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GOVERNO DO ESTADO DE MATO GROSSO

SECRETARIA DE ESTADO DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA


UNIVERSIDADE DO ESTADO DE MATO GROSSO
PRÓ-REITORIA DE ENSINO DE GRADUAÇÃO
LICENCIATURA EM LETRAS - HABILITAÇÃO EM LÍNGUA E LITERATURAS DE LÍNGUA
PORTUGUESA E LÍNGUA ESPANHOLA

VARIAÇÃO LINGUÍSTICA X LÍNGUA CULTA: USO E ENSINO NA ESCOLA


DE CAMPO

VARIACIÓN LINGÜÍSTICA X LENGUA CULTURA: USO Y ENSEÑANZA EN


ESCUELA DE CAMPO

ABRA, Marta Helena1


SILVA, Luzia Rodrigues da2
SOUZA, Maria Domingas de3
Resumo

Este trabalho tem como objetivo abordar o tema variação linguística em contraponto
com a língua culta, em um contexto da escola do campo que pressupõe o uso real dessas
variações. Realizou-se através da pesquisa bibliográfica e de campo, por meio de
observações pelas acadêmicas deste trabalho, através da convivência diária na escola de
campo Santa Maria do Ouro Verde, em Colíder-MT, uma vez que se constatou que
nesse ambiente, que se conhece bem em virtude de uma das acadêmicas trabalhar nela,
há variações da linguagem aceitas como “corretas” e outras “erradas”, seja na fala dos
alunos ou na dos profissionais. Variações estas que trazem o falar coloquial/corriqueiro,
muitas vezes sem o domínio do uso da língua culta, conforme as regras gramaticais, e
que faz com que esses falantes, não raro, sejam vítimas de preconceitos por aqueles que
acreditam que a dominam. Assim, buscou-se discorrer sobre a prática pedagógica dos
profissionais desta escola para a confirmação ou refutação se tal preconceito acontece
em ambiente escolar. Através de teóricos de renome como Bagno, Mussalim e Bentes,
Scherre e Bortoni-Ricardo fundamentou-se esta pesquisa tendo como procedimentos a
observação diária dos alunos e educadores que fazem parte da referida escola.

Palavras-chave: Preconceito linguístico; Escola de campo; Preconceito no ambiente


escolar

Resumen

Este artículo tiene como objetivo abordar el tema de la variación lingüística frente al
lenguaje cultivado, en un contexto escolar campo que presupone el uso real de estas
1
Acadêmica do curso de Licenciatura em Letras- Espanhol – Campus de Colíder - UNEMAT. E-mail:
marta_abra@hotmail.com
2
Acadêmica do curso de Licenciatura em Letras- Espanhol – Campus de Colíder - UNEMAT. E-mail:
luzrodrigues82@gmail.com
3
Professora Orientadora do curso de Licenciatura em Letras – Língua Portuguesa / Língua Espanhola /
DEAD/UAB/UNEMAT – Mestra em Estudos de Linguagem – E-mail: mariads.moraes@gmail.com
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variaciones. A través de la investigación bibliográfica y de campo, a través de las


observaciones y la vida diaria en la escuela de campo Santa Maria do Ouro Verde, en el
municipio de Colíder-MT. En este entorno que es bien conocido por el hecho de trabajar
en él, se advirtió que existen variaciones del lenguaje aceptado como lenguaje
"correcto" e "incorrecto", tanto en el habla de los estudiantes como de los profesionales.
Y esta variación lingüística que trae el discurso coloquial, el común, muchas veces, sin
el dominio del uso de la lengua culta, según las reglas gramaticales, hace a estos
hablantes, no pocas veces, víctimas del prejuicio de quienes creen que dominan. eso.
Así, se buscó discutir la práctica pedagógica de los profesionales de esa escuela para su
confirmación o refutación si tal prejuicio también ocurre en el aula y en el ambiente
extra-aula. Esta investigación se basó en teóricos de renombre como Bagno, Mussalim y
Bentes e Bortoni-Ricardo a partir de la observación diaria de estudiantes y empleados
que forman parte de la Escuela Rural Santa Maria do Ouro Verde.

Keywords: prejuicio lingüístico; escuela rural; prejuicio en el entorno escolar

1. INTRODUÇÃO

Existem muitas semelhanças entre os animais e os seres humanos, mas entre as


coisas que os diferem, uma das principais está na necessidade de viver em sociedade
através de processos de socialização, que ocorrem principalmente pela comunicação e
suas relações de mundo. Destaca-se que entre suas formas encontra-se a linguagem oral,
que além de gestos, expressões corporais, sinais, tem como uma das principais a fala
que se utiliza de palavras.
Muitas são as situações de comunicação e, portanto, o ser humano
linguisticamente competente consegue adequar sua fala de acordo com suas
necessidades, os receptores, a faixa etária, o gênero sexual, o momento histórico, o
contexto, entre outros. Isso é possível, graças a vasta diversidade de que é composto o
sistema linguístico, contudo, por vários fatores, tais como o processo histórico, algumas
maneiras de falar recebem valoração e outras sofrem estigmas, por causa de sua
oralidade que possui sotaques e dialetos próprios daquela comunidade linguística.
Pensando nisso, para elaborar este estudo voltou-se o olhar e os ouvidos para as
diferenças entre o que se considera norma padrão e as variantes linguísticas das quais
fazem uso os moradores da zona rural do município de Colider-MT, mais
especificamente os alunos da Escola Santa Maria do Ouro Verde.
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Pontua-se ainda nesse trabalho o entendimento da valorização da língua materna


