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PSICO Ψ

v. 38, n. 1, pp. 35-44, jan./abr. 2007

Demandas de psicologia escolar para uma clínica-escola


Renata Sassi
Serviço de Psicologia Aplicada(SEPA-UCS)
Alice Maggi
Universidade de Caxias do Sul (UCS)

RESUMO
O estudo objetiva caracterizar e compreender as demandas das instituições escolares ao Serviço de Psicolo-
gia Aplicada, incluindo a análise de ações já realizadas e seus respectivos efeitos. Os referenciais teóricos
foram da Psicologia Escolar e da Psicanálise. Utilizado o método qualitativo, baseado na análise de conteú-
do das 22 entrevistas semidirigidas realizadas com diretores, professores e estagiárias supervisionadas do
Curso de Psicologia na Área Escolar. As categorias descritas apontaram para semelhanças e diferenças tanto
entre os depoimentos como em direção às possibilidades de trabalho na área. Foram constatadas distorções
entre o que a escola entende como função do Psicólogo Escolar e o que, teórica e tecnicamente, se oferece
como intervenção possível na comunidade escolar. Este estudo contribuiu para uma avaliação da interven-
ção em Psicologia Escolar, permitindo a proposição de novas perspectivas que tenham sua origem nos mei-
os acadêmicos da graduação.
Palavras-chave: Psicologia escolar; formação em psicologia; intervenções.

ABSTRACT
Demands of Psychology for a Clinical School
This study aims at characterizing and understanding demands of schools to the Applied Psychology Service,
including the analysis of actions already taken and their respective effects. Theoretical reference are School
Psychology and Psychoanalysis. It has been used the qualitative method based on the content analysis of 22
semidirected interviews performed with school directors, teachers and supervised trainees of the Psychology
Undergraduate Course in the school area. Described categories pointed to similarities and differences both
between testimonies and the possibilities of working in the area. Distortions were verified between what the
school understands as the function of the school psychologist and what, technically, is offered as a possible
intervention in school community. This study has contributed to an assessment of the intervention in School
Psychology, allowing to propose new perspectives that have their origin in university undergraduate
environment.

Key words: School Psychology; psychology and education; interventions.

INTRODUÇÃO Tais solicitações ocorrem diretamente ao SEPA ou por


O objetivo deste trabalho é caracterizar as deman- meio da Coordenação dos Estágios Supervisionados,
das de psicologia escolar, incluindo a revisão do que ou seja, ao se receber as solicitações, faz-se uma tria-
tem sido feito até agora e articulando, permanentemen- gem avaliando se a mesma constituir-se-á num campo
te, com as ações propostas e os aspectos teóricos en- específico de estágio, ou merecerá uma intervenção,
volvidos. através do SEPA, naquele momento.
A cada ano, o Serviço de Psicologia Aplicada O atendimento a tais solicitações, por meio de ati-
(SEPA), do Curso de Psicologia da UCS, recebe um vidades de estágio dos acadêmicos do curso, tem
número maior de solicitações de atendimento nas qua- resultado em experiências importantes tanto para os
tro áreas que disponibiliza: clínica, comunitária, esco- alunos, para sua formação acadêmica, como para as
lar e organizacional. Na área de psicologia escolar, instituições solicitantes que estabelecem uma parceria
além de mais numerosas, as solicitações têm caracteri- com a Universidade de caráter comunitário e filan-
zado-se por serem referentes a intervenções focais. trópico.
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Até a realização deste estudo em forma de projeto escolar e da psicanálise. Entretanto, o levantamento
de pesquisa, o registro dos atendimentos era realizado preliminar não foi suficiente para conhecer a realida-
semestral ou anualmente, sem obedecer a uma siste- de na medida em que se trabalhava exclusivamente
matização das informações coletadas no que se refere com os depoimentos dos estagiários sob supervisão
ao aprofundamento dos relatos. Além disso, os relató- acadêmica, prescindindo-se da fala da Escola, quer
rios disponíveis somente incluíam as observações e os seja pelos dirigentes ou professores, razão pela qual se
entendimentos dos estagiários e da supervisora de es- esboçou a metodologia, a seguir, apresentada.
tágio. De qualquer modo, havia um volume expressi- A Psicologia Escolar constituiu-se, no início do
vo de informações que pôde ser aproveitado para este século XX, como uma área de conhecimento da Psico-
estudo. logia Aplicada, a qual se propunha a estudar questões
Em setembro de 2002, no I Congresso Brasileiro de interesse da educação. Somente, na década de 40,
de Psicologia: Ciência e Profissão, em São Paulo, uma tornou-se uma prática profissional, tendo suscitado
das pesquisadoras apresentou o painel “Contribuições inúmeras reflexões acerca da identidade dos profissio-
e Novas Perspectivas de Intervenção em Psicologia nais que nela atuam, cujas elaborações foram publi-
Escolar – SEPA”, trabalho que identificou as interven- cadas por Khouri e colaboradores, 1984; Albuquerque,
ções realizadas pelo SEPA na área da Psicologia Esco- 1986; Patto, 1997a e b, 1990; Bacha, 1998; Novaes,
lar, apontando também as estratégias mais freqüentes 2003 e Maluf, 2003. Vários trabalhos apontam para a
de atendimento, durante os anos de 1998 a 2001. O necessidade de monitorar com mais detalhamento as
trabalho, primeiramente, resumiu-se num levantamen- etapas de uma intervenção em Psicologia Escolar,
to de informações que, posteriormente (Sassi, 2007), como os de Masini, 1981; Machado, 1997; Pandolfi,
foi ampliado para produzir conhecimento capaz de tra- 1999; Souza, 2000; Neves e colegas (2002) e Ma-
zer melhorias nos serviços prestados pelo setor, dessa raschin, Freitas e Carvalho e Souza (2003). Enten-
forma, superando o modelo tradicional de atender ex- de-se que, dessa forma, o impacto pode ser melhor ava-
clusivamente às demandas focais. liado e as correções eventuais também serão propostas
No momento da realização deste estudo, havia sido a partir de alguns indicadores e parâmetros. Interes-
concluído uma planilha com o levantamento das inter- sante comentar que estudos recentes na área da Psico-
venções realizadas por estagiários de psicologia entre logia Escolar e da Educação têm indicado para a ne-
os anos de 1994 a 2001, utilizando os registros docu- cessidade de refletir, profundamente, sobre as condi-
mentais do Serviço, nos quais se especificava a identi- ções nas quais se propõe uma intervenção em Psicolo-
ficação das instituições escolares, as atividades desen- gia, apontando a urgência em contextualizar a ação do
volvidas, suas freqüências e o tempo de duração das psicólogo à realidade educacional e social brasileira
mesmas, desse modo, ampliando um pouco o espectro (Neves e colegas, 2002). Zanella in Maraschin, Freitas
desse conjunto de observações. Os resultados do e Carvalho (2003) sugere que o primeiro passo para
mapeamento das 85 instituições, preferencialmente uma intervenção do psicólogo que precisa responder
públicas, permitiram identificar, através das atividades às queixas escolares é definir um lugar para a escuta e,
propostas, os principais motivos que estariam levando para isso, é necessário considerar tanto o ensinar quan-
as escolas a buscarem um atendimento especializado. to o aprender e seus múltiplos agentes, marcados por
Ressalta-se, na análise das atividades desenvolvi- condições sociais, históricas, econômicas e políticas
das pelos estagiários, uma variabilidade de ações en- que os constituem.
