tremendo, para Paul,


descobrir que Giselle estava criando duas enteadas de
dezessete anos. Ele nos odiava.

-Acho que ele odiava qualquer pessoa a quem não


pudesse controlar, ainda mais depois que observamos
que Giselle amara e se casara com nosso pai primeiro.
Ainda fico espantada por termos conseguido ficar com
Giselle até os vinte e dois anos.
Ainda bem que ela conseguiu esse trabalho de tradução
e interpretação aqui.

-Pode imaginar a vida dela a partir daí?


-Não paro de pensar nisso.

-Parece –comentou Sílvia –que ela é uma esposa


maltratada.

-É por isso que não vou esperar mais. Achei que


poderíamos viajar juntas, mas, já que isso está fora de
questão, vou sozinha.

-Vai precisar ser cuidadosa, Mônica. –Sílvia se levantou


fitou a irmã.

-Não se preocupe –ela a tranquilizou. –Tenho um plano.


Se puder tira-la da casa por cinco minutos, vou
convence-la a procurar um esconderijo, ou algum
aconselhamento.

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Sílvia sentiu as lágrimas emergirem.


-Pobre Giselle, e nem poso ajuda-la numa hora dessas.
Isso... –gesticulou em direção ao estômago –mudou
minha vida para sempre.

Mônica se levantou também e pousou as duas mãos


sobre os ombros de Sílvia.

-Está me dizendo que não quer essa criança?

-Sabe que não é isso. –Sílvia ergueu a cabeça. –Só não


posso suportar ser um estorvo para você e Max.

-Então, não seja. Duas semanas devem ser suficientes


para pensar sobre o tipo de trabalho que poderia fazer
em casa. Há dezenas de editoras precisando de
tradutores de textos e coisas assim.

-Sei, mas trabalho free lance é difícil, e é preciso


estar atento às oportunidades.

-É exatamente por isso que deve ir para a fazenda e


ficar longe de outras preocupações. Pode ficar deitada
o dia inteiro e dar os telefonemas. Com sua
experiência, logo vai conseguir alguma coisa de
concreto.

-Oh, Mônica. –Sílvia passou a mão pelo cabelo. –Quando


fala, parece fácil, mas não poso fazer isso. Ficaria

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muito embaraçada de aparecer na fazenda, sendo


esperada. O que vão pensar da irmã perdida há tanto
tempo que nem sequer apareceu no casamento? Tenho
certeza de que minha ausência não deixou boa
impressão em ninguém, em especial ao Max.

-Bem, nós nos casamos de repente mesmo, mas foi


culpa minha você não estar na cerimônia. Você estava
na França sob contrato com uma empresa de
informática, e eu lhe disse para ficar lá.

Segundo Giselle, para meu casamento começar bem, eu


devia ficar longe de você por algum tempo. –Mônica
parou, franzindo o cenho. –E, Sílvia, não fique chocada,
mas tenho uma confissão. Max sabe que tenho uma
irmã, mas... Não sabe que somos gêmeas. No início,
não contei por causa do conselho de Giselle, e então...

Nunca parecia ser a hora certa. Então, decidi esperar


até que pudessem se conhecer...

-Ele não sabe que somos gêmeas? –repetiu Sílvia,


rouca. –Oh, Mônica, como pôde?

-Desculpe. Mas tem de admitir que, até passarmos a


viver vidas separadas, nossa proximidade sempre
sabotou nossos relacionamentos com os homens.

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-É verdade, mas está casada agora –murmurou Sílvia,


ainda se sentindo perturbada, e traída, pela revelação
da irmã.

Embora compreendesse. Para o próprio bem delas,


Giselle providenciara que lessem a literatura disponível e
os últimos estudos sobre gêmeos idênticos, certa de que
teriam uma vida emocional mais saudável se
entendessem os inconvenientes, bem como os benefícios,
de estarem ligadas em vários níveis.

-Tem razão. Fui estúpida. Me desculpa?


-O que você acha?

-Senti saudade, Rômulo.

-Senti saudade também, Remo. O problema é que, se


eu aparecer na fazenda, todo o mundo vai ficar
escandalizado ao saber que você tinha uma irmã gêmea
e manteve isso em segredo.

-Não, não vão. Não se você fingir ser eu.

Mônica tinha uma expressão traquina no olhar. Sílvia a


detectara milhares de vezes antes, sempre um
prenúncio de encrenca para ambas.

-Não estamos crescidas demais para isso?

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-Sim. Mas é isso que é divertido, e não me divirto


assim desde quando dividimos aquele emprego durante
um ano inteiro na crémerie em Neuilly e ninguém
descobriu.

-E Monsieur LeClerc e seu filho tentaram começar


namoro conosco.

Os risos foram se intensificando até se tornarem


gargalhadas. Sem uma palavra, sentaram-se no sofá,
ambas cruzando a perna direita sobre a esquerda, o que
as fez rir ainda mais.

Sílvia sempre ficava fascinada com seus movimentos de


corpo idênticos, que, embora não combinassem,
freqüentemente ocorriam da mesma forma e ao mesmo
tempo.

Desde cedo, perceberam que preferiam se deitar na


cama de modo igual: sobre o lado direito, perna
esquerda dobrada e a direita estendida.

Da mesma forma, usavam o mesmo perfume francês,


liam as mesmas biografias históricas e mistérios,
preferiam Brahms a todos os outros clássicos e
devoravam cannelloni autênticos. A lista era
interminável.

-Vamos, Sílvia. Que mal pode haver?

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-Acho que nenhum, mas quero saber o motivo real de


você estar sugerindo essa peça. Sou sua outra metade,
lembra-se? Diga a verdade.

-Sua chata –a irmã falou, sorrindo. –A verdade é que


Max ficaria preocupado se soubesse que fui ver Giselle
sem ele. Depois de tudo o que contei sobre Paul, ele
teme que minha interferência possa piorar as coisas.
Embora ele nunca tenha comentado, acho que Max tem
medo de que Paul possa machucar a mim.

-Talvez ele esteja certo.

-Não. –Mônica balançou a cabeça. –Paul nunca encostou


um dedo em você ou em mim. Max está apenas sendo
superprotetor.
Afinal, esse é seu trabalho. E é por isso que estou
determinada a visitar Giselle antes que Max volte à
fazenda.
Este é o caso mais longo de que ele já participou, então
é a hora perfeita para eu ir a Paris, verificar tudo e
voltar antes que ele dê pela minha falta. Não quero
preocupa-lo.

-Não a culpo. Mas, pelo que me disse, sua caseira e o


marido são fiéis a Max. Não vão contar sobre sua
viagem?

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-É por isso que Ida e Jesse não fazem a mínima idéia


de onde estou agora.
-Está brincando...

-Não. Não quis dizer nada até vê-la primeiro. Tinha


esperança de que pudesse tirar uma folga, e iríamos
juntas visitar Giselle.
Então, telefonaria a Ida e diria que estávamos
sentindo tanto a falta uma da outra que decidi ficar
com você em Nova York uma semana ou duas. Ela não
veria nada de errado nisso, e Max ficaria satisfeito.
Ele se espantava por estarmos já há tanto tempo sem
nos ver.

Sílvia esfregou as têmporas, pressentindo uma dor de


cabeça.

-Preferia ir com você. Lamento que meu estado tenha


arruinado seus planos.

-Nada está arruinado. Não, se você fingir ser eu por


uma ou duas semanas. Jesse e Ida nunca vão descobrir,
pois pensam que você é minha irmã mais nova, o que é
verdade. Você quase nem terá de vê-los, exceto quando
Ida for levar as refeições.

Olhando fixamente a irmã, Sílvia comentou:


-Está falando sério, não está?
Mônica assentiu.

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-Estou. Giselle é importante demais para mim, para nós


duas. Tenho de descobrir se ela está bem. Mas é
essencial que Max não saiba o que está acontecendo.

Não quero que ele se desconcentre enquanto trabalha


no caso. Já é bem perigoso ser guarda-costas de
alguém. Se Max perder a concentração, mesmo por um
momento, pode ser morto, junto com a pessoa que está
protegendo.

Sílvia sentiu o amor e o medo pelo marido na voz de


Mônica. Considerando o silêncio perturbador de Giselle e
a vulnerabilidade de Max, sucumbiu aos desejos da
irmã.

-Que desculpa vou dar a Ida e Jesse para ficar na


cama?
-Diga que ficou gripada e que o médico em Rexburg deu
instruções para que descansasse.

-E se eles perceberem que não sou você?

-Se eles realmente descobrirem, diga que estávamos


apenas brincando. Explique que sempre fazíamos isso,
que estou de férias em Nova York.

Como você não tinha podido visitar a fazenda até


agora, pensamos que essa seria uma boa maneira de
você conhece-los e sentir como é a minha vida. Então,

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desculpe-se por decepciona-los. São pessoas


excelentes, vão superar.

Sílvia não parecia muito certa.


-E se Max voltar antes de você?

-Não vai. Já disse, ele está numa missão de três


meses.

-Mas suponha que ele volte. Ele não vai ficar intrigado
com esse segredo? E ele nunca perguntou por que
jamais fui visitá-la? Por que quase não nos
telefonamos?

-Realmente não.
Intrigada, Sílvia perguntou por quê.

-Bem, ele sabe sobre seu trabalho, que é muito


puxado, e que você quase não pode tirar férias ainda.
Como nem imagina que somos gêmeas...

-Ele nunca pediu para ver fotografias?

-Claro que sim, mas eu disse que ficaram todas com


Giselle. –Mônica lançou um olhar cândido a Sílvia,
pedindo perdão em silêncio. –Acho que estava com medo
de que, se ele a visse, poderia gostar mais de você do
que de mim.

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Estupefata, Sílvia se enrijeceu.


-Só pode estar brincando.

-Bem... –Mônica sorria misteriosa -, não


completamente.

-Mas ele se apaixonou por você!

-Vamos ser sinceras, Sílvia. Algum homem já conseguiu


nos diferenciar? Nove vezes em dez, papai e mamãe
não conseguiam. Quando conheci Max, quis que ele me
amasse, e só a mim.

Sílvia entendia. Max Sutherland fizera seu coração


disparar quando vira suas fotos pela primeira vez. Numa
delas, ele usava roupas de fazendeiro.

Em outras, aparecia elegantemente vestido com terno.


Com um metro e noventa de altura, era um belo
espécime masculino, mais vigoroso do que bonito, com
cabelo escuro e um olhar distante que deviam ter
chamado a atenção de Mônica. Os dois pareciam
perfeitos juntos.

Sílvia pensou em Philippe. Fisicamente, a diferença


entre os dois era enorme, mas pelo menos Philippe
nunca a intimidara.

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Percebeu tratar-se de uma observação estranha, já que


nunca vira o cunhado pessoalmente, e só lhe falara
brevemente em duas ocasiões. Ainda se lembrava da voz
grave e distinta.

Tomando fôlego, comentou:

-Lembro-me das longas discussões que costumávamos


ter sobre nossos futuros maridos, quando éramos
adolescentes. Mas somos adultas agora, e Max a amava
o bastante para se casar. Vivem juntos há mais de um
ano. Ele vai perceber a diferença, acredite em mim.

-É bom mesmo –retrucou Mônica. –Acho que até Giselle


vai concordar que esse negócio de separação já foi
muito longe. Não posso esperar para ver as duas
pessoas que mais amo nesse mundo se conhecerem.

-Estou ansiosa também. Mas nunca imaginei que seria


sob falsas circunstâncias. Mônica, uma coisa é fingir
ser você em sua casa e outra, completamente
diferente, passar por você diante de Max. Não poderia.
De várias formas, você e eu não somos parecidas. Não
de fato.

-Mas na beleza si, só você e eu estamos cientes da


diferença sutil. Como o fato de que sou a mais velha e
que você tem que fazer o que digo –sentenciou Mônica,
superior. –Sílvia, que mal pode haver? Mesmo que o

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impossível aconteça e Max volte mesmo para casa,


basta me telefonar em Paris, e eu conto toda a verdade
a ele. Quando ele tiver certeza de que estou bem, vai
achar engraçado termos trocado de lugar. Pode ver uma
maneira mais legal de conhece-lo?

Sílvia suspirou, e então balançou a cabeça.

-Não. –Sorriu timidamente. –É perfeito. Um tipo de


tributo a todas as proezas que fizemos no passado.
Esta tem que ser a última.

Nunca perdia o senso de humor quando suas


brincadeiras de gêmeas eram o tema. E tinha de
admitir que estava satisfeita por Mônica se sentir
assim. A ligação sempre estaria ali, algo que as
separava de todos os outros na terra.

Aquela ligação e a recusa de Mônica em aceitar não


como resposta derrubaram suas objeções.
-Ótimo. Então, está combinado. –Mônica saltou do
sofá. –Vá se deitar enquanto faço uma reserva para
você.

Sílvia pôs as mãos nos quadris.


-Não tenho tempo para deitar. Tenho de fazer as
malas.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Não, não precisa. Está tomando meu lugar, lembra-


se? Deixei minhas malas no aeroporto. A única coisa que
me recuso a dividir com você é a escova de dentes.
Trocaram olhares divertidos.

-Mas meu apartamento... E tenho de conversar com


meu chefe e explicar tudo.

-Deixe isso comigo. Marquei um vôo noturno para Paris,


e não preciso estar no aeroporto até amanhã às seis da
tarde.
Tenho muito tempo para acertar seus assuntos. Mal
posso esperar para pôr as mões naquele seu vestido azul
de crepe. Não se importa, não é? –perguntou, dando um
rápido sorriso. –Daqui em diante, sou Sílvia Clarke, a
irmãzinha de Mônica Sutherland.

-Ouça, Mônica... –Sílvia começava a ficar nervosa


novamente –temos de combinar o que vai dizer se
Philippe telefonar amanhã. Não estou esperando, mas
pode acontecer. Ele deve vir na semana que vem...

-Já estava pensando nisso. Pessoalmente, gostaria de


manda-lo para aquele lugar!
-Eu sei.

Sorriram, entendendo-se perfeitamente.


-Mas não seria do meu feitio –admitiu Mônica –e ele é o
pai do seu bebê, o que dá a ele alguns pontos. Vou

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A gêmea errada – Rebecca Winters

dizer uma coisa. Vou ser mais sutil e ele nem vai saber
o que o atingiu.

-Está esperando que ele ligue! –choramingou Sílvia.


-Ora, claro que estou. E, seja honesta, você também.
Sílvia sentiu os olhos marejarem.

-Mesmo sabendo a verdade, não é fácil desligar meus


sentimentos.
Mônica fitou-a por um instante.

-Não, não é –murmurou, parecendo distante. –Então, o


que tem na geladeira? Estou morrendo de fome.

Ambas pesavam cinqüenta e cinco quilos, distribuídos


por um metro e setenta e cinco de altura. Sempre
puderam comer tudo o que tinham vontade sem se
preocupar com as medidas.
-Não muita coisa.

-podíamos pedir uma pizza, mas, como você não pode


comer sal, não dá.

-Não seja tola. Peça uma. Hoje em dia, fico feliz


quando consigo reter uma coca-cola com bolachas. O
médico disse que isso deve passar no mês que vem.
-Ele deu algum remédio?

-Sim. Vou tomar hoje à noite.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Gostaria de estar grávida –confessou Mônica. –Não só


Max ficaria em êxtase, como eu daria um au revoir à
síndrome menstrual.

-E diria bonjour à náusea –grunhiu Sílvia. Enjoara-se


com a sugestão da pizza.

-Pobrezinha... Vá se deitar. Assim que acabar de


comer, vou lá dar os detalhes mundanos da minha vida
diária, tais como o fato e eu e Max termos conta em
West Yellowstone.

-De que tamanho mesmo é a fazenda?

-Só quatrocentos acres, ou seja, cento e sessenta


hectares, mas ele consegue uma boa renda da madeira.
Três empregados fazem o corte e cuidam do estábulo;
moram em West Yellowstone e recebem ordens de
Jesse na maior parte do tempo. Raramente os verá, se
os vir. Darei todos os detalhes à noite.

Sílvia parou junto à porta do quarto.

-Sabe tão bem quanto eu que, assim que eu chegar lá,


essa farsa não vai durar nem dois minutos.

-Oh, por favor, maninha. É melhor atriz do que eu.


Prometa que não vai desistir até eu voltar! –Mônica era
inflexível.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Mas nunca vi um cavalo, e você se tornou uma


amazona.

-Bem... você está doente demais para cavalgar agora,


lembra-se? Está com gripe.
Sílvia começou a rir.
-Você é impossível.

-Quer dizer, sou mais aventureira. E você já está se


sentindo melhor. Estou vendo.

Sílvia assentiu. Só Mônica podia erguer seu moral


assim. Só Mônica podia reavivar seu otimismo e sua
alegria.

-Diga a verdade agora, Rômulo. Quem se diverte mais


que nós?

-Ninguém, Remo.
-Tenha isso em mente, ma chère.
-Eu amo você, Mônica.

-Também amo você, Sílvia.

-Nunca deixe nada de mau lhe acontecer – pediram uma


à outra, juntas.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Capítulo 02

-Max? Enquanto esteve fora, recebemos a


correspondência. Aqui está a sua.

A. J., colega de quarto de Max, um dos sete agentes


destacados para proteger Ray Cass e sua família, jogou
um maço de cartas sobre a cama.

Com creme de barbear ainda no rosto, Max percorreu a


pequena distância entre o banheiro e a cama para pegar
as cartas. Removendo o elástico que as prendia, passou
os olhos pela variedade de remetentes. Mônica pegaria
as contas e as pagaria.

Como não encontrou o que procurava, picou tudo em


pedacinhos, os quais despachou pelo vaso sanitário,
voltando a se barbear. Quando em missão, não
deixavam no aposento nada que pudesse identifica-los.
A. J. apareceu na porta.

-Vou tomar um café. Quer alguma coisa?


-Não, obrigado. Vou dormir.
-Certo.

A porta se fechou, deixando Max sozinho no quarto de


hotel em Oklahoma City. Ele e A.J. sempre se
instalavam juntos quando estavam em serviço.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Naquela semana, trabalhavam como garçons no


restaurante da família do Mel, revezando-se em turnos
de quatro horas.

O restaurante, a um quilômetro e pouco do hotel, ia de


vento em popa, pois cada turista que partia ou chegava
à cidade dava uma passada ali.

Em contrapartida, qualquer um podia ser um membro da


quadrilha lá da Costa Leste encarregado de matar Ray
Cass, um ex-espião do serviço secreto que se expusera
ao testemunhar contra líderes criminosos e fora
obrigado a mudar de identidade.

Agora, ele e a família precisavam de proteção enquanto


se estabeleciam em Oklahoma City, iniciando vida nova
como proprietários de um restaurante.

Trajando apenas uma cueca samba-canção, Max apagou


as luzes e deitou-se na cama, o braço sob a nuca,
olhando para o teto.

Nada de Mônica. Nem uma única palavra. Olhou o


telefone sobre o criado mudo e voltou a fitar o teto.
Nada de telefonemas, a menos que fosse emergência.

A seu ver, cinco semanas sem falar com a esposa era


uma emergência, mas a chefia consideraria negligência.
Os telefones podiam estar grampeados. Trabalhavam

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A gêmea errada – Rebecca Winters

num caso arriscado, no qual uma atitude irresponsável


poderia custar muito caro.

Em caso de emergência da parte de Mônica, ela


contataria o chefe dele em Billings, o qual transmitiria
a mensagem ao escritório mais próximo da área da
missão. Ante o silêncio, Max presumia que nada mudara
no que se referia à esposa.

Apenas tinha a péssima impressão de que o casamento


estava acabado.

Seus pais tinham conseguido viver juntos por quase


quarenta anos; ele e Mônica, porém, mal haviam
conseguido ir além do primeiro –já estavam desgastados.
Se a história tivesse sido diferente, nem estaria
participando daquela missão.

Na verdade, se o casamento tivesse sido diferente,


semelhante aos sonhos que nutrira antes de conhecer
Mônica Clarke, teria desistido do trabalho de agente
para se dedicar inteiramente à fazenda ao lado dela.

Haviam se conhecido no verão anterior, pouco mais de


um ano atrás. Entre uma e outra missão de proteção de
testemunhas, que não raro duravam meses e
praticamente impossibilitavam relacionamentos longos
com mulheres, precisava espairecer.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Avistara a ruiva longilínea no instante em que entrara


naquele bar típico em Jackson.

Ela o notara também. Como que compelidos por uma


força misteriosa, gravitaram ao redor um do outro. No
final da noite, já estava apaixonado, e sabia que tinha
de fazer alguma coisa. Aquilo que para ambos começara
como férias terminara em casamento.

Foram tão felizes no começo, tão cheios de planos e


sonhos. Ele queria filhos e acreditava que ela
compartilhasse o desejo.

Céus, como um homem podia se enganar tanto com uma


mulher?

Com um suspiro atormentado, Max se virou de barriga


para baixo e enterrou o rosto no travesseiro, sentindo
junto à mão a frieza metálica da Magnum 357 ali
escondida.

Mônica. A mulher mais linda que já vira. Os primeiros


dois meses de casamento tinham sido um paraíso.
Então, sem que soubesse a causa, sentira a mudança.
Ela mudara. Toda a promessa de futuro glorioso
desaparecera.

Algo acontecera no casamento, algo intangível, que a


impedia de se dar completamente a ele.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Não se referia ao ato do amor em si, embora nos


últimos seis meses até isso se revelasse insatisfatório.
Apostaria a própria vida como ela se sentia tão
incompleta quanto ele.

O que realmente o incomodava ia ao nível da alma.


Talvez fosse esse o problema. Ela não queria partilhar
mais nada com ele, nem pensamentos, nem sentimentos,
nem trivialidades do dia a dia, e se fechava totalmente
quando ele fazia perguntas demais.

Recusava-se a conversar sobre ter um bebê, e mesmo


assim dizia que não queria voltar a ser intérprete. Ele
não conseguia descobrir o que ela queria.

Já não tinham mais aquele vínculo do começo...


Mônica lembrava uma belíssima gema, perfeita a olho
nu, mas, sob uma inspeção mais detalhada, carecia
daquela substância interior essencial.

Talvez estivesse sendo injusto. Talvez a essência


estivesse lá, mas ele não era mais capaz de traze-la à
tona. Simplesmente não sabia como encontra-la, como
libera-la novamente. Não sabia como recuperar o que
tivera. Sentia-se totalmente desamparado.

Desde que o casamento começara a ruir, tinha


dificuldade em pensar noutra coisa. Sem o conhecimento
de Mônica, fora a um conselheiro, que sugeriu que ela

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A gêmea errada – Rebecca Winters

talvez estivesse escondendo algo terrível em seu


passado, algo que agora a impossibilitava de amá-lo
completamente.

Desesperado, contara a ela que procurara ajuda


profissional, implorando-lhe que lutassem para salvar o
casamento. Fora um grave erro.

Descartando a idéia, Mônica erguera uma parede ainda


mais alta entre eles. Em tom extremamente frio,
informara-lhe que sua vida era um livro aberto: fora
extremamente feliz na infância, com a irmã e os pais
carinhosos. Não havia nenhum segredo obscuro.

Cheio de emoções conflitantes de dor, remorso e raiva,


porque não podia alcança-la, ele aplacara os
sentimentos mergulhando no trabalho, aceitando missões
especiais, sendo voluntário para horas extras. Qualquer
coisa para poupar a dor.

Daquele ponto em diante, tudo se desfizera. Era


possível que, quando cumprisse aquela missão e voltasse
à fazenda, Mônica já houvesse partido para Nova York
ou Paris, onde vivera a maior parte da vida.

Aparentemente, ela e a irmã caçula, Sílvia, haviam


nascido na Europa, de pais funcionários do governo.
Viveram em Bruxelas, depois em Paris. Após a morte da

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A gêmea errada – Rebecca Winters

mãe, o pai se casara novamente com uma francesa,


Giselle, que as garotas adoravam.

Depois que o pai delas sofreu um ataque cardíaco fatal,


Giselle se empenhara em cuidar de Mônica e da irmã,
mas três anos depois, casou-se com Paul, um
compatriota.

Segundo Mônica, embora Giselle tentasse manter um lar


saudável, elas tinham certeza de que o padrasto não
gostava delas, pois nunca fizera nenhum esforço para
ser amigável, parecendo ressentir-se da dedicação que
a esposa lhes prestava.

Dois anos depois, com a relação do casal já muito


tensa, a madrasta tomou providências para que elas
morassem e trabalhassem em Nova York, como
tradutoras diplomáticas. Mônica tinha vinte e dois anos
então.

Talvez ela há houvesse suportado a separação. Sempre


falara muito de Giselle e tentara manter a
correspondência. Mas a madrasta não escrevera mais,
seguramente devido à antipatia de Paul pelas enteadas.

Mônica contou que Giselle nunca as convidara para uma


visita, o que era totalmente estranho. Também
confidenciara que não se atrevia a lhe telefonar,

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A gêmea errada – Rebecca Winters

receosa de que o marido dela atendesse e descontasse


a raiva na esposa.

Max se deitou de costas, agitado demais para dormir.


Pelo jeito, aqueles anos com Giselle podiam ter sido
tudo, menos idílicos.

E persistia o medo de que o conselheiro estivesse certo.


Talvez o marido de Giselle houvesse abusado, até
sexualmente, das meninas. Isso explicaria muitas
coisas. Imaginou como seria a irmã de Mônica. Seria
reservada e infeliz?

Não achava que descobriria, já que recusara todos os


convites de Mônica para ir visitá-los.

Por outro lado, a resposta podia ser mais simples.


Talvez a realidade de viver na fazenda após tantos anos
na cidade houvesse constituído um choque cultural para
Mônica. Jamais se queixara, mas talvez detestasse o
isolamento, a falta de distrações.

Ela nem se importara em responder à carta que ele


enviara havia um mês, implorando que se comunicasse
antes que seu relacionamento se deteriorasse ao ponto
da não recuperação.

Droga, parecia que nenhuma resposta era a resposta!

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Ida Wood encostou a vassoura no balcão e pegou o


telefone da cozinha.
-Fazenda Sutherland.

-Oi, Ida. É Mônica. Meu marido ainda não voltou para


casa, voltou?

A caseira lutou para controlar o nervosismo.


-Não. Não há notícias dele.

-Foi o que imaginei. Só queria avisar que vou chegar


mais tarde, lá pelas cinco. Meu médico em Rexburg
disse que estou com gripe asiática.
Parece que já teve que hospitalizar vários pacientes.
Me disse para ficar de cama. Talvez fique de molho por
duas ou três semanas. Para ser franca, me agrada a
idéia de ficar de cama.

Ida piscou, surpresa. Nunca vira a esposa de Max


doente antes.

-Sinto que esteja se sentindo tão mal, Mônica. O que


devo providenciar?

-Bastante refrigerante e bolachas. Ah, e também canja


de galinha e picolés. É só isso que tenho vontade de
comer.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Providenciarei agora mesmo, mas estava pensando em


Max. Ele precisa ser avisado.

Não importava o quanto o casamento estivesse ruim, a


caseira sabia que o patrão ficaria zangado se não fosse
informado dos fatos.

-Se eu piorar nos próximos dias, pode ligar ao


escritório em Billings para entrar em contato com ele.
Ida ficou ainda mais alarmada ante a atitude calma da
jovem patroa.

-Mônica?

-Sim, Ida.
-Será que você pode dirigir estando tão doente?
-Vou bem devagarinho. Se precisar descansar, paro
num posto de gasolina.

-Oh, querida. Não estou gostando disso. Max também


não vai gostar. Jesse iria busca-la com prazer.

-Não será necessário, mas obrigada, de qualquer


forma. Estarei em casa antes que pisque. Até mais,
Ida.

A caseira recolocou o aparelho no gancho, hesitou por


um segundo e então foi ao escritório de Max procurar o
número do telefone de seu supervisor.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

A esposa de Max era um enigma. Ida a conhecera logo


que o casal votara da lua-de-mel, e simpatizara
imediatamente com ela.

Aliás, todos ficaram animados. Então, num belo dia,


acordou e encontrou uma mulher diferente vivendo na
fazenda. A nova Mônica agia de maneira reservada,
fechada.

Às vezes era até desagradável. Todos lhe deram


espaço. Ida pensava nas mudanças e não conseguia
entende-las. Não espantava Max se oferecer para mais
e mais missões secretas.

Mas algo naquele telefonema não parecia certo. A


esposa de Max admitir qualquer vulnerabilidade era
totalmente fora do padrão – o que podia significar que
Mônica estava muito mais doente do que deixava
transparecer. Ida estava assustada.

Depois de deixar o trabalho, Max sempre tomava um


banho, tirando o disfarce de ajudante de garçom. Ao
colocar a camisa sobre a cadeira, notou um envelope
branco com seu nome sobre o travesseiro.

A vaga esperança de que Mônica houvesse decidido


escrever morreu quando percebeu que não havia selo
nem franquia dos correios. Era uma mensagem do
escritório.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Abriu e retirou um bilhete. “Max, o escritório recebeu


uma comunicação de Billings, de que sua esposa está
doente, com a gripe asiática, embora não hospitalizada,
de acordo com sua caseira, que achou que você devia
saber.”

Max sentiu um aperto no est6omago. A mensagem vinha


e Ida e não de Mônica. Mesmo doente, ela não o
queria, nem precisava dele, embora não o declarasse.
Nem era preciso.

Quanto a Ida, trabalhava para ele havia dez anos e


nunca o preocuparia com notícias dessa natureza, a não
ser que a considerasse urgente.

“Se quiser ir para casa,” continuava o bilhete, “nos


avise que faremos os arranjos necessários e
mandaremos um substituto. Por favor, informe-nos de
suas intenções.”

Max estava chocado com a própria hesitação em correr


para junto de Mônica. Na verdade, tudo aquilo era uma
prova de que ele se tornara um estranho para ela.

Deixou o bilhete sobre a cama e foi tomar banho. Uma


parte sua queria voltar a Montana naquele mesmo
instante, como qualquer marido zeloso.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Mas uma outra hesitava, pressentindo a fira recepção


que o aguardava. Que inferno, a quem estava
enganando? Não haveria recepção alguma.

Mônica não brigava, nem levantava a voz. Nada alterava


seu batimento cardíaco.

Barbeou0se, vestiu um roupão e chamou o serviço de


quarto. Enquanto aguardava o jantar, escreveu uma
breve mensagem. “Ida, por favor mantenha-me
informado do estado de Mônica. Se ela piorar, me avise
e voltarei para casa imediatamente. Max.”

Quando um dos agentes alocados no hotel chegou com a


bandeja do jantar, Max lhe passou a mensagem, a ser
levada ao escritório.

Novamente sozinho, levou a bandeja à mesa. Estava


com fome quando deixara o serviço, mas agora, fitando
o sanduíche e as batatas fritas, sentia-se nauseado.
O que fizera? Que marido era ele, afinal?

-Alô?
-Mônica? Ainda bem que a peguei antes de sair para o
aeroporto. –Não importava o quanto a irmã explicasse
sobre suas rotinas diárias, Sílvia continuava assaltada
por dúvidas que não lhe haviam ocorrido no dia anterior.
-Sílvia! Está telefonando da fazenda?

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Não. Ainda não. Estou em West Yellowstone, num


posto de gasolina chamado Larsen’s. devo ter perdido o
retorno. Várias pessoas já me reconheceram e
acenaram. Não me atrevi a perguntar o caminho a
ninguém. Me explique mais uma vez.

Mônica eu explicações detalhadas.


-Certo. Vou achar.

-Teve problemas para dirigir a caminhonete?


-Não. Não sei por que estava preocupada em dirigir um
automóvel de tração nas quatro rodas.

-Ótimo. E o enjôo?

-O que é isso? Um inquérito? –resmungou Sílvia. –Acho


que o remédio ajudou até eu embarcar no vôo para
Idaho Falls. Que viagem... Devolvi o almoço.
-E como está agora?

-Mal, mas vou conseguir.

-Verifique a pressão arterial uma vez por semana na


clínica em West Yellowstone. Fica perto do museu.

-Mônica, podemos mudar de assunto? As fotos que você


me mandou não fazem jus a este lugar. É lindo isto
aqui!

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Hummm...
-É tão calmo. Já tinha me esquecido que lugares assim
existiam. Tem sorte de morar num lugar como este,
com alguém como Max.

-E eu não sei?

-Falou com meu chefe, monsieur Gide? Ele ficou


zangado?

-Claro que não. Acho que o homem é apaixonado por


você, pois pareceu arrasado quando eu disse que estava
esperando um filho.
Depois expliquei a gravidade da situação, ele foi um
amor. Nem vai exigir o aviso prévio de duas semanas de
seu contrato. E vai lhe dar um abono de um mês de
salário, na esperança de voltar a ter seus serviços.

Sílvia fechou os olhos, agradecida, não apenas pela


generosidade de monsieur Gide, mas também pela
diplomacia da irmã em lidar com ele.

-Obrigada, Mônica. Estou devendo essa.


-Apenas faça a sua parte até eu voltar.
-Temo que minha voz me denuncie.

-Bobagem. Trabalhamos um ano inteiro para o mesmo


homem e ele nunca suspeitou de nada.
-Mas, o Max...

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Quantas vezes preciso lhe dizer? Não vai precisar


enfrenta-lo. De qualquer forma, nas duas vezes em que
conversou com ele, foi rápido demais para que formasse
qualquer opinião. Relaxe, Sílvia. Pense em como vai ser
engraçado quando todos me virem passar pela porta e
descobrirem que somos duas.

-Por que tudo isso? –indagou Sílvia, percebendo que a


irmã estava fingindo.

Mônica ignorou a pergunta e mudou de assunto.

-Telefono de Paris. Agora, vá para casa e descanse as


pernas. Oh, antes que me esqueça. Tem um computador
portátil debaixo da cama. É legal ficar brincando com
isso.

-Mais do que com Max? –alfinetou Sílvia.


-Isso, maninha, é informação secreta.

-Percebe que quase não fala dele? Por que, Mônica?


-Por que não há nada para contar. Vou desligar.

-Mônica! Não pode dizer isso e desligar. Mônica... –O


ruído da ligação interrompida soou.

Sílvia franziu o cenho e colocou o aparelho no gancho.


Desde o dia anterior, a vivacidade da irmã parecia
falsa. Mal falara do marido. A atitude da irmã a

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A gêmea errada – Rebecca Winters

perturbava mais do que queria admitir. Não podia


ignorar a suspeita de que Mônica estava no limite, e que
a tensão nada tinha a ver com os problemas
“femininos”, ou com a situação da madrasta, Giselle.

Algo muito sério a estava atormentando. Talvez


relacionado ao marido, ou, mais especificamente, à
ausência dele. Três meses pareciam um tempo excessivo
para se ficar separada do homem amado.

Agora que pensava na resposta da irmã quanto a ficar


separada de Max, parecera-lhe um pouco rude. Talvez
Mônica encontrasse dificuldade em aceitar o trabalho
dele, afinal, mas não quisesse admitir.

Proteger testemunhas era um dos trabalhos mais


difíceis do mundo e, independente do fato de Max
Sutherland poder tomar conta de si mesmo, bem como
de outras pessoas, envolvia perigos mortais.

Era provável que Mônica estivesse sofrendo em silêncio.


Max saberia e seus sentimentos? Se importaria? Foi
tomada por um sentimento negativo.

Embora odiasse a idéia, Sílvia achava possível que a


irmã e o cunhado estivessem enfrentando problemas no
casamento.
Afinal, Mônica desistira da carreira para se casar. De
início, ela lhe confidenciara que mal podia esperar para

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A gêmea errada – Rebecca Winters

ter um bebê, de modo que podia se considerar ironia o


fato de a irmã engravidar primeiro.

Tratando de espantar a inquietação, Sílvia voltou a


prender o cabelo com a fita de Mônica e foi para o
carro.

Sentia-se quente e pegajosa. Era julho, e, segundo a


irmã, West Yellowstone vivia um dos verões mais
quentes de toda a história. Nem mesmo dirigir pelas
matas a fazia se sentir melhor. Estava ansiosa para
chegar ao rancho e se deitar, antes que desmaiasse.

Enquanto dirigia pela estrada poeirenta, observou a


paisagem de florestas escuras, onde a irmã
provavelmente cavalgava. Ocorreu-lhe que, para uma
mulher sem a companhia de um marido ou crianças,
mesmo uma maravilha assim podia logo se tornar
maçante.

Perdida em pensamentos, quase passou pela estrada do


lago de novo e teve que frear forte para dar a volta.
A freada deslocou um jogo de óculos de sol e luvas, que
bateram contra o pára-brisa e caíram em seu colo.
Demorou para recoloca-los no lugar. Os óculos deviam
ser de Mônica, e o par de luvas de couro de dirigir
provavelmente eram de Max.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Num impulso, calçou um luva. A primeira evidência


tangível do homem que só vira em fotografias. Ele tinha
dedos longos, esguios e fortes, a exemplo de como
devia ser o resto de seu corpo. Até aquele instante, ele
não lhe parecera real. Ainda que houvessem se
cumprimentado pelo telefone algumas vezes.

A “irmãzinha” de Mônica não devia parecer real a ele,


tampouco, ainda mais sem fotos que provassem sua
existência. Ele seria mesmo tão compreensivo quando
descobrisse o que ela e Mônica haviam maquinado?

Desde o dia anterior, Sílvia vinha revisando sua opinião


sobre várias coisas. Se havia tensão naquele casamento,
e tinha certeza de que havia, calculava que Max teria
de ser um marido excepcional para achar graça numa
farsa mantida por Mônica durante um ano.

Ele bem poderia se sentir traído ao saber que ela


ocultara uma informação tão importante. Ainda mais se
descobrisse durante a estada dela na fazenda
encarnando a irmã. A irmã gêmea.

Em teoria, a idéia de Giselle de que elas deviam viver


separadas por algum tempo parecia correta. Mas
ninguém parara para pensar nos resultados. Não se
tratava de um jogo infantil. Eram mulheres adultas
mentindo!

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A gêmea errada – Rebecca Winters

O problema era que, se quebrasse a promessa feita à


irmã e revelasse sua verdadeira identidade para os
caseiros Jesse e ida, Mônica poderia nunca perdoa-la.
Tudo o que podia fazer era esperar que o casal
percebesse a diferença imediatamente, assim acabando
com a brincadeira.’

Engatando a marcha, Sílvia observou a longa curva da


estrada que a irmã mencionara. Logo avistou a sede da
fazenda à esquerda, junto a uma rampa além da qual se
erguia a cadeia de montanhas.

Respirou fundo ante a beleza simples da casa, uma


estrutura baixa construída inteiramente com toras de
madeira, mas moderna no estilo, cercada de prados
verdes.

Lembrou-se de que Mônica dissera que a propriedade


fazia divisa com terras de reserva federal, que podiam
ser usufruídas por um período de noventa e nove anos.

Os cento e sessenta hectares da propriedade haviam


sido incorporados pelo bisavô de Max, que investira
todas as economias amealhadas em anos de trabalho nas
minas de Anaconda.

Mônica explicara eu, no mercado atual, a fazenda,


pequena em comparação a outras, valia uma pequena

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A gêmea errada – Rebecca Winters

fortuna devido à localização privilegiada. Não que Max


sequer considerasse vende-la.

Sílvia avistou a placa identificando a fazenda


Sutherland e parou junto ao portão, que se abria para
um caminho longo rumo à sede. Procurou o controle
remoto na bolsa de Mônica.

Não estava lá!

Após procurar várias vezes, chegou à conclusão de que,


em algum instante das últimas doze horas, ele caíra da
bolsa. Talvez no aeroporto em Salt Lake, ou na parada
para descansar na auto-estrada ou... De qualquer
forma, perdera-se.

Enquanto se agarrava ao volante tentando clarear as


idéias, viu uma caminhonete se aproximar vindo da casa,
com velocidade suficiente para levantar poeira. Parou
junto ao portão.

Um homem de aparência forte, com bem mais de


sessenta anos, de jeans e camisa xadrez de mangas
compridas, pulou para fora do veículo e acenou para que
ela saísse. Pela descrição de Mônica, devia ser Jesse
Wood, marido de Ida e capataz da fazenda.

Como se tivesse estampada na testa a palavra “fraude”,


Sílvia abriu a porta do carro e saltou, meio zonza por

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A gêmea errada – Rebecca Winters

causa do estômago vazio e pelo iminente ataque de


nervos.
O empregado se aproximou.

-Mônica! Foi bom ter telefonado a Ida na última parada


dizendo que perdeu o controle remoto.

Oh, Mônica com certeza encontrara o controle remoto!


Temia que aquele fosse apenas o primeiro de uma série
de tropeços. E não teria mais a ajuda da irmã, que dali
a pouco embarcaria para a Europa. Estava por sua
própria conta agora.

-Doente como está, não precisa de mais complicações.


Tome... Fique com o meu. Vou providenciar um novo
quando for à cidade. –O capataz se colou às grades e
passou-lhe o aparelho, sem saber que estava se
dirigindo a uma completa estranha.

-Obrigada, Jesse. Ando tão distraída... –improvisou,


incapaz de encara-lo.

Isso nunca funcionaria. Detestava engana-lo. Oh,


Mônica. Por que deixei que me convencesse a fazer
isso?

-De nada. Não se aborreça, mas está mais pálida do


que naquele dia em que foi cavalgar. –Ele também
notara a palidez de Mônica. –Se soubesse que ia ao

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A gêmea errada – Rebecca Winters

médico, a teria levado. Corra para casa. Ida já


preparou tudo para você.

-Desculpe o incômodo. –Sílvia estremeceu.


-Quer saber de uma coisa? –declarou ele, parecendo
meio gozador. –Há muitas pessoas aqui que gostam de
ser necessárias, e isso é verdade. Não se esqueça
disso!

Apontou o dedo, e então pareceu embaraçado, como se


tivesse falado demais.

Emocionada com aquelas palavras e o que implicavam


sobre o comportamento de Mônica, Sílvia o viu subir na
caminhonete e dar a volta.

Mônica. Mônica. O que está acontecendo? A quem anda


desprezando? Max?

Emocionalmente exausta por tantas perguntas sem


resposta, sem mencionar a falsidade de Philippe e sua
própria gravidez de risco, Sílvia mal pôde voltar ao
carro e continuar com a farsa.

Mas, se continuasse ali parada, apoiada contra o portão


enquanto tentava montar as peças do quebra-cabeça,
Jesse certamente voltaria.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Acionou o controle remoto e o portão se abriu, dando-


lhe passagem. Diminuiu a marcha só o suficiente para
acionar o controle mais uma vez.

O ruído mecânico a cercou, parecendo avisa-la de que


cruzava a linha divisória. Não haveria mais volta.

Ela e a irmã haviam conversado longamente na noite


anterior, mas não puderam remoer cada detalhe, cada
contingência, como onde Mônica normalmente parava o
carro quando chegava a casa.

Tinha a opção de estacionar atrás do carro do capataz


e ao lado da casa, perto da garagem, ou no contorno de
cascalho em frente à construção.

Tomando uma rápida decisão, optou pelo contorno.


Jesse já saíra do carro e vinha em sua direção. Abriu a
porta e saltou. Tomando a iniciativa, comentou:

-Desculpe, Jesse, mas acho que não tenho mais forças


para dirigir, apenas traga as malas. –Era verdade. Os
acontecimentos e as emoções nas últimas vinte e quatro
horas a haviam deixado exausta. Tudo o que queria era
se deitar.

-Max devia estar aqui.


-Não! –gritou, alarmada, antes de perceber que a
reação tinha sido exagerada. –É melhor ele ficar onde

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A gêmea errada – Rebecca Winters

está. Não seria bom ficarmos gripados ao mesmo


tempo.

Jesse balançou a cabeça, resmungando que ainda não


gostava nada daquilo. Sílvia, por outro lado, estava
ansiosa em mudar de assunto e ser deixada em paz.

Mônica a instruíra sobre a distribuição da casa, que


agora sabia de cor. Mas não precisou se preocupar, pois
uma mulher da mesma idade de Jesse, conservada, saiu
e passou o braço ao redor de seus ombros.

-Parece que vai desmaiar, Mônica. Venha. Vamos para


seu quarto.

Com força surpreendente, a caseira a levou pela


entrada principal até o corredor que levava aos fundos
da casa ampla. Sílvia logo sentiu a ternura e serenidade
do lugar. Jesse as acompanhou até o espaçoso quarto
principal, onde deixou a bagagem sobre o carpete azul
aveludado. Podia ver o gosto da irmã na decoração;
suas cores favoritas também eram azul e branco.

Não precisou se preocupar em abrir a gaveta certa para


encontrar a lingerie. Ida antecipou suas necessidades.
Uma camisola branca simples descansava ao pé da cama,
que havia sido preparada, revelando lençóis azuis e um
edredom da mesma cor do carpete.
-Vou guardar o carro –declarou Jesse, e deixou-as.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Ida ajudou Sílvia a se despir e passou-lhe a camisola.


-Ajeite-se enquanto vou preparar alguma coisa para
você comer.

-Eu... eu não estou com fome, mas uma coca-cola seria


refrescante.

-Jesse foi à cidade e trouxe tudo o que você pediu.


Vou trazer uma.

-Obrigada, Ida. Se já não sabe você e Jesse são uns


amores –declarou Sílvia, desejando de todo o coração
que pudesse lhes dizer a verdade.

Como se houvesse percorrido o trajeto milhares de


vezes antes, Sílvia correu ao banheiro do outro lado do
quaro e fechou a porta, contra a qual se recostou,
fraca sob a tensão de estar vivendo uma mentira.

Ida não percebeu nada. Mônica ficaria contente se


soubesse como a brincadeira estava dando certo.
Quanto a ela, nunca se sentira menos festiva. Ida e
Jesse obviamente eram dedicados a Mas e à irmã. Não
mereciam aquilo, mesmo que Mônica estivesse só
brincando.

Sílvia estudou o ambiente. Exceto pelos artigos pessoais


de Max, esse poderia ser eu próprio banheiro, desde a

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A gêmea errada – Rebecca Winters

marca do creme dental até a loção hidratante sem


perfume.

