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07/01/22, 00:16 Acordão do Tribunal Central Administrativo

Acórdãos TCAS Acórdão do Tribunal Central Administrativo Sul


Processo: 19/09.6BELRS
Secção: CA
Data do Acordão: 16-12-2021
Relator: DORA LUCAS NETO
Descritores: SIADAP;
ART. 17.° DO DECRETO REGULAMENTAR N.° 19-A/2004, DE 14.05.;
LEI N.º 10/2004, DE 22.05.
Sumário: A associada do A., ora RECORRIDO, ao ser detentora de uma avaliação de
Muito Bom referente ao ano de 2007, tal avaliação, mesmo que obtida ao
abrigo do art. 17.° do Decreto Regulamentar n.° 19-A/2004, de 14.05., pode
beneficiar do regime previsto no art.15.°, n.º 4, da Lei n.° 10/2004, de 22.03.
Aditamento:
1
Decisão Texto Integral: Acordam, em conferência, na Secção de Contencioso Administrativo do
Tribunal Central Administrativo Sul:

I. Relatório

O Ministério da Educação interpôs recurso jurisdicional da sentença do


Tribunal Administrativo de Círculo de Lisboa, de 10.07.2018, que julgou
procedente a ação administrativa especial de impugnação de ato
administrativo, intentada pelo Sindicato dos Técnicos do Estado, em
representação da sua associada M…, consubstanciado aquele na
deliberação do júri do concurso interno de acesso limitado para o
preenchimento de 40 lugares na categoria de assessor principal, da carreira
técnica superior, do quadro de pessoal dos serviços centrais, periféricos e
tutelados do Ministério da Educação, aberto pelo Despacho n.° ...., de 22.08.,
que havia determinado a sua exclusão daquele procedimento — e de
condenação à prática de ato administrativo devido, de admissão da
associada do A. ao concurso, com as demais consequências.

Nas alegações de recurso que apresentou, depois de convidado a sintetizar


as suas conclusões, concluiu como se segue - fls. 2083 e ss., ref. SITAF:

«(…)

A. Entende o Recorrente que o Tribunal a quo incorreu num erro de julgamento e


consequentemente numa errada aplicação do direito relativamente à apreciação e
interpretação do enquadramento jurídico que fez da situação factual em causa.

B. Ao contrário do que se deixou expresso na douta sentença recorrida, o Réu


sustenta que se deve responder negativamente à questão de saber se uma avaliação
de desempenho efetuada ao abrigo do disposto no artigo 17°, do Decreto
Regulamentar n.º 19-A/2004, de 14 de maio é suscetível de conferir o direito
atribuído pelo disposto no n.° 4 do artigo 15° da Lei n.° 10/2004, de 22 de março.

C. Este último normativo, que reproduz o artigo 7.°, n.° 4 da Lei n.° 10/2004 de 22
de março, confere aos trabalhadores que exerçam cargo ou funções de reconhecido
interesse público, bem como actividade sindical, um direito à classificação obtida no

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último ano imediatamente anterior ao exercício dessas funções ou actividades nos


anos seguintes, para efeitos de promoção e progressão.

D. Contudo, a Lei n.° 10/2004, de 22 de março, que instituiu o Sistema integrado


de Avaliação do Desempenho da Administração Pública (SIADAP) consagrou uma
diferenciação dos níveis de desempenho demonstrado pelos avaliados em paralelo
com a fixação de percentagens máximas (quotas) para a atribuição das classificações
mais elevadas, ou seja, as de Muito Bom e Excelente (cf. artigos 3.°, n.° 2 e 9.° do
Decreto Regulamentar n.° 19-A/2004, de 14 de maio).

E. Aliado a essa diferenciação, a referida Lei conferiu ainda direitos e benefícios no


desenvolvimento da carreira e outras formas de reconhecimento de mérito
associadas ao desenvolvimento profissional, contexto em que deve ser interpretado o
n.° 4, do artigo 15.°, da Lei n.° 10/2004 segundo o qual a atribuição de Muito Bom
na avaliação do desempenho, durante dois anos consecutivos, reduz em um ano os
períodos legalmente exigidos para promoção nas carreiras verticais ou progressão
nas carreiras horizontais.

