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Agravo de Instrumento n. 2010.

066048-1, de Seara
Relator: Des. José Volpato de Souza

AGRAVO DE INSTRUMENTO EM AÇÃO CIVIL PÚBLICA -


TUTELA ANTECIPADA CONCEDIDA - PRELIMINAR
SUSCITADA DE ILEGITIMIDADE ATIVA AD CAUSAM -
ASSERTIVA RECHAÇADA - DIREITO DO CONSUMIDOR -
POSSIBILIDADE DE O MINISTÉRIO PÚBLICO QUESTIONAR,
NESSE TIPO DE DEMANDA, A DEFICIÊNCIA NA PRESTAÇÃO
DO SERVIÇO - ESTAÇÃO MÓVEL (RURALCEL) - AUSÊNCIA
DE RESPONSABILIDADE DA BRASIL TELECOM PELA
MIGRAÇÃO DOS SISTEMAS TDMA PARA GSM - ALEGAÇÃO
REPELIDA - COMANDO QUE DETERMINOU A
RECUPERAÇÃO DOS TERMINAIS - POSSIBILIDADE - PRAZO
DE CUMPRIMENTO DE TRINTA DIAS - TEMPO EXÍGUO,
TENDO EM VISTA AS ADEQUAÇÕES A SEREM FEITAS -
AMPLIAÇÃO PARA SEIS MESES - MULTA DE R$ 50.000,00 -
DESPROPORCIONALIDADE NA FIXAÇÃO DO VALOR DA
MULTA - INTENTO INIBITÓRIO - PEDIDO DE MINORAÇÃO
CONCEDIDA ANTE O PRINCÍPIO DA RAZOABILIDADE E
PROPORCIONALIDADE - LIMITAÇÃO - RECURSO
PARCIALMENTE PROVIDO.

Vistos, relatados e discutidos estes autos de Agravo de Instrumento n.


2010.066048-1, da comarca de Seara (Vara Única), em que é agravante Brasil
Telecom S/A, e agravado Ministério Público do Estado de Santa Catarina:

ACORDAM, em Quarta Câmara de Direito Público, por maioria de votos,


dar parcial provimento ao recurso, vencido parcialmente o Exmo. Des. Rodrigo
Collaço, quanto à extensão do prazo. Custas Legais.

