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Filosofia

25 contos de sabedoria para você


ler para toda a família
Por Paulo Varella - Fevereiro 27, 2019

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Nasrudin

Separamos 25 contos de sabedoria divertidos e perfeitos para você ler


sozinho ou para os seus filhos na hora de dormir. Eles pertencem ao
filósofo oriental Nasrudin.
Quem foi Nasrudin?
É considerado um filósofo e sábio populista, lembrado por suas histórias
engraçadas e anedotas. Acredita-se que tenha nascido no século
XIII em Akshehir, na atual Turquia.

Originário do folclore da Turquia, o personagem Nasrudin  é um mulá (que


em árabe significa “mestre”). É um herói curioso: parece ingênuo, mas é
mais esperto do que todos nós. Alguns de seus contos são dignos de um
verdadeiro sábio oriental, com enigmas lógicos e soluções mirabolantes.
Outros são casos de simpática malandragem, de confusões que só se
resolvem com muita esperteza.

1) O Anúncio
Certa vez, Nasrudin estava na praça do mercado conversando com as
pessoas e em determinado momento ele anunciou:

– Amigos deste lugar! Querem conhecimento sem dificuldade, verdade


sem falsidade, realização sem esforço e, progresso sem sacrifício?

– Logo, havia uma multidão em sua volta gritando:

– Queremos, queremos!

Então, Nasrudin disse:

– Eu também.

Podem confiar em mim, contarei a vocês tudo a respeito… caso algum dia
eu descubra algo assim.

2) Nasrudin foi processado


Nasrudin ia pela cidade dizendo que:
— os sábios desta cidade, colocados juntos, não sabem nada.
Um dia, um grupo deles levou Nasrudin ao tribunal e exigiu que ele
voltasse atrás em sua declaração ou senão enfrentaria um castigo. 
— Está bem — disse Nasrudin.
Então, ele apresentou a cada um deles um pedaço de papel e lápis. Depois
comentou:
— Agora, cada um de vocês deve escrever uma resposta à seguinte
pergunta: O que é merda?
Todos eles escreveram uma resposta e entregaram-nas ao juiz, que as leu
em voz alta.
O cientista escreveu que merda é uma composição de água e alimentos
desperdiçados.
O filósofo escreveu que é uma manifestação de um ser vivente relacionada
aos ciclos e mudanças dos temas predominantes do universo.
O médico escreveu que é a matéria que deve ser passada através do corpo
como parte da regularidade dos intestinos e da boa saúde.
O líder religioso escreveu que é um símbolo de nossos pecados passando
através do nosso corpo.
A vidente escreveu que é material que pode ser usado para dizer nosso
futuro.
Depois de ouvir essas respostas, Nasrudin comentou com o Juiz:
— O Senhor vê o que quero dizer? — e concluiu — todos esses sábios
colocados juntos não sabem merda nenhuma.

3) O hospitaleiro Nasrudin
Certo dia, Nasrudin estava de gozação com pessoas de um grupo sobre
como era a sua tremenda hospitalidade. Uma das pessoas, ansiosa por fazer
com que Nasrudin provasse aquilo que falou sobre si mesmo, perguntou:
 Bem! Você levará todos nós para a sua casa e nos brindará com uma
refeição, certo?
Nasrudin concordou e conduziu o grupo no sentido de sua casa. Ao chegar
lá, ele disse para eles:
 Esperem aqui fora para que eu possa fazer com que minha esposa saiba o
que está acontecendo.
Ele entrou e falou com ela. Ela então respondeu, dizendo:
Nós não temos comida nenhuma. Você deve mandá-los embora!
Tenho certeza de que não posso fazer isso! 
ele respondeu fazendo um grande alarme 
minha reputação sobre a hospitariedade está aqui em jogo!
 Bem, sua esposa disse, esconda-se lá em cima, e se eles começarem a
chamar por você, eu lhes direi que você não está aqui.
Então, Nasrudin fez o que ela disse e deixou seus convidados esperando do
lado de fora.
Depois que algum tempo se passou, eles ficaram muito impacientes e
começaram a bater na porta e chamando pelo seu anfitrião.
 Nasrudin! Nasrudin! eles gritavam.
A esposa de Nasrudin abriu a porta e disse para eles:
 Nasrudin não está aqui.
 Isso não faz nenhum sentido! um deles respondeu.
 Afinal de contas, nós vimos ele entrar. Estamos esperando aqui, nesta
porta, este tempo todo.
Nasrudin, assistindo a tudo do andar de cima, não conseguiu se conter e,
debruçando-se na janela, gritou:
 Eu poderia ter saído pela porta de trás, não poderia?

