Você está na página 1de 16

Reflexões Sobre o

Jusnaturalismo
e o Direito Contemporâneo
1
JULIA MAURMANN XIMENES

RESUMO
A polêmica sobre o Direito Natural é uma constante histórica
no âmbito da Filosofia do Direito: desde a teoria clássica dos
gregos sobre a imutabilidade da natureza, até as
contemporâneas percepções do Direito Alternativo. Desta
feita, o estudo sobre o Jusnaturalismo contribui para uma
compreensão, de cunho axiológico, do direito no século XXI:
instrumento de justificação da ordem política e jurídica em
vigor.
Palavras-chaves: Jusnaturalismo - Direito Natural -
Filosofia do Direito - Axiologismo.
ABSTRACT
From the classical Greek theory on the immutability of
nature to the contemporary perceptions of Alternative Law,
the debate on Natural Law has been a historical constant in
the Philosophy of Law. Therefore, the study of jus naturale
leads to an axiological understanding of law in the XXI
century: an instrument of justification for the political and
judicial order in effect.
Key-words: Jus naturale - Natural Law - Law Philosophy -
Axiology.

Introdução

A polêmica sobre o Direito Natural diz respeito à concepção


de fonte e da definição de direito utilizada, que implica em
admitir a presença de um elemento axiológico: a
justiça.2Verdú destaca que o grande dilema do Direito
Natural não é sua natureza, suas características, mas, sua
existência.3 Há aqueles que crêem na existência do Direito
Natural e há quem não crê - problema de crença, de onde
surge a indagação: existem motivos racionais para crer na
sua existência? Ademais, a função do Direito Natural seria
compreender o fundamento e o critério de legitimação do
ordenamento jurídico, servindo de base à crítica e reforma
deste e intervindo na interpretação, na integração de
lacunas e na correção de normas.4
Alguns autores destacam um renascimento do
Jusnaturalismo no século XX, notadamente frente à violação
dos direitos humanos após a Segunda Guerra Mundial e ao
período em que interpretações histórico- evolutivas do
direito e o positivismo jurídico prevaleceram. Trata-se de
uma percepção que reconhece o relativo esgotamento das
formas tradicionais de perceber a polêmica do Direito
Natural, mas que se preocupa com a necessidade de
estabelecer limites éticos ao arbítrio do legislador em uma
ciência do direito orientada por valores éticos. Contudo,
estas teorias nem sempre estão nos moldes do
Jusnaturalismo, mas sim revestidas de um objetivismo ou
axiologismo jurídico, que a rigor não pertencem ao campo
estrito do Direito Natural.5 Muitos chamam estas atuais
percepções de Teorias da Justiça. De maneira geral, estas
teorias se distinguem do Jusnaturalismo, porque não se
reportam necessariamente a princípios suprapositivos, ou
melhor, acima do Direito Positivo. Uma outra percepção do
direito contemporâneo é a escola do Direito Alternativo:
baseada nas escolas científicas francesas e na sociologia do
direito, esta escola busca redefenir a juridicidade, alargando
os postulados democráticos do aparato normativo oficial,
reforçando o caráter libertador e democrático da
juridicidade.
Isto posto, o objetivo do presente artigo é demonstrar, por
intermédio de uma breve análise do desenrolar histórico do
Jusnaturalismo6, a influência do mesmo sobre uma nova
percepção do conceito de Direito no século XXI. Esta nova
percepção implica em uma abordagem de cunho axiológico,
que não parte de conceitos rígidos, mas permite o constante
debate.

