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A INTERSECCIONALIDADE NAS POLÍTICAS PÚBLICAS NO ENFRENTAMENTO À

VIOLÊNCIA DE GÊNERO EM ÂMBITO NACIONAL (BRASIL), ESTADUAL (PIAUÍ) E


MUNICIPAL (TERESINA – PI).

Hilziane Layza de Brito Pereira Lima1


Olívia Cristina Perez²

Resumo: As desigualdades sociais e as violências têm relação com gênero, raça, classe e outras
clivagens sociais, conhecidas como marcadores sociais da diferença e que estão diretamente
relacionadas à opressão e dificuldade de acesso a direitos. Este trabalho analisa a presença da
concepção de interseccionalidade nas políticas públicas de enfrentamento à violência de gênero até
então implementadas em âmbito nacional (Brasil), estadual (Piauí) e municipal (Teresina – PI),
verificando a incorporação da ideia de interseccionalidade à formatação das políticas públicas de
gênero, com destaque para as pautas que redefinem as ações do Estado. A pesquisa desenvolveu-se a
partir de uma revisão sistemática da literatura sobre gênero e interseccionalidade e pela análise de
conteúdo desenvolvida em documentos públicos e oficiais dos governos a nível nacional, estadual e
municipal que guardam relação com as políticas públicas de enfrentamento à violência de gênero. O
objetivo consistiu em verificar se a ideia do intercruzamento das clivagens sociais está presente na
formulação de políticas públicas para mulheres nas três esferas de governo e como essas políticas se
relacionam, ainda que o conceito desse fenômeno não esteja previsto formalmente na implementação
dessas políticas.

Palavras-chave: Interseccionalidade. Políticas Públicas. Gênero. Raça.

Introdução

Este artigo tem como foco de análise a interação do movimento feminista com o Estado e os
resultados dessa relação no desenvolvimento de políticas públicas de gênero no Município de Teresina
– PI. Trata-se de uma pesquisa sobre feminismo estatal. No Brasil, destacam-se nesse quesito os
estudos de Bohn (2010), Matos e Paradis (2013), Matos (2014), Oliveira (2018) e Pismel (2019), que
explicam como a obtenção de cargos centrais na burocracia federal por parte de militantes de
movimentos sociais contribuiu para políticas públicas mais alinhadas aos ideais feministas,
especialmente nas gestões petistas. Tais estudos fazem parte do campo de conhecimento sobre as
interações socioestatais que analisam a mútua influência entre Estado e sociedade civil (ABERS;

1
Mestranda em Políticas Públicas pela Universidade Federal do Piauí (UFPI); Professora efetiva da Universidade
Estadual do Piauí (UESPI); Graduada em Direito pela Universidade Estadual do Piauí (UESPI); Email:
hilzianebrito@hotmail.com
² Doutora em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP). Professora de Ciência Política da Universidade
Federal do Piauí (UFPI). E-mail: oliviacperez@yahoo.com.br