4) Nasrudin morre
Nasrudin era muito velho e estava deitado em sua cama, prestes a morrer a
qualquer momento.
Ele disse para sua mulher: – Porque você está vestida de preto e olhando
tão triste? Vá vestir sua melhor roupa, arrume o seu cabelo e sorria!
– Nasrudin, – ela respondeu chorando – como pode você me pedir para
fazer uma coisa dessa? 
– Sim, – Nasrudin disse – existe uma razão pela qual eu fiz o meu pedido.
O Anjo da Morte estará aqui em breve. Se ele ver você toda vestida e bela,
talvez ele me deixará e em vez disso levará você.
E depois de dar um pequeno sorriso, Nasrudin morreu.

5) Meu pé doi
Cerejas estavam sendo vendidas muito baratas no mercado da vila.
Como Nasrudin era conhecido por ser um bom negociador, um amigo seu
pediu-lhe para comprar cerejas pagando ainda menos do que o preço do
mercado, que já era baixo.
Nasrudin pegou o dinheiro e foi para o mercado. Ele regateou com o
comerciante para mais de quinze minutos e foi capaz de comprar as cerejas
a um preço ridiculamente baixo.
Ele então voltou para a casa do amigo e foi perguntado como negociação
tinha acontecido
Ótimo, respondeu Nasrudin, eu realmente dei o comerciante um
espetáculo. Eu lhe lisonjeei. Eu implorei para ele. Dei-lhe todos os tipos de
raciocínios baseados na oferta e procura e o valor comparativo das
mercadorias. Apelei para as suas emoções. Fiz um trabalho de mestre. E,
acredite ou não, eu o convenci a me vender trinta quilos de cerejas pelo
dinheiro que você me deu.
Uau, o amigo respondeu 
 isso é incrível.
Eu sei, disse Nasrudin, e fiz como você me pediu. Então, agora você
concorda que também tenho direito a alguma recompensa pelo meu
trabalho?
É claro, respondeu o amigo.
Ok, disse Nasrudin, desde que eu fiz todo o trabalho, você concorda que eu
deveria ficar com todas as cerejas?

6) O negociante experto
Cerejas estavam sendo vendidas muito baratas no mercado da vila.
Como Nasrudin era conhecido por ser um bom negociador, um amigo seu
pediu-lhe para comprar cerejas pagando ainda menos do que o preço do
mercado, que já era baixo.
Nasrudin pegou o dinheiro e foi para o mercado. Ele regateou com o
comerciante para mais de quinze minutos e foi capaz de comprar as cerejas
a um preço ridiculamente baixo.
Ele então voltou para a casa do amigo e foi perguntado como a negociação
tinha acontecido.
Ótimo, respondeu Nasrudin, eu realmente dei o comerciante um
espetáculo. Eu lhe lisonjeei. Eu implorei para ele. Dei-lhe todos os tipos de
raciocínios baseados na oferta e procura e o valor comparativo das
mercadorias. Apelei para as suas emoções. Fiz um trabalho de mestre. E,
acredite ou não, eu o convenci a me vender trinta quilos de cerejas pelo
dinheiro que você me deu.
Uau, o amigo respondeu, isso é incrível.
Eu sei, disse Nasrudin, e fiz como você me pediu. Então, agora você
concorda que também tenho direito a alguma recompensa pelo meu
trabalho?
 É claro, respondeu o amigo.
Ok, disse Nasrudin, desde que eu fiz todo o trabalho, você concorda que eu
deveria ficar com todas as cerejas?