RELATÓRIO

Brasil Telecom S/A interpôs agravo de instrumento com pedido de efeito


suspensivo contra a decisão do MM Juiz da Vara Única da Comarca de Seara (fls.
568/571), que, nos autos da ação civil pública (068.10.000669-5), rejeitou as
preliminares suscitadas na contestação e concedeu os efeitos da tutela à parte
autora, para determinar que a ré restabeleça o sinal de telefonia dos consumidores na
área rural da Comarca de Seara, no prazo de 30 (trinta) dias, "bem como migre todos
os sistemas de telefonia TDMA para GSM, ou para telefonia fixa [...]" sob pena de
multa diária, no importe de R$ 50.000,00 (cinquenta mil reais), por dia de atraso (fl.
571).
Aduz, em preliminar, ausência de legitimidade do Ministério Público,
porque não há interesse social relevante que justifique a sua atuação, pois defende
interesses dos potenciais 121 (cento e vinte e um) usuários mencionados na inicial,
sem repercussão social; é inadequada a ação civil pública para a proteção de
interesse individual, devendo a demanda ser extinta (art. 267, VI, CPC). No mérito,
afirma que: a antecipação de tutela, concedida pelo MM. Juiz quanto à
obrigatoriedade de investimentos para restabelecer o sinal do RuralCel e a migração
da tecnologia TDMA para GSM ou promover a expansão do STFC, sem qualquer
custo aos consumidores, é contrária ao Plano de Metas; não tem responsabilidade
pela migração de tecnologia da telefonia móvel e sim das delegatárias do serviço de
telefonia celular; inexiste perigo de dano irreparável da parte autora; evidente é o
periculum in mora inverso diante dos vultuosos investimentos; impossível o
cumprimento desta determinação; é Concessionária de Serviço Telefônico Fixo
Comutado - STFC; o referido serviço, de telefonia fixa é prestado dentro da Área de
Tarifa Básica (ATB), consoante dispõe a ANATEL em suas regras básicas; o que se
encontra fora da área, pode se dar por meio de contrato específico, havendo custos
para a manutenção do terminal telefônico instalado, a serem suportados pelos
usuários; este atendimento RuralCel/Ruralvan é uma alternativa quando inexiste
redes de transmissão de dados e de cabos telefônicos nas regiões mais afastadas,
"sendo prestado mediante a utilização intermediária do Serviço Pessoal Móvel" (fl.
13); o sistema é utilizado tanto para uma modalidade de rede móvel como para a rede
de telefonia fixa; para os usuários de telefonia RuralCel deve-se observar se a
localidade comporta o recebimento do sinal telefônico, sendo este proporcionado pela
utilização das Estações de Rádio Base (ERB) mantidas pelas operadoras que
exploram a telefonia celular; o serviço que antes era tecnologia analógica, passaria a
ser prestado através da tecnologia digital (artigo 1º, § 3º, do anexo à Resolução n.
454/2006), beneficiando todos os usuários da telefonia celular; a modificação imposta
às delegatárias do SMP, exigiu a substituição das Estações e Rádio por outras com a
mais nova tecnologia (Resolução da Anatel n. 477/2007), contudo, as ERB's possuem
especificações técnicas próprias, sendo que "SMP não se revelou coincidente. Em
algumas localidades que antes eram contempladas com a telefonia celular, passou,
neste primeiro momento, a não mais ter acesso a referido serviço. [...] por ser o
serviço prestado mediante interligação ao sistema de telefonia móvel, no caso, ao
fornecido pela TIM" (fl. 15); destaca-se que é obrigação das operadoras de telefonia
celular manter Estações de Rádio Base do SMP, jamais imputável às concessionárias
do STFC; efetuou proposta "Consulta Pública ANATEL n. 24/2008", para minimizar o
prejuízo dos usuários da RuralCel, requerendo a participação conjunta das
operadoras SMP e do STFC, estando no aguardo DE deliberação; a universalização
do serviço de telefonia é regulada por um Plano de Metas, que concentra
investimento de forma racional; a obrigatoriedade da prestação do STF está regulada

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nos artigos 4º, inciso I, e 11 do Decreto n. 4.769/2003; "se o serviço RuralCel fosse
hoje requisitado para instalação em endereço não contemplado com sinal emitido
pelas novas ERB's, não teriam seu pedido atendido por impossibilidade técnica",
porque inviável direcionamento de investimentos para atender individualmente as
solicitações; não houve comprovação nos autos de que as localidades rurais da
Comarca de Seara satisfaziam as exigências impostas no Plano Geral de Metas; a
expansão do STFC será promovida dentro dos critérios estabelecidos pela ANATEL,
não podendo o Ministério Público, tampouco o Poder Judiciário interferir no mérito
administrativo, ferindo, dessa forma, o princípio da separação dos poderes; não estão
presentes os requisitos ensejadores à concessão da tutela antecipatória, mas,
apenas, o periculum in mora inversum e caráter irreverssível. Ao final, requereu a
reforma da decisão agravada, acolhimento das preliminares, extinguindo-se o feito
sem julgamento de mérito (fls. 02/31). Juntou documentos às fls. 30/595.
Juntada de petição, com anexos, informando a situação dos agricultores
locais com a postura adotada pela agravante Brasil Telecom S.A. (fls. 601/603).
Contrarrazões às fls. 604/613v. Documentos acostados às fls. 614/640 e
642/643.
Pedido de apreciação da medida suspensiva (fls. 644/645 e 646/652).
O Ministério Público do Estado de Santa Catarina requereu a juntada de
nova decisão interlocutória prolatada pelo MM. Juiz, que deferiu o bloqueio das contas
bancárias da requerida, até cumprimento da ordem judicial (fls. 653/662).
Indeferido o efeito suspensivo (fls. 663/672).
Lavrou parecer pela douta Procuradoria-Geral de Justiça o Exmo. Sr. Dr.
Jacson Corrêa, que se manifestou pela mantença dos efeitos da tutela de urgência
deferida ao autor (fls.686/ 695).