A troca fora fácil demais. Tinha o pressentimento de


que tudo ia explodir de uma hora para outra.

Capítulo 03

Mônica se aproximou do recepcionista do hotel, que a


olhou apreciativamente.
-Oui, Mademoiselle?

-Daqui a alguns minutos, um certo monsieur Philippe


Moreau vai perguntar por mim – informou Mônica, em
francês sem sotaque. –Por favor, diga a ele para me
encontrar no salão de jantar.
-Pois não, mademoiselle.

Não fazia a mínima idéia de aparência do amante de


Sílvia, por isso decidiu se sentar num lugar bem visível
na mesa do restaurante do hotel e deixar que ele a
encontrasse.

Antes de sair de Nova York, Mônica pedira o número da


Moreau Textiles em Nice ao telefonista internacional e
falara com o famoso George.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Explicara que não conseguira falar com Philippe na casa


da mãe em Cap D’Agde, mas que ainda estava ansiosa
para falar com ele. George poderia informa-lo de que
ela estava indo a Paris por um período indefinido?
Philippe poderia entrar em contato com ela no Hotel
Beau Rivage.

George não poderia ter sido mais tranqüilo. Ele lhe


assegurou de que entraria em contato com o patrão
imediatamente.

O secretário cumprira a palavra. Mônica chegara


naquela manhã e, assim que se instalou no hotel, o
recepcionista lhe entregou um recado de Philippe
informando que estava tomando o último vôo para Paris
e que a encontraria no Beau Rivage por volta das oito
da noite.

Mônica olhou para o relógio. Eram quase oito horas.


Chamou o garçom e pediu uma taça de vinho branco
gelado; então se recostou e sorveu a bebida enquanto
aguardava.

Havia uma justiça poética no que estava a ponto de


fazer. O que mais a deleitava era o fato de monsieur
moreau não saber que caíra em desgraça.
-Mignonne...

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Mônica engasgou levemente quando sentiu um par de


mãos pousarem sobre seus ombros, apertando-os
gentilmente.
Já fazia algum tempo desde que fizera amor com Max
pela última vez e, por um breve momento, o toque de
Philippe Moreau reacendera lembranças felizes.

Assim que recobrou a compostura, Mônica levantou a


cabeça e ofereceu a face. Ele a beijou formalmente;
então se sentou à sua frente.

À primeira vista, talvez ele realmente lembrasse um


pouco Louis Jourdan, especialmente no contorno dos
olhos. Mônica não teve problemas em entender por que
a irmã se enamorara dele. Alguns homens ficavam mais
atraentes na meia-idade.

-Chèrie... –Ele procurou sua mão -...não sabia que


estava tão ansiosa para me ver. Quando George me
informou de seus planos, reagendei tudo para podermos
ficar juntos. Quanto tempo pode ficar?
-Apenas alguns dias.

Acariciou seus dedos.


-Estamos perdendo tempo –sussurrou ele. –Vamos a seu
quarto para ficarmos a sós.
-Esta noite não posso, Philippe.
Ele lhe lançou um sorriso persuasivo.
-Está brincando...

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Não brincaria com um assunto desses.


Ele beijou sua mão.

-Não a estou reconhecendo. Tão ... tão séria. Estou


morrendo de saudade. Já estamos longe a tanto tempo.
Mônica não tinha dúvida de que ele queria mesmo dizer
aquilo.

-Desculpe se interpretou mal minhas ações.


Honestamente, não esperava que viesse até aqui. Só
queria conversar com você. –Sorveu mais um pouco do
vinho. –De várias formas, você me faz lembrar de meu
pai, e preciso dele agora. Pelo menos, preciso de seu
conselho.

Philippe permaneceu parado como uma pedra, mas


Mônica sabia que sua observação atingira o alvo. Por um
momento, ela realmente se sentiu mal por ele, mas o
momento passou.

-Vim a Paris para ver Giselle. Mas se o marido dela


souber que estou tentando entrar em contato, não vai
permitir que nos encontremos.
Não sei como alerta-la de que estou aqui sem que ele
desconfie. Obviamente não poso chegar perto da casa.
Tem alguma sugestão?

Philippe parecia chocado, as reações lentas. Finalmente,


declarou:

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Não. Já lhe disse antes que é melhor deixar essa


situação como está.

-Não posso. É um caso de vida ou morte.

-Não sabe ao certo.

Mônica assentiu e o encarou sem perturbação.


-Sei sim. E Mônica concorda comigo.

-Mesmo que consiga falar com sua madrasta e ela


admita que o marido abusa dela, o que vai fazer?

Mônica já pensara longa e profundamente sobre aquilo.


-Eu a incitaria a fugir dele e procurar aconselhamento
legal. Quando eu e minha irmã não tínhamos mais
ninguém, ela estava lá conosco. Agora, gostaria de
retribuir seu favor... antes que seja tarde demais.

Uma sombra atravessou a expressão do francês.

-Alguma coisa está diferente em você hoje, Sílvia. Sei


que está preocupada com sua madrasta, mas não sabia
que a crise tinha atingido esse ponto.

-É porque a amo e não tenho notícias dela há meses.


De várias maneiras, ela foi uma mãe melhor que a
verdadeira. Não me interprete mal, Philippe. Amava

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A gêmea errada – Rebecca Winters

minha verdadeira mãe também, mas ela tinha vida social


intensa e quase não se dedicava anos.
-Não sabia –resmungou ele.

-Nunca discuti isso antes, pois achava injusto. A


verdade é que Giselle nos deu tudo quando precisamos
dela. Nem posso imagina-la sofrendo.

Ela inclinou-se para a frente, pousando a mão sobre a


manga do terno dele.

-Sabe do que estou falando. Parte de minha devoção a


você advém de sua devoção por sua mãe. –Mônica viu
que ele engoliu em seco. –Se soubesse que a vida dela
estava em perigo, você fatia tudo para protege-la. Eu
poderia fazer menos por Giselle?

Ela lhe lançou um olhar astuto, então voltou ao assunto


original.

-Por favor, não fique em Paris por minha causa,


Philippe. Volte a Cap D’Agde e aproveite o resto de
suas férias com sua mãe. Ela precisa de você. Desse
modo, me sinto culpada por interromper sua visita a ela
para vir aqui quando não era necessário.

O homem a sua frente pareceu envelhecer dez anos.


Enredara-se em suas própria mentias.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Ela notou um movimento traidor quando ele começou a


buscar sua mão; depois pareceu mudar de idéia.
-Meu conselho, chérie, é deixar as coisas como estão.
Pode acabar se machucando.

Mônica acabou seu vinho.


-Mais do que já estou, pelo seu silêncio? –Sorriu-lhe
tristemente. –Não, não penso assim. Mas obrigada pela
advertência.

Ela sabia que ele queria dizer mais alguma coisa, mas
temeu ser rejeitado mais uma vez. Ele simplesmente se
levantou e despediu-se.

-Dê minhas recomendações à sua mãe. – provocou


Mônica, quando ele se virou e foi embora.

-Já vou me recolher. Há mais alguma coisa que possa


fazer por você?

Desde a chegada de Sílvia no dia anterior, Ida


perguntara a mesma coisa de hora em hora. Para piorar
as coisas, Sílvia vomitara após o café da manhã, pois se
esquecera de tomar o comprimido na noite anterior.
Fingir ser a irmã estava deixando-a exausta e naquela
manhã pagara o preço: a planejada voltinha pela casa
ficaria para um outro dia.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Infelizmente, Ida escolhera o momento errado para


levar-lhe chá e torradas, percebendo que ela passava
mal no banheiro. Desde então, a caseira redobrara a
atenção, aumentando a culpa de Sílvia.

O casal era absolutamente um tesouro, mostrando


preocupação e devoção emocionantes. Que bênção ver-
se cercada de pessoas tão maravilhosas!

-Andou me mimando o dia todo, Ida. Obrigada, não


preciso de nada. Já vou dormir.

-Mesmo assim, acho que o médico devia tê-la


hospitalizado. Não come comida sólida faz tempo. Max
não vai reconhece-la se continuar assim.

Sílvia voltou-se de lado para que Ida não visse como


aquelas palavras a afetavam.

Max não vai reconhece-la... Bem, na verdade, e a


lembrança, ainda que involuntária, aumentara sua culpa.
Mais importante, entretanto, era sua nova preocupação:
há quanto tempo Mônica andava sem apetite? E por
que?

-O médico me assegurou de que esse estado vai passar


–improvisou uma resposta.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Ainda digo que não é bom para você e Max ficarem


separados enquanto você está doente assim. –resmungou
a mulher.

-Ida, todo mundo fica doente de vez em quando. Max e


eu sabíamos que passaríamos períodos assim –replicou
Sílvia, pouco convincente.

-Se quer saber, isso já é demais. Mas vai se zangar se


disser o que penso.

-Nunca me zangarei com você, Ida. –afirmou Sílvia,


humilde. –Boa noite.

-Se precisar, é só chamar.

Para alívio de Sílvia, a caseira disse boa noite e apagou


as luzes, saindo do quarto.

Preocupada com a irmã e o cunhado, Sílvia fechou os


olhos, mas as lágrimas continuaram contornando seus
cílios. Percebeu tarde demais que Mônica fora a Nova
York procurar consolo.

E eu lhe dei esse consolo? Oh, não. Ao invés disso,


despejara os próprios problemas na irmã, não lhe dando
oportunidade de desabafar seus problemas com o
casamento.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Não surpreendia Mônica ter decidido ir a Paris.


Precisava de alguém em quem confiasse e, como a irmã
não estava disponível, fora atrás da madrasta. Sílvia
rezava para que Mônica pudesse encontrar Giselle sem
repercussões danosas.

Durante a tarde toda e o começo da noite, esperou o


telefone tocar, pronta para atender a extensão ao lado
da cama, caso a irmã tentasse contato, mas nada
aconteceu. Sentia-se duplamente ansiosa.

Quanto mais pensava, mais se convencia de que não


podia esperar pela iniciativa de Mônica. Daria um
telefonema ao hotel em Paris imediatamente e
arrancaria dela a verdade. Seriam sete da manhã lá, a
hora perfeita para encontra-la. Se possível a
convenceria a voltar para casa.

Poderia dizer a Ida e Jesse que pedira para a irmã vir


visitá-la, pois sentia sua falta e queria sua companhia.
Ninguém precisaria saber que haviam trocado de lugar
por algum tempo. Ninguém sairia ferido.

Estendeu-se e acendeu as luzes, então saiu da cama e


andou sobre o carpete até o armário. Mônica escrevera
o telefone do hotel num pedaço de papel, o qual
guardara na bolsa, junto com o remédio contra enjôo.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Separou um comprimido e o engoliu com um pouco do


refrigerante que Ida deixara sobre a mesa. Então,
voltou para a cama, pegou o telefone e discou o
número.

Enquanto esperava que a chamada se completasse,


apagou as luzes e se recostou contra os travesseiros,
determinada a descobrir toda a verdade.

Max desceu do jipe e tirou a bolsa do assento traseiro.


-Obrigada, Hap. Devo essa.

-Que nada... –O mecânico de aeronaves do aeroporto


de West Yellowstone deu-lhe um sorriso franco.
-Vá para casa e tome um calmante.
Hap assentiu.

-Seria uma boa idéia se seguisse o próprio conselho.

-Certo –resmungou Max, incapaz de recordar a última


vez que tivera uma boa noite de sono. Pensar no
casamento abalado o perturbava e sempre acabava
andando pelo quarto.

Max acenou, então passou pelo portão. Já que não


contara a ninguém sobre seus planos, não havia luzes à
sua espera. De qualquer forma, já era tarde. Jesse e
Ida deviam estar dormindo.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Quanto a Mônica... Sentiu um nó no estômago, o mesmo


que o atormentava havia meses. Mas era muito pior
naquela noite, pois sabia que a esposa estava doente.
Só de pensar em algum mal acontecendo a ela o fazia
suar frio.

Não fora capaz de tirar a mensagem de Ida da cabeça;


não conseguia mais se concentrar no trabalho, o que o
tornava um perigo para os colegas e para as pessoas
que devia proteger.

Caminhou até os fundos da casa e entrou pela porta da


cozinha, não querendo anunciar a chegada.

Largou a bolsa no corredor escuro e tomou a direção do


quarto principal, ansioso por tomar Mônica de surpresa,
antes que ela se retraísse na concha impenetrável que
ele tanto repudiava.

Quase à porta, ficou quieto quando ouviu a voz


ligeiramente rouca de Mônica falando rápido num
francês ininteligível. Por alguma razão, imaginara-a
doente demais até para telefonar.

Naturalmente, ela tinha todo o direito de usar o


telefone quando bem entendesse, ainda mais estando
ele fora a trabalho por quase seis semanas agora. Mas
ele se inclinava à irracionalidade.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

O fato de ela estar falando com algum de seus velhos


amigos, ou com Giselle, talvez, machucava demais.

Cansado de ser a última pessoa que ela queria ou de


quem precisava, cansado de ser forçado a agir como um
estranho na própria casa, ultrapassou a soleira, o que
era direito seu, afinal de contas, e procurou o
interruptor.

Surpresa quando a luz de repente tomou conta do


ambiente, Sílvia parou a conversa com o recepcionista
do hotel e se sentou na cama, imaginando por que Ida,
que era sempre tão educada, não se incomodara em
bater na porta antes.

Quando avistou o homem andando em sua direção,


agressivo em cada passo, Sílvia ficou chocada.
Max! Meu Deus!

Ouvia a voz do recepcionista, mas nada fazia sentido.


Max chegou até a cama e tirou o aparelho de seus
dedos nervosos, fitando-a com olhos inteligentes que
pareciam ainda mais negros.

-Ela liga depois –informou, num tom grave e poderoso,


recolocando o fone no gancho.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Sílvia percebeu, tarde demais, que a alça da camisola


da irmã escorregara para o braço, expondo o ombro e
parte do seio.

Sentiu a boca seca ante o olhar intenso dele, afastou-


se e puxou o lençol para se cobrir.

Ele devia ter ficado magoado ante o receio nos olhos


dela, pois deu um sorriso triste no rosto marcado, um
rosto que indicava que não dormia bem havia muito
tempo.
-É bom ver você também.

Sílvia percebeu o sarcasmo.

-Sabia que as coisas estavam ruins quando não


respondeu às minhas cartas –declarou ele, no tom mais
frio que ela já ouvira -, mas não fazia idéia de que
tinha medo de mim. Não é a reação que esperava de
minha esposa amada.

Oh, Mônica! Seu marido está sofrendo tanto!

A agonia se sobrepôs ao medo e à confusão, atingindo a


alma de Sílvia. Não podia permitir que aquela farsa
continuasse.
Mônica não gostaria disso, mas, com a chegada
inesperada de Max, a situação se alterara

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A gêmea errada – Rebecca Winters

drasticamente. Recusava-se a magoar ainda mais o


cunhado.

-Max... –Esforçou-se para encontrar as palavras,


impressionada com o porte dele. Alto e forte, ele usava
uma camiseta simples e jeans desbotado que só
reforçavam a aura de liderança. –Eu... eu não sou sua
esposa.

Max lançou a cabeça para trás, os músculos do rosto


tensos.

-pelo menos é honesta –ironizou.


Era pior que um pesadelo.

-Não está entendendo. Sou Sílvia. Sílvia Clarke. A irmã


gêmea de Mônica.

-Gêmea...

-Eu... eu sei que Mônica lhe disse que era sua irmã
caçula, e sou. Mas só por alguns minutos.

Max refletiu sobre o que ouvia e cogitou se estava


tendo uma alucinação. Muitas noites mal dormidas
podiam abalar seu sistema nervoso. Então, lembrou-se
de que ela estava gripada. Talvez estivesse febril.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Sem hesitar, pousou a mão em sua testa para sentir a


temperatura, mas ela o repeliu. O movimento trouxe de
volta a raiva, pois não suportava ver que ela nutria
tanta repulsa.

Não podia acreditar que Mônica reagia daquela forma a


ele, não quando ainda a amava e desejava tão
desesperadamente. Sabia que os seus sentimentos nunca
mudariam.

Com os punhos cerrados ao lado do corpo, ele comentou:


-Ida me disse que estava com a gripe asiática. Vendo
você assim, entendo por que ela estava preocupada a
ponto de me notificar. Goste ou não, estou feliz por
estar de volta. Vou ficar com você esta noite, caso
precise de alguma coisa. Se estiver se sentindo melhor
pela manhã, poderemos conversar.

-Eu não sou Mônica –insistiu Sílvia, determinada,


endireitando a postura, ainda segurando os lençóis que a
cobriam. Parecia ainda mais pálida. –Sou Sílvia e, se
tiver paciência e esperar que eu ligue para Paris, vi
poder falar com Mônica. Ela vai explicar tudo.

Max fitou a mulher que era sua esposa, mas parecia


completamente estranha. O que acontecera enquanto ele
esteve fora?

-Não está falando direito, Mônica.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-É porque sou Sílvia, e a minha doença, bem... é que


estou grávida.

Max sentiu o coração dar um salto.


-O que você disse?

-Vou ter um bebê. O médico me disse para ficar de


cama o máximo possível durante os próximos meses,
porque minha pressão arterial está alta. Mônica disse
que eu poderia ficar aqui e tentar encontrar algum
trabalho para fazer em casa, enquanto ela ia à Europa
visitar Giselle.

Sílvia continuava falando, mas Max só sabia de uma


coisa: iam ter um bebê. Mal podia se conter.

-Por que não me escreveu contando? –Dando um passo


na direção dela, continuou: -Sabia o quanto isso
significava para mim. Me odeia tanto assim? –A voz
falhou nas últimas palavras.

-Não, Max! –gritou, sentindo uma forte dor no coração.


–Precisa falar com Mônica. Aí vai entender tudo. Ela
disse que você não estaria em casa por um mês. Ela...
Ela achou que seria engraçado enganarmos Ida e Jesse
trocando de lugar por algum tempo, exatamente como
costumávamos fazer quando éramos mais novas. Não
queríamos magoar ninguém.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Max lembrou-se do caso em que teve de proteger uma


testemunha que sofria de ataques de malária
esporádicos. Sempre que a febre subia, o mercenário
falava coisas completamente em sentido, que lhe
passavam na mente naquelas ocasiões.

Apoiando-se na cama, ele inquiriu:


-Para quando é o bebê?
Ela se retraiu.

-Max, por favor. Me ouça. Eu não sou a sua esposa!


Quando perguntei a Mônica como você reagiria se
voltasse para casa inesperadamente e descobrisse o que
tínhamos feito, ela disse que você acharia... engraçado.
Que brincadeira era aquela?

-Pare com isso, Mônica. Quero a verdade, e quero


agora. –o peito se inflou. –Essa é a sua maneira de me
dizer que vou ser pai? E a idéia a deixa doente?

Sílvia balançou a cabeça, aterrorizada.

-Não, Max. Juro que tudo o que disse é verdade. Me


deixe chamar Mônica ao telefone e vai ter a prova.

-Esqueça o telefone –ordenou ele. –Vamos começar


examinando seu corpo atrás de evidências, certo? Se
estiver grávida, que droga, vou saber –jurou ele, com
ferocidade assustadora.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Não! –gritou ela. –Não toque em mim!

Mas as emoções de Max estavam fora de controle.


Ignorando os apelos dela, que só aumentavam sua dor e
raiva, ele baixou as alças frágeis da camisola e a
encostou junto à cabeceira da cama, expondo a parte
superior do corpo a seu olhar.

Sílvia sentiu as faces se inflamarem enquanto ele


inspecionava atento, sem dúvida percebendo as
mudanças que começavam a aparecer desde a
concepção. Devagar, encarou-a e ela percebeu uma luz
intensa em seus olhos.

-Você está grávida –grunhiu ele.

Sílvia escapou de seu jogo tempo suficiente para se


cobrir.

-Mas não é seu filho, Max. –Sentiu o corpo


estremecer, não apenas a voz. –É... –Quase ia dizendo
o nome de Philippe, então, mudou de idéia, porque
aquilo poderia irritá-lo ainda mais. –É de outra pessoa.

-Mônica! Pelo amor de Deus, não faça isso conosco! –Ele


quase soluçava de dor. –Sejam quais forem os seus
problemas, vamos conversar. Não me deixe de fora! –
implorou. –Não agora. Sinto tanto a sua falta. Já faz

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A gêmea errada – Rebecca Winters

tanto tempo. –Pousou as mãos em seu rosto e se inclinou


para um beijo.

-Não, Max! –gritou Sílvia, pânico puro na voz, mas ele


abafou seu grito com um beijo profundo, procurando por
ela com todo o coração e alma.

Sílvia sentiu que era subjugada e sabia que tinha e


reagir com todas as forças. Pousou as mãos no tórax
musculoso e o afastou com toda a força.

Ele era muito forte, mas ela o tomara sem guarda, o


suficiente para que ele afrouxasse o toque a ponto de
ela escapar para fora da cama.

-Max... –Ela soluçava, as lágrimas correndo por seu


rosto. –Vai lamentar muito se tocar em mim. Eu sou
Sílvia! –gritou. –Telefone ao Beau Rivage em paris.
Mônica está lá. Quando entrou, há um minuto, eu
estava falando com o recepcionista do hotel, pedindo
que a acordasse, pois assim poderia implorar que ela
voltasse para casa!

-Ela está falando a verdade, Max –interveio ida,


resoluta, à porta junto de Jesse.

Sílvia agradeceu aos céus pela intervenção divina.


-Essa mulher não é a sua esposa –repetiu Jesse, como
se estivesse pronunciando uma sentença. –Sabíamos que

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

havia algo de diferente nela assim que chegou ontem,


mas o mistério não se desfez até que a ouvimos
declarar que era Sílvia. Assim faz sentido.

Ida olhou para Sílvia, o olhar mais curiosos do que


acusador.

-Então, você é a irmã caçula. -Balançou a cabeça. –Já


viu algo tão espantoso, Max?

Capítulo 04

A pergunta pairou no ar, mas Max não foi capaz de


responder. “Espantoso” mal começava a caracterizar o
fenômeno.

“Fantástico” era a palavra de que vinha à mente.


Mônica estava muito acima de qualquer mulher que já
encontrara.

Mas agora havia outra mulher que caminhava naquelas


longas pernas elegantes, uma mulher com olhos tão
verdes quanto os campos de Montana, uma mulher que
era a imagem de Mônica refletida no espelho.

E havia uma imagem que ele nunca apagaria da mente, a


imagem de uma mulher grávida tão bonita que tirou-lhe
o fôlego.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Céus!
Beijara a cunhada de forma apaixonada.
Esteve a ponto de fazer amor com ela.
Sentiu um frio no estômago.

Max nunca odiara ninguém na vida. Mas estava


chegando perto desse sentimento, depois do que Sílvia
fizera com ele. Com eles.

Um homem tinha o direito de voltar para casa e para a


própria cama esperando encontrar sua mulher.

Como podia saber que aquela mulher deitada ali, usando


a camisola de Mônica, e idêntica a Mônica, não era
Mônica?

Um ano inteiro e ela nunca contara que Sílvia era sua


gêmea.

Por que ela mantivera isso em segredo? Por que Sílvia


não fora visitá-los, sem mencionar não aparecer no
casamento?

Max era filho único e daria tudo por irmãos e irmãs.


Não podia conceber a idéia de Mônica negligenciando a
própria irmã: a irmã gêmea.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

Do pouco que se sabia sobre gêmeos, acreditava-se que


eram excepcionalmente ligados. Então, o que acontecera
a Mônica e a sua gêmea?

Remexeu o maxilar. Só uma mente pervertida teria


engendrado uma brincadeira tão horrível. Correção:
duas mentes.

Os gêmeos não se originavam de uma única célula? Não


dividiam tudo, as características boas, bem como as
ruins? E Mônica tinha um lado ruim. Assim como a irmã,
o que explicava criarem uma situação que quase o levara
a cometer um ato imperdoável.

Não que fosse forçar Mônica. Nunca recorrera à força


com nenhuma mulher, e desprezava os homens que agiam
assim. Só esperava que, beijando-a, pudesse reacender
a paixão que ela sentira por ele uma vez.

Naqueles poucos segundos em que acreditara que seria


pai, emoções que não sabia que existiam o haviam
assaltado –uma necessidade forte e repentina de amá-la
e protege-la, de lutar pela família que estavam
iniciando.

A excitação de saber que ia ser pai o energizara de tal


forma que ficara cego e surdo ao terror da cunhada. O
som da porta se fechando o trouxera de volta ao
presente.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

Ergueu a cabeça e se viu novamente sozinho com a


duplicata de Mônica. Ida e Jesse aparentemente
resolveram se retirar.

Max passou a mão pelo cabelo, ciente da frustração


homérica acompanhada da dor. Não havia bebê a
caminho, e a esposa estava em Paris. Era impossível
tomar qualquer atitude quanto à farsa daquele
casamento com milhares de quilômetros entre eles.

Ela fora atrás de Giselle, afinal. E fora sem ele. Era a


gota d’água. O casamento estava mesmo acabado.

Não queria acreditar naquilo, nem mesmo quando


passara noite após noite insone naquele quarto de hotel
minúsculo, agonizando pela ruína do casamento,
imaginando por que ela não respondera à sua carta...

-Este é o seu quarto, sua casa –declarou a cunhada,


trêmula, lembrando-o de que ainda estava lá. –Não
tenho o direito de permanecer. Se me der um minuto,
me visto e Jesse poderá me levar para West
Yellowstone para passar a noite. Amanhã, parto para
Nova York. Por favor, Max. Vamos fingir que nada
disso aconteceu.

-mas aconteceu, que droga! –Ele sentiu satisfação


quando a viu sobressaltar. –Seus dias de fingimento

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

estão acabados, os seus e os de Mônica. E os meus


também. Larguei minha missão porque pensei que havia
uma emergência aqui.
Mas parece que entrei numa brincadeira grotesca.
Quando finalmente entrar em contato com sua gêmea,
diga a ela que voltei ao trabalho e que espero que ela
já não esteja nesta fazenda quando eu voltar, em um
mês mais ou menos. O advogado dela vai saber onde
encontrar o meu.

Max a viu balançar a cabeça, o belo rosto deprimido e


muito pálido, mas não conseguia parar a torrente de
amargor que saía.

A dor se acumulara por muito tempo.

-Quanto a você, querida cunhada, pode ficar o mesmo


período e fingir que é sua irmã. Não posso evitar de
sentir pena pelo bebê que está aí dentro. Que bela mãe
você vai dar.

Max saiu tão silenciosa e furtivamente quanto entrara.


Dali a instantes, Sílvia ouviu o som de motor próximo
aos fundos da sede. Acompanhou-o até desaparecer.
Max partira.

Impelida a agir, correu ao telefone e ligou de novo para


o hotel em Paris. Desanimada, percebe que uma voz

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

diferente atendera, o que significava que teria e


explicar tudo novamente.

Mas, assim que mencionou Mônica Sutherland, a pessoa


do outro lado disse-lhe para ficar na linha. Havia um
recado, informou.

Sílvia segurou o fone com mais força e aguardou.


Quando a irmã soubesse o que acontecera na fazenda,
ficaria arrasada. Mas não pudera evitar. Concordava
com Max. As mentiras tinham de acabar.

-Mademoiselle? Está aí? –perguntou o interlocutor, em


francês.
-Sim –respondeu.
O funcionário leu o recado.

-“Localizei Giselle através de um amigo que conseguiu


um encontro para nós aqui no hotel. Sem problemas com
Pau, que não faz idéia de onde ela esteja. Tudo está
bem, então, pare de se preocupar.
Estou saindo do hotel para passar mais tempo com ela
enquanto planejamos como ela vai romper com Paul.
Entro em contato com você mais tarde e conto
detalhes. Cuide-se. Lembre-se de que está comendo
por dois agora. Amo você. Rômulo.”

As boas novas sobre Giselle mal foram registradas.


Mônica precisava voltar imediatamente para casa e

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

acertar sua situação com o marido antes que ele


chamasse o advogado.
-Ela deixou algum endereço ou telefone?
-Não, mademoiselle. Lamento.

-Eu também. –concordou Sílvia, com uma dor no


coração. –Obrigada. –Recolocou o telefone no gancho e
caiu na cama, soluçando.

-Sílvia? –Ao som da voz de Ida, ergueu a cabeça –Posso


entrar?
-Claro. –Ela se sentou e enxugou as lágrimas, ajeitando
o cabelo.

Ida caminhou até a cama e puxou uma cadeira para se


sentar. Inclinou-se para a frente com as mãos nos
joelhos.
-Sei que está arrasada. Nos dez anos que trabalho
para Max, nunca o vi tão nervoso. Mas porque o
conheço há tanto tempo, posso garantir-lhe: com o
tempo, a raiva e a decepção vão passar.
-Talvez.

-Ele não pode suportar mais dor agora.


-Max tem todo o direito de me desprezar, Ida, mas
não posso suportar vê-lo odiando Mônica quando ela o
ama tanto.

-mas ela ama?

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

-Oh, sim.

-Se isso é verdade, por que ela se afastou dele nesses


últimos meses? Estavam tão apaixonados no começo.
Então, da noite para o dia, ela mudou. Todos nós
notamos. Ela despedaçou o coração de Max.

Sílvia pulou da cama, agitada demais para permanecer


sentada. Esfregou a nuca, distraída, como quem junta
pedaços de informações, os quais formam uma centelha,
que se propaga tão rápido que não se consegue
acompanhar o raciocínio completamente.

-Não porque ela quisesse –murmurou Sílvia, sentindo


alguma coisa lá no fundo.
-O que quer dizer?

-Não tenho certeza. –Fez uma longa pausa. –Como


posso explicar uma vida inteira sendo a irmã gêmea de
Mônica, as duas se movendo pelos pensamentos uma da
outra sem necessidade de falar?
Mas desta vez é diferente. Desta vez, ela está
escondendo alguma coisa. Até de mim. –A voz falhou. –
Por isso ela insistiu que lhe telefonasse somente uma
vez por mês.
Não queria que eu descobrisse o que se passava em seus
pensamentos, não queria ajuda. Eu devia ter percebido.
Devia... –Olhou para a caseira. –Estou assustada, Ida.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Você está me assustando. –declarou a mulher,


alarmada. Também ficara de pé.
Sílvia estava arrepiada.

-Tenho o estranho pressentimento de que ela está


orquestrando alguma coisa há algum tempo. –Voltou-se,
encarando a empregada. –Quando notou a mudança
nela?

-Seis ou sete semanas depois que voltaram da lua-de-


mel. Eu me lembro porque Max queria comemorar o
aniversário de dois meses. Me pediu que preparasse um
jantar especial e ficou esperando Mônica voltar da
cidade.

Ela fora fazer compras em West Yellowstone. Mas não


voltou naquela noite. Por volta das dz horas, telefonou
da casa de uma amiga informando que decidira passar a
noite fora e voltaria só ao anoitecer do dia seguinte.
Max também mudou desde aquele dia.

-Quem era essa amiga?

-Carole Larsen. Max conversou com ela alguns dias


depois do incidente. Ela informou que Mônica agiu de
forma perfeitamente normal com ela.
Mas Mônica saíra logo após o café da manhã, voltando
só a noite. Foram cerca de catorze horas de ausência
sem explicação. Mônica nunca quis esclarecer nada.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Sílvia cerrou os punhos.


-Alguma coisa aconteceu entre a hora em que ela saiu
para as compras e aquela em que telefonou para Max.
Talvez... –Sílvia se deteve antes de revelar. Ficou
branca de repente.

Sílvia correu para o banheiro, mal alcançando o vaso


sanitário ao ser acometida por outro mal estar. A ânsia
era implacável.

-Pobre menina –lamentou Ida, enxugando a testa de


Sílvia com uma toalha úmida. –Sei que tem enjôo pela
manhã, mas o que a fez se sentir mal agora, meu bem?
O que foi?

Sílvia apoiou-se fracamente contra a parede. Soltando


um grande soluço, revelou:

-Não sei. Mas tive a premonição de que algo está muito


errado... de que Mônica está com problemas terríveis.
-De que tipo?

-Não tenho certeza –murmurou Sílvia. –Mas devia ter


percebido, quando ela foi tão teimosa para que trocasse
de lugar com ela. Devia estar planejando alguma coisa.
Céus, por que não percebi?

-Por que já tinha muitos problemas –comentou a


caseira, acertadamente, batendo no braço de Sílvia.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Ainda assim... –Sílvia balançou a cabeça, confusa. –ela


estava determinada a visitar nossa madrasta, Giselle,
mas não queria que Max soubesse de seus planos. Não
queria preocupa-lo, foi o que alegou.

Ida parecia mais confusa do que nunca.


-Se significava tanto assim para ela, devia ter pedido a
Max para deixar a missão e acompanha-la. Ele faria
qualquer coisa por Mônica.

-Sim. Eu vi esta noite... –sussurrou Sílvia, imaginando


como a irmã podia desprezar um amor como o de Max.
Não fazia sentido. Por isso mesmo, sentia medo.

-Ida... não tenho tempo de entrar nas complexidades


da personalidade de Mônica agora. Tudo o que sei é que
preciso encontrar Max e convence-lo de que ele tem de
partir ao encontro dela ainda esta noite. Algo está
errado, ela deve estar nos escondendo alguma coisa.
Posso sentir. –Segurou no braço de Ida, procurando
apoio. –Para onde ele foi? Você sabe?

-Para o chalé perto do lago. É para onde vai quando


está aborrecido. Vai ficar lá até o amanhecer, então
vai para a cidade e viaja retomando a missão.
-Tem telefone lá?
-Não. Mas Jesse chega lá em dez minutos.
-Vou com ele. Diga-lhe para tirar o carro enquanto lavo
o rosto e escovo os dentes. Eu o encontro na entrada.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Vamos todos. Max está mal, não devia ficar sozinho. –


Dizendo isso, Ida deixou o banheiro.

Logo depois, Sílvia vasculhava as gavetas de Mônica


atrás de roupas. Em poucos minutos, estava pronta.
Correu para fora, indiferente ao frio ar noturno e à
fraqueza que tomava conta de seu corpo.

-Por favor, se apresse, Jesse. –pediu ela ao capataz


enquanto subia na caminhonete, deixando o suéter para
fora do jeans, cujo zíper já não se fechava.

O capataz assentiu solenemente, ligando o motor.


Tomaram a estrada até o portão automático. Enquanto
corriam pelas trilhas tortuosas que levavam para dentro
da floresta, Sílvia se agarrou ao apoio de braço para
não ficar pulando demais.
Jesse provavelmente podia encontrar o chalé de olhos
vendados, familiarizado com as inúmeras trilhas laterais
através dos pinheiros.

As terras daquele lado do lago possuíam densas


florestas . Sílvia não percebeu o pequeno chalé de toras
rústico ao pé de uma montanha até que Jesse parou
bem atrás da caminhonete de Max.

Antes mesmo de Jesse desligar o motor, Sílvia já


saltava para fora do carro. Gritou pelo nome de Max e,

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A gêmea errada – Rebecca Winters

sem esperar pelos outros, percorreu a varanda até os


fundos, dando com madeira empilhada até o teto.
Aliviada, viu a porta se abrir, e Max surgiu nas
sombras, barrando-lhe a entrada, a expressão sombria.
-Que diabo está acontecendo?

Antes, Sílvia fora intimidada pela hostilidade do


cunhado. Agora, porém, o medo por Mônica sobrepujava
qualquer outro sentimento. Felizmente ainda não bebera
até perder a consciência.

-não me pergunte como sei, mas estou convencida de


que Mônica está com problemas –disparou ela. Não havia
tempo a perder. –Volte à sede conosco e use seus
conhecimentos junto à polícia para contatar as
autoridades em Paris e fazer com que saiam atrás de
Mônica e Giselle.

-Do que está falando? –no instante seguinte, ele fechou


as mãos sobre os ombros dela com força, mas sem
sentir, os olhos brilhando perigosamente. –Está
interferindo numa coisa que não é da sua conta. Só
para lembrar, ela não quer nada comigo, então saia da
minha vida!
–Ele fechou ainda mais os dedos contra a pele dela
antes de afasta-la, mas ela não se deixou intimidar.
Manteve a posição.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-É nisso que ela quer que você acredite. Que todos nós
acreditemos. Max, não temos tempo para isso! –Sílvia
soluçava, sem se importar com as lágrimas que corriam
por seu rosto. –Se ama Mônica, venha comigo antes que
seja tarde demais!

Ele a fitou.

-Que quer dizer com tarde demais? –Max empalideceu.


Será que agora conseguiria chegar até ele?

-Durante todos esses meses ela esteve encenando –


improvisou Sílvia, desesperada em convence-lo. –Não
percebe? Pense! Ela está deliberadamente nos mantendo
longe, as duas pessoas que mais a amam. Mas só agora
começo a ver uma lógica.

Ele balançou a cabeça, a expressão atormentada.


Sílvia bamboleou de tontura e medo.

-Precisa confiar em mim, porque estou me baseando em


instintos e sentimentos. Mônica e eu temos uma união
mais forte do que pode imaginar.
É difícil descrever, mas sempre estivemos ligadas num
nível que... que não requer explicações. –Respirou
fundo.
–Quando tínhamos sete anos e eu estava em Bruxelas
com minha mãe, soube no mesmo instante que Mônica
estava com apendicite porque senti a mesma dor.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Quando eu e mamãe voltamos para casa, papai estava


levando-a ao hospital. Naquela noite, uma operação de
apendicite foi realizada em mim também.

Embora a expressão de Max estivesse congelada, Sílvia


tinha certeza de que ele estava ouvindo.

-Quando me acidentei com a bicicleta, Mônica soube no


mesmo instante que eu estava sendo levada ao hospital
com concussão. Contou a meus pais que eu estava ferida
bem antes de eles receberem um telefonema do hospital
informando que eu estava lá.

Nós duas tivemos sonhos terríveis sobre a morte de


minha mãe, dois dias antes de ela partir. Esperava-se
que ela vivesse ainda por mais um ano, mas ela não
viveu. Mônica e eu experimentamos dezenas de
experiências como essa.

Podemos ler os pensamentos uma da outra e saber o que


a outra está pensando, mesmo quando estamos a
quilômetros de distância. Gêmeos idênticos fazem isso o
tempo todo, e por isso afirmo: se Mônica lhe deu as
costas é porque tinha uma forte razão para isso.

-Seja mais explícita – exigiu Max, com voz grave.

Ela estremeceu devido a alguma emoção indescritível.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

-Gostaria de poder ser. Tudo o que posso dizer é que,


por motivos só dela mesma, ela nos vem manipulando. É
por isso que não se opôs à sua ida nessa missão mais
longa.
Explica por que não me convidou para vir à fazenda
para uma visita. Ela não queria se arriscar a ter-me
por perto, temendo que eu lesse seus pensamentos.

-Então, o que está dizendo? Que ela está em perigo?

-Talvez. A verdade é que ela foi procurar Giselle,


apesar de suas advertências, apesar de eu não poder
acompanha-la e me faz pensar se tem algo a ver com
Paul Beliveau.

Max trabalhou os músculos da boca.


-Acha que é caso de polícia? Que ele possa estar
chantageando-a?

Sílvia engoliu em seco.


-Não sei. Ida me contou da mudança nela quando foi à
cidade e não voltou naquela noite. Talvez tenha
telefonado, ou ele tenha feito contato com ela e a
ameaçado de alguma forma.

-Faz sentido, Max. Ouça sua cunhada. –ajudou Jesse.


Max olhou para o capataz e para Ida.
-Acredita nela? –indagou, amargo, o som dos grilos
aplacando a violência de seu espírito.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

A caseira assentiu devagar.


-Mônica mudou do dia para a noite. Ficou estranha.
Somente alguma coisa muito grave teria causado tal
transformação.

-Você é tudo para ela, Max –sussurrou Sílvia, os olhos


úmidos de lágrimas. –Se ela tem algum defeito, é amá-
lo demais. Sei exatamente como ela raciocina. Nos
manter afastados foi cruel, mas é o jeito dela de lidar
com algo terrível. Algo que ela não foi capaz de nos
contar...

Sílvia estremeceu ao ouvir um uivo distante na floresta


e, de repente, se sentiu enregelar.

Podia sentir a incredulidade do cunhado, sua dor. Se ao


menos pudesse remover aquela impressão... Seu rosto,
seu corpo inteiro parecia tenso, fazendo-o parecer mais
velho, quase enfermo.

-Max... –Pousou a mão em seu braço, solícita. –Por


favor, use a sua influência para descobrir onde Mônica
está. Ela me deixou um recado no hotel dizendo que
encontrara Giselle e que tudo estava bem. Mas talvez
estivesse mentindo. Talvez esteja precisando de nós e
espere que a encontremos.

Essas palavras o atingiram, Sílvia percebeu ao vê-lo


lançar a cabeça para trás.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Você a ama, e ela o ama –garantiu, aflita. –Cada


segundo que permanecemos aqui para analisar seu
comportamento bizarro é tempo perdido. –Não se
atrevia a contar a Max que sentia Mônica afastando-se
cada vez mais deles.

Ele não respondeu. Temerosa de não ter conseguido


chegar até ele, Sílvia se recusou a desperdiçar outro
segundo e correu em direção ao carro, com Jesse e Ida
em seus calcanhares. Assim que chegassem à sede,
telefonaria para as autoridades francesas e pediria
ajuda.

Ao abrir a porta do carro, Sílvia ouviu o motor da


caminhonete. Recostou-se no banco, aliviada; então
Max decidira segui-los para casa.

Percorreram as trilhas em silêncio, Sílvia perdida nos


próprios pensamentos atormentados. Dez minutos
depois, estavam na sede. Ida acendeu as luzes e
mostrou a Sílvia onde ficava o escritório de Max, um
canto confortável da sala de estar.

Uma grande escrivaninha de pinho com computador e


telefone e uma estante de livros perto da lareira...
Sílvia sentia o toque pessoal da irmã em cada detalhe
da decoração.

Mônica se forçara a deixar tudo isso. Por quê?

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Sílvia viu Max entrar no estúdio com o capataz, os


olhos escurecidos de ansiedade. Ele foi até a
escrivaninha e pôs a mão no telefone, mas não o
removeu do gancho imediatamente.

-Mônica poderia ter encontrado outro homem naquele


dia em West Yellowstone –declarou ele.

Sílvia fechou os olhos. Não surpreendia Max estar


sofrendo tanto. Ele temia que Mônica tivesse sido
infiel.

-Ela nunca poderia estar interessada em outro homem –


afirmou Sílvia. –Não sabe o quanto ela o ama?
Ele remexeu o maxilar.

-Quer que eu acredite que ela esteve mentindo para


mim nesses dez meses? Como posso saber que você não
está mentindo somente para protege-la?
A tensão aumentou entre eles.

-Não pode.

Após uma pausa interminável, ele indagou:


-E se estiver errada quanto a seus instintos? –O
desdém em sua voz a abalou, mas ela o encarou sem
esmorecer.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Rezo para que esteja. Se assim for, Mônica precisa


vir para casa e se explicar. A nós dois.
Silêncio.

Então, num movimento brusco, ele buscou papel e lápis


no canto da escrivaninha.
-Precisarei do telefone da casa de Giselle e do hotel
em Paris.

Sob outras circunstâncias, o tom frio teria intimidado


Sílvia, mas naquele momento ela estava determinada em
encontrar a irmã. Nada mais importava.
Foi à escrivaninha e escreveu a sequência que sabia de
cor.

-Este é o de Giselle. Vou ao quarto pegar o número do


hotel.

Quando voltou, Max estava ao telefone, dando


descrições e informações sobre Mônica. Após alguns
minutos, olhou para ela. Cobrindo o fone, pediu:
-Me descreva a sua madrasta.

-Tem um metro e cinqüenta e cinco, cerca de cinqüenta


quilos, cabelo preto curto, olhos castanhos. Veste-se
com estilo, e é o que eu e Mônica chamamos de Jolie
laide, não bonita, mas ainda assim atraente. É pequena
e feminina. Bem francesa.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Max transmitiu a descrição física de Giselle para a


pessoa do outro lado da linha. Após outra rápida
conversação, ele recolocou o aparelho no gancho e se
levantou, o rosto cinzento de tensão.
-Acha que vamos ter notícias hoje?

Ele a encarou. Após uma pausa embaraçosa, foi


taxativo.
-Não.

O tom da resposta deixou Sílvia desanimada. Não sabia


o que fazer durante o resto da noite. A premonição de
que a irmã estava correndo perigo crescia a cada
instante.

Max olhou para sua barriga como se lembrasse de


repente que ela estava grávida.

-Se tem pressão alta, devia estar na cama. Sugiro que


todos nós tentemos salvar o resto da noite.

Sílvia ficou surpresa por, apesar da angústia, ele ainda


conseguir se lembrar de sua gravidez de alto risco.
Começou a dizer que se mudaria para o quarto de
hóspedes, mas ele a interrompeu.

-Vou dormir aqui no sofá. Sempre que estou


trabalhando num caso, prefiro ficar aqui, de onde tenho
acesso rápido à minha escrivaninha.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Vou preparar o sofá –ofereceu Ida.


Jesse balbucionou boa noite e seguiu a esposa até o
estúdio.

Sílvia hesitava em deixar o cunhado sozinho, mas


percebeu que não haveria palavras que o confortassem.
Nada, exceto a volta de Mônica, a Mônica por quem ele
se apaixonara, poderia fazer isso.

Deixou-o e apressou-se ao quarto principal, onde se


entregaria à própria dor sem ninguém para ouvi-la.

Capítulo 05

-Bom dia, Philippe.


Descendo as escadas, Philippe encontrou a criada idosa
que arrumava as flores num vaso.

-Bom dia, Vivige. Está acordada mais cedo do que de


costume nessa belíssima manhã de agosto.

-Sim. Porque Delphine espera o grupo de costura para


as onze horas e quer que tudo esteja brilhando.
Philippe sorriu.

-Você e sua equipe sempre mantiveram a mansão em


perfeitas condições, e sei que isso não é tarefa fácil.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Obrigada. Delphine pediu-me que o informasse de que


está no jardim supervisionando o corte das flores. Rose
já preparou seu café da manhã no petit salon.

