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Bebês

O novo manual de instruções


Papais e mamães, agradeçam aos avanços da pediatria: nunca foi tão
simples cuidar das crianças pequenas. Basta estar atento aos sinais que
elas nos dão, como mostra o primeiro guia da Sociedade Brasileira de
Pediatria

Adriana Dias Lopes

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VEJA TAMBÉM Não faz tanto tempo assim, os


• Quadro: A nova cartilha manuais para pais de bebês tinham
• Vídeos: a primeira gravidez uma rigidez que lembrava a das regras
disciplinares do Exército: "Dê de
mamar de três em três horas", "Se a
criança não quer ficar no berço, feche a porta e deixe-a chorar", "Evite ficar com o bebê
muito tempo no colo para não mimá-lo demais". Era um tal de faça isso, não faça aquilo,
isso pode, aquilo não, que muitos pais se sentiam impotentes para cumprir tantas normas.
Para não falar da ansiedade criada com prazos aparentemente inexplicáveis. Um deles: se
o meninão ou a princesinha não tirassem a fralda até os 2 anos, podia ser sinal de que
alguma coisa estava errada em seu desenvolvimento. Dois anos! Mas, em meio a tantas
revoluções, há uma em curso também na pediatria. Não se via nada igual desde o século
XIX, quando a saúde da criança foi transformada em especialidade médica. Os avanços
nos conhecimentos sobre a fisiologia e a psicologia infantil e os progressos nos exames de
imagem permitiram desvendar boa parte do funcionamento do organismo dos pequenos. E
as notícias trazidas pela ciência do bebê são animadoras. "Na verdade, cuidar deles é
bem mais simples do que se imaginava", diz o pediatra Marcelo Reibscheid, médico do
Hospital e Maternidade São Luiz, em São Paulo. Atualmente, as orientações para a
primeiríssima infância baseiam-se, em sua maioria, em sinais emitidos pelos principais
interessados. É o caso da fralda. Podem estar certos, mamãe e papai, de que em algum
momento, até os 4 anos de idade, o fofinho ou a fofinha começarão a dar sinais de que
não precisam mais de um bumbum tão forradinho.

Essa nova e mais serena visão sobre a vida não tão complicada (mas nem por isso muito
tranquila) dos bebês está esmiuçada no primeiro guia elaborado pela Sociedade Brasileira
de Pediatria, o mais completo já lançado no Brasil. Publicado pela editora Manole, Filhos,
da Gravidez aos 2 anos de Idade tem 376 páginas de pura autoajuda. Está tudo ali: como
lidar com o choro, regular o uso da chupeta e aliviar as cólicas do seu queridinho, entre
outras recomendações. Um dos capítulos mais interessantes refere-se à amamentação. O
guia reforça a importância do aleitamento materno, mas vai além, ao não estabelecer
horários pétreos. Seus autores concluíram que, como o leite materno é digerido muito
rapidamente e como dois bebês não costumam mamar no mesmo ritmo ou com a mesma
intensidade, é impossível fixar um intervalo regular entre as mamadas. O que vale agora é
a chamada "mamada guiada" - o bebê determina quando e quanto se alimentar, o que o
ajuda também a controlar os mecanismos da saciedade. Quer ter uma ideia da mudança
que isso significa? Dê uma folheada em A Vida do Bebê, de autoria do pediatra carioca
Rinaldo De Lamare, considerado ainda por muitos a bíblia dos cuidados com os filhos
pequenos. Lançado pela primeira vez em 1941, o manual está em sua 42ª edição e já
ultrapassou 7 milhões de cópias. Sobre amamentação, a cartilha de De Lamare preconiza
que o tempo entre uma mamada e outra deveria ficar entre duas e quatro horas. "Mamada
guiada": sim, você aí, pingando leite, terá de ficar à disposição, na base do "venha a mim a
criancinha".