7) Um mestre diferente
Nasrudin estava sendo esperado em uma cidade. Praticamente toda a
população estava reunida na praça para ver o Mulla falar.
Nasrudin olhou para aquelas pessoas e perguntou:
— Você sabem sobre o que vou falar hoje?
Todos responderam ao mesmo tempo:
— Não!
— Se vocês não sabem o que vim falar eu me retiro — e foi embora.
Tempos depois a população conseguiu que Nasrudin voltasse à cidade para
falar.
Mas combinaram que se ele perguntasse novamente sa sabiam o que ele ia
falar eles dirão que sim.
Quando Nasrudin perguntou eles disseram:
— Sim!
Nasrudin disse então:
— Se vocês já sabem eu não preciso falar nada! — e se retirou.
Conseguiram que ele voltasse lá mais uma vez para falar. Dessa vez
combinaram que metade diria que sim e metade que não.
Nasrudin então disse:
— Muito bem. Então a metade que sabe conta para a metade que não sabe
— e se retirou.

8) Fique em uma perna


Certa noite, um grupo de assaltantes invadiu a casa de Nasrudin e exigiu
dinheiro dele.
— Senhores, — disse Nasrudin — se eu pudesse daria a vocês 1 milhão de
dólares mas, infelizmente, agora eu estou um pouco “quebrado”
financeiramente e só tenho esta conta de vinte dólares no bolso.
Dizendo isso, Nasrudin tirou a conta do bolso e entregou-a para os ladrões.
Eles, no entanto, ficaram extremamente irritados e decidiram passar a noite
na casa do Nasrudin e puni-lo. 
— Fique sobre um só pé pelo resto da noite! — eles exigiram.
Nasrudin fez como lhe foi dito. Os ladrões foram dormir enquanto um
deles ficou de guarda. 
Depois de uma hora, o guarda disse a Nasrudin: 
— Escuta, eu vou deixar você mudar para a outra perna.
— Obrigado, — respondeu Nasrudin — você é uma pessoa muito melhor
do que o resto do seu grupo.
Na verdade, quero lhe dizer que meu dinheiro está dentro dos meus sapatos
no armário. Você pode ir lá e pegá-lo mas, — complementando com ênfase
— não dê nada a eles!

9) Uma maçã pela resposta


Um homem, caminhando pelo centro da vila, começou a perguntar à
respeito de questões variadas aos moradores locais mas, sendo eles
incapazes de responder a maioria delas, indicaram alguém capaz de dar
respostas à suas perguntas: Nasrudin.
— Você pode me ajudar respondendo algumas questões? — o homem
perguntou a Nasrudin.
Nasrudin viu que o homem estava carregando um saco de maçãs e disse: 
— Eu vou responder, e a cada pergunta ganho uma maçã.
O homem concordou, fez as perguntas uma por uma e pagou uma maçã por
vez, cada uma das quais Nasrudin comeu imediatamente enquanto
respondia às perguntas. Finalmente, o homem ficou sem maçãs.
— Ok, eu estou indo agora. Mas antes disso, eu só quero saber uma coisa.
— o homem disse.
— O quê? — perguntou Nasrudin.
— Como você comeu tantas maçãs? — perguntou o homem demonstrado
muita curiosidade.
— Já que você não possui mais maçãs, — Nasrudin disse— eu não posso
responder. 

10) O pedido de empréstimo


Nasrudin puxou conversa com um estranho.
A certa altura, ele perguntou:
– Como está seu negócio?
– Ótimo! – respondeu o outro.
– Então me empresta dez Rúpias? – perguntou Nasrudin.
– Não. Eu não conheço você o suficiente para lhe emprestar dinheiro.
– Isso é estranho – respondeu Nasrudin – onde eu morava, as pessoas não
me emprestam dinheiro porque elas me conheciam, e agora que me mudei
para aqui, as pessoas não me emprestam dinheiro porque elas não me
conhecem!

