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UNIVERSIDADE DO ESTADO DO PARÁ – CCSE – DART


LICENCIATURA PLENA EM MÚSICA - Disciplina: MPB
Prof. Ricardo Catete – ricardocatete@hotmail.com

APOSTILA II – MPB: A FORMAÇÃO

A Modinha

A invenção, e popularização, da Modinha e do Lundu acontece no final do


século XVIII, quando o Brasil ainda era uma colônia portuguesa, evidências de sua
popularização podem ser encontradas nos relatos de Thomas Lindley, em seu livro
de 1802 sobre as festas em casas abastadas em Salvador na virada dos séculos
XVIII para XIX:

(...) em algumas casas de gente mais fina ocorriam reuniões elegantes,


concertos familiares, bailes e jogos de cartas. Durante os banquetes e
depois da mesa bebia-se vinho de modo fora do comum, e nas festas
maiores apareciam guitarras e violinos, começando a cantoria. Mas pouco
durava a música dos brancos, deixando lugar à sedutora dança dos negros,
misto de coreografia africana e fandangos espanhóis e portugueses. (citado
em Pinho, 1959:27 apud Vianna 2004:37)

Esse relato nos mostra uma elite baiana impaciente com as regras da
elegância européia e que, basta ficar um pouco embriagada para “cair na folia”
negra. Negra mas já miscigenada, pois era comum a fusão coreográfica entre as
danças africanas e ibéricas, o que torna vã qualquer tentativa nos dias de hoje
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estabelecer o que é realmente africano ou europeu em nossas danças “populares”


atuais.
Mesmo em Portugal, a sede da corte, as danças e músicas “exóticas’ de suas
colônias seduzem o público local, que recebe de forma entusiástica seus
compositores, promovendo um importante intercâmbio cultural, do qual as duas
nações se beneficiariam.
Dentre esses compositores brasileiros que aportaram na sede da corte
portuguesa, o mais proeminente foi, sem dúvida, o padre carioca (e mulato)
Domingos Caldas Barbosa (1739-1800) o “primeiro compositor reconhecido
historicamente no Brasil”, sendo considerado pela maioria dos historiadores da
música popular brasileira como o estilizador e divulgador da modinha, que era um
gênero musical inventado por mulatos das camadas populares a partir das modas
portuguesas (canções líricas), mas que se diferenciavam dessas por privilegiarem os
temas amorosos e de forma explícita a libidinagem, e eram acompanhadas
preferencialmente por instrumentos de corda, como o violão e o bandolim.

Caldas Barbosa representava a grande miscigenação que caracterizava a


vida das colônias portuguesas de então, filho de um português com uma angolana,
foi enviado para Portugal em 1763, para estudar em Coimbra. Muda-se depois para
Lisboa, onde se tornou célebre pelas trovas improvisadas ao som da sua viola de
corda de arame. Suas composições estão reunidas no livro “Viola de
Lereno”, pseudônimo que adotava. Em sua poesia tratou das peculiaridades afetivas
do povo brasileiro, distinguindo-as das dos portugueses.
Com seu sucesso na corte portuguesa, Caldas Barbosa passa a influenciar os
compositores eruditos portugueses, que também passaram a compor suas próprias
modinhas.

É quando começa a “italianização” das modinhas, pois os compositores


portugueses estudavam na Itália sendo, pois, suas obras influenciadas pelas
operetas de Belinni (1081-1835) e Donizetti (1797-1848), e é com essa nova
“roupagem” que a modinha retorna ao Brasil pelos compositores da corte de D. João
VI, tornando-se o carro-chefe das reuniões festivas nas casas abastadas de
Salvador e Rio de Janeiro. Esses tipo de modinhas passam a ser conhecidas como
“Modinhas Imperiais” sendo um gênero amplamente explorados por vários
compositores populares e eruditos, como Joaquim Manoel (?-1840), José de Araújo
Viana (o Marquês de Sapucaí, 1872-1916), Sigismund Neukomm (1778-1858) e até
o erudito Carlos Gomes (1836-1896), também assinou várias modinhas, sendo sua
mais famosa a composição “Quem Sabe”, reproduzida até os dias de hoje nos
cursos de canto em conservatórios do país.

