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Tipos de

Envelhecimento

CNQ | UFCD 8906

Formador: MARGARIDA GOMES


INDÍCE

1. DEFINIÇÃO DE ENVELHECIMENTO .................................................................................................. 3


1.1 Teorias sobre o envelhecimento .............................................................................................. 4
1.1.1 Teorias Psicológicas do Envelhecimento....................................................................... 4
Teoria da Modernização (Cowgill & Holmes, 1972) ............................................................... 5
Metateoria da Seleção, Otimização e Compensação (Baltes & Baltes, 1990)........................ 6
Teoria da Dependência Comportamental ou Aprendida Baltes (1996) .................................. 7
Teoria do Desenvolvimento ao Longo da Vida – Life-Span (Baltes, 1987; 1997).................... 8
1.1.2 Teorias Biológicas do Envelhecimento ........................................................................ 10
Teoria da morte programada .............................................................................................. 10
Teoria da Acumulação de mutações .................................................................................... 11
Teoria do Telómero .............................................................................................................. 11
Teoria do Envelhecimento da Mutação Somática ................................................................ 12
Teoria do Envelhecimento Autoimune (neuroendocrina-imunológica) ................................ 12
1.2 Envelhecimento: Autonomia, Incapacidade, Dependência .................................................... 13
2. PADRÕES DE ENVELHECIMENTO ................................................................................................. 16
3. ENVELHECIMENTO NORMAL E PATOLÓGICO .............................................................................. 19
3.1 Características ........................................................................................................................ 19
3.2 Envelhecimento Ativo ............................................................................................................. 24
4. ENVELHECIMENTO PSICOLÓGICO E BIOLÓGICO ......................................................................... 26
4.1 Aspetos Sócio-emocionais - Satisfação e Adaptação .............................................................. 26
4.2 Personalidade no Envelhecimento ......................................................................................... 29
4.3 Ajustamento Psicosocial do Idoso .......................................................................................... 29
5. ATIVIDADES PARA PROMOÇÃO DO ENVELHECIMENTO ATIVO ................................................... 32
BIBLIOGRAFIA ................................................................................................................................... 34

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Desejo que você, sendo jovem, não amadureça depressa demais e,
sendo maduro, não insista em rejuvenescer;
e que, sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem seu prazer e sua dor e é preciso que eles escorram entre nós
(Victor Hugo, 1802-1885)

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1. DEFINIÇÃO DE ENVELHECIMENTO

O envelhecimento é um processo complexo de evolução biológica dos organismos vivos, que se


caracteriza por ser contínuo, irreversível e universal. Implica a ocorrência de várias alterações no
organismo que se repercutem nas dimensões biológica, psicológica e social do indivíduo.

Este processo contínuo inicia-se no momento em que nascemos, enquanto a velhice corresponde à
última etapa da vida, que pode ser mais ou menos retardada de acordo com o indivíduo e a sua
trajectória de vida.

As causas do envelhecimento são classificadas como:

 Endógenas - internas do organismo e relacionam-se com a genética de cada um;


 Exógenas - ligadas ao comportamento dos indivíduos e ao seu meio ambiente.

As doenças e incapacidades estão ambas relacionadas com a ação conjunta da genética, do


comportamento individual e do acesso a recursos científicos, tecnológicos e sociais, que
interrelacionando-se podem acelerar o envelhecimento e conduzir a estados finais de forte desor-
ganização e indiferenciação, nas idades mais avançadas.

O envelhecimento humano comporta uma grande variabilidade, dependendo do nível de


desenvolvimento biológico e psicológico atingido pelos indivíduos e da ação conjunta da genética, dos
recursos sociais, económicos, médicos, tecnológicos e psicológicos.

Neste sentido, a principal característica do envelhecimento é a variabilidade inter e intra-individual,


ou seja, diferentes padrões de envelhecimento, tanto entre indivíduos com a mesma idade
cronológica, como nas distintas funções, biológicas, psicológias e sociais num mesmo indivíduo.

Como forma de amenizar a representação da velhice recusando as associações negativas a esta fase
da vida, são usados outros termos mais respeitadores como Idosos, Terceira Idade ou Séniores.
Chamar velho a alguém está cada vez mais longe da nossa realidade, se bem que a dificuldade em lidar
com esta fase da vida continua muito presente na nossa sociedade e na nossa realidade individual.

As causas do Envelhecimento são estudadas e explicadas por vários modelos teóricos que procuram
explicar os mecanismos do envelhecimento, embora nenhum seja totalmente conclusivo.

Uma das razões porque não se chega a um consenso e a uma sistematização de todas as teorias sobre
envelhecimento, deve-se à complexidade inerente ao universo vivo, em particular ao ser humano, não
se podendo atribuir um determinado efeito a uma só causa, pois um organismo vivo é um sistema
integrado.

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As mudanças com o envelhecimento não são lineares ou consistentes e são apenas vagamente
associadas à idade cronológica.

Além disso, a idade avançada frequentemente envolve mudanças significativas além das perdas
biológicas. Essas mudanças incluem mudanças nos papéis e posições sociais, assim como mudanças
psicológicas que se refletem por exemplo, na necessidade de lidar com o envelhecer e com as perdas
de relações próximas, muito frequentes nestas idades mais avançadas.

1.1 Teorias sobre o envelhecimento

Das teorias do envelhecimento são esperadas as seguintes contribuições:

▪ Descrição e explicação das mudanças comportamentais que acontecem ao longo da


velhice;
▪ Caracterização das diferenças existentes entre indivíduos e grupos em relação à forma
como se desenvolve o envelhecimento;
▪ Diferenciação do que é peculiar aos idosos por causa da idade e o que é devido ao
contexto sócio-histórico e à história pessoal;
▪ Identificação das diferenças entre idosos e pessoas de outros grupos de idades;
▪ Descrição sobre como se alteram e como se relacionam, na velhice, os diferentes
processos psicológicos, como por exemplo a motivação e cognição;
▪ Conhecer se os diferentes processos psicológicos se modificam ou se matêm com o
envelhecimento.

1.1.1 Teorias Psicológicas do Envelhecimento

As teorias do envelhecimento em geral e as da psicologia do desenvolvimento e do envelhecimento


em particular, incluem diferentes princípios e ideias, assim como factos que as sustentam.

A psicologia do envelhecimento foca-se nas mudanças nos desempenhos cognitivos, afetivos e


sociais, e tem como objetivo estudar os padrões de mudança comportamental associados ao
avanço da idade, distinguindo aqueles que são típicos da velhice daqueles que são compartilhados
por outras idades.

A perspectiva sobre o envelhecimento psicológico deve ter em consideração que a idade


cronológica, embora relacionada com o processo de envelhecimento, não é um critério ideal e
único para se estudar esta componente do envelhecimento. Assim, a perspectiva inspirada na

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psicologia do ciclo de vida tem demonstrado que os processos psicológicos de mudança não
seguem uma via paralela às mudanças biológicas que se produzem ao longo da vida.
No âmbito da psicologia do envelhecimento têm sido estudadas em particular, duas áreas:

▪ Funcionamento cognitivo
▪ Personalidade

A ideia de declínio generalizado e irreversível das capacidades cognitivas com a idade é apenas um
estereótipo ligado ao envelhecimento. Em termos de capacidade cognitiva, pessoas que hoje têm
70 anos de idade são comparáveis às pessoas que tinham 60 anos há trinta anos atrás, pelo que
podemos falar de um incremento das reservas cognitivas ao nível do pensamento nos idosos. As
razões para o aumento de tais reservas cognitivas podem dever-se ao conjunto de forças de
natureza cultural (melhor saúde, condições materiais favoráveis, instrumentos de literacia
disponíveis, sistemas educacionais ao longo da vida ...), que as pessoas adultas e idosas têm
actualmente ao dispor para desenvolverem as suas capacidades cognitivas de forma quase
ilimitada, pelo menos enquanto o estado físico o permitir.
O declíneo de aptidões específicas, associadas ao declínio desta aptidão intelectual, parecem
relacionar-se com três aspectos do processamento cognitivo:
1) A diminuição da velocidade de processamento da informação;
2) O défice na memória de funcionamento;
3) Os decréscimos na acuidade visual e auditiva.

Em paralelo a um certo certo declínio no desempenho de funções cognitivas (nomeadamente, em


termos de velocidade de processamento de informação e de capacidade de resolução de tarefas
com maior grau de complexidade e/ou tarefas novas), noutros domínios de actividade como o
profissional, onde a experiência e o saber acumulados desempenham um papel importante, os
idosos podem exibir uma boa capacidade de resolução de problemas.

Teoria da Modernização (Cowgill & Holmes, 1972)


A ideia central é de que o status social do idoso declina com a modernização da sociedade. Esse
declínio deve-se a quatro processos.