1. Percurso Histórico do Jusnaturalismo


Clássico ao Moderno

A análise do percurso histórico do Jusnaturalismo nos


permite compreender melhor a essência do Direito Natural.
Contudo, cumpre salientar, que, ainda que intimamente
ligados, o Jusnaturalismo se diferencia do Direito Natural,
assim como o Juspositivismo do Direito Positivo: o
Jusnaturalismo é a teoria que fundamenta, explica e defende
a existência do Direito Natural, a sua superioridade sobre o
Direito Positivo, ao qual serve de critério inspirador e norma
valorativa.7
E o que se compreende por Direito Natural? O Direito
Natural tem recebido uma pluralidade de significados ao
longo de sua existência histórica, mas pode-se concluir que
sua univocidade histórico-funcional é caracterizar o seu
conteúdo como uma ordem de princípios eternos, absolutos
e imutáveis.8 Isto porque a polêmica reside na dicotomia
filosófica Direito Natural/Direito Positivo, que permite duas
análises distintas. A monista, que interpreta o Direito
Natural como superior e assim elimina qualquer outro direito
senão o natural, substituindo um conceito por outro. A
outra, dualista, admite uma hierarquia, mas se a natureza é
a justificação do direito, o Direito Natural é superior ao
Direito Positivo, ainda que não o substitua.9 Mesmo que
existam várias interpretações para o sentido da palavra
"natureza", a doutrina é unívoca em um ponto: o Direito
Natural é a medida de justiça do Direito Positivo, porque
este é direito apenas porque é estabelecido.
As três fases comumente abordadas pelos estudiosos do
Jusnaturalismo são: o clássico, o medieval, e o moderno.
O Direito Natural clássico dos gregos compreende uma
concepção essencialista ou substancialista do Direito
Natural: a natureza contém em si a sua própria lei, fonte da
ordem, em que se processam os movimentos dos corpos, ou
em que se articulam os seus elementos constitutivos
essenciais.10 A ordem da natureza é permanente, constante
e imutável. Trata-se da concepção cosmológica da natureza,
que marcou o pensamento grego pré-socrático, destacando-
se três pensadores - Anaximandro, Parmênides e Heráclito.11
O pensamento medieval e escolástico parte de um conceito
teológico de natureza: "a natura não é só nem
principalmente aquilo por que cada coisa tem um modo de
ser próprio, mas o modo de ser próprio de cada coisa
enquanto criada por Deus"12. Assim, defendia-se a existência
de uma lei superior à vontade humana, e em último termo,
à vontade divina. O Direito tem como fonte uma ordem
ontológica, que transcende a vontade humana e expressa o
justo, decorrente da natureza das coisas. Assim, o Estado de
Direito deve estar subordinado a exigências materiais e
objetivas de Justiça (Estado de Justiça) e a uma ordem
normativa que lhe é anterior e superior (Estado de
legitimidade).13 O direito se dirige ao legislador e não a cada
um dos membros da comunidade. Os grandes
representantes desta filosofia medieval são Tomás de
Aquino e Santo Agostinho.14
O Jusnaturalismo Moderno, ou Escola Moderna do Direito
Natural, ou Jusnaturalismo Racionalista, de Hugo Grócio,
Pufendorf, Hobbes, Rousseau, Locke e outros, representa
uma ruptura com o Jusnaturalismo Clássico e com o
Jusnaturalismo Escolástico, desligando-se de seus
fundamentos ontológicos e teológicos, e passando a ser
instrumento de um racionalismo subjetivista, abstrato e a-
histórico.15 Deus deixa de ser visto como emanador das
normas jurídicas e a natureza ocupa esse lugar, com um
adendo: não é a natureza que dá aos homens esse
entendimento, mas é ele mesmo, por meio da razão, que
apreende esse conhecimento e o coloca em prática na
sociedade.16 A partir de certos princípios, procura-se
construir, dedutivamente, rígidos e exaustivos sistemas de
Direito Natural, dotados de validade universal e perpétua.
Este foi o pensamento predominante nos séculos XVII e
XVIII, e cujos traços distintivos do pensamento medieval
Braz Teixeira destaca da seguinte forma:

a. O fundamento da lei natural, que o pensamento


medieval encontrara na lei eterna, expressão da
vontade e da razão divinas, passa agora a ser a razão
humana, a recta razão ou a razão dedutiva, concebida
como via segura e adequada para a obtenção de
conhecimentos ou das ideias claras e distintas,
operando através dos processos matemáticos da
análise e da síntese;
b. O conceito de homem de que parte ou em que
assenta esta visão antropológica do jusnaturalismo é
de feição mecânica, projectando-se essa visão
igualmente no corpo social e político e no atomismo
individualista que lhe anda intimamente ligado;
c. Enquanto o Direito Natural medieval apenas se
preocupava em definir os grandes princípios relativos
à ordem social, que aos legisladores caberia depois
desenvolver e aplicar às diversas sociedades, agora
pensa-se que a razão humana, devidamente
esclarecida ou iluminada, está em condições de
construir ou formular sistemas completos e acabados
de direitos naturais, válidos para todos os tempos e
lugares, pelo que careceria de sentido a distinção
entre direito natural primário e secundário
apresentada pelo pensamento medieval.(sic)17

