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O arquétipo de Bentinho: entre o social e o psicológico

Lílian de Sant’Anna Maia 1

Resumo: O escritor Machado de Assis passeou por dois momentos literários, romantismo e
realismo, em sua fase realista, propõe-se, por meio de sua arte, retratar de maneira bastante
sutil, a sociedade burguesa do século XIX. Para tanto, ele dialoga com o leitor, deixando-o
à vontade para que junto com ele (o autor) seja construído o sentido para a obra literária. O
dialogismo na obra literária machadiana estudado aqui, estará voltado para o jogo entre o
cultural, o social e o psicológico, uma vez que tais elementos são imprescindíveis para a
formação do arquétipo do personagem Bentinho da obra “Dom Casmurro”. Em “Dom
Casmurro”, Bentinho é um ícone, uma vez que, mesmo o narrador dialogando com o seu
leitor, o último, tem dificuldade de atribuir sentido à obra, posto que, a narrativa avança
mais na sombra do que à luz, sugere mais do que revela. A força de sugestão possui uma
capacidade de penetração psicológica e tal penetração será analisada por meio da psicologia
jungeana.

Palavras-chave: Bentinho, arquétipo, Dom Casmurro, Jung.

1. Introdução

Este artigo cuja temática é: O arquétipo de Bentinho: entre o social e o psicológico,


pretende estudar de acordo com a visão jungeana o comportamento de Bentinho na
sociedade do século XIX, e, o que desencadeou o processo “psicótico” do personagem
quando ele acredita que a sua esposa Capitu o traiu com o seu amigo Escobar e desse
relacionamento nasce o seu filho “Ezequiel”.

1
Graduada em Letras, Pós-graduada em História Regional e Pós-graduanda em Estudos
Comparados em Literaturas de Língua Portuguesa pela Universidade Estadual de Santa
Cruz. Docente da Escola Municipal do Banco da Vitória e Colégio Estadual Moysés
Bohana localizado no município de Ilhéus-Bahia.
O estudo ora apresentado, não se fecha aqui, é o início de um estudo que está sendo
desenvolvido a partir de uma árdua pesquisa baseada nos estudos comparados entre a
literatura machadiana e a psicologia jungeana.
A análise da Obra machadiana “Dom Casmurro” dar-se-á por meio da interpretação
do comportamento de Bentinho no âmbito social (dentro da instituição família e no
relacionamento dele com outras pessoas que fazem parte de seu meio social). Desse modo,
o consciente e inconsciente coletivo, símbolos, complexos na visão jungeana serão
estudados, a fim de traçar o arquétipo do referido personagem.
Em “Dom Casmurro”, Bentinho é um ícone, uma vez que mesmo o narrador
dialogando com o seu leitor, o último, tem dificuldade de atribuir sentido à obra, posto que,
a narrativa avança mais na sombra do que à luz, sugere mais do que revela. A força da
sugestão possui uma capacidade de penetração psicológica e tal penetração será analisada
por meio da psicologia jungeana.
Os referenciais teóricos aqui levantados serão as obras completas de Carl G. Jung,
arcabouço que revela a brecha existente entre o consciente e o inconsciente (pessoal e
coletivo). A pesquisadora Nise da Silveira, pois faz um estudo sobre a vida e obra de Jung,
traçando os vários tipos psicológicos, inconscientes, arquétipos e símbolos. Os teóricos
literários Afrânio Coutinho, João Pacheco, Marisa Lajolo, em suas abordagens fazem uma
reflexão acerca da obra machadiana.
Esta pesquisa é relevante porque pretende atuar em duas áreas importantes do
conhecimento a literatura e a psicologia. A partir do entrecruzamento desses saberes é que
o estudo do arquétipo de Bentinho, personagem polêmico da literatura machadiana, será
desenhado.