F. Contrariamente ao sustentado pelo Tribunal a quo, o Réu entende que a Lei


estabelece uma ligação indelével e fundamental de reciprocidade e correspondência
entre o reconhecimento do mérito (prosseguido pelo sistema de definição de quotas)
e a atribuição de benefícios no desenvolvimento da carreira.

G. E que pressupõe, como condição necessária e objetiva para assegurar uma


verdadeira igualdade, o princípio da aplicação efetiva do regime de avaliação
ordinária ou extraordinária constante do SIADAP.

H. Ora, a atribuição de uma classificação de serviço de Muito Bom ou Excelente


operada nos termos do artigo 17.°, do Decreto Regulamentar n.° 19-A/2004, de 14
de maio, não está subordinada à aplicação de qualquer regime de quotas.

I. Não resulta da letra ou do espírito da Lei que os trabalhadores cujas classificações


de serviço são atribuídas por força desse normativo possam beneficiar do direito
conferido pelo artigo 15.° n.° 4 da Lei n.° 10/2004, em virtude de nestes casos não
se ter operado qualquer comparação de desempenhos com vista a proceder à
“diferenciação" que a Lei pretende promover.

J. De facto, o n.° 4 do artigo 7.° da Lei n.° 10/2004, de 22 de marco e o artigo 17.°
do Decreto Regulamentar n.° 19-A/2004, de 14 de maio, vêm apenas definir qual a
classificação relevante para efeitos de promoção e progressão, nos casos em que o
trabalhador se encontre em situação que não permita a atribuição de avaliação
ordinária de desempenho.

K. Mau grado o que a este propósito se explana na douta sentença recorrida - já que
por força do preceituado no n.° 4 do artigo 4.° do DL n.° 251/2002, de 22 de
novembro, o Decreto-lei n.° 262/88, de 23 de junho, seria aplicável à situação da
representada da Autora por então prestar serviço na ACID - constata-se que o
artigo 7.° deste diploma apenas se limita a enunciar o princípio geral de que os
trabalhadores em tais situações (...) não podem ser prejudicados nas promoções a

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que, entretanto, tenham adquirido direito, nem nos concursos públicos a que se
submeterem, pelo não exercício de actividade no lugar de origem, nada referindo
quanto à concessão aos mesmos de quaisquer benefícios especiais, designadamente
os que resultam da aplicação de critérios assentes na diferenciação de desempenho.

L. Sendo substancialmente distintas as situações em que a classificação de


desempenho decorre de uma avaliação ordinária resultante da aplicação do regime
do SIADAP, daquelas em que esta é resultante da aplicação automática do disposto
no n.° 4 do artigo 7.° da Lei n.°10/2004, de 22 de março (reconhecido que seja o
interesse público da função exercida), a interpretação de que a redução de tempo de
serviço prevista no n.° 4 do artigo 15.° da mencionada Lei não se aplica nestes
casos, não colide com o principio da igualdade, o qual implica, em sentido material,
tratar igual o que é igual e diferente o que é diferente.

M. Concluindo-se que, para efeitos da redução do tempo de serviço prevista no n.° 4


do artigo 15° da Lei n.°10/2004, de 22 de março, apenas relevam as avaliações de
Muito Bom obtidas por aplicação de avaliação ordinária SIADAP, dentro do
respetivo quadro de exigências, e validadas nos limites das percentagens
estabelecidas.

N. Dado que a Autora não beneficiou de qualquer outra avaliação de desempenho


ordinária no ano de 2007, tendo sido notada com a classificação de 2006 nesse
mesmo ano por força do disposto no artigo 17.°, do Decreto Regulamentar n.° 19-
A/2004, de 14 de maio, não pode beneficiar, por essa via, do direito conferido pelo
disposto no n.° 4 do artigo 15.° da Lei n.° 10/2004 de 22 de março, não
preenchendo, por esse motivo, os requisitos exigidos no procedimento concursal.
(…)».