volvendo grupos operativos com educadores, estudan- É provável que, dessa maneira, se consiga alcan-
tes e pais, orientações aos professores, orientação çar níveis mais apropriados de qualidade, visto que
vocacional, consultoria às equipes diretivas, aconse- conhecer as demandas da escola como um todo, da
lhamentos focais e palestras sobre temas contemporâ- clientela, dos pais e do perfil dos educadores é uma
neos, como limites na educação, sexualidade e drogas. necessidade para uma reflexão orientada a novas pos-
Além disso, têm sido privilegiadas abordagens gru- sibilidades científicas e profissionais no campo da Psi-
pais, otimizando a relação tempo na escola e número cologia Escolar. A construção do conhecimento surge
de atendimentos, isso porque também há uma deman- pelos desafios de situações novas e são justamente es-
da que se repete ou se alterna indicando, portanto, a sas atuais demandas das escolas que representam gran-
necessidade de intervenções a médio prazo. des questões para as quais se deve buscar recursos
Tais demandas exigem do profissional e do acadê- originais, explicativos e metodológicos que orientem
mico em psicologia escolar uma formação apropriada a ação do Psicólogo Escolar.
que contemple esse novo cenário, integrando os co- As intervenções são geralmente propostas com
nhecimentos e recentes avanços teóricos e técnicos base nos dados relatados pelas escolas, provenientes
dessa área do conhecimento àqueles do campo social, das observações ali realizadas, colhidos nas diversas
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situações do cotidiano escolar (sala de aula, interva- gico e sua re-significação no contexto das práticas es-
los, reunião de pais, atividades extraclasse), dados que colares.
serão analisados posteriormente. No entanto, são es- Em consonância com essa tendência, entende-se,
cassos os parâmetros que orientem com agilidade o em suma, que, dispondo-se das informações pertinen-
planejamento do trabalho do psicólogo, incluindo o tes, o impacto das intervenções do psicólogo na situa-
próprio contexto ao qual a escola está inserida e a his- ção escolar poderá ser melhor avaliado e as correções
tória das intervenções anteriores. eventuais também poderão ser melhor propostas, pro-
A Psicologia Escolar encontra-se em um momento duzindo, assim, conhecimento.
de importantes desafios e de expansão do significado
de seu papel frente à demanda da comunidade em que MÉTODO
se insere. Hoje, de acordo com Neves e colaboradores
(2002), Novaes (2003) e Joly (2000), o trabalho do O método utilizado é o qualitativo, privilegiando-
Psicólogo Escolar ainda não consolidou seu espaço se a análise de conteúdo conforme as especificações
de atuação profissional, existindo a necessidade de de Bardin (1979), no tratamento das 22 entrevistas
redefinição de seu papel nas instituições escolares semidirigidas gravadas e transcritas na íntegra.
visando ao exercício de uma prática psicológica inte-
Participantes
grada com a realidade brasileira mais preventiva e
interdisciplinar. Foram entrevistadas: – professoras, nas funções de
Para que todos esses aspectos possam ser contem- direção e docência, escolhidas aleatoriamente num
plados, é preciso pensar na perspectiva de redi- número correspondente a 15% do total, no mínimo, de
mensionar a formação acadêmica dos profissionais de cada grupo e – alunas do Curso de Psicologia da Uni-
psicologia no que tange às ações socioinstitucionais, versidade de Caxias do Sul, que estivessem em está-
incluindo, principalmente, as ações dirigidas ao âmbi- gio supervisionado na área de Psicologia Escolar. A
to escolar projetando-se não somente em instituições seguir, fez-se a descrição de cada um dos grupos de
formais de ensino desde a Educação Infantil até a Uni- entrevistadas.
versidade, mas também em diferentes espaços educa- Direção. Seis professoras exercendo o cargo de
cionais que visem a promover o desenvolvimento e direção de escolas estaduais (cinco) e uma de escola
aprendizagem dos indivíduos. Dois trabalhos recentes particular, com idade média de 47 anos. Quanto à for-
podem ser apontados para ilustrar o interesse atual mação, duas entrevistadas são pós-graduadas e quatro
pelo tema. Um deles é o de Pandolfi (1999) que, ao possuem curso superior. O tempo de serviço de cada
estudarem a inserção do psicólogo escolar na rede diretora é de aproximadamente 23 anos, sendo que o
municipal de ensino de Londrina, trataram de caracte- tempo que atuam na instituição visitada é de, em mé-
rizar suas ações a fim de levantar subsídios para novas dia, 15 anos. As escolas das quais tais professoras
contratações. Outro trabalho é o de Souza (2000), que eram diretoras contam com um quadro de vinte e três
enfatiza ser a queixa escolar sendo objeto de preocu- professores, em média, e atende cerca de 390,25 alu-
pação e reflexão da prática psicológica, concluindo nos.
