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Construção do feminino na adaptação Metzengerstein: As consequências da

mudança de gênero dos personagens principais do conto para a adaptação e o uso


excessivo da sexualização feminina

Andreia Sandreísa Martorano Praxedes,


sandreisapraxedes@gmail.com – UERN

Afonso César Câmara da Silva


afonso-cesar@outlook.com – UERN

Clístenes Oliveira da Silva,


clistenes.o.s@gmail.com - UERN

Gabriela da Cruz Carneiro,


gabriela-cruz07@hotmail.com - UERN

Resumo: Esse artigo pretende analisar a construção do feminino no filme “Spirits of


The Dead” de Roger Vadim, adaptação cinematografica da obra de Edgar Allan Poe,
“Metzengerstein”, bem como quais foram as consequencias de mudança de gênero
dos personagens centrais e também o uso da sexualização na personagem
feminina, visto o contexto daquela época.

Palavras chave: Metzengerstein, Sexualização, Feminino, Spirits Of The Dead.

Introdução

O conto de Edgar Allan Poe, Metzengerstein, escrito em 1932, vai abordar


temas como a rivalidade entre as linhagens de duas das mais ricas famílias da
Hungria, os personagens centrais da trama são o Barão Frederico Metzengerstein e
o seu inimigo o conde Berlifitzing, e também o sobrenatural com reflexões e
acontecimentos sobre vida pós morte. Nesse artigo, iremos analisar a adaptação
cinematográfica desse conto produzido e dirigido por Roger Vadim, “Spirits Of The
Dead” do ano de 1968. A análise desse trabalho se voltará às mudanças trazidas do
conto para a adaptação fílmica, tendo o enfoque na transformação do gênero
masculino do personagem de Frederico para a condessa Frederique
Metzengerstein, quais os impactos que essa transformação trouxe para a trama, a
construção do feminino e também o uso excessivo da sexualização e erotização da
personagem.

1. Metzengerstein, a adaptação fielmente infiel de Roger Vadim

“Metzengerstein” de Roger Vadim é uma adaptação do conto de Edgar Allan


Poe de mesmo nome e está incluso no longa-metragem “Histórias Extraordinárias”,
junto com mais duas outras adaptações, ambas de origem franco-italiana, lançadas
em 1968. A obra de Poe vai contar a história de duas famílias rivais de longa data, e
que em ambas restavam apenas um herdeiro da suas respectivas linhagens, dos
Metzengerstein a família mais abastada e onde o enfoque se faz mais presente
havia um jovem barão libertino chamado Frederico e da família Berlifitzings havia
apenas o conde Guilherme, um senhor de idade que tinha um grande amor por seus
cavalos e apesar de suas enfermidades gastava seu tempo entre seus preciosos
animais. E é a partir dessa rivalidade e da ligação com os animais que a trama se
desenvolve e coisas estranhas começam a acontecer.
Entretanto, na adaptação fílmica é feita uma troca de gênero no personagem
principal, embora a essência do sujeito seja a mesma, como sua jovialidade,
libertinagem, sagacidade e arrogância, vê-se nas telas o barão Frederico se tornar a
bela e sensual condessa Frederique Metzengerstein. Essa transformação de gênero
em tal personagem, traz grandes mudanças para a trama em si, o que antes era
apenas uma rivalidade entre famílias, nos vemos envolvidos pela complexidade de
uma história de amor. Apesar de tamanhas mudanças na trama, Vadim tivera
bastante cuidado em conservar o cerne da história fielmente como no conto literario
de Poe.

A adaptação fílmica também seria concebida como uma


novidade artística, que pode acarretar eventuais mudanças
quanto ao contexto literário que a originou. Ela retrata novos
horizontes mais do que reflete velhas ideias. Assim, a
adaptação cinematográfica pode ser considerada um novo
discurso, pois (re)cria, homenageia, dialoga e intertextualiza
outros discursos infinitos (FERNANDES; CALIXTO, 2017).

2. A Construção Feminina e Sexualizada de Frederique Metzengerstein


Diferente do conto, o personagem central torna-se feminino no filme Spirit of
the Dead, e então somos apresentados a uma nobre condessa, interpretada por
Jane Fonda com a personagem de nome Frederique de Metzengerstein.