e dos saberes internalizados que cada indivíduo traz consigo, bem como cita-se outro
fator que motiva este estudo e faz buscar holofotes para este tema é que muitos
acadêmicos se formam através de polos situados em cidades do interior do estado, são
moradores rurais ou ainda têm sua origem em famílias camponesas e provavelmente
terão alunos rurais ou oriundos do campo.
Desse modo, este trabalho tem como objetivo principal abordar o tema
variação linguística em contraponto com a língua culta, no contexto da Escola
Municipal Santa Maria do Ouro Verde, localizada na zona campo do município de
Colíder.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

A língua oficial de nosso país é a língua portuguesa, portanto espera-se que


haja uma unidade linguística que se estenda por todo território nacional, todavia isso
não acontece. Essa expectativa em relação a um “falar único” Bagno (2003 p.17) define
como um mito e explica que “tem sido prejudicial à educação”, até porque impõe uma
norma como se fosse a única e desconsidera as outras variedades (Diretrizes
Curriculares de Língua Portuguesa, 2007).
Sabe-se que há diversas variantes linguísticas nesse país de extensão
continental, e isso se deu como consequência da ocupação do território brasileiro pelos
europeus, iniciada com pequenos arraiais espalhados em diversas localidades do Brasil,
o que permitiu aos portugueses, alemães, espanhóis, japoneses, holandeses e ingleses
disseminassem sua língua em nosso território.
Ocorre que já haviam falantes nativos em solo brasileiro, ou seja, as tribos e
etnias indígenas. De acordo com o artigo “Miscigenação da Língua Portuguesa"
publicado na revista Brasil Escola “Antes mesmo da descoberta do território brasileiro,
já se falavam cerca de 1300 línguas diferentes, decorrentes da diversidade indígena
existente.”
Entretanto, para se estabelecer comunicação fez-se necessário uma nova
linguagem, chamada de Língua Geral, derivada do tupinambá, para que os nativos
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indígenas e os colonizadores e posteriores imigrantes se comunicassem, conforme


explica Gabriela Dantas Cabral da Silva, no artigo acima citado.
A confusão gerada pelo bilinguismo levou a substituição da Língua Geral por
uma Língua Oficial. Tanto, que a língua portuguesa passa a ser exigida como oficial
e/ou predominante. Todavia, a mistura linguística foi ficando mais requintada, com um
leque de contribuições, taus como da língua africana, árabe, japonesa, italiana, entre
outros povos.
A ciência que estuda o entrelaçamento entre a linguagem e a sociedade é a
sociolinguística, e entre as suas áreas de estudo, a denominada variacionista tem como
enfoque a linguagem em seu contexto social, tendo como seu percursor o norte
americano William Labov. Através de uma análise quantitativa, procura explicar e
analisar a diversidade linguística, além de ter dois conceitos principais, ou seja, a
variação e a mudança.
Entre as variações linguísticas, o sociólogo ainda dividiu em quatro grupos:
diacrônica (ocorre no decorrer do tempo, tanto em vocábulos como na gramática);
diatópica (relativo ao lugar, como por exemplo as diferenças entre o português de
Portugal e o do Brasil); diastrática (heterogeneidades causadas pelas camadas: classe
social, faixa etária, gênero sexual, grupos profissionais, entre outros) e a diamésica
(diferenças entre a língua falada e a escrita).
Assim, o estudo das variações linguísticas nos permite compreender que apesar
de falarmos a mesma Língua oficial, a pronunciamos com características únicas, o que,
consequentemente nos diferencia dos outros. E, independente da origem, classe social e
período histórico em que se vive, os indivíduos se expressam de maneiras diversas, até
porque a sociedade e os sujeitos estão em constante movimento na história. Cabe então
ao indivíduo, saber utilizar a língua de acordo com a situação em que se encontra, de
forma a adequar as suas necessidades.
Mesmo porque, falar corretamente significa estabelecer uma comunicação
satisfatória com o interlocutor, usando a linguagem de forma coerente ao assunto e a
pessoa com a qual se comunica.
O embasamento bibliográfico inicial, que trouxe direcionamento e entendimento
para elaborar este trabalho veio das obras do cientista linguístico e escritor Marcos
Bagno. Importante ainda dizer, que a leitura dos livros intitulados Preconceito
Linguístico – o que é, como se faz e A língua de Eulália – uma novela sociolinguística –
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causaram ainda encorajamento e confirmação da necessidade de abordar esta temática,


focada no comportamento sociolinguístico de alunos de uma escola de campo. Contudo,
no decorrer da elaboração deste trabalho acadêmico foram consultadas outras obras,
cuja abordagem corrobora com a tese afirmada nas obras de Bagno, citadas
anteriormente.
As variações socioculturais são decorrentes das condições sociais as quais os
falantes estão inseridos. As chamadas “falas erradas” são uma denominação oriunda de
desconhecimento por parte de quem assim intitula a variação linguística, seja por falta
de conhecimento a respeito do assunto, seja por insegurança em relação ao uso da
língua.
O que leva a considerar uma linguagem de prestígio como a “correta”, mesmo
que aquele que a usa oralmente não cumpra os critérios estabelecidos da língua culta,
adotada como padrão. Sobre isso Marcos Bagno afirma