11) A casa lotada


Certo dia, Nasrudin estava conversando com seu vizinho e ele comentou
em tom de reclamação:
– Eu, minha esposa, meus três filhos e minha sogra, compartilhamos da
mesma casa. Estou tendo problemas em acomodar todos em nosso pequeno
espaço. Mulla Nasrudin, você que é um homem sábio, tem algum conselho
para mim?
– Sim. Você tem galinhas em seu quintal? – respondeu Nasrudin.
– Eu tenho 10 galinhas – respondeu o homem.
– Então, coloque-as dentro de casa – disse Nasrudin.
– Mas Mulla! – o homem comentou – nossa casa já é muito apertada como
ela é.
– Experimente – respondeu Nasrudin.
O homem, desesperado para encontrar uma solução para seus problemas de
espaço, seguiu o conselho. No dia seguinte fez outra visita a Nasrudin.
– Mulla, as coisas agora estão ainda piores. Com as galinhas dentro de
casa, nós estamos mais pressionados naquele pequeno espaço – ele disse.
– Agora, faça o seguinte: pegue o seu burro e leve-o para dentro de casa –
disse Nasrudin.
O homem lamentou-se e se opôs, mas Nasrudin convenceu-o a fazê-lo.
No dia seguinte, o homem, parecendo agora mais angustiado do que nunca,
veio a Nasrudin e disse:
– Agora, minha casa está mais lotada ainda! Quase não existe espaço para
a minha família, as galinhas e o meu burro, se moverem.
– Bem, você tem outros animais em seu quintal? – perguntou Nasrudin.
– Sim, nós temos um bode – respondeu o homem.
– Muito bem. Leve o bode para sua casa também – disse Nasrudin.
Mais uma vez, o homem criou uma confusão e ele parecia tudo, menos
estar ansioso para seguir o conselho de Nasrudin. Uma vez mais, este
convenceu-o a colocar mais um animal dentro da casa.
No dia seguinte, o homem, agora cheio daquela situação, se aproximou de
Nasrudin e disse:
– Agora minha família está muito chateada. Todos estão na minha garganta
reclamando da falta de espaço. Seu plano está nos fazendo sentir
miseráveis.
– Certo – respondeu Nasrudin – agora vamos colocar todos os animais do
lado de fora.
Então, o homem seguiu o conselho. No dia seguinte, ele passou por
Nasrudin e comentou:
– Mulla, seu plano funcionou como um encanto. Com todos os animais
fora da casa, ela ficou tão espaçosa que nenhum de nós pode fazer nada a
não ser ficar feliz e sem reclamar.

12) O jardim do vizinho


Certa vez Nasrudin viu algumas laranjas maduras no jardim do seu vizinho
e resolveu roubar uma.
Ele pegou sua escada e a colocou apoiada no muro divisório entre os dois
terrenos.
Ele subiu pela escada e estando no alto do muro, puxou a escada e coloco-
a do outro lado. Assim que ele começou a descer, ele ouviu a voz do seu
vizinho questionando:
– O que está fazendo aqui?
Calmamente, Nasrudin respondeu:
– Estou vendendo escadas!
O vizinho argumentou:
– Este local parece ser lugar para venda de escadas?
Nasrudin então disse:
– Você pensa que existe apenas um lugar para vender escadas?”
13) Servindo o manto
Certa vez, todos que viviam na mesma região de Nasrudin foram
convidados para um banquete em uma aldeia próxima. Ao saber do
convite, o Mullá foi até lá o mais rápido que pôde. Mas como estava com
um manto esfarrapado, o mestre de cerimonias o colocou e um lugar ruim,
longe da grande mesa onde estavam os convidados mais importantes.
Logo, Nasrudin percebeu que demoraria mais de uma hora para ser
servido. Então resolveu ir até sua casa e se vestiu com um manto e um
turbante magníficos. Ao entrar novamente na festa, foi saudado com
tambores de boas vindas pelos arautos do Emir, seu anfitrião, e o
camareiro real o conduziu a um lugar ao lado do próprio Emir.
Imediatamente a comida foi servida.
Nasrudin então pegou a comida com a mãos e começou a esfregá-la no
manto e no turbante.
– Vossa eminência, – disse o Emir, – seus costumes à mesa são
inteiramente novos para mim. Estou curioso.
E Nasrudin respondeu:
– O manto e o turbante me fizeram chegar aqui e me trouxeram a comida.
Você não acha que eles merecem as suas partes? 

14) Quem sou eu?


Depois de uma longa viagem, Nasrudin deu de cara com a turbulenta
multidão de Bagdá. Nunca havia visto um lugar tão grande e confundiam-
lhe a cabeça todas aquelas pessoas amontoadas pelas ruas.
– Num lugar assim – refletia Nasrudin, – fico imaginando como é que as
pessoas fazem para não se perderem de si mesmas, para saberem quem
são” 

Então pensou: – devo recordar-me bem de mim, caso contrário poderia


perder-me de mim mesmo. 
Mais que depressa procurou um alojamento para viajantes. Um sujeito
brincalhão estava numa cama próxima daquela que Nasrudin ia ocupar.
Nasrudin pensou em fazer a sesta, mas tinha um problema: como encontrar
novamente a si mesmo ao acordar. Falou do problema ao vizinho. 
– Muito simples – disse o brincalhão – aqui tens um balão; basta amarrá-lo
na sua perna e ir dormir; quando acordar, procure o homem com o balão e
esse homem é você.
Nasrudin disse: – Excelente idéia!. 
Algumas horas depois Nasrudin acordou e procurou o balão e achou-o
amarrado na perna do vizinho brincalhão. 
– É, esse aí sou eu – pensou. Então, apavorado começou a sacudir o
sujeito:
– Acorda! Algo aconteceu do jeito que imaginei que aconteceria! Sua idéia
não foi boa!

O homem acordou e perguntou qual era o problema.


Nasrudin apontou-lhe o balão: 
– Pelo balão, posso dizer que você sou eu. Mas se você sou eu, pelo amor
de Deus, quem sou eu?

15) As fraquezas do rei


Certa vez, Nasrudin foi à Corte usando um magnífico turbante. A intenção
do Mullá era despertar o desejo do rei e vender-lhe o turbante. E, de
acordo com sua expectativa, o rei perguntou:
– Nasrudin, quando você pagou por esta maravilha? 
– Mil moedas de ouro, majestade.
O vizir percebeu a esperteza e cochichou ao rei:
– Ninguém, além de um idiota, pagaria tanto por um turbante.
O rei, influenciado pelo comentário, disse a Nasrudin:
– Por que você pagou tanto? Nunca ouvi falar que alguém tivesse dado
essa quantia por um turbante.
– Paguei essa fortuna porque sabia que em todo o mundo só um rei
compraria esse tipo de coisa.
Sensibilizado pelo elogio, o rei decidiu comprar o turbante pelas mil
moedas de ouro.
Pouco depois, ao se encontrar só com o vizir, Nasrudin lhe disse:
– Você pode conhecer o valor de um turbante, mas sou eu quem conhece
as fraquezas dos reis.

16) Sopa de lágrimas


 A mulher do mulla Nasrudin estava muito zangada com ele. Por isso lhe
trouxe uma sopa fervendo, e não o avisou de que ele poderia queimar-se ao
tomá-la.
Mas ela também estava com fome e, assim que a sopa foi servida, sorveu
um gole. Lágrimas de dor verteram de ses olhos. Mas mesmo assim ela
ainda esperava que o mulla se queimasse.
– Minha querida, que aconteceu? – Perguntou Nasrudin.
– Eu só estava pensando na minha pobre e velha mãe. Quando viva, ela
gostava muito desta sopa. Por isso as lágrimas.
Nasrudin então tomou um gole escaldante da própria tigela.
Lágrimas lhe escorreram pelo rosto.
– Está chorando, Nasrudin? – perguntou a mulher.
– Estou! Estou chorando ao pensar que sua velha mãe está morta,
pobrezinha! Mas que deixou alguém como você na terra dos vivos –
justificou Nasrudin.