Portanto, nos séculos XVIII e XIX a essência do Direito


Natural era a razão, surgindo o racionalismo, com o objetivo
de construir uma nova ordem jurídica baseada em princípios
de igualdade e liberdade, proclamados como os postulados
da razão e da justiça.
Contudo, em seguida temos a passagem do Jusnaturalismo
ao Positivismo Jurídico, quando se percebe a redução do
Direito Natural a um critério de avaliação do Direito Positivo,
no tocante ao elemento justiça. O seu estudo não faz parte
das tarefas da jurisprudência. A reflexão teórica sobre o
direito começa apenas quando o direito foi estabelecido, ou
seja, o importante é o que o direito é, e não como o direito
transformou- se no que ele é, idéia bem representada na
Teoria Pura do Direito de Kelsen.18Esta concepção
permanecerá até a segunda metade do século XX, quando
surgem as primeiras Teorias da Justiça.

2. O Jusnaturalismo e as Teorias
da Justiça Contemporâneas

Um critério que permite distinguir o Jusnaturalismo do


Positivismo Jurídico é a percepção sobre a certeza jurídica. A
certeza do Direito para o Jusnaturalismo é o conhecimento
por parte do indivíduo sobre o que é lícito ou não fazer, não
se limitando ao mero ato de conhecimento objetivo das
normas, mas sim transcendendo a empiria normativa para
dirigir-se à busca da verdade do Direito: a justiça.19Assim, a
justiça está em primazia com relação a certeza, em
contraponto à percepção positivista, onde a certeza está
sobre a justiça.
No século XX, notadamente após a Segunda Guerra Mundial
e suas atrocidades em nome de um Direito Estatal, surge
um movimento que admite a incapacidade do Positivismo
Jurídico de fundamentar axiologicamente o Direito e que não
garante princípios essenciais. Trata-se de uma concepção
que busca a reflexão sobre a citada verdade do Direito: a
justiça.20
Um dos precursores foi Rudolf Stammler, baseado em um
raciocínio apriorístico, que entende que os "seres humanos
trazem para a percepção cognitiva dos fenômenos certas
categorias apriorísticas e formas de entendimento que não
obtiveram através da observação da realidade"21. O filósofo
ainda distingue o conceito do direito e a idéia do direito:
esta é a realização da justiça, que exige que todos os
esforços legais se dirijam no sentido de atingir a mais
perfeita harmonia na vida social. Giorgio Del Vecchio
também trabalha com esta distinção e considera que o
Direito Natural sempre acompanhou a humanidade.22
Outros filósofos: são Chaïm Perelman, Ilmar Tammelo, Emil
Brunner, John Rawls, Robert Nozick, Ottfried Höffe, dentre
outros, que também defendem este resgate do valor justiça
na análise do Direito.
Para Chaïm Perelman, por exemplo, a justiça é invocada
para proteger a ordem estabelecida e para justificar as
reviravoltas revolucionárias.23 E neste sentido a justiça é um
valor universal, ainda que seja uma "noção confusa"24-
assume rostos diversos. O autor conclui pela existência de
dois conteúdos no conceito de justiça: o formal, ou justiça
abstrata, que compreende "princípio de ação segundo o qual
os seres de uma mesma categoria essencial devem ser
tratados da mesma forma"25, e o particular, ou justiça
concreta (que representa uma noção comum), que não
permite acordo justamente porque considera uma
característica diferente como a única, que se deve levar em
conta na aplicação da justiça. Assim, Perelman trabalha com
o princípio da igualdade para definir sua Teoria da Justiça.
John Rawls, por outro lado, parte de uma concepção mais
contratualista: em uma situação inicial, que o autor chama
de original, se atinge um consenso sobre justiça, a partir de
um véu de ignorância que dissipa as atitudes e inclinações
particulares dos indivíduos (circunstâncias econômicas e
sociais diversas).26O autor trabalha mais com a concepção
política de justiça - princípios básicos de uma sociedade, um
conceito de justiça como eqüidade. "O objetivo da
abordagem contratualista é o de estabelecer que tomados
em seu conjunto esses pressupostos estabelecem
parâmetros adequados para os princípios de Justiça
aceitáveis."27
A concepção de justiça política de Höffe procura resgatar o
Direito Natural por intermédio de uma crítica ética ao direito
e ao Estado. A Justiça Política seria a crítica ética das leis e
das instituições políticas, designando a idéia ética de Direito
e de Estado, o que o legitima e o limita. Para tanto, é
preciso estruturar e organizar os poderes públicos,
determinando estratégias e caminhos, a fim de que o
comprometimento com a justiça não fique à mercê do
arbítrio daquele que detém o poder. A ordem jurídica estatal
se apresenta como uma trama complexa de regras,
instâncias e poderes exclusivamente positivos, perdendo seu
sentido o apelo a uma instância crítica suprapositiva, e
tornando a justiça utópica. A filosofia política deve
considerar três conceitos: Direito, Justiça e Estado, a serem
considerados em um contexto sistemático: o Estado está
obrigado à justiça, a Justiça Política forma a medida
normativo-crítica do Direito e o Direito justo é a forma
legítima da convivência humana. Assim, é possível melhor
compreender o objeto e a finalidade da Justiça Política.
Neste sentido, a Justiça Política de Höffe busca justamente
resgatar a legitimidade do Estado de Justiça e não qualquer
Estado, discutindo os mandatos políticos sob uma
perspectiva ética. Mas ele destaca que a justiça não é um
ato de graça, ela é exigida, o que a diferencia e a legitima
frente a outras exigências da moral social, os deveres de
virtude. Trata-se de ser justo por convicção, de conhecer
suas obrigações jurídicas não apenas por medo da punição.28
As concepções abordadas, portanto, buscam defender o
fundamento axiológico do direito, que é a justiça, como
valor fundante e universal. Contudo, a justiça é um valor
destituído de conteúdo unívoco e exige a percepção da
circunstancialidade histórica, cultural, política, econômica e
social do direito sob análise. Ainda que se aceite a noção de
justiça na análise do Direito, ela não é única e implica em
complementações de cunho diverso, que analisaremos
adiante.

