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Pedro Gustavo Aquino da Silva

Ensaio sobre o conto “O Tapete Voador” de Cristiane Sobral

Salvador

2021
Pedro Gustavo Aquino da Silva

Ensaio sobre o conto “O Tapete Voador” de Cristiane Sobral

Trabalho apresentado ao componente curricular


LETA16 - Estudo de Teorias e Representações
da Literatura e da Cultura, ministrado pelas
docentes Profª. Drª. Lívia Natália e Profª. Ms.
Lívia Sousa, do curso de Licenciatura em Letras
Vernáculas da UFBA, como obtenção de nota
parcial do semestre 2021.2.

Salvador

2021
Parto da compreensão da temática que muito significou para mim neste
percurso: a da condição portuguesa de colonizador-colonizado, proposta por Boaventura
de Sousa Santos em seu texto “Entre Próspero e Calibã”. Isto é, apesar do intenso, ávido
e violento ataque português às várias condições humanas, bem como às suas relações
interpessoais (que não necessariamente configuram quer condições de trabalho quer de
prazer – aqui articulo ainda mais uma digressão por pôr em cheque qual o real
significado destes significantes “prazer” e “trabalho” para estas sociedades – entres seus
atores antropológicos), Portugal devia a sua “alma” à Inglaterra.

Analisando o cenário de colonizador-colonizado, Portugal revela-se subalterno


(e por que não, subalternizado), ou seja, inferior, como um lacaio a serviço da coroa
inglesa. Toda sobrepujança narrativamente caricaturada é destituída e aviltada – tal qual
a família real portuguesa (quais escravizados “fujões”) que luta para sair da ameaça
napoleônica. Portugal estava exatamente entre a Inglaterra e a França. É como se diz:
quem não tem teto de vidro que atire a primeira pedra. Sendo assim, Portugal é
periférico.

Portanto, arguo: quem de fato é este herói pertencente às nossas memórias. Se


Pessoa ou Camões têm esse direito de fabricar sua nação como a perfeição de grandeza
e de glória, creio que cabe a mim, também, escolher a que verdade seguir – de fato opto
pela verdade verdadeira. Ademais, é honesto ceder à Máquina do Mundo, referenciando
Drummond, na qual há a verdade absoluta indubitável? Novamente, prefiro caminhar à
direção racionalista das muitas formas do verbo ser.

Trago a música “DDGA”, do artista Rico Dalasam que diz: “Na confusão dos
ódios, na distração dos brancos // Cuide // Você é parte da minha parte viva, ô”. Desse
modo, somos como aquele que foge das expectativas e narrativas paralisantes.
Pertencemos uns aos outros, pertencemos a nós mesmos. Somos o coletivo, somos o
indivíduo. Tudo isso, afinal, é uma coisa só. Compreender isso é alegar e produzir a
ideia de “eu sou porque você é”. Faz parte de respeitar a ancestralidade e aceitar e criar
em prol duma boa posteridade.

Achei importante essa contextualização para tratar do conto “O tapete voador”