O primeiro desses conceitos é o que poderíamos chamar de do senso comum,


tradicional ou ideológico, e é aquele que tem mais ampla circulação na
sociedade. Na verdade, trata-se muito mais de um preconceito do que de um
conceito propriamente dito. É o preconceito de que existe uma única maneira
“certa” de falar a língua, e que seria aquele conjunto de regras e preceitos que
aparece estampado nos livros chamados gramáticos. (BAGNO, 2001, p. 21).

O mesmo sociolinguística ainda destaca que a educação de língua materna


prende-se em demasia as conceitos gramaticais, contudo, não é o que tornará um falante
competente, conforme se observa na citação abaixo.

Os métodos tradicionais de ensino da língua no Brasil visam, por incrível que


pareça, a formação de professores de português! O ensino da gramática
normativa mais estrita, a obsessão terminológica, a paranóia classificatória, o
apego à nomenclatura — nada disso serve para formar um bom usuário da
língua em sua modalidade culta. Esforçar-se para que o aluno conheça de cor
o nome de todas as classes de palavras, saiba identificar os termos da oração,
classifique as orações segundo seus tipos, decore as definições tradicionais de
sujeito, objeto, verbo, conjunção etc. — nada disso é garantia de que esse
aluno se tornará um usuário competente da língua culta (BAGNO, 1999,
p.108).

Por conta de métodos de ensino arraigados e antigos, a BNCC traz algumas


ponderações no que diz respeito às variações linguísticas, de modo que

Que cabem também reflexões sobre os fenômenos da mudança linguística e


da variação linguística, inerentes a qualquer sistema linguístico, e que podem
ser observados em quaisquer níveis de análise. Em especial, as variedades
linguísticas devem ser objeto de reflexão e o valor social atribuído às
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variedades de prestígio e às variedades estigmatizadas, que está relacionado a


preconceitos sociais, deve ser tematizado (BRASIL, 2017, p.79)

Compreende-se então, que a apropriação da modalidade linguística se consolida


com a prática social. Sobre o ato de aprender e compreender a língua escrita como fonte
de conhecimento, Bortoni-Ricardo enfatiza que

A compreensão leitora está diretamente relacionada ao conhecimento de


mundo que o leitor detém. Estudantes que têm pouco contato com textos
escritos, em livros, revista, internet, ou qualquer outro suporte, dependem
muito da mediação do professor para compreender os textos que leem,
inclusive os seus livros didáticos. (BORTONI-RICARDO, 2009, p 15).

Conforme se observa na citação acima da estudiosa da língua Bortoni-Ricardo,


a condução das aulas de língua materna tem reflexo direto na formação leitora e
linguística do aluno.
Marcos Bagno define a Linguagem e semiótica da seguinte forma:

O termo linguagem tem muitos significados e sentidos, mas vamos nos deter
aqui em duas de suas definições, as mais importantes. A primeira é:
faculdade cognitiva exclusiva da espécie humana que permite a cada
indivíduo representar e expressar simbolicamente sua experiência de vida,
assim como adquirir, processar, produzir e transmitir conhecimento. Nós
somos seres muito particulares, porque temos precisamente essa capacidade
admirável de significar, isto é, de produzir sentido por meio de símbolos,
sinais, signos, ícones etc. Nenhum gesto humano é neutro, ingênuo, vazio de
sentido: muito pelo contrário, ele é sempre carregado de sentido, nos mais
variados graus, e cabe justamente à nossa capacidade de linguagem
interpretar o sentido implicado em cada manifestação dos outros membros da
nossa espécie.
A segunda definição de linguagem é decorrente da primeira: todo e qualquer
sistema de signos empregados pelos seres humanos na produção de sentido,
isto é, para expressar sua faculdade de representação da experiência e do
conhecimento. É dessa segunda acepção de linguagem que provém uma
distinção fundamental: a de linguagem verbal e linguagem não verbal.
A linguagem verbal é aquela que se expressa por meio do verbo (termo de
origem latina que significa “palavra”), ou seja, da língua, que é, de longe, o
sistema de signos mais completo, complexo, flexível e adaptável de todos:
não por acaso, é de língua que deriva a palavra linguagem, pois toda
linguagem é sempre uma “imitação da língua”, uma tentativa de produção de
sentido tão eficiente quanto a que se realiza linguisticamente. (BAGNO,
2007, p.59)

De acordo com a BNCC, as aprendizagens não envolvem apenas conteúdos,


mas também e tão importantes como, as habilidades e as competências que devem ser
desenvolvidas ao longo de todos os anos escolares.
No diz respeito a abordagem deste trabalho acadêmico, constata-se que existem
documentos que norteiam a abordagem das aulas relacionadas a conteúdos de variantes
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linguísticas - Leitura/escuta – Escrita - Oralidade- Análise linguística/semiótica.


