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11/01/2022 09:17 Polêmica com Membro do Secretariado Unificado – REAGRUPAMENTO REVOLUCIONÁRIO ☭

REAGRUPAMENTO
REVOLUCIONÁRIO ☭

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FRANÇAIS CONTATO

POLÊMICA COM MEMBRO DO


SECRETARIADO UNIFICADO
Reagrupamento Revolucionário

Polêmica com Membro do Secretariado Unificado


Programa Revolucionário vs.
“Processo Histórico”

Esta polêmica escrita pela Tendência Bolchevique foi

originalmente impressa em 1917 número 5, no fim de 1988. Nós

também incluímos como apêndice os comentários de Samuel


Trachtenberg na conferência de 26 de julho de 2008 em Nova

Iorque sobre “O Legado de Leon Trotsky e o Trotskismo dos

Estados Unidos”. Sua tradução para o português foi realizada


pelo Reagrupamento Revolucionário em janeiro de 2012.

 Introdução

Nós estamos reproduzindo abaixo uma disputa


polêmica com Roy R., apoiador da Tendência
Quarta Internacional norte-americana (FIT) de
Nova Iorque. A carta de Roy foi motivada pela
“carta aberta” de Neil Henderson anunciando a

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sua saída doSocialist Challenge [Desafio Socialista],


o grupo irmão da FIT no Canadá anglófono. O
Socialist Challenge, como a FIT, considera Ernest
Mandel, líder do “Secretariado Unificado da
Quarta Internacional” (SU) centrado na Europa
como seu mentor ideológico. A “carta aberta” de
Henderson, que nós não incluímos aqui por razões
de espaço, não é essencial para uma compreensão
da discussão a seguir (ela foi reimpressa, junto
com outros materiais documentando a sua luta
por uma política trotskista dentro do SC, no
Boletim Trotskista número 4).

Roy R. nem sempre foi um apoiador de


Mandel. Quando era estudante na Queens College
de Nova Iorque no fim dos anos 1970, ele era um
conhecido simpatizante da Liga Espartaquista (SL).
Em 1982, ele foi brevemente um membro
aspirante da SL. Roy ficou politicamente inativo
pelos quatro anos seguintes. Ele voltou à política
de esquerda como um simpatizante da Tendência
Bolchevique (TB) em Nova Iorque no início de
1987.

Logo ficou aparente, entretanto, que Roy


tinha mais em comum politicamente com Mandel
e o SU do que com a Tendência Bolchevique. Ele
rapidamente girou para a órbita da FIT, um dos
três grupos norte-americanos associados com o
SU. Roy atualmente escreve para o Boletim em
Defesa do Marxismo, a revista mensal da FIT.

Carta para a Tendência Bolchevique


“Vocês experimentaram por si próprios a


oposição entre o movimento de uma seita e
o movimento de uma classe. A seita vê a
justificativa para a sua existência e o seu
‘ponto de distinção’, não no que ela tem em
comum com o movimento da classe, mas no

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seu código de honra particularque a distingue


dele.”
Carta de Karl Marx para J. B. Schweitzer,
13 de outubro de 1868, Correspondência
Selecionada de Karl Marx e Friedrich
Engels(ênfase no original).

Considerando o movimento realizado por


Neil Henderson, ele ainda não sentiu por si próprio
aquele de uma seita. No entanto, isso vai sem
dúvida mudar agora que lançou sua sorte junto
com a da Tendência Bolchevique (TB). Já que as
políticas da TB são baseadas naquelas da Liga
Espartaquista (SL), políticas diretamente
enraizadas na própria natureza do grupo como
uma seita, que sob toda e qualquer condição deve
buscar justificar a sua existência separada como
tal. Dirigida por tal motivo, a sua perspectiva se
torna inevitavelmente separada de qualquer
análise objetiva ou conexão com a realidade e
inteiramente subordinada à sua própria auto-
justificação. A degradação da teoria para legitimar
a existência da s eita; este é o verdadeiro
significado do conceito da SL de “defender e
aprofundar o programa do fator subjetivo”. Se o
credo dos reformistas é “o movimento é tudo, o
objetivo não é nada”, então aquele do sectário
deveria ser (e de fato é) “o movimento e o
objetivo não são nada, o ‘programa’ ou a
‘organização’ (ou seja, a seita) é tudo”. Em ambos
os casos, construir um partido revolucionário de
massa e atingir um objetivo socialista são
colocados fora da agenda já que eles anulam, até
onde vão as suas pretensões proletárias, tanto a
ultra-direita e a ultra-esquerda, confortavelmente
abrigadas nos seus pequenos nichos dentro da
sociedade capitalista. De fato, o reformismo e o
sectarismo são dois lados da mesma moeda já que
o interesse de ambos está ligado com a
preservação da ordem burguesa.

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Tendo perdido todo contato com a realidade,


o sectário deve ou negar a realidade toda de uma
vez ou “mudar” a realidade para que caiba no seu
“programa” (o código de honra favorito do
espartaquismo). Fazer o contrário é entrar em
“liquidacionismo programático”; em outras
palavras, questionar a compreensão da seita sobre
o mundo e a sua relação com ele. Pior que tudo é
levantar a questão se a luta de classes pode
avançar (e a classe trabalhadora triunfar) sem a
intervenção divina da seita no processo.

Assim, toda o conjunto das “organizações do


CI (Comitê Internacional)” que foram pegas
despreparadas pelas mudanças no mundo pós-
Segunda Guerra Mundial e não puderam cooperar
com as vitórias da revolução proletáriana
Iugoslávia, China, Vietnã e Cuba, buscaram ou
ignorar a realidade (Gerry Healy) ou distorcê-la
(James Robertson) em razão do seu medo dela
torna-los historicamente irrelevantes. A
“ortodoxia” estéril que Neil Henderson e seus
amigos recém-encontrados na TB manifestam são
meios de permanecer parados de forma não-
dialética em face de uma realidade mundial em
constante mudança. Isso pode cair bem para os
seguidores “ortodoxos” de uma fé mosaica, mas
certamente não é o caso para os marxistas
revolucionários que buscam entender a sociedade
para mudá-la. Esse “programa” merece ser
enterrado já que ele não provê nenhuma resposta
para crise alguma, muito menos aquela de
liderança do proletariado.

Levada à sua “conclusão lógica”, essa linha de


pensamento leva ao culto ao líder, um fenômeno
bem personificado por ambos Gerry Healy e
James Robertson. Além do mais, se dentro do
movimento de massas de muitos milhões, apenas

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um punhado de altos sacerdotes “ortodoxos” são


capazes de interpretar as sagradas escrituras,
deve-se concluir que dentro deste sacerdócio
apenas o deus-rei infalível (ou secretário nacional)
tem uma linha direta com os próprios deuses. Tal
perspectiva leva a seita, assim como apontou
Marx, a contraporo seu movimento ao movimento
de massas, e no caso da SL, a se oporao
movimento se ele falha em estar de acordo com os
padrões rígidos da pureza programática
estabelecidos por James Robertson. Neil
Henderson e a TB podem responder que eles não
juram mais lealdade a Robertson (depois de ter
feito isso por anos), mas todo os seus pontos de
honra sectários, ou “testes ácidos” no jargão da
TB, são exatamente os mesmos que aqueles do
espartaquismo. Um espartaquista com outro
nome ainda é um espartaquista!

Tendo contraposto o seu próprio movimento


àquele das massas, o sectário tem pouca
dificuldade em dispensar as massas e seus
movimentos, com desprezo e condescendência,
como nada além de fantoches de líderes em
particular. Essa visão da classe trabalhadora pode
de fato refletir a vida interna da SL e a relação
entre Robertson e seu minguado bando da
apoiadores, mas ela tem pouca semelhança com a
estratégia e as táticas que revolucionários de
Marx a Lenin a Trotsky empregaram para ganhar
hegemonia comunista entre as colunas da classe
trabalhadora. Quantas vezes Lenin escreveu sobre
a necessidade de “pacientemente explicar as
coisas para os trabalhadores”. Certamente não é o
suficiente para os espartaquistas, como qualquer
um que teve a desafortunada experiência de
encontrar um deles bem sabe.

É só através das experiências comuns em


lutas comuns que as massas de trabalhadores

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serão ganhas para o marxismo revolucionário e


romperão com a influência dos reformistas; é
necessário para o primeiro demonstrar a
superioridade do seu programa na prática, não no
papel. Os sectários tem denunciado por anos o
reformismo e ainda não exorcizaram esse
demônio das colunas do proletariado. Nem eles
nunca irão e as chances são de que eles não
tenham o menor desejo de fazer isso, já que a
existência dos primeiros provê uma desculpa para
a existência do outro. Para o sectário, é claro,
qualquer ação comum com qualquer um a não ser
aqueles que estão em completo acordo com seus
determinados pontos de honra
constitui…”liquidacionismo programático”.
Trotsky, entretanto, tinha isto a dizer sobre
aqueles que preferem não agir de forma alguma
ao invés de arriscar expor a suas pretensões vazias
e colocar em questão o seu papel auto-
proclamado de “vanguarda dos trabalhadores”:

“É possível ver nessa política [a frente única]


uma reaproximação com os reformistas
apenas do ponto de vista de um jornalista
que acredita que ele se livra do reformismo
criticando-o ritualmente sem nunca deixar o
seu escritório editorial, mas que tem medo
de se enfrentar com os reformistas diante
dos olhos das massas trabalhadoras e dar às
últimas uma oportunidade para apreciar o
comunista e o reformista num plano de
igualdade da luta de massas. Atrás desse
medo aparentemente revolucionário de
‘reaproximação’ está na verdade uma
passividade política que busca perpetuar
uma ordem de coisas onde os comunistas e
os reformistas retém cada um a sua esfera de
influência rigidamente demarcada, suas
próprias audiências nas reuniões, sua própria

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imprensa, e tudo isso junto cria uma ilusão de


luta política séria.”
Leon Trotsky, “Sobre a Frente Única”,
1922.