VOTO

Tratam os presentes autos de agravo de instrumento, com pedido de


efeito suspensivo, contra decisão interlocutória proferida no Juízo da Comarca de
Seara, em Ação Civil Pública n. 068.10.000669-5, afora da pelo Ministério Público de
Santa Catarina em face da Brasil Telecom S/A, na qual foi deferida a antecipação de
tutela para a restituição do sinal de telefone a todos os consumidores da região de
Seara, no prazo de 30 (trinta) dias, sob pena de multa diária no valor de R$ 50.000,00
(cinquenta mil reais) .
Objetiva a agravante a revogação da antecipação de tutela,
acolhendo-se as preliminares suscitadas, com extinção do feito, sendo reconhecido o
periculum in mora inversum em caráter irreversível, bem como a minoração do valor
das astreintes ao patamar que melhor se harmonize à natureza da demanda (fl. 31).
Antes de adentrar na análise das questões ventiladas no recurso, mister
se faz, inicialmente, o registro de que, nos termos do art. 522 do Código de Processo
Civil, o agravo de instrumento limita-se à análise do acerto ou desacerto da decisão
interlocutória proferida no primeiro grau de jurisdição, porquanto a agravante alega
que esta pode lhe causar lesão grave ou de difícil reparação.

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Alega o recorrente, em preliminar, a ilegitimidade ativa ad causam do
Ministério Público e a inadequação da via eleita.
Não assiste razão à agravante quando alega que o Ministério Público
não tem legitimidade para figurar no pólo ativo da demanda, como ocorre no presente
caso.
De acordo com o art. 127 da Constituição Federal o "O Ministério
Público é instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado,
incumbindo-lhe a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses
sociais e individuais indisponíveis".
Dentre suas funções institucionais está a promoção do inquérito civil e
da ação civil pública, para a proteção do patrimônio público e social, do meio
ambiente e de outros interesses difusos e coletivos (art. 129).
Dentre os interesses coletivos lato sensu, está os individuais
homogêneos (art. 81 do CDC), os quais apesar de apresentarem características de
direito divisível, podendo ser postulado individualmente, são incluídos na tutela
coletiva, porque na prática o dano se difunde de uma forma que gera uma
homogeneidade na sociedade, sendo a este dado um tratamento coletivo.
Ora, o art. 82 do Código de Defesa do Consumidor reconhece,
expressamente, ao Parquet legitimidade para fins de defesa dos interesses e direitos
dos consumidores e das vítimas a título individual ou coletivo, quando se tratar de
interesses individuais homogêneos, assim entendidos como aqueles de origem
comum (art. 81).
Na hipótese a empresa deverá restabelecer o sinal de telefonia para os
121 usuários mencionados na inicial, todos consumidores da área rural de Seara. O
restabelecimento do sinal irá atingir um número indeterminado de pessoas residentes
naquela localidade, além dos autores da presente ação, o que evidencia a
homogeneidade do pedido.
Além disso, quando o número de lesados impossibilitar, dificultar ou
inviabilizar a tutela dos interesses e direitos afetados, estamos diante de relevância
social decorrente de danos em massa, o que legitima instituição ministerial a atuar.
Neste sentido:
"As ações que versam interesses individuais homogêneos participam da
ideologia das ações difusas, como sói ser a ação civil pública. A despersonalização
desses interesses está na medida em que o Ministério Público não veicula pretensão
pertencente a quem quer que seja individualmente, mas pretensão de natureza
genérica, que, por via de prejudicialidade, resta por influir nas esferas individuais.
8. A ação em si não se dirige a interesses individuais, mercê de a coisa julgada
in utilibus poder ser aproveitada pelo titular do direito individual homogêneo se não
tiver promovido ação própria.
9. A ação civil pública, na sua essência, versa interesses individuais
homogêneos e não pode ser caracterizada como uma ação gravitante em torno de
direitos disponíveis. O simples fato de o interesse ser supra-individual, por si só já o
torna indisponível, o que basta para legitimar o Ministério Público para a propositura
dessas ações" (STJ, REsp n. 1005587/PR, rel. Min. Luiz Fux, j. em 14.12.2010).
Ainda,