3. O Jusnaturalismo
e o Direito Alternativo

O Jusnaturalismo é muitas vezes utilizado para justificar


certos padrões de conduta que rejeitam o positivismo formal
ou o dogmatismo. Contudo, este posicionamento mais
"alternativo" implica na análise de uma nova escola.
O movimento do uso alternativo do Direito iniciou-se no final
dos anos 60 com a Magistratura Democrática Italiana, com
vistas a lidar com o Direito sob uma ótica democratizante,
superando o legalismo estreito, mas tendo como limite os
princípios gerais do Direito, estabelecendo que o
compromisso do juiz deve ser a busca incessante da Justiça.
Para o Direito Alternativo a atividade do jurista deve ser
criadora e comprometida com determinada utopia.
Existem várias correntes, como aqueles doutrinadores que
defendem que o jurista deve procurar concretizar os
princípios, atuando dentro do limite do positivado como
forma de politizar a interpretação, inclusive negando
vigência à lei que viole princípios gerais do Direito. Outros
defendem o Direito Alternativo em sentido estrito, que
abandona a visão monista do Direito, onde só existe um
Direito, o oficial estatal; e permite que a própria sociedade
crie um Direito que supere a opressão e/ou dominação,
tendo como horizonte a utópica vida digna29.
Alguns autores colocam que o Direito Alternativo poderia
utilizar a metafísica do Jusnaturalismo como método.
Contudo, esta relação é contraditória para outros autores,
uma vez que o Direito Alternativo lida com a prática e
transformação social, implicando na negação da lei em favor
daqueles que se encontram submetidos por relações sociais
de dominação, baseada em critérios de justiça que não
estão necessariamente ligados à racionalidade do
ordenamento jurídico vigente. O ponto em comum entre os
dois é a repulsa à norma injusta, mas os critérios de
aferição são diferentes.30
Contudo, "...não cabe ao julgador, sistematicamente,
colocar a mão em um dos pratos da balança, pois, ao
contrário daquilo que dizem os `alternativos', o direito nem
sempre está com o locatário, com o posseiro (muitas vezes
invasor) ou com o devedor. Estes verdadeiros arquétipos
são muito mais a expressão do pensamento ingênuo, que se
esconde na redução do Estado aos interesses de uma classe
hegemônica."31 Neste sentido, José Reinaldo de Lima Lopes
apregoa que nos precedentes do Direito Alternativo estão
algumas vertentes do Direito Natural, a saber:

O jusnaturalismo, que julgo estar na matriz do direito


alternativo, não é irracional: ao contrário, seja na sua
versão clássica, na sua versão tomista, na sua versão
moderna, o apelo dos jusnaturalistas sempre foi à
racionalidade e à razão humana. Esta, com todas as suas
diferenças nas diversas escolas, era alçada ao grau de
instância crítica do dever de obedecer. Naturalmente, no
Estado moderno e contemporâneo algo precisa ser
destacado e salvo.32
Ainda que algumas correntes do Direito Alternativo neguem
o ideal do Jusnaturalismo, pois este recusa a inserção
histórica, as reivindicações populares, de novos direitos
individuais e coletivos, o apregoado compromisso ético com
a opção democrática, implica em resgatar valores de cunho
abstrato, como a justiça. Até porque parte da premissa do
pluralismo jurídico e, portanto, da "noção confusa" de
pressupostos filosóficos. Ainda que defenda a produção de
resultados práticos, é preciso ter uma teoria.

4. Conclusões

Isto posto, percebe-se que o Direito Natural é uma


constante histórica, apesar das inúmeras críticas. Ora é
invocado para justificar rupturas com o ordenamento
jurídico vigente, ora para suprir lacunas legais. Ele reflete
características específicas de sua respectiva época, mas,
continua suscitando questões sobre a natureza do direito,
sua justificação, inclusive do direito oficial.
Conforme destaca Miguel Reale, o Direito Natural se reduz a
um problema de axiologia antropológica, haja vista que sua
configuração depende do sentido do valor atribuído ao
homem, consoante a época histórica e a respectiva escala
prioritária de valores.33Assim, um novo enfoque do Direito
Natural implicará em uma "compreensão transcendental-
axiológica, como tal não estática, mas dinâmica; não formal,
mas de fundamental conteúdo valorativo".34
Portanto, quando se pergunta se existem critérios racionais
para crer na existência de um Direito Natural, poderíamos
responder afirmativamente, se considerarmos que de cada
época histórica emergem novos pressupostos axiológicos
como arcabouço justificador dos ordenamentos jurídicos
positivos.35 Infere-se, então, uma concepção política do
Jusnaturalismo, compreendido como instrumento
legitimador de uma nova ordem jurídica e política.
Verdú coloca que as supremas razões do Direito Natural são
evocadas para justificar uma ruptura com a ordem em vigor,
sendo que, depois de solidamente estabelecida, a nova
ordem se refugia no positivismo jurídico. O Estado liberal de
Direito, na medida em que se afastou da perspectiva ética,
se materializa, porque se apóia na legalidade vigente que
garante uma estrutura econômica social, do Direito da
propriedade privada e do mercado livre.36 Depois da
Segunda Guerra Mundial, como salientamos, houve um
florecimento do Jusnaturalismo face ao momento de
opressão totalitária até então em vigor.
Desta feita, o que os autores das Teorias da Justiça e do
Direito Alternativo buscam é, de certa forma, resgatar um
dos aspectos do Jusnaturalismo: o de legitimação do
ordenamento jurídico. Alguns buscam uma concepção mais
universal de justiça, como Rawls, ao defender um consenso