-Agradeça a ela, mas não estou com fome esta manhã.


Vivige parou o que estava fazendo e pousou as mãos nos
amplos quadris.

-Não tomou o café da manhã nem uma vez depois que


voltou de Paris, e já faz duas semanas. Quando era
pequeno e não comia, era porque estava doente ou
triste, ou ambos. –Apontou um dedo acusador.

-Não sou mais menino, Vivige. Se quer saber, estou


tratando de uma úlcera. –Era verdade, mas não toda a
verdade. Longe disso.

O último encontro com Sílvia o deixara arrasado. Não


apenas ela declarara que o romance estava acabado,
como insinuara que ele era velho demais para ela. Que
ele atuara como uma figura paterna. Céus...

-Ah... –Vivige levou as mãos ao rosto –Preocupações


demais com Delphine. Trabalho demais. Com afinco
exagerado e por longas horas.
Sem férias, pois tem medo de deixar Delphine sozinha
por tanto tempo.
O que precisa é tirar um verão longe de todos os seus
problemas. Ela poderia apreciar o ar marinho... Que tal

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A gêmea errada – Rebecca Winters

um cruzeiro pelas ilhas gregas? Não faz isso desde que


sua querida mãe, que Deus a tenha, foi com você há
cinco anos. _Fez o sinal da cruz.

A devoção de Vivige à família de Philippe nunca deixava


de espanta-lo. Mas a menção da mãe o lembrara da
mentira colossal que contara a Sílvia. Uma mentira que
o corroia a cada instante. Tinha certeza de que aquilo
contribuíra para sua úlcera.

-Vou pensar em sua sugestão. –murmurou. –Mas


enquanto isso, não diga nada a Delphine. Ela não deve
saber de minha úlcera ou vai ficar preocupada, e isso
pode trazer complicações.

Vivige pareceu ofendida.


-Nunca diria nada para aborrece-la.

-Sei disso, Vivige. E aprecio o cuidado que tem com


ela. Se já não lhe disse antes, digo agora. Se e quando
precisar de ajuda, vou dar a mesma atenção e cuidado
que sempre teve com minha família.
A criada se emocionou.

-Sempre foi um menino tão bom, Philippe. E é um


homem muito bom, tão devotado à família, aos filhos.
Poucos homens se manteriam dedicados a uma esposa
em cadeira de rodas. Não admira Delphine adora-lo.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

Philippe balbucionou um obrigado e desviou o olhar,


atacado por uma dor no estômago que não conseguia
mais distinguir da culpa.

Após o nascimento do segundo filho, a espinha de


Delphine começara a se desintegrar. No começo,
Philippe ficara arrasado em pensar que uma pessoa tão
adorável quanto ela ficaria inutilizada.

À medida que ela precisava de mais e mais drogas para


aplacar a dor, a intimidade entre eles se tornara cada
vez menos freqüente.

Havia sete anos, tornara-se impossível para ela fazer


amor. Desde então, apenas se beijavam e se abraçavam
durante a noite, e ele mergulhara no trabalho.

Nos dois últimos anos, porém, a saúde dela se


deteriorara tanto que ela parecia se contentar apenas
com um beijo terno antes de dormir. E agora que ela
precisava dormir sozinha, ele se transferira para o
quarto contíguo.

Somente quando Sílvia surgira em sua vida é que ele se


sentira tentado a dormir com outra mulher.

Quando reconheceu o que lhe estava acontecendo,


lutou contra o sentimento, mas não o suficiente. Já que
contara a mentira sobre a mãe ainda estar viva, não

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A gêmea errada – Rebecca Winters

podia se retratar sem perde-la. Sua carinhosa, meiga e


bela Sílvia...

Ela acreditara que ele era divorciado, um homem


honrado que amava a mãe e os filhos. Ela o desprezaria
por tê-la enganado, por levá-la a cultivar uma relação
de adultério, inadvertidamente.

Ele se aproveitara de sua inocência. Mas só fizera isso


porque estava apaixonado e, até aquele último encontro,
estivera a ponto de pedir a Delphine o divórcio a fim de
se casar com ela.

Entretanto, porque amava Delphine e sempre a amaria,


parte dele se sentiu aliviado por Sílvia ter rompido o
relacionamento antes de descobrir a verdade, antes que
ele magoasse Delphine.

Já que fora Sílvia que o dispensara, ele poderia


continuar ao lado da esposa sem sofrer constantemente
a culpa que destruía sua saúde e sua paz de espírito.

Mas Sílvia abrira uma ferida cruel, que ainda estava


inflamada. Ela o fizera se sentir um velho idiota e
senil, vergado por cada um de seus cinqüenta anos.

Ele não percebera que ela estava procurando alguém


para substituir o pai que perdera. Não se vira naquele
papel. Tudo, menos aquilo.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

Agora, tinha uma úlcera, o que completava a imagem de


um homem de meia-idade já grisalho nas têmporas,
decadente como um esquiador olímpico.

Ainda assim, sentia falta de Sílvia, da intimidade que


partilharam. Por quanto tempo seria atormentado por
suas lembranças?

-Vivige? Diga a Delphine que já fui para o escritório,


mas vou voltar mais cedo e jantaremos juntos no
terraço.
-Está bem.

-George telefonou?
-Não. Pensei que ele estivesse nas bem merecidas
férias.

-Está, mas não é de seu feitio não dar um alô de vez


em quando.

A empregada fez um muxoxo de desgosto.


-Exige tanto dele quanto de si mesmo. Fazia tempo que
ele não saída com os amigos e se divertia. Você devia
fazer o mesmo.

Ignorando as repreensões, Philippe perguntou:

-Houve algum outro telefonema de meu interesse?

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

-Não. Oh!... Alguém ligou para você há umas duas


semanas. Uma jovem com sotaque parisiense.

Parisiense? Philippe se arrepiou. Poderia ter sido Sílvia?


Mas não. Só George sabia o telefone de sua casa e
nunca o revelaria a ninguém sem sua permissão.

Vivige continuou as explicações, sem notar o sofrimento


de Philippe.

-Disse a ela que você não estava e sugeri que falasse


com Delphine, que estava lá fora no jardim com a
netinha. Ela pensava que Delphine fosse sua mãe.
Quando lhe disse que Delphine era sua esposa, e que
sua mãe já falecera há cinco anos, ela desligou.
Evidentemente era um engano.

Deus do céu! Sílvia tinha telefonado!

De repente, a cena de pesadelo no Beau Rivage, quando


ela despedaçara seu coração, quando o rejeitara e
dissera-lhe para voltar para casa, para a mãe, fazia
sentido. Tudo o que ela dissera era mentira. E só
fizera aquilo por seu próprio sofrimento, por raiva.

A emoção tomou conta de seu corpo, liberando


adrenalina, o que intensificou a acidez do estômago.
Cuidadoso em se manter inalterado, não deixou
transparecer nada e voltou-se para a criada.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Provavelmente tem razão, Vivige. Há vários Moreau na


lista.

Finalmente, tinha uma explicação para o pedido de


férias de um mês de George. O secretário nunca se
afastara por tanto tempo antes. Todas as peças se
encaixavam, exceto o silêncio de George.

Philippe foi tomado por uma raiva que nunca sentira


antes.

-Vivige, se George telefonar nas próximas três


semanas, diga-lhe para me ligar no escritório. Há uma
coisa importante que tenho de discutir com ele.

-Tente relaxar, sra. Sutherland. Voltarei em poucos


minutos para tirar a sua pressão.
Relaxar! Como se pudesse.

-Eu... eu não sou a sra. Sutherland. Sou a gêmea,


Sílvia Clarke. –corrigiu.

A enfermeira assentiu e Sílvia acompanhou sua saída do


cubículo com os olhos inchados de tanto chorar. Assim
que ela desapareceu, Max afastou a cortina e entrou.

Seu rosto estava marcado com mais algumas rugas por


não obter notícias nem de Mônica, nem de Giselle. A

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A gêmea errada – Rebecca Winters

cada dia, sua expressão ficava mais atormentada. Sílvia


se virou, olhando para a parede, desejando que ele não
houvesse testemunhado sua tontura.

Por causa disso, ele pedira dispensa dos deveres como


agente e insistira em levá-la à clínica em West
Yellowstone pessoalmente.

Sua própria dor pelo silêncio da irmã aumentava cem


vezes toda vez que olhava para o cunhado. Saber que
ela lhe lembrava a esposa piorava tudo. Estava
convencida de que, de várias formas, ela e Max não se
faziam bem mutuamente.

Ele não devia estar preocupado com sua saúde no auge


do desaparecimento de Mônica. Tinha todo o direito de
se ressentir de sua invasão de privacidade, todo o
direito de odiá-la por trocar de lugar com Mônica.

A pressão de suas responsabilidades profissionais mais a


constante preocupação para manter a fazenda já eram
bastante difíceis.
Ele não precisava de uma farsa como a de Sílvia
surgindo em sua casa, saída do nada, grávida e
desempregada.
Já estavam no final de agosto. Desde meados de julho
comia de sua comida, dormia em sua cama, recebia o
cuidado carinhoso de Ida e Jesse, cujos salários ele
pagava.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Apesar disso, ele recusava suas ofertas de reembolso.


Sentia-se uma parasita, a culpa ainda mais
insuportável. Queria se mudar para um hotel na cidade,
mas Max nem quis ouvir falar disso. De qualquer forma,
não se atrevia a pisar fora de casa na esperança, a
cada dia, de receber notícias de Mônica.

Sabia que Max também estava sofrendo. Eram dois


adversários em batalha mortal, sem alternativas,
sendo-lhes negada qualquer opção de alívio enquanto a
luta continuava.
Max chegou perto dela.

-A enfermeira disse que sua pressão está cento e


quarenta por noventa. Está mais alta do que quando
deixou Nova York?

-Um pouco... –Mas ela estava muito concentrada em


Mônica para sentir qualquer sinal.

-Então isso determina tudo. A cidade não tem médico.


Vou levá-la a Rexburg onde pode ser assistida por um
obstetra.

-Não preciso de médico. –As lágrimas correram do


canto dos olhos. Preciso saber notícias de Mônica.
-A enfermeira acha que precisa –replicou ele, sem
alterar muito a voz.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Ainda não! –choramingou ela, e se sentou na maca,


lançando as pernas para o lado. Nenhuma das roupas de
botões e zíperes de Mônica lhe servia mais. Escolhera
uma calça bem usada, de tecido elástico. Assim que
fosse possível, teria de ir a uma loja comprar alguns
vestidos para grávidas.

-Vou mais tarde, depois...

-Depois de saber notícias de minha esposa? –completou


ele, rude. –Será provável? Devo lembrar-lhe do que as
autoridades francesas disseram?

-Não, Max –A voz era trêmula.

A espera estava fazendo estragos nos dois. Não havia


pista nenhuma de Giselle nem de Mônica. Quando os
investigadores franceses encontraram Paul Beliveau,
obtiveram uma declaração oficial de que havia quase
seis semanas a esposa fora à padaria na esquina e não
voltara mais.

-É possível que tenham se escondido para que Paul não


as encontrasse. Talvez estejam num local sem telefone
–teorizou ela, numa tentativa de remover a indiferença
do olhar de Max.

Sabia em que ele estava pensando: que Mônica fugira


com outro homem. Se não conhecesse a irmã tão bem,

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A gêmea errada – Rebecca Winters

teria chegado à mesma conclusão. Mas sua premonição


inicial era de que Mônica estava em perigo e esse
sentimento só se intensificava.

Na verdade, Sílvia não queria contar a Max o que vinha


captando, temerosa de que, se contasse, a impressão
se tornasse mesmo realidade.

-Com licença –interrompeu a enfermeira, entrando no


cubículo novamente. –Vamos fazer outra leitura.

Enquanto apertava a borracha ao redor do braço de


Sílvia e bombeava o bulbo, Sílvia notou que Max se
posicionara a fim de ler os números por sobre o ombro
da profissional.

Havia uma tranqüilidade nele que enervava Sílvia.


Qualquer um que olhasse para eles pensaria que ele era
o pai e marido ansioso.
Pela primeira vez em semanas, a imagem de Philippe se
formou em seus pensamentos. Não podia deixar de
imaginar se ele teria demonstrado o mesmo tipo de
preocupação, quase um sentimento de posse. Sílvia
achava tocante e, sob outras circunstâncias, seria até
bem vindo.

-Ainda cento e quarenta por noventa –anunciou Max, a


voz moderada como sempre.
A enfermeira desfez o nó da borracha.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Pode se sentar agora, srta. Clarke. Estava


comentando com seu cunhado que uma mulher de vinte e
sete anos, sem problemas de peso, não devia ter uma
pressão arterial tão alta. Não quero alarma-la, mas
devia consultar um especialista imediatamente para
saber se está tudo bem com você e o bebê.

-Ela vai consultar –a voz grave de Max ressoou pelo


cubículo.
-Há um excelente obstetra no hospital em Rexburg, o
dr. Lyle Harvey. Se quiser, telefono ao consultório
agora mesmo e aviso que estão chegando.

-Hoje não! –disparou Sílvia, quando viu Max assentir. –


Eu... eu vou amanhã de manhã. Prometo. –sussurrou
ante sua expressão intimidadora.

Max pôs as mãos nos quadris. Ela diria que ele estava
avaliando a sinceridade da promessa. Sabia que Sílvia
não queria sair da fazenda, para o caso de haver
notícias de Mônica.

Ela percebia que ele também não queria ficar longe de


casa, tampouco. Novamente, sentiu-se culpada por ser
um fardo indesejável num momento crítico. Finalmente,
ouviu-o murmurar:
-Vou cobrar isso, Sílvia. –Voltou-se para a enfermeira.
–Diga que estaremos lá às dez da manhã.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Acha que é bom tomar mais café?


Max levou a xícara aos lábios, ignorando o comentário
de Ida. Ela tinha boas intenções, mas no momento não
precisava de sermão e desejava que ela fosse dormir.
-Não dormiu direito nesses últimos meses e já está
mostrando os sinais –insistiu ela.

-É café ou a garrafa, Ida.

-Nunca foi de beber!

-Tempo demais sem notícias e... –Ele encolheu os


ombros e tomou outro gole do café quente. –Jack
Daniels está começando a parecer um bom amigo.
-Sabe que não quer dizer nada disso. É só a sua dor se
manifestando.

-Conhece um jeito melhor para alivia-la?

-Vá para a cama, Max. Jesse e eu nos revezaremos


junto ao telefone.

-A única razão por não estar bebendo até cair no


momento é que vou levar Sílvia ao hospital pela manhã.
Vamos sair às sete e meia. Se houver notícias, pode
entrar em contato comigo no telefone do carro.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Estou feliz que vá sair um pouco. Você é o único que


pode convence-la a ir ao médico. Ela chora até dormir
todas as noites desde que você chegou. Isso não pode
fazer bem ao bebê.

Max bateu a xícara vazia na pia e ouviu que se


quebrara.

Percebera aquelas lágrimas abafadas até sentir a


própria alma igualmente atormentada. Cada vez que
olhava aquele rosto bonito, que amava sem limites, tão
pálido e atormentado, sentia-se ainda mais dividido.

Nas primeiras horas da manhã, quando nada parecia


real e ele finalmente conseguiu dormir ainda que em
agitação, sua mente foi invadida por imagens do corpo
dela, conforme o contemplara na primeira noite, quando
chegara sem avisar.

Lembrava-se das mudanças que a gravidez causara.


Lembrava-se do toque aveludado de seus lábios, o
êxtase de tê-la em seus braços, sabendo que ela
carregava um filho seu.

Então, ouviu os gritos: “Sou Sílvia, não Mônica! “, e


acordou completamente, o corpo coberto de suor, o
coração palpitando implacável. E, como sempre, se
sentia culpado, pois estivera sonhando com Sílvia,
quando era Mônica que possuía seu coração.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Mônica. Mônica. Me perdoe. Onde você está, querida?


O que está acontecendo? Por que me mantém nesse
tormento?
Sentiu a mão de Ida no ombro.

-Eu e Jesse rezamos todas as noites para que a sua


dor tenha fim. Vamos continuar rezando, Max.

Ele bateu em sua mão, mas não conseguia dizer nada.


Muito tempo depois que ela se foi com Jesse para a
outra ala da casa, ele trancou tudo, apagou as luzes e
dirigiu-se ao escritório. Num impulso, tomou o corredor
e foi ao quarto principal.

A porta estava apenas encostada, as luzes apagadas.


Tudo estava calmo. Apurou o ouvido, esfregando o
queixo, distraidamente. Pelo menos uma vez, não a
ouviu chorar e presumiu que já estivesse dormindo,
abatida pela exaustão.

Aliviado, pois sabia que ela precisava descansar para


que a pressão baixasse, decidiu verificar as contas da
fazenda.

Normalmente, tal atividade funcionava como um


sonífero, e só ele mesmo sabia o quanto precisava
dormir. Ida tinha razão nesse ponto. Estava
funcionando a nervos e cafeína por tempo demais; já
não conseguia pensar claramente.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Acendeu a luminária, e a fotografia de Mônica se


iluminou, a mesma imagem que ele sempre tinha na
mente. Por vários minutos, permaneceu ali, estudando
seu semblante, imaginando quantos dias mais, ou
semanas, ou mesmo meses teriam de esperar por
notícias.

Foi tomado por um desespero intenso. Sentou-se na


cadeira de madeira, recostou-se e esfregou os olhos.
Foi quando ouviu o grito de Sílvia. Um grito desesperado
que encheu seu coração de medo e o impulsionou a se
levantar da cadeira e correr para o quarto principal.

Acendeu as luzes do corredor e descobriu que ela já


estava no meio do trajeto, uma figura fantasmagórica
numa das camisolas de seda de Mônica.

-Max! –gritou ela, e se agarrou a ele como uma criança


assustada precisando de conforto.

Sem refletir, ele a recebeu e a abraçou bem forte,


tentando convence-la de que ela estava a salvo.

-Shh –sussurrou ele, passando a mão pelo seu cabelo. –


Você teve um sonho ruim, mas já acordou. Está tudo
bem. Eu estou aqui.

-Não. –Ela se recusou a se acalmar e se agitou tão


selvagemente que ele precisou usar toda a força para

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A gêmea errada – Rebecca Winters

mantê-la subjugada. –Não foi um sonho. Mônica está


morta!
A voz mais parecia um gemido, e ele estremeceu.
-Não, Sílvia. Você apenas imaginou isso.

-Mas você não entende –insistiu ela, com a voz rouca e


entrecortada. –Não estava dormindo. Enquanto estava
ali deitada, senti que ela morrera. Ela se foi...

O choro lamentoso tomou o ambiente, e então vieram os


soluços e as convulsões do corpo, convulsões que foram
transmitidas a ele.

-Não posso suportar. –Ela começou a tremer. –Não


posso suportar perde-la.

Agarrou-se a ele, enterrando as unhas em suas costas


através da camiseta. Então desmaiou, e ele a ergueu
antes que ela escorregasse para o assoalho.
-O que está acontecendo, Max? –chamou Jesse,
alarmado. –Ouvimos Sílvia gritando.

Max viu o casal entrar pelo corredor.


-Ela desmaiou.

Com ações automáticas, ele a pousou sobre o tapete e


sentiu a pulsação. Estava rápida e forte. Encorajado
pelo movimento de respiração de seu peito, ele baixou a
cabeça e colocou o rosto perto da boca. Quando sentiu

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A gêmea errada – Rebecca Winters

que ela respirava em intervalos regulares, soltou um


suspiro de alívio.
-Me traga água, Jesse.
-Volto já.
Ida se aproximou.

-Ela está com os nervos à flor da pele, assim como


você. O que aconteceu? Jesse e eu pensamos que
houvesse um ladrão no quarto.

Max não podia repetir as palavras de Sílvia. A reação


traumática desafiava a lógica. Ela parecia tão
convincente, e ele meio acreditava, meio se assustava.
-Ela teve um sonho ruim. Tanto que desmaiou.
-Pobrezinha...

Max testemunhava ameaças à vida toda vez que se


apresentava para uma missão. O treinamento minucioso
o ensinara a lidar com as situações mais delicadas. Mas
o que acontecera ali ia além de toda sua gama de
experiência.

-Aqui está.
Max tomou o copo de Jesse e umedeceu o rosto de
Sílvia. Quase imediatamente ela engasgou e abriu os
olhos, meio desnorteada.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Max... –Ela focalizou toda a atenção sobre ele, os


olhos ainda assustados e cheios de angústia. –O que
aconteceu?

-Você desmaiou. Descanse por um minuto –pediu ele,


suave, pegando em uma das suas mãos.

Ida e Jesse permaneciam bem perto. Sílvia os fitou e


seus olhos se encheram de lágrimas. Apoiou-se num
cotovelo.
-Max contou a vocês? –perguntou, a expressão cheia de
dor.
Ida se inclinou sobre ela.
-Nos contou o que, querida?
O queixo estremeceu.
-Mônica se foi.
As palavras frias reverberaram no coração de Max. Ele
se inclinou para perto dela e removeu as lágrimas do
rosto muito branco com as mãos.
-Não sabe com certeza, Sílvia.

-Sei –insistiu ela, antes de estremecer mais uma ve,


convulsiva, e começar a chorar incontrolavelmente.

Movido pela dor, ele a aninhou nos braços e a embalou,


tentando consola-la, tentando obter algum conforto
para si mesmo.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Shh... –Sussurrava, e ergueu-a nos braços com ela


agarrada a seu pescoço. –Desta vez seus instintos estão
errados. Tenho certeza. Não fale mais nada, Sílvia.
Vou coloca-la na cama, e ficarei com você pelo resto da
noite.

-Isso mesmo, querida. Vá com ele e faça o que ele diz


–incentivou Jesse. –Uma boa noite de sono e tudo vai
parecer diferente pela manhã.
Ida sussurrou.

-Vamos ficar por perto se precisar de alguma coisa.

Max assentiu e carregou Sílvia de volta para o quarto.


Sem se soltar ela, sentou-se na cama. Recostado
contra a cabeceira, estendeu as pernas e jogou uma
manta sobre elas, a fim de cobrir-lhe os ombros. A
temperatura da casa era agradável, mas ela precisava
de mais calor. Ela precisava de um médico.

Ele consultou o relógio. Três e dez. se ela não dormisse


até as três e meia, não esperaria até o amanhecer para
levá-la ao hospital em Rexburg. Simplesmente a
acomodaria no carro e partiria.

A onda de lágrimas finalmente diminuiu. Quando ele


pensava que ela estava dormindo, ouviu:
-Vo... você acha que estou histérica, não é? –A
pergunta pairou no ar.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Consternado, percebeu que ela estava bem acordada.


Respirou fundo.
-Não –respondeu, sincero, sussurrando em voz trêmula.
Ela se soltou de seus braços, rolando para o outro lado
da cama.

Ele não tentou impedi-la. Parecia natural abraça-la,


sentir a fragrância familiar de sua pele e cabelo.
Natural demais. Conhecia cada linha e curva do corpo
da esposa. Na escuridão, bem podia acreditar que
Mônica estava em seus braços novamente.

Perturbado pela idéia, ele saiu da cama.


-Não há por que se desculpar, Sílvia. –A voz era
áspera, fracamente controlada. –Acho que nós dois
concordamos que já superamos a fase de acusações e
recriminações. O que quer que Mônica esteja fazendo,
logo saberemos. No momento, seu bebê é nossa
prioridade número um. Precisa dormir, e bastante. Boa
noite.

Capítulo 06

Em sua sala particular no terceiro andar do prédio da


Moreau Textiles em Nice, um edifício pertencente à
família havia várias gerações, Philippe interfonou à
secretária.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Sophie? Ouvi dizer que George voltou. Você o viu


entrar?
-Não, monsieur. Ele já estava aqui quando cheguei.
Quer que lhe dê algum recado?

-Não será necessário. Obrigado, Sophie.

Philippe olhou para o relógio. Cinco para o meio-dia.


Embora nenhum dos empregados precisasse estar
trabalhando antes das oito e meia, George era notório
por chegar às vezes até as seis da manhã. Usava o
tempo extra para organizar os papéis. De outra forma,
as demandas de sua agenda não o permitiriam.

Agora que voltava de suas férias prolongadas, sem


dúvida queria colocar tudo em dia. Mas Philippe, que
chegara às sete, esperava que George se apresentasse
a ele antes de qualquer coisa, pelo menos para falar
sobre sua viagem e se pôr a par dos acontecimentos na
empresa durante sua ausência.

O fato de o secretário não ter feito nada disso e já


estarem nomeio do dia confirmava as suspeitas de
Philippe. George o evitava de propósito. E não mandara
um postal, nem telefonara, durante todo o mês.
Chamou o ramal do funcionário:
-Seja bem vindo, George.

-Philippe. Não sabia que já tinha chegado.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Mentiroso! Philippe engoliu o repúdio e controlou a raiva.


-Que tal os fiordes noruegueses?
-Magníficos.

A brevidade de George o irritou ainda mais; segundos


depois, sentia o estômago queimar.

-Me encontre em nossa mesa de sempre no salão de


jantar do Hotel de la Grande Corniche em dez minutos.
Precisamos discutir alguns assuntos.

Após um instante de leve hesitação, ouviu.


-Poderíamos almoçar lá amanhã? Preciso limpar minha
escrivaninha antes de sair do escritório hoje.

-Creio que não possa esperar. Já que prefere ficar no


prédio, peço a Annette para nos trazer alguma coisa e
poderemos nos reunir em minha sala. Espero vê-lo aqui
em cinco minutos.

Antes que George pudesse recusar mais uma vez,


Philippe desligou, deu instruções a uma das datilógrafas
e levantou-se da mesa.

Ficou de pé junto à janela que dava para a Promenade


des Anglais, onde o azul quente do Mediterrâneo e as
velas brancas dos iates encantavam os olhos. Não podia
acreditar que fosse setembro. Seu tormento fora tão
grande que não notara que o verão já viera e passara.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

A paisagem privilegiada, tida como uma das mais belas


do mundo, ridicularizava seu tormento interior. Dividido
pela culpa e pelo desejo, próximo à necessidade, sabia
que não podia continuar com aquilo por muito mais
tempo.
Os sentimentos contraditórios, igualmente intensos e
implacáveis, estavam arruinando sua saúde física.
Quanto a seu bem-estar emocional, esse simplesmente
não existia mais.

Uma batida familiar à porta o alertou, e ele se voltou a


tempo de ver o secretário particular entrar na sala.
George estava vestido impecavelmente, como sempre,
com um terno de trabalho de corte conservador.

George trabalhava para Philippe havia vinte anos.


Embora já contasse sessenta e seis, tinha o tipo de
rosto e corpo que nunca parecia envelhecer. Mesmo o
cabelo mantinha o mesmo tom loiro escuro, que
disfarçava o grisalho. Philippe pediu-lhe que se
sentasse.

Educados, trocaram umas poucas amenidades. George


respondeu pacientemente às perguntas de Philippe sobre
sua viagem, mas a camaradagem entre eles não existia
mais. Sem disposição para continuar a farsa, Philippe
decidiu ir direto ao ponto.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Sentado na beirada da escrivaninha, inclinou-se na


direção de George e encarou-o.
-Deu o número de minha casa a Sílvia, não foi?
-Sim.

A resposta sucinta, dada sem hesitação, informou a


Philippe que o homem já estava pronto e à espera
daquilo.

Philippe sentiu os pulmões se retraírem, tornando a


respiração difícil.

-Nesses anos todos em que trabalhamos juntos, nunca


soube que você tinha cometido algum ato desleal. Você
é um amigo da família. Por que a traição agora?

George retirou os óculos de tartaruga e esfregou a


cartilagem do nariz.

-por que Delphine não merece ser tratada assim.


Philippe piscou, surpreso. Céus! Como fora cego.

-Não sabia que seus sentimentos por minha esposa eram


tão profundos.

-Eu a amo desde a primeira noite em que me


convidaram para jantar em sua casa. Mas, então, como
agora, percebi que é para você que ela vive. –O
reconhecimento calmo continha o peso da amargura.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Atônito, Philippe fitou o homem que pensara conhecer


tão bem. George nunca se casara. Que soubesse, o
secretário nunca se interessara por mulheres. Presumira
que o homem levava um tipo de vida diferente. A
confissão explicava por que ele arriscara o emprego e a
amizade.

Philippe se levantou.

-Não tenho alternativa senão deixá-lo partir.


George assentiu.

-Sabia que nosso relacionamento seria prejudicado


quando dei o número à srta. Clarke. Mas faria tudo de
novo se soubesse que isso evitaria que Delphine viesse a
sofrer.

Philippe se enrijeceu.

-Ao perder a fé em mim, conseguiu apenas causar muita


dor. Sílvia não merecia descobrir a verdade de maneira
tão cruel.

-Você decepcionou a si mesmo, Philippe. Deixou que ela


pensasse que você era livre. O que fez foi
inconseqüente.

Philippe grunhiu internamente, mas não tentou silenciar


George, que apenas estava lhe dizendo o que já sabia, o

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A gêmea errada – Rebecca Winters

que o castigara centenas de vezes desde que encontrara


Sílvia pela primeira vez.

-Gosto de mademoiselle Clarke. Ela não é só bonita,


jovem e saudável, mas também uma vítima inocente,
com futuro e anos férteis pela frente.
Ela merece mais que as poucas horas que você pode lhe
dispensar. –Tomou fôlego. –Delphine é a mãe de seus
filhos, prisioneira num corpo doente sem culpa alguma.

Não tem nenhum futuro; apenas terá um coração


despedaçado quando souber o que andou fazendo em
suas viagens de negócios a Nova York. Não vai demorar
até Simone e Charles ouvirem os comentários sobre o
pai. Você é um idiota, Philippe.

Embora Philippe tenha se resignado, concordava com


George. Até podia pensar em alguns argumentos,
algumas atenuantes que o secretário não mencionara
ainda. Com tristeza profunda, observou o homem que
lhe servira tão abnegadamente se erguer da cadeira e
caminhar até a porta.

-George, antes que saia, fique tranqüilo, pois seu


futuro está assegurado. Vou passar mais ações para
você. Serei generoso. Acho que já sabe que será
praticamente impossível substituí-lo.
George parou.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Espero que sim. Até agora sua vida foi um sonho.


Chegou a hora de sofrer as conseqüências de seus atos.
–Então, deve agrada-lo saber que tenho uma úlcera
grave.

O homem se voltou, franziu visivelmente o cenho apesar


da distância que os separava.

-Agradar-me? Acha que me agrada ouvir tal notícia? –


questionou, com emotividade singular. –Como posso
apreciar saber que o homem que admirei e amei como a
um filho destruiu a si e à família? –Balançou a cabeça.

–Nossa sociedade é decadente. Esperava que fosse


melhor que isso. –Com um suspiro, deixou a sala.

Ida varreu a poeira na varanda da frente, esperando


ansiosamente a volta de Sílvia e Max de Rexburg. O
jantar já estava pronto havia uma hora, e dissera a
Jesse para fazer a refeição sem eles.

Assim como com Mônica, que fora tão fácil de gostar


nos primeiros dias do casamento, Sílvia também se
instalara no coração da caseira. Ela não podia deixar de
se preocupar com a saúde daquela jovem, em especial
devido à gravidez de alto risco e à falta de notícias de
Mônica.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

O desmaio na noite anterior tirara toda a alegria dela e


de Jesse. Embora Max tivesse cuidado do assunto,
sabia que ele se abalara quando Sílvia desfalecera.

Perder a consciência daquela forma podia significar que


ela desenvolvera complicações de algum tipo. A
preocupação com a morte da irmã, de todas as coisas,
fora o mais grave. Arrepiava-se só em pensar.
-Ida?

Assim que ouviu a voz alterada de Jesse. Largou a


vassoura e correu para dentro da casa.
-Jesse? O que foi?

-Pegue a extensão do telefone no estúdio! –gritou ele,


da cozinha. –É a madrasta de Mônica. Rápido!

Sem perder tempo, Ida passou pela sala de estar, indo


para o recanto, onde pegou a extensão da linha
telefônica.
-Pronto! –anunciou ao fone.

-Minha mulher vai falar –ouviu Jesse explicar à


francesa. –Vá em frente.

-Talvez seja melhor que Max e Sílvia saibam de vocês.


–começou Giselle, em excelente inglês, com um charmoso
sotaque francês. –Ela os amava muito.
Amava?

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Ida se sentou na cadeira de Max, temendo que as


pernas não a suportassem.

-Lamento informar que a minha querida Mônica, que


sofria de um tumor cerebral inoperável e que lutou tão
bravamente pela vida, expirou esta manhã. Faleceu no
hospital, poucos minutos antes das dez.

-Não! –gritou Ida, horrorizada, e ouviu a mesma reação


do marido. Seus pensamentos se voltaram para Sílvia.
Ainda se lembrava do sofrido Mônica se foi.

-Eu mesma mal acredito –comentou a francesa, com voz


trêmula. –A causa imediata da morte foi a ruptura de
um aneurisma, a parede da artéria que alimentava o
tumor. Pelo menos há conforto em saber que ela morreu
quase imediatamente e sem dor.

Ida não conseguia falar, mal respirava de tão chocada.


A julgar pelo silêncio de Jesse, ele estava no mesmo
estado.

Finalmente tinham uma explicação. Mas isso iria matar


Max. E quanto a Sílvia...

-Eu teria telefonado antes, mas, pouco antes de perder


a consciência, ela disse que não queria que Max ou
Sílvia viesse a Paris. Pediu-me para que acompanhasse o
corpo até Montana, para ser enterrado.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

Agarrando-se ao aparelho, Ida murmurou:


-Sim. Será melhor para Sílvia se você vier. –A pobre
criatura não tinha condições de ir a lugar algum.

-Mônica estava preocupada com a pressão alta de


Sílvia. Então, fiz todos os preparativos para viajar aos
Estados Unidos o mais rápido possível. Dessa forma,
Max e Sílvia poderiam ver Mônica uma última vez e se
despedir.

Ida sentiu as lágrimas rolarem sobre seu rosto.

-O vôo de Salt Lake chegará ao aeroporto de Idaho


Falls às duas da tarde. Talvez, de seu lado, possam
contatar a funerária local para trazer o corpo do
aeroporto e, de lá, possamos viajar juntos.

-Naturalmente –concordou Jesse. Ida mal podia


reconhecer a voz transtornada. –Estamos gratos por
estar a seu lado na hora final. –Então, tossiu, abalado
demais para continuar.

-É verdade –comentou Ida, esforçando-se para se


controlar. –Mônica a amava. Sempre falava de você.
-Minhas duas meninas são muito preciosas. –A voz da
mulher se alterou de emoção.

Ida desejou poder reconforta-la.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

-Sílvia vai precisar de você –incentivou Jesse, limpando


a garganta.

-Preciso dela também. –Após uma breve pausa,


continuou: -E todos nós vamos ajudar o marido de
Mônica.

Exatamente o que Ida estava pensando. Sentiu-se


zonza quando a verdade se tornou realidade em sua
mente.

-Obrigado por nos informar. –Jesse se controlou


novamente. –Vamos encontrar um modo de dar a notícia
a Max e Sílvia.

-Que Deus... os ajude. –A voz de Giselle falhou, e Ida


concluiu que a madrasta perdera toda a compostura.
Quem a condenaria?

-Nós a encontraremos no avião –confirmou Jesse.


Ida ouviu os outros dois telefones se desligarem.
Quando recolocou o aparelho no gancho, sentiu os
braços de Jesse a seu redor. Não falaram nada
enquanto Jesse escondia o rosto em seu pescoço e
chorava como uma criança.

-Oh, Jesse...
Voltou-se para ele e se abraçaram, suas lágrimas
molhando a camisa de flanela.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

Nenhum dos dois percebeu nenhum ruído até que Max


perguntou com voz grave:
-O que aconteceu?

Jesse encarou Ida, lamentoso, antes de procurar sua


mão. Juntos, voltaram-se para Max e Sílvia, que
estavam parados à soleira do estúdio.

Sílvia foi a primeira a romper o silêncio assustador.


-Más notícias. Mi...minha irmã está morta, não está? –
Parecia uma sentença, e não uma pergunta.

Max envolveu-lhe o ombro com o braço e a trouxe para


junto de si. Então encarou Jesse.

-Diga o que tem a dizer –pediu, resignado.


-Acho que seria melhor que os dois se sentassem –
murmurou o capataz.

-Não quero me sentar! –gritou Sílvia. –Por favor! –


implorou.
Ida percebeu que Max empalidecia.

-Pelo amor de Deus –implorou ele –não continuem com


esse suspense.

Jesse procurou apoio em Ida. Respirando fundo,


informou:
-Sílvia, querida... soube a verdade antes de todos nós.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

Sílvia soltou um gemido, e cambaleou contra Max, cujos


olhos pareciam buracos negros num rosto pálido.

-Está me dizendo que Mônica está morta?! –gritou ele.


Ida assentiu, sentindo o coração se partir ao ver a
expressão dele.

-Ela se foi num hospital em paris, pouco antes das dez,


esta manhã, hora local –começou Ida, reproduzindo os
detalhes que Giselle fornecera.

Rapidamente, antes que Max perdesse toda a


compostura, Jesse acrescentou:

-Giselle vai acompanhar o corpo até aqui para o


enterro. Devemos entrar em contato com a funerária
local e esperar seu avião em Idaho Falls, amanhã, às
duas da tarde.

O peito arfando, Max soltou Sílvia, que se sentou na


namoradeira e se aninhou, liberando tais sons de dor
que Ida achou que ela não suportaria.

Como um sobrevivente de terremoto, Max pareceu


cambalear.
-Tome conta de Sílvia. Preciso sair um pouco. –Saiu da
sala a passos largos.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

Ida pousou a mão no braço de Jesse, sabendo que o


marido queria ir atrás de Max. Com voz suave,
aconselhou:
-Ele precisa de um tempo só, Jesse. Mais tarde poderá
reconforta-lo. É Sílvia que precisa de nossa ajuda
agora.

Horas depois, os arroubos violentos de choro


diminuíram. Percebendo que fora deixada só no estúdio,
Sílvia se sentou na namoradeira e afastou o cabelo dos
olhos. Chorara tanto que estavam meio fechados de tão
inchados.

Com as pernas trêmulas, ficou de pé e foi até a


escrivaninha de Max. A foto favorita de Mônica estava
num porta-retrato junto ao telefone. A reprodução
mostrava a irmã sentada sobre uma cerca branca de
madeira, vestida como vaqueira, as botas de caubói
destacando-lhe as longas pernas.

O cabelo avermelhado descia pelos ombros de forma


descuidada e encantadora. Ela sorria e em seu olhar
havia amor pelo homem atrás da câmera. Obviamente,
ele tirara essa foto antes que ela soubesse de seu
tumor.

Sílvia tentou imaginar como teria sido para a irmã saber


da própria sentença de morte. O horror a fez desabar
mais uma vez.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

Como se lhe queimasse os dedos, recolocou o porta-


retrato sobre a escrivaninha e, desesperada, sentou-se
no chão, enterrando o rosto nas mãos.

Mentalmente, reviu o comportamento bizarro de Mônica


no último ano, começando por sua insistência em limitar
suas conversas pelo telefone.

Por causa da lealdade incondicional à irmã, nunca


quisera admitir que se magoara com tais regras. Mônica
nunca a convidara para visitar a fazenda, nem aventara
a possibilidade de levar o marido a Nova York para
conhece-la.

Embora agora tivesse uma explicação parcial das


atitudes horríveis de Mônica, não se sentia aliviada.
Mônica se fora. Nunca veria seu bebê. Nunca teria um
filho seu. A criança de Sílvia jamais conheceria a tia
maravilhosa. Não haveria mais conversas ou risadas.
Nada a partilhar. Nada de companheirismo.

Numa súbita percepção, lembrou que a irmã suportara


esse mesmo tormento agonizante, sabendo que seus dias
estavam contados, esperando pela morte, que poria fim
à ligação que tinham desde o nascimento.

Como um astronauta caminhando no espaço, desprovido


do sistema vital, flutuando para sempre no vácuo, Sílvia
se sentia totalmente desligada de sua vida. Mônica fora

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

o centro de seu universo. Agora, ela se fora, e mais


nada importava.
-Sílvia? É quase meia-noite. Não vai ao menos ir ao
quarto descansar? –sugeriu Ida com gentileza.

-Não. –Sílvia balançou a cabeça. –Aquele era o quarto


de Mônica. Não poderia entrar lá novamente. –Mal
reconhecia a própria voz.

-Certo. Então, vamos apronta-lo para Giselle, e você se


muda para o quarto de hóspedes. Precisa descansar.

-Nunca serei capaz de descansar. Minha irmã está


morta. Mônica está morta.

-Eu sei, querida, eu sei. Chore bastante. Desafogue


tudo.

Quando sentiu os braços de Ida a envolverem, Sílvia


desabou novamente, soluçando.
-Gos...gostaria que eu estivesse morta.

-Eu sei –murmurou a velha senhora, compadecida.


-Por que isso tinha de acontecer?
-Tenho de acreditar que foi desejo do Senhor.

-Não há Deus algum, Ida. Se houvesse, Mônica ainda


estaria viva. Ela me foi tirada. Não posso acreditar.
Não posso acreditar que jamais a verei.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

-Você a verá mais uma vez. Mas não nesta vida.


Sílvia se sentiu enraivecida. Afastou-se de Ida.
-Não vale a pena viver sem ela.

Aos poucos, Max tomou consciência do barulho suave da


água batendo contra o casco, o leve movimento
oscilatório. Por um momento, não sabia como ou por que
estava ali no barco.

Estendeu-se entre os assentos com as roupas que


usara no dia anterior, expostos ao frio e à umidade. A
neve já cobria o pico das montanhas, e já era época de
roupas mais pesadas. Mal havia notado.

Virou-se sobre as costas e abriu os olhos avermelhados.


Com a visão borrada, distinguia uma luminosidade lilás
no céu do lado leste. A aurora se aproximava.
Então, lembrou-se.

Mônica estava morta.


Mais uma vez foi tomado pela dor. Como uma arma de
batalha, abria o caminho por seu corpo, envolvendo seu
coração e alma até que ele imaginasse como ainda podia
respirar.

Na noite anterior, pegara o barco e fora para o lago,


onde poderia extravasar a dor sozinho. Ancorara numa
baía longe de habitações humanas, blasfemou contra
Deus, e contra Sílvia, que ainda estava viva, e contra

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Mônica, que mantivera tudo em segredo. Ela negara a


ambos um tempo precioso, que podiam ter passado
juntos, dez meses preciosos que podiam ter partilhado
antes do fim.

Por que ela o afastara? Por que não se voltara para


ele, seu próprio marido. Significava que lhe faltava
alguma coisa?

Para essa pergunta, nunca haveria resposta. Agonizara


sobre o assunto até que uma garrafa de uísque
estivesse quase toda consumida. Em algum momento,
entregara-se.

Foi quando o som de motor invadiu seus pensamentos


atormentados, quebrando o silêncio, informando que não
estava mais sozinho. Embora estivessem na segunda
semana de setembro e a estação turística já houvesse
se encerrado havia muito tempo, alguns dos pescadores
locais saíram para a pesca matutina.

As ondas provocadas pela passagem dos pescadores


fizeram o barco de seis metros e meio de Max
balançar. A ressaca o deixara com uma dor de cabeça
alucinante, bem como tonto e lerdo.

Praguejou e tentou se equilibrar com esforço. Assim que


enterrasse Mônica, se afastaria das atividades de
agente para ir aos lagos Coffin. Só um demente se

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

atreveria a perturba-lo lá em cima, onde o ar era tão


rarefeito que até dificultava a respiração. Era isso o
que queria: se machucar a ponto de não sentir mais
nada.

Lembrou-se então de que tinha responsabilidades que


não podiam ser adiadas. Tinha de ir ao encontro do
avião de Giselle e tratar dos arranjos do funeral.
Entretanto, no fundo da alma, tinha medo de voltar
para casa.

Por que Mônica tinha de ter uma irmã gêmea? Era a


maneira do Senhor puni-lo por algo que fizera de
errado? Por alguma falha? Se fosse assim, não poderia
ter escolhido melhor forma.

Toda vez que olhava para Sílvia, lembrava-se da


esposa. Amara Mônica até as profundezas da alma.
Viveram como namorados, até aquele dia em que ela
fora a West Yellowstone.

Quando ela finalmente voltara, uma pessoa estranha


habitava aquele corpo e aquele rosto. A transformação
mudara completamente sua vida.

Quando um homem enterrava a esposa, tinha o direito


de rezar por alívio, por perdão. Mas, em nome de
Deus, como esquecer Mônica quando o reflexo dela

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

continuava em sua casa, comendo de sua comida,


dormindo em sua cama? Sua cama...

Atormentado além de sua resistência, puxou a âncora


com movimentos bruscos e desajeitados. Foi até a popa
do barco e deu a partida no motor.

Com o motor em ponto morto, tomou uma aspirina da


caixa de primeiros socorros e engoliu-a sem água. Ficou
imaginando por que o tumor não levara Sílvia. Ela e
Mônica partilharam todo o resto, racionalizou, com uma
raiva amarga que já escapava ao controle.

Num movimento brusco, engatou a alavanca, e o barco


cortou as águas em velocidade máxima. Permaneceu no
controle, pensando, egoísta, na mulher cuja gravidez
era outra amarga lembrança dos filhos e filhas que
nunca teria, agora que Mônica se fora.

Ao contornar o ponto e entrar na baía onde ficava o


atracadouro que ele e Jesse haviam construído anos
ante, outro pensamento se formou, um que enviou um
estremecimento de alarme por todo seu corpo.

Seria possível que Sílvia tivesse o mesmo tumor de


Mônica e não soubesse?

Talvez o desmaio fosse um sintoma da mesma


enfermidade que se mostrara fatal a Mônica. Uma vez

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

que a esposa não quisera contar nada sobre a doença,


ele não fazia idéia dos sintomas que a haviam levado a
procurar um médico em primeiro lugar. Por essa razão,
não sabia nem o nome do médico que primeiro a
diagnosticara.