A partir do momento em que foi possível flagrar o cérebro dos bebês em atividade e
acompanhar seu desenvolvimento, os rumos da pediatria mudaram drasticamente. Até o
início da década de 80, as orientações dos pediatras aos pais eram feitas, sobretudo, por
meio da observação pura e simples do comportamento infantil. As recomendações atuais
são mais precisas porque baseadas em informações comprovadas cientificamente.
Cólicas, por exemplo: durante muito tempo, acreditou-se que as cólicas que castigam
alguns bebês (e seus pais) nos primeiros três meses de vida eram consequência da má
digestão. Disso resultavam receitas de remédios antigases. Pois não é nada disso. As
dores abdominais são decorrentes da imaturidade do sistema nervoso central, que ainda
não consegue coordenar os movimentos peristálticos do intestino. Ou seja, as cólicas são
fruto das contrações irregulares da parede intestinal do bebê. Aos 31 anos, a nutricionista
Andréa Santa Rosa tem três filhos - Felipe, de 10 meses; Nina, de 4 anos, e Pedro, de 6.
As três crianças tiveram cólicas. Apesar da aflição pelo sofrimento que as dores
acarretavam nos coitadinhos, Andréa nunca se desesperou. "O fato de eu saber que meus
filhos tinham esse desconforto porque o sistema digestivo deles ainda não funcionava
adequadamente me deixava menos ansiosa", diz ela.

A alimentação dos bebês é outro capítulo em que ocorreram mudanças extraordinárias.


Foi constatado que, como o sistema imunológico dos pequenos só amadurece por volta
dos 2 anos, crianças com até essa idade são mais suscetíveis a alergias. Por isso, ao
contrário do que se pregava antes, o leite de vaca deve ser evitado a todo custo, ao menos
durante o primeiro ano de vida. E não adianta diluí-lo em água, de forma a torná-lo mais
palatável ao bebê. Tal hábito está formalmente condenado pela Academia Americana de
Pediatria desde o início dos anos 2000. Explica-se: o leite de vaca (diluído ou não) é
riquíssimo em proteínas que o organismo dos bebês não está preparado para processar
em quantidades elevadas. Quando as moléculas dessas proteínas caem na corrente
sanguínea sem que tenham sido digeridas adequadamente, as células de defesa ainda
imaturas do bebê podem identificá-las como agentes agressores e partir para o ataque.
Resultado: pode aparecer um quadro de alergia alimentar. A descoberta de como o
organismo reage ao leite em seus primeiros anos de vida propiciou o aperfeiçoamento das
fórmulas infantis. Além das proteínas modificadas do leite de vaca, as versões mais
modernas, lançadas no início dos anos 2000, contêm probióticos, as bactérias do bem que
ajudam a regularizar o ritmo dos intestinos e reforçam o sistema imunológico.

Ao assoprar as velinhas de seu segundo aniversário, a criança terá somado cerca de 130
bilhões de neurônios. É a etapa em que o ser humano mais desenvolve células nervosas.
Sem as experiências dos primeiros anos de vida, no entanto, eles são um livro
praticamente em branco. "Os neurônios precisam de estímulos para que formem conexões
fortes e amplas", diz o pediatra Fernando Fernandes, da Universidade Federal de São
Paulo. De acordo com os estudos do economista americano James Heckman, ganhador
do Prêmio Nobel de 2000, quanto antes uma criança for estimulada, maior será a chance
de ela se tornar um adulto bem-sucedido - com mais recursos cognitivos e emocionais
para enfrentar a vida. Por estímulos, entenda-se desde o hábito de contar histórias até
ouvir música e brincar com ela. Numa de suas pesquisas, Heckman demonstrou que uma
criança de 8 anos que tenha tido sua memória estimulada aos 3, por meio de jogos,
domina cerca de 12.000 palavras - o triplo de uma criança da mesma idade que não tenha
recebido o mesmo incentivo. Um trabalho conduzido na Universidade da Califórnia, nos
Estados Unidos, revelou que os bebês que passam a maior parte de seu primeiro ano de
vida no berço, sem muito contato físico com seus familiares, não se desenvolvem
normalmente. Eles demoram a sentar e a andar. Ou seja, agrados e carinhos ajudam a
fortalecer as conexões entre os neurônios, sobretudo aqueles responsáveis pelo equilíbrio
e pela locomoção.