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"AGRAVO REGIMENTAL. AÇÃO CIVIL PÚBLICA. LEGITIMIDADE ATIVA DO
MINISTÉRIO PÚBLICO. DIREITO INDIVIDUAL HOMOGÊNEO. LEGITIMIDADE E
INTERESSE PROCESSUAIS CONFIGURADOS. DECISÃO AGRAVADA.
MANUTENÇÃO.
I- O Ministério Público tem legitimidade processual para a propositura de ação
civil pública objetivando a defesa de direitos individuais homogêneos.
II- Não é da natureza individual, disponível e divisível que se retira a
homogeneidade de interesses individuais homogêneos, mas sim de sua origem
comum, violando direitos pertencentes a um número determinado ou determinável de
pessoas, ligadas por esta circunstância de fato. Inteligência do art. 81, CDC"(STJ,
AgRg no Ag 1323205 / SP, rel. Min. Sidnei Beneti, j. em 10.11.2010).
Preleciona Ada Pellegrini Grinover: "Foi a relevância social da tutela a
título coletivo dos interesses ou direitos individuais homogêneos que levou o
legislador a atribuir ao Ministério Público e outros entes públicos a legitimação para
agir nessa modalidade de demanda molecular" (Código Brasileiro de Defesa do
Consumidor, Editora Forense , 9ª ed., 2007, p. 837).
Além disso, a ação civil pública é o meio adequado para a finalidade
pretendida, de acordo com a Lei n. 7347/85 e com a Lei Orgânica do Ministério
Público.
Neste diapasão:
"[...] a Lei Orgânica do Ministério Público, Lei n. 8.625/93, portanto mais
recente que o diploma supra referido, encontra-se em perfeita sintonia com a ordem
constitucional que recepcionou a Lei da Ação Civil Pública, ao consagrar que:
"Art. 25. Além das funções previstas nas Constituições Federal e Estadual, na
Lei Orgânica e em outras leis, incumbe, ainda, ao Ministério Público:
"[...]
"IV - promover o inquérito civil e a ação civil pública, na forma da lei:
"a) para a proteção, prevenção e reparação dos danos causados ao meio
ambiente, ao consumidor, aos bens e direitos de valor artístico, estético, histórico,
turístico e paisagístico, e a outros interesses difusos, coletivos e individuais
indisponíveis e homogêneos"(AC n. 2008.071327-3, de Ituporanga, rel. Des. Jaime
Ramos).
Desse modo, não paira dúvida a respeito da legitimidade do Ministério
Público para integrar à presente lide, como da mesma forma, adequada a ação civil
pública para atingir a tutela almejada.
Mérito
Pretende a ora agravante ver-se destituída da obrigação que lhe foi
compelida, arguindo a impossibilidade de dar cumprimento à determinação emanada
na decisão interlocutória, pois não tem responsabilidade pela migração de tecnologia
da telefonia móvel e sim das delegatárias do serviço de telefonia celular.
O Juiz togado,com base nos documentos juntados aos autos, analisou
adequadamente os fatos, intimando a Brasil Telecom S/A, para dar efetivo
cumprimento ao despacho emanado em tutela antecipada (fls. 568/571), no prazo de
30 (trinta) dias, restabelecendo com isso, o sinal de telefonia para todos os
consumidores rurais da Comarca de Seara, sob pena de multa no valor de R$
50.000,00 (cinquenta mil reais), que, em princípio, mostra-se viável esse comando,