na situação original; como Höffe, que apregoa a justiça por
convicção; como os autores do Direito Alternativo, ao
defender um direito mais democratizante a favor dos
sujeitos, que se encontram submetidos por relações sociais
de dominação; e outros, que admitem a diversidade, como
Perelman. De qualquer forma, os filósofos juristas, que
defendem uma linha de pensamento mais metafísica, são
criticados por adotarem uma postura muitas vezes
considerada ingênua, mas que no fundo se preocupa com o
fundamento, a legitimidade do direito posto. Por que a
sociedade deveria obedecer a um ordenamento que não
corresponda minimamente às suas percepções acerca de
valores, como a justiça, a ética, a proteção dos direitos
humanos? A fragilidade do direito reside no fato de ele ser
válido contra a justiça.37
Assim, por intermédio de uma breve análise do
Jusnaturalismo buscou-se salientar as contribuições para
uma nova percepção do conceito de direito no século XXI.
Este contemporâneo conceito de Direito implica em resgatar
o seu conteúdo, em separá-lo da lei. Trata-se de uma
abordagem de cunho axiológico, que enfatiza o direito como
algo dinâmico e legítimo justamente pelo seu elemento
primordial: a justiça.
O Jusnaturalismo, ao isolar o problema da justiça, abriu
espaço para que o Positivismo Jurídico extirpasse do campo
da reflexão jurídica o problema e a aspiração do Direito
Natural: a justiça. Hoje a questão é retomada para uma
reflexão integrada do direito, para a qual o objeto central de
pesquisa se torna o problema da justificação.38
Ainda que se insista nas palavras iniciais de Verdú sobre a
"crença" no Jusnaturalismo, é preciso crer. Crer para ter a
certeza de que um ordenamento jurídico não existe só
porque o arbítrio do legislador assim o concebeu, sem
nenhum critério. É preciso relativizar a dogmaticidade do
direito, seu critério científico, em favor de um direito mais
humano, interdisciplinar e ciente de seu papel na
legitimação de um Estado de Direito que não tenha
unicamente o cunho positivista, mas também axiológico,
que interaja com o cidadão e busque, na medida do possível
satisfazer seus anseios. Disto se retira a premência do
debate sobre o ressurgimento do Jusnaturalismo e sua
relevância em uma época carente de valores e ideais, que
não sejam os economicamente fundamentados pela
globalização.
Destas reflexões surge um processo de politização e
legitimação do direito: o Jusnaturalismo, de cunho
axiológico, histórico, dinâmico e não formal, como
instrumento de justificação da ordem política e jurídica em
vigor, a fim de garantir um mínimo "axiológico" ao direito.
Não se quer aqui negar o sistema jurídico, o que implicaria
no desaparecimento de um mínimo de segurança jurídica. A
intenção é conciliar este aspecto legal, e portanto, estático,
do ordenamento jurídico, ao direito como expressão de
valores. Desta feita, o estudo sobre o Jusnaturalismo
contribui para esta compreensão, de cunho axiológico, do
direito no século XXI.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BITTAR, Eduardo Carlos Bianca; ALMEIDA, Guilherme Assis