Estímulos em excesso, no entanto, podem fazer mal. Uma criança que é forçada a
começar a escrever antes dos 5 anos tende a apresentar problemas de aprendizado. Um
dos mais comuns é a troca do "p" pelo "b". Até que ponto se deve exercitar um bebê?
Voltemos aos preceitos da novíssima pediatria moderna: é ele que dará os sinais se papai
e mamãe estão exagerando. "O interesse da criança é o melhor indicador da qualidade e
da quantidade do estímulo oferecido", diz o neuropediatra José Salomão Schwartzman. Se
o garotinho de 3 anos demonstra interesse em aprender a escrever o próprio nome, mas
se recusa a se aventurar em outras palavras, os pais não devem forçá-lo. Ele está
simplesmente dando a entender que não está maduro o suficiente para ir além. Em
meados do século passado, o pediatra e psicanalista inglês Donald Winnicott (1896-1971),
um dos pioneiros em ressaltar a importância dos primeiros anos de vida no
desenvolvimento emocional do ser humano, costumava dizer que "a maternidade se
configura pela capacidade inata de segurar um bebê". Ao que os especialistas de hoje
acrescentariam: e de observá-lo. E de respeitá-lo. Não se sinta excluído: isso também vale
para você, papai.

Selmy Yassuda
"O BEBÊ É FORTE"

"Com a minha primeira filha, Maria Luiza, de 5 anos, tive muita dor para amamentar no primeiro
mês. Como eu não sabia fazê-la mamar, nem ela sabia sugar o leite, fiquei com o seio machucado.
Mas, com a ajuda de um grupo de apoio à amamentação, aprendi a desfrutar esse momento que,
na minha opinião, é o mais belo que há. Na criação da Maria Luiza, fui um pouco radical - não a
deixei usar chupeta nem mamadeira, por exemplo. Com o Felipe, relaxei. Ele sempre usa chupeta
uns quinze minutos antes de dormir. Na segunda gravidez, entendi que o bebê é forte, não morre
por qualquer coisa, apesar de o corpinho dele parecer tão frágil. Além dessas lições práticas, tive
uma aprendizagem pessoal muito grande: eu era totalmente focada em mim e a maternidade me
ensinou a olhar para o outro. Com os meus filhos, entendi que nada se consegue na base da força.
Para mim, a maternidade é o que faz a mulher amadurecer, ser mais inteira."
Maria Paula, atriz, 38 anos, com o caçula Felipe, de 1 ano e 3 meses

Alexandre Sant'Anna

A MEDIDA DO BOM SENSO

"Não me considero uma mãe superprotetora. Como sou nutricionista, cuido com rigor da
alimentação das crianças, mas, em relação ao resto, sou bastante tranquila. Deixei o Pedro e a
Nina usarem chupeta até 1 ano e meio. O Felipe, que está com 10 meses, ainda usa. E só comecei
a tirar a fralda lá pelos 2 anos, para eles não terem muitas perdas de uma só vez. O fato de já ter
criado dois bebês me dá tranquilidade para cuidar do terceiro, embora ainda haja surpresas.
Quando os dentes do Felipe começaram a nascer, por exemplo, ele vomitava. Eu nunca imaginei
que as duas coisas tivessem relação. Foi minha sogra que me explicou que isso podia acontecer, e
a pediatra confirmou. Conselhos e livros ajudam, mas acho importante a mãe reconhecer as
informações que atrapalham. Lembro de ter lido que a criança precisa mamar a cada três horas. E
a gente sabe que, na prática, não dá para ser tão rígido assim. No fim, ninguém conhece melhor o
filho que a mãe."
Andréa Santa Rosa, nutricionista, 31 anos, com o marido, Márcio Garcia, e os filhos, Felipe, de 10
meses, Pedro, de 6 anos, e Nina, de 4 anos