que é possível desmistificar crenças e valores arraiga- Professoras. Doze professoras de escolas esta-
dos na formação universitária. Em ambos os trabalhos, duais (onze) e uma em escola particular, com idade
nota-se o interesse não somente pelo foco acadêmico, média de 35 anos. Quanto à formação profissional, três
de formação do psicólogo, como também pela dimen- professoras possuem pós-graduação, seis nível supe-
são pragmática da contratação de psicólogos na rede rior, duas nível superior incompleto e uma delas ensi-
pública. no médio – magistério. O tempo de serviço de cada
Conforme a experiência de pesquisadoras (Maggi, professora é de 11,5 anos, aproximadamente, sendo
Levandowski e Nunes, 1998a e b, Sassi, Pereira e que o tempo que atuam naquela instituição visitada é
Carraro, 2000 e Sassi, 2002), seria relevante a dedica- de 4,5 anos, em média.
ção à pesquisa que aproxime as questões de investiga- Estagiárias. Sete alunas – estagiárias de Psicolo-
ção psicológica com a dos serviços prestados à comu- gia Escolar (três de módulo I e quatro de módulo II),
nidade. Tal prática tem sido estimulada e divulgada no acadêmicas de Psicologia – UCS – freqüentando está-
meio acadêmico, em âmbito nacional e internacional. gio supervisionado e, portanto, concluído mais da me-
Conforme Neves e colaboradores (2002), a área de tade das disciplinas obrigatórias para sua formação,
Psicologia Escolar carece de uma produção teórica estando na etapa profissionalizante do mesmo. Quan-
consistente e sistematizada que possibilite, tanto aos to à idade, as participantes variam entre 24 e 38 anos,
psicólogos em formação como aos profissionais em com idade média de 27,5. Das sete entrevistadas, seis
exercício, uma apropriação do conhecimento psicoló- das participantes realizam seus estágios em escolas
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estaduais e uma em escola particular que atende clien- sendo que aquelas interpretadas como conteúdo simi-
tela de baixa renda, da cidade de Caxias do Sul, sob a lar foram consideradas como uma única resposta. As
supervisão da mesma professora (pesquisadora coor- respostas que incluíam concepções distintas foram
denadora deste projeto). As estagiárias foram entre- desdobradas em mais de uma, mesmo em se tratando
vistadas pela pesquisadora colaboradora para, dessa da mesma participante.
forma, controlar as variáveis presentes na entrevista, As categorias contemplaram as semelhanças e di-
uma vez que eram abordadas questões específicas do ferenças encontradas na variedade das respostas das
estágio e a pesquisadora orientadora deste projeto era participantes. Serão apresentadas em dois blocos con-
a supervisora de estágio. siderando os três grupos de entrevistados: Direção/
Professores e Estagiários.
Instrumentos Grupos de direção e professores. Solicitação da
Foram elaborados três roteiros de entrevista Intervenção, Conhecimento sobre a Psicologia Esco-
semidirigida, correspondentes ao grupo de participan- lar, Experiências Anteriores, Atividades propostas pela
tes abordando focos específicos com cada um dos gru- Escola, Atividades propostas pela Estagiária, Ava-
pos. Por exemplo, em relação à direção: o que levou a liação.
Escola solicitar uma intervenção em Psicologia Esco- Grupo de estagiárias. Motivação na realização do
lar? Comente sobre seu conhecimento sobre a Psico- estágio, Articulação entre experiência acadêmica com
logia Escolar e suas aplicações. A Escola já teve expe- as atividades desenvolvidas e Compreensão da Psico-
riências anteriores a esta? Quais as atividades que fo- logia Escolar como futuro campo profissional. Encon-
ram propostas pela Escola? Quais as atividades que tram-se, nas Tabelas 1 e 2, as categorias correspon-
foram propostas pelo Estagiário? Qual a sua avaliação dentes a cada um dos grupos dos entrevistados com as
dos resultados obtidos? Em relação ao professor(a), correspondentes unidades destacadas nas entrevistas.
comente seu conhecimento sobre a Psicologia Escolar Na continuação, a análise dessas categorias.
e suas aplicações. A Escola já teve experiências ante-
riores a esta? Quais as atividades que foram propostas Direção e Professores
pela Escola? Quais as atividades que foram propostas Solicitação da Intervenção. Os estágios de Psico-
pelo estagiário? Qual a sua avaliação dos resultados logia Escolar iniciam, obrigatoriamente, após a solici-
obtidos? E, finalmente, em relação ao estagiário(a) de tação da própria escola, por isso, entendeu-se adequa-
Psicologia Escolar, qual a sua motivação na realização do indagar o que levou a escola a solicitar uma inter-
do Estágio em Psicologia Escolar? Como foi sua re- venção em psicologia escolar. As participantes – Dire-
cepção no local? Como você tem articulado sua expe- toras – referiram como motivos, principalmente, a pro-
riência acadêmica com as atividades desenvolvidas? blemática com os alunos, ou seja, crianças com difi-
Quais os referenciais teóricos utilizados até o momen- culdades na aprendizagem, com desvios de conduta,
to? Como você compreende a Psicologia Escolar como agressividade, desinteresse, excesso de distração, bai-
futuro campo profissional? xa auto-estima, insegurança. Acrescentaram, em segui-
Procedimentos da, a hipótese de que tais problemas se encontrariam
associados a famílias desestruturadas. Os alunos já
As escolas foram selecionadas dentre a listagem
parecem estar identificados com problemas psicológi-
daquelas que estivessem solicitando atendimento ao
cos, sendo dessa forma tratados, residindo aí a busca
Programa de Intervenção Escolar do SEPA e à Coor-
do profissional especializado. Interessante notar o re-
denação de Estágios. As vinte e duas entrevistas
conhecimento, em algumas das falas, que o próprio
semidirigidas foram realizadas num procedimento face
professor pouco conhece acerca dessas dificuldades
a face, individualmente, e foram gravadas e transcritas
manifestadas pelos alunos. A compreensão das con-
posteriormente; tal processo foi executado após o con-
dutas parece distante do processo de ensinar. No pólo
sentimento do entrevistado.