2. O contexto sócio-histórico-cultural do século XIX

Durante o século XIX o mundo se encontrava em ebulição. Recentemente tinha


havido a Revolução Industrial na Inglaterra, resultado de um conjunto de inovações
técnicas e mudanças nas relações de trabalho. As transformações foram tão profundas, que
alteraram não só a produção de mercadorias como também o funcionamento das cidades, a
relação entre as classes sociais, o pensamento político, entre tantas modificações.
A primeira fase da Revolução Industrial inicia-se por volta da segunda metade do
século XVIII, estendendo-se até a primeira metade do século XIX, aproximadamente. As
principais transformações econômicas e técnicas ocorreram na Inglaterra. A partir de então,
ainda no século XIX, a industrialização espalha-se pelo continente europeu, pelos Estados
Unidos e pelo Japão.
A expansão da Revolução Industrial está associada ao tráfico de escravos, controlado
pela Inglaterra no século XVIII. Muitos africanos foram expatriados e levados para o sul
dos Estados Unidos, as Antilhas e o Brasil: aconteceu a maior diáspora da história da
humanidade. É nesse mesmo século que idéias cientificistas e materialistas conquistam
espaços, tais como: positivismo de Augusto Comte; determinismo de Hipólite Taine e o
darwinismo de Charles Darwin, que vinham se unir com a fermentação político-social. Tais
idéias estão refletidas em muitas obras literárias brasileiras do século XIX.
O desenvolvimento da Revolução Industrial juntamente com o tráfico de escravos
para os países acima citados ocasionou o nascimento dos centros urbanos que se
expandiram rapidamente. Com a necessidade de pouca mão-de-obra devido aos cercamento
das propriedades rurais e à especialização no pastoreio, houve uma grande concentração da
população em núcleos urbanos, isso veio acarretar o barateamento salarial, ao mesmo
tempo, criava um mercado consumidor para os produtos industrializados.
As primeiras décadas do século XIX foram marcadas, também, por idéias de
liberdade difundidas pela Revolução Francesa, no período que compreende 1820 a 1848, as
nações européias tentam conter tanto o avanço das idéias quanto a expansão napoleônica. É
neste mesmo período que é publicado o Manifesto Comunista, de Karl Marx e Friedrich
Engels, cuja idéia defendia o socialismo científico.
O Brasil, no século XIX, passava por mudanças econômica e política. Dentro do
contexto político, nas primeiras décadas, o país deixa de ser colônia de Portugal e torna-se
independente. Na agricultura expandem-se as suas relações capitalistas, mas precisamente,
no sudeste do país com o plantio do café. O ciclo da industrialização chega a São Paulo,
com isso, amplia-se o comércio e a vida urbana torna-se mais complexa, em especial no
Rio de Janeiro. Nas últimas décadas desse século acontece a abolição da escravatura e o
país muda de regime político, de país monárquico passa a ser um país republicano (1889).
Segundo Pacheco (1967, p. 7)
A partir de 1850, quando é abolido o tráfico negreiro, entra o Brasil em uma
época de ebulição, que se acentuará depois de 1870. O capital que naquela
atividade se empregava lança-se à busca de novas aplicações. A parecera o café,
cuja lavoura se alastra rapidamente, a ponto tal que já, na década de 1831-40, a
sua contribuição para a exportação brasileira se havia elevado a 43,8% do total,
alijando o açúcar da hegemonia e transferindo do norte para o sul o centro
econômico do país.

A efervescência do contexto econômico, social, político cede lugar para um novo


quadro sócio-cultural, onde surge o Realismo, o Naturalismo e o Parnasianismo, exigindo
assim, dos escritores literários outra maneira de abordar a realidade, contrapondo àquela
idéia idealizada e romântica. É a partir desse momento que o escritor Machado de Assis
torna-se mais espiritualista e faz uma revisão em sua postura literária, deixa o romantismo
e assume uma postura realista.