Tais são as “consequências organizativas” a


que o fetichismo programático dos sectários leva.
E tal programa, baseado no isolamento e na
irrelevância, não vale o papel no qual é impresso,
mesmo se esse papel for o WV[Workers Vanguard,
jornal da Liga Espartaquista]!

Levantado o véu, nós podemos ver que a


obsessão da seita com o seu código de honra
particular é o que está por trás da sua análise dos
eventos importantes na luta de classes
internacionalmente. Ao invés de se preocuparem
analisar objetivamente eventos dados em cada
país e usar essa análise como um guia para ação
para ser capaz de melhor intervir neles, a seita
busca acima de tudo colocar a si própria e
frequentemente contra o movimento das massas.
Para poder justificar isso é necessário recorrer à
calúnia e acusações de “traição”. Assim,
Henderson, talvez para mostrar aos seus amigos
na TB o quão bem ele progrediu na escola
espartaquista de sectarismo, audaciosamente
declara que “o SU (Secretariado Unificado da
Quarta Internacional) repetidamente demonstrou
a sua tendência a estar do lado errado da luta de
classes internacional”. Bastante forte! Alguém
poderia pensar que “estar do lado errado”
significa apoiar a classe capitalista contra a classe
trabalhadora, aquilo que é o trabalho dos
reformistas. No entanto, Henderson e companhia
teriam muita dificuldade em apontar uma situação
em que a QI [SU] de fato “esteve” do lado da
burguesia. Ou seja, a não ser pelo termo “luta de
classes internacional”, Henderson tem na verdade
em mente a “guerra de classes global” de Sam

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Marcy [1], com cujas políticas stalinofílicas a SL-TB


vieram a se parecer. Marcy rompeu com o
trotskismo para emblocar com a burocracia
stalinista na revolução húngara de 1956 e desde
então teve uma linha praticamente indistinguível
daquela do PC. Para a SL-TB, a questão chave no
mundo hoje é a “questão russa” e o seu “teste
ácido para trotskistas” é o apoio ao general
Jaruzelski. Mais do que serem traidores nas
colunas da classe trabalhadora, a QI [SU] ousou ir
contra o código de honra sectário do
espartaquismo segundo o qual a “defesa da URSS”
começa em todo lugar desde Belize a Benin, de
Burma a Burbank [2]. Hoje, enquanto Gorbachev e
Reagan barganham sobre como melhor impedir a
revolução ao redor do mundo, os sectários terão
ainda maior dificuldade em fazer com que
trabalhadores de consciência revolucionária
aceitem o seu “teste ácido”, tanto quanto os
patrões terão dificuldade em manter sobre eles a
exigência de testes de urina.

O catálogo de Henderson dos crimes


alegadamente cometidos pela QI [SU] ao redor do
mundo por si próprio merece pouco mais do que
chacota. Fazer o contrário é dignificar o que não é
nada além do que a caracterização espartaquista
das posições realmente tomadas pela QI [SU] nos
países em questão. Para os espartaquistas,
obscurecer a posição dos oponentes é muito mais
fácil do que confrontá-la (como a própria TB
acabou descobrindo). Entretanto, eles tipificam a
metodologia dos sectários quando confrontados
pela presença de uma situação revolucionária e a
bancarrota completa da sua “ortodoxia”
programática como um tipo de guia para a ação
para a classe trabalhadora.

Assim, no Irã eles nos dizem que a QI [SU]


“seguiu Khomeini criminosamente” e foi “incapaz

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ou não quis entender que a burguesia, muito


menos os reacionários feudais, não tinham
nenhum papel progressivo a cumprir”. No entanto,
se nós examinarmos “Perspectivas e Problemas da
Revolução Iraniana”, parte de “A Situação Política
Mundial e as Tarefas da QI”, resolução adotada no
Congresso Mundial de 1979, nós lemos que “não
pode haver ‘etapa’ de desenvolvimento capitalista
no Irã independente do imperialismo [e que] nem
pode a burguesia iraniana levar adiante as tarefas
democráticas…”. No parágrafo seguinte nos diz
que “a hierarquia xiita liderada por Khomeini… é a
carta chave que a classe dominante do Irã está
jogando em sua tentativa de restaurar um aparato
de Estado estável e uma nova liderança política
burguesa para poder esmagar o processo
revolucionário e relançar um processo de
desenvolvimento capitalista ‘racionalizado’.” Soa
mesmo como se realmente “seguíssemos
criminosamente”.

Henderson se entrega quando ele cita Ernest


Mandel para o efeito de que “era correto apoiar o
levante contra o Xá apesar de ele ser liderado pelo
clero” (minha ênfase). O que ele não cita é a frase
seguinte onde Mandel declara que “em todos os
conflitos entre o novo regime e… as massas… nós
estamos 100% do lado das massas contra o
regime.” Ou o fim da seção sobre o Irã em
Marxismo Revolucionário Hoje, onde Mandel
declara que “identificar a revolução com o
obscurantismo religioso é um ato de traição
ideológica… que denigre a causa dos iranianos e
do socialismo mundial.” Além do mais, o que os
marxistas revolucionários supostamente deveriam
fazer? Chamar por um “bloco militar” com o Xá
contra os “reacionários feudais”? Como o sectário
só pode ver os líderes e não as massas de
trabalhadores e camponeses que de fato estavam
fazendo a revolução, ele pode sem preocupação

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descartar todo o caso com um gesto de mão, o


que obviamente não oferece nenhum caminho
possível ou prático para ganhar as massas para a
política comunista e de fato romper com líderes
reacionários da laia de Khomeini.

O mesmo é válido para a Polônia, o código de


honra sectário por excelência para a SL-TB. Os
trotskistas não vão ganhar muitos trabalhadores
poloneses para a sua política formando um “bloco
militar” com a burocracia stalinista. Por sorte, não
havia espartaquistas na Polônia para causar
descrédito ao trotskismo lá da mesma maneira
como eles fizeram em todo lugar e em toda
ocasião em que eles fizeram sentir sua presença.
Henderson aparentemente atribui “a força
crescente do sinistro anti-semita KPN ou ao plano
para desmontar a economia planificada” ao
proletariado polonês quando foram, e continuam
sendo, os seus parceiros de bloco na burocracia
stalinista que promoveram e fortaleceram tais
tendências. Não é acidente que Jaruzelski está
entre os maiores reforços das reformas
econômicas anti-proletárias de Gorbachev hoje.

Não há dúvida de que os sectários irão


responder em uníssono que o poder da burocracia
e os seus privilégios são baseados sobre “formas
de propriedade proletárias”, o que significa que
eles tem interesse material em preservar a
ditadura do proletariado, ou então eles são
condenados como “estúpidos” demais para
perceber onde os seus verdadeiros interesses
estão baseados, ao contrário de Robertson e seus
amigos e parentes na burocracia, com os quais ele
se relaciona tão bem. Assim, a SL tomou a lógica
elitista inerente ao seu sectarismo à sua conclusão
extrema ao tomar para si a causa comum da
burocracia contra a classe trabalhadora. Falem

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sobre “abandono do trotskismo”, sombras de


“pablismo”!

Quanto a “desmascarar” as “pretensões ao


trotskismo” da QI [SU] na Nicarágua, o que mais
alguém precisa dizer sobre uma tendência (a
linhagem SL-TB) que de fato reivindica que não há
Estado nenhum na Nicarágua após quase dez anos
e domínio da FSLN. É um achado que Henderson
esteja perdido para dar uma caracterização de
classe (seja proletária ou burguesa) para o
“bonapartismo” dos sandinistas. Ou seja, a não ser
que alguém leve a sério o papagaiado clichê
“ortodoxo”, que para tudo serve, de rotular de
todo e qualquer grupo fora das próprias colunas
como “pequeno-burguês”. De fato, as pretensões
da SL-TB ao trotskismo, e ao materialismo
histórico em geral, são reveladas pela posição
“única” de Robertson de que todas as revoluções
socialistas após a Segunda Guerra foram
realizadas por partidos “pequeno-burgueses” ao
invés de partidos da classe trabalhadora
burocratizados. De acordo com a SL-TB, a
pequeno-burguesia, uma classe proprietária, se é
que houve alguma, pode ser “pressionada” pelo
imperialismo a romper com os seus próprios
interesses materiais e levar adiante o processo da
revolução permanente à sua conclusão, a criação
de um Estado operário. É melhor conceder tal alto
papel a outra classe do que a outra tendência
dentro do movimento dos trabalhadores, não
importa o que isso signifique para a teoria
marxista, ignorando a realidade na qual ela se
baseia! Tal linha tem mais em comum com aquela
de Tony Cliff do que com a de Leon Trotsky, com a
única diferença de o primeiro teve honestidade o
suficiente para admitir onde ele deixa a
companhia do primeiro, enquanto Robertson
ainda considera a si próprio como o último
trotskista “ortodoxo” no mundo.