oposto, encontra-se uma fala que enaltece a importân-
cia do papel do psicólogo na escola, sem precisar o
RESULTADOS
foco de trabalho. Oportuno o convite no sentido de in-
As respostas das questões formuladas nas entre- serção das equipes especializadas, contudo deve ser
vistas foram lidas exaustivamente e, a partir daí, sub- visto com cautela na medida em que a falta de objeti-
metidas à análise de conteúdo com a elaboração de vos também pode gerar algo de nebuloso na prática
categorias que se remetem e se relacionam às pergun- profissional. Destaca-se a referência na busca de pro-
tas formuladas para as entrevistadas. Para a proposi- fessores especialistas para auxiliar a escola juntamen-
ção das categorias, inicialmente, foram levantadas as te com o estagiário de Psicologia, ainda iniciante na
unidades de sentido desde as falas das participantes, sua prática.
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TABELA 1
Categorias correspondentes ao grupo dos entrevistados da direção e professores com as correspondentes
unidades destacadas nas entrevistas
Categorias Direção – Unidades de Sentido Professores – Unidades de Sentido
Solicitação da Problemática com os alunos: dificuldades na Problemática com a clientela, envolvendo as
Intervenção aprendizagem, desvios de conduta, agressividade, famílias, tanto no âmbito da aprendizagem quanto
desinteresse, excesso de distração, baixa auto-estima, nas contingências socioeconômicas.
insegurança e famílias desestruturadas. Apoio aos professores e direção.
Conhecimento limitado acerca das dificuldades
manifestadas pelo aluno.
Inclusão da Psicologia numa equipe especializada
juntamente com outros professores.
Destaque para a importância do papel do psicólogo,
sem precisar o foco de trabalho.
Conhecimento sobre a Conteúdo voltado às crianças com dificuldades de Enfoque nas dificuldades de comportamento,
Psicologia Escolar aprendizagem e às famílias. relacionamento e aprendizagem.
Caráter interdisciplinar da aprendizagem: Concepção dos conhecimentos da Psicologia como
psicologia/pedagogia. integrante no processo dinâmico da escola.
Reconhecimento do pouco conhecimento da área, mas
percepção do profissional como agente dinâmico de
cooperação no processo de ensino-aprendizagem.
Entendimento quanto a buscar uma origem (família ou
escola) para compreender a complexa relação da
criança com o aprender.
Experiências Anteriores Avaliações positivas, envolvendo professores, Associações quanto à presença do estagiário no
funcionários, alunos e pais. encaminhamento de graves situações
Atividades propostas Trabalhos com a temática sexualidade na Atendimento e assessoramento aos alunos e
pela Escola adolescência, orientação aos pais, aconselhamento de famílias.
alunos e assessoramento aos professores. Trabalhar com a temática da sexualidade.
Assessoria direta com professores e funcionários,
encaminhamento de casos individuais de alunos e/ou
pais e famílias.
Atividades propostas Orientação e aconselhamento. Atividades que tentam superar o modelo
pela Estagiária Trabalhos em grupo, a professores, alunos e reconhecidamente clínico, como grupo com
familiares: líderes de turma, classe especial, reuniões professores.
de conselho escolar, clube de mães e reuniões de pais. Atendimento a alunos com desadaptações
escolares, tanto de aprendizagem como de conduta.
Avaliação Avaliação positiva, exemplificando a aceitação pelos Avaliação positiva, enfatizando a competência, a
alunos e famílias comparecerem na escola pela disponibilidade e presença na escola.
solicitação da estagiária.
Referência a melhora na relação afetiva
educando/educador, para além das problemáticas
individuais de cada aluno e/ou sua família.

TABELA2
Categorias correspondentes ao grupo dos entrevistados das estagiárias com as correspondentes
unidades destacadas nas entrevistas
Categorias Estagiárias – Unidades de Sentido
Motivação na realização Impressões positivas, tanto pela abrangência como pelo interesse despertado nas disciplinas afins durante
do estágio a Graduação.
Possibilidades de trabalho envolvendo pais, professores e a própria clientela.
Destaque aos aspectos positivos, mesmo reconhecendo eventuais dificuldades, como resistências iniciais
ao trabalho.
Articulação entre Referências aos autores correspondentes aos estudos e Psicologia Escolar, lembrando aspectos
experiência acadêmica com institucionais e relação professor-aluno.
as atividades desenvolvidas Reconhecimento da articulação, mas o discurso não ultrapassa posicionamentos como relevância da
escuta, ou seja, nem sempre as verbalizações parecem claramente corresponder a um estágio de
Psicologia Escolar.
Compreensão da Psicologia Clareza da dificuldade quanto à inserção, seja por contratações, concurso ou outras formas de trabalho.