da Atriz, Poetisa e Escritora fluminense, Cristiane Sobral. O conto traz a história de
Bárbara, uma executiva bem-sucedida, que decide requisitar à empresa em que trabalha
um apoio para efetuar seu curso de pós-graduação. A história caminha bem, de tal
maneira que Bárbara é convidada para uma reunião com o Presidente de sua empresa.
Empolgada, ela surpreende-se ainda mais ao saber que o discreto Presidente é negro
como ela. Saber que um homem negro toca uma empresa de tamanho porte a emociona
fortemente. Mas, sua felicidade é logo alternada para uma grande decepção ao descobrir
que o chefe optou por ser invisibilizado para que pudesse ter êxito profissional.
A história é chocante. A sensação é de que a qualquer momento o chefe dirá que
era um teste para reconhecer a firmeza de sua colaboradora, sua integridade; que ela
passara, portanto, merecia total apoio. Contudo, o choque permanece. A própria
narradora deixa isso claro ao começar a história dizendo “Todo mundo tem a
oportunidade de se reinventar a partir de um momento de crise.” São inacreditáveis as
palavras proferidas pelo chefe. “O seu marketing pessoal, por exemplo. Já temos bons
produtos para minimizar acidentes genéticos desagradáveis, como o cabelo do negro.
Seu cabelo é péssimo. Costumo viajar para o exterior e poderei trazer ótimos
cosméticos, sem nenhum incômodo. Entenda esse gesto como um investimento nos
recursos humanos. A cor não precisa ser um fardo para os mais desenvolvidos. Claro!
Vou fazer a minha parte, mas você tem que prometer não deixar a sua negritude tão
evidente. A sua pele não é tão escura, poderá ser facilmente trabalhada... Você só
precisa de alguns esclarecimentos...”
A mestra e doutoranda em Filosofia Africana, Katiúscia Ribeiro, nos diz algo
interessante sobre as razões pelas quais encontramo-nos chocados ao ler tais palavras.
“O secular processo de violações e violências agregaram modos e comportamentos das
diferentes etnias que se fortaleceram e valorizaram a ancestralidade com um valor
estruturante onde pessoas pretas encontraram espaço e fôlego para se apoiar e defender
o que lhe restava de identidade humana subtraída pelo rapto e pela violência colonial.
Em meio à distopia de uma realidade física o corpo em contato com outros corpos
recupera sua territorialidade, estabelecendo conexões capazes de diálogos com outros
corpos que imbricam histórias diferentes, fortalecem e reconstituem a memória, a
palavra como vida e ação dando sentido e significado e orientam as existências pretas
fora de África.”
De fato, Bárbara viu neste outro corpo negro a construção de uma
territorialidade que lhe traspassava. Se ver como igual sob aquela ótica lhe produziu um
sentimento de familiaridade e de pertencimento – logicamente estilhaçados ao notarmos
a conduta de seu presidente. Portanto, retomando o conceito do colonizador-colonizado
disposto ao se iniciar o texto, quem verdadeiramente possuía a liberdade que permite os
corpos transitarem e reconhecerem uns aos outros nos espaços? Evidentemente, quebrar
esses paradigmas não foi fácil para a personagem. A que se deve a reprodução do
discurso por parte do chefe que sofreu semelhantemente ao seu par.
Construir o conceito de coletividade é uma tarefa árdua diante de um sistema
que prega a individuação em favor da propriedade privada. É inspirador saber que
Bárbara, apesar de seu tapete ter sido puxado, aprendeu a voar; ela reinventou-se em sua
crise.
É ainda mais inspirador reconhecer que este texto foi produzido por uma
escritora negra que decerto passou por situações minimamente similares, em que
precisou provar-se por duas ou três vezes mais que outras pessoas. Algo que a
Professora Florentina Souza chama de “Resistência ao Epistemicídio”. “Ao assumirem
a posição de sujeitos da escrita, elas rompem com o determinismo instaurado por
séculos que aponta para elas o lugar exclusivo de serviçais e de objetos.” diz ela em seu
texto „Mulheres negras escritoras‟. “Elas falaram, cantaram e escreveram. Insistiram em
manter acesa a chama de sua criatividade e figuraram/figuram como exemplos para
outras mulheres negras que contemporaneamente fazem uso da palavra em livros, sites,
blogs, jornais e revistas, compartilhando suas leituras do mundo, do Brasil e das suas
histórias.”
Cristiane Sobral, em entrevista cedida à Scielo Brasil, assegura: “Quem não se
afirma não existe.”
Rico Dalasam, na música “Expresso Sudamericah”, poetiza: “Pois nem todo
verde é natural, mas toda madeira foi árvore // Barriga quer devorar, fome quer baforar
// América ninguém quer acolher // Aqui é um tipo de abismo que você ouve o eco das
cabeça e nada dentro // E plantar uma semente numa cabeça dessa // É ser a chuva, o
pássaro e o vento // Eu tirei de tempo e desviei // Quem sempre vem pra distrair // Tirei
de tempo e desviei // Quem sempre vem pra destruir // Um verme preso na ideia que
tem que fuder // Com a vida de quem não dá pra explorar // Me fez quebrar a régua que
mede meu talento // E hoje eu mesmo abro o caminho que vai me pôr lá.”
Que semente eu quero plantar para o meu eu pós-geracional? Porque eu estarei
lá, estou aqui e estive antes. Eu sou o todo.

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