de. Curso de filosofia do direito. São Paulo: Atlas, 2001.
BODENHEIMER, Edgar. Ciência do Direito - Filosofia e
Metodologias Jurídicas. Trad. Enéas Marzano. Rio de Janeiro:
Forense, 1966.
CARVALHO, Amílton Bueno de. Direito Alternativo na
Jurisprudência. São Paulo: Acadêmica, 1993.
CHORÃO, Mário Bigotte. Temas Fundamentais de Direito.
Coimbra: Livraria Almedina, 1991.
CLÈVE, Clémerson Merlin. Temas de Direito
Constitucional (E de Teoria do Direito). São Paulo:
Acadêmica, 1993.
DI GIORGI, Beatriz. Especulação em torno dos conceitos de
ética e moral. In: DI GIORGI, Beatriz; CAMPILONGO, Celso
Fernandes; PIOVESAN, Flávia (coord). Direito, Cidadania e
Justiça - Ensaios sobre Lógica, Interpretação, Teoria,
Sociologia e Filosofia Jurídica. São Paulo: Revista dos
Tribunais, 1995. Pp. 229-245.
DIREITO NATURAL. In: ARNAUD, André- Jean (org.)
Dicionário Enciclopédico de teoria e sociologia do
Direito. Rio de Janeiro: Renoval, 1999. Pp. 262-265.
GOUVEIA, Alexandre Grassano F. Direito Natural e Direito
Positivo. Disponível em:
<http.www.suigeneris.pro.br/direito24.htm>. Acesso em:
13 ago. 2001.
HERKENHOFF, João Baptista. Como aplicar o direito: à luz
de uma perspectiva axiológica, fenomenológica e
sociológico-política. 5. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2001.
HÖFFE, Otfried. Justiça Política - Fundamentação de uma
Filosofica Crítica do Direito e do Estado. Trad. Ernildo Stein.
Petrópolis/RJ: Vozes, 1991.
LOPES, José Reinaldo de Lima. Em torno do direito
alternativo. Revista de Informação Legislativa. Brasília,
n. 121, jan./mar. 1994, pp. 255-263.
MARTINS, José Maria Ramos. Da noção de Direito Natural à
de Direito Alternativo. Revista da Faculdade de Direito
da UFPR. Curitiba: UFPR, n. 30, pp. 199-214, 1998.
PERELMAN, Chaïm. Ética e Direito. Trad. Maria Ermantina
Galvão. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
REALE, Miguel. Direito Natural/Direito Positivo. São
Paulo: Saraiva, 1984.
RAWLS, John. Uma Teoria da Justiça. Trad. Almiro Pisetta
e Lenita M. R. Esteves. São Paulo: Martins Fontes, 1997.
SOUZA, Luiz Sérgio Fernandes de. Que Direito Alternativo?
In: DI GIORGI, Beatriz; CAMPILONGO, Celso Fernandes,
PIOVESAN, Flávia (coord). Direito, Cidadania e Justiça -
Ensaios sobre Lógica, Interpretação, Teoria, Sociologia e
Filosofia Jurídica. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1995.
Pp. 197-207.
TEIXEIRA, António Braz. A Justiça no Pensamento
Contemporâneo. Revista Jurídica. Campinas, v. 14, pp.
29-60, 1998.
______. Sentido e Valor do Direito - Introdução à
Filosofia Jurídica. [s.l.]: Imprensa Nacional, 1990.
VERDU, Pablo Lucas. Curso de Derecho Politico. Madrid:
Tecnos, 1972.
XIMENES, Julia Maurmann. Uma Nova Concepção de Justiça
no Brasil - análise sobre a Teoria de Rawls e de Höffe.
Revista Escola de Direito. Pelotas: EDUCAT, v. 1, n. 1, p.
109-121, jan./dez. 2000.

1
Mestre em Direito pela Universidade Metodista de
Piracicaba; professora de Metodologia Jurídico Científica das
Faculdades Claretianas / Rio Claro; e-mail:
juliamaurmann@aol.com
2
Idem, p. 119; TEIXEIRA, António Braz. Sentido e Valor
do Direito - Introdução à Filosofia Jurídica, 1990, p. 120.

3
VERDÚ, Pablo Lucas. Curso de Derecho Político, 1972,
p. 371.

4
Idem, p. 105.

5
TEIXEIRA, António Braz, p. 155, e CHORÃO, Mário B.
Temas Fundamentais de Direito, 1991, p. 109.

6
Doravante inclui-se na expressão "estudo do
Jusnaturalismo" a sua relação com as Teorias da Justiça e o
Direito Alternativo do século XX.

7
PEREZ LUÑO, Antonio-Enrique. Iusnaturalismo y
Positivismo Jurídico en la Italia Moderna, 1971, p. 33.

8
Idem, p. 37.

9
DIREITO NATURAL. In: ARNAUD, André-Jean (org.)
Dicionário Enciclopédico de teoria e sociologia do
Direito, 1999, p. 264.

10
Idem, p. 122-8.

11
TEIXEIRA, António Braz, op. cit., p. 126.

12
Idem, p. 124.

13
CHORÃO, Mário B., op. cit., p. 102, que ainda acrescenta
sobre a legitimidade: "O ordenamento jurídico, para ser
legítimo, tem de se conformar com o direito natural. Não
basta, com efeito, que as normas jurídicas apresentem uma
validade formal (vigência) e social (eficácia). Carecem
também de uma validade ética ou intrínseca (legitimidade).
Precisamente, a natureza das coisas - ou o justo natural -
constitui a medida, por excelência, dessa validade. Sem ela,
os comandos legais deixam, em rigor, de ter força e
natureza de lei." (p. 106)

14
Momento oportuno para salientar que é esta percepção de
Direito Natural que é mais conhecida e utilizada, muitas
vezes de forma negativa. Assim, atribui-se genericamente
ao Direito Natural o caráter teológico do Direito Natural
Medieval, percebendo seu fundamento, em última instância
a uma determinada fé religiosa, postulando a lei natural
relativamente à lei eterna. Porém, esta percepção
representa uma corrente histórica do Jusnaturalismo como
teoria que crê na existência de um Direito Natural, seja ele
de ordem divina ou não.