3. Apropriação dos elementos sociais, históricos e culturais do século XIX e a


transposição para a obra Dom Casmurro

O escritor Machado de Assis transitou por dois momentos da literatura: o


Romantismo e Realismo, porém ganha mais notoriedade na literatura a partir do Realismo,
período que se revela um escritor sensível às questões psicológicas, ao analisar seus
personagens. De acordo com Pacheco (1967, p. 37): “Nos romances da segunda fase o
autor continua tão soberano quanto nos primeiros, se não mais ainda.” A soberania do
escritor se dá no instante em que se apropria de elementos sociais, históricos e culturais do
século XIX e re-significam em suas obras.
Sabe-se que para analisar o comportamento de personagens em uma dada obra
literária, faz-se necessário descrever a sociedade da época, esta descrição envolve
elementos sociais, históricos, culturais, e tais elementos são bastante visíveis no interior da
obra Dom Casmurro, posto que o personagem Bentinho cresce em meio a uma estrutura
social deteriorada, a qual a instituição família, o casamento, encontram-se em falência.
Período em que a burguesia era hipócrita e defendia valores que não mais existiam. Lajolo
(1980, p. 102) aponta:
(...) Machado de Assis recria, em seus romances, o mundo carioca (e brasileiro)
de uma sociedade arcaica, cujos hábitos antigos e cerimoniosos e cujas atitudes
convencionais dissimulavam (...) toda a violência de uma sociedade escravocrata,
onde o apadrinhamento e o “jeitinho” solucionavam, sempre que necessário, as
situações geradas por uma estrutura social assentada nos privilégios e numa
divisão desigual dos bens.

Dom Casmurro era parte desta sociedade carioca arcaica. Ele representava dentro da
narrativa o filho obediente que perdeu o pai cedo e fazia a vontade de sua mãe, mulher tão
religiosa. Bentinho ao contar a sua história no capítulo III, intitulado A denúncia, revela o
intento de dona Glória, colocá-lo em um seminário, no que diz respeito à vontade do rapaz
de quinze anos, pouco interessava. D. Glória, Tio Cosme, José Dias, prima Justina e o
Padre, todos traçavam o seu destino, o máximo que lhe cabia, era ouvir atrás da porta.
A sociedade do século XIX cultivava-se a tradição, no que concerne aos estudos dos
filhos, em uma família tradicional, normalmente, existia um médico, um advogado, um
padre, isso no que confere a educação masculina, pois às filhas reservavam-se o casamento,
o máximo que se permitia, no que concerne à vida pública era o magistério. Com Bentinho,
filho único, não foi diferente, D. Glória e o tio Cosme o queriam padre, uma vez que o
padre gozava de privilégio na sociedade oitocentista. Retomemos a fala de senhor José Dias
quando conversa com D. Glória e tio Cosme:
- Bem, uma vez que não perdeu a idéia de o fazer padre, tem-se ganho o
principal. Bentinho há de satisfazer o desejo de sua mãe. E depois a igreja
brasileira tem altos destinos. Não esqueçamos que o bispo presidiu a
Constituinte, e que o padre Feijó governou o império...” ( ASSIS, data e página)