Não foram apresentadas contra-alegações.

Neste tribunal, o DMMP não se pronunciou.

Colhidos os vistos, vem o processo submetido à conferência desta secção de


contencioso administrativo para decisão.

I. 1. Questões a apreciar e decidir

É apenas uma a questão suscitada pelo Recorrente, tal como resulta das
alegações de recurso e respetivas conclusões, traduzindo-se esta em
apreciar se a sentença recorrida errou ao ter considerado que a classificação
de Muito Bom obtida pela associada do Recorrido, por via de uma
avaliação de desempenho efetuada ao abrigo do disposto no art. 17.° do
Decreto Regulamentar n.° 19-A/2004, de 14.05., é suscetível de conferir o
direito atribuído pelo disposto no n.° 4 do art. 15.° da Lei n.° 10/2004, de
22.03., ou seja, a redução do período legalmente exigido para promoção.

II. Fundamentação

II.1. De facto
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A matéria de facto constante da sentença recorrida é aqui transcrita ipsis


verbis:
«(…)
a) A representada/associada do AUTOR detinha em 2006 e 2007 a categoria de
assessor da carreira técnica superior do quadro de pessoal dos Serviços Centrais,
Periféricos e Tutelados pelo Ministério da Educação - acordo, cfr. PA.
b) Exercia então, e ainda à data da propositura da presente acção, funções na
Direcção-Geral de Inovação e de Desenvolvimento Curricular, entidade a que se
encontrava afecta - cfr. PA.
c) No ano de 2006, obteve, naquele serviço, a avaliação de desempenho, na sua
expressão qualitativa de Muito Bom - cfr. DOC 3 junto com a PI.
d) Por despacho do Secretário-Geral Adjunto do Ministério da Educação de 7 de
Novembro de 2006, foi autorizado o destacamento da associada do Autor para o Alto
Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas (ACIME) - cfr. DOC 4 junto
com a PI.
e) Exerceu funções, destacada, de Janeiro a Agosto de 2007 no ACIME «com vista a
integrar a equipa de trabalho do Ano Europeu do Diálogo Intercultural» - cfr.
Declaração junta como DOC 5 à PI.
f) Nos termos da Resolução do Conselho de Ministros n.° 92/2007, de 21 de Junho
(publicada no DR, 2§ série, n.° 134, de 13 de Julho de 2007), foi o ACIDI, I.P.
designado «como organismo nacional de coordenação do Ano Europeu do Diálogo
Intercultural, a decorrer durante o ano de 2008, nos termos do artigo 4.° da Decisão
n.° 1983/2006/CE, de 18 de Dezembro, do Parlamento Europeu e do Conselho da
União Europeia».
g) No âmbito do exercício de funções no ACIME (2007), a associada do Autor não
foi sujeita a avaliação de desempenho no quadro do SIADAP - cfr. Informação n.° I-
D…, de 29/08/2008, junta como DOC 6 à PI.
h) Por Despacho - "Concordo e homologo" - de 29/08/2009, aposto na informação
mencionada na alínea anterior, foi decidido «porque a esta data, a técnica referida
não tem ainda o seu processo avaliativo relativo ao ano de 2007 terminado, podendo
ser eventualmente prejudicada por este facto, sem ter nele nenhuma
responsabilidade» e «tendo em conta a relevância e inequívoco interesse público das
funções desempenhadas pela técnica no ACIDI, no âmbito do programa de acção
para o Ano europeu do Diálogo Intercultural, e sabendo que, de acordo com a
Resolução do Conselho de Ministros n.° 92/2007, de 13 de Julho, e a Decisão n.°
1983/2006/CE do Parlamento Europeu e do Conselho, de 18 de Dezembro de 2006,
o ACIDI é o organismo nacional responsável pela coordenação do Ano Europeu do
Diálogo Intercultural, competências de reconhecido interesse público, (...) que a
avaliação da técnica C…, seja efectuada através do prescrito no art.° 17°, do
Decreto Regulamentar n.° 19-A/2004, por aí se encontrar totalmente enquadrada,
pelo que a classificação para o ano de 2007 deverá ser de 4,4, correspondente à
menção qualitativa de Muito Bom, classificação idêntica à obtida em 2006, último
ano imediatamente anterior ao exercício das funções referidas».
i) Por Despacho de 22 de Agosto de 2008 do Secretário-Geral do Ministério da
Educação, foi aberto, pelo prazo de sete dias úteis, "concurso interno de acesso
limitado para o preenchimento de quarenta lugares na categoria de assessor
principal da carreira técnica superior do quadro de pessoal dos serviços centrais,
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periféricos e tutelados do Ministério da Educação" - cfr. aviso junto como DOC 7 à