1) Adoção de novas tecnologias, que torna obsoletos os conhecimentos e as capacidades dos


idosos em favor da valorização destas competências nos mais jovens e produz diminuição do
seu status, da sua influência, do seu autoconceito e do seu envolvimento social.
2) O processo de urbanização, porque a separação geográfica, acarreta enfraquecimento dos la-
ços familiares, aumento da distância entre as gerações e, em consequência, diminuição do
status dos idosos na família e na comunidade.

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3) O investimento seletivo que as sociedades costumam fazer na educação e na atualização
tecnológica e profissional dos mais jovens em detrimento das oportunidades oferecidas aos
mais velhos. Tal procedimento tem potencial para produzir inversão de papéis de domínio e
subordinação entre as gerações, com prejuízo para os mais velhos.
4) Falta de investimento homogeneo nas diferentes categorias etárias, porque as sociedades não
conseguem investir igualmente nos seus membros jovens e idosos e assim à medida que
aumenta a proporção de idosos na população, produz-se uma tensão por recursos que é
prejudicial à imagem social e ao bem-estar dos idosos.

Metateoria da Seleção, Otimização e Compensação (Baltes & Baltes, 1990)


O foco desta teoria é saber como indivíduos de todas as idades alocam e realocam seus recursos
internos e externos tendo em vista a otimização de recursos e a compensação de perdas.

A plasticidade comportamental é a inspiração central da metateoria de seleção, otimização e


compensação. Foi inicialmente concebida para explicar a velhice bem-sucedida (Baltes & Baltes,
1990) e hoje é considerada útil à explicação da adaptação das pessoas em todas as idades.

Seleção - significa a especificação e a diminuição da amplitude de alternativas permitidas pela


plasticidade individual. É um requisito e uma necessidade quando recursos como tempo, energia
e capacidade são limitados. Quando orientada para a reorganização da hierarquia e número de
metas, envolve o ajustamento do nível de objetivos e o desenvolvimento de novas metas,
compatíveis com os recursos disponíveis.

Otimização - está associada à aquisição, aplicação, coordenação e manutenção de recursos


internos e externos, visando alcançar níveis mais altos de funcionamento. Pode ser realizada
mediante educação e suporte social, direcionados para a cognição, a saúde, a capacidade atlética
e outras habilidades.

Compensação - envolve a adoção de alternativas para manter o funcionamento. São exemplos de


compensação o uso de aparelhos auditivos e de cadeira de rodas, a utilização de pistas visuais para
compensar problemas de orientação espacial e a utilização de pistas para auxiliar a memória
verbal.

Na velhice, o modelo de seleção, otimização e compensação pode ser utilizado para explicar o
paradoxo do bem-estar subjetivo e da continuidade da funcionalidade, mesmo na presença de
riscos e perdas de natureza biológica e social.

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Teoria da Dependência Comportamental ou Aprendida Baltes (1996)
A dependência não é uma condição que caracteriza exclusivamente certas fases do
desenvolvimento como a infância e a velhice, uma vez que na vida adulta as pessoas estão sujeitas
a acontecimenos físicos, sociais ou ambientais que podem obrigá-las a depender dos outros por
períodos de tempo mais ou menos prolongados.

Em todas as fases da vida, a dependência pode assumir uma natureza que a qualifica como
comportamental, em que é necessário, assumir comportamentos dependentes, como pedir e
aceitar ajuda.

A dependência comportamental é aprendida porque os comportamentos envolvidos têm forte


probabilidade de serem reforçados socialmente, conforme as regras que vigoram no
microambiente social. A lógica relativamente à dependência aprendida na velhice conduz à
conclusão de que, em vez de perguntar sobre a adequação ou a inadequação dos padrões de
comportamento dependente dos idosos, a questão a ser respondida diz respeito à funcionalidade
desses padrões e, em última análise, à sua adaptação.

A dependência comportamental dos idosos pode ser intensificada por questões de ordem prática,
em ambientes como lares ou outras instituições, onde as rotinas organizadas em função das
conveniências de horário e da sempre reduzida disponibilidade de pessoal, de recursos e falta de
preparação tecnica, deixam uma estreita margem de manobra para experimentar interações que
estimulem as competências e a independência pessoal. Nesses casos, a promoção de padrões
comportamentais de dependência aprendida, tem efeitos negativos sobre a competência
comportamental e sobre a saúde física e mental dos idosos.

Pode ser intensificada em ambientes superprotetores, infantilizadores e preconceituosos, onde


imperam falsas crenças sobre cuidados e sobre as possibilidades de desenvolvimento na velhice.
Na velhice, a dependência aprendida tem grande hipótese de crescer em ambientes que não
estimulem ou punem a independência, reforçando a dependência, utilizando práticas
superprotetoras e infantilizadoras, consentidas e aceites como as mais corretas. Nesses ambientes,
familiares ou em instituições, essas práticas vinculam-se à crença de que cuidar com amor significa
fazer as coisas pelo idoso, visto que este é considerado essencialmente doente e incapaz,
mentalmente confuso e dependente.

A dependência comportamental, aprendida na velhice pode estar associada a baixos níveis de bem-
estar e de autonomia, mas pode ser também um elemento central para a manutenção e melhoria
da qualidade de vida dos idosos.

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Em resumo, os aspectos centrais da teoria desenvolvida sobre dependência são os seguintes:

▪ A dinâmica dependência-autonomia altera-se ao longo do desenvolvimento, sob a influência de


variáveis maturacionais, do envelhecimento, de doenças e incapacidades, das condições do
ambiente social, de valores e expectativas individuais e culturais e ainda de variáveis
microssociais.

▪ A acentuada dependência física, cognitiva, social e emocional não é um acontecimento natural


e nem esperado para a maioria dos idosos, como consequência do envelhecimento. Embora se
reconheçam condições de declínio e vulnerabilidade associadas ao envelhecimento, esse
processo preserva capacidades para o desenvolvimento, que podem ser acionadas em situações
de cuidado, onde se deve ter sempre por princípio a valorização das competências e das
reservas de capacidade dos idosos.

▪ A dependência comportamental dos idosos pode ser funcional para obter a ajuda necessária
para:

 Ativar reservas latentes e, assim compensá-las;

 Evitar desgaste físico e emocional devido ao investimento em domínios muito afetados por
perdas;

 Alcançar metas e satisfazer expectativas afetivas, tais como obter atenção e afeto;

 Evitar ajuda indevida configurada por excessivas exigências e criticismo;

 Para o exercício de controlo passivo sobre o ambiente.

Teoria do Desenvolvimento ao Longo da Vida – Life-Span (Baltes, 1987; 1997)

A perspectiva desta teoria é um importante marco teórico no estudo do envelhecimento, uma vez
que contribuiu para mudar a concepção de que o idoso é passivo e doente, destacando a
possibilidade de desenvolvimento durante todo o curso da vida e refutando a ideia de que a velhice
estivesse associada apenas a perdas.
Um dos pontos principais é a concepção de que o desenvolvimento das capacidades cognitivas
ocorre durante toda a vida, inclusive na velhice, contrapondo-se à conceção de que somente
crianças e adolescentes se poderiam desenvolver cognitivamente.
Estudos científicos têm confirmado que o treino de capacidades cognitivas leva a que os indíviduos
melhorem o seu desempenho, pelo que ambientes estimulantes e oportunidades de
desenvolvimento (oportunidades de lazer, socialização e educação) são fundamentais para
melhorar o desempenho intelectual ao longo da vida e podem contribuir para equilibrar os