15
CHORÃO, Mário B., op. cit., p. 108.

16
BITTAR, Eduardo Carlos Bianca; ALMEIDA, Guilherme
Assis de. Curso de filosofia do direito, 2001, p. 227.

17
Op. cit., p. 140.

18
GOUVEIA, Alexandre Grassano F. Direito Natural e
Direito Positivo, p. 4.

19
PEREZ LUÑO, Antonio-Enrique, op. cit., p. 133.

20
Cumpre salientar que a primeira linha de pensamento
sobre a Justiça, que afirma a sua realidade como princípio,
valor, idéia ou ideal, se inicia no período pré-socrático, com
Homero, Hesíodo, Sólon, Anaximandro, Parmênides e
Heráclito, se desenvolve na filosofia platônica e aristotélica,
se projeta no Direito Romano e na Escolástica, culminando
no pensamento de Leibniz. A segunda linha, cujos
representantes iniciais foram os sofistas gregos, entende a
Justiça como uma mera convenção ou criação humana,
prossegue com Epicuro e os céticos, é retomada por David
Hume e pelas correntes utilitaristas, empiristas, positivistas
e sociologistas. (TEIXEIRA, António Braz, op. cit., p. 164)

21
BODENHEIMER, Edgar. Ciência do Direito - Filosofia e
Metodologias Jurídicas, 1966, p. 150.

22
Idem, p. 151-153.

23
PERELMAN, Chaïm. Ética e Direito, 1999, p. 146.

24
Por "noção confusa" compreendem-se termos de difícil
definição e com alto grau valorativo (PERELMAN, Chaïm, op.
cit., p. 6).
25
RAWLS, John. Uma teoria da justiça, 1997, p. 19.

26
Ibidem, p. 136-153.

27
Ibidem, p. 20

28
HÖFFE, Otfried. Justiça Política - Fundamentação de
uma Filosofia Crítica do Direito e do Estado, passim.

29
CARVALHO, Amílton Bueno de. Direito Alternativo na
Jurisprudência, 1993, pp. 8-15. Nem sempre os
defensores do Direito Alternativo conseguem explicitar se
estão propondo uma nova ordem jurídica, uma nova
hermenêutica para a ordem jurídica vigente ou novos
paradigmas doutrinários para a reflexão teórica e analítica
do fenômeno legal (FARIA, José Eduardo. Os desafios do
Judiciário, op. cit., p. 48).

30
SOUZA, Luiz Sérgio Fernandes. Que Direito
Alternativo?, pp. 200-201.

31
Ibidem, p. 207

32
Em torno do direito alternativo, 1994, p. 257.

33
Direito Natural/Direito Positivo, 1984, p. 3.

34
Idem, p. 16.

35
Trata-se aqui do problema axiológico do direito: interrogar
se o direito é um valor em si ou tem em si o seu próprio
fundamento, ou seja, se há um valor - o direito - de que o
direito positivo retira a sua validade. (TEIXEIRA, António
Braz, op. cit., p. 119).

36
Op. cit., p. 390.

37
DI GIORGI, Beatriz. Especulação em torno dos
conceitos de ética e moral, 1995, p. 240. A autora ainda
acrescenta: "...Por isso a exigência moral da justiça é
condição para que o Direito tenha sentido. A arbitrariedade
priva assim o Direito de sentido, por ser unilateral e
prescindir dos outros, enquanto mundo comum. ..... O
Direito sem justiça é, portanto, sem sentido."
38
DIREITO NATURAL. In: ARNAUD, André-Jean (org.).

http://www.unimep.br
Telefone: (19) 3124-1520
Fax: (19) 3124-1529
grafica@unimep.br
Dicionário Enciclopédico de teoria e sociologia do
Direito, 1999, p. 265.