Como não havia médicos em West Yellowstone, tinha de


admitir que ela procurara um especialista em outra
cidade próxima. De outro modo, não teria tido tempo
de voltar para a casa de Carole na noite do aniversário
de dois meses de casamento.

Perturbou-se profundamente ao se reportar àquela


noite. Dessa vez, porém, uma raiva adicional
acompanhava a recordação, e isso contribuía demais
para destruir cada boa lembrança que tinha dela.

Mais uma vez, seus pensamentos sombrios se ocupavam


de Sílvia. O dr. Harvey não sabia a que atribuir a
pressão alta. Não encontrara nenhuma proteína na urina
que sugerisse toxemia e fora forçado a concluir que se
tratava de hipertensão induzida por gravidez.
Prescrevera alimentação sem sal e bastante repouso.

Era mais que possível que Sílvia fosse uma bomba


ambulante, assim como Mônica. Partes de conversas com
a cunhada invadiram seus pensamentos, e cerrou os
punhos, instintivamente.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

Sílvia mencionara que ela e Mônica tinham sofrido de


apendicite na mesma época. Na verdade, de acordo com
Sílvia, seus históricos médicos pareciam ser da mesma
pessoa.

Não só precisaram de obturação nos mesmos dentes


molares na mesma época, como contraíram catapora na
mesma noite, tiveram o mesmo tímpano rompido na praia
no mesmo verão e tiveram a primeira menstruação aos
treze anos no mesmo dia.

Unidas como eram geneticamente, era presumível que


Sílvia sofreria o mesmo destino da irmã, e logo!

Max fez uma careta e desligou o motor, formando uma


grande onda. Quando chegou ao atracadouro, a dor de
cabeça se transformara numa sensação latejante. Saiu
do barco, amarrou-o, e então pegou a caminhonete.
Tinha de encontrar Jesse.

Dez minutos depois, freou bruscamente ao lado da casa


e pulou da cabine. Aliviado, via que Jesse já saía e
caminhava apressado em sua direção. Quando o amigo
se aproximou, abraçaram-se forte.

-Ida estava ficando preocupada com você –declarou


Jesse, com voz rouca, e bateu em suas costas. –Ela
tomou a iniciativa e telefonou para uma funerária em

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

Idaho Falls. Vão estar lá, à chegada do avião. Está


tudo bem com você?
Max assentiu.
-Muito obrigado.

-Ouça, Max, desconfio que esteve no lago e passou uma


noite péssima. É melhor que ninguém o veja nesse
estado. Vamos voltar ao chalé, e lá você se lava e se
barbeia.

-Está lendo meus pensamentos, Jesse. No caminho,


preciso discutir uma coisa com você. –Foram para o
carro de Max.

-O que foi? –perguntou Jesse, depois que passaram do


portão e entravam na floresta.
-É sobre Sílvia.
Jesse ficou sério.

-Chorou a noite inteira e se recusa a comer ou beber.


Não sei como ela vai se comportar no velório. Se
continuar assim, vai perder o bebê. Estou preocupado.

-Eu também –concordou Max -, mas por um motivo


inteiramente diferente.

Capítulo 07

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

-Giselle!
Ao ouvir a voz de Sílvia, a pequena mulher de cabelo
curto e negro saiu do avião e correu até ela.
-Mon ange...

Meu anjo. Giselle sempre a chamara assim.


Encontraram-se no meio do caminho e se abraçaram.
-Giselle... –Sílvia se interrompeu agarrada à madrasta,
precisando desesperadamente do conforto.

A mulher mais velha ainda usava o mesmo perfume


adocicado, que trouxe de volta antigas lembranças das
três. Sílvia começou a soluçar e não conseguia se
controlar.

-Olhando para você, acho que está chorando há algum


tempo, não é? –murmurou Giselle. –Lembre-se de que
sua irmã está com seu pai e sua mãe. Está em paz.
Você precisa pensar nessa criança agora. Precisa pensar
em Max e em como tudo isso o afeta. Homens não
sabem o que fazer quando uma mulher fica chorando o
tempo todo.

Os conselhos gentis levantaram o ânimo de Sílvia.


Tentou se controlar e ergueu a cabeça para encarar a
mulher que amava.
-E Paul?

Os olhos negros de Giselle se umedeceram.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

-É um homem doente que nunca vai melhorar sem


aconselhamento. Temo que tal eventualidade nunca
aconteça. Parei de escrever e telefonar para vocês
porque não queria aborrece-las com meus problemas.
Entretanto, a chegada de sua irmã me forçou a tomar
uma decisão, e o deixei.

Mas explico tudo isso mais tarde. Me apresente a Max.


Quero conhecer o homem que fez Mônica feliz demais.
Sílvia parou de enxugar as lágrimas.
-Feliz demais?

-É a minha opinião, naturellement, mas acho possível


que ela não pudesse suportar que ele a amasse, sabendo
que tinha um tumor no cérebro. Seria um lembrete
muito doloroso de tudo o que ela iria perder.

-Mas isso não faz sentido, Giselle.

A francesa ergueu as sobrancelhas especulativamente.


-Talvez fizesse para ela. Sabe melhor do que ninguém
como sua mente funcionava. Tem outra explicação?

-Não –sussurrou Sílvia. –Mas ainda assim...

-Não acha que teria feito a mesma coisa se estivesse


no lugar dela?

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Não. Me conheço muito bem. Sou egoísta e muito


covarde para ficar só. Mônica sempre foi a valente. –A
voz de Sílvia estremeceu, e ela começou a chorar
novamente. –Eu... eu não esperava que ela lhe contasse
tudo.

-Non. Ela se concentrou em mim e em meu problema.


Na verdade, não sabia nada sobre sua saúde até que
ela foi internada no hospital após sofrer um desmaio em
meu quarto no hotel.
Quando o médico de plantão chamou um neurocirurgião,
ela foi forçada a me contar a verdade. Tudo aconteceu
tão rápido que ainda estou chocada.
Só tivemos alguns minutos antes que ela entrasse em
coma e morresse. Ela me pediu para traze-la de volta
para você e Max, e é exatamente isso o que estou
fazendo. Agora, não vamos mais deixa-lo esperando.

Caminharam de braços dados.

-Ele vai ficar decepcionado por você também não poder


explicar o comportamento de Mônica.

Em sua mente, Sílvia ainda via o semblante marcado de


Max, a expressão sombria e abatida que perdurara
durante a viagem até Idaho Falls naquela manhã. Uma
vez, quando ele lhe fez uma pergunta, notara a falta
de brilho em seu olhar. A expressão fria correspondia à
sua, com nuances de angústia e raiva.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

-Non, non, mon ange. Se não estiver enganada, Mônica


despedaçou o coração do marido quando optou por
manter em segredo. Mas era decisão dela. Agora, é
fato consumado, e você e Max devem continuar suas
vidas.

Tudo o que Giselle dizia fazia sentido. Mas não aliviava


o vazio imenso que Sílvia experimentava. Sua existência
parecia fútil agora, pois Mônica não estava mais viva.
De alguma forma, de uma maneira infantil, acreditara
que ver Giselle espantaria a dor. Ela sempre lhe
parecera capaz de consertar o mundo.

-Quero que pense em outra coisa enquanto eu estiver


aqui –continuou a francesa. –Quando voltar a Paris,
gostaria de levá-la comigo.
Graças ao seu maravilhoso pai, tenho dinheiro suficiente
em investimentos para comprar um apartamento e viver
confortavelmente.
Você e eu podíamos morar juntas outra vez. Mônica me
contou sobre o homem que mentiu para você, o pai da
criança que carrega.

Ele não é digno de você. Quero ajuda-la a criar o bebê


até que o homem certo surja em sua vida e se case com
você. Enquanto isso, me dará grande prazer ser avó,
mon ange. E acredito que vá ajuda-la.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

Emocionada até as lágrimas ante a generosidade, Sílvia


abraçou Giselle, forte. Mas não respondeu à sugestão.
Não podia pensar além daquele momento, não quando
Max se aproximava, o que significava que o corpo de
Mônica já fora colocado no carro fúnebre.

Ele e os Woods estavam prontos para partir. Tudo o


que ela queria era chegar ao velório e ficar ao lado da
irmã.

-Max –saudou Sílvia, quando ele as alcançou. –Esta é


Giselle Beliveau. Giselle, Max Sutherland, o marido de
Mônica.

Max cumprimentou Giselle com as duas mãos por um


longo tempo. O gesto era demais para Sílvia, que
precisou desviar o olhar enquanto lutava contra as
lágrimas.

-Queria conhece-la já há muito tempo –declarou ele,


calmo. –Mônica adorava você.

-Ela adorava você –corrigiu Giselle, com a franqueza


característica. Sílvia percebeu como suas mãos se
fecharam, como se mal controlasse os movimentos. –Sei
que não acredita, mas é verdade. Senão, não teria se
casado com você, semanas após conhece-lo. Para ela,
foi coup de foudre. Amor à primeira vista.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

A expressão de Max tomou um ar de amargura e


cinismo, aprofundando as sombras abaixo dos olhos.

-Como disse a Sílvia, acho que Mônica o amava demais –


Naquele instante, Max virou a cabeça, mas Giselle não
se intimidou. –Ela encontrou o amor perfeito em você.
Mas quando descobriu que sua vida seria curta, acredito
que seus temores tenham imperado.
Talvez ela estivesse com medo de reconhecer que logo
tudo se acabaria.
Seu amor se tornou doloroso para ela. Além disse,
também temia que você deixasse de amá-la, porque
tinha uma doença fatal e não poderia mais ser a mulher
com quem você se casou.

Sílvia já previa a cara feia de Max e desejou que


Giselle parasse com suas teorias. Não percebia que ele
não acreditava em nada daquilo. Nem ela acreditava.
Pela primeira vez, não era capaz de penetrar nos
motivos do comportamento da irmã.

-Tenho certeza de que ela preferiu deixar que pensasse


que ela não o amava mais. Em sua mente, era melhor
que você guardasse a imagem dela de quando era
completa, ao invés de se arriscar deixa-lo vê-la
definhar.

-Ela lhe disse isso? –Sílvia ouviu Max perguntar, num


tom frio.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Non. Sua preocupação maior era poupa-lo de uma


longa viagem à França. Ela queria vir até vocês.

Sílvia não suportava mais e sabia que Max também não.


-Podemos ir?
Max lançou um olhar à cunhada.

-Não devia ficar de pé tanto tempo. Está se sentindo


bem?

Desde o desmaio, ele vinha mostrando preocupação


notável com seu bem-estar.
-Sim. Só estou ansiosa para chegar ao velório.

Ele estudou seu rosto como se não estivesse


acreditando em suas palavras; então, voltou-se para
Giselle.

-Jesse, meu capataz, já pegou a sua bagagem. Se


estiver pronta, vou leva-las no carro.

Giselle assentiu e deu o braço a Sílvia, enquanto


caminhavam os três para as portas do terminal.
-Que arranjos providenciou?

-Vamos realizar os serviços ao lado da sepultura


amanhã ao meio dia no cemitério de West Yellowstone –
informou Max. –Depois de velarmos o corpo esta tarde,

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A gêmea errada – Rebecca Winters

voltaremos à fazenda. A viagem deve ter sido


cansativa, e Sílvia precisa descansar.

-não é problema seu, Max. Não sou criança. –disparou


Sílvia. –Está falando em ir para casa, e ainda nem
vimos Mônica. Posso decidir ficar lá a noite inteira.

-Não. Isso é exatamente o que não vai fazer –


sentenciou ele, com o tipo de autoridade que ela
imaginava ser-lhe útil como agente. –Estou pensando em
seu bebê. Se não começar a se cuidar, vai ter
problemas.

Como ele se atrevia a lhe dar ordens?

-Acha que alguma coisa mais importa para mim?


Ninguém entende. –A voz falhou, e ela se apressou para
acompanhar Giselle e Max. Mas apenas deu alguns
passos antes de começar a chorar novamente. As
palavras sussurradas de conforto não ajudaram.

-Se ela quiser passar mais tempo com a irmã, ficarei


num hotel esta noite com ela, Max. Iremos a West
Yellowstone amanhã de manhã na limusine fúnebre.

-Agradeço a sugestão, mas, por razoes que não desejo


externar no momento, pois não seria uma boa idéia, a
saúde de Sílvia está em risco. Ela precisa estar em
casa, onde podemos cuidar dela.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Sílvia não podia ouvir mais nada, e correu para o carro.

-Sr. Sutherland?

Max estava conversando com Jesse a respeito de


quando seria a melhor hora para contar a Sílvia que ele
marcara para ela uma consulta com um médico. Ao ouvir
o chamado, interrompeu-se e voltou-se para o diretor.
-Se quiser me acompanhar, mostrarei onde alojamos sua
esposa.

O momento chegara.

Tudo parecia irreal a Max. Ele mal acreditava que ia


ver Mônica novamente naquela estranha situação.
Deixando Sílvia inconsolável num sofá, entre Ida e
Giselle, acompanhou o homem.

A casa funerária tinha várias salas. No final do


corredor, viu uma placa com o nome de Mônica e uma
sensação gelada invadiu-lhe o coração. Dentro da sala
cheia de flores, foi tomado pela mistura de perfumes,
que acrescentava um toque amargo ao pesadelo que
vivera.
Um telefonema ao escritório informara sobre a morte
de Mônica, e parecia que o departamento todo enviara
flores ou telefonara para mostrar solidariedade. Da
mesma forma, a notícia se espalhara rápido entre os

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

amigos e conhecidos em West Yellowstone e nas áreas


vizinhas.

Seus olhos voltaram imediatamente para o caixão num


canto da sala.
Mônica.

Max se sentiu afundar em areia movediça. Com


sentimentos de relutância e temor, deu os passos até
alcança-la.

Por causa de seu trabalho, a visão de uma pessoa morta


não lhe era uma nova experiência, mas aquela era
Mônica.

Solou um soluço carregado de emoção.


Sem perceber a passagem do tempo, fitou a mulher que
roubara seu coração e então o despedaçara.

Sem o espírito a animar-lhe o corpo, teve dificuldade


em reconhece-la. A morte roubara o brilho de seu
cabelo ruivo, e aqueles incríveis olhos verdes estavam
fechados para sempre.

Mônica. Querida Mônica. Porque escolheu sofrer


sozinha? Não sabia o quanto a amava? Porque me
deixou há tanto tempo? Porque não me ajudou? Não me
preparou?

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

Sentiu tristeza ao pensar nas privações que suas ações


proporcionaram. Lágrimas umedeceram seus cílios
novamente, querendo se libertar. Mais tarde, depois de
se entregar à dor, inclinou-se e beijou seus lábios frios
pela última vez.

Adeus, meu amor.

Tocou em suas mãos entrelaçadas rapidamente, então


virou-se determinado e saiu da sala.

Sílvia permanecera fora, aguardando. Quando a viu,


sentiu o coração falhar, e então ficou completamente
imóvel.

Ela o fitou com os olhos verdes umedecidos, o rosto


translúcido de dor, mas ainda assim, vibrantemente viva
e suave ao toque.

Sentiu raiva, chegando próximo ao ódio. Não queria


olhar para ela; não queria ser atormentado por aquele
semblante bizarro. Não queria ser tentado por aquele
cabelo ruivo brilhante. Não queria sentir a necessidade
de se perder em seu perfume.

Quando viu seus lábios estremecerem, sentiu o desejo


insano de acalma-los com um beijo. Mas eram os lábios
errados. Aquela era a gêmea errada.
Deu-lhe passagem.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

Ela o chamou, mas ele não atendeu. Não podia. Naquele


momento, precisava ficar o mais longe possível da
cunhada.

Sílvia sentia como se seu coração tivesse sido arrancado


do corpo. Ao ver a dor no rosto de Max, desejara
conforta-lo por um instante. Mas ao ver os olhos
escuros cheios de raiva, vislumbrou um lado do cunhado
que quase a imobilizou.

Não devia ter esperado do lado de fora. Devia ter


ficado na sala de recepção com Giselle e os Woods.
Talvez Max tivesse se sentido acuado, pois achou que
ela o estava observando. Ele não a conhecia
suficientemente bem para perceber que ela nunca
invadiria sua privacidade.

Queria estar perto de Mônica, mesmo que isso


significasse ficar de pé do lado de fora. Giselle e os
Woods tinham feito o máximo para dar conforto, mas
queria ficar sozinha, e havia pouca privacidade na
pequena casa funerária. Não sabia mais para onde ir, a
não ser o corredor vazio.

Com peso extra no coração, entrou na sala de velório.


Da porta, avistou o cabelo e o rosto de Mônica e ficou
chocada ao ver a irmã deitada tão imóvel.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

Nada lhe parecia real. Nem a irmã, nem a sala pequena


onde o perfume pesado das flores a fazia se sentir
nauseada.
-Remo... –a voz era trêmula –por que fez isso conosco?
Nunca foi cruel em toda a sua vida. Em que estava
pensando? Odeio o que fez. Não posso perdoa-la. Não
vou mais chorar por sua causa. Está me ouvindo?

Alucinada de dor, Sílvia se voltou e saiu correndo da


sala.

Passando pelo salão, correu para fora, procurando um


ar que não estivesse carregado do perfume de flores.
-Vamos, Sílvia. Só mais alguns passos –declarou Max, a
voz grave, materializando-se como que saído do nada.

Ele passou um braço forte ao redor de sua cintura e a


escoltou até o carro, estacionado numa vaga da casa
funerária.

Agradecida pela ajuda, ela se apoiou nele, fraca demais


para protestar. Após ajuda-la a subir, ele fechou a
porta, deu a volta e foi para trás do volante. Deu a
partida no motor.

-Espere. E quanto a Giselle?


-Pedi a ela que fosse para a fazenda com Ida e Jesse.
Ela voltou o rosto para encara-lo.
-Por quê?

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Contarei no caminho –murmurou ele, a expressão pouco


esclarecedora.
-Me contar o que? Pare de me tratar como criança.
Ela ouviu que ele respirava fundo.

-Não é fácil para mim, mas precisa ser dito.

-Se está preocupado com o fato de eu querer ficar


perto de Mônica até amanhã, não precisa mais. Aquela
não era a Mônica de que me lembro.

-Nem eu –sussurrou ele, com tanta emoção que ela mal


pôde suportar.

-Gostaria de não tê-la visto.

-Nós precisávamos vê-la –sentenciou ele. –Ou nunca


acreditaríamos que ela realmente se foi.

-Ainda mal acredito.


-Sílvia...

Ela o interrompeu:

-Não estava me intrometendo agora há pouco. Quero


que saiba disso.
-Eu a acusei?

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Não. –Mas nunca esqueceria a expressão fria em seus


olhos.

-Sílvia, me ouça. Antes de sairmos da fazenda hoje,


marquei uma consulta para você com o dr. Harvey.

-Você o quê?

-Quando chegarmos a Rexburg, vamos parar no


hospital. É por isso que mandei Giselle ir com Jesse.
Ela há está cansada da viagem e não faço idéia de
quanto tempo a consulta vai durar.

Cerrando os dentes, ela disparou:


-Caso tenha esquecido, eu fiz uma consulta há dois
dias, e não gosto da maneira como está tentando tomar
conta de minha vida. Eu decido quando preciso consultar
um médico. Se é assim que você tratava Mô...

Tarde demais para se interromper, arrependida por ter


sequer pensado tal coisa, ela simplesmente improvisou:

-Des...desculpe. Não queria dizer isso. Para falar a


verdade, detesto incomodá-lo, acrescentando mais
preocupações a você. Mônica nos colocou numa situação
difícil e...

-Foi uma coisa boa o que ela fez. –A voz solene estava
vários tons mais baixa. –De outra forma, poderíamos

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A gêmea errada – Rebecca Winters

continuar pensando que sua inexplicável pressão alta,


seu desmaio, nada tivesse a ver com os sintomas de... –
A voz pareceu falhar. –Que você talvez possa ter um
tumor no cérebro também.

Sílvia piscou engasgou. Não porque estivesse com medo


de morrer, particularmente, mas porque, pela primeira
vez na vida, não relacionara o estado de saúde de
Mônica com o seu próprio.
Estivera ocupada demais lidando com as realidades da
gravidez e em como sustentaria o bebê para pensar em
outra coisa. Estava tão confusa que foi preciso Max
alerta-la. Max, que, mesmo na dor da perda, chegara a
uma conclusão que fazia sentido.

-Desculpe por ter sido tão estúpido –declarou ele. –A


idéia me assustou muito também, mas por razoes óbvias
precisava ser dito.

-Não se desculpe. Devia ter me ocorrido assim que


soube dos acontecimentos.

-Se o médico descobrir um tumor, não vou deixar que


morra sem lutar. Mônica me tirou a oportunidade de
fazer alguma diferença. Isso não vai acontecer
novamente –prometeu ele.

-O tumor maligno era inoperável –ponderou Sílvia, em


voz baixa. –Muito provavelmente o meu está em estágio

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A gêmea errada – Rebecca Winters

mais avançado, como o de Mônica, o que significa que


não tenho muito tempo e não há nada que alguém possa
fazer.

-Como pode ficar aí dizendo tais coisas, quando não faz


a mínima idéia se o médico pode ajudar ou não?
Estamos falando sobre a sua vida, Sílvia! E a do seu
bebê! –alertou ele, então acelerou o carro.

Sílvia se retraiu ante a raiva dele enquanto voavam pela


auto-estrada rumo a Rexburg. A placa na estrada
informava que faltavam apenas cinqüenta quilômetros.

Como uma vítima de afogamento, a vida passou na


frente de seus olhos. De repente, ela lamentou:

-É por isso que Mônica queria que trocasse de lugar


com ela! Ela estava com medo de que partilhássemos da
mesma situação fatal. Quando ela descobriu que eu
estava grávida, não queria que ficasse sozinha quando o
fim chegasse, e sabia que você não me daria as costas.
Sílvia o encarou. Tinha certeza de que ele chegara à
mesma conclusão.

-Desculpe se ela o colocou numa posição tão terrível –


lamentou Sílvia. –Talvez em uns poucos dias ou semanas
você se livre de mim e...

-Se disser isso de novo...

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Sílvia engoliu em seco e desviou o olhar, assustada com


a agressividade de seu tom.

-Não sei ao certo o que estava se passando na mente


de minha mulher –comentou ele, com voz menos
ameaçadora do que a de poucos instantes –mas, se ela
acreditava que você sofria do mesmo tumor, acho
inconcebível que não tenha entrado em contato com você
assim que recebeu o diagnóstico, para que procurasse
um neurocirurgião imediatamente.

Sílvia acabara de pensar nisso, mas não queria admitir;


amava Mônica demais e odiava ser-lhe desleal. Então,
outra idéia se formou, uma mais plausível, e se agarrou
a ela.
-Talvez ela quisesse me poupar de meses de sofrimento
inútil.

-Talvez. Nunca saberemos. –Balançou a cabeça. –O que


quer que tenha se passado na mente de Mônica,
qualquer segredo, se foi com ela.

-Se soubéssemos o nome do méd...

-Contratei um investigador para descobrir isso. –Ele


antecipara seus pensamentos mais rápido do que ela
pudera dar vazão às palavras. –Pode levar algum tempo

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A gêmea errada – Rebecca Winters

até que apareça com alguma informação. Mas nada


disso importa agora. Você e o bebê são as principais
preocupações.

O bebê. Oh, meu Deus, o bebê.

Capítulo 08

-Entre, Sílvia. Sr. Sutherland. Sentem-se. Estava à


sua espera.
Max cumprimentou o dr. Harvey.

-Agradecemos por encaixar Sílvia com tão pouca


antecedência.
Max tinha uma capacidade de tomar conta da situação,
mas provavelmente nem se dava conta disso. Não
estivesse tão fraca e confusa, Sílvia teria dito alguma
coisa, mesmo que o embaraçasse na frente daquele
médico compassivo.

-Sílvia, creio que seu cunhado já lhe confidenciou seus


temores.
Ela assentiu, desajeitada.

O médico franziu o cenho e se sentou à escrivaninha.


-Tomei a liberdade de discutir o seu caso com o dr.
Marsh, o neurocirurgião da equipe. Assim que
acabarmos de conversar, você deverá ir à sala dele na

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A gêmea errada – Rebecca Winters

ala leste. –O médico fez uma pausa. –Se nos últimos


quinze meses você não teve problemas médicos
anteriores à gravidez, problemas que possa ter
esquecido de me contar quando levantei seu histórico
médico, então, teria dificuldade em acreditar que você
sofre de um tumor no cérebro.

-Graças a Deus!

Sílvia ficou tocada com a emoção de Max.

-Por favor, não me interprete mal, sr. Sutherland. Há


um fator de probabilidade aqui que diz que Sílvia
poderia partilhar da situação da irmã.
Mas pode não estar num ponto tão avançado, ou pode
estar numa posição que ainda não a tenha afetado. Esse
é o departamento do dr. Marsh.
Infelizmente uma varredura por radiação não é possível
por causa do bebê.

Sílvia estremeceu, não apenas pelo comentário do


médico, mas porque a expressão de Max era desolada.
Não passava de uma farsa desde a noite em que ele
chegara à fazenda e encontrara a ela, ao invés de
Mônica.

O médico olhou para Sílvia.


-O dr. Marsh e eu visualizamos a possibilidade de
submete-la à quimioterapia. Não sabemos quais os

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A gêmea errada – Rebecca Winters

efeitos possíveis, caso ocorram, sobre o bebê. Mas já


está com quase dezessete semanas agora. Não
obstante, tudo parece correr bem e não antevemos
problemas.

-Esqueça o bebê. –interrompeu Max. –Se Sílvia


realmente tiver um tumor, e for operável ou tratável
com quimioterapia, então, precisamos agir agora.

O médico voltou a encarar Sílvia.

-Concordo. Como se sente a esse respeito, Sílvia?

Ela não reconhecia sentimento algum a não ser dor


profunda, desespero e uma sombria falta de esperança.
Devagar, balançou a cabeça.
-Não.

-Não está falando sério. –A voz de Max parecia vir de


muito fundo da alma.
Ela prendeu a respiração.

-Max, agradeço a sua preocupação. Você tem sido


maravilhoso para mim, quando nem precisava sê-lo.
Desculpe por Mônica forçá-lo a sentir uma
responsabilidade totalmente sem garantia por mim. Mas
isto é meu problema, não seu. Se não se importar,
gostaria de conversar com o médico a sós. Por favor,
não se ofenda.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Sílvia percebeu sua raiva e o enrijecer de seu corpo


antes de se levantar e deixar a sala. Ele fechou a
porta com cuidado, informando-a de que se controlava
com muito custo.

Sílvia sentou-se mais na beirada da cadeira.


-Doutor –começou, com voz trêmula –uma vez que eu e
Mônica tivemos o mesmo histórico médico desde o dia
do nascimento, provavelmente há um tumor.
Provavelmente é inoperável, o que significa que não vou
viver muito.

Ele franziu os lábios.


-Não saberemos nada antes de fazer os exames.

-Será uma perda de tempo. Gostaria de estar livre


para comparecer ao enterro de minha irmã amanhã, e
então vou para Paris passar um tempo com minha
madrasta. Ela estava com Mônica no final, e saberá o
que fazer por mim. Quero ser enterrada na França com
meus pais.

Levou algum tempo até que o médico respondesse:

-Posso entender seus motivos e sou simpatizante.


Entretanto, precisa considerar a possibilidade de o
tumor não existir. Você não sofre de dores de cabeça.
Não perdeu a audição, nem teve a visão embaçada.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Mas minha pressão está alta e não sabe explicar por


quê. Quando fiz um check-up em Nova York, não ia ao
médico havia mais de dois anos. Não sei dizer se minha
pressão era normal antes daquela visita.

Ele agarrou o lápis.

-Está relutante, pois está assustada em saber a


verdade. Não a culpo.
Sílvia balançou a cabeça.

-Dr. Harvey, não está entendendo. Já sei a verdade.


Mônica e eu vivemos uma vida unida, dividimos tudo.
Seria anormal se não morrêssemos exatamente da
mesma forma.

Se posso ser grata por alguma coisa –declarou, trêmula


–é por meu bebê morrer comigo e sofrer o mesmo
destino.

Ele franziu ainda mais o cenho e se levantou, enfiando


as mãos no bolso.

-Não é o tipo de conversa que quero ouvir. Meus


instintos como médico dizem que você não vai morrer de
tumor no cérebro. Quero que faça os exames para
confirmar meu diagnóstico.

-Não vai confirmar, você sabe.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Uma coisa que aprendi em muitos anos de prática


médica é que nunca se deve presumir nada. Há muitas
variáveis que devem ser consideradas ao se analisar no
global.

-Não no meu caso.


O sorriso era gentil.

-Percebo que você e sua irmã tiveram uma existência


única. Mas admita que por um instante que você não
partilha da mesma condição fatal.

Sílvia sabia que ele estava tentando dar-lhe esperança,


mas ele não entendia. Ninguém nunca entenderia,
exceto Mônica, e ela se fora.

-Considerando sua pressão alta, não quero que viaje


para lugar algum, e não quero que viva como uma
bomba-relógio em potencial pelo resto da gravidez.
É melhor descobrir já, como sugeriu seu cunhado, assim
sua mente deixará o corpo relaxar, o que diminui a
probabilidade de toxemia. Mas é uma decisão que deve
tomar depois de conversar com o dr. Marsh.

Ele foi até a porta e a abriu bem a tempo de Sílvia


perceber Max lá fora. Irracionalmente, ela se irritou
por ele ainda estar por perto. Mas o que realmente a
aborreceu foi vê-lo conversando com uma enfermeira

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A gêmea errada – Rebecca Winters

como se fosse seu marido e tivesse o direito de discutir


seu caso.

O dr. Harvey encorajou-a batendo em seu ombro.

-Quando acabar com o dr. Marsh, volte para me ver.


-Faremos isso –respondeu Max por ela. Acabara a
conversa com a enfermeira e já os alcançava.

Sílvia passou por eles sem dizer nada. Max planejara a


consulta, insistira em ficar com ela para ter certeza de
que compareceria à sala do neurocirurgião. Se estivesse
sozinha, disse a si mesma, deixaria o hospital sem olhar
para trás.

Max a tomou pelo cotovelo.


-Ele está no fim do corredor, virando aqui. A
enfermeira me disse que o exame só leva meia hora e
não há nenhum desconforto. Vão entregar os resultados
ao dr. Harvey em uma hora. Enquanto esperamos,
podemos jantar na lanchonete.

-Não estou com fome. –Ela começou a caminhar mais


rápido.
Ele a manteve bem segura.
-Eu estou.

-Então, você come, e pare de se preocupar comigo.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-isso é impossível! –murmurou ele, com calma enervante.


–Chegamos.

Antes que ela pudesse protestar, ele abriu a porta da


sala do dr. Marsh e a introduziu.

Se não houvesse tantos pacientes na sala de espera,


Sílvia teria livrado o braço. Encontrava grande
dificuldade em controlar a irritação.

-Sou Sílvia Clarke –anunciou à recepcionista, antes que


Max tomasse a dianteira.

-Oh, sim. Acabamos de receber seu prontuário. Deve ir


lá para trás. Segunda porta à esquerda.
Sílvia se virou para encarar Max.

-Não há necessidade de esperar.

-Mesmo assim, vou ficar –sentenciou ele, sem permitir


recorrência. –na verdade, planejo conversar com o dr.
Marsh antes dos exames. Vamos?

Forçada a conter o ressentimento ante tamanha


interferência, Sílvia caminhou à sua frente de
propósito, de modo que ele não pudesse pegar seu
braço.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Entraram em outro consultório parecido com o anterior.


O médico tivera de encaixa-la entre outras consultas, e
ela achava que teria que esperar bastante. Mas estava
errada.

Assim que se sentaram, um homem magro,


imaculadamente vestido, já com seus cinqüenta anos
para mais, apareceu com seu prontuário. Apresentou-
se, cumprimentou-os e sentou-se à borda da
escrivaninha.

-O dr. Harvey e eu discutimos o seu caso longamente,


srta. Clarke, e, baseados na sua consulta anterior,
acreditamos que não tenha um tumor. Mas achamos
mais seguro que o sr. Sutherland a trouxesse para
sabermos com certeza.

-Se encontrar um tumor, será inoperável como o de


Mônica. Portanto, não vejo sentido.

-É verdade que você e sua irmã tiveram históricos


médicos similares. Mas estudos de casos em gêmeos
idênticos revelaram que, quando se trata de órgãos
mais importantes do corpo, tais como o cérebro ou o
coração, um dos gêmeos pode manifestar um estado
grave que pode inexistir no outro.

-Não tenho razão para não acreditar, doutor, mas não


acho que as estatísticas se apliquem a mim e Mônica.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Porque não enfrentaram nenhuma enfermidade mais


grave.
-Se ela não tem um tumor, então, o que, na sua
opinião, pode ter causado o desmaio? –perguntou Max,
enquanto Sílvia ainda ponderava sobre o comentário.

O médico olhou para Sílvia.

-A ciência médica não pode explicar a extraordinária


ligação mental partilhada pelos gêmeos. De acordo com
o histórico, você sentiu que sua irmã tinha morrido.

Se eu fosse gêmeo e tivesse vivido uma experiência


assim, não tenho certeza de que a dor e o choque,
combinados à alta ansiedade, não me teriam feito
desmaiar também. Mas vamos ver o que diz o exame.

Vou pedir a Mary que a leve ao centro de exames. Sr.


Sutherland, é bem vindo para acompanha-la até a sala
de espera.

Com um sentimento de inevitabilidade, Sílvia ouviu Max


aceitar o convite do médico.
Dane-se ele e seu senso de dever.

Tinham acabado de sair do velório. Max não devia estar


tratando de nada, a não ser aliviar a dor.
Que droga, Mônica. Dane-se por nos deixar nessa
situação.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Max se sentou para esperar e descansou a cabeça


contra a parede, exausto. Tinha a impressão de que mal
fechara os olhos quando ouviu alguém dizer:

-Sr. Sutherland, o médico pediu para que o acordasse.


Sua cunhada está aguardando na sala do dr. Harvey.

Sobressaltado, Max deu uma olhada no relógio. Quase


uma hora e meia havia se passado. O resultado dos
exames já devia estar pronto.

Surpreso por ter realmente dormido, levantou-se e


andou a passos largos através dos corredores, a
ansiedade concentrando-se na boca do estômago. Por
alguma razão, que ainda tinha de entender, a segurança
do bebê e a de Sílvia passaram a ser tudo para ele.
Não podia atribuir seus sentimentos à perda que
experimentara. Não fazia sentido.

Ao entrar no consultório, procurou atento por Sílvia,


mas ela se recusou a encará-lo. Sua pele estava mais
pálida que antes.

Voltou-se para o médico.


-Qual é o veredicto? –exigiu, sem rodeios.
O dr. Harvey sorriu.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-É exatamente como imaginei. Sílvia não mostra sinais


de tumor.

-Graças a Deus. –Seu alívio era genuíno. Max sentia


que podia respirar novamente. Mas quando percebeu que
Sílvia não estava dizendo nada, procurou seus olhos. –O
que foi, Sílvia? Isso significa que vai poder ter o seu
bebê. Vai poder criar seu filho.

-Não é tão simples assim, não é? –respondeu o médico


por ela. Voltou-se para Max. –Não tenho dúvida de que
ela vai dar à luz uma criança saudável, desde que tome
cuidado consigo mesma. M
as, por causa do estresse, temo que a pressão esteja
mais alta que no outro dia. Estou recomendando que,
tão logo o enterro se encerre, ela vá direto para a
cama e fique lá, sem meio termo.

-Vou cuidar disso –decretou Max, ignorando o olhar


furioso dela.

-Ótimo, espero vê-la daqui a uma semana, Sílvia. Fale


com a recepcionista e marque a consulta. Lembre-se:
nada de sal.

Quando Sílvia não respondeu, Max interveio:


-Daqui em diante, vou verificar todo o cardápio com a
caseira.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Despediram-se, e Max acompanhou Sílvia à recepção.


Marcada a consulta, escoltou-a para fora. Estava mais
frio do que quando chegaram.

-O ar-condicionado vai aquece-la em um ou dois minutos


–murmurou ele, dirigindo do estacionamento do hospital
até a via principal. Não tinham ido longe quando viu uma
mercearia e estacionou. –Vou comprar alguma coisa para
comermos. De que gostaria?

-Nada, obrigada. –Ela se mantinha olhando pela janela,


quieta e distante com
o uma estátua.
-Volto já.
Sem perder tempo, Max apressou-se para a loja,
escolheu uvas, maçãs e bananas e colocou num pacote,
pegou alguns refrigerantes sem sódio e passou pelo
caixa, tudo isso em poucos minutos. Sílvia não fez
nenhum comentário quando ele voltou.

Após terem viajado um trecho, ele comentou:


-Precisa comer alguma coisa. Ordens do médico. Senão
vai estar fraca demais para comparecer ao enterro
amanhã. –Mencionou o funeral de propósito para
espanta-la.

Aliviado, viu-a escolher algumas uvas e começar a


come-las.
Alarmado e com raiva daquele silêncio, Max protestou:

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Sílvia, não se feche! Foi exatamente o que Mônica fez,


para nós dois, e você sabe como nos magoou. Não
cometa o mesmo erro. Fale comigo, droga!

-O que quer que eu diga? –Ela se voltou, olhando-o de


forma acusadora. –Que aprecio a maneira como dirige
minha vida?

-É o que estou fazendo? –questionou Max, esforçando-


se para manter o controle. –Teria se importado em
consultar um médico para verificar a pressão por conta
própria?

-Se teria ou não, não é da sua conta. Depois do


enterro, vou para Nova York.

-Ah, não vai mesmo! O dr. Harvey ordenou repouso


permanente.

-Primeiro, tenho de fechar meu apartamento em Nova


York. Depois, vou para Paris.
Paris?

-Acha honestamente que o homem que a engravidou vai


se divorciar e se casar com você? –Ele sabia que estava
sendo cruel, mas não podia evitar.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Não. –A voz dela se alterou, tocando o coração de


Max. –Minha decisão não tem nada a ver com ele. Na
verdade, penso muito pouco em Philippe.

-Então, o que está dizendo?

-Giselle me convidou para morar com ela.


Ele fechou o punho no volante.

-Está fora de questão. Ela acaba de largar o marido, e


vai ser obrigada a enfrentar Paul Beliveau quando voltar
a Paris.
A vida dela vai ser conturbada, não importa o que ela
decida fazer depois.
Não é ambiente para você. Talvez, mais tarde, depois
que o bebê nascer e você estiver de volta ao normal,
quando as coisas estiverem mais assentadas para ela,
de um jeito ou de outro, você possa fazer uma visita.
Mas agora, não vai viajar a lugar algum.

O médico proibiu viagens aéreas até a sua pressão


voltar ao normal.
Ouviu-a respirar fundo.

-Não me importo com o que o médico diga. É a minha


vida.

-Não é mais –nocauteou Max. –Está carregando uma


criança que por acaso é minha sobrinha ou sobrinho.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Esse bebê era tão importante para Mônica que ela a


mandou para a fazenda, onde sabia que cuidaríamos de
você. Está querendo fazer pouco caso dela? É dessa
forma que pretende honrar a memória de sua irmã? –
Quis matar o ponto, ignorando completamente a
crueldade das próprias palavras.

-Como se atreve a dizer isso a mim?

-Me atrevo porque você não está pensando claramente


agora. Não sabe o quanto é abençoada por não ter
aquele tumor? Vai ter a oportunidade de dar à luz!

-Você quer dizer que vou ter a oportunidade de dar à


luz uma criança que sempre quis ter com Mônica! Por
que simplesmente não admite? Não se conforma por eu
estar viva, ao invés dela!

Max ficou em silêncio por um segundo.

-Pode ter sido verdade, quando a dor era muito grande


–admitiu ele, com honestidade –mas não é mais esse o
caso. O que quer, Sílvia? Quer fazer disto uma
tragédia grega? Não se importa com ninguém além de
você mesma?

-Me deixe sair do carro!

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Esqueça. Se está querendo se suicidar, não vou deixa-


la levar isso adiante. Temos de enterrar Mônica
amanhã, e então, você vai para a cama e não vai sair
de lá.

-Não pode me forçar!


-Não me tente.

-Odeio você. Não consigo imaginar o que Mônica viu em


você.

-Obviamente não o suficiente.

-Bom Deus, Max. Não quis dizer isso. –Sílvia sentia-se


como que saindo de um transe, num arroubo de
desespero e falta de esperança. –Não sei o que está
acontecendo comigo, o que estou dizendo.

Ela sabia que tinha sido horrível com ele, mas as


palavras pareciam se despejar sem critério. Não tinha o
direito de trata-lo daquela forma. Era um homem que
sofrera também. Um homem excepcional, e que estava
sendo maravilhoso com ela.

E tudo o que ela fizera em troca fora atirar a raiva


contra ele. Limpou as lágrimas e desviou o olhar,
humilhada por seu comportamento pouco característico.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Vamos concordar que nenhum de nós está bem –


resmungou ele. –Agora, sugiro que comece a comer e
beber, ou encosto na estrada e a forço goela abaixo.

-... e assim, dedicamos o túmulo de nossa querida


falecida, Mônica Clarke Sutherland, pedindo a bênção
de Deus para protege-la dos elementos até o dia
glorioso em que todos se erguerão triunfalmente do
túmulo e se unirão na glória de Nosso Senhor. Amém.

Um grupo grande se reunira. Tantas pessoas que Sílvia


não conhecia, incluindo o pastor que conduzia os
serviços dominicais na Capela dos Pinhos em West
Yellowstone e que casara Mônica e Max.

Carole Larsen, uma amiga chegada de Mônica e quem


Sílvia gostara de imediato, foi a primeira a jogar uma
rosa sobre o caixão azul-claro que Max escolhera.
Azul-claro era a cor favorita de Mônica.

Um por um, todos fizeram sua homenagem. Depois que


Ida e Jesse se despedira, foi a vez de Giselle. Então,
Sílvia posicionou sua rosa. Estava tremendo tanto que
Max teve de ampara-la nos últimos passos.

-Remo –sussurrou ela, ainda chocada com a idéia de a


irmã estar deitada naquele caixão. –Prometeu que nada
iria acontecer a você. Mentiu para mim. Que farei sem

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A gêmea errada – Rebecca Winters

você? –De repente, as lágrimas que estivera retendo se


manifestaram.

-Sílvia... –A voz de Max ressoou em sua alma. Sentiu


seu braço ao redor da cintura quando ele começou a
conduzi-la para longe do túmulo.
-Não. Ainda não.

-Precisamos encerrar, Sílvia. Então, vamos voltar –


sussurrou ele, implorando.

-Não podemos deixa-la ir para aquele chão frio e


escruto. Não posso suportar. Papai sempre a chamava
de sua garota brilho do sol.

-Ela está com seus pais agora. O sol está brilhando lá,
eu juro. Ela está feliz.

-Como sabe? –Choramingou ela, num tom lamentoso,


agarrando-se à lapela do terno.

Quando o encarou, os olhos negros refletiam sua


agonia. Foi a última coisa de que se lembrou antes que
tudo ficasse negro.

-Oi!
Philippe assentiu ao rapaz de camiseta que abrira a
porta da gerência.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Se está aqui por causa da vaga –informou o rapaz -, o


único apartamento disponível foi alugado há uma
semana.

-Non, non. Estou procurando alguém. Sílvia Clarke.


-Fala daquela ruiva de pernas longas?
Philippe limpou a garganta.

-Sim. Ela ainda mora aqui?


-Mora.

-Não consegui falar com ela pelo telefone.


-Ela não está na cidade.

-Sabe como posso entrar em contato com ela?


-É parente?

Ainda que tivesse vontade de mentir, Philippe não se


atreveu.

Já tinha havido muitas mentiras. Nunca saberia se


Delphine já estava a par de seu relacionamento com
Sílvia. Seria típico dela não dizer nada e sofrer em
silêncio.

-Non. Ela é uma amiga muito chegada.


-Então, não posso lhe dar essa informação. Mas se
quiser deixar uma carta, vou providenciar para que
chegue a seu endereço.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Philippe balançou a cabeça.


-Está certo. Sabe quando ela deve estar de volta?
-Não. Se ela perguntar, quem a esteve procurando?
-Não importa. Obrigado por sua atenção.
-Disponha.

A porta se fechou no rosto de Philippe.


Não fora a Nova York a trabalho; Sílvia era a única
razão para aquela viagem rápida. A censura de George,
juntamente com sua própria reprimenda, o mantiveram
acordado várias noites, até que a consciência o forçasse
a tomar alguma atitude quanto à dor que lhe infligira.

Queria pedir desculpas, se explicar. Implorar seu


perdão. Vê-la uma última vez, uma voz interior se
manifestou.
E então o quê?

A menos que se divorciasse da esposa, que ainda amava,


não tinha direito a nada de Sílvia, nem mesmo de revê-
la.

Não havia solução sem corações partidos, percebeu com


tristeza, enquanto se forçava a descer as escadas
pensando em tomar um táxi.

Ela provavelmente iria ao apartamento da próxima vez


que viesse a Nova York a trabalho. Talvez, então, já
teria decidido se seria melhor deixar tudo como estava.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

No entanto, quando um táxi surgiu no tráfego intenso, a


decepção por não vê-la se intensificou tanto que teve
que admitir que não estava preparado para tira-la de
sua vida.

Toda vez que a porta do quarto de hospital se abria,


Sílvia temia que fosse Max. Quando Giselle entrou,
sentiu a tensão se dissipar.

-Mon ange... –lamentou a madrasta, com preocupação


maternal. –Ainda está tomando soro? Tinha esperança
de que estivesse comendo alguma coisa hoje.

Sílvia virou a cabeça para a janela para evitar a


censura da madrasta.
-Não tenho fome.

-Mas você precisa comer! –Giselle parecia escandalizada


–está magra demais e o bebê precisa de alimentação.
Como posso partir com você assim?

-Partir? –Sílvia sentiu o coração se acelerar em alarme,


e se soergueu na cama do hospital para agarrar a mão
de Giselle. –Mas só está aqui há duas semanas. Não
pode ir!