17) A verdade
Algumas pessoas que admiravam Nasrudin o cercaram e perguntaram:
– Dizem que as suas histórias estão cheias de verdades e com sentidos
ocultos, Nasrudin. Estão mesmo?
– Claro que não! – respondeu Nasrudin.
– Por que não? Porque você diz isto com tanta convicção? – perguntaram.
– Simplesmente porque nunca falei a verdade em toda a minha vida, nem
uma vez sequer; e tampouco serei capaz de fazê-lo, um dia – finalizou
Nasrudin.

18) O caminho curto


Em uma magnífica manhã , o mulla Nasrudin caminhava de regresso a sua
casa e em determinado momento perguntou aos seus botões:
– Por que não tomar um atalho através daquela formosa floresta que beira
a esta estrada tão poeirenta?
Seguindo pela trilha no meio da mata, exclamou:
– Mais um dia se passou, um entre os outros dias, um dia de atividades
produtivas e realizadas! Agora é só chegar em casa e descansar.
Um pouco mais adiante, em um trecho de mata fechada, o chão de repente
sumiu debaixo de ses pés. Quando se deu conta, viu que estava no fundo
de um fosso. Observou a situação e percebeu que não havia como sair dali
sem ajuda. Mas quem passaria por ali e quando?
Mas, refletindo melhor, ele disse:
– Ainda bem que tomei este atalho. Se essa coisa aconteceu no meio de
tamanha beleza, imagine que catástrofe poderia ter-me acontecido se eu
tivesse seguido por aquela estrada esburacada, perigosa e trafegada por
cavalos e carroças? 
19) Ninho vazio
Certa vez o mulla foi surpreendido investigando um ninho vazio.
— O que está fazendo, mulla? — o homem perguntou.
— Procurando ovos — Nasrudin deu uma resposta curta.
O homem deu um sorriso irônico e disse:
— Não há ovos num ninho do ano passado!
— Não tenha tanta certeza— tornou Nasrudin — se você fosse um
passarinho e quisesse proteger seus ovos, construiria um ninho novo, à
vista de todo mundo?

20) Por que não tentar


Um belo dia, alguns amigos viram Nasrudin, de joelhos, à beira de uma
lagoa, adicionando um pouco de iogurte velho à água. Um dos homens
perguntou:
— O que está tentando fazer, Nasrudin?
— Estou tentando fazer iogurte — respondeu.
— Mas você não pode fazer iogurte desse jeito! — disse um dos amigos.
— Sim, eu sei; mas imagine se isso der certo!

21) Pedindo dinheiro


Certo dia, Nasrudin estava precisando de dinheiro. Olhou em volta e viu
um homem rico. Foi até o homem e disse:
— Poderia me arrumar algum dinheiro? Certamente se você é tão rico
como parece, não lhe fará falta.
— Para que quer o dinheiro? — perguntou o rico.
— Para comprar um elefante — respondeu Nasrudin.
— Se você não tem dinheiro, nunca poderá sustentar um elefante —
argumentou o homem.
Nasrudin olhou nos olhos do homem e disse:
— Eu pedi dinheiro, não pedi conselhos!