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SERAFIM; TATAGIBA, 2014; ABERS; VON BÜLOW, 2011; CARLOS; DOWBOR;
ALBUQUERQUE, 2017; CAYRES, 2017; GURZA LAVALLE; SZWAKO; DOWBOR; CARLOS,
2017; PIRES; VAZ, 2014).
Para explorar o tema do feminismo estatal, a presente pesquisa estabelece como ponto da
partida a pergunta: a presença de gestoras que se consideram feministas dentro da estrutura
administrativa do Município de Teresina - PI possibilita a formulação de propostas legislativas em
defesa da igualdade de gênero? Com base na literatura sobre o feminismo estatal, a pesquisa parte do
pressuposto de que algumas demandas feministas são traduzidas em direitos e políticas públicas na
legislação.
Teresina é a capital do Estado do Piauí, no nordeste brasileiro. Conforme dados do último
censo (2010), a cidade reunia cerca de 814 mil habitantes, sendo a 19º em número de habitantes no
Brasil. Politicamente, a cidade é governada por prefeitos filiados ao Partido da Social Democracia
Brasileira (PSDB) desde 1993. Também se considerou importante ampliar o escopo de observação
das pesquisas sobre políticas públicas destinadas às mulheres para outras partes do Brasil,
contrariando uma certa tendência das pesquisas que apresentam dados sobre a região Sudeste, a mais
rica do país. Por fim, foi intenção das pesquisadoras investigar o chamado feminismo estatal em um
município governado pelo PSDB há mais de dezesseis anos.
Para o desenvolvimento deste artigo, utilizou-se entrevistas semiestruturadas com cinco
representantes da Secretaria Municipal de Políticas Públicas para Mulheres de Teresina – PI (SMPM).
Elas foram realizadas no início do mês de dezembro de 2019 e consistiram em compreender as
contribuições do feminismo estatal no que diz respeito à materialização das demandas feministas em
legislação no Município de Teresina – PI. A escolha das entrevistadas se deu em função de sua atuação
na SMPM; afinal, todas são agentes que ocupam cargos na Administração Pública Municipal, e como
tais, encarregadas de propor, formular, implementar e executar políticas públicas de igualdade de
gênero. Com base nesse critério foram entrevistadas a Secretária da SMPM, a Secretária Executiva,
a Assessora Técnica em exercício de 2014 a 2016, em seguida a Gerente de Articulação (2017 a junho
de 2019), a Gerente de Enfrentamento à Violência e a Gerente de Articulação.
A proposta deste artigo é contribuir com algumas reflexões sobre a importância da relação
feminismo e Estado no que concerne à materialização legislativa de políticas públicas de igualdade
de gênero. A temática permanece pouco explorada pela literatura, ainda mais quando se considera a
esfera municipal em regiões com menor visibilidade, governadas por partidos distintos do PT, tal
como é o PSDB em Teresina. Considera-se adicionalmente que a pesquisa contribui para a gestão

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pública ao demonstrar que a presença do feminismo estatal em um determinado governo pode gerar
interesse pelas ideias de grupos com menos acesso a direitos, como as mulheres.

O Feminismo Estatal e seu alcance sobre a agenda pública

Os movimentos sociais têm papel fundamental nas decisões públicas, com destaque para os
feministas. Gohn (2007, p. 55) qualifica as feministas como aquelas envolvidas nos debates e na
organização do campo feminista. Trata-se de um movimento composto por mulheres das mais
diversas características, qualificado por uma tensa aproximação com o Estado, denominado de
“feminismo estatal” (MATOS, 2014).
Apesar de não ser novidade, a participação dos movimentos sociais no Estado se expandiu
nos últimos anos no Brasil, especialmente com o chamado ativismo estatal e a ampliação das assim
chamadas Instituições de Participação. Tal expansão tem relação com alguns fatores.
Primeiramente, os movimentos sociais que atuaram durante a ditadura militar exigiram mais
direitos sociais e participação política. A luta desses movimentos por mais participação contribuiu
para que a Constituição de 1988 incorporasse diversos mecanismos de participação social na gestão
estatal, tais como a participação da sociedade civil na formulação de políticas públicas,
particularmente nas áreas de assistência social e saúde, além de prever outros mecanismos de
participação, como os plebiscitos, referendos e iniciativas populares de lei.
Aprofundando esse projeto participativo, em 2002, Luís Inácio Lula da Silva, filiado ao
Partido dos Trabalhadores (PT), foi eleito presidente do país e reeleito em 2006. O PT permaneceu
no poder com a eleição de Dilma Rousseff em 2010, também reeleita em 2014. A gestão petista
aproximou movimentos sociais do Estado em pelo menos dois sentidos: primeiro com a ampliação
das Instituições de Participação (IPs) e, em segundo lugar, por meio da escolha de lideranças de
movimentos sociais para cargos centrais da burocracia federal, fenômeno chamado de ativismo estatal
(CAYRES, 2017; PIRES E VAZ, 2014) com suas variações como o feminismo estatal (BOHN, 2010;
MATOS; PARADIS, 2013; MATOS, 2014; OLIVEIRA, 2018; PISMEL, 2019).
Dessa forma, a partir da entrada do PT no Governo Federal passou-se a intensificar a
ocupação de atores sociais para cargos governamentais. (PISMEL, 2019, p. 13) As interações entre
movimentos sociais e Estado nas gestões petistas resultou em importantes avanços legislativos para
os direitos das mulheres, como a aprovação da Lei Maria da Penha, Lei nº 11.340/2006 de 7 de agosto
de 2006 (Congresso Nacional, 2006), que diz respeito ao combate à violência doméstica de gênero.