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Poderia parecer que aqueles que reivindicam


mais admirar Trotsky (Henderson consegue
invocar o nome de Trotsky onze vezes em quatro
páginas), na verdade o enterram, ou melhor, ao
conjunto de políticas revolucionárias associadas ao
seu nome, sob um túmulo de dogmatismo e
sectarismo. Por isso, se houve qualquer
“abandono” dos postulados básicos do marxismo
revolucionário, em geral ou em particular, foi por
parte dos cultuadores sectários de “Jimstown” (a
SL, como apropriadamente rotulada pela TB),
ambos no passado e no presente. A essência do
espartaquismo é a total separação entre a teoria e
a prática, pensamento e ação, partido (ou melhor,
seita) e classe, junto com toda a perda de base da
teoria para legitimar todos os anteriores.

Esta é a base real por trás da crença de


Robertson de que “programa gera teoria”!

Para os marxistas revolucionários, o


“programa” consiste de uma totalidade
dialeticamente inter-relacionada e
constantemente interativa do que uma
organização faz bem como o que ela diz. Teoria
marxista genuína, sendo ambos uma ciência viva e
um instrumento para mudar a sociedade, só pode
cumprir o seu papel apropriado como um guia
para ação, não como uma desculpa para a inação,
se ela é usada para analisar uma realidade em
permanente mudança em nível objetivo. De outra
forma, ela fica estagnada em um dogma estéril,
totalmente divorciado de toda a realidade exceto,
talvez, àquela da seita…vista através da sua
cegueira sectária.

Tendo usado a maior parte da sua vida


política ativa dentro do reino do espartaquismo,
os membros da TB se encontram como

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prisioneiros psicológicos dos seus passados,


incapazes ou sem vontade de virarem suas costas
para sua alma mater. Obcecados em se provarem
como mais robertsonistas do que o próprio
Robertson, todo e qualquer ato da TB é definido
pelos parâmetros do espartaquismo. Neil
Henderson pode ter sido atraído pela retórica de
aparência revolucionária associada com tudo isso,
mas no fim, ele irá ser, assim como o resto da TB,
sufocado pelo cordão umbilical espartaquista,
cortado de qualquer contato com a classe
trabalhadora e condenado ao isolamento e à
irrelevância ainda mais do que os verdadeiros
espartaquistas.

Sem dúvida o alto nível de integridade


política e pessoal, honestidade, e dedicação à
causa da classe trabalhadora caracterizam a vasta
maioria dos membros da TB irá evitar que eles
caiam vítimas do cultismo que hoje é o principal
semblante do espartaquismo. No entanto, não há
escapatória da evolução geral de todas as seitas
enquanto se prendem tenazmente à sua base de
apoio. Não há espaço na esquerda para o
espartaquismo com uma face humana. Ninguém
está procurando por alguns poucos bons
robertsonistas. Porque a TB está tão amarrada à
metodologia do espartaquismo com o seu
fetichismo programático, ela falha em ver o que é
de fato a aura do espartaquismo. Ao invés disso,
ou melhor, precisamente em razão de todo o seu
passado político que consistiu em servir o seu
tempo ao Reino Espartaquista, eles são incapazes
de ver o que realmente essa estória de
espartaquismo significa.

Psicose, neurose e um severo estado de


sentimento de culpa que clama por uma figura de
autoridade à qual se subordinar; isso é o que atrai
indivíduos para o “culto de obediência” de

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Robertson, não o seu programa r-r-r-


revolucionário. Aqueles hoje na TB eram e são
exceção a essa regra que de fato se prova regra.

Então se Neil Henderson prefere o


movimento da seita ao invés do movimento das
massas, que seja. Com o tempo, ele próprio
certamente vai experimentar em sua própria pele.
Quanto a mim, eu prefiro o segundo ao primeiro e
prefiro me engajar em construir esse movimento
com a QI [SU], mesmo se isso significar cometer
erros (os quais a maioria dos seres humanos que
não sejam James Robertson estão aptos a fazer) e
sujar as mãos no processo. Melhor estar na
margem esquerda dos “mandelistas” e “pablistas”
do que na margem lunática com os espartaquistas!

Pelo marxismo revolucionário; contra o


espartaquismo/sectarismo. Roy [R.]

Resposta da Tendência Bolchevique


Apesar do tom bombástico e da falta de


clareza intelectual da denúncia de Roy R. de um
“sectarismo”  leninista, a sua crítica da nossa
política claramente põe todas as questões
importantes de programa vs. “processo” como o
eixo central da política socialista. Roy começa
depreciando a nossa aderência aos códigos de
honra herdados da Liga Espartaquista que, afirma
ele, nos leva a negar ou distorcer a realidade para
podermos justificar nossa própria existência
sectária. É claro, ele não se chateia para escrever o
que precisamente esses “pontos de distinção” são.
É abundantemente claro a partir de um balanço da
sua carta, entretanto, exatamente quais “códigos
de honra” estão sob ataque.

Código de Honra número 1: A única classe na


sociedade moderna com o interesse material e o

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poder social para realizar uma revolução socialista


é o proletariado.

Código de Honra número 2: Para o proletariado


cumprir sua missão revolucionária, ele deve ser
liderado por um partido de vanguarda que agrupe
os seus elementos mais avançados e a sua mais
alta consciência.

Código de Honra número 3: Os Estados operários


degenerados que se baseiam sobre fundações
sociais criadas pela Revolução de Outubro, assim
como os Estados operários deformados que
exibem uma estrutura social essencialmente
idêntica, devem ser defendidos contra ambos a
agressão imperialista e todas as tentativas nativas
de restaurar o capitalismo.

O primeiro destes “códigos de honra” é o


princípio essencial da teoria revolucionária de Karl
Marx. O segundo incorpora a maior contribuição à
essa teoria feita por Lenin, que guiou o Partido
Bolchevique ao levar à frente a primeira e até
agora a única revolução de proletários bem
sucedida no mundo. O terceiro condensa a posição
de Trotsky sobre a questão russa, e a sua extensão
aos Estados operários deformados criados desde a
Segunda Guerra Mundial. Estes três “códigos de
honra”, tomados juntos, constituem a essência do
programa pelo qual Trotsky lutou até que foi
assassinado por um agente stalinista em 1940, e
permaneceram a base política da organização que
ele fundou – a Quarta Internacional.

Stalinismo Pós-Guerra e o Racha na Quarta


Internacional

Roy está correto ao dizer que as


transformações sociais anti-capitalistas seguidas à
Segunda Guerra Mundial pegaram a Quarta

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Internacional despreparada. Mais


significativamente, elas levaram a um racha nas
suas colunas. Se, como Roy assume, estas
transformações foram simplesmente revoluções
proletárias com algumas poucas imperfeições, ele
terá dificuldade em explicar porque a Quarta
Internacional se ocupou tanto delas. Ao invés
disso, o dilema diante dos seguidores de Trotsky
consistiu precisamente no fato de que estas
revoluções foram realizadas por stalinistas, a
quem Trotsky julgava incapazes de qualquer
liderança revolucionária, e a quem ele tinha de
fato caracterizado como contra-revolucionários em
seu papel internacional.

Nesses países onde eles consolidaram o


poder, os novos regimes stalinistas pós-guerra não
apenas falharam em mobilizar o proletariado, mas
permaneceram implacavelmente hostis a qualquer
tentativa pela classe trabalhadora de organizar a
si própria de forma independente. A burocracia
soviética criou uma constelação de economias
nacionalizadas ao longo da maior parte da Europa
Oriental. Na Iugoslávia, China e Vietnã, partidos
stalinistas, na liderança de exércitos de guerrilha
de base camponesa, tomaram o poder. Em
nenhum desses casos a expropriação dos
capitalistas e a nacionalização dos meios de
produção foi acompanhada pelo estabelecimento
do poder político da classe trabalhadora. Ao invés
disso, essas sociedades foram presididas do topo
por burocracias estatais materialmente
privilegiadas e nacionalmente arraigadas,
politicamente idênticas à casta que se formou ao
redor de Stalin depois da morte de Lenin.

Em resposta a esses desenvolvimentos


inesperados, emergiram dentro da Quarta
Internacional duas correntes fundamentalmente
divergentes. Por um lado havia aqueles – no

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Comitê Internacional (CI) – que resistiram a


qualquer tentativa de revisar a apreciação básica
do trotskismo sobre o stalinismo ou o programa
da Quarta Internacional para a revolução mundial.
Eles, de maneira geral, reconheceram que os
partidos stalinistas, sob a pressão da guerra e da
ocupação estrangeira, haviam sido compelidos a ir
muito além na via anti-capitalista do que Trotsky
havia previsto; eles concordaram que as novas
economias coletivizadas representavam, um
ganho parcial para a classe trabalhadora e
deveriam, portanto, como a economia coletivizada
na própria União Soviética, ser defendidas de
todas as tentativas para restabelecer o
capitalismo.

Mas eles também insistiram que os recém-


criados regimes stalinistas – enlameados em
atraso material e fortemente controlados por
burocracias que sufocavam as massas – eram
politicamente deformados desde o início. Eles
apontaram que na crise revolucionária que havia
convulsionado o mundo desde os anos 1920, o
stalinismo havia traído a classe trabalhadora muito
mais consistentemente do que prejudicado o
imperialismo, e portanto permanecia
fundamentalmente um obstáculo para o poder
proletário e não um instrumento para a sua
realização. Assim, apesar dos eventos no pós-
guerra que eles entendiam de forma imperfeita, a
corrente “ortodoxa” do CI, liderada pelo Partido
dos Trabalhadores Socialistas norte-americano
(SWP), reafirmou a necessidade histórica por
partidos trotskistas, enraizados na classe
trabalhadora, para completar o trabalho iniciado
por Lenin e os Bolcheviques em 1917. É esse
legado que a Tendência Bolchevique defende.

