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RASCUNHO-ROTEIRO

Resenha crítica sobre o filme Desemundo

Leticia Azevedo Pimentel

O filme brasileiro Desmundo, dirigido por Alain Fresnot, foi lançado no ano
de 2003 é uma adaptação do livro – este publicado em 1996 – de mesmo nome
da escritora Ana Miranda, uma autora célebre no gênero de romances históricos.

O longa tem sua ambientação pautada no Brasil colonial, em meados de


1570, na época em que Portugal decide enviar à colônia meninas órfãos,
europeias, católicas e brancas para se casarem com os portugueses já nessa
terra a fim de constituírem uma prole com essa mesmas características: de
ascendência europeia, católica e branca, a evitar então a miscigenação com
indígenas e/ou negras, o que era visto como pecado pela Igreja,
consequentemente, pela Coroa.

Desamparadas, as órfãos são trazidas pela Freira Dona Maria e, dentre


elas, há a figura de Oribela (interpretada por Simone Spoladore), a personagem
principal do filme.

Tal como no livro, todas as falas do longa são ditas num português antigo,
misturando-se harmonicamente ao cenário do século XVI (16), o que dá um ar
de maior verossimilhança à obra. Isso é transposto logo no começo do filme, que
se inicia com um trecho da carta, escrita em português arcaico e desta forma
lida, do padre Manuel da Nóbrega pedindo urgentemente ao rei a vinda dessas
garotas.

Decidida a não se casar e manter-se como beata, Oribela cospe na face


do pretendente que lhe fora apresentado. Mesmo assim, por conseguinte, é
oferecida como um resto, o que restou ao bandeirante Francisco de Albuquerque
(interpretado por Osmar Prado). Francisco é um homem de aparência e atitudes
nefastas; é dono de engenho distante no qual usa mão de obra escrava
sobretudo indígena. Lá mora com sua mãe - Dona Branca –, sua irmã com
síndrome de down, que supostamente também é sua filha, e, após o casamento,
com Oribela. Francisco possui uma má fama na vila, seja pela relação incestuosa
com a mãe seja como comporta-se perante os integrantes da Igreja.

Vem contra a sua vontade, casa-se contra sua vontade, Oribela é


novamente violentada ao chegar à casa de Francisco, este que a força a
consumar consigo o casamento.

Ximeno Dias – um cristão-novo e mercador – certo dia chega ao engenho


para negociar índios com Francisco. Francisco pede a Oribela que escolha uma
das mercadorias de Ximeno e, ao escolher uma tesoura, toca minimamente na
mão do mercador. Francisco açoita-lhe por encostar num ex-judeu, depois,
abusa-lhe sexualmente.

Oribela decide fugir. Pela manhã, é encontrada numa barca por dois
homens que tentam estuprá-la, o que mostra que o caráter de Francisco naquela
época era deploravelmente comum. Ambos são mortos por ele, que traz Oribela
de volta ao engenho, prendendo-a. “Liberta”, Oribela busca agradar o marido
para então roubar-lhe as roupas, a mula e fugir novamente. Desta vez, vestida
como homem, busca amparo na propriedade de Ximeno Dias. Este,
reconhecendo-a, a abriga com muita reluta, escondendo-a numa espécie de
sótão, pois Francisco já lhe procurava. Escondida junta aos manuscritos de
Ximeno acerca da torá, Oribela envolve-se amorosamente com ele. Incapaz de
mantê-la até que navios da frota portuguesa chegassem, Ximeno informa-lhe
sobre um vilarejo mais ao sul. Ambos partem à cavalo, Francisco, porém os
encontra [ a cena]

Após a morte de Ximeno, Oribela dá a luz a uma criança e parte com


Francisco
A hierarquização das classes sociais – uma classe acima, melhor do que
outra - é evidente no filme: os ditos selvagens, índios e negros, são tratados de
forma desumana, cruel por conta da cultura e da cor da pele; apesar de cristã e
branca, Oribela é tratada com desprezo, com perversidade pelo homens da
época simplesmente por ser mulher. Fresnot trata esse aspecto de forma intensa
durante todo o longa. Vale ressaltar que é um obra baseada em fatos históricos,
que ocorreram e, lamentavelmente, ocorrem - se essa mesma situação fosse
representada atualmente, apenas o figurino e a linguagem mudariam.

Um aspecto linguístico interessante abordado no filme é quando as outras


línguas, que não seja o português arcaico, são pronunciadas, não há legendas,
ficando impossível compreendê-las, ouvi-las. Com exceção da aparição de um
grupo indígena no começo do filme, pois Ximeno traduz suas falas, as demais
aparições, sobretudo as que se dirigem à Oribela, são incompreensíveis tanto ao
espectador quanto à órfão, o que reforça o pensamento de que, embora seja
uma mulher denominada livre perante as outra classes, impedida e incapaz de
exercer comunicação com estas, também está sob um julgo de escravidão nessa
sociedade.

Desmundo é um filme forte, real que transmite sua ideia a partir do


neologismo do próprio título ao adicionar o prefixo “des” ao vocábulo “mundo”
(como ocorre na palavra igual e a derivação desigual). O “desmundo” retratado
é sobre um Brasil violento, doutrinador, pobre, escravocrata, eurocêntrico,
misógino e machista sob a perspectiva de uma menina que busca sobreviver
nesse “novo” mundo”.

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