Escolar como futuro campo Referência a um tipo de mudança futura.
profissional

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As participantes – professoras, no que se refere a suas famílias, sendo mínimo o planejamento de traba-
essa categoria, também, enfatizaram a problemática lho.
com a clientela, envolvendo as famílias, detalhando
dificuldades das mais variadas tanto no âmbito da Atividades propostas pela Escola
aprendizagem como contingências soioeconômicas. No que se refere às atividades que foram propos-
Referiram, igualmente, o apoio necessário aos profes- tas pela escola, há uma variedade de situações, desta-
sores e direção. cando-se, inicialmente, aquelas em que a própria esta-
giária esboçou um plano e foi aceito, envolvendo tra-
Conhecimento sobre a Psicologia Escolar balhar com a sexualidade na adolescência, orienta-
Identificaram-se, nos discursos das Diretoras, as ção aos pais, aconselhamento aos alunos e o assesso-
falas que confirmam o item anterior, ou seja, a Psico- ramento aos professores. Nesses casos, o papel da es-
logia Escolar mais voltada para as crianças com difi- tagiária traduziu-se em atividades que vinham ao en-
culdades de aprendizagem, estreitando a proximidade contro do que a escola identificava como proble-
com crianças até a quinta série, em que a problemática mático. Em outras palavras, estabelecer ao estagiário
seria mais evidente e freqüente. Na continuidade, en- a função obrigatória de diagnosticar o seu local e, só a
contra-se, também, presente o papel da Psicologia partir daí, elaborar um plano de trabalho ao contrário
Escolar junto às famílias dessas mesmas crianças de já se apresentar com uma rotina estabelecida.
com problemas no desempenho escolar. Para além da Ainda nesse aspecto, foram identificadas outras
clientela destacam-se respostas aludindo ao caráter abordagens envolvendo assessoria direta com os pro-
interdisciplinar da aprendizagem, integrando a psico- fessores e funcionários, encaminhamento de casos in-
logia e a pedagogia pela via da subjetividade. Nesse dividuais de alunos e/ou de pais e famílias, que neces-
aspecto, parece haver um espaço para a própria difi- sitariam de um acompanhamento maior que os pró-
culdade no processo de aprender, representando um prios professores ou a direção solicitam. Fundamental
pouco mais de flexibilidade do que foi tomado na assinalar aqui o trabalho propriamente do encaminha-
questão anteriormente comentada. mento como processo de ajuda no sofrimento psíquico
Sobre o conhecimento prévio da Psicologia Esco- identificado, e não somente num sentido estrito e do-
lar, a maior parte das participantes – Professoras – fo- cumental.
calizou igualmente nas dificuldades de comportamen- Desde a perspectiva dos depoimentos das Profes-
to, relacionamento e também de aprendizagem. Ou soras, geralmente, a escola propunha atendimento aos
seja, aquele que poderia responder às causas dos fra- alunos e famílias, assessoramento, entre outras ativi-
cassos dos alunos no que tange ao aprender e ao se dades, buscando compatibilizar com o que a aluna pen-
relacionar. Nesse sentido, foram observadas variações sava em realizar. A temática da sexualidade também
quanto ao papel da Psicologia. Mesmo sem haver uma aqui é incluída como algo difícil de lidar no ambiente
distinção entre o profissional e o estagiário, algumas escolar.
professoras os vêem como colaboradores no processo
integral da escola e isso parece ser muito relevante. Atividades propostas pela Estagiária
Há uma alusão ao caráter descontinuado do trabalho Procurou-se conhecer até que ponto a Direção se
em função da natureza do estágio e, também, uma di- interou das técnicas aplicadas, o que representaria a
ferenciação entre o que seria a Psicologia que acom- genuína integração do trabalho. Como foi comentado
panha a comunidade escolar e aquela que se reduz a anteriormente, para alguns não havia parâmetros, pois
uma visita e/ou uma palestra. inaugurava-se ali a experiência de intervenção em Psi-
cologia Escolar com um estagiário. Para aqueles que
Experiências anteriores já conheciam algo das práticas do psicólogo na escola,
Das seis entrevistadas, mais da metade delas afir- confirmaram de que os estagiários desempenhavam as
mou já ter havido experiências avaliadas como muito atividades previstas conforme as expectativas dos co-
positivas envolvendo professores, funcionários, alunos legas em períodos anteriores.
e pais. As demais, portanto, não puderam responder a Foram mencionadas também atividades de orien-
essa questão, pois a experiência com o estagiário em tação e aconselhamento como integrantes da prática
Psicologia dava-se pela primeira vez. do estagiário. Destaque para a descrição das possibili-
No que diz respeito às Professoras, experiências dades de trabalhos em grupo, o que confirma a orien-
anteriores foram relatadas muito mais identificadas tação acadêmica teórica em que esses mesmos estagiá-
com graves situações de comportamento dos alunos. rios são permanentemente convidados a praticarem.
Uma vez mais preocupando a situação já quase tera- Tanto em relação aos professores como aos alunos e
pêutica da psicologia com as crianças problemáticas e familiares, houve exemplificações de situações de tra-
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balhos de grupo bem específicas, como líderes de tur- sido destacados aspectos muito positivos frente ao es-
ma, classe especial, reuniões de conselho escolar, clu- tágio, tal descrição não excluiu o reconhecimento de
be de mães e reuniões de pais, denotando o grau de eventuais dificuldades como resistências iniciais ao
participação estágio/escola. Frente à consideração do trabalho. Importante comentar, também, nas falas das
estagiário em formação, destacou-se, nesse ponto da Estagiárias de Psicologia, que, por um lado, indicaram
entrevista, referência a certa concordância entre o que a surpresa de ter sido o estágio escolar uma experiên-
a escola necessita e o que o próprio estagiário deseja cia relevante e, por outro, o caráter familiar de estagiar
realizar. Tal ponto merece destaque como uma delica- em uma escola, numa clara alusão ao fato de terem
da situação de atender a esse aspecto tão subjetivo. sido alunas em momento não muito distante em sua
Preocupante pensar quando isso não acontece, em ou- história de vida. Deve-se considerar o fato delas, atual-
tras palavras, e se ao estagiário é solicitado algo com o mente, também alunas de nível superior, situarem-se
qual não se identifica. muito mais num plano profissional do que ainda estu-
As Professoras, por sua vez, relataram que da par- dantes. Tem-se a dimensão favorável do momento do
te das estagiárias foram propostas atividades que ten- início do estágio, identificando tanto a receptividade
tavam superar o modelo reconhecidamente clínico, ou dos alunos como dos professores. Em relação a esses
seja, grupos com professores, refletindo as questões últimos, relataram que para alguns deles foi necessá-
mais problemáticas. Mesmo assim, predominaram as rio um trabalho de esclarecimento, sugerindo temores
atividades, segundo o depoimento das professoras, que no que se refere ao trabalho do estagiário de Psicolo-
respondam às queixas, isto é, atendimento a alunos gia no ambiente escolar. Esse fato chama a atenção na
com dificuldades escolares, quer sejam elas de apren- medida em que as direções de escolas, reiteradamente,
dizagem e/ou de conduta. têm solicitado a presença do estagiário em vários tur-
nos em suas escolas. Reflete, portanto, que a clareza
Avaliação do papel via direção, não obrigatoriamente, representa
A Direção e Professores parecem comprovar posi- a totalidade dos professores.
