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Criação da gratificação por encargo de curso ou concurso

Uma ligeira explanação a respeito da nova gratificação introduzida na lei


8.112/90 e do contexto de criação da referida vantagem.

16/ago/2006

Daniel Saulo Ramos Dultra


danielsaulo@yahoo.com.br
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É fundamental que aqueles que lidem no seu dia a dia com a lei que dispõe sobre o Regime
Jurídico Único dos Servidores Públicos Civis da União, das autarquias e das fundações públicas
federais (Lei 8.112/90), estejam alertas às mudanças que por ventura sobrevenham à referida
norma jurídica.
E dentro desse contexto iremos discorrer um pouco sobre a mais recente alteração ocorrida na
Lei 8.112/90, a saber, a introdução de uma nova gratificação no rol de vantagens enunciadas no
art. 61 dessa lei, “ a gratificação por encargo de curso ou concurso público”.
Antes de passarmos à compreensão da gratificação é mister relembrarmos alguns
acontecimentos que antecederam a edição da Lei 11.314, de 03 de julho de 2006.
Essa vantagem começa a ganhar contornos de existência no ordenamento jurídico pátrio muito
antes da edição da atual lei que dispõe sobre o RJU, o próprio Ministro Paulo Bernardo Silva cita
essas raízes na Exposição de Motivos onde encaminha o projeto dessa alteração ao Presidente da
República, citando, o respeitável ministro, os Decretos-Lei nº 1.341/74; 1.604/78 e 1.746/79.
A Constituição de 1988 no art. 39, § 2º, com redação dada pelo emenda constitucional nº 19, de 4
de junho de 1998, dispõe que “ A União, os Estados, o Distrito Federal manterão escolas de
governo para a formação e o aperfeiçoamento dos servidores públicos, constituindo-se a
participação nos cursos um dos requisitos para a promoção na carreira, facultada, para isso, a
celebração de convênios ou contratos entre os entes federados”, o que acabou implicando na
edição do Decreto nº 2.794/98, que institui o plano Nacional de Capacitação dos Servidores para
a Administração Pública Federal direta, autárquica e fundacional, dispondo que considera
treinamento regularmente instituído as ações de capacitação com ele compatíveis, com destaque
para os cursos de formação, bem como de desenvolvimento e aperfeiçoamento dos servidores
públicos. Dessa forma a União, buscando cumprir o disposto na norma constitucional, através da
Fundação Escola Nacional de Administração Pública - ENAP, passou a contratar servidores
públicos para exercer a atividade de instrutoria em cursos de formação, de desenvolvimento e
aperfeiçoamento regularmente instituídos.
Essa manobra da Administração acabou se tornando discutível no meio jurídico, o que levou a
um maior empenho por parte do Executivo em Instituir de forma clara e definitiva na própria lei
8.112/90 a gratificação por encargo de curso ou concurso. Nesse sentido é que aos 17 de julho de
2005 foi encaminhada a Exposição de Motivos nº 00134-A/2005/MP ao presidente Luiz Inácio
Lula da Silva com o projeto de ato normativo para sua apreciação. A exposição foi apreciada e
aprovada pelo Presidente que a encaminhou ao Legislativo dando origem ao PL-5658/2005,
onde passou a tramitar regularmente para possível aprovação.
O grande problema é que nesse ínterim o Ministério Público Federal ajuizou a ação civil pública
nº 19998.34.00.002.302-5, em face da ENAP, que segundo afirma a própria exposição de
motivos do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, “ a sentença proferida foi no
sentido de vedar a contratação de servidores públicos para exercer atividades de instrutoria em
cursos de formação, de desenvolvimento e de treinamento regularmente instituídos, ou, ainda,
como auxiliar ou membro de banca examinadora, comissão de avaliação e comissão fiscalizadora
de concurso público, sob alegação da possível incidência de acumulação ilegal de cargos e
ausência de respaldo legal para os procedimentos até então adotados por parte da
Administração”. Essa situação acabou causando um tumulto. Como, em função da decisão
proferida na ação civil pública aqui mencionada, estavam agora presentes os pressupostos de
relevância e urgência de regulamentação da questão o MPOG incluiu tal alteração na Lei
8.112/90 na proposta de medida provisória encaminhada - subscrita também por mais 10
ministérios buscando outras alterações necessárias no setor público - por meio da Exposição de
Motivos Interministerial nº 006/2006.
Essa EMI levou o Executivo a editar a medida provisória nº 283/2006 que se converteu na Lei
11.314/06.
Passemos agora à análise da referida lei, sendo que os artigos da norma que diretamente