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declínios inerentes à idade. Esta teoria atribui por isso muito valor à influência dos fatores
socioculturais no processo de desenvolvimento.
O desenvolvimento psicológico é entendido como um processo que se estende ao longo da vida,
sendo que não se considera nenhum período no curso da vida como mais importante no
desenvolvimento. Em todas as fases, o ser humano pode desenvolver habilidades que o auxiliem
na sua capacidade adaptativa e na aquisição de novas aprendizagens.
De acordo com a perspectiva Life-Span, o desenvolvimento e a manutenção de padrões afetivos
no envelhecimento, não dependem apenas de determinantes de natureza genético-biológica, mas
são também influenciados por fatores socioculturais, pelo que as várias atividades para idosos são
importantes nesta fase da vida, contribuindo para manter o equilíbrio entre os declínios associados
ao envelhecimento e os benefícios dessas atividades.
Um dos pressupostos da Teoria Life-Span é que o desenvolvimento psicológico necessita ser
estudado num contexto que englobe múltiplas disciplinas, como a Antropologia, a Biologia e a
Sociologia, dado que a multiplicidade de influências sobre as origens e direções do
desenvolvimento ao longo do curso da vida estão correlacionados.
Outro pressuposto tem a ver com as diferentes direções que o desenvolvimento pode seguir, dado
que as mudanças ao longo da vida podem assumir direções opostas num mesmo período do
desenvolvimento, incluindo crescimento em determinados domínios (ganhos) e declínio em outros
(perdas). Assim, na velhice há também um equilíbrio entre ganhos e perdas, influenciado pela
forma como cada pessoa organizou o seu curso de vida, em função dos fatores socioculturais e
pela incidência de diferentes patologias.
Quanto ao desenvolvimento intelectual ocorre uma perda nas capacidades cognitivas como
consequência do baixo funcionamento neurológico, sensorial e psicomotor, com efeitos na
capacidade de adaptação do indivíduo. Contudo, as alterações nas condições qualitativas na vida
adulta e velhice, proporcionadas por melhores condições culturais, terão uma maior influência
nessa adaptação do que os mecanismos genéticos e biológicos.
A plasticidade é outro conceito central desta teoria e que se relaciona com a flexibilidade para lidar
com novas situações. Esta plasticidade relaciona-se com os recursos internos e externos de cada
um, entendendo que as limitações decorrentes do envelhecimento podem ser minimizadas
utilizando essa plasticidade.
O paradigma de desenvolvimento ao longo de toda a vida, identifica três classes de influências:

▪ Interação dinâmica entre os fatores biológicos e culturais mudam ao longo da vida; A


plasticidade biológica e a fidelidade genética declinam com a idade, porque a natureza
privilegia o crescimento nas fases pré-reprodutiva e reprodutiva.

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▪ Existe diferente alocação de recursos ao longo da vida, que passa da ênfase no crescimento
(na infância) à ênfase na manutenção e na regulação das perdas (na velhice).
▪ Ocorre atuação sistémica de mecanismos de seleção, otimização e compensação para o
desenvolvimento e envelhecimento bem sucedidos ou adaptativos. Há limites à eficácia da
cultura para promover desenvolvimento e reabilitação das perdas e do declínio associados
à velhice. Os mais velhos são menos responsivos aos recursos culturais, uma vez que a sua
plasticidade comportamental e sua resiliência biológica são menores.

1.1.2 Teorias Biológicas do Envelhecimento

O envelhecimento biológico é um processo gradual de declínio em estrutura, função, organização


e diferenciação, cujo ponto final é a morte, sendo definido como a diminuição progressiva da
capacidade de adaptação e de sobrevivência.

Ao nível biológico, o envelhecimento é associado ao acumular de uma grande variedade de danos


moleculares e celulares. Com o tempo, esse danos levam a uma perda gradual nas reservas
fisiológicas, a um aumento do risco de contrair diversas doenças e a um declínio geral nas
capacidades dos indivíduo, que resultará na morte.

O processo de envelhecimento biológico refere-se às transformações físicas que reduzem a


eficiência dos sistemas orgânicos e funcionais do organismo, traduzindo-se numa diminuição
progressiva da capacidade de manutenção do equilíbrio que, em condições normais, não será
suficiente para produzir perturbações funcionais.

É assim um processo de senescência, que com o tempo diminui a probabilidade de sobrevivência


e reduz a capacidade biológica de auto-regulação, reparação e adaptação às exigências ambientais.
Não é sinónimo de doença, mas sim um processo normal de deterioração biológica geral que
aumenta a vulnerabilidade do indivíduo à doença e à morte.

As teorias biológicas do envelhecimento utilizam a ótica do declínio e da degeneração da função e


estrutura dos sistemas orgânicos e das células. O processo de envelhecimento é definido no
contexto de um conjunto de variáveis mensuráveis, como a aptidão física ou eventos mórbidos.

Teoria da morte programada


No âmbito das teorias evolucionistas foi formulada a teoria da morte programada que foi a primeira
grande teoria do envelhecimento. Considera o envelhecimento como um mecanismo, desenhado
pela seleção natural, para eliminar espécies, de modo a evitar a competição com os seus
descendentes, por espaço e alimento, no contexto de um ecossistema com recursos finitos.

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Os investigadores fundamentaram esta teoria defendendo que existia um número máximo de
divisões das células somáticas, sendo este limite era determinado logo no embrião e que
condicionaria a duração máxima da vida de um espécime sem ameaçar os descendentes, sendo
que este limite diferia consoante a espécie.

Embora esse limite replicativo tenha sido comprovado experimentalmente, tal não confirma a
teoria da morte programada, pelo que diversos investigadores acabariam por negar esta teoria.

Teoria da Acumulação de mutações


É também uma teoria biológica evolucionista que surgiu em meados do século XX. De acordo com
a teoria da acumulação de mutações, é previsível que a frequência de doenças genéticas aumente
com o avançar da idade. O equilíbrio da frequência de genes com mutações aumenta com a idade
devido a um enfraquecimento da seleção natural, que não impede a passagem da informação
genética mudada. Será expectável que a variabilidade genética que determina a esperança de vida
aumente com a idade e assim o aumento da prevalência de mutações.

Tem por base a probabilidade individual de reprodução, dependente da idade, que é máxima em
jovens adultos e sofre posteriormente uma redução gradual por perda funcional individual e por
aumento da probabilidade de morte.

A perspetiva é que o envelhecimento é como um produto da seleção natural, definindo-o como


uma característica não adaptativa, causada por acontecimentos negligentes em indivíduos que
ultrapassaram a idade reprodutiva e por isso têm um reduzido impacto na evolução da espécie.

Teoria do Telómero
Os telómeros são a parte final protetora do cromossoma que vão sendo perdidas a cada replicação
do material genético, e o seu encurtamento implica uma paralisação no ciclo celular, pois a divisão
celular, não tem garantias de uma cópia “corretal” do DNA.

Dessa forma, há o condicionamento do envelhecimento por meio dos telómeros, no sentido em


que a célula envelhece quando perde a sua capacidade de duplicação por comprometimento dos
telómeros e, então ficará inativa com o tempo, configurando-se como a senescência em si.

Essa é a condição natural de envelhecimento à qual as células estão submetidas, mas elas possuem
uma regulação positiva quanto a isso - a telomerase, que é fundamental na regulação da atividade
celular, restituindo os telómeros. A enzima responsável é considerada um relógio biológico ou um
marcador que indica que a senescência celular irá instalar-se inevitavelmente.

Surpreendentemente, várias células humanas não expressam esta regulação pela telomerase e
existem outras que não apresentam senescência, nas quais a divisão celular se mantém com alto

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potencial de multiplicação e são imunes à ação do tempo. São as células germinativas, que
atualmente são aplicadas nos transplantes para promover regeneração e o possível tratamento das
doenças que mais afetam a humanidade, nomeadamente o cancro.

Contudo, a atividade da telomerase pode ser tanto benéfica quanto maléfica para o organismo.
Por um lado essa ação é importante e benéfica para a vida já que impede o envelhecimento
precoce, mas por outro ela pode ser muito danosa como nos casos cancerígenos em que a
telomerase é reativada permitindo que as células cancerosas proliferem.

Teoria do Envelhecimento da Mutação Somática


Esta teoria foi uma das primeiras tentativas de compreensão do fenómeno envelhecer ao nível
molecular. A hipótese da relação entre as mutações somáticas e o envelhecimento resultou da
observação de que os danos, induzidos por radiações sub-letais são frequentemente
acompanhadas por uma diminuição do tempo de vida. A teoria das mutações somáticas estabelece
assim que doses subletais de radiação induzem mutações que levam, em última instância, à morte.

Os efeitos das radiações ionizantes orientaram a investigação para o estudo das alterações de ADN
relacionadas com a idade e conclui-se que o envelhecimento seria causado pelo acumular de
mutações, após longa exposição aos níveis de radiação natural e de outros agentes ambientais.

A teoria da reparação do DNA é um exemplo específico da teoria das mutações somáticas.

Associadas, as mutações decorrentes de fatores ambientais e da ineficiência do sistema de


reparação da duplicação do DNA poderiam levar às “anormalidades”cromossómicas no tecido
velho, onde o acumular de mutações pode ser um fator que contribui para o envelhecimento
biológico. Estudos de monitoração das mutações de genes específicos em sítios diferentes,
demonstraram níveis significativos de mutações nos tecidos envelhecidos. Certos genes acumulam
mais erros com o tempo, e algumas regiões do genoma, como os telómeros, apresentam mutações
pontuais acima da média.

Teoria do Envelhecimento Autoimune (neuroendocrina-imunológica)


Weisman (1981), defendeu que o fenómeno do envelhecimento resulta do potencial limitado da
capacidade de duplicação das células somáticas, que são as células responsáveis pela formação de
tecidos e órgãos.