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E a Lei do Feminicídio, Lei nº 13.104/2015 de 9 de março de 2015 (Congresso Nacional, 2015), que
converteu em crime hediondo o assassinato de mulheres em virtude de seu “sexo”.
A articulação entre movimentos sociais e Estado no campo das políticas para mulheres
ganhou o nome de “feminismo estatal” (MATOS, 2014). O feminismo estatal caracteriza-se pelo
movimento feminista institucionalizado, com a presença de “femocratas” ocupando cargos dentro de
qualquer parte da burocracia estatal. A expressão “femocratas” é utilizada como referência a mulheres
que ocupam posições dentro de qualquer parte da burocracia estatal, “seriam atrizes significativas
para a adoção e sustentação de uma agenda realmente feminista em um determinado governo e
Estado” (PARADIS, 2013, p. 34). São ativistas capazes de interferir nas políticas, participam das
coordenadorias e das políticas sociais. No entanto, a fragilidade desse conceito repousa na questão de
identificar quem seria femocrata ou não, o que aponta para a necessidade de mais discussões e estudos
sobre o tema (PARADIS, 2013).
O feminismo estatal seria caraterístico de uma nova “onda” da militância brasileira. Apesar
de algumas críticas sobre sua periodização no Brasil e em outros países, a história do movimento
feminista é relatada como se houvesse ocorrido por ondas (PINTO, 2003). Em que pese as críticas à
periodização do movimento feminista em “ondas”, tais trabalhos são retomados aqui por acentuarem
o feminismo estatal.
A primeira onda é associada ao período de ampliação do sufrágio feminino. A segunda onda
viria em meados do século XX, na década de 1960, na esteira dos movimentos dos direitos civis e da
contracultura. De acordo com Matos (2014), foi a partir da transição para governos democráticos,
entre as décadas de 80 e 90, que a relação feminismo-Estado sofreu modificações.
Na década de 1990, juntamente com um movimento mais amplo de terceirização e
proliferação de Organizações Não-Governamentais (ONGs), surgiram numerosas organizações
feministas e de mulheres, processo que foi chamado por alguns de institucionalização do movimento
(ALVAREZ, 2014). Esse feminismo mais institucionalizado foi chamado de terceira onda, no Brasil
e na América Latina (ALVAREZ, 2014; MATOS, 2014).
A quarta onda do movimento feminista surge como uma era de tensa aproximação com o
Estado. Este é o movimento configurado como um feminismo estatal (MATOS, 2014). Paradis (2013)
relata que se uma quarta onda do feminismo está em movimento na América Latina, um dos seus
principais componentes é o fortalecimento de um feminismo estatal participativo em toda a região.
Esses mecanismos representam portas de acesso para que os movimentos de mulheres possam inserir
as suas demandas no interior das instituições estatais, apesar de todos os desafios que ainda enfrentam