Percebemos que no século XIX a igreja, como era tradição ainda possuía um papel
relevante dentro da sociedade. Dom Casmurro era de família tradicional, sua família
possuía propriedade e ele como padre iria satisfazer os desejos de sua mãe que fizera uma
promessa, ainda assim, estaria em posição de destaque na sociedade.
A sociedade para Dom Casmurro resumia-se nele e Capitu. No mundo elaborado por
ele, existia um aspecto relevante e que marcava o seu discurso, a não crença na instituição
casamento, pois ao se referir ao casamento dos pais, descrevia a felicidade conjugal como à
sorte grande, o casamento feliz era comparado por ele ao bilhete premiado de uma loteria.
Segundo Jung (1964, 20), “uma palavra ou uma imagem é simbólica quando implica
alguma coisa além do seu significado manifesto e imediato. Esta palavra ou imagem tem
um aspecto “inconsciente” mais amplo, que nunca é precisamente indefinido ou de todo
explicado.” O personagem Bentinho criou uma imagem sobre a instituição casamento,
quando resolve assumir seus sentimentos por Capitu, casando-se, não consegue estabelecer
uma relação conjugal saudável, porque o fantasma da descrença em casamentos o persegue.
Até o meado do século XIX só havia o casamento religioso, de acordo com Pacheco
(1967), desde 1875 discute-se a necessidade da instituição do casamento civil, mas só em
1884 o governo propõe, no entanto, é em 1889 que esta necessidade se regulamenta.
Historicamente, é neste período (na segunda metade do século XIX) que existe uma
grande contradição entre o desejo de manter as tradições religiosas, ou seja, a Igreja impor
seus valores, e o Estado implementar a sua política, tudo isso causou um atrito entre as duas
instituições. Segundo Pacheco (1967, p. 8)
Acentuam-se os atritos entre a Igreja e o Estado, que sempre os houvera, em
virtude de conflito de jurisdição, ambos sempre discutiram a linha divisória de
suas atribuições. Com o crescimento da sociedade brasileira e a diversificação de
seus elementos, surgiram a diferenciação de credos religiosos, a criar problemas
de ordem civil, como a regularização do registro de nascimento, casamento e
óbito da população não católica.

As discursões políticas entre a Igreja e o Estado se fazem presentes na obra “Dom


Casmurro”, a falência dos valores religiosos que se dá, principalmente, por causa do
cientificismo que começa a despontar com bastante força. E o escritor Machado de Assis
capta as mudanças de paradigmas e em sua segunda fase (realista) a mola principal é o
“egoísmo, consciente ou inconsciente, reprimido ou deixado a agir livremente, não
considerado apenas como fato psíquico mas também como faculdade volitiva.” (Pacheco,
1967, p. 42). O que se pretende fazer aqui é justamente valorizar o fato psíquico e a
faculdade volitiva do personagem Bentinho.

4. Perfil de Bentinho

Alcunhado por Dom Casmurro, Bentinho era um jovem calado, de hábitos reclusos,
metidos consigo. Segundo o narrador que é o próprio personagem, o significado de
Casmurro não tem nada a ver com o do dicionário, no entanto, utilizando o dicionário
Aurélio do século XXI, pode-se definir como: “aquele ensimesmado, sorumbático, triste”.
Realmente, Bentinho possuía esses atributos. Bentinho ao casar-se com Capitu, mostra-se
um sujeito possessivo, incompreensivo, intolerante, ciumento.
No segundo capítulo o narrador-personagem mostra-se detalhista e preso as tradições
ao descrever a atual residência, e ao descrevê-la revela a semelhança entre a casa atual e o
local que morava na infância. O retorno à infância e o retorno à adolescência é bastante
significativo nesta obra é com sentido de atar as duas pontas da vida (velhice e
adolescência).
O meu fim evidente era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a
adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que foi nem o que fui. Em
tudo, se o rosto é igual, a fisionomia é diferente. Se só me faltassem os outros, vá;
um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu
mesmo, e esta lacuna é tudo. O que aqui está é, mal comparando, semelhante à
pintura que se põe na barba e nos cabelos, e que apenas conserva o hábito
externo, como se diz nas autópsias; o interno não agüenta tinta. Uma certidão que
me desse vinte anos de idade poderia enganar os estranhos, como todos os
documentos falsos, mas não a mim. Os amigos que me restam são de data
recente; todos os antigos foram estudar a geologia dos campos santos. Quanto às
amigas, algumas datam de quinze anos, outras de menos, e quase todas crêem na
mocidade. Duas ou três fariam crer nela aos outros, mas a língua que falam
obriga muita vez a consultar os dicionários, e tal freqüência é cansativa. (Assis,
data)