Todavia, segundo Bagno (2003, p. 32) “para haver alguma mudança nos conceitos de
língua “certa” e língua “errada”, é preciso que também haja, ao mesmo tempo, uma
grande e radical transformação das relações sociais”. Também reforça que essa
transformação social pode ser a partir do conhecimento internalizado sobre a língua, no
qual o aluno já tem domínio. Ainda conforme Bagno (1999), “o ensino de língua
materna poderá se efetivar no desenvolvimento da consciência linguística e da
competência discursiva do estudante”.
Entende-se, portanto, que para haja competência linguística se faz necessário a
valorização da língua materna aliada a medição adequada em sala de aula, cabendo ao
professor a habilidade de apresentar que existe diferentes possibilidades de usar a
língua, incluindo suas mudanças de acordo com circunstância e ocasião, mesmo porque

A língua é como um grande guarda-roupa, onde é possível encontrar todo


tipo de vestimenta. Ninguém vai só de maiô fazer compras num shopping-
center, nem vai entrar na praia, num dia de sol quente, usando terno de lã,
chapéu de feltro e luvas usar a língua, tanto na modalidade oral como na
escrita, é encontrar o ponto de equilíbrio entre dois eixos: o da
adequabilidade e o da aceitabilidade (BAGNO, 1999, p. 118)

Existe um ponto de equilíbrio no falar, que para Bagno é a chave que evita
apresentações de definições como “certo” e “errado” e com isso o fomento do
preconceito e do menosprezo aos falantes de diferentes dialetos.
Isso porque devemos entender que as variações linguísticas são inerentes a
qualquer idioma. E, já que não se pode ignorar a ocorrência deste fenômeno, é preciso
buscar alternativas que amenizem a ocorrência de atitudes preconceituosas em relação
aos falantes de variantes linguísticas de pouco prestígio.
Entende-se que um dos meios mais viáveis, práticos e acessíveis para
conscientizar os estudantes de que existem diferentes linguagens e cada jeito de falar
expressa uma identidade linguística e cultural, é permitir o conhecimento dos muitos e
diversos gêneros textuais, pois proporciona a familiaridade com o leque de textos e suas
características próprias. Sobre esta prática, Lerner (2002, p. 59) diz que as contribuições
dessas ciências permitem,

Explicitar alguns conteúdos que devem estar em jogo na sala de aula: as


estratégias postas em ação pelos leitores, as relações entre os propósitos e as
modalidades de leitura, as operações envolvidas na escrita, os problemas que
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se apresentam ao escrever e os recursos linguísticos que contribuem para


resolvê-los. (LERNER, 2002, p. 59)

Embora existam documentos que regem o ensino da língua materna tendo como
eixos norteadores conteúdos que abarquem as variantes linguísticas - Leitura/escuta –
Escrita - Oralidade- Análise linguística/semiótica, “[...] para haver alguma mudança nos
conceitos de língua ‘certa’ e língua ‘errada’, é preciso que também haja, ao mesmo
tempo, uma grande e radical transformação das relações sociais” (BAGNO, 2003, p.
32).
Além do já exposto, o sócio linguista reforça que essa transformação social pode
ocorrer a partir do respeito e respeito ao conhecimento que cada ser tem internalizado
sobre a língua, que pode acontecer junto com o trabalho e metodologias adequadas em
sala de aula, de maneira que se enfatize e existência de diferentes possibilidades de uso
da língua, seja de acordo com circunstância, o local, o objetivo e a ocasião, até porque

A língua é como um grande guarda-roupa, onde é possível encontrar todo


tipo de vestimenta. Ninguém vai só de maiô fazer compras num shopping-
center, nem vai entrar na praia, num dia de sol quente, usando terno de lã,
chapéu de feltro e luvas usar a língua, tanto na modalidade oral como na
escrita, é encontrar o ponto de equilíbrio entre dois eixos: o da
adequabilidade e o da aceitabilidade (BAGNO, 1999, p. 118)

Para tanto, este trabalho se propôs em abordar, principalmente, tendo em vista a


Escola de campo Santa Maria do Ouro Verde, do município de Colíder, situações de
comunicação, de variações linguísticas no ambiente de sala de aula, tanto entre
professores e discentes, quanto em relação aos profissionais que atuam na referida
escola, para a confirmação ou a refutação da hipótese de que nesse universo há
situações de preconceitos.

3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

O procedimento aplicado para construção deste trabalho se deu através da


observação e coleta de dados. Optou-se por estas ferramentas como métodos cabíveis ao
desenvolvimento de pesquisa de campo.

3.1. Delimitação do Campo de Pesquisa


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Este trabalho teve como base de análise de estudo, turmas do ensino


fundamental II da escola Municipal Santa Maria do Ouro Verde. Este estabelecimento
de ensino localiza-se a 45 quilômetros do centro urbano do município de Colíder, estado
do Mato Grosso. Atende atualmente 120 alunos que residem nas comunidades rurais e,
portanto, são transportados por veículos pertencentes a frota municipal.
O alcance de atendimento desta escola é em torno de 30 km de distância, ou
seja, famílias camponesas que estão neste raio, tais como a pequena vila chamada Trevo
Ouro Verde, que desfruta do ensino formal da referida escola.