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(MATOS; PARADIS, 2013, p. 28). Considera-se, assim, tais mecanismos institucionais como portas
de acesso disponíveis às demandas dos movimentos de mulheres para que possam ingressar no Estado
(PARADIS, 2013, p. 154). Nessa esteira, alguns estudos mostram que esse processo de
institucionalização pode indicar um fortalecimento dos movimentos e de suas reivindicações por
decorrência da combinação de “práticas contenciosas e colaborativas no diálogo com os atores
estatais” (PISMEL, 2019, p. 12).
Essas configurações são resultado de alterações que envolvem disputas e alianças internas.
Para Alvarez (2014) foi o termo gênero que serviu para movimentar a agenda do movimento feminista
juntamente à de outros atores políticos, com propostas que melhorassem as condições das mulheres.
A autora ressalta o feminismo estatal participativo como presença pública no campo feminista a partir
dos anos 2000, principalmente na organização dos processos das Conferências Nacionais de Políticas
para as Mulheres de 2004, 2007, e 2011. Assim, são duas as formas pelas quais o feminismo estatal
se desenvolve: através da atuação dos mecanismos institucionais de mulheres (MIM) e da elaboração
dos planos e políticas de igualdade de gênero (MATOS; PARADIS, 2013).
O primeiro Plano Nacional de Políticas para as Mulheres, por exemplo, elaborado em 2005
na vigência do governo do então Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tem 199 ações espalhadas por
26 objetivos. Essas ações foram definidas a partir da participação direta de mais de 120 mil mulheres
na I Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres, realizada em julho de 2004. Foi a partir da
I Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres (2004), de iniciativa do Governo Federal,
através da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM) que as feministas passaram a
alcançar espaço na esfera estatal ao participarem ativamente da elaboração do I Plano Nacional de
Políticas Para Mulheres. Bohn (2010, p. 90) ressalta o governo de Lula como apoiador da antiga
Secretaria de Políticas para Mulheres em seu governo federal. Além disso, ao longo dos governos
Lula, o Estado firmou compromisso com as questões das mulheres, o que comprova a relevância do
feminismo estatal.
Essa construção de uma agenda feminista nas estruturas governamentais decorre da relação
do Estado com atrizes sociais movidas por ideais dos movimentos de mulheres em prol do
desenvolvimento de políticas públicas. A existência de agências de políticas para as mulheres,
ocupadas por feministas, mostra-se capaz de promover o avanço das demandas dos movimentos de
mulheres. A possibilidade de influenciar a agenda estatal, que lhe é própria, contribui para que o
Estado responda substancialmente às suas demandas (MATOS; PARADIS, 2013).

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A atuação múltipla dos movimentos feministas possibilitou, assim, a visibilidade da
violência contra a mulher, passando a legitimá-la não só como um problema político, mas também de
saúde pública e de direitos humanos (BANDEIRA, 2014). Autoras como Carneiro (2003) e Bandeira
(2014) destacam a atuação e as reivindicações da militância feminista como fundamentais para a
criação de condições necessárias para se conferir novos contornos às políticas públicas.
É importante ressaltar que após se tornar uma prática dos governos, a criação de agências
pautadas pela atenção aos direitos femininos propiciou que muitas mulheres ocupassem posições no
âmbito da administração pública, o que não necessariamente lhes retira a condição de militantes. A
partir do governo Lula os movimentos sociais contemporâneos ganharam destaque dentro do Estado
brasileiro. No governo Lula, o mote da participação da sociedade ampliou as chances de acesso e
influência dos movimentos sobre o Estado (ABERS, SERAFIM e TATAGIBA, 2014). Para explicar
a inter-relação entre Estado e movimentos sociais, Abers e Von Bülow (2011) defendem a
impossibilidade de se separar Estado e sociedade civil. As autoras sugerem que os movimentos sociais
buscam não apenas a transformação de condutas sociais como também influenciar políticas públicas.
Como parte desses esforços, muitas vezes se mobilizam em prol de mudanças nos processos
de tomada de decisão estatal, reivindicando a inclusão da sociedade civil em novos espaços
participativos. Essa demanda implica não somente a criação de espaços de diálogo entre
atores da sociedade civil e do governo, mas maior presença de ativistas de movimentos
sociais dentro do próprio Estado (ABERS; VON BÜLOW, 2011, p. 65).

Esse é o caso dos movimentos feministas, seja pela incorporação de ativistas em cargos do
governo, seja pela formação de novos movimentos a partir da conexão entre as ativistas que se
encontram dentro e fora do Poder Executivo (OLIVEIRA, 2018).