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uma vez que é de responsabilidade daquela prestar os serviços essenciais de
telecomunicação na região afetada.
E, como se pode observar dos autos, há muito tempo vêm, os usuários,
solicitar o restabelecimento do sinal de telefonia, conforme informa o Ministério
Público às fls. 641/643, deste agravo, que recebeu documento assinado pelo
Gerente-Geral e Competição da Anatel, no qual a Brasil Telecom informa ter
providenciado a recuperação de alguns terminais, mas que há 15 (quinze) deles sem
o serviço disponível. Dessa forma, vê-se que a própria agravante se contradiz,
quando afirma não ter condições de proceder à migração do sistema de telefonia
TDMA para GSM, na medida em que providenciou o "conserto" de certas unidades.
A agravante é pessoa jurídica de direito privado, concessionária de
direito público e responsável direta pelo cumprimento das determinações da Lei n.
8.987/95, que alude em seu art. 1º, "as concessões de serviços públicos e de obras
públicas e as permissões de serviços públicos reger-se-ão pelos termos do art. 175
da Constituição Federal, por esta Lei, pelas normas legais pertinentes e pelas
cláusulas dos indispensáveis contratos."
Nesse sentido, bem assentou o Desembargador Paulo Roberto
Sartorato, quando do exame do efeito suspensivo almejado para esse recurso:
"Dentre as regras aplicáveis aos contratos de concessão, destaca-se a
imposição da prestação do serviço de forma adequada, consoante estabelece o inciso
IV, do parágrafo único do artigo 175 da Constituição Federal:
"Art. 175 [...]
Parágrafo único. A lei disporá sobre:
[...]
IV - a obrigação de manter serviço adequado.
Da mesma forma, prescreve o artigo 6º da Lei n. 8.897/95:
Art. 6º - Toda concessão ou permissão pressupões a prestação de serviço
adequado ao pleno atendimento dos usuários, conforme estabelecido nesta Lei, nas
normas pertinentes e no respectivo contrato.
§ 1º - Serviço adequado é o que satisfaz as condições de regularidade,
continuidade, eficiência, segurança, atualidade, generalidade, cortesia na sua
prestação e modicidade das tarifas.
Outrossim, não há dúvidas que, hodiernamente, o serviço de telefonia é
considerado como serviço público essencial e, portanto, deve ser prestado de forma
contínua e adequada, em atenção ao preceito estabelecido no artigo 22 do Código
de Defesa do Consumidor, in verbis:
Art. 22. Os órgãos públicos, por si ou suas empresas, concessionárias,
permissionárias ou sob qualquer outra forma de empreendimento, são obrigados a
fornecer serviços adequados, eficientes, seguros e, quanto aos essenciais,
contínuos.
Parágrafo único. Nos casos de descumprimento, total ou parcial, das
obrigações referidas neste artigo, serão as pessoas jurídicas compelidas a
cumpri-las e a reparar os danos causados, na forma prevista neste código." (fls.
666/667).
Assim, não há como aceitar as alegações da agravante, quando diz não
ser responsável pela migração do sistema de telefonia.