O envelhecimento saudável depende da manutenção da capacidade funcional e da plasticidade,


que se vai enfranquecendo com a idade e é necessário também que ocorra a indução de respostas
compensatórias para o organismo, por exemplo por uma alimentação saudável e prática de
exercício físico.

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As respostas imunes são diferenciadas pela idade.

A imunossenescência é caracterizada por uma resistência diminuída às doenças infecciosas,


diminuição da proteção contra o cancro e redução da competência de autorreconhecimento, como
ocorre nas doenças autoimunes.

Porém, a hipótese de que o envelhecimento é causado pela desregulação do sistema imune ainda
não foi confirmada, pois mesmo em idade avançada persiste a plasticidade dos sistemas
neuroendócrino e imune.

1.2 Envelhecimento: Autonomia, Incapacidade, Dependência

Os adultos idosos enfrentam uma grande variedade e uma prevalência elevada de problemas de
saúde, físicos e cognitivos que podem afectar de forma adversa a capacidade para um
funcionamento independente, sendo que a capacidade funcional corresponde à capacidade do
indivíduo poder cuidar de si próprio, desempenhando tarefas de cuidados pessoais e de adaptação
ao meio em que vive.

Na conjuntura atual, podemos enquadrar a dependência no contexto do envelhecimento da


população e das alterações sócio-familiares. Para se falar de dependência devemos considerar três
fatores:

▪ Existência de uma limitação física, psíquica ou intelectual que comprometa determinadas


capacidades;
▪ Incapacidade para realizar por si as actividades de vida diária;
▪ Necessidade de assistência ou cuidados por parte de terceiros.

A definição de dependência de acordo com a Classificação Internacional de Funcionalidade,


Incapacidade e Saúde, propõe o seguinte esquema conceptual para interpretar as consequências
das alterações de saúde:

▪ Défice de funcionalidade: é a perda ou anomalia de uma estrutura ou de uma função anatómica,


fisiológica ou psicológica.
▪ Restrição de actividade: restrição ou perda de capacidade para exercer actividades
consideradas normais para o ser humano, em consequência de um défice de funcionamento.
▪ Restrição da participação: desfasamento entre as limitações surgidas, na sequência de um
défice no funcionamento e/ou restrição da actividade, e os recursos a que o indivíduo tem
acesso, ficando em desvantagem no que se refere a um papel social considerado normal.

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Embora o conceito de dependência se sobreponha muitas vezes ao de incapacidade, eles não são
sinónimos. Por exemplo, o indivíduo que sofre de uma diminuição da acuidade visual pode ser
incapacitado mas, mesmo se sofrer uma restrição de alguma actividade, esta pode ser compensada
mediante a adaptação ao meio, não havendo necessariamente dependência de outras pessoas
para realizar essa actividade.
Uma pessoa dependente será aquela que durante um prolongado período de tempo necessita de
ajuda de outros para realizar determinadas actividades do quotidiano.

No sentido de operacionalizar o conceito de dependência, para se saber o quão dependente é um


indivíduo, avalia-se a dependência pelo método de avaliação da capacidade funcional e esta
avaliação ajudará a determinar a evolução dos indívidios e os cuidados necessários aos mesmos,
consoante o seu grande de funcionalidade.
A funcionalidade define-se como a capacidade de um indivíduo se adaptar aos problemas e
exigências do quotidiano e é avaliada com base na capacidade e autonomia de execução das
actividades de vida diária:
▪ Actividades básicas de vida diária, como higiene pessoal e vestir;
▪ Actividades instrumentais de vida diária, como fazer compras e gerir a toma dos
medicamentos;
▪ Actividades avançadas da vida diária, ligadas à auto-motivação, como actividades de
lazer e contactos sociais.

Exemplos de Escalas de Funcionalidade:

Escala de Barthel (1965): pretende detetar-se pequenas mudanças no grau de dependência e


mede as actividades básicas de vida diária, incluindo a mobilidade.

Escala de Incapacidade Física da Cruz vermelha (1986): avalia a capacidade para o auto
cuidado classificando a pessoa em seis graus.
O desempenho funcional que se encontra bastante individualizado e pode variar com base em
factores como a cultura, a situação socioeconómica e a presença de problemas de saúde.
A capacidade funcional que corresponde à capacidade do indivíduo poder cuidar de si próprio,
desempenhando tarefas de cuidados pessoais e de adaptação ao meio em que vive.
A funcionalidade deve ser avaliada de acordo com o que o indivíduo faz no seu quotidiano e com
os meios de que dispõe e ser relacionada com factores intrínsecos, de natureza física e mental, e
com factores extrínsecos, de natureza social, económica e ambiental, que interfiram na função.
Deve ser classificada de acordo com o grau de auto-suficiência nesse desempenho, o que se pode
manifestar como:

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▪ Independência, com ausência de recurso a qualquer apoio;
▪ Autonomia, com recurso a apoios mecânicos cujo uso permite ultrapassar as
limitações existentes;
▪ Dependência, quando há necessidade de ajuda regular de terceiros, na execução de
pelo menos uma das tarefas de funcionalidade.

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2. PADRÕES DE ENVELHECIMENTO
Embora existem diferentes entendimentos sobre a velhice nas diversas culturas, a velhice constitui-se
como uma fase da vida permeada por múltiplas perdas. Perde-se a juventude, algumas vezes a saúde
e a própria independência. Sem negar as virtudes e a sabedoria que acompanham o envelhecer, é
preciso reconhecer que para a maioria das pessoas este processo não constitui uma etapa fácil. Nesta
perspectiva, pode dizer-se que envelhecer pode representar um acumular de perdas sucessivas ao
longo da vida que incluem as limitações físicas, doenças, reforma entre outras perdas.

O enfrentamento consiste no esforço individual realizado para lidar com os problemas stressantes e
com as emoções que afetam os resultados psicológicos e físicos provocados pela situação
desestabilizadora constituída pela velhice.

Sendo um processo multidimensional e dinâmico que suscita uma série de respostas e que abrange a
interação do indivíduo com o seu ambiente, impõe a utilização de mecanismos para lidar com a
ameaça da velhice e o enfrentar das situações difíceis da vida que se manifestam nesta fase da vida.

O enfrentamento feito pessoas idosas é diferente do enfrentamento feito por pessoas em outras
faixas etárias, já que os agentes stressores também se modificam de acordo com a idade. Enquanto
adultos jovens vivenciam mais stress em áreas que dizem respeito ao trabalho, financeiras, de
manutenção do lar, vida pessoal, família e amigos, enquanto as pessoas idosas tendem a vivenciar
mais stress relacionado com as limitações do envelhecer e a consequente redução de habilidades.

O envelhecimento leva a que sejam mais utilizadas as experiências individuais passadas de


enfrentamento, como um guia para lidar com as situações stressoras do momento presente.
Destacam-se também neste processo as características de personalidade que associados às vivências
anteriores, se refletem de forma consistente nos comportamentos das pessoas.

Entre os 50 e os 90 anos podem destacar-se 4 tipos de personalidade (Havighurst, Neugarten & Tobin,
1968):

Integrados: Indivíduos que apresentam um bom funcionamento psicológico geral, com


vivências intensas, interesses variados e com as competências cognitivas intactas, sendo
capazes de retirar um elevado nível de satisfação dos papéis que desempenham;

Defensivo-Combativos: são pessoas orientadas para a realização, lutadoras e controladas, que


experimentam um nível de satisfação com a vida que vai de moderado a elevado;

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Passivo-Dependentes: Apresentam na velhice uma forma de funcionamento orientado para a
passividade ou dependência como resultado das suas experiências de vida, apresentando por
isso níveis muito variados de satisfação.

Desintegrados: Indíviduos que apresentam lacunas no seu funcionamento psicológico, pouca


atividade, baixo controlo das emoções e deterioração dos processos cognitivos e por isso baixa
satisfação com a vida.

Tem-se verificado que os traços de personalidade não se tornam propriamente mais rígidos mas
estabelizam ao longo da vida adulta e na velhice. Assim a personalidade construída na infância e
na juventude são otimos preditores da adaptação à velhice. As características de personalidade
podem assim contribuir para a manutenção da saúde e bem estar subjetivo na velhice ou por outro
lado podem desencadear sintomas depressivos nos idosos.

Os idosos com características de personalidade mais voltadas para si próprios, são menos
interativos e pouco dominantes, pelo que apresentam menos sinais de depressão do que aqueles
que são mais voltados e interessados no outro, mais organizados, persistentes e interativos.

Os comportamento que se apresentam de forma repetida e consistente são efetivamente padrões


de comportamento e não se manifestam apenas com o envelhecimento, embora nesta fase se
possam intensificar como consequência do envelhecimento e dos seus efeitos.