As reminiscências de Bentinho são tomadas pelo complexo 2 afetivo, pois o que Jung
define complexo como: “imagem de situações psíquicas fortemente carregadas de emoção e
incompatíveis com a atitude e a atmosfera consciente habituais. Essa imagem é dotada de
forte coesão interna, de uma espécie de totalidade própria e de um grau elevado de
autonomia” (Silveira, 2006, p. 32) A maior parte dos conteúdos do inconsciente pessoal é
formado por complexos desse tipo, e Bentinho foi tomado por este tipo de complexo,
embora não tenha dado conta desse processo.
A promessa que a D. Glória que objetiva colocar Bentinho em uma igreja,
incomodava-o, mas o que fazer, se o projeto foi feito antes dele ser concebido? O

2
Segundo Jung os complexos eram descritos como conteúdos psíquicos originados de
conflitos vividos na área da problemática individual. Tinha suas raízes nos conflitos
emocionais da primeira infância e também nos conflitos do presente, em qualquer idade.
personagem vivia esta angústia, embora quando criança a idéia de ir para o seminário já
fazia parte de sua vida, até despertar para um novo mundo, o da sexualidade. Isso o
martirizava.
Tijolos que pisei e repisei naquela tarde, colunas amareladas que me passastes à
direita ou à esquerda, segundo eu ia ou vinha, em vós me ficou a melhor parte da
crise, a sensação de um gozo novo, que me envolvia em mim mesmo, e logo me
dispersava, e me trazia arrepios, e me derramava não sei que bálsamo interior. Às
vezes dava por mim, sorrindo, um ar de riso de satisfação, que desmentia a
abominação do meu pecado. E as vozes repetiam-se confusas:
“Em segredinhos...”
“Sempre juntos...”
“Se eles pegam de namoro...” (Assis, data)
O despertar de Bentinho relacionava-se a um mergulho para o interior de si mesmo.
Ao reconhecer-se não mais menino e sim um homem com vontades e desejos de homem.
Bentinho como sonhador, interpretava no silêncio de Capitu o que o que para ele
parecia ser amor. Na verdade Dom Casmurro constrói a imagem da moça e desenha os
sentimentos dela. O personagem demonstra-se inseguro ao falar que não iria para o
seminário, à medida que Capitu explode no que concerne a atitude de D. Glória para com
Bentinho, adjetivando-a de Beata, carola e papa-missas, o personagem se mostra
amedrontado com a reação de Capitu. Faz parte do perfil do protagonista a insegurança, o
medo, a falta de posicionamento, caracterizando-se assim, como uma pessoa cujo tipo
psicológico volta-se para o tipo sentimento introvertido. Conforme Silveira (2006, p. 56)
“Pessoas desse tipo, normalmente, apresentam-se calmas, retraídas, silenciosas. São pouco
abordáveis e difíceis de compreender porque, sendo dirigidas por forças subjetivas, suas
verdadeiras intenções permanecem ocultas. Daí algo enigmáticos envolvê-las.” Os
sentimentos de Bentinho embora secretos, são bastante intensos, isso o faz uma pessoa com
sentimentos introvertidos.

5. A formação social e o comportamento psicológico da personagem Bentinho

Bentinho quando criança foi tomado por complexos afetivos, antes de falar de que
maneira, ou melhor, como ele foi arrebatado, explicarei a definição de complexo afetivo de
acordo com Jung.
(...) A verdade não somos nós que temos o complexo, o complexo é que nos tem,
que nos possui. Com efeito, o complexo interfere na vida consciente, leva-nos a
cometer lapsos e gafes, perturba a memória, envolvendo-nos em situações
contraditórias, arquiteta sonhos e sintomas neuróticos. O complexo obriga-nos a
perder a ilusão de que somos senhores absolutos em nossa própria casa.”
(SILVEIRA, 2006, p. 30)