Já no polo oposto na controvérsia do pós-


guerra estavam os seguidores de Michel Pablo,

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cabeça do Secretariado Internacional (SI) na época


do racha. A ala de Pablo defendia que os sucessos
pós-guerra dos stalinistas aconteceram em uma
“nova realidade mundial” que tornou o “velho
trotskismo” obsoleto. Em termos da sua
perspectiva de longo prazo, isso significava que o
proletariado mundial não podia mais aspirar pelo
socialismo, mas ao invés disso por “séculos de
Estados operários deformados”. Os pablistas
concediam aos stalinistas não apenas o presente,
mas também o futuro. De acordo com Pablo, os
partidos stalinistas haviam provado pelas suas
vitórias na Europa Oriental e na Ásia que eles
eram instrumentos essencialmente adequados
(ainda que “desafinados”) para a revolução
socialista. Ele, portanto, clamava uma tática de
“entrismo profundo” através da qual as seções
nacionais da Quarta Internacional iriam se
dissolver em partidos stalinistas. Lá, eles iriam agir
como grupos de uma ala esquerda pressionando
as várias lideranças do PC, ajudando a afinar os
“instrumentos desafinados”. É com essa tradição,
representada hoje pelo Secretariado Unificado
(SU) liderado pelo antigo braço direito de Pablo,
Ernest Mandel, que Roy R. escolheu jogar a sua
sorte.

Desde o racha na Quarta Internacional, os


pablistas provaram que a sua característica
definidora não é um compromisso de trabalhar
dentro dos partidos stalinistas, mas ao invés disso
uma inclinação a se acomodarem a qualquer
corrente ideológica que esteja em voga na
esquerda. Isso, na linguagem de V. I. Lenin e
outros “sectários”, se chama oportunismo. Os
mesmos instintos oportunistas que originalmente
levaram Pablo na direção do stalinismo, hoje
dirigem Mandel e seus seguidores rumo à
socialdemocracia e até mesmo ao anti-comunismo
declarado do Solidariedade polonês.

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Não é possível no espaço disponível recontar


toda a história das manobras acomodacionistas do
SU; mas nem mesmo é necessário. A carta de Roy
R. representa o pensamento de seus mentores de
forma bastante precisa, ainda que de forma mais
bruta. Ela oferece um catálogo suficientemente
extensivo de trapaças oportunistas e distorções
para ilustrar nosso ponto.

Stalinismo Insurrecional de Base Camponesa


Roy afirma, sem oferecer qualquer


argumento de apoio, que as revoluções na
Iugoslávia, China, Cuba e Vietnã foram proletárias
no seu caráter. Mas os países deixados de fora da
sua lista são talvez tão significativos quanto
aqueles incluídos. O que dizer sobre Polônia,
Hungria, Bulgária, Romênia, Albânia,
Tchecoslováquia e Alemanha Oriental? Eram esses
Estados, depois de 1949, diferentes em sua
estrutura social ou política daqueles mencionados
no primeiro grupo? Se não há diferença qualitativa
nos resultados finais, por exemplo, entre o Vietnã
e a Bulgária, então a diferença deve estar no
processo de formação.

A diferença está certamente não no papel


desempenhado pelo proletariado. Foi Ho Chi
Minh, que aniquilou os trabalhadores liderados
por trotskistas que ocupavam fábricas em Hanói
em 1945, um milímetro menos hostil ao
proletariado do que Georgi Dimitrov na Bulgária?
A principal diferença entre os países da Europa
Oriental e aqueles nomeados por Roy foi que os
primeiros se tornaram Estados operários como
resultado da conquista militar da União Soviética,
enquanto os últimos foram transformados após a
ascensão ao poder de movimentos de massa
nativos. Mas qual precisamente o caráter de classe

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desses movimentos? Para responder a esta


questão deve-se perguntar sobre o caráter de
classe do campesinato, já que foi liderando
exércitos camponeses que os stalinistas – em cada
um dos países que Roy lista – marcharam para o
poder. Em toda a sua carta, Roy ridiculariza a
noção de que a pequeno-burguesia (“uma classe
proprietária se é que houve alguma”) possa criar
Estados operários. Mas Roy não pode negar que
toda a tradição marxista, de Marx até Trotsky,
caracterizou o campesinato como uma camada
pequeno-burguesa. Por qual alquimia misteriosa o
campesinato se transmutou para o proletariado?

O mentor de Roy, Ernest Mandel, “resolve”


esse problema teórico espinhoso afirmando que
apenas partidos proletários poderiam ter
destruído a propriedade burguesa. Em uma
polêmica de dezembro de 1982 com Doug Jeness
do Partido dos Trabalhadores Socialistas (SWP),
que usou o fato dos movimentos camponeses
liderados por stalinistas terem em diversas
ocasiões derrubado a propriedade capitalista
como um argumento para reviver a teoria de duas
etapas dos Mencheviques, Mandel declarou:

“o Exército de Libertação Popular chinês,


para não mencionar o Partido Comunista
Chinês, que foram instrumentos históricos da
destruição das propriedades capitalista e
camponesa, só podem ser considerados um
exército ou partido ‘camponês’ esvaziando a
análise de classe marxista de toda a sua
substância.”

O argumento de Mandel para o caráter


“proletário” do ELP é pura tautologia. Ele afirma
que o campesinato como classe só pode ser:

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“centralizado ou por uma liderança burguesa


– caso no qual a revolução é levada à certa
derrota – ou sob liderança proletária (ainda
que seja extremamente burocratizada, como
na China) e nesse caso, apenas nesse caso, a
vitória da revolução é possível.”

Na verdade, o resultado da revolução


chinesa, e as outras insurreições de base
camponesa que derrubaram a propriedade
capitalista desde a Segunda Guerra Mundial
demonstram que, em certas situações históricas
específicas, a propriedade privada dos meios de
produção pode ser encerrada por movimentos
sociais não-proletários.

Cuba e a Teoria Marxista


Nós estamos felizes que Roy tenha escolhido


incluir Cuba na sua lista de revoluções proletárias.
Porque nas outras instâncias (China, Iugoslávia,
Vietnã), a natureza dessas revoluções é
parcialmente obscurecida pelo fato de que os
partidos que as lideraram terem mantido o título
de “comunistas” e terem tido certa vez uma
composição de proletários.

Cuba, por outro lado, fornece um caso clarificador


precisamente porque o Movimento 26 de Julho
(M26) que levou Fidel Castro ao poder em 1959
não teve conexão histórica com a Internacional
Comunista ou o movimento dos trabalhadores.
Não apenas os seus quadros foram retirados
quase exclusivamente da intelectualidade
pequeno-burguesa; a sua base consistia de talvez
mil camponeses recrutados na Serra Maestra. A
sua propaganda não continha nada da retórica
familiar do stalinismo. Mais importante, o seu
programa – longe de ter como objetivo o
socialismo – nem mesmo chamava por uma

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reforma agrária extensiva ou a nacionalização da


indústria, mas era limitado à demanda pela
restauração da constituição “democrática” pré-
Batista de 1940. E ainda, apenas vinte e um meses
depois de ter marchado sobre Havana, Castro se
viu a frente de uma economia nacionalizada e um
membro do “bloco soviético”. Os episódios
particulares desse drama são bem conhecidos.
Como uma simples questão de autopreservação,
Castro, ao assumir o poder, desmontou o aparato
repressivo (exército e polícia) do regime Batista
pró-EUA que ele havia acabado de derrubar. Isso
não soou bem em Washington, que suspeitou que
Castro fosse um proto-comunista todo o tempo. A
aumentada hostilidade do imperialismo dos EUA
deixou Castro sem ninguém para quem se voltar a
não ser para os trabalhadores e as massas
camponesas cubanas, cujas esperanças por justiça
social haviam sido levantadas pelo expurgo da
odiada ditadura de Batista. Para consolidar sua
base de poder, Castro realizou uma série extensiva
de reformas agrárias e decretos de limitação da
renda. Essas medidas causaram um racha dentro
do governo que o Movimento 26 de Julho tinha
inicialmente instalado. Quando Castro expulsou os
elementos burgueses que resistiram às suas
reformas agrárias, as relações com Washington se
tornaram tensas e ficaram no fio da navalha, e
Castro começou a se voltar para a União Soviética,
com a qual ele assinou uma série e acordos
militares e comerciais. O clímax veio no outono
[do hemisfério norte] de 1960, quando Castro, em
resposta ao bloqueio econômico total imposto
pela administração Eisenhower, anunciou a
nacionalização de extensivas posses dos EUA que,
até aquele ponto, tinham dominado a economia
Cubana.

Então um bando de democratas pequeno-


burgueses foi impelido pela dupla pressão do

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imperialismo e da sua própria base popular, ao


longo de um caminho que terminou em uma
sociedade qualitativamente a mesma que aquela
da Europa Oriental e da China, ou seja, um Estado
operário deformado.

