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ENSAIO CRÍTICO SOBRE O ESPAÇO DA LITERATURA NA ESCOLA

Matheus Santos Silva

O ensino de literatura é há muito estabelecido nas escolas brasileiras e é previsto na atual lei
que rege as diretrizes e bases da educação nacional desde sua promulgação, em todos os níveis do
ensino básico, porém, é válido discutir sua práxis, bem como sua utilidade e adequação no presente
cenário educacioinal.
Amparados pelos comentários de Antoine Compagnon, em sua aula inaugural no Collège de
France em 2006, podemos refletir nos motivos pelos quais ainda dedicamos inúmeras horas do
calendário escolar no ensino de Literatura e, de mesmo modo, na formação de professores
destinados ao lecionar desta.

“Lemos, mesmo se ler não é indispensável para viver, porque a vida é mais cômoda, mais clara,
mais ampla para aqueles que leem que para aqueles que não leem. Primeiramente, em um sentido
bastante simples, viver é mais fácil – para aqueles que sabem ler, não somente as informações, os
manuais de instrução, as receitas médicas, os jornais e as cédulas de voto, mas também a
literatura. Além disso, supôs-se por muito tempo que a cultura literária tornasse o homem melhor
e lhe desse uma vida melhor.” (COMPAGNON, 2006, p.29)

Temos neste trecho, para além da perspectiva prática da leitura, da simples alfabetização,
que é, de fato, útil à vida comum, ao dia a dia de todo cidadão – pois garante o acesso à informação,
a graus de instrução, etc. - uma perspectiva voltada à cultura literária, à produção literária no
sentido mais escolar do termo, que a apresenta como responsável pela promoção não só de uma
vida melhor, mas também por uma espécie de engrandecimento do indivíduo que a experiencia,
tornando este um ser humano melhor.

Bem, essa simples consideração já parece suficiente apologia ao ensino de literatura desde a
infância, afinal, qual seria o objetivo da educação senão o desenvolvimento do cidadão e tão logo a
melhora da vida deste e de toda a sociedade? Porém, cabe investigar como a leitura e análise de
poemas, romances, contos, historietas, anedotas e afins podem possuir tamanha significância nas
nossas vidas; e é exatamente esta problemática que Compagnon desenvolve em sua aula, e o faz a
partir de quatro concepções advindas da história deste estudo.
A primeira diz respeito àquele caráter moralmente formador que a literatura possui quando
destinada à instrução quanto ao agir humano, as regras, os preceitos de dada cultura, recuperando o
conceito de mimesis, posto por Aristóteles, em sua Poética, que se refere ao aprendizado humano
através da imitação, ou melhor, da representação das experiências humanas na ficção, uma vez que
“a experiência e o exemplo guiam a conduta melhor do que as regras” (p.32).

A segunda concepção diz respeito ao caráter político da literatura, ao poder libertador que
ela tem, quando visa impedir a alienação do homem, livrando-o da opressão. A literatura neste
sentido é um mecanismo de contrapoder uma vez que concede autonomia ao leitor e vai de encontro
a qualquer autoritarismo presente na relações sociais e se transforma num instrumento de justiça e
tolerância, contribuindo assim para a liberdade e responsabilidade do indivíduo. (p.34)

A terceira concepção vai ainda além da formação moral e política dos indivíduos e percebe o
poder linguístico da literatura, ou seja, a capacidade que esta tem de “ultrapassar os limites da
linguagem ordinária”, corrigindo seus defeitos, sua inadequações, fundando-se como uma própria
filosofia. Assim, através de suas obras, ao transgredir e extrapolar as limitações da linguagem
comum, o poeta e o romancista exprimem aspectos da realidade e de nossa própria constituição
tangíveis apenas por meio desta atividade.

E por último, uma visão não instrumental da literatura, que a concebe como uma arte
suficiente em si mesma, ou seja, não se desdobra ou se emprega pedagógica, ideológica ou
linguisticamente, tendo como raison d’etre o simples entretenimento, o lazer do leitor, constituindo-
se assim de uma bruta neutralidade, ao ponto de ser caracterizada como um “impoder”, “despoder”
ou mesmo “fora do poder”. Tal visão pode ter motivado, conforme Compagnon, o conceito errôneo
de leitura como unicamente prazer lúdico, ainda difundido.

Não só a importância e utilidade do ensino de literatura, mas também a defesa do direito


universal deste, podem ser obtidos das quatro pespectivas apresentadas – mesmo a perspectiva
negativa, defendo aqui – pois , a partir delas podemos entender a contribuição ética da literatura, ao
permitir o acesso a uma experiência sensível e um conhecimento moral elevado; o valor de sua
análise da relações particulares que reúnem as crenças, emoções, imaginação e ação; sua capacidade
de preservar e transmitir a experiência dos outros, aqueles que estão distantes de nós no espaço e no
tempo, ou social e economicamente, nos tornando sensíveis à pluralidade de pensamento e à
existência do outro como um ser dotado dos mesmos direitos aos quais gozamos; ou mesmo seu
papel dignificante, defendido por T.S. Eliot (talvez resgatando a afirmação de Sócrates que a vida
“não examinada não vale a pena ser vivida”), quando este afirma que “a cultura pode ser descrita
simplesmente como o que torna a vida digna de ser vivida” (Eliot, 1949).