3.2 Método

Conforme anteriormente mencionado, fez-se a opção por realizar o presente


trabalho a partir de uma perspectiva sociolinguística, considerando o perfil das crianças,
alunos da escola Santa Maria do Ouro verde. Para tanto, observou-se o comportamento
linguístico tanto dos estudantes, como de professores em momentos de descontração
(incluindo os instantes fora da sala de aula), e portanto, foi possível notar que algumas
marcas de oralidade, ditas espontaneamente, geravam risos e constate correção por parte
de alguns educadores.
A partir desta ótica, fomentou-se a busca de mais entendimento sobre tal prática,
além de pesquisar maneiras pedagógicas que ao menos amenizassem o preconceito
linguístico, tanto nos momentos de vida escolar, quanto nos de vida em sociedade.

3.3. Técnicas de Coleta de Dados

Na tentativa de identificar o fenômeno do preconceito linguístico, buscou-se


proximidade da realidade linguística dos discentes outrora observados, atentando para a
dinamicidade dialética. Sobre esta interação científica, Filho afirma que:

O ato de pesquisar traz em si a necessidade do diálogo com a realidade a qual


se pretende investigar e com o diferente, um diálogo dotado de crítica,
canalizador de momentos criativos. (2006, p.64),
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Quanto a classificação da pesquisa, essa se enquadra como Pesquisa de Campo,


entendida como “[...] o tipo de estudo onde se observa, faz a coleta de dados, analisa e
interpreta os resultados referentes ao seu objeto de estudo, diretamente do seu ambiente
natural ou da realidade onde ele ocorre” (GIL, 1994, 11). Vista dessa maneira, a
pesquisa experimental objetiva selecionar as variáveis que seriam capazes de influenciar
o objeto. Além disso, deve-se definir as formas de controle e de observação dos efeitos
que a variável produz no objeto.

4. APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS E ANÁLISE DOS DADOS

As aulas de língua portuguesa são permeadas de mediação pedagógica, tendo


como o objetivo primordial de trazer conhecimento sobre a língua escrita, já que isso
acontece passo a passo nas realizações de atividades em sala de aula.
Dessa maneira, o desempenho dos alunos é resultado das estratégias que
produzem ou não o ensino da escrita e podem ser também um termômetro que afere a
qualidade do uso do tempo em sala de aula.
Nesse modelo educacional, os livros didáticos centram suas atividades no ensino
da nomenclatura gramatical da língua, contudo, esta prática não contribui para ampliar
outras competências, como por exemplo a de leitura ou a de escrita, e muito menos de
conhecimento das variantes linguísticas. Ao contrário, enaltece o conhecimento da
língua normativa/prestigiada, o que pode acarretar no aluno a baixa estima em relação
ao seu modo de usar a linguagem, pois esta difere bastante do seu domínio semântico e
gramatical.
Nota-se, no entanto, que aulas voltadas aos gêneros textuais (o que seria uma
possibilidade de identificação do sujeito aluno, bem como uma das maneiras de
trabalhar o ensino da língua materna em suas variantes de maneira prazerosa e
proveitosa), para atividades em sala de aula são bem menores que o ensino sobre
gramática normativa, o que pode ser mais um fator que dificulta a apropriação da
escrita, da linguagem, das variantes linguísticas a até mesmo de evasão escolar.
Apesar do educador geralmente possuir o conhecimento que quase todos os
graduados em Letras possuem sobre a importância das variantes e seu papel ético de não
perpetuar o preconceito linguístico, muitos ainda infelizmente, focam nas sequências
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didáticas ofertadas pelos livros didáticos adotados para lecionar, mesmo porque, para
esse educador sua concepção é formar um usuário competente da língua escrita, o que
para ele será a definição de sucesso de seu trabalho pedagógico.
Por isso, para elaborar este trabalho foi imprescindível conhecer os planos de
aula dos professores de língua portuguesa da Escola de Campo Santa Maria do Ouro
Verde. Além disso, houve uma busca em sites que hospedam temas educacionais, e
dentre as várias opções, um dos endereços selecionado foi o da Nova Escola, usando
como critério o fato de ser uma revista renomada no meio educacional, além de conter
conteúdos atualizados de acordo com as regras de ensino vigentes.
Já para encontrar planos de aula que atendessem aos objetivos propostos,
procurou-se por “Língua Portuguesa - variações linguísticas”. O buscador do site
mostrou 136 planos de aula com este assunto, todos adequados a BNCC (Base Nacional
Comum Curricular Ensino Fundamental.)
Cabe destacar que entre os planos constam diferentes séries escolares, que vão
desde o 3° ano do ensino fundamental I ao 9° ano do ensino fundamental II, lembrando
que a abordagem didática desses planos de aula também é ampla.
Entre as sugestões para abordar as variantes linguísticas, há a proposição de
atividades relacionadas a:
 Oralidade;
 Produção de textos;
 Linguagem digital;
 Análise de textos publicitários;
 Concordâncias;
 Uso de figuras de linguagem;
 Bordões e jargões;
 Análise linguística/Semiótica (a maioria deles);
Esse último tópico é bastante significativo e também específico ao que tange o
assunto abordado para execução deste trabalho. Para tanto, nota-se a necessidade de
explicitar tal definição. De acordo com a revista Educa Brasil

Linguística é a ciência que estuda a linguagem verbal humana com base em


observações e teorias que possibilitam a compreensão da evolução das
línguas e desdobramentos dos diferentes idiomas. Ela é responsável também
pelo estudo da estrutura das palavras, expressões e aspectos fonéticos de cada
idioma.
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Já a semiótica, de maneira geral, é uma doutrina ou um modo de reflexão


sistemática sobre os signos. Alguns dos principais teóricos da semiótica são Ferdinand
de Saussure, Charles Peirce (1839 – 1914) e Umberto Eco (1932 – 2016).