A precursora da Liga Espartaquista (a


Tendência Revolucionária [TR]), se cristalizou
como uma fração dentro do Partido dos
Trabalhadores Socialistas norte-americano em
oposição ao giro crescentemente reformista desse
partido e a sua adulação sem limites a Castro. De
acordo com a TR, a revolução cubana possuiu o
significado teórico ao menos tão grande quanto o
seu impacto político: ela ofereceu a chave para
compreender as revoluções no pós-guerra que
haviam causado tanta perplexidade aos
seguidores de Trotsky. A TR argumentou que,
apesar das suas origens e retórica proletárias, os
partidos stalinistas que tomaram o poder no
Vietnã, Iugoslávia e China estavam muito mais
perto do M26 de Castro do que do Partido
Bolchevique de 1917.

Tim Wohlforth, na época um porta-voz e líder


da TR, explicou sua posição tão claramente que
ele pode ser citado longamente:

“A força motivadora da transformação dos


países da Europa Oriental (excluindo a
Iugoslávia) em Estados operários
deformados foi o exército soviético. A classe
trabalhadora desempenhou um papel
essencialmente disperso, passivo, nesses
eventos. A força motivadora por trás da
Revolução Chinesa que colocou Mao e
companhia no poder foi primariamente o
campesinato… A transformação da China em
um Estado operário deformado foi instituída,
não pela classe trabalhadora da China, nem

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primariamente por causa da grande pressão


da classe trabalhadora – ela foi levada
adiante pela iniciativa de cima da própria
burocracia maoísta como um ato defensivo
contra o imperialismo.”
(…)
“Cuba torna esse processo totalmente claro
precisamente em razão da característica
central única da Revolução Cubana – que a
transformação em um Estado operário
deformado ocorreu sob a liderança de um
partido que não era sequer subjetivamente
‘proletário’, por uma formação pequeno-
burguesa não-stalinista.”

“Assim, a experiência cubana não apenas


ilustra o pequeno papel que a classe
proletária desempenhou nessas
transformações; ela também sugere que a
assim chamada natureza ‘proletária’ dos
partidos stalinistas em muitos desses países
coloniais recebeu também ênfase demais. O
fato de que o Movimento 26 de Julho de
Castro foi capaz de levar a frente uma
transformação social em uma maneira quase
idêntica à do PC Chinês de Mao reflete… a
identidade essencial da natureza do PC
Chinês com a do M26. Ambos partidos eram
essencialmente formações pequeno-
burguesas – pequeno-burguesas na natureza
de classe da sua liderança, nos seus membros,
na sua base de massas, e na sua ideologia.

“Enquanto a ideologia dos stalinistas contém


certos elementos socialistas dentro dela e
nesse aspecto é diferente daquela do M26, é
questionável se esses elementos mudaram
essencialmente a natureza do movimento.
Isso é especialmente duvidoso quando se
percebe que a perversão stalinista da

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ideologia socialista é precisamente na


direção do nacionalismo pequeno-burguês.
Assim, esses partidos devem ser vistos…
como essencialmente os instrumentos das
classes pequeno-burguesas na sociedade –
não como instrumentos ainda que
distorcidos da classe trabalhadora.”
“Cuba e os Estados operários deformados”,
20 de julho de 1961.

Se os trabalhadores têm tão pouco em


comandar essas sociedades quanto eles tiveram
em criá-las (que é de fato o caso), com que direito
histórico ou teórico os trotskistas persistem em
chamá-los de Estados operário, deformados ou de
qualquer tipo? Wohlforth respondeu como se
segue:

“Em razão da extrema crise do capitalismo


somada à crise de liderança da classe
trabalhadora, essas classes socialmente
intermediárias foram capazes de
desempenhar um papel extremamente
radical que o movimento marxista não havia
previsto anteriormente – elas foram capazes
de romper com o próprio capitalismo.
Entretanto, as suas ações muito radicais
provaram a fraquezaessencial desse extrato
social – enquanto eles foram capazes de
negar ao esmagar o sistema capitalista, elas
foram incapazes de superar positivamente,
substituindo o poder dos capitalistas pelo
seu próprio. Ao invés disso, elas são forçadas
a lançar as bases econômicas para o poder de
outra classe – a classe proletária – uma classe
da qual na verdade eles desconfiam e
desprezam. Enquanto por um lado a sua
própria fraqueza histórica como uma força
social intermediária a obriga a criar a
propriedade para outra classe, a crise de

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liderança da classe trabalhadora lhe permite


consolidar um poder político inimigo da
classe proletária. Daí o desenvolvimento de
uma casta burocrática e a necessidade da
revolução política.”

Implícito em todo o argumento de Wohlforth


está a noção de que a propriedade coletivizada,
embora ela possa ser criada por forças pequeno-
burguesas ao invés do proletariado, não pode
atingir todo o seu potencial e amplitude sem a
democracia proletária e o posterior desenlace da
revolução internacional. Porque a propriedade
coletivizada exige o poder dos trabalhadores para
garantir o seu futuro nesse planeta, é uma forma
de propriedade para com a qual a classe
trabalhadora retém o seu título histórico. Mas
onde as formas de propriedade foram criadas por
forças não-proletárias hostis ao poder proletário e
à revolução mundial, essas forças pequeno-
burguesas, uma vez no poder, são inevitavelmente
compelidas a replicar a função da casta dominante
stalinista na União Soviética e levantam
obstáculos burocráticos para o desenvolvimento
posterior da revolução.

Os Estados que hoje representam as formas


de propriedade proletárias (exceto pela URSS, que
nasceu de uma genuína revolução proletária, mas
que se degenerou) podem então ser chamados de
deformados, ou seja, aleijados desde o
nascimento. Para abrir o caminho do socialismo,
eles requerem uma revolução política, na qual os
trabalhadores varram para longe suas respectivas
burocracias e coloquem no lugar os genuínos
instrumentos do comando democrático da classe
trabalhadora. Dessa forma, a Tendência
Revolucionária desatou o nó de dificuldades
teóricas que haviam envolvido as transformações
sociais do pós-guerra.

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Roy afirma que a teorização acima


representa uma distorção da realidade para poder
justificar a existência sectária da Liga
Espartaquista (e por decorrência a da TB). Mas a SL
nem existia na época em que essa análise foi
formulada. As conclusões da TR dos eventos em
Cuba foram não apenas baseados empiricamente,
mas também representaram a únicateorização da
experiência revolucionária do pós-guerra que
defendeu o programa da Revolução Permanente.

Solidariedade: um movimento de Massa pela


Restauração Capitalista

Por muitos anos, Ernest Mandel, a liderança


inspiradora do SU, tem se especializado em
inventar razões teóricas “marxistas” sofisticadas
para seguir qualquer tendência política que esteja
favorecida na “ampla esquerda”. Roy, que
absorveu o espírito do oportunismo de Mandel, é
menos capaz na arte do embelezamento teórico.
Com uma ousadia que poderia envergonhar seu
mentor, ele proclama o seu desejo de estar ao
lado o “movimento de massa de muitos milhões”
sem nenhuma preocupação aparente sobre quem
está liderando esse movimento ou quais são os
seus objetivos. Roy pode questionar o nosso
critério específico para decidir quais “movimentos
de massa” apoiar e a quais se opor. Mas pode ele
argumentar seriamente que não existe tal critério
para os marxistas e que qualquer um que diga o
contrário é um sectário por definição?

De todas as posições que a Tendência


Bolchevique manteve da Liga Espartaquista, nossa
oposição ao Solidariedade da Polônia é de longe a
mais difícil de ser engolida pelos centristas. Isso se
deve não apenas enorme popularidade do
Solidariedade no Ocidente, mas também ao fato

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de que esse movimento foi organizado e liderado


principalmente por trabalhadores e recebeu o
apoio da esmagadora maioria da classe
trabalhadora polonesa. A classe trabalhadora, de
acordo com a teoria marxista, se supõe que seja
um agente do progresso histórico. Que a liderança
do Solidariedade era de fato reacionária, tinha
como objetivo a restauração do capitalismo e
estava realmente fazendo uma luta pelo poder de
Estado em 1981 foi extensivamente documentado
em um livreto separado da TB (Solidariedade: Teste
Ácido para os Trotskistas). Mas pode-se conceber,
reclamam os centristas em uníssono, que dez
milhões de trabalhadores poloneses possam ter
sido iludidos a respeito dos seus próprios
interesses, e é em algum momento permitido
emblocar com os stalinistas contra os
trabalhadores? Nós respondemos ambas essas
questões afirmativamente, e podemos talvez
tornar nossa posição mais clara por meio de uma
analogia.

Trotsky comparou a URSS stalinista a um


sindicato burocratizado: uma organização de
trabalhadores dominada por uma oficialidade
privilegiada que se identifica mais com a burguesia
do que com o proletariado. Vamos agora levar
essa comparação um passo a frente. Suponha que
os trabalhadores de uma determinada planta
foram traídos tantas vezes pela liderança nacional
do sindicato que começa a crescer entre eles o
sentimento de destruir o sindicato de uma vez, ou
seja, fechar o sindicato. Nessa planta uma
pequena minoria de trabalhadores com
consciência de classe tentam, como diz Roy,
“pacientemente explicar aos trabalhadores” que,
ainda que o aparato do sindicato esteja
apodrecido, o sindicato é a última linha de defesa
dos trabalhadores contra os patrões e que fechá-
lo seria um erro. Mas também há um grupo

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sindical de direita que está divulgando o


sentimento anti-sindicato. Esses elementos
propõem concorrer com uma chapa de candidatos
na próxima eleição local comprometidos a
organizar o imediato fechamento. Como um
conforto para aqueles trabalhadores que não
gostam de pagar taxas em dinheiro para um
bando de picaretas corruptos no escritório
nacional, mas que ainda pensam que algum tipo
de organização coletiva é necessária, os direitistas
prometem estabelecer uma associação de
empregados depois que o fechamento do
sindicato ocorra. A patronal cumprimenta esse
acontecimento com entusiasmo e cede fundos e
locais de reunião para os dissidentes. Quando os
votos são contados, o grupo de direita ganha
esmagadoramente, dando assim um passo para o
fechamento do sindicato. Nesse momento, o
escritório nacional do sindicato se movimenta para
desviar o fechamento suspendendo a liderança
eleita da planta e indicando uma chapa interina
mais ao seu estilo.