PI.
j) Do aviso de abertura do concurso consta, designadamente, o seguinte:
«6 - Requisitos gerais de admissão — podem candidatar-se ao presente concurso todos os funcionários
do quadro do pessoal dos serviços centrais, periféricos e tutelado do Ministério da Educação, que
reúnam, até ao fim do prazo fixado para apresentação das candidaturas, os requisitos enunciados no
artigo 29° do Decreto-Lei n° 204/98, de 11 de Julho.
6.1 - Requisitos especiais de admissão - poderão candidatar-se ao presente concurso os assessores, da
carreira de técnica superior, do quadro dos serviços centrais, periféricos e tutelado do Ministério da
Educação com, pelo menos, três anos de serviço na categoria classificados de Muito Bom, ou cinco anos
classificados de Bom, nos termos da alínea a) do n.° 1 do artigo 4.° do Decreto-Lei n.° 404-A/98, de 18
de Dezembro.
(...)
8.2 — O requerimento de admissão deverá ser acompanhado da seguinte documentação;
a) Curriculum vitae detalhado, devidamente datado e assinado, do qual deverá constar,
designadamente, a identificação completa, as habilitações literárias, as funções que exercem, bem como
as que exerceram, com indicação dos respectivos períodos de duração e actividades relevantes, assim
como a formação profissional detida, com indicação das acções de formação realizadas (cursos,
seminários, encontros, jornadas, palestras, conferências e estágios), indicando a respectiva duração,
datas de realização e entidades promotoras;
b) Documento comprovativo das habilitações literárias que possui;
c) Declaração, emitida pelo serviço de origem, na qual conste de maneira inequívoca, a natureza do
vínculo à função pública, a categoria, a antiguidade na categoria, na carreira e na função pública, bem
como a avaliação de desempenho/classificação de serviço nos anos relevantes para o concurso;
d) Os candidatos que não possuam avaliação de desempenho deverão solicitar ao dirigente do serviço a
que pertençam a ponderação curricular dos anos relevantes para o concurso nos termos conjugados do
n° 4 do artigo 85° e do artigo 43° dal Lei n° 66- B/2007 de 28 de Dezembro, devendo esta acompanhar
o requerimento de admissão;
e) Documentos comprovativos das acções de formação profissional complementar e da respectiva
duração;
f) Declaração pormenorizada do conjunto de tarefas, actividades e responsabilidades cometidas ao
candidato, bem como o período a que as mesmas se reportam, passada pelo superior hierárquico.»
k) A representada foi opositora ao dito concurso - cfr. acta n.° 3 do respectivo júri, a
fls. 61 do PA.
l) Pela comunicação ref§ OF/6…, de 8 de Outubro de 2008, a associada do Autor
foi, para efeitos de audiência prévia, notificada do projecto de deliberação do júri no
sentido de a excluir por não reunir um dos requisitos especiais previstos na alínea a)
do n.° 1 do art.° 4.° do Decreto-Lei n.° 404-A/98, de 18 de Dezembro - cfr. DOC 8
junto com a PI.
m) A representada apresentou a sua pronúncia - cfr. DOC 9 junto com a PI.
n) O júri do concurso deliberou manter a exclusão proposta por deliberação de 23 de
Outubro de 2008, tendo a associada do Autor tomado conhecimento da decisão por
OF7…, de 23 de Outubro de 2008, subscrito pela presidente do júri — cfr. DOC 10
junto com a PI e acta n.° 5 a fls. 49 do PA.
o) A associada do Autor interpôs recurso hierárquico da decisão mencionada na
alínea anterior - cfr. DOC 11 junto com a PI.
p) Esse recurso foi indeferido por despacho do Secretário-Geral do Ministério da
Educação, de 11 de Novembro de 2008 - o qual se encontra junto aos autos sob
DOC 2 da PI -, pelos seguintes fundamentos:
« i. as funções técnicas exercidas pela representada no Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo
Intercultural não são de reconhecido interesse público pelo que não lhe pode ser aplicado o disposto no
n°4 do art°7° da Lei n°10/2004, de 22 de Março;
ii. o despacho do Director-Geral de Inovação e Desenvolvimento Curricular que concorda com uma