Padrões de envelhecimento

2.1. Reorganizadores, Focalizados e Persistentes – Idosos que conseguem ter planos de vida e
interesses e mantém motivação para os alcançar (focados e persistentes), aproveitando os seus
recursos para se adaptarem às novas condições de vida e otimizarem o seu bem-estar;

2.2. Restringidos e Apoiados – Acomodam-se às condições físicas e sociais impostas pelo


envelhecimento e manifestam comportamentos de dependência e perda de autonomia;

2.3. Apáticos e Isolados – É comum observar em alguns idosos um declínio nas manifestações
de afeto, nos interesses, ações, emoções e desejos. Se não forem estimulados poderão entrar
em depressão e deixar de interagir com os outros. Os sinais de apatia devem por isso ser
identificados e combatidos precocemente para evitar o declínio das capacidades sociais e
afetivas, evitando que se autoexcluam das atividades, o que podem afetar a sua qualidade de
vida.

2.4. Desorganizados - Como o valor das pessoas é atualmente atribuído e medido através do
que fazem para garantir a sua sobrevivência, o distanciamento do trabalho pode representar

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uma profunda desorganização do quotidiano, com ausência de projetos, propósitos de vida, e
papéis sociais.

2.5. Rígidos – Corresponde à dificuldade na assimilação ou até mesmo na aversão a novas ideias,
coisas e situações, em que o idoso mostra uma maior apego aos valores já conhecidos e
defendidos, assim como às normas e costumes instituídos. Este é um mecanismo de defesa
natural nas pessoas que se sentem menos capazes de lidar com as mudanças. A rigidez permite-
lhes manter-se naquilo que lhes é familiar e onde se sente competentes.

Contrariar este tipo de comportamento é inútil e contrapruducente, pelo que não se deve forçar
um idoso a aceitar algo a que resiste porque isso só vai intensificar os seus mecanismos de
defesa. Será preferível aceitar a resistência do idoso e dar-lhe tempo para que ele próprio
observe nos outros, formas diferentes de lidar com a mudança, ganhando eventualmente
confiança e tornando-se mais flexível.

2.6. Infantilizados – São comportamentos regressivos que procuram reinvindicar atenção e


afeto. São manifestados por amuos, impertinência, abuso, conflituosidade e que provocam nos
outros reações de confronto, zanga ou controlo. Embora provoquem a aproximação dos outros,
esta vem carregada de emoções negativas, que contudo para o idoso é preferível à indiferença.

Esta forma de chamar a atenção é típica de quem não sente ter aptidões para chamar a atenção
de forma positiva. Com estes idosos deve procurar-se não reagir, mas antes responder de forma
preventiva, antecipando as sua necessidades para que este não tenha necessidade de recorrer
a estas estratégias.

2.7. Obsessivos – O aumento da ansiedade associada ao medo da doença e da morte fazem com
que muitos idosos fiquem muito vulneráveis a pensamentos e comportamentos obsessivos,
com sintomas hipocondríacos, fobias e compulsões.

Qualquer tentativa para desconstruir pela lógica os focos da obsessão são recebidos com
desconfiança e hostilidade. Pelo contrário a manifestação de empatia pode acalmar os
pensamentos obsessivos e gera tranquilidade no idoso.

Os padrões de comportamento descritos são disfuncionais e se extremados podem tornar-se


patológicos.

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3. ENVELHECIMENTO NORMAL E PATOLÓGICO

3.1 Características

O envelhecimento é um processo que ocorre ao logo do tempo, de forma progressiva, e que varia de
indíviduo para indíviduo. As pessoas não envelhecem todas da mesma forma. No entanto, para além
das perdas e limitações que podem ocorrer com o envelhecimento, este é também visto como uma
fase de maior maturidade e experiência de vida.
O envelhecimento surge associado a um processo marcado por alterações a nível biológico,
psicológico e social, que se refletem no comportamento do idoso, no tipo de actividades que mantém,
bem como nas interacções sociais.
Apesar de o processo de envelhecimento comportar sempre determinadas perdas, durante o
envelhecimento denominado normal, tais perdas vão sendo integradas no funcionamento individual,
não provocando necessariamente uma perda na qualidade de vida do idoso, ao contrário das
consequências de um envelhecimento patológico que podem ser bastante prejudiciais ao seu bem-
estar. É com o envelhecimento patológico que os aspectos negativos tendem a surgir, como a
incapacidade, a dependência, imaturidade e tristeza.
Berger (1995), distingue entre envelhecimento primário, como o processo de senescência normal, e
envelhecimento secundário, que se refere ao aparecimento, com a idade, de lesões patológicas muitas
vezes múltiplas, mas que se mantêm potencialmente reversíveis. A distinção entre envelhecimento
primário e secundário é importante, dado que tem permitido realizar progressos consideráveis na área
da gerontologia. No entanto, nem sempre é fácil distinguir de maneira precisa estes dois processos,
ou seja, a senescência (o envelhecimento normal), da senelidade (doença).
Envelhecimento Primário - Senescência – Processo natural de envelhecimento
A velhice induz alterações fisiológicas (normais), a que chamamos SENESCÊNCIA. Por exemplo, é
comum ocorrerem, uma leve perda auditiva, diminuição da visão, leve alteração da memória, entre
outras mudanças que não caracterizam doenças.
O envelhecimento é um processo fisiológico (normal) do ser humano e universal, pois atinge todos
os indivíduos que vivem mais de 60 anos. Caracteriza-se por uma perda gradual nas reservas do
organismo, com aumento do risco de contrair doenças e de declínio nas capacidade física e mental.
Este processo, apesar de universal, varia de um indivíduo para outro, ou seja, uns envelhecem
"melhor" que outros, dependendo de fatores genéticos e ambientais.

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Envelhecimento Secundário ou Senelidade – Processo patológico de envelhecimento
O termo senelidade abrange processos patológicos (doenças) “típicos da velhice” que podem
atingir alguns indivíduos, como doenças do coração, cancro, demências (por exemplo, a Doença de
Alzheimer), depressão etc.
Embora o processo de envelhecimento seja universal para todos os indivíduos, constata-se que
este é variável, pois a progressão e intensidade diferem ao longo do processo individual e entre
indivíduos. As alterações causadas pelo envelhecimento desenvolvem-se a ritmos diferentes de
pessoa para pessoa, podendo iniciar-se prematuramente e conduzir à senilidade precoce, ou então
produzir-se de forma lenta e permitir uma vida saudável por muito tempo.

Para Paúl (2005), o processo do envelhecimento possui três elementos:

 Envelhecimento normal - senescência - o processo de envelhecimento biológico advém da


vulnerabilidade crescente e da maior probabilidade de morrer;
 Envelhecimento social – refere-se aos papéis sociais adequados às expectativas da sociedade;
 Envelhecimento psicológico - definido pela regulação do próprio indivíduo, na tomada de
decisões e opções, adequando-se ao processo de senescência e do envelhecimento.

O envelhecimento é assim:

É um processo contínuo, que acompanha o indivíduo ao longo de toda a vida, tratando-se, portanto,
de um fenómeno normal e inerente ao ser humano, que se desenvolve de forma diferente para cada
pessoa, pois cada um tem a sua forma particular de envelhecer. Este processo tem início em diferentes
épocas para as diversas partes e funções do organismo e decorre a ritmo e velocidade que variam no
próprio indivíduo e entre os indivíduos.

É um processo heterogéneo que depende da influência de circunstâncias histórico-culturais, de


factores intelectuais e da personalidade, dos hábitos e actividades físicas praticadas ao longo da vida
e da ocorrência de patologias durante o decorrer do envelhecimento. A forma como envelhecemos
tem a ver com a forma como nos desenvolvemos, como vivemos, ou seja, a senescência é uma função
do meio físico e social em que o organismo se desenvolve e envelhece. O envelhecimento é a
contrapartida do desenvolvimento. Pode ocorrer de maneiras diferentes para indivíduos e grupo de
indivíduos que vivem em contexto históricos e sociais distintos.

O envelhecimento depende dos valores individuais e sociais e por isso da filosofia de vida, podendo
torna-se para uns um período vazio, sem valor, inútil, sem sentido, enquanto que para alguns poderá
ser uma conquista de liberdade, de afastamento de compromissos profissionais, de ter tempo para
fazer aquelas coisas que antes eram impensáveis, ou seja aproveitar a vida, enquanto para outros

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poderá ser apenas um período de descanso, justificado pelo facto de que já deram o seu contributo à
sociedade.