Essa situação, ainda que hipotética, não é


completamente inconcebível. Poderia haver
alguma dúvida de que em tais circunstâncias os
trotskistas considerariam a remoção pelos
burocratas dos líderes locais democraticamente
eleitos como um mal menor? Enquanto de forma
alguma absolvendo a burocracia de suas
incontáveis traições que fizeram com que os
trabalhadores se voltassem contra o sindicato, os
militantes iriam ser forçados a reconhecer que
nessa situação particular as ações da burocracia
temporariamente impediram a total extinção do
sindicato. Enquanto não atingisse a raiz do
problema, ela ao menos ganhou algum tempo
para os elementos com consciência de classe
virarem a hostilidade legítima dos trabalhadores

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para longe do sindicato enquanto instituição e em


direção à corrupta liderança.

A existência dos corruptos e


burocraticamente dominados sindicatos da AFL-
CIO representam um ganho histórico para a classe
trabalhadora; as economias coletivizadas dos
Estados operários degenerados e deformados são
um ganho ainda maior, e são preferíveis do ponto
de vista dos interesses a longo praz dos
trabalhadores do que uma economia de “livre
mercado”. E quando os trabalhadores que vivem
sob uma economia coletivizada são jogados pelas
décadas de arrogância e inaptidão stalinista nos
braços de uma liderança que iguala administração
burocrática com a propriedade coletivizada
enquanto tal, e que diz a eles que eles estariam
melhores sob o capitalismo, então é a tarefa dos
trotskistas prevenir tais falsos líderes de tomar o
poder de Estado.

Roy tem alguma dúvida de que Walesa e


companhia pretendiam restaurar o capitalismo?
Nenhuma outra conclusão pode ser tirada sobre
uma organização que comemorou a eleição de
Ronald Reagan, buscou o mais reacionário Papa
eleito em décadas como seu líder espiritual,
convidou um conhecido operativo da CIA no
movimento sindical para o seu congresso, deletou
todas as menções ao socialismo no seu programa,
invocou a memória do líder do Exército Branco
Josef Pilsudski, e adotou um programa econômico
chamando pelo desmantelamento da economia de
propriedade estatal. É obsceno que Roy compare
este movimento abertamente restauracionista
com o heróico levante pró-socialista dos
trabalhadores húngaros em 1956. Recentemente
se tornou público que o Solidariedade aceitou
prontamente mais de 5 milhões em dinheiro e
recursos do Congresso dos EUA e do

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Departamento de Estado nos últimos três anos. Se


esses fatos são insuficientes para convencer Roy
das intenções contrarrevolucionárias do
Solidariedade, nós devemos concluir que nada
além da real restauração capitalista na Polônia
faria com que ele mudasse de ideia.

Irã: SU Capitula à Reação Islâmica


A polêmica de Roy ao menos tem a virtude


da consistência. Ele não fica para trás ao adotar a
herança do SU, mesmo nas suas mais grosseiras
traições. Lembramos que a Liga Espartaquista
respondeu ao levante iraniano de 1979 com o
slogan “Abaixo o Xá! Abaixo os Mulás!”. O restante
da esquerda, incluindo o SU, seguiu Khomeini. Roy
ridiculariza a acusação de Neil Henderson de
seguir Khomeini como uma grotesca caricatura
espartaquista da posição do SU, e para provar seu
ponto cita Mandel para o efeito de que os
marxistas deveriam ter apoiado as massas iraniana
contra o Xá e apesar do fato de que eram lideradas
pelos reacionários islâmicos. Mas as massas
iranianas estavam naquele momento apoiando a
luta pelo poder de Khomeini. Qual é, portanto, o
significado operacional da distinção entre a
liderança e as “massas” nesse caso? A distinção faz
sentido apenas se for assumido que o
funcionamento automático do “processo
revolucionário” pode transcender a liderança
reacionária.

Apoiar um movimento de massas ou um


“processo revolucionário” apesarda hegemonia de
líderes que são admitidamente considerados
reacionários, presume que as massas engajadas
nessa mobilização política vão espontaneamente
se mover para alguma direção diferente daquela
reivindicada por seus líderes e produzir algum
resultado que não a ascensão desses mesmos

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líderes ao poder. Eram as massas iranianas, sem


uma liderança alternativa, capazes de descartar
Khomeini e guiar a insurreição de 1979 rumo a
algum resultado mais progressivo? Foi o triunfo de
Khomeini um mero prelúdio a algum desabrochar
posterior de um “processo revolucionário” que iria
no fim instalar os trabalhadores no poder? A
diferença entre a SL e o SU sobre o Irã volta-se
para a resposta a essas questões.

Roy parece se esquecer que as respostas não


exigem mais a capacidade de prever, mas podem
ser obtidas com a vantagem de quase uma década
olhando para o passado. Foram Khomeini e seus
capangas postos de lado por um surto à esquerda
do movimento de massas? De acordo com nossa
mais recente informação, o Aiatolá provavelmente
vai morrer no cargo, e o seus sucessores
designados estão agora se mexendo para reatar
os laços com o imperialismo dos EUA. A “revolução
iraniana” resultou em algum ganho significativo
para as massas? Pergunte às milhões de mulheres
iranianas que não podem se aventurar porta afora
sem vestir a burca. Ao menos a revolução criou
uma abertura democrática para o movimento dos
trabalhadores e a esquerda, como a revolução de
fevereiro que derrubou o Czar em 1917? Pergunte
aos quinze militantes do Partido Tudeh (PC
Iraniano) e os Fedayin Populares postos na
ilegalidade e que atualmente enfrentam a
execução nas mãos da república islâmica. Melhor
ainda, Roy pode consultar os camaradas
sobreviventes do HKE e do HKS (os dois afiliados
iranianos do SU), que foram ou aprisionados ou
jogados para o exílio. O fato de que muitos desses
militantes até hoje defendem o seu apoio a
Khomeini em 1979 simplesmente atesta a sua
recusa em aprender as lições da história, mesmo
quando essas lições são escritas com seu próprio
sangue.

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Mas, retorce Roy, vocês sectários nem


mesmo serão capazes de falar com os
trabalhadores se vocês insistem em contrapor os
seus próprios dogmas ao poder deles, o
movimento de muitos milhões! Ora, nós seríamos
os últimos a argumentar contra falar aos
trabalhadores. A questão, entretanto é: o que
você diz uma vez que você tem a atenção deles?
Se você acredita que a única forma de fazê-los
ouvir é repetindo (talvez com umas poucas
ressalvas “marxistas” e qualificações) o que eles já
pensam, ou melhor, o que os seus falsos líderes os
encorajaram a pensar, eles irão corretamente
concluir que você tem pouco de novo a oferecer, e
continuarão no mesmo curso de antes. Os mais
astutos entre eles podem até mesmo observar
que você não está tentando persuadir, mas
agraciar a você próprio e concluiriam que o
marxismo de que você fala não deve valer muito a
pena. Qualquer um tentando propor uma forma
de pensar nova ou não-familiar deve ao menos
temporariamente reter um certo grau de
impopularidade. Aqueles que se abstém de
contrapor o seu programa à atual consciência
política das massas não estão interessados em
liderar, mas seguir.

Sobre a Frente Única


Uma tática empregada pelos trotskistas para


ganhar pessoas para o seu programa é a frente
única. A frente única é definida na tradição
leninista como uma cooperação entre o partido
revolucionário e outras organizações que não
compartilham o seu programa, em busca de
objetivos apoiáveis, limitados e claramente
definidos. Como uma condição para a sua
participação, os leninistas insistem apenas que
eles tenham direito a total liberdade de dizer e

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fazer qualquer coisa que não contradiga as


demandas imediatas da frente única – incluindo a
liberdade de expor as suas diferenças com os
colaboradores não-revolucionários sobre questões
políticas mais amplas.

Roy acusa os “sectários” de se recusarem a


participar em ações de frente única por medo de
comprometer a sua pureza doutrinária. E é
inegável que a Liga Espartaquista nos anos
recentes evitou mesmo a cooperação mais
principista com outros grupos por causa do seu
pavor de que o contato com qualquer um que ela
não controle possa minar a fé dos seus membros
na sabedoria absoluta da sua liderança. Mas,
porquê o leque de Roy também aponta para a
Tendência Bolchevique, nós só podemos presumir
que ele também está nos acusando de tal covardia
sectária. Para essa acusação, como para as outras,
nenhuma evidência é oferecida. A mais
convincente refutação dessa acusação é a nossa
própria história política.