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Informação na qual se conclui que a interessada é abrangida pela citada disposição legal não contém um
acto de homologação;
iii. a representada devia ter requerido a ponderação curricular nos termos do n.°4 do art.° 85.° e art.°
43.° da Lei n.° 66-B/2007, de 28 de Dezembro.»

Analisando agora criticamente o resultado probatório (art.° 607.5/4 CPC), importa


referir que a convicção do Tribunal quanto a todos os factos provados vertidos se
formou com base na análise do teor dos documentos pontualmente invocados, juntos
pela Autora e constantes do PA apenso, e na posição expressa pelas partes nos
respectivos articulados.
Quanto à demais matéria alegada, a mesma não carece de ser aqui tida em conta por
se tratar de alegações conclusivas, de direito ou impertinentes.
Não se identificaram outros factos relevantes não provados; de resto, conforme
melhor se perceberá adiante, o dissentimento do Autor e do Réu não é factual e
assenta antes num desacordo quanto ao regime jurídico aplicável à avaliação de
desempenho da Autora relativamente ao ano de 2007, designadamente para efeitos
de admissão a concursos internos, que é questão melhor tratada no âmbito da
análise jurídica/fundamentação de Direito.»

II.2. De direito

i) Do erro de julgamento de direito em que incorreu a sentença recorrida ao


ter considerado que a classificação de Muito Bom obtida pela associada do
Recorrido, por via de uma avaliação de desempenho efetuada ao abrigo do
disposto no art. 17.° do Decreto Regulamentar n.° 19-A/2004, de 14.05. – que
regulamenta a Lei n.º 10/2004, de 22 de Março, no que se refere ao sistema
de avaliação do desempenho dos funcionários e agentes dos serviços e
organismos da administração direta do Estado, bem como ao sistema de
avaliação aplicável aos dirigentes de nível intermédio -, é suscetível de
conferir o direito atribuído pelo disposto no n.° 4 do art. 15.° da Lei n.°
10/2004, de 22.03. – que criou um sistema integrado de avaliação do
desempenho na Administração Pública (SIADAP).

Insurge-se o Recorrente, contra o assim decidido, invocando, em suma, que


«para efeitos da redução do tempo de serviço prevista no n.° 4 do artigo 15° da Lei
n.°10/2004, de 22 de março, apenas relevam as avaliações de Muito Bom obtidas por
aplicação de avaliação ordinária SIADAP, dentro do respetivo quadro de exigências,
e validadas nos limites das percentagens estabelecidas. Dado que a Autora não
beneficiou de qualquer outra avaliação de desempenho ordinária no ano de 2007,
tendo sido notada com a classificação de 2006 nesse mesmo ano por força do
disposto no artigo 17.°, do Decreto Regulamentar n.° 19-A/2004, de 14 de maio,
não pode beneficiar, por essa via, do direito conferido pelo disposto no n.° 4 do
artigo 15.° da Lei n.° 10/2004 de 22 de março, não preenchendo, por esse motivo, os
requisitos exigidos no procedimento concursal» - cfr. alíneas M) e N) das
conclusões de recurso.