Os contornos do feminismo estatal no Município de Teresina - PI

O foco principal desta pesquisa são as agentes encarregadas de propor, formular,


implementar e executar políticas públicas de igualdade de gênero que ocupam cargos públicos na
Secretaria Municipal de Políticas para Mulheres de Teresina – PI (SMPM). A SMPM é órgão que
busca promover políticas públicas para mulheres no município e é responsável pela elaboração do
Plano Municipal de Políticas Públicas para Mulheres, que visa aprimorar as políticas públicas de
enfrentamento à violência contra a mulher e promover igualdade de gênero (TERESINA, 2015).
Teresina ainda é uma das poucas cidades brasileiras a possuir um órgão executivo exclusivo
de políticas para mulheres. Pesquisa divulgada em setembro/2019 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE) mostra que o Brasil regrediu na gestão de políticas para mulheres. Em cinco anos, caiu de
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27,5% para 19,9% o percentual de municípios que possuíam um órgão executivo dedicado exclusivamente às
mulheres, o que indica um retrocesso ao patamar observado em 2009, que era de 18,7% (IBGE, 2019).
Instituída em 1 de dezembro de 2011 por meio de Lei Complementar nº 4.197, a
Coordenadoria Municipal de Políticas Públicas para Mulheres – (CMPM) surgiu a partir de
reivindicações dos Movimentos de Mulheres Organizadas. Em 2017, a CMPM passou à condição de
Secretaria Municipal de Políticas para Mulheres (SMPM). Buscava-se constituir um meio de
fortalecimento do atendimento e garantia dos direitos da mulher. Apurou-se na pesquisa que, além de
contar com a ajuda de uma rede intersetorial de atendimento, a SMPM tem o apoio do movimento de
mulheres.
As entrevistadas convergem quanto à afirmação de que os movimentos feministas nos seus
mais diversos segmentos (movimento de mulheres urbanas, rurais, prostitutas etc.) têm atuado em
apoio à SMPM no desenvolvimento de políticas para as mulheres, inclusive para a criação da própria
Secretaria.
Os movimentos de mulheres e/ou movimentos feministas são atuantes em Teresina. Inclusive
foram responsáveis por impulsionar a passagem de coordenadoria para o status de secretaria
municipal em 2017. Vale lembrar que fomos uma das primeiras capitais brasileiras a possuir
Conselho Municipal de Políticas para Mulheres, instaurado 1989. Isso mostra que temos mais
de trinta anos de atuação das mulheres em prol de políticas para mulheres em Teresina
(Assessora técnica e gerente de articulação até junho de 2019).

De fato, seja como grupos de mobilizações de causas femininas, seja como participação
feminina em diversas mobilizações, as mulheres têm constituído a maioria das ações coletivas
públicas (GOHN, 2007). Essa interação entre burocratas e lideranças de movimentos no decorrer da
implementação de projetos e políticas é vista como possibilidade de reformulação das regras e das
propostas sobre as práticas dos mesmos (PISMEL, 2019, p. 18).
Para a atual Secretária, os movimentos de mulheres são vistos como fundamentais às
atividades da SMPM. Ela considera importante conhecer suas protagonistas e promover um diálogo
com as atrizes sociais dos movimentos. A força institucional das agências de políticas para mulheres
é essencial no entendimento de Bohn (2010), assim como o trabalho de cooperação entre essas
agências e os movimentos de mulheres.
A Secretária ressalta ainda que não são necessariamente os movimentos feministas, mas sim
suas atrizes que passam a enxergar o feminismo como algo transformador. De forma a corroborar as
declarações feitas, a Secretária da SMPM cita a elaboração I Plano Municipal de Políticas Públicas
para Mulheres, com vigência entre 2015 a 2019. Nesse processo, a SMPM contou com a colaboração
e participação de mais de cinquenta mulheres que ocupam cargos no governo municipal e estadual.