No envelhecimento são comuns os problemas fisiológicos assim como certas doenças que o
acompanham. As modificações fisiológicas e anatómicas associadas ao processo de envelhecimento
têm o seu início muitos anos antes de surgirem sinais exteriores. Ou seja, o seu começo é
relativamente precoce, por volta do final da segunda década de vida, perpetuando-se de forma pouco
perceptível durante a terceira década e será por volta dos quarenta anos que as primeiras alterações
funcionais e/ou estruturais atribuídas ao envelhecimento se tornam mais evidentes, continuando até
à morte, isto é, até que o organismo deixe de conseguir adaptar-se. Estas alterações podem modificar
não apenas o funcionamento do organismo mas também a aparência corporal.

Como refere Figueiredo (2007), todas estas modificações ligadas ao processo de senescência vão
levar, como se referiu, a uma perda progressiva da capacidade de adaptação do organismo, isto é, a
uma diminuição da sua capacidade funcional, ligada ou não à doença. Assim, o processo de
senescência coloca o indivíduo numa situação de maior vulnerabilidade à doença, nomeadamente, a
problemas crónicos de saúde que os podem ser limitantes para a vida quotidiana.

Mesmo sem a ocorrência de patologias, a probabilidade de adoecer e de morrer aumenta com a idade
cronológica, assentando a maior ou menor vulnerabilidade do indivíduo em oito factores: acumulação
de resíduos metabólicos e de radicais livres // exposição a acidentes e a acontecimentos stressantes
// doenças e incapacidades várias // ambiente físico onde se vive // ambiente social e envolvimento
em actividades culturais, religiosas e de aprendizagem // estilo de vida quanto a nutrição, exercício,
consumo de drogas, sono, actividade sexual, lazer e actividades de risco // recursos cognitivos,
materiais e ocupacionais disponíveis // atitude face à vida.

Assim, a prevenção de um envelhecimento patológico passa pela promoção de uma série de condições
pessoais e sociais susceptíveis de favorecer o envelhecimento bem-sucedido, qu dependem de fatores
como a saúde e bom funcionamento físico/mental, manutenção da actividade física e do envolvimento
social.

Principais categorias de envelhecimento

O envelhecimento consiste num processo adaptativo, moroso e contínuo, extremamente complexo,


resultante da interação entre fatores biológicos, psicológicos e sociais em que se podem distinguir três
categorias principais:

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▪ Envelhecimento Biológico – Refere-se ao envelhecimento orgânico e resulta da
vulnerabilidade crescente e de uma maior probabilidade de morrer (senescência) e refere-se
às mudanças operadas no organismo com a idade.
Ao nível biológico caracteriza-se por um declíneo físico visível, denunciado por sinais físicos
como a acentuação das rugas, dos cabelos brancos, perda de massa muscular, perda de
mobilidade, assim como perda da acuidade visual e auditiva.
▪ Envelhecimento Psicológico – Relaciona-se com as competências mentais que a pessoa pode
mobilizar em resposta a mudança do meio ambiente e nas mudanças comportamentais e da
capacidade de adaptação ao processo de senescência, em que se observam alterações da
actividade intelectual, nas motivações, assim como alterações comportamentais e
emocionais.
Nesta fase da vida, capacidades como a linguagem, o sono, a memória e a capacidade de
concentração sofrem significativas diminuições, capacidades que poderão agravar-se se os
idosos optarem ou forem forçados a um tipo de vida sedentária e com pouca atividade.
▪ Envelhecimento Social – Representa a relação da pessoa idosa com os outros elementos da
comunidade onde está inserida, relativamente aos papéis, rotinas e estatuto, sendo
determinada pela cultura do país. Refere-se principalmente às alterações definidas pela
sociedade e que se refletem nos papéis sociais e no estatuto social, especialmente com a
passagem à reforma. O facto da pessoa idosa não contribuir produtivamente para a sociedade
leva a que seja tratada de forma diferente, o que prejudica a sua integração social e,
consequentemente pode levar à marginalização, isolamento social e solidão (embora estes
também possam existir quando a pessoa vive junto de familiares e outros indivíduos).

Na opinião de Papalia (2000), existem três domínios gerais a serem considerados no envelhecimento:

 Primeiro: constata-se um aumento de perdas físicas, tornando-se a saúde um problema


crescente.
 Segundo: As pressões e as perdas sociais que tendem a aumentar.
 Terceiro: a população idosa é confrontada com a ideia de que o tempo está a tornar-se cada
vez mais escasso.
O envelhecimento é assim uma experiência não homogénea que se divide em três realidades:

• Envelhecimento normal - implica mudanças biológicas, psicológicas e sociais inevitáveis e que


ocorrem com o passar do tempo em que surgem doenças físicas e/ou mentais, assim como
restrições funcionais objectivas ou subjectivamente avaliáveis, mas com intensidade moderada ou
ligeira, o suficiente para produzir transformações apenas parciais nas actividades da vida diária.

Situações típicas do envelhecimento normal:

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 Esquecer-se do local onde deixou as chaves;
 Esquecer-se de pagar as contas do mês (água, luz, gás);
 Maior dificuldade em concentrar-se;
 Maior lentidão a processar informação

• Envelhecimento Patológico - refere-se às mudanças originadas pelas doenças. Neste cenário, a


funcionalidade e o padrão de saúde física e mental do adulto jovem não existe ou está afectada,
ocorrendo enfermidades crónicas/degenerativas, que limitam de maneira acentuada a vida do
indivíduo.

Situações típicas do envelhecimento patológico:


 Desorientar-se em locais conhecidos;
 Esquecer-se de eventos recentes;
 Esquecer-se de como pagar as contas do mês;
 Não perceber o significado de uma palavra ou para que serve um objecto que
anteriormente conhecia;
 Perder os óculos e nem sequer lembrar-se de que precisa de óculos;
 Alterações do comportamento ou da personalidade;

• Envelhecimento Bem sucedido – Refere-se à existência da heterogeneidade no processo de


envelhecimento, assim como a existência de capacidades de reserva, que podem ser utilizadas
perante o declínio em determinadas competências. É a velhice em que se verifica preservação da
saúde objectiva (saúde observada), da saúde descrita pelo próprio idoso (saúde percecionada) e
da capacidade de executar determinada tarefa de acordo com o modelo dos adultos jovens.

É tomado como referência o estado óptimo ou ideal de bem-estar social e pessoal. Para tal
contribuem dois factores determinantes que são a manutenção da boa vitalidade, na saúde
mental e física, e a capacidade de se restabelecer de situações de stress.

Para beneficiar de uma velhice bem sucedida devem ser estimulados os domínios
comportamentais em que o indivíduo detém um melhor nível de funcionamento e promover essa
função através de estratégias de treino e de objectivos para melhorar a sua actividade, pois
algumas das alterações morfológicas e funcionais estão associadas à maior taxa de sedentarismo
das pessoas idosas, e não apenas ao envelhecimento celular.

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3.2 Envelhecimento Ativo

O envelhecimento da população é um dos maiores triunfos da humanidade e também um dos


grandes desafios. Ao entrarmos no século XXI, o envelhecimento global causará um aumento das
necessidades sociais e económicas em todo o mundo.

De acordo com a OMS (2005), a saúde é uma meta fundamental durante o processo de
envelhecimento, a fim de manter a autonomia e independência das pessoas mais velhas.

O envelhecimento ativo, entende-se como um processo de optimização de oportunidades para a


saúde, participação e segurança, no sentido do aumento da qualidade de vida durante o
envelhecimento.

O objectivo do envelhecimento activo é aumentar a expectativa de uma vida saudável (com bem-
estar físico, mental e social) e a qualidade de vida para todas as pessoas que estão a envelhecer,
inclusive as que são frágeis, fisicamente incapacitadas e que requerem cuidados (OMS, 2005).

Rowe & Kahn (1998), diferenciam três domínios do envelhecimento activo, traduzindo a
capacidade de manter as seguintes características essenciais:

 Baixo risco de doença e de incapacidades relacionadas com a doença;


 Funcionamento físico e mental elevado;
 Envolvimento/compromisso activo com a vida.

Segundo estes autores a ausência de doença torna mais fácil a manutenção do funcionamento
físico e mental e este, por sua vez facilita, mas não garante, um envolvimento activo com a vida.

O envelhecimento activo é um processo que diz respeito a todas as pessoas e cabe à sociedade a
responsabilidade de criar espaços e equipamentos sociais diversificados e seguros, garantindo ao
idoso, a sua participação cívica na sociedade em que vive. A promoção social, solidária e voluntária,
é uma responsabilidade colectiva e deve corresponder a um investimento afectivo e solidário
durante todo o processo de envelhecimento.

O envelhecimento ativo pode ser promovido/custeado se os governos, as organizações


internacionais e a sociedade civil implementarem políticas e programas de “envelhecimento
activo” que melhorem a saúde, a participação e a segurança dos cidadãos mais velhos.