tivamente as intervenções dos estagiários, exemplifi-
cando a aceitação com o fato dos alunos e famílias Articulação entre experiência acadêmica com as
comparecerem sempre que solicitados pela estagiária. atividades desenvolvidas
Sabe-se que esse não seria o único indicador, mas deve Das sete entrevistadas, apenas duas delas nomea-
ser considerado. Outro ponto interessante a comentar ram autores correspondentes aos estudos de Psicolo-
é a referência de que houve melhora na relação afetiva gia Escolar, lembrando aspectos institucionais e tam-
educando/educador, para além das problemáticas in- bém sobre a relação professor-aluno. Muito embora a
dividuais de cada aluno e/ou sua família. Finalmente, todas seja evidente a possibilidade de integração entre
foi enfatizada não somente a competência das estagiá- teoria e prática, parece que, num primeiro momento,
rias, mas a disponibilidade e sua presença na escola realmente, as demandas de trabalho desestruturam o
como fatores altamente positivos para o cotidiano da que já havia sido estudado nas disciplinas. Apesar dis-
comunidade escolar. Das limitações do trabalho, tam- so, focalizam de maneira mais pontual os aportes teó-
bém se deve mencionar a referência às eventuais di- ricos e daí, realmente, elencaram uma lista de autores
ficuldades surgidas dando conta da própria caracte- estudados, destacando-se tanto os autores vinculados
rística do estagiário encaminhado para a escola em aos aspectos teóricos da aprendizagem e da psico-
questão. Compreende-se que, nem sempre, haverá uma pedagogia como também os que ressaltam os psico-
reciprocidade do trabalho proposto e do grupo interes- dinamismos nos processos grupais. Nesse particular,
sado. fazem-se presentes as possibilidades interdisciplinares
ao longo da formação, visto que os estagiários mencio-
Estagiárias naram um aproveitamento satisfatório de disciplinas
realizadas em outros cursos, como no de Pedagogia.
Motivação na realização do estágio
As estagiárias referiram, na sua maioria, impres- Compreensão da Psicologia Escolar como futuro
sões positivas, justificando tais posições sob distintos campo profissional
pontos de vista, seja pela abrangência que o mesmo No que se refere à área escolar como prática pro-
significa, seja pelo próprio interesse despertado nas fissional, identificou-se, na maioria das participantes,
disciplinas afins durante a graduação. Destaca-se o uma clareza da dificuldade quanto à prática inserção,
detalhamento que algumas respostas incluíram no que seja por contratações, concursos ou outras formas de
diz respeito às possibilidades de trabalho, envolvendo trabalho. Independente disso, todas insistiram em al-
pais, professores e a própria clientela. Mesmo tendo gum tipo de mudança futura.
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Salienta-se que se encontrou como resultados en- nha, portanto, com as considerações de Feitosa (1999)
tre o grupo de estagiários uma fragmentação entre os quando alerta que o Serviço de Psicologia deve con-
modelos teóricos e a prática. templar, ao mesmo tempo, os requisitos para a forma-
ção do psicólogo e as necessidades de atendimento
DISCUSSÃO psicológico da própria comunidade envolvida. A au-
tora, ao discutir as novas diretrizes curriculares para
O objetivo deste trabalho atendeu ao que foi pro- implantação dos cursos de psicologia, enfatiza que os
posto, caracterizando algumas das demandas das ins- serviços de psicologia no formato das clínicas-escola
tituições escolares, do município de Caxias do Sul, ao não devem se prender, exclusivamente, na medida do
Serviço de Psicologia Aplicada da Universidade de estágio supervisionado, mas sim no que corresponde
Caxias do Sul, promovendo a integração da Universi- àquela comunidade.
dade à comunidade. O estudo contribuiu por elucidar Caso se pense na escola como agente de saúde, é
como está sendo proposta a Psicologia Escolar tanto fundamental que o tempo vivenciado seja de qualida-
na formação como na prática. de para o aluno, não só no acúmulo das aprendizagens
O fato de se ter encontrado semelhanças e diferen- acadêmicas, mas mais que isso na formação pessoal.
ças entre os depoimentos permite refletir sobre outros Ou, conforme propõe Joly (2000), pensar a Psicologia
procedimentos a serem adotados a partir deste estudo. Escolar para além das instituições formais de ensino,
Ou seja, muito embora, por vezes, todas as formalida- mas em diferentes espaços educacionais privilegiando
des quanto aos encaminhamentos de estágios sejam as próprias Universidades, entidades de classe e asso-
realizadas, foram constatadas algumas distorções ciações formadoras de profissionais, como propulso-
quanto às possibilidades de trabalho na Psicologia Es- res da circulação da cultura. Sendo assim, entende-se
colar. As avaliações positivas, na sua maioria, confir- que avaliar as repercussões dos trabalhos, por vezes,
mam o que se esperava, mas também trazem um realizados de forma sistemática em algumas escolas,
impasse no sentido de se definir pela continuidade ou torna-se tarefa fundamental atendendo a ambos os gru-
não de estágios curriculares em uma determinada es- pos interessados e envolvidos.