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Mulheres pertencentes à rede intersetorial de atendimento, ao parlamento municipal, à Ordem dos
Advogados do Brasil, ao Poder Judiciário e outras associações (TERESINA, 2015, pp. 6-7).
Salienta-se que nenhuma das entrevistadas foi militante do movimento antes de assumirem
os cargos que representam atualmente. No entanto, ela se afirmam feministas institucionais. Isso
significa que não são militantes, mas representam os interesses das mulheres enquanto exercerem tais
posições no âmbito do Poder Executivo como parte da luta direta pelos direitos feministas.
Eu costumo dizer que existe um movimento, um ativismo institucional, entendeu? As
mulheres se descobrem e acabam se reconhecendo como feministas e não daquele movimento
histórico. Eu me enquadro no feminismo institucional. (Secretária da SMPM)

A assessora técnica e gerente de articulação em exercício até junho de 2019 as define como
mulheres engajadas, mas nem sempre militantes. São mulheres que ocupam cargos em várias pastas
administrativas no município e que também fazem parte da Câmara de Gestão Técnica de Políticas
Públicas para Mulheres de Teresina.
A Secretária, inclusive, considera que é a partir da atuação na Câmara de Gestão Técnica
que muitas mulheres vão se percebendo e se reconhecem como feministas. A Câmara de Gestão
Técnica de Políticas Públicas para Mulheres de Teresina, que tem a função de planejar, articular e
executar capilarmente políticas para mulheres, foi citada pela entrevistada como uma intermediação
para esse reconhecimento das mulheres como feministas institucionais:

na Câmara Técnica são 26 pessoas, a maioria mulheres, e alguns homens. E aí eu percebi que
essa vivência na Câmara Técnica tem transformado essas mulheres e elas passam a ser essas
ativistas institucionais e eu chamo atenção para isso. [...] Essas mulheres têm frequência,
participação, mas elas estão primeiro se identificando. (Secretária da SMPM)

A Secretária considera que, após a criação da Coordenadoria Municipal de Políticas Públicas


para Mulheres (CMPM) em 2011, muitas leis que atendem os interesses feministas foram aprovadas
pela Câmara Municipal de Teresina – PI. No seu entendimento, isso se deu graças à pressão dos
movimentos, mas também devido à ação das feministas estatais em busca dos pleitos feministas.
Bohn (2010, p. 82) qualifica como exitosas as agências de políticas públicas para a mulher
que têm força institucional suficiente para abrir espaço para as demandas do movimento de mulheres
no interior das arenas decisórias estatais. A SMPM do Município de Teresina – PI revela que
conseguiu introduzir o elemento gênero em algumas discussões sobre políticas públicas. Esse
entendimento compactua com a noção de que mudanças na ordem legislativa podem promover a
igualdade de homens e mulheres (SOUSA, GRAUPE e LOCKS, 2019).

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Nesse sentido, a coalizão política é capaz de delimitar “o grau de permeabilidade do governo
às demandas dos atores sociais e, consequentemente, sua inserção nos subsistemas de políticas
públicas” (PISMEL, 2019, p. 14). Um dado peculiar nas declarações das entrevistadas diz respeito à
iniciativa do gestor municipal no contexto das políticas para mulheres. Pismel (2019, p. 20) relata a
importância do posicionamento relacional dos atores sociais como forma de acessar recursos no
âmbito dos espaços de produção de políticas. Como ressaltado por Gohn (2007, p. 55), essas mulheres
têm visibilidade, têm voz e dão voz às mulheres, multiplicam os espaços de atuação das mulheres,
levando à frente campanhas e lutas em que as demandas e reivindicações estão centradas nas
mulheres, ainda que não se trate de um governo petista, como é o caso de Teresina.
No entanto, são diversos os fatores que influenciam o êxito das ações das femocratas, como
o grau de sua liderança, o profissionalismo da equipe da agência de políticas para mulheres, a aptidão
para introduzir um olhar de gênero nas decisões da burocracia estatal, para viabilizar a prática de
políticas públicas que considerem as demandas das mulheres, bem como a relação das femocratas
com o movimento de mulheres (BOHN, 2010, p. 84).
Participando dos espaços institucionais, os movimentos aprendem sobre o funcionamento da
burocracia e adquirem maior conhecimento técnico sobre a execução das políticas públicas. Além
disso, realizando ações em conjunto, os membros da administração pública passam a reconhecer as
lideranças dos movimentos (PISMEL, 2019, p. 16).
A criação da Secretaria Municipal de Políticas para Mulheres de Teresina (desde 2011 com
status de Coordenadoria) representa um avanço significativo para o feminismo local. Ademais, a
relação entre movimento de mulheres e o Município de Teresina parece transcorrer em um clima de
colaboração, ou ao menos é isso o que se busca; um resultado memorável no atual contexto político
brasileiro, com a extinção de muitas pastas voltadas à defesa dos direitos das mulheres.
É importante notar que, apesar de tantos desafios, o feminismo estatal no Município de
Teresina tem se apresentado como mecanismo que confere visibilidade a algumas demandas dos
movimentos feministas, dentre elas a igualdade de gênero. As feministas institucionais tornaram-se
indubitavelmente representantes da coletividade de mulheres dentro da estrutura administrativa
estatal. Suas reivindicações extrapolaram os espaços de militância feminista, alcançando o Estado.
Isso leva ao entendimento de que quanto mais articulado o feminismo, mais direitos para as mulheres
existirão. O que evidencia que a atuação de feministas em agências conectadas à estrutura
administrativa de um determinado governo ou Estado pode contribuir com iniciativas legislativas de
representação dos interesses feministas.