Vejamos.

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Dos autos resulta que a associada do A., ora Recorrido, desempenhava


funções técnicas quando foi destacada para o Alto Comissariado para a
Imigração e Minorias Étnicas (ACIME) para integrar a equipa de trabalho
do Ano Europeu do Diálogo Intercultural — cfr. alíneas a) e e) da matéria
de facto supra.

Mais resulta dos autos que a mesma esteve destacada no ACIME — extinto
por fusão, com efeitos a 1 de junho de 2007, no Alto Comissariado para a
Imigração e Diálogo Intercultural, I.P (ACIDI, I.P.) — por mais de seis
meses durante o ano de 2007.

Controvertido não está, também, que no ACIME não lhe foi aplicado o
SIADAP — cfr. alínea g) da matéria de facto – e que o seu superior
hierárquico no serviço de origem — o Director-Geral de Inovação e
Desenvolvimento Curricular — entendeu que, havendo relevância e
inequívoco interesse público das funções desempenhadas junto do
ACIME/ACIDI no ano de 2007, a classificação de serviço a atribuir à
associada do A. para esse ano, deveria decorrer do regime consagrado no
art. 17° do citado Decreto Regulamentar n.° 19-A/2004, ou seja, deveria
corresponder à que a mesma obtivera em 2006 — cfr. alínea h) da matéria
de facto – decisão esta com a qual não concordou júri do concurso em
apreço — cfr. alíneas n) e p) da matéria de facto.

Controvertida está a aplicação ao caso do disposto no n.° 4 do art. 15.° da


citada Lei n.° 10/2004, de 22.03., que determina que «A atribuição de Muito
bom na avaliação de desempenho durante dois anos consecutivos, reduz em um ano
os períodos legalmente exigidos para promoção nas carreiras verticais ou progressão
nas carreiras horizontais»

A norma em apreço atribui, assim, «um prémio inserido numa lógica de


reconhecimento da excelência com «direito a benefícios no desenvolvimento da
carreira» - cfr. n.° 2 do mesmo art. 15.º.

Não podendo deixar de se ter presente que o SIADAP veio reconhecer e


consagrar que a diferenciação de desempenhos exigia, por exemplo, que
fossem «estabelecidas percentagens máximas para atribuição das classificações
mais elevadas em cada organismo» - cfr. n.° 1 do citado art. 15.º da Lei n.°
10/2004 e art. 9.º, n.º 1, do citado Decreto Regulamentar n.° 19-A/2004.

Razão pela qual o disposto no art. 15.º da citada Lei n.° 10/2004, inserido
que está na avaliação de desempenho atribuída no quadro do SIADAP, pois
que, com base na aplicação do regime de avaliação dali resultante, introduz
mecanismos diferenciadores de reconhecimento do mérito e excelência

Como bem adiantou a sentença recorrida, «nem todas as avaliações obtidas no


quadro do SIADAP se encontram de facto (e também de direito) sujeitas às
limitações impostas em sede de percentagens máximas para as avaliações de
desempenho de Muito Bom (20%) e de Excelente (5%) - cfr. art.° 9.° do Decreto
Regulamentar n.° 19-A/2004.
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Com efeito,

a) A avaliação de desempenho dos trabalhadores que exerçam funções de reconhecido


interesse público ou actividade sindical, sendo igual à avaliação obtida no ano
imediatamente anterior ao do início do exercício das funções em causa, não está
sujeita às percentagens máximas fixadas para as avaliações de desempenho de Muito
Bom (20%) e de Excelente (5%) no organismo em causa - o que se justifica,
essencialmente, para não prejudicar os demais trabalhadores em exercício efetivo de
funções naquele organismo;

b) A avaliação de desempenho resultante do suprimento previsto nos artigos 18.° e