cola. Estudos posteriores poderiam incluir também o
Teoricamente, poderia se pensar numa alternância papel dos pais como agentes das intervenções da Psi-
de locais tendo em vista atender ao maior número de cologia no contexto escolar. Em termos de mercado de
escolas, determinando períodos para cada escola. A trabalho, enfatiza-se a tomada de conhecimento por
escassez de recursos em mensurar esse ponto de reto- parte da esfera pública deste tipo de mapeamento que
mada ou interrupção dificulta uma tomada de decisão, conduza a uma inserção mais numerosa do profissio-
razão pela qual, mais uma vez, enfatiza-se a necessi- nal de Psicologia Escolar.
dade de se dedicar um tempo maior para a análise de Da Psicologia Escolar, de acordo com os depoi-
cada solicitação e, ao final do trabalho, uma avaliação mentos das diretoras, que são, justamente, as que
do que poderia ser ou não desenvolvido na continui- desencadeiam o processo referente ao estágio em Psi-
dade. Além disso, como se sabe, há um fluxo de pes- cologia Escolar, nesse momento, observa-se pouco
soal nas próprias escolas que determina, por exemplo, conhecimento da área relacionada como agente dinâ-
que a chegada da estagiária coincida com alguma mu- mico de cooperação no processo de ensinar e apren-
dança na equipe diretiva que originalmente acompa- der. Dinâmico porque inclui a reformulação da pró-
nhava os estágios. pria visão da Psicologia em relação ao contexto es-
Os dados apontam que a Psicologia Escolar encon- colar, alterando e alternando o foco da origem das
tra-se em um momento de expansão dos significados dificuldades de aprendizagem, anteriormente, mais
referentes ao seu papel, em que o trabalho do profis- voltada a responsabilizar a escola e, atualmente, con-
sional assume dimensões preventiva, promocional, siderando o papel fundamental da família e da cons-
subjetiva e contextual conforme recomendam os estu- trução das relações afetivas.
dos de Pérez-Nebra e colegas (2001), num trabalho Tal postura, por parte da direção, revela-se impor-
que caracterizou determinada zona geográfica brasi- tante porque representa a liderança de um grupo. Dei-
leira. Ou seja, superando o modelo tradicional inter- xa apenas de considerar a sensibilidade do professor e
ventivo, patologizante e individual, outras alternativas sua capacidade autodidática de estudar na bibliografia
de trabalho têm se imposto ao contexto estudado. Há disponível, mas oferece um espaço de reflexão com
que se enfatizar, também, que o serviço de psicologia uma área mais definida. Por sua vez, esse tipo de en-
disponibilizado à comunidade insere-se na questão da tendimento também provoca uma certa inquietação na
Formação em Psicologia, na medida em que é estágio medida em que segue buscando uma única origem (es-
curricular e obrigatório. Assim, entendendo que se ali- cola ou família) para compreender a complexa relação
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Demandas de psicologia escolar ... 43

da criança com o aprender. Esta múltipla causalidade uma maior adequação à realidade social brasileira. Em
dos fenômenos não deve ser polarizada, mas, sim, lugar de posições rígidas e convencionais, compreen-
compreendida à luz da interdisciplinariedade, questão der as verdades como provisórias iluminando a refle-
que será posteriormente discutida. xão e a ação cotidianas e do conhecimento científico.
Deve-se comentar aqui também que a demanda, Aos envolvidos com a formação em Psicologia, fica
efetivamente, é pelo profissional de Psicologia. A pre- destacada a preocupação em minimizar esses fatores
sença do estagiário nem sempre é compreendida como tão subjetivos que, por vezes, podem comprometer
um estudante em formação, sendo fundamental ques- todo um plano de trabalho.
tionar até que ponto é capaz de oferecer o que lhe é Tal constatação encontra apoio no estudo de Ne-
solicitado. Levanta-se a hipótese da dificuldade do es- ves e colegas (2002), que aprofundaram a questão da
tagiário em se afastar da posição de aluno, obsta- formação e atuação em Psicologia Escolar, revisando
culizando o seu fazer como Psicólogo em Formação. 102 trabalhos publicados nos congressos nacionais da
Caldas e Hübner (2002) reconhecem uma reação de área, contemplando 7 anos no total. Tal pesquisa indi-
desencantamento com o aprender na escola, ao com- cou diversidade na produção de conhecimentos na área
parar professores e alunos ao longo da trajetória esco- de Psicologia Escolar, preferencialmente se dedican-
lar. Em ambos os grupos, parece haver um decréscimo do tanto no âmbito dos estágios como das práticas pro-
no envolvimento do aprender na escola à medida que fissionais, muito mais à prevenção do que a terapêuti-
aumenta gradualmente as séries escolares. Ora esse ca. Relacionando tal conclusão com os dados desse
estagiário também é um aluno da Universidade e pode estudo, destaca-se que tal orientação não inclui, obri-
ser incluído nessa constatação, no sentido do pouco gatoriamente, que desapareçam as questões específi-
investimento no seu próprio aprender na escola, ago- cas de alunos, por exemplo. Trata-se de priorizar, do
ra, em nível superior, confundindo papéis e funções. ponto de vista do planejamento de tarefas, os aspectos
Entretanto, a escassez de recursos especializados envolvendo comunidade escolar e professores e não
faz com que isso nem mesmo seja considerado. Em exclusivamente o atendimento de dificuldades isola-
outras palavras, a escola nem pode supor solicitar a das e individuais.
consultoria com profissional experiente. Considera-se
oportuno para os próximos estudos analisar se isso REFERÊNCIAS
procede com a presença do profissional da Psicologia
Albuquerque, T. L. (1986). Psicologia e Educação. Porto Alegre:
na escola. O posicionamento das diretoras, contudo, Artes Médicas.
não deve ser analisado isoladamente, até porque é pos- Bacha, M. N. (1998). Psicanálise e educação: laços refeitos.
sível pensar que as tarefas relativas à Psicologia Esco- Campo Grande: UFMS/São Paulo: Casa do Psicólogo.
lar podem se apresentar, realmente, pouco diferencia- Bardin, L. (1979). Análise de Conteúdo. Lisboa: Edições 70.
das da psicologia como um todo, razão pela qual se Caldas, R. F. L., & Hübner, M. M. C. (2002). O Desencantamen-
mesclariam tantos aspectos da clínica no contexto es- to com o Aprender na Escola: o que dizem professores e alu-
colar. nos. Psicologia: teoria e prática, 4, 1, 49-60.