A BNCC propõe que cabem também reflexões sobre os fenômenos da


mudança linguística e da variação linguística, inerentes a qualquer sistema
linguístico, e que podem ser observados em quaisquer níveis de análise. Em
especial, as variedades linguísticas devem ser objeto de reflexão e o valor
social atribuído às variedades de prestígio e às variedades estigmatizadas, que
está relacionado a preconceitos sociais, deve ser tematizado (BRASIL, 2017,
p.79)

Entendida pelos documentos que a regulamentam, tais como a BNCC, a


aprendizagem significativa e de uso social não tem como eixo único o conteúdo, porque
valoriza e respeita as habilidades e competências a serem desenvolvidas no contexto
educacional escolar.
Alguns exemplos de planos de aula:
1- Conteúdo: Gêneros textuais narrativos:
Objetivo geral:
 Recorrer aos conhecimentos sobre as linguagens dos sistemas de comunicação
para resolver problemas sociais;
Objetivos específicos:
 Participar das discussões coletivas;
 Compreender o texto tanto de maneira explícita, quanto implícita através da
leitura e interpretação;
 Comparar gêneros textuais narrativos, incluindo os de língua espanhola.
2- - Conteúdo: Gênero textual crônica, Estratégias de leitura;
Objetivo geral:
 Apresentar ao aluno por meio do grupo do WhatsApp o gênero textual crônico
(caracterizado como um texto curto e de fácil acesso e compreensão ao leitor)
adentrando em suas principais características através da leitura.
Objetivos específicos:
 Identificar o gênero crônica;
 Compreender a estrutura da crônica;
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 Motivar o aluno a prática da leitura através da crônica buscando a criticidade e


aprimoramento da prática oral e escrita do educando.
3- Conteúdo: Gênero textual - Prosa, Versos e poesias.
Objetivo Geral:
 Proporcionar o entendimento acerca das diferenças estruturais e semânticas que
caracterizam os gêneros textuais.
Objetivo Específico:
 Despertar no aluno a competência para identificar os gêneros textuais abordados
nesta aula.

4- - Conteúdo: Fotorreportagem, um recurso textual não verbal.


Objetivo Geral
 Expor ao aluno que a Fotorreportagem é um texto expositivo informativo, que
apresenta imagens e palavras, com vistas ao leitor entender do que se trata, que
contém legenda acompanhada de imagem com a explicação, ou um comentário
breve. E por ser o registro de um momento da realidade, permite um olhar atento e
mais aprofundado para o tema em questão.
Objetivo Específico
 Observar atentamente a Fotorreportagem, o fato que acompanha, assunto, fazer
referência a imagem que desperta sentimentos no leitor. De maneira a destacar que
é perceptível o olhar de quem vê uma foto, e que não será o mesmo de quem vê a
realidade do cotidiano, porque a foto não é simplesmente a realidade que está por
traz da imagem.
É preciso enfatizar que ao se tratar da temática gêneros textuais, há uma
infinidade de diferenças que vão desde a forma de escrita, público alvo, objetivo,
suporte de veiculação, entre outros, e que essa diversidade de escolhas facilita o
entendimento do aluno no momento de aceitação de sua maneira espontânea de usar a
língua materna, compreendendo-a não como um erro, mas sim como uma
possibilidade/escolha, mesmo porque é uma forma diferente e autêntica de usar a
linguagem que aprendeu em sua convivência social, familiar ou até mesmo escolar.
Além do já exposto, outro abismo que se cava no ensino da língua materna nas
escolas de nosso país é sobre a homogeneidade linguística e exclusividade da escrita, o
que corrobora com Rojo quando a linguística afirma que
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[...], outro mito que deveria ser expulso das salas de aula de alfabetização é o
de que se escreve como se fala e que se fala como de uma única maneira. Ao
contrário, há muitos falares (dialetais e sociais) no Brasil, e a escrita se
aproxima apenas de um deles (o português padrão da norma culta urbana),
mas, mesmo assim, nem a ele corresponde integralmente (ROJO, 2009, p.
68).

Nota-se nesta afirmação que a ênfase sobre uma “língua única” é mostrada aos
alunos desde a alfabetização, o que com o avançar das séries escolares dificulta ainda
mais o entendimento dos estudantes sobre as regras gramaticais impostas pelo ensino
tradicional da norma padrão. Por isso, é de extrema necessidade e urgência desenvolver
a habilidade comunicativa, falada e escrita, para que o ser humano perceba que existem
jeitos de falar e de escrever diversos, o que pode ser contemplado através dos gêneros
textuais.
Com base no que já foi exposto, é descabido aceitar e/ou praticar chacotas,
correções em público, desmerecimento do falar internalizado, menosprezo pela
linguagem de comunidades, pois existem variantes linguísticas adequadas a cada
contexto comunicativo.
A escolha do assunto tratado neste trabalho, cujo enfoque é direcionado ao
ensino de língua portuguesa em uma escola de campo e como os professores lidam com
a variação linguística, foi motivado a partir de observações feitas pelas acadêmicas que
posteriormente, submeteram-se a construir este trabalho de conclusão de curso.
Vale frisar, que antes de se tornar estudante de Letras, uma das autoras deste
trabalho, prestou serviços como auxiliar de limpeza e também como técnica de nutrição
escolar na escola de campo Santa Maria do Ouro Verde. E, no período em que devolvia
tais funções, desfrutou da convivência com professores e alunos, incluindo momentos
de certa proximidade, seja no início do horário das aulas, ou durante os intervalos.
E, foi justamente nestes momentos de descontração que se percebeu a arrogância
linguística de alguns professores. Estes, mesmo em momentos de descanso, tratavam
com indiferença e inferioridade o jeito típico de falar de alguns alunos, como se as
expressões e dialetos não fossem dignos de respeito e muito menos fizessem parte
daquele contexto educacional.
Entre as ocorrências mais comuns observadas, pode-se citar as pronúncias de
palavras no modo verbal indicativo, quando aplicadas ao pretérito perfeito. Ex. “Nós
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fumo” aos invés de “Nós fomos”, como exige a conjugação do verbo “IR” neste modo e
tempo verbal.
Ainda pode ser citado “Nós peguemo” em oposição a “Nós pegamos”, conforme
a conjugação gramaticalmente determinada. Assim como outras formas verbais comuns,
a oralidade dos camponeses: “nós foi, nós comprou, a gente fomos”, entre outras
tipicidades orais dos falantes da referida região de estudo.
No artigo Norma linguística, hibridismo & tradução, Marcos Bagno (p. 21),
afirma que este preconceito é milenar, baseado num tipo peculiar de língua, a qual
pertence a um grupo seleto de pessoas que se inspiram nos chamados “clássicos” e
tentam manter um modelo padrão de linguagem, que consideram “correta”, “elegante” e
“civilizada”.

Na verdade, trata-se muito mais de um preconceito do que de um conceito


propriamente dito. É o preconceito de que existe uma única maneira “certa”
de falar a língua, e que seria aquele conjunto de regras e preceitos que
aparece estampado nos livros chamados gramáticos. (BAGNO, 2007, p. 21).

Observa-se, entretanto, que esta prática de se mostrarem superiores por


possuírem mais conhecimento da norma padrão é muito mais comum em situações
informais, de descontração, do que dentro da sala de aula enquanto ministram os
conteúdos.
Todavia, um aluno que foi repreendido e diminuído pelo seu dialeto em
situações espontâneas de comunicação, mesmo que em momentos de distração, tais
como no intervalo de aulas, certamente se sentirá inseguro em relação ao uso “correto”
da língua materna, aceitando para si, equivocadamente, que desconhece a sua própria
língua materna.
Importante atentar que o preconceito linguístico é uma realidade cotidiana,
sobretudo porque é um dos braços da desigualdade social que assola o Brasil. Como
toda forma de preconceito, este também é proveniente da ignorância, e o amplo debate
sobre o assunto é uma das vias possíveis de amenizar prejuízos.
Ainda mais levando em consideração que nossa sociedade existe o grande
problema de aceitar que a nossa língua vive em constante variação, ou seja, em
permanente mutação. Toma-se como exemplo um ser falante competente da
comunidade linguística, que valoriza e considera o uso da língua culta como a mais
pura, bonita e correta do que qualquer outro tipo de linguagem.
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Por situações assim, é urgente a aceitação da variação linguística, incluindo


toda e qualquer cultura, mesmo porque a educação linguística possui uma história de
construção, de diversidade ao falar. Essas reflexões proporcionam ao aluno uma visão
mais ampla e que por essas questões, devem ser trabalhadas na sala de aula, justamente
por englobarem a diferença, o respeito social e as variadas etnias que interagem na
comunicação estabelecida entre professor e estudante, possibilitando a transmissão do
conteúdo com maior clareza, além de auxiliar o discente em adquirir mais confiança ao
expressar suas ideias e opiniões.
Isso porque, ao chegar à escola, um falante de zona campo por exemplo, pode se
assustar ao falar algo que faz parte do grupo social onde está inserido e seus colegas da
zona urbana acharem diferente, ou vice-versa, e até mesmo tratarem com preconceito o
repertório linguístico do outro.
Algumas palavras usadas na zona campo não são frequentes e/ou usuais na fala
urbana e os alunos vindos de zona campo e de periferias, ou de outros contextos onde
estão inseridos, sentem que a língua culta não é a de domínio deles, e com isso se
expressam de maneira diferenciada.
Portanto, cabe aos professores de Língua Portuguesa, ao implantar a didática na
escola do campo, deveriam ter como pretensão antes de inserir a língua culta, fazer uma
análise dos educandos, a fim de identificar e mesmo compreender como estes se portam
na conversação, bem como levar em consideração toda a bagagem que o aluno carrega.
Logo, devemos respeitar a variação linguística na perspectiva de estabelecer a língua
culta por meio de leitura e possibilitar a aquisição de conhecimento de cada ser humano,
mas de maneira respeitosa.
Este foi o motivo pelo qual o tema foi escolhido, pois provém da desigualdade
social que os colégios enfrentam em vista da disparidade da variação linguística, o que
exige a necessidade de se estabelecer respeito ao tratarmos deste assunto tão complexo,
todavia necessário.
Vale destacar que ao iniciar qualquer projeto que seja para contribuição do
atual fato, seja realizada uma análise prévia em busca de alternativas, com vistas a
superar e/ou mitigar os problemas abordados quando o educador estiver em sala de aula.
Mesmo porque, dessa forma esse profissional terá a percepção da realidade, além de
estar melhor preparado para adaptar planos de aulas que proporcionem a valorização
dos diversos modos de falar e, portanto, possibilitando práticas de leitura oral, corporal
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(representações cênicas), entre outras opções, mas que trabalhem temas do dia a dia do
estudante.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Depois de todo o percurso de pesquisa bibliográfica, trabalho a campo e


bibliográfico deste trabalho, percebeu-se que a comunicação, mais especificamente o
falar corretamente não significa dominar as regras da gramática normativa, mas sim
adequar a linguagem às variantes linguísticas, sejam elas de menor prestígio ou as
valorizadas/padronizadas e que acabam, ainda hoje sendo quase que por unanimidade as
únicas difundidas e aceitas nas unidades formais de ensino. Contudo, é imprescindível e
urgente uma mudança nessa visão arcaica e preconceituosa de ensino de língua, ainda
mais porque é no contexto educacional que os falantes de diversificadas linguagens se
encontram, e, portanto, seu leque de variantes deverá não apenas ser aceito, mas
respeitado como parte de um patrimônio cultural.
Mais importante é a comunicação, prova disso pode ocorrer ao observarmos a
naturalidade de um diálogo no convívio familiar ou entre amigos, pois acontece sem a
preocupação com os olhares críticos. Nesse momento, na informalidade da
comunicação, ocorrem as gírias, os jargões e as expressões regionais, que fazem parte
da identidade de cada ser humano. No entanto, encontramos uma condição oposta no
contexto educacional, onde muitas vezes se estabelece a “falsa” exigência de
formalidade durante o processo comunicativo. Isso não exclui a necessidade do ensino
de regras gramaticais, pois obedecer à norma culta ou padrão da língua é importante
quando a situação necessitar de maior formalidade entre os falantes e/ou momentos de
escrita que assim exigem.
A variação linguística, seja a linguagem de prestígio ou não, é determinada
pelo grupo social em que cada ser humano esteja inserido. Isso não depende do ensino
formal, sendo de fundamental importância manter sua identidade com o grupo, não
apenas para ser aceito, mas também porque faz parte de sua identidade, como é o caso
dos alunos que compõem a realidade da escola Santa Maria do Ouro Verde.
Constatou-se que, na prática, o preconceito linguístico ocorre naturalmente, já
que é uma atitude culturalmente arraigada. Quem o pratica não se sente constrangido, ao
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contrário, pôde-se notar que o ato de corrigir o aluno ou simplesmente achar engraçado
a forma como eles falam, denota ao praticante do preconceito linguístico a áurea de
intelectualidade.
Por isso, é importante destacar que alguns grupos avaliam através da variedade
linguística em uso. Sobre isso SCHERRE pontua que

Em nome da boa língua, pratica-se a injustiça social, muitas vezes


humilhando o ser humano por meio da não aceitação de um de seus bens
culturais mais divinos: o domínio inconsciente e pleno de um sistema de
comunicação próprio da comunidade ao seu redor. E mais do que isto: a
escola e a sociedade – da qual a escola é reflexo ativo – fazem associações
perversas. (SCHERRE, 2008 p.43)

Segundo a citação acima, a comunidade escolar não dispõe de respaldo


linguístico estrutural, ficando entre o belo e o feio, o elegante e deselegante,
competência e incompetência linguística, e mesmo entre o domínio de determinadas
formas linguísticas que definem como inteligência ou burrice, por isso a superação desta
questão requer habilidade profissional e interesse pelo assunto.
Ainda se entendeu que para os alunos do campo, o domínio da linguagem
ocorre em um patamar diferente dos alunos de escolas urbanas, isso porque muitos dos
proveniente da zona campo não almejam deixar o campo para se dedicarem a profissões
em que a comunicação exija linguagem formal. Portanto, a grande maioria busca um
domínio linguístico e semântico para tornar-se letrado, capaz de dominar, ler e
compreender diferentes textos e fazer os cálculos necessários para a sua vida.
Por isso, o ensino da língua materna nas unidades escolares deve ter clara
ciência de que o estudo da linguagem deve ser para aumentar a competência discursiva
do alunos para os processos de interação social e de construção da cidadania, o que pode
ser realizado através de escolhas metodológicas que envolvam o trabalho com gêneros
textuais escritos e orais, o que possibilitará entender a língua em seu uso
concreto/social. E ainda, levá-los a entender que não existe certo ou errado no falar, por
isso, é preciso e urgente para que haja uma ressignificação nas práxis do ensino de
língua portuguesa, evitando assim preconceitos e até mesmo a diminuição da evasão
escolar.

Referências
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