Giselle ergueu a mão e acariciou seu rosto.


-Não quero ir, mas meu visto vence em três dias.
Depois que Mônica morreu, não fosse a ajuda de um

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A gêmea errada – Rebecca Winters

funcionário da embaixada que era amigo do seu pai, eu


não teria conseguido providenciar tudo para minha vinda
em tempo hábil.

Sílvia não percebera que a viagem de Giselle a Montana


tivera de ser especialmente providenciada. Aceitara a
presença da madrasta como divina: ainda assim, não
conseguia acreditar que ela partiria.
-Me deixe voltar com você.

-Não há nada de que gostaria mais, mas no momento


precisa ficar na cama e recuperar suas forcas. Esse
descanso tem sido bom para você. Eu sei, porque sua
pressão vem caindo. Estou satisfeita com isso. Agora,
se começasse a comer, voltaria contente. Não percebe
o quanto Max está preocupado?

-Max não tem nada a ver com minha vida!


Lá estava ela novamente, dizendo coisas sobre Max que
realmente não desejava. Mas parecia não poder se
conter.

-Não é como ser rude com qualquer um –lembrou


Giselle, censurando com gentileza. –Porque insiste em
mantê-lo afastado?

Sílvia foi salva de ter de responder, com a chegada do


dr. Meyers, o psiquiatra que a acompanhava. Ele pediu
a Giselle para que os desculpasse enquanto conversava

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A gêmea errada – Rebecca Winters

com a paciente a sós. Sílvia abominava vê-lo quase


tanto quanto a Max.

-Vou estar lá fora quando acabar, ma chèrie. –Giselle


se inclinou para beijar o rosto de Sílvia, e então deixou
o quarto.

O dr. Meyers era um homem tão alto que, quando se


sentava na cadeira ao lado da cama, Sílvia tinha a
impressão de que ele ainda estava de pé.

-Li uma transcrição da conversa que teve com o dr.


Harvey no dia em que veio para os exames, e descobri
algo que precisa ser esclarecido.

Ela não tinha escolha senão ouvir.


-Sílvia, está querendo perder o bebê porque acha que
ele vai crescer e ter um tumor como o que vitimou sua
irmã?

Ela estava tão espantada com a perspicácia que não


pôde dizer nada e simplesmente desviou o olhar.
-Não vai acontecer, Sílvia. O tipo e a localização do
tumor de sua irmã era muito raro, um caso em vários
milhões de nascimentos.
Seu bebê é produto de você e do pai da criança, não de
sua irmã. Além disso, todos os exames que fizemos
indicam que está carregando um bebê normal e
saudável.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Essas palavras trouxeram tal alívio a Sílvia que ela não


conseguiu reter as lágrimas.

-Vo... você me deixa envergonhada. –Ela quase


engasgou ao dizer. –Por favor, não diga nada a ninguém
que eu... que eu disse aquilo.

-Não digo. Mas vou fazer um trato: você começa a


comer, e esquecemos toda essa conversa.
-Feito.

-Mais uma coisa. Não acha que já é tempo de parar de


punir seu cunhado?

A pergunta a espantou de repente, a maneira com que


ele deduzia seus pensamentos e ações parecia
excepcional. Sabia que dissera coisas horríveis a Max,
e que não podia mais retira-las. Ele não merecia nada
daquilo.

As lágrimas rolaram por seu rosto.


-Estou tão envergonhada de mim mesma, dr. Meyers.
Não sei por que venho tratando-o tão mal.

-É muito simples. Uma parte sua o culpa por ter


roubado Mônica de você. Você admite que a longa
separação de sua irmã a levou a se envolver com
Philippe. Parece razoável que Max fosse um obstáculo à
intimidade que você e Mônica possuíram um dia. De

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

forma indireta, você o culpa por sua gravidez


problemática, pois isso impediu que estivesse com sua
irmã quando o fim chegou.

Sílvia escondeu o rosto nas mãos.

-Tem razão. Mas há mais coisas ainda. Sinto-me


culpada sempre que ele está por perto.

-Porquê você acha que ele a odeia por estar viva ao


invés de Mônica?

-Sim! – gritou ela. –Como sabe? –Um soluço descontrolou


seu corpo. –Toda vez que ele faz algo gentil para mim,
não posso suportar, porque lá no fundo sei que ele se
ressente. Não sabe como ele me olhou, como ele falou
comigo na noite em que veio para casa e me encontrou
no lugar de Mônica. Foi horrível.

-Não duvido. –murmurou o médico.

-É por isso que prefiro ficar no hospital. Tenho medo


de voltar à fazenda e ser uma... farsante.
-Não a culpo por se sentir assim. O que me contou faz
sentido.

Ela ergueu o rosto transtornado.


-Faz?

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Sim. Dadas as circunstâncias, tenho certeza de que


em alguma época ele tenha realmente odiado o fato de
você estar viva, e a esposa, morta.

-Ele quase chegou a dizer –admitiu ela, desolada.

-E é porque é uma pessoa intuitiva, provavelmente


captou esses sentimentos sem que ele expressasse. Sua
reação natural foi erguer uma defesa. O que precisa
entender é que a raiva dele foi normal e natural, assim
como a sua foi.
Mas aquelas são emoções transitórias. Não perduram.
Deixe-me contar-lhe alguma coisa sobre a dor. Depois
do choque, do desespero e da dor vem a raiva. É um
passo necessário no processo de cicatrização. Já posso
lhe adiantar que está superando a pior fase. Hoje, você
fez progresso de verdade: admitiu seus sentimentos
para mim. Com o tempo, você e seu cunhado vão aceitar
o que aconteceu e continuar suas vidas.

-Max contou-lhe isso?


-Não. Ele não precisava.

-Doutor, como posso me redimir com ele?

-Se conversar com ele, assim como está conversando


comigo agora, ajudaria em sua recuperação. O homem
esteve no inferno. Perdeu a esposa, uma mulher de
quem esteve separado por quase um ano sem saber por

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A gêmea errada – Rebecca Winters

quê. Você é toda sua família agora, a única pessoa que


entende o que ele está passando e que pode lhe dar o
tipo de conforto de que necessita.

Ao invés disso, nas duas últimas semanas se recusou a


vê-lo ou mesmo a conversar com ele pelo telefone. Seu
amor por sua irmã é tão estanque que se esqueceu de
que outras pessoas estão feridas também.

Ele não tem a quem recorrer para superar isso tudo.


Naturalmente, vai superar tudo, no devido tempo. Mas
você poderia acelerar o processo.

Sílvia mal conseguia engolir em seco, sentindo um nó na


garganta.

-Estou men sentindo um monstro.

-Não um monstro, mas um ser humano que partilhou um


relacionamento único com sua gêmea. Não sei como é
isso, mas estudos de casos provaram que as ligações
são mais profundas do que com outros irmãos. Conversei
com sua madrasta.
Aparentemente, ela tentou ajudar você e sua irmã a
aprender a levar vidas separadas e encontrar a própria
individualidade.
Você deu um passo nessa direção, e o bebê que está
esperando vai mudar sua maneira de ver as coisas mais
uma vez. A pergunta é: você quer mesmo essa criança

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A gêmea errada – Rebecca Winters

para fazer tudo o que puder para salvaguardar seu


bem-estar? –Ele se levantou da cadeira. –Pense nisso, e
me dê uma resposta amanhã.

Capítulo 09

Quando o telefone tocou, Ida acabara de colocar o


último copo na máquina de lavar pratos. Pegou o
aparelho da parede.
-Fazenda Sutherland.
-Alô, Ida.

-Sílvia? –Ida não estava acreditando. Era a primeira


vez que Sílvia ligava desde que fora internada.
Certamente queria falar com Giselle, que estava
arrumando as malas para viajar para a França no dia
seguinte. –Como está, querida?

-Tirei o soro e comecei a comer regularmente. Estou


começando a me sentir melhor.

-É a melhor notícia que temos desde há muito, muito


tempo.

-Obrigada, Ida. Você e Jesse têm sido maravilhosos


para mim. Obrigada pelas flores lindas e as palavras
cruzadas, e a camisola nova e os livros.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Ida sentia a sinceridade da jovem mulher, e sentiu


lágrimas nos olhos. Só gostaria que o agradecimento
incluísse Max. Era com ele que Ida e Giselle estavam
começando a se preocupar agora. Jesse também se
preocupava, só que falava a respeito.

-Era o mínimo que podíamos fazer.

-Foi demais. Mais do que mereço depois da forma como


agi.

-Querida, você estava sofrendo. Devia ver como fiquei


após a morte de minha mãe. Jesse quase me deixou.
-Verdade?

-Se não me acredita, pergunte a ele.

O comentário fez Sílvia rir de leve, pela primeira vez


após tanto tempo. A caseira queria ouvir a irmã de
Mônica rir novamente, quanto antes, melhor.

-Ida –chamou Sílvia, num tom sério –Max está em casa?


A caseira agarrou o aparelho com as duas mãos,
excitada.

-Não. Ele foi levar uma ordem judicial, mas tem


telefone no carro. Quer anotar o número?
Houve uma breve pausa.
-Acho que ele vai se aborrecer se eu o incomodar?

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Ida quis dizer umas poucas e boas para Sílvia Clarke.


Àquela altura, porém, estava agradecida demais com a
quebra do silêncio para desencorajar a tímida
reaproximação entre Sílvia e Max.

-Imagine! Está anotando?


-Sim.
Ida lhe deu o número.

-Se ele não atender de imediato, significa que parou


para um café. Continue tentando e vai falar com ele.

-Entendi. Obrigada. Como lhe disse no dia em que


cheguei à fazenda, você e Jesse são uns anjos. Vejo
vocês em breve.

Assim que recolocou o fone no gancho, Ida foi


apressada para a garagem, onde Jesse estava
consertando a caminhonete. Não podia esperar para lhe
contar as boas novas.

Max conduziu a caminhonete pelas estradas tortuosas


entre os pinheiros até avistar a saída para o chalé
Burton. Bem antes de tomar a estradinha, viu Taylor, o
vizinho, no telhado fazendo os reparos anuais antes que
a próxima tempestade chegasse, levando neve às
regiões mais baixas.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

No ano anterior, ele caíra do telhado, mas o acidente


não o impedira de realizar a tarefa novamente. Max
não conhecia outro homem que trabalhasse tanto, ou
que tivesse tanto gosto pelo trabalho.

Assim que viu Max, o ancião acenou.


Max parou o carro e saiu.

-Não sabe quando é hora de parar? Mais alguns minutos


e terei de voltar meus faróis para você.

A risada de Taylor ressoou pela floresta, espantando


uma família de esquilos.

-Não vou descer enquanto não acabar. O que o traz


aqui? E aliás, como tem passado? –perguntou ele. –
pensei que talvez quisesse sair um pouco, ir pescar ou
algo assim.

Max pensara naquilo também. Mas não podia ir a lugar


algum, não com Sílvia à beira de um ataque nervoso,
recusando-se a ver todo mundo, exceto Giselle, e com
Giselle partindo no dia seguinte.

Senhor! Temia o dia seguinte e o que aconteceria a


Sílvia quando soubesse que a madrasta fora lhe dizer
adeus. No fundo, crescia o medo de que Sílvia pudesse
nunca deixar o hospital.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Jamais enfrentara uma situação assim.


-Decidi que é melhor me manter ocupado –declarou.
-Está aprendendo. Então, o que é que há?

-Sua esposa ligou para o xerife. Ela quer que você ligue
para Salt Lake. Já que tinha um serviço na fazenda
Reardon, me ofereci para trazer o recado.

-Obrigado, Max. Assim que acabar, pego o jipe e vou


telefonar.

-Quer que segure aquilo que chama de escada enquanto


desce?

-Não, obrigado. Vou continuar trabalhando ainda mais


um pouco.

Max acenou.
-Cuide-se, Taylor.

-Você também. Quando minha esposa vier me ajudar a


fechar o local, chamamos você para um cordeiro.

-Vou cobrar –murmurou Max, subindo no carro.

Deu ré até a estrada na floresta, os pensamentos tão


atormentados que quase bateu num porco-espinho que
vagava no meio do caminho. Teve de frear brusco para
evitar um acidente.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

O motor morreu, e esperou um minuto, antes de tentar


novamente. Não pegou. Quando ouviu o telefone do
carro, pegou o aparelho, praguejando porque afogara o
moto.

-Sutherland falando.
-Ma... Max? –indagou uma voz feminina, meio rouca,
hesitante.

Surpreso, ele exclamou:


-Sílvia?
-Sim. Está ocupado? Se estiver interrom...

-Sílvia –Ele a cortou impaciente, sentindo a adrenalina


subir. –Que ocupado! O que foi? Deve ser sério para
estar me procurando.

Ela era a última pessoa que esperava que chamasse,


especialmente no telefone do carro. Jesse ou Ida
deviam ter dado o número. Passou a mão pelo cabelo,
prevendo o pior.

-Aconteceu alguma coisa com você? Com o bebê?


-Não. O bebê está bem. Estamos os dois bem. Estou
telefonando para dizer que o médico me tirou do soro
e...
-Isso significa que começou a comer –interrompeu ele,
mal acreditando no que estava ouvindo.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Sim. E, desde que não saia do carro, ele permitiu que


fosse com você quando levar Giselle ao aeroporto
amanhã.

A mudança na voz, na atitude, o deixou atônito.


-Quando ele lhe disse isso?

-Esta tarde. –Sílvia parou para respirar. –Disse que me


liberaria pela manhã, desde que voltasse para a
fazenda, e ficasse lá até o bebê nascer. Acha que pode
me agüentar tanto tempo?

A pergunta pareceu remover uma pesada carga que ele


nem sabia que estava carregando.

-É o que mais quero, Sílvia. Somos uma família.

-Somos –confirmou ela, com a voz trêmula. –Se puder


me perdoar por ter sido tão desagradável, gostaria de
recomeçar tudo e que fôssemos amigos.

Ele mal podia acreditar na mudança.


-Digo amém.

-Max... Percebo que nao nos conhecemos na melhor das


circunstâncias, o que é uma vergonha, pois quis
conhece-lo assim que Mônica me falou sobre você. Ela
lhe contou que me telefonou do quarto de motel na noite

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A gêmea errada – Rebecca Winters

em que vocês se conheceram num bar qualquer em


Jackson?

Ele sentiu um nó na garganta.


-Não.

-Bem, ela ligou. Acordou-me às quatro da manhã para


me dizer que encontrara o homem com quem se casaria.
-Aconteceu rápido. –Pela primeira vez em quase um ano,
era bom recordar.

-Sabe, Mônica e eu costumávamos ter essa fantasia


sobre dois xeiques do deserto, bonitos e poderosos,
irmãos naturalmente, entrando em nossas vidas e nos
arrebatando para suas tendas no Saara.

Moraríamos lado a lado e criaríamos nossas famílias e


seríamos extremamente felizes para sempre. Foi um
grande choque para nós duas quando o xeque que roubou
seu coração se transformou num tipo que usava botas e
caubói e andava armado e morava em Montana.

Max riu alto.

-Entre outras coisas, Mônica me contou o quanto


gostava de ouvi-lo rir. Agora entendo por quê. Dizia
que seus olhos ficavam com a cor mais linda...
Ele balançou a cabeça.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Devo me atrever a perguntar sobre que mais


conversaram?

-Se está intrigado. Bem –ela disse –vou fazer uma


citação: “Rômulo, estava sentada no bar ouvindo uma
ótima banda, quando esse deus entrou. Não pude
acreditar. Minha fantasia em carne e osso! Tinha tanto
medo que ele desaparecesse que fui em sua direção;
assim, ele não poderia deixar de me notar”.

Max soltou uma risada profunda.

-Era impossível deixar de nota-la.

-Obviamente –declarou Sílvia, num tom divertido que ele


não reconheceu. Na verdade, tinha dificuldade em
relacionar aquela mulher desinibida à Sílvia que levara
para a emergência depois de um desmaio, havia duas
semanas. –Vou contar outro segredo.
Ele ainda sorria.

-Qual é?

-Ela nunca tinha andado a cabalo antes de conhecer


você. Então, quando você marcou um encontro para
cavalgarem no dia seguinte às dez, ela providenciou uma
aula particular com um professor local às sete, assim,
não o decepcionaria.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Ele riu novamente, encantado em saber que Mônica


chegara àquele ponto para agrada-lo.

-Já que estou falando há tanto tempo, vou contar mais


um segredo e deixar o resto para outra ocasião.

-Sou todo ouvidos. –Max não queria que a conversa


acabasse.

-Ela jurou que extrairia uma proposta de casamento de


você dentro de quarenta e oito horas após o passeio a
cavalo.

-Na verdade, levou vinte e quatro. Ela subestimou o


poder que tinha sobre mim.

-Estou tão contente. Ela ficaria arrasada se você não


correspondesse aos seus sentimentos. Você era sua
grande passion.

Ele respirou fundo.

-Obrigado por partilhar. Não sabia o quanto precisava


ouvir isso.

-Oh, há muito mais que poderia lhe contar –atiçou


Sílvia, maliciosa. –No futuro, quando estiver com ar
melancólico, vou lembra-lo de quanto ela o amou e citar
outras passagens.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Ele ficou emocionado e por um momento não conseguiu


falar.
-A que horas devo estar pronta amanhã? –perguntou
ela.
Ele limpou a garganta.

-Oito e meia. Giselle precisa estar em Idaho Falls às


nove e meia. O avião parte às dez e vinte. Sílvia... sei
que vai sentir falta dela.

-Terrivelmente. Mas sempre há o telefone. Sei que não


vai me deixar pagar a hospedagem, mas tenho dinheiro
suficiente para cuidar das contas de telefone. Pelo
menos, me permita isso.

Conforme previsto, houve uma tempestade de neve


durante a noite, muito típica no meio de outubro em
Montana. Max dirigia com mais cautela do que o usual,
pois não queria preocupar Giselle; como resultado,
chegaram a Rexburg atrasados em relação ao
esquematizado.

Assim que deixaram a floresta, entretanto, a neve


caía quase como chuva, e ele poderia tirar o atraso até
Idaho Falls.

Estacionou na entrada principal do hospital, onde alguém


da equipe de enfermeiras traria Sílvia numa cadeira de

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A gêmea errada – Rebecca Winters

rodas. Pedindo a Giselle para que permanecesse no


carro, entrou apressado levando uma capa de chuva de
Mônica.

-Max? Estou aqui.


Ao ouvir a voz de Sílvia, Max estacou e voltou-se.
Não estava preparado para a visão que o aguardava.
Nem seu coração, que bateu contra o peito, e a dor
recomeçou.

Sabia que ela não fizera de propósito. Nem estava


usando um dos vestidos de Mônica. Mas o cabelo ruivo-
dourado brilhante que ele tanto amava caía sobre seus
ombros exatamente do mesmo jeito.

Os mesmos olhos lindos refletiam a cor do vestido, um


vestido que insinuava a forma espetacular de seu corpo.
O mesmo sorriso que o deixava trêmulo de desejo.

Fechou bem os olhos, mas nada podia bloquear a


lembrança daquele sorriso, daquela boca, do gosto, da
maneira com que respondia a seus beijos...

Desde o telefonema de Sílvia na noite anterior, ele


conseguira ter sua primeira boa noite de sono em
meses, talvez no ano. Acordara pela manhã com um
novo senso de direção, algo que perdera havia muito.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Mas, olhando para ela, via duas mulheres. Uma delas,


que, numa noite de verão havia mais de um ano, mudara
sua vida para todo o sempre.

A outra era a mulher grávida que encontrara em sua


cama três meses antes, uma mulher sensacional que, de
algum modo, penetrara em sua pele e estava lá para
ficar. E agora, que Deus o ajudasse, não sabia o que
fazer.

Era agonia numa outra dimensão. E, a julgar pelo modo


como ela alterou a expressão dos olhos, confusa, sabia
que arruinara a oportunidade de um recomeço.

-Não esperava encontra-la pronta e aguardando a nossa


chegada. –Ele podia ouvir a própria voz. Parecia
distante e pouco amistosa mesmo a ele, mas não
conseguia fazer nada para melhora-la.

Sílvia tomou uma expressão indiferente.


-O dr. Harvey queria deixar toda a papelada em ordem
antes de você chegar, assim, poderia me liberar mais
rápido.

-Estou contente. O tempo está ruim. –Ele firmou a


cadeira enquanto ela se levantava, então, ajudou-a com
o casaco. –Vou procurar alguém para levá-la até o
carro.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Estava começando tudo novamente e nem tinham saído


do hospital.
Sílvia explicara ao psiquiatra, o dr. Meyers, como era
difícil ignorar a dor de Max toda vez que ele olhava
para ela. Podia afirmar que ele desejava que Mônica
fosse a sobrevivente. Era o mesmo olhar que ele lhe
lançara no velório.

O médico a aconselhou a não reagir, prometendo que,


com o tempo, isso aconteceria com cada vez menos
frequência.

Em teoria, ela sabia que ele tinha razão. Depois da


conversa ao telefone com Max, ficara mais otimista em
relação ao futuro. Mas, naquele momento, ele a fazia
sentir vontade de se esconder num buraco e
desaparecer.

Com o canto dos olhos, observou que ele trazia o


enfermeiro até a porta, onde ela estava. O rapaz se
aproximou da cadeira de rodas sorrindo.

-Bom dia. Vejo que está pronta para sair. –Olhou-a


apreciativamente. –Acho que não quer ficar aqui mais
um pouquinho, não é? –gracejou o rapaz.

Ele precisaria ser cego para não perceber que ela


estava grávida, o que fez a brincadeira parecer ridícula
e ela deu um sorriso torto. Mas, aparentemente, Max

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A gêmea errada – Rebecca Winters

não achou graça nenhuma. Franziu o cenho


abertamente.
-Estamos com pressa, então, se não se importa...
-Não, senhor.

Sílvia baixou o olhar, imaginando como o “senhor” se


adequava bem a Max, e se sentiu despachada do
hospital.

Felizmente, Giselle conseguiu dispersar um ponto da


sobriedade de Max durante o trajeto até Idaho Falls.

Não chegaram muito cedo ao aeroporto. Sílvia saiu do


carro para abraçar a madrasta, beijando-a nas faces.
Mas a barriga ficou entre elas, motivo de muitos risos.
-As roupas de grávida são muito elegantes, como você.
-Obrigada, minha querida Giselle.

-Mon palisir, chérie. –Sem hesitar, Giselle deu tapinhas


na barriga de Sílvia. –Esse é o tipo de ganho de peso
que gosto de ver. –Os olhos âmbar percorreram Sílvia
com orgulho materno. –Você está magnifique. Melhor do
que eu mesma esperava.

-Minha pressão baixou.


-Grace à Dieu. –Fez o sinal da cruz. –Então, não faça
nada para que ela suba novamente, certo?

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Ela não vai fazer –interrompeu Max, num tom que não
permitia contra-argumentação. –Vou cuidar disso.

-Então, posso partir tranquila. Obrigada do fundo do


meu coração por tudo o que tem feito. –Giselle ficou na
ponta dos pés para beija-lo em ambas as faces, e
então, virou-se novamente para Sílvia.

-Mon ange, só mais quatro meses e estaremos juntas.


Estarei com um quarto preparado para nosso petit
enfant.

Sílvia assentiu e agarrou as mãos da madrasta.


-Por favor, não deixe que Paul descubra onde está –
implorou. –Quero que seu divórcio ocorra sem
problemas.

-Não se preocupe. Meu advogado é excelente, um amigo


de seu pai. Ele não vai deixar que nada aconteça
comigo.

-Prometa me telefonar assim que chegar ao hotel em


Paris.
Ela acariciou a face de Sílvia.

-Naturalmente. Telefonar-lhe será minha prioridade.


Experimentando um forte senso de perda, Sílvia agarrou
a madrasta, e se abraçaram uma última vez. Sentiu que
Max a observava. Não havia dúvida de que ele esperava

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A gêmea errada – Rebecca Winters

que ela ficasse histérica. Sentiu prazer em desaponta-


lo, mantendo os olhos secos.

-Desculpe, Giselle –interveio Max. –Se não se apressar,


vai perder o avião.

-Tem razão. –A mulher mais velha suspirou e se afastou


de Sílvia.

–Volte para o carro. Vá. –Gesticulou com as mãos, não


deixando alternativa a Sílvia, senão obedecer.

Antes de Max fechar a porta de passageiros, Giselle se


inclinou e sussurrou:

-Quando chegar à fazenda, vá para a cama e fique lá.


Vou rezar por você.
-E eu por você.

Max encarou Sílvia por sobre o ombro de Giselle.


-Não vou me demorar –informou.

-É verdade, porque assim que fizer a checagem no


balcão da empresa aérea, o mando de volta. A
bientot, chérie. –Giselle lançou-lhe um beijo e começou
a se afastar.

Enquanto pegava as malas, Max voltou-se para Sílvia.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Se sentir frio, ligue o ar-condicionado. Deixei as


chaves na ignição.
-Estarei bem.

Ela os observou até que desaparecessem no terminal.


Vou fazer o melhor, Max, disse em silêncio, removendo
as lágrimas com as costas das mãos.

Enquanto aguardavam a vez na fila curta junto ao


balcão da companhia aérea, ela confiou a Max:

-A terapia do dr. Meyers fez bem a Sílvia. Ela


definitivamente fez progressos. Mas agora que saiu do
hospital, tenho medo de que sofra um revés.
Max se enrijeceu.

-Não vou deixar que isso aconteça.


-Obrigada pelo cuidado que está dispensando. Ela é a
luz de minha vida. Sei que quatro meses parecem uma
eternidade para você. Mas vão passar rápido e ela logo
vai dar à luz. Vou aguardar seu retorno à França,
ansiosa, onde a ajudarei a criar o bebê. Mande-a para
mim, assim que for possível.

-Vamos ver –resmungou Max, mais para si mesmo do


que para a senhora, e percebeu que Giselle não
compreendera.
-O que quer dizer?
Ele ajeitou as malas.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Só que nem você nem Sílvia sabem o que lhes reserva
o futuro. Vamos ter que dar tempo ao tempo e ver o
que acontece.

Entendo a sua preocupação. Tem reserva quanto a meu


marido, Paul. Deixe-me assegura-lo de que estou
tomando providências para que ele não se aproxime
nunca mais.
Não contei a Sílvia ainda, Mas assim que terminar
meus assuntos em Paris, vou me mudar para Grasse no
sul da França.

Naturellement, precisarei tomar muito cuidado com o


dinheiro, mas tenho o suficiente para alugar uma vila lá.
O sol e o ar fresco serão excelentes para uma criança.
Decidindo que não era hora nem local para argumentar,
Max não fez nenhum comentário.

No devido tempo, Giselle saberia com o que estava


lutando ao tentar se divorciar de Paul Beliveau. Poderia
levar anos...

De acordo com as fontes de Max em Paris, o homem


não era estável e precisava de aconselhamento
psiquiátrico.

Max já vira tipos obsessivos como ele antes. Apesar


dos esforços da polícia e dos guarda-costas,

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

continuavam ameaçando as ex-esposas. Em alguns


casos, chegavam a mata-las.

De forma alguma permitiria que Sílvia e o bebê ficasse


perto de Giselle até ter provas concretas de que Paul
Beliveau não constituía mais uma ameaça.

-Está tão quieto, Max.

O comentário dela relembrou-o de que ainda estavam na


fila.

-Estou pensando que, quando Sílvia for dar à luz, você


deveria estar a seu lado. Vou enviar-lhe uma passagem.
Giselle sentiu as lágrimas nos olhos.
-Deus o abençoe.

Capítulo 10

-Ah, monsieur Moreau. Que grande prazer revê-lo em


Nova York. –O antigo patrão de Sílvia estava junto à
porta, saudando Philippe.

Cumprimentaram-se com um aperto de mão.


-Monsieur Gide.
-Entre e sente-se.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

Gide deu a volta à escrivaninha e se sentou de frente


para Philippe.

-Presumo que esteja precisando de nossos serviços de


tradução e interpretação. Desde que esteve aqui da
última vez, perdemos mademoiselle Clarke, mas
acrescentamos dois novos profissionais à nossa equipe,
ambos de credenciais impecáveis. Vai achar seu
trabalho excelente.

Philippe sentiu o coração falsear.


Sílvia partira?

Mais cedo naquele mesmo dia, quando conversara com o


porteiro do prédio pela segunda vez, o estudante
colegial lhe contara que ela ainda estava de férias.

Ele mentira? Sílvia pedia a ele que mentisse a Philippe


para que não pudesse ir atrás dela?

Esforçando-se para não demonstrar nenhuma reação,


declarou:
-Não tenho dúvida. A reputação de sua firma o
precede. Vou precisar de alguém em tempo integral nos
próximos três dias, começando às nove da manhã. É
possível?

-Naturalmente. Marc Chappuis está disponível. Quer


que o chame aqui?

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

-Daqui a pouco. Mas, primeiro, gostaria de saber o que


aconteceu a mademoiselle Clarke. Ela fez um trabalho
excelente para mim. Devo admitir que estou muito
decepcionado por ela não estar mais com você.

-Todos dizem a mesma coisa. Ela era muito requisitada.


Infelizmente, devido a uma doença, teve de desistir.
Doença?

Philippe se remexeu na cadeira, os pensamentos


voltados para aquela tarde de pesadelo no salão de
jantar do hotel quando ela lhe dissera adeus. Agora que
pensava sobre aquilo, ela lhe parecera muito pálida e
frágil.

Mon dieu. Quando ela descobriu que ele era casado, que
a iludira, teria o choque afetado sua saúde?
Engoliu em seco com gravidade.

-Que tipo de doença a fez desistir da carreira que


tanto amava?

-Não tenho a liberdade de divulgar esse tipo de


informação, mas posso dizer-lhe que ela precisou
desistir por ordens médicas. Como disse, não é a
primeira pessoa a lamentar sua ausência.

Philippe poderia ter pressionado o homem para contar-


lhe o que queria saber. Mas monsieur Gide já suspeitava

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

de que a pergunta de Philippe não se devia a interesse


profissional somente.
Precisava ser discreto.

Fingindo uma calma que não sentia, comentou:


-Nunca é bom perder um funcionário de valor. Sei,
porque recentemente perdi meu secretário particular,
George, um homem que foi um pai para mim nos últimos
vinte anos.

-Ah, isso é grave. Minhas condolências, monsieur.

-Obrigado. Não obstante, é necessário continuar.


Aliás, gostaria de conhecer esse monsieur Chappuis.
Estou negociando alguns acordos de exportação muito
delicados que requerem um certo nível de refinamento.

-Marc tem um currículo sólido em empresas. Não vai


decepciona-lo.

-Ótimo. É conveniente; vou entrevista-lo agora.


-Naturalmente. Só um momento.

Enquanto Philippe aguardava, a mente viajava. Assim


que saísse dali, contrataria os serviços de um detetive
particular, que descobriria se o porteiro estava dizendo
a verdade.
Melhor ainda, se pudesse localizar a irmã gêmea de
Sílvia, saberia tudo o que queria.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

O nome dela era Mônica. Pelo que se lembrava, ela se


casara com um fazendeiro de Montana, que também
fazia algum trabalho policial.

Nunca a conhecera. Se pudesse se lembrar do


sobrenome. Começava com S. algo com Sommerfield.
Não, não era isso. Spring...

-Monsieur Moreau?

Philippe se voltou para a porta, e se levantou, ansioso


para terminar logo ali e assim poder contratar um
detetive para descobrir o paradeiro de Sílvia. Dinheiro
não era o problema.

Sílvia ouviu a caminhonete na entrada e largou o folheto


que o dr. Harvey lhe dera sobre a importância de
amamentar.

Max estava em casa.


Olhou para o relógio. Eram quase nove da noite. Ele não
chegava tão cedo a casa havia séculos. Sentiu o coração
bater tão forte que estava com medo de que ele
pudesse ouvi-lo.

Mais de seis semanas haviam se passado desde a


partida de Giselle. Sílvia tentara manter uma conversa
descomprometida, como fizera na noite anterior a sua

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

alta no hospital, mas estar com ele ao vivo a deixava


menos confiante de que ele a perdoara.

Durante outubro e novembro, raramente viu o cunhado.


Ele estava cuidando de um caso de proteção de
testemunhas e, no resto do tempo, entregava mandados
judiciais.

Ocasionalmente, trocavam algumas palavras, em horas


estranhas, quando ela o via voltando de alguma de suas
tarefas ou saindo para mais uma. Não haviam feito a
refeição juntos nem doze vezes naquele mesmo período.
Sílvia estava quase a ponto de implorar-lhe que ficasse
em casa.

Ida não gostava da maneira como ele estava reagindo.


Sílvia ouvira a caseira discutir com o marido, que a
lembrou de que aquele era o modo de Max lidar com sua
dor. Assegurou a Ida que tudo passaria.
Sílvia não tinha tanta certeza.

Ultimamente, notara uma leve mudança em Max.


Quando se encontravam inesperadamente no corredor,
ou quando ele entrava na sala, ele não a olhava mais
como se desejasse que ela estivesse em outro mundo.
Ao invés disso, parecia olhar passando por ela.

O dr. Meyers definira os estágios da dor. Ele dissera


que os homens freqüentemente tinham mais dificuldade

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

do que as mulheres em superar sua dor porque eram


treinados desde o berço para não chorar.
Se isso fosse verdade, então Sílvia tinha pena de Max.
Ele mantinha a tristeza reprimida.

Ela, por outro lado, chorara tanto que superara a dor


no hospital. Desde então, sucumbira a várias sessões de
choro, mas estavam se tornando menos freqüentes.
Estava aprendendo a exercer mais controle sobre as
emoções, em parte porque temia que seus excessos
pudessem afetar o bebê.

Quando se sentia triste, imediatamente se atirava a um


novo projeto. Andava esperançosa quanto a ajudar Max
com a contabilidade, mas não tivera oportunidade, ou
coragem, de se aproximar, ainda.

Hesitava por temer que o pedido o fizesse se lembrar


de Mônica, ou que a iniciativa parecesse uma tentativa
de substituir-lhe a esposa. Então, Id, quando fora à
cidade comprar algumas roupas para a maternidade,
trouxera tam’bem lã e começara a lhe ensinar tricô.

Até então, haviam concluído um par de sapatinhos de


aparência um tanto duvidosa e agora se concentravam
num suéter de bebê.

Catorze de fevereiro era a data provável do


nascimento. Um bebê no dia dos namorados. Com o

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

auxílio de Ida, desenhara um padrão para as mangas e


gola do pequeno suéter, incorporando um par de
coraçõezinhos em rosa e vermelho contra o fundo
branco.

Naturalmente, o bebê não poderia usa-lo logo, mas,


desde que sentira seus movimentos na barriga, tornara-
se realidade. Vivia pensando em todas as roupinhas
adoráveis que queria comprar, mas naturalmente não
sabia se deveriam ser para menino ou menina.

-Sílvia?
Ela piscou, pois não havia notado a entrada de Max no
estúdio. Estava acomodada na namoradeira à frente da
lareira, lendo, planejando, sonhando. Adorava aquela
sala. A sala dele.

-Max! Voltou mais cedo. Ida vai ficar contente. Ela


preparou costeleta de porco para o jantar.

-Jantei na cidade. –Ele parecia exausto.

Sílvia observou-o tirar as luvas e larga-las sobre a


escrivaninha, ao mesmo tempo que despia o blusão de
couro. Seu cabelo estava úmido.
-Acha que vai nevar de novo?

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

-Talvez. –O olhar dele percorria o ambiente


incansavelmente, até que pousou sobre o panfleto a seu
lado. –O que está lendo?

De repente, ela ruborizou intensamente.


-Algumas informações sobre o bebê que o médico me
deu.
-Deixe-me ver.

-Eu... eu realmente não acho...

Em segundos, ele vencia a distância entre eles e pegava


o papel. Vários segundos se passaram até que ele
finalmente ergueu a cabeça.
-Vai amamentar?

Uma pergunta tão pessoal a deixou desnorteada. Não


estava propriamente embaraçada. Não tinha certeza do
que estava sentindo.
-Se puder.

Ele franziu o cenho.


-Há algum problema?

-Acho que não. Algumas mulheres têm dificuldade.


Minha mãe não conseguiu amamentar a mim e Mônica
porque não tinha bastante leite. Mas não estou
prevendo nenhum problema, já que não estou esperando

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

gêmeos, graças a Deus –comentou, com um sorriso


tímido. Inesperadamente, ele lhe devolveu o sorriso.

A mudança repentina lhe tirou o fôlego, fazendo-a se


lembrar da primeira vez que vira o cunhado numa foto.
Mas, assim perto do fogo, o homem em carne e osso
estava muito mais atraente.

Enquanto ele acrescentava outra tora ao fogo, Sílvia


baixou os pés e se levantou.

-Aonde vai? –perguntou ele. –Não saia por minha causa.


-Chegando a casa depois de um dia de trabalho, um
homem tem direito à privacidade.

De fato, ele já se sentira assim, mas agora, não mais.


Ultimamente, descobrira que sentia a falta da
companhia de Sílvia cada vez mais.

-Aviso quando precisar ficar sozinho –informou, antes


de indagar: -Soube alguma coisa de Giselle? Paul já
recebeu os papéis?

-Acredito que já tenha recebido, mas Giselle diz que a


justiça francesa é lenta. O advogado de Paul
provavelmente não teve tempo de responder. Ela
prometeu telefonar quando tivesse novidades.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

Como se fosse combinado, o telefone tocou. Em poucos


passos, Max alcançou a mesa e ergueu o aparelho.
-Sutherland falando.

Enquanto ele ouvia a pessoa do outro lado da linha,


estreitou o olhar sobre Sílvia.
-Só um momento.

Passou-lhe o aparelho.
-É para você.
Ela pousou a mão sobre o fone.
-Quem é?

-O porteiro do seu prédio.


-Está brincando. É quase meia-noite lá. –Posicionou o
telefone para falar.
-Oi, Sid.

-Oi. Você me disse para telefonar se alguma coisa


importante acontecesse.
-Sim?

-Pensei que devia saber que um homem andou fazendo


perguntas sobre você. Veio três vezes. Disse que era
um amigo chegado, mas não deixou o nome. Uns dois
dias atrás, outro cara me ligou, também fazendo
perguntas sobre você. Mas não disse nada.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Não podia imaginar, a menos que... Não, não seria


Philippe. Se quisesse entrar em contato com ela, teria
mandado uma carta há muito tempo. Toda a
correspondência lhe fora enviada.

Philippe. Deus do céu. Não pensava nele havia séculos!


Alguma coisa devia estar errada com ela, se podia
esquecer tão facilmente o homem que a deixara
grávida.

O pai de seu bebê. Mas só pensar em Max, em sua


companhia, desviara completamente seus pensamentos
do outro homem.

Desde que chegara à fazenda, Max era aquele que


sempre estivera a seu lado, ajudando-a em cada etapa
da gravidez problemática. Começara a pensar nele como
o pai da criança.

Do fundo do coração, queria que ele fosse o pai.

O porteiro ainda estava falando, e Sílvia se forçou a


prestar atenção a suas palavras. Intrigada com o
homem estranho que ele mencionara, agarrou o telefone
com mais força.
-Pode descrever o homem que viu?
Antes de ouvir a resposta do porteiro, Max tirou-lhe o
aparelho.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

-O que está acontecendo? –sussurrou ele, encarando-a


com firmeza.
-Não sei. –Repetiu-lhe o que o porteiro contara.
Beliveau, pensou Max.

Max colocou o aparelho no ouvido.

-Aqui fala o oficial Sutherland. Trabalho no escritório


federal de Billings, Montana. Você pode telefonar
pedindo confirmação. A srta. Clarke é minha cunhada, e
está morando sob minha proteção. Agora, pode passar
para mim o que ia dizer a ela –comunicou, com voz
autoritária. –Fale-me sobre esse homem. O mínimo
detalhe pode ser de importância vital.

-Não sei dizer sobre o homem que telefonou –respondeu


o porteiro –mas o outro tinha um metro e oitenta, uns
cinqüenta anos. Cabelo claro ficando grisalho nas
têmporas, bem vestido, como se tivesse muito dinheiro,
e falava com um forte sotaque europeu.

-Francês?
-Não sei.
Max fez uma careta.
-Que carro ele dirigia?
-Não reparei.

-O que disse a ele? Tente se lembrar das palavras


exatas. É importante.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Disse que ela estava de férias, e que se ele quisesse


podia enviar um recado junto com a correspondência. E
foi tudo.

-Mas ele não lhe ofereceu dinheiro?


-Não.
-O que disse para o homem no telefone?
-A mesma coisa.

-Qual é o seu nome inteiro?


-Sid Fink. Estou no colegial, mas substituí meu pai que
andou doente nesse final de ano.

-Dê-me seu telefone e o horário em que se encontra. –


Max escreveu as informações. –Se ele fizer outra visita
antes que eu entre novamente em contato com você, se
faça de bobo. Se fizer qualquer outra coisa, ele vai
desconfiar que você está de olho. Se outra pessoa
ligar, não diga nada. Está entendendo?

-Certo. Parece que ela está em perigo.


-Pode muito bem estar –afirmou Max, sério.

-Ela é muito bonita. Todos os caras do prédio têm um


fraco por ela. Não acho que esse vai desistir.

-Apenas fique de olhos abertos e boca fechada –


declarou Max, rude. Não podia evitar, os comentários
do rapaz o irritavam demais. –Vou manter contato.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Bateu o telefone no gancho, fazendo Sílvia se assustar.


-Fica assim por enquanto. Vou a Nova York amanhã
cedo.
-Por quê? O que está acontecendo?

-Tenho razoes para acreditar que Paul Beliveau andou


espreitando o seu apartamento, tentando descobrir o
paradeiro de Giselle. E acho que ele não está
trabalhando sozinho.

-meu Deus... –Ela levou a mão ao pescoço.

-Exatamente o que eu estou sentindo. Ele não vai


deixar Giselle escapar sem luta. O fato de ela estar
querendo o divórcio provavelmente foi a gota d’água.
Conheço bem esse tipo. Não é mais seguro para você
manter aquele apartamento. Vou deixar seus móveis num
depósito.

-Certo. Vo...você nunca confiou nele, não é?


-Não.
Ela andou pela sala.

-Giselle não devia ficar sozinha.


-Ela tem um advogado influente e amigos nos lugares
certos. Também disse que está providenciando uma
mudança para Grasse.

Sílvia ficou atônita com a novidade.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Quando ela lhe disse isso?


-No aeroporto. É um bom plano, e espero que ela
coloque em prática o mais rápido possível. Quando ela
telefonar, vamos manter esse último acontecimento em
segredo, para o caso de não ser Beliveau. Não há
necessidade de preocupa-la com isso agora.

Sílvia concordou.
No silêncio que se seguiu, quase podia ouvir o que ele
estava pensando, e decidiu esclarecer:

-O único homem com quem saí em Nova York foi


Philippe, e isso já acabou há muito tempo.
Max olhou para ela, estreitando o olhar.
-E quanto aos vários homens com quem trabalhou, como
intérprete? Quantos deles quiseram sair com você num
clima pessoal?

-Alguns.
-Especifique.
-Eu... eu não sei. –Ela desviou o olhar, incapaz de
continuar encarando-º
-Tantos assim –resmungou ele. –Que tal todos eles?
Ela ruborizou.

-Claro que não!


Uma tensão estranha se formou entre eles.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

-Algum homem em particular lhe vem à mente, algum


que foi insistente e que não aceitava ser preterido?
Ela balançou a cabeça.

-não. Monsieur Gide tem um negócio de respeito. Se um


cliente tomasse essa linha, ele lhe recusaria o serviço.

-Então, como Philippe conseguiu o que foi negado a


todos os outros?

Ela detectou uma farpa na pergunta; não estava


gostando do rumo que a conversa estava tomando.
-É um debate público? Já superei essa etapa de minha
vida.

-Mas e ele?
Encarou-º
-Honestamente, não sei.

-Onde esse Philippe mora? Qual é o sobrenome?

-Moreau. Ele mora em Cap D’Agle, perto de Nice.


Comanda os negócios da família, a Moreau Textiles.
-Tem o telefone da casa dele?

Após uma breve Paula, ela declarou:


-Está na minha caderneta de endereços, que deixei na
gaveta da cômoda em Nova York.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

-Quer dizer que não sabe de cor? –censurou-a, tomado


por ciúme, forte e inesperado.

-Só liguei uma vez. –As palavras saíram num sussurro.


-O que aconteceu? A esposa dele atendeu? Foi assim
que soube da verdade?

Sílvia não se permitiria revelar quão perto da verdade


ele chegara, quase adivinhando a cena toda. Mas a
expressão envergonhada e humilhada a denunciou.

-Que filho da mãe! –praguejou ele, extremamente


alterado. –Então, o que aconteceu?
-Prefiro não conversar sobre isso.

-Não tem escolha, se vou descobrir quem está rondando


o seu apartamento. Você discutiu?

-Não. –Ela afastou o cabelo da testa. –Depois que


descobri a verdade, não quis mais vê-lo.

-Quando foi a última vez que o viu?

-Duas semanas antes de deixar Nova York e vir para


cá.
-Então, simplesmente desapareceu.
-Sim.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

-E ele nem sabe por quê. Isso provavelmente o deixou


louco... –Olhou-a especulativamente. –Por quanto tempo
se relacionou com ele?

Ela odiava ter de contar tudo aquilo a Max. Era


humilhante ter de revelar o quanto fora idiota e
ingênua.
-Seis meses. –A voz estremeceu, apesar de sua
tentativa de que soasse confiante.
Max respirou fundo.

-E se não tivesse descoberto sobre a esposa?

Houve outra longa pausa; ela simplesmente não sabia o


que dizer. Ele andou pela sala, punhos cerrados, cenho
franzido. Nervoso, parecia muito atormentado.
Sílvia declarou:

-Acho que vou dormir.

-Ia sugerir exatamente isso. Vou me despedir agora.


Vou para o aeroporto de madrugada. Depois que partir,
não atenda ao telefone. Deixe que Ida e Jesse
selecionem as chamadas. Caso seja Beliveau ou um de
seus subordinados, não fale com ninguém até que eu
diga que está tudo bem.