22) O rei falou comigo


O mulla voltara à aldeia depois de visitar a capital imperial. Os aldeões se
reuniram à sua volta para ouvi-lo falar sobre as suas aventuras.
— Neste momento — disse Nasrudin — só desejo contar-lhes que o rei
falou comigo.
Ouviu-se uma parada geral na respiração de todos devido à emoção. O rei
dirigira realmente a palavra a um cidadão da aldeia! A notícia maravilhosa
era mais do que suficiente para os aldeões, que se dispersaram a fim de
divulgá-la.
Um homem, porém, que não se afetou como os outros pelo que Nasrudin
havia dito, não se moveu dali. Ficando para trás, pediu ao mulla que
repetisse, palavra por palavra, o que dissera o rei.
— O que ele disse, e o fez muito distintamente, para todos ouvirem, foi: —
disse Nasrudin.
— Saia do meu caminho!

23) É melhor prevenir


Nasrudin entregou um cântaro a um menino, mandou-o buscar água num
poço e deu-lhe um tapa no “pé-de-ouvido”.
— E preste atenção! Não me deixe cair a água! — gritou para o garoto.
Um homem que assistira a tudo perguntou-lhe:
— Como é que você bate em alguém que não fez nada de mal?
— Você, com certeza, — revidou Nasrudin — preferiria que eu batesse
nele depois que ele tivesse quebrado o cântaro, quando o cântaro e a água
estivessem ambos perdidos? Da minha maneira, o garoto se lembrará e
assim se salvarão o cântaro e o seu conteúdo.

24) Montando no burro


Certo dia, alguns candidatos a discípulos procuraram o Mulla e pediram-
lhe que lhes fizesse uma palestra.
— Muito bem, — disse ele — sigam-me até o salão, do outro lado da
praça, onde existe espaço para eu falar a todos vocês.
Obedientes, eles se alinharam atrás de Nasrudin, que montou no burro às
avessas, e começou a afastar-se.
A princípio, os jovens se sentiram confusos, depois se lembraram de que
não deviam contestar o menor gesto do Mulla. Finalmente, reconheceram-
se incapazes de suportar por mais tempo as zombarias dos transeuntes.
Percebendo-lhes o embaraço, o Mulla se deteve e olhou-os fixamente. O
mais atrevido dentre os rapazes aproximou-se:
— Mulla, não compreendemos direito por que o senhor montou nesse
burro às avessas.
— É muito simples — replicou o mulla — vejam bem, se vocês andassem
à minha frente, seria uma desconsideração a mim. Por outro lado, e se eu
lhes desse as costas, seria uma desconsideração a vocês. Esse é o único
meio-termo possível.
25) A Linguagem do louco
Um místico deteve Nasrudin na rua e apontou para o céu, querendo dizer:
– Existe apenas uma verdade, que tudo cobre.
Dessa vez, Nasrudin vinha acompanhado de um erudito que andava
procurando o fundamento lógico do sufismo. O homem disse para si
mesmo: 
– Este homem está louco. Nasrudin deve tomar precauções e fazer alguma
coisa contra ele.
Efetivamente, o Mulla revistou a mochila e dela tirou um pedaço de corda. 
O erudito pensou:
– Excelente! Poderemos agarrar o louco e amarrá-lo, caso ele se torne
violento.
O “louco”, olhando a corda, riu e saiu andando.
– Muito bem feito, – disse o erudito – você nos salvou dele

Na verdade, meu gesto apenas significou, – disse Nasrudin:


– A humanidade comum tenta alcançar esse ‘céu’ por métodos tão
inadequados quanto esta corda.
E acrescentou:– Parece que ele entendeu.

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Paulo Varella
Estudou cinema na NFTS (UK), administração na FGV e química na USP.
Trabalhou com fotografia, cinema autoral e publicitário em Londres nos anos
90 e no Brasil nos anos seguintes. Sua formação lhe conferiu entre muitas
qualidades, uma expertise em estética da imagem, habilidade na administração
de conteúdo, pessoas e conhecimento profundo sobre materiais. Por muito
tempo Paulo participou do cenário da produção artística em Londres, Paris e
Hamburgo de onde veio a inspiração para iniciar o Arteref no Brasil. Paulo
dirigiu 3 galerias de arte e hoje se dedica a ajudar artistas, galeristas e
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