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As medidas a implementar seriam:

▪ Promoção de um equilíbrio entre os factores sociais, económicos e ambientais e entre a


estrutura e distribuição da população, reconhecendo as tendências demográficas do
envelhecimento da população e otimizando o seu desenvolvimento;
▪ Implementação de políticas adequadas no campo da saúde, alimentação, meio ambiente,
família, segurança social, emprego, educação contínua e de formação específica no âmbito da
Gerontologia e Geriatria;
▪ Participação contínua nas questões sociais, espirituais e civis e não somente dirigidas à
capacidade de estar fisicamente activo ou fazer parte do mercado de trabalho. Permite que
as pessoas percebam o seu potencial para o bem-estar físico, social e mental ao longo do curso
da vida, de forma a que os idosos possam participar na sociedade de acordo com as suas
necessidades, desejos e capacidades. Ao mesmo tempo propicia protecção, segurança e
cuidados adequados, quando necessário;
▪ As pessoas mais velhas que se reformam e aquelas que apresentam alguma doença ou vivem
com alguma necessidade especial possam continuar a contribuir activamente para a sua
família, comunidades e países;
▪ As políticas sociais possam promover a participação e optimização de estilos de vida mais
activos contribuindo para uma maior qualidade de vida das pessoas que envelhecem, quer ao
nível da habitação, acesso a actividades de lazer, desportivas e/ou culturais, voluntariado e de
cidadania, quer ao nível das acessibilidades, da fiscalidade, da saúde ou, até mesmo, ao nível
das respostas sociais, na criação de uma rede institucional diversificada, como:
 Lares de idosos
 Centros de Dia
 Centros de Cuidados Continuados
 Centros de Cuidados Paliativos
 Centros especializados para a demência

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4. ENVELHECIMENTO PSICOLÓGICO E BIOLÓGICO
4.1 Aspetos Sócio-emocionais - Satisfação e Adaptação

Paralelamente às alterações biológicas e psicológicas que ocorrem com o envelhecimento,


associam-se as transformações a nível dos papéis sociais, exigindo capacidade de ajustamento ou
adaptação às novas condições de vida. À semelhança de outras etapas do ciclo de vida a velhice é
um período onde ocorrem algumas modificações, habitualmente representadas pela literatura
gerontológica como perdas ao que se associam inevitavelmente estados de tristeza e de
insatisfação com a vida, embora a perda de alguns papéis sociais não seja necessariamente sentida
pelo indivíduo como algo de negativo. Pode antes pelo contrário ser vivida como um simples
desenrolar de transformações com as quais o indivíduo interage de modo satisfatório.

A velhice caracterizada pela mudança de papéis e, frequentemente, pela perda de alguns deles,
nomeadamente a perda do papel profissional que ocorre no momento da reforma, ou até antes
da idade da reforma, penalizam os mais velhos ao nível do mercado de trabalho. Com o avançar da
idade, mesmo que em termos funcionais continuem aptos para o trabalho, a idade acaba por os
impedir de terem uma profissão ou ocupação.

A refoma enquanto exclusão profissional, induz quer a perda do estatuto conferido pela actividade
profissional, quer a perda do reconhecimento social que ela sustentava. Assim a passagem para a
reforma pode significar uma perda de identidade antes baseada num desempenho profissional
activo e que facultava interacções ao nível social. A par disto, podem surgir as dificuldades
económicas, que vão aumentar a diminuição da participação na sociedade, aumentando o
isolamento e a marginalização.

Adicionalmente também a relação de casal tem que ser reequacionada, assim como as relações
filiais.

Podem também viver-se crises graves com a reforma, viuvez, doença e potencialmente a
institucionalização temporária ou permanente.

Para muitos idosos, a rede social é sinónimo de família, sendo os seus vínculos constituídos
essencialmente por familiares multigeracionais e frequentemente assume-se que são estas redes
familiares que dão resposta às necessidades do idoso. Obviamente, alguns idosos têm redes sociais
mais diversificadas, onde os familiares coexistem a par com outro tipo de vínculos. O apoio pode
ser providenciado de forma mais permanente pelos familiares, enquanto amigos e vizinhos podem
apoiar em questões instrumentais e portanto mais imediatas.

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De acordo com a Teoria da Selectividade Socioemocional (Carstensen, 1992), as pessoas
selecionam ativamente as relações nas quais desejam investir e das quais obtêm maior satisfação.
A autora argumenta que, à medida que as pessoas envelhecem, tendem a desinvestir em relações
que sentem como menos importantes. Contudo, há que salientar que a partir dos 80 anos de idade,
das pessoas consideradas como mais íntimas e próximas, poucas serão as que ainda estão vivas.
Além disso, estas relações são tão próximas e resistem há tanto tempo que dificilmente serão
substituídas.

A solidão está associada à temática da redução das redes sociais. Trata-se de um conceito que se
interliga fortemente (e frequentemente se confunde) com o conceito de isolamento social e viver
só.

 A presença de uma vasta rede social não significa necessariamente a existência de


relações próximas ou a ausência de solidão;
 Viver sozinho não é sinónimo de estar sozinho ou de solidão; nem todos os que vivem
sozinhos estão isolados, embora a maioria dos isolados vivam sós.

A solidão pode ser relacionada com o isolamento social e com recursos do idoso e acontecimentos
de vida. Por exemplo: as pessoas que vivem sós são mais vulneráveis à solidão; solidão e isolamento
são mais comuns entre os muito idosos (devido a fatores como a deterioração da saúde); as
mulheres tendem a sentir mais solidão e isolamento (talvez por terem maior facilidade em assumi-
la). No âmbito de investigações conduzidas sobre o efeito dos factores intrínsecos e extrínsecos no
funcionamento dos idosos, Fontaine (2000), concluiu que os primeiros, embora muito importantes,
não são dominantes depois dos 65 anos, enquanto que os segundos têm um papel determinante,
sendo que a partir dos 65 anos o contributo da hereditariedade diminui a influência fator do
ambiente.

A aplicação do princípio de plasticidade ao processo de adaptação ao processo de envelhecimento,


comporta a consideração de que a generalidade dos idosos (pelo menos nas primeiras etapas da
velhice) manifesta um potencial de adaptação perante situações de transição eventualmente
indutoras de perdas, o que significa que este período do ciclo de vida está sujeito a perdas, mas
igualmente aberto a ganhos desenvolvimentais.

Nós só utilizamos uma parte das nossas capacidades intelectuais e físicas, dispondo de uma reserva
de capacidades físicas e cognitivas susceptível de ser utilizada de acordo com as nossas motivações
e as solicitações do ambiente. No entanto, apesar desta reserva de que o indivíduo dispõe para
otimizar o seu funcionamento - plasticidade, esta vai diminuindo com a idade.

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Sinais Preocupantes nos Idosos
Atualmente e apesar de encontrarmos cada vez mais idosos com um bom estado de saúde e
independentes, existem contudo um ainda maior número que possui doenças graves o que
contribui para atribuir um significado mais negativo a esta fase do processo de envelhecimento,
que realça a inatividade, improdutividade e doenças.

Na velhice avançada os idosos têm que lidar com doenças que podem gerar incapacidade, declínio
das capacidades físicas e motoras, além de perdas degenerativas da memória.

As redes informais constituída por amigos e vizinhos, importantes no apoio prestado aos idosos
são por vezes insuficientes ou ineficazes em determinados momentos em que é exigida a prestação
de cuidados mais específicos e contínuos. Quando a família não tem capacidade ou não quer
assumir a responsabilidade pelo cuidado dos seus idosos, opta de forma cada vez mais frequente
pela institucionalização, em Lares, Casas de Repouso, Centros de Cuidados Continuados ou de
Cuidados Paliativos, que podem reforçar a solidão do idoso face ao corte no relacionamento com
a família, amigos e vizinhos.

O estado funcional do idoso é outro dos fatores que tem efeitos na sua qualidade de vida.
Encontramos pessoas com idade avançada mas capazes e hábeis, enquanto outros veêm
rapidamente deteriorada a sua saúde, o que obriga a respostas mais extremas para garantir os seus
cuidados.

Também a vida dos idosos é significativamente afetada pela sua situação socioeconómica, dado
que disso depende a forma como acede a cuidados de saúde e atividades de lazer.

A institucionalização deve responder à necessidade de ser restabelecido um equilíbrio mais


favorável entre ganhos e perdas (compensação).

Principais Transtornos Afetivo-Relacionais no Idoso

Exposto a um conjunto de perdas e rejeições sociais, o idoso tem tendência para experienciar o
isolamento social, juntando-se o facto de ter poucas ocupações sociais, bem como em alguns casos
pouco contacto com a família e com a comunidade, internalizando a noção de inutilidade.