O fato das estagiárias de Psicologia revelarem pou- Feitosa, M.A. G. (1999). Desafios para a implantação dos novos
currículos de psicologia à luz das diretrizes curriculares. Te-
cas especificidades ao articularem o teórico e a prática mas em Psicologia da SBP, 7, 3, 235-243.
ilustra essa situação. Ou seja, elas reconheceram a ar- Joly, M. C. R. A. (2000). A formação do Psicólogo Escolar e a
ticulação, todavia o discurso não ultrapassava posicio- educação no Terceiro Milênio. Psicologia Escolar e Educacio-
namentos como relevância da escuta, enfim, nem sem- nal, 4, 2, 51-55.
pre, as verbalizações claramente correspondiam a um Khouri, Y. e colaboradores (1984). Psicologia Escolar. In C.
Rappaport. Temas básicos de psicologia (Vol. I). São Paulo:
estágio de psicologia escolar em particular. Os argu- EPU.
mentos por elas apresentados poderiam ser inseridos Machado, A. M., Souza, M. P. R. (Org.). (1997). Psicologia Es-
em qualquer outra área de estágio profissionalizante, colar: em busca de novos rumos. São Paulo: Casa do Psicólogo.
podendo-se pensar tal situação não somente pela pos- Maggi, A., Levandowski, D. C. & Nunes, M. L. T. (1998a). In-
sível influência dos conteúdos estudados em algumas tervenção Psicológica: a relevância da sondagem preliminar
[Resumo]. In C. S. Hutz (Org.). II Congresso Brasileiro de Psi-
disciplinas, como também pelo próprio núcleo comum cologia do Desenvolvimento. Anais (p. 42). Gramado, RS.
da formação em Psicologia neste contexto. Maggi, A., Levandowski, D. C., & Nunes, M. L. T. (1998b).
A quem se responsabiliza pela formação uma re- Psychological Intervention: the relevance of preliminary
flexão relevante na direção de evitar posições que es- investigation [Abstract]. In International Society for the Study
of Behavioural Development (Org.). XV Biennial ISSBD
tipulem que área detém qual saber quando se apresen- Meetings, Abstracts (p. 165). Berne.
ta a área da Psicologia. Maluf (2003) alerta para que Maluf, M. R. (2003). Psicologia Escolar: novos olhares e o desa-
os novos psicólogos desenvolvam práticas visando fio das práticas. In S. F. C. de Almeida (Org.). Psicologia Es-

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44 Sassi, R., & Maggi, A.

colar: ética e competências na formação e atuação profissio- prioriza as intervenções em conjunto [Resumo]. Congresso Na-
nal. Campinas: Editora Alínea. cional de Psicologia Escolar e Educacional. Itajaí, SC. p. 94.
Maraschin, C., Freitas, L. B. L., & Carvalho, D. C. (Org.). (2003). Sassi, R. Contribuições e novas perspectivas de intervenção em
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petências na formação e atuação profissional. Campinas: Edi-
tora Alínea.
Recebido em: 28/12/2004. Aceito em: 19/10/2006.
Pandolfi, C. C. (Org.) e col. (1999). A inserção do Psicólogo Es-
colar na Rede Municipal de Ensino de Londrina. Psicologia: Agradecimentos:
Ciência e Profissão, 19, 20, 30-41. Nossos agradecimentos a todos os que colaboraram neste estudo:
– às Estagiárias de Psicologia Escolar ao realizarem as entrevistas com as
Patto, M. H. S. (1997a). Introdução à Psicologia Escolar. São Diretoras e Professoras e também quando foram entrevistadas;
Paulo: Queiroz. – às Professoras e Diretoras que aceitaram participar das entrevistas; e
Patto, M. H. S. (1997b). Psicologia Escolar. São Paulo: Casa do – à Acadêmica de Psicologia Greice Graff, que participou da organização
dos dados coletados.
Psicólogo.
Patto, M. H. S. (1990). A produção do fracasso escolar. São Pau- Autoras:
lo: Queiroz. Renata Sassi – Psicóloga. Mestre em Psicologia. Coordenadora do Serviço de
Psicologia Aplicada – SEPA.
Pérez-Nebra, A. R., Guedes, L. E., Prado, J. A., Cavalcanti, L. A. Alice Maggi – Psicóloga. Doutora em Psicologia. Docente e Pesquisadora do
e Almeida, S. F. C. (2001). Formação e atuação dos psicólogos DEPS. Coordenadora dos Estágios Supervisionados – Departamento de Psi-
escolares do Distrito Federal: um estudo introdutório [Resu- cologia – UCS.
mo]. In Sociedade Brasileira de Psicologia (Org.). Resumos de Endereço para correspondência:
Comunicações Científicas, XXXI Reunião Anual de Psicolo- ALICE MAGGI
gia. Rio de Janeiro: Sociedade Brasileira de Psicologia. Departamento de Psicologia, Universidade de Caxias do Sul – UCS
Rua Francisco Getúlio Vargas, 1130
Sassi, R., Pereira, S. & Carraro, L. F. (2000). A Psicologia Esco- CEP 95070-560, Caxias do Sul, RS, Brasil
lar no Curso de Psicologia da UCS: uma concepção que E-mail: amaggi@terra.com.br

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