Uma terceira fase desse gênero poderia chamada de “renacionalização” da


modinha, quando ela torna novamente a voltar às classes populares onde surgiu um
século antes. Essa renovação ocorreu, sobretudo, pelo intercâmbio entre artistas,
escritores e pensadores de diferentes origens sociais em cafés e clubes de
discussão sobre arte, comuns no Rio de Janeiro do segundo império. O principal
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local desses encontros era a tipografia do poeta Francisco de Paula Brito (1809-
1861), onde se reuniam amigos que formavam a chamada “Sociedade Petalógica”
(que vem de peta = mentira). Na Sociedade, reunia-se toda sorte de gente: artistas,
políticos, funcionários públicos, gente do povo, eruditos, professores, sendo,
inclusive um deles o escritor Machado de Assis (1839-1908).
Dessa geração de novos compositores de modinhas, surge Laurindo Rabelo
(1826-1864), Alexandre Trovador (?-1886) além do próprio Paula Brito.
A modinha assim renovada ganha fôlego até o início do século XX nas
composições de Catulo da Paixão Cearense (1863-1946), quando cede espaço para
um gênero que igualmente surgiu das classes mais populares, e tornou-se a música
representante da cultura nacional: o samba, que foi relegando a modinha aos
sertões brasileiros onde sobreviveu na forma da canção sertaneja, cuja trajetória
segue até os dias de hoje, dividindo-se em inúmeros gêneros.

O Lundu
Os viajantes europeus foram a principal fonte de informações sobre o lundu
(londu, landu, lundum, etc.), descendente direto do batuque africano, primitivamente
uma válvula de escape para os escravos.
Seus relatos descrevem-no como dança à qual a umbigada (movimento em
que os pares fazem bater um no outro a região do umbigo) conferiria um caráter
lascivo. No século XVII o lundu teria perdido seu caráter coreográfico,
transformando-se em música para ser cantada, que declarava, agora
expressamente, seu caráter brasileiro.
A umbigada transforma-se então em reverência, e o lundu volta a ser
dançado, desta feita nos salões da sociedade. Da mesma forma que a modinha,
nascida na corte e criada em berço abastado, integrou-se com o correr do tempo de
forma definitiva à musicalidade popular, falando então diretamente às classes menos
favorecidas, o lundu abandonou aos poucos, pelo seu intenso convívio com as
modinhas, o caráter intrinsecamente popular e passou a fazer parte da realidade
cotidiana das sociedades cultas.
A modinha mistura-se aos poucos ao lundu, emprestando-lhe às vezes o
lirismo árcade lusitano e tomando para si o ritmo sincopado afro-brasileiro. Mesmo
sendo capaz de distinguirmos as várias etapas de transformações da modinho e do
lundu, ainda sim, fica difícil a princípio, discernir com clareza a modinha popular da
mais culta, o lundu africano do lundu-canção, o lírico do satírico.

BIBLIOGRAFIA:
CANCLINI, Néstor García. Culturas Híbridas: estratégias para entrar e sair das modernidades.
4.ª ed. 4.ª reimp. São Paulo: Edusp, 2008.
DOMINGUES, Diana (org.) A Arte no Século XXI: a humanização das tecnologias. São Paulo:
Unesp, 1997.
MORELLI, Rita C. L. Indústria Fonográfica: um estudo antropológico. 2.ª ed. Campinas: Unicamp,
2009.
SADIE, Stanley. Dicionário Grove de Música: edição concisa. Rio de Janeiro: Zahar Editor, 1994.
VIANNA, Hermano. O Mistério do Samba. 5ª ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.: UFRJ, 2004.