O complexo afetivo tomou Bentinho, e ao contar toda a sua história, ele não
percebeu que foi acometido pelo complexo, porém continua mantendo o “equilíbrio
emocional”, desse modo, não consegue exteriorizar por intermédio de descargas
emocionais os seus sentimentos, tornando-se assim, um “neurótico”.
A relação de Bentinho com o mundo exterior e interior é meio conturbada. Bentinho
apresenta-se na infância, principalmente na adolescência como uma pessoa introvertida, a
relação dele com o objeto desejado é mantida dentro de limites bem medidos, toda
manifestação emocional exuberante lhe desagrada, provocando assim, reações de repulsa.
Por isso o tipo psicológico do protagonista associa-se ao sentimento introvertido.
A fim de melhor compreender os tipos psicológicos de indivíduo extrovertido ou
introvertido é de fundamental importância conhecer a função psíquica que o indivíduo usa
preferentemente para adaptar-se ao mundo exterior. As funções psíquicas definidas por
Jung são quatro:
A sensação constata a presença das coisas que nos cercam e é responsável pela
adaptação do indivíduo à realidade objetiva. O pensamento esclarece o que
significam o objeto. Julga, classifica, discrimina uma coisa da outra. O
sentimento, faz a estimativa dos objetos. Decide o valor que têm para nós.
Estabelece julgamentos como o pensamento, mas a sua lógica é toda diferente. É
a lógica do coração. A intuição é uma percepção via inconsciente. É apreensão da
atmosfera onde se movem os objetos, de onde vêm e qual o possível curso de seu
desenvolvimento. (Silveira, 2006, p. 48)

Conforme Jung, todos nós possuímos as quatro funções, no entanto, uma delas
sempre se apresenta mais desenvolvida que as outras três. A que se destaca é chamada de
função principal. A luta pela existência do indivíduo está intimamente ligada a utilização da
função principal. O ideal seria se todas as funções se exercessem na mesma proporção, isto
levaria o indivíduo a conhecer satisfatoriamente o objeto sob os quatro aspectos,
distribuindo de maneira equivalente a carga energética necessária à atividade de cada
função, mas não é isso que acontece. Quando uma função sobrepõe-se às outras,
conseqüentemente, o sujeito é acometido de perturbações neuróticas. Foi isso que
aconteceu com Bentinho.

6. O arquétipo de Bentinho: entre o social e o psicológico

O personagem Dom Casmurro fora prometido desde pequeno à igreja por sua mãe,
uma mulher bastante religiosa. Quando seu primeiro filho morreu D. Glória fez a promessa
de entregar o seu segundo filho à vida religiosa, isto é, ao seminário. Bentinho descobriu o
porquê do interesse da mãe em deixá-lo cada vez mais próximo das questões relacionadas à
igreja. Durante toda a sua adolescência Bentinho viveu angustiado.
Bentinho descobre-se apaixonado por Capitu no momento em que José Dias levanta
essa possibilidade para D. Glória que não acredita, mas por segurança resolve o mais rápido
colocá-lo em um seminário. É nesse momento que a cabeça de Bentinho dá um “nó”, pois
traz do inconsciente à consciência o amor que ele sente por Capitu, que estava até então
adormecido. É a partir desse momento que o arquétipo 3 de Bentinho na visão jungeana será
percebido.
Jung apontava que para o homem não ser tragado pelo inconsciente ele deve manter-
se firmemente enraizado na realidade externa, ocupar-se de sua família, de sua profissão,
isso não aconteceu com Bentinho. O personagem sente a lacuna e reconhece que perdeu
uma parte de si. Esta parte é Capitu, que era tudo que ele queria ser e não era, uma vez que
não conseguia ser o que ele pensava odiar.
Na literatura, personagens normalmente são baseados em arquétipos, já que podem
ser interpretados como símbolos que representam uma idéia universal do homem. Utilizar
personagens-arquétipos confere a história maior aceitabilidade, visto que os personagens
personificam imagens que fazem parte da psique do leitor. Jung consegue identificar alguns
arquétipos presentes na literatura: o herói; o mentor; o guardião; a Sombra; o Pícaro; a
Grande-Mãe; a Criança; o Si-Mesmo; o Homem-Cósmico; o Artista-Cientista.