19.° do Decreto Regulamentar n.° 19-A/2004 também não se encontra sujeita às
percentagens máximas para as avaliações de desempenho de Muito Bom e de
Excelente - o que encontra cabal justificação na situação que origina aquele
suprimento e na circunstância de o efeito de tal avaliação se circunscrever ao
concurso de promoção a que o interessado se haja candidatado ou ao procedimento
para efeitos de mudança de escalão (o que pode ocorrer em qualquer altura do ano);
e, por fim,

c) Nas fases de reclamação e recurso hierárquico interpostos das avaliações do


desempenho, aquelas percentagens máximas que limitam as avaliações de
desempenho de Muito Bom e de Excelente não vinculam nem o dirigente máximo do
serviço nem o membro do governo competentes para apreciação da impugnação
administrativa em causa - pois que tal impugnação ocorre, necessariamente, em
momento posterior ao da harmonização das avaliações pelo Conselho de
Coordenação da Avaliação (que tem em vista verificar o cumprimento das quotas
para as avaliações máximas ao nível do organismo) e entendimento diverso
eternizaria o próprio procedimento, anual, de avaliação do desempenho.»

De onde resulta que da redução do tempo necessário para a promoção


decorrente do citado art. 15.°, n.º 4, da Lei n.º 10/2004, não se extrai
nenhuma limitação quanto ao modo de obtenção da notação Muito Bom na
avaliação de desempenho e não podem existir dúvidas de que as situações
supra transcritas e devidamente consideradas na sentença recorrida,
constituem ainda avaliação do desempenho, no quadro do SIADAP, dos
trabalhadores em causa.

Razão pela qual se considera, também, que a situação prevista no art. 17.°
do Decreto Regulamentar n.° 19-A/2004 está abrangida pela previsão da
norma constante do art. 15.°, n.º 4 da Lei n.° 10/2004 – com o paralelismo
que o tribunal a quo efetuou, e bem, no nosso entender –, numa
interpretação conjugada com o disposto no art. 7.°, n.º 2 do Decreto-Lei n.°
262/88, de 23.07., que determina que o tempo de serviço prestado pelos
membros dos gabinetes se considera, para todos os efeitos, como prestado
no lugar de origem, «não podendo igualmente ser prejudicados nas promoções a
que, entretanto, tenham adquirido direito, nem nos concursos públicos a que se
submetam, pelo não exercício de atividade no lugar de origem».

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E, na verdade, onde a lei não distingue não cabe ao interprete distinguir –


cfr. art. 9.º, n.º 3, do CC – sendo que, ademais, a interpretação pela qual
pugna o Recorrente, consubstanciaria uma interpretação restritiva.

Neste sentido, também, Soledad Ribeiro, Jaime Alves e Sílvia Matos, in


anotação IV ao art. 17° do Decreto Regulamentar n.° 19-A/2004, in SIADAP
Anotado, por Coimbra, 2006, pg. 120.

Em face do que, e sem necessidade de mais amplas considerações, será de


manter a sentença recorrida, ao ter anulado o ato impugnado, que excluiu a
associada do A., ora Recorrido, do procedimento concursal em apreço, na
medida em que esta, ao ser detentora de uma avaliação de Muito Bom
referente ao ano de 2007, tal avaliação, mesmo que obtida ao abrigo do art.
17.° do Decreto Regulamentar n.° 19-A/2004, de 14.05., pode beneficiar do
regime previsto no art.15.°, n.º 4, da Lei n.° 10/2004, de 22.03.

III. Decisão

Pelo exposto, acordam os juízes da secção do contencioso administrativo


deste Tribunal Central Administrativo Sul em negar provimento ao recurso,
e em manter a decisão recorrida.

Custas pelo Recorrente.

Lisboa, 16.12.2021

Dora Lucas Neto

(Relatora)

Pedro Nuno Figueiredo

Ana Cristina Lameira

www.dgsi.pt/jtca.nsf/170589492546a7fb802575c3004c6d7d/deb256a4effefec8802587b300584f44?OpenDocument 9/9

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