Você está na página 1de 2

Qual teoria interpretativa (e por qual motivo) responde melhor à dúvida semeada

pelas escolas que semeiam dúvidas sobre a responsabilidade de uma


interpretação bem-sucedida atualmente?

Entendo que duas teorias interpretativas trabalhadas ao longo do curso podem responder de
forma substancial às teorias que semeiam dúvidas sobre a responsabilidade de uma
interpretação bem-sucedida.
A primeira, mesmo que fora do campo jurídico, é a teoria hermenêutica de Umberto Eco.
Mesmo que um texto possibilite uma gama de interpretações que transcendem à interpretação
do que ele chama de autor empírico, o autor propriamente dito, há um limite hermenêutico em
todo texto, não comportando esta qualquer interpretação. Isto fica claro na diferenciação que ele
faz entre as possibilidades interpretativas de um texto e o uso do texto.
“Em meu texto The Role of the Reader (o papel do leitor), enfatizei a diferença entre
interpretar e usar um texto. Posso, com certeza, usar o texto de Wordsworth para uma paródia,
para mostrar como um texto pode ser lido em relação a diferentes contextos culturais, ou para
finalidades estritamente pessoais (posso ler um texto em busca de inspirações para minhas
meditações); mas, se quiser interpretar o texto Wordsworth, terei de respeitar seu pano de
fundo cultural e linguístico. (ECO, 2018, p.81)
Para Eco, devemos encontrar esse limite não no autor, nas suas intenções, mas sim, nas
intenções do próprio texto, naquilo que chamou de autor-modelo. Conforme suas próprias
palavras, “entre a intenção inacessível do autor e a intenção discutível do leitor está a intenção
transparente do texto, que invalida uma interpretação insustentável” (ECO, 2018, p. 93).
No campo da interpretação jurídica, podemos talvez afirmar que mesmo nos casos difíceis, em
que a lei não traz um sentido claro que permita a sua aplicação, ou que simplesmente não exista
um dispositivo legal direto acerca daquele caso concreto, é possível extrair um comando
normativo que conste nos próprios limites da ordem jurídica, sem que para isso haja qualquer
arbítrio por parte do interprete.
Kelsen, ao tratar sobre a interpretação jurídica, identifica o direito como uma moldura. Segundo
ele, “o Direito a aplicar forma, em todas essas hipóteses, uma moldura dentro da qual existem
várias possibilidades de aplicação, pelo que é conforme ao Direito todo ato que se mantenha
dentro deste quadro ou moldura, que preencha essa moldura em qualquer sentido possível.”
(2020, p. 390)
Essa posição se aproxima da perspectiva interpretativa de Eco, definindo limites à interpretação
jurídica. No entanto, existiria dentro desta moldura uma interpretação mais correta que as outras
quando estas se propõe a forma um ato decisório?
A segunda teoria interpretativa que podemos apontar é justamente a que responde a pergunta
objeto deste texto. Para Dworkin, na prática jurídica há sempre uma resposta certa aos dilemas
jurídicos e morais, esta resposta estaria na melhor interpretação baseada nas práticas sociais
existentes e na correlação entre o direito, seus princípios, a moral e a política.
Assim Morrison aponta que, na visão dworkiniana, “o direito encarna compromisso, convicção,
integridade e a busca da verdade (devemos acreditar na possibilidade, quando não
alcançabilidade imediata de uma resposta certa aos problemas jurídicos e morais)” (2012,
p.502).
REFERÊNCIAS
ECO, Umberto. Entre autor e texto. In: ECO, Umberto (Org.). Interpretação e
superinterpretação. São Paulo: Martins Fontes, 2020, pp. 80-104.
MORRISON, Wayne. Filosofia do Direito: dos gregos aos pós-modernismo. São Paulo: Martins
Fontes, 2012.
KELSEN, Hans. Teoria Pura do Direito. São Paulo: Martins Fontes, 2020.

Você também pode gostar