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Conclusão

Este artigo examinou os contornos do feminismo estatal e sua influência sobre o


desenvolvimento de políticas públicas de gênero no Município de Teresina – PI. Com isso buscou-se
compreender como a presença de femocratas dentro da burocracia estatal de Teresina possibilita a
formulação de propostas legislativas em defesa da igualdade de gênero.
A análise ressalta que a criação da Secretaria Municipal de Políticas para Mulheres de
Teresina (desde 2011 com status de Coordenadoria) e a sua manutenção representam um avanço
significativo para as demandas feministas do município. No que se refere à ação da SMPM em sua
relação com o movimento de mulheres, os resultados deste pesquisa corroboram a consideração feita
pela literatura de que as agências estatais de políticas públicas para mulheres mais atuantes são
aquelas que cultivam laços com os movimentos organizados.
Em suma, as ações desenvolvidas que resultaram em materialização de políticas públicas em
leis municipais sugerem que as femocratas são importantes atrizes na formulação, aprovação e
implementação de políticas públicas para as mulheres no município de Teresina. O estudo mostra que
essas novas configurações entre movimentos sociais e o Estado são importantes na medida em que
podem gerar muitas contribuições para a elaboração e desenvolvimento de políticas públicas que
favoreçam determinadas categorias da sociedade, especialmente as mulheres.
Um desdobramento futuro dessa pesquisa seria identificar a execução prática das políticas
públicas para mulheres criadas pelas leis já citadas e avaliar seus efeitos e consequências sobre a
interação direta de movimentos feministas com o Município de Teresina – PI. Outro desdobramento
seria a comparação entre o que foi feito em Teresina, quando a gestão petista permaneceu no governo
federal e os novos rumos das políticas públicas agora com Bolsonaro (sem partido) no governo.

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THE INTERSECTIONALITY IN PUBLIC POLICIES IN ADDRESSING GENDER


VIOLENCE AT THE NATIONAL (BRAZIL), STATE (PIAUÍ) AND MUNICIPAL
(TERESINA - PI) LEVELS.

Abstract: Social inequalities and violence are related to gender, race, class and other social cleavages,
known as social markers of difference and which are directly related to oppression and difficulty of
access to rights. This paper analyzes the presence of the conception of intersectionality in public
policies to combat gender violence hitherto implemented at the national (Brazil), state (Piauí) and
municipal (Teresina - PI) levels, verifying the incorporation of the idea of intersectionality in the
formatting of gender violence. gender public policies, with emphasis on the guidelines that redefine
state actions. The research was developed from a systematic review of the literature on gender and
intersectionality and by the content analysis developed in public and official government documents
at national, state and municipal levels that are related to public policies to combat gender violence. .
The objective was to verify if the idea of the intersection of social cleavages is present in the
formulation of public policies for women in the three spheres of government and how these policies
are related, even though the concept of this phenomenon is not formally foreseen in the
implementation of these policies.

Keywords: Intersectionality. Public policy. Genre. Breed.

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Seminário Internacional Fazendo Gênero 12 (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2021, ISSN 2179-510X

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