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A LEI DA GUERRA – MICHAEL BYERS

Revisado por CC (FN) Rubin

Parte I - A atuação das Nações Unidas


Parte II - Legítima defesa
Parte III - Intervenção humanitária
Parte IV - O direito internacional durante os conflitos armados
Epílogo - A lei da guerra e a única superpotência
Carta das Nações Unidas

Prefácio

O direito internacional que regulamenta o emprego da força militar tem sido objeto de intenso
debate  tanto a Guerra do Kosovo (1999) quanto na Guerra do Iraque (2003) causaram polêmica por
não terem sido autorizadas pelo CS da ONU muitos se manifestaram a favor e contra aquelas guerras,
mas prevalecia confusão sobre as normas da guerra.

Introdução

Tony Blair ao ser perguntado, às vésperas da Guerra do Iraque, se aguardaria uma Resolução do
CS antes de atacar  “Só nessas circunstâncias aceitaríamos recorrer à força, exceto por uma ressalva”
 o PM britânico se referia à existência de um “veto injustificado” de qualquer dos membros
permanentes do CS.
Existem normas que regulam o comportamento dos países  a maioria não é motivo de polêmica
(viagens aéreas, correios, etc)  mas aquelas atinentes ao uso da força possuem alto teor político, sendo
objeto de disputa  introdução esdrúxula do “veto injustificado”  NÃO PREVISTO na Carta das Nações
Unidas  tratava-se de apelo do PM a fim de possibilitar a Guerra.
O direito relativo ao emprego da força sempre foi politizado  Clausewitz: “A guerra é a
continuação da política por outros meios”  o que está em jogo é a soberania, a integridade territorial e
a independência política dos Estados-nação  dessa forma, os Estados vêm dando grande atenção ao
tema, inclusive EUA e RU, mas com foco na defesa da sua soberania.
Antes da Carta de 1945 o DI impunha poucos limites ao recurso das armas  nos séculos XIX e
início do XX o DI era visto em termos consensuais  países só se viam obrigados a cumprir o que
houvessem aceitado  seja por terem assinado um tratado ou por padrão constante próprio de
comportamento (“direito consuetudinário internacional”)  ESSA CONCEPÇÃO DO DIREITO, BASEADA
NA VONTADE E NO CONSENTIMENTO DOS ESTADOS É DENOMINADA POSITIVISMO  distinta das
anteriores concepções do “direito natural”, baseadas “intuições” e na “vontade divina”.
Ainda hoje o CONSENTIMENTO é elemento central do DI.
Não havia, dessa maneira, normatização às agressões militares até a Carta de 1945  conquistas
conferiam plenos direitos sobre os novos territórios  tomada das Falklands pela GB em 1833  a única
norma existente era o DIREITO À LEGÍTIMA DEFESA.
A introdução de limites legais ao uso da força representou momento de transição nas RI e ocorreu
de forma CONSENSUAL  Truman: “Devemos todos reconhecer que não podemos agir sempre como bem
entendemos”.
Desde 1945 os países procuram, então, justificar o emprego da força em termos legais  EUA
invocaram 2 argumentos em 2003, relativos ao Iraque  1) o conceito de legítima defesa preventiva; e 2)
aplicação de resoluções do CS.

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A participação dos diversos países no conflito foi influenciada pela forma como interpretaram
jurídica e politicamente esses conceitos defendidos pelos EUA  no RU o Procurador-Geral ratificou  na
Turquia, questionou-se a legalidade da guerra: negativa de uso do seu território.
O recurso ilegítimo à força: pode desencadear reações violentas  invasão do Kuwait em 1990
foi clara violação do DI  em 1991 o Iraque foi expulso por coalizão de mais de 30 países COM
AUTORIZAÇÃO DO CS DA ONU  ou, em outros casos, limitar-se a sanções econômicas ou medidas
diplomáticas.
Existem duas fontes principais do DI:
 1ª: direito consuetudinário internacional. Conjunto informal de leis não escritas que deriva da
CONJUGAÇÃO das “práticas de Estado” (o que os Estados dizem e fazem) com a “opinio juris”
(convicção de que sua conduta é justa, à luz do DI)  as normas do direito consuetudinário
normalmente tem aplicação universal  quando uma nova norma está em formação, um país
pode apoiá-la, por atos ou declarações, ou opor-se a ela de maneira pública; e
 2ª: Tratados (fonte superior ao direito consuetudinário). Instrumentos escritos e contratuais
adotados por dois ou mais países criando direitos e obrigações impositivas, sendo depositados
junto a uma terceira parte (hoje em dia costuma ser o Secretário-Geral da ONU)  podem ter
várias denominações (“carta”, “convenção”, “protocolo”, etc).

Firmar um tratado implica duas etapas: a “assinatura”, que indica a intenção de um país de
assumir obrigações; e a “ratificação”, que é o momento em que as obrigações são formalmente
assumidas. Caso se esteja assumindo compromisso já existente entre outros Estados, trata-se de ADESÃO,
e não ratificação ao determinado tratado.
A ratificação dos tratados ocorre seguindo procedimentos constitucionais  no RU, Canadá e
Austrália não são necessárias autorizações parlamentares, é atribuição do executivo  nos EUA é
necessária “recomendação e consentimento” de 2/3 do senado (se o Presidente e a maioria do senado são
de partidos diferentes, pode se tornar muito complicada a política externa  vide exemplo do republicano
Jesse Helms, opositor do DI, que presidiu a Comissão de Relações Exteriores do senado por 6 anos  sua
conduta, na época Clinton, pode explicar porque os EUA não ratificaram tratados importantes, como o
Tratado de Proibição de Testes Nucleares.
Convenção sobre o Direito dos Tratados assinada em Viena em 1969  universalmente
considerada  codificação criteriosa do direito consuetudinário internacional que regula os tratados 
suas normas são impositivas a todos os países  destaca-se o Artigo 31: “um tratado deve ser
interpretado de boa-fé, segundo o sentido comum atribuível aos termos do tratado em seu contexto e à
luz do seu objetivo e finalidade”.
Princípio orientador da interpretação de tratados  atribuir às palavras seu “sentido comum”.
Muitas vezes há dúvidas de interpretação, por isso o tratado deve ser analisado como um todo 
utilizam-se os PREÂMBULOS  parágrafos explicativos do início dos tratados  indicam objetivo e
finalidade  na Carta da ONU: “preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra”.
Os dispositivos de um tratado prevalecem sobre quaisquer normas conflitantes do direito
consuetudinário internacional (podem, inclusive, ser utilizados para “burlar” certas normas desse direito).
A Carta da ONU, além de cristalizar e codificar certas normas consuetudinárias, como a proibição
do uso da força e o direito à legítima defesa, afirma explicitamente que tem precedência sobre quaisquer
outros tratados  dessa forma, nenhum país pode eximir-se das cláusulas previstas na Carta, dentre as
quais a autoridade do CS.
REGRAS DE “JUS COGENS”  normas de natureza imperativa, não codificadas em nenhum
tratado, que tem precedência sobre normas conflitantes (proibição do genocídio, escravidão e tortura) 
é do consenso geral que a norma consuetudinária de proibição do uso da força, cristalizada na Carta da
ONU, adquiriu status de “Jus Cogens”.

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A Carta da ONU é o ponto de partida da maioria das questões relativas ao DI e ao emprego da
força  adotada logo após a 2ª GM, objetivava regras claras sobre emprego da força  hoje ratificada
por 192 membros.
Dispositivo central da Carta  Art. 2  “Todos os membros deverão evitar, em suas RI, a ameaça
ou o uso da força contra a o território ou a independência política de qualquer Estado (...)”  claramente
proíbe a aplicação de força além-fronteiras  esse é o “sentido comum”  DUAS EXCEÇÕES PREVISTAS
no Art. 2:
 Autorização do CS (quinze membros podem aprovar resolução, amparados no Capítulo VII); e
 Legítima defesa (Art. 51 complementa  “Nada na presente Carta prejudicará o direito inerente
de legítima defesa individual ou coletiva no caso de ataque armado contra membro das NU”).

Existem vários debates sobre o Art. 51:


 Se um país pode utilizar a força no território de outro país contra terroristas que lá se encontrem (em
1998/2001 os EUA atacaram o Afeganistão após os ataques às Embaixadas em Nairóbi e Dar es
Salaam/11 de Setembro  Israel invoca “legítima defesa” quando realiza ações de “assassinato
seletivo” de dirigentes palestinos em Gaza e na Cisjordânia  EUA aceitam as ações israelenses,
europeus não aceitam e encaram como atos de execuções extra-judiciais, ilegítimas perante o DI.
 Se a exceção inclui o direito de ação militar preventiva e em que medida  até 1945 considerava-se
que os países tinham direito à preempção  mas o Art. 51 diz claramente “no caso de ataque
armado”, o que pode fazer parecer ilegal qualquer preempção  de qualquer maneira, desde 2002 os
EUA defendem tal direito, que abarca situações remotas e incertas, decorrentes da dupla ameaça do
terrorismo e das ADM  altamente polêmicas, trata-se da DOUTRINA BUSH  endossada por
diversos países, notadamente Rússia e Israel.

Duas novas exceções não codificadas à proibição do uso da força podem ter surgido nos últimos
anos:
 Direito de intervir militarmente para promover ou restabelecer a democracia  adeptos
apresentam como antecedentes Granada em 1983 e Panamá em 1989  afirmam que a questão
dos DH deslocou a soberania das mãos dos governos para as pessoas comuns, em consequência os
governos que não atendem às vontades do povo deixam de ser soberanos  passam, portanto, a
não poder beneficiar-se da proibição do emprego da força; e
 Direito de intervir por motivos humanitários  casos de abusos hediondos como genocídio,
expulsões em massa ou estupros sistemáticos  adeptos desse direito de intervenção humanitária
unilateral (pois não são autorizadas pelo CS) utilizam como precedentes as zonas de exclusão
aérea no Iraque em 1991 e a Guerra do Kosovo em 1999  da mesma maneira invocam os DH
contra governos abusivos.

Além das normas relativas ao emprego da força, existem normas sobre o comportamento dos
militares durante os conflitos armados  as 4 Convenções de Genebra 1949 são tratados que
estabelecem as “leis da guerra”, “leis dos conflitos armados” ou “leis humanitárias internacionais” (Jus In
Bello).
Todo conflito envolve dois tipos de indivíduos: combatentes e não combatentes (civis). O DHI
protege ambos, embora os civis sejam mais resguardados. Exige que todas as decisões militares levem em
conta os civis. Protege alvos civis e pede cautela quanto a “instalações de dupla finalidade” (estação de
tratamento de água, por ex.)  no Kosovo a OTAN destruiu uma estação de água e um canal de televisão,
sem que o TPI tenha responsabilizado seu pessoal.
Os combatentes são protegidos de armas que causem sofrimento desnecessário, entre elas
químicas e biológicas e munições explosivas. Direito a se render e direitos dos PG (dentre os quais serem

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soltos após término das hostilidades). Abusos, no entanto, são comuns. Guerra do Iraque: ocorreram em
ambos os lados.
Quem não respeita as normas pode ser processado em cortes nacionais ou tribunais internacionais
 Nuremberg e Tóquio serviram como modelos para a antiga Iugoslávia e Ruanda  em 1998 foi criado,
por especialistas de 120 países, o Tribunal Penal Internacional (TPI), de caráter permanente  polêmico
 EUA vem sistematicamente boicotar sua atuação.
Os EUA, grande potência atual, vem possibilitando “alargamento do DI”, ao defender suas
teorias. Mas as normas mundiais sobre o uso da força dependem de outros atores também: ONGs, com
ênfase nos grupos de defesa dos DH.

Parte I
Atuação das Nações Unidas

I – Autorização do Conselho de Segurança

A ONU foi criada em São Francisco em 1945, após a Guerra, e fruto de seus milhões de mortos 
diplomatas visavam conjunto de normas a fim de preservar as gerações vindouras do flagelo da guerra 
Carta das Nações Unidas  ratificada por 192 Estados-Membros  Art. 2: obrigação de cada membro 
“(...) evitar em suas RI a ameaça ou uso da força contra a integridade territorial ou independência de
qualquer Estado (..)”.
Sentido comum do Art. 2: categoricamente proibido o uso da força, interpretação essa
corroborada pelo objetivo e finalidade da Carta  no Preâmbulo afirma, inclusive, que se destina a
garantir que a força armada não será usada a não ser no interesse comum.
Duas únicas exceções: 1) autorizado pelo CS; e 2) legítima defesa.
CS  Dos 15 membros, 5 são permanentes: GB, China, Rússia, França e EUA  poder de veto
sobre qualquer resolução proposta  sem vetos, são necessário 9 votos ou, pelo menos 4, caso excesso de
abstenções.
Capítulo VII  CS tem amplo poder para determinar a existência de ameaça à paz, ruptura da
paz ou atos de agressão  ampla autoridade para decidir que medidas adotar para manter ou
restabelecer a paz mundiais  de imposição de sanções econômicas ao emprego da força.
Durante a guerra fria o poder de autorizar o emprego da força praticamente não foi exercido, salvo
na Coréia (ambígua) ou, de maneira clara, porém limitada, na Rodésia do Sul (uso da força pela GB).
1) Coréia: em 1950 o Norte invade o Sul  CS “recomenda” que os países-membros fornecessem
ao Sul assistência para rechaçar o ataque e restabelecer a paz  URSS boicotou a reunião e foi
somente isso que permitiu a aprovação da Resolução  porém na interpretação segundo o
sentido comum do Art. 27 “quaisquer votações de caráter substantivo devem ter os votos
afirmativos de todos os membros permanentes”  a ausência da URSS deveria ter
inviabilizado a Resolução, mas tal não ocorreu  isso gerou importante consequência perante
o DI: ausência de um dos membros permanentes não invalida resoluções; e
2) Rodésia do Sul: em 1964, Ian Smith, líder da Frente Rodesiana tornou-se PM da colônia
britânica  tendo fracassado em convencer Londres a conceder independência, “proclamação
unilateral de independência” com governo de minoria branca  em 1961 o CS já havia
aprovado resolução lamentando a falta de igualdade racial na Colônia  dessa forma, em
1965 a Assembleia reagiu considerando a independência um ato de rebelião de minoria racial
 pediu intervenção do CS que não reconheceu validade jurídica da independência e
recomendou corte de relações econômicas de todos os países, mas não o uso da força  ato
posterior, comercialização clandestina de petróleo com o país  Resolução 221  “reconhece
ameaça à paz e á segurança internacionais”  exortava o RU a impedir, se necessário usando

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força, a chegada de navios, sob presunção de estarem transportando petróleo para a Rodésia
 não se referia explicitamente ao Capítulo VII, MAS FOI A PRIMEIRA VEZ QUE ESTE TRECHO
DA CARTA FOI UTILIZADO  estreitos limites ao uso da força se justificam pela competição de
interesses das superpotências, na tentativa de influenciar os jovens países negros da África 
em 1966  CS IMPÔS O PRIMEIRO CONJUNTO DE SANÇÕES ECONÔMICAS DE CARÁTER
OBRIGATÓRIO DA ONU  Resolução 232  depois ampliada com diversas medidas políticas e
diplomáticas  o quadro culminou com entendimentos em 1979 que geraram uma nova
constituição assegurando direitos das minorias do país  eleições em 1980 levaram Robert
Mugabe ao poder  surge o Zimbábue  RESOLUÇÃO 221 SE CARACTERIZA COMO MARCO
HISTÓRICO SOBRE EMPREGO DA FORÇA E ACERCA DO CAP. VII DA CARTA.

O período de inatividade do CS, coincidindo com o da Guerra Fria, chegou ao fim com a invasão
iraquiana do Kuwait, a 2 de agosto de 1990  flagrante violação da Carta  CS adota a Res. 660
condenando a invasão, exigindo a retirada e impondo sanções econômicas  diplomacia tentar convencer
Iraque a se retirar, sem sucesso  Resolução 678, no contexto do Capítulo VII  prazo final para
retirada 15JAN1991  autorização para emprego de todos os meios necessários para expulsar forças
iraquianas e restabelecer a paz na região.
Vencido o prazo, os 700 mil militares da coalizão desencadearam a Operação Tempestade no
Deserto  estrondoso sucesso, não só militar, mas para o CS da ONU  George H. Bush falava de uma
“nova ordem mundial” apoiada no multilateralismo global  mas esta nova ordem era frágil, como
demonstrariam os acontecimentos nos Bálcãs.

A Bósnia-Herzegovina mergulhou em guerra entre 1992 e 1995, após o colapso da Iugoslávia e o


surgimento de tensões étnicas (recalcadas por governos fortes desde o término da SGM)  característica
particular do conflito: assassinatos de civis, estupros e expulsões étnicas (vítimas basicamente
muçulmanas). As atrocidades eram da alçada da Convenção sobre a Prevenção e Punição do Crime de
Genocídio (a Convenção sobre o Genocídio).

Art. 2 da Convenção sobre o Genocídio define o crime como: “qualquer dos seguintes atos
cometidos com a intenção de eliminar, total ou parcialmente, um grupo nacional, étnico, racial ou
religioso: matar membros do grupo; causar danos corporais ou mentais; impedir nascimentos; ou
transferir crianças”.

Durante a guerra foi comum a adoção da expressão “limpeza étnica” para se referir aos horrores
 o eufemismo foi conveniente aos países ocidentais para se eximir de sua responsabilidade de “impedir
e punir” o genocídio, nos termos do Cap. I da Conferência  “limpeza étnica” soava mais ameno que
“genocídio”  outro aspecto importante: as barbaridades aconteciam na Europa, não na África, por
exemplo.
O CS adotou a Resolução 713, nos termos do Cap. VII  embargo de armas a toda a ex-Iugoslávia
 embargo acabou prejudicando já que permitiu ainda maior desequilíbrio entre as forças sérvias
(herdeiras dos maiores arsenais) e os não tão bem armados muçulmanos da Bósnia  tentativas dos EUA
de reverterem o embargo tiveram veto da Rússia, mais identificada com os sérvios, de origem eslava 
embargo seguiu até os Acordos de Dayton, que puseram fim ao conflito em 1995  mas havia
contrabando de armas, muitas vezes com apoio dos EUA.
Em 1992 o CS criou a Força de Proteção das Nações Unidas (UNPROFOR) para estabelecer um
processo de manutenção da paz, sem uso da violência, com presença neutra em zonas-tampão  1993 
ampliação do mandato  criação e proteção de Zonas de Segurança na Bósnia  no mesmo ano, criação
inédita pelo CS do Tribunal Penal Internacional para a antiga Iugoslávia, em Haia  jurisdição para
julgar e punir crimes de guerra e contra a humanidade  estendeu-se até a Guerra do Kosovo,

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prevalecendo até hoje  POR TER SURGIDO ORINUDO DE UMA RESOLUÇÃO, NÃO DE UM TRATADO,
TEVE APLICAÇÃO IMEDIATA E NÃO REDUNDOU AQUIESCÊNCIA DE PAÍSES ENVOLVIDOS  dessa forma o
líder sérvio Slobodan Milosevic não pôde esquivar-se do Tribunal.
Em 1994 o CS seguiu o modelo da ex-Iugoslávia para criar o Tribunal Penal Internacional para
Ruanda (restrito aos acontecimentos ocorridos em 1994, ano do genocídio)  foram dois modelos para
criação do TPI, muito mais amplo, de caráter permanente, criado em 1998 por um tratado que entrou
em vigor em 2002 . Os dois tribunais proferiram condenações, abriram precedentes em DI e
contribuíram para a justiça internacional.
Em 1993 a OTAN, constrangida ante os massacres nas Zonas de Segurança, bombardeou as forças
sérvias na Bósnia  o amparo foi a Resolução 836  complexa  alvos discutidos entre a OTAN e o SG
(Boutros-Ghali)  em 1995 mais de 7 mil muçulmanos assassinados na Zona de Segurança de Srebrenika
 tropas da OTAN nada puderam fazer  General Radislav condenado à prisão pelo TPI em 2001.
As tentativas de estabelecer a paz nos Bálcãs foram ineficazes  havia leis e respaldo jurídico,
mas não vontade política  ainda hoje, quando os dois principais acusados de atrocidades encontram-se
foragidos nas montanhas da Bósnia, a OTAN não demonstra capacidade de capturá-los  prova do
caráter oportunista e transitório dos esforços internacionais para impedir ou punir crimes internacionais.
Dessa forma, Coréia (1950), Rodésia do Sul (1966), Iraque (1990-91) e Bósnia (1992-95),
permitiram ao CS exercer poderes de acordo com o Cap. VII, de formas novas e diferentes 
excetuando-se o Iraque, o tom foi sempre de hesitação até a década de 1990.

II – Alcance ampliado do Conselho de Segurança

O Cap. VII da Carta  permite ao CS autorizar emprego da força em reação a ameaças à paz
internacional  mas o alcance desse poder foi ampliado nos últimos anos  Coréia e Iraque se
tratavam de conflitos transfronteiriços  Rodésia do Sul mesclou racismo, autodeterminação da
população e conflito ideológico entre USA e URSS  mas maior significado jurídico teve a intervenção do
CS na Bósnia  envolviam questões entre Estados e atrocidades contra os DH  a ação do CS foi além,
no sentido de incorporar as crises humanitárias internas ao conceito de “ameaças à paz e a segurança
mundiais”.
Na década de 1990 o CS considerou pacificado que crises de caráter nacional podem representar
ameaças a paz internacional, e, portanto, justificariam o recurso ao Cap. VII  nos casos do Haiti (1994)
e Timor Leste (1999) o Cap. VII foi mais decisivo para conferir legitimidade do que legalidade pois essas
intervenções ocorreram a pedido dos próprios países  já nos casos da Somália (1993), Ruanda (1994) e,
mais recentemente, Darfur, no Sudão  não houve suficiente vontade política de intervir prontamente ou
perseverar frente às dificuldades.

Somália (1992)  o CS decidiu que a soma da fome generalizada e a guerra civil constituíam
ameaça à paz mundial  na nova ordem mundial pós Muro de Berlim (1989) e Iraque (1991), o CS
elevara seu alcance para levar o conceito de segurança até as esferas humanitárias e de DH  dessa
forma impôs, inicialmente um embargo de armas  depois, o CS resolve enviar observadores e tropas 
a UNSOM foi uma operação de manutenção da paz com pouco efetivo militar inicial, mas ampliada após o
colapso do governo  somou-se uma outra força capitaneada pelos EUA  criar ambiente seguro às
operações humanitárias  a Força Americana estava autorizada a “impor a paz”, ao contrário da Força
da ONU  força da ONU aumentada  mas sem os devidos recursos  soldados paquistaneses mortos
por milícias  força aumenta para 28 mil  3OUT1993, 18 soldados americanos mortos em Mogadíscio
levando clamor público nos EUA para retirada  EUA saem e missão da ONU desmorona.

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A experiência na Somália diminuiu a vontade política de vários países de interferirem
militarmente em assuntos humanitários  no entanto, foi um precedente importante no campo das
normas internacionais sobre emprego da força  PELA PRIMEIRA VEZ A ONU CONSIDERAVA CRISE
HUMANITÁRIA COMO AMEAÇA À PAZ, USANDO A FORÇA JUSTIFICADA PELO CAP. VII.

Ruanda (1994) sofreria pelos senhores da guerra somalis  a palavra “genocídio” gerou
diversas discussões (se o CS aceitasse o termo, seria obrigado a agir)  na reunião do CS sobre Ruanda
em 1994, o embaixador britânico advertiu sobre o risco de qualificar o massacre de 800 mil Tutsis por
motivos étnicos como tal, já que isso levaria o CS a agir  a Alta Comissária da ONU para os DH, Mary
Robinson, quebrou o tabu em 1997 fazendo a expressão “genocídio” ganhar uso corrente  isso facilitou
a ação no Kosovo e a criação do TPI.
Quando o massacre começou, o General Roméo Dallaire, comandante das pequenas forças da
ONU pediu reforço  CS reagiu REDUZINDO  somente ao final do banho de sangue, a França enviou
uma Força e a ONU, temendo abrir precedente, emitiu uma Resolução respaldando a Opération Turquoise
 chegaram tarde  apenas protegeram os genocidas Hutus da vingança Tutsi.
Foi mais um caso de autorização de uso de força em crise nacional.
A ONU criou o TPI para Ruanda  condenou pessoas e ampliou o alcance de genocídio, incluindo a
“incitação ao genocídio”  incluiu também condenação por incitação ao estupro coletivo.

Haiti (1994) independente em 1804 da França  entre 1915 e 1934 foi ocupado pelos EUA 
entre 1956 e 1986 ocorre período negro dos sangrentos ditadores François Duvalier (Papa Doc) e Jean-
Claude Duvalier (Baby Doc)  depois, golpe militar e, finalmente, eleições  1990 vence o Padre Jean-
Bertrand Aristide  sofre golpe militar  OEA condena o golpe e recomenda sanções econômicas e
diplomáticas  AG também condena, mas o CS não agiu com tanta rapidez  à época, a China vinha
contestando a crescente interferência da ONU em assuntos internos dos países  militares se recusaram
a devolver o poder a Aristide e perseguiam partidários  CS decide agir  embargo econômico e, por
fim, entendimento de que a situação ameaçava a paz e a segurança internacionais na região (incluindo
crises humanitárias pelo deslocamento de milhares de haitianos)  apesar dos protestos chineses o CS se
afastava da concepção tradicional sobre o que considerar “risco à paz mundial”.
Embargo levou a junta militar a negociar  Acordos de Governors Islands  Aristide voltaria ao
poder  suspensão de sanções  logo o acordo colapsa e recomeçam os atos de violência  CS retoma
sansões e impõe bloqueio naval  1994, por solicitação de Aristide  Resolução 940  Força
Multilateral e emprego de todos os meios necessários para restabelecer o governo legítimo e preservar a
segurança e estabilidade.
Força multinacional capitaneada pelos EUA chega ao país. O mundo viu com bons olhos os
acontecimentos  confirmação que o CS é considerado legítimo para autorizar força a fim de resolver
crises humanitárias internas de pouca ou nenhuma ameaça a outros países  o movimento de se auto-
investir competência é difícil de ser questionado pois nada existe na Carta da ONU que limite a
competência do CS na definição do que é ou não grave risco à paz internacional  ISSO FICA
FORMALIZADO NO PAINEL DE ALTO NÍVEL DO SG SOBRE AMEAÇAS, DESAFIOS E MUDANÇAS, de 2004.
Alguns consideram as iniciativas no Haiti como “intervenção a bem da democracia” no DI, mas a
Resolução 940 foi além, abordando “graves violações às liberdades civis”, e “situação desesperadora dos
refugiados”  além disso, houve solicitação do Presidente Aristide, o que, por si só confere ampla
legitimidade a uma ação militar externa.
Aristide retorna pacificamente em 1994  seus partidários ganham as eleições parlamentares 
em 1995 assume René Préval, eleito  suspende o Parlamento e passa a governar por decreto  Aristide
reeleito em 2001  nessa época o país era o mais pobre do hemisfério ocidental e sofria sansões
comercias  colapso econômico e caos civil  2004  violenta sublevação de ex-militares e gangues

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locais, liderados por Butteur Metayer (líder do “Exército dos canibais”)  Aristide foge do país, em avião
fretado pelos americanos (afirmou posteriormente que foi levado à força), para a República Centro-
Africana e, após, exila-se na África do Sul.
CS autoriza a Resolução 1529  Força Multilateral para estabelecer a ordem pública no país 
EUA, Canadá e França desembarcam tropas no país  Resolução se eximia de analisar se o Presidente
tinha ou não legitimidade e se Aristide havia ou não sido deposto pelos americanos, limitando-se a
classificar a situação como ameaça à paz e solicitada pelo Presidente em exercício.

Timor Leste (1999)  durante a ditadura do Presidente Suharto, a Indonésia invadira e ocupara a
ex-colônia portuguesa em 1975  ¼ da população massacrada  Resolução 384 condenava a invasão e
reconhecia o direito inalienável do povo do Timor Leste à autodeterminação e à independência 
exortava a Indonésia a retira suas forças, mas não impunha sansões nem autorizava a força  Indonésia
era valiosa no cenário da Guerra Fria.
Suharto cai em 1998  Presidente Habibie anuncia referendo para que o Timor Leste optasse
entre a independência e a permanência autônoma dentro da Indonésia  1999  eleições com
segurança a cargo da Indonésia  distúrbios provocados por milícia pró-Indonésia  finalmente
referendo: 78,5% votam pela independência  milícia pró-Indonésia parte para a violência  milhares
de mortos.
CS autoriza a Resolução 1264, com consentimento de Habibie  Força Multinacional sob
comando australiano para restabelecer a paz e a segurança  posteriormente, o CS volta a exercer seus
poderes derivados do Cap. VII criando uma Administração Transitória da ONU no Timor Leste  PELA
PRIMEIRA VEZ A ONU ASSUMIAM O CONTROLE COMPLETO DAS FUNÇÕES SOBERANAS DE UM PAÍS 
graças a isso e às Forças Militares o país se tronou independente em 2002, com a eleição de Xanana
Gusmão Presidente.
A crise envolvia tanto uma clássica violação do Art. 2 (invasão da Indonésia em 1975), como
questão de autodeterminação, DH e democracia. Dessa forma o Timor e o Kuwait atestaram que
conquistas territoriais são consideradas inaceitáveis do ponto de vista jurídico.

Sudão (2004)  grave crise humanitária em 2004  fuga em massa de 1,8 milhões de pessoas
para o Chade  milhares de mortos  além da guerra, fome  responsáveis: “Janjaweed” (Demônios a
cavalo com armas de fogo)  oriundos de tribos nômades árabes que entraram em conflito com tribos
agrícolas negras de Darfur (embora também muçulmanas)  por conta de disputas por água e terras em
momento de seca, as tribos negras tentaram se sublevar contra o governo sudanês  esse armou os
Janjaweed delegando-lhes a missão de conter a sublevação.
Árabes ferozmente abraçaram a missão  graves violações do DIH  contavam com o apoio dos
soldados sudaneses regulares  Sudão ainda criava dificuldades para apoio humanitário.
2004  Secretário de Estado Collin Powell visita Darfur  Congresso americano reconhece como
genocídio o que ocorre no local  aumento da pressão internacional  Sudão reeleito para Comissão de
DH da ONU  americanos protestam  Sudão ataca americanos invocando mortes em Falluja e Abu
Ghraib  CS determina Resolução 1556  grave preocupação com a crise e as violações  CS
considera que a situação se configurava ameaça à paz e à segurança internacionais  Cap. VII 
embargo de armas aos Janjaweed  medida inócua  “(...) exige que o Sudão desarme as milícias
Janjaweed e leve a justiça os líderes (...) e manifesta a intenção de estudar novas iniciativas (...)” 
ameaça aplicar o Art. 41: interrupção total ou parcial das relações econômicas  não surtiriam grande
efeito pois o país já sofria embargo dos EUA por ser considerado amigável ao terrorismo  embargo ao
petróleo sim, mas por interesses na região não seria aprovado por Rússia e China (investiram
pesadamente na industria petrolífera do Sudão).

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A única organização internacional que tomou medidas importantes na região foi a Organização
da Unidade Africana (OUA)  ofereceu força militar  EUA, Canadá e UE oferecem ajuda logística e
financeira  esbarra numa autorização do CS.
França preocupada com os deslocamentos para o vizinho Chade e com incursões dos Janjaweed,
envia militares com o consentimento do país  em 2004 George W. Bush apresenta projeto de Resolução
propondo embargo de petróleo, mas sem disposição de mandar tropas  único país disposto a enfrentar
os Janjaweed era Ruanda (apesar de cometer suas próprias atrocidades no leste do Congo, ainda tinha o
peso moral do genocídio de 1994)  o Presidente Paul Kagane declarou que suas tropas interviriam em
caso de crimes contra civis  o CS não demonstrou a mesma firmeza.

A ampliação da competência do CS para autorizar ações vigorosas de caráter humanitário


contribuiu para aperfeiçoar o direito internacional  possibilidade de uso legítimo da força nesses
casos  mas o CS continua sendo mecanismo político, não obrigado a agir  muitas vezes exime-se de
passar à ação, mesmo quando as motivações morais são avassaladoras como em Darfur.

III – Autorização implícita e ambiguidade intencional*


* Quando uma Resolução da ONU declara que houve ameaça à paz e
segurança internacional, sem autorizar categoricamente o uso da força.

Em 1991 as tropas de Saddan Hussein deram início a uma campanha de violência contra os curdos
no norte do Iraque, após tentativa de sublevação (possivelmente apoiada pelos EUA)  EUA, GB, França,
Itália e Holanda estabelecem Zonas de Segurança para civis  invocam a Resolução 688, que analisava
a situação e afirmava que a fuga de curdos da repressão na região ameaçava a paz e a segurança
internacionais  mas não autorizava expressamente o uso da força.
Nessa época, a China, preocupada com a interferência crescente da ONU em questões internas dos
países, ameaçava vetar qualquer resolução  o mundo assistiu pela TV o drama dos milhares de curdos
em fuga para países vizinhos  aliados declaram todo o território iraquiano ao norte do paralelo 36 área
de exclusão militar  argumento de apoiar a Resolução 688  houve controvérsias, mas a operação
prosseguiu.

Raras são as resoluções redigidas sem ambiguidade quanto ao uso da força, tais como a 678 (que
autorizava a operação Tempestade no Deserto)  surge a tese da autorização implícita.

1997  Slobodan Milosevic inicia repressão brutal de milícia rebelde no Kosovo  CS adota a Res.
1199  incita o presidente a parar  ameaça estudar “novas iniciativas”  Res. 1203  missão de
verificação de paz no Kosovo da Organização para a Segurança e Cooperação da Europa (OSCE)  em
1999, sem nova resolução, a OTAN inicia ataques aéreos contra alvos no Kosovo, na Sérvia e em
Montenegro  RÚSSIA E CHINA CONSIDERARAM ILEGAIS AS AÇÕES  poucos concordaram com a
argumentação da autorização implícita.

A chegada de George W. Bush ao poder em 2001 assinala o início do fim de Saddam Hussein  a
maior preocupação era com ADM  foram apresentadas duas justificativas antecipadas para a invasão
de 2003: legítima defesa preventiva (analisada mais a frente); e reativação da Res. 678, que se
encontrava suspensa desde o fim da 1º Guerra do Golfo, mas não cancelada  tal resolução impunha
condições de desarmamento que, uma vez desrespeitadas, autorizariam novamente o uso da força 
VIOLAÇÕES MATERIAIS (quebra nos compromissos de desarmamento)  a Res. 1441 de 2002, por sua
vez, se refere a “uma última oportunidade de cumprir suas obrigações”  toda essa argumentação

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sustentou a guerra por parte dos EUA e aliados  MAS HAVIA QUESTIONAMENTOS: 1) ALGUNS
AFIRMAVAM QUE NÃO PODERIA OCORRER UMA REATIVAÇÃO DA RES. 678; E 2) OUTROS QUE A RES. 1441
NÃO AFIRMAVA QUAIS SERIAM AS CONSEQUÊNCIAS DO NÃO CUMPRIMENTO.
Vários juristas no RU assumiram posições contrárias ao uso da força  mas a verdade é que a Res.
1441 dava argumentos aos dois lados  EUA utilizaram, então, o argumento da VIOLAÇÃO MATERIAL,
mais juridicamente sustentável do que um DIREITO AMPLIADO DE AÇÃO PREVENTIVA EM LEGÍTIMA
DEFESA  além de que o segundo era motivo de grande preocupação pelos países europeus e em
desenvolvimento.
O debate em torno da Guerra de 2003 passou a dizer respeito a métodos concorrentes de
interpretação jurídica  saber qual abordagem específica adotar na interpretação das resoluções do CS.
Os advogados acreditam sempre haver a resposta certa na lei. Em caso de lacuna, buscam a farta
documentação histórica em busca de argumentação. Mas a escolha dessas analogias históricas também
traz consigo certa discricionariedade  dessa forma sempre haverá discordância entre advogados
diferentes.
Mas frente às ambiguidades, os EUA tendem a conferir mais peso ao “objetivo e finalidade” dos
documentos internacionais, e menos ao que efetivamente expressam  essa tendência remonta a 1968,
quando a delegação americana na Conferência de Viena sobre o Direito de Tratados propôs uma
ABORDAGEM FINALISTA sobre a interpretação dos tratados  ênfase a um amplo exame de contexto
para alcançar a vontade comum das partes, tal como tivesse evoluído no tempo  mas a maioria
discordou  ênfase ao SENTIDO COMUM, ou no texto do tratado.
Ao contrário da Carta, as resoluções não são tratados  tratados assemelham-se a contratos
 resoluções a decretos.
A ABORDAGEM FINALISTA conduz com certa facilidade ao uso da força quando:
 É adotada uma resolução;
 CS identificou anteriormente uma ameaça à paz e segurança internacionais;
 Condições rígidas foram impostas ao referido Estado; e
 Estado se exime de atender às condições.

Tal ABORDAGEM foi a utilizada pelos EUA e RU para interpretar as resoluções sobre o Iraque
(1991) e sobre o Kosovo (1998).
ABORDAGEM INTERPRETATIVA  se opõe à FINALISTA  prega a visão objetiva do observador
neutro  interpretação voltada ao significado comum das palavras  baseada na Convenção de
Tratados de Viena  presunção interpretativa contrária à autorização da força.

A partir de 2003, apesar de muitos apoiadores da ABORDAGEM FINALISTA, as resoluções do CS


passaram a ser mais claras na redação e ter maior objetividade na interpretação  ABORDAGEM
TEXTUAL EM VIAS DE SE TORNAR A MANIFESTAÇÃO AMPLAMENTE ACEITA E UNIVERSALMENTE
IMPOSITIVA DO DIREITO CONSUETUDINÁRIO INTERNACIONAL.

Os EUA, no entanto, não desistiram de sua batalha jurídica. Em setembro de 2004 o SG Kofi Annan
manifestou-se publicamente sobre o que chamou de ilegalidade da guerra de 2003  afirmou que
somente a ONU poderia ter decidido quanto às consequências do não cumprimento das exigências por
parte do Iraque  a Casa Branca reagiu e houve até pressão pela renúncia do SG, com argumentos de
fraude no programa “Oil for Food”.

Parte II
Legítima Defesa

10
4 – O “direito inerente” de legítima defesa

Em 1837 os britânicos tentavam esmagar uma rebelião no Alto Canadá (hoje Ontário)  os EUA
não ousavam desafiar diretamente a GB apoiando os rebeldes, mas não impediram uma milícia de NY de
atuar  os “voluntários” utilizavam o vapor “Caroline” para transportar armas e homens  os britânicos
reagiram com uma investida noturna e destruíram a embarcação em NY.
O incidente preocupou Washington já que forças britânicas voltavam a agir em território
americano  o Secretário de Estado mandou carta ao Embaixador Britânico, o qual reagiu dizendo que
a destruição do vapor fora um ato de “necessária legítima defesa”.
O desfecho do episódio levou ao novo Secretário de Estado a reconhecer que o emprego da força
em legítima defesa podia se justificar em certas circunstâncias.
Surgem os critérios de “necessidade e proporcionalidade”, novos parâmetros para o direito à
legítima defesa no DI. O caso “Caroline” levou a uma distinção entre atos de legítima defesa e atos de
guerra.
Foi necessária a PGM para que os estadistas se conscientizassem da necessidade de impor limites
legais à agressão militar. Primeira tentativa em Versalhes, 1919, com o Pacto da Liga das Nações  a
Liga poderia fazer recomendações a Estados que se encaminhavam para a guerra  mas quando o
Senado americano eximiu-se de ratificar o Pacto, a Liga enfraqueceu-se.

O Pacto de Kellogg-Briand (Secretários de RE de EUA e França), de 1928, proibia o recurso à


guerra para a solução de controvérsias internacionais  62 países ratificaram  PORÉM, DA MESMA
MANEIRA QUE O PACTO DA LIGA DAS NAÇÕES, NÃO DISPUNHA DE MECANISMO DE APLICAÇÃO 
POUCOS EFEITOS PRÁTICOS  países como Itália e Japão, ao invadirem territórios, simplesmente o
fizeram sem declarações formais de guerra para não “desrespeitar” o Pacto.
O Pacto previa uma exceção em caso de legítima defesa.
Foi ratificado pelo Senado americano que não o via como risco à Doutrina Monroe (política
adotada em 1823 pelo Presidente James Monroe de que qualquer interferência europeia na América era
ameaça aos EUA).

A Carta da ONU de 1945  determinava que todos os países se abstivessem da ameaça ou do uso
da força (ampliava da guerra a qualquer conflito)  criava o CS conferindo-lhe autoridade para
determinar a existência de ameaça à paz, impor sansões e empreender com forças militares as ações
necessárias.
Para se resguardar, as potências estabeleceram os membros permanentes com direito a veto.
Instituíram, também, a legítima defesa como direito “inerente”  além da “necessidade e
proporcionalidade”, outras 3 restrições (Art. 51):
 Qualquer Estado só poderia agir em legítima defesa se sofresse ataque armado;
 Atos de legítima defesa deveriam ser imediatamente relatados ao CS; e
 O direito de reagir estaria cancelado assim que o CS entrasse em ação.

O Art., entretanto, não fecha certas lacunas: o ataque a cidadãos do país em outro local configura
ataque ao país? Essa ambiguidade foi resolvida em 1976. Um avião da Air France levava 251 passageiros
de Israel para a França  sequestrado por palestinos  pousam em Entebe, Uganda  exigiam a
libertação de terroristas presos em vários países  o governo Idi Amin Dada parecia simpático aos
sequestradores  Comandos israelenses levam a cabo uma audaciosa operação de resgate sem
consentimento do governo de Uganda  resgatam os reféns e matam os sequestradores  a alegação
israelense foi de que o DI permitia recorrer à força para proteger cidadãos nacionais no exterior quando o
país onde corriam perigo não se mostrasse capaz ou disposto a fazê-lo.

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O incidente em Entebe contribuiu decisivamente para a extensão do direito à legítima defesa nas
RI, passando a incluir a proteção de nacionais no exterior  as ENC passam a ser internacionalmente
aceitas, mantendo-se somente a discussão da questão da necessidade e proporcionalidade (por ex., se
não se está utilizando o argumento de pretexto para intervir em uma guerra civil).

Outro debate: estaria a legítima defesa limitada aos ataques em andamento? Ou incluiria
ataques recentes? Qual o limite entre ações defensivas e punitivas? Em 1993 foi frustrada uma tentativa
de assassinar o Presidente George Bush pai no Kuwait  pouco depois  23 mísseis caíram sobre o QG
da inteligência iraquiana  os EUA defenderam na ONU que a tentativa era um ataque direto aos EUA e
que exigia resposta  invocava o Art. 51 da carta  MAIS POLÊMICA  a ação não chegou a ocorrer 
a resposta veio tempos depois da tentativa (EUA alegaram que demoram a coletar provas conclusivas da
participação iraquiana)  o objetivo real não seria a legítima defesa, mas a punição e evitar novas
investidas  MAS AS REPRESÁLIAS ARMADAS FORAM ABOLIDAS DO DI PELA CARTA DE 1945  por
isso os EUA vem tentando sistematicamente ampliar o significado de legítima defesa.
Britânicos viveram situação semelhante em 1982, no caso da invasão argentina às Falklands 
não puderam reagir prontamente, mas, naquele contexto, devido ao tempo necessário para mobilizar
uma força do RU para o Atlântico Sul  MAIS POLÊMICA  na maioria dos sistemas jurídicos o direito à
legítima defesa cessa no momento em que o ataque ou ameaça cessa  passaria, pela opinião de alguns,
a caber ao CS resolver a questão a partir da invasão consumada.

Dessa forma, os EUA, ao pressionarem por estas e outras ampliações do direito de legítima
defesa, atacando sem consentimento do CS, não só aumentam sua própria liberdade de agir como
diminuem o papel e a autoridade das Nações Unidas.

5 – Legítima defesa contra o terrorismo

11 de setembro de 2001  19 elementos da Al Qaeda sequestram 4 aviões e atacam o WTC e o


Pentágono  quase 3 mil mortos  EUA automaticamente declaram que reagiriam militarmente em
legítima defesa  mas no caso da investida ao Afeganistão, governo que dava apoio e acolhida à Al
Qaeda, a justificativa não se adequava como poderia parecer à primeira vista.
Em 1986 uma bomba explodiu numa boate cheia de americanos na Alemanha Ocidental  10 dias
após os EUA bombardearam alvos em Trípoli  EUA alegaram legítima defesa  conceito não foi aceito
internacionalmente  alguns questionaram até mesmo a questão da “necessidade e proporcionalidade”
 na ocasião, França e Espanha, membros da OTAN, não permitiram que seus espaços aéreos fossem
utilizados  em 2003, apesar de Canadá, França e Alemanha terem se oposto à guerra do Iraque,
deixaram livres seus espaços aéreos.
Hoje surge a questão de saber se o direito de legítima defesa se estende a situações em que
reações militares ocorrem em países que não estão diretamente envolvidos nos ataques  EUA, Israel e
África do Sul defendiam isso  Israel utilizou o argumento para atacar a sede da OLP na Tunísia, em 1985
 CS condenou a ação  EUA não vetou a resolução, mas absteve-se  preocupava o mundo a
integridade territorial de um Estado Soberano ter sido violada numa ação voltada para atingir não o
próprio Estado, mas terroristas em seu território.
Em 1998, bombas explodiram em frente às Embaixadas americanas no Quênia e na Tanzânia 
dezenas de mortos  EUA reputaram o ataque à Al Qaeda de Osama Bin Laden  duas semanas depois
 ataque com dezenas de mísseis a campos de treinamento terroristas no Afeganistão e fábrica de
produtos farmacêuticos no Sudão (supostamente produtora de insumos para armas químicas) 
justificativa: legítima defesa, mesmo que o Afeganistão ou o Sudão não lhes houvessem atacado.

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Numa tentativa de conter críticas internacionais o presidente americano fez ligações antes aos
homólogos do RU, Alemanha e França, que sinalizaram positivamente  Paquistão protestou pelo uso do
seu espaço aéreo  outros países, como a Rússia, condenaram, mas não houve muito eco, o que,
praticamente validou a tese de se poder atacar terroristas em território de outros países.

Mas os EUA costumam, com frequência, precisar do apoio de aliados que cumprem o DI  outras
vezes consideraram conveniente recorrer a argumentos jurídicos para desencorajar aliados a atacar  é
esta necessidade simultânea de flexibilidade, cumprimento e coação que está por traz das tentativas
americanas de criar e mudar leis. Sempre que os EUA pretendem agir contra o DI, seus advogados agem
no sentido de mudar a “opinio júris”, tendo em vista modificar interpretações consagradas.

Exemplos de obtenção de mudança de interpretação jurídica podem ser vistos nas ligações de Bill
Clinton pré-ataques do Afeganistão e Sudão, e no caso da invasão do Afeganistão no pós-WTC.
Em 2001 os EUA tinham a sua disposição várias justificativas:
 que agiam a convite da Aliança do Norte, a qual poderia ser considerada precariamente
como governo legítimo do país frente ao terror do talibã (o CONVITE é amplamente aceito no DI
consuetudinário como justificativa para uma intervenção militar, já que a proibição da Carta da
ONU diz respeito a intervenções não consensuais);
 poderiam ter solicitado autorização do CS para a ação militar, o que certamente teria sido
concedido, e invocado a Res. 1373 de 2001 que congelava bens de terroristas e continha trechos
que previam emprego de força; e
 Poderiam ter invocado o direito de intervenção de caráter humanitário, tendo como
precedente a guerra do Kosovo, já que em 2001/2002 milhões de afegãos padeciam com a fome.

Mas o país preferiu focar numa única justificativa: o direito de legítima defesa contra o
terrorismo. Para tanto, viram-se num dilema jurídico: para manter os países da coalizão de apoio,
deveriam atender aos critérios de necessidade e proporcionalidade  a ação deveria, pois, concentrar-
se nos indivíduos responsáveis pelos ataques  em assim sendo, haveria justificativa para destituir o
governo talibã?
Ainda hoje, a maior parte dos países encara com desconfiança esses argumentos por receio de
sofrer uma intervenção. A presença de terroristas em Hamburgo justificaria ataques americanos à
Alemanha?
Por isso os EUA trataram de:
1) implicar o Talibã acusando-os de suporte e apoio  agindo dessa forma, ampliaram seu direito
de legítima defesa ao Estado do Afeganistão  e receberam forte apoio internacional; e
2) assegurar amplo apoio antes da ação. Invocaram inclusive cláusulas de legítima defesa coletiva
da OTAN e da OEA. Ambas as organizações consideraram os ataques de 2001 como ataque
armado. As próprias resoluções do CS posteriores foram meticulosamente escritas de modo a
respaldar o direito à legítima defesa.

Dessa forma decorre o entendimento de que um país pode atacar terroristas em outro, desde que
tenha sido por eles atacado; e a legítima defesa pode ser coletiva. Antes do 11 de setembro muitos ainda
reagiam a estas teorias, mas a gravidade dos ataques ajudou a respaldar os EUA. Houve consternação
mundial. Tal desdobramento levou a uma oportuna possibilidade futura de usar os mesmos argumentos
para ataques menos graves e quando seja menos clara a responsabilidade do país visado.

Quais seriam os limites dessa nova extensão do direito à legítima defesa? Debate em torno da
política de “assassinatos seletivos” israelenses. Apesar dos laços fortes entre EUA e RU, Tony Blair e
George W. Bush divergiram em 2004. O líder do Hamas, o Xeque Ahmad Yassin foi morto por um míssil

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israelense ao sair de uma mesquita  um mês depois foi a vez de seu sucessor  RU condenou os
assassinatos  EUA afirmaram que Israel tinha o direito de se defender  de uma perspectiva europeia,
os atos eram assassinatos extrajudiciais que violavam princípios fundamentais do DI atinentes aos DH e
questões humanitárias  procedimentos universalmente aceitos exigem a captura, julgamento e
condenação.
Além de tudo isso os europeus consideram o conflito palestinos X israelenses como fruto de uma
ocupação que não deu certo, sendo Israel a potência ocupante  deveria, dessa forma, à luz da 4ª
Convenção de Genebra, obediência às normas estabelecidas de proteção de civis em tempo de guerra.
Consideram ainda o Art. 3 das Convenções: “as pessoas que não tomem parte diretamente nas
hostilidades (...) serão tratadas com humanidade (...) d) proibidas as condenações e execuções efetuadas
sem o devido julgamento (...)”.
Já do ponto de vista americano, os assassinatos eram legais por objetivar evitar novos
atentados.
Hoje, a política de assassinatos seletivos é considerada parte da guerra mundial contra o terror.

Israel rechaça a 4ª Convenção, pois afirma que Gaza e Cisjordânia não faziam parte de Estado
algum antes da ocupação. Argumento rejeitado pela Corte Internacional de Justiça  argumenta ainda
que, uma vez que os homens-bomba adentrem território israelense já é tarde demais para detê-los 
por isso atuar em que planeja os ataques.
Os EUA pressionaram Israel a não atacar Yasser Arafat, mas Ariel Sharon eximiu-se  os EUA, por
sua vez, assumiram posicionamento favorável ao não retorno de palestinos a suas antigas terras dentro
de Israel, e mudança em sua política para o conflito  assim fazendo, perderam a capacidade de atuar
como mediadores objetivos no conflito a partir de George W. Bush  Sharon contava agora com o apoio
americano para impor uma solução para a região.
Sobre Arafat, vale enfatizar, que era líder democraticamente eleito de quase-Estado-nação, com
tratados firmados com Israel, e status de observador na ONU. Não assumia apoio a atentados, e vivia em
localização conhecida  se tivesse ocorrido, seu assassinato encontraria grande repulsa internacional 
sua morte em hospital francês foi conveniente a Israel e aos EUA.

6 – Legítima defesa preventiva

1981  ataque aéreo israelense ao reator nuclear de Osirak, próximo a Bagdá  o programa
nuclear do Iraque ficou seriamente comprometido  judeus invocaram a legítima defesa preventiva 
afirmaram ainda que respeitaram a proporcionalidade atacando num domingo, de modo a poupar a vida
de trabalhadores.
Na linguagem do DI, estavam presentes os princípios da “opinio júris” e “prática de Estado” 
mas nesse tipo de situação, além da “opinio júris” e prática do Estado em questão, contam também as
reações de outros governos  CS condenou a ação israelense  A COMUNIDADE INTERNACIONAL
REJEITOU A TESE DE LEGÍTIMA DEFESA PREVENTIVA  Margaret Tatcher o considerou injustificável.
A Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados de 1969 exige que as cláusulas sejam
interpretadas de acordo com o “sentido comum das palavras”  dessa forma, a Carta da ONU era clara
ao dizer “(...) no caso de ataque armado” para justificar a legítima defesa.
O debate, entretanto, nos faz voltar ao “Caroline”, em 1837  “necessidade de legítima defesa,
urgente, incontornável, sem oferecer opção de meios nem tempo para deliberação”  havia, pois, antes
mesmo da Carta da ONU, um relativo direito consuetudinário internacional atinente a uma legítima
defesa preventiva  mas com a referida Carta o Art. 51 não deixa dúvidas: ações dessa natureza só se
justificam se ignorado o referido artigo, ou se modificarem-se as práticas de Estado  mas a
condenação global aos ataques de Osirak apontaram outra direção.

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Já em 1967, ao iniciar a Guerra dos Seis Dias, Israel agiu preventivamente, mas não declarou isso
publicamente  afirmou que o bloqueio egípcio ao Estreito de Tiran constituira ato prévio de agressão.
Os EUA, por sua vez, ao bloquearem Cuba em 1962, não utilizaram o argumento da prevenção,
mas sim da “manutenção da paz regional”.
Por fim, em 1988, quando o Cruzador Vincennes derrubou um avião civil iraniano  os EUA
finalmente utilizaram o direito de legítima defesa preventiva, afirmando que, mesmo que em ação
equivocada, tratava-se de reação contra ataques de barcos de patrulha iranianos.
Na ocasião todos condenaram a argumentação preventiva, particularmente num contexto de
Guerra Fria.

Hoje, para os EUA, a situação é mais confortável com a saída parcial da Rússia do rol de possíveis
inimigos.
Falando na Academia de West Point, Bush, ao se referir à ameaça das ADM, defendia o direito a
certo grau de preempção que se estendesse ao emprego preventivo  “Devemos levar a batalha até o
inimigo, impedir seus planos e fazer frente às ameaças antes mesmo que se materializem”  “(...) se
esperamos que estas ameaças se materializem, teremos esperado demais”.
Era a NOVA POLÍTICA ou DOUTRINA BUSH  não mais se preocupava em atender aos critérios do
Caroline  os EUA não esperariam uma “necessidade de legítima defesa”.

Seriam as ações militares unilaterais a melhor maneira de enfrentar a questão das ADM?
O assunto não é novo. O primeiro tratado sobre o uso de gás venenoso remonta de 1899  a
ONU vem lutando a décadas para o controle dessas armas, com seu trabalho dificultado pelos EUA  o
governo Bush pressionou pala saída de José Bustami da OPAQ e de El Baradei AIEA  foi de encontro
ao TNPN, desenvolvendo novas armas  milita ainda contra o TPI, que poderia julgar pessoas que
porventura fizessem uso de tais armas.
Essa pergunta também suscitaria a dúvida sobre quem decidiria que uma possível ameaça
justifica uma ação preventiva.
Como se proteger de intervenções militares oportunistas, justificadas por uma capa de legítima
defesa preventiva? Os governos têm, em geral, mostrado consciência quanto às consequências
potencialmente perigosas da Doutrina Bush. Os países tem sido, pois, cautelosos em apoiar os EUA. Até
mesmo porque a Carta da ONU dá a resposta: na ausência de ataque, só o CS pode agir. E o CS vem
autorizando ações de força contra Estados (Iraque, Somália, Bósnia, Haiti, etc)  levou apenas 1 dia para
autorizar a legítima defesa dos EUA frente ao 11 de setembro.
Os EUA se valem do fato de que jamais poderão ser atingidos nem retaliados por ações
preventivas, mas acabam criando esta possibilidade  agentes que sabem não poder frente ao país
procuram as ADM para atingir tal capacidade.

A Doutrina Bush dificilmente poderia ser juridicamente justificável, à luz do DI, e jamais seria
incorporada ao direito consuetudinário internacional  a maioria dos países não tem nada a lucrar com a
extensão de um direito de legítima defesa preventivo POIS ELE CONFERIRIA A TODOS OS ESTADOS
PODER DISCRICIONÁRIO QUASE ILIMITADO PARA USAR A FORÇA.
Assim a Doutrina Bush foi reformulada para se tornar mais aceitável por parte de outros países, e
portanto, mais efetiva na promoção de mudanças jurídicas  a Estratégia de Segurança Nacional de
2002 procurou adotar o conceito de legítima defesa pós-Caroline: “(...) direito de preempção em caso
de ameaça iminente”  ao afirmar certa preponderância do direito consuetudinário (Caroline) sobre a
Carta, tinha a intenção de suscitar o debate  ia adiante, sustentando que o critério da iminência vai
além das ameaças urgentes, passando a incluir desafios mais remotos e incertos.

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O Objetivo não era mudar normas, mas apenas adaptar a maneira como a norma era aplicada na
prática  valia-se da inquestionável concordância mundial frente à gravidade do terrorismo e das ADM
para tentar mudar o DI consuetudinário.
Mas a nova extensão proposta na Estratégia poderia gerar ainda mais ambiguidade  o poder e a
influência desempenhariam maior papel na aplicação da lei (países mais poderosos têm mais voz, maiores
conhecimentos de inteligência e mecanismos de pressão)  a lei sobre legítima defesa passaria a ser
ferramenta diplomática nas mãos dos poderosos, a ser empregada contra Estados fracos  liberdade
para agir como bem quisessem.
Estados como Rússia, Israel e Índia reagiram favoravelmente à Estratégia. A Austrália propôs
mudar a Carta para prever a possibilidade de ação preventiva unilateral  causou indignação dos países
do SE asiático, que manifestaram, por meio de sua discordância, o caráter de suas “práticas de Estado” e
“opinio júris”  França, Alemanha e México  objeção mais moderada.
Esse cenário dividido levou os EUA a procurar o CS quanto à questão do Iraque  tal levou à
Res. 1441 (atinente à questão da violação material, que levaria à Res. anterior permitindo o uso da
força)  Bush recorreu a este argumento, bem como ao da legítima defesa preventiva para justificar a
Guerra de 2003  seus dois principais aliados, GB e Austrália, se escoravam unicamente nas Resoluções,
não na defesa preventiva.
Em seguida à guerra, a generalizada oposição à Doutrina Bush ficou evidente na 58ª Sessão da AG
da ONU  países buscavam a volta do diálogo multilateral, a persuasão e ação coletiva como únicas
formas de resolver os muitos conflitos com os quais se defronta a comunidade internacional.
Dessa forma, o direito de legítima defesa preventiva não tem aceitação para ocasionar mudança
no direito consuetudinário internacional, tampouco no Art. 51 da Carta. Mas continua a ser defendido
pelos EUA.
Em 2004, o Painel de Alto Nível sobre Ameaças, Desafios e Mudança do SG da ONU, com diversos
representantes de líderes mundiais  concluiu: “(...) se houver boa fundamentação para uma ação
militar preventiva, (...) a questão deve ser levada ao CS, que tem o poder de autorizar tal iniciativa (...)
caso contrário haverá tempo suficiente para outras estratégias como persuasão, negociação, dissuasão e
contenção (...) num mundo em que se detectam tantas ameaças potenciais, o risco para a ordem global
da não observância da norma de não-intervenção é simplesmente grande demais para que possamos
aceitar ações unilaterais preventivas, em contraposição a ações coletivamente endossadas. Autorizar
alguém a agir é autorizar a todos”  TRATAVA-SE DE CONTUNDENTE CONDENAÇÃO À DOUTRINA BUSH
 objetivo era mobilizar e reforçar a opinião pública internacional contra a Doutrina da guerra
preventiva.

Parte III
Intervenção Humanitária

7 – Intervenção em defesa da democracia

Autorização do CS e legítima defesa são as exceções de permissão do uso da força  duas outras
exceções não codificadas podem ter se desenvolvido nas últimas décadas: 1) direito de intervir
militarmente para promover ou restabelecer a democracia; e 2) direito de intervir para prevenir graves
abusos contra os DH ou violações ao DHI (genocídio, expulsões em massa, estupros, etc).
Após a Guerra do Iraque de 2003, os líderes de EUA e RU começam a falar em levar a
democracia para o OM  esse argumento se mostrou bem a calhar quando se concluiu que não seriam
encontradas ADM no Iraque  mas só surgiu durante, não antes da invasão.
Não há precedentes em uma intervenção a bem da democracia, portanto não havendo práticas
de Estado ou “opinio juris” que a corroborem  o CS poderia autorizar, como fez no Haiti em 1994, mas

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nunca houvera tal situação por solicitação de Estado ou grupo de Estados, que não o ator da crise 
lembrar que o então presidente haitiano solicitou a intervenção.
Granada  1983  Fuzileiros e Paraquedistas dos EUA e outros países tomaram a ilha em reação
ao golpe de estado promovido por marxistas radicais  Reagan apresentou várias justificativas: em 1º
lugar o suposto convite do Governador-Geral da Ilha; em 2º lugar uma solicitação feita pela Organização
dos Países do Caribe Oriental (OPCO); e em 3º lugar o direito à legítima defesa de cidadãos americanos 
mas a Carta da ONU previa a necessidade de autorização do CS, o que não ocorreu.
Os EUA nunca afirmaram que intervieram na ilha por questões democráticas  EUA vetaram
resolução condenando a invasão  AG por sua vez condenou veementemente a invasão e Granada
acabou servindo para firmar a ideia internacional de contrariedade a esse tipo de intervenção.
Panamá  1989  EUA mandam 26 mil homens invadir o país e capturar o General Noriega,
Chefe de Estado  George H. Bush apresentou 4 justificativas: 1) proteger a vida de civis americanos; 2)
defender a democracia no Panamá; 3) combater o tráfico de drogas; e 4) resguardar a integridade do
Tratado do Canal do Panamá  após a captura, governo que havia sido eleito assume, EUA retiram
sansões e tropas  Operação Justa Causa  o único argumento juridicamente plausível seria o de
resguardar os nacionais, mas os EUA afirmaram que, na verdade, além desse, estavam lá também para
resguardar os Tratados do Canal  mas enquanto no meio acadêmico americano as intervenções em
favor da democracia em Granada e Panamá eram elogiadas, no resto do mundo só haviam críticas 
resolução foi vetada pelos EUA e RU  na AG e na OEA  resoluções condenatórias.
Os EUA de duas maneiras invocaram a democracia para justificar a invasão do Panamá  1) em
caráter unilateral para promover a democracia em outros países; e 2) a título de ajuda a um Chefe de
Estado democraticamente eleito (Guillermo Endara) que concordara com a iniciativa (ainda que só tivesse
sido informado da invasão horas antes).
Vários países retiraram seus embaixadores e exigiram a retirada das tropas americanas 
passaram-se alguns meses até que o novo governo fosse reconhecido  insatisfação no CS, a AG e na
OEA  demonstrraram a não aceitação desse tipo de intervenção a bem da democracia.
A proibição de emprego de força também veda a fornecimento de capacidade militar para
grupos de oposição (insubordinação civil ou terrorismo), mesmo lutando pela democracia  tal ficou
claro na Resolução sobre Relações Amistosas de 1970.
A Corte Internacional de Justiça reiterou a norma de 1986  caso Nicarágua  o governo daquele
país teve ganho de causa num processo contra Washington pelo emprego de força treinando e armando
os Contras, que operavam a partir de El Salvador  a única exceção à norma é se o apoio for contra
grupos de libertação nacional contra potências coloniais.

8 – Intervenção humanitária unilateral

A opinião de especialistas internacionais de várias áreas vem criticando a proibição ao uso da força
contra países que sistematicamente cometam abusos contra seus próprios cidadãos. Convencidos de que
o CS não tem condições de enfrentar o problema, acreditam no direito de intervenção humanitária
unilateral, ou seja, sem autorização do CS.
Adeptos desse direito citam como precedentes: intervenção da Índia no Paquistão (1971); Vietnã
no Camboja (1978); Tanzânia em Uganda (1979); e EUA, RU, França e Holanda no norte do Iraque (1991)
 mas somente o RU invocou algum argumento humanitário em ditas intervenções.
A falta de “opinio juris” privou a prática de Estado de capacidade de alterar o DI para incluir este
tipo de intervenção.
O Kosovo poderia ter sido um divisor de águas, mas somente dois países invocaram tal
argumentação, e ainda assim houve críticas internacionais à guerra.

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Índia  Paquistão, um país majoritariamente muçulmano foi criado com duas partes, uma
Ocidental e outra Oriental, após a descolonização da Índia em 1947  as províncias eram separadas por
1.600 km e, enquanto no oriente se falava bengali, no ocidente se falava urdu  a parte ocidental detinha
a predominância política, econômica e militar  em 1970 a Liga Awami, que pregava a separação da
parte Oriental, conquistou a maioria das suas cadeiras na Assembleia Nacional  Governo prende o líder
da Liga, a qual declara emancipação  o General Kahn, Presidente Militar, manda o exército paquistanês
para Daca  1 milhão de mortos, com traços de genocídio contra os hindus  fuga em massa para a
Índia  graves problemas foram causados para a Índia, que passa a apoiar militarmente o Mukti Bahini
(movimento de libertação bengali)  1971  Paquistão bombardeia campos de aviação indianos 
começa a guerra  a Índia toma a parte Oriental e surge Bangladesh.
Para alguns a intervenção indiana pôs fim a uma atroz repressão e foi exemplo de intervenção
humanitária  mas a própria Índia acabou por invocar o argumento de legítima defesa em favor de
seus civis.
EUA criticaram a atitude indiana. Até mesmo a Suécia, tradicionalmente progressista em termos
de DH, fez o mesmo. Resolução determinando imediata retirada das tropas indianas foi vetada pela URSS,
então aliada da Índia. Nenhum país endossou uma intervenção indiana humanitária, de modo que não
houve “opinio juris” em seu favor.

Camboja  entre 1975 e 1978 o Khmer Vermelho matou milhares de pessoas e condenou milhões
à fome  Pol Pot também realizou ataques nas fronteiras do Vietnã  este invadiu o país em 1978 e
tomou Phnom Penh  Vietnã alegou exclusivamente legítima defesa e que a derrubada de Pol Pot fora
fruto de rebelião interna  tal argumento foi amplamente rejeitado, mas como a invasão fez cessar a
crise humanitária, alguns passaram a vê-la com certo grau de legitimidade.
Os franceses condenaram e até mesmo Bangladesh (que nasceu de uma intervenção indiana)
reiterou o princípio da não-intervenção em questões internas. Resolução foi proposta por países em
desenvolvimento pedindo a saída dos vietnamitas  veto da URSS.
A AG rejeitou o pedido de credenciamento do novo regime, aceitando de uma delegação do Khmer
Vermelho (que sobrevivera nas montanhas a oeste)  tal delegação ainda representou o país na ONU por
9 anos  enfim em 1979 foi aprovada resolução pedindo a saída das tropas estrangeiras.
Apoio de alguns veio justamente da questão humanitária  mas os países mais democráticos
condenaram tanto a invasão, quanto as atrocidades de Pol Pot.
Tal invasão não qualificou o direito de intervenção humanitária no DI. Durante a Guerra Fria a
competição entre as duas superpotências impediu qualquer nova exceção à proibição do uso da força.

Uganda  Idi Amin foi presidente por 8 anos  milhares de mortos  embora os países
condenassem as violações aos DH, nenhuma ação foi tomada  1978  país anexou parte da Tanzânia
que declarou guerra  Amim pediu reforços do ditador Muamar Kadafi  mas a Tanzânia saiu vitoriosa,
tomou o país e instalou um novo governo (Yusufu Lule).
Apesar da situação em Uganda, a Tanzânia jamais invocou que a invasão ocorrera por questões
humanitárias  alegou legítima defesa, e nenhum outro motivo  como o Vietnã, alegou que o novo
regime foi oriundo de sublevação interna  a maioria dos países aceitou a alegação  Amim solicitou
ajuda do CS mas não obteve apoio  o novo governo foi reconhecido rapidamente pela ONU.

Certas limitações geopolíticas do possível direito de intervenção humanitária unilateral


mudaram com o colapso da URSS e o fim da Guerra Fria, embora ainda não se tenha manifestado um
apoio generalizado a mudanças no DI sobre o tema.

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Iraque  durante a Guerra de 1991 os EUA estimularam os curdos a se rebelarem no norte e os
xiitas no sul  mas a Res. 678 que regulamentava a paz entre o Iraque e a coalizão após a guerra nada
fez para proteger aqueles povos da sangrenta represália de Saddan Hussein  milhares de mortos e
refugiados  Res. 688 considerava que a situação configurava ameaça à paz e à segurança
internacionais  pedia o fim da repressão e acesso de observadores ao norte do país  tropas dos EUA,
UK, França, Itália e Holanda criam zonas de segurança no norte  “Operação Oferecer Socorro”  não
houve explicitamente autorização para uso da força, mas “...ameaça à paz e à segurança...” era usado
como autorização implícita.
Nesse momento o RU finalmente propôs que deveria ser considerada a possibilidade de uma
intervenção internacional sem convite do país envolvido em casos de extrema necessidade humanitária.
A situação, segundo os britânicos, deveria ser limitada a:
 situação urgente de extremo sofrimento humanitário;
 Estado envolvido não é capaz de agir ou não se dispõe a fazê-lo;
 Não existe outra alternativa; e
 A intervenção é limitada em alcance e duração.

Mas o RU falou em “justificativa” para intervenção, não propôs formalmente alterações no DI 


possivelmente receando ser rechaçado. Mas já havia considerável fundamentação de prática de Estado
e “opinio júris”  mas como qualquer tratado escrito sobrepõe-se ao DI consuetudinário, esse tipo de
ação não encontrava respaldo pelo Art. 2 da Carta .
Em 1949 o RU já tentara intervir na Albânia para desativar minas no Canal de Corfu, alegando que
o país não tinha capacidade nem vontade de fazê-lo, mas a ONU rejeitou a ideia.

Kosovo  albaneses e eslavos convivem no Kosovo desde o século VIII  inicialmente parte do
Império Sérvio, o Kosovo incorporou ao Império Turco-Otomano em 1389  Sérvia o recupera em 1913 e,
a partir de 1946, se torna parte da Iugoslávia  ao assumir a presidência em 1989, Sobodan Milosevic
trata de retirar do Kosovo a condição de província autônoma  após o colapso do país no início dos anos
1990 e com ataques de movimento guerrilheiro de natureza albanesa (Exército de Libertação do Kosovo –
KLA) contra alvos sérvios, Milosevic dá início a brutal repressão  embaraçados por não terem sido
capazes de conter as barbaridades na Bósnia, os EUA e aliados da OTAN afirmam que não permitiriam
novos excessos  Milosevic aceitou negociar, mas as conversas não prosperaram  1999  a OTAN
inicia ataques a alvos sérvios no Kosovo, na Sérvia e em Montenegro  não tentaram debater a
questão no CS, sabiam que a Rússia não aceitaria  esta propôs resolução condenando os ataques, mas
não passou  a OTAN alegava que em outras duas resoluções a ONU já declarara que a crise constituía
ameaça à paz e à segurança internacionais.
De início, somente dois países da OTAN tentaram justificar a guerra por questões humanitárias:
o RU e a Bélgica  mas a OTAN também afirmou que deveriam por fim à catástrofe humana  havia,
nesse momento, ausência de “opinio júris” que justificasse a prática de Estada verificada.
Forte reação internacional. Grupo dos 77 países em desenvolvimento afirmou que o direito de
intervenção unilateral não encontrava acolhida no DI.
Após a guerra  Res. 1244 conferia à ONU o papel central na reconstrução  redigida com
cuidado para evitar interpretações de que servisse de “autorização retroativa” à guerra que ocorrera 
mas acabou sendo.
A guerra do Kosovo não estava de acordo com o DI e nem foi capaz de alterá-lo em favor de um
direito de intervenção humanitária unilateral.
Seria necessário um teor muito maior de prática de Estado e de “opinio júris” para que se
pudesse considerar um novo direito  o uso de força para questões humanitárias permanece no campo

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das vontades políticas, bem como da justificação moral  o que hoje se denomina “responsabilidade
de proteger”.

9 – A responsabilidade de proteger

Depois da Guerra do Kosovo em 1999 o governo inglês propôs à ONU um direito limitado de
intervenção humanitária unilateral (ou seja, sem autorização do CS)  atacado por todos os lados.
O SG, Koffi Anan se viu numa posição difícil: inicialmente afirmou que vinha se manifestando
lentamente uma nova norma contra a repressão violenta de minorias que acabará assumindo
precedência sobre a soberania dos Estados  mas, ainda em 1999, reconheceu que essa norma ainda
não havia adquirido status legal e que poderia ter outras implicações indesejáveis para a ordem
internacional  reiterou que decisões sem o consentimento do CS ameaçam o cerne do sistema
internacional de segurança baseado na Carta (somente essa apresenta fundamentação jurídica
universalmente aceita para emprego da força).
Para tentar acabar com o dilema, o Canadá criou um organismo independente  Comissão
Internacional sobre Intervenção e Soberania de Estado  objetivo de encontrar novos pontos de
convergência  várias personalidades  chegaram a um relatório denominado: “A responsabilidade de
proteger” que contém certos trechos favoráveis ao direito de intervenção humanitária unilateral.
“Com base (...) nos princípios orientadores que vão surgindo e na evolução do direito
consuetudinário internacional, a Comissão considera que a tendência da Carta contra intervenções
militares não deve ser considerada de caráter absoluto nos casos em que seja necessária uma ação
decisiva por motivos de proteção de vidas humanas”.
Mas em outro ponto reconhecem que seria impossível chegar a consenso em torno da validade de
uma intervenção sem consentimento do CS. Tal consenso, ou algo próximo, seria essencial para modificar
uma norma internacional sobre emprego da força.
Três anos após, o Painel de Alto Nível sobre Ameaças, Desafios e Mudanças do SG da ONU 
endossou o conceito de “responsabilidade de proteger”, mas afirmou que esta cabia ao CS.
Afirmava que os seguintes “critérios de legitimidade” deveriam ser considerados: (SAUPE)
 Seriedade de intenções;
 Adequação de objetivos;
 Último recurso;
 Proporcionalidade; e
 Equilíbrio das consequências.

O relatório canadense conclui sobre o difícil equilíbrio entre aspirações morais e realidade política,
mas o país estava convencido de sua posição favorável a intervenções humanitárias  “a soberania não é
uma essência, mas uma responsabilidade”.
Mas apesar de muitos realmente visarem prevenir o sofrimento humano, o risco é que haja
finalidades menos bem intencionadas.
Após a Guerra do Iraque de 2003, Tony Blair passou a defender o direito abertamente, inclusive
justificando retroativamente a guerra  invocando o conceito de comunidade: “(...) numa comunidade
não se aceita que indivíduos brutalizem outros”  criticou ainda a inépcia da ONU  “Mas a nossa
preocupação é que se a ONU – em consequência das discordâncias políticas em seus Conselhos - ficar
paralisada, uma ameaça que consideramos real não será posta em xeque”.
Tal abordagem remonta à antiga abordagem do DI baseada em leis naturais, onde não se
necessitava consenso  apenas bastava que fosse imposta pelos povos mais civilizados.
Mas Blair e outros defensores da “responsabilidade de proteger” focam somente a questão
militar dos problemas humanitários, e não as causas  “responsabilidade de prevenir”.

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O relatório canadense identifica numerosas dimensões em matéria de prevenção das causas
essenciais: apoio às instituições democráticas, à liberdade de imprensa e ao império da lei; ajuda ao
comércio; controle de armas; etc.  medidas não militares que acarretam transferência de riqueza dos
países ricos para os pobres ou seja, levar a sério o desenvolvimento do terceiro mundo.
Em 2004, dez anos após o genocídio em Ruanda, Koffi Anan, em virtude da falta de compromisso
com a “necessidade de proteger”, julgou necessário um plano de 5 pontos para prevenção de
atrocidades como aquela  enfatiza o mesmo que a comissão canadense: que a chave está na no
ataque às causas essenciais  criou um mecanismo para detectar genocídios em gestação  finalmente
concluiu que a intervenção militar deve ser último recurso e que a ferramenta ainda deve ser o CS.
A maioria do mundo ainda considera que o CS funciona adequadamente  a prevenção de
conflitos é a única área em que a “responsabilidade de proteger” poderia contribuir com algo útil e
novo  medidas efetivas de “responsabilidade de prevenir” deveriam ser tomadas  redução de
gastos militares, por ex.  as ações preventivas são muito menos dispendiosas que a intervenção
humanitária posterior  custo do Kosovo de US$ 46 bi.
O Relatório enfatiza ainda a importância da “responsabilidade de prevenir” afirmando que
guerras evitadas evitam o redirecionamento de recursos de áreas extremamente pobres, como as da
África, para outras (Kosovo, Iraque e Afegansitão).

Parte IV
O direito internacional durante os conflitos armados

10 – A proteção de civis

O DHI – “jus in bello” – determina como as guerras podem ser combatidas  diferencia-se das
normas que dizem quando as guerras podem ser empreendidas – “jus ad bellum” – da Carta da ONU
(autorização do CS e legítima defesa).
Também conhecido como “direito da guerra” e “direito dos conflitos armados”  o DHI procura
limitar o sofrimento humano, inevitável na guerra.
Como organismo jurídico, suas origens remontam 1859, quando o suíço Henri Dunant, testemunha
dos horrores da Batalha de Solferino (austríacos X franceses), com 40 mil mortos, deu início ao movimento
que levaria à criação do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV).
Hoje as normas do DHI podem ser encontradas nas 4 Convenções de Genebra de 1949 e em suas
antecessoras, de Haia, de 1907)  objetivam proteger os doentes e feridos em guerra; e os civis (não-
combatentes)  a proteção assegurada por esses tratados é reproduzida e detalhada em 2 Protocolos
Adicionais de 1977 , em diversos tratados mais específicos, bem como num conjunto paralelo de leis
não codificadas do DI consuetudinário.
Art. 51 do PA I  “A população civil não pode ser objeto de ataque”.
A proibição de atacar civis transpassa as Convenções, assumindo status de norma do DI
consuetudinário, devendo, pois, ser respeitada por todos, independente se ratificaram ou não tais
Convenções.
“(...) civis não podem ser punidos coletivamente”, mas indícios apontam para esse tipo de atitude
por parte dos EUA em Faluja, em 2004, após o assassinato de 4 civis americanos (tiros generalizados,
bombas de enorme potência em meio à cidade, etc)  características de ataque indiscriminado e,
portanto, ilegal  bombardeios rolantes no Vietnã em 1970  violação do DHI  mísseis SCUD
iraquianos sobre Israel  idem  em Faluja os americanos não permitiram que homens entre 15 e 45
anos deixassem a cidade  se recusaram, durante a guerra, a contar o número de iraquianos mortos  o
Art. 16 expressa claramente a obrigação em fazê-lo, bem como possibilitar as futuras identificações 
dessa forma, mesmo as potências ocidentais tem cometido muitos crimes de guerra.

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Indivíduos que não tomam parte nas hostilidades são civis  fornecedores de munição são
considerados combatentes  fornecedores de água e alimentos para as tropas são não-combatentes 
se fornece água e munições, alternadamente, é combatente.
Para ser considerados soldado o indivíduo precisa estar numa cadeia de comando, envergar
distintivos identificáveis, portar claramente armas e agir de acordo com as leis da guerra  se não
cumprir estas regras, a sansão é a perda das prerrogativas de PG  visa punir soldados que não ajam
com lealdade, bem como desestimular civis a entrar nas lutas  estas medidas acentuam as diferenças
entre civis e militares, gerando mais proteção aos primeiros.
Mercenários não são tratados como PG.
Fornecedores privados?  ainda não se sabe ao certo, pois são prática mais recente.
Jornalistas  civis, mesmo se acolhidos em unidades de combate, desde que não levem armas.
Contrabalançar as necessidades militares com a proteção de civis não é tarefa fácil  mas, de
um modo geral:
 Ataques devem visar a derrota militar do inimigo;
 Não devem causar a civis, ou objetivos civis, danos desproporcionais às vantagens
militares esperadas; e
 A necessidade militar não justifica violar outras normas do DHI.

O limiar entre alvos legítimos e ilegítimos nem sempre é cartesiano: uma mesquita geralmente é
inviolável (locais de culto e bens culturais desfrutam de proteção especial), mas se torna alvo legítimo se
lá se encontrar um atirador.
Durante a Guerra do Golfo de 1991  obrigações foram levadas a sério  Operação Tempestade
no Deserto  1º grande envolvimento militar americano desde o Vietnã  preocupação política de que
as coisas saíssem no controle, fez com a manobra fosse passada a MILITARES PROFISSIONAIS 
TREINADOS PARA COMBATER DE ACORDO COM AS REGRAS  contribuiu para a observância das normas
ainda, o fato de que os EUA estavam envolvidos em uma grande coalizão.
Cerca de 200 advogados militares na guerra  decisão final sobre alvos ouvia especialistas em
direito  ataque a estátua de Saddan Hussein descartado por “não contribuir para o esforço de guerra”
 houve, no entanto, embates jurídicos quanto a interpretações de normas  Oficiais britânicos
demitiram-se depois que americanos lançaram bombas de fragmentação  debates sobre uso de arados
em tanques para enterrar vivos soldados iraquianos em trincheiras, sem necessidade de combate corpo-a-
corpo  mas o que pode ser considerado “sofrimento desnecessário ou supérfluo”?  por um lado
evitou baixas americanas.
A introdução de armas de alta tecnologia reduziu os riscos para o pessoal americano  tornou
mais aceitável para a opinião pública nacional as guerras  a guerra passou a ser alternativa para
períodos de escândalos internos ou recessão, e não mais um recurso de elevado risco  até o atoleiro
americano no Iraque começar.
A tecnologia ajudou a levar a uma abordagem mais arrogante do jus ad bellum, como se vê na
Doutrina Bush de legítima defesa preventiva, e já começa a ter efeito semelhante no jus in bello .
Quando a guerra passa a ser instrumento da política externa, considerações políticas e financeiras podem
afetar o equilíbrio entre o que é necessidade militar e os cuidados de ordem humanitária.
Em Washington sabe-se improvável que futuros adversários respeitem o DI  pilotos torturados
na Guerra do Golfo, 11 de setembro de 2001, etc  soldados iraquianos se passaram por civis em 2003
para enganar e matar americanos (“crime de guerra da falsidade”).
Se o inimigo está trapaceando, por que seguir as regras? Mas o fato é que um advogado militar
impediu um ataque com VANT que mataria o líder talibã Mulá Omar, porque colocaria dezenas de civis em
risco  o então Secretário de Defesa (Rumsfeld) ficou furioso  o mesmo propôs revogar a proibição de

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atacar civis para intimidar o inimigo, estratégia da SGM, banida em Genebra (ataques em massa a
cidades europeias com milhares de civis mortos).

←  Teoria dos 5 anéis  ganhou força em Washington  todo regime tem 5 anéis
estratégicos:
1) Liderança política;
2) sistema econômico;
3) Infraestrutura;
4) população; e
5) forças militares.
O poderio aéreo poderia então atacar os anéis de dentro para fora, começando pelas
lideranças. Nesse contexto, os ataques à infraestrutura com sérios prejuízos à população civil
(água, energia, etc) se justificariam  geram insatisfação com o regime  abreviam o tempo e
custo dos conflitos.

Em 1991 os ataques americanos visaram a rede de energia iraquiana, o que foi justificado para
cortar o C2 inimigo, mas ao custo de inviabilizar tratamento de água, funcionamento de hospitais, etc. Em
1999, como a resistência de Milosevic foi muito grande, ataques da OTAN foram realizados em
infraestrutura para incitar oposição interna.
Outro ataque emblemático: Estação Estatal de Rádio e TV da Sérvia em 1999 e a TV Nacional
Iraquiana em 2003  se fossem veículos de comunicação militar, seriam alvos legítimos, mas somente de
propaganda  NÃO.
Na Guerra de 1991, muitos ataques aéreos ocorreram a baixa altura para evitar danos colaterais,
o que levou alguns pilotos a serem abatidos  no Kosovo  bombardeios a grande altitude, menos
precisos  vários comboios de refugiados atacados.
A Guerra do Kosovo foi complicada já que a Iugoslávia havia ratificado o Protocolo Adicional I
 proteções mais rigorosas para civis que as Convenções de Genebra  como os EUA não ratificaram
o Protocolo, não se viam obrigados a certas restrições  aos pilotos americanos eram atribuídas certas
missões específicas.
O TPI decidiu não investigar crimes de guerra atribuídos à OTAN. A questão não foi levantada
com relação ao Iraque, já que este não ratificou o Protocolo I.
Frequentemente os EUA são instados a se utilizarem de bombas inteligentes para diminuir os
danos colaterais, mas alegam que os custos são muito elevados  intromissão de considerações custo-
benefício em questões humanitárias.
Armas que provocam ferimentos supérfluos ou desnecessários também são banidas  munição
explosiva, armadilhas e armas laser de cegueira. O Protocolo de Genebra de 1925 proíbe
inequivocamente o uso de gás venenoso e armas biológicas  assumiram caráter de direito
consuetudinário internacional  dura reação frente à utilização na Guerra Irã-Iraque  outras armas
foram proibidas, mas não por todos  EUA recusaram-se a assinar a Convenção sobre minas terrestres de
Ottawa, de 1997  canadenses se recusaram a cumprir ordens americanas para lançar minas no
Afeganistão em 2001  Urânio empobrecido, bombas de fragmentação e explosivos fuel-air 
legalidade incerta.
Armas nucleares não são proibidas  mas como adequar uma arma nuclear às limitações do
DIH?  em 2002 o Pentágono assumiu nova postura militar demandando o desenvolvimento de novas
armas nucleares de alcance limitado para destruir bunkers profundos e instalações biológicas  em
2003 o Secretário de Defesa do RU declarou que o país se via no direito de usar armas nucleares contra
o Iraque, em caso de extrema legítima defesa (em jogo a sobrevivência de um Estado  mas como o
Iraque colocaria em jogo a sobrevivência do RU?).

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Existem normas sobre represálias armadas  ações que violem o DHI podem ser justificadas
legalmente quando empreendidas em reação a violações da lei pelo inimigo  MAS SÓ VALEM PARA O
JUS IN BELLO, NÃO PARA O JUS AD BELLUM  LEMBRAR QUE A CARTA NÃO PERMITE RETALIAÇÕES  o
objetivo das represálias armadas é impedir novas violações  a possibilidade de sofrer represálias é,
inclusive, um dos motivos dos países cumprirem o DIH. Mas as ações devem ser proporcionais à
violação inicial.
Nenhum tratado proíbe represálias armadas com armas proibidas em outros contextos 
portanto surge a possibilidade de utilização de armas nucleares frente a um ataque químico, por ex.,
ameaça que os EUA fizeram a Saddan Hussein em 1991, e Bush repetiu mais a frente.
A Estratégia Nacional de Combate a ADM, de 2002, previa a utilização de todos os recursos
frente ao emprego de ADM contra os EUA, suas forças ou aliados.
Mas o emprego de armas nucleares certamente provocaria sofrimento desnecessário aos civis,
violando o DHI.
O poderio militar americano prevaleceu na Guerra do Iraque  ainda que pressionados, certos
aliados acabaram apoiando  certos críticos foram calados pela vitória e poucas perdas de civis.
Cláusula Martens  a maioria dos tratados de DHI contempla  originalmente redigida pelo
representante russo nas Convenções de Haia de 1907  “até que venha a público uma codificação mais
completa das leis da guerra (...) as partes consideram de direito declarar que em casos não incluídos nas
regulamentações por elas adotadas as populações e os beligerantes permanecem sob a proteção e o
império dos princípios do DI, tal como decorrem das práticas estabelecidas entre os países civilizados,
das leis da humanidade e das exigências da consciência pública”.

11 – A proteção de combatentes e PG

Os soldados constituem-se alvos legítimos durante os conflitos  à luz do DHI, são os


“combatentes”  estão sujeitos a certas proteções, como quanto ao uso pelo inimigo de certos tipos de
armas  algumas medidas valem tanto para civis quanto para combatentes: armas químicas e
biológicas, armadilhas, minas antipessoais e as limitações impostas a armas nucleares (apesar de não
proibidas formalmente, o seriam implicitamente, por provocar sofrimento desnecessário e atingir civis) 
outras: munições expansivas ou explosivas e armas laser para causar cegueira.
Soldados que desejarem se render devem ser capturados, não mortos  tornam-se PG.
Soldados feridos são considerados fora de combate, devendo receber tratamento similar ao de
civis  Feridos e PG não podem ser utilizados como escudos humanos, desarmar minas, etc.
Pessoal médico também se beneficia de proteção estrita  instalações médicas, terrestres ou
marítimas, não podem ser alvos  a menos que sejam utilizadas como ponto de lançamento de ataques.
Num conflito, os civis só poder ser protegidos se forem devidamente distintos dos combatentes 
para tal, para ser considerado combatente e, portanto ter as prerrogativas de PG, o individuo deve:
 Estar numa cadeia de comando;
 Envergando distintivo fixo;
 Portando abertamente armas; e
 Agindo de acordo com o DHI.

Tais requisitos nem sempre são cumpridos, particularmente quando se encontram em combate
forças irregulares. Outras forças como o Talibã, por exemplo, não portavam uniformes ou distintivos,
mas portavam armas abertamente, tinham cadeia de comando e cumpriam as regras do DHI.
Caso mais grave de ameaça à distinção: forças especiais americanas  passaram a usar roupas
civis  outros países da coalizão que lutaram no Afeganistão não autorizaram essa prática  em caso de

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captura sem uniforme não terão direito às proteções previstas para PG  parte-se da premissa de que
não combatem lealmente, além de oferecerem riscos desnecessários aos civis.
A condução de PG para a Base de Guantánamo, em Cuba, em 2002, pode ser entendida como
desrespeito ao DHI  membros da Al Qaeda e do Talibã  apesar de inúmeras condenações
internacionais (CICV, Alto Comissário de DH da ONU, dirigentes europeus, etc), Rumsfeld afirmava que
para os EUA não eram PG, e sim terroristas, não estando sujeitos às Convenções de Genebra  não
foram julgados e nem, em alguns casos, tiveram acesso a advogados.
Tribunal britânico equiparou, em 2002, a situação a um “buraco negro” jurídico.
Suprema Corte americana passou a se mostrar contrária às detenções sem julgamento 
“qualquer pessoa detida pelo governo americano fora dos EUA tem direito a que os fundamentos legais de
sua detenção sejam examinados por um tribunal federal americano”  isso fez com que o Pentágono
aceitasse recorrer aos Tribunais de determinação de Status, de acordo com o Art. 5 da Terceira Convenção
 na verdade são cortes, com 3 Oficiais militares, e não possuem advogados, mas representantes,
também militares.
Conclui-se que o governo Bush apenas ganhava tempo enquanto seguia com interrogatórios em
desacordo com o direito nacional e internacional, a fim de obter informações relevantes.
Os tribunais de estabelecimento se status previstos na Terceira Convenção são diferentes do que se
efetivou em Gantánamo, na ação penal contra 3 detidos  tais comissões são autorizadas por Decreto
presidencial de 2001 e podem até levar à pena de morte  os detentos passaram a poder contratar
advogados  existe a presunção de inocência e ônus da prova, e o conceito de “culpado sem margem
de dúvida”.
Muitas violações aos DHI vêm ocorrendo no Iraque e no Afeganistão  em 2001, rebelião em
Mazar-i-Sharif foi reprimida com mísseis e bombas  dezenas de mortos  técnicas de interrogatórios 
variação de temperatura, ruídos, racionamento de alimentos e água, etc.
O Representante Especial do SG para o Iraque, Sergio Vieira de Mello, manifestara aos governos de
EUA e RU preocupação com a maneira que estavam sendo tratados PG. Anistia internacional denunciou
EUA por torturas no Iraque. Em março de 2004 veio à tona o escândalo de Abu Ghraib, com fotos
comprobatórias dos maus tratos (inclusive abusos sexuais)  flagrantes violações tanto do DHI quanto
dos DH  pela proximidade com a Guerra, possivelmente havia ali PG  violação concreta à Terceira
Convenção de Genebra  “os PG tem direito em quaisquer circunstâncias ao respeito por suas pessoas
e honra”  mesmo que os detidos não fossem PG, também estariam amparados pelo Artigo Comum 3
das Convenções de Genebra  “mesmo em conflitos armados sem caráter internacional (...) as pessoas
não envolvidas em hostilidades ficam protegidas contra a violência(...)”.
Em alguns casos houve violação contra a “Convenção contra a Tortura e outras formas cruéis,
desumanas ou degradantes de tratamento ou punição”, de 1984, tratado ratificado pelos EUA 
universalmente codificado como elemento do direito consuetudinário internacional.
O Art. 1 da Convenção define Tortura:
“Qualquer ato mediante o qual dores ou sofrimento intensos, físicos ou mentais, sejam
intencionalmente infligidos a uma pessoa com a finalidade de obter informações ou confissão,
puni-la, intimidá-la ou coagi-la, quando esta dor é infligida por funcionário público ou agindo em
caráter oficial (...)”.

Memorando confidencial, redigido em março de 2003 por advogados a pedido de Rumsfeld,


sustentava que o Presidente Bush não estava obrigado a seguir cláusulas da Terceira Convenção ou da
Convenção contra a Tortura  afirmava que nenhum dos prisioneiros era PG  e afirmava que o direito
consuetudinário internacional e as leis federais americanas são separados hermeticamente  mas tal
memorando encontrou críticas mesmo entre funcionários americanos que afirmavam que tal postura
comprometia a proteção das tropas americanas nos termos da Convenção de Genebra.

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OS ABUSOS COMETIDOS CONTRA DETIDOS NÃO SÃO DE RESPONSABILIDADE APENAS DE
MILITARES INDIVIDUALMENTE CONSIDERADOS  PRINCÍPIO DO DIREITO INTERNACIONAL
“RESPONSABILIDADE DE COMANDO”  até mesmo um Presidente pode ser comprometido se sabe de
abusos  “os prisioneiros estão nas mãos da potência inimiga”.
O acesso do CICV foi negado a certas partes de Abu Ghraib e a certos detidos, o que constitui
violação ao DHI  pelas Convenções e Protocolos Adicionais de 1977 o CICV deve visitar e registrar os PG
 que esse direito de acesso é essencial  tal garante que não desapareçam.
Embora tradicionalmente o CICV não denuncie governos, para manter sua neutralidade e futuro
acesso aos PG, desde 2001 ele vem manifestando preocupação com atos dos EUA  pessoas detidas em
locais conhecidos ou não  Base Naval Diego Garcia  o CICV não teve acesso a tais pessoas, o que
configura violação.
Outro memorando que veio a público assume outra violação: a retirada de pessoas do Iraque
para serem interrogados em outros países  fere o Art. 49 da Quarta Convenção de Genebra que
protege os civis durante uma ocupação proibindo transferências forçadas ou deportações.
O direito consuetudinário internacional e tratados de DH asseguram proteção até mesmo a
supostos terroristas contra execuções extrajudiciais, mas o Presidente Bush deu a entender
explicitamente que os EUA vêm realizando este tipo de prática.

11 – Cortes e tribunais de crimes de guerra

Saddan Hussein  negou reconhecimento ao Tribunal Especial iraquiano criado para julgá-lo  o
Tribunal teve seu estatuto baseado no Estatuto de Roma, do TPI  FBI foi designado para reunir provas
 advogados americanos assessoraram a promotoria  governo interino reintroduziu a pena de morte
 como manda a Terceira Convenção, PG devem ser entregues às autoridades ao fim das hostilidades 
os EUA entregaram, pois, Saddan e outros dirigentes para que fossem julgados.
Os problemas levantados nesse julgamento foram: parcialidade, pressa nos procedimentos e
ausência de legitimidade internacional. Os juízes e novos membros do governo foram vítimas do governo
de Saddan  conflito de interesses pessoais.
A acusação era farta: tortura, estupros, e até mesmo genocídio  50 mil curdos assassinados com
armas químicas em 1988  dessa forma o mundo islâmico acompanhava o julgamento, que deveria ser
justo para desestimular novos atos de tirania.
Pelo alcance dos crimes de Saddan: assassinatos no Irã e no Kuwait ocupado, o mesmo deveria
ser julgado por um Tribunal Internacional. Entendia-se que, à época, a justiça do Iraque não tinha
condições de agir de maneira imparcial.
Quanto mais alto o cargo do acusado e mais graves os crimes, mais adequado se torna um
tribunal internacional  o Tribunal de Nuremberg julgou os altos funcionários nazistas  os de menor
nível foram julgados em tribunais nacionais  o mesmo se verifica nos Tribunais Internacionais para a ex-
Iugoslávia e para Ruanda  o Estatuto do TPI adotado em 1998 prevê que a maioria dos casos será
tratado pela justiça nacional, mas prevê que ele mesmo determine se determinado país tem ou não
condições de realizar julgamentos  o CS tem, também, autoridade para ordenar que crimes
internacionais sejam tratados em nível internacional  um tribunal como os que foram criados para
aqueles dois países poderia ter sido criado para o Iraque, mas não houve concordância dos membros
permanentes do CS.
Em Serra Leoa surgiu uma estrutura híbrida: parte dos juízes nomeados pela ONU e parte
composta de juízes locais.
Dessa forma a presença de juízes internacionais no caso Saddan teria contribuído muito 
descaracterizaria a denominada “justiça do vitorioso”.

26
O tribunal era composto por iraquianos sedentos por vingança, sob patrocínio dos EUA.

Slobodan Milosevic  Em Haia, seu julgamento demonstrava que não eram tão sólidas as
acusações contra ele  a “responsabilidade de comando” é difícil de se comprovar.
Juízes de nacionalidades distintas, com altos salários e próximos da aposentadoria  garantias da
imparcialidade e firmeza.
Acusações: crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio contra muçulmanos bósnios
e kosovares. Milosevic alega que estava defendendo seu país contra uma intervenção internacional ilegal
por parte da OTAN  mas sua alegação de que a corte adotava a “justiça do vitorioso” não encontra
eco, já que o tribunal foi aprovado até mesmo por Rússia e China, e pela citada imparcialidade dos
juízes que lhe deram amplo direito de se defender.
Seus crimes possuem alcance internacional. A Bósnia-Herzegovina e a Croácia eram países
independentes à época do conflito. Mas o julgamento de Milosevic vinha se arrastando e a ele vinham
sendo dadas inúmeras oportunidades de se manifestar publicamente. Ele acabou se suicidando na cela em
Haia, em março de 2006.

Caso Ariel Sharon  havia fartas acusações contra o PM israelense, começando pelo massacre de
69 civis na aldeia jordaniana de Qibya em 1953, o massacre de 1000 palestinos em 1982 e os
“assassinatos seletivos” de dirigentes do Hamas.
O que não faltam são leis: Israel ratificou as 4 Convenções de Genebra em 1951  alegam que as
Convenções não se aplicam aos territórios ocupados porque não havia neles soberania anterior  mas
tal argumento não elimina a condição de direito consuetudinário internacional alcançada pelas
Convenções de Genebra; nem que parte das acusações versa sobre crimes cometidos em outros países
da região.
No caso Sharon, as questões dizem respeito à custódia, imunidade e jurisdição.
Custódia  muitos sistemas jurídicos exigem que o acusado esteja presente no julgamento 
Sharon toma cuidado de não ir a países onde possa ser detido  processo à revelia foi tentado contra ele
na Bélgica, mas não prosseguiu por pressões políticas  Sharon acabou afastado do governo em 2006
por doença terminal.
Imunidade  No caso da detenção de Pinochet no RU, a Câmara dos Lordes sustentou que não
haveria imunidade para ex-Chefes de Estado em certos crimes  a Corte Internacional de Justiça
entendia que haveria, sim, imunidade para atuais ministros e Chefes  no caso de Milosevic o Tribunal
anulou tal prerrogativa e seu estatuto declara que imunidades não se aplicam a seu caso.
Os EUA vetariam, de qualquer forma, qualquer tentativa de mobilizar o CS contra Israel, o qual,
por sua vez, não ratificou o Estatuto do TPI.
Jurisdição  De acordo com o princípio da jurisdição universal, qualquer país pode mover ação
por crimes de guerra e crimes contra a humanidade, cometidos por qualquer pessoa em qualquer lugar .
Adolf Eichmann, o arquiteto da “solução final” de Hitler, foi sequestrado na Argentina, julgado e
executado em Israel em 1962 por crimes cometidos na SGM. A jurisdição pode também derivar do fato
de o crime ter sido cometido no território de um país ou de ter o acusado a nacionalidade do país que
moveu a ação. Ainda, se as vítimas tiverem a nacionalidade do país que moveu a ação.

As questões de jurisdição, imunidade e custódia não constituem impedimento para o julgamento


de Saddan por um tribunal nacional.
Quando da criação de tribunais ou cortes internacionais, são estabelecidos limites jurisdicionais
mais estritos. O da ex-Iugoslávia tem jurisdição sobre crimes de guerra em toda as Repúblicas que
constituíam a Iugoslávia, e para crimes a partir de 1991.

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O TPI tem jurisdição sobre crimes cometidos a partir de 1º de julho de 2002  MAS SOMENTE SE
TIVEREM SIDO COMETIDOS NO TERRITÓRIO OU POR CIDADÃOS DOS PAÍSES QUE RATIFICARAM O
TRATADO DE SUA CRIAÇÃO.
A Corte Internacional de Justiça, também sediada em Haia como o TPI, só pode julgar disputas
entre Estados-nação que acatam a sua jurisdição, não podendo julgar indivíduos. Se a AG da ONU
solicitar, a Corte pode emanar pareceres sem caráter impositivo, sobre países que não consentiram com
sua criação.
Em julho de 2004 a Corte manifestou que a “cerca de segurança” que estava sendo construída ao
redor da Cisjordânia era incompatível com as Convenções de Genebra e com o direito consuetudinário
internacional  embora constitua golpe para Israel em matéria de relações públicas, o parecer se
distancia em muito de uma condenação penal a Sharon. Este só poderá ser julgado se deixar o cargo e for
preso em outro país.
A maioria dos criminosos de guerra jamais se sentará no banco dos réus  os poucos são os
que perderam apoio local  dá margem à tese de que o direito penal internacional não passa de “justiça
do vitorioso”  é nesse contexto que o TPI configura algo novo e de grande valor: corte permanente,
imune a interferências políticas, que pode tomar a frente quando os países não são capazes de
processar os acusados ou não tem vontade de fazê-lo  o CS da ONU pode atribuir jurisdição, ao invés
de criar tribunais novos para cada situação.
Cerca de metade dos países do mundo ratificou o Estatuto do TPI: todos os membros da UE,
Canadá, Austrália, ¼ dos países africanos. EUA vem tentando desvalorizar a corte. Tropas em 140 países,
tendência a intervenções em circunstâncias jurídicas ambíguas e interpretações particularizadas do direito
da guerra, o país se sente vulnerável a mecanismos internacionais para fazer valer o direito penal
internacional.
Enquanto Clinton contribuía, Bush adotou posição completamente hostil ao tribunal. Bush
eximiu-se de assinar o Estatuto do TPI. Pressionou para isentar tropas americanas da jurisdição desse
tribunal e firmou mais de 90 tratados bilaterais nos quais os países se comprometem a não enviar
americanos para Haia. Bush assinou uma lei que permite o uso de força para libertar qualquer
funcionário americano detido pelo TPI  “Lei de invasão de Haia”.
Várias personalidades do direito alegam que os EUA não teriam motivos para temer o TPI, visto
que possuem sistema jurídico forte para julgar seus próprios funcionários. Mas a verdade é que os
temores americanos são de possíveis julgamentos de altos funcionários, os da cadeia de comando. Se
Saddan tivesse ratificado o Estatuto do TPI, certamente o Tribunal teria instaurado procedimento
atinentes a Abu Ghraib.
Com apoio britânico os EUA tentaram proteger-se deste risco  Res. 1422 do CS, de 2002,
concedia imunidade face à jurisdição do TPI a indivíduos de qualquer país não participante da corte
envolvidos em ações autorizadas pela ONU  inicialmente voltada para tropas americanas em missões
da ONU, também resguardava militares no Iraque, já que a guerra foi supostamente autorizada pela ONU.
Tal resolução chegou a ser renovada, mas foi retirada após a onda de protestos pós Abu Ghraib 
em virtude dos 90 acordos bilaterais o fato teria pouco resultado prático, mas em termos políticos foi um
recado claro da perda de paciência dos principais países ao descaso americano para com o DI.

Epílogo

A lei da guerra e a única superpotência

Em 1940 soldados alemães raspavam as barbas de judeus ortodoxos  em 2002 os americanos


fizeram o mesmo com fundamentalistas islâmicos no Afeganistão  o ato, que os americanos
justificavam por questões de higiene, na verdade feria a Terceira Convenção, pois afetava um ponto de

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enorme valor religioso  afetava ainda tratados internacionais de DH e o direito consuetudinário
internacional.
Mais ainda, após 11 de setembro, houve descuidos com bombardeios que mataram muitos civis,
ataque à sede da Al-Jazeera em Cabul, recusa em admitir que certos detidos eram PG, dentre diversos
outros aspectos que mostravam descaso em relação à opinião pública internacional  eram, na verdade,
descaso com o DHI.
Bush, ao afirmar que “quem não está conosco está contra nós” passava por cima do direito
irrefutável dos Estados Soberanos de não se envolverem em conflitos.
A identificação de um “eixo do mal” (Coréia do Norte, Iraque e Irã) e a teoria da legítima defesa
preventiva prejudicavam uma das maiores conquistas do século XX: a proibição do emprego da força ou
de sua ameaça nas RI.
Os EUA detém a maior quantidade de poder desde o Império Romano  podem derrotar qualquer
inimigo com perdas mínimas  com os pesados gastos, desenvolvem tecnologias a cada instante  as
decisões de Washington e de Wall Street repercutem em todo o mundo  suas grandes corporações e
fundos de pensão impulsionam a economia mundial  sem falar na sua influência em todos os
continentes e em instituições tais como o Banco Mundial, FMI, OIC, etc.
Um país tão poderoso sempre tem muitas alternativas, mesmo quando atingido por um duro golpe
como o 11 de Setembro. Bush e seus colaboradores logo souberam identificar oportunidades oferecidas
pela crise.
Uma coalizão foi montada para congelar haveres de terroristas ao redor do mundo, e coleta de
informações secretas no exterior. Mas os aliados se equivocavam se achavam que o WTC havia
convencido Bush da importância do multilateralismo  pelo contrário, a existência de Guantánamo,
ameaças aos “Estados Párias” e a invasão do Iraque em 2003 são exemplos de uma política unilateral.
Bush rejeitou o Tratado de Mísseis Antibalísticos, o Protocolo de Kioto sobre aquecimento global, o
Estatuto de Roma do TPI, uma Conferência sobre venda de armas e um protocolo para a Convenção sobre
Armas Biológicas.
Após o WTC recusaram ofertas de resoluções da ONU autorizando a Guerra do Afeganistão,
preferindo a reivindicação ampliada de legítima defesa contra Estados que patrocinam o terrorismo.
Forjaram alianças com Estados nada liberais como Paquistão, Quirguistão, Tadjiquistão, e outros  pondo
a perder anos de tentativas de avanços nos DH nesses países.
Promoveram a nova concepção do direito à legítima defesa preventiva, que abriu caminho à
invasão do Iraque. Mostravam-se fora de sintonia com a maior parte do mundo ocidental, que buscava
crescente interdependência e cooperação.
A equipe de Bush era uma reencarnação do 2º mandato de Reagan, também unilateralista.
Também tentava estabelecer distinções entre o bem e o mal, acarretou nova corrida armamentista
(Guerra nas Estrelas), e invocava a ameaça terrorista. Em 1986, após um atentado numa boate em
Berlin, o Secretário de Estado de Reagan já afirmava que seria absurdo não poderem atacar terroristas
onde estivessem e países que os apoiavam.
Mas existem duas importantes diferenças entre 1986 e 2001:
 O fim da Guerra fria transformou os EUA na única superpotência, tornando mais
provável o emprego unilateral da força com aquiescência de outros países; e
 O 11 de setembro fez com que a população americana, tradicionalmente isolacionista,
desejasse que seu presidente agisse de forma decisiva no cenário internacional.
Sustentavam a Guerra ao Terror.

Três correntes são fundamentais para a maneira como os americanos pensam a seu próprio
respeito, e para nortear sua política externa:
 1ª  uma concepção reacionária de soberania popular . A Constituição é considerada a
suprema vontade do povo, dessa forma o DI, que resulta do emprenho legislativo de diversos

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países, provoca suspeita automática, particularmente na direita republicana. Tal suspeita é
agravada pela possibilidade do DI vir a proporcionar ao governo federal dos EUA poderes para
passar por cima dos Estados da União. Esta questão explica porque os EUA insistiram na
criação da política de vetos da ONU, em 1945  qualquer coisa aquém disso teria violado a
Constituição americana;
 2ª  também influencia a política externa americana a “tese da fronteira”, enunciada por
Frederick Jackson Turner  o caráter individualista e empreendedor da sociedade americana
deriva da histórica capacidade de seu povo de fugir ao controle governamental transferindo-se
para a fronteira. A política externa americana é uma constante busca de ampliação de
fronteiras  no seu primeiro século compraram ou conquistaram áreas; e a Doutrina Monroe de
1823 passa a sinalizar novas ambições (deixava claro que os EUA não tolerariam intervenções no
hemisfério ocidental por parte de potências europeias  Santa Aliança  Prússia, Áustria e
Rússia, 1815).
No fim do século XIX os EUA já haviam voltado sua atenção para o exterior. A ocupação de
Cuba em 1898 contribuiu para o início da Guerra Hispano-Americana (que acabou dando aos EUA
o controle das Filipinas, Havaí e Zona do Canal do Panamá). A aliança com o RU na PGM que
perdurou, permitiu aos EUA participar da dominação da política internacional que até então era
exercida por aquele país.
Ao fim da SGM os EUA já eram a superpotência, surgindo a URSS como concorrente.
Quarenta anos de rivalidade nuclear e guerras por procuração alimentavam uma visão
imperialista bem como a extensão da influência americana a todo o mundo.
O colapso da URSS assinalou o fim de uma época, mas não da influência americana. Os
“novos homens da fronteira” eram agora os presidentes das grandes corporações americanas. A
principal atenção da política externa passou a ser tornar o mundo mais acolhedor aos negócios
americanos. Frente a isso, a criação da OMC (pressupostos do livre mercado e do Consenso de
Washington  conjunto de políticas neoliberais impostas pelo BM e FMI aos países em
desenvolvimento depois da Guerrra Fria) foi, para os EUA, uma notável conquista.
Por fim a “tese da fronteira” repercute na vida cotidiana. O americano médio é trabalhador,
armado e com valores tais que aceitou a liderança de Bush, contribuindo para sua reeleição em
2004.
 3ª  crença dos americanos na tecnologia. Esta crença é reafirmada hoje pela eficácia dos
mísseis e bombas de precisão  muitos americanos se mostram dispostos a aceitar aumentos de
gastos com armas de alta tecnologia.

Os países mais poderosos sempre foram capazes de moldar o sistema internacional de acordo
com seus interesses. Exemplos: Espanha, no século XVI, reelaborou conceitos de justiça para justificar a
opressão dos indígenas nas Américas; França, no século XVIII, desenvolveu conceitos modernos de
fronteira e “equilíbrio entre as potências” de acordo com seus interesses na Europa; e GB, no século XIX,
introduziu novas questões quanto à pirataria, colonialismo e neutralidade.
Os EUA não têm agido de outra forma. Os assessores de Bush, após o WTC, souberam tirar o
máximo de proveito da situação, pressionando pela consecução de metas que não poderiam ter sido
alcançadas em condições normais  EXEMPLOS: MAIOR FLEXIBILIDADE PARA EMPREGO DA FORÇA À
MARGEM DA CARTA DA ONU  extensão do DIREITO DA LEGÍTIMA DEFESA para atacar Estados que
patrocinem o terrorismo, e a ampliação para a AÇÃO PREVENTIVA; E TRATAMENTO DE DETIDOS.
Se os EUA tiverem êxito nas iniciativas de mudanças de normas atinentes aos temas acima, o
que ainda não correu, estará contribuindo para marginalizar a ONU e sua busca de paz e segurança. Ao
marginalizarem a ONU, dificultam a possibilidade dos governos recorrerem a ela para resolver seus
conflitos. Ao solapar o DHI prejudicam sua própria autoridade moral e de convencer aliados.

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As ações dos EUA também tornaram mais difícil criticar as violações do DI cometidas por outros
países, tais como Israel. A morte por drones americanos não difere dos “assassinatos seletivos”
israelenses.
Ainda que os EUA tenham abdicado de sua liderança na busca por um sistema planetário de justiça
e DH, seus parceiros deveriam dar prosseguimento à luta  antes de apoiar francamente os EUA, seus
aliados deveriam ver se não seria mais interessante para si próprios a manutenção de um sistema
jurídico forte, igualitário e eficaz.
Costuma-se apontar um “déficit democrático” em instituições supranacionais como a ONU, a OMC
e a UE, com tomadas de decisões sem prestação de contas à maioria das pessoas e povos afetados. Da
mesma maneira, decisões tomadas em Washington hoje eclipsam decisões tomadas nas Nações Unidas. É
como se cidadãos do mundo inteiro estivessem sujeitos às decisões de uma potência estrangeira, mas sem
direito à representação. Similar, ironicamente, à “taxação sem representação”, que no passado,
desencadeou a Revolução Americana de 1776.
Apesar de imperfeitas, as normas e instituições repudiadas pelos neoconservadores são mais
compatíveis com os princípios fundadores dos EUA que os princípios imperialistas que hoje subscrevem. A
Declaração de Independência dos EUA estabelece que o país deve ter o respeito pelas opiniões de outros
países.
Muitos cidadãos americanos almejam ver o país retomar a atitude construtiva, cooperativa e de
respeito às normas que levou à criação da ONU em São Francisco. O imenso poderio americano implica
em terrível responsabilidade: melhorar o mundo – para todos. Obedecer às exigências do direito da guerra
é um primeiro passo.

FIM

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