Em 1984, apoiadores da Tendência Externa


da iSt (a precursora imediata da TB) iniciaram um
boicote operário de um carregamento sul-africano
a bordo do navio de frete Nedlloyd Kimberley – ao
nosso conhecimento a única greve operária contra
o apartheid na história dos EUA. Estamos
lisonjeados pela inferência de Roy de que nós, por
nós próprios, fomos capazes de parar esse
carregamento por onze dias em São Francisco. Na
verdade, o boicote foi bem sucedido porque os
oficiais da regional 10 do Sindicato Internacional
dos Estivadores e Armazenadores (ILWU) foram
forçados pela pressão da base a continuar com ela,
e porque os estivadores – incluindo nacionalistas
negros, apoiadores do Partido Comunista, e
membros sem afiliação política do sindicato –
estavam determinados em realizá-la. Nós não

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hesitamos em cooperar com todos os grupos e


indivíduos nesse boicote – ou em expor os
burocratas e o PC quando eles cederam a uma
liminar contra ele. Nós também podemos apontar
o trabalho contínuo do nosso núcleo na Área da
Baía de São Francisco no Comitê pela Liberdade de
Moses Mayekiso – um militante sindical
condenado à pena de morte na África do Sul. Mais
significativo de todo o nosso atual propósito
polêmico é o nosso recente trabalho com os
colaboradores canadenses de Roy no Socialist
Challenge[Desafio Socialista] (conhecido antes de
maio como a Alliance for Socialist Action [Aliança
pela Ação Socialista] e referido daqui em diante
como ASA/SC) na Coalizão Anti-intervenção de
Toronto (TAIC). Aqui nós podemos diretamente
contrastar nossas ações com a dos colaboradores
de Mandel em Toronto para ver quem foi mais
consistente em defender os princípios da frente
única.

A TAIC foi formada como um bloco de


propaganda reformista dedicado a se opor à
intervenção dos EUA na América Central. Em
novembro passado, irrompeu uma luta na coalizão
quando o Partido Comunista e os seguidores
canadenses de Jack Barnes [líder do SWP
reformista] exigiram um apoio formal aos acordos
Esquipulas II, também conhecidos como Plano
Arias. Os acordos, que os sandinistas haviam
acabado de assinar, os levava, dentre outras
coisas, a legalizar a oposição apoiada pela CIA na
Nicarágua e a libertar da prisão milhares dos
sanguinários Guardas Nacionais de Somoza.
Elementos da ASA/SC na época tinham uma
posição consideravelmente à esquerda da
liderança internacional do SU, que comemorou a
aceitação de Ortega do Plano Arias como uma
vitória. Na convenção da TAIC, a ASA/SC votou

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contra endossar Esquipulas II. Nesse momento os


reformistas saíram da TAIC.

Muitos meses mais tarde, depois que a TAIC


havia sido reconstituída como uma frente única
principista e a TB havia entrado, foi decidido
chamar um protesto contra o fundo dos EUA
construído para apoiar os mercenários Contras. O
protesto foi organizado como uma frente única, e
cada organização que participou teve garantido o
direito de falar. No início de fevereiro, uma
multidão de mais de trezentas pessoas no
protesto escutou o porta-voz da TB denunciar os
Plano Arias, enquanto firmemente se opunha à
intervenção dos EUA (e do Canadá) na América
Central. O porta-voz da ASA/SC também criticou o
retrocesso dos sandinistas, embora de forma mais
confusa. Um representante da Ação Canadense
pela Nicarágua reafirmou seu apoio ao plano Arias
do palanque. Enquanto a mobilização foi bem
sucedida em termos de números, ela também
gerou um pequeno furor político em Toronto. Os
círculos radicais liberais de “solidariedade” à
América Central ficaram escandalizados pelo fato
de que qualquer um ousasse criticar os sandinistas
em uma marcha anti-intervenção.

Em resposta a essa pressão reformista, a


ASA/SC executou uma abrupta reviravolta. Na
reunião subsequente da TAIC, o líder da ASA/SC
procedeu para forçar uma série de moções que
explodiram a frente única. Ele argumentou que
para permitir que grupos como a TB falassem em
futuros protestos iria “afastar” os amigos liberais
da TAIC. Quando as suas moções foram aprovadas,
a TB se retirou da TAIC. A ASA/SC posteriormente
proclamou os Esquipulas II como uma “vitória”
e“um perigo” para a revolução nicaraguense (leia o
Boletim Trotskista número 4). Estes eventos
desempenharam um papel direto na decisão final

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de Neil Henderson de deixar a ASA/SC e entrar na


TB.

Os ziguezagues políticos da ASA/SC


oferecem uma ilustração nítida do modus operandi
dos falsos militantes de esquerda. Em Minha Vida,
sua autobiografia, Trotsky descreveu o mesmo
fenômeno no movimento dos trabalhadores
russos.

“O líder dos mencheviques, Martov, deve ser


contado como uma das figuras mais trágicas
do movimento revolucionário. Um escritor
talentoso, um hábil político, um pensador
penetrante, Martov estava muito acima do
movimento intelectual do qual ele se tornou
o líder. Mas o seu pensamento carecia de
coragem, suas percepções eram desprovidas
de vontade… a reação inicial de Martov aos
eventos sempre apresentava uma tendência
revolucionária de pensamento.
Imediatamente, no entanto, o seu
pensamento, ao qual faltava apoio de uma
força de vontade viva, desaparecia.”

Se os nossos mencheviques contemporâneos


carecem dos dons e do pensamento de Martov,
eles ao menos compartilham os piores elementos
da sua psicologia. Em raras ocasiões os seus
impulsos iniciais podem incliná-los a tomar uma
posição principista. Quando confrontados,
entretanto, com as consequências de defender tal
posição consistentemente, quando sujeitados à
menor pressão dos círculos reformistas no qual
eles se desenvolvem, eles irão invariavelmente
engolir os seus princípios e emblocar com os
reformistas contra a esquerda revolucionária.

Em nosso trabalho com a TAIC, a Tendência


Bolchevique aplicou a tática de frente única no

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espírito leninista. Nós aderimos a ela enquanto


nos foi garantido a plena liberdade de
propaganda, e nos permitia a oportunidade de
ganhar militantes girando à esquerda para o nosso
programa quando nossos colaboradores
vacilassem. Nas coalizões “de ampla unidade”
iniciadas ou conformadas pelo SU, espera-se dos
participantes que enterrem diferenças
fundamentais no interesse de uma unidade mais
ampla. Qualquer expressão não compatível com os
sentimentos dos componentes mais à direita da
coalizão é condenada como “desagregadora”, e a
ala esquerda deve, portanto, confinar a si própria
a repetir inteiramente as demandas e os slogans
mantidos em uma visão de mundo liberal. Ao
concordar com tais condições os pretensos
marxistas permitem que a “frente única” se torne
um veículo para os reformistas, enquanto aqueles
são relegados a fazer cartazes e preencher
envelopes.

Por que a SL se degenerou?


Exceto em períodos de agudas crises sociais


e políticas, os revolucionários em qualquer
sociedade são raramente mais que uma minoria.
Mas mesmo no padrão dos “tempos de calma”, o
terreno político dos Estados Unidos durante os
anos Reagan foi extraordinariamente ermo. Das
dezenas de milhares de membros da Nova
Esquerda, estudantes radicais e militantes negros
que vinte anos atrás abraçaram uma gama de
políticas subjetivamente revolucionárias (ainda
que parcialmente ou de forma confusa), poucos
hoje acreditam que a revolução é possível, ou
mesmo desejável. O punhado de manteve um
comprometimento político em sua maior parte
adotaram a socialdemocracia como a única
alternativa “realista”. Hoje, aqueles que se
consideram marxistas revolucionários são uma

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minoria da minoria de esquerda da sociedade


norte-americana, menor do que em qualquer
outra época desde o período do macarthismo nos
anos 1950.

Não pode haver dúvida de que o isolamento


político foi uma das causas da degeneração da
Liga Espartaquista, virtualmente a única
organização que tentou manter um curso
genuinamente trotskista em meio ao giro à direita
do fim dos anos 1970. Essa intransigência não foi
sem consequências organizativas. Conforme a
base estudantil radical da qual a SL havia
recrutado ao longo da década anterior se esgotou,
e a prevista radicalização da classe trabalhadora
não se materializou, uma crise de esperanças
desfeitas criadas entre os membros; novos
recrutas começaram a ficar difíceis de encontrar, e
quadros começaram a sair em grandes números.

Essas pressões objetivas, entretanto, não


explicam por si próprias a destruição da SL como
uma organização revolucionária mais do que, em
uma escala muito maior, o isolamento da
revolução russa por si só explica o Termidor
stalinista. Ao peso de difíceis circunstâncias deve-
se somar a resposta consciente de indivíduos
particulares na liderança. James Robertson, o
Secretário Nacional da SL, respondeu ao impasse
do fim dos anos 1970 devorando a organização
que ele, mais do que qualquer outro indivíduo,
havia trabalhado para criar. Conforme as colunas
diminuíram, Robertson sem dúvida se preocupou
com o fato que a convicção marxista dos membros
estava fraca e vacilante demais para sustentar a SL
através de um período reacionário. Ele também
temeu que no fim, o crescente sentimento de
isolamento e irrelevância social dos membros iria
resultar em uma explosão fracional que iria abalar
o núcleo de quadros da SL.

