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A COMÉDIA NOVA E A TRAGICOMÉDIA EM “ANFITRIÃO” DE

PLAUTO

Isabella de Andrade Rodrigues


Nº USP: 10270943

Como visto em aula, a Comédia Nova, ou Fábula Palliata, se diferencia da


comédia antiga a partir do momento que se distancia das sátiras, dos
improvisos, do uso de linguagem de baixo calão e do humor mordaz, com o
objetivo de atacar uma determinada figura da sociedade ou de fazer piadas
com quem estava assistindo. Ela se opõe ao cunho satírico e político, surginido
com a queda da democracia ateniense, se alinhando aos temas da vida privada
– visto que não é mais possível falar ou satirizar a vida pública.

Com o surgimento da Comédia Nova, o coro foi extinto e a métrica foi alterada
para que se soasse como uma fala comum, além do surgimento do texto. Além
disso, os temas da Comédia Nova são as disputas familiares, amores
proibidos, tudo que é privado, e não social ou institucional. A estrutura do
enredo é a mesma, ocasionada na cidade, com tipos fixos como o escravo, que
assume o protagonismo. Porém, apesar da comédia ser romana, os
personagens posuem nomes gregos e vestem roupas gregas, para que se
possa causar um efeito cômico, ao mesmo tempo em que se critica a própria
sociedade. Enquanto na tragédia você sente pena e compaixão, na comédia
você se sente, como audiência, superior por zombar de algo como vícios,
traições, fofocas.

Apesar disso, a comédia tem a ideia de integração. É o lugar onde as coisas se


conformam, se encontram; o final da Comédia Nova é sempre positivo e
brando, ao contrário da tragédia. Ainda assim, seu objetivo é induzir a
concepção de um riso moralizante, que ensine para o público como ser aquilo
do que não se ri. Ela ensina o que é aceitável para a sociedade, desfazendo a
ilusão do teatro.

Dito isto, a Comédia Nova é um gênero que reflete sobre si mesmo, falando do
mundo do teatro, sobre os atores e sobre os espectadores. Na fala dos atores
é possível notar diversas referências teatrais, como quando dizem no início da
peça à audiência que, se alguém for subornado para elogiar e ficar interferindo
no desenrolar da peça, irá sofrer penas graves.

Em “Anfitrião” de Plauto, pertencente à Comédia Nova e a primeira peça


nomeada como “tragicomédia”, o prólogo é narrado pelo escravo, que age
como demiurgo, cria o mundo. O escravo representa o autor dentro da peça,
indicando uma metateatralidade. O latim utilizado pelo autor é complexo,
anterior a uma uniformização de uma língua literária, com diversos elementos
metadiscursivos presentes na obra.

Por meio da descrição de tragédia e comédia de Aristóteles, a tragédia é a


imitação de homens elevados, e a comédia é a imitação de homens inferiores.
Porém, com “Anfitrião” surge um novo gênero, visto que traz personagens de
caráter nobre, como reis e heróis, mas ainda mantém as características de uma
comédia, como a linguagem cotidiana e vulgar, os tipos fixos de personagens e
o caráter cômico. Com a adaptação do tema grego, Plauto utiliza de repetições
vistas na comédia para colocar o público em posição de superioridade, já
sabendo de tudo o que vai ocorrer por meio da fala do escravo no prólogo da
obra.

Sendo assim, a peça conta a noite em que Hércules é concebido a partir do


desejo de Júpiter por Alcmena, esposa de Anfitrião, que já está grávida. Júpiter
se disfarça de Anfitrião enquanto este está na guerra, para dormir com
Alcmena; para isso, convoca Mercúrio para se disfarçar de seu escravo, Sósia.
Os personagens possuem características fixas da comédia: Júpiter é o jovem
incontinente; Alcmena é a mulher adúltera; Mercúrio é o escravo esperto
(Seruus Callidus); e Anfitrião é o marido traído.

Portanto, Mercúrio descreve o contexto para o público e explica ao mesmo


suas ações antecipadamente, deixando o público a par de seus planos e com a
sensação de superioridade, pois os mesmos sabem da enganação de Júpiter;
logo, são superiores aos outros personagens, que não sabem o que está
acontecendo. Essa é uma característica típica da comédia e é o que dá a
comicidade para a obra.
No prólogo, o próprio Mercúrio afirma que a obra é uma junção nova de dois
gêneros teatrais, se baseando a partir da construção dos personagens. Então,
apesar de ter personagens considerados trágicos, de caráter elevado e que
vivem em Tebas, a cidade onde as peças trágicas ocorrem, “Anfitrião” continua
sendo considerado uma comédia, pois traz à tona todos os elementos da
mesma com perfeição. Porém, como nunca antes tinha sido usado em uma
comédia personagens de caráter elevado e outros elementos não-cômicos na
história, como a linguagem diferenciada, o autor inventa um novo gênero, que é
a mistura entre comédia e tragédia: a “tragicomédia”.

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