Bela e jovem, Frederique era muito sensual e tinha tudo que queria a seus
pés, atribuindo-lhe uma personalidade devassa e sádica, gostava de ver a dor do
outro contanto que lhes trouxessem satisfação, além de ser representada também
como libertina e a frente do seu tempo, numa época onde apenas os homens tinham
poder e respeito. Formando assim uma personalidade forte e marcante para uma
mulher medieval. Com isso Vadim estabelecia um ponto de contra cultura para os
valores da época em que ele se encontrava como será visto mais a frente.

Nas primeiras cenas apresenta um traço do conto de Poe expressando o


“horror” e a “fatalidade”, mostrando um homem caído com um ferimento na cabeça e
sangrando, enquanto Frederique o observa do alto com expressão de satisfação.
Pode-se conceber como uma relação hierárquica da vida para com a morte, do
feminino para com o masculino.
Aprofundando mais na personalidade da bela personagem, apresentada
como uma garota mimada que tem tudo e todos a seus pés, herdeira de uma grande
fortuna. Para demonstrar a libertinagem da personagem, Vadim irá apresentar cenas
com clima sexual, vemos que sua vida gira em torno da promiscuidade e prazer,
cenas constantes a mostra sempre como a anfitriã de festas, banquetes e orgias na
sua mansão, onde a libertinagem é retratada como algo comum na vida da
condessa. “Levando em conta o contexto histórico dos anos finais da década de
1960, quando as lutas pela liberdade sexual, reinvindicações de direitos das
mulheres e da popularização do feminismo eram causas políticas na sociedade”
(FERNANDES; CALIXTO, 2017).
Algo que transmite bem esses comportamentos são seus figurinos,
extremamente coloridos e sensuais, que deixam em evidência o seu corpo, e
embora a adaptação e o conto não mostrem com precisão em qual época a história
é contada, nota-se que os trajes usados por Frederique possuem uma influência
moderna e até vulgar, como um artifício claro de demonstrar a sua personalidade.
Outro fator importante a ser analisado é o estado senil de Frederique,
deixando no ar a dúvida de suas capacidades mentais, como mostra um pequeno
dialógo entre a condessa e seu mais fiel empregado, Hughes, logo no inicio do filme,
“Tem certeza que isso foi um sonho? Às vezes você esquece o que é verdade”
(METZENGERTEIN, 1968, cap. 1).
A condessa também possui uma grande facilidade para manipular e
conseguir tudo que deseja, utilizando seu apelo sexual ou poder, seus empregados
e amigos estão a seu dispor para realizar todas as suas vontades, sejam elas certas
ou erradas, e é aí que se vê um lado da personagem escondido atrás de suas belas
feições, Frederique não mede esforços para conseguir o que quer, seus pequenos
atos de crueldade são mostrados em determinados momentos durante a trama, até
que um ato impensado trás consequências graves e muda sua personalidade para
sempre.

3. As diferenças e semelhanças entre obra literaria e a adaptação de


Metzengerstein

No conto de Poe, Metzengerstein era um jovem aristocrata menor de idade


que vivia em um castelo na Hungría, cuja a família guardava uma discórdia a
séculos com outra família da região: os Berliftzing. Ambas as famílias possuíam um
ódio passado de geração em geração, apenas descrito como “coisa profética” no
conto original. No filme, esta relação entre as duas famílias fica apenas exposto
como valores morais distintos entre Metzengerstein e Berliftzing, respectivamente na
figura de Frederique Metzengerstein e Wilhelm Berlifitzing.
Apesar das duas obras terem muita coisa em comum principalmente no
enredo básico: a rivalidade entre as duas famílias, a forte presença do sobrenatural
retratado coma metempsicose (reencarnaçãao) é outro ponto de semelhança entre
ambas. O sobrenatural é sutilmente introduzido na adaptação deixando aquele ar de
mistério como Poe retrata em seu conto.
É importante também destacar o trabalho de Roger Vadim, que logo no inicio
do filme segue com uma música em seu compasso monótono, incitando o mistério
na abertura. Através disto, vê-se emergir uma imensa cortina de fumaça, deixando
todo espaço da tela indefinido para então surgir uma narrativa exterior transcrita do
próprio conto de Edgar Allan Poe. Este ponto introdutório é indispensável para
composição da ambientação de uma história atemporal, passível de questionamento
do próprio autor sobre o “horror e a fatalidade tem sido disseminados em todos os
tempos” (PÕE, 2003, p. 225). Desta forma, apresentam-se incorporados neste
mistério temas sugestos: superstição, a relação entre vida e morte.