interessa a esse estudo são os arts. 1º e 2º. O primeiro artigo citado dispõe que fica instituída, no
art. 61 da lei 8112/90, como inciso IX, a gratificação por encargo de curso ou concurso. Afirma
ainda o mesmo artigo que o art. 98 do estatuto será acrescido do § 4º que assim dispõe: “Será
igualmente concedido horário especial, vinculado à compensação de horário na forma do inciso
II do caput do art. 44 desta Lei, ao servidor que desempenhe atividade prevista nos incisos I e II
do art. 76-A desta Lei”. O art. 2º da Lei 11.314/06 afirma que o Capítulo II do Título III da Lei no
8.112, de 11 de dezembro de 1990, passa a vigorar acrescido da seguinte Subseção VIII:
“Subseção VIII
Da Gratificação por Encargo de Curso ou Concurso
Art. 76-A. A Gratificação por Encargo de Curso ou Concurso é devida ao servidor que, em caráter
eventual:
I - atuar como instrutor em curso de formação, de desenvolvimento ou de treinamento
regularmente instituído no âmbito da administração pública federal;
II - participar de banca examinadora ou de comissão para exames orais, para análise curricular,
para correção de provas discursivas, para elaboração de questões de provas ou para julgamento
de recursos intentados por candidatos;
III - participar da logística de preparação e de realização de concurso público envolvendo
atividades de planejamento, coordenação, supervisão, execução e avaliação de resultado, quando
tais atividades não estiverem incluídas entre as suas atribuições permanentes;
IV - participar da aplicação, fiscalizar ou avaliar provas de exame vestibular ou de concurso
público ou supervisionar essas atividades.
§ 1o Os critérios de concessão e os limites da gratificação de que trata este artigo serão fixados
em regulamento, observados os seguintes parâmetros:
I - o valor da gratificação será calculado em horas, observadas a natureza e a complexidade da
atividade exercida;
II - a retribuição não poderá ser superior ao equivalente a 120 (cento e vinte) horas de trabalho
anuais, ressalvadas situações de excepcionalidade, devidamente justificadas e previamente
aprovadas pela autoridade máxima do órgão ou entidade, que poderá autorizar o acréscimo de
até 120 (cento e vinte) horas de trabalho anuais;
III - o valor máximo da hora trabalhada corresponderá aos seguintes percentuais, incidentes
sobre o maior vencimento básico da administração pública federal:
a) 2,2% (dois inteiros e dois décimos por cento), em se tratando de atividade prevista no inciso I
do caput deste artigo;
b) 1,2% (um inteiro e dois décimos por cento), em se tratando de atividade prevista nos incisos II
a IV do caput deste artigo.
§ 2o A Gratificação por Encargo de Curso ou Concurso somente será paga se as atividades
referidas nos incisos do caput deste artigo forem exercidas sem prejuízo das atribuições do cargo
de que o servidor for titular, devendo ser objeto de compensação de carga horária quando
desempenhadas durante a jornada de trabalho, na forma do § 4o do art. 98 desta Lei.
§ 3o A Gratificação por Encargo de Curso ou Concurso não se incorpora ao vencimento ou
salário do servidor para qualquer efeito e não poderá ser utilizada como base de cálculo para
quaisquer outras vantagens, inclusive para fins de cálculo dos proventos da aposentadoria e das
pensões.”
Como vemos pela clareza do texto, foi instituída mais uma vantagem ao rol do art. 61 da Lei
8.112/90, a gratificação por encargo de curso ou concurso, para aqueles servidores que em
caráter eventual, ou seja, que não faça parte de suas atribuições normais, se enquadrem numa
das quatro hipóteses disciplinadas nos incisos do Art. 76-A, ressaltando-se que tal gratificação
também será recebida pelos servidores que participarem de banca examinadora ou de análise de
currículos, ou que fiscalizarem, ou participarem da logística de provas de vestibular e concurso
público.
O valor do benefício será calculado por hora, com base em um porcentual sobre o maior
vencimento básico da administração federal. No ano, os servidores poderão ministrar cursos por
no máximo 120 horas, ressalvadas as hipóteses do referido inciso II do art. 76-A da lei ordinária
em questão. A gratificação não será incorporada ao salário, ou seja, não contará como vantagem
de caráter permanente que compõe a remuneração do servidor. O servidor, porém, só terá direito
à remuneração se a atividade extra não prejudicar o trabalho normal.
Essa alteração no RJU trouxe a possibilidade de as entidades da administração Pública
cumprirem com suas missões institucionais constitucionalmente estabelecidas no art. 39, § 2º ,
de maneira eficiente e acima de tudo dentro da legalidade que deve sempre dar sustentação e
validade a todas as manifestações do setor público.