Gabinete Des. José Volpato de Souza


Em suas razões recursais, aduz, ainda, que para a instalação da
tecnologia necessária é impossível e remonta a investimentos absurdos. Contudo,
diante do contrato firmado com a ANATEL (Contrato PBOA/SPB nº 108/2006), tanto
com o poder público quanto com os consumidores, as cláusulas estabelecem a
responsabilidade da concessionária para manter os serviços (fls.
372/373/375/376/378). Logo não há como se esquivar dessa obrigação.
Todavia, defende a agravante que é necessária a cassação da liminar,
porquanto as condições para o seu deferimento poderão reverter, pois, não estão
presentes os requisitos ensejadores à concessão da tutela antecipatória,
representando no caso, o periculum in mora inversum.
É cediço que para o deferimento da antecipação da tutela, deverão estar
devidamente preenchidos os pressupostos estabelecidos no art. 273 do CPC, que
assim dispõe:
- O juiz poderá, a requerimento da parte, antecipar, total ou parcialmente, os
efeitos da tutela pretendida no pedido inicial, desde que, existindo prova inequívoca,
se convença da verossimilhança da alegação e:
I- haja fundado receio de dano irreparável ou de difícil reparação; ou
II- fique caracterizado o abuso de direito de defesa ou o manifesto propósito
protelatório do réu.
[...]
§ 2º Não se concederá a antecipação da tutela quando houver perigo de
irreversibilidade do provimento antecipado.
Conforme lição de Hely Lopes Meirelles, "para a concessão da liminar
devem concorrer os dois requisitos legais, ou seja, a relevância dos motivos em que
se assenta o pedido inicial, e a possibilidade da ocorrência de lesão irreparável ao
direito do impetrante, se vier a ser conhecido na decisão de mérito" (Mandado de
segurança. 29 ed. São Paulo: Malheiros, 2006, p. 81). Sem a coexistência desses
dois requisitos deve ser denegada a liminar (RTJ 112/140).
Assim, o periculum in mora se configura quando há prejuízo de qualquer
natureza que comprometa ou impossibilite a plena eficácia de segurança que
reconheça a pretensão, que, no caso, são consumidores, na maioria agricultores,
necessitando dos serviços de telefonia, acarretando lesões a direitos de terceiros de
boa-fé e demais interessados na comunidade.
Além disso, é sabido que o interesse da coletividade se sobrepõe aos
individuais da recorrente, portanto, não cabe aqui a análise do periculum in mora
inverso.
No mais, pelas provas carreadas nos autos, percebe-se que a recorrente
tem condições de restabelecer o sinal na região reclamada e proceder à migração do
sistema de telefonia, ou, não havendo condições, de migrar do sistema de telefonia
TDMA para GSM, buscando, com isso, uma maneira viável para a instalação de
linhas de telefonia fixa.
Não se pode desconhecer que a ANATEL, órgão criado pelo Governo
Federal, estabeleceu o prazo de até 360 (trezentos e sessenta) dias para a correção
dos problemas tratados no presente feito quando editou a Resolução n. 562/2011.
Diante disso, para que não haja mais protelações por parte da agravante

Gabinete Des. José Volpato de Souza


Brasil Telecom S/A em dar cumprimento ao restabelecimento do sinal de telefonia aos
consumidores RuralCel da Comarca de Seara e/ou realizar a migração dos sistemas,
é de se ampliar o prazo concedido para a regularização do serviço de 30 (trinta) dias
para 180 (cento e oitenta) dias, pois mais condizente à espécie. Da mesma forma,
minoro o valor da multa, aplicada no valor de R$ 50.000,00 (cinquenta mil reais) para
R$ 15.000,00 (quinze mil reais) ao dia, em atenção aos princípios da razoabilidade e
proporcionalidade.
Deve vigir, em casos desse jaez, os princípios da razoabilidade e da
proporcionalidade, sobre os quais Alexandre de Moraes leciona:
O princípio da razoabilidade pode ser definido como aquele que exige
proporcionalidade, justiça e adequação entre os meios utilizados pelo Poder Público,
no exercício de suas atividades - administrativas ou legislativas -, e os fins por ela
almejados, levando-se em conta critérios racionais e coerentes (Constituição do
Brasil interpretada e legislação constitucional. 3. ed. São Paulo: Atlas, 2003. p. 368).
O Ministro Gilmar Mendes discorreu sobre o princípio da
proporcionalidade nos seguintes termos:
Um juízo definitivo, sobre a proporcionalidade da medida há de resultar da
rigorosa ponderação entre o significado da intervenção para o fim atingido e os
objetivos perseguidos pelo legislador (proporcionalidade ou razoabilidade em sentido
estrito). O pressuposto da adequação exige que as medidas interventivas adotadas
mostrem-se aptas a atingir os objetivos pretendidos. O requisito da necessidade ou
da exigibilidade significa que nenhum meio menos gravoso para o indivíduo
revelar-se-ia igualmente eficaz na consecução dos objetivos pretendidos. Assim,
apenas o que é adequado pode ser necessário, mas o que é necessário não pode
ser inadequado (Direito Constitucional Administrativo. São Paulo: Atlas, 2002. p.
115).
Desse modo, em virtude das razões anteriormente expostas, conheço
do agravo e dou parcial provimento ao recurso.