A morte do conde de Berlifitzing, igualmente adaptada no filme, traz a figura


de um enorme e misterioso cavalo, o animal é indomável e só consegue ser domado
pelo Metzengerstein, deixando-os muito apegados, quase inseparáveis,
aparentemente muito parecidos em suas personalidades infames, um reflete a
imagem do outro. A obsessão pelo animal leva a família Metzengerstein a ruína,
assim completando a maldição e acabando com as duas famílias.
Embora a rivalidade entre as famílias, o cavalo misterioso na tapeçaria e o
sobrenatural do conto serem fielmente adaptados cinematograficamente, a
adaptação traz algumas mudanças que não existem no conto original, como a
mudança de gênero do personagem da família Metzengerstein, fator principal para o
desenvolver de outras variantes que viriam a seguir: a introdução do amor não
correspondido de Frederique Metzengerstein por Wilhelm Berlifitzing, diferente do
personagem do conto de Poe que era velho, no filme interpretado por Peter Fonda,
ocupa a posição de um jovem barão trabalhador em seus estábulos, mas apesar
disto sentia-se feliz com sua solidão. Ele sempre aparece sereno, oposto ao
comportamento da condessa, tanto em valores coo em atitudes.

Neste ponto o filme difere do conto de Poe havendo valores opostos a


generalização do mal entre os personagens que cultivam rivalidades hostis. A
personagem Frederique costumava tirar sarro da sua posição de mais rica com
relação a este jovem e esquisito primo distante. Inicialmente, aparece como uma
relação vista à distância do protagonista que observa seu primo, ao passo que a
aproximação entre eles vai se construindo no decorrer das cenas iniciais do filme.
Berliftizing demonstrava conduzir sua vida de forma diferente de depravações e
sexualidade libertina da condessa. São valores distintos que se expressam em
antítese, indo além do feminino e o masculino. As diferenças destes valores por
vezes aparecem sutilmente.

Afim de mostrar a cautela de um personagem em relação ao outro, surge um


momento, aparentemente como um conto de fadas. A cena de encontro entre os
dois ocorre no meio da floresta próximo de um riacho entre árvores em um clima de
outono. Frederique cai em uma armadilha de raposa e pede ajuda aos gritos
quando Wilhelm aparece de um ponto mais elevado para salvá-la. Sabiamente
reparte sua crítica sobre esta condição que parece ambígua entre ele e a presa -
“Uma raposa pega se faz de morta, depois foge, mesmo em duas patas”. Após
questionar sobre seu machucado o jovem desaparece literalmente, misteriosamente
sem deixar rastros. Quem seria a raposa e a presa? Esta proposta do filme
apresenta a armadilha dos personagens ao encontro.

No segundo encontro, Wilhelm aparece no alto de alguns escombros, sentado


e alimentando uma coruja. A coruja é o símbolo da sabedoria, o personagem desce
do alto com sua prudência para abraçar a condessa com seu casaco em ato de
simples cavalheirismo. Em seguida, rejeita o convite de fazer parte do castelo da
condessa que diz não ter o hábito de ser rejeitada, mas novamente desaparece
como quem se opõe de fazer parte de seus domínios, causando a ira da
Metzengerstein.

A mudança de gênero do masculino para o feminino na personagem principal,


trouxe uma reviravolta diferente no centro na história, entretanto, sua conclusão
trágica é basicamente a mesma do que é contado por Poe.

4. O Impacto na trama com a mudança de gênero da personagem central

Primeiramente, é importante tentar entender a razão por trás da decisão de


Vadim em alterar o gênero da personagem principal. A escolha de colocar uma
mulher no lugar de um homem, traz mudanças consideráveis para o enredo, porém,
pode-se dizer que Vadim foi perspicaz ao fazer tal opção.
Com a utilização de uma personagem feminina principalmente de forma tão
erotizada, “Vadim parece investir na devassidão e ultrassensualidade”
(FERNANDES; CALIXTO, 2017), tais características funcionam como um atrativo
para os amantes de cinema, seja para conseguir uma boa bilheteria, seja para
simplesmente causar polêmica. A atriz Jane Fonda, fora a escolhida para o papel de
Frederique, ela era um “sex simbol” na década de 60, e estava no auge de sua
beleza.