Como conclui Compagnon:

“A literatura nos liberta de nossas maneiras convencionais de pensar a vida – a nossa e a dos
outros -, ela arruína a consciência limpa e a má-fé. Constituitivamente oposicional ou paradoxal,
ela resiste à tolice não violentamente, mas de modo sutil e obstinado. Seu poder emanciador
continua intacto, o que nos conduzirá por vezes a querer derrubar os ídolos e mudar o mundo,
mas quase sempre nos tornará simplesmente mais sensíveis e mais sábios, em uma palavra,
melhores.” (COMPAGNON, 2006, p.51)

Se servidos de todo esse poderio alcançamos de fato tal melhora como indivíduos e como
sociedade, ao ponto de entendermos nós e o outro como apresentado anteriormente, não será difícil
compreender a necessidade de se assegurar o direito de acesso, o direito ao ensino de tal ferramenta,
que é a literatura como exposta. Somemos a consideração de Antônio Cândido, em seu texto O
direito à literatura, a qual defende que a literatura “desenvolve em nós a quota de humanidade na
medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, a sociedade, o semelhante”
(CANDIDO, 2004, p. 182).
A literatura então, se mostra como uma necessidade universal, uma vez que dá forma aos
nossos sentimentos, promove nossa visão de mundo, nos organiza e liberta do caos (p.188). E além,
o ensino desta escancara as injustiças existentes, nos localiza no mundo e na sociedade, nos permite
visualizar direitos tolhidos e deveres desmoderados e ainda, se se quiser pensar a literatura naquele
sentido pós-moderno de puro entretenimento, ela consiste num lazer assegurado pela Constituição
Federal em seu artigo 6º, sendo sua negação a qualquer indivíduo de extensa argumentação e
passível de reduções a preconceitos – me refiro aqui ao não acesso das classes menos favorecidas a
este tipo de produção cultural, bem como sua educação com vistas ao desfrute desta.
Cabe então à realidade escolar ser um dos espaços a incluir ou salvaguardar este direito de
acesso à literatura, porém, conforme mencionado, mediante constante atualização e refinamento
teórico e prático, para que se alcance, ou melhor, se recupere o papel que tal disciplina já
desempenhou na educação das elites, porém numa maior abrangência mais igualitária. Conforme
Rildo Cosson relata em seu artigo O espaço da literatura na sala de aula:

“[…] os alunos aprendiam a ler de simples contos infantis às obras complexas do cânone
literário. Com os textos literários, aprendiam a escrever desde as primeiras letras até emular o
estilo de grandes autores. Ao realizar os exercícios de leitura e escrita, adquiriam o domínio da
norma culta da língua incorporavam uma série de referências que lhes permitiam dialogar com a
cultura do passado e do seu tempo. Em outras palavras, a literatura na sala de aula era a matéria
com a qual se construíam os elos que formavam uma corrente entre escola, língua e sociedade – a
própria essência da formação humanista.” (COSSON, 2010, p.56)

Vê-se então a necessidade da reconquista de um espaço na sala de aula, para a literatura,


espaço este que se dividiria com três enfoques, cada um sendo de suma importância. Primeiro, há de
se voltar ao texto literário, à leitura da obra, a qual mediada pelo professor, promove a formação do
leitor e o insere no exercício imaginativo essencial a esta prática.
O texto não basta a si mesmo, uma vez que existe inserido em certo tempo, lugar, de alguém,
para alguém, ou seja, é necessário o enfoque ao contexto, ao que o texto resgata do mundo e traz
consigo e “é por causa desse contexto que qualquer obra literária, independente de sua elaboração,
pode ser transformada em objeto de ensino de um determinado conteúdo” (p.62). Logo, o texto
literário trabalha lado a lado a outras disciplinas e conteúdos, revelando-se assim um porta de
entrada à universalidade do conhecimento e as relações intrínsecas de todas as áreas estudadas
(ainda que estas sejam apresentada de forma fragmentada).
Por fim, a relação dos textos com outros textos também merece seu espaço, a qual
chamamos intertextualidade, é a responsável por levar o leitor a transitar entre obras, seja de forma
direta e indicada, seja de forma não proposta no próprio texto. É neste aspecto que o texto é
enriquecido com suas referências e conexões e enriquece nossa experiência e estimula nossa prática
de leitura, para além da obra “obrigatória” e promove a construção de um repertório social e
cultural.
Assim, temos um estrutura de pensamento e um leque de ações que balizam o perene existir
da literatura, justificam sua utilidade, reinvindica o ensino desta como direito universal e estabelece
vias de execução para sua adequação na realidade escolar, ao menos de forma inicial, com vistas a
não somente a formação do leitor, mas para a formação do ser humano.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CANDIDO, Antonio. Direito à literatura. In:______. Vários escritos. 4. ed. Rio de Janeiro: Ouro
sobre Azul, 2004, p. 169-191.

COMPAGNON, Antoine. Para que serve a literatura?. Trad. Laura Taddei Brandini. Belo
Horizonte: Editora UFMG, 2009.

COSSON, Rildo. O espaço da literatura na sala de aula. In: BRASIL. Coleção explorando o
ensino: literatura: ensino fundamental. 20. v. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de
Educação Básica, 2010, p. 55-68.

ELIOT, T.S. Notes towards the definition of culture. In: ______. Christianity and culture. New
York: Harcout/Brace, 1949. p.100.

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