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Robertson concluiu que apenas aceitação


inquestionável da sua autoridade pessoal poderia
garantir a sobrevivência da organização. Isso levou
a uma série de expurgos desmoralizantes, não
apenas daqueles que se aventuravam a discordar
do líder em questões secundárias, mas também
daqueles que eram julgados capazes de oposição
no futuro. A lição desses expurgos não deixou de
ser aprendida pelos quadros que restaram na SL,
que se tornaram intimidados demais para tomar
iniciativas e fazerem ouvir as suas próprias
opiniões. O resultado final foi o culto de
obediência sem vida, bizarro e asqueroso que a
Liga Espartaquista virou hoje.

Na visão de Roy, entretanto, a degeneração


da SL é uma consequência inevitável da sua
política e programa. Com esta afirmativa
avassaladora, Roy evita a responsabilidade de
analisar o processo concreto da sua evolução. Era a
SL uma “seita” ou um culto ao líder desde o seu
nascimento? Se não, então quando e como ela se
tornou uma? Roy nem mesmo coloca estas
questões porque fazer isso iria exigir uma
apreciação do papel desempenhado pela liderança
política nesse processo. E é a negação da
importância da liderança, com ambas 
consequências positivas e negativas, na qual se
baseia toda a metodologia objetivista do SU. A
mesma lógica que permite a Roy minimizar o
significado da intervenção marxista no “processo
revolucionário” também o leva a considerar a
degeneração da SL como um resultado automático
do seu programa, absolvendo assim Robertson da
responsabilidade pelos seus crimes específicos.

Quais então, de acordo com Roy, são as


posições políticas que levaram ao isolamento da
Liga Espartaquista e a sua consequente

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metamorfose em uma seita? Quando toda a


ladainha e generalização vazia de Roy sobre
“sectarismo” são postas de lado, nós encontramos
uma proposição de que a SL está agora falida
porque (1) ela não considerou as tomadas de
poder stalinistas de base camponesa no período
pós-guerra como revoluções proletárias; (2) que
ela não quis seguir Walesa e o Solidariedade no
caminho da restauração capitalista na Polônia ou a
maioria da esquerda iraniana no reino de
massacres da República Islâmica; e (3) que ela se
recusa a participar em coalizões de “unidade
ampla” nos termos estabelecidos pelos
reformistas. Se uma oposição principista ao
stalinismo, à reação religiosa e ao reformismo são
os pecados capitais do espartaquismo, então nós
só podemos concluir que Roy encontra a causa da
degeneração da SL no próprio trotskismo
revolucionário. De fato, Roy e os seus camaradas
do SU tem muito mais em comum com Karl
Kautsky e a socialdemocracia alemã, cujo medo de
isolamento os impediu de se opor a outro
“movimento de massas” – a debandada das classes
trabalhadoras para apoiar as cores das suas
respectivas classes dominantes no começo da
Primeira Guerra Mundial. Mas aqueles que
carecem da coragem de nadar contra a corrente
da opinião popular também são débeis demais
para reconhecer as suas próprias afinidades
históricas.

A Necessidade da Liderança Revolucionária


Em nossa opinião, a Liga Espartaquista


durante os primeiros quinze anos da sua existência
representou a única corrente autenticamente
trotskista em toda a esquerda internacional. Nós
consideramos a sua degeneração subsequente
como uma infelicidade genuína para o movimento
dos trabalhadores. Agora é necessário para nós

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lutar pelo programa trotskista que ela um dia


defendeu sob a bandeira da Tendência
Bolchevique.

A degeneração da Liga Espartaquista não


deveria ser vista de forma isolada. Os últimos dez
anos têm sido marcados por uma massiva ofensiva
de direita, ambos nos Estados Unidos e
internacionalmente. Derrotas sindicais,
continuadas atrocidades racistas, um acúmulo
gigantesco de armas contra a União Soviética –
esse é o legado dos anos Reagan. O crescimento
do reformismo no presente período é evidência da
desmoralização de muitos militantes que se
consideram de esquerda em face aos ataques de
Reagan.

Mas a investida não vai continuar sem


oposição. É apenas uma questão de tempo antes
que os ressentimentos latejantes acumulados sob
o regime Reagan explodam. Uma renovada onda
de luta de classes irá abrir oportunidades reais
para o crescimento de uma organização comunista
séria que não se reduza a dizer a amarga verdade
para as massas. E quando essa erupção ocorrer,
não pode haver dúvida de que aqueles que
carregam consigo suas armas estarão em melhor
posição para se aproveitar dela do que aqueles
que levantaram uma cortina de fumaça de
fraseologia “marxista” para cobrir as suas
vergonhosas traições.

***

Trotsky sobre “sectarismo”:


“Nós estamos passando por um período de


reação colossal que se segue aos anos
revolucionários (1917-1923). Em uma nova e
mais alta etapa histórica, nós, marxistas

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revolucionários, nos encontramos jogados


numa posição de uma minoria pequena e
perseguida, quase como foi no início da
guerra imperialista. Como toda a história
demonstra começando com, digamos, a
Primeira Internacional, tais regressões são
inevitáveis. Nossa vantagem sobre nossos
predecessores está no fato de que a situação
hoje é mais madura e que nós próprios
somos mais ‘maduros’ por estarmos sobre os
ombros de Marx, Lenin e muitos outros. Nós
iremos tirar proveito disso apenas se nós
formos capazes de demonstrar a maior
intransigência ideológica, mais forte do que a
de Lenin no estourar da guerra [de 1914-18].
Impressionistas sem caráter, como Radek,
vão se afastar de nós.  Eles vão
invariavelmente falar do nosso ‘sectarismo’.
Nós não devemos temer palavras (…). A
maior honra para um genuíno revolucionário
hoje é permanecer um ‘sectário’ do marxismo
revolucionário aos olhos dos filisteus, dos
lamuriadores e dos pensadores superficiais.”
12 de julho de 1929 (ênfase adicionada)

Apêndice

Os apontamentos a seguir foram feitos por Samuel


Trachtenberg na sessão da conferência intitulada “O
que aconteceu com o SWP?”. Após um período em
que, apesar de erros e vacilações, o SWP norte-
americano combateu o revisionismo de Michel Pablo
e Ernest Mandel (1953-61), ele passou a convergir
com estes num processo que culminaria na
“reunificação” sob a base do pablismo em 1963, que
fundou o Secretariado Unificado. Foi contra o giro
do SWP para o pablismo que surgiu a Tendência
Revolucionária do SWP (TR), precursora da Liga
Espartaquista. Posteriormente, disputas entre as
diversas alas do SU fariam com que surgissem várias

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seções nacionais dessa corrente no mesmo país.


Muitos dos participantes desta conferência,
realizada em Nova Iorque em 2008, assim como o
palestrante ao qual essa intervenção foi uma
resposta, eram antigos membros da “Tendência
Quarta Internacional” (FIT) em nome da qual Roy R.
escreveu a polêmica acima. A FIT há muito se
dissolveu no núcleo Solidarity [Solidariedade].

Eu concordo com Paul LeBlanc [um dos


palestrantes no painel] que a degeneração do
SWP não era inevitável. Mas olhando para essa
degeneração, muitos daqueles expulsos do SWP
no início dos anos 1980 são extremamente
relutantes em associar a aberta renúncia do
trotskismo por Jack Barnes [3] com a anterior
aceitação acrítica da revolução cubana, que levou
à reunificação com os pablistas. Isto é apenas não
querer enxergar.

Hoje nós podemos dizer que para ver as


consequências lógicas de apoiar Castro como um
“trotskista inconsciente” exigiu alguma
capacidade de previsão na época, no começo dos
anos 60 (e a TBI descende daqueles que tiveram
essa capacidade de prever). Afinal de contas,
enquanto agiam como apoiadores das lideranças
cubana e argelina e outras forças não-trotskistas e
não-proletárias, eles [os líderes revisionistas do
SWP] ainda, ao menos formalmente, reivindicavam
continuar aderindo ao trotskismo.

Similarmente, enquanto Stalin bem


primeiramente proclamou a teoria do “socialismo
em um só país”, ele nunca renunciou formalmente
à necessidade da revolução mundial, e poucos fora
do movimento trotskista naquela época
reconheceram a lógica de que aquela teoria
necessariamente significava a traição da revolução
mundial.

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Mas décadas depois, entender ambas as


posições não exige mais capacidade de prever,
mas capacidade de fazer um balanço, e um desejo
de aprender as lições da história de olhos abertos.
Então para aqueles dentre vocês nessa sala que
ainda não fizeram isso, eu peço para que abram
seus olhos.

Notas da Tradução

[1]Sam Marcy foi um membro do SWP norte-


americano até 1959, que rompeu para formar o
Workers World Party (Partido Mundial dos
Trabalhadores), tendo como motivo principal o seu
apoio à supressão da revolução política dos
trabalhadores húngaros pelo exército soviético
em 1956. O grupo de Marcy apoiou
sucessivamente vários regimes stalinistas e
cometeu inúmeras capitulações a líderes
stalinistas ao longo da sua história.

[2]Para uma crítica a essa posição da Liga


Espartaquista na década de 1980, leia
IG/LQB:Ainda Cambaleando em Torno de uma
“Explicação Séria”, de agosto de 2010.

[3]Jack Barnes foi um líder do Partido dos


Trabalhadores Socialistas norte-americano (SWP)
que emergiu na liderança do partido no início da
década 1980 e foi responsável pela renúncia
aberta do trotskismo por parte dessa organização
no fim dessa década e o giro para um apoio
acrítico ao nacionalismo burguês.

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