Para dirigir e produzir Metzengerstein, Roger Vadim se


utilizou de temáticas estéticas de sua obra cinematográfica,
enfatizando primordialmente a sensualidade da figura
feminina de Frederique Metzengerstein. À semelhança desta
com Barbarella, heroína erótica e desprovida de moralismo
social que permeava a sociedade nos anos de 1960, faz
Metzengerstein uma adaptação criativa que reaproveita
muitas temáticas do conto homônimo de Poe que serviu como
texto-fonte para o filme, oferecendo ainda uma nova leitura do
conto do escritor americano do século XX. (FERNANDES;
CALIXTO, 2017)

Romance sempre foi um forte e atrativo artifício na indústria do cinema, por


isso fica fácil justificar a escolha de Vadim em adaptar o conto sombrio de Poe como
uma história de amor sem fugir da temática do central, o horror.
A história do amor não correspondido entre Frederique e Wilhelm na
adaptação cinematográfica traz um enredo impactante e de certo modo mais
emocionante para a trama, talvez até mais do que o conto original, afinal, falar de
amor é sempre complexo. O romance juvenil não correspondido e o fato do
sentimento partir da personagem da condessa, que até então fora mostrada como
uma mulher sem coração, é intrigante, e traz camadas para ela que a deixa ainda
mais interessante.
Frederique permite se apaixonar subitamente por seu primo distante e
também inimigo Wilhelm e com isso mostra um lado da personagem mais humano,
vulnerável até então desconhecido, em determinado momento da história ela deixa-
se sair um pouco da sua “armadura” enquanto está na companhia de Wilhelm, um
rápido vislumbre de como o amor pode transformar até o mais frio coração,
entretanto, o conde a rejeita e seu sentimento não é correspondido. Não
familiarizada com a rejeição e com o coração partido pela primeira vez, ela planeja
sua vingança embasada no ódio ancestral entre Metzengersteins e Berliftizings.
Percebe-se que tal interesse seria apenas para salientar alguma admiração
da personagem Metzengerstein por um Berliftizing, influenciado pelos romances
proibidos que sempre permearam o cinema e principalmente a literatura. Neste
contexto, apresentaria, diferente do ódio e a maldade macabra do jovem
Metzengerstein do conto de Poe, uma condessa com uma maldade quase que
ingênua pelo poder, e é a partir daí que a trama se desenvolve, pois a briga entre o
coração apaixonado e o orgulho ferido por ter sido rejeitada, é o principal gatilho
para os acontecimentos da história que são causados justamente por ela.
Vadim surpreende por transformar uma história de uma “hostilidade tão
mortal” em história de amor, repentina e de louca afeição. Tanto o conto de Poe
como a adaptação trazem uma ótica diferente para contar a mesma história, em
ambos os casos é possível se envolver com suas tramas e perceber que embora
haja algumas diferenças, a mensagem é a mesma.

REFERENCIAS

FERNANDES, Auricélio Soares; CALIXTO, Waldir Kennedy Nunes. Tematizando o


fantástico nos “Metzengersteins” de Edgar Allan Poe e Roger Vadim. Miguilim –
Revista Eletrônica do Netlli,Crato, v. 6, n. 3, p. 298-312, set.-dez. 2017.

Histórias Extraordinárias. Wikipédia. Disponível em:


https://pt.wikipedia.org/wiki/Hist%C3%B3rias_Extraordin%C3%A1rias. Acesso em:
11/01/2020.

STAM, Robert. Teoria e Pratica da Adaptação: da fidelidade à intertextualidade. In:


Ilha do Desterro, Florianópolis, n 51, p. 019-053, jul./dez. 2006.
METZENGERSTEIN. Direção: Roger Vadim. In: Histórias Extraordinárias. Itália –
França: American International Pictures, 1968. Color, 41 minutos.
POE, E. A. Histórias Extraordinaria. Tradução de Brenno Silveira e outros. São
Paulo: Abril Cultural, 1978.

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