-Não falarei. Quanto tempo vai ficar fora? –Ela


tenteou esconder a melancolia na voz.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

-Depois de passar por Nova York, terei de transportar


dois prisioneiros entre fronteiras estaduais. Devo voltar
em duas semanas.

Ela lamentou interiormente. Duas semanas pareciam dois


meses. Foi para a porta. Mas, quando chegou, um
tremor de medo a fez parar. Voltou-se para olhar para
Max, percebendo o quanto dependia dele, como era
reconfortante contar com ele. Ele sempre cuidava dos
outros. Mas quem cuidava dele?

-Max?

Ele ergueu a cabeça, como se estivesse vagando pelos


pensamentos. Encarou-a, dando-lhe total atenção.
-Vai estar de volta para o dia de Ação de Graças?
-Duvido.

Não podia pensar nele fora nos feriados.


-Tome cuidado –sussurrou ela.

Alguma coisa surgiu no fundo de seus olhos.


-É o meu trabalho.
-Apenas volte para casa.
-É o que pretendo.

Quando ela saiu, Max ficou de pé junto à escrivaninha,


perdido em seus pensamentos. Não conseguia se lembrar
da última vez que ouvira aquelas palavras. Como era

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

bom ouvi-las. Vamos encarar o fato, Sutherland. É bom


ouvi-las de Sílvia.

O relógio ancestral da sala de estar tocou onze vezes,


lembrando-o de que, se queria dormir um pouco, era
melhor ter tudo planejado.
Após telefonar ao chefe para pedir uma licença, que lhe
foi dada, consultou as fichas da agenda. Fez uma
chamada.

Quando uma voz familiar atendeu, Max suspirou aliviado


e se afundou na cadeira.
-Rand? Tirei-o da cama?

-Posso estar velho, mas ainda não bati as botas. Max


Sutherland, tanto quanto estou vivo e respirando.
-Então, não me esqueceu.

-Seria praticamente impossível após todas as missões


de que participamos juntos. Na verdade, tenho pensado
muito em você. Foi muito ruim sobre sua esposa. Ela
era um amor, assim como minha Bess, que Deus as
guarde.

Amém, pensou Max.


-Rand, como anda sua agenda?
-Nada que não possa mudar, agora que me aposentei. O
que você tem?

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Você não gostaria de colocar seu chapéu de detetive


particular e voar comigo para Nova York pela manhã?
-Agora estamos conversando, menino.

-Tenho um serviço a preço de mercado. Você vai fechar


um apartamento e colocar os móveis num depósito.
Então, vai montar campanha. Pode ser por alguns dias
ou um mês.

-Quer dizer que vou ficar num apartamento vazio?


-Vou permitir um saco de dormir, televisão e telefone.
Um microondas, também. Pode viver de comida
congelada.

-Quem estou guardando?

-Ninguém. Não é serviço dos federais. É pessoal. Vou


pagar seu salário. Um desses dias, o porteiro vai deixar
subir um homem. Você deve prende-lo e descobrir tudo
sobre ele. Explicarei os detalhes no avião. Pode estar
em West Yellowstone às seis?
-Aguarde-me.

-Obrigado, Rand. Isso é importante.


-Posso sentir pela sua voz. Já estou sentindo pena do
sujeito que você está querendo agarrar.

-Depois do resumo, vai mudar de idéia.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Sílvia deixou a clínica e caminhou cuidadosamente pela


rua coberta de neve até a drogaria Larsen. Queria
comprar sorvete de chocolate e marshmellow, o favorito
de Jesse e Ida para levar.

Ao entrar, ouviu uma voz familiar saudar:


-Sílvia, não é?

Imediatamente, ela se virou para o balcão e reconheceu


a amiga de Mônica, Carole Larsen, uma loira bonita não
muito mais velha que ela própria.
Aparentemente, ela e o marido tinham aquela loja e o
posto de gasolina em frente, o mesmo de onde
telefonara ao chegar a West Yellowstone.
-Oi, Carole.

-Que bom que entrou. Queria lhe fazer uma visita, mas
Max disse que você ainda estava mal e que devia ficar
de cama.

-Não mais. Estou vindo da enfermaria, fui tirar a


pressão. Está normal por enquanto. A enfermeira
telefonou a meu médico em Idaho Falls, e ele me deu
permissão para sair um pouco todos os dias.
Naturalmente, ainda não posso comer sal.

-Então, não vou lhe oferecer um pedaço da torta de


maçã. Tem sal na massa. Que tal uma maçã?
-Adoraria.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

-Aqui está.
Sílvia se sentou num dos banquinhos e mordeu a fruta
fresca. Carole se serviu de uma xícara de café, e
então pousou os cotovelos sobre o balcão à frente de
Sílvia. O único freguês estava sentado a uma mesinha,
comendo um hambúrguer.

-Para alguém que passou por uma dor tão grande, você
está com ótima aparência. A gravidez combina com
você.
-Obrigada.

-Sinto muito a falta de sua irmã. Ela possuía uma


vitalidade contagiante.
Sílvia assentiu ao relembrar.

-Ela era a luz de minha vida, e da de Max –comentou


simplesmente.

Na verdade, Mônica se tornou a razão de viver dele.


Agora, parecia que ele se tornava a razão de Sílvia.

-Isso é verdade. Quando você entrou aqui da primeira


vez, pensei estar vendo Mônica, mas você é muito
diferente.
Sílvia ficou curiosa.
-Acha mesmo?
-Sei que mal nos conhecemos, mas sim, acho.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Você é uma pessoa muito perspicaz. Pessoas que nos


conhecem há anos não conseguem nos diferenciar.
-Não estou falando de semelhanças físicas. De algum
modo, você parece mais confiante.

Ninguém nunca lhe dissera aquilo. Sílvia parou de


mastigar.
-Estamos falando de mim?
Carole riu.

-Sim. Mônica era muito excitante e intensa, mas acho


que lá no fundo, mascarava alguma insegurança. Você
é... bem, me perdoe por lhe dizer isso, mas você é
muito mais como uma mãe terra...
Sílvia riu abertamente.

-Nisso eu acredito. –Deu um tapinha na própria barriga.


Quando Carole sorriu, seus olhos azuis brilharam.

-Não, sabe o que estou querendo dizer. Você possui


uma qualidade mais suave. Não estou conseguindo
explicar.

É alguma coisa que sinto em você, que é mais... pé no


chão.

-Sou pé no chão, sim. Confinada em casa e na cama


pelos próximos três meses.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

Riram novamente. Sílvia gostava de se sentir assim após


tantos meses sem motivos para rir.
-E o homem mais sensacional deste lado do continente?
Não o tenho visto ultimamente.

Sílvia sabia exatamente de quem ela estava falando.


-Não o vejo a duas semanas.

Mas vivia para seus telefonemas à noite. Às vezes


conversavam por até meia hora, quase sempre sobre o
bebê e sobre como ela estava se sentindo. Quando ele
perguntou sobre Giselle, contou-lhe que ela ainda não
recebera resposta de Paul Beliveau ou de seu advogado.

-O que ele está fazendo? –perguntou Carole.

-Está levando dois prisioneiros. Mas, se tivesse o


direito, pediria para que ele desistisse desse trabalho e
se dedicasse em tempo integral à fazenda.

-Realmente?
Sílvia assentiu.

-O que ele faz deve ser incrivelmente perigoso.


Detesto isso.

-É interessante, porque sua irmã achava esse aspecto


da vida dele fascinante.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

-Eu sei. Ela procurava aventura em tudo, mas não vejo


nada de excitante em guardar a vida de pessoas que
correm perigo.

-Concordo com você, mas não posso falar por Mônica.


-Por que não?

-Oh, porque acho que a atração pelo perigo na verdade


mascarava os mesmos temores que você tem, só que ela
não conseguia falar nesse assunto. Como disse, você é
bem diferente.

Sílvia colocou o bagaço da maçã sobre um guardanapo.


-Obrigada por ser sua amiga e por ser honesta comigo.
Por que você e seu marido não aparecem na fazenda na
semana que vem para jantar? Eu vou cozinhar e dar um
descanso a Ida.

-Acha que o médico vai aprovar?


-Provavelmente não –Sílvia se esquecera.

-Tenho uma idéia. Por que não nos encontramos na


cidade? Vamos deixar que outra pessoa faça o serviço.
No Lasso Club servem uma truta cozida que não
pertence a este mundo. Se telefonar pedindo, tenho
certeza de que preparam a sua sem sal.

-Adoraria. Não tenho vida social no momento, e então,


estou livre todas as noites.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

-Que tal quarta-feira às seis e meia? Telefono durante


o dia para confirmar que vamos.

-Parece ótimo. Talvez, faça algumas compras de Natal


também. Quando nos dermos conta, o Natal já terá
chegado.

-Tem razão. Estou tentando escolher alguma coisa


especial para meu marido.

-Eu sei. Estou tendo o mesmo problema com Max.

-Vamos as duas pensar sobre isso. Talvez, quando nos


encontrarmos, já tenhamos alguma idéia.
-Vai ser maravilhoso.

Sílvia procurou a bolsa e colocou um dólar no balcão,


mas Carole não aceitou.

Rindo, Sílvia deixou a loja. Já estava quase chegando


ao carro quando percebeu que esquecera o sorvete e
precisou voltar para pegá-lo.

Capítulo 11

-Monsieur Moreau? Há um telefonema internacional na


linha um.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

Philippe verificou o relógio. Três da tarde. Se era o


que estava esperando, então eram nove da manhã em
Nova York.
-Obrigado, Sophie.

Ele agarrou o aparelho e virou-se para a janela,


esfregando o estômago.
-Monsieur Moreau falando.
-É René.

Philippe fechou bem os olhos.


-Sim. Vá em frente.

-Ela voltou das férias, mas não há telefone.


Aparentemente o porteiro do prédio contou a ela que a
esteve procurando, e ela permitiu que você entrasse,
então, parece que seu problema está resolvido.

-Excelente trabalho, René. Vou enviar-lhe outro


cheque.

-Acho que não há mais necessidade de tentar encontrar


a irmã.

-Não. Já me deu a informação que queria. Obrigado.


-Telefone-me se precisar de ajuda.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

-Naturalmente –respondeu Philippe, mas não podia


imaginar quando precisaria de um detetive particular
novamente.

Assim que o outro homem desligou, Philippe interfonou à


secretária:

-Reserve uma passagem para o próximo vôo para Paris e


um lugar no vôo noturno do Concorde para Nova York.
-Algum problema?

-Um pequeno assunto que deve ser resolvido em um dia.


Estarei de volta bem antes do aniversário de minha
mulher.

-Muito bem, monsieur. Vou providenciar tudo


imediatamente.

Philippe precisava dar mais um telefonema. A Delphine.

Max tomou um rápido café da manhã enquanto acelerava


pelas estradas nevadas em direção ao aeroporto
Bismarck, ansioso por estar a caminho de West
Yellowstone. A caminho de casa.

No dia anterior, depois de despachar os prisioneiros


seguros pela fronteira de Montana até a cadeia do
distrito de Morton, em Dakota do Norte, telefonara

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

para casa, desejando ter comparecido à festa de Ação


de Graças de Ida no dia anterior.

Todos falaram ao telefone, aquecendo seu coração e


fazendo-o querer estar em casa, junto deles. Junto de
Sílvia. O orgulho em sua voz quando anunciou que
finalmente acabara o suéter do bebê o fizera rir a
valer.

Enquanto estivera em Nova York, parara numa butique


de roupas infantis e comprara macaquinhos com pé, um
branco, o outro rosa, para combinar com os
coraçõezinhos do suéter.

Mesmo que fosse um menino, poderia usar o rosa em


casa. A idéia o fez rir. Bem como as roupinhas, que
eram tão pequeninas que ele balançou a cabeça,
incrédulo. Mas a balconista lhe assegurou que ficariam
perfeitas num recém-nascido de até quatro quilos e
meio.

O bebê de Sílvia seria lindo, uma duplicata em


miniatura da mãe. Secretamente, desejava que fosse
uma menina. Não podia evitar imaginar se nasceria com
o cabelo ruivo e a mesma pele pálida cremosa, que por
qualquer motivo ficava cor-de-rosa.

Vira Sílvia ficar assim duas vezes até então. Uma vez,
havia duas semanas, quando lhe perguntara o que estava

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A gêmea errada – Rebecca Winters

lendo, e na primeira vez que se viram, quando lhe


abaixara as alças da camisola para...

Oh, Senhor, o que estava lhe acontecendo?

Por que não podia apagar a lembrança daquela noite?


Estava começando a confundir as imagens. Não, não era
verdade. Não mais.

Mônica sempre teria lugar em seu coração, mas eram o


rosto e o sorriso de Sílvia que o perseguiam agora.

De repente, a expectativa que sentiu ao saber que ela o


estaria esperando na fazenda, ficando mais bonita à
medida que a barriga crescia, pareceu ser uma terrível
traição à memória de Mônica.

Acelerou ainda mais e chegou ao limite de velocidade


da auto-estrada. Mas não podia fugir da culpa.

Estava tão atormentado que demorou a ouvir o chamado


ao telefone do carro. Deu boas vindas à intromissão e
agarrou o aparelho.

-Sutherland falando.
-Rapaz, fizemos ponto.

-Rand... –Ele diminuiu a velocidade.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-O porteiro recebeu um telefonema do mesmo homem


que ligou antes perguntando sobre Sílvia. Ele lhe disse
que Sílvia voltara das férias, mas que o telefone não
estaria funcionando por alguns dias. Mas, se ele
quisesse falar com ela, bastaria chamar o porteiro, que
ele permitiria sua entrada.

-Há quanto tempo?

-Há cinco minutos. Estou ligando em seguida.

-Vou me juntar a você. Pegarei o próximo vôo de


Bismarck.

-Faça isso. Estou ficando cansado de minha própria


companhia.

Max riu.
-Sei o que quer dizer. Como anda a mudança de Sílvia,
aliás?

-Sem problemas. Sua cunhada mantém uma casa


arrumadinha. Separei uma mala com objetos pessoais e
fotografias que imaginei que ela não quisesse colocar no
depósito. Espero que tenha feito a coisa certa.

-Fez sim. Sei como trabalha. –Max tinha Rand


MacMullen em elevada estima. –Conseguiu encontrar a
agenda de telefone?

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Sim. O telefone de Philippe Moreau estava lá, como


ela disse. –Pausa. –Encontrei mais uma coisa entre as
páginas.

-O quê? –Max quis saber.

-Duas fotos. Se não estou enganado, companheiro, uma


é sua. Está tão vestido que mal o reconheci.

Mônica enviara aquela foto. Estava surpreso por Sílvia


ainda a ter.
-Qual é a outra?

-De um homem que combina com a descrição que o


porteiro nos deu.

Moreau. Ele odiava o nome, embora nutrisse uma


curiosidade problemática pelo homem que derrubara as
defesas de Sílvia, mentindo o tempo todo.

-Como ele é?

-Lembra-me um desses atores franceses que minha


mulher adorava. Já viu um filme sobre um francês que
navega até a Polinésia e se apaixona por uma nativa? No
fim, ela pula no vulcão para agradar aos deuses.

Max balançou a cabeça, desanimado.


-Não. Provavelmente não é do meu tempo.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Ora, ora. Não vamos ficar irritados. O que estou


querendo dizer é que esse camarada parece um ator.
Se pudesse lembrar seu nome, você saberia. Ele até
apareceu num dos filmes de James Bond.
-Qual?

-Não me lembro. Mas era o vilão.

-Nisso está certo! –Max disparou, venenoso, espantando


a si mesmo.

-Parece-me que se passou em algum lugar exótico...


-Sempre é assim, Rand.

-Não, agora espere um pouco. Digo realmente exótico,


como a Índia.

Max piscou. Ele se lembrava daquele. Louis Jourdan.


-Está falando do ator de Gigi? –Mônica adorava aquele
filme.

-Sim, é ele. Me lembro agora. Louis Jourdan. Mas este


camarada tem uma aparência ainda melhor.

Gostaria que Rand parasse de falar...

Depois de tudo o que Moreau fizera a Sílvia, ela ainda


mantinha sua foto. Será que o amava tanto assim?

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

Com os pensamentos em caos, conjeturou outra


explicação, uma que quase o deixou maluco. Talvez ela
estivesse mantendo a foto para depois mostrar à
criança como era seu pai.

Max precisou controlar a fúria.

Philippe Moreau não merecia ser lembrado. Nem sabia


que Sílvia estava grávida, e sem dúvida não se
importaria se soubesse.

Ele não estivera lá para ampara-la quando ela


desmaiara, nem enxugara seu suor quando ela passara
mal com náuseas. Não sofrera dias e noites devido à
pressão alta dela, nem saíra atrás de uvas porque ela
estava com desejo.

Ele não fizera nada além de se aproveitar, sempre que


quisera.

A idéia de suas mãos percorrendo o corpo de Sílvia...


-Max? Ainda está aí, companheiro?

-Sim. Estou indo para o aeroporto agora. Vejo você


quando chegar. Se... –Deteve-se antes de dizer algo
que mesmo Rand questionaria. -... se o francês
aparecer antes de mim, sabe o que fazer.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Estou esperando por isso. Oh, e quando estiver


chegando, me traga uma pizza completa. Estou ficando
enjoado de lasanha vegetariana e bife Salisbury.

Enquanto Jesse guardava a caminhonete na garagem,


Sílvia se apressou para dentro de casa.
-Ida?

-Estou na cozinha. Qual é o veredicto?

Sílvia despiu o casaco de couro de Max, a única coisa


que encontrara que pudesse agasalha-la, e o pendurou
no armário. Descendo as botas, foi à cozinha só de
meias.

-O bebê está grande, e eu também, e minha pressão


ainda está normal. O dr. Harvey elogiou o seu cuidado
no preparo da minha alimentação. Estou melhor a cada
dia, e devo isso tudo a você e Jesse... e Max. –
Abraçou a caseira, e foi pegar um copo d’água.

-Não podia estar mais contente por você, querida. As


coisas melhoraram muito por aqui.

Com exceção do desejo de Sílvia de Max estar em


casa. Tudo parecia mais completo quando ele estava por
ali.

-Por acaso ele ligou enquanto estive fora?

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Sim. Há poucos minutos. Ainda está num caso e não


volta por enquanto.
-Oh...

Sentiu um grande desapontamento. Fazia tanto tempo


que ele estava fora. E ainda perdia seu telefonema...
Conversar com ele se tornara o ponto alto do dia, e
queria lhe contar sobre a visita ao médico. Queria ouvir
sua voz.

Queria a ele.

Não adiantava mentir para si mesma. Estava apaixonada


por Max. Terrivelmente, desesperadamente apaixonada.
Precisava se recompor para que Jesse e Ida não
desconfiassem de seu segredo. Curvando-se desajeitada
para a geladeira, procurou uma laranja. Andava louca
por laranjas ultimamente.

-Contei que encontrei Carole na cidade outro dia? –


começou a conversar, enquanto descascava a fruta.

Ida preparava molho branco no fogão.

-Acho que sim. Carole é uma pessoa adorável. –Balançou


a cabeça. –Querem tanto um bebê. Mas, pelo que
Mônica contou, ela nunca vai poder dar à luz.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Oh, Ida! –lamentou Sílvia, com voz alterada. –Devia


ter sabido disso antes.

-Como podia? –desdenhou ela, retirando a panela com


molho do fogo.

-Tem razão. –Sílvia colocou uma fatia da laranja na


boca. –Mas ela disse uma coisa que realmente me
surpreendeu.

-O que foi?

-Ela me confidenciou que achava que Mônica era mais


insegura que eu.

-Ela está certa.

Sílvia foi pega de surpresa.

-Também acha isso? Mas Mônica sempre foi a corajosa.


-Se fosse verdade, por que ela não enfrentaria Max ao
invés de fugir? –Ida pousou as mãos sobre os ombros de
Sílvia. –Não a estou criticando, ouça bem. Se a mesma
coisa acontecesse comigo, honestamente não sei o que
teria feito.

-Nem eu –sussurrou Sílvia.


-Quer saber o que acho? Acho que, se tivesse sido
você, se você tivesse ficado doente, teria contado a

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

Max e partilhado cada minuto do tempo que lhe


restava.

Sílvia sentiu as lágrimas nos olhos, pela primeira vez em


semanas.

-Por que diz isso?

-Por que sei o que aconteceu aqui na noite em que Max


voltou para casa e a encontrou em sua cama. Foi uma
situação dos infernos, mas você não fugiu. Você nos fez
levá-la até o chalé e forçou Max a encarar a situação.
Agora, era Ida que sentia as lágrimas.

-Aquilo exigiu mais coragem do que eu teria sido capaz.


Max pode ficar assustador quando está zangado, mas
você não se intimidou. Você o forçou. Sua dor era
grande, e era terrível assistir, mas seu amor por sua
irmã era ainda maior.

-Ida está certa. –interrompeu Jesse. Sílvia não


percebera sua aproximação. –Você é uma mulher muito
forte e corajosa. Nós todos pensamos que ficaria
naquela cama de hospital por meses. Ninguém se
surpreendeu mais do que Max quando você se recuperou
tão rápido.

-Foi uma vergonha, Jesse. Pergunte ao meu psiquiatra.


Eu estava morrendo por dentro.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Claro que estava, mas não deixou que isso a abatesse.


É sobre isso que estamos conversando. Carole percebe
essa força. Foi por isso que fez aquele comentário.
Embaraçada e sentindo-se humilde pelas palavras
gentis, Sílvia improvisou um agradecimento e secou os
olhos. Buscando outra fatia de laranja, mastigou
devagar e engoliu antes de se pronunciar novamente.

-Carole e eu vamos jantar no Lasso Club na quarta à


noite. Ela vai levar o marido. Pensei em fazer algumas
compras de Natal antes, e então, encontra-los lá.

-Ótimo. –Ida assentiu em aprovação. –Agora que o


médico lhe deu permissão para ficar de pé uma parte
do dia, precisa de alguma distração além de dois velhos
que vão dormir com as galinhas.

Num repente de emoção, Sílvia lançou os braços ao


redor dos dois.

-Amo vocês dois. Não sei o que teria feito sem vocês.

-O sentimento é recíproco. –A voz de Jesse saiu


alterada. –Ida e eu nos casamos muito tarde para ter
filhos. Com a sua gravidez, nos sentimos como avós ou
algo assim.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Vocês são! –choramingou Sílvia, as lágrimas brilhando


em seu rosto. –Entre vocês, Max e Giselle, meu bebê
vai ser mais amado que qualquer outra criança no
mundo.
Giselle.
Sílvia quase se esquecera de que iria viver com a
madrasta quando o bebê nascesse.
Jesse e Ida não sabiam disso ainda.

De algum modo, não se sentia capaz de contar-lhes.


Não agora. Não depois do que acabara de confidenciar-
lhe. Não depois de admitir a si mesma que nunca
poderia viver longe assim de Max. Nunca.

-A pizza está ótima. Realmente sabem como faze-la em


Nova York. Se conseguisse a receita, faria fortuna lá
em Bozeman. –Rand olhou para Max. –Não vai comer
nem um pedacinho?

-Mais tarde –mentiu Max, de pé junto à janela, de


onde podia ver a rua dez andares abaixo.

Em missões normais, sentia uma alta no nível de


adrenalina e uma fome insaciável. Mas dessa vez era
diferente. Pessoal. A idéia de comida o nauseava.
Estava ficando impaciente por encontrar o homem que
traíra Sílvia.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Ele pode não aparecer esta noite, Max.


Max cerrou os dentes.
-Ele virá.

-Como pode ter tanta certeza?


-Instinto.

O filho da mãe ainda estava louco por ela, insano por


ficar distante mais um dia, pois sabia o que estava
perdendo. Morrendo de vontade de toca-la, de se
perder nela. Morrendo de vontade de sentir prazer
ante à visão dela...

Que droga. Maldito homem.

O motorista de táxi agradeceu a boa gorjeta de


Philippe e partiu.

Era tarde. Vinte para as dez. Mas, devido a problemas


na aterrissagem, o vôo atrasara, e chegaram a Nova
York muito depois do previsto.

Mas precisava vê-la. Não podia suportar outro dia sem


saber como ela estava. Não podia lidar com a culpa.

Chamou o porteiro e, um segundo depois, a porta se


abriu.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Oi. Depois do telefonema que recebi esta manhã,


achei que seria o senhor. Eu o descrevi à srta. Clarke,
e ela disse que poderia subir a qualquer hora.
-Obrigado.

Philippe passou pela porta, esperou que se trancasse


automaticamente e adentrou o saguão. Mal notava a
passagem de pessoas, e não se deu contar de estar
partilhando o elevador com outras tantas.

Subiu até o décimo andar. Ainda bem que Sílvia


concordara em vê-lo. Ela bem poderia ter-se recusado.

Antes, sempre que a via após uma separação, sentia o


coração bater mais forte e também uma dor no
estômago. Aquela noite não seria diferente, mas ela
estaria diferente. E a idéia o arrasava.

O corredor estava vazio quando ele se aproximou da


porta e bateu três vezes. Ela reconheceria sua batida.
A porta se abriu.

-Sim?

Philippe deu um passo atrás. Em vez de Sílvia parada à


entrada, via os olhos frios de um homem alto e moreno.
Um homem consideravelmente mais jovem que ele, mais
jovem, mais forte, em forma...

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Não podia ter errado de apartamento. O que estava


acontecendo?

-Estou procurando Sílvia Clarke


-Entre.

Confuso, Philippe passou pela porta e permaneceu


parado. O local estava vazio. Vazio como um túmulo.
Ouviu a porta se fechar.

-O porteiro me disse que ela estava aqui.


-Estava. Mas já se foi.

-Temo que não esteja entendendo.

-No último minuto, ela decidiu se mudar.


-Quem é você?

-O cunhado dela.

Philippe percebeu de repente que ele era familiar.


Então, lembrou-se de ter visto uma pequena fotografia
da irmã de Sílvia com o marido, e fez a ligação.
Respirou com dificuldade.

-Então, você sabe de tudo.


-Certo.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Philippe sentiu um frio percorrer-lhe a espinha, ciente


de que o parente podia fazer-lhe mal se fosse
provocado.

-Ouvi dizer que ela esteve doente. Doente demais para


continuar trabalhando.

-Certo mais uma vez.

-Ouça, senhor... Não me lembro de seu sobrenome.


-Sutherland.

-Sim, estou me lembrando agora. –limpou a garganta. –


Ela tem todo o direito de me desprezar mais do que eu
desprezo a mim mesmo.
Vou pagar por aquelas mentiras pelo resto de minha
vida. Entretanto, estou preocupado com ela. Não durmo
desde que monsieur Gide me disse que ela deixara o
trabalho. Ela está bem? Por favor, preciso saber.

A calma fria do jovem deixou Philippe sem ação. Era


inútil apelar a ele.

Quando já desistira de obter qualquer resposta, o


rapaz declarou:

-Ela vai sobreviver, se é disso que está falando.


Philippe fez o sinal da cruz.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Ela ficou doente porque descobriu que eu era casado?


Alguma coisa surgiu no fundo dos olhos de Sutherland.
-Não.

-Grace à Dieu. –Philippe sentiu as lágrimas brotando.


Não chorava desde o dia em que os médicos disseram
que Delphine nunca mais caminharia.

Tentou encontrar as palavras certas, mas desistiu e


simplesmente contou a verdade.

-Amo minha esposa. Ela foi minha namorada de


infância, minha querida amiga, a mãe de meus dois
filhos. Quando ela ficou inválida, a amei ainda mais por
sua coragem.
Permaneci fiel a ela por toda nossa vida em comum, até
que Sílvia surgiu. Mademoiselle Clarke. No começo do
ano quando estive em Nova York, pedi um intérprete, e
Sílvia entrou na sala. Alguma coisa aconteceu, alguma
coisa além de meu controle.

Embora detestasse admitir, Max podia entender esses


sentimentos. Alguma coisa também acontecera a ele ao
avistar Mônica, e ao encontrar Sílvia deitada em sua
cama pela primeira vez.

-Até aquele momento, não achava que era possível amar


duas mulheres ao mesmo tempo –murmurou Philippe.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Podia ouvir a própria voz trêmula. –Lutei contra esse


sentimento nos primeiros quatro meses.

Max se lembrou de que ela contara que se encontraram


por seis meses, o que significava que dormiram por dois
meses. Tempo suficiente para engravida-la.

-O que mais quer dela?


Era uma pergunta que Philippe se fizera milhares de
vezes.

-Sinto sua falta. Há um vazio em minha vida sem ela.


Estou preparado para me divorciar de Delphine se Sílvia
se casar comigo.

Max não moveu um músculo. O filho da mãe realmente


amava Sílvia. Não sabia que ela estava grávida, e ainda
assim queria se casar com ela. Um novo pesadelo estava
começando...

Philippe observou que o outro homem empalideceu.


Custara, mas a verdade fora dita.

-Não me deve nada, monsieur, mas espero que seja


honrado o suficiente para levar minha mensagem a
Sílvia. Se ela quiser entrar em contato comigo, sabe
onde me encontrar.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Friamente, Sutherland disparou:


-Essa palavra, honrado, fica estranho em sua boca, não
é, Moreau?

Philippe sabia que merecia aquilo.

-Se eu não receber notícias dela, poderei presumir duas


coisas. Ou você não lhe contou que nos encontramos, ou
transmitiu minha mensagem e ela rompeu mesmo comigo.
De qualquer forma, não vou procura-la nunca mais.

Por vários minutos, depois da partida de Philippe


Moreau, Max permaneceu na semi-escuridão, desolado.
Finalmente ouviu passos pesados sobre o assoalho e
voltou-se para encarar Rand. Os dois homens se
entreolharam. Mensagens mudas foram trocadas.

-Vai ter de fazer isso, companheiro.


Max respirou com dor.

-Ele não a merece, Rand.

-É o pai da criança. Está preparado para se casar com


ela. Sei que o que ele fez foi errado, mas o homem
está apaixonado, dolorosamente. Até eu pude sentir
isso, e estava lá na outra sala.

-Ele já tem filhos crescidos.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Eu também, mas também tenho olhos na cara, e se


uma mulher como Sílvia surgisse na minha frente,
provavelmente me faria de idiota também.

-Ela não é a mulher certa para ele. Ele tem uma


esposa.

-Vamos, Max. Sua cunhada é uma beleza. Casado ou


não, Philippe Moreau não é mais imune a ela do que
qualquer homem. Você o ouviu. A mulher está inválida
há anos. E, então, conheceu Sílvia. A questão é que ela
também se apaixonou por ele. Afinal de contas, está
grávida dele. Pense sob...

-Cale-se, Rand.

-O que há com você, companheiro?


-Nada da sua conta.

-Ficou da minha conta quando me pediu para montar


campana.

-Fez a sua parte. Vai ser pago. Agora, vamos cair fora
daqui.

O marido de Carole, Mike, era uma pessoa muito


espirituosa, e um imitador excelente que fez Sílvia rir a
noite toda.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Ela ainda ria quando eles a deixaram na fazenda tarde


da noite, carregada com os vários presentes que ela
comprara para Jesse e Ida para o Natal. Ainda não
escolhera nada para Max. Nada parecia certo, ou
especial.

Por causa da tempestade de neve que acabara de cair,


Jesse a levara à cidade para o jantar, e lhe passara o
controle remoto, de modo que pudesse abrir o portão e
seguir até a casa no carro do casal.

-Obrigada pela noite maravilhosa. Precisam aparecer


para jantar na semana do Natal. Ida e Jesse não vão
acreditar na sua imitação de Hitchcock, eles adoram
esses velhos filmes. Telefono marcando um dia, certo?
-Combinado.

Mike abriu a porta com a intenção de ajudar Sílvia a


sair. Mas, de repente, luzes se acenderam na casa e
uma alta figura masculina saiu ao encontro deles.
Max.

Sílvia sentiu a pulsação acelerar.

-Quando voltou? –perguntou assim que ele lhe abriu a


porta de passageiros.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Pequenos flocos de neve se acumulavam sobre seus


cílios, enquanto, com o olhar, ele lhe estudava o rosto
por um breve instante.

-Hap, um dos mecânicos do aeroporto, me deixou há


poucos minutos. Agora sei o que aconteceu com meu
blusão de couro. Estava à procura dele para fazer um
boneco de neve lá fora, mas obviamente tve melhor uso.
Ela observou seu rosto, esperando que ele realmente
não tivesse se importado.

-É a única peça que consegue me agasalhar. Saímos


para jantar –contou, um pouco sem fôlego. O olhar dele
estava em sua barriga protuberante. –Você está aqui
fora há muito tempo? –Deixou que o comentário se
perdesse.

Bom Deus, pensou Sílvia. O que está errado comigo? O


que está acontecendo comigo

De repente, ficou ciente do silêncio. Ninguém dizia


nada. Desviou o rosto porque o dele estava muito perto.
Ele cheirava bem.

-Eu... eu acho que consigo sair sozinha, se me ajudar a


descer.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Max ignorou a sugestão e a ergueu do assento da


cabine, resolvido a carrega-la para casa, o cabelo solto
sobre seus braços.

-Boa noite para vocês –disse, voltando-se para Carole e


Mike. –Obrigado por trazer nossa futura mamãe a
salvo. Devo-lhes uma.

Mas Mike os seguiu até dentro da casa com os pacotes


de Sílvia.
-Vamos aparecer na semana do Natal –declarou ele,
deixando os pacotes na mesa do corredor. Então,
acenou e foi para a porta.

-Vou tentar estar aqui. –respondeu Max, sem desviar o


olhar de Sílvia.

-Tchau, Mike. Obrigada, mais uma vez. –A voz de


Sílvia era apenas um sussurro.

-Não foi nada. Vejo vocês por aí.

Assim que Mike se foi, Max fechou a porta com a bota


e foi para o estúdio, com Sílvia nos braços.
Essa proximidade a deixou em pânico.
-Onde estão Jesse e Ida?

-De acordo com o recado, foram pegar um cineminha na


cidade.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

A voz dele era rouca e grave. Ela sentiu sua respiração


no rosto, e um calor lânguido e lento percorreu seu
corpo.

Não, isto não pode estar acontecendo. Eu o amo, mas


ele era o marido de Mônica. Isto é errado.

Seu corpo, entretanto, parecia não entender e estava


reagindo por conta própria. Até o bebê parecia sentir
alguma coisa, porque estava se mexendo bastante.
Pouco antes de baixa-la no sofá, o bebê a chutou nos
rins e ela engasgou.

Os olhos de Max procuraram os dela.


-Nossa, senti isso.

-Eu também –gemeu Sílvia. –Sabia que não devia ter


comido tanto. Não há espaço. Gostei que tivesse me
carregado da caminhonete, mas preciso ficar de pé para
o bebê mudar de posição.

O atrito entre seus corpos deu-lhe prazer. Ela não


sabia como lidar com as novas emoções, essas novas
sensações excitantes. As pernas pareciam de borracha
quando ele a aliviou do casaco de couro, que jogou sobre
o sofá.

-Não acredito. –murmurou ele.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Ela seguiu seu olhar. A salopete cinza era feita de um


tecido fino e se movia enquanto o bebê se movia
também.
Encarou-ª
-Dói?

O calor da lareira, o forte aroma de pinho que vinha da


grinalda sobre o aparador a deixava tonta e sem fôlego.
-Quase sempre é desconfortável, principalmente quando
insiste num lugar só.

Ele queria sentir. Ela sabia que ele queria. Mas a idéia
de suas mãos sobre seu corpo quase a deixava em
estado de choque.

Porque ela queria sentir as mãos dele sobre seu corpo.


Agindo por compulsão, totalmente fora de seu feitio,
buscou a mão direita dele e a colocou do lado do
estômago, onde o pé ou o braço do bebê se mexia para
a frente e para trás com uma regularidade
enlouquecedora.

Fechou os olhos e prendeu a respiração enquanto ele


continuava tocando-a, examinando, pressionando
gentilmente onde sentia os pequenos empurrões do
bebê.

-Ela sabe que estou aqui. –murmurou ele. –Está me


dizendo que fizemos contato.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Ela?

-Tenho a sensação de que é menina.

Sílvia observou-o com os cílios baixos. O sorriso em seu


rosto, em seus olhos, tão cheios de encantamento...
sentia vontade de chorar.
-Se é menina, conhece a sua voz. –murmurou Sílvia. –Às
vezes, quando você entra na sala e começa a falar, ela
se move.

-Como sabe que ela está reagindo a mim?


-Porque ela não faz isso para Jesse ou Ida.
-Sílvia...

Deteve a mão sobre o ventre, como se estivesse à beira


das mesmas fortes emoções que ela. Mas, quando ela o
encarou, viu dor.

Como pudera se esquecer por um instante sequer?


Ele desejava que ela fosse Mônica.

Capítulo 12

-Sílvia. –Ele repetiu seu nome, desta vez num tom


sério. –Há uma coisa que preciso contar. Talvez seja
melhor se sentar.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Ela se afastou, fazendo com que suas mãos deslizassem


para os lados.

-Você fala como daquela vez em que pensou que eu


tinha um tumor. –A voz dela estremeceu ao dizer essas
palavras.
Toda a ternura, o encantamento, tinham sumido de seu
rosto. Ele estava rígido agora, os olhos mais escuros,
com apenas dois pontos de brilho.

-Philippe Moreau foi a seu apartamento enquanto eu


cuidava da mudança. –Como Sílvia não se manifestasse,
ele acrescentou: -Aparentemente, ele tentou vê-la em
várias ocasiões.

Sílvia não pensava em Philippe havia séculos. Não sentia


nada por ele. Absolutamente nada. Se precisava de
provas de que não passaram de um casal de amantes,
era essa. A completa falta de sentimento.

Foram amantes só nos dois últimos meses do


relacionamento. Embora ele houvesse usado proteção,
ela devia ter engravidado na primeira vez em que
fizeram amor, que fora uma experiência instrutiva, ao
menos.

Philippe fora gentil e carinhoso durante os atos, mas


sempre tivera de incentiva-la. O amor deles nunca fora

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A gêmea errada – Rebecca Winters

um caso apaixonado, como aquele que ela sabia que


Mônica partilhara com Max.

Ou como aquele que ela fantasiava com relação a Max.


Nunca entendera o significado de desejo até essa noite.
Sentira-se entorpecida quando Max a tomara nos
braços e carregara para casa.
Em contrapartida, nunca estivera a ponto de desmaiar
quando Philippe a acariciava. Entretanto, tudo o que
tinha a fazer era pensar em Max tocando-a, e seus
ossos se liquefaziam.

Franziu o cenho gravemente.


-Por que não está dizendo nada?
-Estou pensando.

O tórax másculo se ergueu num suspiro.

-Ele está preparado para se divorciar de Delphine e se


casar com você. O homem está caído... por você.

Pobre Philippe. Estava se iludindo se considerava o que


tiveram como sendo amor. Era um pouco tarde para
tentar compensar as mentiras. Pobre Delphine.

-Ele deve ter dito isso porque soube do bebê. Você


contou?

Max manteve-se inexpressivo.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

-Não. Ele não faz a mínima idéia de que esteja


grávida. Ele acha que desistiu do emprego por causa de
doença. É tudo o que sabe. –Após uma pausa, concluiu,
com voz controlada: -Minhas desculpas por duvidar das
intenções dele. Ele a pediu em casamento.

As chamas da lareira estremeceram, e sombras


dançaram sobre sua expressão tensa.

-Ele está muito apaixonado por você, Sílvia, e não quer


passar o resto dos idas sem você. Mas não vai tentar
entrar em contato. Você terá de ir até ele.

Sílvia se virou e caminhou até o fogo, fitando as


chamas.

As notícias de Max mudavam tudo.


O desejo de Philippe de se casar com ela não se referia
à gravidez, mas ao que ele achava que era amor por
ela. Incrível.

Ele estava querendo deixar Delphine, enfrentar a


condenação da família e dos amigos, a fim de se casar
com ela.

Que idiota da parte dele, quando já tinha tudo o que


um homem podia querer, e não percebia.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

Mesmo que estivesse apaixonada por ele, nunca lhe


pediria isso, nem a nenhum homem. Nunca seria capaz
de viver com o rompimento de outro casamento na
consciência.

Mas estava carregando um filho dele.


Agora que sabia que ele queria se casar com ela, tinha
a obrigação moral de lhe contar a verdade.

Uma nova agonia se iniciava, porque ele teria de lidar


com a novidade chocante de que ele, já com filhos
adultos, seria pai novamente. Ele teria de contar a
Delphine. Seus filhos descobririam.

Como todos eles a odiariam!


Sílvia se sentiu enjoada.

-Max... –Voltou-se para ele. –Poderia se colocar no


lugar de Philippe por um momento? E, então, responder
a uma pergunta? Tenha em mente que ele tem mulher,
dois filhos crescidos e vários netos.

Após um longo silêncio, ele assentiu quase


imperceptivelmente.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

-Como eu poderia entrar em contato com você causando


o mínimo de transtornos e constrangimento para você e
sua família?

Se ela o tivesse golpeado no rosto, a pergunta não teria


doído mais.

-Não importa o que tenha feito –começou ele, com voz


grave -, o resultado seria o mesmo. Mas provavelmente
preferiria um telefonema simples no escritório, desde
que estivesse sozinho na ocasião.

Ele procurou o blusão de couro e o vestiu.


-Tenho de retirar um pouco de neve do caminho antes
que Jesse e Ida cheguem. Quando for à cozinha, vai
encontrar um pacote sobre a mesa. É para o bebê.

Alguma coisa que combina com o suéter que fez. Aliás,


quero ver esse suéter depois.

Depois que ele saiu, Sílvia foi apressada à cozinha. Viu


uma caixa da Pink and Blue Boutique. Estremeceu ao
abrir o selo e afastar o papel de seda.

Dois macaquinhos, um rosa e outro branco. Retirou-os


da caixa e sentiu o perfume, soluçando.

-Olhe só para isso! –alardeou Jesse, quando entravam


na garagem. –Max voltou enquanto estávamos fora e já

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

tirou toda a neve do caminho. Confesso que não estava


com muita vontade de fazer isso esta noite.

Ida deu-lhe um beijo no rosto e saiu da caminhonete.


-Enquanto guarda o carro, vou entrar e preparar um
chocolate quente para todos nós.

-Que tal umas tortas de frigideira para acompanhar?


-Depois de toda aquela pipoca?
-Aquilo foi só o aperitivo, doçura.

Ela riu, e então correu pelo caminho até a porta da


frente, ansiosa em passar o resto da tarde com Max e
Sílvia.
-Oi! Chegamos!

Fechou a porta e tirou o casaco. Como não recebesse


resposta, descalçou as botas e correu para o estúdio.
Ainda nenhum sinal deles. Talvez Sílvia ainda não
tivesse voltado da cidade.

Podiam estar na cozinha, mas duvidava. A casa estava


quieta demais. Foi preparar o chocolate, mas se
surpreendeu ao ver dois macaquinhos ao lado de uma
caixa sobre a mesa.

Sorrindo, Ida os recolheu. Era muito típico de Max se


preocupar com isso. Afinal, onde ele estava?

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

Recolocou as roupinhas na caixa e começou a esquentar


o leite. Feito isso, saiu da cozinha e tomou o corredor,
quando Jesse já ia despontar na porta dos fundos.
No caminho, ouviu choro e estacou. Era como déjà vu,
com Sílvia no quarto, soluçando descontrolada.

Ida pensou que aqueles dias já tinham passado. Sentiu o


coração se entristecer.

O que acontecera ali naquela noite?


Onde estava Max?
Foi até o quarto principal e deu uma olhada. Nem sinal
dele.

Com ansiedade crescente, correu pelo corredor e abriu


a porta dos fundos.

-Jesse? –Correu pelo caminho que Max já limpara da


neve. –Querido?
-Estou indo.

-Não. Volte para a caminhonete. Vá procurar Max e


converse com ele.

-Do que está falando?

-Sílvia está lá chorando, e ele saiu. Alguma coisa está


errada.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

-Isso significa que ele foi para o chalé. Quando isso


tudo vai terminar, Ida?

Ela encolheu os ombros.

-Não sei.

Ele soltou um suspiro.

-Não se preocupe com as tortas. Sinto que esta vai ser


uma longa noite.

Onde estava o Jack Daniels?


Max procurara em cada prateleira do chalé. Aquela
noite, precisava de alguma coisa bem forte para
nocauteá-lo. No dia seguinte, iria ao chefe e pediria
outra missão. Uma bem longa.

Agarrando o casaco, saiu pela porta do chalé e


chafurdou na neve até a caminhonete. Bud mantinha o
bar em West Yellowstone aberto até as duas; não se
importaria se ele dormisse no sofá do salão.

Começou a dar ré e quase bateu na caminhonete que


vinha chegando.

Freando seco, pôs a cabeça para fora e viu Jesse


saltando na neve e correndo em sua direção. Ele se
movia com rapidez para um homem daquela idade.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

-Jesse! Volte para a caminhonete. Estou indo para a


cidade.
-Bud já vai estar fechado antes que chegue lá.
-O que fez com o Bourbon?
Jesse coçou a cabeça.

-Se bem me lembro, você o esvaziou já uns dois meses.


Max fingiu não notar a censura nas palavras do homem
mais velho.

-Alguém precisa colocar arreios na sua sela. Para


começar, quer me dizer por que Sílvia voltou a chorar
desoladamente? Até esta noite, ela estava indo bem.
Até esta noite, você estava há vários quilômetros de
distância. Não é preciso ser Sherlock Holmes para
descobrir que temos uma ligação aqui.

-Não sabe nem a metade.

-Pois gostaria de saber –declarou Jesse, sereno. –É


claro que sempre pode me mandar para o inferno. Vou
obriga-lo a fazer isso um dia desses.

-Não diga isso –trovejou Max. –Nem mesmo em


brincadeira.

-Você é como um filho para mim. Eu amo você. Quando


você sofre, eu sofro.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

Max sentiu os olhos se umedecerem.