DECISÃO

Ante o exposto, a Quarta Câmara de Direito Público, por maioria de


votos, dar parcial provimento ao recurso, vencido parcialmente o Exmo. Des. Rodrigo
Collaço, quanto à extensão do prazo.
Conforme disposto no Ato Regimental n. 80/2007-TJ publicado no Diário
Judicial Eletrônico de 07.08.2007, registra-se que o julgamento foi realizado em 28 de
abril 2011, foi presidido pelo Excelentíssimo Senhor Desembargador Claudio Barreto
Dutra (com voto) e dele participou com voto, além do relator os Excelentíssimos
Senhores Desembargadores Jaime Ramos e Rodrigo Collaço.
Florianópolis, 29 de abril de 2010

José Volpato de Souza


RELATOR

Gabinete Des. José Volpato de Souza


Declaração de voto do Juiz Rodrigo Collaço
Ousei divergir da douta maioria por entender que, em sede de decisão
liminar, não havia premência que pudesse justificar a ordem do juízo a quo
peculiarmente para que fosse feita a imediata migração da tecnologia TDMA para a
digital (GSM). Caberia ao juízo, sim, em providência ontologicamente emergencial,
tão só ordenar à concessionária ré que restabelecesse os serviços de telefonia, tal
como já fazia, nas regiões que acabaram por perder o sinal necessário à utilização do
RuralCel/Ruralvan exatamente sob o pretexto dessa mudança de tecnologia,
considerando-se que, a despeito da eventual utilização de ERBs de terceiros ou da
celebração de contrato específico por se tratarem de terminais fora da ATB, de
qualquer modo era vedada a interrupção dos serviços.
Daí porque reputei que, se por um lado se mostraria exíguo, conforme
consta do voto condutor, o prazo de trinta dias para a ordem de mudança do sistema
para o digital -- até porque, posteriormente ao ato judicial combatido, adveio a
Resolução 562/11 da Anatel a fixar um período elastecido para a realização dessa
medida em todo o país --, por outro ainda assim era razoável que, nesses mesmos
trinta dias, fosse a Oi/Brasil Telecom ao menos compelida a reativar o serviço de
telefonia outrora já prestado na área rural daquela comarca, garantindo sua
continuidade, regularidade e eficiência, conforme previsto no art. 6º, § 1º, da Lei
8.987/95 (regulamentadora do art. 175 da Constituição da República), bem como no
Contrato de Concessão PBOA/SPB n. 108/2006-ANATEL, em especial nas cláusulas
6.1, §§ 1º e 2º, 7.1, 15.1, I, III, VII, 16.1, II, III e IV.
Assim, meu voto foi no sentido de dar provimento parcial ao agravo para
restringir a liminar à ordem de reativação das linhas, mantido o prazo de trinta dias a
tanto.
Essas são, em síntese, as razões da dissidência.
Florianópolis, 2 de maio de 2011

Rodrigo Collaço

Gabinete Des. José Volpato de Souza