3
Jung define arquétipo como possibilidades herdadas para representar imagens similares,
são formas instintivas de imagina.
De acordo com a visão jungeana, Bentinho se encaixa em dois deles: a Sombra e o
Si-Mesmo. Entendendo que arquétipo é o resultado de inúmeras experiências típicas da
série de ancestrais. Os instintos são manifestações dos arquétipos, ou melhor, impulsos
criadores provenientes do inconsciente. Bentinho é o resultado da sociedade do século XIX,
onde mudanças sociais, políticas e científicas aconteciam. No âmbito familiar, perdera seu
pai ainda menino e admirava sua mãe, pois ela era uma mulher que se mostrava forte,
decidida, pois a postura dela diferia muito da dele, bem como, diferente do comportamento
de Capitu.
O comportamento de Capitu para Bentinho assemelhava-se ao de sua mãe,
normalmente, Bentinho não questionava nem o que era colocado por sua Capitu e muito
menos por sua mãe. É difícil de decifrar se o que ele tinha pelas duas era respeito ou medo.
E o medo na concepção de Jung, nada mais é do que um desejo reprimido. E havia muitos
desejos reprimidos em Bentinho.

7. Considerações finais

O estudo sobre: O arquétipo de Bentinho: entre o social e o psicológico, ainda


incipiente, que está longe de ser concluído, extrapola os limites da literatura, passeando por
diversas áreas do conhecimento, em especial, pela história da sociedade brasileira do século
XIX e pela formação do arquétipo de um sujeito representante dessa sociedade.
Para compreender a formação do arquétipo de Bentinho foi necessário conhecer
alguns aspectos histórico-culturais da sociedade oitocentista, pois o personagem
encontrava-se inserido neste contexto dentro da ficção machadiana. O comportamento de
Bentinho dentro da sociedade é típico de um neurótico. Embora de aparência calma, de
idéia fixa, aceita o que é projetado por sua mãe e não tem forças para dizer não. Mas sofre
todo o tempo com a possibilidade de ir para o seminário.
O desespero de Bentinho no momento em que pensava em ficar enclausurado num
seminário era tanto que até sonhava com o Imperador indo à sua casa pedir a sua mãe que
não o mandasse seguir a vida eclesiástica. A energia psíquica de Bentinho, transformava-se
em imagens por meio de sonhos. Segundo Jung (apud Silveira, 2006) desde que a atividade
consciente repousa sobre os lastros básicos dos instintos e dos arquétipos, é fundamental
que seja estabelecido um diálogo entre o consciente e o inconsciente, com o intuito de
haver uma apropriação de um influxo energético emanado do dinamismo das estruturas de
fundamento da vida psíquica. Provavelmente o que ocorreu com Bentinho foi que abriu
uma fenda larga entre o consciente, deixando-o neurótico.
Desta forma, sabemos que Bentinho vivia em um constante “conflito” interior, o que
fazia com que ele não revelasse sua real identidade e se libertasse de tal condição. Embora
ele tivesse, de certa forma, consciência de tudo que lhe acontecia, vivia constantemente
com o fantasma da negação junto às vontades da sua mãe.

8. Referências bibliográficas
COUTINHO, Afrânio. A literatura no Brasil. 7ª ed. rev. E atual. São Paulo: Global,
2004.
JUNG, Carl Gustav. Fundamentos de psicologia analítica. Tradução de Araceli
Elman. 10ª ed. Petrópilis. Vozes, 1985.
JUNG, Carl Gustav. O Homem e seus Símbolos. Tradução Maria Lúcia Pinto. Rio de
Janeiro: Nova Fronteira. 1964.
LAJOLO, Marisa. Machado de Assis. São Paulo: Abril, 1980. Literatura comentada.
PACHECO, João. O Realismo: a literatura brasileira. Vol. III. 2ª ed. São Paulo.
Cultrix. 1967.
SILVEIRA, Nise da. Jung: vida e obra. 16ª ed. Ver. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997.
www.dominiopublico.com.br /Dom Casmurro, acesso em 12 de junho de 2008.