-Eu amo você também. –Suspirou. –Pois bem, aí vai: o


homem que engravidou Sílvia foi ao apartamento dela
enquanto eu estava em Nova York. Ele quer se divorciar
da esposa e se casar com ela.

Jesse franziu o cenho.

-Depois da forma como ele mentiu para ela, Sílvia disse


que nem iria lhe contar sobre o bebê. Como ele
descobriu?

-Não descobriu. Não está entendendo? Ele quer se


casar com ela porque não pode viver sem ela. Devia tê-
lo ouvido –grunhiu Max, desolado.

-Contou isso a Sílvia?


Ele assentiu.
-E?

-Ela quis meu conselho sobre a melhor forma de entrar


em contato com ele, sem magoar a família.

Não surpreende ela estar tão mal agora.


-O que quer dizer?

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

-Tente ver sob o ponto de vista dela. Ela não sabia que
ele ainda era casado quando começou a sair com ele.

Ela provavelmente se sente mal por causa da esposa e


dos filhos dele. E, quando eles descobrirem sobre o
caso, vão pensar o pior dela. Mas ele é o pai da criança
e a ama.

Se ele está preparado para se divorciar da mulher para


se casar com ela, e ela quer se casar porque o ama,
então isso vai dar origem a novos problemas. Ela terá
de dividi-lo com o resto da família.

Naturalmente, eles vão se ressentir dela... Então,


haverá a questão de onde morariam, todos esses
detalhes que precisam ser resolvidos. Sílvia já tem
muitos problemas...

quanto mais Jesse falava, Max sentia a dor no peito


crescer. Tentou não ouvir.

-Max, o que foi? Por que isso importa tanto? É a vida


dela. Você mais que cumpriu a obrigação que Mônica lhe
impôs quando mandou Sílvia para cá. Ninguém poderia
ter feito mais do que você. Talvez seja hora de deixa-
la partir e começar a pensar nas suas necessidades.

-De que diabo está falando?

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

-Pensei que já estivesse crescido para a lição dos


pássaros e abelhas, mas... –Jesse encolheu os ombros
-... estou falando sobre encontrar outra mulher para
você, se casar, ter uma família.

Max passou as duas mãos pelo cabelo.


-Tentei, lembra-se?

-E, enquanto durou, você foi mais feliz do que tinha


sido a vida toda. Vai sentir aquilo novamente.

É exatamente isso, Jesse. Já estou sentindo. Esta


noite, com minha própria cunhada! A irmã de Mônica. A
gêmea de Mônica. Era grotesco. Errado. Uma traição a
Mônica e, ao mesmo tempo, uma traição à própria
Sílvia.

-Vou partir pela manhã, Jesse. Vou procurar outra


missão. Depois disso, terei algum tempo.

-Rob Miller, lá no Colorado, anda perguntando se você


não quer ir esquiar cross-country com ele. Por que não
aceita?

-Talvez aceite.

Jesse o fitou por um longo instante.

-Vai ficar bem aqui esta noite? Quer companhia?

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Não. Volte para Ida antes que vire um cubo de gelo.


Jesse sorriu e bateu em seu ombro.

-Jesse? –Chamou Max, e o capataz se voltou.


-Guarde isso, Max. Já sei o que vai dizer. Boa noite.
-Boa noite.

-Moreau Textiles. Bonjour.

-Bonjour, madame. Poderia falar com monsieur Moreau,


por favor? –Perguntou Sílvia, em francês. –Estou ligando
do escritório de monsieur Gide, em Nova York.
Sílvia não estava ligando de lá, naturalmente, mas
presumiu que Philippe saberia o motivo do telefonema e
a perdoaria pela mentira.

A dor de ver Max pegar a caminhonete para fugir da


casa fora tão insuportável que ela não conseguiria
dormir nem se sua vida dependesse disso. O relógio
marcava três e dez da madrugada.

Era meio da manhã para Philippe, que não saía para


almoçar antes da uma. Uma hora tão boa quanto
qualquer outra para encerrar esse assunto.

Ela nunca devia ter mantido em segredo a notícia da


gravidez. Se o tivesse intimado assim que soube, não
teria de estar enfrentando isso agora.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

Cada passo que dera desde o dia em que Mônica


aparecera em seu apartamento fora errado, e a pessoa
que mais sofrera fora Max.

Philippe nunca devia ter encontrado Max, nunca devia


tê-lo envolvido naquele caso vergonho...
-Philippe Moreau falando.
-Bonjou, Philippe.

Ela o ouviu engasgar.


-Não diga mais nada. –antecipou-se Sílvia. Está
sozinho? Pode conversar?

-Sim. Só por um momento. É aniversário de delphine.


Já ia sair. Mon Dieu, Sílvia. Encontrar seu cunhado foi
uma experiência inesquecível. Nunca imaginei que ele lhe
daria meu recado. Minha impressão é que ele me queria
do outro lado do mundo.

Ela agarrou o aparelho com mais força.

-A sua impressão foi correta –murmurou ela, seca. –


Entretanto, Max é um homem honrado. Ele sempre diz
a verdade, nem que magoe.

-Mereci isso, chérie.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Philippe, já que não temos muito tempo, irei direto ao


ponto. Não estou apaixonada por você. Senti atração,
mas nunca foi além disso. Eu... eu encontrei outro
homem –confessou, os olhos lacrimejantes. –Estou
apaixonada por ele. O tipo de amor que dura para
sempre. É o tipo de amor que sente por Delphine e que
sempre sentirá.

O silêncio do outro lado da linha era total.

-Esse homem é o único com quem desejo me casar, com


quem desejo passar o resto da minha vida. –Externou
esses sentimentos pela primeira vez em voz alta. –O que
me leva ao segundo motivo deste telefonema. Você
mentiu para mim. Você me fez cometer adultério. Mas
devo me responsabilizar por igual. Dormi com você sem
nenhum tipo de compromisso. Era um risco, e sofri as
conseqüências.

-Que conseqüências? –sussurrou ele.


-Vou ter um filho seu.

-Está grávida? –A voz dele tremeu.

-Sim. Devo dar à luz em fevereiro. Tive uma gravidez


difícil, e esse foi o motivo de desistir de meu emprego
com monsieur Gide.
Philippe, antes que diga alguma coisa, por favor, ouça.
Você deu vida a meu bebê, mas o homem que amo

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A gêmea errada – Rebecca Winters

salvou minha vida, e, por conseguinte, salvou a vida do


meu bebê também.
Esse homem já é mais pai do meu filho do que você
jamais será, Philippe. E... ele ama o meu bebê. –A voz
de Sílvia estremeceu. –Ele pretende tomar parte na
educação desta criança.
E eu pretendo permitir-lhe isso. Contei-lhe a verdade.
Era minha obrigação moral fazer isso. O que decidir
fazer de agora em diante é problema seu.
Meu conselho é que não diga nada agora. Quando o
bebê nascer, vou informa-lo. Há muito tempo para você
pensar seriamente no assunto.

-Mas se o bebê perguntar por mim algum dia? E se eu


quiser ver a criança?

-Então, resolveremos isso. Naturalmente, contaremos a


verdade à criança assim que for capaz de entender.
Nunca manteria nossa criança longe de você.
Só lembre-se de que esse bebê nunca vai querer nada
de você. Há muitas pessoas aqui que o amam.
Avós cuidadosos, e um homem que já assumiu o papel de
pai. O bebê merece ter o amor e a tenção completa
deste homem todos os dias, da mesma forma que seus
filhos tiveram a sua. Entende o que estou tentando
explicar?

-Sim, Sílvia, eu... eu entendo. –A voz dele saiu


entrecortada, dolorosa.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

-Você e eu acabamos nos relacionando porque estávamos


passando por um momento difícil de nossas vidas. Ambos
sofremos perdas de algum tipo e encontramos conforto
um no outro.
Vamos reconhecer o que realmente aconteceu. Seja
honesto consigo mesmo.
Você amou Delphine no começo. Ainda ama, ou não
teria mentido. Percebe? Se ela não importasse mais,
você não teria tido o cuidado. Mas você realmente teve
o cuidado. Você e ela ainda têm tempo juntos. Leve isso
em consideração, Philippe. Telefono em fevereiro.
Adeus.

Resoluta, Sílvia desligou o telefone.

-Sei que farei o máximo durante o tempo que me resta


–prometeu a si mesma, no quarto vazio. –Pelo tempo que
Max quiser me conceder. Pelo tempo que ele permitir
que eu permaneça em sua vida.

Nessa noite, em pura revelação, Sílvia teve a certeza


de que era isso o que Mônica queria no fundo.

Mas era uma revelação concedida a ela somente, algo


para alegra-la e que manteria perto de seu coração.

-Boa tarde, Philippe. Que bom comparecer à festa de


aniversário de sua mulher, ainda que atrasado.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

Pelo vidro coberto de gotas de chuva, Philippe vira


George no pátio pavimentado de cascalho bem antes de
abrir a porta e sair do carro.

Ergueu a gola do sobretudo e encarou o ex-secretário e


amigo.

-Que bom de sua parte me substituir.

-Não se preocupe. Ela está acostumada com seus


hábitos e não ficaria realmente transtornada, a menos
que você decidisse não aparecer. Quando a deixei,
estava no salão, mostrando a neta mais nova para os
convidados. Então, como vai a americana?

Olhando para a fachada na mansão graciosa por cima do


ombro de George, a casa da família, na qual ele e a
esposa viveram todos aqueles anos, ele disparou:

-Na verdade, não é da sua conta. Mas, já que


perguntou, vou lhe contar. Ela via em mim a figura
paterna. Mais nada. Ela está apaixonada por outra
pessoa. Planeja se casar com eles. Eles vão criar o meu
filho.

Pela primeira vez, George perdeu o sangue-frio. Após


um minuto, baixou o olhar.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Nunca direi nada disso a Delphine.

Philippe fechou a porta do carro e passou por ele.


Pousou a mão sobre seu ombro umedecido pela chuva.

-O que você fizer ou deixar de fazer me é indiferente.


Vou contar tudo a Delphine.

George parecia completamente chocado.

-Se ela puder me perdoar, então vou aceitar o conselho


de uma bela jovem que me preveniu de cometer o maior
erro de minha vida. Ela me lembrou de que ainda amo
minha mulher. E eu a amo, sabe? –murmurou,
fervorosamente. –E, se Deus quiser, farei o máximo
nesses anos que restam a mim e Delphine.

Pela primeira vez desde que Philippe o conhecia, George


chorou.
Intrigado, Philippe ergueu a cabeça.

-George, por que as lágrimas? Afinal de contas, é a


você que devo agradecer por me chamar à razão.
Pensei, naturalmente, que você iria tripudiar sobre meu
estado miserável de alma pecadora.

-Tripudiar? –gritou o amigo. –Esperava que eu


tripudiasse? –Balançou a cabeça. –Não entende nada? O
que me contou me fez ter fé na humanidade novamente.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Philippe suspirou com dificuldade.

-Só dei o primeiro passo. Não sei aonde isso me levará.


-O ponto é que você realmente deu o primeiro passo. –
George agarrou seu braço e incentivou: -Belo feito, meu
amigo. Belo feito.

Descer da maca de exames do dr. Harvey era um


projeto que precisava ser detalhado com antecedência.
Sem ajuda da enfermeira, Sílvia poderia ter caído de
cabeça. Ela deu um largo sorriso à outra mulher e
começou a se vestir.
-Venha, Sílvia –chamou o médico, poucos minutos
depois, quando a viu sair da sala de exames. –Vamos
conversar.
-Parece sério. –Ela se sentou à frente junto à
escrivaninha.

-De certa forma, é. Tudo parece bem e a sua pressão


ainda está normal. Mas, com o natal praticamente aí,
você estará a menos de oito semanas da data esperada.
Quanto mais perto do dia, mais freqüentemente preciso
vê-la. West Yellowstone fica bem longe de Rexburg,
ainda mais no inverno. Se entrar em trabalho de parto
durante uma nevasca, nem quero pensar no que pode
acontecer.

-Acha que o parto pode ser prematuro?


-Não. Mas não custa nada prevenir.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Nunca havia me ocorrido.

Sílvia estivera tão desanimada com a ausência de Max e


a notícia dolorosa de que ele não poderia estar em casa
para o Natal, que não pensara em mais nada.

Todos os preparativos que fizeram, a decoração, a


bela árvore de natal... E agora, ele nem estaria ali
para ver tudo aquilo.

Ele se tornara seu mundo todo; entretanto, retirara-se


para seu próprio mundo, deixara sua casa, sua vida, sua
comunidade. E ela sabia por quê.

No último Natal, Mônica estava viva. Ele provavelmente


não podia encarar a fazenda nessa época do ano; havia
muitas lembranças dolorosas.

Jesse e Ida tentavam tornar a ocasião festiva. Várias


reuniões foram planejadas com vizinhos e amigos, entre
eles Carole e Mike. Com a ajuda de Sílvia, Ida fizera
muita comida. Todos acabaram as compras e enviaram a
Giselle seus presentes, recebendo os dela em troca.

Sílvia finalmente decidira fazer uma meia de Natal


decorada com um agente federal usando botas de
caubói, a qual encheu com pequenos objetos pessoais
que ela sabia que ele usava e gostava.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Mas, sem ele ali, nada seria a mesma coisa. Nada


estaria no lugar certo.

Freqüentemente, ele telefonava de Billings, dizendo que


estava tudo bem. A espera entre as ligações era pura
agonia.

-Por que não conversa com seu cunhado e vê se ele não


pode esquematizar alguma coisa que nos deixe a todos
menos nervosos? Talvez se você ficar na cidade algumas
semanas...

Perdida em seus próprios pensamentos dolorosos, Sílvia


não percebera que o médico ainda falava. Ante a
sugestão, quis se inclinar sobre a mesa e abraçar o dr.
Harvey. Finalmente, ela tinha um motivo legítimo para
entrar em contato com Max.

Desde que ele partira, escrevera-lhe dúzias de cartas,


só para joga-las no cesto de lixo na manhã seguinte.
Não tinha coragem de envia-las, não sem ele antes
enviar a ela uma mensagem pessoal.

-Farei isso, doutor. –Esta noite.

-Ótimo. Vejo você na semana que vem.


Sílvia despediu-se e foi à recepção marcar outra
consulta. Quando a viram, Jesse e Ida largaram as

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A gêmea errada – Rebecca Winters

revistas e correram em sua direção, cheios de


perguntas.

Os três subiram na caminhonete, mas, em princípio,


Sílvia nem podia ver o carro. A neve se acumulava, e o
estacionamento estava coberto por uma camada recente
de neve. As preocupações do dr. Harvey começaram a
parecer mais sérias.

Quando estavam na estrada, Sílvia lhes contou o que o


médico dissera.
-Vou precisar entrar em contato com Max
imediatamente –finalizou.

-isso é fácil, querida –comentou Jesse. –Escreva-lhe


uma carta esta noite, e eu a levarei à cidade pela
manhã. O escritório do xerife pode enviar via fax a
Billings, e eles tomam as providências de lá. Max
deverá estar lendo a carta amanhã a noite.

Sílvia estava no banco de trás. Ao ouvir o plano de


Jesse, afrouxou o cinto de segurança e se inclinou para
a frente, com o bebê e tudo, para beija-lo na cabeça.
-Você é brilhante. E gentil. E maravilhoso.
-Está ouvindo, Ida?

-Já sabia disso bem antes de Sílvia aparecer na


fazenda.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Sílvia voltou a seu lugar e recolocou o cinto, lembrando-


se daquele primeiro dia como se tivesse acontecido em
outra existência. Como se já não tivesse influência no
presente.

-Digam-me uma coisa os dois –começou ela. –Quando


perceberam que eu não era Mônica?
Ida se virou para trás e sorriu.
-Não sei quanto a Jesse, mas quando a ajudei até o
quarto e você disse: “Você e Jesse são uns anjos”,
pensei: essa não é a Mônica que conheço. Não que sua
irmã não fosse gentil e preocupada. Ela simplesmente
não se expressava desse jeito.
Jesse assentiu.

-Ida tem razão. Sabia que alguma coisa estava errada


quando lhe passei o controle remoto e você disse que
detestava ter dado esse trabalho. A Mônica que
conheci teria dito: “Te devo uma, Jesse”.

-Nós realmente somos diferentes... éramos diferentes


–corrigiu-se Sílvia. Embora espantoso, o equívoco não
lhe deu vontade de chorar. Podia dizer que já superara
a morte da irmã. –Muitas pessoas que nos conheciam
nunca puderam nos diferenciar.

-Provavelmente porque vocês eram muito chegadas no


tempo da escola. Jesse e eu tivemos a vantagem de
conhece-las separadamente. Se temos alguma

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A gêmea errada – Rebecca Winters

lamentação, é de não tê-las visto juntas. Isso sim teria


sido extraordinário!

Sílvia riu com gosto.

-Deixávamos todos malucos, sempre nos vestindo igual,


brincando para fazer os outros de bobos. Mônica
planejava todas essas brincadeiras e me fazia
participar. Ela ficava zangada comigo se eu não
concordasse.

Jesse deu uma olhada nela pelo espelho retrovisor.

-Se se sentia mal, por que não se recusava?


Sílvia encolheu os ombros.

-Ela era minha irmã mais velha. Não se dizia não a


Mônica. Além disso, nos divertíamos tanto que eu me
esquecia por que estava zangada com ela. Nada era
mais excitante do que estar com Mônica.

Mas, de acordo com Giselle, nós intimidávamos os


meninos porque eles sentiam que não podiam competir
conosco. Papai concordava com ela.

Eles se preocupavam porque achavam que nós nunca


encontraríamos homens a quem amássemos, ou cuja
companhia nos divertisse mais do que a que uma fazia à
outra.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Eles não conheciam Max –resmungou Jesse, a voz


cheia de afeto.
Sílvia respirou irregular.
-Não.

A menção de seu nome pareceu colocar Ida e Jesse de


um jeito reflexivo, e só conversaram trivialidades
durante o resto da viagem.

Sílvia estava grata pelo silêncio. Queria tempo para


compor a carta. Tinha tantas coisas para contar...

Capítulo 13

Embora estivesse fora de serviço, Max enfiou a arma


no cós da calça. Pegou uma cerveja da pequena
geladeira do trailer e saiu, deitando-se na
espreguiçadeira para contemplar as águas.

Aquela parte da Flórida era provavelmente o lugar do


país que mais detestava. Colocou os óculos de sol, mas
a paisagem não melhorou. Os quilômetros de praia plana
sem movimento o fizeram ter saudade do terreno
primitivo de casa.
Daria o salário de um mês para aspirar o tipo de ar
seco de inverno que congelava os pulmões e fazia lutar
pela próxima arfada.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Baixou meia lata, imaginando a fazenda. Devia estar


soterrado na neve agora. Podia ver as pilhas de madeira
perto da casa, a fumaça saindo da chaminé. Quase
podia sentir o cheiro.
Fumaça de madeira e o café de Ida.
Percorreu mentalmente a casa, conhecia cada parte
dela, decorada para o natal com guirlandas de pinho.
Sempre acabava no estúdio, onde o fogo da lareira
crepitava, formando sombras que dançavam contra as
paredes.

Podia ver as sombras sobre o rosto de Sílvia,


destacando o brilho de seus cabelos. Podia vê-la ali de
pé, a forma grávida, rica e cheia.

Mas o milagre verdadeiro era toca-la...


Grunhiu ante a lembrança e pulou da espreguiçadeira.
Terminou a cerveja antes de ir tomar um banho frio.

Não tinha direito nenhum de fantasiar sobre ela. Assim


que Moreau jogara a bóia na água, ela fora nadando
atrás. Uma proposta de casamento era tudo o que ela
estava esperando.

Não havia como passar o natal com ela, observando em


agonia silenciosa enquanto ela contava os dias até o
bebê nascer e assim ficar livre... livre para deixá-lo.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Max tentou apagar esses pensamentos, olhando para as


decorações de natal dos trailers vizinhos.

Talvez devesse seguir o conselho de Jesse e encontrar


uma mulher. Havia muitas na Flórida, atraentes e
disponíveis. Conhecera várias na sede do acampamento
para trailers, que lhe enviaram sinais não muito sutis
desde o dia em que estabelecera residência ali. Tudo o
que precisava fazer era sorrir.

Um dia em breve, Sílvia e o bebê partiriam. Ela iria


para a França, casar-se com o pai da criança.
Como ia viver com aquilo? Como diabo iria viver com
aquilo?

-Jornal, senhor.

Max se voltou e viu o jornal cair a seus pés. Os


pensamentos estavam a milhares de quilômetros de
distância. Não percebera o entregador se aproximando,
até que ele já houvesse passado com a bicicleta.

O escritório local estava usando o jornaleiro como


mensageiro, que trazia informações, mensagens, ordens.
A qualquer momento agora, Max esperava ser informado
de que estariam mudando a operação para outro Estado.
Pegou o jornal dobrado. Talvez as ordens tivessem sido
enviadas.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

A testemunha que estava guardando, um homem baleado


num assalto a loja, estava para ter alta do hospital.
Seu disfarce consistia num trabalho de arrumação.
Oferecera-se como voluntário no caso pelo tempo que
precisassem. O que sentia por Sílvia o impedia de voltar
para casa. Como estava, o ciúme o deixava violento;
chegara muito perto de quebrar a cara de Moreau.
Dobrando novamente a espreguiçadeira, encostou-a no
trailer e entrou, trancando a porta. Abriu o jornal e um
envelope caiu.
Negócio oficial.

Rasgou o envelope, rezando para que o enviassem para o


mais longe possível da Flórida.

Franziu o cenho e retirou os óculos de sol.


Não eram ordens.

Contou três páginas de fax, escritas à mão. Mas por


quem? Não de Ida, nem de Jesse. Que diabo?

O “Querido Max”, ativou o turbo em seu coração, que


já estava a toda quando correu os olhos até a última
página e viu a assinatura de Sílvia. Gelou, imaginando
que ela partira antes mesmo de o bebê nascer. Como
Jesse ponderara, ela tinha o direito de fazer o que
quisesse com sua vida.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

O dia seguinte seria natal. Talvez Moreau tivesse ido à


fazenda fazer-lhe companhia.

O entardecer já cedera lugar à noite. Imóvel, Max


permanecia ali como que em transe. Finalmente, quando
concluiu que não conhecer a verdade era pior, procurou
o interruptor e acendeu a luz, afundando-se na cadeira
junto à mesa para ler.

Querido Max,
Tentei imaginar onde você estaria ao ler esta carta, o que
poderia estar comendo, bebendo, vestindo (além do seu coldre,
naturalmente).
O seu trabalho deve ser muito solitário, às vezes. Já que não
tenho meios de saber como é, só rezo para que esteja bem e
contente.
Como sabe, odeio esse eu emprego (sei que estou sendo áspera e
muito rude, mas espero que me perdoe). Todas as razões do
mundo, tais como “Alguém tem de fazer isso”, não me
convencem. Os riscos são muito grandes. A fazenda já seria
suficiente para a maioria dos homens, mas não para você,
aparentemente. Deve haver muitas pessoas por aí, pessoas
agradecidas, que lhe devem a vida. O que o faz continuar? Um
dia, espero ouvir e entender as suas razões.

Max respirou fundo e leu tudo de novo, saboreando os


pensamentos, a honestidade.

Giselle finalmente telefonou com novidades maravilhosas. O


advogado de Paul respondeu e houve um pré-julgamento. A
corte determinou que Paul se submeta a uma avaliação
psiquiátrica. Ele está sob ordem judicial. Não sabe como me

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A gêmea errada – Rebecca Winters

sinto aliviada. Ela não pode sair de Paris ainda, mas, já que Paul
não é mais uma ameaça, nem precisa. De qualquer forma,
podemos relaxar. Sei que andou preocupado com o fato de ele
ser perigoso, mas Giselle está confiante de que o perigo tenha
passado.

Como um homem sedento, Max devorava cada palavra,


sem perceber até aquele instante o quanto precisava de
notícias de casa. De Sílvia. Não queria que a carta
terminasse.

Visitei o dr. Harvey hoje. Ele diz que tudo parece bem., tenho
uma opinião um pouco diferente, nem me atrevo a me olhar no
espelho, pelo menos num de corpo inteiro!

Max riu, lembrando-se de como era senti-la mesmo


quando empacotada no casaco de couro, a pele e o
cabelo cheirando como os prados de Montana cobertos
de flores silvestres.

Ida e Jesse me levaram. Eles têm sido muito gentis, não


mencionando o meu ganho de peso. Foi bom que eles não
tivessem m visto subindo e descendo da maca de exames. Sei que
estava parecendo uma baleia encalhada, ou, talvez, uma
tartaruga de casco para baixo.

Com isso, Max riu alto.

Sabe o que dizem sobre uma tartaruga de costas. Não vai a lugar
nenhum. O que me traz ao motivo desta carta. Você
provavelmente estava imaginando se eu chegaria lá.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Max deixou de sorrir. Baixou a carta como se tivesse


levado um golpe e se levantou da mesa. Ela estivera
descontraindo, preparando o terreno para um golpe
maior. Por que simplesmente não fora direto ao ponto?
Agarrou os papéis da mesa e se sentou novamente.

Devo dar à luz em oito semanas. O dr. Harvey está preocupado,


pois acha que a fazenda fica longe demais da cidade. Mesmo
com a pressão arterial estabilizada, ele quer acompanhar de
perto. Começando em janeiro, ele quer me ver duas vezes por
semana. Então, quando faltarem apenas duas semanas, quer que
eu apareça todos os dias para fazer uma verificação até o dia do
nascimento.

O que acha que devo fazer, Max? Mudar-me para Rexburg?


Graças à sua generosidade, ainda tenho dinheiro economizado
para pagar o aluguel de um apartamento por um mês. Ou acha
que um quarto de hotel seria melhor?

Max se levantou. Leu e releu o trecho da carta até


quase decorar. Nenhuma menção de se reunir a
Moreau.
Virou para a página seguinte.

Outra preocupação do dr. Harvey é que eu possa entrar em


trabalho de parto antes da hora (não que ele ache que vai
acontecer). Mas entendo o que ele está pensando. Hoje, outra
nevasca deixou a estrada parecendo uma invernada no Yukon.
Sem a habilidade de Jesse ao volante, acho que não teríamos
chegado.
Como estava, levamos cinco horas na estrada.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Cinco horas. Se ela tivesse complicações, poderia não


dispor nem de cinco minutos. Isso decidia tudo. Voltaria
para casa assim que providenciassem um substituto.

Sei que estou me estendendo. Mas não poderia terminar esta


carta sem lhe agradecer pelos dois macaquinhos. Ficaram
perfeitos com o suéter. Não vai ser divertido ver o bebê
vestidinho com eles?
Estou muito feliz que não tenha comprado de recém-nascido. O
dr. Harvey diz que é um bebê de bom tamanho. É por isso que
logo minha gravidez ficou aparente. Pobre criaturinha! Não há
mais espaço lá! Tal mãe, tal filha (ou filho).

Sorrindo, Max balançou a cabeça.

O bebê deve estar sentindo a sua falta, pois nunca senti chute tão
forte quanto o daquela noite em que se conheceram.

Oh, Sílvia...

Sei que não tenho o direito de lhe pedir para voltar logo para
casa, então, não pedirei. Mas, caso não tenha adivinhado, com o
Natal chegando, todos na fazenda precisam de você e sentem a
sua falta, principalmente Mônica-Louise. Sabia que o nome de
minha mãe era Louise? Naturalmente, não pronunciei em voz
alta, para que ela não me ouça. (Se for um menino, gostaria que
se chamasse Kevin. O que acha?)
Sílvia

P.S. Um tal de Rob Miller deixou um recado na secretária


eletrônica. Alguma coisa sobre ter coelho preparado para
quando voltar.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Que droga!

Não sei se é importante ou não. Por favor, não se ofenda, mas se


está pensando em arranjar um coelho para o bebê, acho que ele
ou ela preferiria um cachorrinho. Minha mãe não gostava de
animais por perto; então, nunca tivemos bichinhos de estimação.
Acho que animais são importantes. Mas estou sendo egoísta
novamente. Não pude deixar de notar que todos os fazendeiros
têm cachorros, menos você. Naturalmente, não é da minha
conta.

Oh, Sílvia, Sílvia.

P.P.S. Taylor Burton passou e disse que a labrador preta vai dar
cria. É possível que dê a luz junto comigo. Ele gostaria de dar-
lhe um cachorrinho como presente de natal. Naturalmente, deve
chegar atrasado pelas razões óbvias. Já insinuei que gostaria de
ficar com um assim que eles estejam mais fortinhos. Já andei até
pensando num nome. Talvez Valentina. Ou, se quiser um
macho, pensei em chamá-lo de Cachorrão, como da TV.

Max balançou a cabeça, tocado e divertido ao mesmo


tempo. Nem sabia o que fazer com todos os
sentimentos que o envolviam naquele instante, querendo
explodir.

Preciso fazer uma confissão. Por favor, não fique zangado. Seu
contador telefonou outro dia. Ele precisava que alguém
verificasse um dado e, como não havia mais ninguém por perto,
fui até seus arquivos. Eles estavam meio bagunçados e então
comecei a arruma-los. Prometo não fazer grandes alterações.
Bem, talvez só um pouco. Nada de maior monta.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Max piscou.

Não fazia idéia de que tocar uma fazenda, mesmo pequena, fosse
um negócio de tal porte. Sei que tem Jesse, mas como consegue
administrar tudo e ainda ser agente federal, ao mesmo tempo?
Talvez haja alguma coisa que possa fazer para pagar meu
sustento até o bebê nascer. Costumava ser muito hábil no
computador. Pense no assunto.
Não sou muito boa em tomar emprestado, sabe, e nunca devolvo
nada. Então, por favor, me deixe ajudar, do jeito como me
ajudou. Vai dar um novo significado à palavra família.

Família. Max pensou e repensou na palavra. O que ela


queria dizer com aquilo? Era seu modo de dizer que ele
nunca poderia ser nada além de seu cunhado? Era isso o
que ela queria dizer?

Suspirou. Talvez estivesse interpretando demais.


Afinal, eram uma família.

Por que ela não disse nada sobre seu telefonema a


Philippe Moreau?

Talvez os dois tivessem concordado em não alterar sua


situação até o nascimento do bebê. Talvez Moreau
quisesse começar a pagar suas contas, e ela se
recusara até que estivessem casados. De qualquer
forma, nesse meio tempo, não queria ser sustentada
pelo cunhado.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Talvez por isso ela de repente pensasse em pagar as


próprias despesas, até Moreau se responsabilizar. Isso
explicaria por que ela mencionara usar as próprias
economias para encontrar abrigo temporário em
Rexburg. E por que fora tão eficiente com a papelada
administrativa da fazenda.
Que inferno, se ela tivesse sugerido, ele teria lhe
passado o trabalho de contabilidade há muito tempo.

Com determinação sombria, Max rasgou as páginas e


jogou-as no vaso sanitário. Dessa vez fora ainda melhor
destruir a evidência incriminadora, pois assim ele não
teria como relê-la vezes sem conta. Um homem poderia
ter tantas coisas...

Precisava voltar para casa. Precisava de respostas. E


precisavam estar frente a frente quando ela desse
essas respostas.

-Sílvia? Gostaria de um pouco de companhia?

Ao som da voz de Ida, Sílvia, que estava deitada no


sofá, vestida com o robe de veludo cor de vinho que
Max lhe enviara de Nata, sentou-se nas almofadas.

-Claro! Estou só descansando um pouco, vendo a


previsão da meteorologia antes de ir descascar as
batatas para o jantar.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Vai descascar as batatas? Deixe que eu faço isso. De


qualquer maneira, não almoçou. Pensei que gostaria de
uma bebida quente.

Sílvia sorriu para a caseira.


-Já disse várias vezes para parar de me mimar... mas
não vou recusar.

Sílvia pegou a bebida quente que sobrara do jantar de


Natal, na noite anterior, e sorveu o líquido para
agradar a caseira. Mas, na verdade, desde que passara
a carta a Jesse havia quatro dias, perdera o apetite.

Cinco segundos depois que o capataz tomara a estrada,


percebeu ter cometido um engano. Tentara telefonar
para o escritório do xerife para não transmitirem via
faz, mas os ventos fortes haviam interrompido as linhas
que iam até a sede, o que a levara a presumir que o
fax não seria enviado, tampouco.
Ficara mais animada.
Duas horas depois, porém, Jesse entrava muito
contente pela porta dos fundos, batendo a neve das
botas. Em voz alta, anunciou:
-Missão cumprida.

Ela sentira o coração enfraquecer.


Simplesmente declarara a Max que o amava.
Fora muito atrevida; forçara a situação.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Assim que começara a expressar seus sentimentos,


parecia não poder parar. Agora, tinha de viver em
agonia, imaginando se causara revolta nele por transpor
os limites estabelecidos pelo casamento com Mônica
noutra época.
-Está amuada. –Observou Ida. –Sei que o tempo ruim a
deixa nervosa, então vou lhe contar uma coisa. Assim
que as estradas estiverem limpas, vamos até Rexburg,
verificar um hotel. Vamos ficar lá até que entre em
trabalho de parto. Vai ser divertido, como se fossem
férias. Vamos alugar vídeos e comprar muitas revistas e
livros.

-Ida, pare de se preocupar com meu estado de


espírito... eu estou bem. Tudo o que li sobre grávidas
diz que, no período final, há alguma inquietação. Algo a
ver com o instinto de proteção.

Ida produziu um som desdenhoso.


-Deve estar se sentindo muito engaiolada.

-Não. Adoro a neve, e esse sentimento de estar quente


e segura dentro desta casa. –Fitou a árvore onde os
presentes de Max o aguardavam. –Há um aconchego, um
sentimento de amor que penetra em você. Assim como
um cartão de natal antigo. Conhece o tipo... com a
lareira e a neve acumulada nas janelas.

Deu um sorriso carinhoso a Ida.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Naquele primeiro dia, quando me ajudou a entrar em


casa, eu... eu senti que tinha chegado a casa. –A voz
lhe falhou, e respirou com determinação. –O natal com
vocês me fez sentir como se pertencesse a este lar. É
difícil explicar. Mas acredite em mim. Nunca poderia
me sentir amuada aqui.
-Fico feliz em ouvir isso.

Sílvia engasgou. Conhecia aquela voz. Olhou para a


porta.

-Ei, olhe quem chegou! –Ida correu para abraçar Max. –


Você sempre é um colírio para os olhos. Exatamente o
que o doutor recomendou. Vou trazer-lhe uma bebida
quente.

Max estava tão bonito que Sílvia precisou desviar o


olhar. Nem sequer notou a saída da caseira da sala.
-Foi uma carta e tanto. –Ele despiu a parca e caminhou
em sua direção, as mãos nos quadris. Devia ter saído na
correria, pois ainda usava um suéter cinza bem surrado.
-O... o que foi que eu disse para traze-lo assim tão
rápido?

Sílvia não conseguia controlar a irregularidade da voz.


O olhar dele a percorria por inteiro, verificando as
mudanças desde a última vez que a vira. Ela se sentiu
infinitamente tímida.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Sua carta coincidiu com um novo rumo no caso, que me


deu a oportunidade de voltar para casa. Quando
mencionou as contas, lembrei-me de que tinha um
negócio que estava pondo de lado. Decidi que agora era
a melhor hora para colocar tudo em ordem.
Estreitou o olhar sobre ela.

-Fico contente em ver que está usando meu presente.


Ela pousou a mão sobre o tecido.

-Adorei, ainda que pareça uma perdiz aninhada. Seus


presentes estão ali, debaixo da árvore.

Ele ou não ouviu, ou ignorou o comentário. No instante


seguinte, já estava no sofá ajoelhado junto dela,
encarando-a com uma solenidade que a fez estremecer.
-Como vai Mônica-Louise?

Sílvia nunca soube se foi sua própria reação de choque


à voz grave e rouca, ou se o bebê realmente o
reconheceu, mas de repente lá estava uma sessão de
aeróbica em seu útero, através do veludo do robe.

Dessa vez, Max não esperou pelo convite.

Ao primeiro contato, um suspiro suave escapou de sua


garganta. Ela percebeu seu olhar atento antes de ouvir.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Sua barriga está tão cheia e dura, posso sentir cada


movimento do bebê. Como se sente, Sílvia.
Ela tentou se endireitar um pouco, lutando em vão para
não pensar naquele toque e no efeito que tinha sobre
ela.

-Não sei como explicar –sussurrou.


-Eu quero saber.
Ela recuperou o fôlego.

-Tente imaginar que esses movimentos que está


sentindo estão ocorrendo em seu estômago. Pense no
bebê encolhido como uma bola, ajeitando-se aqui e ali,
os pés, as mãos apalpando seus rins.

Antes que ela percebesse, a mão deixara o estômago e


acariciava sua testa, afastando o cabelo. Então, ele
parou.
-Está assustada, também?

Ele estava completamente sério.

Aquele homem, que protegia a vida de outras pessoas, e


nunca considerava a própria, estava realmente
assustado.

Bom Deus, como ela o amava! Deu um sorriso meigo.


-Não. Excitada. Nervosa, talvez. Mas nunca assustada.
Ele respirou fundo e levantou-se, olhando para ela.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Como pode ficar tão tranquila?

-Como você combate assassinos profissionais sem


hesitar? –Havia desgosto em sua voz. Ele regularmente
se expunha a perigos que a maioria das pessoas nem
conceberia.

-Não é a mesma coisa.


-Então, me explique.

Ele levou muito tempo antes de responder, e ela ficou


com medo de que o tivesse deixado zangado.
Finalmente, ele se manifestou, a voz grave e
controlada.

-Meu pai só tinha um irmão, que se aposentou do


serviço florestal, mas ainda ajudava a combater os
incêndios na área de Gallatin. Ele substituía alguns dos
rapazes que saíam de férias no verão. Meu tio Owen
adorava a vida ao ar livre.

Algumas de minhas lembranças mais felizes são de


andar pelas florestas e descer os rios de canoa juntos.
Tinha dezessete anos no verão em que ele morreu. Meu
pai não tinha notícias dele havia algum tempo, então,
pegamos o carro para ver o que estava acontecendo.

Ao falar, Max empalideceu.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Max... –Ela balançou a cabeça, temendo ouvir o que


achava que viria. –Não...
-Queria saber por que faço o que faço. Quando
chegamos ao posto da polícia florestal, nós o
encontramos lá. –Após um silêncio tenso, completou: o
assassino tinha feito um bom serviço. E no cachorro
também. Pode não fazer sentido, mas é por isso que
não tenho cachorro. O pobre animal sofreu. E meu
tio... –Max passou a mão pelos olhos. –O choque matou
meu pai, que teve um ataque cardíaco fulminante na
manhã seguinte.

-Oh, Max...

-Uma pneumonia levou minha mãe no outro ano. Na


época, Jesse era um dos trabalhadores da fazenda.
Contei-lhe que ia encontrar o assassino de meu tio. Ele
pousou a mão sobre o meu ombro e disse: “Faça isso!
Pegue-o por mim, também!”

Sílvia estava chocada. Lágrimas corriam-lhe pelo rosto.


-E o encontrou? –perguntou.

-Não. Mas outra pessoa o encontrou, graças a Deus.


E você passou a proteger vidas desde então.

Sem perceber, Sílvia se levantou do sofá, querendo


conforta-lo, sem saber como.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Perdoe-me pelo mal julgamento. Perdoe-me por


mencionar o cachorro. Mônica nunca me contou.
-Mônica não sabia. Antes que levantasse o assunto,
nosso casamento desmoronou. Não havia mais
comunicação, nenhuma oportunidade de contar o que
acontecera. –Ele parecia assustado. –Não sei por que
lhe contei. Isso tudo aconteceu há tanto tempo.

-Eu precisava ouvir, para entender.

A dor por que ele passara apurara seus sentimentos,


fortalecera-o de tal forma que ela estava espantada.

-Ei, vocês dois! –ida enfiou a cabeça na fresta da


porta, trazendo-os de volta ao presente. –Venham para
a cozinha e ajudem Jesse e a mim a comer as tortas
que preparei. Queremos saber o que decidiram sobre a
mudança para perto do hospital.

Capítulo 14

Ao saírem do consultório do dr. Harvey, Sílvia estava


se sentindo quente, tanto que apenas jogou a parca
sobre os ombros.
Max lhe lançou um olhar.

-Se está quente, desligo o aquecedor.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-E você vai congelar. Não se preocupe comigo.


Ultimamente fico quente sem nenhuma razão.
-Perguntou ao doutor sobre isso?
-Por Deus, não. –Ela sorriu secretamente, adorando a
preocupação dele. –É normal.
-Como sabe?

-Porque li no livro que você me deu na semana passada.

Max andara muito atarefado desde que voltara. A cada


dia desde o ano novo, o quarto do bebê ficava cada vez
mais apertado. Primeiro, veio o berço, depois os lençóis
e cobertores. E, então, roupas, babadores, camisolas,
tudo o que um bebê bem vestido estaria usando naquele
ano.

-Enquanto estava fazendo o exame, verifiquei os


apartamentos mobiliados e encontrei um que é bem
apropriado para você.
O marido foi transferido para a Costa Leste e eles
tiveram de sair antes de o contrato acabar. Eu paguei a
diferença. Podemos fazer a mudança no próximo fim de
semana, quando você vier para sua consulta.

Sílvia tentou acalmar o pulo que sentiu no coração.


Teria as últimas quatro semanas da gravidez para si
mesma. Sabendo que Max apareceria lá para visitá-la.
Ficariam a sós. Era o que ela precisava, o que
desejava.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Posso ver?
-Vamos passar por lá. O casal que mora lá está meio
atrapalhado, a esposa está de cama, gripada. Acho que
eles não gostariam que os perturbássemos hoje mais
uma vez.
-Então, não vamos. Posso esperar.

Tinham percorrido três quarteirões quando ele


estacionou em frente a um prédio de tijolos.

-O apartamento fica atrás. Tudo parece muito seguro.


Há uma garagem com tranca e um alarme contra roubo,
e os proprietários, um casal de aposentados, estão
sempre por perto.

Sílvia continuamente se maravilhava com a generosidade


e preocupação de Max, com a maneira com que cuidava
dela.
-É uma casa adorável. Tenho certeza de que é
perfeita. Então, acha que consegue ficar aqui por um
mês?

-Claro.
-Ida está ansiosa para lhe fazer companhia.
-Ida precisa fazer companhia a Jesse. Ficarei bem,
lendo, tricotando e assistindo a novelas.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Aposto que, se pedir, Carole poderá vir e ficar nos


finais de semana.
-Max... Morei sozinha em Nova York por um ano.
-Não estava grávida, nem passando por um dos piores
invernos do século.

Então, por que não se oferece para vir morar comigo?


Mordeu o lábio e olhou pela janela, desejando ter a
coragem de dizer o que pensava.

Max saiu de casa ao amanhecer, levantando a gola para


proteger o nariz e a boca do frio. Durante a noite, a
temperatura baixara para vinte graus negativos. Seus
passos emitiam sons cortantes na neve congelada.

-Vai ter sorte se conseguir dar a partida na


caminhonete –resmungou Jesse, através do cachecol de
lã. –Quanto tempo vai ficar fora?

-Se não houver complicações, devo estar de volta


depois de amanhã. Se alguma coisa me retiver, só no
dia seguinte. Cuide para que Sílvia leve tudo o que
precisa para as próximas quatro semanas.
-Vamos apronta-la.

-Avisei a Giselle que a passagem dela já foi paga.


Quando for a hora de dar à luz, tudo que precisaremos
fazer é telefonar, e ela virá para cá em seguida.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Sílvia sabe disso?

-Max abriu a porta do carro e subiu.


-Contei-lhe a noite passada.
-Ida a ouviu andando às três da manhã.

-Estava com dor nas costas e não conseguia dormir. –


Max girou a chave na ignição, até o motor pegar. –
Fiquei com ela até a dor passar. – E conversamos sobre
tudo, exceto sobre Philippe Moreau. –Ela finalmente
adormeceu no sofá.

-É onde acaba dormindo todas as noites ultimamente.


-Não consegue respirar se ficar deitada.
-Não sei se eu conseguiria, tampouco, se estivesse
carregando aquele peso.

Ao engatar a marcha, Max lançou um sorriso maroto.


-Na carta, ela se referiu a si mesma como uma baleia
encalhada.
Jesse riu.

-Suponho que se sinta assim mesmo. Mas não vai


demorar agora.

Era isso o que preocupava Max. Nas quatro semanas


seguintes, mais ou menos, ele a teria sob suas vistas.
Mas, assim que o bebê nascesse e nada mais a
impedisse de fazer o que queria, tudo mudaria. Lá no

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A gêmea errada – Rebecca Winters

fundo, sabia, e não havia nada que pudesse fazer a


respeito.
-Outra grande nevasca deve cair esta noite.
-Não poderia ter planejado a coisa melhor, Jesse.
Quando estiver de volta, você já terá tirado toda a
neve.

-Por que você é que te de levar esse prisioneiro? Acaba


de chegar da outra missão.

-Devo uma a A.J. pelas vezes que ele me substituiu


enquanto estávamos esperando notícias de Mônica.
Jesse estreitou o olhar.

-Max, você está tão cansado quanto Sílvia. Espero que


não seja contagioso.
-Nunca fui pai antes.
-Não é o pai, Max.

Ele sentiu o coração falsear uma batida.


-Diga-me uma coisa que eu não saiba –disparou, e
acelerou o suficiente para acordar um morto.

-Então, quando vai contar a ela que quer ser?


-Cuide de seus negócios idiotas, Jesse.

-Acontece que meu único negócio idiota é você. –


rebateu o capataz. –Sei que está apaixonado por ela há
meses.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Não repita isso –sussurrou Max.


-Mônica se foi, filho. E parece que ela lhe deu
permissão quando pediu a Sílvia que trocasse de lugar
com ela.

-Por Deus, Jesse. –A voz dele tremeu de emoção. –


Está ouvindo? Minha mulher mal foi enterrada... –
Quase engasgou ao dizer essas palavras.

-Desde quando se importa com as fofocas? Seu


casamento acabou há mais de um ano e, exceto pela
aparência, Sílvia é tão diferente de Mônica quanto o sol
da lua.