Assim, durante o processo de envelhecimento podem verificar-se perdas, separações, solidão e


isolamento, que podem levar a um aumento da sintomatologia ansiosa ou depressiva no idoso,
conduzindo a uma baixa auto-estima e reduzida motivação.

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Outro aspecto social que não deve ser colocado de parte, é o facto de cada vez mais o idoso ser
vitima de violência e negligência, tanto por parte da família como da sociedade, gerando abandono
e desrespeito para com o idoso.

4.2 Personalidade no Envelhecimento

A personalidade é definida como sendo um conjunto de traços, atributos ou qualidades que servem
para caracterizar uma pessoa e que são persistentes apesar das adaptações aprendidas em função
das experiências. A personalidade é uma outra dimensão do funcionamento psicológico individual,
susceptível de apresentar variações intra-individuais com o envelhecimento.

Apesar de que os traços de personalidade serem vistos como estáveis, sofrendo uma pequena
influência pela exposição a práticas educativas, da aculturação numa determinada época histórica
ou da experiência de vida, estes estão sujeitos a profundas alterações resultantes de problemas de
saúde, nomeadamente, doenças e deterioração mental em geral, sabendo-se que de acordo com
o perfil de personalidade de cada pessoa, esta torna-se mais ou menos susceptível a determinadas
patologias do foro mental.

4.3 Ajustamento Psicosocial do Idoso

As grandes dificuldades colocadas ao idoso quer pelas alterações familiares, a entrada na reforma
e a diminuição dos contactos sociais e com amigos, impõem a necessidade de uma grande
capacidade de ajustamento às suas novas condições de vida.
No ajustamento psicosocial do idoso é fundamental ter presente que o objetivo é ser capaz de uma
mediação eficiente na resposta do idoso às exigências do meio, tendo que lidar com doenças que
podem levar a incapacidades, declínio das capacidades físicas e motoras, além de perdas
degenerativas da memória.
No envelhecimento os fatores com mais influência no idoso são:
 A resposta social ao declínio biológico;
 Afastamento do trabalho;
 Mudança de identidade pessoal e social;
 Desvalorização social da velhice;
 Indefinição quanto a atividades reconhecidas socialmente e em que o idoso se possa sentir-
se útil.

Face a menores capacidades e/ou a problemas de saúde, a adaptação é dificultada e exige por isso
a optimização do meio físico e social, tendo em vista aumentar a qualidade de vida do idoso.
A institucionalização é uma das respostas à necessidade de ser restabelecido um equilíbrio mais
favorável entre ganhos e perdas (compensação).

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➢ Os principais problemas na área psicossocial relacionam-se com:

1 - Envelhecimento e sociedade
A cultura exerce importante influência no processo de envelhecimento das pessoas, afetando uma
série de percepções e sentimentos dos idosos, de tal forma que envelhecer não é um processo
vivido da mesma forma em diferentes partes do mundo. Nos países orientais, os idosos exercem
papéis centrais e continuam a ser muito respeitados, mantendo na família a sua posição de respeito
até ao fim da vida. Nos países ocidentais, mais orientados para a juventude, o envelhecer pode ser
muito difícil porque significa a perda de qualidades como beleza, vigor, agilidade e atividade
produtiva. O envelhecimento é encarado como uma fonte de perdas e no seio da família o idoso
perde o seu estatuto e são os mais novos que assumem esse papel.
Existem imensos relatos de depressão, ansiedade, ideação suicida e suicídio entre os idosos, pelo
que parece evidente que um ambiente social desfavorável exerce uma influência significativa na
capacidade de ajustamento dos idosos.

2 - Competência dos idosos


Em geral, utilizam-se termos pejorativos pelos jovens e até pelos próprios idosos quando indagados
sobre as sua competências. São comuns termos como: “lento”, “rezingão”, “ouve mal”, “senil” ,
“incompetente”, ...

3 - Capacidades sensoriais e motoras


Várias pesquisas indicam que os processos sensoriais e motores declinam com a idade, pelo que
os idosos sentem mais dificuldade nas áreas de comunicação e locomoção.

4 - Capacidades intelectuais
Embora as habilidades intelectuais quase sempre se deteriorem com a idade, outras tendem a
persistir e apenas uma minoria de idosos exibe sinais claros de senilidade. Desse modo, acredita-
se que os idosos que se movimentam mais, lêem mais e estimulam o cérebro de forma regular,
melhoram bastante sua capacidade intelectual.

5 - Perdas cognitivas
A tendência de lentificação nos idosos com idade superior a 75 anos é verificada nos aspectos
referentes ao processamento de informações e nas habilidades intelectuais. Estes idosos mostram
uma lentificação nas suas capacidades cognitivas e apresentam dificuldade em dividir a atenção e
lidar com várias tarefas ao mesmo tempo, assim como maiores dificuldades em assimilar os
detalhes sensoriais.

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6 - Inteligências Fluidas versus Cristalizadas
Inteligência Fluída: ligada supostamente a uma origem biológica, está relacionada com a
capacidade de raciocinar rapidamente e relembrar grande quantidade de informação num curto
espaço de tempo;
Inteligência Cristalizada: Refere-se a conhecimentos acumulados gradativamente por uma pessoa,
por exemplo; vocabulário, matemática, etc.

7 – Perdas e Lutos
A velhice traz consigo imensos desafios e preocupações e o idoso tem que lidar com vários tipos
de perdas: do trabalho, de pessoas queridas que faleceram e mais tarde com a chegada inevitável
da morte. Nesso sentido é importante que os idosos possam manter atividades que os mantenham
ocupados e lhes permitam viver menos focados nas perdas e mais positivos.

9 - Perceção de controlo
O desejo de domínio e controlo tende a permanecer forte nos idosos, que procuram decidir e
exercer controlo sobre suas rotinas diárias típicas. Uma melhor percepção e exercícios de controlo
acionam benefícios à saúde do idoso, incluindo a melhoria do seu sistema imunológico.

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5. ATIVIDADES PARA PROMOÇÃO DO ENVELHECIMENTO ATIVO

Embora o crescimento da população idosa e o aumento da esperança de vida sejam sinónimo de


progresso social, esta ocorrência como vimos, provoca o aparecimento de novos desafios e novos
problemas. As necessidades crescentes face ao envelhecimento individual e social trazem a
necessidade de aumentar a oferta de serviços de apoio a idosos, já que se intensifica o risco de
vulnerabilidade e disfuncionalidade.

Atividades Desenvolvidas com Idosos


Cuidar de um idoso implica ter um conjunto amplo de recursos:

 Recursos pessoais nas áreas da saúde, sociais, ... recursos sociais informais como familiares,
vizinhos e amigos e recursos formais como sistema de saúde.
 Pessoal técnico que deverá ser capaz de promover a adaptação às novas condições de vida e ter
um papel preventivo, antecipando ou moinimizando as disfunções próprias da idade, eliminando
ou diminuindo as causas das desordens que se vão instalando.

A intervenção deve ser multimodal e multidisciplinar e sempre adaptada às características de cada


idoso.
Deverão ser disponibilizados cuidados que permitam:

 Manutenção de níveis adequados de saúde e bem-estar;


 Promoção das competências e detecção das debilidades;
 Conhecimento dos processos de envelhecimento;
 Compreensão e aceitação das mudanças como normativas;
 Antecipação das dificuldades e disponibilização de alternativas:
 Serviços comunitários |Promoção da saúde |Exercício físico | Dieta adequada | Prevenção de
Acidentes | Gestão do stress | Utilização adequada da medicação

No contacto direto com o idoso, o estabelecimento de uma relação de confiança é fundamental para
o sucesso de qualquer intervenção a realizar.

As atividades e demais intervenções devem ter em atenção:

 Intervenção nos problemas antes que estes se manifestem;


 Aquisição de conhecimentos que permitam alterar hábitos e desenvolver habilidades ou
competências;
 Intervenção individual ou grupal;

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 Direccionada para uma situação problemática ou uma alteração da normalidade que já está
instaurada, pretende impedir o desenvolvimento de resultados mais desfavoráveis;
 Promoção de competências para enfrentar problemas;
 Intervenção imediata após diagnóstico;
 Melhoria, neutralização ou erradicação do fator promotor da crise;
 Compreender os quadros graves de incapacidades já manifestados;
 Limitação das capacidades;
 Reabilitação.
Exemplo de Atividades:
A Pintura/Desenho em tecidos, desenvolve a criatividade, a coordenação motora, a intelectualidade e
a percepção;

A música: desenvolve a percepção intelectual e auditiva;

Dança: competências motoras e emocionais e sociais;

Ciclismo, caminhadas e hidroginástica facilitam a manutenção das capacidades motoras ...

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