Marcelo Tabach /Contigo

A VONTADE DE ACERTAR

"Os primeiros meses de cuidados com o bebê são os mais difíceis. É muita vontade de acertar e
uma quantidade enorme de informações que acaba nos confundindo. Uma preocupação que eu
tinha, no princípio, era que o Leon não soubesse distinguir entre fome e vontade de sugar o peito e,
com isso, acabasse mamando demais e ficando acima do peso. Mas, com um mês, eu sabia o que
era choro de fome. Uma coisa que me ajudou nos cuidados com ele foi criar rotina para tudo -
dormir, comer, tomar banho. Isso fez do Leon uma criança segura, estável, fácil de lidar. Quando
começo a fechar a cortina do quarto, pegar o paninho dele, ele já sabe que é hora de dormir e em
dez minutos pega no sono. Agora, aos 11 meses, está comendo os alimentos separadamente, para
aprender a diferenciar os sabores. É desafiador você ter um papel tão essencial na construção do
outro. Ao mesmo tempo, é incrível a experiência de ser mãe."
Carla Marins, 41 anos, com Leon, aos 4 meses

Marcelo Marthe e Naiara Magalhães

Bytes dos bebês


INFORMAÇÕES DETALHADAS
E PERSONALIZADAS
O site do Bebê, da Editora Abril, recebe mais de 6,5
milhões de acessos por mês

Os pais angustiados - especialmente aqueles que estão às voltas com o primeiro filho - contam
com uma facilidade inédita para obter informações rápidas e seguras sobre os cuidados com seu
bebê. A televisão paga oferece excelentes programas sobre o tema. E a internet abriga vários sites
que esclarecem as dúvidas mais frequentes. No Brasil, o mais consultado nesse segmento é o site
do Bebê (www.bebe.com.br), da Editora Abril, que publica VEJA. Lançado há dois anos, recebe
mais de 6,5 milhões de acessos por mês. Ele traz informações detalhadas sobre a gravidez e o
desenvolvimento do bebê, abrangendo da concepção ao quinto ano de vida, e permite que o
usuário faça consultas individualizadas. Sempre atualizado, o site também responde a questões
mais circunstanciais: "Quando há uma epidemia, como a da gripe A, ouvimos os melhores
especialistas para tratar do assunto", diz Lúcia Helena de Oliveira, diretora de redação do site do
Bebê. Outros sites atendem a demandas mais específicas. O Múltiplos (www.multiplos.com.br), por
exemplo, dedica-se a orientar pais de gêmeos (ou trigêmeos, quadrigêmeos...).

Na televisão paga, há documentários e reality shows sobre os primeiros anos das crianças. O canal
Discovery Home & Health é o que mais investe nessa seara. Exibe A chegada do Bebê, que a cada
episódio acompanha a experiência de um casal nas primeiras 36 horas depois de a criança ser
levada da maternidade para casa. "Essas produções ajudam os futuros pais, sobretudo os de
primeira viagem, a ter uma ideia mais concreta das situações que poderão enfrentar", avalia
Marcelo Reibscheid, neonatologista do Hospital São Luiz, em São Paulo. Com mais informação
científica, a série americana The Baby Human, exibida no ano passado pelo mesmo canal e com
sua segunda temporada ainda sem data de exibição no Brasil, oferece um panorama substancial
do processo de desenvolvimento dos bebês, com base em pesquisas conduzidas nos principais
centros de estudo da infância no mundo. Entre o apelo do reality show e o esclarecimento
científico, a minissérie Eu, Bebê - que estreou no GNT em maio e terá seus três episódios
reprisados no canal nesta quinta-feira - traz o olhar objetivo de um naturalista sobre o
desenvolvimento humano: o francês Laurent Frapat, renomado diretor de documentários sobre a
vida animal, acompanhou os dois primeiros anos de cinco bebês. "São programas interessantes,
sobretudo porque mostram como as crianças recém-nascidas se comunicam com o mundo à sua
volta", diz Dioclécio Campos Júnior, presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria.