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STJ VOLTA A ANALISAR A TAXA DE JUROS legais “serão fixados segundo a taxa que estiver em vigor para

a mora do pagamento de impostos devidos à Fazenda


APLICÁVEL AOS PROCESSOS JUDICIAIS Nacional”. Ou seja, possivelmente em razão das crises
Nos próximos meses o STJ voltará a julgar tema com grandes econômicas vivenciadas nas décadas anteriores à
consequências financeiras para os jurisdicionados. Estarão na promulgação do CC/02, o legislador preferiu não fixar a taxa de
pauta da Corte o REsp 1.795.982/SP e o EREsp 1.731.193/SP que juros legais, remetendo à taxa aplicável para a mora do
definirão os critérios para a aplicação de juros legais e correção pagamento de impostos devidos à Fazenda Nacional.
monetária aos processos judiciais.
À época da entrada em vigência do CC/02, criou-se debate
Embora o art. 406 do CC/02 já tenha quase 20 anos de vigência, acerca do tema. Uma primeira orientação prevaleceu no
a questão envolvendo a sua interpretação nunca foi pacificada. sentido de que a taxa aplicável seria de 1% ao mês, entre outros
No âmbito no STJ, desde 2006 há julgados estabelecendo a fundamentos, porque o art. 406 do CC/02 remeteria ao art. 161,
aplicação da Taxa Selic. Não obstante a posição do STJ, os § 1º, do CTN, que estabelece referida taxa de 1%. A outra
juízes de primeiro e de segundo grau reiteradamente corrente entendeu que o art. 406 do CC/02 deveria seguir as
contrariam esse entendimento e determinam a aplicação de regras tributárias estabelecidas pelos arts. 13 da Lei 9.065/95,
juros de 1% ao mês e correção monetária para os débitos. art. 84 da Lei 8.981/95, 39, § 4º, da Lei 9.250/95, 61, § 3º, da Lei
9.430/96 e 30 da Lei 10.522/02, aplicando-se, portanto, a Taxa
Com o julgamento do REsp 1.795.982/SP e o do EREsp Selic.
1.731.193/SP pretende-se acabar com a celeuma trazendo
uniformidade de entendimento. Em razão disso, diversas Naquela época não havia grande diferença entre o acumulado
federações e confederações já requisitaram sua admissão nos entre a Taxa Selic e a cumulação de juros de 1% ao mês e
autos como amici curiae de forma a trazer contribuições para o correção monetária. A diferença não tinha grande repercussão
debate prática. Isso fica claro ao se analisar a Figura 01 (abaixo). Nela
atualiza-se uma mesma hipotética dívida de R$ 1.000,00 de
ENTENDA A DISCUSSÃO E OS IMPACTOS março de 2003 até dezembro de 2009. Ao se aplicar a Taxa
Selic no período chega-se ao valor de R$ 3.148,29, ao passo
O CC/16, em seu art. 1.062, estabelecia expressamente que os que, em se utilizando juros de 1% mais correção monetária,
juros legais, quando não convencionados, eram de 6% ao ano. tem-se montante de R$ 3.240,85, uma diferença de apenas R$
No CC/02 o legislador alterou a técnica legislativa. Ao invés de 92,56 para o período de 94 meses.
estabelecer percentual fixo, como adotado pelo legislador no
CC/16, previu no art. 406 que, se não convencionados, os juros
ção de juros de 1% ao mês e correção monetária, de outro lado
(Figura 02). Para o período de janeiro de 2010 a maio de 2021, a
mesma dívida hipotética de R$ 1.000,00, se atualizada pela
Selic, alcança o valor de R$ 2.650,65, e, se aplicado 1% de juros
e correção monetária pelos mesmos índices consagradamente
utilizados pelo TJSP, chega-se à quantia de R$ 4.511,08, uma
diferença de 70%. A diferença que foi de apenas R$ 92,56 em
94 meses, passa a ser de R$ 1.860,43 para 134 meses.

Mesmo que sem grandes consequências práticas, a discussão,


ainda em 2006, já havia chegado ao STJ. No leading case do
REsp 710.385/RJ, o STJ reconheceu a aplicação da Taxa Selic,
sem possibilidade de cumulação com outro índice de correção,
como referencial para o art. 406 do CC/02.
Em 2009, o STJ consolidou entendimento, em sede repetitiva –
Temas 99 e 112, no sentido de que a Taxa Selic deve ser
aplicada para a correção dos saldos do FGTS. Não obstante
outros precedentes do STJ pela aplicação da Taxa Selic, v.g.
REsp 825915/MS, RESp 932329/RJ, REsp 674366/SP, os Mais recentemente, em acordão de junho de 2021, no
tribunais estaduais e TRFs seguiram aplicando a taxa 1% ao julgamento do AgInt no REsp 1933103/RJ, a Terceira Turma, a
mês cumulada com correção monetária. unanimidade, afirmou que “a jurisprudência do STJ está
pacificada no sentido de que fixação da taxa dos juros
A situação altera-se em 2010. A partir desse ano há um moratórios, a partir da entrada em vigor do artigo 406 do
distanciamento crescente entre Selic, de um lado, e a cumula- Código Civil de 2002, deve dar-se com base na taxa Selic”.
Trata-se de diferença substancial, com consequências
econômicas importantes a todos os jurisdicionados que litigam
em juízo. Por essa razão, a quantidade de recursos sobre o
tema que chegam ao STJ não para de crescer.
A tendência hoje na Corte é de consolidação do entendimento
pela aplicação da Taxa Selic, ainda que para algumas hipóteses
possa haver dificuldades práticas para a sua aplicação.

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