Max cerrou os dentes. Tinha de sair dali. Rápido.


-Não sei por que estamos tendo essa discussão. Moreau
está aguardando, só dando um tempo.

-Acho que não.


-Preciso ir.

-Está preocupado demais. Chame outra pessoa para


essa missão.

-Saia do caminho, Jesse. Não me force a socar um


homem velho.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Sílvia? São quatro horas. Decidimos que seria melhor


partir agora para a cidade ou pegaremos a tempestade.
Tem certeza de que não quer que traga nada para
você?

Sílvia saiu do quarto, ciente da pontada de dor nas


costas. Esperava que a dor não voltasse com força
total. O dr. Harvey a prevenira de que, nesse período
tão próximo da data esperada, ela experimentaria
várias dores e incômodos.

Isso tudo significava que seu corpo estava se


preparando para o grande evento. Não se atrevera a
contar a Max como as dores andavam fortes, ou ele
teria entrado em pânico e a levado ao hospital.

-Não. Estou bem. Espero que haja uma carta de


Giselle.

-Eu também. –Ida acariciou seu rosto. –Parece meio


quente.
-Estou sempre quente ultimamente.
O olhar de Ida não perdia nada.

-Jesse disse que as estradas estão limpas. Devemos


estar de volta em uma hora e meia.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Sílvia caminhou com Ida até a porta dos fundos e os


observou saírem com a caminhonete. Então, fechou a
porta e trancou-a.
Era a hora perfeita para cuidar de umas contas menos
complicadas que Max lhe passara. Agradecida por ter
com que ocupar a mente, foi até o estúdio. Agora, com
os pés inchados todo o tempo, chinelos eram a única
coisa que podia calçar.

Não havia trabalhado meia hora quando a dor nas


costas aumentou dramaticamente, forçando-a a sair da
cadeira. Surpresa com a intensidade, caminhou um
pouco, esperando que a dor diminuísse. Mas só piorou.

Enquanto decidia se chamava o médico, o telefone


tocou. Podia ser qualquer pessoa, naturalmente, mas
sempre havia a possibilidade de ser Max.

Toda vez que pensava nele, o coração disparava,


deixando-a sem fôlego.

Não querendo perder a chamada, caso fosse Max,


apressou-se para atender. Mas não podia se
movimentar com rapidez, e o aparelho tocou quatro
vezes antes que o alcançasse, e a secretária eletrônica
foi acionada. Esperava que a pessoa que estivesse
chamando deixasse uma mensagem.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Apertou o botão para ouvir a mensagem gravada. A


primeira coisa que ouviu foi a estática. Então: “Aqui é
do escritório de Great Falls informando que o agente
Sutherland foi ferido em serviço. Ele está no hospital
em Rexburg. Não temos informação sobre seu estado.
Manteremos contato. Aguardem.”

-Não! Max! –gritou Sílvia na sala vazia. –Não posso


perde-lo. Preciso de você. Eu amo você... Não posso
viver sem você! Não pode morrer. Não vou permitir!

Procurando uma caneta, escreveu um bilhete, mas as


mãos tremiam tanto que sua letra era difícil de
decifrar: “Ida e Jesse, Max está ferido. Ele foi levado
ao hospital em rexburg. Vou para lá com o outro carro.
Venham rápido!”

Procurou pelas chaves que Max mantinha na gaveta da


escrivaninha, agarrou a parca, um par de botas e saiu
apressada, sem se importar com nada a não ser sua
necessidade de estar com ele.

O ar gelado invadiu-lhe os pulmões, fazendo-a


engasgar. Mas conseguiu chegar à garagem onde o carro
de Max estava estacionado. No começo, o motor não
queria pegar, o que a deixou ainda mais nervosa.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Mas sabia que, se entrasse em pânico, afogaria o


motor. Por minutos, permaneceu agoniada, esperando,
então, tentou novamente. Por fim deu a partida.

Estremecendo de alívio, pisou no acelerador e saiu de


ré pelo caminho coberto de neve. Usou o controle
remoto de Max para abrir o portão.

O céu escurecera, o que significava que a tempestade


não tardaria. Mas as estadas não estavam tão ruins e
praticamente não havia trânsito. Poderia ir a oitenta
quilômetros por hora –não mais, ou perderia o controle
do carro.

Assim que o aquecedor começou a despejar ar quente no


carro, Sílvia tomou ciência de que a dor nas costas
migrara para frente. Era como um anel de pressão que
crescia rápido.

Toda vez que diminuía a velocidade para fazer uma


curva, descobria que a dor era cada vez mais intensa
ao tirar o pé do acelerador pisar no freio.

Certo momento, a dor foi tão intensa que teve de


parar. Seu estômago estava duro como pedra e,
literalmente, não conseguia se mexer.
Estava tendo a primeira contração.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

Tinha de ser rebate falso. Não era época de o bebê


nascer ainda. Quando a dor cedeu, estava ensopada de
suor. Começou a dirigir novamente, mais devagar agora,
porque a estada entrava na floresta, e a neve começara
a cair.
Um carro passou por ela, o único carro que vira –
piscando as luzes. Rapidamente ligou as luzes também.
Em poucos minutos, tudo o que podia ver era a neve,
caindo cada vez com mais força, por toda a volta.

Outra contração, que a paralisou. Não teve tempo de


se encostar. Sentiu uma pontada aguda e a bolsa d’água
se rompeu.

Um líquido morno se espalhou por todo o assento,


molhando-lhe as costas, escorrendo pelas pernas.
Estava em trabalho de parto. Nunca se sentira tão
desamparada na vida. O bebê estava chegando e Max
podia estar morrendo.

Por favor, Senhor. Não o deixe morrer. Ajude-me.


Ajude meu bebê. Por favor.

Precisava pensar. A pequena cidade de Island Park


ficava a uns quinze quilômetros dali. Podia chegar lá.
Tinha de conseguir. Tinha que conseguir ajuda.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

Esforçando-se para se controlar, engatou a marcha e


saiu mais uma vez, rezando para que as contrações se
retardassem.

O pára-brisa era açoitado pelo vento que trazia neve


fresca. Se alguma coisa acontecesse aos limpadores,
não conseguiria mais dirigir. Por favor, não permita que
nada aconteça aos limpadores.

Outra contração. Freou o carro e gemeu bem alto,


atormentada pela intensidade e duração da dor. Quando
a crise amainou, estava novamente ensopada de suor.

O tempo entre as contrações estava diminuindo.


Dirigiu mais rápido, sabendo que tinha de compensar o
tempo perdido. Oh, Max, por que deixei que partisse
sem saber o quanto o amo?

Com os olhos grudados na estrada, não percebeu um


alce até que ele apareceu na frente do carro. Tirou o
pé do acelerador e freou, mas era tarde demais. Houve
um baque e o carro escorregou para fora da estrada,
encalhando no acostamento.
Tudo ficou quieto.

Outra contração começou. Ela estava ali sentada, fraca


demais para se mexer, gemendo devido à força incrível
que os músculos trabalhavam para expulsar o bebê de
se corpo.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

Não conseguia se mexer, nem para sair do carro e ver


se o pobre alce jazia na estrada ou não.

Novo terror se apoderou de seu coração. Se alguém


passasse e batesse no corpo do animal, haveria outro
acidente. Ligou as luzes de alerta, rezando para que,
se o alce estivesse na estrada, que estivesse morto.
Não podia imagina-lo sofrendo.
Não podia suportar perder Max.

-Mônica-Louise –gemeu ela -, o que fez você querer


nascer neste momento? Por favor, Senhor, ajude-me.

Outra contração enrijeceu seu útero e ela perdeu todo


o senso de tempo e espaço. Quando terminou, estava
zonza de cansaço.

Seu corpo inteiro tremia. Ligou o motor e tentou


colocar o carro de volta na estrada, mas os pneus
giravam em falso. Estava atolada.

Uma tartaruga de costas, pensou histérica. Tenho de


sair do carro e chamar a atenção de algum motorista.
Mas só vira um carro. Quem em perfeita saúde mental
sairia com aquele tempo? E se ninguém aparecesse?

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

Tinha de ajudar a si mesma. Ela e o bebê teriam de


fazer tudo sozinha. Precisava passar para o banco de
trás, onde havia mais espaço.

As contrações estavam mais próximas umas das outras.


Se esperasse mais, não conseguiria sair de trás do
volante.
Precisava se mexer agora!
Por favor, Senhor, me dê força para fazer isso.
Mantenha Max vivo para nós.

Quando Max passou por Island Park, a droga já não


fazia mais efeito. O supercílio esquerdo palpitou sob o
curativo. Recusara-se a tomar anestésicos, pois queria
estar alerta para voltar para casa.

Cuidadosamente, tateou as bordas do ferimento. Um


segundo antes de a faca o atingir, fora capaz de se
desviar antes que um estrago real fosse feito.

Quando pensou nos dois bandidos que tentaram libertar


o prisioneiro, sem sucesso, um sorriso feroz surgiu em
seu rosto. Não tinham chegado nem perto.

Era bom saber que mais três estavam fora de ação.


Era muito bom.

Mas quando aquela faca passou raspando por seu olho,


percebeu que um dia uma bala com seu nome fatalmente

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

o atingiria. Não estava preparado para isso. Alguma


coisa muito mais importante o aguardava em casa.
Alguém de importância vital para ele. Estava cansado de
lutar pela segurança de outras pessoas. Era hora de
começar a lutar pelo que ele queria.

Pegando o telefone do carro oficial, ligou para a


fazenda provavelmente pela vigésima vez, mas a
secretária eletrônica continuou atendendo. Ida devia
ter ligado o aparelho porque Sílvia estava dormindo.

Não conseguira pegar ninguém no telefone da


caminhonete tampouco. Com aquele tempo, Jesse devia
estar em casa. Imaginou se valia a pena tentar mais
uma vez na esperança de pegá-lo trabalhando na
garagem.

Após a primeira chamada, a ligação se completou e ele


ouviu:
-Max? É você? –o tom assustado de Jesse o deixou
preocupado.
-Sou eu. O que...
-Graças a Deus!

-Você está bem? –gritou Ida no aparelho.


-Alguém pode me dizer o que está acontecendo?
-Pare de se fazer de herói e nos conte a gravidade do
ferimento. –Jesse tomou a palavra novamente. –
Sabemos que está no hospital.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

Max agarrou o volante.


-Estive lá para fazer um curativo, mas já estou indo
para casa. Passei por Island Park há cinco minutos.
Como souberam?

-Ouça, nós fomos à cidade há poucas horas e, quando


voltamos, Sílvia não estava mais aqui.
Não estava?
Max sentiu um golpe. Não. Isso não pode estar
acontecendo.

-Ela deixou um bilhete dizendo que você estava ferido e


que estava no hospital em Rexburg. Ela pegou o seu
carro, pedindo para nos apressarmos também.

Sílvia foi atrás de mim porque eu estava ferido? Max


balançou a cabeça, tentando entender.

-Isso significa que ela está na estrada agora!

A tempestade requeria toda a sua atenção. Quando


pensou nela, grávida, sozinha no carro, sentiu o coração
falhar.

-Graças a Deus você ligou, Max. Estamos indo atrás


dela. Você está indo em sua direção pelo outro lado.
Quem a encontrar primeiro avisa o outro.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Só passei por um carro. –Esforçou-se para se


lembrar. –Não, não era o meu. –Que idiota telefonou
para casa e a avisou? Deve ser um novato, estúpido
demais para saber que isso não se faz. Era esse tipo de
coisa que estava tentando evitar. Quando colocar as
mãos no responsável...
-Calma, filho.
-Se alguma coisa acontecer ª. –Parou no meio da frase.
Podia ver luzes à frente à esquerda, mas não estavam
se aproximando. Mais alguns metros e viu um carro
preso na neve no acostamento. Era o seu carro! –Eu a
encontrei, Jesse!

-Graças a Deus –ouviu a voz de Ida.


-Ela saiu da estrada. Bateu em alguma coisa. O carro
está atolado. Estou a dez quilômetros ao norte de
Island Park e vou parar do outro lado da estrada. Vou
falar com ela e ver se está bem. Ligo depois.
-Certo.

Max freou o carro e saiu. A neve já se acumulava sobre


o carro, cobrindo as janelas.
-Sílvia? –Bateu no vidro; então, abriu a porta,
esperando vê-la no bando da frente. Sílvia?
Ouviu um lamento de dor.

-Ajude meu bebê. Alguém, por favor, ajude meu bebê.


Ela não está respirando.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Max não se lembrou de acender a luz do carro, nem de


abrir a porta de passageiros. Mas, pelo resto da vida,
nunca esqueceria de sua corajosa Sílvia, deitada, nua
da cintura para baixo, o material pós-parto já expelido,
e o recém-nascido ainda envolto em líquido amniótico e
sangue, enquanto ela tentava desesperadamente
insuflar-lhe vida.
-Estou aqui, querida. Deixe comigo. –Ele foi para seu
lado, pousando um pé no chão do carro. Com a outra
perna, apoiou-se no banco, de modo que pudesse pegar
o bebê com firmeza.

-Max –gemeu Sílvia, fraca. –Você veio... Mas como


você pôde... estava com medo de perder você... estava
no hospital... Meu bebê...

-Não fale, Sílvia. Guarde suas forças.

Ele ergueu o bebê com cuidado, ciente de que o cordão


umbilical ainda precisava ser cortado. Introduzindo o
dedo na boquinha da criança, sentiu o local, limpando a
passagem da garganta, que estava cheia de fluido.

Quando acabou a limpeza, aninhou o bebê na mão, seus


pezinhos contra o próprio tórax, e insuflou-lhe ar pela
boca e pelo nariz. Os pequenos pulmões se encheram,
mas ela ainda não respirava sozinha. Com dois dedos,
ele a tateou até encontrar seus rins, e então os
pressionou.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Um, dois, três, quatro, cinco.

Repetiu o processo três vezes, então a pegou pelos


calcanhares, segurando-a de cabeça para baixo.
-Vamos, Mônica-Louise. –Deu-lhe um tapa. –Chore por
mim, doçura. Vamos. Pode fazer isso por mim.
Bateu mais uma vez. Houve um balbuciar. Então, ela
soltou um choro rico. Foi o som mais lindo que ele já
ouvira. Ante seus olhos, viu o pequeno corpo perfeito se
encher de vida.

O bebê parecia zangado com a dor que ele lhe infligia e


gritou, protestando veementemente.

Max deu vivas de pura alegria. O choro de satisfação


de Sílvia se misturou ao seu, e ela começou a soluçar.
-Deixe vê-la. Deixe-me ver minha menininha.

-Aqui está ela –sussurrou Max, as lágrimas escorrendo


pelo rosto. -, tão ansiosa quanto a mamãe.

Aninhou a cabeça e o pescoço da criança em uma mão,


enquanto lhe baixava os calcanhares com a outra,
passando-a para os braços de Sílvia. Quase
imediatamente o bebê reagiu, mais tranqüilo.

-Você é linda –murmurou Sílvia, espantada. –Tão


perfeita. _Enquanto falava, o bebê emitia pequenos

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A gêmea errada – Rebecca Winters

ruídos que a atingiam no coração. –Não acredito que ela


esteja aqui, que ela esteja viva. –Sílvia ergueu o olhar.
Estavam mais brilhantes do que nunca. –Agradeço a
Deus por ter você.

Max não conseguia encontrar palavras. Sem perceber,


inclinou-se e a beijou ternamente.
-Este é o momento mais importante da minha vida –
sussurrou, contra seus lábios.

Relutante, ele ergueu a cabeça.

-Agora, vou cortar o cordão e aquecer as duas.

Enquanto ela embalava o bebê, ele cuidou do cordão


umbilical; então, retirou o casaco forrado de peles,
desabotoou a camisa de flanela e tirou-a.

-Vamos embrulhar o bebê, assim ela vai continuar


quente e confortável. Isso. Agra, vamos cuidar de
você.

Viu a parca no chão do carro, agarrou-a e cobriu as


duas. A seguir, com o outro casaco, cobriu os pés e
pernas de Sílvia.

-Vou ligar o carro, assim o aquecedor vai funcionar. Em


seguida, vou chamar uma ambulância.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Nós já chamamos, já que você não telefonou dizendo


que estava tudo bem –informou Jesse, por trás dele. –
Deve chegar em poucos minutos. Conversamos com o dr.
Harvey também. Ele vai nos encontrar no hospital. Bem
como o pediatra. Você toma conta de Sílvia e do bebê.
Eu cuido do resto.

-O alce morreu? –perguntou Sílvia.


-Foi isso que causou o acidente –resmungou Max. –Não
vi nenhum sinal dele.

-Espero que não esteja sofrendo por aí.

Max não sabia que podia amar tanto uma mulher. Depois
do que passara, ela estava se preocupando com um
alce...

-Tenho certeza de que não –garantiu, emocionado. –Não


amassou muito o carro.

Foi uma noite de milagres.

Em segundos, Jesse e Ida ligavam o carro para que o


aquecedor começasse a funcionar. Ida se ajoelhou no
banco da frente para olhar para trás.
-Veja só!
-Ela é linda, não é, Ida?

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Max estava pensando a mesma coisa de Sílvia, cuja pele


pálida irradiava alegria. Não conseguia tirar os olhos
dela.
-É mesmo, querida. E você também.
-Amém. –completou Jesse.

Capítulo 15

Quando o pediatra entrou na área de espera do


hospital, Max se levantou, junto com Ida e Jesse,
todos ansiosos ao máximo. A qualquer minuto,
esperavam que o dr. Harvey lhes dissesse como for a
cirurgia de Sílvia. Ela sofrera no parto e precisava de
cuidados.

-Sr. Sutherland? Sou o dr. Rich. –Estendeu a mão. –


Soube que foi o senhor que chegou na hora certa e fez
o bebê começar a respirar.
Um trabalho delicado sob aquelas circunstâncias e que
teria assustado qualquer um, mesmo um profissional
treinado. Meus parabéns.

Max apreciou o elogio, mas precisava saber se o bebê


ficaria bem.

-Qual é o veredicto?
-Está tudo no lugar. –Sorriu. –Até onde posso dizer,
ela está reagindo como um bebê normal. Os pulmões

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A gêmea errada – Rebecca Winters

estão bons, a cor também, tem bom tamanho e está


com fome. Se continuar assim, não vejo por que não
possa ir para casa com a mãe em poucos dias.

-Max! –gritou Ida, de alegria e o abraçou.


Max soltou um suspiro de alívio como o brilho do sol
após um dia chuvoso.
Jesse perguntou, emocionado:
-Quanto ela pesa?

-Três quilos e duzentos e cinqüenta gramas. E tem


cinqüenta centímetros.

Jesse socou o braço de Max, o rosto aliviado.


-Quando poderemos vê-la?

-Podem ir lá agora mesmo e olhar pela vitrina do


berçário. Boa noite. Chamem-me se tiverem dúvidas.
Max agradeceu, enquanto Ida e Jesse cumprimentavam
o médico com afeto.

-Vão vocês, estarei lá num minuto. Vou esperar o dr.


Harvey aqui.

A caseira pousou a mão gentilmente em seu braço.


-Sei que está ansioso por Sílvia. Mas, mesmo que
tenham acabado, ela vai ficar um pouco na sala de
recuperação. Pode ser uma espera longa.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Jesse puxou a esposa.


-Vamos, bem. Já vi esse olhar em Max. Ele não vai
arredar pé.

Max lançou um sinal particular de gratidão a Jesse e se


sentou, cruzando as mãos entre os joelhos. Havia um ar
de irrealidade pairando naquela noite, como um sonho
muito nítido.

Lembrou-se do olhar de Sílvia, tão assustada porque o


bebê não estava respirando. Então, depois, tão
corajosa e bonita, pálida de cansaço, e ainda brilhando
de alegria. Precisava vê-la. Precisava toca-la, abraçá-
la.
-Max?

A voz do dr. Harvey o arrancou das divagações.


-Como ela está?

-Ela vai ficar bem. Vão levá-la para o quarto dentro de


instantes. Verdade que você esteve na unidade de
emergência há pouco?

-Foi só um corte.

-Faria um favor para mim, agente?

-O que é?

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Acompanhe-me ao reservado dos médicos e descanse


um pouco. Prometo que mando uma atendente chamá-lo
assim que Sílvia estiver no quarto, acordada. Ela passou
por uma grande experiência esta noite. Precisa
descansar. E você também. Que tal?

Se não se sentisse como se fosse apagar a qualquer


momento, Max teria resistido.

Sílvia sabia que era dia, embora as persianas do quarto


estivessem fechadas. Sabia que enfermeiras haviam
entrado durante a noite, verificando sua temperatura e
pressão arterial, além de ajeitar seu travesseiro. O d.
Harvey fizera suas visitas também. Mas a exaustão era
total, e o anestésico que lhe tinham dado já não fazia
mais efeito.

Abriu um pouco mais os olhos quando uma enfermeira


que não conhecia entrou no quarto.

-Oi, Sílvia. Meu nome é Geórgia e vou cuidar de você


hoje. Ainda sente dores?
-Não. Diminuíram, graças a Deus.

-Ótimo. Mas aposto que os pontos estão começando a


doer novamente. Vou dar alguma coisa para isso daqui a
pouco.

-Não sei o que dói mais. E preciso ir ao banheiro.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Não me surpreende. Vou mostrar como se faz para


sair da cama. Um banho iria faze-la se sentir melhor
também.

Sílvia não achava que estava pronta para um banho, mas


não queria que Max a visse parecendo uma bruxa.
Desviou o olhar.

-Meu cunhado já veio?


-Não. Mas sei onde ele está. Disseram-me que ele está
no reservado dos médicos, descansando. Quando quiser,
vou chamá-lo. Podem almoçar juntos, se quiser. Então,
traremos seu bebê da enfermaria.

-Não posso esperar!

-O dr. Harvey disse que você pretende amamentar.


Depois de receber sua visita, ajudarei você a dar início
à amamentação.

A experiência passada na meia hora seguinte era algo


que Sílvia não gostaria de repetir. Ao voltar para a
cama, porém, com o cabelo lavado, usando uma leve
maquiagem e uma camisola hospitalar limpa, admitiu que
se sentia muito melhor. Mas fora um grande esforço, e
se recostou contra o travesseiro, exausta.

-Olhando-a agora, ninguém imaginaria onde estava e o


que fez na noite passada. –incentivou a enfermeira.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

-Eu mesma mal posso acreditar –murmurou Sílvia, com


um sorriso, cansada demais para abrir os olhos.

-Aqui tem um suco de frutas. E tome este comprimido


junto. Agora, vou providenciar seu almoço e então
tentar localizar seu cunhado. Ele é o grande herói por
aqui.

Sempre seria o herói de Sílvia.


Antes de vê-lo, no entanto, precisava telefonar para
Philippe. Ele tinha o direito de saber que a filha
acabara de nascer, e aquela era a hora perfeita, sem
ninguém por perto.

Pegou o telefone e fez uma chamada a debitar no


cartão de crédito. Não demorou para o telefonista
internacional conseguir o número do escritório de
Philippe em Nice e completar a ligação.

Sílvia temia que ele pudesse estar fora, ainda


almoçando, ou em uma reunião. Aliviada, descobriu que
ele estava lá.
-Sílvia? Não esperava seu telefonema senão em
fevereiro. Algum problema?

-Não. O bebê nasceu prematuro. Ela é linda –informou,


num rápido francês, e percebeu que ele se emocionava
enquanto ela contava o máximo possível para satisfazer

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

sua curiosidade. –Prometi que lhe telefonaria quando ela


nascesse. Preciso saber o que decidiu. E gostaria de lhe
contar o que eu estou preparada para fazer.

Max seguiu para o quarto tão excitado que pensou que


fosse sair da própria pele. Graças a Jesse e Ida, que
deixaram o hospital na noite anterior para fazer
algumas compras e reservar-lhe um quarto num hotel,
pôde ir lá pela manhã, tomar banho, barbear-se e
trocar de roupa. A noite bem dormida o rejuvenescera.
A porta estava apenas encostada. Ergueu a mão para
bater; assim, não a assustaria, mas não completou o
movimento.

Parecia perseguição. Ela estava na cama, falando em


francês com sua voz rouca e suave. Tinha o rosto
voltado para a janela, de modo que não podia vê-lo.

Ele, entretanto, podia vê-la e ouvi-la. Não entendia as


palavras; mas certamente captava o sentido delas. A
conversa era em voz baixa e íntima. Sem querer,
arranhou-se nos espinhos das rosas vermelhas de haste
longa que carregava, sangrando um pouco.

Sílvia tinha todo o direito de falar com quem quisesse.


Todo o direito do mundo. Só não esperava que ela
telefonasse tão rápido para Philippe.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

A noite anterior tivera aquele toque de milagre. Hoje,


porém, a realidade se impunha. Parecia agora que o
milagre acontecera somente para ele.
Tinha de sair dali.
-Max! Espere!
Ela o vira.

Continue andando e não olhe para trás.


De repente, ouviu um grito desesperado.
Sílvia?
Voltando-se, retomou o rumo do quarto, inconsciente do
fato de ter largado as rosas. Do extremo do corredor
já vinham correndo mais funcionários.

Sílvia sorriu quando ele entrou, satisfeita em ver que


ele empalidecera, informando-lhe tudo o que ela queria
saber.

-Sílvia? –O peito dele inflava de medo e esforço. –O


que foi?

-Tudo. –respondeu ela, tranquila em sua posição meio


sentada na cama de hospital. –Já que não veio quando
chamei, tinha de fazer alguma coisa. Feche a porta e
não deixe ninguém entrar.

A expressão chocada dele seria cômica se a situação


não fosse tão comovente.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Não preciso de ajuda. Preciso de você –declarou ela. –


Diga-lhes que podem ir.

Forçado a pensar rápido, Max ficou junto à porta para


encarar duas enfermeiras apreensivas.
-Está tudo bem. Ela pensou ter visto uma aranha.
-Uma aranha? Ali? –duvidou uma delas, rindo e voltando
ao trabalho.
Max fechou a porta, e então se voltou para Sílvia, a
expressão sombria.
-Quer me dizer o que foi isso tudo?

-Quer me dizer por que me ignorou quando o chamei? –


disparou ela, notando o pequeno curativo em seu
supercílio. Perguntaria depois sobre aquilo.

Ele estreitou o olhar sobre sua boca.


-Você estava ocupada.

Ela estudou seu semblante por um segundo.


-Eu estava falando com Philippe.

-Calculei que sim –declarou ele, amuado.


-Como soube que não era Giselle?

-Porque telefonei a ela pouco antes de vir para o seu


quarto. Disse-lhe que você ligaria depois, quando
estivesse acordada.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Obrigada. Eu queria ter feito isso, mas o telefonema


para Philippe era prioritário. Prometi informa-lo assim
que ela nascesse. Ele é o pai natural da criança.

Ele desviou o olhar. Não sabia que ela podia ser tão
cruel.
-Acha que precisa me lembrar disso?

-Sim. –A voz dela ficou trêmula, então tomou força. –


Veja, ele concordou em desistir de todos os direitos
porque... porque eu lhe disse que você queria ser o pai
de Mônica-Louise.
O sangue batia tão forte em seus ouvidos que ele não
tinha certeza do que acabara de ouvir.

-Você quer, não quer? –os olhos, a voz, o corpo inteiro


dela implorava uma resposta. –Contei a ele que você
ganhou esse direito quando pus os pés em sua fazenda.
O problema é que Mônica-Louise é um pacote. Se a
quiser, vai ter de ficar comigo também.

-Sabe o que está dizendo? –replicou ele.

Ela estreitou os maravilhosos olhos verdes sobre ele.


-Certamente, você sabe como me sinto. Mas você
amava Mônica desesperadamente. Sei disso, e eu... eu
tinha medo de que seu amor por ela não permitisse que
você enxergasse tudo o que poderíamos ter juntos. –As

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A gêmea errada – Rebecca Winters

lágrimas começaram a rolar por seu rosto, mas não se


incomodou em enxuga-las.

-Quer saber a quanto tempo a tenho desejado? –Num


movimento repentino, ele se aproximou da cama e
tomou-lhe o rosto emocionado nas mãos. –Quer saber a
quanto tempo venho me atormentando por ter me
apaixonado por minha própria cunhada? A irmã gêmea
de minha mulher?

Ela sentiu que ele estremecia.


-Quer saber como cheguei perto de realmente
prejudicar Philippe? Quer...

Ela balançou a cabeça, então ergueu os braços e


envolveu seu pescoço, trazendo-o para si.
-Beije-me, Max... querido. Beije-me de verdade. Não
posso mais esperar.

Max a viu oferecer os lábios, e se perdeu


completamente. Aquela reação respondia a todas as
perguntas. Perdeu-se em seus carinhos. De repente, a
boca de Sílvia só não bastava. Precisava sentir sua
pele, seus olhos, a curva doce de seu pescoço onde
cachos ruivos se colavam à pele.

-Case-se comigo assim que voltarmos para a fazenda –


sussurrou contra seu ouvido. –Não posso levá-la para

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A gêmea errada – Rebecca Winters

casa a menos que saiba que estará na minha cama todas


as noites.

Sílvia o beijou novamente, longa e apaixonadamente, não


querendo que o êxtase tivesse fim.

-Talvez possamos nos casar na capela do hospital –


sussurrou ela, finalmente. –Mas acho que devo preveni-
lo de que não poderei... dormir com você nas próximas
seis semanas.

Max gemeu e ergueu a cabeça, fitando os olhos verdes


brilhantes.

-Fala isso para me torturar?


Sílvia sorriu-lhe.

-Não. O dr. Harvey fez o comentário esta manhã. Ele


já percebeu, sobre nós, há muito tempo.

-Seis semanas. Vou precisar negociar isso com ele.


Sílvia suspirou e fechou as pálpebras pesadas.

-Faça isso, querido. –Recostou-se contra os


travesseiros, sem forças. –Adoro a forma como cuida
dos problemas. Adoro o jeito que me adora e ao bebê.
E amo você. Nunca me deixe. Te amo, te amo, te... –A
voz foi se apagando.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Capítulo 16

Uma leve batida na porta do quarto de hóspedes pôs em


alerta a cadelinha que Taylor Burton lhes dera:
Valentine dormia sobre um tapetinho ao lado do berço.

-Sílvia? –sussurrou Ida, abrindo a porta. –Quieta, Val!


–Acalmou a cadelinha. –Tem visita. É Carole.

-Oh, ótimo! Estava esperando que ela aparecesse.


Sílvia já estava em casa havia quatro semanas e não
tivera notícias da amiga.

-Peça-lhe para entrar. Acabo de dar banho no bebê.


Carole poderá coloca-la para dormir.

Carole, emocionada, abraçou Sílvia rapidamente e ficou


louca por Mônica-Louise. A mulher sentia falta de
bebês. Sílvia imaginou se ela já considerara adoção.
Seria maravilhoso criarem os filhos juntas. Um dia,
discutiria esse assunto com ela.

-Desculpe pelo bebê estar dormindo. Não pode saber a


personalidade terrível que ela tem a não ser com os
olhinhos abertos.
Carole riu.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Falas de mãe. Oh, Sílvia, ela é tão preciosa. Teria


vindo antes, mas Mike e eu fomos passar as férias com
os pais dele em Boise. Chegamos ontem. Foi quando
soube das novidades. É verdade que Max salvou a vida
do bebê?

-Sim. –Sílvia piscou para limpar as lágrimas. –Meu


cavaleiro em armadura brilhante. Sou a mulher mais
sortuda do mundo.

A amiga a estudou o um momento.


-Você está... radiante. Como uma mulher escondendo
um segredo maravilhoso.
Sílvia começou a se sentir nervosa.

-É porque tenho um. Venho mantendo em segredo até


que pudesse contar a você.

-Nao está brincando, está?


-Não.
-Conte-me.
-Vai me odiar.

-Sílvia, nao está sendo sensata.


-Que diria se lhe contasse que eu e Max nos casamos
antes de eu sair do hospital?

Carole a fitou com expressão chocada.


-Está brincando –sussurrou.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

-Nã0 –murmurou Sílvia, ressentida por sua reação.


-Oh, nossa. Preciso ir, mas vou voltar.

-Carole? O que foi? Aonde você vai?

Mas a amiga já estava a meio caminho da porta.


-Não vou demorar, prometo. Onde está Max?
-Saiu para fazer umas tarefas caseiras.

-Diga-lhe para voltar. Prometa-me que estarão os dois


aqui quando eu voltar. Dê-me meia hora, certo, certo?

-Prometo –obedeceu Sílvia, balançando a cabeça.


Ficou um pouco junto ao berço, observando a filha
dormir, todo o tempo tentando entender o
comportamento bizarro de Carole.

Finalmente, desistiu, beijou a testa do bebê e apagou


as luzes, saindo na ponta dos pés.
-Aonde pensa que vai? –A voz grave de Max soou na
escuridão.

Sílvia sentia um sobressalto no coração sempre que


percebia sua presença. As mãos dele a tomaram por
trás, acariciando seus quadris e estômago, enviando
uma mensagem íntima de desejo. Ela soltou um suspiro
leve.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

Na noite passada, após Max lhe contar que desistira do


trabalho de agente para se tornar fazendeiro em tempo
integral, fizeram amor pela primeira vez; então,
prometeram um ao outro que não aconteceria novamente
até que ela visitasse o médico.

Mas ambos sabiam que estavam mentindo. Não podiam


esperar para quebrar a promessa, vezes sem conta.

-Não podemos, querido –ela estava sem fôlego. –Carole


vai voltar em cinco minutos.

-Preciso...

-Que Deus me ajude, eu também.


Ele a virou entre os braços, adorando seu gemido
baixinho de rendição quando a beijou.

Sílvia ouviu uma batida na porta do quarto principal.


-Carole está na sala de estar. Jesse acendeu a lareira.
Ela parou de beijar Max.

-Obrigada. Estaremos lá em um minuto. Apresse-se,


querido. –sussurrou, esforçando-se para fechar o zíper
dos jeans. –Oh, nossa.

Max lançou-lhe um sorriso de tirar o fôlego e vestiu um


suéter colorido sobre a camisa.

356
A gêmea errada – Rebecca Winters

-O que Carole está aprontando?

-Não sei, mas não vamos deixa-la esperando.

Sílvia foi para a porta, mas ele a puxou por um


momento para beija-la ardentemente na boca. Então,
foram juntos para a sala de estar.

Carole os fitou como se fosse a primeira vez que os via.

-Entendo que é hora de cumprimentos, Max. Não


poderia estar mais feliz por vocês.

Ele a abraçou, então tomou uma expressão preocupada.


-Mesmo desaprovando? –indagou ele, tranqüilo.
-Max, essa pergunta me ofende. Tinha esperança de
que vocês acabassem juntos. Estava mesmo aguardando.
Ele ergueu uma sobrancelha escura.

-Você e Mônica eram muito chegadas, Carole. Teria


todo o direito de achar que nós traímos sua memória.
Sílvia e eu sabemos que, assim que nosso casamento se
tornar público, haverá comentários negativos. Mas
podemos ligar com isso, exceto de amigos chegados.

Enquanto Carole permanecia ali, observando-os, uma


tensão estranha, quase palpável emanava dela.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Preciso contar uma coisa a vocês. Acho melhor se


sentarem.

Preocupada com a mudança na amiga, Sílvia


automaticamente agarrou-se ao marido, que a levou
consigo para o sofá.
Carole permaneceu de pé.

-Não estaríamos tendo esta conversa se Sílvia não


tivesse me contado que vocês estavam casados. Isso me
alivia de uma grande carga.

-Carga? –repetiu Max. –De que está falando? O que


quer que tenha a dizer, diga logo.

Sílvia sentiu que ele apertava sua mão, enquanto Carole


revelava:

-Mônica mentiu quando disse que passou a noite comigo


naquela ocasião.

Era como uma bomba explodindo.


Sílvia não tinha certeza se queria saber e começou a se
levantar, mas Max a manteve e disse a Carole para
continuar.

-Ela nunca foi a West Yellowstone. Ao invés disso, foi


dirigindo até o hospital universitário em Salt Lake para

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A gêmea errada – Rebecca Winters

consultar um médico sobre sua visão borrada, o que,


naturalmente, nunca contara a ninguém.
Fizeram exames e descobriram um tumor maligno no
cérebro, inoperável, que a mataria dali a seis meses ou
um ano, no máximo.

-Ela foi a Salt Lake... –sussurrou Sílvia, sofredora. –


Por que não pensamos nisso?

-Mais especificamente, Carole, por que não me contou?


–Max a olhava acusador.

-Por favor, me deixem acabar. Então, podem fazer as


perguntas que quiserem.

Sílvia reconfortou Max ao sentir que ele estremecia.


-Não sabia de nada disso até que ela me ligou de Salt
Lake e me deu as notícias lamentáveis. Ela não queria
que você soubesse de nada até que tivesse tempo para
pensar. Fez-me com que prometesse não contar nada e
me pediu que lhe fornecesse um álibi. Poucos dias
depois, foi à loja e disse que continuaria a manter tudo
em segredo e, se eu realmente a amava, era uma coisa
que deveria fazer por ela antes que morresse.
Sílvia assentiu, triste.

-Sei como Mônica era persuasiva. Ela me convenceu a


trocar de lugar com ela e vir para cá.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

-Foi um período péssimo para mim, vê-la afastar todos


vocês, retirando-se assim da vida. –admitiu Carole, os
olhos marejados fitando Max. –Posso imaginar como foi
para você. Tinha esperança, rezava para que um dia ela
fraqueasse e o procurasse para reconforta-la.
Discutimos sobre esse assunto.
Ameacei quebrar minha promessa, mas na última hora
não consegui. Depois disso, ela partiu. Nunca mais a vi.
Então, um dia, isto chegou pelo correio. –Procurou na
bolsa e retirou um envelope pardo, que já estava
aberto.

Max soltou a mão de Sílvia e se levantou.


-Como pode ver, foi postado em Paris, três dias antes
de sua morte. Dentro havia dois envelopes fechados e
uma carta para mim. Leia.

Sílvia levantou-se também, e encarou o marido. A dor


estava voltando, implacável.

Alarmada com a palidez dele, Sílvia abraçou-o pela


cintura. Com mãos trêmulas, buscou a carta que Carole
estendia. Ver a caligrafia familiar deixou-a ainda mais
desolada. Juntos, leram:

Minha mais querida amiga,


Sei que ainda é minha mais querida amiga, pois Max não sabe
de nada, e é assim que quero que as coisas fiquem.
Preciso de mais um favor. O último, prometo.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Se Max e minha irmã se casarem, por favor, entregue-lhes as


cartas seladas contidas neste envelope.
Se isso não acontecer, então, não as mostre a ninguém.
Faça isso por mim, e um dia, no além, irei procura-la e a
abraçarei, minha mais querida amiga.
Com todo meu amor,
Mônica.

Quando Sílvia finalmente ergueu o olhar, Carole passou-


lhe um envelope. Na frente, na escrita floreada de
Mônica, estava a palavra Rômulo. Sentiu as lágrimas nos
olhos ao ver Amado Marido na outra.

-Vou para casa –informou Carole. –Se precisarem falar


comigo, sabem onde me encontrar.

-Sílvia... –A voz de Max estava quase irreconhecível. –


Eu...

-Finalmente minha irmã escolheu falar com você. Leve a


carta para o quarto, querido. O que quer que Mônica
tenha escrito, é só para você.

-Não agüento magoar você... –sussurrou ele.


Sentiu compaixão ao vê-lo lutar contra as poderosas, e
conflitantes emoções de amor, lealdade e culpa.

-Se fosse de qualquer outra pessoa, exceto Remo, eu


não seria tão caridosa. Mas ela é minha outra metade.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Sílvia deu-lhe as costas, livrando-o para sair. Esperou


vários minutos antes de ouvir seus passos. Quando o
som diminuiu, abriu sua carta lacrada. Era bem
característico de Mônica ser tão dramática, encenando,
mesmo no amargo fim. Lágrimas rolaram por seu rosto.

Rômulo
Se estiver lendo esta carta, significa que meu plano deu certo.

Ela sabia, sussurrou Sílvia para si mesma.

É o que rezei para que acontecesse, e continuarei rezando do


outro lado. As duas pessoas que mais amo no mundo ficarão
juntas para sempre agora.
Minha estratégia elaborada não foi em vão, afinal.

-Mônica! –gritou Sílvia, e se afundou no sofá para


acabar de ler.

Foi terrível descobrir que ia morrer. Não vou brincar quanto a


isso. HORRÍVEL. Primeiro, imaginei se você tinha a mesma
coisa. Mas sempre fui cuidadosa em perguntar por sua saúde e
você nunca sentiu meus sintomas. Nunca. Assim, meu médico me
aconselhou a para de me preocupar.
Depois de superar o choque inicial, percebi o que as notícias
fariam a você. Vamos encarar a verdade, Rômulo, ninguém
nunca entendeu o que havia entre nós, não é? Só o Tico e o Teço,
certo?

Sílvia riu, apesar das lágrimas. Não gostavam tanto das


história do Tico e Teço e planejavam lançar os próprios
personagens gêmeos quando crescessem. Sempre

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A gêmea errada – Rebecca Winters

brincavam sobre morrer juntas em suas cadeiras de


balanço, lado a lado, de mãos dadas.

Então, planejei tudo e elaborei um plano que, agora posso


anunciar, foi infalível. Sabia que, se contasse a verdade a Max,
despedaçaria seu coração dez meses antes do necessário.

Mas Max teve o coração despedaçado, pensou Sílvia,


triste. Foi despedaçado quando Mônica deu-lhe as
costas, mantendo-o afastado de seus problemas.
Voltou à carta.

Então, me coloquei em seu lugar. Sabia que, se contasse a você,


teria ido à fazenda para ficar comigo até o fim, e provavelmente
teria morrido uma semana depois de dor solidária. Não ria.
Teria acontecido.

Sílvia não estava rindo. Cada palavra era verdadeira.

Tive de manter vocês dois separados um do outro por várias


razoes. Primeiro, precisava de tempo para colocar meu marido
contra mim. Assim, quando morresse, ele não lamentaria tanto.

Segundo, sabia que, se passássemos os dez últimos meses juntos,


vocês nunca seriam capazes de se livrar da culpa de se
apaixonar um pelo outro depois que eu partisse. Sabia que os
dois deveriam permanecer separados por lealdade a mim,
sempre sofrendo em silêncio.

Vamos ser honestas, Sílvia, se tivesse visto primeiro...


Disse-lhe que estava assustada com você. Era verdade. Não a
queria por perto pelo menos nos primeiros meses. Não até estar
completamente certa de nosso amor, nosso casamento. É por isso

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A gêmea errada – Rebecca Winters

que não permiti que fosse à fazenda. Não poderia suportar ver
alguma coisa não dar certo. Portanto, precisei mantê-la longe o
máximo possível. Desculpe sobre as regras de telefonema,
Rômulo, mas não havia outra forma.

Lembre-me de agradecer a Philippe um dia, quando ele se


juntar a mim, do outro lado. Fui dura com ele quando o vi em
Paris. Gostei dele e me senti mal por ele, apesar de sua covardia.
O instinto me diz que ele provavelmente é um homem decente,
se descontar seu defeito fatal.

O quê? Quando foi que Mônica viu Philippe?

Deixa-la grávida foi a melhor coisa que ele fez.


Contribuiu com uma estratégia ainda melhor para meu plano
original de manda-la para a fazenda. Max sempre quis ter filhos.
Era perfeito!
Aliás, é melhor batizar o bebê me homenageando, ou vai ter de
se explicar quando nos encontrarmos novamente.

Sílvia soluçava tão forte que não conseguia mais ler a


carta.

Giselle não sabia de nada. Não podia confiar nela.


E Jesse e Ida são tão sensíveis que não conseguiriam manter o
segredo. Agradeço a Deus por poder contar com Carole, que é
uma santa e merece uma casa cheia de crianças. Quando for a
hora certa, convença-a a adotar.

Oh, Mônica, Mônica.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Rômulo, você e eu sempre dividimos tudo. Como sua irmã mais


velha, dou-lhe permissão para amar Max Sutherland, o homem
mais maravilhoso do mundo.
Não tivemos tempo suficiente para que ele me conhecesse tão
bem quanto a você. Ajude-o, Sílvia.
Você é a única que pode. Ajude-o a entender por que fiz o que
fiz. Ele provavelmente saiu pra algum lugar reservado com
minha carta para lamber as feridas. Provavelmente para o chalé
no lago.
Revelei-me completamente na carta, mas sei que ele nunca vai
entender de verdade, não sem a sua ajuda. Você sempre foi a
mais corajosa, a mais forte.
Ame-o Sílvia, minha querida outra metade. Ame-o com toda a
generosidade de sua alma e será feliz!
Com amor,
Remo.

P.S. Sabia que meu plano daria certo. Não tinha dúvidas. O que
é meu é seu. Sempre foi assim conosco. Precisa dar um crédito a
Giselle. Ela tentou valentemente, não é mesmo? Mas não sabia
contra o que estava lutando quando encontrou a dupla do
barulho. Quem se diverte mais do que nós, Rômulo?

P.P.S. Nunca deixe nada acontecer a você. Mas, se acontecer,


lembre-se: estarei esperando, maninha.
E vou querer informações detalhadas!

Com a carta de Mônica bem presa à mão, Sílvia se


levantou do sofá e começou a correr, os pés mal
tocando o assoalho. Havia apenas chegado ao corredor
quanto viu o marido correndo em sua direção, alegria
transparecendo no rosto.

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A gêmea errada – Rebecca Winters

Obrigada, Remo. Te abençôo com a dádiva da paz. A


maior dádiva de todas.

********** Fim *************

Sobre a autora:
Rebecca Winters é escritora, professora e mãe de
quatro filhos. Formou-se na Universidade de Utah e
estudou também na Suíça e na França, incluindo a
Sorbonne. Atualmente, Rebecca leciona francês e
espanhol, mas, apesar da agenda atarefada, sempre
encontra tempo para escrever! Já ganhou vários prêmios
e ficou conhecida por suas histórias dramáticas,
altamente emocionais, não raro inusitadas.

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